Ciências

Políticas I
Adriano Codato Fernando Leite Pedro Leonardo Medeiros

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Ciências
Políticas I
Adriano Codato Fernando Leite Pedro Leonardo Medeiros

2012

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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C597c v.1 Codato, Adriano Ciências políticas, I / Adriano Codato, Fernando Baptista Leite, Pedro Leonardo Cardozo de Medeiros. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2012. 252 p. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-3208-2 1. Ciência política. 2. Estado. 3. Poder (Ciências Sociais). 4. Sociologia política. I. Leite, Fernando Baptista. II. Medeiros, Pedro Leonardo. III. Inteligência Educacional e Sistemas de Ensino. IV. Título. 09-4761 CDD: 320 CDU: 32

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Adriano Codato
Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Bacharel em Ciências Sociais pela Unicamp. Professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR), um dos coordenadores do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira (NUSP) e editor da Revista de Sociologia e Política (<www. scielo.br/rsocp>).

Fernando Leite
Mestrando em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Bacharel em Ciências Sociais pela UFPR. Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira (NUSP/UFPR) e bolsista do CNPq.

Pedro Leonardo Medeiros
Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Bacharel em Ciências Sociais pela UFPR. Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira (NUSP/UFPR).

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...97 A tradição marxista................................ ........................................................17 Principais tradições da Ciência Política contemporânea............13 O objeto da Ciência Política..................................................................................................53 O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica............................................................................Sumário A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas................................................................41 Poder e política............ mais informações www...113 Para assistir as videoaulas deste livro............................................................................................42 Os dois tipos de concepção de poder mais importantes da Ciência Política...... assine o site www.................... ....................................................60 A história faz o homem e o Estado.................................................................. ......................................................32 O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas.......23 Conclusão....................................................................................................14 Política e Ciência da Política..............................................107 Conclusão: contraste entre as teorias marxista e weberiana.................. ...............79 O Estado burocrático e o monopólio da violência física e simbólica......................................81 A legitimidade da dominação burocrática............................................................... ..59 Autoridade e legitimidade........................br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S........................................................................................................com...................................................iesde................................................................60 O homem faz a história e o Estado.....................................................................A..............................85 Conclusão.........89 O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana..................................................45 Conclusão........................................................................................................................98 A tradição weberiana......................................................69 Conclusão...72 O Estado burocrático: racionalidade e dominação.....................br .........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................planoeducacao...com.....................................................................................

..169 Fascismo.............. ....................................................................................................... 121 O Estado enquanto produto sócio-histórico......................................................com.............................152 Conclusão...............................................125 Lutas de classe e o surgimento do Estado..................................................189 A lógica da ação coletiva e a tendência à abstenção......................................................A.....148 Ideologia em sentido gnosiológico......................................................................................................................................................................................... 187 Coletividades e ação política..128 O fim do Estado..........br .................com.........................161 Liberalismo.... 143 Os sentidos negativos do conceito de ideologia.............. mais informações www............................................................................................................................. socialismo e fascismo.................................................... .............................................................................151 Ideologia em sentido sociológico.................................................. ............................................................................ 159 Considerações metodológicas: a definição das doutrinas políticas.........................130 Conclusão....................................133 O conceito de ideologia.................................................iesde............................................................................... .................174 Conclusão......................................................................................................................................................................................................................................... .............................................................................................................153 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo...146 Os sentidos positivos do conceito de ideologia...................................................................................................................122 Expropriação dos recursos materiais e simbólicos...............................................................144 A ideologia como o impensado da prática científica....................................................................................................192 Interesses e representação política........................................................................................................ interesses e representação política.........................................br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S....162 Socialismo....................................................Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana.. ..............................................................................................................194 Conclusão....................179 Grupos.................................................198 Para assistir as videoaulas deste livro............................................. assine o site www.............................................................................planoeducacao............................................................

.................................217 Conclusão...........................com.............................................br ................. 207 A corrente psicológica..................................................213 A corrente da racionalidade......................... assine o site www........................................................................................................................com..............................................................................................................................planoeducacao........................................................................br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.........A................. mais informações www.................219 Gabarito.......................... 245 Para assistir as videoaulas deste livro........................................ 231 Referências....... ..................................209 A corrente sociológica...........................................iesde............................Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto........................

assine o site www.com.br .planoeducacao.A.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.iesde.Para assistir as videoaulas deste livro.. mais informações www.

assine o site www.planoeducacao. mas a Ciência Política o é.com. objetivo. Na política (isto é. Envolve conhecimento técnico especializado e domínio de teoria. Ciência é uma atividade que exige objetividade. não é ciência.A. Ciência Política não é. então. mas arregimentar apoios. é preciso disposição para procurar e dizer a verdade. Para assistir as videoaulas deste livro. uma contradição em termos? É possível mixar esses dois mundos? Este livro sustenta que sim e quer demonstrar isso. A racionalidade política é um tipo muito especial de racionalidade. imparcialidade. na atividade política) não se quer demonstrar. Ou melhor: a Ciência Política. Ela parece. um dos ramos das Ciências Sociais.Apresentação “Ciência Política”? Política.br . Política não é ciência. mas “talvez”. muitas vezes misteriosa: inimigos históricos tornam-se aliados inseparáveis e partidos de oposição. é o conhecimento sistemático. método e uma alta dose de racionalidade. definitivamente. Para “fazer ciência”. A política parece ser o oposto de tudo isso. tanto institucional como culturalmente. metódico e rigoroso acerca da prática política. Em política.com. E o caso do Brasil é especialmente ilustrativo desse progresso. uma vez no governo. mas também não se admite neutralidade. A Ciência Política tem hoje mais do que nunca um destaque inusitado nas Ciências Humanas. aos não iniciados. não se visa compreender e explicar. mas persuadir. Políticos dificilmente dizem “não”. assumem as mesmas prioridades da antiga situação.iesde..br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. não se pode ser inflexível. mais informações www.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A. quer pelo vocabulário usado para respondê-las. nos anos 1980 – ou seja.iesde. parlamentos) terminaram.com.planoeducacao. Não era isso. os bacharéis em ciências jurídicas e sociais e os grandes articulistas do jornalismo político cumpriram sua função como explicadores do Brasil. a Sociologia. Se o caráter brasileiro foi um dos temas que.Desde os anos 1990. seu funcionamento mais previsível e regular (por meio de eleições periódicas). polarizou a preocupação dos intelectuais e de boa parte da sociedade letrada. entre outras razões. se as questões ligadas à pobreza e à distribuição de renda foram o tema dos anos 1970. Junto dessa política prática. a Filosofia. a cumprir o papel que o ensaísmo erudito havia desempenhado antes dos anos 1950. o crescimento e o fortalecimento das instituições políticas (partidos. Estes últimos assumiram uma espécie de discurso competente diante dos grandes problemas nacionais. graças à expansão do ensino universitário pós-graduado. um ponto de referência para os debates públicos da cena política nacional. mais informações www.. assine o site www. quer pela forma de pôr as questões.com. e se a superinflação foi a principal aflição dos 1980.br . nos anos 1960. eles foram sendo substituídos. e a Economia. o “economês”. Assim. a língua franca na academia brasileira nas décadas de 1970 e 1980? Para assistir as videoaulas deste livro. lá pelos anos 1930. pelos novos profissionais das ideias: os cientistas políticos e sociais. nos anos 1970. se a questão do desenvolvimento econômico foi o assunto em moda nos anos 1940 e 1950. ressurgiu uma ciência da prática política e os problemas tradicionais ligados à questão do poder tenderam a receber um enfoque cada vez menos normativo (no registro do que deveriam ser) e cada vez mais descritivo (aquilo que efetivamente são). afinal de contas. por colocar a política na ordem do dia. à medida que os especialistas em generalidades. o retorno à democracia. pouco a pouco. a Ciência Política passou.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. a essência do marketing político). em especial quando se trata de saber.br .. tende então a ser tratado de duas maneiras. Ao lado desses tudólogos (especialistas em tudo). Daí que a profissão exija hoje muito mais sofisticação teórica. Este volume foi pensado como uma introdução muito elementar ao estudo científico da política. cada vez menos preso a questões somente acadêmicas – passa a ser consultada com frequência por jornalistas.A. a questão da ideologia e das doutrinas políticas (capítulos 7 e 8). Nos períodos eleitorais. estrategistas em campanhas etc. enfim. adivinhar as preferências do eleitorado e elaborar frases no lugar de ideias (essa é. Esse “negócio da política”. a coleta de dados e a análise dos resultados sendo procedimentos cada vez mais usuais. para usar uma expressão comum. surge todo tipo de perito em ler pesquisas. e a questão do comportamento efetivo dos agentes políticos (capítulos 9 e 10).. Escrito como um manual para não iniciados. o perfil dos candidatos ou o grau de satisfação com os serviços das empresas públicas. a opinião da população sobre o Legislativo. terminado o ciclo de transição do regime ditatorial militar. ele está organizado em torno de três grandes eixos temáticos: a questão do poder e do seu exercício institucionalizado por meio do Estado (capítulos 2 a 6).com.Nos anos 1990. por exemplo. Para assistir as videoaulas deste livro. assine o site www. seguiu-se a democracia como direito de todos.planoeducacao. mais informações www. com a elaboração de questionários. candidatos. o capítulo 1 faz um resumo das principais correntes teóricas da Ciência Política contemporânea e se esforça por mostrar qual é afinal a diferença entre política e Ciência da Política. muito mais pesquisas empíricas. o papel dos partidos. uma nova espécie de profissional – o cientista político.iesde. a política como negócio de alguns. em função de um saber específico: aquele saber que é o resultado de um método de investigação e não de uma opinião ou de uma intuição. A título de introdução.com.

que contribuiu decisivamente em muitas partes e em vários capítulos.O livro foi escrito coletivamente. inverno de 2009.iesde.br . Além dos autores que o assinam.com. Adriano Codato Curitiba.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. assine o site www. Este trabalho de equipe só foi possível pelo clima de camaradagem entre os integrantes do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da Universidade Federal do Paraná.planoeducacao.. Para assistir as videoaulas deste livro. mais informações www.com.A. fomos ajudados pelo colega Hugo Loss. e pela seriedade e cuidado com que cada um encarou sua tarefa.

enquanto os grandes desejam comandar e oprimir o povo.planoeducacao.com. Uma disciplina só é científica quando possui um objeto de pesquisa claramente delimitado e definido – e quando esse objeto é composto por uma ordem de fenômenos reais. Em um segundo momento. Nicolau Maquiavel Apresentaremos ao leitor o que é a Ciência Política e o que fazem os cientistas políticos. muito importantes. são. Para assistir as videoaulas deste livro.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com. existem esses dois humores diversos que nascem da seguinte razão: o povo não quer ser comandado nem oprimido pelos grandes.. enfatizando sua evolução nos Estados Unidos. aparentemente banais. ao contrário. Há quase sempre.br 13 . Essas questões. Vamos também distinguir claramente a prática científica dos “politólogos” de seu objeto de estudo – a política propriamente dita. aliás – não é um corpo homogêneo e uniforme de métodos. teorias e explicações.A. mais informações www. ou seja. Nesse sentido. e nas ciências humanas em especial. A Ciência Política – como qualquer ciência. que não dependem nem da imaginação nem da vontade do cientista. É por meio delas que conhecemos o verdadeiro objeto da Ciência Política (o que ela estuda) e a particularidade da Ciência Política como uma disciplina científica.iesde. apresentaremos como a Ciência Política aborda os seus assuntos resumindo as principais tradições teóricas da disciplina. pretende-se fornecer ao leitor um mapa das principais correntes teórico-metodológicas da Ciência Política. assine o site www. país onde a Political Science mais se desenvolveu e mais se sofisticou no século XX. abordagens muito diferentes dos mesmos fenômenos.A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas Em todas as comunidades políticas.

br 14 . Assim. dos jornais e revistas. como aqueles que acabamos de mencionar. não se reduz a isso: há vários fenômenos políticos que não se resumem ao Estado ou ao governo. contudo. Eles são também os protagonistas de campanhas eleitorais. percebemos que todos eles se referem. em sentido amplo. A Ciência Política. Ciências Políticas I Contudo. de alguma maneira. Essa ideia de política. líderes locais etc.A.. Essa ideia não é cientificamente errada. no Congresso Nacional.O objeto da Ciência Política A visão comum da “política” e os fenômenos políticos As ciências definem-se em função dos objetos dos quais se ocupam. É por isso que as pessoas tendem a confundir política com Estado ou mais simplesmente com governo.planoeducacao.iesde. é insuficiente. podemos entender o Estado como um conjunto de instituições políticas formais. assine o site www. que os fatos políticos ligados ao Estado e ao poder de Estado constituem o principal foco de atenção da Ciência Política. como diz o nome. a política? Quando lemos ou ouvimos a palavra política. Se prestarmos atenção a esses elementos que comumente entendemos como sinônimos de política. a política. ao poder de Estado: como consegui-lo. nos ministérios. trata de uma categoria particular de fenômenos histórico-sociais: os “fenômenos políticos”. como mantê-lo. a primeira coisa que vem à mente da maioria das pessoas é a imagem dos políticos profissionais e dos endereços onde eles atuam ou estão mais presentes: no Executivo. também. para entendermos o que é e o que faz a Ciência Política precisamos ter uma ideia exata de seu objeto de estudo. isso também é “política”.com. como usá-lo. O que é. então. De fato. mais informações www. É por isso. Para assistir as videoaulas deste livro. é muito restrita. Resumindo mais poderíamos dizer que a Ciência Política trata da política. Estado Por enquanto.com. são os principais fenômenos políticos das sociedades humanas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. O Estado e todos os fatos políticos ligados a ele. dirigentes partidários. Os fenômenos políticos vão muito além da política institucional que acompanhamos cotidianamente por meio da TV.

mesmo quando aquele que sofre a ação do poder resiste a ele. com a finalidade objetiva de influenciar seu comportamento. sempre que uma pessoa ou instituição estimula ou coage alguém de modo a influenciar seu comportamento. na conduta humana. assim. O que seria.com. A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas Vemos assim que a política. em uma relação de poder. mesmo informalmente. algum tipo de interesse (não necessariamente egoísta.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. de um miniprocesso político. por exemplo). sempre.. podendo ser algum interesse altruísta. Ou seja: não é preciso que o poder exercido obtenha êxito. a política em sentido amplo? Quais seriam os fenômenos políticos? Política. Ela é importante porque a Ciência Política estuda todos os fenômenos políticos das sociedades humanas. Somos acostumados a perceber como fenômenos políticos somente as formas mais explícitas de poder e influência. cedam necessariamente a eles. Poder e política são. 1981). é suficiente entendermos o poder simplesmente como a ­ capacidade de influenciar o comportamento das pessoas (RIBEIRO. estamos diante de um miniprocesso decisório. o jogo de poder – ou seja. e não somente a política legal e os processos de governo (ainda que estes sejam seus principais temas de pesquisa). ou seja. você manda ali e assim por diante). portanto. a “transa” para se obter uma decisão qualquer – está em toda parte. Nessa relação há. Quando um casal.iesde. Da mesma forma.br 15 .com. Formas explícitas e implícitas de política As formas de influenciar o comportamento das pessoas são extraordinariamente diversas. Nesse sentido. Essa é uma definição mais ampla de política. fenômenos políticos e poder Política em sentido amplo refere-se ao exercício de alguma forma de poder. mais informações www.Para esclarecer melhor essa questão. é suficiente para configurar um fenômeno político. A própria existência de estímulos ou coerções sobre alguém.A. quando os garotos de uma rua se organizam em um time de futebol e vão atribuindo responsabilidades a alguns. a situação em que um inPara assistir as videoaulas deste livro. Por enquanto. assine o site www. vamos entender a política como uma ordem particular de fenômenos que ocorrem em todas as sociedades humanas e aos quais daremos o nome de fenômenos políticos. também há um miniprocesso político.planoeducacao. existe uma relação de poder. Um fenômeno político existe. p. (RIBEIRO. 1981. 23) Para haver um fenômeno político não é necessário que as pessoas que sofrem os estímulos ou a coação. e tal interesse geralmente é orientado de modo a produzir uma decisão. vai gradualmente marcando os papéis dentro do lar (eu mando aqui. portanto. quase sinônimos. por exemplo. no início de seu relacionamento.

qualquer estímulo ou constrangimento pode configurar um fenômeno político. geralmente. configura também um fenômeno político: é um processo em que se estimula (e mesmo se obriga) as pessoas a pensarem e agirem de determinada forma. ou da autoridade institucional de que está investido. mais informações www. às eleições ou à luta entre os partidos. Não há qualquer correlação necessária entre política institucional e formas explícitas de poder e entre política em sentido lato e formas implícitas de exercício do poder. A matéria-prima da Ciência Política é. Desse modo. deliberado ou inconsciente. isto é. O poder A Ciência Política não trata apenas da política institucional. constitui o que chamamos de fenômenos políticos. portanto. assine o site www. inclusive as formas mais explícitas e mesmo deliberadas de modificar o comportamento de outrem. a ênfase recai sobre aqueles que produzem decisões efetivas e Para assistir as videoaulas deste livro. ou seja.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br 16 . Mas os fenômenos políticos podem ser mais sutis. por exemplo.iesde.com.divíduo busca conscientemente mudar o comportamento de outro. A Ciência Política. Portanto. também abrangem formas explícitas de poder.com. mas do tipo de ator e contexto em que se exerce o poder. na medida em que influenciam o modo como as pessoas pensam. os fenômenos políticos em geral. na realidade. Até mesmo valores culturais podem sê-lo. a educação. Portanto. Ciências Políticas I A ênfase da Ciência Política na política institucionalizada A maior parte dos esforços dos cientistas políticos está voltada para a compreensão e a explicação de fenômenos políticos socialmente significativos. utilizando-se do seu prestígio social. a diferença entre política em sentido estrito e política em sentido lato ou fenômeno político não depende da forma como o poder é exercido. exercido por indivíduos.planoeducacao. violento ou tácito. Dentre o imenso rol de fatos políticos. Tudo isso. ou mesmo da violência física. por instituições ou mesmo sociedades inteiras). a política em sentido lato. aos processos de governo. estuda todos os fenômenos que são permeados por algum tipo de poder (explícito ou implícito.A.. E isso pelas seguintes razões: a política institucional também envolve formas sutis de poder. o poder. daquele tipo de fenômenos associados.

que afetam um grande número de pessoas.br 17 A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas . as paixões. por seu caráter público e socialmente significativo.com. mais informações www. no máximo. o cientista político pode passar a fazer política. Na Física e nas outras ciências exatas. a Ciência Política tende a enfocar mais. por causa da confusão entre o objeto e o sujeito de conhecimento. é praticamente impossível que o cientista “comprometa-se” politicamente com o seu objeto. é possível que o sujeito passe a influenciar o seu objeto de estudo – e vice-versa. possuem um caráter público (RIBEIRO. Contudo. Por isso. como diz Cerroni (1986.. assim como qualquer ciência humana. Os fenômenos da natureza são completamente independentes da imaginação. tem um problema metodológico importante. isto é.A. p. quaisquer fenômenos sociais que envolvem poder. colocando em xeque a sua objetividade e. apesar de qualquer fenômeno político estar apto a ser objeto de análise científica pela Ciência Política. é importante distinguir claramente uma coisa da outra. 1981. ou seja. É por isso que. O poder está presente em uma situação em que se exerce estímulo ou coação sobre alguém de modo a influenciar seu comportamento. da vontade. Política e Ciência da Política A especificidade do objeto das ciências humanas A Ciência Política é uma ciência humana e social e. todo o empreendimento científico. as ideias) pode influenciar o cientista político. ele não vai – e não pode – influenciar as leis da natureza. Ao contrário das ciências naturais. 30). assine o site www. portanto. dos valores ou dos interesses de quem os estuda. ou a política (os interesses. Ele pode. Política institucional A Ciência Política estuda os fenômenos políticos. os fatos políticos ligados ao Estado – ou seja. Nas ciências humanas. nas ciências sociais o objeto de estudo é o próprio sujeito que pretende conhecê-lo. ao contrário. por exemplo). manipular essas forças dentro dos limites que a própria natureza impõe aos seres humanos (no laboratório. Para assistir as videoaulas deste livro. p.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. em vez de estudá-la. a política institucional. Entre muitos problemas metodológicos que isso implica.planoeducacao. o que mais nos interessa aqui é o problema da confusão entre a ciência (política) e o seu objeto de estudo (a política). 15). à política institucionalizada – são o seu principal assunto.iesde. Não importa o que o cientista faça. nas ciências humanas o pesquisador faz parte de seu objeto de estudo ou.com. Assim.

planoeducacao. mas a produzir um universo de símbolos e significações independente da natureza e da realidade objetiva das coisas. é preciso objetividade. nos fenômenos que estuda.A. idealmente. realista. as etapas do processo que conduz à escolha e implantação de uma política governamental.iesde. A imaginação científica deve ajustar-se à realidade. de confundir-se com o próprio observador.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. e assim é limitada por ela. os cientistas políticos (e os demais cientistas sociais) desenvolveram métodos e técnicas de pesquisa a fim de garantir tal objetividade. No caso da Ciência Política. Para assistir as videoaulas deste livro. em comparação com as ciências naturais. Para isso.com. antes de pronunciar-se sobre a justiça ou injustiça promovida por essa decisão. que não se limita a representar (teoricamente) a realidade. Uma das principais formas de evitá-los ou diminuí-los é entender claramente a diferença entre o objeto e o observador. Se ele analisa. racional. é imprescindível distinguir o estudo da política da prática política propriamente dita: o cientista político. ditatorial etc. não toma – e não deve tomar – partido nas questões. isto é. cumulativo e empiricamente orientado sobre o mundo político. dando liberdade absoluta à imaginação subjetiva do artista. O princípio e o propósito da ciência é construir teorias sobre a realidade a fim de descobrir a lógica. o objeto das ciências humanas possui a especificidade. Sem objetividade.. sistemático. a configuração específica de fatores que determinam o resultado político observado. objetivo. Desse modo. por exemplo. em um estudo lógico e metodologicamente rigoroso. Pode caracterizar um regime político específico como democrático. enquanto executa seu dever científico. identificar os agentes e os interesses envolvidos no processo de escolha entre alternativas. mais informações www. assine o site www. por exemplo. seu objetivo principal é responder a questões científicas acerca desses fenômenos. Ela se pretende tão objetiva e fiel aos fatos quanto possível. os padrões e as regularidades presentes no mundo.A objetividade e a ciência Não há nada mais importante para uma ciência do que a objetividade. A distinção entre política e ciência Como vimos. não há ciência. O cientista político pode investigar também a organização política de uma sociedade e suas formas de governo. controlando ou contornando ao máximo as preferências do pesquisador. Esse trabalho de análise das relações de poder entre grupos e indivíduos deve ser prioritário em relação às suas preferências pessoais sobre a melhor forma de regime. ele tem que. Novamente. A Ciência Política consiste. É diferente da arte. o único objetivo da ciência é criar ideias fiéis à realidade e produzir explicações críveis sobre ela.com. com a finalidade exclusiva de produzir conhecimento válido sobre os fenômenos em questão.br Ciências Políticas I 18 . Para isso. Isso impõe sérios problemas para a objetividade das ciências humanas.

que aquele que trocar o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprende antes sua ruína do que sua preservação. ética e moral: a contribuição de Nicolau Maquiavel A ciência trata do que é e não do que deve ser. conferindo à ciência a característica cumulativa: um conhecimento e um método contribuem para o desenvolvimento de novos conhecimentos e métodos. A cada resposta. e a posições politicamente interessadas – tudo isso passando por tratados objetivos e fiéis ao mundo da política.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. que por sua vez expandem a capacidade heurística da ciência. de fazer descobertas.br 19 . O estudo da política estava assim submetido a preferências muito subjetivas sobre o bom e o mau governo. Muitos imaginaram repúblicas e principados que jamais foram vistos e que nem se soube se existiram na verdade. o estudo da política consistia em uma investigação moralista e politicamente engajada dos problemas decorrentes do exercício do poder.. Isso é o princípio heurístico1 do estudo e da pesquisa científica: sua finalidade é produzir conhecimento.iesde.planoeducacao. amplia-se o conhecimento sobre um fenômeno e o arsenal de métodos de análise disponíveis. heurística é a “arte de inventar. responder a problemas científicos para conhecer a realidade.O princípio heurístico da ciência e a definição de cientista político Cientista político é o profissional que se dedica ao estudo dos fenômenos políticos. em geral. a ciência perde o principal aspecto que a distingue de outras instâncias e formas de conhecimento – ela perde a sua razão de ser. XV) “[. idealizar e/ou prescrever o que a política deveria ser. ciência que tem por objeto a descoberta dos fatos”.com. Os pensadores sociais buscavam.] sendo meu intento escrever algo útil para quem me ler. buscando descrevê-los e compreendê-los por meio de métodos científicos. O cientista político está interessado. em vez de analisar o que ela de fato é. Até ele.. em conhecer como e por que os fenômenos políticos são ou funcionam de determinada forma. A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas A verdade efetiva da coisa (MAQUIAVEL. parece-me mais conveniente procurar a verdade efetiva da coisa do que uma imaginação sobre ela. assine o site www. a moral de uma comunidade política e as questões que envolvem relações sociais de poder não interessam à ciência política senão como objetos de estudo. Ciência. Foi Nicolau Maquiavel (1469-1527) quem primeiro intuiu um método e aplicou os princípios científicos ao estudo da vida política. Sem esses princípios.com. Para assistir as videoaulas deste livro. portanto. a utopias generosas e irrealizáveis. mais informações www. explicando suas causas e a conexão entre os fenômenos.. cap.A. A ética de um governante. A capacidade heurística de uma teoria ou ciência é sua capacidade para dar respostas a questões científicas.” 1 Segundo o Dicionário Houaiss. porque há tamanha distância entre como se vive e como se deveria viver.

reconhecimento e respeito dos governados. na metáfora por ele escolhida) quanto da sorte. é o que lhe confere o atributo de fundador da Ciência da Política. usando. A violência não é o meio da política. ele inaugura a abordagem “científica” da política. mas um recurso legítimo. utilizando meios muitas vezes cruéis e injustos. ele reflete sobre fatores e causas do sucesso ou insucesso dos políticos de seu tempo.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Ciências Políticas I Maquiavel busca identificar qualquer fator ou causa que possa ser determinante do fenômeno que estuda. a política institucionalizada. mais informações www. pela conjuntura. a forma como Maquiavel desenvolve seu argumento.iesde.Assim. Maquiavel chocou grande parte de sua geração (e choca as pessoas ainda hoje) apresentando a política como um intrincado jogo envolvendo forças orientadas de modo a conquistar. sobre elas: O que é necessário para um líder conquistar o poder? O que é preciso para que um líder sustente o Estado? De que modo se deve governar uma comunidade política? É melhor se amado ou temido pelos governados? Como evitar os aduladores? Como lidar com os assessores? Na busca de respostas para esses problemas. diríamos hoje. Ele parte de questões profundamente práticas – questões que todos os políticos se colocam todos os dias – para refletir. na maioria dos casos. embora lido como um guia prático para se obter sucesso político (uma espécie de manual de autoajuda do político profissional). a despeito de qualquer implicação ética ou moral. Sua obra mais conhecida. O autor entende a política não como um domínio em que se luta apenas por poder. O Príncipe (1532).A. acumular e manter o poder. objetivamente. revela ele – que. prestígio e riquezas. Ele conclui que os homens envolvidos na Para assistir as videoaulas deste livro. Esse objetivo – instrumento para. Descobre ele – ou melhor..planoeducacao.br 20 . realizar “grandes coisas” – depende tanto da capacidade individual do líder político (o príncipe. pela correlação de forças entre os agentes políticos em uma determinada situação. ligada ao Estado e ao poder de Estado) foi exagerada e distorcida por seus inúmeros leitores e comentadores. Mas o que interessa aqui é. antes de tudo. segundo Maquiavel.com. Ao fazer isso de maneira realista (ainda que apaixonada). o jogo político é um jogo de interesses envolvendo cálculos para atingir fins geralmente tidos como “egoístas”.com. Esses dois elementos são temperados pela ocasião ou. assine o site www. a violência. se necessário. é na realidade uma reflexão profundamente realista sobre a natureza do poder. A ideia de Maquiavel acerca da natureza da política (nesse caso. Um líder verdadeiro deve saber equilibrar-se entre as forças em presença. mas principalmente por glória.

necessariamente. ser desapiedado. cruel etc. Maquiavel observa como sua crueldade foi determinante para suas conquistas e para seu sucesso político em geral: Não se pode chamar de “valor” assassinar seus cidadãos. ainda que o cientista possa. mesquinha.br 21 A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Isso não quer dizer que o cientista político não possa ou não deva tomar partido nas questões que estuda. contudo.iesde. Nesse sentido. não ter religião. A ação política do cientista deve apresentar-se abertamente dessa forma: como uma ação política. Maquiavel fornece. reconhecendo. Essa descoberta. de maneira realista. se são suficientes para produzir os efeitos políticos desejados ou não etc.planoeducacao. mas não à glória. portanto. a Ciência Política irá reconhecê-los enquanto tais. faltar à palavra dada. 44) Lembramos que a política não é. e moralmente convenientes. Não busca aprovar ou reprovar qualquer atitude política por ela ser moralmente negativa.política real agem – e precisam agir – de forma egoísta e por vezes cruel para atingir seus objetivos. Maquiavel fala de Agátocles (317-289 a. a sua crueldade feroz. da mesma maneira que faz com atributos moralmente negativos. que elas foram eficientes. Só não o deve fazer enquanto assume e cumpre o seu papel de cientista. Para assistir as videoaulas deste livro.com. Vejamos um exemplo. Maquiavel recusa os valores morais porque ele acredita que as forças que movem a política e conferem sucesso político.. 1996. um modelo de atitude científica: ele nos mostra quais os efeitos das atitudes práticas de tal ou qual líder político. Todavia. enquanto ator político ou como cidadão comum.com. Ela pode mobilizar indivíduos virtuosos e idealistas. assine o site www. como as da Igreja da época do Renascimento. guerreiro que se tornou rei de Siracusa e ficou reconhecido por sua imensa crueldade. considerando o valor de Agátocles ao entrar e sair de perigos e a grandeza de ânimo para suportar e superar as adversidades. se são eficazes politicamente ou não.). a sua desumanidade e as maldades infinitas impedem que seja celebrado entre os homens excelentes. o próprio Maquiavel reprova “moralmente” as atitudes de Agátocles. (MAQUIAVEL. Não compete à ciência tomar partido entre tal ou qual questão política ou posição moral. p. ou mesmo que são importantes para o sucesso político. não se vê por que ele deva ser julgado inferior a qualquer líder excelente. contudo. Apesar de desaprovar moralmente as atitudes de Agátocles. ou não precisa ser sempre egoísta. não pode orientar os achados da pesquisa ou mesmo substituí-la. vai de encontro com as visões aprazíveis da política – como a “busca do bem comum”. Em certa altura de O Príncipe. assumir posições políticas – fora da pesquisa científica. e proceder escrupulosamente. “a realização do interesse público” – ou visões estritamente prescritivas. são muitas vezes amorais ou imorais. Se a Ciência Política descobrir que os atributos e valores morais positivos são causas dos fenômenos políticos analisados. No trecho que apresentamos há pouco. trair seus amigos.C. pelo menos nos casos que analisa.A. Essas atitudes podem levar à conquista de um império. mais informações www. Pois.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Como a ciência pode auxiliar a política e a humanidade em geral É claro. pode inclusive defender publicamente um tipo específico de mudança. mais informações www. Tome-se o caso dos sistemas eleitorais. As finalidades técnicas ou políticas são consequências. e não precisam seguir. se é mais ou menos provável que um fenômeno qualquer ocorra caso um fator ou processo qualquer esteja presente etc. se determinado fenômeno é causado por outro. até mesmo acidentalmente. O que ele está obrigado a fazer. O cientista político pode prever.A. todos os prós e contras envolvidos no fenômeno estudado. O principal da distinção nós já abordamos: o cientista é um profissional da ciência e.com. se devem ser adotados ou não distritos eleitorais de tamanho reduzido etc. não busca aproximar-se da realidade ou esclarecê-la. exatamente porque não estão comprometidos com o realismo e com a finalidade da ciência. é explicar. Ciências Políticas I 22 Para assistir as videoaulas deste livro.com. inclusive. do sistema proporcional. 2000). enquanto pratica a ciência. pelo contrário. A atividade política é permeada de valores e de interesses – sejam “bons” ou “maus” – que não seguem. mas o que a ciência irá responder é se determinada coisa produz ou não produz determinado efeito. age politicamente: orienta-se a partir de uma ideologia ou mesmo de uma ética que não tem como objetivo a descoberta da “verdade”. quais serão os efeitos práticos de se adotar o modelo “a” ou “b”. ou seja. contudo. Mas o fazem por causa dos fatos que a ciência desvela ou esclarece.. e se isso é eficiente ou não para a estabilidade democrática. assine o site www.iesde. Pode-se até mesmo pedir auxílio à ciência para decidir sobre questões técnicas ou políticas. Quando se comparam diferentes fórmulas que definem como será contabilizado o voto das pessoas – por meio do sistema majoritário. a pesquisa científica pode ter consequências políticas. a partir da comparação com outras experiências políticas. As descobertas da ciência frequentemente produzem aplicações ou efeitos políticos. com razoável segurança.planoeducacao. e não princípios da pesquisa científica. objetivamente. as exigências do método científico. O político. orienta-se pela finalidade heurística e pela objetividade. mas mobilizar e influenciar as pessoas. que impactos essa mudança terá sobre o sistema de partidos. deve responder objetivamente a questões científicas buscando assim descrever e explicar os fenômenos políticos.A vocação científica e a vocação política Max Weber (1864-1920) distinguiu admiravelmente bem a vocação científica e a vocação política (WEBER. o especialista pode afirmar. –. persegue e busca realizar projetos com vistas a produzir efeitos sociais.br . O cientista político pode até preferir um sistema eleitoral a outro. se levará ou não à diminuição do número de partidos.

A. Formas diferentes de abordar e explicar os fenômenos políticos implicam teorias diferentes e às vezes opostas. Os principais deles são Immanuel Kant (1724-1804).com.br 23 . pois essas não são questões científicas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Friedrich W.planoeducacao.. assine o site www.com. sintetizando seu argumento principal e seu foco de análise. F. quais seriam as condições ótimas para que tal ou qual objetivo se realize. sua ênfase analítica era sobre o Estado (também o principal 2 A Filosofia clássica alemã se desenvolveu nos séculos XVIII e XIX e tem esse nome por causa da significativa quantidade de grandes filósofos alemães que surgiram nesse período. J. Em função disso. apresentamos as principais tradições teóricas da Ciência Política. as pessoas podem muito bem utilizar o conhecimento da realidade produzido pela Ciência Política para transformar essa realidade. Principais tradições da Ciência Política contemporânea Fizemos uma breve descrição do objeto e do método da Ciência Política que tornou claro como esse objeto (os fenômenos políticos) abrange uma grande variedade de fatos nas sociedades humanas. Nietzsche (1844-1990).iesde. Para assistir as videoaulas deste livro. mas de valor. mais informações www. Sua principal influência intelectual foi a Filosofia clássica alemã2. A Ciência Política pode. Hegel (1770-1831). a Ciência Política – não responde portanto à questão do que devemos fazer em nossas vidas ou que tipo de coisa é melhor.A ciência – em nosso caso. é preciso dizer também que há várias formas de estudar os mesmos fatos e várias são as explicações possíveis para eles. Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich W. Além disso. Mas a ciência pode nos dizer quais serão as consequências prováveis de nossos atos. competem à ética e à consciência dos indivíduos. Elas muitas vezes competem entre si pela explicação mais legítima ou mais eficiente dos fenômenos políticos. A seguir. Schelling (1775--1854). A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas Institucionalismo O Institucionalismo foi a primeira escola teórica com a pretensão de se constituir como uma Ciência da Política. todavia. Johann G. Fichte (1762-1814). Desenvolveu-se nos Estados Unidos entre o fim do século XIX e a década de 1920. não se referem a julgamentos de fato. Georg W. ela não se confunde com a prática política. fornecer suporte para a ação política esclarecendo sobre os efeitos que podem ocorrer dependendo da decisão tomada. Conhecimento da realidade A Ciência Política estuda a política.

enfatizando sua soberania absoluta e ignorando limitações ao seu poder – seja pela religião. Trabalhos clássicos do Institucionalismo Political Science.conceito dos institucionalistas). As principais razões dessa progressiva aversão foram: a grande ênfase que o Institucionalismo dava ao Estado. Ciências Políticas I 24 Para assistir as videoaulas deste livro. mais informações www. a perspectiva excessivamente formalista do Institucionalismo. p. de Woodrow Wilson. de 1878 (WOOLSEY. or the State Theoretically and Practically Considered. os institucionalistas lançaram mão de métodos filosóficos. quase metafísica. The State: elements of historical and practical politics. jurídicos e históricos em seus estudos. assine o site www. já que se dava pouca ou nenhuma atenção ao comportamento político dos cidadãos e aos processos de produção e implementação de decisões públicas – os institucionalistas se limitavam a constatá-los. os institucionalistas esforçaram-se para desenvolver e utilizar técnicas de pesquisa empírica.A. Foram os primeiros a aplicar surveys (“pesquisas de opinião”) para avaliar e medir as disposições democráticas dos cidadãos.com. Sua ênfase residia nos aspectos formais e legais das instituições políticas (democráticas). A tradição teórica institucionalista esteve essencialmente comprometida com um projeto político..planoeducacao. de Theodore Woolsey. desligada da sociedade. Tendo esse projeto no horizonte. Foi deliberadamente orientada no sentido de auxiliar a política democrática.br . 1878). e inspirados pela Filosofia clássica alemã. a concepção do Estado como uma entidade suprema. e do aspecto paradoxal de uma “ciência subsumida pela política”. como a propriedade privada e os direitos civis (ALMOND. o Institucionalismo foi sistematicamente perdendo força e expressão na Ciência Política norte-americana à medida que vários cientistas políticos passaram a se opor a ele. seja por instituições típicas das sociedades liberais. de modo a ajustá-los aos preceitos da democracia liberal representativa. Seu objetivo principal era estudar e racionalizar a estrutura legal do regime democrático norte-americano e desenvolver métodos de educação democrática dos cidadãos.iesde. 190). Entretanto.com. 1990. 1918). de 1889 (WILSON. Apesar do caráter formalista e filosófico de sua abordagem.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.

as atitudes. analisando. Essa nova perspectiva buscava entender o comportamento dos agentes políticos (cidadãos. na Universidade de Chicago. medidos por meio de entrevistas e indicadores fisiológicos como o ritmo cardíaco.com. A Escola de Chicago influenciou e inspirou profundamente os cientistas políticos norte-americanos a partir da década de 1920. políticos profissionais). mais informações www. o Pluralismo.br 25 . por sistema político.A. os estados emocionais. como passíveis de explicação por meio das características psicológicas dos indivíduos. o conteúdo verbal e as condições psicológicas. fortalecendo os argumentos dos investigadores que se opunham ao “estatismo exarcebado” (a demasiada ênfase na soberania do Estado) dos institucionalistas. uma nova escola de pensamento sociológico: a Escola de Chicago. eleitores ativos. a partir de aspectos mentais e de fenômenos psicológicos. a partir daí.. (ALMOND.iesde. o conceito de Estado é substituído pelo de governo e. que viria a ser a tradição dominante na Ciência Política nas décadas de 1950 e 1960. O Comportamentalismo desenvolveu e aplicou métodos de pesquisa rigorosos. a partir do programa de pesquisa fundado por Charles Merriam. Harold Gosnell e Harold Lasswell foram responsáveis pelo desenvolvimento de um modelo teórico-metodológico e de um programa de pesquisa que.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. tomou força a principal vertente do Comportamentalismo. Apoiado na psicologia. Suas pesquisas ressaltaram a existência de um grande nível de fragmentação sociopolítica na sociedade americana. A ideia por trás dessa substituição era tanto heurística Para assistir as videoaulas deste livro. mais tarde. assine o site www. inspirariam a chamada behavioralist revolution (a “revolução comportamentalista”). A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas A principal corrente comportamentalista: o Pluralismo No Pluralismo. a partir da década de 1940. por exemplo. 1996). especialmente surveys e experimentos psicológicos que buscavam encontrar correlações entre o comportamento político observado e aspectos psicológicos individuais. a pressão sanguínea etc. o Comportamentalismo mudou o foco de análise das instituições políticas e em especial do Estado para o comportamento político dos indivíduos.Comportamentalismo Os fundamentos do Comportamentalismo: a Escola de Chicago Por volta do início da década de 1920. Ao lado de seus seguidores e colaboradores.com. Os processos políticos serão tidos. A partir do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). surge.

Ciências Políticas I 3 Tal ênfase é uma herança dos teóricos contratualistas. as associações civis (GUNNEL. como Thomas Hobbes (1588-1679). O argumento dos pluralistas era fortalecido por fenômenos políticos reais que ocorriam no mundo ocidental. e da Filosofia alemã. Como os grupos de pressão (integrantes da sociedade civil) são representados no processo decisório pelos políticos. assine o site www.como política: pretendia-se evitar a ênfase na “soberania” do Estado3 ressaltando os grupos de interesse que agem fora da esfera do governo. Então. os pluralistas normalmente analisam um processo de formulação e implementação de uma decisão política qualquer. que são representados no governo pelos políticos.planoeducacao. Os pluralistas tendem a enfatizar os grupos de pressão e outras instâncias da sociedade civil. de Harold Laswell.. basicamente. que influenciam e orientam o Estado. referindo-se à tendência do velho institucionalismo de exacerbar o poder do Estado. Trata-se da instituição que detém todo o poder de conceber e aplicar leis de alcance universal dentro do território. when. O processo decisório. 1936). associações interessadas. de formulação e implementação de políticas públicas.A. mais informações www. à legitimidade que possui o Estado como detentor do monopólio da violência física e como gestor de todos os assuntos comuns da sociedade. 1961). como a proliferação de instituições de representação de interesses. Muitos até mesmo recusam ou evitam usar a palavra Estado. a ênfase pluralista sobre o processo decisório exprime a visão liberal. os recursos e a capacidade de cada um para interferir no processo decisório no intuito de garantir a realização de seus interesses. ou seja. A Systems Analisys of Political Life. deriva daí que as políticas são o produto da influência de grupos que estão fora do Estado.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. 26 Para assistir as videoaulas deste livro.com. de David Easton. ALMOND. de 1965 (EASTON. um povo. grupos de pressão. do Estado como uma instituição submetida à sociedade civil.iesde. passa a ser o principal objeto de estudo da Ciência Política americana. bem como os defenderam politicamente contra o que chamavam de monismo do Estado. Assim. Em seus estudos. 1995. na esfera privada. Sua ênfase. de 1961 (DAHL. por parte dos pluralistas. 1965). enfatizando a ação e a influência de grupos políticos organizados (legais ou não) na política. seguindo a tradição da Escola de Chicago. o processo pelo qual as demandas sociais são processadas e implementadas pelo sistema político. John Locke (1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Trabalhos clássicos do Pluralismo Who Governs?. a mídia etc.br . identificam os atores envolvidos (políticos profissionais. ou seja. as instâncias politicamente atuantes (extralegais ou paralegais) como os grupos de pressão. Politics: who gets what. de 1936 (LASWELL. Eles fazem isso por meio de sua ênfase analítica sobre o processo decisório.). os sindicatos profissionais e. Os pluralistas buscaram apontar a existência de grupos de interesse. as igrejas. os partidos políticos. reside nos indivíduos. and how. um território” exprime bem essa ideia. a mídia de massa. de Robert Dahl. submetendo tal processo à influência dos grupos de pressão. A máxima “um governo.com. sobretudo. A expressão soberania do Estado refere-se. 1990).

com.iesde. uma cultura política compatível. os culturalistas argumentam que o sistema político (o governo e todas as instâncias da sociedade que têm influência política significativa) depende de os indivíduos possuírem certas orientações psicológicas para funcionar. Culturalismo A Ciência Política culturalista é uma importante tradição teórica que se desenvolveu. Trata-se de uma tradição altamente influenciada pela Sociologia. a partir da década de 1960. especialmente nos Estados Unidos. Por sua vez. portanto.planoeducacao. Discutindo com o Comportamentalismo. os culturalistas sustentam que deve haver uma complementaridade ou uma congruência entre a cultura política e as instituições políticas para que o sistema político funcione adequadamente. Os culturalistas têm como foco. assine o site www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. as instituições políticas dependem das formas de pensamento/cultura política dos indivíduos para operar adequadamente. Almond e Verba (1989) sustentam a ideia de que a democracia não funciona apenas com instituições políticas democráticas. Essas formas de pensamento dependem da cultura da sociedade. formas de entender e agir na realidade. A cultura política consiste. Analisam Para assistir as videoaulas deste livro. busca explicar os fenômenos políticos a partir da cultura política da população ou país estudado.br 27 A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas . Ao contrário do Institucionalismo ou do Comportamentalismo. ou o que chamam de cultura cívica. Essas “orientações psicológicas” de que falam os culturalistas são formas de pensamento. em especial a norte-americana. como grupos de pressão e interesse existem abertamente e atuam de forma visível somente em democracias mais ou menos estáveis e consolidadas. deve haver uma cultura participativa..com. mais informações www. basicamente. em especial com o Pluralismo. A partir dessa perspectiva. Fazem grandes pesquisas de opinião e sondagens sobre atitudes (surveys) com um grande número de pessoas para identificar a cultura política de um grupo ou país.Por causa dessa ênfase nos chamados grupos de pressão ou de interesse e a tendência de enxergar a realidade política como uma miríade de grupos concorrendo entre si. um regime político) pode funcionar adequadamente se não houver. No caso da democracia. a cultura política de uma sociedade. muitos autores acusaram o Pluralismo de estar comprometido tacitamente com a democracia. De todo modo. é natural que os pluralistas estudem a política quase que exclusivamente nos regimes democráticos. na sociedade. Por isso. Ela precisa de uma cultura política democrática e participativa para funcionar e manter-se.A. A principal característica do argumento culturalista é que nenhuma instituição política (por exemplo. em padrões de comportamento e sistemas de valores e percepção generalizados na sociedade.

principalmente as condições econômicas.br Ciências Políticas I 28 . É uma das tradições intelectuais mais influentes não apenas a Ciência Política como também em grande parte das ciências humanas (Economia. de 1963 (ALMOND. isto é. Trabalhos clássicos do Culturalismo The Civic Culture. As condições objetivas ou de existência.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Sociologia. Tendem. Cada classe social detém parte dos recursos e bens (principalmente econômicos) da sociedade. no século XX. influenciando muitos outros pensadores que buscaram. ou seja. de modo a fundamentar as conclusões que tiram dos surveys.iesde. assine o site www.. o que faz os capitalistas Para assistir as videoaulas deste livro.com. enquanto a classe dominada é o proletariado. distinguir e identificar a evolução/transformação da cultura política. igualmente. entre as quais se destaca O 18 Brumário de Louis Bonaparte (1852) – mas especialmente porque a dimensão política. em momentos diferentes ou mesmo entre lugares diferentes da mesma sociedade buscando. 1993). Estudos Culturais etc. Na sociedade capitalista. mais informações www. o poder e o conflito. Dessa luta deriva uma hierarquia entre as classes. A importância do marxismo para a Ciência Política é evidente pelo fato de a política ser um elemento central da obra de Marx – e não somente a política formal. Na sociedade capitalista. a classe dominante é a dos capitalistas. uma luta (ao mesmo tempo explícita e implícita) entre as classes sociais pela posse desses recursos e bens. Marxismo O marxismo é uma corrente teórica que surgiu da obra do intelectual alemão Karl Marx (1818-1883). ­ Making Democracy Work: civic traditions in modern Italy. em todas as sociedades há classes dominantes e classes dominadas. Por isso. isto é. faz parte da própria visão de Marx sobre as sociedades humanas. a tecer comparações entre várias sociedades. institucional. Todas as sociedades são constituídas e divididas entre classes sociais distintas. desenvolver e aperfeiçoar seu legado teórico e político. por meio da comparação. sempre.). de Gabriel Almond e Sidney Verba.A. a classe dos indivíduos e grupos que detêm os meios e os instrumentos de produção. VERBA.com. especialmente em suas obras históricas. de Robert Putnam.planoeducacao. à qual ele também confere muita atenção. a classe dos indivíduos e grupos que vendem a sua força de trabalho para os capitalistas. de 1993 (PUTNAM. Eis o aspecto político disso tudo: há.também a história política e social desse país. 1989). definem as classes sociais.

Trabalhos clássicos do Marxismo O 18 Brumário de Louis Bonaparte. enfatizando sempre a dimensão econômica (as relações sociais de produção. Mas no marxismo a “política” não se encerra aí. apenas uma pequena parcela da riqueza gerada pelo seu trabalho. O Estado na Sociedade Capitalista. Cadernos do Cárcere. de 1969 (MILIBAND. ainda que de uma forma bastante diferente dos institucionalistas. por meio da posse do aparelho estatal por parte da classe dominante. A Ideologia Alemã. A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas Neoinstitucionalismo O Neoinstitucionalismo compreende a principal tradição teórica surgida na Ciência Política contemporânea. 1977). de 1968 (POULANTZAS. de 1846 (MARX. as relações que se estabelecem entre o Estado e as várias classes sociais. apropriada pelo capitalista. assegurando a coesão e a conservação de uma sociedade essencialmente desigual (POULANTZAS.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. no capitalismo o Estado sempre funciona de modo a conservar os princípios da ordem: a propriedade privada e os vínculos econômicos que ligam trabalhadores e capitalistas. 2004). mais informações www. 2007). Ele aborda. de Karl Max. Isso pode ser feito tanto diretamente.com. como indiretamente. que devolve ao trabalhador.com. também. o modo de produção) dessas relações. escrito entre 1926 e 1937 (­ GRAMSCI. Tal é a razão de o marxismo sempre enfatizar o Estado em seus estudos.dominarem o proletariado é exatamente a natureza do vínculo econômico entre eles: a riqueza gerada pelo trabalho do trabalhador é. isto é. em forma de salário. em sua esmagadora maioria. e as formas específicas de que se revestem as relações antagônicas entre classes. de Antonio Gramsci. 1973). de 1852 (MARX.planoeducacao.. assine o site www. É por isso que o Estado contribui para a dominação. Poder Político e Classes Sociais. de Karl Marx e Friedrich Engels.br 29 . Este movimento ganhou força a Para assistir as videoaulas deste livro. 1977). de Ralph Miliband. graças ao próprio funcionamento objetivo do Estado em nome da “economia de mercado”. de Nicos Poulantzas.A. O Estado é uma peça central do pensamento marxista pelo motivo de ele desempenhar uma função central na dominação de uma classe pela outra: o Estado sempre funciona de modo a conservar a ordem de qualquer sociedade. após o Comportamentalismo. 1997).iesde. De toda forma.

duas abordagens radicalmente diferentes que reivindicam ou são reconhecidas pelo rótulo de neoinstitucionalistas.planoeducacao. trata-se de uma tradição teórica que volta a colocar as instituições políticas e sociais no centro das atenções. São já tradicionais os estudos sobre a ação de políticos e partidos no Parlamento. O Institucionalismo de escolha racional tem.partir da década de 1970. que é uma teoria econômica que constrói seu argumento a partir de axiomas ou grandes premissas sobre a natureza do comportamento humano. contudo. contudo. as instituições políticas são vistas como conjuntos de regras que definem o que está em jogo e como se deve jogar. mais informações www. a grande desvantagem de não levar em consideração as especificidades do universo da política em relação à ecoPara assistir as videoaulas deste livro. Cada regime tem uma estrutura institucional peculiar que estabelece princípios e normas para se fazer política. e são suas correntes principais. As instituições têm aqui esse sentido: são regulamentos tais como aqueles que orientam um jogo de tabuleiro e discriminam a margem de manobra dos concorrentes. especialmente a teoria da escolha racional. no sentido econômico do termo. Imaginemos como se dá o “jogo da política”. por exemplo.com. Essas regras vão desde as formas implícitas que regulam a distribuição do poder em uma comunidade até as normas constitucionais que definem as atribuições e disciplinam o funcionamento do Congresso. Como o nome sugere. Neoinstitucionalismo de escolha racional O Neoinstitucionalismo de escolha racional deriva do movimento de aplicação de teorias oriundas da Economia à Ciência Política. pois os analistas buscam prever a ação que o indivíduo irá tomar partindo da premissa de que seu raciocínio seria racional e que sua avaliação entre os fins e meios seria semelhante à do analista. Esses axiomas referem-se à natureza calculista. Assim. Os neoinstitucionalistas de escolha racional analisam então as regras que regulam o jogo para considerar como elas afetam os cálculos e o comportamento dos indivíduos.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. racional e maximizadora (poderíamos mesmo dizer egoísta) do ser humano.br Ciências Políticas I 30 . assine o site www. Trata-se de uma teoria frequentemente aplicada a casos mais pontuais e específicos. Há. ou seja. da maneira mais precisa possível. O intuito é prever. Isso permite a realização de vários cálculos e previsões..iesde. buscam atingir os fins determinados com o mínimo dispêndio de recursos (meios). A ênfase dessa corrente recai sobre o comportamento político de grupos e indivíduos. Todos os indivíduos estabelecem objetivos e os perseguem racionalmente. A dimensão institucional do Neoinstitucionalismo de escolha racional consiste em entender as instituições como as “regras do jogo”. as ações e as opções dos “jogadores”.A.com.

As instituições podem ser formalizadas. Outra insuficiência dessa perspectiva analítica é desconsiderar a história das instituições políticas. o Neoinstitucionalismo histórico. de onde tirou a inspiração para construir o modelo para analisar as ações de indivíduos e grupos. nos protocolos formais etc. Karl Marx e Émile Durkheim (1858-1917). The Logic of Collective Action. com o passar do tempo e por meio de processos históricos complexos. como costumes sociais. pensar e agir que. na verdade. o Neoinstitucionalismo histórico é uma tradição teórica altamente influenciada pela Sociologia. formas de organização econômica regulares porém não formalizadas ou hierarquias sociais tácitas. Sustentam que instituições políticas (e. Sua concepção das instituições e a forma como as considera são largamente inspiradas pela Sociologia clássica de Max Weber. Entendem as instituições como algo além de meras “regras de jogo” – como fazem os neoinstitucionalistas de escolha racional. 1957). ou seja. de Anthony Downs. de Mancur Olson. Para assistir as videoaulas deste livro. Esse é o assunto da outra corrente.A. assine o site www. que veremos a seguir.br 31 A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas .planoeducacao. Neoinstitucionalismo histórico Assim como o Culturalismo.com. ou como a história e os fatores sociais pesam na escolha e na ação política dos indivíduos. estando mesmo na base do pensamento dos indivíduos.nomia. mais informações www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. como no caso da família ou do Direito. Ainda que não deixem de ser “regras do jogo”. vão muito além disso. obrigando-os a ajustarem seu comportamento a determinadas regras e princípios. quaisquer instituições sociais) consistem em maneiras de ser. de 1965 (OLSON. incorporando-se nas “coisas” (nos códigos jurídicos.iesde. o Neoinstitucionalismo histórico busca explicar os fenômenos políticos analisando o processo histórico de formação e transformação das instituições sociopolíticas. generalizam-se na sociedade. 1965). Trabalhos clássicos do Neoinstitucionalismo de escolha racional An Economic Theory of Democracy.com.. Esse Neoinstitucionalismo também se distingue daquele de escolha racional porque é histórico. Dessa forma. ele estuda e enfatiza a transformação das instituições com o passar do tempo. ou podem ser informais. de 1957 (DOWNS. As instituições consistem assim em regularidades que atravessam toda a sociedade e exercem coerção sobre os indivíduos.) e nas “mentes” (nos sistemas de valores e nas formas de pensamento) das pessoas.

Trata-se. a política e os fenômenos políticos. e outras menores que não mencionamos aqui. de Theda Skocpol. uma ciência. Também distinguimos claramente ciência e política. apresentamos as principais correntes teórico-metodológicas que compõem a Ciência Política.com.iesde. Há muitas subdivisões nas correntes que apresentamos.planoeducacao.A. convidamos o estudioso interessado a consultar as Referências. A Ciência Política atual. Big Structures. ou a transição das ditaduras militares para a democracia constitucional). ser aplicada a casos mais específicos. sempre. isto é. portanto. de modo a deixar claro que a Ciência Política não se confunde com a política propriamente dita (seu objeto de estudo). de 1984 (TILLY. 1979). Large Processes.. Conclusão Definimos o objeto de estudo da Ciência Política. Essa distância é muito importante para que a Ciência Política seja. mais informações www. especialmente a norte-americana. contudo. de 1979 (SKOCPOL. Aqui. e como a Ciência Política busca descrever e explicar esses processos.br . Trabalhos clássicos do Neoinstitucionalismo histórico States and Social Revolutions. O debate entre elas é também extremamente rico e instigante e é impossível reproduzi-lo em poucas páginas. A seguir. como a formação de uma política de governo.Os neoinstitucionalistas históricos buscam explicar fenômenos históricos e políticos de longo alcance.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. sofisticada e complexa. a processos que envolvem poder. de fato. Assim. 1984). Vimos como a política refere-se. como o processo de modernização das sociedades (a passagem da sociedade tradicional para a sociedade industrial) ou a transformação de regimes políticos e sociais (a passagem dos regimes comunistas aos capitalistas. de modo a aprofundar seu conhecimento. de Charles Tilly. assine o site www. Ciências Políticas I 32 Para assistir as videoaulas deste livro.com. de uma teoria de grande alcance que pode. Huge Comparisons. é extremamente especializada. o foco de análise residiria na história do sistema institucional (que pode ser formal ou não) responsável por definir e decidir sobre uma questão política específica.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. ou por um príncipe e por barões. não por graça do senhor mas por antiguidade de sangue. encontrará dificuldades para conquistar o Estado Turco. porque em toda a sua província não existe alguém reconhecido como chefe senão ele..iesde. encontrar-se-á em todos os sentidos maior facilidade para ocupar o Estado de França. Os exemplos dessas duas espécies de governo são. encontrará grande facilidade para conservá-lo. tendo se tornado senhor da Ásia em poucos anos. e se os súditos obedecem a algum outro. mais informações www. Ao contrário.A. nos nossos tempos. 25-28. são reconhecidos pelos seus súditos e por eles amados: têm as suas preeminências e não pode o rei privá-los das mesmas sem perigo para si próprio. 2001. nasceu entre eles mesmos. Estes barões têm Estados e súditos próprios que os reconhecem por senhores e a eles dedicam natural afeição.planoeducacao. por ambição pessoal. dividindo o seu reino em sandjaks. nessa qualidade. pois. alguém poderia ficar pasmo ante o fato de que. Quem tiver em mira. a despeito de parecer razoável que todo aquele Estado devesse rebelar-se. mas grande dificuldade para mantê-lo. Mas o rei de França está em meio a uma multidão de antigos senhores que.com. não se rebelou contra seus sucessores após a morte deste 1. Toda a monarquia do Turco é dirigida por um senhor: os outros são seus servos. os quais. não apenas havia terminado sua ocupação Alexandre Magno veio a morrer e. Os Estados que são governados por um príncipe e servos têm aquele como maior autoridade. sendo todos os demais servos que. o Turco e o rei de França.com. 2. vencido que seja este. assine o site www. como ministros por graça e concessão sua. fazem-no em razão de sua posição de ministro e oficial. ocupado por Alexandre. Para assistir as videoaulas deste livro. têm aquele grau de ministros. 77) Capítulo IV A razão pela qual o reino de Dario. Consideradas as dificuldades que devem ser enfrentadas para a conservação de um Estado recém-conquistado. mas. Argumento: os principados de que se conserva memória têm sido governados de duas formas diversas: ou por um príncipe. p. para aí manda diversos administradores e os muda e varia de acordo com sua própria vontade. um e outro desses governos. não lhe dedicando o menor amor. ajudam a governar o Estado. seus sucessores o conservaram e para tanto não encontraram outra dificuldade senão aquela que.br 33 A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas .Texto complementar O príncipe (fragmentos) (MAQUIAVEL.

depois dela não deve receá-lo. são mais dificilmente corruptíveis e. não se deve recear outra coisa senão a dinastia do príncipe. vencido que seja e uma vez desbaratado em batalha campal de modo que não possa refazer os exércitos. 4. 5. convindo contar mais com suas próprias forças que com as desordens dos outros.iesde. se desejares manter-te. Logo. Puderam eles.. pois que sempre se encontram descontentes e os que desejam fazer inovações. para o seu lado. Esta. Dessa circunstância é que nasceram as frequentes rebeliões da Espanha. já que os demais não gozam de prestígio junto ao povo. poder ter facilitada a sua empresa: é o que resulta das razões referidas.com. combatendo mais tarde em lutas internas. se alguém assaltar o Estado Turco. Mas extinta a lembrança dos principados. Porque. uma vez extinta esta. e essas províncias. pouco de útil poder-se-ia esperar. ninguém mais resta que deva ser temido. arrasta atrás de si infinitas dificuldades.br Ciências Políticas I 34 . e como o vencedor deste nada podia esperar antes da vitória. assine o site www. Mas quanto aos Estados organizados como o da França. Seus sucessores. deve pensar que irá encontrá-lo todo unido. pois permanecem aqueles senhores que se tornam chefes das novas revoluções e. se tivessem sido unidos. pelas razões referidas. arrastar cada facção. com a rebelião dos que rodeiam o soberano. poderiam tê-lo gozado tranquilamente. pelos motivos já mencionados. se o encontrará semelhante ao reino do Turco. visto não serem eles capazes de arrastar o povo atrás de si. podem abrir o acesso àquele Estado e facilitar a vitória. depois da vitória. segundo a autoridade que havia adquirido junto a elas. se for considerado de que natureza era o governo de Dario. estando morto Dario. com o poder e a constância de sua autoridade.A. Para Alexandre foi necessário primeiro encurralá-lo e desbaratá-lo em batalha campal sendo que. Mas. sendo todos escravos e obrigados. é impossível possuí-los com tanta tranquilidade. seja com aqueles que te ajudaram. não reconheciam Para assistir as videoaulas deste livro. As razões da dificuldade em ocupar o reino do Turco decorrem de não poder o atacante ser chamado por príncipes daquele reino. em decorrência do grande número de principados que havia naqueles Estados e por todo o tempo em que perdurou a sua memória os romanos estiveram inseguros na posse daqueles domínios.planoeducacao. da França e da Grécia contra os romanos. mais informações www. não podendo nem contentá-los nem exterminá-los.com. nem esperar. Estes. por não mais existir o sangue de seus antigos senhores.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. seja com os que oprimiste. depois. perde aquele Estado tão logo surja a oportunidade. O contrário ocorre nos reinos como o de França. quando fossem subornados. parte daquelas províncias. aquele Estado tornou-se seguro para Alexandre pelas razões acima expostas. porque com facilidade podes invadi-lo em obtendo o apoio de algum barão do reino. os romanos tornaram-se dominadores seguros.3. pois ali não surgiram outros tumultos que não os por eles próprios provocados. Ora. Não é bastante extinguir a estirpe do príncipe. também.

Deixando de parte. Resta ver agora quais devam ser os modos e o proceder de um príncipe para com os súditos e os amigos e. como Pirro e muitos outros. porque sei que muitos já escreveram a respeito. os assuntos relativos a um príncipe imaginário e falando daqueles que são verdadeiros. Consideradas. segundo a necessidade. alguns cruéis. (N. Isso não resultou da muita ou da pouca virtude do vencedor. porque avaro em nossa língua é ainda aquele que deseja possuir por rapina. Mas. digo que todos os homens. sendo minha intenção escrever algo de útil para quem por tal se interesse.1 o outro fiel. perder-se-á em meio a tantos que não são bons. pois muitos conceberam repúblicas e principados jamais vistos ou conhecidos como tendo realmente existido. eis que um homem que queira em todas as suas palavras fazer profissão de bondade.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. alguns são tidos como pródigos.iesde. e especialmente os príncipes.A. enquanto miserável chamamos aquele que se abstém em excesso de usar o que possui). [.. assim. mas sim da diversidade de forma do objeto da conquista. se fazem notar por alguns daqueles atributos que lhes acarretam ou reprovação ou louvor. traidor. 2. máxime os príncipes por situados em posição mais preeminente. há tanta diferença de como se vive e como se deveria viver. alguns piedosos. o outro feroz e animoso. mais informações www.) Para assistir as videoaulas deste livro. ninguém se maravilhará da facilidade que Alexandre encontrou para conservar o Estado da Ásia.com. e das dificuldades que foram arrostadas pelos outros para manterem o conquistado. aprender a poder não ser bom e usar ou não da bondade. Em verdade. que aquele que abandone o que se faz por aquilo que se deveria fazer.. são louvados ou vituperados 1. todas estas coisas. máxime quando irei disputar essa matéria à orientação já por outros dada aos príncipes.senão a soberania dos romanos. aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação. um efeminado e pusilânime. assine o site www. da E.com.br 35 ..planoeducacao. Assim é que alguns são havidos como liberais.] Capítulo XV Daquelas coisas pelas quais os homens. pareceume mais conveniente ir em busca da verdade extraída dos fatos e não à imaginação dos mesmos. a um príncipe que queira se manter. quando analisados. Donde é necessário. um 1 A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas Fedífrago: aquele que foge a um compromisso ou não cumpre um acordo. alguns miseráveis (usando um termo toscano. um fedífrago. alguns rapaces. pois. duvido não ser considerado presunçoso escrevendo ainda sobre o mesmo assunto.

e alguma outra que. Ainda. o outro astuto. próprio do senso comum. sem eles. praticada acarretará ruína. mais informações www.com.planoeducacao. difícil se lhe torne salvar o Estado. ou com aquelas ações relativas ao processo de governo. Ciências Políticas I 36 Para assistir as videoaulas deste livro. de todos os atributos acima referidos. parecendo virtude.. é necessário seja o príncipe tão prudente que saiba fugir à infâmia daqueles vícios que o fariam perder o poder. 3. Mas há outro sentido. Vimos que a palavra política tem vários sentidos.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. O principal deles. identifica a política com a política institucional. não podendo evitar.humano. Sei que cada um confessará que seria sumamente louvável encontrarem-se em um príncipe. mais amplo.br . Atividades 1. é possível tolerá-los. apenas aqueles que são considerados bons. cuidando evitar até mesmo aqueles que não chegariam a pôr em risco o seu posto. desde que não os podem possuir nem inteiramente observá-los em razão das contingências humanas não o permitirem. que constitui o objeto da Ciência Política. pois. mas. um duro.com. não evite o príncipe de incorrer na má faina daqueles vícios que. um simples. o outro leviano. o outro incrédulo. um grave. o outro soberbo. sempre se encontrará alguma coisa que. o outro fácil. um religioso. com aparência de vício.A. assine o site www. mas. se bem que com quebra do respeito devido. e assim por diante. Diga qual é esse sentido de política e explique-o. um lascivo.iesde. se bem considerado for tudo. o outro casto. seguida dará origem à segurança e ao bem-estar.

. assine o site www. Para assistir as videoaulas deste livro. Por que os fenômenos políticos estão tão próximos do poder? O que isso representa para a Ciência Política? Explique.com.A. Vimos que existe uma relação muito próxima entre o poder.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.planoeducacao.iesde. mais informações www.br 37 A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas . os fenômenos políticos e a Ciência Política.2.com.

.com. Ciências Políticas I 38 Para assistir as videoaulas deste livro.com.br .A. Descreva como a Ciência Política se relaciona com a política.planoeducacao. Diferencie ciência e política.3. assine o site www. e descreva os objetivos de cada uma. mais informações www.iesde.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.

planoeducacao.4.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Para assistir as videoaulas deste livro. assine o site www.A.com.. Especifique o foco de análise e sintetize o argumento central de três correntes teórico-metodológicas da Ciência Política.iesde.com.br 39 A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas . mais informações www.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.br ..iesde.com. assine o site www.com.planoeducacao.Para assistir as videoaulas deste livro. mais informações www.

no seu importante livro Política. Maquiavel e Hobbes.planoeducacao. autoridade e mesmo força ao de poder.. primeiro. Para assistir as videoaulas deste livro.) propôs. Por isso. Faremos isso. em vez de prescrever uma política ideal e idealizada. Ainda que a Ciência Política seja relativamente recente. assine o site www. cientificamente.C. Por isso. Contudo. apresentando a definição clássica do filósofo Thomas Hobbes (1588-1679). lançando assim uma luz sobre os aspectos éticos da política. a Aristóteles.iesde. aristocracia (governo de poucos) e democracia (governo de muitos) permanecem até hoje. Suas conotações são tão diversas e seus usos tão amplos que.com. Maquiavel (1469-1627) introduziu uma forma nova de ver os conflitos em torno do poder construindo uma plataforma para o estudo científico da política ao procurar conhecer as causas reais do sucesso dos governantes.) estabeleceu as bases do pensamento político em sua obra A República. Platão (428-347 a. Aristóteles (384-322 a. principalmente. ela deve muito à filosofia política e. uma tipologia das formas de governo que se tornaria clássica e cujas definições de monarquia (governo de um só). Vamos discutir o conceito de poder e suas várias implicações mostrando sua utilidade (e atualidade) analítica.A.com. em que investiga a comunidade política ideal. mais informações www. ele é também o conceito mais problemático e sobre o qual há provavelmente menos consenso. Platão. A seguir. resumiremos as concepções de poder subjetivistas (que focam os indivíduos como o centro das relações de poder) e as concepções objetivistas (que atribuem a fatores extraindividuais o fundamento do poder). a noção de poder torna-se muitas vezes vaga e pouco operacional.O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas A definição de poder é o conceito central da Ciência Política. Todos esses autores influenciaram profundamente a reflexão da Ciência Política atual.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br 41 . alguns teóricos sociais preferem os conceitos de dominação.C. tomando forma apenas a partir do início do século XX. vários pensadores e filósofos refletiram e estudaram a política e os fenômenos ligados ao poder muito antes disso.

. como adiantamos. Seu modelo de explicação da origem do Estado baseia-se na noção de um estado de natureza brutal. o que equivale a dizer uma intenção. A concepção de poder de Thomas Hobbes: seu princípio Em sua obra principal. e ninguém governa sem mobilizar recursos para realizar seus interesses. conflituoso do poder e da natureza humana em geral. Seja de forma dissimulada. Os homens têm a capacidade de Ciências Políticas I 42 Para assistir as videoaulas deste livro. enfatizando especialmente o caráter agonístico. impondo-os sobre outrem. conflituoso). Hobbes possui. também implica o poder.A.br . que trataremos agora.Já Hobbes propôs aquilo que seria. O Leviatã (1651). mais tarde. imperceptíveis e mesmo dissimuladas de influência. Na verdade.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com. não é possível separar política de poder. Thomas Hobbes apresentou uma concepção de poder que influenciaria todas as ciências humanas. É preciso. a adotar certa atitude ou realizar determinada ação. uma visão agonística da natureza humana. implica necessariamente o poder: ninguém governa sem conflito. A política em sentido amplo. a política sempre envolve poder. crenças ou motivações. os seres humanos não são animais comuns: eles são dotados de uma vontade. anterior à vida civil.planoeducacao. conflito e controle. como ato de governar. estimulando-a a adotar certas atitudes ou formas de pensar. Isso implica a presença de faculdades cognitivas que distinguem o ser humano dos animais. Porém. em que os homens são orientados pela realização de seus interesses e aspirações mesmo que para tal seja necessário liquidar fisicamente seus adversários. inclusive a Ciência Política. ou seja.com. em que uma parte obriga a outra. Por isso. sob ameaça. grupos ou instituições que possuem algum caráter agonístico (isto é. Poder e política A política no sentido estrito. mais informações www. como fenômeno ligado à gestão ou à “administração pública”. como em uma relação em que uma parte influencia imperceptivelmente a outra. seja da forma mais explícita. aquela que envolve formas ocultas. É dele. assine o site www. Isso perpassa todo o seu pensamento e é sua principal característica. Toda discussão contemporânea sobre o poder deve ou relaciona-se em alguma medida à definição de Hobbes. o que chamamos de fenômenos políticos ou processos políticos envolve necessariamente o poder: todo fenômeno político implica relações entre indivíduos. como em uma relação de conflito claro e aberto.iesde. que entendamos bem sua concepção. do conceito de poder. portanto. o princípio central da Ciência Política: a definição de poder.

existe entre os homens e que é transmitido ao Estado de modo a suprimir a guerra de todos contra todos: o poder. Os valores ou as “necessidades do espírito” que Hobbes menciona referem-se aos significados que produzimos. As pessoas são motivadas.br 43 . que é incorporado e acumulado. uma propriedade que o indivíduo possui e que lhe confere maiores chances de realizar seus interesses e obter ou acumular algum valor ou benefício. e que dão sentido à vida.iesde. Tanto a subsistência como o preenchimento das “necessidades do espírito” se dão por meio da luta entre indivíduos e grupos. uma propriedade que faz parte dos indivíduos. Mas esse não é nosso foco. E os seres humanos não abominam a luta: muito pelo contrário.com. John Locke (1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) são denominados filósofos contratualistas pelo fato de em suas obras a ideia de contrato entre os indivíduos ser central para explicar o nascimento da vida social. 1 Thomas Hobbes. por exemplo. para tanto. estão naturalmente propensos a lutar por seus interesses (tanto aqueles relativos à subsistência como aqueles relativos aos valores perseguidos).criar e perseguir valores. isto é. Na realidade.A. mais informações www.. A concepção de poder de Thomas Hobbes: sua definição Poder como recursos. Hobbes chama esses valores ou benefícios de bens. valores. os quais tomam formas particulares na realidade concreta – prestígio ou o reconhecimento social. segundo Hobbes. a criação do Estado soberano.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. A passagem do estado de natureza ao estado de direito é um marco civilizatório: os indivíduos abrem mão de sua liberdade total e passam. assine o site www. bens etc. mas é importante mencionar que o termo aqui não tem a conotação exclusivamente material de seu uso comum: qualquer coisa que favoreça ou que permita a um indivíduo obter determinados ganhos. atributos e propriedades O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas O poder é um atributo essencial. o poder é um recurso.com. Nosso foco é aquilo que. O estado de natureza a que Hobbes e todos os filósofos contratualistas1 se referem consiste na situação hipotética que precede a formação do Estado: trata-se de uma circunstância em que os indivíduos não estão submetidos a um poder maior. da simples subsistência. em nome do bem comum. Os seres humanos precisam preencher algo que vai além da mera sobrevivência biológica. A essa “coisa” se dá o nome geral de recursos ou meios. A supressão dessa guerra de todos contra todos – a saída do estado de natureza – exige. por exemplo). valorizam e prezam uma infinidade de significados (como a honra. vivendo em constante guerra entre si. Para assistir as videoaulas deste livro.planoeducacao. a submeter-se a leis e a um poder soberano encarnado no Soberano. é poder.

. o que adiciona uma dimensão relacional ao poder.A.planoeducacao. eloquência etc. ele depende do contexto no qual o indivíduo se insere (das relações com os outros.com. por exemplo). os poderes instrumentais.com. Assemelha-se a uma potencialidade ou a capacidades latentes que são aplicadas quando necessário. possui uma dimensão relacional. os próprios mecanismos de acumulação de capital favorecem a multiplicação do capital previamente adquirido.). detido. assine o site www. O poder. para obter quaisquer bens (materiais ou simbólicos).br . Poder atrai poder. É por isso que o poder não tem um valor em si mesmo: seu valor depende do contexto. mais informações www. possuído pelos homens. Não é qualquer bem que está em jogo em qualquer situação. Trata-se do que Hobbes chama de valor do poder. que nascem com a pessoa como as faculdades físicas e psicológicas individuais (força. O poder. como determinados recursos (riqueza. específica.iesde. é mais fácil dobrar uma fortuna de um milhão de reais do que atingir esse primeiro milhão. que são adquiridos e acumulados no decorrer da vida. apesar disso. inteligência. A aplicação eficaz do poder em uma determinada situação gera seu valor. ou seja. prestígio. isto é. Características gerais do poder O poder é cumulativo. é tanto essencial como relacional.Hobbes identifica duas classes gerais de poderes: os poderes naturais. mas cada situação irá exigir determinado recurso para se obter o bem em questão.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.). que possibilitam aos indivíduos que as possuam obter um determinado bem ou realizar objetivos que lhe confiram algum benefício. alguém oriundo de uma família culta tem mais chances de entrar em uma boa universidade. Essa ideia de Hobbes é bastante realista: alguém reconhecido como belo tem mais chances de conseguir um bom casamento do que alguém reconhecido como feio. fama. Essencial no sentido de que é algo inato. é mais fácil conservar a fortuna ou o poder do que conquistá-los. É como o capital econômico: superadas as condições iniciais para sua aquisição. títulos etc. em Hobbes. os poderes instrumentais conferem aos indivíduos mais chances de realizarem seus objetivos e acumularem bens. O valor é o julgamento social do poder. alguém rico tem mais chances de ser bem-sucedido em suas empreitadas no mercado do que alguém pobre etc. Por exemplo. seja por acaso e/ou a partir de seus poderes naturais – assim como os poderes naturais. Ciências Políticas I 44 Para assistir as videoaulas deste livro. beleza. A eficácia e a eficiência do recurso detido pelo indivíduo variam conforme uma situação particular.

embora o poder seja substantivo (na forma de recursos possuídos pelos indivíduos). no sentido de realizar algum interesse ou acumular bens. explícito ou implícito. ainda que possa haver. Algumas características da concepção formulada por Hobbes são recorrentes em praticamente qualquer definição do conceito de poder.com. do grau e da forma em que aqueles recursos possuídos pelos indivíduos são reconhecidos e valorizados socialmente. Uma característica recorrente em todas as teorizações é o entendimento do poder como algo que envolve algum tipo de conflito. refinada e problematizada posteriormente por muitos pensadores e cientistas políticos. a concepção hobbesiana de poder foi trabalhada. resumida acima. Para assistir as videoaulas deste livro. gerando várias interpretações que. As concepções subjetivistas são aquelas que entendem o poder como um fenômeno interindividual (entre indivíduos ou sujeitos). apesar de estarem de acordo quanto a certos pontos específicos (especialmente quanto ao caráter agonístico do poder).A. ou seja. as concepções objetivistas entendem o poder como um efeito social objetivo. divergem substancialmente em outros. influenciou toda a Ciência Política. Contudo. seja como ele for entendido ou que forma venha a tomar.planoeducacao. O poder envolvido nessas relações conflituosas. é sempre decisivo para determinar o resultado dessas relações conflituosas. Outra característica recorrente é o fato de o poder depender de recursos.Assim. ou quem ganha e quem perde. diferenças e discordâncias quanto a outros pontos. assine o site www.com. externo e geral. a sua efetivação.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.. seja se confundido com o próprio poder ou como meios de se exercer poder sobre alguém. aqui e ali. Os dois tipos de concepção de poder mais importantes da Ciência Política A concepção hobbesiana de poder.br 45 O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas .iesde. depende do valor. Poderíamos agrupar essas concepções em dois grandes tipos: as concepções subjetivistas e as concepções objetivistas. que produz efeitos políticos visíveis que podem ser apreendidos por meio das hierarquias sociais ou das relações de dominação. mais informações www. Os recursos sempre acompanham qualquer concepção de poder.

A concepção subjetivista de “poder”
Elementos da concepção subjetivista de poder
Para os subjetivistas, o poder é um fenômeno interindividual, ou seja, implica a consciência dos indivíduos e uma relação de conflito, explícita ou implícita, entre eles. A concepção subjetivista encontra sua formulação clássica nos escritos do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), que apresentou uma definição de poder das mais significativas: “Poder é a probabilidade de um ator, dentro de uma relação social, impor a sua vontade, a despeito de qualquer resistência, não importando a base sobre a qual essa probabilidade reside.” (WEBER, 1978, p. 53). Portanto, o poder, para os subjetivistas, é uma relação de conflito, em que necessariamente há indivíduos que possuem vontades, e que, utilizando-se de determinados recursos (que poderíamos chamar de meios de poder), impõem ou buscam impor a sua vontade, contra qualquer resistência. Por exemplo, um indivíduo rico utiliza o dinheiro que possui para influenciar políticos de modo a obter algum benefício ou realizar algum interesse. Essa relação é uma relação de poder. Nela, há uma vontade (manifesta pelo indivíduo), a qual, por meio da mobilização de recursos (neste caso, o dinheiro), é imposta a outrem. O dinheiro não é o único tipo de recurso ou meio de poder – aqui é preciso lembrar de Hobbes: alguém pode ser, por exemplo, muito bonito ou muito sábio e, assim, mobilizando sua beleza ou sua sabedoria, pode impor sua vontade sobre outrem; isso, também, é poder.

Recursos e poder sob a óptica subjetivista
O que é muito importante enfatizar é que os recursos não se confundem com o poder: são meios de poder, ou seja, são a base na qual o poder reside. O poder é, nessa perspectiva, uma relação social; ele só existe naquele tipo de relações em que há a vontade de algum indivíduo, que mobiliza determinados recursos para impor essa vontade sobre outro indivíduo. O poder, portanto, não está nas pessoas, ele não é uma essência ou propriedade inata dos indivíduos. O poder é um conceito usado para definir aquele tipo de relação social de imposição entre os indivíduos. Por isso, segundo a concepção subjetivista, a expressão fulano tem poder é imprecisa, ainda que não seja categoricamente recusada. A forma mais precisa de se aplicar o conceito de poder, para os subjetivistas, seria dizer que fulano tem grandes chances de ser beneficiado ou de impor a sua vontade em uma relação de poder, caso possua a quantidade de recursos necessária para tanto.
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É interessante atentar que a concepção subjetivista de poder é muito parecida com aquela formulada por Hobbes em meados do século XVII. Os subjetivistas diferenciam-se de Hobbes, contudo, por delimitarem mais sua definição: o poder não é algo essencial, no sentido de uma característica ou propriedade inata; ele é um tipo de relação social específica. Assim, só há poder quando essa relação social específica ocorre, e ela envolve indivíduos, suas vontades, os recursos disponíveis, a capacidade de mobilização desses recursos, e a imposição (bem-sucedida ou não) dessas vontades.

Poder e coerção
Para os subjetivistas, o poder também costuma ter um caráter coercitivo. Ou seja, tende-se a lançar mão do conceito de poder para definir relações sociais explicitamente conflituosas, em que uma parte ameaça a outra de modo a obrigá-la a agir de determinada maneira ou com determinado fim. Desse modo, os subjetivistas tendem a usar sinônimos ou palavras semanticamente semelhantes, como influência ou autoridade para definir relações de conflito mais sutis e tácitas, por exemplo, quando alguém convence outro a agir de certa forma, ou quando alguém, graças à sua autoridade, influencia outro indivíduo a fazer o mesmo.

Exemplos de relações de poder
Vejamos alguns exemplos típicos de relações de poder segundo os subjetivistas. Imaginemos dois indivíduos, A e B, sendo ambos governantes de países distintos. Na situação em que estão envolvidos, A deseja que B aja de acordo com seus interesses. Deseja, portanto, que B siga a sua vontade. Neste caso, A quer que B ceda territórios ao seu país. Para atingir esse objetivo, A mobiliza recursos (a força militar) para obrigar B a ceder à sua vontade (ceder territórios), ameaçando, por meio daqueles recursos, privá-lo de algo que ele preza caso não aja de acordo (invadir e subjugar o país de B à força). Ou então: um grande empresário (dono de um hipermercado, por exemplo) quer atuar em uma nova cidade. Esse mercado está repleto de pequenos comerciantes (supermercados de bairro, padarias, mercearias, lojas familiares etc.). O grande empresário deseja obter sucesso em sua nova empreitada. Sua vontade, contudo, esbarra nas vontades dos pequenos comerciantes, que não desejam que uma grande empresa domine o mercado local. Mas eles pouco podem fazer: o grande empresário mobiliza recursos (dinheiro, capacidade administrativa, marketing etc.) eficientes para esse propósito e em maior quantidade que os pequenos comerciantes, de modo a realizar sua vontade de obter sucesso econômico. No processo, a firma do grande empresário domina o mercado que antes estava repleto de comerciantes locais, obrigando muitos a venderem suas propriedades a ele.
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O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas

Pensemos, por fim, em mais um exemplo: um pai de família deseja que seus filhos comportem-se melhor dentro de casa. Para fazer com que sua vontade se realize e prevaleça, ele mobiliza certos recursos (a autoridade paterna ou mesmo a força física) para obrigar que seus filhos ajam de acordo com seus interesses, ameaçando-os de perderem algo que prezam (a mesada, por exemplo) ou a se submeterem a algo desagradável (um castigo, por exemplo) caso recusem a ajustar-se à vontade do pai.

Concepção subjetivista de poder
Segundo a concepção subjetivista, onde há indivíduos dotados de motivações ou vontades diferentes, havendo recursos sendo mobilizados de modo a impor essas vontades a outrem, contra qualquer resistência, há poder.

Obras sobre a concepção subjetivista do poder
Two faces of power, de Peter Bachrach e Morton Baratz. (BACHRACH; BARATZ, 1969). Análise Política Moderna, de Robert Dahl (DAHL, 1988). Who Governs?, de Robert Dahl (DAHL, 1989). Economia e Sociedade, de Max Weber (WEBER, 1994).

No tópico seguinte, vamos descrever uma concepção que se diferencia e se opõe à concepção subjetivista. É chamada de objetivista por entender o poder como um fenômeno objetivo, externo, generalizado e irredutível aos indivíduos.

A concepção objetivista de “poder”
A dimensão sutil e tácita do poder
Assim como a concepção subjetivista, a concepção objetivista entende o poder como uma situação que envolve algum grau de conflito. Sejamos mais precisos: ­ trata-se de uma situação em que alguém é beneficiado enquanto outro não é, ou é explicitamente prejudicado. O grau e a forma em que alguém ganha ou perde varia de situações menos perceptíveis (e nem por isso menos prejudiciais ao desfavorecido pela relação
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de poder) às mais explícitas e perceptíveis. Nestas, os próprios indivíduos submetidos ao poder costumam saber que estão sendo prejudicados. Essa dimensão explícita e perceptível do poder é semelhante à concepção que os subjetivistas têm do poder. Em geral, os objetivistas não recusam a concepção subjetivista, entendendo que esta descreve, na realidade, formas explícitas de poder (em geral, são os subjetivistas que costumam recusar as concepções objetivistas de poder, criticando a elevada abstração das proposições dos objetivistas). Os objetivistas, portanto, reconhecem que as situações que os subjetivistas descrevem como relações de poder envolvem, de fato, poder. Contudo, insistem que o poder não se reduz a relações interindividuais ou à consciência dos indivíduos (vontade); pelo contrário, a dimensão mais importante (e mais eficaz) do poder não é claramente visível e – isso é o fundamental dessa concepção – não depende das vontades individuais para existir e ser exercido. Os objetivistas abordam dimensões mais sutis do poder.

Poder como um efeito generalizado de instituições sociais
Umberto Cerroni apresenta muito bem os princípios da concepção objetivista, criticando as concepções subjetivistas ao falar do Estado:
[...] com a redução do complexo e diferenciado fenômeno histórico do Estado à mera máquina coativa acionada pela vontade (arbitrária) da elite governante, desaparece a especificidade da vontade política como estrutura normativa que faz funcionar coativamente uma regra social destinada a viabilizar um mínimo de consenso. E fica assim fechada a panorâmica sobre a construção de um sistema normativo dotado de um máximo de consenso, como se anuncia possível na democracia moderna. (CERRONI, 1993, p. 202)

Quando fala da “redução do complexo e diferenciado fenômeno histórico do Estado à mera máquina acionada pela vontade da elite governante”, Cerroni está criticando a visão subjetivista, que entende que o poder (e os fenômenos sociais em geral) é determinado pelas motivações individuais: a vontade individual faz funcionar a “máquina coativa” do Estado. Para Cerroni, assim como para os objetivistas, tanto o poder como os fenômenos sociais são relativamente independentes das vontades individuais, invertendo a relação de causalidade: são as vontades individuais que dependem e são determinadas pelos fenômenos sociais e coletivos (como o poder), e não o contrário. Assim, logo a seguir ele apresenta e defende a concepção objetivista de poder ao falar do Estado: a “vontade política” é o produto de uma “estrutura normativa” (que podemos entender como um conjunto de instituições, regras e procedimentos moldados historicamente e profundamente impingidos nas mentes das pessoas, orientando seu comportamento). Essa “estrutura normativa” gera, assim, papéis sociais determinados que os indivíduos precisam assumir – papéis esses que, por sua vez, implicam uma hierarquia social e uma divisão desigual de benefícios e privilégios. O poder, portanto, é independente das vontades individuais, sendo um fenômeno objetivo, social, coletivo e generalizado.
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O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas

Falando do “poder simbólico”, Pierre Bourdieu também apresenta uma concepção objetivista de poder:
[...] é necessário saber descobri-lo [o poder] onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado, portanto, reconhecido: o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. (BOURDIEU, 2003, p. 7)

Bourdieu está defendendo a ideia de que as próprias instituições sociais (em sentido lato: os sistemas simbólicos, a cultura, os valores, os papéis sociais, as várias hierarquias sociais, as profissões, as organizações etc.) geram situações que implicam a existência de poder. Por seu próprio funcionamento, as instituições sociais geram hierarquias e privilégios.

Poder e consenso
Os objetivistas enfatizam, com a discussão sobre o poder, a questão do consenso tácito. Querem dizer que a principal dimensão do poder não consiste no momento em que um indivíduo impõe sua vontade sobre outro; mas no próprio consenso acerca do que vale a pena impor; lutar ou valorizar. E principalmente no consenso acerca do valor das coisas. Assim, o poder é um fenômeno cognitivo, ou seja, que opera em um nível inconsciente: por meio da socialização e da educação sistemática, as instituições sociais incutem nos indivíduos formas de pensamento, categorias de percepção, de apreciação e de julgamento do mundo que: fazem com que os indivíduos aceitem inconscientemente as divisões e hierarquias do mundo social tais como são, reconhecendo formas de dominação como legítimas; fazem os indivíduos entenderem o mundo de uma forma hierárquica. Damos um exemplo. Em alguns países, no passado ou mesmo hoje, a condição étnica de judeu ou de negro era altamente negativa. Bastava ser judeu ou negro para sofrer vários tipos de desfavorecimento em diversas situações da vida, como no trabalho, e mesmo descrédito e desonra nas relações sociais. Para os objetivistas, isso é uma forma de poder – e é particularmente terrível, porque as pessoas dificilmente conseguem percebê-la como poder ou dominação. Alguém não precisa impor a sua vontade sobre negros ou judeus para que estes estejam submetidos e sejam desfavorecidos na sociedade. Basta ser judeu ou negro em uma sociedade que desvaloriza essas características.

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uma estrutura de poder ou de dominação. Isso tudo ocorre por meio da adaptação.br 51 . elas se ajustam a uma condição hierarquizada. em suas divisões e em suas diferentes condições de existência. generalizadas e. O poder.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. mais perverso: ele reside nas próprias condições sociais objetivas que fizeram aquele indivíduo ser analfabeto e os outros. tornando as pessoas desiguais. A falta. Tal falta é sempre reconhecida. Na verdade. colocando uns em condições desprivilegiadas em relação a outros. todos irão imediatamente reconhecer sua condição. por exemplo. Se durante os debates esse indivíduo for. a característica negativa é sempre reconhecida. voltando a esse exemplo. ou seja. Assim. de suas benesses e vantagens materiais e simbólicas. Nisso tudo. assine o site www. enquanto outros tiveram acesso a tudo isso. principalmente.iesde.com.A. a desvantagem. a cultura acumulada por anos de leitura etc. não pertence). mas a falta de alguma coisa muito importante naquele universo: certas capacidades específicas (a língua culta. Para assistir as videoaulas deste livro. mas do prestígio (de ser) intelectual. mais informações www.Os exemplos podem se multiplicar ao infinito. o poder aqui é muito mais sutil e. o poder atuou também quando as pessoas.planoeducacao. de uma forma ou de outra. intelectuais. Não somente a sua diferença em relação aos demais (ser iletrado em um meio de letrados). que fornecem às pessoas atributos e capacidades desigualmente valorizados. que lhes confere ou não privilégios de todos os tipos. Assim. por exemplo) e outros atributos intelectuais significativos (a fraseologia complexa. o analfabeto está definitivamente excluído não apenas daquele meio (ao qual. tanto o analfabeto como os demais. e a reprová-lo por isso. na verdade. agiu quando o analfabeto nunca pôde cursar uma escola ou por não ter tido acesso a livros. ainda que a forma do reconhecimento varie: aquela coletividade pode reagir com pena.). invisíveis que estão gerando todo tipo de hierarquias e desigualdades. portanto. em uma situação assim muito provavelmente ele será estigmatizado ou mesmo ridicularizado. nessa perspectiva. fazer uma pergunta ou dar uma opinião. O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas Poder e sociedade O poder está na própria sociedade.. digamos. coletivas. Imaginemos um indivíduo analfabeto. da imitação e da educação. mas como o símbolo de uma falta: a falta da capacidade de se pronunciar sobre os assuntos que inclusive dizem respeito aos não alfabetizados. Ajustando-se as pessoas ao meio social. em meio a uma conferência universitária.com. se olharmos somente para os indivíduos não entenderemos que aí está operando. mas a pena é apenas uma forma virtuosa de reconhecer e discriminar uma desvantagem. por direito. A negação do direito de voto aos analfabetos no Brasil durante a maior parte do século XX é um caso da mesma família. que nunca passou pela escola. aprenderam não só a olhar para o analfabetismo como algo negativo. um conjunto de instituições sociais.

que é socialmente instituído e historicamente variável. por meio da própria ciência. Assim. A posse ou não posse dessas características – que vão desde a forma de se vestir. percebendo suas formas tácitas. Isso não quer dizer. a qualquer vontade ou consciência individual.com. a formas de ser e de se portar – coloca os indivíduos em situações de desfavorecimento objetivo. que se criam e se transformam a partir de processos históricos generalizados. a sociedade não só está repleta dessas formas objetivas de poder (isto é.iesde. Contudo. segundo os objetivistas. por exemplo. sem nem mesmo perceberem. como no caso do pertencimento a alguma etnia estigmatizada. na medida em que lutam e se esforçam para mudar sua condição. influencia as formas mais explícitas de poder. 52 Para assistir as videoaulas deste livro. os bens materiais.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. dos fenômenos sociais objetivos. assim.planoeducacao.O indivíduo pode estar. Esse tipo de poder que os objetivistas focam é invisível aos olhos dos subjetivistas. assim. mais informações www. A concepção objetivista se aplica. Essa condição socialmente negativa. e as instituições produzem efeitos de poder e dominação que não derivam ou não são determinados pelas vontades individuais. a concepção objetivista enfatiza os efeitos do poder e da dominação que são oriundos da própria organização social. Os neoinstitucionalistas históricos2. as capacidades físicas e mentais. formas derivadas das instituições sociais e dos fenômenos coletivos) como essas seriam a verdadeira forma do poder. a sociedade é atravessada. Os indivíduos fazem isso a todo momento. os indivíduos podem. e que diferencia e hierarquiza as coisas e as pessoas. ou seja. Não se reduzem. portanto. reconhecida como negativa pela coletividade). já que o indivíduo não tem como se desvencilhar dela. Absolutamente tudo tem um valor. tanto à política institucional como aos fenômenos políticos em geral. das instituições sociais e dos sistemas de valores (como a cultura) – enfim. objetivamente. extraindividuais. marcado por uma condição socialmente negativa (isto é. Portanto. que é impossível mudar a sociedade ou a estrutura de dominação. é claro. produzem. pode ser especialmente perversa. em todos os níveis e de todas as maneiras por hierarquias tácitas. tomar consciência da operação e do mecanismo do poder. que o acompanhará por toda a vida. Além disso. utilizam largamente a concepção objetivista do poder: o poder reside na própria estrutura das instituições. assine o site www.br . modificar as instituições sociais no sentido de controlar os efeitos do poder e as formas de dominação social que elas.. E tal favorecimento ou desfavorecimento objetivo inclusive influencia e mesmo comanda as chances de um indivíduo impor a sua vontade sobre outro.A.com. Podem. de forma alguma. Ciências Políticas I 2 Os cientistas filiados à tradição teórica neoinstitucionalista de viés historicista estudam os fenômenos políticos por meio da análise da transformação das instituições e dos processos históricos em que elas são construídas.

mais informações www.Concepção objetivista de poder A concepção objetivista sustenta que existe poder onde existem instituições sociais e valores culturais cujos efeitos distingam e hierarquizem as pessoas e grupos entre si. 1982). 7-16). de Pierre Bourdieu (BOURDIEU. p. 1982). pois não seria possível pensar adequadamente os fenômenos políticos. de Michel Foucault (FOUCAULT.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br 53 . pode ser repetida inconscientemente por meio do consenso que as pessoas têm sobre o valor das coisas e por meio do próprio funcionamento das instituições sociais. Assim. sem o conceito de poder. 1995). de Pierre Bourdieu (BOURDIEU. p.A. 133-61). Poder Político e Classes Sociais.iesde.planoeducacao. Essa forma de poder. Espaço social e gênese das “classes”.com.. Vimos algumas perspectivas concorrentes para entender o poder. de Michel Foucault (FOCAULT. mais tácita e imperceptível do que aquela presente na ordem direta de um indivíduo a outro. entendendo-o como uma coisa que confere aos Para assistir as videoaulas deste livro. assine o site www. a própria Ciência Política não existiria. de Ted Benton (BENTON. O sujeito e o poder. Hobbes lançou os fundamentos do conceito de poder. A própria natureza conflituosa da política implica relações de poder.com. Sobre o poder simbólico. Obras sobre a concepção objetivista de poder Objective interests and the sociology of power. 1989. Microfísica do Poder. O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas Conclusão O poder é a principal dimensão da política. produzindo e reproduzindo desigualdades de todo tipo. 1981). 1989. de Nicos Poulantzas (POULANTZAS.

com. As concepções subjetivistas entendem o poder como uma relação intersubjetiva. hierarquizadas e desiguais. não pertence a um sujeito.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. assine o site www. produzindo e reproduzindo as hierarquias e as desigualdades. isto é. 1978. Vimos como o poder possui uma natureza agonística.) Poder (Macht) é a probabilidade que um ator.iesde. Para assistir as videoaulas deste livro.A. de conflito e mesmo de imposição. fazendo que os indivíduos sejam ajustados a determinadas posições sociais. alguém busca impor sua vontade particular sobre outrem. As instituições condicionam os indivíduos a pensarem. há poder quando. Texto complementar Poder e dominação (WEBER. O conceito sociológico de dominação deve portanto ser mais preciso e pode apenas significar a probabilidade que um comando seja obedecido. Tradução nossa.br Ciências Políticas I 54 . apresentamos e descrevemos as duas grandes maneiras de entender teoricamente o poder: as concepções subjetivistas e objetivistas.planoeducacao. Já os objetivistas entendem o poder como um fenômeno social que deriva das instituições sociais e as perpassa. em uma situação qualquer. Dessa perspectiva. p. em formas estereotipadas. esteja em posição de realizar sua própria vontade a despeito de qualquer resistência. nesse sentido. um comando seja obedecido pronta e automaticamente.com. mais informações www. 53-54. dentro de uma relação social. O conceito de poder é sociologicamente amorfo. mas permeia toda a sociedade: ele é um produto do funcionamento objetivo das instituições sociais – tanto as instituições tácitas e não formalizadas (como os costumes e o processo de educação) quanto as instituições mais explícitas e formais (como a família ou o Estado). Todas as capacidades concebíveis de uma pessoa e todas as combinações concebíveis de circunstâncias podem colocá-la numa posição de impor a sua vontade numa dada situação. Dominação (Herrschaft) é a probabilidade que um comando com um dado conteúdo específico seja obedecido por um dado grupo de pessoas.indivíduos a capacidade de impor a sua vontade sobre outrem. não importando a base sobre a qual essa probabilidade reside. O poder.. A partir dessa discussão. em virtude da habituação. julgarem e agirem de determinado modo. mobilizando determinados recursos para tanto. Disciplina é a probabilidade que. por parte de um dado grupo de pessoas. focando os indivíduos como os sujeitos do poder.

planoeducacao. Que relação pode ser estabelecida entre os fenômenos políticos ou a política e o poder? Para assistir as videoaulas deste livro. Se possuir um corpo administrativo.com. Mas o conceito é relativo. mais informações www. não implica necessariamente na existência de um corpo administrativo ou. Em geral. o caráter do pessoal. O caráter da organização é determinado por uma variedade de fatores: o modo em que a administração é conduzida. são dependentes.. incomum encontrá-la desvinculada de pelo menos um desses. baseada na dominação. controla esse grupo de viajantes que não pertencem à mesma organização. O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas Atividades 1. Os primeiros dois fatores. sirvam como o seu corpo administrativo no exercício da compulsão necessária. uma organização efetivamente governante é também uma organização administrativa. é teoricamente concebível que esse tipo de controle seja exercido por um único indivíduo). tão logo e por quanto tempo eles encararem a mesma situação. A existência de dominação ocorre apenas na situação real de uma pessoa emitindo ordens a outros com sucesso. Uma “organização governante” (Herrschaftsverband) existe até o ponto em que seus membros sejam sujeitos à dominação por parte da ordem da estabelecida. em particular.A. O líder de uma família governa sem um corpo administrativo. nas ocasiões apropriadas.O conceito de disciplina inclui a habitação característica da obediência de massa acrítica e irresistente. pessoas ou embarcações que passam por sua fortaleza. no mais alto grau.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. para esse fim. os objetos sobre os quais se exerce controle e a extensão da jurisdição efetiva. que arrecada contribuições de caravanas. assine o site www. mas para fazer isso ele precisa de seguidores que. entretanto. do modo pelo qual a dominação é legitimada. uma organização está sempre.br 55 . em algum grau.com. Um chefe Bedoin. É. numa organização.iesde. (Contudo.

Em que consistem os dois tipos de poder segundo Hobbes? Explique sucintamente por que eles são definidos como formas de poder. 3. mais informações www.planoeducacao.2. assine o site www. Ciências Políticas I 56 Para assistir as videoaulas deste livro.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S..com.com.A. Descreva as principais características da concepção subjetivista e da concepção objetivista de poder.iesde.br .

Há formas explícitas e formas sutis de poder.com.iesde.planoeducacao.A.. Para assistir as videoaulas deste livro.br 57 O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. mais informações www. assine o site www. Defina cada um desses tipos qual deles mais se aproxima da concepção objetivista.com.4.

planoeducacao.iesde.. mais informações www.com.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. assine o site www.br .Para assistir as videoaulas deste livro.A.

O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica Qual a importância de entendermos o que é. Assim. garante e fixa o limite do proibido e do permitido de praticamente todas as nossas ações. Todas essas situações.. o que faz e como surgiu o Estado. incorporando uma antiga discussão de pensadores políticos que trataram do assunto desde o século XVI. Essa é uma etapa essencial para entendermos as ações dos homens em sociedade e sua política. que nos são impostas e das quais é impossível escapar. assinadas e carimbadas”. assine o site www. mais informações www. mas se olharmos a vida social com um pouco mais de atenção e interesse veremos que o Estado define. É o Estado que licencia e autoriza os cartórios. Se estudarmos. a princípio. Mais tarde.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.planoeducacao. o Estado não é uma entidade abstrata. como surgiu e como atua o Estado? Essa pergunta pode parecer. somos levados “naturalmente” a fazer uma carteira de identidade.com. pois tem grande influência no que fazemos ou deixamos de fazer. mas para que ele seja legalmente válido devemos ter o nosso nascimento registrado em cartório. exterior aos indivíduos e distante da vida social.iesde.br 59 . extrapola os limites da disciplina. Sua abordagem. poderíamos dizer) pelo Estado.com. O tema do Estado é um dos temas recorrentes da Ciência Política. estranha ou irrelevante. nosso conhecimento só terá um valor efetivo se for garantido oficialmente por um diploma. Por isso mesmo é necessário compreender o que é. todavia. Nosso objetivo é rever a discussão da filosofia política contratualista sobre a origem do Estado e contrapô-la à visão dos cientistas sociais sobre as razões e as funções do Estado nas sociedades contemporâneas. recebemos um nome. têm algo em comum: a necessidade de serem reconhecidas e aprovadas (“seladas. Logo quando nascemos. E os diplomas só são válidos se e quando são referendados pelo Estado. uma carteira de trabalho e a nos inscrevermos no cadastro de pessoa física da Receita Federal. Para assistir as videoaulas deste livro.A. dando poder a eles de falar em seu nome e em nome da lei. regula.

John Locke (1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). uma crença na justeza. veremos em detalhes como essas duas variáveis – autoridade e legitimidade – foram entendidas em cada momento da história do pensamento da ciência do Estado. por meio dos quais ele consegue constranger a vontade e as ações humanas: a autoridade e a legitimidade. As ações do Estado são legítimas a partir do momento em que ele consegue produzir e incutir. dos tribunais. da polícia – em uma palavra. A primeira é a estrutura física que garante o funcionamento do Estado. na validade e no seu direito de exercer a autoridade. A autoridade é a forma pela qual o Estado coage as ações humanas de forma explícita: por meio das leis. das prisões. nos indivíduos. ao passo que a outra é a estrutura espiritual ou mental que cumpre o mesmo objetivo. dos decretos.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. sociais (a escola) ou econômicas (o mercado) etc. Ela é adquirida de maneira tácita por meio de uma série de instituições políticas (as eleições periódicas dos governantes).Autoridade e legitimidade Existem dois princípios básicos do poder do Estado. a legitimidade é a crença que os indivíduos têm na validade da dominação autoritária do Estado. mais informações www. A legitimidade é a maneira mais dissimulada (e mais eficiente) por meio da qual o Estado garante o exercício do seu poder e a obediência dos dominados.com. Daqui em diante. assine o site www. da força física e demais recursos materiais que sustentam e tornam concreto o emprego dessa força.com.br . O Estado garante explicitamente o exercício da sua autoridade quando ele mobiliza os recursos coercitivos que lhes são próprios com o objetivo de constranger as ações dos indivíduos.. Em outras palavras. 60 Para assistir as videoaulas deste livro. mais precisamente com as concepções dos teóricos contratualistas. Esta escola de pensamento teve início no século XVI e seus integrantes mais conhecidos são Thomas Hobbes (1588-1679). das multas.A. Analogia Podemos fazer uma analogia com a linguagem da informática: a autoridade seria equivalente ao hardware.iesde. O homem faz a história e o Estado Ciências Políticas I Iniciaremos a abordagem do problema do Estado com a filosofia política. ao passo que a legitimidade seria equivalente ao software.planoeducacao.

com.br 61 . adjetivos ou características inatas a todos os indivíduos (isto é. as formas antagônicas ou divergentes que os intelectuais têm de entender o mesmo problema) estão ligadas diretamente à concepção que cada um deles possui do que é a natureza humana e de como é ou deve ser o contrato (ou o que o contrato deve prescrever). isto é. assine o site www. em especial o Estado. os contratualistas convergem quanto à ideia de contrato nos seguintes termos: para todos eles. pois são dados da espécie humana). que existem para além das vontades e do aprendizado. Compreendida como os atributos. Para assistir as videoaulas deste livro. O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica Princípios básicos da filosofia política contratualista O homem constrói a realidade social. mais informações www. o que inclui também e principalmente suas instituições políticas. muito esquematicamente. associarem-se e formarem para si mesmos um conjunto de regras com o objetivo de preservar ou anular a natureza humana ou o direito natural. Dessa forma.iesde.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com.A.Para entender de forma mais precisa a ideia básica dos contratualistas. o Estado existe a partir do momento em que os homens decidem. Apesar de divergências em vários pontos (o que abordaremos mais adiante). de duas formas pelos contratualistas: existem aqueles que creem que o ser humano é naturalmente bom e aqueles que creem no ser humano naturalmente mau. tanto a autoridade quanto a legitimidade do Estado são formadas pelo contrato social. estrutura a realidade social e funda o Estado civil (a vida em sociedade). o contrato é um sistema de direitos e deveres decididos de forma voluntária pelos indivíduos com o objetivo de orientar/limitar as ações humanas. inatas ao homem (noção de natureza humana). Devemos mencionar ainda que as divisões presentes dentro dessa escola (ou seja. o contrato é escolhido deliberadamente pelos homens. deliberadamente. Dessa forma. a natureza humana é vista. Existem características de personalidade que são inerentes. No que diz respeito ao Estado. devemos salientar dois pontos-chave do seu pensamento: as noções de natureza humana e a noção de contrato social.. o argumento mais geral dos contratualistas é que o Estado é fundado por um contrato ou um pacto. Existem direitos naturais de todos os homens (ideia muito próxima à de direitos individuais ou direitos humanos).

O homem é naturalmente livre. Folha de rosto da primeira edição de O Leviatã. é o fiador de uma autoridade à qual todos devem se submeter.com. mais informações www. em última instância. assine o site www.Thomas Hobbes: o Estado absoluto Thomas Hobbes foi um pensador inglês que viveu entre 1588 e 1679. os indivíduos têm de abrir mão de sua liberdade natural e de seu poder individual para construir um contrato social que. Em suma.planoeducacao. Os indivíduos têm os mesmos interesses. caso os interesses se choquem haverá uma disputa infinita para realizá-los. De maneira bem resumida. os homens se destruiriam. os indivíduos abrem mão de sua liberdade e de seus direitos naturais para garantir sua existência – caso contrário. e sua principal obra de teoria política é O Leviatã. Porém.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. pode-se dizer que Hobbes formula três pressupostos sobre os quais estrutura sua teoria sobre o Estado: O ser humano é naturalmente mau ou interessado. Domínio público. perceberemos que os homens estão em um potencial estado de guerra de todos contra todos: dado que o ser humano é naturalmente mau e tem liberdade para fazer o que quiser. para garantir a sua existência e sua integridade física.. Por meio da relação entre esses axiomas.iesde.A. Para assistir as videoaulas deste livro. Ele é a garantia de que haverá a limitação da ação dos homens. preservando a integridade física de cada indivíduo e a existência da espécie.br Ciências Políticas I 62 . direcionam-se para os mesmos objetivos.

causa final e desígnio dos homens (que amam naturalmente a liberdade e o domínio sobre os outros). quando não há um poder visível capaz de os manter em respeito.. se não for instituído um poder suficientemente grande para a nossa segurança.. os homens só podem se proteger uns dos outros se todos concordarem em entregar sua liberdade natural a um poder inquestionável (o Estado). ao introduzir aquela restrição sobre si mesmos sob a qual os vemos viver nos Estados. desencadearia. o poder do Estado é inquestionável e indestrutível. é aquele ao qual todos os seres humanos concedem a sua liberdade em troca de proteção. e poderá legitimamente confiar. Qualquer homem que quebrar o contrato (social) que funda o Estado será eliminado pela força da vida civil. por medo do castigo. XVII) “O fim último. ao cumprimento dos seus pactos e ao respeito àquelas leis de natureza [. o poder do Estado.A. como proteção contra todos os outros. Cap. cada um confiará.” O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica Esse contrato se apresenta de forma concreta na figura do Estado. Dessa forma. mas em detrimento da liberdade particular de cada um. Assim. depois de fundado. o desejo de sair daquela mísera condição de guerra que é a consequência necessária [. geração e definição de um Estado (HOBBES. a piedade.br 63 .com. assine o site www. O Estado é assim o responsável por trazer a ordem para dentro da desordem que a natureza humana.. agindo de forma coercitiva sobre essas vontades ao regular as pulsões dos homens.. ou seja.] das paixões naturais dos homens. mais informações www. Porque as leis de natureza (como a justiça. a vingança e coisas semelhantes.com. por si só. a modéstia. está para além das vontades individuais. a equidade. na ausência do temor de algum poder capaz de as levar a ser respeitadas. que é a instituição que regula a ação e as vontades dos homens. sem força para dar qualquer segurança a ninguém. forçando-os. o contrato (objetivado na figura do Estado) garante a proteção dos homens em relação a si mesmos. Segundo Hobbes.]. Quer dizer. é o cuidado com a sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita. apesar das leis de natureza (que cada um respeita quando tem vontade de respeitá-las e quando pode fazê-lo com segurança).br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. 2000. são contrárias às nossas paixões naturais..planoeducacao. as quais nos fazem tender para a parcialidade. fazer aos outros o que queremos que nos façam) por si mesmas.Das causas. apenas na sua própria força e capacidade. o orgulho. ou em resumo. E os pactos sem a espada não passam de palavras. Para assistir as videoaulas deste livro. Portanto.iesde.

Natural and Political (1650).br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Behemoth. que existiu na transição do modo de produção feudal para o capitalista (aproximadamente entre os séculos XV e XVIII na Europa ocidental).com.A. Rei da França e de Navarra. Leviathan. Nesse tipo de Estado o poder do soberano é total sobre as instituições e os súditos.iesde. Forme. Domínio público. Ecclesiasticall and Civil (1651). O Estado absolutista é característico do Antigo Regime. 1642. assine o site www. O absolutismo é uma forma de regime na qual o Estado possui o governo generalizado da sociedade. Paris. Hobbes foi um pensador social que teorizou os princípios políticos do Estado absolutista. Hyacinthe Rigaud. mais informações www. tradução para o inglês do De Cive. obra póstuma). ­ Para assistir as videoaulas deste livro.com.planoeducacao. or the Matter. Ciências Políticas I Luís XIV.br 64 . and Power of a Commonwealth.Principais obras políticas de Hobbes The Elements of Law. De Cive [Do Cidadão].. Philosophicall Rudiments Concerning Government and Society (1651). 1701. or The Long Parliament (1681. Museu do Louvre. Necessity and Chance (1656). The Questions Concerning Liberty. Óleo sobre tela.

ele é a forma civilizada de evitar a guerra de todos contra todos.O rei Luís XIV (1638-1715). ficou conhecido como ícone do Estado absoluto. o Estado é o produto de um contrato motivado pelo interesse maior de cada um conservar a própria vida. mas em um estado de relativa estabilidade: há momentos de perturbação e momentos de harmonia. torna-se necessário estabelecer um conjunto de regras para garantir a propriedade e evitar os inconvenientes gerados pela eventual violação da propriedade.br 65 .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.planoeducacao. mas um “direito”: a propriedade. assine o site www. A sua maior diferença em relação a Hobbes é que. pode ocorrer a guerra. o que caracteriza o estado de natureza é a propriedade privada. em 1632. Essay Concerning Toleration (1667). da França. o Estado deve ser um poder social inquestionável e superior às vontades individuais. Isto é. mas por sua célebre expressão “o Estado sou Eu”. Na filosofia de Locke. o homem em seu estado natural não está imerso em um estado de guerra latente. Locke entende o estado de natureza de uma forma diferente da de Hobbes.iesde. pelo princípio básico da teoria de Locke. o homem viverá em um estado de paz.. Two Treatises of Government (1689). o que define a natureza humana não é um valor (ela não é má ou boa). Para Locke. também na Inglaterra. que sintetiza adequadamente a centralização do poder social na figura do soberano.com.com. e morreu em 1704. Caso não exista um conjunto de regras que garantam o direito inato do homem (à propriedade). John Locke: o Estado liberal Conhecido por ser um dos precursores teóricos do liberalismo político. Dessa forma. não apenas por seu poder e projeção mundial. Para assistir as videoaulas deste livro. isto é. haverá conflito. mais informações www. Encarnado na figura do soberano absoluto. caso contrário.A. O soberano absoluto Para Hobbes. o homem teria naturalmente direito à propriedade privada. John Locke nasceu na Inglaterra. Para garantir esse objetivo. O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica Principais obras políticas de Locke Questions Concerning the Law of Nature (1664). se a propriedade não for violada.

planoeducacao. A única maneira pela qual alguém se despoja de sua liberdade natural e se coloca dentro das limitações da sociedade civil é através de acordo com outros homens para se associarem e se unirem em uma comunidade para uma vida confortável. ninguém pode ser retirado deste estado e se sujeitar ao poder político de outro sem o seu próprio consentimento. em que ele e os outros se incorporaram em uma sociedade. livres. garantindo esse direito natural. Quando qualquer número de homens. segura e pacífica uns com os outros.br Ciências Políticas I 66 . o Estado é fundado por um contrato para garantir a perpetuação do direito natural do homem: a propriedade privada. Esses homens podem agir desta forma porque isso não prejudica a liberdade dos outros. Quando qualquer número de homens decide constituir uma comunidade ou um governo. do contrário. através do consentimento de cada indivíduo. mais informações www. isto os associa e eles formam um corpo político em que a maioria tem o direito de agir e decidir pelo restante.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. um contrato entre as partes que vivem em sociedade. Ainda ao contrário de Hobbes. segundo Locke.com. se obriga diante de todos os membros daquela sociedade a se submeter à decisão da maioria e a concordar com ela.. como se tem dito. VIII) “Se todos os homens são. Cap.A.O direito do homem Para Locke. este pacto inicial.. Pois o que move uma comunidade é sempre o consentimento dos indivíduos que a compõem [. o que significa agir somente segundo a vontade e a determinação da maioria. 1983. Do começo das sociedades políticas (LOCKE. No caso de Hobbes.” Para assistir as videoaulas deste livro. mas para cerceá-las.].com. consentindo com os outros em instituir um corpo político submetido a um único governo. desfrutando com segurança de suas propriedades e [mais bem] protegidos contra aqueles que não são daquela comunidade.iesde. o Estado não teria um poder ilimitado diante do indivíduo: aqui o Estado serve ao indivíduo. É aqui que é preciso realizar um pacto. forma uma comunidade. iguais e independentes por natureza. E assim cada homem. se ele permanecesse livre e regido como antes pelo estado de natureza. ocorre o contrário: o Estado é fundado não para garantir as capacidades inatas do homem.. com o poder de agir como um corpo único. O contrato social funda o Estado. assine o site www. não significaria nada e não seria um pacto. que tem como único objetivo garantir aos homens o direito à propriedade privada. na liberdade do estado de natureza. que permanecem como antes. garante-se a paz. dão a esta comunidade uma característica de um corpo único.

Suíça. Rousseau não toma como ponto de partida nenhum caso particular. Ele concebe um homem selvagem que consegue tudo o que precisa na natureza.A.. que acredita ter o homem direito inato à propriedade (e não à liberdade). muito resumidamente.planoeducacao.com. escreverá ele). Para assistir as videoaulas deste livro. No livro Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755). Rousseau entende o homem como um ser naturalmente bom. Domínio público. em 1778. e morreu em Ermenonville.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. abrigo etc. assine o site www.Jean-Jacques Rousseau: o Estado para o indivíduo Jean-Jacques Rousseau foi um filósofo do Iluminismo francês que nasceu em Genebra. mas por toda parte ter sua liberdade cerceada e negada? Como pode a realidade do homem ser demasiadamente coativa e ao mesmo tempo os homens terem como direito essencial a liberdade? Rousseau desenvolveu grande parte de sua teoria sobre essas questões. e de Locke. Para explicar como ocorre esse processo. em 1712. seriam fornecidos aos homens sem custo algum.br 67 . Assim. Essa é. como pode ser o homem naturalmente livre. de Rosseau. histórico. mas sim um caso imaginário. coercitiva. buscando compreender o processo de passagem de uma natureza humana essencialmente livre para uma vida social regulada. ele argumenta que o homem é ao mesmo tempo naturalmente bom e que tem a liberdade como um direito natural (“O homem é bom por natureza. Tudo aquilo que ele tem vontade estaria imediatamente disponível: alimento. mais informações www. França.com. em uma edição holandesa de 1755. É a sociedade que o corrompe”. diferencia-se radicalmente de Hobbes. que entende a natureza humana como má. No entanto.iesde. O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica Folha de rosto do Discurso sobre a Desigualdade (1754). a figura do “bom selvagem”.

O contrato serve para garantir ao homem a sua liberdade natural. mais informações www. quando toma para si os recursos que estavam disponíveis a todos de forma igualitária. a única a legitimar os compromissos civis. a desigualdade. fundado por meio do contrato. que somente por meio do desenvolvimento dessas instituições o homem poderia se desenvolver.A. Ciências Políticas I 68 Para assistir as videoaulas deste livro. Assim.Nota-se aqui a total diferença entre Rousseau e Locke. nessa filosofia. Note-se que Rousseau se distingue muito de seus contemporâneos do Iluminismo. o Estado está a serviço da liberdade humana. surgem todos os males: o egoísmo. é necessário reformulá-las de modo a fazer com que elas legislem para o homem. VII) “A fim de que o pacto social não venha a constituir.br . A origem dos maiores males da vida do homem estaria. um formulário vão.com. assine o site www. portanto. Assim. deve evitar que o homem seja privado da sua liberdade em função do convívio social.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. para Rousseau a propriedade privada dá início à desigualdade entre os homens: todos ambicionam a propriedade. compreende ele tacitamente esse compromisso. o interesse. quando o homem se apropria do que a natureza lhe oferece. mas sim ausência de propriedade. Porém. 1983. Visto que o pensamento da época era o de que a arte e a ciência iriam tirar os homens das trevas para mostrar-lhes a luz.. percebemos que. a liberdade cessa e a coerção tem início. são as que mais empurram-no às “trevas”. tirânicos e sujeitos aos maiores abusos”. condição que configura o artifício e o jogo da máquina política. o garante contra toda dependência pessoal. Livro I. pois é esta a condição que. entregando à pátria cada cidadão. Em outras palavras. O Estado. cap. no advento da propriedade privada. o único que pode dar força aos outros: aquele que se recusar a obedecer à vontade geral a isso será constrangido por todo o corpo – o que significa apenas que será forçado a ser livre. Podemos agora entender como Rousseau trabalha sua noção de contrato social. a distribuição desigual dos bens. Quando surge a propriedade privada. Essa desigualdade básica está na origem da coerção social: as coerções sociais existem para garantir a desigualdade. Rousseau sustenta o contrário: que são justamente essas instituições as que mais limitam a ação do homem. pois. que sem isso seriam absurdos.com.iesde. pois para o primeiro não existe propriedade privada no estado de natureza.planoeducacao. Do soberano (ROUSSEAU. mas poucos a detêm.

A Revolução Francesa (1789-1799). e não da vontade arbitrária do homem. Há muito do pensamento de Rousseau nos grandes movimentos revolucionários que clamam pela liberdade e pela igualdade. portanto. Considérations Sur le Gouvernement de Pologne (1770-1771).br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Os pensadores que abordaremos a seguir defendem que todas as características tidas como “naturais” são produtos sociais. isto é. “vida social”) é fundado por meio da vontade individual. Em suma.A.Principais obras políticas de Rousseau Discours Sur L’Origine et les Fondements de L’Inégalité Parmi les Hommes (1755). o argumento central aqui é o de O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica Para assistir as videoaulas deste livro. isto é. Na Sociologia. as revoluções socialistas do século XX e mesmo o movimento anarquista foram fortemente influenciados e justificados pelo pensamento de Rousseau.. um dos principais marcos históricos e políticos de todos os tempos. veremos que o enfoque sobre o Estado será o oposto desse: o Estado. uma diferença muito grande em entender o Estado (ou qualquer outra instituição social) como produto direto das vontades humanas (como ocorre com os contratualistas) e entender o Estado como o resultado complexo de mecanismos sócio-históricos (como é o caso da Sociologia e da Ciência Política). A história faz o homem e o Estado Percebemos que a escola contratualista possui uma explicação padrão sobre a origem do Estado: eles acreditam que o Estado (sendo Estado também um sinônimo de “vida civil”. O Estado.com.com. para os contratualistas. a própria noção de natureza humana será historicizada.iesde. mais informações www. é o resultado de um processo de desenvolvimento histórico. Du Contrat Social (1762). “vida civilizada”. ele é produto da história.br 69 . que nasce no século XIX e se consolida nas primeiras décadas do século XX. Lettres Sur la Législation de la Corse (1764). dirão os teóricos sociais. Projet de Constitution pour la Corse (obra póstuma). A partir do século XIX. Há.planoeducacao. assine o site www. encontra sua legitimidade e sua autoridade na vontade do homem.

por meio da Sociologia. p. sobre a qual ele tem. a maneira específica pela qual todo o Estado faz algo é pela mobilização da força física.. A obsessão de Weber em ser ao mesmo tempo rigoroso e minucioso em relação ao vocabulário da Sociologia permitiu que ele propusesse a seguinte definição: “Em nossa época [. pelas funções sociais que ele cumpre. com a violência privada. dentro dos limites de determinado território [. ou seja. 55-56). o monopólio do uso da força física organizada em instituições específicas (tribunais. Essa concepção ficará mais clara quando abordarmos Pierre Bourdieu.A. e não pela função que realiza. mas sim “pelo meio específico que lhe é peculiar. deriva (tem de derivar) da população que está submetida a essa autoridade. pois grande parte da sua carreira intelectual foi dedicada a desmistificar. aquele que melhor sintetizou uma concepção de Estado. polícia.. o Estado não deveria ser definido sociologicamente por seus fins. p. A partir dessas duas passagens conseguimos extrair os seguintes argumentos: o Estado é definido pela maneira como faz algo e não pelo o que ele faz – dito de outra forma.. que sucintamente podemos distinguir conforme a seguir.] devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que. tal como é peculiar a todo outro agrupamento político. Em Weber. 56). dos autores clássicos.]” (WEBER. 1989. 1989.. e não se confunde. Weber nomeia essas duas variáveis de justificativas externas e justificativas internas. conseguimos ver claramente a divisão entre autoridade e legitimidade. exércitos etc.. o Estado se define pela forma com que realiza uma determinada função. isto é.br Ciências Políticas I 70 . o monopólio – a força física é o meio pelo qual o Estado empreende uma função qualquer. Ele é. assine o site www.com.planoeducacao. a tradicional e a burocrática. ou pretende ter. Para Weber.com. em nenhuma hipótese.iesde.que tanto o Estado quanto a noção de natureza humana (qualquer noção que se tenha a respeito do que o homem é ou deve ser) são produtos de longos processos históricos alheios à vontade consciente dos homens.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. As justificativas internas do exercício do poder dão origem aos três tipos puros de dominação: a dominação carismática. reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física [. Para assistir as videoaulas deste livro. A força física deve ser entendida em termos institucionais: é o aparato que garante a autoridade. Max Weber: por uma visão histórica e sociológica Max Weber foi um sociólogo alemão nascido em 1864 e morto em 1920.. por sua vez.]. qualquer noção de “natureza humana”. A legitimidade. respectivamente. mais informações www. o uso da força física” (WEBER.) tem de ser legítimo..

A dominação tradicional deriva a sua legitimidade do tempo. 59). A dominação burocrática deriva a sua legitimidade da crença socialmente compartilhada na validade e na universalidade das regras racionais e impessoais que devem gerir toda organização burocrática. é o fato de não depositarem no indivíduo a responsabilidade pela construção da realidade social. as razões externas estão vinculadas aos aparelhos coercitivos.com. necessita. de um estado-maior administrativo e.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. 1989. poderíamos citar os líderes populares). mais informações www. como vimos acima.). Se as justificativas internas estão ligadas às crenças subjetivas dos agentes na validade da dominação do Estado. Portanto. bondade.A dominação carismática deriva sua legitimidade das características pessoais do governante ou líder (como exemplo empírico mais próximo desse tipo.planoeducacao. mas são produto de longos processos históricos – os quais têm como motor a luta pelo poder. Justificativas da dominação As justificativas externas da dominação dizem respeito aos recursos materiais de gestão (militar. Ou seja. É a fé dos seguidores nessas características que garante a legitimidade da dominação. e essa é uma diferença central em relação aos contratualistas. como honra. As justificativas internas da dominação dizem respeito às representações subjetivas que os agentes sociais constroem sobre a legitimidade do poder de Estado.A. por outro lado. as justificativas externas estão ligadas ao aparato objetivo do Estado e podem ser entendidas com base na seguinte citação: “a dominação organizada. assine o site www. financeiro. lealdade etc. devemos salientar que. O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica Para assistir as videoaulas deste livro. p. por um lado. segundo Weber. Os próprios recursos mobilizados pelo Estado no processo de dominação não dependem da vontade deliberada dos indivíduos. A grande característica dos pensadores sociais a partir do século XIX. e não a necessidade de realizar ou preservar um “direito natural”. necessita dos meios materiais de gestão” (WEBER. aos aparelhos “materiais” do Estado. as regras estão estabelecidas desde tempos imemoriáveis. por meio dos quais o Estado consegue impor sua autoridade aos súditos ou aos cidadãos.. administrativo.iesde. uma convicção baseada no hábito. logístico etc.com.br 71 . Logo. o que lhes garante uma validade anterior. tanto a autoridade quanto a legitimidade do Estado são um produto da história social dos agentes. da continuidade da dominação. coragem. e que possibilitam a ação coercitiva desse Estado. o Estado em primeiro lugar.

Conclusão Ciências Políticas I Existe uma diferença nos estudos sobre o Estado antes e depois do século XIX. Na medida em que os contratualistas definem o Estado como uma exigência da natureza humana (o Estado deve disciplinar os indivíduos. nem como uma necessidade imanente à existência humana. mas sim como uma instituição criada socialmente cujas formas e funções são resultados contingentes de processos histórico-sociais. Denunciando a forma como o Estado produz um discurso inatista sobre si mesmo.Pierre Bourdieu: para a crítica da noção de “natural” A definição de Estado por Pierre Bourdieu (1930-2002) é dotada de um elemento que o distingue amplamente da definição enunciada pelos filósofos contratualistas: a historicidade. assine o site www.planoeducacao.). Bourdieu poderia entender o argumento contratualista como uma forma de reproduzir o poder do Estado. pois assumem como elementos definidores do Estado atributos imaginários que ele próprio produz. 1996.com. O Estado não pode ser compreendido como o produto de uma vontade deliberada dos homens. Para Weber. Bourdieu afirma que “é preciso colocar em questão todos os pressupostos e todas as pré-construções inscritas na realidade que se trata de analisar e no próprio pensamento dos analistas” (BOURDIEU. A especificidade do Estado e o fundamento do seu poder é a capacidade que ele tem de criar sobre si e sobre algumas de suas ações/funções a impressão de serem naturais. Podemos perceber que ocorre uma inversão na ordem das razões: na filosofia política (anterior ao século XIX). atemporais ou decorrentes de necessidades humanas inatas.com. Essa característica especial contribui para a reprodução da estrutura estatal e para a efetividade de suas ações sobre o mundo social.br 72 . 94). Esse é um dos grandes objetivos contidos em suas obras: desvelar os sistemas de dominação presentes na ordem social.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. escrevendo no início do século XX.A. na validade ou necessidade de um acordo entre as partes e nas necessidades e obrigações impostas pelo direito natural. p. e não uma entidade eterna ou complementar à natureza humana.. escrevendo no fim do século XX. eles reiteram e reproduzem os fundamentos do poder e da existência do próprio Estado.iesde. mais informações www. isto é. Assim. O Estado é um produto histórico. uma realidade que surgiu a partir de conjunturas e desenlaces sociais específicos em determinados locais. a legitimidade e autoridade do Estado não estão fundamentadas no contrato social ou na natureza humana. Bourdieu desvela os fundamentos do poder propriamente estatal em vez de contribuir para a sua reprodução. Dessa forma. Para assistir as videoaulas deste livro. e Bourdieu. em determinado tempo e sob determinadas condições. assegurar a propriedade etc. o Estado é uma realidade arbitrária.

iesde. 1999. uma associação “política”.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Ele. Analisando mais de perto a relação entre a teorização de Bourdieu e as concepções dos contratualistas. Para os primeiros.com. Não há quase nenhuma tarefa que alguma associação política. Na ciência política e na sociologia política (posteriores ao século XIX). mas. na realidade. são externos a eles. por outro lado. as lutas políticas. em algum momento. em Bourdieu. 525-526.br 73 . também não há nenhuma da qual se poderia dizer que tivesse sido própria.o Estado é entendido como o produto das vontades humanas e da natureza humana. as querelas ideológicas – que constroem a “natureza humana” e definem o direito natural. O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica Texto complementar A definição weberiana de Estado (WEBER. o ponto de partida é a história social: a legitimidade e a autoridade do Estado são um produto da história. Os filósofos do contrato partem de uma (suposta) natureza humana para posteriormente pensar a (origem da) sociedade. acredita-se que os indivíduos têm livre-arbítrio sobre suas ações e sobre a construção da realidade. os indivíduos não decidem racionalmente e deliberadamente sobre a construção do Estado. exclusivamente. e particularmente um “Estado”.. não tivesse tomado em suas mãos. os conflitos econômicos. É a história – os processos sócio-históricos. Por isso.planoeducacao. percebemos outra diferença significativa. O que está em foco nessa discussão é a oposição entre o voluntarismo do sujeito e a capacidade de coerção da sociedade sobre os sujeitos. mais informações www. p.A. Assim. 528-529) Do ponto de vista da consideração sociológica. não pode ser definida pelo conteúdo daquilo que faz. Esses processos estão além das vontades particulares dos homens. a realidade social é mais o produto de longos processos históricos de acumulação e mudança das estruturas sociais. a natureza humana e até mesmo a noção de “natural” (quando se fala de valores naturais ou direito natural) é construída pela própria sociedade e garantida pelo (poder de) Estado. Por um lado. é um produto objetivo da história coletiva dos indivíduos e nenhum indivíduo em particular tem o seu controle.com. assine o site www. Para assistir as videoaulas deste livro. mas deriva de um longo processo de acumulação do monopólio legítimo de força física e simbólica sobre um determinado território. Para Bourdieu o caminho é outro: parte-se da sociedade para depois se construir a “natureza humana”. por outro. a sociedade é um efeito da natureza do homem. tanto para Weber como para Bourdieu o Estado não é fundado por um pacto social. em todos os momentos e.

com. [. reclama para si (com êxito) o monopólio da coação física legítima. como também a toda associação política: o da coação física. Isso corresponde.daquelas associações que chamam políticas (ou hoje: Estado) ou que são historicamente as precursoras do Estado moderno. reclama poder: poder como meio ao serviço de outros fins – ideais ou egoístas –. do mesmo modo que as associações políticas historicamente precedentes. somente se pode definir sociologicamente o Estado moderno por um meio específico que lhe é próprio. portanto. assine o site www. é uma relação de dominação de homens sobre homens. o território. ao uso da palavra na linguagem corrente. teria sido dispensado o conceito de Estado. a tentativa de participar no poder ou de influenciar a distribuição do poder. a coação não é o meio normal ou o único do Estado – não se cogita disso –.. sempre se tem em mente que interesses de distribuição.. Quando se diz de uma questão que é a questão “política”.iesde.A. Política significaria para nós. Hoje. considerada legítima). de uma decisão que é “politicamente” condicionada. disse em seu tempo Trotski. faz parte da qualidade característica –.br . “Todo Estado fundamenta-se na coação”.. Se existisse apenas complexos sociais que desconhecessem o meio da coação. condicionam aquela decisão ou determinam a esfera de ação daquele funcionário. de um ministro ou funcionário que é um funcionário “político”. Isso é de fato correto. seja entre vários Estados. em Brest-Litovsk. Este é considerado a única fonte do “direito” de exercer coação. seja dentro de um Estado entre os grupos de pessoas que este abrange. essencialmente. O Estado. somente podemos compreender conhecendo os fundamentos justificativos internos e os meios externos nos quais se apoia a dominação. Evidentemente.] Ciências Políticas I 74 Para assistir as videoaulas deste livro. as pessoas dominadas têm que se submeter à autoridade invocada pelas que dominam no momento dado. ter-se-ia produzido aquilo a que caberia o nome de anarquia. o Estado é aquela comunidade humana que. as associações mais diversas – começando pelo clã – conheciam a coação física como meio perfeitamente normal. ou poder “pelo próprio poder”. mais informações www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Ao contrário. neste sentido específico do termo. pois o específico da atualidade é que a todas as demais associações ou pessoas individuais somente se atribui o direito de exercer coação física na medida em que o Estado o permita.planoeducacao. dentro de determinado território – este. para deleitar-se com a sensação de prestígio que proporciona.com. Para que ele subsista. conservação ou deslocamento de poder são decisivos para a solução daquela questão. apoiada no meio da coação legítima (quer dizer. No passado. Quem pratica política. Quando e por que fazem isso. mas é o seu meio específico.

Por toda parte inicia-se o desenvolvimento do Estado moderno, pela tentativa de desapropriação, por parte do príncipe, dos portadores “particulares” de poder administrativo que existem a seu lado, isto é, daqueles proprietários de recursos administrativos, bélicos e financeiros e de bens politicamente aproveitáveis de todos os tipos. Todo o processo constitui um paralelo perfeito ao desenvolvimento da empresa capitalista, mediante a desapropriação gradativa dos produtores autônomos. No fim vemos que no Estado moderno de fato há a concentração em um ponto supremo da disposição sobre todos os recursos da organização política, que mais nenhum funcionário é proprietário pessoal do dinheiro que desembolsa ou dos prédios, das reservas, dos instrumentos ou da maquinaria bélica de que dispõe. No “Estado” atual está, portanto, completamente realizada – e isso é essencial para o conceito – a “separação” entre o quadro administrativo, os funcionários e trabalhadores administrativos, e os meios materiais da organização. Para nossa consideração, cabe, portanto, constatar o puramente conceitual: que o Estado moderno é uma associação de dominação institucional, que dentro de determinado território pretendeu com êxito monopolizar a coação física legítima como meio de dominação e reuniu para esse fim, nas mãos de seus dirigentes, os meios materiais de organização, depois de desapropriar todos os funcionários estamentais autônomos que antes dispunham, por direito próprio, desses meios e de colocar-se, ele próprio, em seu lugar, representado por seus dirigentes supremos.

O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica

Atividades
1. Existem duas formas de definir o Estado: através da perspectiva voluntarista, onde o indivíduo está na origem do Estado; e através de uma perspectiva histórica, em que o Estado surge para além da vontade dos indivíduos. Cite exemplos de escolas e autores de cada uma dessas correntes e explique sucintamente como eles entendem o Estado.

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2. Dentre os clássicos das ciências sociais, Max Weber foi o pensador que mais formalizou uma definição de Estado. Segundo Max Weber, como o Estado deve ser definido? Quais são os mecanismos internos e externos utilizados pelo Estado para garantir sua influência sobre os indivíduos?

Ciências Políticas I

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3. Pierre Bourdieu afirma que o Estado é uma realidade de origem propriamente histórica, “situada e datada”. Explique, com suas palavras, o que significa essa afirmação de Bourdieu.
O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica
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O Estado burocrático: racionalidade e dominação
Em 1.º de janeiro de 2009, entrou em vigor o acordo ortográfico que determina mudanças na grafia da língua portuguesa, a fim de unificar a escrita de todos os países que a têm como idioma oficial. Por esse acordo, aprovado em 1990 e assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro de 2008, fica abolido o uso do trema, de grande parte dos acentos diferenciais e de acentos em ditongos de paroxítonas, além de serem feitas alterações nas regras de uso do hífen e de outros aspectos linguísticos mais ou menos substanciais. Tais alterações no idioma não ocorreram sem protestos e há aqueles que chamam a atenção para a arbitrariedade dessa decisão, imposta, alegam os críticos, por uma minoria de especialistas, em detrimento dos falantes comuns. Ainda que não mude o som das palavras (sua pronúncia), muda o jeito de escrevê-las (sua grafia). Esse exemplo permite evidenciar o ponto a ser debatido. Começar um texto que trata do Estado burocrático com o relato de uma mudança ortográfica não é casual. Analisemos esse fato com mais atenção. Embora idealizada já há muitos anos – por linguistas, filólogos e especialistas da língua em geral –, a mudança ortográfica do português só pôde ser efetivada no Brasil graças a um “decreto” do presidente da república, que subscreveu e autorizou as referidas alterações na língua, definindo inclusive o dia em que entrariam em vigor. Não foi, portanto, qualquer assinatura que pôde ratificar o documento: era o presidente, e apenas ele, a pessoa capaz de fazer valer, pela autoridade do seu cargo, e de acordo com as determinações legais nele investidas, as mudanças visadas. E quando dizemos “fazer valer” referimo-nos ao conjunto de sanções associadas, a partir de agora, aos desvios em relação a esse novo padrão culto da língua: nos vestibulares e nos concursos públicos, por exemplo, a resistência a ou a simples ignorância dessas novidades passa a ser punida com uma nota menor, com uma classificação pior, barrando, em consequência (sem o trema...), o acesso a cargos públicos (juiz, procurador, policial) e a vagas universitárias, por exemplo. As mudanças impõem-se, portanto, sobre todos os falantes da língua, quer estes queiram ou não, da mesma maneira como as regras de trânsito ou as regras eleitorais
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sua assinatura não teria a autoridade e o poder necessários para impor. variando apenas a natureza das sanções em caso de desvio em relação ao padrão normal. como no exemplo acima. desqualificação em concursos etc. isto é. É preciso. mas do cargo que ela ocupa.. efeitos bastante reais.). de gênero. seja dos que são governados (e que. de que o Estado tem legitimidade para fazer o que faz. Essa ficção jurídica que é o Estado produz. Mas deve-se perguntar: como o poder do Estado tem a faculdade de não ser redutível ao poder político daqueles que ocupam os seus postos? Ou. como normal e legal. mas também de pensar e de se comportar. É ele. assine o site www. contudo. ou seja. um padrão específico de uso da língua.pesam sobre todos os cidadãos de um país.com.). arbitrária (no sentido de que poderia ser diferente). fazer aqui uma especificação: se a assinatura do presidente da república foi capaz de gerar tais consequências. e não o contrário? Mas de onde vem então o poder do Estado? O fundamento dessa distinção entre a pessoa do governante e o posto político no qual ela está instalada é produto de um processo histórico em que o Estado foi se tornando independente de seus comandantes e adquirindo as feições de uma ficção jurídica: a coroa.A. Ciências Políticas I 80 Para assistir as videoaulas deste livro. a fonte desse poder quase mágico de impor a uma dada população uma maneira particular e. o poder Executivo é uma expressão mais precisa e mais de acordo com a organização política do Estado burocrático que a ideia de que somos comandados por um chefe. legal – tal como instituído nos códigos e subscrito pelas autoridades competentes. econômicos. no momento. dito de outra maneira. é porque ele o fez não em nome próprio. e não os indivíduos que ocupam os seus postos. pois está apoiada sobre uma crença coletiva. a nação é uma ideia abstrata que substitui. o soberano são noções que substituem a figura do rei em carne e osso. compartilhada por todos. portanto. mais informações www. o que fundamenta essa diferenciação entre o cargo e o ocupante? Por que o cargo confere autoridade ao ocupante. entre outros). e isso em todos os aspectos da vida (políticos. contudo. a realeza. de cor etc. em um dado país.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Caso fosse um cidadão como qualquer outro. não apenas de escrever. em função do seu carisma pessoal ou do poder político do seu partido. a ele se submetem). A autoridade para dizer o que será certo ou errado não advém da pessoa.br . isto é. portanto. culturais.iesde.planoeducacao. do fato de ele ser o chefe do Estado brasileiro.com. assim. Chegamos. mudando a grafia da língua à revelia do que pensam ou querem os falantes dela (e impondo tais mudanças por meio da ameaça de sanções – reprovação em exames. mas em razão do lugar que. ao nosso tema central: o Estado em sua forma burocrática moderna. ele ocupa: como autoridade máxima do Poder Executivo do país. seja dos que governam (e que então podem falar em nome do Estado). os indivíduos e suas diferenças profundas (de classe.

por exemplo) –. e o exército. ou seja.com. grifos do autor). no momento presente. 56. O Estado é considerado a única fonte do ‘direito’ de usar a violência”. às estruturas judiciárias) todos os atos de julgamento. uma das características definidoras do Estado burocrático moderno. no limite. assim. A concentração do “direito” a usar a violência física nas mãos de apenas alguns é parte do que um autor como o alemão Norbert Elias (1897-1990) chama de processo civilizador: paralelamente a tal concentração do uso da violência no Estado. justamente por ser legítima (entenda-se: necessária): “Especificamente. nosso grau de “civilização”. quando um grupo conseguisse monopolizar o “direito” a usar a força física como forma de coação ou dissuasão. punição.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. portanto – a não ser sob determinadas circunstâncias legalmente especificadas (a “legítima defesa”. as características desse Estado burocrático moderno que surgiu em um momento bem preciso da história social das nações. Não posso. A legitimidade da violência (WEBER. o monopólio legítimo da força física dentro de um determinado território” (WEBER.com. diferenciando-o de outras formas de organização política (como o Estado das monarquias no Oriente antigo. fazer uso da violência física se não faço parte desses grupos especializados (ou seja: treinados especificamente para esse fim) a que o Estado delega a função de coerção: a polícia.Vejamos. O Estado burocrático e o monopólio da violência física e simbólica Segundo a já conhecida definição de Max Weber.A. cresceria nossa intolerância cultural a ela. 56) O Estado burocrático: racionalidade e dominação O Estado burocrático moderno é a única fonte de legitimidade para a ação de violência física. Sendo assim. o “Estado [moderno] é uma comunidade humana que pretende. deixa de ser vista como “violenta” (no sentido de “arbitrária”).. para os assuntos internos ao Estado. o direito de usar a força física é atribuído a outras instituições ou pessoas apenas na medida em que o Estado o permite. Ou seja: só existiria o Estado. p. a qual. em detalhes. nesse caso.planoeducacao.iesde.br 81 . em sua forma moderna. excluída em um universo como esse: cabem às forças policiais (e. assine o site www. prisão e restituição da liberdade. com êxito. Para assistir as videoaulas deste livro. Uma noção como a de “vingança pessoal” é. o Estado feudal na Europa na Baixa Idade Média) é ser ele a única fonte de autoridade para o uso da violência física dentro de um determinado território. para os conflitos externos. 1982. 1982. mais informações www. p.

mais informações www. e nascem daí as estatísticas. Assim. 101) A fim de assegurar o controle sobre um determinado território. (BOURDIEU. depende das informações providas por instituições como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): por meio dessas informações são determinadas.br . depende de recursos econômicos.. o único monopólio que o define: há também outro. que aparece no último decênio do século XII. equipamentos. bem como os valores desses benefícios. oriundos justamente dos impostos que a população desse “território protegido” é coagida (por aquelas mesmas forças armadas) a pagar. Dos recursos oriundos dos impostos depende também toda a estrutura material do Estado burocrático moderno: prédios. p.iesde. do corpo de funcionários estatais – os burocratas. Ciências Políticas I 82 Para assistir as videoaulas deste livro. Informações O Programa Bolsa Família do governo Lula. como o imposto feudal. dentre outras coisas.. [. Além.com. apenas aos dependentes [do rei]. evidentemente. é claro.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. suas fronteiras etc. 2005. bem como a maneira como esses recursos serão administrados. a não ser o definido pelo rei regularmente” e aplicados direta ou indiretamente “a todos os grupos sociais”. o que. veículos etc. Os imperativos de defesa do território. As necessidades de controle sobre o território e de cobrança de impostos obrigam ainda que esse Estado acumule informações (sobre os seus cidadãos. assine o site www.com. atribuídos primeiro ao olho por olho. taxar seus próprios homens. Tais informações guiam os funcionários estatais e os políticos profissionais na elaboração das diretrizes de ação do Estado: a aplicação de recursos em um determinado programa social. que podem. censos. sobre os recursos físicos de seu território. depende fortemente das informações que os órgãos estatais são capazes de prover. desenvolve-se vinculado ao crescimento das despesas de guerra. vigente desde 2004 e associado à estratégia governamental Fome Zero. bastante ligado ao anterior – o de cobrar impostos.). O imposto de Estado. os mapas e a vontade de saber tudo sobre sua população. Daí poder-se dizer que há uma relação de causalidade circular entre o monopólio da violência física e o da cobrança de impostos: ambos alimentam-se mutuamente e dependem um do outro para existir.A. por sua vez.] a cobrança de impostos feita pelo Estado dinástico [monárquico] aplica-se diretamente ao conjunto dos súditos – e não.O monopólio do poder de taxar e de guerrear Esse não é.. contudo. tornam-se pouco a pouco a justificativa permanente do caráter “obrigatório” e “regular” de impostos percebidos “sem limite de tempo. é preciso financiar a formação de forças armadas capazes de fazê-lo. a faixa de renda atendida pelos benefícios.planoeducacao.

que o Estado moderno define-se como o produto da ação de um grupo social que obteve êxito no processo de concentração de toda uma série de recursos: econômicos.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. fundar. da faixa presidencial.). e que. instruir. prazo etc. a autoridade – e. classifica-as e padroniza. Até o momento. além. dar formação. constituir(-se). não posso construir uma estrada porque assim o quero. como presidente da república. é claro. estabelecer.planoeducacao. a administração de todos os aspectos da vida dos cidadãos é centralizada (seja no que se refere ao trânsito. instituir significa “1.com. vimos como o Estado concentra recursos de vários tipos a fim de administrar a vida de seus cidadãos. acompanhando Weber. já que eles são os únicos detentores da autoridade administrativa dentro de um determinado território. 5. Os funcionários não governam. ele também as normaliza – ou seja.br 83 . portanto. como na China dos mandarins. transmitida pelo presidente anterior) que o institui1 publicamente como ocupante daquele cargo. tarefa etc. por meio de um rito de instituição (a cerimônia de posse). 3. Acima de tudo. “quase todas as coisas ficam entregues a si mesmas. dar começo a. constituir. impondo-se sobre a sua população. discursos. fixar.Resumindo. assine o site www. por meio desses recursos.iesde. nas sociedades de Estado moderno. 2. mas somente interferem em tumultos e incidentes desagradáveis” (WEBER. contudo. reconhecido por todos os cidadãos.. não é o único efeito da ação estatal: além de administrar vidas. gostem eles disso ou não. à qualidade dos alimentos ou à ortografia da língua). Esse.com. atribuir a (outrem ou a si próprio) uma missão. mais informações www. assim como não posso grafar uma palavra segundo a minha própria vontade. p. ao contrário. no exemplo da reforma ortográfica. pois é preciso que os órgãos governamentais aprovem tais medidas e as realizem. nomear(-se). guildas e associações corporativas.” Para assistir as videoaulas deste livro. a capacidade de gerar efeitos – da assinatura do decreto presidencial decorre não das características especiais ou do poder próprio do indivíduo que o assina. tornou-se capaz de controlar um território determinado. Exploremos isso mais a fundo. O Estado burocrático: racionalidade e dominação 1 Segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa (2002). Sua autoridade (e o poder de sua assinatura) é um produto desse rito (com todas as formalidades e simbolismos que ele comporta – os juramentos. 517) e a administração da vida cotidiana fica entregue aos clãs camponeses. educar. marcar (data. designar (alguém) como herdeiro. criar. a especificidade do Estado burocrático reside em sua imensa capacidade administrativa: enquanto em outras formas de organização política. 1999. O monopólio do poder de normatizar e de instituir Chegamos agora a um novo ponto da discussão. Como já foi dito.. de seu carisma pessoal. Em outras palavras. podemos dizer. 4. bandeiras e desfiles.A. informacionais e de coação física. devendo ser. por conta disso. mas do fato de ele ter sido nomeado. determinar.

autorizações). aptos a dirigir um automóvel ou não. por sua vez. garantia jurídica de meus conhecimentos especializados.). Por violência simbólica. de dizer aquilo que cada um é (homem ou mulher. métrico – e ao realizar a homogeneização das formas de comunicação.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. linguístico. saudáveis ou doentes. além de recursos econômicos. especialmente a burocrática (por exemplo. o Estado burocrático moderno controlaria também os instrumentos de imposição de significados culturais. tem de ser reconhecido pelo Ministério da Educação.br Divulgação. casados ou solteiros. Outro exemplo: não posso outorgar-me o título de médico. os formulários. por maiores que sejam os meus conhecimentos de medicina. branco ou negro. recebendo. pelo Estado. assim como o meu diploma. que o sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) procura chamar a atenção ao expandir a definição weberiana de Estado moderno. Para poder exercer a atividade. de um sexo.planoeducacao. idosos ou jovens. o curso. começando pelo registro de um nome. informacionais e de coerção física. civil ou militar). entenda-se a capacidade de criar e impor uma “visão de mundo”. o diploma de médico. então. e de impô-la como verdadeira. contribuindo. assine o site www. .A faixa do presidente da República nas mãos de pessoas comuns. para uma uniformização das consciências: A cultura é unificadora: o Estado contribui para a unificação do mercado cultural ao unificar todos os códigos – jurídico. de uma filiação.com. mais informações www. ao monopólio da violência física. ou seja. categorizada). Por meio dos sistemas de Ciências Políticas I 84 Para assistir as videoaulas deste livro. dessa forma. os diversos órgãos estatais dizem o que cada indivíduo é em sua “verdade pública” (ou seja: padronizada. preciso ser reconhecido. os impressos etc. Segundo essa nova definição.. certidões. por um curso de graduação. também o da violência simbólica. É para esse poder de instituir.A. como apto a tal. perícias. É este último a fonte máxima de autoridade e são os seus veredictos que determinam a identidade social dos indivíduos – como médicos ou advogados.com. natural.iesde. de uma nacionalidade. juntando. Por meio dos seus atos jurídicos de reconhecimento (diplomas.

iesde. Com o seu monopólio da violência simbólica legítima. colocando um freio nas lutas simbólicas entre os indivíduos: o veredicto jurídico. o Estado consegue impor um consenso sobre o significado do mundo social. segundo o motivo pelo qual os dominados submetem-se à autoridade dos dominantes. assim.] é uma relação de dominação de homens sobre homens [. de um determinado conflito entre partes interessadas. por meio de sanções. 2005.. Vimos até aqui como o Estado burocrático moderno diferencia-se de outras formas de associação política por conta do seu monopólio sem precedentes sobre toda uma série de recursos ou poderes: o de exercer a violência física e simbólica legítimas. portanto. a sentença emitida por um agente especializado que é mandatário da autoridade estatal (o magistrado) possui a capacidade de se fazer reconhecer e se impor.]. os dominados acreditam na validade da dominação. outro aspecto em que o Estado moderno diferencia-se dos demais: o do tipo de justificação que fundamenta o seu domínio. ou.. não arbitrário. serve como resolução oficial. ou mais simplesmente no poder de mandar dos poderosos.classificação (especialmente de acordo com a idade e o sexo) inscritos no direito. assine o site www. 526). ser reconhecida por todos). as pessoas dominadas têm de se submeter à autoridade invocada pelas que dominam no momento dado” (WEBER. servindo como o lastro final de todo ato ou rito que se pretenda legítimo. ou seja. nos procedimentos burocráticos. todas as fases da vida são por ele registradas (e. o Estado possui um imenso poder regulador sobre as ações dos seus cidadãos (ou súditos). contudo. nas estruturas escolares e nos rituais sociais [. de instituir. dito de outra maneira.planoeducacao. Espécie de “deus laico”.com. 105) Por meio do sistema de ensino e do poder Judiciário. o do fundamento de sua legitimidade.br 85 . pública (devendo. uniformizadas e padronizadas). p. segundo expressão de Bourdieu. ou seja. casamento.. 1999. mais informações www. “corrupto!”). por exemplo. Assim.. em função de três razões: Para assistir as videoaulas deste livro. Max Weber identifica três tipos básicos de dominação. portanto.. Nada lhe escapa: nascimento. (BOURDIEU. distribuindo direitos e deveres.com. de uma diferenciação quanto aos meios de que esse Estado (ou o grupo que fala em seu nome) faz uso para efetivar sua dominação política. o Estado molda as estruturas mentais e impõe princípios de visão e de divisão comuns.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. divórcio ou óbito.. Trata-se. O Estado burocrático: racionalidade e dominação A legitimidade da dominação burocrática Weber escreveu que “O Estado [.A. concentrar informações e administrar todos os aspectos da vida cotidiana da população de um dado território. da autoridade de nomear. Para que ela subsista. como um “banco central de autoridade”. o de cobrar impostos. o Estado moderno funcionaria. segundo o fundamento da legitimidade que a sustenta. a todos.. Há.]. p. Diferentemente de uma simples injúria ou xingamento (“ladrão!”.

segundo a fórmula: “é assim. do líder guerreiro.A. Mas as sociedades em que se desenvolveu o Estado moderno. A competência técnica da burocracia O tipo de dominação que caracteriza e faz a especificidade do Estado burocrático moderno é justamente este último.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. vetam a possibilidade de questionamento. porque sempre foi”. certificados. despachos. ainda que não estejam de forma alguma excluídos elementos das duas outras formas: há ainda o carisma do líder político. o poder que exercem não é um poder arbitrário. o fundamento do poder reside na secularidade dos costumes e hábitos. a “vocação”). Ciências Políticas I 86 Para assistir as videoaulas deste livro. em função do carisma do líder. e em função da racionalidade aliada à legalidade da estrutura de poder.com.br . são essencialmente dominadas por um corpo de funcionários especializados para exercer a função de administração de todos os aspectos da vida dos cidadãos dentro de um determinado território. Aqui a submissão ocorre por conta da confiança que se deposita na “legalidade” e “racionalidade” da dominação. universais. O ponto que nos interessa aqui é a dominação legal ou burocrática. no caso. do chefe de partido. No caso da dominação carismática. Além disso. em cada um desses três tipos pode haver elementos dos outros.planoeducacao.iesde.com. que fundamenta a crença no poder do Estado. No caso da dominação tradicional. que. isto é. protocolos etc. qualquer indivíduo que ocupe uma posição elevada na estrutura de poder do Estado – um alto burocrata. por exemplo). Acredita-se que se deve obedecer aos dominantes (e entenda-se por dominantes. memorandos. mais informações www. Na realidade. assine o site www. das repartições públicas e por meio de todas as técnicas e procedimentos burocráticos cotidianos – atas. bem como o peso dos costumes na obediência. dirá Weber. mas está regulado por normas legais (no caso do político profissional. racionalmente instituídas e válidas para todos. A dominação é exercida a partir dos escritórios das empresas privadas.. a submissão a um líder ocorre por conta de uma crença na sua excepcionalidade (o “carisma”. em função do peso das tradições políticas. o tempo do mandato. transmitidos de geração a geração desde tempos imemoriais. Encaixa-se aqui a entrega à liderança do profeta. um chefe militar ou um político) porque eles possuem uma competência “objetiva” que os habilita a administrarem os recursos e decidirem sobre as questões de sua área de influência.

assim. é uma invenção ocidental que o Estado burocrático moderno levou às últimas consequências. Tal conceito. há uma separação completa entre o quadro administrativo (os burocratas) e os meios materiais da administração. 517). Isso faz dos burocratas administradores de um recurso que não é o seu. os prédios. cujo patrimônio transcende os indivíduos que dele fazem uso. Essa separação entre o quadro administrativo e os meios de administração é parte de um processo histórico amplo de transformação do Estado em uma entidade cada vez mais impessoal. recursos financeiros e tudo o mais que garante a realização do trabalho burocrático. por exemplo.br 87 O Estado burocrático: racionalidade e dominação .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. com cada um exercendo uma atividade específica e fixa.com. Em oposição a uma hierarquização social baseada nos privilégios do nascimento ou em títulos de nobreza. A posse desses títulos escolares funciona. e não privado ou que vise a fins egoístas. certificados) para dominar. a camada social que integrava o Estado.A especificidade desse corpo de funcionários em relação ao resto da população é que eles foram treinados para e consagrados a exercer a função administrativa: os cursos e concursos pelos quais passam servem como garantias de sua competência. tornada. Daí a dominação burocrática basearse nessa diretriz de racionalidade e eficiência: quem domina são aqueles que estão preparados (treinados. ou seja. como garantia e prova de uma competência e aptidão “objetivas” para exercer os postos de poder. portanto. pois em outras sociedades. ao domínio da caligrafia e da arte poética (WEBER. aliás. p. os trabalhadores de uma empresa capitalista – não são donos dos instrumentos que utilizam. Além da competência técnica e do treinamento para administrar. e não mais os diversos interesses sociais particulares. dentro de um regime salarial de contrato e de acordo com uma regulada perspectiva de carreira. o funcionalismo do Estado moderno diferencia-se por conta da sua forte hierarquização e divisão do trabalho. estatal. mais informações www.com.iesde. estaria apto a representar o bem comum. apoiada evidentemente em seus próprios certificados. e que. equipamentos. assine o site www. “comprovada”. Os funcionários estatais – como.. 1999. preferencialmente os escolares.planoeducacao. os quais pertencem ao patrimônio público. Para assistir as videoaulas deste livro. dessa forma. eram literatos de formação humanística sem nenhum preparo específico para as funções administrativas – suas habilidades resumiam-se a um vasto conhecimento da literatura chinesa milenar. os mandarins. como na China. a burocracia caracteriza-se por uma ideologia do mérito e da competência. O Estado moderno e sua organização burocrática diferenciam-se das demais formas históricas de associação política ainda por outro aspecto: nesse Estado. veículos. o de um grupo treinado especificamente para exercer o poder e governar. o que está no fundamento da noção de que o seu trabalho é um serviço público. “objetiva”.A.

assim. Voltamos. a fazer-se a mesma pergunta: “Onde estava o juiz que ele nunca tinha visto? Onde estava o alto tribunal ao qual ele nunca havia chegado?” (KAFKA. essa entidade fantasmática. é acusado de um crime que supostamente não cometeu. uma autoridade oriunda da “Lei”. ele mesmo não conhece detalhes do seu processo judicial. A partir daí ele irá. como caução ou lastro de todo ato que se pretende legítimo. afundar-se mais e mais em estruturas burocráticas labirínticas. 246). coloca seu personagem Joseph K.com. a despeito de sua corrupção e precariedade. Ciências Políticas I Kafka e os grilhões que prendem o homem. a autoridade do Estado também é irredutível aos indivíduos que ocupam os seus postos. Domínio público.A.br 88 . Mas a questão que decorre daí é: Quem legitima as leis e os códigos? O escritor tcheco Franz Kafka. assine o site www. Todo o desenrolar da história centra-se na tentativa da personagem em tomar conhecimento de sua causa. à questão que trabalhamos no início: o Estado. como fundamento último da legitimidade.iesde.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S..com. a começar pelo crime que supostamente teria cometido. O personagem Joseph K. na busca da verdade. emanam um poder mágico.A autoridade do Estado burocrático Assim como o seu aparato material. Para assistir as videoaulas deste livro. ele próprio devendo sua legitimidade às hierarquias superiores do poder Judiciário. e este poder como um todo devendo sua autoridade às leis e aos códigos. 1988. as quais.planoeducacao. e que jamais é especificado. a polícia e os promotores representam. no romance O Processo (1925). parece escapar a qualquer tentativa de localização de sua fonte de autoridade – a ação de um policial só pode ser diferenciada de uma violência porque está associada a uma ordem judicial que a legitima e que foi emitida por um juiz. p. impalpável e invisível que os tribunais. mais informações www.

a tcheca e a alemã. Formado em direito. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo.A. quem sabe. assine o site www. Kafka apresenta de forma precisa e veemente a questão dos fundamentos da autoridade e do poder em uma sociedade burocratizada.Franz Kafka (ROSCHEL.br 89 .] As obras mais famosas de Kafka foram escritas entre 1913 e 1921. da chamada Escola de Praga. O Estado burocrático: racionalidade e dominação Conclusão Por meio de sua infinita e insondável cadeia hierárquica. Para assistir as videoaulas deste livro.com. O Processo. O olhar kafkiano é direcionado para coisas como a opressão burocrática das instituições.” A despeito dos artifícios literários (ou. O Castelo. cidade que durante todos os 40 anos da vida do escritor pertenceu à monarquia austro-húngara.. na arbitrariedade – como.. ele fez parte. mais informações www. é sempre uma “relação de dominação de homens sobre homens”). mais exatamente.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. 2009) “Franz Kafka nasceu em Praga a 3 de julho de 1883. a “justiça” e a fragilidade do homem comum frente a problemas cotidianos. uma inclinação à metafísica e uma síntese entre uma racional lucidez e um forte traço irônico. a representação do Estado burocrático apresentada por Kafka em O Processo nos faz lembrar que o fundamento da autoridade desse Estado (ou. mas na força. junto com outros escritores da época.iesde. justamente por meio deles). [. O Foguista (que é na verdade o primeiro capítulo de América). Filho de um abastado comerciante judeu. de suas labirínticas repartições. Suas obras também conseguem formalizar e abrigar leituras totalmente relacionadas com a condição do ser humano moderno.com. Esse híbrido de ironia e lucidez aparece na maioria dos textos de Kafka. A Sentença e O Artista da Fome. são elas: A Metamorfose.planoeducacao. dessa forma moderna de dominação social) não se funda na razão ou na competência técnica dos funcionários.. de resto. Kafka cresceu sob as influências de três culturas: a judia. toda associação política (que. relembrando Weber.

sua filiação dinástica). evidentemente. Kafka oferece uma eloquente crítica da dominação legal e burocrática. a possibilidade ou ameaça de uma crise está sempre presente.A. Tal ocorre porque a apropriação da função pelo impetrante também constitui a apropriação do impetrante pela função: o titular toma posse de sua função apenas na medida em que aceita se deixar possuir por ela em seu corpo. 1997. como um uniforme. neste ponto. que caiu em delírio paranoico no momento de sua nomeação. 298-300) Ciências Políticas I Como demonstra Eric L. presidente da terceira câmara da Corte Suprema de Apelação. participante desse poder) ainda centralizava boa parte dos instrumentos de legitimação (seu nome. de uma linguagem. consagrado pela análise de Freud. de modo durável.com. da pessoa privada. Ao explorar os meandros da estrutura administrativa que sustenta essa ficção jurídica que vem a ser o Estado moderno.com. p. Santner. e de uma hexis corporal adequada. sobretudo nos momentos inaugurais em que se faz valer o arbítrio da instituição. a que se vê obrigado pelo rito de investidura o qual. um uniforme –. o Estado deixa de centrar-se na pessoa do rei e transforma-se em uma ficção jurídica. a respeito do caso. pretende envolvê-lo. mais informações www. em linguagem científica.A diferença reside. com o surgimento das monarquias absolutistas. como Senatspräsident. em sua legalidade. a pessoa do rei (como representante do poder divino ou como. potencialmente. do presidente Daniel Paul Schereber. Literatura e ciência social. ele próprio. 90 Para assistir as videoaulas deste livro. cuja legitimidade reside não mais em um indivíduo específico. convergem e alimentam-se. ao impor a adoção de uma vestimenta – em geral. com o processo de burocratização. tal como a descreve. por vezes exorbitante.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. igualmente padronizada e estilizada. Textos complementares Meditações pascalianas (BOURDIEU. em junho de 1893. com uma maneira de ser impessoal e a manifestar por esse quase-anonimato que ele aceita o sacrifício. ou seja.br .planoeducacao.. assine o site www. mas na coerência interna e na racionalidade de seus estatutos e procedimentos.iesde. Weber. na forma historicamente variável como essa arbitrariedade é encoberta: no começo do processo de formação do Estado moderno.

ao cabo de uma espécie de regressão ao infinito. O processo (KAFKA. a exemplo do que se passa com a ordem social. a causa judicial surge no seu campo de visão sem que saibam de onde vem e prossegue sem que eles fiquem sabendo para onde. o Estado. Eles têm permissão para se ocupar apenas da parte do processo que a lei lhes delimita e o mais das vezes sabem. que a “a sociedade é Deus”.[.A. 1988. Como se vê. assim como Kafka poderia tê-lo feito. aquela em que se constitui a afirmação de que um ser contingente. do efeito da instituição.com. p.. [. em última instância. até essa espécie de realização de Deus sobre a terra que vem a ser o Estado que garante.] Os ritos de instituição oferecem uma imagem exagerada. particularmente visível. E os atos de nomeação. mais informações www. inválido. dos resultados do próprio trabalho. que consagram as nobrezas. a validez dos certificados de existência legítima (como doente... mesmo para o iniciado. E a sociologia se completa assim numa espécie de teologia da última instância: investido. O procedimento nas cortes é em geral secreto até para os funcionários inferiores. da decisão final e dos seus fundamentos. Portanto. daquilo que se segue.com. professor titulado ou pároco). até os mais solenes. é digno da dignidade transcendente e imortal que lhe é atribuída. assine o site www.iesde. vulnerável à doença. por delegação. faz existir ao nomear e ao distinguir. Durkheim não era tão ingênuo como se quer fazer crer quando dizia. 130-134) A hierarquia e os escalões do tribunal são infinitos e. de conferir a razão de ser dentre as razões de ser. ou seja. a série infinita dos atos de autoridade capazes de atestar.] Para assistir as videoaulas deste livro.planoeducacao. como a concessão de uma carteira de identidade ou de um atestado de saúde ou de invalidez.. escapa a esses funcionários.br 91 O Estado burocrático: racionalidade e dominação . semelhante ao intuitus originarius divino segundo Kant. insondáveis. a exemplo do tribunal de Kafka. desde os mais triviais da ordem burocrática ordinária. levam. ser arbitrário que tem o poder de arrancar do arbítrio. o ensinamento que se pode extrair do estudo das fases isoladas do processo. daí não poderem quase nunca acompanhar plenamente a evolução posterior dos casos em que trabalham. à enfermidade e à morte. de um poder absoluto de julgamento e de uma percepção criativa.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S..

O processo acaba de ingressar numa fase em que não se pode mais oferecer nenhuma ajuda.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. para tanto quase não existem normas. por causa de uma pequena brincadeira. de todos os sucessos pequenos e aparentes com os quais se tem tanta satisfação. que só ousa fazer porque tudo parece sem perspectiva. chegam horas sombrias. Depois. os funcionários são em muitos aspectos como crianças. Também isso é uma espécie de autoconfiança. Não que o processo seja retirado dele pelo acusado: isso de fato jamais acontece. de forma surpreendente. Seja como for. se pediu ajuda uma vez? Isso portanto não acontece. eles se deixam levar ao riso e ficam reconciliados. em que parece que só os processos desde o início destinados a um bom desfecho teriam chegado a bom termo.com. onde até o acusado já não é mais acessível ao advogado. sem nenhuma razão particular. Então. O processo. em suma. o que também iria acontecer sem qualquer ajuda. Certamente é a pior coisa que pode suceder a um advogado. pois mesmo estes não sabem nada. desviando-se quando os encontram. mas é a única coisa que então resta. é claro. nada mais parece seguro. em que nele trabalham cortes judiciais inacessíveis.. É pois difícil e fácil ao mesmo tempo tratar com eles.br . mais nada – quando de repente lhes tiram da mão um processo que levaram muito longe de forma satisfatória. mas é certo que às vezes acontece que o processo tome um rumo que o advogado não pode mais acompanhar. tudo. Ciências Políticas I 92 Para assistir as videoaulas deste livro. os firam de tal modo que eles param de conversar até com bons amigos.iesde.com. entretanto. em que se acredita não ter conseguido nem o mínimo. como todos as têm. de todo o esforço. um acusado que nomeou um determinado advogado tem que ficar com ele aconteça o que acontecer. um dia. assine o site www. Às vezes é de admirar que uma única vida de duração média baste para apreender tanta coisa. e diante de certas perguntas não se ousaria nem mesmo negar que processos naturalmente bem tramitados foram desencaminhados exatamente pela ajuda que se quis oferecer. É frequente que coisas inofensivas. o acusado. Os advogados estão particularmente expostos a esses acessos – são acessos. ao passo que todos os outros foram perdidos a despeito de todo o acompanhamento. trabalhando contra eles em tudo que é possível.. Mas depois. mais informações www. são pedaços de papel sem valor.A.planoeducacao.De fato. você chega em casa e encontra sobre a mesa de trabalho várias petições que fez com todo o zelo e as mais belas esperanças nesta causa: elas foram devolvidas porque não podem ser transferidas para a nova etapa do processo. a fim de que se possa trabalhar aqui com algum êxito. Como é que ele poderia ainda manter-se só. é pura e simplesmente tirado do advogado. entre as quais entretanto infelizmente não figura a conduta de K. aí nem as melhores relações com os funcionários podem mais ajudar.

mais informações www.A.iesde.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br 93 O Estado burocrático: racionalidade e dominação . A cerimônia de posse do presidente da República é um rito de instituição por meio do qual são conferidas a um indivíduo a identidade e a autoridade de chefe máximo do Estado nacional (“chefe de Estado”).com.Atividades 1.com.planoeducacao. destacando por que ele pode ser caracterizado como tal. Para assistir as videoaulas deste livro. Cite um outro exemplo que ilustre a ideia de rito de instituição. assine o site www..

iesde. assine o site www. Dê outros exemplos desse tipo de ação estatal. Uma mudança ortográfica é um exemplo típico da ação de normalização que o Estado moderno exerce sobre os seus cidadãos.planoeducacao.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Ciências Políticas I 94 Para assistir as videoaulas deste livro.br .com..A.2. mais informações www.

Procure outro produto cultural (livro.com. ilustra a dominação burocrática do Estado em sua forma moderna. obra literária de Franz Kafka..br 95 O Estado burocrático: racionalidade e dominação .A. Para assistir as videoaulas deste livro.) que também sirva como ilustração de algum aspecto característico do Estado moderno.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Justifique a sua escolha. assine o site www.3.planoeducacao. mais informações www.iesde. O Processo. filme etc.com.

com..com.Para assistir as videoaulas deste livro.planoeducacao.A. assine o site www. mais informações www.iesde.br .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.

disciplinar o funcionamento da democracia e avalizar e difundir uma concepção abstrata (jurídica) de cidadania na qual só se é verdadeiramente igual no papel. o complexo militar-industrial. Ou seja. econômicos e ideológicos. enquanto. considerando com atenção a demanda de certos grupos e ignorando a necessidade dos demais. não é o mesmo Estado dos norte-americanos. que controlam as instâncias decisórias do Estado de Para assistir as videoaulas deste livro. verificamos que existem Estados muito diferentes entre si. na China quem define as políticas de governo são as cúpulas burocráticas do Partido. sustentado por um regime político de partido único (o Partido Comunista). Em suma. assine o site www. Não é preciso ser muito intuitivo para perceber que as decisões do Estado favorecem explicitamente alguns interesses. de alguma maneira a eles. igualmente.iesde. mas agridem outros. promovendo os assuntos de uma (pequena) parte da sociedade em detrimento da maioria. mais informações www. as decisões estatais (as “políticas públicas”) nunca alcançam todos de forma igual. Por meio das instituições de governo.O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana O Estado tem grande importância para a realidade social.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. benefícios e prejuízos.br 97 .planoeducacao. Além disso. o mercado econômico. Enquanto nos Estados Unidos se admite a representação de muitos interesses sociais (grandes firmas capitalistas. da burocracia e das leis.). é bem rápido para deliberar quando os negócios de alguns estão em jogo. O Estado capitalista chinês. o Estado capitalista não age como uma instituição que distribui. O Estado pode adiar a implementação de determinada medida ou barganhar infinitamente seus termos e condições.com. produzindo uma formidável quantidade de efeitos: políticos. O Estado capitalista tem o poder de regular. Algumas funções econômicas e estruturas burocráticas são semelhantes.. ele garante a administração de um pedaço importante da vida em uma comunidade política. mas outras são muito diferentes. por outro lado. os produtores de petróleo do Texas etc. Por exemplo. é completamente distinta a forma de cada um se relacionar com o mercado político (mercado eleitoral). por exemplo. nem agradam todos de forma igual. no qual vigora um regime multipartidário com a predominância real de dois partidos (o Republicano e o Democrata) que se alternam no poder.A. financistas poderosos e rentistas. e o Estado tem de responder.

planoeducacao.com. isto é. Ciências Políticas I Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895).com. Resumiremos as características e as especificidades de cada uma. Do ponto de vista histórico. o Estado chinês teve origem em uma revolução social camponesa em meados do século XX. A tradição marxista Divulgação Cassio Loredano. assine o site www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. o Estado norte-americano surgiu de uma guerra anticolonial em fins do século XVIII. o segundo. O primeiro foi inspirado por uma ideologia socialista e igualitária. Para assistir as videoaulas deste livro. por uma ideologia liberal e democrática. Tendo em mente essas poucas diferenças aqui listadas.iesde. mostrando suas evoluções mais recentes.forma ditatorial.. mais informações www. é esperável que surjam certas questões.br 98 . a fim de sublinhar suas diferenças e suas dificuldades. constante ao longo do tempo? Os Estados possuem funções e é por meio delas que se pode defini-los e caracterizá-los? Como se deve descrever sociologicamente um Estado? Por meio das suas ações internas ou das suas relações externas? Qual é o limite do poder estatal perante a sociedade? Quem define isso? Em nome de quê? Existem na Ciência Política duas grandes teorias sociais utilizadas para compreender e explicar o Estado: a teoria weberiana e a teoria marxista. por Cassio Loredano.A. tais como Os Estados – quaisquer Estados – possuem alguma função social específica e invariável.

vejamos alguns princípios teóricos gerais da ciência política marxista.com.A tradição marxista de estudos sobre o Estado está assentada mais sobre interpretações das obras de Marx e Engels e de alguns dos seus continuadores mais importantes.br 99 . Trataram da Revolução na Alemanha e na França em 1848. de Karl Marx (MARX. da Guerra de Independência dos Estados Unidos. 1982). mais informações www. os teóricos Nicos Poulantzas (1936-1979) e Ralph Miliband (1924-1994) adaptaram de diferentes maneiras as ideias originalmente pensadas para dar conta dos conflitos políticos e das contradições sociais dos tempos heroicos do capitalismo.com. do que em uma teoria política consistente e coerente desenvolvida pelo próprio Marx. lançaram uma infinidade de sugestões. de Karl Marx (MARX. As Lutas de Classe em França de 1848 a 1850. uma das escolas mais influentes da Ciência Política. Antes. O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana O 18 Brumário de Luis Bonaparte. entre outros acontecimentos. do golpe de Estado na França em 1851.planoeducacao. A Burguesia e a Contrarrevolução. ENGELS.. Obras de Marx & Engels sobre a política. 1987). produtivo mas heterogêneo. da política externa da Inglaterra. de Karl Marx (MARX. como Lênin e Gramsci. A Guerra Civil na França. Nos textos em que os abordam. uma série de análises específicas sobre a política europeia da segunda metade do século XIX em diante. o poder e o Estado Barbárie e Civilização. da revolta dos operários em Paris em 1871. 1982).br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Daí que a “teoria marxista do Estado”. temos aqui antes uma exposição das visões desses cientistas políticos sobre como entender as funções do Estado capitalista do que uma discussão do pensamento do próprio Marx. Marx e Engels produziram. noções e conceitos para entender a política nas sociedades de classe. na realidade.A.iesde. seja produto da leitura e do comentário dos textos desses clássicos do pensamento socialista e da sua atualização para a compreensão do Estado capitalista contemporâneo. A partir desse material. Para assistir as videoaulas deste livro. assine o site www. ENGELS. porém. 2006). 1983). de Friedrich Engels (ENGELS. Assim. de Karl Marx (MARX.

O modo de produção Modo de produção é um conceito que pretende integrar três estruturas ou esferas do mundo social: a estrutura econômica. esses interesses estão inscritos nos mecanismos internos do Estado. Para facilitar a compreensão desse ponto. 100 Para assistir as videoaulas deste livro. que recebe do exterior as leis reguladoras de sua conduta. assine o site www. heteronomia é o oposto de autonomia. Por ser heterônomo. ou melhor. podemos dizer que. a luta entre esses grupos – as classes sociais – em nome da defesa dos seus interesses específicos) se convertem em decisões políticas. não funciona de maneira independente. interesse na reprodução desse tipo de sociedade.planoeducacao. o Estado é o produto das relações contraditórias entre os agentes sociais que existem fora dele. Ciências Políticas I 1 Conforme o Dicionário Houaiss. para os marxistas. Que lugar é esse. Isso se dá por meio do Estado. burocratas etc. Esse pressuposto permite entender uma segunda ideia: a heteronomia1 do Estado em relação à sociedade: o Estado (qualquer Estado histórico) não é autônomo em relação aos interesses sociais dominantes. Aliás. Como essa classe é preponderante no modo de produção capitalista e tem. o papel do Estado é assegurar a reprodução do capitalismo.iesde. Ele faz isso na exata medida em que atende aos interesses da burguesia.). o Estado não possui uma lógica própria.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. podemos imaginar o Estado não como uma coisa. o lugar do Estado? De forma sintética. Todas as suas ações/decisões são derivadas de outros interesses – interesses propriamente sociais – alheios aos interesses próprios dos seus dirigentes (políticos. Para entender a relação entre heteronomia e função do Estado.br . o Estado não pode ser entendido como uma realidade em si mesmo: na verdade. o Estado é o lugar em que as lutas de classe (isto é. mais informações www.com. devemos perceber que o Estado é heterônomo na exata medida em que ele cumpre uma função.com.A.. por isso. a estrutura política e a estrutura ideológica. mas sim como um lugar. A principal função do Estado capitalista é garantir a preponderância dos interesses de uma classe em especial – a burguesia. Algo heterônomo é aquilo que está sujeito a uma lei exterior ou à vontade de outrem. o Estado é o lugar em que a vontade de uma classe específica – a classe dominante – é concretizada.Heteronomia e externalismo Para os marxistas.

por meio dela. como a reprodução do modo de produção.br 101 O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana . mais informações www..com. em outras palavras. Contudo.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. a passagem de um modo de produção a outro e a configuração da nova forma de organização social. a organização e o modo pelo qual o Estado cumpre suas funções (geral e específica). o aspecto do Estado. A caracterização de um modo de produção determinado – o capitalista por exemplo – deve obrigatoriamente levar em conta as três dimensões de análise (o nível econômico. a classe economicamente dominante. o feudalismo e o capitalismo são exemplos de modos de produção: em cada um deles verificamos diferenças muito grandes no tipo de relações entre os principais agentes sociais (proprietário e escravo. senhor feudal e servo.com. toda análise marxista sobre o Estado tem de levar em consideração no mínimo três variáveis: o tipo de relações de produção. nas análises históricas são as transformações no nível econômico que definem.A. alterações significativas nas relações de produção ou oscilações (diminuição ou agravamento) das lutas de classes produzem sobre o Estado efeitos que alteram a estrutura. O Estado (ou melhor. em termos técnicos. sobre todas as demais classes sociais (função específica). todos os Estados – capitalista. nas relações entre o econômico. O modo de produção contém duas variáveis que são decisivas para entender a “forma do Estado”: as relações de produção e as relações de classes (ou as “lutas de classe”). conseguir derivar a forma-política ou. escravista etc. O Estado funciona de maneira a manter estáveis as relações sociais que vigoram em um determinado modo de produção (ou para “garantir a reprodução do modo de produção”) a fim de defender a primazia de uma vontade específica – a vontade da classe economicamente dominante.iesde.planoeducacao. Dessa maneira. no tipo de organização política (Estado) e na ideologia dominante.) tem uma função geral e uma função específica: garantir a coesão social (função geral) e. Essa função geral pode ser designada. em última instância. Para assistir as videoaulas deste livro. burgueses e proletários). e o modo de produção é a variável independente: à medida que ocorrem mudanças históricas no modo de produção (isto é. Portanto. assine o site www. o político e o ideológico). preservar a dominação política de uma classe.O escravismo. a partir delas. o político e o ideológico). podemos dizer que o Estado é a variável dependente. a situação das lutas de classe – para. Nesse caso. o Estado transforma-se proporcionalmente a fim de cumprir aquelas funções.

por exemplo. ENGELS. O ideário político marxista (MARX. assine o site www.Levando em consideração esses fatores. os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: a abolição da propriedade privada. mas heterônomo. sua burocracia. por que varia etc. Ora.A. Ciências Políticas I 102 Para assistir as videoaulas deste livro. para os marxistas. nunca pode ser um trabalho que tem como foco o próprio Estado (seu aparelho. é possível verificar como o Estado varia.iesde. antes. Como o Estado não é autônomo em relação à ordem social.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. basicamente.br . na exploração de uns pelos outros. sendo um produto da ordem social para cuja reprodução contribui. em última instância. As lutas de classe As lutas de classe são a expressão das relações de força existente entre os proprietários dos meios de produção e os não proprietários dos meios de produção. mais informações www. a propriedade privada atual. A relação de força/luta entre essas duas classes principais tem como combustível o interesse de cada classe em adquirir para si o monopólio dos meios de produção. p. uma teoria sobre a sociedade na qual esse Estado está inserido. que só entendemos o Estado se entendemos a configuração do modo de produção.planoeducacao. 32) “O que caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade geral. toda teoria do Estado é. e também determinar qual o estágio atual da luta de classes. Logo.com. a propriedade burguesa. seu poder). só poderemos entender o Estado capitalista contemporâneo se entendermos a configuração atual do modo de produção capitalista – o que implica. pelo poder do Estado norte-americano.. Assim. só entendemos o Estado capitalista se entendemos a configuração do modo de produção capitalista. mas a abolição da propriedade burguesa. em que direção varia. entender e explicar o Estado. altamente dependente do capital financeiro e em que as conexões políticas e comerciais entre os Estados estão condicionadas. Isso significa. Enfim.com. é a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de apropriação baseado nos antagonismos de classes. determinar como são as relações de produção em um sistema econômico globalizado. 1983. Nesse sentido. em conclusão.

garante para a classe dominante o poder social: o monopólio dos meios de produção. Cria o capital. Mas como isso ocorre? Como os interesses da classe dominante podem ser reproduzidos pelo Estado? Existem duas formas de explicar esse fenômeno: pela concepção instrumentalista e pela concepção estruturalista. a propriedade que explora o trabalho assalariado e que só pode aumentar sob a condição de produzir novo trabalho assalariado.Censuram-nos. a fim de explorá-lo novamente”. isto é. o Estado segue os interesses da classe dominante na medida em que garante (a ela) a reprodução da ordem social.com. forma de propriedade anterior à propriedade burguesa? Não precisamos aboli-la.A. o querer abolir a propriedade pessoalmente adquirida.com. de toda independência individual. mais informações www. de toda atividade. o trabalho assalariado cria propriedade para o proletário? De nenhum modo. fruto do trabalho do indivíduo. da propriedade burguesa? Mas.br 103 O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana . por meio do seu poder político. do pequeno camponês. A propriedade pessoal.. assine o site www. Instrumentalismo e estruturalismo Como foi dito acima.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Mas elas divergem sobre como o Estado faz isso. na medida que. Ambas as abordagens partem de um mesmo ponto comum. porque o progresso da indústria já a aboliu e continua a aboli-la diariamente. ou como as classes dominantes conseguem afinal impor seus interesses no Estado. embora enunciem a ideia de formas diferentes: as decisões do Estado capitalista obedecem aos interesses das classes dominantes. Podemos tentar entender essas questões analisando um debate entre os cientistas sociais marxistas Ralph Miliband e Nicos Poulantzas. fruto do trabalho e do mérito! Pretende-se falar da propriedade do pequeno burguês.planoeducacao. a função do Estado capitalista é produzir as condições sociais que garantam a reprodução do modo de produção capitalista. Ou porventura pretende-se falar da propriedade privada atual. a nós comunistas. veiculado por uma revista socialista inglesa chamada New Left Review em fins dos anos 1960 e início dos 1970. propriedade que se declara ser base de toda liberdade. Para assistir as videoaulas deste livro. o trabalho do proletário.iesde.

com. o Estado reproduz o modo de produção na medida em que serve aos interesses dos indivíduos que o ocupam. mostrar a pertinência do conceito de classe econômica dominante para essas sociedades. Segundo Miliband. simetrias. visão de mundo semelhante. há uma grande possibilidade de provar que.br . Miliband (1972) pretende fazer uma análise do Estado em uma situação historicamente determinada – as sociedades capitalistas avançadas. por exemplo. mesmos mecanismos de socialização.planoeducacao. atrelado ao conceito de elite estatal. O Estado na Sociedade Capitalista. Isso pode ser realizado. Ciências Políticas I 104 Para assistir as videoaulas deste livro. Seus objetivos são basicamente: rebater as teorias pluralistas que têm uma interpretação mistificadora da política nas sociedades democráticas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Análise empírica Análise empírica é um procedimento científico ancorado na pesquisa. a classe economicamente dominante consegue fazer com que o Estado funcione segundo sua vontade porque ela está “fisicamente” presente no aparelho do Estado. e mostrar a pertinência do conceito de classe politicamente dominante para o estudo dessas sociedades. na coleta e na verificação de dados (informações) obtidos de forma direta.iesde. acoplado ao conceito de elites econômicas. assine o site www. origem social comum). mais informações www.. é possível constatar tendências.com. por meio de questionários e entrevistas em que o pesquisador recolhe informações dos indivíduos estudados para posteriormente produzir correlações estatísticas e interpretações. Em seu principal livro. assimetrias e correlações entre fatores na realidade estudada. de fato. Miliband propõe uma análise comparativa entre os indivíduos empregados no Estado e os integrantes da classe dominante: se houver correspondência entre eles (mesma educação.A.O instrumentalismo: Ralph Miliband Ralph Miliband (1924-1994) foi um cientista político belga que ensinou na Inglaterra e nos Estados Unidos e que seguiu a tradição marxista. Para conferir essa premissa (de que o Estado está povoado pela classe economicamente dominante). Assim. Podemos entender o argumento desse autor se atentarmos para dois pontos-chave da sua explicação: o papel dos indivíduos na ação do Estado e a necessidade de análises empíricas para conhecê-lo.

Após uma exaustiva análise empírica da política na Grã-Bretanha. Miliband inicia uma tradição de análises empíricas sobre a relação entre o Estado/a elite estatal. Presidentes. os capitalistas e as decisões fundamentais do Estado. o Estado é capitalista – ou seja. Assim.com. primeiros-ministros. juízes de cortes supremas. existem Estados cujas cúpulas políticas e administrativas não são dominadas por indivíduos de origem social burguesa ou que têm vínculos diretos com os capitalistas. Para Poulantzas.planoeducacao. A partir daí. efetivamente. sustentando ser necessário checar empiricamente a relação entre essas variáveis. está destinado a agir sempre a favor dos capitalistas – independentemente dessa relação. abrimos espaço para os adversários do marxismo argumentarem que o Estado não é capitalista. onde estão e como chegaram lá – para.br 105 . 1972). o nível das relações entre indivíduos. ministros de Estado.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. em especial no terreno econômico. Miliband afirma que os indivíduos que exercem o poder de Estado. assessores e diretores de agências executivas. Estruturalismo: Nicos Poulantzas Para Nicos Poulantzas. assine o site www. a cúpula militar. controlado e encurralado pela classe dominante. a pior maneira de provar a natureza de classe do Estado capitalista é a partir das relações subjetivas entre a burocracia e a burguesia. altos funcionários públicos e outros administradores importantes do Estado. uma vez que os indivíduos que dirigem o Estado (a elite estatal) tendem a utilizá-lo (o Estado) como um instrumento direto para garantir a predominância dos primeiros.. evidenciar a forma pela qual o Estado segue os interesses dos indivíduos que integram a classe dominante (MILIBAND. Deve-se olhar para os indivíduos – quem são eles. Isso determina o seu comportamento político.iesde. tomam as decisões fundamentais e controlam as cúpulas das instituições centrais do sistema estatal – a elite estatal – são recrutados no seio da classe economicamente dominante. no capitalismo. alguns dos dirigentes das assembleias parlamentares: a maioria esmagadora dessa elite estatal é proveniente da classe economicamente dominante da Grã-Bretanha – e está altamente predisposta a beneficiar sua classe de origem. Fica por isso condenado a atender os interesses desses indivíduos (os capitalistas). em seguida.A. A questão não está aí: se a colocamos nesse nível. O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana Para assistir as videoaulas deste livro.com. o Estado. o Estado capitalista é guiado. nem está condenado a atender sistematicamente os interesses dos capitalistas porque. mais informações www.

Ciências Políticas I Resumindo: para a análise estrutural as estruturas sociais determinam. conformam. ou seja.A. enquanto para a perspectiva individualista são os indivíduos que constroem. o foco está nas estruturas (não nos indivíduos) e nas análises lógicas (não nas pesquisas empíricas). aspirações.com. constrangem a ação dos indivíduos. mais informações www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. no que diz respeito às relações entre classe e Estado. redesenham as estruturas por meio de suas ações. os indivíduos são coordenados por forças que estão acima deles – as estruturas sociais. 106 Para assistir as videoaulas deste livro. devemos nos deter em dois pontos que são completamente antagônicos em relação a aspectos presentes na análise de Ralph Miliband: em Poulantzas. modificam. podendo promover alterações nas estruturas sociais. Para entender o pensamento de Poulantzas.planoeducacao..Nicos Poulantzas. assine o site www. projetos.iesde. . Nicos Poulantzas (1936-1979) foi um cientista político grego e um dos mais conhecidos pensadores dedicados ao estudo do Estado. O segundo enfoque é o oposto: os indivíduos têm um controle (ainda que variável) sobre suas ações e conseguem levar a cabo suas vontades. O enfoque estrutural pressupõe que os indivíduos não têm domínio sobre suas ações.br Divulgação. Estrutura e indivíduo na teoria social É importante salientar que entre estrutura e indivíduo há uma oposição que divide todo o campo da teoria social.com.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. A maioria dos estudos de Poulantzas não está orientada por uma abordagem empírica. do poder e do Estado. mais informações www.. por exemplo. afirmar que o modo de produção tem uma capacidade muito maior de constranger a atuação dos agentes estatais equivale a dizer que essa é uma realidade muito mais fundamental do que a origem ou o pertencimento de classe dos indivíduos que integram a administração do Estado. eles são coagidos. Como se verá.planoeducacao. os tipos de relações sociais predominantes etc. Para Poulantzas. No entanto. Nos ecossistemas. a seguir os interesses dessas últimas. A diferença é que Weber buscou. a questão do Estado.Na abordagem estruturalista. assine o site www. pois o lugar que elas ocupam na sociedade (em razão do modo de produção) é a força principal da sociedade. tudo se passa como se a sociedade fosse um sistema de forças interligadas que se relacionam como em um ecossistema – só que. 1976). àquela forma de dominação que corresponde ao Estado capitalista na terminologia dos marxistas. e a partir daí produz. indiretamente. o Estado está estruturalmente coagido a seguir os interesses da classe dominante mesmo que inexistam indivíduos oriundos dessa classe fisicamente presentes no aparelho do Estado. a força que mais contribui para a construção da realidade social. orientadas pelo seu marco teórico (o marxismo). Isso ocorre porque o Estado (capitalista) está inserido em um sistema de relações de força comandado pelo modo de produção (capitalista). existem algumas espécies que contribuem mais para a construção e a reprodução do todo. tendo mais poder (a espécie humana. uma interpretação. Assim.br 107 . seus trabalhos são predominantemente bibliográficos. mesmo que os indivíduos que ocupam o Estado não tenham nenhuma relação direta com as classes economicamente dominantes. Dessa forma.A.iesde. com base em conclusões lógicas. decorre da suas análises do processo histórico de formação dos Estados europeus. estuda sua história e sua formação social. O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana A tradição weberiana Tanto quanto Karl Marx.com. Com efeito. Max Weber (1864-1920) possui vários escritos em que trata dos problemas da política. os quais são destacados por sua perspectiva teórica: as lutas de classes. o estágio do desenvolvimento econômico. as formas de dominação política. Poulantzas coleta uma literatura imensa sobre um determinado país. isto é.com. ele tenta identificar na realidade estudada elementos relevantes. Ao contrário. explicitamente. o autor promove uma leitura do material escolhido utilizando a teoria como uma lente para revelar a lógica escondida por trás dos dados (POULANTZAS. no lugar de espécies naturais. não desenvolveu nem formalizou uma teoria completa sobre o assunto. Assim. em Weber. teríamos grupos sociais se relacionando a partir de forças desiguais. dar um conteúdo específico à noção de Estado moderno. afeta muito mais a realidade do planeta do que as antas e as pacas). Para assistir as videoaulas deste livro.

br . o poder e o Estado Parlamentarismo e Governo numa Alemanha Reconstruída: uma contribuição à crítica política do funcionalismo e da politica partidária. de Max Weber (WEBER. Os Três tipos Puros de Dominação Legítima. 128-41). Weber propõe uma definição histórica e sociológica do Estado mediante análise: do processo de concentração do poder característica dos grandes Estados territoriais modernos. Conferência sobre o Socialismo.com. ministérios etc.A. com o senhor buscando cada vez mais submeter a burocracia.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Estudos Políticos: Rússia . o príncipe. p.. 1974.iesde. o ditador etc. Ocorrem disputas políticas no interior do aparelho de Estado. 1986. de Max Weber (WEBER.Obras de Weber sobre a política. de Max Weber (WEBER. judiciário. ou seja. a relação do poder central com o aparato administrativo.planoeducacao. 1993. assine o site www. a expressão da dominação de classe). a essência da política é a luta pelo poder (a política não é. tentam cada vez mais se tornar Ciências Políticas I 108 Para assistir as videoaulas deste livro. a burocracia). qualquer figura política que encarne esse poder – o senhor. de Max Weber (WEBER. na linguagem do autor) e os funcionários do Estado (no caso do Estado capitalista. 2005). p. o rei. 7-91). isto é. Para Weber. La Institución Estatal Racional y los Partidos Políticos y Parlamentos Modernos: Sociología del Estado. por sua vez.1905 e 1917. Estes. mais informações www. 85-128). p. e das transformações sociais que permitiram essa concentração.com. 1964. tentando cada vez mais ampliar o seu arbítrio a fim de impor suas vontades sobre seus funcionários. Para entender integralmente a teoria weberiana do Estado. Tanto o poder central quanto o aparato administrativo são motivados pela busca do poder. como é para os marxistas. 1047-1117). A política como Vocação.. 2000). o analista deve se ater a duas relações extremamente importantes: entre o poder central do Estado (o líder soberano. legislativo. entre o poder central e as instituições que compõem o aparato estatal (exército. de Max Weber (in WEBER. de Max Weber (WEBER.) – ou seja. p.

1999). mais poder do que o servo patrimonial (WEBER.com. Não há uma separação nítida entre o público (os bens e recursos do Estado) e o privado (as propriedades do senhor). sustenta que o mais importante são as relações sociais fora do Estado. para determinar as características e os efeitos de um Estado importam as relações sociais que ocorrem dentro do Estado (a perspectiva marxista. mas às leis e aos regulamentos. relações essas que. conseguiremos ilustrar que. o superior hierárquico. parentes.br 109 O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana . Esses fatores determinam as características específicas que o Estado assumirá. o Estado patrimonial é uma organização política em que o líder administra o seu território seguindo a mesma lógica da administração familiar. isto é. sublinhamos que Weber enfatiza as relações sociais que se desenvolvem no interior do Estado (onde ocorre uma competição pelo poder) e a distribuição desigual do poder. As relações entre o líder e a comunidade política são relações pessoais (como a de um pai em relação ao filho). São elas que estipulam suas funções. como vimos. Nessa ilustração. a relação entre o senhor. Para assistir as videoaulas deste livro.com. pelas formas históricas que assume. É exatamente por isso que o burocrata tem. O funcionário não obedece diretamente ao líder. formado segundo sua competência técnica. caracterizadas pela dependência e pelos laços de lealdade. com os funcionários lutando para diminuir o arbítrio do líder. Autonomia e internalismo A natureza das relações sociais entre o poder central e o aparato administrativo determina os tipos de Estado e seus efeitos sobre a sociedade. impondo a ele os seus próprios interesses. Dessa forma. mas deve ser explicado em si mesmo. comparativamente. no Estado capitalista). para Weber. e o líder lutando para ampliar seu arbítrio sobre os funcionários de outro. assine o site www. Já no Estado burocrático-racional (isto é. é bastante significativo o grau de arbítrio do senhor sobre seus funcionários. Nesse caso. O quadro administrativo é constituído por dependentes diretos do senhor (familiares ou funcionários domésticos). segundo Weber.iesde.A. é uma relação tipicamente impessoal. Também conseguiremos entender como o Estado. mais informações www. condicionam suas ações). nem está sujeito à vontade discricionária do senhor. Por meio dessas relações.. não se define pela função que desempenha. amigos pessoais (“favoritos”) ou fiéis (“vassalos”) etc.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Por exemplo.planoeducacao. ao contrário. por um lado. Ele simplesmente cumpre as funções administrativas que lhe foram designadas.independentes. autônomos em relação aos desígnios do poder central. percebemos que existem dois tipos muito distintos de Estado: o patrimonial e o burocrático. Mas como o primeiro se transforma no segundo? Esse processo de mudança ocorre através das lutas dentro do Estado. e o quadro burocrático.

É evidente a diferença entre a teoria marxista e a teoria weberiana do Estado. Admirador da organização e do modo de funcionamento do parlamentarismo inglês. e particularmente um “Estado”.. 1999.]: o da coação física. para compreender o fenômeno. p. para Weber. p. mas. na política é essencial uma constituição que assegure uma supervisão parlamentar contínua sobre o poder burocrático. em todos os momentos e exclusivamente. também não há nenhuma da qual se poderia dizer que tivesse sido própria..Se o Estado é produzido pelas lutas internas em torno do poder propriamente estatal (o poder político). em algum momento. Isto é.com. (WEBER. mais informações www. Essa perspectiva exige. somente o Estado pode utilizar ou autorizar o uso da força física para resolver qualquer problema ou para atingir qualquer fim. Para Weber. ao contrário. assine o site www. MILLS. o Estado nunca pode ser definido pelo que ele faz. não pode ser definida pelo conteúdo daquilo que faz. Não há quase nenhuma tarefa que alguma associação política. ao longo da história. Weber advogava um sistema parlamentar ativo. à maneira específica (e o termo aqui tem o sentido de exclusiva) pertinente unicamente ao Estado: a coação física. hoje em dia. Para nosso autor. Estados) ou que são historicamente as precursoras do Estado moderno. Weber não define o Estado pelos papéis que cumpre na realidade social e sim pela forma específica (“histórica”) por meio da qual executa esses papéis.) Aqui percebemos a ênfase dada por Weber ao meio próprio. por outro lado. e fazem. em grande medida alheia a efeitos externos (por exemplo. Ao contrário. podemos dizer que. quaisquer que sejam eles: Do ponto de vista sociológico.A.com. Para os marxistas.. uma abordagem “internalista”: o foco deve estar nas relações que ocorrem dentro do aparelho do Estado.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. ou seja. 1982. muitas coisas diferentes. daquelas associações que se chamam políticas (ou hoje.br 110 . 58) Ciências Políticas I Para Weber.iesde. Adaptado. o Estado é uma entidade autônoma. Weber era essencialmente Para assistir as videoaulas deste livro. somente se pode definir sociologicamente o Estado moderno por um meio específico que lhe é próprio [. com partidos políticos fortes. 525. não tivesse tomado em suas mãos. só é possível entender o Estado por meio da função que ele executa na sociedade: a reprodução da preponderância política e econômica da classe dominante. democracia e parlamentarismo eram essencialmente métodos de seleção das lideranças políticas. Ele deve ser definido pela maneira exclusiva pela qual ele sempre executou suas diversas atividades. alheia ao modo de produção).planoeducacao. com direito de inquérito como forma de controle sobre a burocracia e que fosse capaz de produzir uma liderança política genuína e capaz. pois os Estados fizeram. uma associação “política”. O ideário político weberiano (GERTH.

contrário ao corporativismo (a representação política por categorias profissionais no lugar dos políticos de carreira) e opunha-se radicalmente à democracia de massas (“democracia plebiscitária”). Na biografia que sua mulher, Marianne, escreveu, ela recorda o diálogo entre Weber e Ludendorff, oficial do Exército Alemão na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Diz Weber: “Numa democracia o povo escolhe um líder no qual confia. O escolhido diz, então: – ‘Agora se calem e obedeçam-me’. Povo e partido deixam então de ter liberdade de interferir em sua atuação. Mais tarde, o povo pode fazer o julgamento. Se o líder tiver cometido erros, à forca com ele!”. Ou seja, ele será punido na forma da lei política das democracias: não será reconduzido ao poder, não será eleito novamente. Essa punição equivaleria à morte para o político profissional.

A classificação do Estado e o Estado na história
Existem duas formas de se trabalhar com a teoria weberiana. A primeira se aproxima mais de análises de tipo histórico2, enfatizando processos de desenvolvimento e trajetórias de transformações. A segunda utiliza antes um recurso classificatório3. Abordaremos as duas em paralelo para facilitar a explanação. A teoria marxista também possui uma divisão entre uma análise voltada mais para a compreensão de processos sociais de larga escala e uma análise voltada para a explicação de conjunturas políticas determinadas, mas a oposição é mais marcada na teoria weberiana. A teoria marxista é, de fato, pouco conjuntural, pois suas preocupações são de caráter macroestrutural. Ela exige que se levem em conta, na interpretação das sociedades, grandes estruturas sócio-históricas e relações de força entre classes, problemas esses que não dizem respeito à interação direta entre os agentes em uma situação muito específica. A teoria weberiana é mais operacional e mais prática para ser utilizada em estudos com um foco bem preciso. De um ponto de vista histórico, o que está em questão nas abordagens weberianas é a forma como a distribuição dos poderes entre os principais agentes do Estado se altera ao longo da história. Ou seja, o problema aqui é identificar como a divisão do poder entre um líder central e seu aparato assume configurações diferenciadas em função de seus conflitos específicos. As diferentes configurações na repartição do poder engendram diferentes tipos de Estado, e esse ponto de vista está relacionado com a outra dimensão analítica: a dimensão classificatória. Uma orientação de pesquisa desse tipo procura encontrar traços característicos para classificar (quase como um botânico) os vários tipos de Estado presentes na história.
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O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana

Para um exemplo de aplicação ver Skocpol (1979). Para um exemplo de aplicação ver Lijphart (2003).

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A principal diferença, e que deve ser salientada, é que o primeiro tipo de abordagem foca o processo de construção de um dado tipo de Estado e a transição de um tipo para outro. O segundo tipo de abordagem se atém aos Estados “já prontos” e, desconsiderando a análise histórica, busca identificar elementos relevantes (quantitativos e qualitativos) para promover uma classificação desses vários tipos de Estado. No primeiro caso, o pesquisador deve se ater a elementos relevantes que se transformam em um dado lapso de tempo – esses elementos contribuem para a modificação do tipo de Estado. Nas análises classificatórias, ao contrário, os elementos relevantes devem ser abordados não na sua alteração, mas nas suas diferenças e semelhanças. Por isso, nas análises classificatórias é imprescindível a comparação (o analista deve comparar mais de um Estado para verificar como essas variáveis – chamadas até aqui de elementos relevantes – diferenciam-se de um Estado para outro, para, a partir dali, produzir uma classificação).

Análises
Na análise histórica, o pesquisador deve perceber como as variáveis (ou os elementos relevantes) se alteram ao longo do tempo. As alterações dessas variáveis modificam, por consequência, a forma do Estado (e, por consequência, sua função). Assim, enquanto a perspectiva histórica focaliza o processo intermediário de um tipo de Estado a outro, ressaltando transformações qualitativas nas variáveis, a perspectiva classificatória fixa determinados pontos de análise no tempo, comparando dois momentos distintos a fim de observar as semelhanças e diferenças dos elementos que definem um Estado.

Ao contrário da perspectiva marxista, todo estudo weberiano é “multicausal”: ele não tem qualquer variável independente, ou seja, ele não procura explicar os fenômenos por meio de uma única variável – como é o modo de produção para a teoria marxista. Assim, tanto para classificar quanto para identificar processos de mudança do Estado pela perspectiva weberiana é necessário levar em consideração um conjunto de variáveis. O ideal não é defini-las previamente, mas identificá-las no contato com a realidade. Todavia, podemos extrair do estudo das obras de Weber as variáveis que ele considerava mais importantes para pensarmos o Estado: religião (quando se trata de um Estado religioso), exército, sistema tributário, administração e o campo jurídico.
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Conclusão: contraste entre as teorias marxista e weberiana
Percebemos que a teoria marxista e a weberiana são muito diferentes entre si. Essas diferenças promovem uma grande divisão dentro do campo da Ciência Política, pois as duas perspectivas são excludentes e antagônicas. Retomaremos aqui suas principais discordâncias. A primeira diferença encontra-se na forma como é pensada a relação entre a sociedade e o Estado. Na teoria marxista, o Estado é uma função da sociedade, isto é, os movimentos e as transformações na sociedade (no modo de produção) causam efeitos sobre o Estado. Na teoria weberiana, ocorre o inverso. Há uma primazia dos efeitos que se desenvolvem no interior do Estado. Assim, segundo a perspectiva weberiana, nas análises políticas o enfoque recairia na autonomia do Estado, enquanto para os marxistas o enfoque recairia na sua heteronomia. A forma pela qual os cientistas políticos weberianos analisam o Estado leva em consideração o conjunto das instituições políticas que o compõem e as relações sociais dentro do Estado ou como o poder está distribuído entre os agentes e as instituições. Por isso, pode-se dizer que os weberianos adotam uma perspectiva internalista de análise: entendem o Estado olhando para o seu interior, tanto para sua organização institucional, quanto para os agentes sociais que o integram. Exatamente o contrário se passa na teoria marxista. Os marxistas estão muito mais atentos a como as relações sociais, fora do Estado, contribuem para a sua configuração. Dessa forma, o Estado é uma função da ordem social (e não da ordem política), modificando-se conforme se modifica a dinâmica da sociedade na qual está inserido. Aqui, portanto, adota-se uma perspectiva externalista: o objetivo é explicar o Estado em função das variáveis que estão fora dele. A segunda diferença entre as duas teorias está na maneira de definir Estado. Para os marxistas, o que define o Estado é a função que ele desempenha na vida social: a reprodução do modo de produção e de dominação. Para Weber, o Estado não pode ser definido pelos seus fins e sim pelos seus meios. Com isso, Weber quer dizer que o Estado não pode ser definido pela sua função, mas sim pela forma com que leva a cabo, em regime de monopólio, uma função qualquer.
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Texto complementar

Uma crítica weberiana à perspectiva marxista
(SKOCPOL, 1979, p. 41-43. Adaptado.)

[...] o debate marxista sobre o Estado se fixa no problema da autonomia do Estado, uma vez que a maioria dos participantes do debate tende a encarar o Estado de uma forma completamente funcionalista, como um aspecto das relações [de classe] ou das lutas de classe. [...] [Entretanto,] continua a ser essencial para os marxistas enfrentar mais diretamente as questões de saber em que consistem os Estados em si mesmos e como é que suas estruturas variam e as suas atividades se desenvolvem no quadro das [diferentes] estruturas socioeconômicas. Até o momento, praticamente todos os marxistas [partem] do pressuposto que as formas e as funções do Estado variam de acordo com [a configuração dos] modos de produção, e que os governantes não têm possibilidades de contrariar os interesses básicos de uma classe dominante. As explicações permanecem circunscritas às questões de como os Estados variam e agem em função de modos de produção e das classes dominantes. Resulta daqui que dificilmente se questiona essa versão marxista persistente [...] de fundir o Estado com a sociedade. Devemos, contudo, questionar essa inabalável tendência sociológica se quisermos estar bem preparados para analisar as revoluções sociais. À primeira vista, uma perspectiva determinista socioestrutural (no caso, que englobe um tipo de análise de classe) parece obviamente ser uma abordagem fecunda. Esse deve ser o caso uma vez que as revoluções sociais englobam [...] as lutas de classes e têm como resultado transformações socioestruturais básicas. Todavia, as realidades históricas das revoluções sociais apontam insistentemente para a necessidade de uma abordagem mais centrada no Estado. [...] as crises políticas que impulsionaram as revoluções sociais não foram de forma alguma reflexos epifenomenais de tensões sociais ou de contradições entre classes. Antes foram expressões diretas das contradições centradas nas estruturas dos Estados do Antigo Regime. Os grupos políticos que tomaram parte nas lutas sociais revolucionárias não representavam meros interesCiências Políticas I

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ses de forças sociais. [Mas] constituíram-se [...] como grupos de interesse no interior desse conflito e combateram as formas das estruturas do Estado. Os partidos de vanguarda que emergiram durante as fases radicais das revoluções sociais foram especialmente responsáveis pela formação de exércitos e administrações centralizadas sem as quais as transformações revolucionárias não teriam podido ser consolidadas. Além disso, as revoluções sociais modificaram as estruturas do Estado tanto ou mais do que modificaram as relações de classe, os valores e as instituições sociais. [...] as consequências das revoluções sociais sobre o subsequente desenvolvimento econômico e sociopolítico das nações que elas transformaram deveram-se não apenas às mudanças das estruturas de classe, mas também às alterações nas estruturas e funções do Estado levadas a cabo pelas revoluções. Em suma, as convulsões sofridas pelas classes e as transformações socioeconômicas que caracterizaram as revoluções sociais estiveram estreitamente interligadas com o desmoronamento das estruturas do Estado dos antigos regimes e com a consolidação e funcionamento das estruturas do Estado dos novos regimes. Só podemos entender as transformações sociais revolucionárias se considerarmos seriamente o Estado como uma macroestrutura. O Estado não é uma mera arena onde as lutas socioeconômicas são disputadas, mas sim um conjunto de organizações administrativas, policiais e militares [centralizadas e] mais ou menos bem coordenadas por uma autoridade executiva. Qualquer Estado [...] extrai recursos pecuniários da sociedade e aplica-os na criação e manutenção de organizações coercivas e administrativas. Naturalmente, essas organizações estatais básicas são instituídas e devem operar no contexto de relações socioeconômicas baseadas na divisão de classes, tanto quanto no contexto da dinâmica econômica nacional e internacional, [pois] as organizações coercivas e administrativas constituem apenas partes de sistemas políticos globais, [os quais] podem ainda incluir instituições [cuja função é representar os interesses] sociais no âmbito da atuação política do Estado, bem como instituições [por meio] das quais indivíduos que não pertencem ao aparelho de Estado são mobilizados para participar na ação política do Estado. [...] Onde quer que existam, essas organizações fundamentais do Estado são pelo menos potencialmente autônomas em relação a um controle direto [...] das classes dominantes. O grau de autonomia que realmente têm, e com que repercussões, variam de caso para caso.

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O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana

com.planoeducacao.com.br .A.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. mais informações www.. Fale sobre cada uma dessas teorias abordando as suas principais diferenças. Ciências Políticas I 116 Para assistir as videoaulas deste livro.Atividades 1. assine o site www. Sabemos que existem duas formas diferentes de explicar o Estado: pela teoria marxista e pela teoria weberiana.iesde.

mais informações www. assine o site www.br 117 O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana . Explique as duas principais correntes do pensamento marxista quando o assunto é o Estado. Para assistir as videoaulas deste livro. Quando o assunto é o Estado capitalista.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.iesde..2. As diversas apropriações das ideias de Marx sobre a política.planoeducacao. pode-se dizer que a teoria de Marx é muito genérica e que esse problema não foi devidamente tratado pelo autor.com. o poder e o Estado pela teoria marxista contemporânea deram origem a explicações muito diferentes.com.A.

A.iesde.. mais informações www. Exponha sinteticamente as correntes que integram a teoria weberiana diferenciando a abordagem histórica da abordagem tipológica.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br . Também a teoria weberiana tem diferentes formas de apropriação. Ciências Políticas I 118 Para assistir as videoaulas deste livro.com. assine o site www.3.com.planoeducacao.

mais informações www. assine o site www.iesde.planoeducacao.Para assistir as videoaulas deste livro.com.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S..A.br 119 O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana .

. assine o site www.br .planoeducacao.A.com. mais informações www.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.iesde.Para assistir as videoaulas deste livro.

O caráter arbitrário e histórico desses princípios e práticas – ou seja. in status quo ante (“na situação de antes”). Um dos maiores propósitos da ciência social é desnaturalizar noções preconcebidas e formas de ver o mundo que geralmente aparecem como derivadas da própria natureza das coisas. como se não fossem resultado de certas convenções. Certas práticas sociais “universais”. “eternas” e “imutáveis”. produtos da história e não um dado natural ou inato da natureza do ser humano. ou ainda quando pessoas de uma classe “inferior” assumem postos com certo poder político. valores e regras sociais são fenômenos históricos e “arbitrários”. Achamos apropriado ou inevitável ter de cumprir leis.com. é justamente o que as faz tão eficazes. todas as atitudes e todas as intenções implícitas e explícitas que a instituição constrói são. Ou quando as mulheres começam a conquistar espaço dentro de uma sociedade patriarcal. Uma das estratégias utilizadas pelos cientistas sociais para desnaturalizar valores. ou seja.Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana Quando olhamos para o mundo social (incluindo o mundo político). indivíduos e grupos reivindicam uma volta à “normalidade”. assine o site www. isto é..A. geralmente não nos questionamos sobre o conceito que fazemos dele. quando mudam. práticas e instituições é identificar sua gênese. ou seja. Tendemos a tomar as coisas como dadas.iesde. A naturalidade dessas práticas. podem ser desmitificadas por meio da análise social.br 121 .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. casar e trabalhar. Por exemplo.com. quando começam a surgir uniões (“casamentos”) entre homossexuais em sociedades que têm como norma (e como “normal”) os casamentos heterossexuais. Para assistir as videoaulas deste livro.planoeducacao. como “naturais”. mais informações www. o fato de eles não serem fatos universais ou “leis” da natureza – torna-se evidente quando começam a se transformar. pagar impostos e parece-nos inquestionável a necessidade de estudar. na verdade. que sempre existiram daquela forma e que devem ser assim “porque sempre foram assim”. podemos mostrar que todos os valores. como aquela realidade surgiu e quais são as condições sociais que tornam possível a sua existência. No entanto. Prontamente. àquilo que é “natural”. todos esses padrões de comportamento. produtos artificiais da ação humana. Assim.

iesde.com. O Estado enquanto produto sócio-histórico As teorias sobre a gênese do Estado estão divididas em duas grandes escolas sociológicas: a tendência weberiana (de Max Weber) pensa a instituição estatal como um produto histórico.. expondo resumidamente os dois principais modelos explicativos utilizados na Sociologia Política e na Ciência Política para explicar a origem dos Estados: o weberiano e o marxista.br . quando e por que surgiu o Estado? Como se constituíram historicamente suas instituições específicas? Existe algum padrão no processo de surgimento dos Estados nacionais modernos? Destacaremos a lógica do processo histórico que leva à formação do Estado. “a análise da gênese do Estado como fundamento dos princípios de visão e de divisão vigentes [.. Devemos entender o Estado – por exemplo – por meio do mesmo princípio: ele é uma realidade com uma história social.É por meio da Ciência Política que podemos identificar como (e por que) uma determinada instituição política nasceu. não é nem um fato natural e nem uma entidade atemporal. A segunda forma é derivada da teoria marxista do materialismo histórico ou. mais informações www.planoeducacao. resultante de um específico processo de expropriação e concentração do poder político. Ciências Políticas I A primeira forma de análise foi desenvolvida por Weber em seus estudos sobre a racionalização do aparelho administrativo estatal moderno.. da aplicação do pensamento de Marx aos estudos sobre a origem do Estado e sua conexão com as lutas de classe. 1996.A. Como. já a tradição marxista (de Marx e Engels) trata o Estado como um produto universal das sociedades de classe e pensa as diferentes formas que os Estados podem assumir historicamente como resultante das transformações do modo de produção. como os fundamentos propriamente políticos dessa adesão aparentemente natural” (BOURDIEU.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. em suas estruturas e suas funções –. assine o site www. para compreender essa instituição política em sua integridade – isto é.] permite compreender tanto a adesão [. geograficamente determinado.] à ordem estabelecida pelo [próprio] Estado. mais precisamente. p. 120).com. ou seja.. Assim. Como afirmou Pierre Bourdieu.. 122 Para assistir as videoaulas deste livro. é necessário lançar mão de estudos que se voltem para a origem da formação estatal.

que desaparecem diante das necessidades geradas pelo aparelho de dominação (WEBER. estruturar e ramificar o aparato administrativo (recrutando mais funcionários. Em meio a essas transformações. 31). Por exemplo. especializando os existentes. seja a subversão dessa ordem. seja a manutenção de uma determinada ordem de dominação. 1985. da sua lógica administrativa. disputa por alimentos. Aquelas mais aptas permanecem em detrimento das menos aptas. Esse aumento de complexidade obriga o líder a conceder mais recursos aos seus funcionários. portanto. As variáveis que geram essas necessidades são principalmente duas: conjunturas externas (entendidas como relações de disputa entre diferentes agrupamentos humanos. “ordem externa”). entre outras conjunturas adversas. alterando as relações sociais internas entre os agentes (MANN. Contudo.).com. Com essas reordenações do poder interno. as relações sociais vão gradativamente se alterando e se adaptando às novas conjunturas – em uma frase: as relações sociais vão sendo selecionadas.. ou melhor. As disputas internas seguem a mesma lógica. 1992.A necessidade do Estado Na perspectiva weberiana. O Estado seria. e conjunturas internas (relações entre as ramificações desses agrupamentos. o Estado surge como um produto de necessidades e também como um meio para saciá-las.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. 1992). 31). Isso faz as relações entre os homens se tornarem mais complexas – o que pode produzir uma ordem administrativa superior como o Estado.A.iesde. o produto dessas necessidades geradas pelos conflitos entre diferentes grupos sociais (MANN. exigem que a ordem política se torne mais complexa. p. p.planoeducacao. podem exigir e produzir relações sociais mais complexas que têm como finalidade. ao entrarem em atrito. 1964.br 123 Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana . parte-se da constatação de que a instituição estatal é o produto das necessidades geradas pelas próprias relações sociais e pelas relações de força entre os grupos.com. mais informações www. assine o site www. “ordem interna”). em vez de pensarmos em diferentes grupos sociais podemos pensar em diferentes facções ou frações do mesmo grupo. SKOCPOL. Por exemplo: situações de guerra. em determinados estágios da dominação social torna-se necessário desenvolver. dividindo o trabalho etc. Para assistir as videoaulas deste livro. As disputas entre os diferentes agrupamentos sociais podem gerar necessidades que pressionam a ordem interna a alterar-se. de disputa por território. o que Weber chama de estrutura de dominação: o Estado é o produto das necessidades administrativas da sociedade. as quais.

. o Estado como sendo o produto da centralização dos poderes “privados” da sociedade. de Sérgio Buarque de Holanda. O Minotauro Imperial.A. de Fernando Uricoechea (URICOECHEA. 1996). de Simo Schwartzman (SCHWARTZMAN. Sempre está presente. como o poder alcançou aquela centralidade e densidade necessárias para constituir um Estado. ou seja. 1978). mais informações www. Bases do Autoritarismo Brasileiro. o que motiva uma pesquisa sob essa orientação teórica é identificar como. a luta entre diferentes agrupamentos humanos gera a construção de um Estado (MANN. 1975). Ciências Políticas I No mundo Construção Nacional e Cidadania. historicamente. Nesse sentido. Isso se dá porque. Esse tipo de estudo é um dos mais recorrentes nas análises políticas contemporâneas. na maioria dos trabalhos que buscam estudar as origens do Estado burocrático moderno e é sempre fortemente influenciado pelos textos de Max Weber (1999).br 124 . podemos dizer que dentro do processo de seleção das relações sociais somente as sociedades que desenvolveram Estados conseguiram se perpetuar em um mundo em que o Estado é uma condição necessária básica para a existência política: isso explicaria a generalização das formações estatais pelo planeta. de Raymundo Faoro (FAORO. ocorreu a centralização do poder. com a necessidade de sobrevivência.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. 1982).com. Para assistir as videoaulas deste livro.com.Em conclusão. Essa perspectiva de análise parte da ideia de que o Estado é o resultado de uma grande quantidade de poder condensado em uma rede social específica e relativamente pequena. de Reinhardt Bendix (BENDIX. Análises weberianas sobre a formação do Estado No Brasil Os Donos do Poder. A concentração do poder Uma das características centrais da teoria weberiana do Estado é a forma como Weber busca explicar a origem do Estado por meio da concentração do poder. nem que seja implicitamente. 1992).iesde. Raízes do Brasil. assine o site www.

valores. mais informações www. Os recursos materiais e simbólicos pertencentes a grupos atomizados na sociedade (“grupos de interesses”) são usurpados. Os recursos simbólicos são as crenças. assine o site www.com. o desenvolvimento do Estado moderno tem por ponto de partida o desejo de o príncipe expropriar os poderes “privados” independentes que. a par do seu.) e ao monopolizar a força física (por Para assistir as videoaulas deste livro. de Theda Skocpol (SKOCPOL. todos os proprietários de meios de gestão. 1993) Estados e Revoluções Sociais. terras.. (WEBER. Esses centros são aquelas pequenas elites territoriais que desfrutam de um poder local qualquer. cooptados ou aniquilados de modo a permitir a formação da instituição estatal (“centralização do poder”).) consegue eliminar (cooptando ou destruindo) os centros privados de poder político.com. para o Estado se formar e se consolidar é necessária a expropriação de dois tipos de recursos: materiais e simbólicos. dos recursos materiais: De modo geral. pensamentos e ideologias. Nações e Nacionalismo. de recursos financeiros. pelo Estado. intermediando negócios etc. a pergunta agora é: Como ocorreu essa concentração? Expropriação dos recursos materiais e simbólicos A corrente teórica weberiana sustenta que o Estado se forma a partir do momento em que expropria os grupos sociais de seus poderes específicos. Ao expropriar. dominar e centralizar esses recursos. Ao concentrar os recursos financeiros (por meio da concessão de crédito. detêm força administrativa. o Estado estará formado. de instrumentos militares e de quaisquer espécies de bens suscetíveis de utilização para fins de caráter político. Os recursos materiais são basicamente armas. p.A. príncipe. Dessa forma. expropriados. o poder Executivo etc.iesde.br 125 . recursos monetários e trabalho. 61) O poder do Estado se funda à medida que o poder central (soberano. sendo o Estado o efeito do processo histórico de concentração do poder social. Assim. 1979). Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana Recursos materiais A passagem a seguir pode nos ajudar a entender o ponto que queremos abordar no que diz respeito à expropriação. rei. 1989. ensinamentos. da cobrança de impostos. de Ernest Gellner (GELLNER.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.planoeducacao. isto é.

Por tudo isso. A citação a seguir. além de centralizar recursos materiais específicos e de dispor de um exército próprio. assine o site www. instituição escolar etc. é a mais “natural” ou naturalizável (o sangue etc.) das instituições sociais. Dessa forma. o Estado concentra meios materiais (exercito. crédito. significados. de Pierre Bourdieu.iesde. a partir do momento em que o Estado reclama para si o monopólio de ensinar. burocrático. 60) Para assistir as videoaulas deste livro. Patrimonialismo Uma estrutura administrativa patrimonialista é aquela em que o poder central tem monopólio de recursos materiais e exerce poder na medida em que controla as concessões desses recursos. de transmitir significados.A. pois a política é feita por meio desses recursos conferidos pessoalmente pelo senhor patrimonial. mas também quando ocorre a expropriação de outra forma de recurso: os simbólicos.] o processo de “desfeudalização” implica mais geralmente uma ruptura dos laços “naturais” (de parentesco) e dos processos de reprodução “natural”. poder real.) e bens simbólicos (crenças.. (BOURDIEU. Bourdieu tem como objetivo mostrar como é fundado o Estado moderno em contraposição à ordem feudal. ou seja. O Estado. mais informações www. há a confusão entre os bens do Estado e os bens do poder central. na qual havia uma confusão entre a vida pública e a vida privada graças ao seu caráter patrimonialista: Ciências Políticas I [. 2005. de produzir crenças e formas específicas de interpretar e avaliar as coisas do mundo. por arbitrária. família etc. julgamentos etc.).com. Recursos simbólicos Entretanto.meio da formação de um exército e da eliminação das milícias privadas dos líderes regionais).planoeducacao. [. ideias.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. [esse processo] se opõe à lógica específica da família que.. funcionários etc.. Dessa forma. Ou seja. Isto é. necessita empreender a construção de fronteiras territoriais que limitem o seu território e que estejam administrativamente vinculadas ao poder central. relacionadas à etnia. p... explica bem o que queremos dizer aqui. a gênese do Estado não ocorre somente a partir do momento em que a expropriação e a concentração dos recursos materiais se consolida.] ele se institui na e para a instauração de uma lealdade específica que implica uma ruptura com todas as fidelidades originárias. aumenta a influência política desse centro de poder que é o Estado. não mediados por uma instância doméstica.com. O segundo aspecto amplamente abordado dentro dessa perspectiva é a centralização territorial ou a delimitação de fronteiras. à medida que os líderes políticos locais necessitem economicamente do poder central e não tenham à disposição um exército particular ou milícias. o Estado conquistará os dois instrumentos infraestruturais principais – o crédito e as armas – para a centralização do poder.br 126 . casta.

. Ao impor e inculcar universalmente (nos limites de seu âmbito) uma cultura dominante assim constituída em cultura nacional legítima..com. exerce-se a ação unificadora do Estado na questão da cultura.]). Foi por meio dela que passaram a ser ensinadas formas de pensamento – estruturas cognitivas – propriamente estatais e.Antes da fundação do Estado propriamente moderno. elemento fundamental da construção do Estado-nação [. a produção das crenças sociais legítimas passou a ser realizada pela escola. A construção estatal dos espíritos (BOURDIEU. senhor de mecanismos de poder que atingem o homem tanto objetivamente quanto subjetivamente. que acarretam por um lado uma coação física e. A partir do momento em que o Estado detém o monopólio dos instrumentos de produção das crenças e das visões de mundo – como o ensino –.. 1996.” Um bom exemplo desse duplo processo de desapropriação material e simbólica pode ser retirado de nossa história nacional.. O Estado é. mais informações www. assim. p.. o caráter nacional. contribuindo para a construção de que designamos comumente como identidade nacional – ou..com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. assine o site www.A. Para assistir as videoaulas deste livro. ele produz automaticamente um sistema de julgamento que legitima as próprias práticas estatais e que funciona a favor de sua própria existência. formas de pensar que estão para o pensamento culto assim como as formas primitivas de classificação descritas por Durkheim e Mauss estão para o “pensamento selvagem”. por outro. o Estado molda as estruturas mentais e impõe princípios de visão e divisão comuns. mais precisamente. o sistema escolar..].planoeducacao.]. dessa forma. o monopólio da produção simbólica era das famílias. Ou seja: é por deter esses recursos materiais e simbólicos que o Estado garante a sua própria existência. O que ocorreu foi que o Estado expropriou o poder de ensinar que essas instituições possuíam: no lugar delas. uma coação mental. dos procedimentos burocráticos.] inscritos no direito. das castas etc.. (É sobretudo por meio da escola que. particularmente através do ensino da história [. com a generalização da educação primária durante o século XIX [especialmente na Europa]. em linguagem mais tradicional. os pressupostos fundamentais da imagem (nacional) de si.. transmitidas determinadas concepções sobre o mundo social e sobre a posição que os indivíduos ocupam (ou devem ocupar) nesse mundo. inculca os fundamentos de uma verdadeira “religião cívica” e.br 127 . 105-106) Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana “Por meio dos sistemas de classificação [.iesde. dos clãs. das estruturas escolares e dos rituais sociais [.

existiria uma forma estatal que é completamente diferente da forma estatal presente em uma sociedade cujo trabalho é servil ou assalariado. por exemplo. entre 1889 e 1930. conhecimento etc.br . inclusive e principalmente o Estado. segundo a perspectiva marxista. principalmente as de São Paulo. o poder estava distribuído entre as oligarquias regionais. deu-se início ao processo de construção simbólica e conceitual do Estado. Lutas de classe e o surgimento do Estado A abordagem derivada da teoria social de Karl Marx tem como ponto fundamental a visão do Estado como produto direto e necessário das lutas de classe e vincula suas mutações – tanto da sua estrutura interna como da maneira de cumprir suas funções – às transformações históricas dos modos de produção (isto é. indústrias. mas sim a organização do modo de produção.No Brasil. sendo que esta última sempre condiciona a primeira: a uma economia capitalista deve corresponder um Estado capitalista. De 1930 até 1945. capital monetário. as articulações específicas entre as estruturas econômicas. O que condicionaria a diferença das formas estatais não seriam as características internas do Estado. o princípio explicativo do desenvolvimento e transformação das sociedades de classe. 261).com. um Estado escravista. As lutas de classe são as lutas entre os proprietários e os não proprietários de meios de produção (terra. políticas e ideológicas). lançando mão de propagandas e ideias nacionalistas veiculadas pela arte e por todo o sistema de ensino. uma forma política. Assim. ocorreu um processo de centralização e de expropriação do poder dos líderes regionais. para a perspectiva marxista existe uma conexão necessária entre a esfera política e a esfera econômica.planoeducacao.).com. isto é. a uma economia escravista. Em uma sociedade escravista. Portanto. mais informações www. Ciências Políticas I 128 Para assistir as videoaulas deste livro.iesde. a cada fase ou estágio dos modos de produção social corresponde uma forma política específica. Dessa forma. para alterar sua distribuição na sociedade. assine o site www.A. os proprietários lutam para conservar o monopólio desses meios. Tudo o que ocorre na história humana é efeito dessa luta. A cada forma econômica corresponderia. ou seja.. Essa dinâmica é interpretada por Marx como sendo o motor da história.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. ao passo que os não proprietários lutam para contestá-lo e quebrá-lo. e assim por diante. portanto. p. Esses estados detinham um grande poder político e praticamente controlavam todo o país. 2008. Ao mesmo tempo. Esses processos deram origem ao Estado brasileiro moderno (FAUSTO. Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

A. assine o site www. as classes dominantes na sociedade..planoeducacao. de Paula Beiguelman (BEIGUELMAN. Poder Político e Classes Sociais. de Décio Saes (SAES. e como. ao mesmo tempo. No mundo Linhagens do Estado Absolutista. o Estado dos senhores de escravos para manter os escravos subjugados. ou seja. p. de Nicos Poulantzas (POULANTZAS. Formação do Estado Burguês no Brasil.br 129 . o Estado da classe mais poderosa. Formação do Brasil Contemporâneo. sobretudo. de Sônia Draibe (DRAIBE.iesde.com. por regra geral.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. mais informações www. 1985). 1982. Rumos e Metamorfoses. nasceu em meio ao conflito delas. de Perry Anderson (ANDERSON. 1985).com. Para assistir as videoaulas deste livro. e o moderno Estado representativo é o instrumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado”. é. Assim.. se converte também em classe politicamente dominante e adquire novos meios para a repressão e exploração da classe oprimida. 1976). 1981). classe que. O papel do Estado e as lutas de classe Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana O Estado é uma expressão necessária da luta de classes e tem como função garantir e reproduzir o estágio atual da luta de classes. As políticas estatais atenderiam mais aos grupos que possuem uma posição privilegiada nessas lutas. 1985). o Estado antigo foi. de Caio Prado Jr (PRADO JR. 193-194) “Como o Estado nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes. da classe economicamente dominante. A origem do Estado (ENGELS. o Estado feudal foi o órgão de que se valeu a nobreza para manter a sujeição dos servos e camponeses dependentes. por intermédio dele. 1977).Análises marxistas sobre a formação do Estado No Brasil Formação Política do Brasil.

existem duas diferenças básicas entre a perspectiva marxista e a weberiana: a primeira é que Weber postula uma oposição entre o público e o privado enquanto Marx assume uma relação de determinação entre ambos. Mas embora elas sejam semelhantes nesse sentido. mais informações www. A primeira diz respeito ao fim da ordem econômica vigente e o início de uma sociedade comunista. pois o “público” é condicionado pela esfera privada. tanto para coordenar as lutas de classe quanto para realizar as medidas apropriadas segundo o resultado das lutas de classe.br Ciências Políticas I 130 .com. uma crença de que causas econômicas (e suas transformações) estão na base dos fenômenos estatais.Nesse sentido. assine o site www. o que determina o Estado são as dinâmicas que ocorrem no seu interior: o Estado é definido pelo seu poder interno. Assim. formando a ordem pública). Dessa forma.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.iesde. Ambas possuem em comum uma abordagem “economicista”. A perspectiva marxista e a perspectiva weberiana Em síntese.com. Para assistir as videoaulas deste livro. a outra relaciona o fim do Estado à sua intensificação. divergem em outro: enquanto uma relaciona o fim do Estado à derrocada da ordem econômica atual. a segunda é que Weber adota uma perspectiva internalista enquanto Marx adota uma perspectiva externalista. quando elas passam a ser decididas em um espaço específico: o Estado. Por outro lado. segundo a perspectiva marxista..planoeducacao. Pontos principais das perspectivas marxista e weberiana Existem grandes diferenças entre a perspectiva marxista e a weberiana. podemos dizer que o Estado surge à medida que as lutas de classe convergem para um ponto. O fim do Estado Existem duas formas mais comuns de se entender o fim do Estado. Por outro lado. para Marx não ocorre essa separação. Outra diferença é que Weber percebe uma oposição entre o público e o privado: o Estado surge na medida em que ocorre essa separação (quando os poderes particulares são expropriados. ou seja. ao passo que Marx adota uma perspectiva externalista.A. a segunda está ligada à ampliação da ordem econômica atual e ao aumento do alcance das entidades transnacionais. ou seja. o Estado é determinado por forças que se situam fora dele: na sociedade. a instituição estatal só passa a existir na medida em que se torna necessário esse ambiente particularmente designado. podemos dizer que Weber adota uma perspectiva internalista. Para a weberiana.

reorganizando de uma forma nova a produção.com. antítese e síntese. 1 A dialética tem como método de análise a busca por dois elementos conflitantes que dariam origem a um terceiro elemento. na base de uma associação livre de produtores iguais. com rapidez. desaparecerá inevitavelmente o Estado. mas até se converteu num obstáculo à produção mesma.A.iesde.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Com o desaparecimento das classes. Dessa forma. mandará toda a máquina do Estado para o lugar que lhe há de corresponder: o museu de antiguidades. ao lado da roca de fiar e do machado de bronze”. a partir deles. derivar um resultado provável ou constatado. Ao chegar a certa fase de desenvolvimento econômico. As classes vão desaparecer. também o Estado. p. O fim do capitalismo ocorreria nesta sequência: revolução do proletariado. como consequência. e fim da ordem estatal e capitalista.. alterando toda a realidade social – nesse estágio. Para compreender esse argumento. lutas de classe).com. 196) “[. e a síntese seria o fim do modo de produção atual e a formação de outro (o comunismo). mais informações www. Para assistir as videoaulas deste livro. A sociedade.planoeducacao. Estamos agora nos aproximando. Houve sociedades que se organizaram sem ele..br 131 . ao passo que a síntese é o resultado do choque entre as duas. tomada do Estado pelo proletariado.] o Estado não existiu eternamente. precisamos notar que ele segue uma lógica dialética1. de uma fase de desenvolvimento da produção em que a existência dessas classes não apenas deixou de ser uma necessidade. inaugurando a sociedade comunista (em que não existiria propriedade privada nem. que estava necessariamente ligada à divisão da sociedade em classes. no caso.. não tiveram a menor noção do Estado ou de seu poder. essa divisão tornou o Estado uma necessidade.O comunismo e o fim do Estado É sabido que a teoria marxista pressupõe como condição para a constituição do comunismo o fim do Estado. Tal pensamento é fundado no processo contínuo e mutável entre a tese. A tese e a antítese se definem por serem uma o oposto da outra. portanto. assine o site www. acabaria a luta de classes e. 1982. Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana O desaparecimento do Estado (ENGELS. a antítese seria a dominação do proletariado (que é a classe que se opõe à burguesia). toda a ciência baseada em um método dialético deve buscar encontrar e contrastar contrários e. e de maneira tão inevitável como no passado surgiram. antítese e síntese: a tese. é a dominação da burguesia (momento atual). Seus elementos básicos são tese.

Ciências Políticas I O astronauta Edwin E. necessitam eliminar um ao outro para que se obtenha a sua plena realização. A corrida espacial. opositiva a ele. lutando por sua existência. assine o site www. isso ficou bem claro: os países que não detinham aquela tecnologia perderam lugar na conjuntura mundial.br 132 . Em seguida. Isso ocorre porque se entende o poder comercial como algo descolado do poder estatal. À medida que a cooperação comercial internacional aumenta.A. o poder do Estado diminui. algo que se desenvolve em paralelo e de forma negativa. de produção e de armas.As supranacionais e o fim do Estado A relação entre o fim do Estado e do seu poder e a emergência de um poder econômico transnacional deve ser entendida como uma relação inversamente proporcional entre as duas entidades. durante a guerra fria. ocorreu uma competição tecnológica entre Estados Unidos e União Soviética. portanto.. Aldrin ao lado da bandeira dos Estados Unidos na primeira vez em que o homem pisou na Lua. uma relação antagônica entre poder de Estado e poder da economia. Depois de lançadas as bombas atômicas. Percebe-se neste período a forte ênfase que a tecnologia teve para representar a força das nações.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com. Esse pensamento ganhou força a partir das grandes guerras e se constituiu plenamente. particularmente.iesde. Divulgação. de forma que ambos. mas também por sua capacidade tecnológica. mais informações www. e os únicos que a possuíam ascenderam como os grandes polos do mundo: os Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Há. Percebe-se que após as guerras o poder do Estado não é mais medido somente por sua capacidade territorial. Para assistir as videoaulas deste livro. mostrou que a tecnologia se tornou um grande poder cobiçado e reconhecido pelos Estados. após a guerra fria. tal como o entendemos hoje.planoeducacao.

br 133 Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana .A entrada dessa nova variável (a tecnologia) na mensuração do poder de influência fez com que outra esfera de poder ganhasse espaço: as grandes empresas. 436).com. que seria maior e contrário ao poder do Estado. A escolha entre uma e outra perspectiva só pode ocorrer com base nos dados empíricos. Ambas se assemelham no que diz respeito à utilização da variável econômica. o aumento do poder das empresas multinacionais ou transnacionais pode ocasionar a perda de poder dos Estados. A identificação dos processos que estão na origem do Estado – e de qualquer outra instituição ou prática social – nos permite justamente identificar os mecanismos responsáveis pela construção desses valores que nos são legados e que aprendemos a aceitar como legítimos. o que determina o marco teórico a ser utilizado é a própria necessidade da pesquisa. o fim do Estado está condicionado diretamente ao fim das lutas de classe. a realidade. ao passo que para a teoria das multinacionais o Estado encontraria seu fim com a exacerbação do peso do poder econômico. inevitável. Grande parte das nossas referências e valores nos são transmitidas pela ação (direta ou indireta) da instituição estatal. Assim. mais informações www. de fato. As teorias que falam sobre o fim do Estado são principalmente a comunista e a teoria do poder das multinacionais. Conclusão Entender a gênese do Estado é importante para desnaturalizar noções e concepções que adquirimos por meio do próprio Estado. 1992.com. pois eles assumem uma forma naturalizada. Percebemos que não é possível estudar a gênese do Estado sem lançar mão do conhecimento da história e de teorias da história. Esses valores não são facilmente identificados nem questionados.planoeducacao. Mas aqui podemos optar por duas escolas ou abordagens fundamentais: tanto uma que olhe para causas externas ao poder político quanto outra que foque causas que dizem respeito somente ao poder político..br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A. que põem em primeiro plano. p. pois essas empresas possuem um grande recurso (tecnologia) que pode suplantar a autoridade estatal. qualquer filiação ao modelo que anteceda a análise empírica corre o risco de estar mais preocupada em provar esse modelo – forçando o encaixe dos dados à sua perspectiva teórica – do que em explicar. mas se distinguem quando abordam a forma pela qual essa variável age na realidade: para a teoria comunista. podemos identificar os processos de disputa que tiveram como produto o Estado e entenderemos que o mundo social atual é só um estágio dessas lutas e não uma realidade imutável e estática no tempo. assine o site www. sendo vistos como “normais” ou sequer percebidos. Esse potencial tecnológico lhes garante uma posição “competitiva” em relação aos próprios Estados-Nação de após a Guerra Fria (STRANGE. pois existem situações em que uma ou outra permitirá entender melhor os fenômenos sociopolíticos. Utilizando uma perspectiva sócio-histórica. Para assistir as videoaulas deste livro. Dessa forma.iesde. Logo. que detêm o monopólio da tecnologia.

p. isto é. o desenvolvimento do Estado moderno tem por ponto de partida o desejo de um príncipe expropriar os poderes “privados” independentes que.. os funcionários e trabalhadores burocráticos de quaisquer meios de gestão. Nota-se. E nota-se enfim que. os produtores independentes. em síntese. “privar” a direção administrativa. Cabe. limitar-me-ei a registrar esta constatação de ordem puramente conceitual: o Estado moderno é um agrupamento de dominação que apresenta caráter institucional e que procurou (com êxito) monopolizar. para a teoria comunista existe uma relação diretamente proporcional entre Estado e lutas de classe. a violência física legítima como instrumento de domínio e que tendo esse objetivo.planoeducacao. a par do seu.A. assine o site www.Portanto. Tal é. reservas e máquinas de guerra que ele controla. enquanto para a teoria do poder das multinacionais ocorre uma relação inversamente proporcional. entretanto. Tendo em vista meu objetivo.iesde. nos limites de um território. O Estado moderno – e isto é de importância no plano dos conceitos – conseguiu. detém força administrativa. essencialmente.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Textos complementares Origem do Estado segundo Weber (WEBER. que se desenrola a nossos olhos e que ameaça expropriar do expropriador os meios políticos de que ele dispõe e o seu poder político.com. de recursos financeiros de instrumentos militares e de quaisquer espécies de bens suscetíveis de utilização para fins de caráter político. o surgimento de um processo inédito. o poder que dispõe da totalidade dos meios políticos de gestão tende a reunir-se sob mão única. por usurpação ou eleição. mais informações www. a pouco e pouco.br 134 . na medida em que novos chefes substituíram as autoridades estabelecidas. do poder que controla o conjunto administrativo e de bens materiais e na medida em que fazem derivar – pouco importa com que direito – a legitimidade de seu poder da vontade dos governados. Funcionário algum permanece como proprietário pessoal do dinheiro que ele manipula ou dos edifícios. reuniu nas mãos dos diriPara assistir as videoaulas deste livro. 61-62) Ciências Políticas I De modo geral. 1989. portanto. ao menos aparentemente. no Estado moderno. de conformidade com leis inteiramente diversas das que regem a administração política. todos os proprietários de meios de gestão. em que se apossaram. a consequência da revolução (alemã de 1918). e de maneira integral. cuja atividade se orienta. a essa altura. Esse processo se desenvolve em paralelo perfeito com o desenvolvimento da empresa capitalista que domina. indagar se esse primeiro êxito – ao menos aparente – permitirá que a revolução alcance o domínio do aparelho econômico do capitalismo.

nascido da sociedade. de início. Uma vez mais. de modo algum. colocarem-se a serviço dos príncipes.com. assine o site www. Não obstante. Vemo-los. substituindo-se tais funcionários. [. Trata-se. é a confissão de que essa sociedade se enredou numa irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não consegue conjurar. de meios de gestão. 1982. Mas para que esses antagonismos. em tempos passados. no caso.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.iesde. o instrumento mais importante do poder dos príncipes e da expropriação política que. é só no Ocidente que encontramos essa categoria nova de políticos profissionais a serviço de poderes outros que não o dos príncipes.. essas classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta estéril. Este poder.gentes os meios materiais de gestão.br 135 . como afirma Hegel. Origem do Estado segundo Engels (ENGELS. Distinguindo-se da antiga organização gentílica. em benefício destes. por direito próprio. que permite definir o segundo sentido dessa expressão. o Estado caracteriza-se. nota-se o aparecimento de uma nova espécie de “políticos profissionais”.planoeducacao.. um poder que se impôs à sociedade de fora para dentro. em primeiro lugar. inclusive no topo da hierarquia.] Essa organização dos súditos do Estado conforme o território é comum a todos os Estados. de uma categoria nova. nem “a imagem e a realidade da razão”. quando esta chega a um determinado grau de desenvolvimento. foram eles. 195-196) Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana O Estado não é pois. na gestão de cujos interesses políticos encontravam ganha-pão e conteúdo moral para suas vidas. Não tinham a ambição dos chefes carismáticos e não buscavam transformar-se em senhores. mas. pelo agrupamento dos seus súditos de acordo com uma divisão territorial. chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da “ordem”. é o Estado. em capítulos anteriores vimos Para assistir as videoaulas deste livro. em todos os países do globo. se processava. mas posto acima dela e distanciando-se cada vez mais. com êxito maior ou menor.. Sem embargo. mas empenhavam-se na luta política para se colocarem à disposição de um príncipe. ao longo desse processo de expropriação que se desenvolveu. mais informações www. faz-se necessário um poder colocado aparentemente por cima da sociedade. Por isso nos parece natural.A. tampouco é “a realidade da ideia moral”. É antes um produto da sociedade. p. segundo o princípio dos “Estados” dispunham outrora.com. Equivale isso a dizer que o Estado moderno expropriou todos os funcionários que.

como sucedeu em certas regiões e em certas épocas nos Estados Unidos da América. E é o que podemos ver no censo eleitoral dos modernos Estados representativos. assine o site www. como órgãos da sociedade. em nossas atuais condições sociais. os cárceres e as instituições coercitivas de todo gênero. que impossibilita qualquer organização armada espontânea da população. ou em lugares distantes.]. O exército popular da democracia ateniense era uma força pública aristocrática contra os escravos. [.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Foi o que vimos em Atenas e em Roma.br .. Donos da força pública e do direito de recolher os impostos. isto é. é formada não só de homens armados como. que não podem se casar uns com os outros”. [. e que. esse reconhecimento político das diferenças de fortuna não tem nada de essencial.. também. foi preciso também criar uma força policial [. põem-se então acima dela.]. [.. vai aparecendo como uma necessidade 1 Gens é o mesmo que clã.iesde. O mesmo acontece no Estado feudal da Idade Média. onde o poder político era distribuído conforme a importância da propriedade territorial. Engels define gen também como “círculo fechado de parentes consanguíneos por linha feminina.]. desconhecidos pela sociedade das gens. A necessidade dessa força pública especial deriva da divisão da sociedade em classes. a população.. Ciências Políticas I 136 Para assistir as videoaulas deste livro.. Mas se fortalece na medida em que exacerbam os antagonismos de classe dentro do Estado e na medida em que os Estados contíguos crescem e aumentam de população. O segundo traço característico é a instituição de uma força pública..com.planoeducacao. pelo que se evidencia ser o Estado um organismo para a proteção dos que possuem contra os que não possuem. uma forma de organização social típica do comunismo primitivo. Esta força pública existe em todo Estado. mais informações www. Entretanto. A república democrática – a mais elevada das formas de Estado. que já não mais se identifica com o povo em armas. os 90 mil cidadãos de Atenas só constituíam uma classe privilegiada em confronto com os 365 mil escravos. todavia.. os funcionários.] na maior parte dos Estados históricos. Basta-nos observar a Europa [de fins do século XIX]. ainda.com.A..como foram necessárias renhidas e longas lutas antes que em Atenas e Roma ela pudesse substituir a antiga organização gentílica. que mantinha submissos.1 Ela pode ser pouco importante e até quase nula nas sociedades em que ainda não se desenvolveram os antagonismos de classe. pelo contrário. os direitos concedidos aos cidadãos são regulados de acordo com as posses dos referidos cidadãos. de acessórios materiais. revela até um grau inferior de desenvolvimento do Estado. onde a classificação da população era estabelecida pelo montante dos bens.. Os escravos integravam. são exigidas contribuições por parte dos cidadãos do Estado: os impostos. baseada em um conjunto de famílias que se presumem ou são descendentes de ancestrais comuns. para manter a ordem entre os cidadãos. onde a luta de classes e a rivalidade nas conquistas levaram a força pública a um tal grau de crescimento que ela ameaça engolir a saciedade inteira e o próprio Estado. Para sustentar essa força pública.

cada vez mais iniludível. embora mais seguro. sob a forma de corrupção direta dos funcionários do Estado. a riqueza exerce seu poder de modo indireto.com. De um lado. Existem duas formas de explicar a gênese do Estado: uma “internalista”. outra “externalista”.planoeducacao.com. e é a única forma de Estado sob a qual pode ser travada a última e definitiva batalha entre o proletariado e a burguesia – não mais reconhece oficialmente as diferenças de fortuna. Nela. Explique os principais aspectos dessas teorias focando a forma como elas se distinguem no que diz respeito à análise do Estado. sob a forma de aliança entre o governo e a Bolsa. de outro lado.A. à teoria weberiana e à teoria marxista. Elas correspondem..br 137 Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana .iesde. Atividades 1. assine o site www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Para assistir as videoaulas deste livro. mais informações www. e na América vamos encontrar o exemplo clássico. respectivamente.

mais informações www.com.planoeducacao. assine o site www.Ciências Políticas I 138 Para assistir as videoaulas deste livro..com.br .iesde.A.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.

2..iesde. assine o site www. Como ocorreu o processo de expropriação desses recursos? Que recursos são esses? Para assistir as videoaulas deste livro.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Uma das formas utilizadas para centralizar o poder é expropriar os recursos que se encontravam dispersos e em monopólio de grupos independentes do Estado.planoeducacao.com.A. A teoria weberiana busca explicar o Estado por meio das disputas pela centralização do poder.br 139 Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana . mais informações www.

Podemos então falar em “fim do Estado”? Como a Ciência Política pensa o fim do Estado? Fale sobre as diferenças e semelhanças entre as teorias que buscam explicar o fim do Estado.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. uma realidade que não é natural ao homem.br .3. Sabemos que o Estado é uma realidade arbitrária.iesde.com. Ciências Políticas I 140 Para assistir as videoaulas deste livro.com.planoeducacao.A. mais informações www.. assine o site www. algo que surgiu em um dado momento da existência humana.

mais informações www.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com.Para assistir as videoaulas deste livro.A.iesde. assine o site www..br 141 Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana .com.

.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com.br .A.iesde.com. mais informações www.planoeducacao. assine o site www.Para assistir as videoaulas deste livro.

Não há consenso no interior do campo científico atual quanto ao significado do conceito de ideologia. abre uma margem muito ampla para a definição e a classificação dos fenômenos observados.com. de um ponto de vista tecnocientífico. o interesse que indivíduos e grupos politicamente orientados têm ao usarem a palavra ideologia é particularmente alto. ideologia é uma palavra polêmica e polissêmica.O conceito de ideologia Tanto na linguagem sociológica como na linguagem comum. dando a ele significados diversos que variam de acordo com as circunstâncias da luta política.com. classe). ele é tomado de empréstimo da linguagem cotidiana. Esse produtos variam no tempo e no espaço em função das formas específicas pelas quais as pessoas se relacionam e se comunicam. Assim.A. coisas muito diferentes. Estado. que disso deriva. é que. mas entes ativos que influenciam as categorias do observador científico. mas. Um dos principais problemas de se definir ideologia. seus produtos. o sentido que a noção possui é influenciado imediatamente por seus usos sociais. É preciso ter em mente também que o significado do conceito é manipulado no interior das lutas políticas – e mesmo no interior de disputas “puramente” acadêmicas. mais informações www. A aparente fluidez dos fenômenos sociais. tem mais de um significado. Chamamos isso de a arbitrariedade dos fenômenos sociais. como vários outros termos de uso corrente nas Ciências Sociais (poder. isto é. para teorias diferentes. Essa dificuldade faz parte de uma dificuldade mais geral das ciências humanas: o homem e a sociedade não são entidades passivas.. ou melhor. o sentido do conceito não é consensual: é algo que está em jogo permanentemente na disputa política. de situações que envolvem poder e conflito. Como ideologia anda muito próximo de poder.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. A mesma palavra pode significar. Logo. Além disso.iesde. assine o site www. Para assistir as videoaulas deste livro. devem ser sistematizadas suas várias acepções para utilizá-lo adequadamente no estudo científico da política. O que estudamos não são leis naturais independentes da vontade e da cultura humanas.br 143 . antes. e esse interesse influencia a forma como as pessoas a entendem e usam. Por isso. indivíduos e grupos engajados politicamente lançam mão do termo o tempo todo.

não sendo independente de seu contexto. assine o site www. e não de raciocínios a priori. Ideologia seria a ciência responsável pela análise das representações mentais dos homens. 1 Ciências Políticas I O materialismo histórico é uma escola filosófica que se baseia na ideia de que o pensamento humano depende das condições objetivas (materiais. Os sentidos negativos do conceito de ideologia Ideologia como “ciência das ideias” Originalmente. econômicas. Contudo. e apresentaremos aqueles sentidos e características mais comuns e academicamente mais pertinentes do conceito de ideologia.A. 144 Para assistir as videoaulas deste livro..br . a palavra ideologia assumiria. sociais. a noção de ideologia como uma ciência das ideias não teve muito futuro. 245). analisaremos rapidamente a literatura especializada buscando recorrências de significado. Assim. Domínio público. logo no início do século XIX. a palavra ideologia significava exatamente o que sua etimologia indica: um “estudo das ideias”. inspirado pelo materialismo1. resultado da interação entre os organismos vivos e o meio ambiente” (CODATO. afirmava que as “ideias procediam das percepções sensoriais do mundo exterior à consciência.com. sendo elas. portanto. 2008. perdendo espaço para outras formas de concebê-la. significados completamente diferentes daquele de sua origem. O filósofo francês Destutt de Tracy (1754-1836) propôs esse termo para nomear uma nova disciplina cujo princípio. Berlim: o muro que separava ideologias.Com isso em mente.com. mais informações www.) nas quais está inserido.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. p.planoeducacao. culturais etc.iesde.

falar da ideologia de alguém lança dúvidas sobre suas crenças e ideias. 123-126). p.A.com. Assim..iesde. refere-se a interesses em função dos quais um indivíduo ou grupo é levado. uma representação mental que inverte ou falsifica uma realidade.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. que é a que nos interessa neste momento. a ideologia é geralmente associada às ideias do oponente. refere-se somente a parte falsa das ideias de alguém. que entende a ideologia como uma “falsa consciência” que faz os indivíduos desconhecerem as condições objetivas (especialmente econômicas) nas quais estão inseridos. indicando motivações obscuras com um fundamento em geral político. Em seu texto clássico intitulado Ideologia e Utopia.br 145 O conceito de ideologia . todos os indivíduos e grupos ocupam uma posição objetiva no sistema socioeconômico (que na terminologia marxista poderíamos chamar também de modo de produção ou. a ser associadas ao termo ideologia por conta de seus usos políticos.Ideologia como sistema ilusório de crenças A noção de dissimulação e mesmo cinismo passaram. pela situação de cada um nas relações de produção (de bens e serviços) e nas relações de apropriação do que é produzido. na maior parte das vezes. A acepção “particular” a que Mannheim se refere é semelhante à marxista ortodoxa. A um determinado conjunto de referenciais socioeconômicos corresponde uma classe social. A definição “particular” de ideologia diz respeito a “um sistema ilusório de crenças [usado para disfarçar] a natureza real de uma situação. progressivamente.planoeducacao. sociedade). Na tradição marxista. mais informações www. caracterizadas como falsas e cínicas. a produzir falsas representações no intuito de realizá-los. Assim. e não a sua totalidade. voluntária ou involuntariamente. isto é. Esse sentido possui as seguintes características: consiste em um conjunto de ideias que se supõe deformarem uma determinada realidade – são ideias falsas. Há aí uma contradição entre as condições reais dos indivíduos (a posição que ocupam no sistema socioeconômico) e as representações/ideias que eles têm dessas condições. Essa posição é determinada. de forma menos precisa. que produzem uma ilusão. o sociólogo alemão Karl Mannheim apresenta duas definições gerais do conceito de ideologia: a “total” e a “particular”. uma classe social indica que os indivíduos e grupos que a compõem Para assistir as videoaulas deste livro. cujo verdadeiro reconhecimento contrariaria os seus interesses [da própria ideologia]” (MANNHEIM.com. 1979. assine o site www.

Veremos mais adiante que a tradição marxista também confere outros significados ao conceito de ideologia.planoeducacao.compartilham uma situação socioeconômica semelhante. por exemplo. intrínsecos à situação/posição ocupada. tudo isso são fatos objetivos. ideias. especialmente na literatura filosófica de inspiração marxista chamada de “teoria crítica” (como a Escola de Frankfurt). de uma mistificação ou de uma ilusão. Para a tradição marxista. segundo a tradição marxista. Trata-se. ou a “ideologia”. refere-se a condições materiais de existência). A riqueza gerada pelo trabalho é em larga medida apropriada pela classe capitalista.com. que fazem os indivíduos ou grupos desconhecerem a sua condição de explorados: a “falsa consciência” impede o proletariado de perceber a exploração capitalista e. portanto. crenças. vendendo a sua força de trabalho (o proletariado. próprios do sistema socioeconômico. O fundamental aqui é o fato de os indivíduos terem ideias distorcidas de sua própria condição objetiva (que. a exploração dos trabalhadores é intrínseca à lógica do sistema capitalista: o lucro do capitalista depende necessariamente do valor gerado pelo trabalho do proletariado. assine o site www. de agir contra ela. Mas atenção: a “ideologia” ou a “falsa consciência” não é somente a ideologia ou a falsa consciência típicas do capitalismo. pelo trabalho do proletariado) aos trabalhadores na forma de salários. A cada situação socioeconômica corresponde uma série de demandas e constrangimentos objetivos. Por exemplo. como no exemplo que acabamos de dar. representações etc.br .A. portanto. e independem da concepção ou da forma como os indivíduos reconhecem sua situação. no marxismo..com. corresponde a concepções. os trabalhadores/operários). Aqui. mais informações www. A ideologia como o impensado da prática científica Outra acepção corrente.iesde. refere-se à ideologia como conjuntos de crenças de viés político (com consequências políticas) que orientam tacitamente a prática científica. a “falsa consciência”. Ciências Políticas I 146 Para assistir as videoaulas deste livro. que devolve apenas uma pequena parcela dessa riqueza (gerada. há duas situações gerais que organizam e dividem o sistema socioeconômico: aqueles que detêm a propriedade dos meios de produção (os capitalistas) e aqueles que não possuem tal propriedade.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. menos pejorativos e mais explicativos. Nas sociedades capitalistas.

com. Theodor Adorno. [Napoleão] Bonaparte reprovou a atividade política dos “ideólogos” [. consistia de fato em manipular as ideias (matéria-prima dessa “metafísica obscura”) para edificar “um governo de homens sanguinários”. a palavra é apropriada por agentes sociais envolvidos na luta política pelo controle do poder.iesde. por exemplo. irrealizável na prática (ou. sendo.. ideologia passou também a nomear toda teoria abstrata. (CHILCOTE. Formada por volta da década de 1930.] e registrou que sua ação reformadora. Em segundo lugar. A passagem a seguir é adequada porque ilustra esse duplo caráter: apropriada pelo meio político. mais informações www. 43) Esse “caráter fundamental da realidade” consiste em um ideário a que aderem os cientistas sem qualquer questionamento ou mesmo consciência. como a razão e a ciência. essa corrente se tornou famosa por formular a chamada “Teoria Crítica”. que busca denunciar aspectos perversos de instituições ocidentais supostamente universais. de que os cientistas inevitavelmente adotam uma estrutura de crenças. e isso em um duplo sentido. p. Como afirma Codato. Entretanto. Herbert Marcuse. Como essa doutrina estava em desacordo com o sentimento dos homens e as lições da História. imaginativa. “ideologias arbitrárias”. assine o site www. que a Ciência Política americana seria baseada em uma série de premissas não científicas sobre a natureza das coisas. valores e mitos sobre a objetividade de seu trabalho. além de certos elementos da cultura ocidental. próprio desse campo. 2008.A. para falar como Antonio Gramsci. 245) Para assistir as videoaulas deste livro. Alguns de seus expoentes principais são Max Horkheimer. guiando o pensamento dos cientistas há um paradigma ou uma noção básica de ordenação sobre o caráter fundamental da realidade. p. portanto. Chilcote sugere com isso. Walter Benjamin e Jürgen Habermas.planoeducacao. como a cultura de massa.com.br 147 O conceito de ideologia . Essa é uma forma de definir as “premissas ideológicas” que estão ocultas na prática científica: Uma avaliação crítica da ideologia da Ciência Política muito certamente deve levar em conta a tese. o conceito passará a referir-se de forma bastante próxima a situações que envolvem poder ou relações de poder. inspirada nos ideais do Iluminismo. (CODATO.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.. suposições. influencia toda a sua prática acadêmica e científica. por oposição a “ideologias historicamente orgânicas”). Em primeiro lugar. 1998. a palavra ideologia adquire um forte componente de poder.Escola de Frankfurt A chamada Escola de Frankfurt é um grupo de filósofos e intelectuais alemães de inspiração marxista. por sua vez. Ideologia como mistificação intencional A conotação mais usual que o conceito de ideologia adquiriu – e que persiste até hoje – é política. apresentada por Thomas Kuhn.. o que.

ou de ciência. denominam-se hipóteses. utiliza o que.A. enquanto sistemas de ideias orientadas de modo a transformar o mundo.com.planoeducacao. ao mais forte. tomadas como sinônimo de doutrinas. Para desenvolver seu raciocínio. Coloca-se no terreno do conhecimento positivo. Elas. por exemplo. a teoria corresponde ao conjunto dos fatos não somente constatados e ordenados. Marcel Prélot (1964. p. ou o poder do Estado. estão mais ou menos ajustadas ao mundo e aos fatos políticos concretos. de um contexto real. como também explicados e organizados.) 148 Para assistir as videoaulas deste livro. Nesse sentido. os fatos e a vida política de uma época.Percebe-se que o componente político da acepção. em certa medida.. como quaisquer outras ideias. 66) Ciências Políticas I Prélot avança uma tese interessante a respeito da separação entre teoria e doutrina: ele argumenta que. são compostas por informações sobre as instituições.com.. As doutrinas julgam os fatos e indicam os caminhos a seguir para assegurar a felicidade dos cidadãos. as doutrinas também comportam uma dimensão de teoria. de alguma forma.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.. as doutrinas/ideologias políticas.br . Referem-se ao melhor. As ideias que constituem especificamente as doutrinas ou ideologias políticas. A teoria remete à observação e à inferência. primeiramente Prélot define ideologia como um “conjunto de ideias políticas” (PRÉLOT. em lógica das ciências. indo ainda mais longe. O que Prélot chama de ideias políticas envolve tanto ideias científicas acerca do universo da política (que ele chama de teorias) como conjuntos de ideias propriamente políticas. Os sentidos positivos do conceito de ideologia Ideologia como “doutrina” Em capítulo dedicado às “ideias políticas”. mas não consiste apenas na constatação dos fatos. ela ultrapassa-a para proceder a seu agrupamento. 75). mas os aprecia. seriam doutrinas. Ideologia passa a ser um termo pejorativo que indica ideias manipuladas com o intuito de mascarar intenções e enganar outrem a fim de realizar pretensões políticas. os aceita ou os recusa em função de um ideal imanente ou transcendente em relação ao Estado. É o elo posto pelo espírito entre eles. ao mais justo. 2 Weltanschauung: palavra alemã que significa “visão de mundo”. socialismo e fascismo. a implicação de poder está relacionado ao artifício político do ludíbrio e da dissimulação. p. sempre possuem alguma relação com a realidade. liberalismo. enquanto a doutrina remete a julgamento e à ação: A teoria é o resultado da observação. uma vez verificadas. (N. 1964. mais informações www. da E.] A doutrina considera também os fenômenos. Para fazê-lo.iesde. por exemplo. segundo a Weltanschauung2 em que se inspiram. ou seja. a um conjunto de estímulos que vêm de fora. 1964. à sua explicação. [. que ele chama de ideologias. que. já que ideias referem-se. p. transformam-se em leis. ao mais nobre. Dessa maneira. depois. ao mais moral. 64-78) faz uma distinção entre “teoria” e “doutrina” a partir de Gaétan Pirou em sua obra Traité D’Économie Politique [Tratado de Economia Política]. assine o site www. (PRÉLOT. Em consequência.

Por exemplo: os liberais podem acentuar radicalmente as “liberdades inatas” do indivíduo por razões puramente políticas. p. ou seja. Ronald Chilcote refere-se ao uso da palavra como um substituto para regimes totalitários e. e assim não estão comprometidas com valores científicos como a produção de conhecimento. Assim.A. negando qualquer realidade que possam vir a ter.br 149 O conceito de ideologia . Bobbio apresenta um “sentido mais neutro e operacional” de ideologia. 129). 41). Segundo Codato (2008.Dependendo das circunstâncias (históricas e políticas) em que determinada doutrina se insere. assine o site www. As doutrinas. Ainda dentro da tradição que associa ideologia a doutrinas políticas. De forma análoga. apresentando descrições e mesmo explicações mais próximas da realidade. para obter o consenso. “uma teoria política qualquer pode tornar-se ideologia no momento em que vem assumida como programa de ação de um movimento político” (BOBBIO. as ideias políticas “irreais” nos fornecem muitas informações úteis.. para orientá-las em uma direção em vez de outra. mais informações www. para ludibriar os adversários. ela ainda faz alusões à realidade concreta: a própria intenção de enganar os adversários já é uma reação a circunstâncias reais. Portanto. enfim. Bobbio propõe que a expressão pode significar “um sistema de crenças ou de valores. Mesmo no caso extremo de uma ideia política que inverte fatos reais deliberadamente. como “falsas representações”. p. quando analisadas junto ao seu contexto político. ela pode ser mais ou menos realista.iesde. uma situação política qualquer pode também desfavorecer tal aspecto científico. como um sinônimo de ideologia comunista (CHILCOTE. Mas isso não implica que devamos recusá-las por completo. pela crescente oposição ao socialismo e ao fascismo etc. Evidentemente. e ainda é relativamente usado. 2002. mais especificamente. que se contrapõe à acepção de um conjunto de crenças falsas e mistificadoras.com. p. inclusive esclarecendo a razão de distorção de certos elementos da realidade. que é utilizado na luta política para influir no comportamento das massas. para instituir a legitimidade do poder” (BOBBIO. para apresentá-lo como dogmático e autoritário. 1998. 2002. mas política. de fato. estão orientadas e são determinadas por uma finalidade que não é científica. 244). Isso era muito comum no universo político norte-americano. Nesse nível de generalidade. isso não equivale a tomar tais ideias como obras científicas.com. estimulando a doutrina política a distorcer a realidade em prol de seus objetivos políticos. Chilcote diz que tal concepção era utilizada tipicamente nos Estados Unidos durante a Guerra Fria para se referir ao regime soviético: fazia-se uma associação pejorativa entre comunismo e ideologia.planoeducacao. Para assistir as videoaulas deste livro. 129). seu aspecto teórico-científico pode ser mais proeminente. O filósofo italiano Norberto Bobbio também fornece suporte para a concepção que associa ideologia a um conjunto de ideias políticas direcionadas à prática política (doutrinas). p.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.

. (LENIN. Por isso. 1977. através dele.. consiste em combater a espontaneidade. e atraí-lo para as asas da social-democracia revolucionária. 150 Para assistir as videoaulas deste livro. Esse sentido. Ideologia como consciência política Essa definição faz parte da tradição marxista e foi desenvolvida especialmente pelo ativista e teórico político Vladimir Ilitich Lênin (1870-1924). assine o site www.planoeducacao.Por fim.com. 245) Ideologia como consciência de classe Uma vez que nem sequer se pode falar de uma ideologia independente. Ideologia torna-se aqui não um conjunto de ideias mistificadas e mistificadoras.br . Mas o desenvolvimento espontâneo do movimento operário resulta justamente na sua subordinação à ideologia burguesa.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Fala-se de espontaneidade. desviar o movimento operário dessa tendência espontânea corporativista de se refugiar sob as asas da burguesia.) Ciências Políticas I Essa acepção é relativamente próxima daquela que associa ideologia a doutrinas. Por isso. manifesta.iesde. a tarefa da social-democracia. 2008. representa. todo distanciamento dela implica o fortalecimento da ideologia burguesa.com. p. “ideologia burguesa”).] pois o movimento operário espontâneo é o corporativismo[.. entende ideologia apenas como um “conjunto de ideias políticas”.. mais restritivo. produto de um grupo ou classe social. grifo do autor. Em Lênin. em uma sociedade dilacerada pelas contradições de classe. elaborada pelas próprias massas operárias no decurso do seu movimento.. Adaptado. (CODATO. em geral. 107-108. Não há meio-termo (porque a humanidade não elaborou uma “terceira” ideologia. principalmente políticas.A. o problema põe-se unicamente assim: ideologia burguesa ou ideologia socialista. Como resumiu Codato. mas é mais inclusiva e não requer o mesmo grau de mobilização e sistematização que aquela suscita. [. além disso. que. justifica e racionaliza seus interesses (daí sua fraseologia característica: “ideologia proletária”. a acepção de ideologia como sinônimo de “doutrina” é bastante comum. nossa tarefa.] e o corporativismo é justamente a escravidão ideológica dos operários pela burguesia. p. mais informações www. ideologia é o sistema ou conjunto de ideias. toda diminuição da ideologia socialista. mas a forma de consciência política das classes sociais em relação aos seus “verdadeiros” interesses. não pode nunca existir uma ideologia à margem ou acima das classes).

1979.A. “no pensamento seiscentista e setecentista. fornecendo aos indivíduos formas de pensamento. enfim (MANNHEIM. gnosiologia. p.com. teoria do conhecimento”. cultura. crenças. da semiótica e da hermenêutica. Trata-se de uma tradição teoricamente próxima da semiologia. E ainda segundo o mesmo dicionário. O termo passa a descrever sistemas de ideias. 1979). em um ponto de vista tendente ao idealismo. Inexiste. frequentemente apontando suas distorções e condicionamentos subjetivos. Isso permite que ela perca o forte aspecto político adquirido na sua associação a doutrinas políticas ou a conjuntos de ideias falsas ou mistificadoras.Ideologia em sentido gnosiológico Há uma tradição de pensamento que confere um significado diferente ao conceito de ideologia. 125).. Ele possui as seguintes características: O conceito de ideologia Para assistir as videoaulas deste livro. ou sua precisão e veracidade objetivas. É por isso que se diz que tal acepção tem um caráter “cognitivo”: porque esses sistemas simbólicos fornecem estruturas cognitivas. Os sociólogos costumam usar o conceito de representações para se referir às ideologias no sentido gnosiológico. enquanto outros. da escola etc. gnosiologia significa: “teoria geral do conhecimento humano.iesde. em uma perspectiva realista. natureza e limites do ato cognitivo. e atribui um aspecto mais cognitivo e antropológico.br 151 . O significado total refere-se à acepção cognitiva ou gnosiológica: ideologia no sentido total quer dizer um sistema de representações.. O que isso quer dizer? Gnosiologia Segundo o Dicionário Houaiss. que fazem os indivíduos pensarem de determinada forma. Já vimos que o significado particular referia-se à acepção de ideologia como um conjunto de ideias falsas. por meio da comunicação. Esses sistemas de símbolos – que os antropólogos e sociólogos muitas vezes chamam de cultura – são sociais e transmitidos socialmente. da família.com. valores e símbolos típicos de uma sociedade determinada. voltada para uma reflexão em torno da origem. assim.planoeducacao. que aproxima o significado da palavra ideologia do conceito antropológico de cultura. esfera do conhecimento filosófico responsável pela investigação da cognição humana”. mais informações www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. que alguns chamam de gnosiológico. assine o site www. Lembramos que Karl Mannheim identificou “dois significados gerais” do termo ideologia – o que ele chamou de significado particular e significado total. maneiras de ver o mundo. a referência especial às ideias políticas (doutrinas) ou ao caráter “verdadeiro” ou “falso” das ideias (falsa consciência). de noológico (MANNHEIM. noologia significa.

valores. sistemas simbólicos e semelhantes para se referir à acepção gnosiológica de ideologia. não faz sentido referir-se às ideias de alguém como “falsas” ou “verdadeiras”. Não interessa se o que é significado está de acordo com a realidade ou não. assine o site www. de crenças. ou seja. gramático. Gilbert Durand). comportarem-se etc. como se esses não tivessem outra função além de comunicar significados e dar sentido às coisas.iesde. Ideologia em sentido sociológico Ciências Políticas I Essa concepção entende ideologia como estruturas sociais instituídas nas mentes e nas coisas (sistemas simbólicos. Dessa maneira. pois.com. abrange qualquer representação. sociais e cognitivos gerados pelos significados das representações.A. valor etc. O que importa são os efeitos culturais. enfatizando seu aspecto linguístico. a acepção gnosiológica e cognitiva é muito semelhante aos conceitos de representações coletivas (Émile Durkheim) e de imaginário (Cornelius Castoriadis. abarcando uma “forma de pensamento” não especificada. mais informações www. pois as categorias de percepção das partes envolvidas são simplesmente “semelhantes” ou “diferentes”.com.. Ela tende a não enfatizar ou mesmo a desconsiderar o aspecto político em sentido lato. ignorando se correspondem ou não à realidade objetiva. influenciando. crença.). sua ação.planoeducacao. a ideologia é tanto uma estrutura como uma prática. Para assistir as videoaulas deste livro. São essas estruturas que fornecem os referenciais pelos quais os indivíduos entendem e interpretam toda a realidade. porque é uma referência às maneiras de as pessoas pensarem. Muitos autores acreditam ser melhor utilizar conceitos antropológicos ou sociológicos como os de cultura. a dimensão do poder. Por essas características. apreciarem.br 152 . um conjunto sistemático de ações que carregam e ao mesmo tempo são orientadas por ideias. Enfatiza a peculiaridade dos sistemas simbólicos. assim. refere-se a formas ou princípios de pensamento ou à maneira como os agentes concebem a realidade – e assim. expressivo e figurativo. sentirem. as representações (e seus sinônimos) referidas pelo significado total não são necessariamente ligadas a interesses (daí seu baixo aspecto político). representações coletivas. é uma referência de amplo alcance. estruturas de significados etc. prestando pouca atenção às relações de força e de dominação que envolvem as representações e os sistemas simbólicos. refere-se ao significado das ideias. ou seja. comunicativo. tomados em si mesmos.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. A realidade é o significado. sendo culturais-cognitivas..

em essência. portanto. por todas as razões que já vimos. Isso é necessário com qualquer conceito que não possua uma definição unívoca. como “quente”. A adesão a tal ou qual ideia ou forma de pensamento corresponde.br 153 O conceito de ideologia . e então essas coisas tomam a forma de valores e julgamentos (às vezes práticos. sendo relativamente regular. “perigoso” etc. Como se trata de um conceito ambíguo. São esses significados. é preciso. esses atos de conhecimento e de reconhecimento guiam a nossa prática e se manifestam por meio dos valores e da linguagem. aos moldes das ciências naturais. apresentar claramente em que sentido nós o entendemos e definir ao que exatamente nos referimos. mais informações www. considerando tanto os usos cotidianos e as apropriações feitas pelo termo no universo da política como as definições elaboradas por especialistas e cientistas sociais. ou seja.com.. a aderir a uma ordem hierárquica. portanto.com. Eles carregam a marca de condições objetivas (atributos econômicos. Por exemplo.planoeducacao. É por meio da ideologia. foram-lhe herdados a partir de suas condições de vida. A ideologia é uma estrutura porque tem caráter sociológico. compondo uma hierarquia.O raciocínio. mas é especialmente necessário com o conceito de ideologia. Da mesma forma. assine o site www. Nós atribuímos significados às coisas. a cultura de um indivíduo pobre e de um indivíduo rico não são apenas diferentes entre si: elas são subordinadas umas às outras.iesde. assim. Mas ela é também uma prática porque a cultura. as ideias. é um artifício teórico que descreve um terreno em que ocorrem práticas orientadas por determinadas ideias. Além disso. Ela indica. que os indivíduos conhecem e se reconhecem. “frio”. precisamos interagir com o ambiente exterior. e nós o fazemos por meio de ideias e de uma linguagem. apreendidos por meio dos códigos e convenções transmitidos pelos outros e pelas instituições sociais.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. sempre que o utilizamos. o pensamento. Também insistimos para que se busque utilizar o conceito de ideologia de forma científica ao inseri-lo em textos técnico-científicos. a cultura de um indivíduo culto lhe confere privilégios e o coloca em uma posição superior.). os sistemas de símbolos e as representações só existem se forem constantemente atualizados pelas ações das pessoas. uma estrutura de práticas. objetivo e generalizado. Seus atributos. que nos permitem responder aos estímulos externos. é simples: para agir. contudo. voluntária ou involuntariamente. Conclusão Apresentamos aqui as principais acepções do conceito de ideologia a partir da literatura filosófica e tecnocientífica.A. Ou seja: é preciso que os cientistas Para assistir as videoaulas deste livro. culturais) que são hierarquizadas.

incluindo até as formas mais amplas que estas possam tomar.com. tal como acontece numa câmera obscura. o comércio intelectual dos homens surge aqui como emanação direta do seu comportamento material. São os homens que produzem as suas representações. como uma forma de desaprovar e desqualificar elementos da realidade social e política. assine o site www. A consciência nunca pode ser mais do que o Ser consciente e o Ser dos homens é o seu processo da vida real.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.. no pensamento. mas para descrever e explicar a realidade produzindo uma representação teórica realista. atuantes e tais como foram condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do modo de relações que lhe corresponde.A. do mesmo modo que a imagem invertida dos objetos que se forma na retina é uma consequência do seu processo de vida diretamente físico.br . 1983. moral. o pensamento. Isto significa que não se parte daquilo que os homens dizem. em vez de emitir julgamentos de valor e empregar o conceito de ideologia a partir de seus usos pejorativos.planoeducacao. 6-7) A produção de ideias. metafísica etc. as suas ideias etc. quando um cientista social usa ideologia. p. isto é apenas o resultado do seu processo de vida histórico. de um povo. da sua atividade real. talvez seja cientificamente útil empregar as definições de ideologia de teor mais político. Contrariamente à filosofia alemã. ele deve fazê-lo para descrever um fato político em que as características da definição aplicada efetivamente existam. E se em toda a ideologia os homens e as suas relações nos surgem invertidos. Texto complementar Ideologia (MARX. As representações. mais informações www. aqui parte-se da terra para atingir o céu.com. de representações e da consciência está em primeiro lugar direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens. parte-se dos homens. O mesmo acontece com a produção intelectual quando esta se apresenta na linguagem das leis. que desce do céu para a terra..iesde. Assim.. se por um acaso houver elementos pejorativos na realidade que analisamos. não sendo uma atribuição arbitrária. ENGELS. política. religião.sociais e os cientistas políticos busquem descrever e explicar as coisas. mas os homens reais. Assim. é a linguagem da vida real. na imaginação e na representação de outrem para chegar aos homens em carne e osso. imaginam e pensam nem daquilo que são nas palavras. É a partir do seu processo de vida real que se representa o desenvolvimento dos reflexos e das repercussões ideológicas desse Ciências Políticas I 154 Para assistir as videoaulas deste livro.

a religião.processo vital. transformam. Na primeira forma de considerar este assunto. Assim. tal como as formas de consciência que lhes correspondem. mais informações www. assine o site www. parte-se dos próprios indivíduos reais e vivos e considera-se a consciência unicamente como sua consciência. como devemos definir cientificamente esse conceito. a partir deles. Para assistir as videoaulas deste livro.. Mesmo as fantasmagorias correspondem.br 155 O conceito de ideologia . parte-se da consciência como sendo o indivíduo vivo.com. serão antes os homens que. Mencione alguns desses problemas e explique. a metafísica e qualquer outra ideologia. o seu pensamento e os produtos desse pensamento.com. desenvolvendo a sua produção material e as suas relações materiais. e na segunda.planoeducacao. a sublimações necessariamente resultantes do processo da sua vida material que pode ser observado empiricamente e que repousa em bases materiais. A definição científica do conceito de ideologia implica problemas metodológicos bem difíceis.A.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. que corresponde à vida real. Não é a consciência que determina a vida. a moral. Não têm história. mas sim a vida que determina a consciência. no cérebro humano. com essa realidade que lhes é própria. perdem imediatamente toda a aparência de autonomia. não têm desenvolvimento.iesde. Atividades 1.

iesde.. qual você considera a mais útil para definir e explicar as ideias políticas? Desenvolva. Entre as definições de ideologia apresentadas.2.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br . mais informações www. assine o site www.com. Ciências Políticas I 156 Para assistir as videoaulas deste livro.A.com.planoeducacao.

nas conversas e debates em que se engaja etc.3. procure classificá-los a partir das definições apresentadas.A.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com. Agora.. mais informações www.iesde. assine o site www.br 157 O conceito de ideologia .planoeducacao. Pense em sua vida cotidiana: nos noticiários e nas revistas que consulta. Para assistir as videoaulas deste livro.com. dizendo qual é a definição de ideologia mais comum para você.

com.Para assistir as videoaulas deste livro.. mais informações www.br .A.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.iesde.planoeducacao. assine o site www.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. contudo.com. Essas são. utilizássemos os termos e os significados de nosso objeto de estudo para estudá-lo.. apontam um caminho a ser seguido.br 159 . A especificidade do caso em questão agrava o problema: ideologias e doutrinas políticas são objetos de interesse prático – não são meras filosofias. ou seja. Norberto Bobbio tece um comentário esclarecedor sobre esse problema logo na introdução de seu famoso Dicionário de Política: Para assistir as videoaulas deste livro. deve-se entender a expressão doutrina política como um conjunto de ideias de caráter ao mesmo tempo teórico e político: de um lado. por outro lado.com.planoeducacao. Mas a simplificação a que submetem os fatos reais aos quais se referem esconde.A. cientistas (ou pretendentes a tal). assine o site www. Fazer uma definição adequada de uma doutrina política específica não é. a essa disputa por dizer a verdade sobre o sentido real das doutrinas políticas se somam projetos políticos que trazem consigo a marca de circunstâncias históricas muito singulares. Seguramente. Além de tudo. Um dos grandes problemas para tratar a questão das ideologias/doutrinas políticas contemporâneas começa no fato de as próprias palavras ou conceitos serem parte do fenômeno político que se quer descrever. ou o socialismo. Esses conceitos já fazem parte do imaginário coletivo. as doutrinas são compostas por ideias e representações da realidade. sem dúvida. p. o liberalismo no Brasil do século XIX (que em grande medida se ajustou a estruturas de dominação política ou social como o escravismo e o autoritarismo) não tem as mesmas características do liberalismo nos Estados Unidos. Seguindo a sugestão de Michel Prélot (1964. não são representações falsas desses fenômenos. socialismo com intervenção do Estado e fascismo com regimes totalitários (como o nazismo alemão e o fascismo italiano). compõem-se também por ideais que prescrevem o que a realidade deve ser. socialismo e fascismo Nosso objetivo é definir e explicar as três principais doutrinas políticas da era moderna: o liberalismo. mais informações www. e. o socialismo e o fascismo.Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. Por exemplo. pois todos nós temos alguma opinião sobre o que é o liberalismo.iesde. É como se nós. sua imensa complexidade. tarefa simples. todavia. as doutrinas políticas mais conhecidas e importantes da história das sociedades industriais modernas. 64-78). ou o fascismo. Muitos associam automaticamente liberalismo e livre-mercado.

que por sua vez é combatida. a que nos referimos precisamente? Existem inúmeros indivíduos. tirania. Para assistir as videoaulas deste livro. em instituições fascistas. que compõem um pensamento político organizado. intencionais e não intencionais. não o esqueçamos. Bobbio adverte: Nenhum termo da linguagem política é ideologicamente neutro. O modo que um agente político nomeia e caracteriza as coisas constitui uma das principais armas da luta política: a imagem. muitas vezes relevantes. Podemos olhar para a realidade concreta e extrair dela (da observação das práticas. assine o site www.planoeducacao. Na linguagem da luta política quotidiana. como a filosofia e a literatura dessas formações ideológicas: há ideias liberais. Isso. palavras que são técnicas desde a origem ou desde tempos imemoriais.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. e sofrem variações e transposições de sentido. peronismo.com. mais informações www. o liberalismo ou o fascismo? Estamos nos referindo aos grupos sociais e aos movimentos políticos que empolgam essas ideologias? Nesse caso. leninismo. (BOBBIO et al. V) Quando falamos em liberalismo.).. p. como oligarquia. a representação e o significado que determinada doutrina ou movimento político possui joga um papel central no sucesso político dessa doutrina ou movimento.iesde. Palavras com sentido mais propriamente técnico. muito importante: a que nos referimos quando falamos de uma doutrina política como o socialismo.. fascismo. e não de agentes políticos específicos: fala-se em um Estado liberal. para obter aprovação ou desaprovação de certo comportamento. Tudo isso deve ser considerado ao definirmos uma doutrina política. marxismo. os termos que adquiriram um significado técnico através da elaboração daqueles que usam a linguagem política para fins teóricos estão entrando continuamente na linguagem da luta política do dia a dia. das ideias manifestas e dos fenômenos políticos em geral) uma definição razoável das doutrinas em questão. ideias socialistas etc. grupos e partidos políticos que se autoproclamam liberais (no Brasil houve um Partido Liberal.com. nós devemos analisar a prática política efetiva desses grupos à luz de seus motivos e da luta política na qual estão envolvidos e aí sim atribuirmos os devidos rótulos? Além de tudo. ao contrário. Da mesma forma. em grande parte com a arma da palavra. consenso ou dissenso. A própria definição de liberal e liberalismo está em jogo não só na teoria mas também na arena política. enfim. p. a definição de socialismo ou liberalismo pode ser feita a partir de instituições e estruturas sociais. 1998. V-VI) Esse problema de método (como definir tecnicamente um termo político cujo uso é político) está relacionado a outro. Cada um deles pode ser usado como base na orientação política do usuário para gerar reações emocionais. como são todos os ismos em que é rica a linguagem política – socialismo.. Por isso mesmo. 1998. indicam fenômenos históricos tão complexos e elaborações doutrinais tão controvertidas que não deixam de ser suscetíveis das mais diferentes interpretações. comunismo. stalinismo etc. nós devemos considerar liberal ou socialista quem se define como tal? Ou. há um Instituto Liberal etc. e por aí afora. para provocar. Por fim.br Ciências Políticas I 160 . em partidos socialistas. são usadas como termos da linguagem comum e por isso de modo não unívoco. Inúmeros problemas – teóricos e práticos – derivam daí.. (BOBBIO et al.A maior parte destes termos [utilizados usualmente pela Ciência Política] é derivada da linguagem comum e conserva a fluidez e a incerteza dos confins.A. ditadura e democracia. podemos focar nossa atenção sobre conjuntos de ideias. –.

não é nada fácil em função de um complicador: na história. um tipo ideal é um esquema que retém apenas os aspectos essenciais de algum elemento real. porque se corre o risco de produzir um constructo teórico tão geral e abstrato que não descreve ou explica qualquer fato real. seria útil apresentar o método empregado nesse empreendimento.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. destacando-se então as estruturas institucionais (como o Estado. Deve traduzir para os conceitos teóricos a lógica que opera na realidade concreta. como resume Norberto Bobbio.) – essas ideias formam. reduzindo para fins heurísticos a riqueza da realidade empírica. filósofos. escritores. estruturais. Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. instituições e concepções) muitas vezes possuem diferenças significativas entre si. partidários etc. e eles (grupos. Consiste em um artifício metodológico para se construir modelos e descrições puramente teóricas. Considerações metodológicas: a definição das doutrinas políticas A partir da enorme literatura especializada sobre as principais doutrinas políticas da era moderna. socialismo e fascismo Tipo ideal A construção de tipos ideais é um procedimento desenvolvido pelo sociólogo alemão Max Weber (1978). Ou podemos tentar definir as características gerais de um fenômeno político – o que também é incerto. os partidos) e sociais (como o mercado ou a opinião pública) que relevam dessas ideias políticas.. contudo. uma definição adequada precisa considerar essa especificidade do objeto de estudo. socialismo e fascismo –. além de descrever resumidamente o conteúdo das três doutrinas políticas em questão – liberalismo. por exemplo. um tipo ideal de uma Para assistir as videoaulas deste livro. mais informações www. foi possível construir tipos ideais do liberalismo. não trans-histórica.iesde. do socialismo e do fascismo. o espírito de uma época. os aspectos institucionais ou. Assim. Antes. pretendemos apresentar igualmente as características institucionais dos regimes políticos e/ou dos sistemas sociais baseados nessas formações ideológicas.no entanto. Duas dimensões foram privilegiadas na análise dessas formações ideológicas: as ideias políticas produzidas por doutrinários ou por representantes de cada doutrina política (sejam políticos. abstratas (daí ideais) de fenômenos sociais e históricos complexos.A. ela deve ser histórica.br 161 .com. como diz Bobbio. Por causa desses problemas todos. Assim. assine o site www.com. instituições e concepções que têm o mesmo rótulo. há inúmeros grupos. Arquitetamos.planoeducacao.

um grande movimento de transformações em todas as áreas da vida intelectual que viria a ser chamado de Renascimento. os intelectuais renascentistas desenvolveram uma concepção antropocêntrica. como na América Latina. mas antes contextualizá-la. em menor grau. entender algo desse contexto histórico.com. aprofundou-se na Europa.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Há. norte-americano. Isso ocorre porque indivíduos e grupos mudam à luz de novas circunstâncias e modificam seus usos e significados. Contrastando com as concepções correntes durante a Idade Média..iesde. tanto no que diz respeito ao conteúdo das ideias como no que se refere às características das formações políticas derivadas delas. mais informações www. Assim. que viria atribuir mais importância ao intelecto humano. uma relação histórica muito próxima entre o liberalismo e os fenômenos sociais. forças que se encontravam fora de seu raio de ação e além de sua capacidade de conhecimento. acreditando que o uso da razão tornava possível a conquista e o Para assistir as videoaulas deste livro. Mais precisamente. portanto. uniforme. suas características básicas. lança luz sobre a compreensão do liberalismo. então. Qual era. na Austrália e em partes da Ásia (como na Índia e no Japão). o liberalismo é um fenômeno essencialmente europeu e. a partir da Itália. o clima da época que influenciou o liberalismo e do qual ele próprio fez parte? Durante os séculos XV e XVI. apresentando suas principais variações históricas. culturais e econômicos que ocorreram na Europa ocidental durante esse período. Liberalismo As condições históricas do liberalismo Embora tenha exercido influência em muitas partes do mundo. Foi nesse tempo e lugar que ele teve seu epicentro. que elimine as ambiguidades de cada doutrina.planoeducacao. assine o site www. o liberalismo é um fenômeno político e ideológico típico da Europa da chamada Idade Moderna. Portanto.A. Os renascentistas passaram a enfatizar a potencialidade criativa e libertadora do intelecto humano.com.doutrina política qualquer observando suas várias manifestações concretas (históricas) e buscando características comuns entre elas. em oposição às doutrinas religiosas da Idade Média e sua ênfase divina e fatalista que submetia o homem a forças extraterrenas.br Ciências Políticas I 162 . isto é. o espírito. Todas as doutrinas teóricas e instituições políticas alteram-se com o passar do tempo. não buscaremos oferecer aqui uma definição unívoca.

Foi com o Iluminismo e por causa de sua aposta na tazão humana como instrumento de conhecimento e de emancipação social que surgiu a ciência moderna (BOBBIO et al. a partir de então. eliminando pela dúvida metódica e pelo espírito crítico todo dogma e toda crença. Paralelamente.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com..A. será dado o ponto de partida para a aplicação do espírito científico ao domínio da natureza e à reestruturação da sociedade. enfim. a razão encontra em si mesma seu ponto de partida. 695) O liberalismo está intimamente ligado às ideias iluministas e à sua atitude diante do mundo. o corpo de ideias que impulsionou o liberalismo estava ligado diretamente à luta de certas classes sociais. Será possível. a corte. há uma rejeição da tradição. pela escola. Tem sido este o longo processo histórico que levou o indivíduo a se sentir livre. Muitas das transformações sociais e econômicas ocorridas durante os séculos XVIII e XIX – da noção de igualdade à máquina a vapor – se devem aos progressos tecnocientíficos. especialmente da burguesia. portanto. quando. definindo a supremacia do Parlamento sobre os poderes da Coroa. pela Igreja. deixar de aceitar as coisas tal como elas são. o rei e a propriedade fundiária. a difusão das ideias renascentistas aprofunda os ideais humanistas e incita o desenvolvimento. contra a ordem monárquico-feudal tradicional. 1998.] com Descartes. e as características por ele adquiridas em suas fases iniciais. político. Além das intensas transformações em todas as áreas da vida intelectual – gerando efeitos sociais.. quando.conhecimento do mundo.iesde. a ter plena consciência de si e de seu valor e a querer instaurar plenamente o regnum hominis [o governo dos homens] sobre a Terra. p. além de produzir novas instituições sociais –. Norberto Bobbio fornece uma boa caracterização do Iluminismo: [.br 163 . no topo dela. 1998).planoeducacao.. ao absolutismo monárquico. será declarada guerra à tirania exercida sobre as consciências pelo Estado. A monarquia absoluta constituiu a fase final do feudalismo e a fase inicial do capitalismo comercial. em nome da razão. três classes principais: os possuidores dos títulos nobiliárquicos (a nobreza e. Havia. um contexto social. confiante apenas nos novos métodos empírico-analíticos da ciência. o liberalismo se inseriu em um movimento de oposição generalizado. grosso modo. no século XVIII. socialismo e fascismo O liberalismo histórico A forma assumida pelo liberalismo como doutrina e instituição política. os que Para assistir as videoaulas deste livro.. dominada pelo rei). Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. de um movimento intelectual que se convencionou chamar de Iluminismo e foi marcado por duas vertentes principais: o Racionalismo e o Empirismo. assine o site www. econômico e cultural particular que deu forma ao liberalismo. Desse modo. Foi. ao desenvolvimento do capitalismo e ao advento das ideias liberais. pelos mitos e pelas tradições. (BOBBIO et al. econômicos e políticos. mais informações www. representado especialmente pelo Iluminismo.com. Prova disso é a Revolução Gloriosa na Inglaterra no século XVII.. estiveram relacionadas à oposição às monarquias absolutas que dominaram a Europa no fim da Idade Média. Essa ordem política se apoiava em três pilares: a Igreja. Esta revolução cultural encontrará sua plenitude política no Iluminismo.

saíram os primeiros elementos da burguesia. A própria manufatura tomou-se insuficiente. camponeses). por exemplo. Todavia. em geral. contribuíam para legitimar a ordem feudal e monárquica. O rei. assine o site www. Ciências Políticas I 164 Para assistir as videoaulas deste livro. A Igreja contribuía para a estabilidade da ordem monárquico-feudal: economicamente. aos burgueses modernos. Esses valores. que dava suporte simbólico e ideológico a seu poder absoluto. por conseguinte.) “Dos servos da Idade Média nasceram os burgueses livres das primeiras cidades. à indústria. desenvolveram rapidamente o elemento revolucionário da sociedade feudal em decomposição. à navegação e. lenta e sistematicamente emergiu entre aqueles que não possuíam títulos uma classe de comerciantes e de proprietários que viria a ser chamada de burguesia. A pequena burguesia industrial suplantou os mestres das corporações. a circum-navegação da África ofereceram à burguesia em ascensão um novo campo de ação. 107-109. dos valores e referenciais com que as pessoas pensavam e viviam. ao comércio. 1982. já não podia satisfazer às necessidades que cresciam com a abertura de novos mercados.planoeducacao.br . ENGELS. desconhecido até então. aos chefes de verdadeiros exércitos industriais. vindo daí a denominação de monarquia absoluta: por ser um “representante de Deus na Terra”. dessa população municipal. A descoberta da América. exercia imensa influência.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. culturalmente. uma espécie de porta-voz da vontade divina. a doutrina da fonte divina do poder do rei1. o comércio colonial.. já que a religião fornecia a maior parte das justificativas. o incremento dos meios de troca e.com. possuía terras e favorecia o modo de produção feudal. Na verdade. e aqueles que não possuíam nada (em geral. A antiga organização feudal da indústria. a média burguesia manufatureira cedeu lugar aos milionários da indústria. Os mercados da Índia e da China. na maior parte das vezes. por outro lado. das mercadorias imprimiram um impulso.com. A grande indústria moderna suplantou a manufatura. então. Todas as funções estatais eram dominadas por ele. representava o Estado.iesde. Esse processo gerou uma série de transformações econômicas e sociais nas relações tradicionais de produção que viriam a minar as bases da ordem feudal. em que esta era circunscrita a corporações fechadas. o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. tampouco para o seu poder. A manufatura a substituiu. A ascensão da burguesia sob o capitalismo (MARX. 1 É por isso que seu poder era absoluto. os mercados ampliavam-se cada vez mais: a procura de mercadorias aumentava sempre. não havia limitações para sua vontade.A.possuíam títulos eclesiásticos (a Igreja e seus componentes). Adaptado. o rei em carne e osso era o Estado. a divisão do trabalho entre as diferentes corporações desapareceu diante da divisão do trabalho dentro da própria oficina. a colonização da América. Com o desenvolvimento do comércio europeu. mais informações www. p.

Para o liberalismo. depois. o comércio. O Estado deve estar submetido à sociedade civil. durante o período manufatureiro.A. república urbana independente. o Estado deve (ou deveria. [. A razão de tal separação é impedir o controle de todo o poder por um único indivíduo (um déspota) ou grupo determinado (os católicos. Esses deputados seriam os representantes do que mais tarde se convencionou Para assistir as videoaulas deste livro. assine o site www.” Características gerais do Estado liberal: a oposição à monarquia absoluta Com o Iluminismo. Classe oprimida pelo despotismo feudal. dos meios de comunicação.] Cada etapa da evolução percorrida pela burguesia era acompanhada de um progresso político correspondente..). crescia a burguesia. terceiro estado. O mercado mundial acelerou prodigiosamente o desenvolvimento do comércio.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. finalmente. prevalecendo sobre os demais (KÜHNL. e somente o bem-estar comum (isto é. Segundo John Locke (1632-1704). conquistou. de todos) é absoluto. isto é.com.A grande indústria criou o mercado mundial preparado pela descoberta da América. um poder tangível. os protestantes etc. da navegação. à vontade geral. socialismo e fascismo . a soberania política exclusiva no Estado representativo moderno. já que estamos falando de ideais) ser o mandatário do povo. produto da ação humana e passível de controle racional.com. e à medida que a indústria. que é composto pelos deputados – os “representantes do povo”. pedra angular das grandes monarquias. o Executivo e o Judiciário. contrapeso da nobreza na monarquia feudal ou absoluta. submetido ao povo.iesde. a burguesia. Só o povo pode ser o soberano. a navegação. tributário da monarquia.br 165 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. Esse desenvolvimento reagiu por sua vez sobre a extensão da indústria. desde o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial. o Estado se tornou uma entidade terrena. o Poder Legislativo deveria ser o poder fundamental. Essa concepção desestabiliza um dos pilares da ordem absolutista: a legitimidade (divina) do rei.. a base do Estado liberal e sua principal instituição política é o Parlamento.planoeducacao. as vias férreas se desenvolviam. mais informações www. Na doutrina liberal clássica. multiplicando seus capitais e relegando a segundo plano as classes legadas pela Idade Média. associação armada administrando-se a si própria nas cidades aqui. ali. 1979).. Disso resulta o princípio do exercício do poder sob o Estado liberal: a separação entre o Legislativo.

livremente estabelecidos. credo. 1979. 1979). à liberdade de contrato e de exercício profissional.” (KÜHNL. 1979. Idealmente. Esse Estado é condicionado pelo individualismo – “indivíduos livres e iguais de direito regulam suas mútuas relações mediante contratos privados. independentemente de raça. salvaguardando a sua liberdade. 252). assine o site www. 1979. 1979). a partir da opinião pública. Para os liberais. p. são “válidas para todos”.. segundo o liberalismo. enquanto o Executivo deveria implementar decisões que. Por princípio. O “domínio pessoal” do Estado absolutista (manifestado pela famosa frase “O Estado sou eu”. ao livre matrimônio. como o direito à propriedade. ou seja. normas e leis são tidas. esses são “direitos naturais”. p. gênero etc.).br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. já que.chamar de a opinião pública. enquanto que o Poder Público se sujeita às necessidades da esfera privada. o Estado liberal está baseado em uma série de premissas e prescrições de caráter filosófico e ideológico (no sentido de um conjunto de ideias políticas). político etc. 1979). este é o Poder que mais se assemelha ao poder dos regimes absolutistas. 255) Ciências Políticas I 166 Para assistir as videoaulas deste livro. Daí a ênfase do Estado liberal na defesa das várias liberdades individuais. essencialmente. o bem essencial (DEUTSCH. 1979. aliás. Seria o Parlamento. Essa era. à migração e imigração. de Luís XIV) é substituído por leis gerais e abstratas. representariam e realizariam o bem comum (KÜHNL.planoeducacao. os indivíduos regular-se-iam a si mesmos. Assim. religioso. KÜHNL.com. que produziria leis e normas gerais a serem aplicadas a todos os membros de uma comunidade. classe. O Parlamento também fiscalizaria e imporia limites ao poder Executivo no intuito de controlá-lo. Nesse regime e conforme essa doutrina. A função do Estado liberal consistiria em garantir acordos e elaborar “regras gerais sobre as relações entre as pessoas privadas” (KÜHNL. Regulamentações. não cabendo ao Estado inibi-los.iesde. Mais especificamente. a condição básica para salvaguardar a liberdade dos indivíduos segundo o liberalismo clássico.br . O Poder Executivo e o Poder Judiciário limitar-se-iam a aplicar e a julgar a validade da aplicação das normas elaboradas no Parlamento.com. são direitos inatos a todos os seres humanos. Como diz Kühnl: “A sociedade burguesa mantém-se como esfera da autonomia privada. 253). como acordos juridicamente sancionados feitos entre indivíduos. o Poder Executivo só agiria após a lei ser aprovada pelos membros do Parlamento. cor.A. Para Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). tanto para questões econômicas ou de outro tipo” (KÜHNL. oriundas do Parlamento. o Judiciário seria o responsável pela aplicação e preservação da Lei. O Parlamento deveria ser um local de debates racionais com o objetivo do bem comum. mais informações www. p. somente um Parlamento que refletisse a opinião pública constituiria um governo verdadeiramente democrático (DEUTSCH. as leis não são estabelecidas por e nem direcionadas para um indivíduo: elas são estabelecidas por todos (pela “vontade geral”) e direcionadas para todos (isto é.

] afirmam que sua adoção eliminaria o mérito e o conhecimento prévio. responsabilidade e talento individuais. não haveria problemas na distribuição e na alocação de recursos – desde que os indivíduos fossem deixados realmente livres para produzir e comercializar. instituir um sistema de cotas é a alternativa eficaz e racional para assegurar um indispensável critério meritocrático. Adversários das cotas. como procedimento para o recrutamento aos bancos universitários. parece óbvio.com. com efeitos agregados sob a forma de mediocrização universitária. retomando uma espécie de retórica da ameaça [. Defensores das cotas subestimam o significado racionalizador de instituições meritocráticas. (MARENCO. visa-se a garantir um número de vagas a determinadas pessoas) é um exemplo de política antiliberal...iesde. O mercado tenderia.Qualquer intervenção estatal para privilegiar alguns (ainda que sejam aqueles que nada possuem) é vista como uma violação do princípio da igualdade de todos perante a lei.] Meritocracia constitui um sistema distributivo. [.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. portanto. Dessa forma. julgando apenas o esforço e competência individual. A política de cotas nas universidades (com base na cor ou na renda. estabelecendo espontaneamente a justiça material.A. resumindo a discussão com o argumento de que fins socialmente justos justificam a adoção dos meios necessários para atingi-los.com. O equívoco de ambos consiste em não perceber a coerência existente entre meritocracia e a adoção de uma regra de cotas como procedimento para a ocupação de vagas universitárias. Mérito e cotas: dois lados da mesma moeda Os argumentos de críticos e defensores de políticas afirmativas convergem em um ponto: para ambos. haveria uma oposição entre a instituição da meritocracia como regra para recrutamento acadêmico e a implantação de mecanismos compensatórios. o Estado não tem como finalidade garantir a justiça social. 2009) Para assistir as videoaulas deste livro.. e não o sobrenome (o que. não constitui mérito próprio).br 167 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. a qual deveria ser obtida na própria esfera privada por meio da operação do livre-mercado e conforme as capacidades individuais (“méritos”) de cada um..planoeducacao. socialismo e fascismo . mais informações www. Para os liberais. Como se supõe que todos os indivíduos sejam igualmente racionais e capazes de perseguir a realização de sua felicidade. que confere de modo desigual vagas e títulos universitários. a um equilíbrio “natural”. premiando a capacidade. premiando os menos capazes. assine o site www. sociais ou raciais.. é preciso que esteja baseado em uma efetiva igualdade de oportunidades. Para que seja justo.

Sendo todos igualmente livres e igualmente racionais. a qual imagina que a economia possui leis próprias que tendem ao equilíbrio sempre que os indivíduos forem livres para produzir e consumir. “a autêntica expressão de uma arte de governar capaz de promover a inovação. Foi exatamente a ampliação da representatividade social do Parlamento (mais classes sociais e classes sociais diferentes usufruindo do direito de nomear representantes) que conduziu ao encontro entre o liberalismo e a democracia – ainda que liberal não seja. atingindo por essa via o equilíbrio entre justiça e direito.com.iesde..br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. os indivíduos atuariam no mercado a partir de cálculos e expectativas plenamente racionais. enfim. De viés formalista. Inspirado nos fisiocratas franceses. 688). mas sem modificar o desequilíbrio do poder de representação de cada classe) e uma posição mais inovadora que estimulasse a mobilização de novas energias e forças políticas no curso dessa luta institucional. ou seja. dependendo das circunstâncias históricas. O liberalismo jurídico focava os aspectos institucionais do Estado a fim de garantir uma estrutura jurídico-política (“constitucional”) capaz de preservar. sinônimo de democracia. presta uma atenção especial ao exercício do poder no interior do Estado.Tipos específicos de liberalismo Há vários movimentos intelectuais que se desenvolveram nos séculos XVIII e XIX e que se chamaram ou foram chamados de liberalismo: o liberalismo jurídico. Defende o regime parlamentar por considerar a luta política no Legislativo como a realização do “princípio do justo meio”. 1998. especialmente aquelas liberdades ligadas aos direitos de propriedade e ao exercício da cidadania. Já o liberalismo econômico corresponde à tradição da Economia Política inglesa. o liberalismo econômico (ligado à Economia Política clássica) e o liberalismo político (ligado à filosofia política). esse gênero de liberalismo orientava-se para conservar as liberdades conquistadas no período das revoluções burguesas (na Inglaterra e na França). especialmente em virtude das tendências socialistas e Para assistir as videoaulas deste livro.com. esse liberalismo é adepto da doutrina do laissez-faire. em lei.. já que a economia.br Ciências Políticas I 168 . representada por autores como Adam Smith e David Ricardo. Questões como o sufrágio universal.A. permite o franco desenvolvimento da racionalidade individual (tida como universal). os adeptos do liberalismo político oscilaram entre o simples comprometimento com a autonomia do Poder Legislativo (defendendo o embate parlamentar. mais informações www. nunca porém a revolução” (BOBBIO et al. p. os direitos individuais. Na prática. a igualdade política e a igualdade social não constituíam originalmente focos de atenção do liberalismo político. assine o site www. Movidos por interesses particulares. necessariamente. O liberalismo político.planoeducacao. a tendência era que a riqueza gerada fosse naturalmente distribuída. Baseia-se na ideia de que o máximo de realização humana depende da busca individual pela felicidade. quando livre de entraves.

Dessa perspectiva. pois se as pessoas passam a reconhecer certas instituições sociais como naturais. Para assistir as videoaulas deste livro. A naturalização é uma tática política bastante eficaz.revolucionárias que passaram a acompanhar essas reivindicações a partir da Revolução Francesa (1789). ou seja. estritamente formal. ele não concebe que os direitos. Socialismo A oposição à ordem capitalista/liberal O socialismo é uma doutrina política que combate o capitalismo. A declaração da propriedade como “direito inato”. o papel do Estado liberal não é “defender as liberdades individuais”: é conservar uma sociedade desigual. ao contrário. ou seja. crê que sejam fenômenos “naturais”.com.2 As leis e valores contrários a tais “direitos naturais” são vistos como arbitrários e artificiais. mas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Para os socialistas e os críticos do liberalismo em geral. produto de uma tentativa de naturalizar um interesse de classe específico e legitimar uma ordem social desigual. os indivíduos podem obter dos “direitos naturais” depende apenas de suas faculdades naturais e inatas. devendo ser suprimidos para que a vida cultural e econômica “tome seu curso natural”. 1986. essas insitutições adquirem imensa legitimidade.br 169 . 62). tornando-os imunes à luta política. a “opinião pública” a que se referem os liberais é. um deles é especialmente exaltado: o direito de propriedade. a opinião da classe dominante. os deveres. assine o site www. Assim. na verdade. mais informações www. Segundo Umberto Cerroni. por exemplo. Se algo é natural. em última instância. A propriedade é. os interesses da classe dominante. contudo. é esse o “o grande mérito histórico do liberalismo” (CERRONI. o seguinte: o liberalismo possui uma visão essencialista e transhistórica do que considera serem os “direitos do indivíduo”. estando acima de qualquer suspeita ou questionamento. grosso modo. socialismo e fascismo Naturalização é o nome que se dá ao ato político de fazer algo que é uma construção social e histórica parecer natural. Para a doutrina socialista. a naturalização retira interesses historicamente determinados e politicamente instituídos do campo da ação histórica. p. fazer parecer algo próprio da natureza. a liber-dade individual é.iesde. O argumento principal por trás dessa ideia é. já que é próprio da “natureza das coisas”. 2 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. Dentre esses direitos. um direito natural. Mencionaremos sucintamente as principais razões da oposição entre essas duas correntes e como isso deu forma à doutrina socialista.planoeducacao. identificando o regime capitalista com a ordem socioeconômica correspondente à ideologia/doutrina liberal.A. então é necessariamente verdadeiro e autoevidente. para os liberais. os valores e as instituições sejam produtos sociais e históricos. e a representação política existente no Parlamento defende. as leis. O liberalismo traz para o centro do debate político a questão da liberdade individual. E esse privilégio é a base de seu poder político.com. não sendo possível recusá-lo ou evitá-lo. especialmente os socialistas. eternas e inevitáveis. e o desfrute que. em essência. constituiria uma arma da burguesia para estabelecer um privilégio social. em vida. dirão que os pretensos “direitos naturais” do indivíduo são.. Muitos críticos.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. persiste que a tradição marxista conferiu a fisionomia adquirida pela doutrina socialista a partir do século XIX até os dias de hoje. o sistema ou modo de produção. Para Marx e Engels.iesde. mas é sem dúvida a principal. ou seja. assine o site www. a partir de suas próprias características. Ainda que existam discussões acerca de um socialismo não marxista.com. a lógica da luta de classes é o que confere ordem e inteligibilidade à história humana. Direito) para entender o funcionamento da história e das sociedades humanas.com. ou seja. por sua vez. Socialismos O socialismo marxista não é a única forma de doutrina socialista existente na história. Para Deutsch.. Na obra clássica intitulada Política e Governo. Filosofia. uma doutrina política fundada em uma análise pretensamente científica (sociológica. definidas por Marx segundo seu modo de produção específico: comunismo primitivo. além de tudo. É por meio desse pressuposto que eles estabelecem leis objetivas e tendências gerais em ciências sociais. Daí a expressão socialismo científico. geram-se.br 170 . Sua intenção seria. Marx investe no estudo das diversas ciências (Economia. Partiremos de Deutsch para sintetizar os aspectos mais gerais do que é conhecido como socialismo científico. A lei da evolução histórica é chamada de materialismo dialético ou materialismo histórico. políticos e econômicos das sociedades capitalistas. Diz-se materialista porque a base das transformações decisivas são as condições materiais nas quais os indivíduos vivem. apresentar e batalhar por uma solução para os problemas sociais. que corresponde às sociedades primitivas sem classes. mais informações www. explicando as contradições sociais derivadas da luta de classes. Ciências Políticas I Esse dinamismo histórico pode ser percebido nas quatro principais fases do desenvolvimento histórico. Karl Deutsch (1912-1992) dedica um capítulo inteiro à síntese da doutrina política elaborada por Marx e Engels. E é dialética porque no interior de uma ordem determinada (tese).A. gera uma nova ordem (síntese) possuidora de características opostas à anterior.planoeducacao.O socialismo científico de Karl Marx As principais ideias socialistas foram desenvolvidas pelo filósofo e economista alemão Karl Marx em parceria com Friedrich Engels (1820-1895). como o liberal-socialismo. econômica) do funcionamento das sociedades. contradições (antítese) que conduzem a uma situação de crise profunda que. São essas filosofias científicas – materialistas – que. a base econômica. Para assistir as videoaulas deste livro. espontaneamente. explicam a razão pela qual as sociedades mudam.

Contudo. baseado em um sistema constituído por uma minoria de grandes proprietários. O socialismo marcaria então a ascensão do proletariado como nova classe dominante e o enriquecimento material coletivo. Marx o deduz3 a partir de várias características que percebe na própria condição objetiva do proletariado no capitalismo: o proletariado seria a antítese direta da burguesia – e a sua superação. responsável pelas transformações técnicas que marcaram a Idade Moderna. a dos proprietários dos meios de produção (a burguesia e suas várias frações). Marx também apoia suas deduções a partir de características (que considerava) objetivas no modo de produção. e capitalismo. e teoria da mais-valia. conduzindo a uma sociedade industrial moderna sem classes e de abundância econômica – o comunismo.iesde. socialismo e fascismo . uma aristocracia guerreira apoiada na propriedade daqueles. A teoria do valor-trabalho afirma que o valor de qualquer produto deriva sempre da quantidade de trabalho despendido em sua produção.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com. a separação entre uma classe de proprietários dos meios de produção (a burguesia) e outra de não proprietários (o proletariado. Em que consiste a mais-valia? Como a fonte de todo valor é sempre o trabalho. teoria do valor-trabalho. para Marx. os trabalhadores) constitui a especificidade do capitalismo. O socialismo seria o modo de produção que seguiria. Além da condição do proletariado. ou seja. a essência do sistema capitalista é a exploração dos trabalhadores e estaria baseada na combinação dos seguintes elementos: divisão entre proprietários e não proprietários dos meios de produção. a fonte ativa da riqueza seria o proletariado. o capitalismo.. Para Marx.A. aplicando-se a qualquer sociedade ou modo de produção. para Marx. feudalismo. assine o site www. escravismo. mais informações www. correspondente às sociedades baseadas na força de trabalho escrava. oriundas das relações de propriedade e de produção do capitalismo – sua base econômica. a riqueza produzida pelo proleta3 Lembramos que não existia nenhuma nação socialista na época de Marx.com. O trabalho como a fonte do valor de todo bem ou produto (“mercadoria”) é. enfim. a mais-valia. Unindo a teoria do valor-trabalho e a separação entre o trabalho de seu rendimento temos necessariamente. uma lei geral de economia. Este último modo de produção marca o período de ascensão e domínio de uma nova classe social. e uma classe de camponeses (servos) explorada por ambos. que morreu em 1883: a União Soviética viria a ser o primeiro país socialista apenas em 1917. historicamente.planoeducacao. A separação do trabalho de seu rendimento imediato. Para assistir as videoaulas deste livro.br 171 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo.

A socialização dos meios de produção consiste no principal meio de se acabar com a exploração ao se suprimir separação entre o trabalho e seu rendimento. o resultado aprazível e obsequioso de um período de ajustamento sociopolítico e de desenvolvimento tecnoeconômico. seria suficiente para dar fim ao capitalismo. Mais tarde. produziriam novas situações de crise. mas a parcela dessa riqueza dada a ele será ínfima.br . que inicialmente geraria crises sucessivas. não havendo distinções de classe. mas pelo proprietário dos meios de produção – o capitalista (a classe burguesa).com. o processo de destruição do poder econômico e social da burguesia e a socialização dos meios de produção. portanto. Aí a economia seria racional e a sociedade seria rica o bastante para que as pessoas pudessem adquirir bens em função de sua necessidade. Um exemplo disso é quando há a exploração de países por “nações capitalistas”. valerá dezenas de milhares de reais. Porém. pondo fim à separação fundamental entre classes que existe no capitalismo. principalmente. Esses movimentos. que as tentativas reais de implementação do regime socialista enfatizassem a política econô4 Por exemplo: um programa operacional.A.iesde. o que promoveria a melhora na condição geral dos operários suprimindo temporariamente seu ímpeto revolucionário. 1979. contudo.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. A subida do proletariado ao poder marcaria a fase inicial do socialismo. É isso o que significa a expressão separação do trabalho de seu rendimento imediato: a riqueza gerada pelo trabalho é apropriada pelos que contratam o trabalho. pois a maior parte será apropriada pelo capitalista. 172 Para assistir as videoaulas deste livro. de depressões e de sofrimento das massas” (DEUTSCH.riado não é apropriada por ele.planoeducacao. A mais-valia é precisamente a parcela do valor gerado pelo trabalhador que foi apropriada (isto é. a riqueza que retorna ao trabalhador – em forma de salários – é sempre muito inferior à riqueza que o próprio trabalho gerou. assine o site www. a fonte dos lucros da empresa é a exploração do trabalhador. 133) que conduziriam os operários dos países capitalistas mais desenvolvidos à tomada de posição revolucionária. p. pela via econômica. É lógico. O comunismo seria a conclusão histórica possível (e desejável) da fase socialista. Todas as sociedades formariam uma humanidade unificada. o caminho para uma sociedade comunista de abundância material e justiça social constrói-se.com. ainda existiriam classes sociais. mais informações www. Na verdade. não paga) pelo capitalista. Teria início então. contudo. Marx tornou seu modelo mais complexo e assumiu a possibilidade de o capitalismo persistir mais em virtude de modificações e correções em sua configuração econômica. Aspectos político-econômicos do socialismo Ciências Políticas I Os aspectos econômicos são de importância fundamental na doutrina socialista. “produto” do trabalho do programador de computador. por meio da ditadura do proletariado (o governo da maioria sobre a minoria). No decorrer do regime socialista. como “uma consequente cadeia de guerras mundiais. escassez econômica e o Estado.4 Esse fenômeno. Assim..

a administração central. que seria a fonte das desigualdades sociais. Um conselheiro. em teoria. Lembramos que. que basicamente exercia o papel de direção e administração de um empresário capitalista. ser tarefa fácil. gerando acentuada desigualdade socioeconômica. A principal característica das economias socialistas durante o século XX foi o fato de elas serem planejadas.com. que antes eram propriedade privada dos capitalistas. racionalizada e socialmente justa? Como planificar eficientemente a economia? Em primeiro lugar.mica. administração central também definia o montante de recursos a serem aplicados e as metas e cotas de produção. sob o regime socialista passam a ser propriedade do “Estado proletário”. Como realizar uma economia ao mesmo tempo planejada. buscava controlar a produção econômica. Trata-se. os países que adotaram o regime socialista recorreram ao planejamento de toda a economia: queriam. mais informações www. Disso deriva que compreender as características econômicas dos regimes socialistas reais é imprescindível para conhecê-los. irracional. da seguinte forma: cada empresa ou fábrica possuía um diretor de fábrica. no interior da quais se estabeleceram conselhos econômicos regionais. é “anárquica”. desorganizada e ineficiente. grosso modo. esse papel foi relegado às unidades de administração regional (oblasts).iesde. era gerida. Além disso. típica das sociedades capitalistas. Para fiscalizar o diretor. a finalidade do socialismo é uma sociedade ao mesmo tempo economicamente rica e socialmente justa.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com. os sovnarkhozes. a administração central inicialmente utilizava a supervisão ministerial. o Estado foi o meio utilizado para acabar com a desigualdade. construir uma economia absolutamente racionalizada. O diretor era incumbido de atingir essas metas. apontado pelo Partido. junto com elas.. as desigualdades que estão em suas bases. a União Soviética. Os meios de produção. Para os socialistas. portanto.planoeducacao. todavia. a economia de mercado. daí a expressão economias planificadas. O diretor era apontado pela administração central e geralmente provinha dos quadros do próprio Partido Comunista. com um descompasso estrutural entre a oferta e a demanda de bens e serviços e graves assimetrias na alocação de recursos. constituída e dirigida por quadros do Partido Comunista. Em todos os países. O regime de produção socialista A propriedade no principal país socialista.br 173 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. coordenava o conselho e era o principal responsável pela fiscalização dos diretores de determinada unidade administrativa. Para atingir esse objetivo. Atingir o nível de desenvolvimento avançado idealizado com o comunismo não mostrou. socialismo e fascismo . de suprimir as classes sociais e.A. era preciso acabar com a propriedade privada. assine o site www. dessa forma. a partir da reorganização industrial de 1957. estabelecendo o plano Para assistir as videoaulas deste livro. Desse modo.

sem a “previsão”. como uma antecipação científica de um processo histórico objetivo (com certo caráter teleológico) acaba mostrando-se. muito comum em matéria de doutrinas e ideologias políticas.com.planoeducacao. de dizer como as coisas “são” ou como elas “serão” para. Assim. outras experiências “fascistas”. e a administração buscava se certificar de que eles estavam cumprindo as diretrizes do plano por meio dos secretários dos conselhos regionais. bem como descrevia os meios que deveriam ser tomados de modo a atingi-las.com. o socialismo milita para que o futuro ocorra de acordo com as “previsões” de sua teoria. 67-68).br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.de produção. 1993. assine o site www. Mas não é possível falar do fascismo em abstrato. em vários aspectos e em várias circunstâncias da luta política socialista. Socialismo científico: ciência ou doutrina política? Umberto Cerroni sintetiza uma crítica comum feita ao socialismo científico ao dizer que “perde-se de vista quando a análise marxiana deixa de ser científica e começa a tornar-se demasiado político-prescritiva” (CERRONI.A. Fala-se de um “ser” quando na verdade está se falando em um “dever ser”. da mesma forma. diz-se o que a realidade “é” para na verdade transformá-la naquilo que se deseja que ela seja. que definia as metas e as cotas a serem atingidas. O plano deveria ser aplicado em nível regional pelos diretores. Isso também ocorre com o liberalismo no caso das democracias liberais: o liberalismo econômico milita para que a realidade funcione de acordo com seus preceitos. p. como um projeto político.. isto é.iesde. na verdade. 174 Para assistir as videoaulas deste livro. Assim. O núcleo ideológico da doutrina fascista e os aspectos institucionais de seu regime estão ligados à experiência histórica alemã (o período nazista) e italiana. mais informações www. Porém. tornar-se-ia algo improvável ou mesmo impossível.br . destacando-o da realidade concreta. transformar o presente ou determinar o futuro que. Fascismo Características históricas gerais Ciências Políticas I O fascismo pode ser entendido como uma reação ideológica ao mesmo tempo contra o liberalismo. o socialismo e a democracia parlamentar. Muito do que Marx apresenta como uma “previsão”. Parece-se lançar mão da tática. o aspecto político da doutrina socialista ou do socialismo científico passa a superar e mesmo a suprimir o aspecto científico.

A. a existência de uma coligação entre classes burguesas relativamente fracas e frações dissidentes de classes rurais aristocráticas fortes contra os camponeses e operários urbanos. as transformações econômicas oriundas do desenvolvimento do comércio e do desenvolvimento capitalista gerando tensões sociais e culturais que tomam uma forma política reacionária por meio da qual se tenta conservar valores e instituições de um passado romantizado. A partir desses casos. Ainda que ali a coligação entre a forte aristocracia rural e a fraca burguesia urbana tenha prejudicado os camponeses. eles apoiaram o regime atraídos pela ideologia reacionária. Em sua obra clássica intitulada As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia. onde ocorreu uma aliança entre a burguesia (especialmente quando esta é política e economicamente fraca) e a aristocracia agrária (especialmente quando esta é forte) contra os camponeses. o sociólogo e historiador Barrington Moore Jr.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br 175 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. a coligação entre a burguesia fraca e a aristocracia forte. na Itália e no Japão. prejuízos aos camponeses (MOORE JR. Para assistir as videoaulas deste livro. como a Inglaterra..como o regime imperial japonês que sucedeu à restauração Meiji. também denunciam circunstâncias comuns que conduzem a regimes políticos de tipo fascista. gerando um desenvolvimento econômico associado a uma democracia fraca e instável que conduz ao fascismo. em relação aos quais nutrem tanto apreço. Foi assim na Alemanha. assine o site www. socialismo e fascismo . causando. tende-se a gerar uma “modernização conservadora” com inclinações ao fascismo. terem se transformado em operários urbanos. apologética dos valores tradicionais e do mundo rural.planoeducacao.iesde. compara as circunstâncias históricas de vários países que tiveram regimes fascistas e identifica que. 1983). mais informações www.com. Os fatores gerais estão presentes em países que tiveram regimes fascistas e são: a existência de um “impulso burguês” muito mais fraco que nos países conduzidos por democracias liberais. a longo prazo. especialmente em uma ordem em que são cada vez mais marginalizados pelo desenvolvimento do capitalismo industrial. Isso ocorre pelo fato de os camponeses terem sido prejudicados pela ascensão do comércio e do capitalismo em seus países sem.. É isso que os leva a se aproximarem política e economicamente. contudo. Tal oposição da elite contra os camponeses não é explícita ou mesmo deliberada: trata-se do resultado prático de uma aproximação entre as classes proprietárias e a aristocracia que ocorre tendo como base as circunstâncias e os interesses imediatos de cada grupo. Foi comum o apoio dos camponeses aos regimes fascistas concretos. vamos apresentar as condições históricas gerais que marcaram a ascensão dos fascismos históricos.

denunciando o que acreditavam ser sua ineficácia decisória e o caráter fictício. segundo a doutrina fascista (NEUMANN. uma mera máquina. É um fato comum. em todas as experiências fascistas ocorridas até hoje houve claro apoio ao movimento fascista por parte de setores das classes burguesas estabelecidas.com. isto é. p. as classes médias e superiores abrirem mão da democracia e assumirem posições políticas autoritárias face ao risco de piorarem a sua condição socioeconômica ou à iminência de uma revolução das classes inferiores. Vejamos como essas características se integram no caso do fascismo alemão. abstrato de seus ideais. Em primeiro lugar. 1979.iesde. a arma dos nazistas foi atacar a democracia parlamentar. o nazismo. justo ou injusto. antiparlamentares e monopartidários.. contrariando mesmo os preceitos liberais que eventualmente defendem quando a ordem social. antidemocráticos. é “um Estado gendarme”. O Estado liberal.A. que ocorrem a partir do momento em que a modernização política e econômica ganha força nesses países. A ideia de liberdade degenerou a ponto de se confunPara assistir as videoaulas deste livro.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. 1979. as transformações econômicas produzindo profundas mudanças na sociedade.planoeducacao. No que pode ser chamado de primeira etapa. 262). 269) Ciências Políticas I O Estado liberal é “neutro e negativo”. os inimigos dos nazistas são o Estado liberal e a democracia parlamentar. As principais razões de tal aceitação são a preservação dos interesses político-econômicos dessas classes e a necessidade de “desmobilização parcial e talvez temporária das classes inferiores” (GERMANI. assine o site www. Portanto. política e econômica funciona de forma adequada a seus interesses. ou de determinar o que é bom ou mau.br 176 . Elementos doutrinários do fascismo Todos os regimes fascistas são ditatoriais. diziam eles [os fascistas]. é um Estado “sem substância” – incapaz de chegar a decisões. mas a partir de instituições e valores tradicionais. durante a história ocidental moderna. Existe um nítido processo de transformação nas posições político-ideológicas dos nazistas que ilustra tal integração.com. Esses fatores não ocorrem imediatamente antes de um regime fascista ser implementado: são fatores históricos de médio prazo. p. Certas configurações dessas circunstâncias podem conduzir essas classes a defenderem regimes fascistas. Além disso. mais informações www. a aceitação ativa ou passiva do regime fascista por setores “liberais”. Para usar a expressão de Lassalle.

Partia-se da ideia de que o presidente e depois o Estado totalitário eram a única representação da vontade do povo. a situação levou os nazistas a subordinarem o Estado a si..planoeducacao. que busca restaurar um passado idealizado ao mesmo tempo em que implementa uma moderPara assistir as videoaulas deste livro. os nacionalismos sul-americanos e asiáticos e os movimentos políticos muçulmanos integralistas” (CERRONI. O liberalismo e a lei. um dos principais ideólogos do nazismo.iesde..com. Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo..A. embora se tenham aliado temporariamente através de [variados] expedientes. tornou ridícula a ideia da soberania do povo unido. transformar-se-ia na relação entre povo e partido nazista. são arenas de luta selvagem pelo poder. [. os socialismos africanos. Seu princípio é a “contagem de cabeças” e seus parlamentos. de características paradoxais. Este elemento é muito importante: geralmente há uma relação quase simbiótica entre o que os fascistas chamam de povo e o Estado.] A democracia é o governo da “massa desorganizada”. de fato. excluem-se mutuamente. Sendo o presidente o “eleito do povo”. 1979. como os “partidos comunistas.. não são suficientes para definir o fascismo. representado como a verdadeira democracia. O debate é uma farsa. O princípio federativo. os juízes nada mais são do que peças de uma máquina. O sistema pluralista substituiu por muitas lealdades a lealdade básica para com a nação. À medida que conflitos políticos e ideológicos entre elementos da burocracia e quadros do partido nazista se intensificavam.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Como as principais decisões são tomadas em comitês secretos ou em negociações informais entre os grupos que estão no controle. muito ineficiente. devendo ter poder absoluto. A lei serve apenas aos interesses privados. contudo. seria ele a única representação legítima. até mesmo o caráter público do debate é uma fraude. e o Estado seria mero instrumento para atingir tal finalidade.br 177 . Os discursos são feitos para constar das atas. [.] O parlamento também já não é exclusivamente um órgão legislador. mais informações www. Todo deputado fica manietado pela rígida disciplina partidária. O partido seria a única e verdadeira instância de purificação e salvação nacional. p. tece as seguintes críticas ao parlamentarismo e à democracia: Hoje a discussão parlamentar nada mais é que um expediente para deixar registradas decisões já tomadas anteriormente.. que na Alemanha. Carl Schmitt. e aliás. assine o site www. protegendo interesses particulares. Ele não se atreveria a deixar-se desviar por um oponente. (SCHMITT apud NEUMANN. o fascismo se distingue do comunismo por se tratar de uma forma de modernização conservadora e mesmo reacionária. pois eles marcaram também outros regimes. 1993. Somente os aspectos antidemocráticos e totalitários. socialismo e fascismo Na segunda etapa. as leis se tornaram instrumentos para ocultar decisões individuais. mais tarde. um agregado de Robinsons Crusoes e não um povo. A homogeneidade do povo é quase inexistente. 70). p. dominados por grupos privados. Na era do capitalismo de monopólio.dir com a anarquia. 270-271) Essas críticas eram acompanhadas de uma defesa do poder absoluto (de administrar e legislar) do presidente. tanto na teoria como na prática. é antes um administrador. No plano histórico. essa concepção evolui para a defesa do Estado totalitário.

é um fenômeno ideológico extremamente importante no imaginário fascista. emanam do “povo”. a ponto de ele efetivamente não ter obtido sucesso. o substantivo povo. Aqui reside a principal frente de oposição contra os movimentos de esquerda. exigindo. O partido é.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com. Seguindo essa lógica. para degenerar os valores da nação. Mas tal expansão. em menor grau. estando presentes também. As transformações econômicas causadas pelo progresso abrupto do capitalismo constituem uma ameaça aos valores tradicionais. acusados de deturpar e contribuir.com. necessária para trazer de volta o “passado mítico”. são exaltados certos ícones do imaginário popular. A partir da exaltação dos valores tradicionais. especialmente o alemão e o italiano. o líder do partido torna-se uma espécie de messias incumbido do destino de liderar o movimento de purificação e libertação danação. não gera uma forte burguesia urbana. Um exemplo disso é o ideal de expansão e de hegemonia nacional. Refere-se ao ideal de unidade e pureza nacional: todos os indivíduos da nação devem possuir determinadas propriedades essenciais que os distinguem dos estrangeiros – e que os torna superiores a estes. Ciências Políticas I 178 Para assistir as videoaulas deste livro.br . por sua vez. O “destino” do partido é purificar o povo e salvá-lo da “degeneração”.planoeducacao. uma economia industrial moderna. os Estados Unidos).. Nos casos alemão e japonês. contudo. que era vista como algo que foi perdido. Tal força dos valores tradicionais está ligada à manutenção de laços sociais e estruturas econômicas herdadas do período feudal e monárquico. inclusive racialmente. havia um projeto de expansão para restaurar a “grandeza da Nação”. que ganha tons apologéticos.A. portanto. a hierarquia e a autoridade. O fascismo é um fenômeno típico da modernização tardia. mais informações www. próprias de uma Nação superior. Tal progresso. Sua manutenção não ocorre em sociedades que passaram por um lento processo de modernização e aburguesamento (como a Inglaterra) ou por grandes revoluções burguesas (como a França e. outra ameaça residindo obviamente no socialismo e no comunismo. por dedução. em especial aqueles pertinentes às circunstâncias da classe média vulgarizada e da elite “deslocada” (ou em ameaça de sê-lo). representado como a expressão necessária do “povo”: a perfeição.iesde. e é por esse motivo que essas sociedades foram mais resistentes ao fascismo. no partido. No plano ideológico. a riqueza.nização econômica (o desenvolvimento da indústria moderna). como a disciplina. entendido como elemento racial. só seria realizável por meio do domínio bélico. a dignidade e todas as virtudes humanas. Esse aspecto mitológico e mesmo mágico também é uma característica fundamental do fascismo. a pureza. porque ele ocorre sob os auspícios da aristocracia agrária e das estruturas sociais e políticas preexistentes. assine o site www.

. p.. em que de modo mais fiel se refletem os interesses do dia. uma indiferença crescente pelo que se passa nos parlamentos. 1940.com.Conclusão Apresentamos uma definição histórica das três principais doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. hoje. A categoria da discussão. socialismo e fascismo. O centro de gravidade do corpo político não cai onde reina a discussão.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. os termos entre os quais se arma a curva de tensão dos conflitos sociais e econômicos do mundo contemporâneo. Para assistir as videoaulas deste livro. pela própria natureza de que se reveste o fenômeno político.planoeducacao. Abordamos tais doutrinas a partir de duas dimensões fundamentais: o conteúdo de suas ideias.com. no processo político. assine o site www.br 179 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. As formas parlamentares da vida política são hoje resíduos destituídos de qualquer conteúdo ou significação espiritual.. a fim de que a decisão final lhe seja inteiramente favorável. em todos os países. As próprias massas já perceberam que as tensões políticas se deslocam para outro plano de dimensões proporcionais às das forças em conflito. e as características das instituições políticas que constituíram os regimes. mas de compor um antagonismo de interesses.] as instituições representativas já não têm um conteúdo espiritual que sirva de polo a um sistema de crenças essencial para garantir a duração de todas as instituições humanas. Na própria imprensa. mais informações www.A. manifestas nos discursos e nas ações políticas de seus representantes. 27-30) [. que era o processo forjado pelo liberalismo para instrumento intelectual das decisões políticas. tem dúvidas de que o meridiano político não passa mais pelas suas antecâmaras ou pelas suas salas de sessões. observa-se.iesde. mas onde impera a vontade. o que permitiu perceber que eles são objetos da luta política. Texto complementar A falência da democracia liberal (CAMPOS. já não comporta. cada um dos centros em conflito fazendo o possível para reunir a maior massa de forças. de resolver uma divergência de ideias ou de pontos de vista intelectuais. socialismo e fascismo . Ninguém. e que não se trata. Tais elementos foram apresentados relacionando-os a contextos históricos concretos.

o controle do poder e da nação. por processos racionais. Só podem ter dúvidas sobre o áspero clima político. ou a organização de toda a humanidade numa comunhão de interesses e de fins.. numa ostensiva confissão da sua abulia. em cuja atmosfera carregada de tensão mal começamos a penetrar.. ponha e resolva em termos de razão a massa irracional de motivos por força dos quais se arma entre as nações um arco de tensão política e econômica. ou fora dos quadros do governo.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. sempre mais refratário a qualquer tratamento racional ou ideológico. Para as decisões políticas uma sala de parlamento tem hoje a mesma importância que uma sala de museu. cuja função é conjugar o presente e o futuro nos tempos do pretérito. Esse mesmo estado de espírito é que julga possível realizar.] Na Alemanha. os homens que vivem em estado de ingenuidade em relação à experiência imediata. e em cuja máscara os traços de tensão. mas igualmente a internacional. Para assistir as videoaulas deste livro.. O mesmo pensamento liberal. quando se trata das grandes e graves questões.Os corpos deliberativos deixaram de deliberar.iesde. medusada sob a ação carismática do Fuehrer. Para ele. em que a opção envolve riscos e abre margem ao perigo. ou onde reinam os professores. o conceito de política é o conceito que os professores costumam dar da política nos recintos herméticos onde se fabricam modelos da realidade não à imagem desta. que concebia a política interior como um conflito de ideias. o parlamento. de ansiedade e de angústia traem o estado de fascinação e de hipnose. dura e lúcida substância política.A. não só a integração política nacional. hoje em dia. [. contemple a massa alemã. suscetível de resolver-se mediante os métodos da inteligência discursiva ou da dialética forense. por meio dos quais se subtrai da nebulosa mental das massas uma fria.]. as decisões políticas. mas à imagem dos sonhos ou dos arquétipos platônicos que a imaginação propõe aos nossos desejos. assine o site www. Na França. pelos processos realistas e técnicos.. transpondo esse conceito para o plano mundial. Hitler organizava nas ruas. em que um grupo de juristas.com. mais informações www. ou num mundo de satisfação simbólica de desejos. julgou possível realizar a organização de uma comunidade internacional. assistido por uma equipe de técnicos.br Ciências Políticas I 180 . transmite os plenos poderes a um César temporário. em que tudo se passa como nos contos azuis [. enquanto um parlamento em que já houve o maior número de partidos procurava inutilmente chegar a uma decisão política mediante os métodos discursivos da liberal-democracia. Quem quiser saber qual o processo pelo qual se formam efetivamente. A linguagem política do liberalismo só tem um conteúdo de significação didática. criando um Fórum Mundi.com..planoeducacao. com efeito.

Atividades 1. como se faz uma definição científica adequada das ideologias políticas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Mencione alguns desses problemas e explique. Para assistir as videoaulas deste livro. socialismo e fascismo .planoeducacao.com. assine o site www. mais informações www..br 181 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo.iesde.A.com. Há muitos problemas de método que tornam essa tarefa um desafio. o socialismo e o fascismo não é uma tarefa fácil como parece a princípio. Apresentar uma definição adequada de uma ideologia política como o liberalismo. a partir deles.

iesde.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. descrevendo as principais características que os distinguem e os opõem. Ciências Políticas I 182 Para assistir as videoaulas deste livro. Compare o liberalismo.. assine o site www.com. mais informações www.planoeducacao.com. o socialismo e o fascismo e procure contrastá-los entre si.br .A.2.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.planoeducacao.. assine o site www. socialismo e fascismo .iesde.Para assistir as videoaulas deste livro.A. mais informações www.com.com.br 183 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo.

Entre as doutrinas políticas apresentadas. Ciências Políticas I 184 Para assistir as videoaulas deste livro..com.com. assine o site www.iesde. a mais adequada? Desenvolva o seu argumento justificando suas proposições utilizando como base as definições apresentadas.3. em sua opinião.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. mais informações www.br . qual é.A.

br 185 Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo.iesde. assine o site www.Para assistir as videoaulas deste livro..com. mais informações www.planoeducacao.com. socialismo e fascismo .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.

com..planoeducacao. mais informações www. assine o site www.A.iesde.br .com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.Para assistir as videoaulas deste livro.

portanto.br 187 .. “a burguesia vive em luta [. traçar estratégias racionais para realizá-los? Não custa lembrar aqui que o sociólogo e economista alemão Max Weber (18641920) define ação como um comportamento dotado de significado subjetivo para aquele que o executa – dotado. desejar. o Estado. “o Brasil propõe” ou. A burguesia fornece aos proletários os elementos de sua própria educação política. todos nós sabemos que coletividades (a Igreja.A.. portanto. o governo etc. lutar) não são características exclusivas dos indivíduos? E não seriam apenas estes indivíduos a terem capacidade de formular objetivos e interesses e. a recorrer a sua ajuda e desta forma arrastá-lo para o movimento político. mais informações www. a burguesia. isto é.Grupos. de um sentido mental. obra seminal do pensamento político do século XIX). Como dizer então que agem? E.) são capazes de agir como se fossem um único indivíduo. não pensam nem sentem. assine o site www. logo. armas contra ela própria. que interferem de forma estratégica nas disputas pela distribuição dos poderes e privilégios de uma dada sociedade? Para assistir as videoaulas deste livro. depois. ou seja. interesses e representação política A burguesia vive em luta permanente.. não lemos nos jornais e em revistas científicas (destinadas exclusivamente aos acadêmicos) expressões tais como “o Estado pretende impor”. Ora. Karl Marx e Friedrich Engels Quantas vezes não ouvimos em conversas informais e em discursos solenes. a vinculação entre ação e subjetividade. Torna-se óbvia. contra as frações da própria burguesia cujos interesses se encontram em conflito com o desenvolvimento da indústria. “a burguesia fornece”? O que tais sentenças possuem em comum é a crença de que coletividades (o Estado. e não um aglomerado deles. o proletariado) não possuem subjetividade. e sempre contra a burguesia dos países estrangeiros. contra a aristocracia. vê-se forçada a apelar para o proletariado.planoeducacao. Somos bombardeados por esse tipo de frase com tal intensidade que se torna cada vez mais difícil formular uma questão bastante simples: como as coletividades agem? As ações (pensar. como na epígrafe acima (retirada de O manifesto do partido comunista (1848). que agem politicamente.com.com. “o governo defende”.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.] contra a aristocracia”. Em todas as suas lutas.iesde. primeiro. mais ainda.

na lógica da pesquisa científica (e na linguagem que a expressa) esse uso tem consequências desastrosas: em vez de descrever causalidades e explicar eventos. Abandonar. o Senado.A.iesde. mas apenas a criação de laços sociais ou rivalidades entre os interlocutores. como um grupo organizado. em particular quando se procura compreender qual a ligação entre essas coletividades organizadas e o funcionamento do mundo político (a Câmara. Deixa-se de lado.): será que há influência das coletividades organizadas sobre o mundo político? Se sim. abstemo-nos de descobrir que específicas agências estatais o fariam. do Manifesto de Marx e Engels) o uso de coletivos como sujeitos da ação não chega a ser de todo incompreensível – já que tais formas de discurso não possuem como meta a elucidação de causalidades ou a construção de argumentos precisos. por exemplo. já que se corre o risco de realizar uma análise que deixa de explicar justamente o que deveria ser explicado. não pode ser tratado como algo evidente.Se na linguagem cotidiana ou na linguagem política (como é o caso.com. A questão da formação dos grupos e da maneira específica como eles agem (sua ação coletiva) é certamente um dos problemas mais relevantes da Ciência Política. entretanto. os vários órgãos do poder Executivo etc.planoeducacao. contudo. de que forma? As respostas a essas questões têm sido bastante variadas. Um exemplo: ao falar simplesmente que “o Estado almeja realizar determinada medida”. O grande problema está no fato de essa forma de pensamento (que usa e abusa dos coletivos) não ficar restrita ao discurso de políticos e diletantes: também entre aqueles que se propõem a analisar o mundo da política de forma científica – os cientistas políticos ou sociais – esse é um raciocínio usual. eles também são capazes de se organizar e de agir coletivamente. Isso. o uso (e abuso) desses termos coletivos não significa de modo algum afirmar que os indivíduos agem apenas de maneira isolada – ao contrário. o grosso da explicação: como o Estado faz o que faz. mais informações www. como se vê. quais os mecanismos burocráticos envolvidos na questão e. os coletivos funcionam como substitutos da descrição e da explicação. aqui. assine o site www. por meio. muito importante. quem seriam os indivíduos que tomariam as decisões necessárias para a produção de tal medida.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S..com. a fim de realizar determinados objetivos.br . dos slogans que abundam em propagandas eleitorais e programas de partido –. Ciências Políticas I 188 Para assistir as videoaulas deste livro.

protestam por mais empregos e por políticas de controle dos preços. uma intervenção organizada e estratégica nas arenas em Grupos. Para assistir as videoaulas deste livro.br 189 . 1945. DC. mais informações www. Washington. Coletividades e ação política Algumas correntes teóricas das Ciências Sociais acreditam que se um determinado número de indivíduos compartilha certos interesses – tendo consciência desse compartilhamento – e se tais interesses só podem ser garantidos por meio de uma ação política coletiva (ou seja.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com.. assine o site www.com.planoeducacao.Delegados da Congress of Industrial Organizations (CIO). Mcavoy. uma das maiores organizações trabalhistas da história norte-americana. interesses e representação política Thomas D.iesde.A.

cargos. ou seja. evidentemente.br 190 . então é evidente que os indivíduos em questão agirão de forma coordenada e cooperativa a fim de perseguir esses interesses. que grandes coletividades – como o proletariado ou a burguesia – pudessem agir como agentes políticos coletivos. associações. prestígios. no jargão da Ciência Política) os verdadeiros sujeitos da ação política. presente em obras como O 18 Brumário de Louis Bonaparte (1852) e A guerra civil na França (1872). há correntes interpretativas que procuram problematizar esse pressuposto de que os indivíduos tendem a se organizar assim que percebem seus interesses comuns. da mesma forma como uma pessoa. então. por intermédio de partidos. não possa de forma alguma ser resumida exclusivamente a isso (como se verá mais adiante). assine o site www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. por exemplo).com. ou seja.A. mais informações www. Ao contrário. mesmo quando existem interesses compartilhados entre os indivíduos de uma dada organização política (um sindicato. contudo. Por outro lado. é inegável a presença reiterada.iesde. assim. isoladamente. mas justamente pelo fato de os indivíduos serem racionais: na esperança de que outros paguem o preço em seu lugar e de que seja possível desfrutar dos lucros comuns sem arcar com os custos. cada uma à sua maneira. A aceitação dessa última tese – de que grandes coletividades não podem se constituir em sujeitos da ação política –. Começaremos essa discussão com duas correntes de análise que exemplificam. grupos de interesse ou pressão (lobbies) etc. Isso. desse modo. a possibilidade de que elas possam ainda assim influenciar o mundo político: não de forma direta. como agentes coletivos capazes de influenciar o funcionamento do mundo político. não exclui. de uma forma de raciocínio e explicação que apela à ideia de que as coletividades de fato agem – como Para assistir as videoaulas deste livro. e isso justamente por seu número reduzido de membros. informações). Contudo. Os grupos assim formados atuariam. já que eles não estariam propensos à abstenção. como grupos de fato unificados e mobilizados para a realização de objetivos comuns. a noção de representação (de interesses) não exclui algumas controvérsias teóricas. os pequenos grupos (as minorias politicamente ativas. os sujeitos tendem sempre à abstenção. mas por meio de representantes.planoeducacao.com. dirão elas. a falta de engajamento em uma luta coletiva. como veremos. sindicatos. na obra do teórico alemão. A perspectiva marxista Ciências Políticas I Ainda que a análise de Karl Marx (1818-1883) sobre a política. Esse fato impediria. a tendência do indivíduo é sempre a abstenção. persegue os seus fins de forma estratégica. a ideia de que coletividades podem agir de forma direta nas lutas políticas reais: o marxismo e o pluralismo. Seriam. as elites. contudo. ou seja. não ocorreria por conta de algum tipo de irracionalidade que impediria sistematicamente a cooperação entre as pessoas.que são decididas as distribuições dos recursos – verbas..

dependeriam os rumos políticos das diversas sociedades. ou seja. Por um lado. enquanto tinha ao mesmo tempo que empenhar-se em uma guerra ininterrupta contra a opinião pública e receosamente mutilar e paralisar os órgãos independentes do movimento social. portanto. o proletariado etc. como proprietários ou não proprietários de terras. da disputa entre elas (a famosa luta de classes). assine o site www. defendem que a vida política não pode ser compreendida nem por meio da ideia de classes sociais.) também poderá fazê-lo. possuiriam os mesmos interesses econômicos e políticos. interesses e representação política A perspectiva pluralista Os partidários do pluralismo. por outro.br 191 . atuando assim como grupos de interesse ou de pressão. mais informações www. ele certamente as pensa como capazes de atuar de forma cooperativa e coordenada. são os grupos sociais e como eles agem para concretizar seus objetivos coletivos. abaixo.com. Grupos. (MARX. Marx deduz que um agrupamento desses agentes (formando. considera que a idéia de classes sociais é uma abstração por Para assistir as videoaulas deste livro.grupos mobilizados e dotados de racionalidade estratégica –. 59. Ainda que não se possa atribuir a Marx a ingenuidade de achar que as classes sociais possuem algo como uma subjetividade.. e de fazê-lo de forma racional e estratégica. da burguesia): [. essas coletividades são as classes sociais. ocorrida em 1848. nem por meio da referência a indivíduos.] seus interesses políticos forçavam-na [a burguesia] a aumentar diariamente as medidas de repressão e. aqui. Da interação entre tais classes – entendidas como agentes coletivos – ou melhor. esta corrente recusa a referência a indivíduos por considerar que estes não podem existir fora ou anteriormente aos grupos. onde não conseguiu amputá-los completamente. Cita-se. um agente coletivo: a burguesia.planoeducacao. um exemplo bastante ilustrativo da capacidade de ação estratégica das classes sociais (aqui. os recursos e o pessoal do poder estatal. que tem no cientista político norte-americano Robert Dahl (1915) um de seus principais representantes. a fim de realizar objetivos claros e explícitos. por ocuparem uma mesma posição nas relações de produção – basicamente. Para Marx. estabelecendo objetivos e perseguindo-os de forma planejada. mostra como Marx toma as classes sociais como agentes políticos capazes de formular e perseguir objetivos.. Ou seja: diante do fato de que agentes individuais são capazes de agir racionalmente.A. portanto. na França. É justamente essa ideia que será questionada a seguir.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Antes. p. passemos a outra corrente teórica que compartilha dessa mesma suposição com o marxismo: o pluralismo. 1977. conjuntos de indivíduos que. A unidade da análise. como se fossem um único indivíduo.com.iesde. grifos do autor) Esse trecho – que descreve as estratégias da burguesia para anular o poder dos proletários e pequeno-burgueses no período posterior à queda do rei Luís Felipe.. máquinas e dinheiro –.

É isso que constitui o que chamamos de o problema da ação coletiva. eles se organizam a fim de incentivar a produção de políticas adequadas ao estabelecimento ou à consolidação daquelas mesmas atitudes e objetivos que estiveram na origem de sua integração em um grupo.demais vaga. Nela. Além disso. a cooperação Para assistir as videoaulas deste livro. Uma sociedade seria mais plural quanto maior fosse o número de grupos de interesse em competição no seu interior. uma verdadeira significância. argumentam esses autores. de modo estratégico e racional.. ainda. assine o site www. os indivíduos procuram maximizar a realização de seus interesses específicos. Partindo do pressuposto de que. Olson investiga quais as condições para que haja. a partir de uma base comum de objetivos. e que não possui. nenhuma dessas ideias pode ser simplesmente pressuposta. os pluralistas pressupõem que um agregado de indivíduos pode agir de forma racional e estratégica da mesma maneira como o fariam os membros de um grupo se tomados isoladamente. seriam uma unidade real para os próprios indivíduos que deles fazem parte. tomam como algo evidente justamente aquilo sobre o que a análise deveria deter-se: a passagem de uma mera similitude de interesses e atitudes entre os agentes individuais para uma efetiva cooperação em um grupo mobilizado para a realização de determinados objetivos. Baseados nessas similaridades. Como veremos a seguir. Os grupos de interesse.A. Isso evitaria a concentração de poder nas mãos de apenas um dos grupos ou.com. ao contrário.iesde. E como surgiriam tais grupos de interesse? A partir das interações regulares entre indivíduos que compartilham determinadas atitudes e objetivos. e não uma realidade exterior e abstrata. do economista Mancur Olson (1932-1988). portanto. como burguesia e proletariado. tal passagem é geralmente tida como o produto de uma tendência natural dos homens a associarem-se ou então como uma característica histórica demandada pelas sociedades avançadas.br Ciências Políticas I 192 . sindicato. formadas pelas inter-relações dos agentes individuais. mais informações www. A lógica da ação coletiva e a tendência à abstenção O argumento mais eloquente e substancial contra as proposições teóricas até agora apresentadas provém da obra A lógica da ação coletiva (1971). Como Marx. Sendo unidades reais. comparando esta lógica com aquela típica das ações meramente individuais. a formação de um governo todo-poderoso. os grupos de interesse funcionam como os sujeitos da ação e dos interesses políticos. Para os pluralistas.com.planoeducacao. o que traria.). associação etc.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. uma maior concretude e credibilidade para a análise social. o autor se propõe a analisar a lógica específica da ação coletiva (a lógica que rege a atuação de uma série de agentes individuais quando estes estão integrados em um grupo organizado – partido.

por exemplo). ela nasce. portanto. abnegada e disciplinada do que nos interesses comuns da massa proletária). Esses processos – cooperação e mobilização – não podem ser pensados nem como espontâneos. sejam elas grupos de interesse ou classes sociais.. 121) Grupos.br 193 . os sujeitos da ação política não devem ser buscados. nem como automáticos (contrariamente ao que defendem o marxismo e o pluralismo. A tendência do indivíduo racional. mesmo que todos eles sejam pessoas racionais e centradas nos próprios interesses. Porque [. segundo Olson.com.] não é verdade que a ideia de que os grupos agirão para atingir seus objetivos seja uma sequência lógica da premissa do comportamento racional e centrado nos próprios interesses. p.e. mais informações www. na esperança de que outros paguem o preço em seu lugar e que ele possa. portanto. ainda assim a cooperação não ocorrerá. a menos que o número de indivíduos do grupo seja realmente pequeno. sabendo que só a cooperação permitirá realizá-los. por serem grupos com um Para assistir as videoaulas deste livro. Na verdade. 1999. por mais que esta seja essencial para a realização de um objetivo comum. mas em organizações comandadas por pequenas elites ou vanguardas. 14.com. portanto). quando uma organização (partido. Se Marx e os pluralistas explicam a transformação das coletividades em grupos politicamente ativos por meio da ideia de uma “consciência acerca dos interesses comuns”. (OLSON. grifos do autor) Dito de outro modo: quanto maior o tamanho de um grupo (uma classe social. Por mais que um grupo amplo possua objetivos comuns e deles tenha plena consciência. menor a probabilidade de os agentes individuais se disporem a pagar voluntariamente os custos da cooperação. assim.planoeducacao. E. Olson dirá enfaticamente: a cooperação não nasce de objetivos comuns. para uma explicação da necessidade dos comunistas de confiar mais em uma minoria engajada. Olson argumenta que [. ou ao menos que haja coerção ou algum outro dispositivo especial que faça os indivíduos agirem em interesse próprio. desfrutar dos lucros comuns sem arcar com os custos individuais. é a abstenção (ou a não cooperação).]..] o indivíduo acharia que obteria as vantagens da ação de classe tanto se participasse dessa ação quanto se não participasse (é natural.. de Lênin.. por mais que estes sejam plenamente conscientes aos indivíduos. Estas. que as revoluções “marxistas” que ocorreram tenham sido provocadas por pequenas elites conspiradoras [. sim.. interesses e representação política Sendo assim. associação) torna-se capaz de extorquir uma cooperação compulsória dos agentes que a compõem. não são as grandes coletividades.A. Não é fato que só porque todos os indivíduos de um determinado grupo ganhariam se atingissem seu objetivo grupal eles agirão para atingir esse objetivo. assine o site www.. de modo a neutralizar a tendência racional à abstenção. na formação dessas organizações. 1999. p. veja O que fazer?.. como agentes políticos coletivos nascidos de uma comunhão (automática) de interesses. mas sim as “pequenas elites” as protagonistas do processo: Seria igualmente insensato supor que todos os trabalhadores de um país iriam voluntariamente restringir suas jornadas de trabalho a fim de aumentar a remuneração da mão-de-obra com relação às gratificações por capital. a formação de um grupo mobilizado para efetivá-los.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. (OLSON. Daí a incoerência lógica de tratar coletividades.iesde. em grandes coletividades dotadas de interesses comuns. os indivíduos racionais e centrados nos próprios interesses não agirão para promover seus interesses comuns ou grupais. a partir dela. e de oferecer a eles ganhos individuais distintos dos ganhos coletivos. sindicato.

nem. as classes sociais seriam na verdade representadas por porta-vozes. Em vez de agirem diretamente na política. pequena-burguesia ou proletariado).número reduzido de indivíduos. Contorna-se dessa forma o disparate lógico que significa atribuir às coletividades as mesmas características de um indivíduo (“a burguesia pensa”. assine o site www. a arena política não seria mais o lugar de uma luta entre grandes coletividades (burguesia. evitando cair nos erros identificados por Olson. Poderiam. agremiados em organizações políticas (partidos. utiliza com frequência o tipo de argumentação criticada por Olson –. estabelecer objetivos de forma clara e criar planos coordenados para atingi-los. sindicatos e associações). não se pode ignorar que boa parte do discurso dos políticos profissionais e dos programas partidários consiste justamente em falar em nome de alguma coletividade. mais informações www. admitindo-se que os únicos capazes de agir politicamente são esses pequenos grupos. há uma forma alternativa de explicação da ação política que escapa aos problemas já identificados.A. Contudo. ao contrário. que lutariam. como atores coletivos. de alguém (o representante) que fala em nome dos interesses de outros (os representados) – não é isenta de problemas.planoeducacao. ou seja.br Ciências Políticas I 194 . por agentes políticos profissionais capazes de falar em seu nome e em favor de seus interesses. pelos seus interesses? Ora. portanto.com. um problema de operacionaliPara assistir as videoaulas deste livro. Segundo essa visão. o “povo”. que podem ser classificados em dois tipos. como agentes coletivos. mas sim de uma disputa entre profissionais da representação (os políticos de carreira). a ideia de representação – ou seja. Tal explicação baseia-se na ideia de representação política. como se mostrou. não se estará deixando de lado o peso e a influência das massas nas lutas políticas? Ainda que elas não sejam capazes de agir diretamente. Mas. a outro problema fundamental: o problema da representação política. assim. de se constituírem em agentes coletivos politicamente ativos capazes de atuar de forma direta nas lutas políticas. assim. Interesses e representação política Diante da força e da capacidade de persuasão dos argumentos críticos de Mancur Olson. não resta alternativa senão aceitar que coletividades como classes sociais ou grupos de interesse não são capazes de surgir de forma espontânea.iesde. Mesmo no caso de Marx – que. Chegamos.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. a “nação”. Primeiramente. não sofreriam dos obstáculos típicos à ação coletiva em grandes coletividades.. os “trabalhadores”. a partir de uma base de objetivos comuns.com. essas grandes coletividades não seriam de alguma forma representadas por aquelas pequenas elites. como a tendência à abstenção. “o proletariado almeja”).

Em trecho célebre de O 18 Brumário de Louis Bonaparte. exatamente porque esses representantes. na prática.A. Eles procuram maPara assistir as videoaulas deste livro. p. interesses e representação política A perspectiva da Teoria da Escolha Racional A chamada Teoria da Escolha Racional. pode-se de fato falar em uma relação de representação de interesses? Não estariam os supostos representantes agindo. contudo. 48. ou de uma relação de simpatia e de defesa explícitas. os partidos e os parlamentares representam algo além de seus próprios interesses específicos. a pequena-burguesia. Grupos. por exemplo). que os representantes democráticos sejam na realidade todos shopkeepers (lojistas) ou defensores entusiastas destes últimos. para os mesmos problemas e soluções para os quais o interesse material e a posição social impelem.com. assine o site www. desta vez de natureza lógica. postula que os indivíduos agem. de maneira autocentrada (egoísta e não altruísta. perseguir objetivos que não são estritamente os seus? Dito de outro modo. concentrando-o no autocrata Louis Bonaparte. (MARX. O que os torna representantes da pequena-burguesia é o fato de que sua mentalidade não ultrapassa os limites que esta não ultrapassa na vida. Esta é.planoeducacao. grifos do autor) Sem ser necessariamente o produto da igualdade das condições de classe (pertencerem todos. interesse este que pode ou não estar de acordo com o dos representados? Assim. a representação seria fruto da equivalência entre a orientação ideológica dos representantes políticos (ou literários) e os interesses materiais de determinada classe. teoricamente.. Marx o faz da seguinte forma: Não se deve imaginar.iesde.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. A burguesia. tal rompimento abriu espaço para um golpe de Estado que retirou o poder político das mãos da burguesia. mais informações www. um problema lógico: é possível. o de comprovar da relação de representação. em todas as suas ações políticas. fazerse a seguinte pergunta: se uma classe ou grupo social não é beneficiada em todas as situações pela ação política dos seus supostos porta-vozes. a relação que existe entre os representantes políticos e literários de uma classe e a classe que representam. Segundo sua formação e posição individual podem estar tão longe deles como o céu da terra. em suas ações. É preciso. à burguesia. chegamos a um segundo tipo de problema envolvendo a ideia de representação. enquanto partidos e parlamentares? Vamos ao primeiro problema. como dizem os economistas).br 195 . então. ao menos se tomarmos como pressuposto que os indivíduos são autocentrados e racionais.zação: como comprovar que um político ou partido de fato representam uma classe social ou um grupo exterior ao universo da política? Em segundo lugar. rompe com os seus representantes parlamentares. na maior parte do tempo. Posteriormente. os seus representados.com. em interesse próprio. tampouco. durante a Segunda República Francesa. não mais a beneficiavam e aos seus negócios. 1977. ainda que os porta-vozes não beneficiem. em geral. de que são consequentemente impelidos. representantes e representados. representada por autores como Anthony Downs. mostra Marx.

ou seja. Sendo uma minoria. como em Downs. p. Aqui. 106-07. a unidade de análise não é. não uma relação de representação de interesses entre políticos e eleitores. seriam capazes..ximizar a realização de seus interesses individuais. a busca é sempre por políticas governamentais que a favoreceram de forma mais imediata.com. seus objetivos e estratégias. não seria logicamente possível. Portanto. p. Sendo assim. desempenhar sua função social é. as elites. prestígio e poder que advém da ocupação do cargo. sim. de se organizar de forma coordenada a fim de estabelecer e perseguir objetivos claros (o que coletividades de maior extensão. contudo.). por exemplo. mas as elites. 1992. eles agem – racionalmente – em nome de um fim único: conquistar e manter-se no poder. como classes sociais ou grupos de interesse. Tem-se. No caso dos políticos.” (DOWNS. de bom grado. 56) Ainda que os discursos dos políticos afirmem o oposto. Trata-se. que eles falem em nome de uma coletividade (“meus eleitores”. não seriam capazes de fazer). almejase acima de tudo conquistar votos.planoeducacao. Dessa maneira. mas uma relação baseada na noção de troca: voto em determinado político não porque o vejo como representante de minha classe. mas porque ele me beneficia por meio de decisões que me são favoráveis (uma escola em meu bairro.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Uma vez que pare de fazê-lo. um grupo formado por um número reduzido de membros. portanto. ela não sofreria. que um indivíduo agisse a fim de realizar interesses que não os seus próprios. Mosca define elite como “uma minoria de pessoas influentes na direção da coisa pública. já que ambos buscam realizar os seus próprios interesses individuais. de autores como Gaetano Mosca (1858-1941) e Robert Michels (1876-1936). Só isso. e somente destes. Downs resume bem a sua visão a respeito dos agentes políticos e de como eles perseguem interesses que são sempre os seus próprios quando afirma que os membros dos partidos “são motivados por seu desejo pessoal pela renda. e não os de uma classe ou grupo. mais informações www. de uma relação condicional. não há uma autêntica relação de representação de interesses entre os agentes políticos e os agentes exteriores à política. o indivíduo autocentrado e interessado. um meio de alcançar suas ambições privadas. assine o site www.br Ciências Políticas I 196 . para eles. uma creche em minha rua. A perspectiva elitista Outra corrente que nega a possibilidade de uma autêntica representação de interesses é a dos elitistas. ao menos de acordo com tal postulado. “o povo” etc. tradução nossa). dirá Downs. 1999. assim. Para assistir as videoaulas deste livro. a direção [da sociedade]” (MOSCA. no caso da população em geral. um ginásio de esportes em minha cidade). isto é.A. não terá mais meu voto. condição para que se reelejam. das inconsistências elencadas por Mancur Olson: elas. a quem a maioria entrega.iesde.com.

Nem da reação “corporativa” dos senadores diante do caso da contabilidade pessoal de Renan Calheiros (PMDB-AL). nas democracias representativas.iesde. a nação. mas só fazem isso à medida que representam. os de se perpetuar no poder ou de tomá-lo (das mãos de outra elite). num universo político cada vez autônomo. O sociólogo alemão Max Weber sugeriu que haveria assim dois tipos de políticos profissionais: aqueles que vivem da política (como um meio de vida) e aqueles que vivem para a política (como um modo de vida). de bom grado. Os políticos são profissionais que representam outros na impossibilidade prática de esses outros fazerem isso por si mesmos.com. interesses e representação política . longe de serem prova de uma relação de verdadeira representação de interesses. estariam condenadas à desorganização e. o favoritismo e outros ismos de má fama não deveria estar desligada do debate em torno da extensão do foro privilegiado às autoridades do legislativo. à incapacidade de agir politicamente (ou seja. as relações entre os políticos tornam-se mais importantes do que as relações dos políticos com a sociedade. As massas – definidas sempre de forma negativa. em primeiro lugar. não passariam de jogos retóricos cuja finalidade seria a manipulação cínica. Contudo.br 197 Grupos. e não um tipo de emprego como qualquer outro. Na ausência de qualquer controle social eles podem então se imaginar “donos” do poder para dispor dos empregos públicos à vontade ou para serem julgados só em tribunais especiais. Os dois primeiros fatos são a extensão lógica de um fenômeno maior e que o terceiro caso representa de maneira espetacular: o fechamento do universo político sobre si próprio. a si próprios. as elites – ou as minorias politicamente ativas – não perseguem outros interesses que não os seus próprios: basicamente. seriam incapazes de formular e perseguir objetivos políticos).br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. ao contrário.Como o indivíduo autocentrado da Teoria da Escolha Racional.com. Os políticos e sua classe “A discussão sobre o nepotismo. justamente por conta de sua grande extensão (e não apesar dela). assine o site www. o que se observa.. Quais as funções dos representantes políticos? Não é preciso ser filólogo para descobrir: representar interesses sociais. portanto. é que só vive para a política aquele que vive da política. às minorias. todas as referências que as elites fazem a coletividades exteriores ao mundo político (o povo.planoeducacao. os políticos até representam grupos sociais.A. Nessa perspectiva. os trabalhadores). Só nesse segundo caso a política seria uma vocação verdadeira. Entre nós. 2007) Para assistir as videoaulas deste livro. Daí delegarem o poder. O peculiar é que. aprovado pela Assembléia de Minas Gerais [em 2007]. como compostas por todos aqueles que não pertencem às elites –. mais informações www.” (CODATO.

que os políticos “servem aos interesses dos seus clientes [os representados] na medida em que (e só nessa medida) se servem também ao servi-los” (BOURDIEU.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.iesde. nos erros identificados por autores como Downs e Mosca – ou seja. Por outro lado. reeleições. ainda expressem. a elite política “burguesa” agiu em desacordo com os interesses materiais de seus representados. pode explicar aquilo que Marx percebeu. e o mundo particular do qual fazem parte. Portanto. 177). como defenderiam os elitistas.. aquela elite não agia simplesmente de acordo com os seus próprios interesses específicos (reeleição. mais informações www.A. sem abrir mão da ideia de que os agentes políticos possuem interesses próprios (por votos. cujo fim seria a simples manipulação. de maneira mais ou menos nítida. isso significa dizer que não é preciso optar entre uma análise que trata os políticos como agentes autocentrados e outra que os vê como representantes de interesses externos: a própria competição interna ao campo político. ao obrigar os agentes que dele fazem parte a buscarem uma identidade política que os diferencie dos demais. ainda que não de modo explícito e consciente. Ciências Políticas I 198 Para assistir as videoaulas deste livro. p. como o faz o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). cargos etc.).planoeducacao. sem incorrer. e que faz com que. Se não se quer abandonar a ideia de representação de interesses. de que não se tratava de pura retórica cínica.com. desde o início. mas não explicou satisfatoriamente – a equivalência entre as oposições ideológicas que têm lugar no mundo político e as oposições sociais que existem fora dele. o problema que se coloca aqui é o de como provar que. os políticos. durante a Segunda República Francesa. mesmo perseguindo os interesses mais privados. Ou. 1989.) e que a representação não era simplesmente uma ilusão nascida da coincidência momentânea dos interesses da elite parlamentar e da classe social que ela supostamente representava. interesses estes que são irredutíveis aos de qualquer grupo externo ao mundo político –. as oposições e as lutas da sociedade que os engloba. sugere Bourdieu. quem sabe o caminho seja admitir.br . contudo. o próprio Marx reconhece que.Conclusão Foi visto que a idéia de representação de interesses é fundamental para a análise da política feita por Marx: os representantes agiriam a fim de defender os interesses de sua classe.com. Tal questão fica em aberto nas análises políticas de Marx. assine o site www. verbas etc. Em outras palavras.

entre representantes dando uma representação e agentes. inversamente. resulta sem dúvida menos da procura consciente do ajustamento à procura da clientela ou do constrangimento mecânico exercido pelas pressões externas do que da homologia entre a estrutura do teatro político e a estrutura do mundo representado. assine o site www. ao prosseguirem na satisfação dos interesses específicos que lhes impõe a concorrência no interior do campo. entre o representante e o representado. por obrigação.Textos complementares A representação política (BOURDIEU. concebidos como causa determinante (“grupo de pressão” etc. nas suas tomadas de posição mais adequadas aos interesses dos seus mandantes. eles prossigam ainda na satisfação dos seus próprios interesses – sem necessariamente o confessarem a si mesmos –. dêem ainda satisfação aos interesses dos seus mandantes e que as lutas dos representantes possam ser descritas como uma mimese política das lutas dos grupos ou das classes de que eles se assumem como campeões. 175-177) A vida política só pode ser comparada com um teatro se se pensar verdadeiramente a relação entre o partido e a classe. como uma relação propriamente simbólica entre um significante e um significado ou. que..A. A dedicação.com. melhor. Por outras palavras. aparente. a relação. entre a luta das organizações políticas e a luta de classes. tais como lhes são determinadas pela estrutura das posições e das oposições constitutivas do espaço interno do campo político.) ou causa final (“causas” a defender. ao mesmo tempo. mais informações www.com. interesses e representação política . A concordância entre o significante e o significado. entre a luta de classes e a forma sublimada desta luta que se desenrola no campo político. 1989. É esta homologia que faz com que os profissionais.) dissimula a relação de concorrência entre os representantes e. ou. a relação de Para assistir as videoaulas deste livro.br 199 Grupos.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. interesses a servir etc. entre os representantes e os representados. ações e situações representadas.iesde. p.planoeducacao. aos interesses dos mandantes faz esquecer os interesses dos mandatários.

por este meio. Para ser perfeitamente rigoroso.com. todo homem sincero que vive para uma causa também vive dessa causa. A Política como vocação (WEBER. no caso. pelo menos em pensamento e. Quem luta para fazer da política uma fonte de renda permanente. exclusivo.com. Mais precisamente. o econômico. jornalistas políticos etc. pela relação que eles mantêm com os seus concorrentes..planoeducacao. seu sentimento íntimo. algumas – se quiserem – precondições muito triviais devem Ciências Políticas I 200 Para assistir as videoaulas deste livro. Quem vive “para” a política faz dela a sua vida. certamente. de modo tanto mais exato quanto mais exata é a coincidência da sua posição na estrutura do campo político com a posição dos seus mandantes na estrutura do espaço social. ao passo que quem não age assim vive “para” a política. na relação entre os profissionais que se define a espécie particular de interesse pela política que determina cada categoria de mandatários a consagrar-se à política e. ou alimenta seu equilíbrio interior. vive “da” política como vocação. que “pode-se viver para a política e da política”. ou seja. A distinção. Esse contraste não é. com efeito. de forma alguma. a relação que os vendedores profissionais dos serviços políticos (homens políticos.iesde. 1982. Nesse sentido interno. também a ambas na prática. Desfruta a posse pura e simples do poder que exerce. p. ou viver “da” política. aos seus mandantes.) mantêm com os seus clientes é sempre mediatizada.orquestração (ou de harmonia preestabelecida) entre os representantes e os representados. num sentido interior. mais informações www. Sob o domínio da ordem privada. seria preferível dizer que se pode viver da política com a condição de se viver para a política: é. 60-61) Há dois modos principais pelos quais alguém pode fazer da política a sua vocação: viver “para” a política. com uma sã brutalidade materialista. pela consciência de que sua vida tem sentido a serviço de uma “causa”. assine o site www. Em geral.A. Eles servem os interesses dos seus clientes na medida em que (e só nessa medida) se servem também ao servi-los.br . Não há dúvida de que Max Weber tem razão em lembrar. e determinada de modo mais completo. quer dizer. refere-se a um aspecto muito mais substancial da questão. o homem faz as duas coisas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.

interesses e representação política . o zelo pela “segurança” econômica de sua existência é consciente. Jamais houve uma camada que não houvesse.iesde. está conjugado com a precondição subentendida de que uma renda regular e suficiente será proporcionada aos que se ocupam da política. Nada seria mais incorreto. que a camada dominante não explorará...com. [. Para assistir as videoaulas deste livro.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.existir. Na verdade.. em primeiro lugar. um ponto capital em toda a orientação de vida do homem rico. de alguma forma. estão completamente fora dos círculos interessados na manutenção da ordem econômica de uma determinada sociedade. seu domínio político em favor de seu próprio interesse econômico. vivido “da” política.. habitualmente. entre as camadas que. naturalmente. para que uma pessoa possa viver “para” a política.com. Em condições normais. portanto. de liderança e seguidores. Por outro lado. ou mesmo predominantemente.br 201 Grupos. “no problema”. em virtude de sua carência de propriedades. ou inconscientemente. não pretendemos dizer que o político sem propriedades buscará vantagens econômicas privadas através da política. revolucionárias. nesse sentido econômico. exclusivamente. O idealismo político descuidado e sem reservas só se encontra. Segundo toda a experiência. o político deve ser rico ou deve ter uma posição pessoal na vida que lhe proporcione uma renda suficiente. mais informações www. pretender essa remuneração. ao mesmo tempo. Queremos dizer apenas que o político profissional não precisa buscar uma remuneração direta pelo trabalho político.A. se não exclusivamente pelo menos predominantemente. Um recrutamento não plutocrático de políticos interessados. ao passo que todo político sem meios deve. já que plutocracia é o exercício do poder pelas classes mais abastadas. portanto. isto não quer dizer que essa liderança plutocrática significa.planoeducacao.] A liderança de um Estado ou de um partido por homens que (no sentido econômico da palavra) vivem exclusivamente para a política. significa necessariamente um recrutamento “plutocrático”1 das principais camadas políticas. Tudo isso é indiscutível. absolutamente. 1 Recrutamento plutocrático: um recrutamento entre as camadas mais ricas de determinada sociedade. que as camadas politicamente dominantes não buscaram também viver “da” política e. Isso é válido especialmente para as épocas extraordinárias e. assine o site www. e não da política. Nem pretendemos dizer que ele não pensará.

Procure em jornais. Ciências Políticas I 202 Para assistir as videoaulas deste livro.planoeducacao.Atividades 1.com. assine o site www. mais informações www. Aos coletivos são atribuídas ações como planejar.. O uso de coletivos (termos que representam coletividades de indivíduos) como nação. Estado.com. como se esses coletivos fossem dotados de subjetividade e capacidade de ação da mesma forma como indivíduos o são.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Igreja. tanto no discurso comum quanto no erudito.iesde. almejar e explorar. burguesia etc.A. é bastante difundido. revistas ou sites um exemplo desse tipo de raciocínio e mostre como seria uma real explicação do evento em questão.br .

. Cite exemplos dos mecanismos por meio dos quais uma organização consegue produzir a cooperação entre seus membros. Grupos.A. associação) torna-se capaz de extorquir uma cooperação compulsória dos agentes que a compõem.2.br 203 .planoeducacao. mais informações www. e de oferecer a eles ganhos individuais distintos dos ganhos coletivos. surgiria apenas quando uma organização (partido.iesde. mas. interesses e representação política Para assistir as videoaulas deste livro. ao contrário. a cooperação entre indivíduos a fim de realizarem um objetivo comum não nasceria da simples tomada de consciência acerca desses interesses compartilhados.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.com. sindicato.com. assine o site www. Segundo Mancur Olson.

essa noção. contudo.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A.3. as diferentes classes sociais teriam seus interesses representados. nas arenas decisórias. por partidos e políticos que falariam em nome delas e de seus objetivos de classe.com.. assine o site www. Há outras correntes teóricas que rejeitam. Ciências Políticas I 204 Para assistir as videoaulas deste livro. Resuma as críticas da Teoria da Escolha Racional e dos elitistas a respeito da idéia de representação de interesses.com.br . mais informações www. A noção de representação é fundamental na análise marxista da política: segundo essa perspectiva.planoeducacao.iesde.

com. interesses e representação política Para assistir as videoaulas deste livro. assine o site www. mais informações www.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.planoeducacao.iesde..com.A.br 205 .Grupos.

iesde.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. assine o site www.A..com. mais informações www.Para assistir as videoaulas deste livro.br .planoeducacao.

iesde. 42 11 7 5 4 12 7 6 5 12 7 6 14 14 15 13 10 8 7 15 14 9 8 15 14 9 14 13 9 7 15 14 9 7 15 14 11 9 15 14 11 9 7 6 7 5 8 6 8 7 6 16/23 03/04 01/02 22/23 19/20 02/03 23/24 07/08 abr jun jul jul ago set set out 89 89 89 89 89 89 89 89 18/19 25/26 01/03 06/07 out out nov nov 89 89 89 1989 10 nov 89 14 nov 89 Fernando Collor de Mello Ulysses Guimarães Leonel Brizola Mario Covas Lula (PT) Para assistir as videoaulas deste livro. Adaptado. E isso no primeiro e no segundo turnos. Evolução da intenção de voto para Presidente da República (estimulada e única. segundo as pesquisas de opinião.A. as demandas eleitorais. do Partido dos Trabalhadores (PT).planoeducacao. do Partido da Reconstrução Nacional (PRN). quanto por Luiz Inácio Lula da Silva. em %) 40 38 33 29 26 26 21 17 15 14 25 27 26 41 40 DATA FOLHA. no centésimo aniversário da Proclamação da República. Tanto a preferência pelo candidato Fernando Collor.br 207 . Um dado curioso dessa eleição é a forma como oscilaram. mais informações www. 1989. assine o site www. ocorreu a primeira eleição direta para presidente após o regime ditatorial-militar (1964-1985).com. variaram amplamente ao longo do período das campanhas..br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto Em 15 de novembro de 1989.com.

somente por meio dos dados estatísticos. a questão central aqui é O que explica o voto? Como podemos entender a alteração nas preferências eleitorais e sua distribuição entre os candidatos? O que faz com que um indivíduo (ou um grupo social) prefira votar em um ou em outro concorrente? Por que os eleitores mudam de opinião? Ciências Políticas I Responder a essas questões nos ajuda a compreender o regime político democrático pelo lado dos governados. portanto. de Brizola). Collor computava 17% das intenções de voto. No segundo turno. Resumindo..com. tecnicamente empatados. em %) 50 DATA FOLHA.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. caindo então para 5% e finalizando o primeiro turno com 15% dos votos. não foi muito diferente: Collor largou com 48% e Lula desfrutava a preferência de 39% do eleitorado.089. Em vez de olhar o centro do poder (o Estado.076. os funcionários administrativos. procurando explicar o porquê dessa configuração dos dados. as estatísticas não explicam o que causou tais oscilações. 48 49 47 44 46 45 47 44 Fernando Collor de Mello Lula (PT) 39 22 nov 1989 40 30 nov 1989 41 04 dez 1989 08 dez 1989 12/13 dez 1989 16 dez 1989 Em abril de 1989.96% (31. Lula estava com 14% também em abril (atrás. Ao final. Collor se distanciou e venceu com 53. contudo. as classes governantes). chegando depois aos 42% e fechando o primeiro turno com 26%.iesde.Evolução da intenção de voto para Presidente (estimulada e única. Cabe à Ciência Política abordar essas informações. 1989. Essas oscilações na intenção de voto não podem ser explicadas. mais informações www. sendo que os dois chegaram a ficar muito próximos.A.planoeducacao. Ainda que apresentem tendências ou correlações presentes na realidade.br 208 . a fim de Para assistir as videoaulas deste livro. Adaptado. assine o site www. em dezembro (46% a 45%).com.998 votos). enquanto Lula ficou com 46.364 votos). os políticos profissionais.04% (35.

contrariamente à corrente anterior. é tratar o comportamento eleitoral como condicionado pelo contexto social em que vive o eleitor. Ao final da exposição. Por fim. pelo lado dos eleitores.A.com.. 1988). A teoria psicológica do voto Um dos principais livros dessa corrente é The American Voter [O eleitor americano]. abordaremos as principais diferenças e semelhanças entre elas. Philip E. que princípios orientam a escolha de um político dentre um conjunto de candidatos. pelo grupo de pesquisa do professor Angus Campbell.br 209 . A teoria psicológica é baseada no que é conhecido como Modelo Michigan e foi desenvolvido na década de 1950. na conclusão. as teorias que explicam o voto nos ajudam a vê-lo de fora.iesde. Os pesquisadores dessa corrente selecionam uma amostra específica na qual são aplicados questionários (surveys). o da teoria sociológica. Trataremos agora mais aprofundadamente de cada uma dessas correntes. variam também as tomadas de decisão eleitoral. conforme variem as composições sociais dos grupos sociais. a teoria sociológica e a teoria da racionalidade. na Universidade de Michigan (Estados Unidos. Converse. 1988).planoeducacao. a unidade de análise não é o indivíduo. Aqui. buscando esclarecer as razões do eleitor por meio de determinantes psicológicos. Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto A corrente psicológica O modelo de Michigan trata as ações políticas como parte constitutiva da personalidade do individuo.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. mais informações www. A ideia básica é que. por exemplo) corresponderia um tipo de voto (FIGUEIREDO. iremos expor três teorias explicativas: a teoria psicológica. Warren E. A especificidade do segundo modelo. Esse grupo teve como objetivo aplicar os fundamentos da psicologia social para explicar o comportamento eleitoral. pois o voto é dependente do “meio ambiente” no qual o eleitor está inserido. Para tanto. As orientações do voto e as manifestações políticas de um Para assistir as videoaulas deste livro. Miller e Donald E.entender o funcionamento do sistema político por meio de suas instituições. submetendo os dados assim obtidos à interpretação psicológica (FIGUEIREDO. mas o grupo de que ele faz parte. assine o site www. Nosso objetivo é explicar o que determina o voto. pois a cada agregado social (a classe. Stokes.com. escrito por Angus Campbell. a teoria da racionalidade (ou teoria economicista) se diferencia das demais por sua proximidade com as teorias econômicas: o que decide o voto é um cálculo racional por meio do qual o eleitor quantifica os seus benefícios: como pode mantê-los ou aumentá-los.

percebemos que a unidade de análise para a pesquisa orientada pelo modelo Michigan é o indivíduo. escolaridade. 1988. por exemplo). a justiça social. por exemplo) e às eleições (votando em tal ou qual candidato). idealmente. de forma direta. Nesse caso. branco etc. negro. mulher. Uma das principais diferenças do modelo psicológico em relação ao sociológico (que veremos adiante) é que os locais em que as orientações políticas são adquiridas (locais que chamaremos de campo atitudinal) não são determinados por qualquer categoria social (sexo. idade etc. a identificação dos conjuntos de atitudes políticas antecede a construção dos campos atitudinais. ou seja. p. Um indivíduo que nasceu em uma família esquerdista (isto é. as características sociais – homem.A.] ao afirmar que as respostas dos eleitores a esses dois líderes [ou dois candidatos] não mostram nenhum padrão social. conforme propõe Philip Converse. renda.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. assine o site www.). círculos de amigos. os campos atitudinais (nos quais os princípios de ação política são adquiridos) só podem ser recortados com base nas atitudes políticas que os compõem. possuem já determinados valores políticos. Por isso. mas sim por tipos de atitude.. mais informações www..modo geral são características que compõem uma fração do perfil psicológica total do indivíduo. (FIGUEIREDO. As atitudes políticas são adquiridas pelos agentes sociais em seus círculos de convivência (família. pois são as suas características que constroem a realidade política Parte-se assim da análise psicológica dos agentes para posteriormente generalizar as conclusões para o coletivo (o campo atitudinal) ao qual eles pertencem. pois podem existir diferentes tipos de atitudes nos mesmos grupos sociais.. os quais afetam diretamente a personalidade desse indivíduo e. pois ocorreria uma determinação direta das atitudes políticas da família sobre as atitudes do indivíduo. os campos atitudinais são definidos pelas próprias atitudes. O processo de aquisição dessas atitudes pode ser chamado de socialização política e consiste na aquisição de valores políticos. 17). trabalho) não são neutros.com. etnia. Sob esse ponto de vista.planoeducacao.com. perpassando todos os grupos sociais.br . na interação social. tende a votar em um partido de esquerda. – não explicam as orientações políticas. 43). um dos cientistas fundadores da teoria psicológica: Converse aponta a influência preponderante de fatores psicológicos e políticos que praticamente anulam os fatores sociais [. a ética na política etc. rico. Sendo assim. Com efeito. “para a teoria psicológica o comportamento dos indivíduos é função da interação atitudinal a que estes indivíduos estão sujeitos em suas experiências sociais e políticas” (FIGUEIREDO. Tais interações atitudinais formam a personalidade política do indivíduo. p. por consequência.iesde. 1988. pobre. Ciências Políticas I 210 Para assistir as videoaulas deste livro. Os ambientes em que os indivíduos vivem (universidade. a forma como ele reagirá à política (amando ou odiando-a. a qual orientará o voto.). raça. com concepções que valorizam. Qualquer indivíduo em um dado campo atitudinal sofrerá uma pressão para que sua personalidade se ajuste aos valores daquele campo.

20) Para assistir as videoaulas deste livro. provavelmente ele também será contrário a outras políticas semelhantes [interferência do Estado no mercado. por exemplo). basta entender os valores-chave ou os padrões centrais de um campo atitudinal para prever a reação dele (e de seus indivíduos) diante de determinadas atitudes do candidato. Assim. Isso ocorre pelaafinidade implícita entre os valores de um campo atitudinal e os valores que os políticos representam.. por um lado. assine o site www. A fonte do direcionamento político dos indivíduos está na formação de campos atitudinais.]. oferta de serviços privados por empresas públicas etc. p. pode nos ajudar a prever a reação dos eleitores perante os candidatos.Equação psicológica A lei causal fundamental do modelo Michigan repousa na invariabilidade do processo de articulação das variáveis que determinam as atitudes e ações políticas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. A relação de afinidades entre atitudes políticas.. basicamente.] se um indivíduo é contrário a uma política social A (controle de preços.com. e a força preditiva dessa teoria repousa na cristalização de um sistema de crenças políticas. por outro.A. A identificação e a construção conceitual desses campos atitudinais permite prever a direção do voto ou da preferência dos eleitores na medida em que relacionamos uma determinada atitude política a seus desdobramentos prováveis.iesde. mesmo que as práticas desses eleitores não estejam explicitamente relacionadas ao campo atitudinal em questão.. provavelmente estarão identificados com partidos políticos e candidatos que são contrários a ideias intervencionistas dessa natureza. Essa pode ser assim formalizada: C1 = f(S1. pode-se prever que este indivíduo.br 211 Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto . bem como outros que concordam com as mesmas ideias. A1) O comportamento político (C1) é função da sociedade ou do ambiente social (S1). Isso levaria esses indivíduos a darem seus votos a esses partidos e candidatos. (FIGUEIREDO. com o objetivo de se generalizarem as conclusões a partir dele) e a aplicação de questionários e entrevistas em profundidade. Conhecido este “campo” atitudinal. 1988) Campos atitudinais e comportamento político Os instrumentos necessários para a análise pela corrente psicológica são.planoeducacao. e entre candidatos (ou programas eleitorais). Vejamos um exemplo: [. 1988. mais informações www. e do conjunto de atitudes (A1) consolidadas nesse processo. onde a socialização política se dá. passado ou presente.com. uma amostra bastante representativa (busca-se o paradigma do caso que se pretende explicar. (FIGUEIREDO.

ilegítimas e a constituição [dos representantes por meio das eleições] é. O sentimento de lealdade a uma sigla qualquer. fornecendo sustentação para o bom funcionamento das instituições. As razões apresentadas pelos cidadãos eram as seguintes: 1. aplicou entrevistas a indivíduos selecionados. isto é. análise psicológica desse campo (mais precisamente. num certo sentido. Lane concluiu que a abstenção é determinada pela “alienação política”. 2.. a empatia com um candidato específico ou. usando uma amostragem muito bem circunscrita. onde o voto é facultativo. no caso. os sentimentos particulares. a compreensão de si e outras variáveis explicativas da psicologia.iesde.br . Este é. mais informações www. um comportamento ou atitude em que o indivíduo se vê como incapaz ou impotente do ponto de vista político. p. (FIGUEIREDO. Eu não aprovo o processo de tomada de decisões. visando a identificar por que eles deixavam de comparecer às eleições. Robert Lane. por exemplo) e ao sistema político como um todo. aplica as formas e os métodos de análise específicos da psicologia ao grupo selecionado. em uma esfera mais ampla. 1988. as regras são injustas. Nos Estados Unidos.planoeducacao. dos indivíduos que pertencem a ele).br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. 26) Como se vê há um foco nas características psicológicas do indivíduo para explicar por que ele não vota. O governo não cuida e não administra no meu interesse. pois são enfocados a personalidade individual.com. um sentimento depreciativo sobre a sua própria capacidade política e sobre a capacidade do governo para realizar os seus interesses específicos. os fatores psicológicos são utilizados também para explicar o apoio a instituições políticas (a um determinado partido político. eu não tenho influência e [portanto] não participo. o sentimento de adesão à democracia seriam elementos que configurariam a realidade política do país. 212 Para assistir as videoaulas deste livro. assine o site www. Eu sou objeto e não sujeito da vida política.A. Ciências Políticas I As conclusões geradas são derivadas de conteúdos tipicamente psicológicos. Assim. fraudulenta. a análise psicológica foi amplamente desenvolvida para explicar o que leva a pessoa a votar ou a abster-se de votar. politicamente [sou passivo]. Procedimentos metodológicos Eis o procedimento-padrão da corrente psicológica para explicar o comportamento dos membros de uma determinada comunidade política: seleção de uma amostra do campo atitudinal. por parte dos entrevistados. A ausência ou presença de determinados “sentimentos” (ou padrões atitudinais) seriam até mesmo responsáveis pela configuração política de um país. Existe.com.Além de ajudar a prever o voto. 3.

cidade). Para facilitar. a unidade de análise da corrente sociológica é o grupo social (não o indivíduo). poderíamos imaginar o interesse econômico como um fim (um objetivo) e a política como um meio de realizá-lo.br 213 Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto . Todas as atitudes políticas seriam. em geral. Ou seja. a categoria que determina qualquer tomada de posição política é a loicalização do indivíduo na estrutura das classes sociais (MARX. religião etc. Portanto. citaremos três distintas perspectivas de análise. branco. morador de um bairro central. a política seria feita visando a realizar. branco. na verdade.A corrente sociológica A corrente sociológica busca explicar o voto por meio do estabelecimento de correlações entre a opção política dos indivíduos e os grupos ou classes sociais aos quais eles pertencem. pode-se dizer que o voto seria determinado pelo grupo social. em essência.com.. gênero. como medir qual desses fatores sociais influenciaria mais o voto? Para ilustrar o problema. Por exemplo. identidade étnica. A suposição aqui é que um sujeito pobre.A. uma complexa combinação delas – seria responsável por fornecer os princípios orientadores do voto. concepções e ideias típicas de cada grupo. pois elas encerram determinados valores sociais. a variável que explicaria o voto do nosso sujeito hipotético seria o seu pertencimento à classe média. assumindo que as escolhas individuais estão estritamente relacionadas aos valores. Portanto. local de moradia (bairro.planoeducacao. a cada posição socioeconômica corresponderia uma determinada tomada de posição política. mais informações www. manifestações de interesses ligados à posição de classe na estrutura econômica. assine o site www. Cada uma dessas unidades – e. Para os marxistas. As orientações dos votos variam conforme as composições dos grupos. sendo que a principal diferença entre elas é justamente a variável social tomada como mais relevante para explicar a orientação eleitoral.com. Uma das questões que os cientistas da corrente sociológica procuram responder é a da definição de qual grupo ou variável social teria predominância na definição da escolha política. de classe média.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. negro e que mora na periferia não votará igual a um sujeito rico. interesses econômicos. Para assistir as videoaulas deste livro. se tomarmos hipoteticamente um indivíduo católico.iesde. renda. Segundo a perspectiva marxista. A teoria sociológica do voto Uma vez que os grupos sociais têm a capacidade de inculcar seus valores políticos nos indivíduos que os compõem. 2006). do sexo masculino e com ensino superior incompleto. rua. que são definidos por características estritamente sociais – por exemplo. escolaridade.

Equação sociológica Formalmente então.com. uma soma de determinantes (que formariam uma cultura característica) aos quais corresponderiam determinadas formas de organização política. obviamente. onde e quando estudou. Devemos ainda citar estudos que buscam explicar a política por meio da cultura característica de determinada formação social (cf. 79) 214 Para assistir as videoaulas deste livro. mais informações www. 2008). que correlaciona variáveis de tipo educacional com o modo como se comportavam os políticos no Brasil imperial. Essa é uma maneira de dar mais vigor às explicações sociológicas sobre o voto. existem autores que conferem mais peso à variável escolar. A abordagem da Sociologia Política Uma forma mais operacional de empregar a abordagem sociológica dos fenômenos políticos é por meio de abordagens que enfocam a interação social dos indivíduos (em vez de variáveis específicas). ES. Devemos salientar que. N) Ciências Políticas I Onde..br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. por exemplo. assim. As semelhanças e diferenças da carreira escolar dos políticos brasileiros produziriam afinidades e discordâncias entre eles (CARVALHO.com.br . a direção do voto de um indivíduo [(Vt1)] depende da natureza [e do volume] das relações ou interações políticas e sociais [(IP)] em que ele está envolvido [(relações intra e intergrupais)]. cientificamente. Um exemplo desse tipo de análise é a de José Murilo de Carvalho. TOCQUEVILLE.Por outro lado. (FIGUEIREDO. p. talvez devesse focar outros tipos de condicionantes sociais e não a educação. 1988. não é possível escolher previamente uma ou outra variável social para explicar dado fenômeno. Esses autores trabalham mais com o conjunto das variáveis do que com uma ou outra de forma isolada. Existiria. dos apelos momentâneos das campanhas [(N)]. A primazia das variáveis deve estar em sintonia com a peculiaridade do objeto a ser explicado. Essa é uma explicação culturalista dos eventos políticos (ou seja. a decisão do voto na sociologia política é um caso especial da lei comportamental definida em [. Nesse caso..A. um dado comportamento político estaria ligado à educação à qual o indivíduo foi submetido (nível de escolaridade..).iesde. quais eram as correntes de pensamento dominantes na sua escola etc.]: Vt1 = f(IP. a política é determinada pela cultura). da densidade da identidade política [(ES)] do grupo a que ele pertence e.planoeducacao. 1979). assine o site www. buscasse entender outro período ou formulasse outro problema para sua pesquisa. Caso José Murilo de Carvalho.

aderindo a uma terceira (FIGUEIREDO. Para assistir as videoaulas deste livro. Os apelos políticos dos candidatos durante a campanha podem ser decisivos para a oscilação das opiniões. a probabilidade de interações entre pessoas diferentes diminui). O período das campanhas eleitorais é o momento em que as interações sociais voltadas para o interesse político ocorrem em maior quantidade.planoeducacao.Para a Sociologia Política. mais suscetível o grupo estará aos apelos momentâneos da campanha.com. e entre indivíduos de grupos diferentes.iesde. Quanto menos intensa for a identidade política – a densidade das relações intragrupo –. Essas interações podem ocorrer de duas formas: entre indivíduos do mesmo grupo.A. interessa verificar as relações sociais em que os indivíduos estão envolvidos: são elas que condicionam as opções políticas. as interações sociais são a principal unidade de análise.. Portanto. ao passo que no segundo ocorre um choque entre opiniões políticas divergentes. mais informações www. Dessa forma.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. ocorre um fortalecimento da opinião política ou da identidade política do grupo. ou seja. Parte-se da ideia de que os indivíduos não decidem isoladamente. as ações de uns influenciam as ações dos outros. por exemplo. O pesquisador tem de identificar a probabilidade de cada uma dessas interações ocorrer (em uma sociedade muito homogênea. Após a interação entre grupos diferentes (segundo caso). ou Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto ambos podem trocar de opinião. 1988). visto o aumento relativo das interações. assine o site www.com. menor é a probabilidade de ocorrer mudança de opinião. ambos os indivíduos podem manter cada um a sua opinião. existe a probabilidade de ocorrerem três resultados: um indivíduo pode aderir à opinião do outro. Quanto mais coeso for o grupo e quanto mais sólida for a identidade política1 dos indivíduos (quanto maior a densidade de interações entre membros do mesmo grupo). a pergunta do pesquisador deve ser Qual a probabilidade de ocorrer cada um desses tipos de interação no universo que estou analisando? Cada uma dessas interações (intra e intergrupal) produz efeitos diferentes: no primeiro caso.br 215 . 1 Utilizamos a expressão identidade política no sentido da identificação do eleitor com um candidato ou partido específico. sendo também o período em que a volatilidade das opiniões políticas tende a aumentar.

A natureza das relações tanto dentro de um grupo específico quanto entre grupos distintos está estritamente ligada às oscilações do contexto social como um todo. Por este processo. VERBA.. momentos em que observamos grandes deslocamentos de opinião (preferência partidária e direção do voto) que se consolidam posteriormente [. as interações sociais contribuem para a formulação da tomada de posição política (especificamente. o que ocasiona uma modificação na própria composição social (pois a esfera política produz efeitos na sociedade como um todo). 1988. Assim.iesde.com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.. O determinismo da abordagem sociológica Este é um tipo de abordagem diacrônica do processo de alteração da decisão política (diferente de um enfoque sincrônico. Cadeia causal Alterações sociais → Alteração da opinião política → Alteração da política → Alteração social. É a realidade objetiva na qual o indivíduo está imerso que explica o seu voto. reiniciando o fluxo.. assine o site www. A alteração das opiniões. 2002). Assim. ocorre uma nova diferenciação entre a abordagem sociológica e a psicológica.planoeducacao. Tais identidades políticas são previamente construídas por um processo diacrônico (ao longo do tempo) que envolve todo o sistema social. política (do tipo de regime político) e econômica (das relações econômicas e de produção) modificam a quantidade das interações e a qualidade das opiniões formadas a partir disso. mas sim suas características subjetivas (explicação incondicional). em que imperam os apelos dos candidatos durante a campanha).. (FIGUEIREDO. é completamente condicional: o indivíduo não possui liberdade de ação e sua subjetividade não é autodeterminada. mais informações www. 59) Ciências Políticas I Em suma.]. por sua vez. compreende-se como as opiniões políticas podem ser derivadas de conjunturas sociais e como formas políticas correspondem a formas sociais (ALMOND.br 216 . altera a composição política (outros parlamentares serão eleitos caso as opiniões mudem radicalmente). A abordagem sociológica. As proposições fundamentais dos psicologistas [. Vem desta concepção a base para a teoria de “eleições críticas”. HARRISON.com. alterações conjunturais da estrutura social (da composição social dos grupos).. por outro lado. causando alteração ou manutenção das direções do sufrágio. Para assistir as videoaulas deste livro... p. 1989. já que para esta última não importam os condicionantes externos ao indivíduo. HUNTINGTON.A.] são incondicionais enquanto que para os sociologistas as proposições são condicionais aos tempos históricos e aos espaços sociais.A fluidez ou rigidez da identidade política é gerada por processos amplos de constituição de identidade. do voto) na medida em que fortalecem ou enfraquecem identidades políticas. Neste ponto.

ele tenderá a votar pela reeleição (ou para a eleição de um candidato da base governista). O principal interesse perseguido pelos indivíduos.br/home>). em caso negativo. Ou seja: ele votará tendo como base as suas impressões passadas e as suas expectativas futuras. a teoria da racionalidade é o produto da aplicação.ibge. a explicação do voto tem sua lógica derivada das teorias econômicas ou. o eleitor julgará se o mandato dos representantes foi ou não satisfatório e se eles têm capacidade de continuar atendendo seus interesses no futuro (análise prospectiva).folha. tudo se passa como se o indivíduo fizesse um cálculo racional de custos e benefícios ou prováveis lucros e possíveis perdas no momento de decidir em quem votar. E esse interesse se bifurca em dois: o eleitor pode ter um voto individualista ou coletivo.As pesquisas nesta área são preponderantemente quantitativas.com. o cálculo racional do eleitor pode ser visto como retrospectivo e prospectivo. Aqui. com a coleta de dados em larga escala para produzir tabelas e traçar correlações.2 A corrente da racionalidade Na corrente da racionalidade (ou economicista). da forma de pensar da economia (DOWNS. como em um investimento financeiro.gov. na esfera dos estudos políticos. do seu município etc. segundo a corrente da racionalidade. ele estaria mais interessado na situação econômica do seu país. é o benefício econômico: o eleitor votaria baseado no seu interesse de melhorar ou manter sua condição financeira. A direção do sufrágio seria então o produto da tentativa racional e calculada de satisfação de dados interesses. Em caso afirmativo. Para assistir as videoaulas deste livro. respetivamente. dito de maneira mais precisa. na primeira situação.br>) e IBGE (<http:// www.com. ele tenderá a votar em outro candidato (possivelmente um opositor). é possível encontrar facilmente dados para essas pesquisas em instituições como Datafolha (<http://datafolha. ele direciona o sufrágio para candidatos capazes de alterar a sua situação financeira particular.iesde. No primeiro caso (individualista).br 217 . O eleitor avalia. a situação com base no que o último governo conseguiu fazer e 2 Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto No Brasil. o eleitor direciona o seu voto para atingir fins particulares e está preocupado estritamente com as suas finanças ou condição pessoal.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A. assine o site www. 1999). Para essa teoria. da sua cidade. Além da orientação individualista ou coletiva.uol. portanto. No segundo caso (coletivo). o eleitor deposita o seu voto em candidatos que ele julga capazes de melhorar a situação econômica do coletivo de que faz parte.. Utilizando-se da sua avaliação do governo atual (da forma como foi desenvolvida a administração econômica – análise retrospectiva).com. mais informações www.

avalia quais dos postulantes [candidatos] têm melhores (ou mais) condições de oferecer políticas que respondam aos interesses que ele quer que sejam contemplados. assine o site www. 89) Resumindo. 1988. maior potencial de realizar as suas projeções econômicas para o futuro. a seu ver.] o eleitor compara o que ele gostaria que estivesse acontecendo com o que está acontecendo e retrospectivamente [com base nas suas experiências passadas] avalia o desempenho dos governantes [.com.. a corrente racionalista cria dois tipos de eleitores: os que possuem um interesse em maximizar (“maximizantes”) os seus lucros e ganhos e os que se bastam com a sua situação atual (“satisfacionistas”). p. Ciências Políticas I A partir dessa mesma lógica. será a oposição que o terá. se colocados diante da mesma situação. para a teoria da racionalidade há uma correlação direta entre desempenho das políticas econômicas dos candidatos e a direção do voto do eleitor: “Estudiosos desta linha de investigação partem de uma observação histórica muito simples: se a economia vai bem os governantes ganham mais votos.com. verificamos dois interesses diferentes que se desdobrarão em dois cálculos cujos resultados serão também divergentes: se a economia vai bem. um cálculo racional prospectivo e retrospectivo com base nas informações do eleitor sobre cada candidato – da mesma forma como um consumidor ao escolher determinado produto entre os disponíveis na prateleira do mercado... os dois tempos são o passado de cada um dos objetos e o futuro que o eleitor espera de cada um deles. podemos dividir a análise do eleitor acerca dos candidatos. o eleitor calculará com base nas informações de que dispõe sobre cada um deles: escolherá o candidato com mais capacidade para atender os seus próprios interesses. Opera-se..” (FIGUEIREDO. a economia vai mal a oposição se beneficia [. 1988. por outro lado. Havendo mais de dois candidatos na disputa.no que ele ainda poderá fazer no futuro: se o governo tiver uma boa avaliação do eleitor.A. um interesse específico: [. estes candidatos tenderão a obter mais votos dos eleitores maximizantes. (FIGUEIREDO. se os candidatos já forem conhecidos.iesde. tanto retrospectivamente quanto prospectivamente.]. O cálculo que determinará a direção do voto é feito tendo como base a análise da capacidade de cada candidato (possibilitada pelo resgate do passado de cada um) para realizar. Aqui. contrariamente.]. os eleitores satisfacionistas 218 Para assistir as videoaulas deste livro.. em dois objetos e em dois tempos: os dois objetos são o governo atual e os candidatos de oposição. portanto. avalia prospectivamente os postulantes [.br . caso contrário. Em seguida. p. tenderá a ter o seu voto. o eleitor fará uma análise retrospectiva (relembrando os defeitos e qualidades deles) e uma avaliação do atual governo. se. no futuro. Após o cálculo.planoeducacao. Por exemplo.. Portanto. mas surgem candidatos que têm potencial de melhorá-la. mais informações www..br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. ele optará por aquele que tem.].. e a consequente direção do sufrágio. 117)..

assine o site www. segundo a teoria racional. de modo que a maior ou menor presença de um deles pode definir o rumo das eleições. o voto é entendido como um mecanismo de alteração da realidade e o eleitor como um magistrado que julga os candidatos conforme os benefícios que estes podem lhe proporcionar. independente. a teoria psicológica do voto trabalha com a dimensão subjetiva e inconsciente dos indivíduos. O conhecimento desses princípios é extremamente útil. votando na reeleição ou no candidato do governo. Conclusão Cada uma das teorias que vimos resumidamente possui uma forma própria para explicar o que motiva os indivíduos a votarem em um determinado candidato ou partido. o indivíduo é motivado.br 219 Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto .com. Dessa forma. A compreensão dos princípios orientadores do voto facilita o entendimento da forma como determinadas políticas. medidas e estratégias de campanha serão recebidas e avaliadas pela população. Percebemos que. por exemplo. É de extrema importância. No entanto. Para assistir as videoaulas deste livro. baseado unicamente no seu interesse individual e de acordo com o cardápio de competidores disponível. para a corrente da racionalidade. ao passo que a da racionalidade enfoca ações conscientes e calculadas. No outro extremo. portanto. o eleitor é tido como um agente criador da realidade política: a partir do seu cálculo racional.tenderão a manter a situação atual. A abordagem sociológica se diferencia das outras duas por manter seu foco nos grupos sociais. De forma também distinta. facilitando a compreensão dos dados e das demandas eleitorais. mas por um cálculo racional: a decisão do eleitor é um ato voluntário. o indivíduo é em grande parte determinado pela posição que ocupa na sociedade. ele contribui ativamente para determinar os rumos do mundo político e social. embora apareçam propostas melhores.com. desconsiderando (ou dando pouca relevância) para os grupos sociais: o resultado das eleições seria. a soma das ações racionais de cada indivíduo particular. em trabalhos de consultoria política para parlamentares e partidos. mais informações www.. não cabendo. portanto.planoeducacao. ao passo que a corrente psicológica e a da racionalidade focam o indivíduo. fazer escolhas. então. a votar em um candidato não por suas pulsões psicológicas nem pelas características do grupo a que pertence. Essa corrente de explicação do voto trabalha ainda enfocando sempre o indivíduo.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. conhecê-las e saber como e quando trabalhar com cada uma.A.iesde. na corrente sociológica. Esses dois gêneros de eleitores fazem dois tipos de cálculos diferentes sobre a mesma situação.

assine o site www... Tais condições constituem-se nos contextos onde as instituições.iesde.. Votar é um ato final de um processo social mais amplo. Mas quem age.com. crenças. em situações sociais..Textos complementares Democracia. onde as escolhas e Ciências Políticas I 220 Para assistir as videoaulas deste livro. são coletivos sociais e não indivíduos que imprimem dinâmica à política e são os resultados de ações coletivas que precisam ser explicados. Proposições sobre ações individuais são derivadas da condição societal por excelência: a interação social. envolvendo propriedades desses grupos. ideologias “em termos de associação com outros membros dos principais grupos de solidariedade que envolve o eleitor” [.br . Para a sociologia política o ato individual não é socialmente isolado. quem participa são indivíduos de forma organizada ou isoladamente. As decisões individuais agregadas têm que ser compreendidas dentro dos diversos grupos sociais [.]. para se compreender o voto de um jovem ou de um idoso é necessário conhecer o contexto social e político onde esses eleitores vivem e como eles vivem esse contexto.] Portanto.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.].. as práticas.A.].. pois a trajetória causal entre características individuais e atos sociais “passam através da totalidade das relações sociais” [. Proposições sociológicas são proposições sobre grupos sociais.. mais informações www.. Elas supõem a estabilização ou mudança de atitudes. A sociologia política preocupouse fundamentalmente com as condições sociais subjacentes aos fenômenos propriamente políticos [. A redução explicativa às características pessoais não é suficiente. as ideologias e os objetivos políticos se formam e operam. Neste sentido. comportamento eleitoral e racionalidade do voto (FIGUEIREDO..com.. que no modelo sociológico é estendida ao comportamento político. 1988) Corrente sociológica O comportamento eleitoral tem um antecedente que é a participação política. A fonte epistemológica da explicação esta na interação social.. Em outras palavras. [.].

reagindo e interagindo social e politicamente. Este processo de formação de atitudes é chamado de socialização política. orientações em direção a questões políticas começam antes dos indivíduos terem idade para votar e. Assim sendo.br 221 . assine o site www. mais informações www.os comportamentos das pessoas dependem das escolhas e comportamentos das demais. estudos sobre teorias da ação social e sistemas de personalidade.iesde. Para assistir as videoaulas deste livro.planoeducacao.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. entre outros.A. O somatório de milhares de micromotivos não explica os macrocomportamentos. É importante ressaltar o que significam influencias psicológicas neste contexto. sendo a família o ambiente preponderante. acrescentam: “começamos a buscar da causalidade ao nível psicológico e concebemos o ato de votar como a resultante de forças atitudinais [. atitudes políticas são formadas e entram no sistema político através de um “sistema de personalidade”. em grande medida..com. Corrente psicológica Os autores desse modelo tomam os indivíduos como a unidade original de análise. proposições sobre indivíduos não podem ser somadas para gerar proposições sobre os resultados agregados. As atitudes adquiridas passam a fazer parte constitutiva da estrutura de personalidade dos indivíduos. Nestas teorias. Através das opiniões e autoavaliação dos indivíduos os dados são colhidos via pesquisa por amostragem – survey – a partir da qual generalizações são feitas para toda a população..]. que desenvolveu uma extensa teoria sobre os sistemas sociais.. a partir de uma base psicológica formada e com categorias políticas normativas razoavelmente consolidadas. incluindo. as respostas dos indivíduos a diferentes contextos serão sempre articuladas da mesma maneira. Agindo. 1 Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto O se faz referência o sociólogo Talcott Parsons (1902 . O indivíduo é a fonte original de informação. Os dados devem também ser interpretados segundo as motivações psicológicas dos indivíduos. da mesma forma que outros aspectos a compõem.com.1979). consolidadas pela socialização política tornam-se a base para a formação de opiniões. É neste sentido que Campbell e seus colegas formularam a fonte epistemológica de seu modelo: “ao desvendar o trajeto causal que leva ao voto começamos com as influencias psicológicas imediatas sobre o ato de votar” e. é um reflexo de seu ambiente social imediato. Sendo uma parte da psicologia humana. as atitudes políticas. no sentido parsoniano1. autoavaliações e propensões para a ação frente ao “ambiente” político mais amplo. Esta conceituação é retirada dos estudos das teorias de grupo e psicologia social.

]. esta linha de investigação rejeita peremptoriamente os componentes psicológicos das motivações individuais como fatores explicativos para o comportamento político eleitoral. a legitimidade do povo para intervir nos assuntos públicos. a inevitável decadência da classe política. embora visto como um componente essencial do arcabouço institucional da democracia tem.. Ideologia.br . O exercício do voto.].. a capacidade dos eleitores discernirem entre propostas políticas diferentes etc. O homus psicologicus e o homus sociologicus cedem lugar ao homus economicus: eleitores votam por seus bolsos. no entanto. no seu microcosmo. 2) O povo não sabe votar! Desde que foi pronunciada. à 222 Para assistir as videoaulas deste livro.. mais informações www. quer individuais ou coletivos. mas quem pode fazê-lo direito. uma função eminentemente instrumental e estratégica [. Ciências Políticas I Há uma série de questões que vêm junto com esse assunto: a igualdade entre todos os cidadãos numa comunidade. Vem eleição. os derrotados invocam esse princípio para explicar o sucesso dos líderes neopopulistas.. As pessoas votam se este ato for visto como potencialmente capaz de trazer-lhes algum benefício social ou econômico divisível ou não. a falta de identificação entre os vitoriosos e a boa sociedade. p. 2008. essa avaliação colou no imaginário político nacional. A competência política (CODATO. identidades políticas e culturais e valores são reduzidos a sistemas de interesses codificados com a função instrumental de simplificar a aquisição e processamento de informações necessárias para uma decisão política inteligente [.]. Como se desconfia.planoeducacao. Essa opinião sobre o voto alheio toca no tema da “competência política”. mas bem prático.iesde.com.. A visão épica da obrigação cívica cede lugar ao realismo histórico da luta política em defesa de interesses sociais e econômicos. o principal problema das democracias seria o seguinte: não se trata mais de discutir quem deve participar da política (problema do século retrasado). assine o site www.. vai eleição.com. Relações de empatia entre eleitores e lideranças cedem lugar a relações de entropia: cada indivíduo isoladamente. o problema não é apenas científico.A.. reage e age continuamente em resposta ao estado da economia por ele percebido e experimentado [.Corrente da racionalidade Inicialmente.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Em resumo.

os estudos de ciência política dedicados a medir a competência política foram praticamente unânimes em verificar o baixo nível de informação e sofisticação política da maior parte dos cidadãos. Por um bom tempo. É na interação. em família) que as pessoas adquirem informações que depois irão embasar seus julgamentos dos candidatos e a decisão do voto.medida que diz respeito à fórmula ideal da democracia representativa. Como deveria ser esse sistema? O pressuposto aqui é que pessoas mais informadas decidem melhor.com. Essa perspectiva vigorou dos anos 1940 aos anos 1980.A. Primeiro: a competência política é um atributo individual. na escola. supõem que todos devam ter opinião sobre tudo e forçam escolhas entre alternativas construídas pelo instituto de pesquisa (ou Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto Para assistir as videoaulas deste livro. na convivência social (no trabalho. Questionários com perguntas do tipo “sim ou não”. E terceiro: os resultados das pesquisas sobre determinados problemas (por exemplo: O que o senhor. partidos.br 223 . Os instrumentos científicos e aparentemente neutros que serviriam apenas para medir opiniões podem influenciar decisivamente os resultados encontrados. Um conjunto de estudos feitos no Chile e na França durante eleições municipais enfatizou três pontos que contrariam as opiniões mais aceitas até então. 6. Essa visão – que privilegia a dimensão “cognitiva” – está baseada em três postulados. a capacidade de conhecer e reconhecer propostas. o problema da competência política estaria ligado ao nível de conhecimento factual dos eleitores sobre assuntos complicados e ao grau de coerência de suas opiniões a respeito de questões controversas. no lazer. dez. nunca é individual. 57. o enigma da competência política começou a ser posto numa perspectiva um tanto diferente da usual.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Como deveria ser a legislação do porte de armas?) podem ser organizados de acordo com a hierarquia de conhecimentos especializados que se detém sobre um assunto.com. Segundo postulado: a competência política pode ser medida objetivamente através de pesquisas de opinião. A competência política. políticos. assine o site www. isto é. “concorda ou discorda” inibem os entrevistados. Num número bem recente da Revista Francesa de Ciência Política” (vol.iesde.. não um produto social. mas coletiva. 2007). onde se desenvolveram mecanismos muito complexos para avaliar o comportamento político. mais informações www.planoeducacao. Segundo a corrente então dominante. “verdadeiro ou falso”. n. Ou seja. projetos. ela é uma qualidade que alguns têm. principalmente nos Estados Unidos. pensa da política de privatização?. essa perspectiva cognitivista começou a ser questionada pela sociologia política e pela antropologia política. outros não. De uns tempos para cá.

iesde. morais. Elementos inesperados e a princípio muito rudimentares podem servir para situar as pessoas diante das opções disponíveis: as cores dos partidos. o candidato vencedor sempre se manteve na dianteira nas pesquisas de intenção de voto. De toda forma. Há métodos muito práticos para decifrar os sentidos da política e para elaborar julgamentos “corretos”..br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. que terminou com a reeleição de Fernando Henrique Cardoso para a presidência da república. especialmente quando votam.com. por exemplo – fornecem instrumentos. mais politizado). assine o site www. cidadãos tendem a lançar mão de outros recursos de informação e interpretação. o vestuário dos candidatos. Como podemos explicar. Isso significa que a educação formal (tempo de escola.com. músicas. de classificação e de avaliação de partidos e de candidatos. Atividades 1. Entrevistas do tipo “conversa” com pequenos grupos são mais apropriadas para captar as nuanças das opiniões políticas.]. mas não é o único caminho [.. muitas outras instituições – as igrejas. Por fim. os símbolos.br . segundo os pressupostos da corrente da racionalidade. Ajuda. Essa constatação ressalta as muitas formas disponíveis de apreensão dos assuntos políticos. nível de cultura e/ou de consumo de bens culturais) não é um pré-requisito indispensável para que as pessoas sejam politicamente competentes. Normalmente. religiosos. a orientação do voto dos eleitores nessa competição e a hegemonia política de FHC? Utilize como base para a sua resposta as informações abaixo e pesquise dados econômicos desse período. retirando o problema do domínio exclusivo dos níveis desiguais de competência (mais escolarizado. No pleito de 1998..pelo cliente que encomendou o negócio).A. é preciso relativizar a importância de conhecimentos factuais superespecializados na produção da opinião pública. Ciências Políticas I 224 Para assistir as videoaulas deste livro.planoeducacao. mais informações www.

iesde. Para assistir as videoaulas deste livro.planoeducacao. 1998. 48 41 41 34 30 25 24 33 30 40 28 42 48 46 26 26 25 25 26 10 7 10/11 mar 1998 8 6 29/30 abr 1998 9 5 27/28 mai 1998 8 5 08/09 jun 1998 7 08/09 jul 1998 7 14 ago 1998 7 01/02 set 1998 8 17/18 set 1998 9 3 10 2 4 4 3 3 24/25 set 1998 02 out 1998 Fernando Henrique Cardoso (PSDB) Lula (PT) Ciro Gomes (PPS) Enéas (PRONA) 56 30 10 5 Fernando Henrique Cardoso Lula votos válidos em % Ciro Gomes Boca de Urna Enéas DATA FOLHA. Adaptado.com.br 225 Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto . mais informações www.A.com. 1998. Adaptado.Evolução da intenção de voto para Presidente da República (estimulada e única.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. assine o site www. em %) 49 DATA FOLHA..

.A.Ciências Políticas I 226 Para assistir as videoaulas deste livro.br .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.planoeducacao.iesde. assine o site www. mais informações www.com.com.

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.iesde. ocorreu uma mudança na orientação do voto: ao final do pleito. por conta própria. Observe as tabelas abaixo. FHC angariava muito mais votos do que Lula naquela mesma faixa de renda.com. 13 A 15/9/94 20 A 22/9/94 51 23 3 4 9 9 11 E 13/7/94 25 E 26/7/94 29 E 30/8/94 CATEGORIA Fernando Henrique Lula Brizola Quércia Outros Em branco/ Nulo/Não sabe 34 34 5 4 9 14 39 30 5 5 9 13 46 27 4 4 8 11 48 23 3 3 9 13 48 24 4 4 9 12 52 22 3 4 8 12 47 26 3 3 9 12 48 25 3 3 10 11 47 24 3 3 10 12 27 E 28/9/84 49 24 2 3 11 10 16 A 18/894 8 e 9/8/94 22/0/94 5/9/94 9/9/94 Para assistir as videoaulas deste livro.com.A..planoeducacao. referentes às eleições de 1994. 13 A 15/9/94 20 A 22/9/94 45 21 1 7 6 16 11 E 13/7/94 25 E 26/7/94 29 E 30/8/94 CATEGORIA Fernando Henrique Lula Brizola Quércia Outros Em branco/ Nulo/Não sabe 22 34 8 7 5 20 26 32 8 8 5 20 33 30 7 7 5 17 40 24 6 6 5 19 42 23 6 4 4 20 40 23 6 6 5 17 42 23 5 6 5 19 42 22 6 5 5 19 44 21 5 7 6 18 27 E 28/9/84 47 22 1 6 8 14 16 A 18/894 8 e 9/8/94 22/0/94 5/9/94 9/9/94 Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto MAIS DE 10 S.M. o candidato vencedor contava com menos eleitores na faixa dos que ganhavam menos de cinco salários mínimos do que o seu rival (Lula). quando ocorreu a primeira vitória de Fernando Henrique Cardoso na disputa presidencial. mais informações www.2. Todavia. De meados até o final de julho de 1994. ATÉ 5 S. Como podemos explicar essa alteração por meio da corrente sociológica e da perspectiva interacionista (aquela que enfatiza a relação entre grupos sociais)? Utilize os dados abaixo e.M. pesquise sobre o período. assine o site www.br 227 .

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.Ciências Políticas I 228 Para assistir as videoaulas deste livro.com.com.planoeducacao.A. mais informações www. assine o site www.iesde.br ..

br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br 229 Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto . as principais diferenças e semelhanças entre as três correntes que explicam o voto.com..3. Explique. mais informações www.com. com suas palavras.A. assine o site www.planoeducacao. Para assistir as videoaulas deste livro.iesde.

com.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.Para assistir as videoaulas deste livro.br .com. mais informações www.A.planoeducacao. assine o site www..iesde.

O objeto da Ciência Política está nos fenômenos políticos.planoeducacao. em algum grau. a política relativa aos fatos políticos ligados ao governo ou ao Estado. Há uma relação necessária entre poder e fenômeno político.br 231 . isto é. É possível traçar uma distinção clara entre a política institucional. Fenômeno político é qualquer fenômeno (social) em que há uma relação de poder.. o objeto da Ciência Política é. A Ciência Política toma a política como objeto de estudo (a Ciência Política descreve e explica os fenômenos políticos). bem como entre essas duas instâncias e a Ciência Política. A ciência tem um caráter heurístico. objetivo ou cumulativo. isto é. é um fenômeno político. Há uma distinção entre ciência e política. envolve poder. os fenômenos sociais em que há algum tipo de relação de poder. sendo que ciência e política são práticas sociais diferentes.com. normativo ou valorativo. de alguma forma.iesde. Assim. e os fenômenos políticos ou a política em sentido amplo. 3.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Todo fenômeno social que envolve poder. enquanto a política desfruta de um caráter prescritivo.A. 2. mas só a política stritu sensu restringe esses fenômenos à política institucional. mais informações www. Todo fenômeno político envolve poder e todo fenômeno que envolve poder é um fenômeno político. um fenômeno político é um fenômeno social que. e os fenômenos políticos são aqueles marcados pelo poder. o poder.Gabarito A Ciência da Política: sua definição e suas principais correntes teóricas 1. Para assistir as videoaulas deste livro. também.com. seja qual for a forma. Só existe Ciência Política porque existe poder ou fenômenos políticos nas sociedades humanas. assine o site www. E há um contraste com a política stritu sensu: ambas as acepções implicam a existência de relações de poder.

O Estado favorece a conservação da ordem. Política e poder são fatos inseparáveis.. 3.planoeducacao. e entende que todos os seres humanos são racionais. externo aos indivíduos e generalizado.4. Eles são formas de poder porque conferem àqueles que os possuem maiores chances de realização de seus interesses e de obtenção de bens de todo tipo. como dinheiro. O culturalismo foca a cultura política. os meios coercitivos). enquanto a concepção objetivista entende o poder como um fenômeno objetivo. Ele entende a sociedade como dividida por classes sociais que lutam entre si pelos bens mais valorizados. buscando sempre realizar seus objetivos com o mínimo dispêndio de energia. envolvendo um combate evi- 232 Para assistir as videoaulas deste livro. isto e. reconhecimento etc. fazendo que uns sejam e outros não sejam privilegiados na ordem social. O poder: as perspectivas objetivistas e subjetivistas 1. Os fenômenos políticos ou a política sempre envolvem (relações de) poder porque todo fenômeno político envolve algum grau de conflito. As formas explícitas são mais claras. que decorre do próprio funcionamento das instituições sociais. O marxismo foca o Estado e a dominação social.A. privilegia o comportamento dos eleitores ou as ações dos políticos profissionais.com. assine o site www. já os poderes instrumentais são atributos adquiridos posteriormente. e entende que a cultura de uma sociedade é determinante para o funcionamento das instituições políticas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.br . mais informações www. Segundo Hobbes. prestígio. O neoinstitucionalismo de escolha racional. A concepção subjetivista enfatiza os indivíduos (ou sujeitos) e as relações intersubjetivas e entende o poder como uma relação em que alguém tenta impor sua vontade sobre outrem por meio da mobilização de recursos (por exemplo. O poder não se reduz a situações em que há um conflito explícito entre os agentes sociais. os poderes naturais são constituídos por atributos ou propriedades inatas aos indivíduos.com. cumprindo um papel central na dominação. Ciências Políticas I 4.iesde. 2. por sua vez.

pelo fato de entender o poder como um fenômeno que opera por meio das próprias instituições sociais. assine o site www. os quais alteram gradativamente a sociedade e não são comandados pela ação ou pela vontade deliberada e consciente dos sujeitos. A concepção objetivista aproxima-se desta última. o Estado seria o produto de um contrato firmado entre os homens por meio de um processo deliberativo escolhido voluntariamente.br 233 .iesde. Um dos principais pensadores dessa corrente é Max Weber. podemos situar os filósofos contratualistas.com. o contrato cumpriria a função de regular os direitos e os deveres tendo como base os dados da natureza dos indivíduos.dente e aberto entre as partes. Ou seja. sendo ele o garantidor dos direitos básicos – assim o é para Rousseau (a liberdade) e Locke (a propriedade) – ou um inibidor da natureza humana (conforme entende Hobbes). Para o segundo tipo de abordagem. No primeiro caso. O Estado moderno: a teoria contratualista e sua crítica sociológica 1. e a partir de uma perspectiva histórica e determinista.. De acordo com os contratualistas. principalmente Hobbes.com. é gerado em longos processos de desenvolvimento histórico. Este contrato estaria ligado diretamente a uma ideia de direito natural ou de natureza humana.planoeducacao. Assim. Gabarito Para assistir as videoaulas deste livro. o Estado deve ser entendido a partir de uma perspectiva histórica. mais informações www. Para ele. Locke e Rousseau. não se pode pensar o Estado enquanto um produto da vontade dos agentes quando estamos falando da teoria de Weber e da grande maioria dos pensadores que escrevem a partir da segunda metade do século XIX.A. O conceito de Estado foi pensado de duas maneiras: a partir de uma perspectiva individualista ou voluntarista.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. em que os próprios dominados não têm consciência de que estão submetidos ao poder (como nas situações em que atua um poder simbólico). As formas mais sutis são aquelas imperceptíveis. pois o Estado. tanto o voluntarismo quanto a ideia de direito natural são proscritos da análise e são ambos inseridos em um modelo histórico em que a ação humana possui limites historicamente determinados pelo desenvolvimento do coletivo. para esses autores.

. da ação estatal: a violência física é o principal mecanismo objetivo por meio do qual o Estado consegue impor a sua autoridade. pois estão ligadas à crença dos dominados. ao caráter subjetivo da dominação.com. [. o Estado dispõe de dois mecanismos pelos quais se define: as justificativas internas e externas. assine o site www.A.. o Estado é uma realidade histórica na medida em que não é o produto nem da vontade autônoma dos indivíduos e nem de necessidades imanentes à existência humana: o Estado é produto de conjunturas históricas particulares. mais informações www. os seus recursos materiais (exército. respectivamente). As justificativas externas são mecanismos de coação objetivos. p.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.. devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que. conseguiremos compreender melhor a definição clássica das ciências sociais sobre o Estado: “Em nossa época.] reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física [. o Estado impõe a sua autoridade. 234 Para assistir as videoaulas deste livro. objetiva e subjetiva. tecnologia etc... pois atingem diretamente os dominados. Por meio deles. entretanto. portanto. A legitimidade mencionada por Weber diz respeito ao reconhecimento dos cidadãos. dentro dos limites de determinado território.planoeducacao. riquezas. transformando-os em súditos. o Estado é produto uma singularidade histórica que ocorre a revelia dos interesses particulares dos indivíduos. 1989.). a crença deles de que o Estado pode dispor dessa força: os cidadãos crêem que é legitimo somente o Estado dispor desse recurso (a violência física). Logo. Assim. Segundo Weber. com o conceito weberiano conseguimos identificar as duas esferas. A partir de uma citação de Weber.com. homens. Elas dizem respeito.” (WEBER. o Estado consegue alcançar e tutelar os indivíduos. Elas existem na exata medida em que os dominados (ou os súditos) crêem na validade da dominação. As justificativas internas são os três tipos puros de dominação. cidadãos etc. A principal justificativa externa da dominação do Estado é a violência física. 56) Ou seja. as quais o originaram a partir de sua própria especificidade. As justificativas externas são os aparatos técnicos e infra-estruturais do Estado.].iesde. Ciências Políticas I 3.2. tanto por uma coação objetiva quanto por uma crença subjetiva (por um mecanismo externo ou interno. Para Bourdieu.br .

As mais variadas alterações em regras e processos que gerem a vida pública servirão aqui de exemplo. nos critérios de ingresso no ensino superior. conforme é colocado em risco o monopólio dos meios de produção. assine o site www. A teoria marxista busca explicar o Estado por meio de forças que atuam fora dele. Ministério do Amor. uma identidade profissional). Uma cerimônia de formatura (em um curso de graduação. mais informações www. Para assistir as videoaulas deste livro.A. garantida juridicamente por um título escolar (um diploma reconhecido pelo Ministério da Educação) e capaz de conferir aos detentores uma autoridade que eles não possuíam até então (autoridade como médico. por meio de órgãos especificamente designados para tal (Ministério da Verdade. São todos exemplos claros da ação de normalização do Estado.) outorga-se aos formandos uma nova identidade social (neste caso. 3. na política econômica.br 235 Gabarito . engenheiro civil etc. vice-reitor etc. nas regras da aposentadoria..br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. O Estado é uma função das lutas de classe e tem sua forma modificada conforme o estágio dessas lutas. Assim.com.planoeducacao. Essas teorias se diferenciam em dois pontos principais: em relação à autonomia e à heteronomia do Estado. já que por meio dos procedimentos formalizados e da autoridade institucional presente (o reitor.iesde. por exemplo) pode servir como ilustração de um rito de instituição. Ministério da Fartura). de George Orwell – posteriormente transformado em filme –. O romance 1984. O Estado capitalista: as perspectivas marxista e weberiana 1. e em relação ao enfoque sobre a finalidade do Estado. tornando-se assim onipresente e capaz de vigiar cada aspecto da vida de seus cidadãos.O Estado burocrático: racionalidade e dominação 1. conforme se acentuam as lutas de classes ou. bacharel em direito. pois o Estado existe para assegurar a predominância das classes detentoras dos meios de produção.com. ilustra com bastante veemência um Estado que conseguiu centralizar de maneira praticamente total todos os recursos administrativos de uma dada sociedade. 2. como modificações na legislação de trânsito. em outras palavras.). o Estado entra em ação para atender à sua finalidade.

Ciências Políticas I 3. ministros. A teoria weberiana está dividida entre uma abordagem sincrônica (que se esforça para classificar os vários tipos de Estado em momentos determinados. Na verdade. de matriz empírica. Ao contrário da perspectiva marxista.com. crêem esses cientistas sociais que o Estado reproduz os interesses da classe dominante independentemente da presença física ou da relação direta entre os indivíduos dessa classe e os ocupantes do aparelho do Estado (burocratas de alto escalão. Dado que o Estado. mais informações www..planoeducacao. 236 Para assistir as videoaulas deste livro. mas pelas formas específicas (históricas) – que ele pode assumir.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. busca-se entender o Estado não por meio de sua função. fixos da história) e uma abordagem diacrônica (que tem o objetivo de identificar o processo de passagem de um tipo de Estado para outro). a pergunta que separa as diversas correntes marxistas é: como esse processo ocorre? A teoria instrumentalista. cumpre uma função geral – garantir a dominação dos proprietários dos meios de produção –. 2. à camada dominante da ordem social dominante. os indivíduos que integram as classes dominantes mobilizam o Estado para que este atenda aos seus interesses.A. tem como foco os indivíduos e postula que os indivíduos que ocupam o Estado pertencem à classe dominante ou estão diretamente ligados a ela em graus diversos e por meio de mecanismos mais ou menos complexos. Além disso. A teoria marxista é dividida entre uma visão instrumentalista e uma visão estruturalista na questão do Estado. assine o site www. A teoria estruturalista se define pelo oposto: partindo de uma análise sistêmica e lógica (não empírica). segundo toda a teoria marxista.com. Por meio de uma ação direta ou mediada por seus contínuos. o Estado atende aos interesses da burguesia porque são esses interesses que constituem e dominam a vida social.br . O analista armado dessa visão deve sempre realizar uma pesquisa empírica para checar se de fato isso ocorre e como ocorre. a teoria weberiana toma como unidade de análise as relações sociais que ocorrem dentro do Estado e têm como motivação e/ou como propósito a ampliação ou a diminuição do poder do Estado. Como os ditames das estruturas condicionam as vontades dos indivíduos e a própria estrutura está submetida à ordem econômica. parlamentares etc.iesde. automaticamente. a ações do Estado estarão submetidas.).

A. ele produz um conceito. mas uma força que age fora dele). ou seja. Para classificar os tipos de Estado (abordagem sincrônica). as quais. Essas lutas são o fator que dá origem a todas as mudanças na história e essas mudanças produziram o Estado.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. pois se pode partir de um tipo de Estado (uma classificação estabelecida) e verificar como ele se transforma em outro tipo (realizando uma segunda classificação com base em suas transformações). essas abordagens não são opostas.planoeducacao. A partir daí.. bem definido. Para assistir as videoaulas deste livro. trata-se de uma explicação externalista – as lutas de classe.com. mas em vez de observá-las de forma estática no tempo. Formação e desaparecimento do Estado: perspectivas marxista e weberiana 1. outra que foca a concentração do poder social no Estado. A primeira tende a explicar o Estado por meio de forças situadas fora dele. ao passo que a classe que não os possui luta para destruí-lo). mas complementares. Assim percebemos que o Estado e a sociedade são um produto de uma única causa (lutas de classe) e que o Estado é explicado por meio de uma variável externa a ele (o que causa o Estado não são as forças internas ao Estado.iesde. situadas no campo econômico/político/ideológico. o pesquisador deve adotar a comparação. identificando elementos relevantes em cada formação estatal e observando como essas variáveis se manifestam qualitativa e quantitativamente em cada Estado. deve-se verificar como elas variam ao longo de um dado espectro temporal. buscam alterar ou manter o monopólio dos meios de produção (a classe que detém os meios de produção luta para manter o seu monopólio. mais informações www. assine o site www. Existem duas abordagens que explicam a gênese do Estado através da história: uma que foca as lutas de classe como variável central da explicação. Ao adotar uma abordagem histórica (abordagem diacrônica). Essa é a explicação marxista.com. por meio do qual caracterizará os Estados que apresentarem o mesmo padrão que o seu modelo. Todavia.br 237 Gabarito . o pesquisador deve operar de forma semelhante ao caso anterior: devem ser selecionadas variáveis relevantes.

pela família ou pelo grupo de parentesco. Assim. é formado por meio de lutas propriamente administrativas centradas em torno do poder político. ideias. o Estado se funda a partir do momento em que consegue para si o monopólio legítimo desses dois tipos de recursos. que divide a sociedade em classes. tanto o monopólio da coerção física quanto da coerção simbólica. A expropriação dos recursos simbólicos ocorre a partir do momento em que o Estado cria instâncias de produção de crenças. 3.. Assim. crenças coletivas etc. Assim. mais informações www.com. Percebemos aqui a perspectiva internalista: o Estado. pois ambas tendem a adotar uma abordagem economicista.br . pretendem explicar a extinção do Estado a partir de uma variável econômica. cooptando ou submetendo as elites locais e as milícias privadas. assine o site www. por meio da qual o Estado consegue imprimir princípios ou referências com que o indivíduo consegue se orientar no mundo (princípios de julgamento. for radicalizada. de escolha ou gostos) – essa tarefa era antes executada pelo clã. o Estado é o produto das lutas existente pelo poder administrativo. Os recursos simbólicos são as representações. Entre elas há uma semelhança fundamental. Ao contrário. O segundo marco teórico – o weberiano – é o oposto disso. ou seja.A.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Os recursos materiais formam a infra-estrutura administrativa: exército. Existem duas teorias que tratam o tema do fim do Estado: a teoria comunista e a teoria das multinacionais. pois por meio dele podemos explicar a formação do Estado focando unicamente suas forças internas. além de deter o monopólio do poder. homens.iesde. um sistema de crédito e impostos. ouro. cujo exemplo mais claro é a escola. ideologias. 2.planoeducacao. isto é. Podemos dividir os recursos expropriados em dois tipos: recursos materiais e recursos simbólicos.com. eliminando. existe uma grande diferença entre elas: cada uma tem sua própria a abordagem economicista. 238 Para assistir as videoaulas deste livro. A expropriação dos recursos materiais ocorre quando o Estado passa a dispor de um exército permanente. A teoria comunista tende a crer que o fim do Estado ocorrerá simultaneamente ao fim do sistema econômico capitalista. Ciências Políticas I Apesar dessa semelhança. Essas lutas visam ao controle e a concentração do poder em um único centro. as empresas supranacionais englobariam os Estados nacionais. a teoria das supranacionais tende a crer que o fim do Estado ocorrerá quando a conjuntura econômica atual for elevada ao seu extremo. armas etc.

considerando os diferentes sentidos que o conceito tomou ao longo do tempo e os usos que dele foram feitos no decorrer da história. 3. Quando as pessoas – digamos. e seu aspecto político e agonístico. A meu ver. discursos – em uma palavra.. Sugere-se que há alguma “tendência”. que faz com que os indivíduos manipulem suas ideias de modo a enganar os adversários. como um véu que esconde uma intenção real que é dissimulada. Acredito que a definição “sociológico-cognitiva” seja a mais útil para nos referirmos às ideias políticas porque abrange as duas características principais das ideias políticas: seu aspecto comunicativo. ou seja. mais informações www.iesde.com.br 239 Gabarito .br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Acredito que essa definição seja mais útil cientificamente por tentar conciliar esse duplo aspecto das ideologias que as outras definições opõem entre si. geralmente o fazem com o intuito de lançar dúvida sobre eles. de fundo interessado. ou seja. entendendo-as como instrumentos de ludíbrio e falsificação da realidade ou como elementos de doutrinas políticas.A. são muitas as definições para o conceito de ideologia. Os argumentos.com. Para assistir as videoaulas deste livro. ou como uma mera visão de mundo por meio da qual os indivíduos entendem a realidade. cognitivo. Há vários problemas metodológicos para se estabelecer uma definição objetiva e consensual do conceito de ideologia. a função que as ideias cumprem possibilitando aos indivíduos entender e atribuir sentido ao mundo. aquela que define as ideias alheias como “falsas” ou como instrumentos de ludíbrio e de manipulação que os agentes utilizam para realizar interesses egoístas.O conceito de ideologia 1. como um instrumento de luta. Uma definição conceitual deve ser histórica. linguístico. Assim. assine o site www. ressaltando um aspecto em detrimento do outro. opiniões. a definição mais usual de ideologia é a pejorativa. de valorização e de hierarquização. as ideias daqueles que acusamos de serem “ideológicos” – são assim vistos como falsas aparências. militantes políticos – acusam os argumentos dos outros de “ideológicos”. como a variabilidade histórica (de uso e de significado) do conceito ou a confusão entre o objeto de estudo e o observador. as definições de orientação mais política tendem a ressaltar o aspecto político das ideias políticas.planoeducacao. 2. Além disso. ou seja.

assine o site www. da aparente desordem das trocas individuais derivará uma racionalidade objetiva que irá distribuir de forma (mais) justa os recursos entre os indivíduos.. e torna a definição científica mais difícil. ao contrário. se eles estiverem livres para investir. uma definição “natural” de cada doutrina política. ser histórica. por exemplo.A. não havendo. portanto. produzir e consumir no mercado sem interferências externas. ou seja. O liberalismo.iesde. O primeiro é que a economia livre dos liberais é uma economia capitalista que não produz uma distribuição justa e racional dos recursos.br . sem interferência externa.com. mais informações www. Isso não ocorre porque os indivíduos são irracionais. 2. o liberalismo e o fascismo.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. mas porque o sistema o é: dividido em classes antagônicas. favorece o regime de livre-mercado. socialismo e fascismo 1. mas antes de tudo desigualdades. É possível contrapor o socialismo.Doutrinas políticas da era moderna: liberalismo. considerando tanto as ideias políticas (tal como se manifestam e tal como realmente operam na prática efetiva) como as instituições políticas (dos regimes políticos baseados naquelas doutrinas). Os liberais acreditam que as potencialidades humanas são mais bem realizadas quando são deixadas para se desenvolver livremente.planoeducacao. e isso por dois motivos. por se tratar de objetos em disputa política. no que diz respeito à questão da planificação da economia versus livre-mercado. O socialismo. o capitalismo se funda na Ciências Políticas I 240 Para assistir as videoaulas deste livro. Uma definição precisa ser multidimensional. inspirado no pensamento dos fisiocratas franceses. o que faz que seus conteúdos mudem constantemente. fatos que se constituíram por meio de lutas e jogos sociais. precisa considerar a transformação das ideias e instituições em função dos contextos e circunstâncias históricas singulares. Essas condições derivam do fato de as doutrinas políticas serem fenômenos históricos. ou seja. por si próprias. defende a planificação da economia. Esse pensamento é aplicado à economia da seguinte forma: sendo todos os indivíduos igualmente racionais.com.

mais informações www. Isso é patente no socialismo. que ocupava a diretoria de gestão e sustentabilidade”. planejar a economia de modo a quebrar o ciclo de injustiças típicas da economia capitalista. apresentamos aqui um exemplo de resposta possível: “O liberalismo é a melhor ideologia política. varia entre esses extremos. tornou-o mais forte.planoeducacao. sob o título “Vale enxuga estrutura e reduz equipe de diretores”: “Diante da dificuldade em retomar as vendas de minério. O fascismo. Um regime liberal.A.” Grupos.com. assim. em vez de acabar com o Estado. quatro executivos deixaram a empresa. mas também abomina o individualismo inerente à concepção liberal e à economia capitalista. ou social-democrata. É preciso. é a saída mais equilibrada. A história já demonstrou que sempre que um partido burocratizado alcança o poder absoluto. defendendo. Selecionamos uma notícia publicada na Folha Online.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. a Vale acelerou a reorganização de seu organograma para eliminar sobreposições de atuação. que tende a se estender a todas as esferas da vida.produção de desigualdades sócio-econômicas. Ele não prega a abolição da propriedade privada. A planificação.com. não atinge o nível dos regimes socialistas. observando. é preciso deixar claro que é possível até mesmo não escolher doutrina alguma. interesses e representação política 1. entre eles o ex-presidente do BNDES Demian Fiocca. mas manter a economia submetida aos interesses que os fascistas entendem como próprios do “espírito e da cultura da nação”. antiga Vale do Rio Para assistir as videoaulas deste livro. Na semana passada. Neste caso. assine o site www.br 241 Gabarito . o termo coletivo utilizado como sujeito da ação “enxugar [o organograma]” é a Vale. mas é preciso fundamentar a decisão e as posições por meio de uma argumentação que considere as descrições apresentadas. Já sabemos também o que derivou do fascismo. Assim. contudo. em 14 de abril de 2009. Diversos exemplos podem ser encontrados. ele passa a amalgamar-se e a confundir-se com o Estado. sufocando a vida individual. 3. fazendo da burocracia estatal a nova elite dominante. gerando um governo totalitário e opressivo. Antes de mais nada. criticando. que.iesde. e sua finalidade não é nunca suprimir a propriedade privada ou socializar os meios de produção. os fascistas entendem que é dever do Estado estabelecer os rumos da atividade econômica.. por sua vez. Baseado na ideia de que o Estado é o reflexo da vontade do povo e do espírito da nação.

rejeitam a ideia de que os políticos sejam capazes de representar interesses que não os seus próprios. decisões. neste caso. propósitos explícitos e implícitos. ao contrário. mas nas minorias politicamente ativas – as elites – também não faz sentido falar em representação de interesses: os grupos de elite não perseguiriam outros interesses que não os seus próprios – basicamente. são os indivíduos que a compõem (diretores. 3. como faz Downs. Assim. Trata-se. os de se perpetuar no poder ou de tomá-lo (das mãos de outra elite). Tais situações ocorrem em diversas configurações e situações sociais. e não por meio de contribuições voluntárias. engenheiros etc. assim. medidas favoráveis. do prestígio e do poder que advêm da ocupação de um cargo. o chamado “imposto sindical”. partidos e associações. condição para que se reeleja e para que possa usufruir da renda. sendo que a relação que ele mantém com os eleitores é de troca: votos são dados em função de políticas. Tome-se o caso dos sindicatos: mesmo supondo que os trabalhadores de uma determinada categoria (os metalúrgicos. empresas não possuem subjetividade e não podem agir. bem como as regras institucionais que organizam a interação entre eles. técnicos.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Para os teóricos do elitismo. Para Anthony Downs. o “imposto sindical” e os benefícios individuais que a filiação sindical oferece. que concentram a análise não no indivíduo autocentrado. No evento em questão – a reorganização do organograma da empresa – seria fundamental mapear as posições dos diferentes acionistas.br .com.planoeducacao. ou seja. a explicação tem de passar necessariamente por esses indivíduos e por seus interesses. assine o site www.). facilidades. mas também ganhos individuais: prêmios. distintos da simples luta salarial. Tais ganhos individuais. seus interesses. o político está interessado em votos.iesde. a não ser que sejam criados mecanismos organizacionais que a neutralizem. uma das maiores empresas de mineração do mundo. mais informações www. por exemplo) possuem interesses comuns. Evidentemente. de explicar como ocorre de fato o processo decisório dentro da empresa. desde os clubes até sindicatos.com.Doce. As re- Ciências Políticas I 242 Para assistir as videoaulas deste livro. sem recorrer a frases taquigráficas.A. 2. como.. como “Vale enxuga estrutura”. a filiação a um sindicato não oferece apenas os ganhos oriundos das lutas salariais (ganhos que mesmo os não filiados obtêm). Tanto os elitistas quanto os partidários da Teoria da Escolha Racional rejeitam a noção de representação de interesses. Além disso. são o exemplo da afirmação de Olson de que a tendência dos indivíduos racionais é a abstenção. Quem age. opções de lazer etc. e sociologicamente mistificadoras. ainda assim suas organizações representativas se sustentam apenas graças a uma “contribuição” compulsória.

2. assine o site www. Todavia. o que possibilitou a alteração da tomada de posição política dos indivíduos que recebiam menos de cinco salários mínimos.com. Poderíamos dizer que o candidato Fernando Henrique Cardoso (FHC) produziu um discurso que entrou em sintonia com a ideologia dessa classe social (indivíduos que ganhavam menos de cinco salários mínimos).ferências aos interesses das massas ou do povo seriam.br 243 Gabarito . o país se encontrava em uma profunda crise inflacionária. é possível dizer que os eleitores “satisfacionistas” votaram em bloco em FHC. Nessa conjuntura. a forma mais sensata de explicar essa eleição é por meio da corrente da racionalidade. mais informações www. mera retórica. atingindo-os diretamente.iesde. A corrente sociológica é a perspectiva mais adequada para a análise desse fenômeno. em especial dos trabalhadores. os rumos econômicos tomados pelo País durante o primeiro mandato de FHC (em comparação com a situação econômica em que o Brasil se encontrava antes de 1994) possibilitaram a sua reeleição. A inflação foi. nessa perspectiva.planoeducacao. com a implantação do Plano Real (um plano de estabilização econômica iniciado em 1993 no governo de Itamar Franco). e a porção de votos que coube a Lula foi dada por eleitores “maximizantes” que acreditaram que esse último era mais capaz que FHC para melhorar a situação econômica. o volume de interações internas dessa classe não era tão grande quanto o volume de interações intraclasse. um problema econômico crônico que desvalorizava rapidamente a moeda. Portanto. em 1994. muito mais próxima da manipulação cínica do que de uma autêntica relação de representação. reduzindo drasticamente o poder de compra dos salários. os quais aderiram em massa aos apelos momentâneos da campanha de FHC.A.. no Brasil.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. Comportamento eleitoral: teorias que explicam o voto 1. houve uma significativa queda nas taxas de inflação e uma ampla melhoria das condições econômicas nacionais. Em suma. alguns eleitores “maximizantes” votaram em FHC por acreditar que ele poderia melhorar ainda mais a situação econômica. Quando FHC assumiu a presidência. abordando a diferença entre eleitores maximizantes e satisfacionistas.com. Para assistir as videoaulas deste livro.

Portanto. porém o seu princípio de análise não é subjetivo e inconsciente.com. o que facilita que aqueles que ganham mais de dez salários mínimos consigam convencer os demais a aderir à sua posição.br . com base nos dados e na teoria sociológica do voto. A corrente psicológica busca explicar o voto por meio das pulsões psicológicas dos indivíduos e tem como centro de análise o indivíduo. O segundo quadro nos ajuda a reiterar essa hipótese. Cada tomada de posição política (no caso.planoeducacao. Em nenhum momento há referência a um grupo social específico. provavelmente. pois leva em consideração as ações conscientes e calculadas. Ciências Políticas I 244 Para assistir as videoaulas deste livro. assine o site www. a corrente sociológica se distancia de ambas ao ter como unidade de análise os grupos sociais e as interações entre eles.A. Esse fato possibilitou a mudança da direção do voto (de Lula para FHC) ou a adesão aos apelos políticos momentâneos de FHC – os quais. 3. podemos inferir que elas possuem uma identidade política mais coesa que a das classes baixas. que sempre visam a atingir interesses específicos conscientemente elaborados e definidos pelos agentes. nas suas estimativas e avaliações. o voto) tem como correspondência uma dada posição na sociedade.iesde.. que se comporta politicamente de forma semelhante. pois a análise se centra completamente no indivíduo. Assim. a conclusão é generalizada para todo o grupo. Ao perceber que as classes altas votam mais em FHC do que as baixas.br Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S. mais informações www. é necessário identificar essa relação entre sufrágio e posição social objetiva. A corrente economicista também tem como unidade de análise o indivíduo. podemos inferir que essa fração da sociedade não possui forte identidade política com um candidato ou partido ou que a qualidade das interações políticas no interior dessa classe é inferior à qualidade das interações políticas fora da classe. adequaramse às demandas ideológicas da classe em questão.com. A partir da identificação das causas psicológicas do voto. Por fim.

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