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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO CENTRO DE JORNALISMO

O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? Um estudo da socialidade no Twitter

Filipe Speck

Florianópolis 2009

FILIPE SPECK

O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? Um estudo da socialidade no Twitter

Monografia apresentada como requisito parcial e final à obtenção de título de bacharel em Jornalismo pelo Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, sob orientação da professora Drª. Aglair Bernardo.

BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Jorge Kanehide Ijuim– Departamento de Jornalismo Profª Drª Raquel Longhi – Departamento de Jornalismo Profª Drª Aglair Bernardo - Orientadora

Florianópolis, junho de 2009

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Aos meus pais, com amor.

AGRADECIMENTO

Para Michel Maffesoli, teórico que formulou os conceitos que me servem de base para minhas análises sobre o microblog Twitter, a vida é acaso e compromisso. A história das motivações e da produção desta monografia é, de fato, a constatação dessa sentença. No penúltimo semestre da faculdade de Jornalismo, quando tinha o projeto para a elaboração do meu Trabalho de Conclusão de Curso pronto – um levantamento da presença da Petrobrás nos jornais impressos –, assisti à defesa do amigo Manfred Mattos sobre as considerações do teórico Martín Barbero em relação às novas tecnologias. Na banca examinadora estava a professora Aglair Bernardo, que, quando teve a fala, inundou-me de inquietações. Foi em novembro de 2008. Ao final da banca, procurei-a para pedir o inusitado: topar um novo projeto para o próximo semestre, com a metade do tempo mas um empenho múltiplo. Pelo aceite, dedicação, por me apresentar Maffesoli e pela amizade, levo meu agradecimento fundamental à Aglair. Graças àquela atitude acolhedora, o acaso tornou-se compromisso e acabou resultando neste trabalho escrito nas páginas que seguem. Como este foi meu último trabalho na faculdade, não posso deixar de agradecer e oferecer todo meu amor e carinho aos meus pais, Edson e Eloisa, que sempre confiaram no meu trabalho e nos meus sonhos. A eles eu devo não apenas minha formação, mas minha essência e vontade, herança mais preciosa que me deram. À minha irmã, Bárbara, companheira de viagem, a amizade e a confidência. Meu agradecimento se estende a todos aqueles que acompanharam o trajeto solitário de minha pesquisa: Manfred Mattos, pela fecundação de um projeto; Karine Cupertino, companheira que cutucou meu texto e me inspirou pela paixão que dividimos pela arte e pela vida; Bruna Wagner, Guilherme Carrion, Felipe Santana, Camila Brandalise, Juliana Gomes, João Munhoz, Eduardo Lages, Cristiane Barrionuevo, Isadora Peron, Gustavo Bonfiglioli, Cauê Cato, Fernanda Friedrich, Manuela Franceschini, Samia Barbosa, Andressa Taffarel e àqueles que virão, indignados, reclamar a ausência do nome. Agradeço a todos os amigos que, pela força do instante, sempre serão os melhores no momento que eu os tenho.

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RESUMO: O presente estudo pretende levantar as evidências de práticas contemporâneas na comunicação da rede de microblog Twitter segundo a obra do francês Michel Maffesoli. Para tal, analisa a socialidade, conceito concebido pelo sociólogo, das relações na internet e, mais especificamente, no Twitter como estudo de caso. A pesquisa argumenta a existência das ideias maffesolianas de presenteísmo, tribalismo e nomadismo nas trocas de mensagens pela plataforma, entendendo que a tecnologia está criando uma forma que permite uma nova sensibilidade para a comunicação e os relacionamentos. Palavras-chave: socialidade, Twitter, Maffesoli, comunicação, cibercultura

SUMÁRIO
Apresentação ...................................................................................................................................................... 7
1. Quem você está

seguindo? .......................................................................................................... 12
1. Construindo o

objeto .............................................................................................................. 12
2. Da socialidade à

cibersocialidade ..................................................................................... 17
3. Pós-modernidade e cultura em

redes ............................................................................. 21
4. Sujeito-

usuário .......................................................................................................................... 25
2. Quem está seguindo

você? .......................................................................................................... 30
1. Rito e troca no

presente ........................................................................................................ 30
2. Neotribalismo na

rede ........................................................................................................... 34
3. Nomadismo, uma

tendência ................................................................................................ 40
4. As formas criadas pelo

Twitter .......................................................................................... 44 Considerações finais ..................................................................................................................................... 47 Referências ....................................................................................................................................................... 49

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APRESENTAÇÃO

O título desta monografia, O que você está fazendo?, realizado na forma de pergunta, foi respondido cerca de 2,2 bilhão de vezes1 em todo o mundo na plataforma de microblog do Twitter2 até o dia 28 de abril de 2009. A rápida ascensão desses números desde que o serviço foi criado, há três anos, acompanha a apropriação cada vez mais sistemática de ferramentas técnicas disponíveis na internet aos seus usuários, modificando substancialmente o modo pelo qual as pessoas se comunicam e interagem nos dias atuais (Recuero, 2008). Nesse sentido, o esforço em descrever e entender os novos espaços virtuais e suas interações, aliado às preocupações de caráter metodológico, capaz de solucionar problemas no âmbito da produção de pesquisas acadêmicas, têm sido um dos principais focos das investigações em torno desse universo, identificado por vários autores (Lemos, 1990, 2002, 2005; Recuero 2008, Recuero & Zago, 2009; Lévy, 1996, 1999; Santaella 2004a, 2004b) como Comunicação Mediada pelo Computador (CMC). A realização de estudos frequentes das práticas culturais e sociabilidades oriundas do ciberespaço, visando à compreensão de seu alcance nas sociedades contemporâneas,
1 Dado obtido no site http://popacular.com/gigatweet às 10h20 do dia 23 de junho de 2009. Graças à abertura do sistema, outros endereços eletrônicos dispõem das informações para fazerem estatísticas sobre os perfis no Twitter. 2 http://www.twitter.com

tornou-se um campo de pesquisa extremamente fértil e promissor, mobilizando e colocando em interação campos disciplinares os mais diversos. Entre essas aproximações, vale destacar, para efeito desta análise, os diálogos promovidos entre a Comunicação e as Ciências Sociais, mais especialmente a Antropologia (Rifiotis, 2008: 20). É com base nesses diálogos que procuro orientar as reflexões contidas nas páginas seguintes, entendendo o Twitter – e também outros sites de redes sociais como o Orkut3, o Facebook4 e o MySpace5 – como uma plataforma tecnológica que subverte as limitações convencionais espaço-temporais do real (Lévy, 1999). A partir da perspectiva interdisciplinar, o presente trabalho, caracterizado como um estudo de caso, analisa as relações produzidas no Twitter tomando como referência teórica mais ampla os conceitos de socialidade, presenteísmo, tribalismo e nomadismo, tratados pelo sociólogo francês Michel Maffesoli. Parto do pressuposto de que as relações sociais produzidas no Twitter acentuam o sentimento de estar-junto6, noção formulada por Maffesoli ao se referir aos novos tipos de sociabilidades que emergem nas sociedades contemporâneas, dando ênfase à valorização do presente e à efemeridade dessas interações. Tal abordagem tem sido, igualmente, seguida por outros pesquisadores, ao identificarem as possibilidades de interações sociais geradas no Twitter. Para o futurista do Vale do Silício, Paul Saffo, a ferramenta reverte a noção de ajuntamento: “Em vez de criar o grupo que deseja, o indivíduo envia uma mensagem e o grupo monta a si próprio"7. A observação de Saffo, semelhante às questões problematizadas por Maffesoli, chama atenção para o caráter contextual e presenteísta das interações construídas através dessas novas ferramentas, assim como sua ênfase na componente tribal e nas agitações nomádicas possibilitadas pela navegação na internet.

3 http://www.orkut.com 4 http://www.facebook.com 5 http://www.myspace.com 6 O termo estar-junto é uma tradução para o francês être-ensemble, que significa ser ou estar junto. O termo será utilizado várias vezes ao longo da monografia e deve ser compreendido como a vontade ou o sentimento de uma experiência em conjunto. 7 Reportagem do The New York Times publicada em 14 de abril de 2009 pela jornalista Claire Cain Miller. Ver bibliografia.

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A partir dessas questões iniciais, este trabalho identifica o marco teórico de Maffesoli como promissor para entender as características desses tipos de relações sociais, principalmente a partir da noção de socialidade, que diferentemente do conceito clássico de sociabilidade, sugere uma conexão estreita com a religião, no sentido original do termo, cuja relação entre indivíduos funciona como forma de união, ou reliance8, baseando-se em uma emergência da condição social de “estar-junto” e de um forte sentimento de comunhão. Para o jornalista e antropólogo Juremir Machado da Silva, em um estudo sobre o pensamento contemporâneo francês sobre a comunicação:
Michel Maffesoli, mesmo antes da explosão da internet, já vinha tratando do “estar-junto”, da efervescência coletiva, do tribalismo e do lúdico. Para ele, a imagem funciona como um totem em torno do qual comungam os espectadores. Maffesoli está mais interessado na “réliance” do meio que no conteúdo das mensagens. (Silva, 2001: 176)

A opção por Maffesoli como referencial teórico para a análise do Twitter justificase pela compreensão de que a tecnologia contemporânea presente na CMC está disposta como um instrumento de novas formas de sociabilidade e de vínculos associativos e comunitários (Lemos, 1999: 10). Vale ressaltar que a noção de socialidade dá conta de uma série de fenômenos sociais contemporâneos cujas formas de agrupamento não se dão mais necessariamente tendo em vista um projeto coletivo e uma ideologia comum. Em vez de organizarem-se em torno de um conteúdo programático e dogmático para atender a uma demanda respaldada por uma ideia de futuro, organizam-se a partir de redes de relações sociais e com a possibilidade de o indivíduo participar em variadas redes simultaneamente, não necessariamente consensuais entre si, sugerindo uma pessoa multifacetada e construída a partir de várias ordens de interesse. Nos estudos sobre o ciberespaço há uma série de categorizações para ascender uma suposta transição da modernidade para um novo momento (Segata, 2004: 29). A cibercultura, presente nos estudos de Lévy e Lemos, é uma área que sugere uma ampliação da conquista que reside em um novo momento, classificado por vários autores, entre eles Maffesoli, de pós-modernidade. O pesquisador André Lemos,

8 A palavra francesa reliance, que em português significa “religação”, é proposta por Maffesoli como forma de compreensão de como, na socialidade, se dá a relação com o outro: um laço que garante a existência.

estudioso da pós-modernidade nas tecnologias e na rede9, prenuncia que há, na obra do francês, uma inversão na apropriação entre técnica e social. Para ele, a forma técnica negocia com social, e há uma espécie de transformação da apropriação técnica do social, típica da modernidade, para uma apropriação social da técnica, mesmo que de forma complexa e imprevisível, na pós-modernidade. O Twitter, além de demonstrar a apropriação do social pela técnica, já constatado em outras ferramentas mais tradicionais da rede, avança no sentido de dar, às relações sociais, mais imersão no território virtual ao permitir que uma comunicação possa ser feita de forma instantânea e agrupada. Para Maffesoli, a técnica possibilitada pela rede não se apresenta como instrumento de alienação. Enquanto a noção de individualismo é cada vez menos presente por conta das novas formas de ajuntamento, Maffesoli vislumbra a consolidação de um novo estilo comunitário, no qual comunicação e técnica servem ao contato e ao cimento social (Silva, 2004: 44). Ele mesmo observa que o maciço desengajamento político notado em nossos dias não significa uma acelerada destruição, mas o indício de uma vitalidade renovada (Maffesoli, 1987: 85). A socialidade emerge, justamente, no espaço deixado pela morte do político, apresentando uma farta cadeia de fenômenos que Maffesoli considera como decorrentes da mesma “vitalidade” social. É importante salientar que seria uma aventura inglória buscar e classificar objetivamente todas as caracterizações relacionadas à socialidade. O mapa de análise que proponho responde apenas à demanda dessa breve pesquisa, enfatizando a possibilidade e a potência do conceito para a interpretação do fenômeno Twitter. A monografia está dividida em dois capítulos. No primeiro, entitulado “quem você está seguindo?”, pretende explicar a socialidade como meio de compreensão da ligação das pessoas na sociedade contemporânea e no ciberespaço, além de ambientar o panorama atual das pesquisas em microblog, redes sociais e a antropologia na rede. A pergunta dessa primeira parte serve para ilustrar que a socialidade está evidenciada nas relações sociais construídas pela internet e nos vetores de identidade e movimento que fazem parte do processo de agregação. O capítulo explica como funciona a ferramenta do Twitter, descreve a origem, apresenta a metodologia da pesquisa e a delimitação
9 Professor associado da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lemos foi orientado por Michel Maffesoli nas pesquisas da dissertação de mestrado e da tese de doutorado, títulos obtidos na Université Paris V (René Descartes), onde o francês atua até hoje.

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teórica da análise, reforçando a propriedade do uso dos conceitos de Maffesoli. Nessa primeira parte, iremos apresentar a noção de socialidade e verificar como a interatividade leva à apropriação social da tecnologia. O capítulo também mergulha nas questões das identidades da Internet problematizadas na pós-modernidade segundo a ótica de Maffesoli. Para fechar o campo do estudo, realizo também uma análise de como está disposta a relação do indivíduo com a rede, retomando os conceitos de teatralidade proposto pelo referido autor e de capital social presente nos estudos da CMC. No segundo capítulo, o estudo trata dos conceitos de presenteísmo, tribalismo e nomadismo dentro da esfera do Twitter. A pergunta “quem está seguindo você?” remete aos alicerces do envolvimento entre os personagens do ciberespaço e a movimentação dentro dele e considera que os três elementos levantados na monografia são cimento para a criação de agrupamentos. Para entender o presenteísmo, o trabalho recorre aos estudos de rito e de troca, o que traduz a banalidade das relações sociais e a forma como eles podem justificar uma finalidade em si mesmos. Com relação ao tribalismo na rede, ou neotribalismo, a pesquisa resgata questões da decadência da individualidade nas sociedades de massa a partir de uma nova noção associativa. Além disso, também considera quais as bases do conceito de tribo na atualidade e como ele pode servir para explicar as relações construídas na rede. Por último, o conceito de nomadismo diz respeito a uma percepção de que a rede serve como espaço transitório e de passagem para perder-se, ficar à deriva, insinuando que a pós-modernidade nasce da utilização dos novos caminhos de circulação e de movimentação no social. O último capítulo levanta exemplos para considerar algumas apropriações do social na utilização do Twitter. A ideia é caracterizar as principais formas de utilização da ferramenta e resgatar continuamente o diálogo dos conceitos de Maffesoli com as relações sociais contemporâneas ali presentes. Quando apresentou o conceito de tribalismo em “Tempo das Tribos”, Maffesoli fez questão de antecipar que a abordagem teórica, por tratar-se de algo novo, é frágil, incerta e cheia de imperfeições. Embora esteja disposto a gastar todo um repertório para defender os conceitos, deixa claro que é uma questão de prudência não se mostrar eficaz. Destaco, finalmente, que a pesquisa, ainda que recorra ao inventário das questões problematizadas em Maffesoli e que transcendem ao objeto deste estudo, nada mais é do que um mero esboço que se esgota nas limitações de um trabalho de conclusão de curso.

1.

QUEM VOCÊ ESTÁ SEGUINDO?

1.

Construindo o objeto

“Inventa-se um mundo cada vez que se escreve.”, 44 caracteres. A transfiguração do político, página 17.

O maior desafio de escolher o Twitter como objeto de pesquisa está em estudar um fenômeno em movimento. A troca incessante de mensagens e as recentes análises relatadas em jornais e sites especializados10 sobre as formas de apropriação dessa ferramenta, assim como a caracterização do perfil do usuário, têm subsidiado um rol inquietante de questões referentes à presença cada vez mais acentuada de novas práticas comunicacionais no cotidiano.
10 Ver referências.

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Outro fator que problematiza a dinâmica de processos do Twitter é a sua territorialidade pouco consistente. A ferramenta ocupa o ambiente virtual da internet, um local que não apenas simula a existência de um social no ciberespaço, mas onde o próprio social se realiza nele. No artigo O Ciberespaço como cenário para as ciências sociais, o pesquisador Mário José Lopes Guimarães Jr. caracteriza esse universo como resultado de um conjunto de diferentes tecnologias capazes de pulverizar ambientes de socialidade:

O termo “Ciberespaço” pode ser definido como o locus virtual criado pela conjunção das diferentes tecnologias de telecomunicação e telemática, em especial, mas não exclusivamente, as mediadas por computador. [...] O Ciberespaço, assim definido, configura-se como um locus de extrema complexidade, de difícil compreensão em termos gerais, cuja heterogeneidade é notória ao percebermos o grande número de ambientes de sociabilidade existentes, no interior dos quais se estabelecem as mais diversas e variadas formas de interação, tanto entre homens, quanto entre homens e máquinas e, inclusive entre máquinas. (Guimarães Jr., 1999, online)

A sociabilidade que Guimarães Jr. destacou no ciberespaço possibilitou a fecundação de dois processos que transformaram a rede virtual em um campo polissêmico, ou seja, repleto de sentidos os mais variados. O primeiro deles foi a liberação do pólo da emissão para a produção de conteúdo, observado pelo pesquisador André Lemos no artigo Podcast: emissão sonora, futuro do rádio e cibercultura. Lemos afirma que a estrutura em rede do ciberespaço desconstrói a hierarquia observada nos sistemas de emissão tradicionais de comunicação de massa. (Lemos, 2005) Outro ponto característico desse território, que dialoga diretamente com Lemos, é a análise feita pelo francês Pierre Lévy no livro O que é o virtual?, onde a internet é entendida como um meio de comunicação no modelo todos-todos (Lévy, 1996). Os dois fatores são premissas da CMC e garantem que haja, no ciberespaço, uma sociabilidade nos mesmos moldes que as relações sociais que ocorrem fora da rede, onde comunicação e sociabilidade são tidas como indissociáveis e decisivas para a compreensão de vários fenômenos presentes no cotidiano. Para Juremir Machado, estudioso da obra de Maffesoli, conceitualizar a comunicação pelo prisma maffesoliano significa, necessariamente, perceber o papel

crucial que desempenha não apenas na produção de laços sociais, mas, sobretudo, entendê-la como um laço social:

Michel Maffesoli tem mostrado que, ao contrário do imaginado, o principal da comunicação é o contato, o simples “colocar em relação”, a chamada função “fática”. Já na informação o essencial é o conteúdo, o valor operativo, funcional, de um dado fornecido a um receptor. Responder à questão “o que é a comunicação?” significa apostar numa leitura global de uma época fragmentada e marcada por tudo quanto é tipo de contato e de relações. Este é um mundo no qual tudo se toca, cruza, mistura, liga, confunde e faz fronteira. Mesmo os antagonismos podem ser complementares. (SILVA, 2004: 43-44)

Na obra de Maffesoli, o advento da tecnologia serve de cenário para possibilitar e reconhecer o surgimento de novas formas de relações sociais que emergem contemporaneamente. Para André Lemos, cujas pesquisas seguem o enfoque teórico de Maffesoli, a presença de tecnologias comunicacionais na cultura contemporânea deixa de ser um mero instrumento de racionalização e de separação para transformar-se numa ferramenta “convivial e comunitária” (Lemos, 1999: 9). No contexto do início da década, Lemos referia-se à ascensão da cultura eletrônica global e, dentro de todo o arsenal tecnológico, a internet, despontando como uma mídia de potencial surpreendente. Nos últimos dez anos, a sociedade assistiu ao surgimento de plataformas de interação que permitiram ao usuário explorar as páginas da web não apenas como lugares para visitação, mas como um território, onde o consumo e a produção de conteúdo são experimentados concomitantemente. (Zago, 2008: 2). Em 2004, para caracterizar o novo paradigma de interatividade que os dispositivos técnicos haviam disponibilizado na internet, foi cunhado o termo Web 2.0 em uma conferência da O’Reilly Media11. Em linhas gerais, trata-se de uma segunda geração de ferramentas que aprofunda a noção de web como plataforma de interação (O’Reilly, 2005), uma tendência que reforça a sociabilidade a partir da troca de informações e colaboração dos internautas com sites de serviços virtuais. Essa busca por desenvolver um ambiente mais dinâmico no ciberespaço colaborou com o deslocamento das relações sociais para o virtual. O inventor da World Wide Web, Tim Berners-Lee, argumenta,
11 O’Really Media é uma editora norte-americana de livros criada por Tim O'Reilly. Além da publicação de livros, desenvolve sites de Web e organiza congressos. Seus trabalhos são dedicados a área de computação.

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contudo, que não há uma diferenciação tecnológica muito grande pois a Web 2.0 utiliza componentes criados antes mesmo do surgimento da Web. Mas o interesse do atual estudo é diferenciar que há uma substancial mudança nas apropriações e na forma como desenvolvedores e usuários encaram essas mudanças. Os microblogs, como é o caso do Twitter, funcionam com ferramentas da família Web 2.0. Em um artigo onde define seu histórico e características, Gabriela Zago afirma que o microblog é uma aplicação da internet que mescla a rede social e as mensagens instantâneas. Partindo da ideia do blog, permite postagens em tamanho reduzido. A característica que o transforma em uma rede social é a de autorizar os usuários a criarem um perfil público na web, interagirem com outras pessoas e mostrarem sua rede de contatos (Recuero & Zago, 2009). Já a noção de mensagem instantânea vem do fato de que essas mensagens podem ser postadas não apenas de um computador ligado à internet, mas também a partir de outros dispositivos móveis, como o telefone celular, sendo publicadas no instante mesmo em que são enviadas. Lançado em 2006, o Twitter é uma plataforma de microblog que permite a postagem de mensagens de até 140 caracteres. Na internet12, os usuários criam perfis com endereços e elaboram o post respondendo à pergunta What are you doing?13. Para ler o que outras pessoas publicam, o usuário precisa estar seguindo, ou following14 os demais perfis. Dessa forma, as mensagens publicadas pelo outro usuário saem no timeline15, área do site para locar, cronologicamente, os tweets16 dos usuários e permitir que outras pessoas possam acompanhar as mensagens. As postagens enviadas por um usuário podem ser acompanhadas por qualquer outro, usando a mesma função following. Na página inicial de quem estiver sendo seguido, cada usuário que optar por seguir o perfil aparecerá no indicador followers17, conforme a Figura 1:
12 Embora a movimentação no Twitter seja majoritariamente pela internet, a limitação das mensagens em até 140 caracteres tinha o intuito de permitir que os usuários interajam utilizando aparelhos de conexão móveis, como o celular. 13 O que você está fazendo?, em português. 14 Seguindo, em português. 15 Linha do tempo, em português. 16 Tweet é a mensagem do Twitter. 17 Seguidores, em inglês.

Figura 1: Na página inicial de um perfil no Twitter, a pergunta “What are you doing?” com o box para redigir a mensagem. Logo abaixo, as últimas mensagens dos following dispostas cronologicamente; área também conhecida como timeline. Na direita, os indicadores de quantas pessoas o usuário está seguindo, os following, e o número de followers (seguidores) que acompanham as mensagens que o usuário publica.

Desde março de 2007, quando ganharam o Web Award18, o Twitter foi considerado “a mais recente e popular manifestação da ‘cultura snack’19, que privilegia a brevidade dos textos, a mobilidade dos usuários e as redes virtuais como entorno social emergente” (Orihuela, 2007, online). Para o pesquisador em cibercultura, Alex Primo, o sucesso do Twitter, com mais de 50 milhões usuários até o dia 1º de junho de 2009, deve-se a funcionalidades intrínsecas à Web 2.0. Para ele, mesmo com as deficiências da interface e da usabilidade, que se mostravam precárias no lançamento da plataforma, a abertura do sistema, outra característica da Web 2.0, permitiu que uma série de serviços

18 O prêmio WebAwards é uma competição internacional que seleciona, anualmente, os produtos de excelência em 96 categorias da indústria, avaliando websites e apontando tecnologias de ponta para o mercado. 19 A cultura snack é uma expressão amplamente utilizada na internet que faz referência ao consumo de conteúdo cada vez mais rápido e superficial e baseado em um mundo cada vez mais digital.

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fossem oferecidos por outras pessoas, o que garantiu a expansão da prática de twittar20 (Primo, 2009, online). A rápida expansão e sucesso atribuído à utilização do Twitter pode ser percebida como parte de um conjunto de práticas culturais contemporâneas que tendem ao agrupamento social, caracterizadas pela noção de socialidade proposta por Maffesoli. Para o francês, diferente da sociabilidade, mais identificada a uma resposta políticoeconômica das pessoas às demandas mundanas, a noção de socialidade remete às manifestações cotidianas nas quais o estar-junto caracteriza-se pela fluidez e imediaticidade dos encontros, enfatizando temáticas relativas ao cotidiano e suas banalidades através de redes de relações sociais sem necessariamente se organizarem tendo em vista uma ideologia comum, consensualidades, entre outros aspectos característicos das dinâmicas presentes nas formas sociais clássicas, como os movimentos sociais. Ainda que o Twitter tenha ganhado um caráter mais informacional com postagens que não necessariamente respondam à pergunta “o que você está fazendo?”, as práticas de troca e a propriedade instantaneísta e presenteísta das mensagens possibilitam dividir as banalidades e o cotidiano entre os participantes da rede social, buscando uma certa cumplicidade nos moldes que André Lemos apresenta no artigo A arte da vida, sobre a apropriação das webcams e dos blogs como diários pessoais:
A vida comum transforma-se em algo espetacular, compartilhada por milhões de olhos potenciais. E não se trata de nenhum evento emocionante. Não há histórias, aventuras, enredos complexos ou desfechos maravilhosos. Na realidade, nada acontece, a não ser a vida banal, elevada ao estado de arte pura. (Lemos, 2002, online)

Além das características acima citadas, convém chamar atenção para suas características tribais, no sentido que Maffesoli imprime ao termo, e seu caráter nomádico, considerando que os seus usuários transitam fluidamente sem fixação territorial no universo da cibercultura, explorando seus vários ambientes.

2.

Da socialidade à cibersocialidade

20 Os usuários do Twitter, para identificar a prática dentro da plataforma, criaram o verbo twittar, que significa mandar um tweet. Com a verbalização, surgiram expressões para designar todos os envolvidos com esse tipo de ação, como twitteiro (aquele que twitta) e twittosfera (ferramentas que envolvem o Twitter).

“O social é impulso e compromisso.”, 33 caracteres. A sombra de Dionísio, página 9.

Para Michel Maffesoli, dar conta da agitação do social que se configura no dia-a-dia da atualidade é garantir, como ele diz, o “futuro de nossas disciplinas” (Maffesoli, 1987: 102), referindo-se aos novos objetos de pesquisa que se apresentam na cultura contemporânea e aos desafios teóricos e metodológicos que se impõem nesses novos e diferentes encadeamentos. É nesse contexto mais amplo de inquietações que inscrevo a plataforma de relacionamentos do Twitter e onde, também, situo a internet como um lugar privilegiado para se observar as dinâmicas sociais contemporâneas. Recupero aqui o estudo desenvolvido pela pesquisadora Aglair Bernardo, que em sua dissertação de mestrado sobre um sistema de interligação múltipla por telefone, defendida em meados da década de 90, observou como as novas tecnologias de comunicação estavam cada vez mais se caracterizando pela fluidez, dispersão, por ajuntamentos pontuais e por um forte envolvimento emocional na construção de interações entre os usuários, caracterizando-as como “novas formas de socialidade” (Bernardo, 1994: 152), ao seguir o instrumental teórico de Maffesoli. Em linhas gerais, a socialidade é, para Michel Maffesoli, o coletivo das práticas cotidianas que estão fora do alcance social rígido, deslocando a perspectiva das relações para uma noção mais hedonista, tribal e enraizada no presente (Lemos, 1999: 13). Para ele, a emancipação teórica da noção de socialidade reside na sua diferenciação com a noção de sociabilidade. Enquanto a sociabilidade dá, ao indivíduo, uma atividade na sociedade, “a funcionar no âmbito de um grupo político-econômico”, a socialidade manifesta-se na representação dos vários papéis que o indivíduo atua tanto dentro da sua atividade profissional quanto no interior dos múltiplos grupos em que se socializa (Maffesoli, 1987: 108). A ideia de múltiplas identidades, distanciada da noção de imobilidade que persistiu durante a modernidade, dá o tom da urgência pelo momento presente, colocando ênfase na “potência subterrânea” vida social e nos infinitos desdobramentos do cotidiano em cada atuação. A importância de marcar o presente para Maffesoli baseia-se no fato de que existe, no agora, uma propulsão “que transcende as trajetórias individuais” e tornam-nas fração de um sistema ajustado, “sem que a vontade ou a consciência tenham nisso menor importância” (ibidem: 107).

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A investigação das manifestações de socialidade está no contato. A possibilidade de uma relação táctil cria, para Maffesoli, uma ambiência especial que dão indícios de uma cultura em formação. Para esclarecê-lo no âmbito corporal, o sociólogo considera a ideia de proximidade no contato e retoma a noção de proxemia21:

A proxemia remete, essencialmente, ao surgimento de uma sucessão de “nós” que constituem a própria substância de toda socialidade. Continuando, gostaria de fazer notar que a constituição dos microgrupos, das tribos que pontuam a espacialidade se faz a partir do de pertença, em função de uma ética específica e no quadro de uma rede de comunicação. (ibidem: 194)

A formação de microgrupos pela proxemia é, entretanto, o resultado de uma agitação presente no superficial das relações. O superficial, aqui empregado, vem caracterizar um vetor de agregação que a aparência tem na origem dos contatos. A superficialidade é, assim como a estética, uma forma de experimentar, sentir-se comum e, consequentemente, reconhecer-se. Um dos exemplos mais citados por Michel Maffesoli é a manifestação da moda como fator gregário e produtora de um cimento que coloca a pessoa no palco e na platéia – ator e expectador –, tornando o cenário, seja urbano ou virtual, um espaço comum a todos. A distinção latente entre o social e a socialidade também ocorre pela ambientação do movimento. Isso atesta o argumento de que o institucional perde o espaço na medida em que há uma multiplicidade e circulação cada vez maior dessas tribos, que garantem experiências coletivas “no ambiente imaginário, passional, erótico e violento do dia a dia” (Lemos, 1999: 13). A perda do referencial institucional talvez seja uma manifestação mais que evidente no Twitter, uma vez que o território de enunciação dos twitteiros - a plataforma - é o mesmo espaço para a participação de uma ampla variedade de usuários - pessoal, institucional, informacional, lúdico etc. Maffesoli afirma, nesse sentido, que “existe momentos de uma determinada sociedade que uma forma vai
21 Proxemia foi um conceito cunhado pela Escola de Palo Alto, na Califórnia, que na década de 60 reunia um grupo interdisciplinar de estudiosos, especialmente da psicologia e da sociologia – Como Gregory Bateson, Erving Goffman e Edward Hall. Estavam preocupados em estudar o que chamavam de “nova comunicação”, que considerava os diversos sistemas interpessoais, especialmente as distâncias construídas entre as pessoas, como parte daquilo que se compreendia por cultura. Contudo, cabe esclarecer que a proxemia no ciberespaço é uma condição que permitirá, como coloca Maffesoli, a sucessão de ‘nós’ que cria a socialidade.

exprimir

melhor

uma

determinada

cultura”

(ibidem:

13),

onde

a

forma

institucionalizada representava a modernidade e, na sociedade contemporânea, é a socialidade que se torna evidência. Para entender as bases de manutenção dos agrupamentos na sociedade contemporânea, Maffesoli supõe que, no laço social, exista uma religação que concretize as relações na socialidade em seu âmbito espiritual. Recorre, assim, ao sociólogo Émile Durkheim22 e seus estudos em torno do “divino social”, definição que designa a “força agregadora que está na base de qualquer sociedade ou associação” (Durkheim apud Maffesoli, 1987: 56) Embora retome a religião para relatar o envolvimento espiritual entre indivíduo e seus semelhantes na socialidade, o uso do termo está longe de significar a prática de uma sociologia da religião. Como ele mesmo coloca, a noção de religação limita-se a “permanecer na fluidez, na nebulosa do sentimento religioso” (Maffesoli, 1987: 57). Aceita-se, para influir no processo coesivo da religação, que os sujeitos estejam conectados para celebrar a própria vida e a vida alheia. Aplicar a ideia de socialidade na plataforma do Twitter requer considerar que a preocupação de Michel Maffesoli, ao cunhar o conceito, estava na investigação dos fenômenos a partir do que eles ‘são’ e não do que eles ‘devem ser’. Isso significa descrever as relações sociais a partir de sua forma, recorrendo à sociologia formista de Georg Simmel23, que influencia a análise da vida cotidiana por Maffesoli. No formismo, as formas de uma cultura servem para enquadrar as regras sociais. Isso quer dizer que a forma seria uma “matriz” que delimita o espaço social, presidindo o nascimento e a morte dos elementos que formam a vida em sociedade (Lemos, 1999: 12). No ciberespaço, a forma negocia, através do aparato técnico dos sites, os relacionamentos utilizados pelos usuários. Entender a relação entre técnica e social a partir da perspectiva da socialidade significa considerar que essas apropriações criam sociedades sociotécnicas. Neste
22 Os estudos sobre o fato social e a religião, de Émile Durkheim, representaram um legado importante não só para o estudo da religação de Maffesoli como inclusive para toda a sociologia moderna. 23 Georg Simmel foi um sociólogo alemão que atuou entre o final do século XIX e o início do século XX. Desenvolveu a sociologia formal, ou das formas sociais, influenciado pela filosofia de Kant, corrente muito forte na Alemanha da época. Nos seus estudos, distinguia a forma do conteúdo dos objetos de estudo do conhecimento humano. Com isso, pretendia possibilitar a compreensão da vida social, já que no processo de sociação (termo que cunhou para o estudo da sociologia) o invariante eram as formas em que os indivíduos se agregavam e não os indivíduos em si.

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estudo sobre a plataforma do Twitter, supõe percebê-lo como não apenas um suporte tecnológico, mas, sobretudo, como um espaço onde ocorre a interação de e entre sujeitos, deixando de ser intermediário para tornar-se intermediador. (Rifiotis, 2008). A CMC vira, desse modo, um espaço de conexão, por anular barreiras físicas e temporais e pela polissemia estética que vetoriza as relações cotidianas na socialidade ao apresentarem, na superficialidade da conexão, ou seja, na interface de um perfil do Twitter, uma aparência que fecunda a agregação. Conforme Lemos, o ciberespaço é o condensador das variadas formas técnicas, pois corresponde a um território que, pela sua forma e possibilidade de laços, sintetiza e potencializa a estrutura social de conexões tácteis (1999: 15). Essa relação entre técnica e social, enquadrada na produção social dentro da forma, é que vai nortear a concepção de uma cibersocialidade24, ou seja, uma socialidade onde proxemia e religação acontecem, necessariamente, imersas em e no universo técnico da rede mundial de computadores. Conforme Lemos:

A explosão da comunicação contemporânea deve-se aos novos media que vão potencializar essa pulsão gregária, agindo como vetores de comunhão, de "reliance" comunitária. Isso mostra que a tendência comunitária (tribal), o presenteísmo e o paradigma estético podem potencializar e ser potencializados pelo desenvolvimento tecnológico. Podemos ver nas comunidades do ciberespaço a aplicabilidade do conceito de socialidade tribal, presenteísta e estética, definido por ligações orgânicas, efêmeras e simbólicas. (ibidem: 16)

O pesquisador brasileiro argumenta que o ciberespaço não apenas considera o tribalismo e o presenteísmo proposto por Maffesoli na sociedade sociotécnica como, inclusive, retoma a discussão sobre como essa nova cultura midiática, ou cibercultura (Lemos, 1996; Lévy, 1999), altera os significados do cotidiano das pessoas. Tanto a proxemia quanto a religação ganham novos sentidos e posicionamentos. Isso significa dizer que o estágio de possibilidades tecnológicas proposto pela rede apresenta uma problematização tecnológica latente, ainda mais considerando que o conceito de cibersocialidade foi apresentado antes mesmo de existirem as plataformas interativas mais sofisticadas, como a Web 2.0.

24 O conceito de cibersocialidade, criado para delimitar a socialidade no ciberespaço, foi proposto por André Lemos no livro Cibercultura - Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea.

3.

Pós-modernidade e cultura em redes

“[...] é na esquina da rua que encontram, [...] aquele pequeno pedaço do mundo com que sonharam e para o qual imaterialmente se transportaram.”, 140 caracteres. Sobre o nomadismo, página 142.

A forma de comunicação proposta pela plataforma do Twitter, assim como também em outros microblogs, faz parte de um ciclo cultural próprio do início do século XXI. O caráter imediatista e presenteísta da pergunta “o que você está fazendo?” – não por acaso ela se apresenta no gerúndio –, o espaço de 140 caracteres para micronarrativas efêmeras e a estrutura de seguidores que tribaliza a sociedade contemporânea são produtos do clima dos tempos atuais. De um ponto de vista mais amplo, essa nova cultura, como define Manuel Castells no livro Galáxia Internet, tem a ver com a “construção coletiva que transcende preferências individuais, ao mesmo tempo em que influencia as práticas das pessoas no seu âmbito, neste caso os produtores/usuários da internet.” (Castells, 2003: 34). O mérito de construção de um novo tipo de cultura confere à rede mundial de computadores sociabilidades em dimensões distintas das já arranjadas pelos meios de comunicação até então, já que “quaisquer meios de comunicação ou mídias são inseparáveis das formas de socialização e cultura que são capazes de criar” (Santaella, 2004a: 64). Para Maffesoli, a socialização em forma de socialidade é a significância desse novo tempo. Uma das principais ponderações que situam a transposição para um estágio diferenciado é o politeísmo de valores das relações sociais que se apresenta nos dias atuais, que diluem a rigidez monoteísta e o projeto comum sócio-econômico da modernidade. Para Maffesoli esse politeísmo é uma característica da sociedade pósmodernidade (Maffesoli, 2004) que, conforme identifiquei neste estudo, está presente entre os usuários e no conjunto das relações construídas no Twitter, onde as ascendentes relações de troca diluem a propriedade do emissor de mensagens, permitindo um tipo de comunicação entre todos-todos (Lévy, 1996) , descentralizada e multifacetada. Essa caracterização da prática cultural no ciberespaço é chamada de cibercultura. O termo é amplamente discutido e polarizou o debate entre pesquisadores que acompanham o discurso de Lévy, entendedores da cibercultura pelo

23

prisma do nascimento de uma nova sociedade, e Paul Virilio25, que chama atenção para o teor de voyeurismo e controle social (Rifiotis, 2008)26 que se apresentam nesse universo. Ainda que considere relevante as considerações e preocupações apresentadas por Virilio, interessa-nos, aqui neste estudo, a cibercultura como a negociação entre técnica e social que vetoriza as situações cotidianas dentro do ciberespaço, conforme visto anteriormente. Esse escambo entre sócio e técnico traduz a visão pós-modernista de Maffesoli na cibersocialidade: houve a alternância da apropriação técnica do social, notoriamente moderna, para uma apropriação social da técnica, dando autonomia social e mobilidade para os usuários. Essa inversão da apropriação, considerada por André Lemos como o argumento de entrada para o pós-moderno, é uma manifestação recorrente nas novas tecnologias de comunicação. Desde o telefone celular até o Twitter, o caráter cada vez mais tecnicista da sociedade faz com que os aparatos sejam, do ponto de vista identitário, tão humanos que se aderem à aparência:

Fruto da geração X, a sociedade contemporânea aceita a tecnologia a partir de uma perspectiva crítica, lúdica, erótica, violenta e comunitária. Nesse sentido, as comunidades virtuais, os zippies, e os ravers mostram bem esse vetor de comunhão e de partilha de sentimentos, hedonista e tribal, enquanto os hackers, os tecnoanarquistas e os cypherpunks mostram a contestação do sistema tecnocrático, o desvio e a apropriação tecnológica. Aqui nós podemos compreender como, a partir da análise da socialidade contemporânea proposta por Michel Maffesoli, a cibercultura constitui-se como uma "cibersocialidade" ou seja, como uma estética social alimentada pelas tecnologias do ciberespaço. (Lemos, 1999: 19)

Muito embora a tecnologia tenha surgido em um processo de racionalização da sociedade, esclarece Lemos, a cibercultura busca novas formas de agregação eletrônica que, ao constituírem uma estrutura de rede, permitem a reversão do isolamento típico
25 Paul Virilio é um filósofo francês. Em linhas gerais, seu pessimismo em relação à internet se define pela consideração do autor de que a rede nos leva à perda da noção da realidade, quebrando distâncias e territorialidades, e ainda proporcionando uma quantidade absurda de informações. 26 A Associação Brasileira dos Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber) redigiu um documento no I Simpósio Nacional de Pesquisadores em Comunicação e Cibercultura (PUC/SP), em 2006, no qual conceitualiza o objeto nos seguintes termos: “[...] a cibercultura se apresenta como um fenômeno complexo e paradoxal, que desafia a reflexão teórica, em escala nacional e internacional. Entrelaçada com as principais características da pósmodernidade, ela retém, em seu bojo, aspectos da tradição e da modernidade; reescreve e reescalona a mundialização mercantil da cultura e da informação [....]” (Rifiotis, 2008)

da modernidade. Essa insistência progressista transformou o social em um ambiente asséptico, pois suas mais variadas instituições buscavam aniquilar as “imperfeições” da vida, como as emoções desmedidas, a violência e o imaginário simbólico (ibidem: 14). A tactibilidade generalizada da rede foi o que, inclusive, reverteu os valores hierárquicos dos militares norte-americanos, idealizadores da união de computadores em rede na década de sessenta do século passado27. O potencial de conexão e trocas fez com que ela nunca servisse apenas para o exército (Santaella, 2004a: 86), expandindo e multiplicando suas potencialidades e usos pela sociedade civil. Na constituição do ciberespaço, que levou a culturalização cibernética, as características de hipertexto e de interatividade são os propulsores da estruturação que inverteu a proposta espaço-temporal do real. O termo interatividade, além de marcar o permissivo na cibercultura, “constitui uma espécie de meta dos ideólogos da rede” (Guimarães Jr., 1997, online). A não-necessidade do tacto físico para executar as manifestações da vontade humana marca o ponto de diferenciação com as mídias anteriores. Já o hiperlink, como coloca Guimarães, aparece como a engenharia criativa da rede, ao objetivarem as atividades, antes subjetivas, de conexão. Contudo, embora aparente ser uma alteração de natureza quantitativa, adverte que é uma mudança qualitativa por oferecer como se dá a estrutura da rede:

[...] o leitor sempre relacionou o que estava lendo com o seu passado intelectual, suas lembranças e suas referências, construindo, em sua consciência, o seu hipertexto privado. O ciberespaço oferece uma nova forma de estabelecimento desta teia (e aqui o termo "teia" é utilizado intencionalmente: web), multiplicando o número de links possíveis e tornando, tanto os links quanto sua interrelação, externos à consciência do sujeito. (ibidem: online)

A externalização das práticas do sujeito na interface da CMC é que permite a manifestação presenteísta, nômade e tribal na rede. Isso só é possível porque, antes mesmo de concebida a rede na internet, a simples comunicação verbal e não verbal “já
27 Segundo pesquisadores em cibercultura, (Castells, 2003; Lemos, 1999; Santaella, 2004a), a internet nasceu na década de 60 com a busca do exército norte-americano em projetar um sistema de comunicação invulnerável a ataque nuclear. Tiveram, então, a ideia de unir os computadores em rede, permitindo que os dados ficassem disponíveis a todos os que tivessem acesso ao sistema conectado. Em 1969, um processador de mensagens foi construído em um microcomputador da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. A CMC começou a se ampliar em larga escala, nos Estados Unidos, entre pós-graduados e corpo docente das universidades do início dos anos 90.

25

constitui uma vasta rede que liga os indivíduos entre si” (Maffesoli, 1987: 113). O sociólogo sublinha que o potencial de agrupação, ou a “propensão de agrupamento” faz parte de um tribalismo presente na essência humana e que, dependendo da época, é mais ou menos valorizado. Em um período quando há o predomínio das ferramentas de interatividade e hiperlink, ferramentas latentes da cibercultura que favorecem a mobilidade do arranjo social, as redes retomam “as funções de ajuda mútua, de convivialidade, de comensalidade, de sustentação profissional e, às vezes, até mesmo de ritos culturais que caracterizavam o espírito da gens romana” (ibidem: 98). A concepção agregadora da rede torna-a compatível com a concepção de tribalismo de Maffesoli, ambas identificadas como sendo características marcantes da sociedade contemporânea. Para a formação dessas tribos, que seriam antes indivíduos dispersos e sem conexão, a comunicação assume a estrutura básica do laço social. Se considerarmos o ciberespaço como um território onde as pessoas navegam dispersivamente, ferramentas como Twitter criam o espaço-comum da cibercultura, cuja troca de tweets entre os usuários levaria à religação fundante da socialidade. A estruturação dessa rede em um universo neotribal por conta dos microcomputadores será aprofundada no estudo do neotribalismo em Maffesoli, no capítulo dois.

4.

Sujeito-usuário

“O culto do corpo, os jogos de aparência, só servem porque se inscrevem numa cena ampla onde cada um é, ao mesmo tempo, ator e espectador.”, 136 caracteres. O tempo das tribos, página 108.

É importante frisar que a rede só existe graças ao conjunto de usuários que estabelece conexões de troca. No Twitter, a problematização das manifestações desse sujeito que se conecta, conhecido como twitteiro pelos nativos desse universo, passa pela percepção de que a identidade desse usuário é sempre provisória, dependente dos

perfis que segue e da comunicação que estabelece entre outros integrantes da rede. Como a movimentação de mensagens na plataforma é extremamente dinâmica, os dispositivos de follow e unfollow são frequentemente utilizados para satisfazer as demandas efêmeras do internauta, como acompanhar alguém que esteja cobrindo algum evento ou abdicar de receber as mensagens de um usuário cujo vínculo foi diluído. O twitteiro, ao selecionar os twitters que irá acompanhar as postagens, cria um mosaico de perfis que abastecem a leitura, localiza os caminhos a serem navegados pela internet e manifesta o contato comunicativo, unidade fundante da rede. O usuário desse ciberespaço, ao confeccionar um mosaico de conexões, assume a postura de um sujeito fragmentado e desprendido da ideia de identidade unificada e estável, típico da noção de modernidade. O teórico Stuart Hall, em seu artigo Identidades culturais na pós-modernidade, considera que esse processo emerge nas sociedades pósmodernas. Nesse momento, os usuários são compostos por várias identidades que, algumas vezes, podem se apresentar contraditórias e não resolvidas:

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar, ao menos temporariamente. (Hall, 2000: 12)

A suspensão das identidades culturais, afirma Hall, é “o produto desses complicados cruzamentos e misturas culturais que estão cada vez mais comuns num mundo globalizado” (Hall, 2000: 88). Nesse sentido, o ciberespaço tornou-se um território cuja possibilidade espaço-temporal da rede reinventa o processo de identificação. Em um estudo sobre a construção de comunidades no Orkut 28, Jean Segata observa como a fragmentação e a presença de identidades contraditórias em um mesmo usuário permitem a criação de perfis falsos, ou fakes, que realizam desejos “que em outros espaços não são permitidos ‘ao eu’” (Jauréguiberry apud Segata, 2008: 62), e são interpretados pelos usuários nessa nova realidade como a experimentação de uma ilusão. O argumento alerta para o movimento das identidades manifestado de várias
28 Na dissertação Lontras e a Construção de Laços no Orkut, Segata faz uma etnografia de algumas comunidades do Orkut e estuda como estão dispostas as possibilidades de laço pelo viés antropológico. O mais interessante é que o personagem mais importante da investigação de Segata é um fake, responsável pela movimentação de mensagens e relações nas comunidades pesquisadas.

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formas também no Twitter. Acompanhar, por essa rede social, os amigos e dividir endereços eletrônicos, por exemplo, simulam um tipo de identidade muito próximo àquele da conversa informal em uma situação real do cotidiano. Uma outra situação onde usuários criam personagens fakes de celebridades, como é o caso dos perfils @vitorfasano29 e @hebecamargo30, com mensagens contendo o cotidiano simulado e opiniões que criam relações lúdicas com os estereótipos das celebridades. Um tweet de @hebecamargo, por exemplo, dizia “Estarei amanhã na Campus Party pra dar um oi pras gracinhas e depois no desfile da Neon no Fashion Week”31, empregando chavões dos artistas – no caso o vocativo ‘gracinha’ – para produzir um código de pertencimento à celebridade em questão. O perfil fake, nesse sentido, é apenas um exemplo, entre tantos outros, das múltiplas identidades assumidas no Twitter. De fato, o ciberespaço tornouse um possibilitador de outras vivências, motivando as mais variadas manifestações identitárias dos usuários e assumindo a contradição sem abrir mão de desejos. A estética das máscaras do ciberespaço é comumente conhecida por avatar. O termo é utilizado para identificar o perfil de um usuário, como é o caso da rede social Twitter, cuja página de cada usuário contém o nome do proprietário, o espaço para uma pequena imagem, a localização, a descrição do usuário em 140 caracteres e um link de conexão com algum endereço eletrônico – no caso dos twitters pessoais, costuma-se postar o endereço do blog; em instituições, coloca-se, com freqüência, o endereço virtual com mais informações sobre o dono do perfil. A origem do avatar tem tudo a ver com o transitório do sujeito no ciberespaço. Apropriado do sânscrito, refere-se originalmente à ideia indu de uma deidade que desce à Terra em forma encarnada (Santaella, 2004a: 121). Da mesma forma, um usuário apropria-se dessa encarnação para transitar em um mundo paralelo, ou virtual, o ciberespaço. Por isso é considerada uma espécie de máscara que, na rede, assume a fragmentação e o trânsito das identidades:

O avatar pode ser visto como uma espécie de máscara, que se pode pôr e tirar, como no carnaval, para compor
29 http://www.twitter.com/vitorfasano.A arroba (@) antes do nome indica uma resposta ao usuário designado na sequência. Também é costumeiramente utilizado em menções aleatórias ao nome ou simplesmente para indicar o nome de algum perfil. 30 http://www.twitter.com/hebecamargo 31 Disponível em: http://twitter.com/hebecamargo/status/1140540922. Acesso em 29 de maio de 2009, às 18h.

identidades múltiplas e assumir novos papéis, muitos deles não aceitos seja pela sociedade, seja pelo próprio mascarado. [...] No mundo dos computadores, a máscara representada pelo avatar cumpre um papel mais propriamente psicanalítico do que político: ela exprime uma necessidade de dar vazão a identidades múltiplas e muitas vezes reprimidas, dissimuladas amiúde em projeções e metáforas de natureza freudiana, sem que isso signifique necessariamente uma crítica dos valores e dos costumes. (Machado, 2006: 220).

Ainda que seja considerada a unidade mínima de uma rede, é imprescindível notar que o usuário só constrói um perfil para que haja a visualização e a construção imaginada por um outro usuário. Isso confirma aquilo que Maffesoli vai apresentar no livro Sobre o Nomadismo, que será discutido mais profundamente no próximo capítulo, de que “o sujeito não existe a não ser na relação (nas relações)” (Maffesoli, 2001: 30). A subjetividade apresentada em forma de laço reitera a posição da comunicação entre usuários como elemento fundante de uma socialidade, argumento central deste trabalho para discutir determinadas práticas sociais na sociedade contemporânea. Vale insistir que, diferente da característica do social, onde o indivíduo manifestava-se “no âmbito de um partido, de uma associação, de um grupo estável”, a socialidade anuncia que a pessoa:

Representa papéis, tanto dentro de sua atividade profissional quanto no seio das diversas tribos que participa. Mudando o seu figurino, ela vai, de acordo com seus gostos (sexuais, culturais, religiosos, amicais) assumir o seu lugar, a cada dia, nas diversas peças do theatrum mundi. (Maffesoli, 1987: 108)

A discussão sobre a teatralidade em Maffesoli compreende o politeísmo de valores presente na sociedade contemporânea, já abordado anteriormente. A multiplicidade das máscaras pressupõe que há uma flexibilidade de valorações. “Atuar”, ou seja, desempenhar os mais variados papéis dentro da “teatralidade cotidiana” permite que possamos ex-ister32, sem deixar de lado os imperativos de uma moral ou de uma racionalidade implacável (Lemos, 1999: 1). O declínio do institucional também fornece subsídios para justificar o politeísmo de valores da sociedade contemporânea, remetendo à fuga de sistemas morais rígidos.
32 Aqui, Maffesoli opta por grafar a palavra francesa exister como ex-ister, separada para lembrar sua etologia: um "sair de si”, impermanência, mudança contínua.

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Como já foi argumentado, a religiosidade, por seu poder coesivo, tem relação íntima com a teatralidade. Com relação ao usuário, é importante ressaltar que essa religiosidade integra os sistemas comunicacionais tecnológicos, pois representa uma extensão da identidade do avatar, oferecendo uma relação mais concretizada com aqueles que dividimos dados, conversas, fotos ou, até, vídeos na internet. André Lemos considera que “os adeptos das webcams e os diaristas digitais querem participar, com o que têm, do fluxo mundial de informação. Trata-se, é certo, de uma religiosidade social que me faz aderir ao outro” (Lemos, 2002, online), comungando experiências. Tendo em vista essa aderência ao outro, um fenômeno que vale observar é a audiência bastante específica. Na introdução de Cibercultura, Pierre Lévy salienta que o ciberespaço crescia graças ao movimento internacional de jovens “ávidos para experimentar formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem” (Lévy, 1999: 11). De fato, no Brasil, os usuários do Twitter tem uma média de 26,4 anos, e 25% diz ter 21 anos33. A manifestação de um usuário presenteísta e menos preocupado com o projeto progressista da modernidade exprime-se, segundo Maffesoli, de forma clara na juventude. Para ele, “a energia juvenil deixou de ter como objeto a reivindicação, o projeto da história. Ela se manifesta e se esgota no instante”34. Uma última consideração que precisa ser feita sobre esse sujeito-usuário é o estudo sobre o capital social dos internautas. Refere-se ao conjunto de recursos coletivos associados a uma rede de atores sociais, valores que fazem com que um ou outro usuário tenha maior ou menor poder dentro da rede. Nesse ponto, é importante salientar que as pesquisas relacionam o acesso à informação e o estabelecimento de conversações entre os atores como os principais fatores relacionados à apropriação do Twitter. (Java et al., 2007). O capital social é o valor desses aspectos que fazem com que os atores atinjam seus interesses, como conseguir alastrar uma informação pelos retweets35 ou somar o maior número de followers para que consiga uma amplificação
33 Dados da pesquisa de Raquel Recuero, ver referências em Pesquisa sobre o Twitter I. Em um questionário virtual feito pelo Twitter, Recuero obteve 886 respostas e descobriu que 78,6% dos respondentes tinha entre 20 e 30 anos. 34 Reportagem Michel Maffesoli lança na Bienal do livro em que analisa o dualismo, da Folha Online. Ver referências. 35 O retweet é uma função utilizada para identificar que o tweet publicado foi escrito por um outro perfil que não o que twitta. Nas mensagens, fica sinalizado um retweet quando se escreve RT ou via anterior ao nome do usuário que publicou inicialmente o texto.

melhor na emissão da mensagem.

Entre os valores identificados, Raquel Recuero

classifica de acordo com os fatores de agregação, conversacional e informacional. Entre os conversacionais, aparecem suporte social, laços sociais, reputação e visibilidade. Para os twitters informacionais, Recuero considera o acesso à informação, reputação, visibilidade, popularidade e conhecimento (2009c: online). Embora não seja o foco desse estudo levantar a usabilidade desses valores de capital social no estudo da socialidade do Twitter, considero notável a semelhança do ciberespaço com a metrópole, ambos tão teatrais e com as mesmas condições de agregamento, conforme a análise maffesoliana.

2.

QUEM ESTÁ SEGUINDO VOCÊ?

1.

O rito e a troca no presente

“[...] as massas se conduzem pela sedução e não pela argumentação.”, 58 caracteres. A Conquista do Presente, página 141.

31

Seria uma aventura inglória enumerar todas as caracterizações relacionadas por Maffesoli em sua definição de socialidade e associá-las ao Twitter. A herança teórica do autor, tomado como referência principal neste estudo, trata de um amplo e complexo conjunto de noções sociológicas cuja bibliografia apresenta e dialoga com vários conceitos36 que se completam e se justapõe, derivando em algumas questões já abordadas anteriormente. Contudo, o mapa proposto nessa segunda parte, pretende investigar as evidências de práticas presenteístas, tribais e nômades no tipo de socialidade que se constrói no Twitter. Como já visto, enquanto nos meios de comunicação de massa a troca de mensagens depende de uma estrutura física de alto custo e com distribuição na forma um-todos (Lévy, 1996), as mensagens que transitam pela rede social são instantâneas e direcionadas pela vontade do emissor. A pergunta “O que você está fazendo?” remete a uma idéia de tempo, marcado pelo presenteísmo e instantaneidade dos encontros que, segundo Maffesoli tem sido uma forte característica das formas de socialidades presentes na sociedade contemporânea, cuja efemeridade produz a formação de novos arranjos sociais:
Com o auxilio da tecnologia, como por exemplo nos reagrupamentos favorecidos pelo Minitel37, é no quadro efêmero de tal ou qual ocasião específica que um certo numero de pessoas vai se (re) encontrar. Essa situação pode suscitar relações contínuas, ou não. O que ela não deixa de fazer, em todo caso, é criar “cadeias” de amizade que, segundo o modelo formal das redes, analisado pela sociologia americana,
36 Segundo Juremir, Maffesoli, ao longo de sua obra, relaciona a socialidade com “tribalismo, religação, estarjunto, efervescência social, ideal comunitário, orgiástico, dionisíaco, conjunção social, comunhão, laço social, cultura do sentimento, nomadismo, imaginário (que para ele é sempre social), contraditorial (as terminações em “al” significam para ele interações orgânicas, intensas e profundamente sentidas em comum), “coincidentia oppositorum”, jogo social, formismo, sinergia, harmonia conflitual, diversidade, equilíbrio de antagonismos, aparência, teatralidade, estilo, vitalismo, aura, ética do estético, socialidades eletivas, sinceridades sucessivas, redes, politeísmo, proxemia, pluralismo, cimento social, cola do mundo, empatia, preeminência do todo, nomadismo comunitário, pluralidade da persona, conflito estrutural, jogo duplo, fusão, atração, instante, presenteísmo, trágico, vida social, vivido, senso comum, divino social, força imaginal, identificação (fluida, em oposição à rigidez da identidade), subterrâneas, “nós” fusional, “ambiência”, comunhão virtual, compreensão, hedonismo, relativismo, narcisismo, festa, potência, “carpe diem”, barroco, tato, razão sensível e hibridismo” (Silva, 2004: 44-45). 37 Minitel é um serviço da telefonia francesa anterior à internet, mas que não chegou a se desenvolver além das fronteiras do país, provavelmente pelo enorme predomínio mundial do concorrente mais moço. Dentro da França, porém, o serviço Minitel continua a funcionar, embora, aparentemente, sem perspectivas de um desenvolvimento maior. Boa parte das pesquisas sobre a influência da tecnologia na sociedade contemporânea de Maffesoli nasceram das análises de como o sistema criava um novo tipo de relação entre as pessoas.

permitem uma multiplicação das relações através, apenas, do jogo da proxemia: alguém me apresenta a alguém que conhece outro alguém etc...” (Maffesoli, 1987: 35)

No livro A Conquista do Presente, Michel Maffesoli sugere que o cotidiano assume o papel de protagonista na composição de relações sociais. O foco na aleatoriedade das estruturações põe em crise as prudências racionalistas e as contabilidades econômicas ou políticas. Utilizador avisado das metáforas, o francês refere-se ao declínio da modernidade e à ascensão da pós-modernidade ao relacionar o primeiro com a figura de Prometeu38 e o segundo com Dioniso, “outro modo de sublinhar a importância do cotidiano”, entendendo-o como lugar/tempo estratégico da precipitação e organização e desorganização do social. A análise coloca o pensador ao lado dos otimistas com relação às novas manifestações simbólicas do contemporâneo. Para ele, ao lado de uma representação homogênea e globalizante do dado social, “existe uma socialidade multiforme, subterrânea e tenaz que é vivida num trágico mais ou menos consciente”. É interessante assinalar que a prática presenteísta de transcrição daquilo que acontece no cotidiano dos usuários tem causado perplexidade por conta do conteúdo banal, impacientes com a necessidade dos tuiteiros de lerem “mensagens curtas sobre aquilo que uma pessoa comeu no café-da-manhã”39. O alerta metodológico de Maffesoli menciona, lembremo-nos, que o objeto social deve ser observado com é, e não como “deve ser”. O teórico evidencia que essa crise do referencial institucionalizado é a tendência contemporânea de experimentação do presente. A disposição dos diálogos entre twitteiros que dizem o que estão fazendo necessariamente se desprende da linearidade, respeitando nós de uma rede sem centralidade. A multiplicidade de situações possíveis é representada, em Maffesoli, pela referência a Dioniso, que mostra a possibilidade de uma duplicidade de um Deus que potencializa uma sociedade orgiástica, destruidora e fundadora de si ao mesmo tempo, em referência ao deus da desordem e da fecundidade agrária:

À imagem de Dionísio, deus de múltiplas faces, o orgiasmo social é essencialmente plural, e a análise que dele pode ser feita remete a uma diversidade de quadros que, cada um à
38 Entre suas origens etimológicas, Prometeu significa “o pensamento que prevê”. É tomado por Maffesoli para identificar o ideal progressista do homem, relacionando-o com a racionalidade e o projeto de modernidade. 39 Da reportagem Putting Twitter’s World to Use, do The New York Times. Ver referências.

33 sua maneira mas sob ângulos distintos, retomam algumas das grandes características desta forma. (Maffesoli, 1985: 15-16)

A metáfora orgiástica de Dionísio caracterizaria, deste modo, a manifestação multifacetada do presente. Maffesoli fala de dois fatores que a compõem: a consideração de que o indivíduo e o social tendem a se dissolver no confusional; e a anomia que permite a uma comunidade estruturar-se ou regenerar-se. Tanto a confusão quanto a estruturação levam à vitalidade do espaço por conta da socialidade que cimenta as relações, capaz de formular e reformular conforme a prioridade social. No Twitter, as características da Web 2.0 vingaram uma estrutura capaz de dar aos usuários a possibilidade de germinar e destruir, o que, segundo Alex Primo, foi determinante para que houvesse uma apropriação massiva da ferramenta:

O sucesso do Twitter pode ser explicado por duas características básicas da Web 2.0: arquitetura de participação e inteligência coletiva. Apesar das deficiências da interface e da usabilidade do Twitter, a abertura de seu sistema permitiu que terceiros oferecessem dezenas de serviços que para a expansão da prática do twittar. (Primo, 2009, online)

Pelo presenteísmo, a pluralidade de valores, postulada pela alegoria de Dionisio, garante a celebração do cotidiano por conta da incompletude dos indivíduos que constituem a sociedade. “Aquilo que é completo, perfeito, não tem menor necessidade de alteridade”, sublinha Maffesoli para demonstrar que, no politeísmo, a significação se dá na prática da existência. Para ele, a incompletude só é suprida pela troca, um dos conceitos chave para a compreensão de como a paixão e o desejo agem no presente de modo a instigá-los à comunicação. (Maffesoli, 1984: 37). A socialidade no ciberespaço, por exemplo, só existe com a troca, com a movimentação de um perfil e sua estruturação – construção de um capital social (Recuero, 2009c, online), através da montagem de um mapa de seguidores, visibilidade para incrementar seguidos – e é diretamente relacionada à quantidade de trocas de mensagens na plataforma. Ainda no viés da troca como forma de suprir uma incompletude, vale lembrar o que expressava Lorenz Von Stein40, para quem o indivíduo é um ser “infinitamente limitado”. Maffesoli entende que, para dar conta da limitação social e natural, constitui40 Lorenz Von Stein foi um economista, sociólogo e educador alemão do século XIX.

se a troca com os outros para que coexista uma comunidade. Qualquer espécie de relação é garantida com uma comunicação que, conseqüentemente, leva a uma troca material ou não. No caso, o Twitter estabelece, pelos tweets, direct messengers e replyes uma troca que perpetua a coesão social entre os usuários. Evidentemente que, no caso deste objeto de pesquisa, considero um terreno ocupado por uma contingência limitada de usuários que efetuam essa troca. Assim, é preciso esclarecer que a comunidade de usuários da rede social deriva de sua audiência específica e as trocas entre usuários são relativas às especificidades do público que utiliza a ferramenta. Segundo Recuero, a apropriação no Twitter é dada majoritariamente por pessoas que já estão online41 (Recuero, 2009b), que dominam as propriedades da rede social e que trabalham com webnarrativas, como é o caso dos blogueiros. A importância de pontuar o público específico vem do pressuposto de que é dele a autoria das senhas e dos sinais de reconhecimento que permitem a comunicação de base. Nele, há um “discurso paralelo ao discurso político, científico, racional e que, através dos rumores, dos mexericos, dos fantasmas, traduz a angústia do tempo que passa” (Maffesoli, 1984: 67). Independente da tribo em questão, o fator finito do tempo retoma a iminência da morte, por isso o cotidiano é repleto de ritos repetitivos, “mecanismo das criações minúsculas, essas situações da vida cotidiana, é, nesse sentido, um domínio ideal onde se pode ver a repetição tomar-se criação ou recriação” (ibidem: 162). A temática do presente não possui outra função senão a de lembrar a forma invariante que assume o instante, tornando-o uma situação dinâmica, intensa e cíclica:

[...] o tempo vivido social e individualmente é o da repetição, da circularidade. [...] o que importa para o nosso propósito é que essa ideia da repetição ou do eterno retorno volta a ser encontrada, de modo mais ou menos preciso (mais ou menos verbalizado), em várias concepções populares. [...] Numa perspectiva linearista da história, convém de fato “libertar-se” da imperfeição; no retorno cíclico do mesmo, basta usar de vários modos a astúcia frente às múltiplas formas do mal, e isso porque, no primeiro caso, lidamos com um sentido, uma direção; no segundo, existem ritmos, tempos mortos, mas o que predomina acima de tudo é o non-sense e a incoerência. (ibidem: 22)

41 Pesquisas de Recuero apontam que, diferente do Orkut, rede social que se tornou uma porta de entrada para a internet, o Twitter é um complemento para ferramentas já existentes (Recuero, 2009b, online).

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A repetição leva ao costume das práticas cotidianas. Essas ações, expressões de uma sensibilidade coletiva, permitem o ex-tistir no cotidiano (1987: 38). Maffesoli cita ações banais, como jogar conversa fora e falar de assuntos aleatórios, práticas frequentes nas redes sociais da internet, como responsáveis para o “sair de si” e, através disso, cimentar a grupalização dos indivíduos, ou o tribalismo contemporâneo.

2.

Neotribalismo na rede

“Não existe na cidade nenhum grupo cujas lealdades não sejam múltiplas”, 70 caracteres. O Tempo das Tribos, página 204.

O robusto interesse de Michel Maffesoli em alcançar a compreensão dos arranjos sociais no cotidiano resultou em uma contribuição elementar para a análise do agrupamento nas redes de conversação. No livro O Tempo das Tribos, o autor propõe um método teórico para interpretar em que circunstâncias esse agrupamento apresenta-se como um tribalismo na sociedade contemporânea. O termo serve para denotar o processo de identificação entre os indivíduos “que possibilita o devotamento graças ao qual se reforça aquilo que é comum a todos” (1987: 23). O ponto de partida para essa proposição é a observação, por parte do autor, da multiplicação de aldeias acentuada pelas megalópoles, resposta a um espírito do tempo no qual o território tornou-se um espaço para diversas manifestações de proxemia e religação na sociedade. Essa forma específica assumida pela socialidade está envolta de uma nebulosa “afetual”, um sentimento que dá características de fluidez e leva a ajuntamentos dispersos e pontuais. Para exemplificar essa nova disposição, Maffesoli recorre à descrição de Jean Baudrillard das auto-estradas norte-americanas e de seu tráfego, onde há uma “regularidade de fluxos que põem fim aos destinos individuais” (Baudrillard apud Maffesoli, 1987: 107)42. A investigação da motivação, do “vaivém massas-tribo” caracterizado pela fluidez, sugere a existência de uma força capaz de transcender as trajetórias individuais e levar a um entrelaçamento cuja união entre indivíduos dispensa o projeto de modernidade e sua noção de futuro e progresso. O tribalismo leva em conta a aproximação dos indivíduos pela vetorização da aparência das relações, fator gregário de socialidade. A estética que funda essa
42 Jean Baudrillard foi um sociólogo e filósofo francês morto em 2007. Para ele, a “única verdadeira sociedade, (o) único calor aqui, (é) o de uma propulsão, de uma compulsão coletiva” (Maffesoli, 1987: 107)

agregação, no entanto, deve ser entendida em um sentido mais amplo que o visual, considerando que todas as sensibilidades coletivas – emoção, sentimento, mitologia, ideologia etc. – criam uma aura que mobiliza sentimentos e emoções. A “aura” a qual se refere Maffesoli está contida na nebulosa afetual envolta nas relações, ideias que remetem à tendência orgiástica da sociedade contemporânea já mencionada no trabalho. O autor considera que esse tribalismo sempre existiu e que, conforme as épocas, é valorizado como um vetor diferente:

Como a aura teológica na Idade Média, a aura política no século XVIII, ou a aura progressista do século XIX, é possível que se assista agora à elaboração de uma aura estética, onde se reencontrarão, em proporções diversas, os elementos que remetem à pulsão comunitária, à propensão mística ou à perspectiva ecológica. [...] Cada um, a suma maneira, dá conta da organicidade das coisas, deste “glutinum mundi”, que faz com que apesar da (ou por causa da) diversidade um conjunto constitua um corpo. (ibidem: 20)

A aura estética43 refere-se, no contemporâneo, a um sentimento capaz de ser partilhado em numerosas situações e atitudes sociais. Ao gerar a prática tribal, a aproximação “recorda a importância do afeto na vida social” (ibidem: 138), justamente por serem agrupações pontuais que celebram o presente, vislumbrando a angústia do tempo que passa. O “interesse no aqui e no agora”, de Walter Benjamin 44, é posto como pano de fundo para o “estar-junto à toa”, condição que, no paradigma estético, é definitivo para a compreensão do movimento das massas-tribo. O que garante, segundo Maffesoli, a perpetuação ou, pelo menos, a manutenção temporária desses grupos é o costume, ou o ethos, formado pelas consequências sociais da aproximação estética. Em outras palavras, o pesquisador considera a criação dessas tribos por uma relação entre ética e estética que se dá da seguinte forma: “A sensibilidade coletiva, originária da forma estética, acaba por construir uma relação ética” (ibidem: 29). Importante antecipar que, como pontua Maffesoli ao falar sobre a formação dos grupos contemporâneos, a relação de socialidade não leva em conta a busca de uma
43 Maffesoli entende a estética como a faculdade comum de sentir, de experimentar 44 Enquanto Simmel contribuiu fortemente para a herança formista de Maffesoli, Walter Benjamin é outra fonte de inquietantes discussões para o sociólogo. Uma das principais discussões retomadas por Maffesoli é a importância do agora nas sociedades contemporâneas.

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finalidade social. A fragmentação plural dionisíaca vislumbra um tribalismo que nunca encontrará uma única via identitária:

Talvez fosse melhor observar que eles não têm uma visão daquilo que, em termos absolutos, deve ser uma sociedade. Cada grupo é, para si mesmo, seu próprio absoluto. Esse é o relativismo afetivo que se traduzo, especialmente, pela conformidade dos estilos de vida. (ibidem: 125)

Isso explica como seria possível a criação de várias sociedades eletivas, princípio estruturador dos grupos que se baseia na atração e na repulsa dos indivíduos. A dimensão constitutiva dessa sociedade é afetiva, papel já reconhecido pelo sociólogo Émile Durkheim e que ainda pode ser aplicada à análise das redes contemporâneas. Da mesma forma que a religação, também balizada pelos estudos sociológicos durkheimianos, a sociedade eletiva segue como complemento à compreensão da socialidade por integrar “uma boa parte de comunicação, de fruição do presente e de incoerência passional” (ibidem: 146), fatores que induzem à repulsa e à atração. No desenvolvimento tecnológico, essa ambivalência cabe perfeitamente. A prática neotribal de formação de uma rede de seguidores no Twitter apóia-se na manifestação múltipla de integração e na recusa afetiva. Embora o ato de eleger quais perfis o usuário vai ou não seguir aparentemente seja a mais próxima metáfora dessa ambivalência atraçãorepulsa, várias outras ações fornecem evidências de que a rede social assemelha-se fortemente à sociedade eletiva de Maffesoli: a escolha na leitura de mensagens em perfis aleatórios, os posts de mensagens direcionados a outra pessoa, o ato de retwittar algum tweet que o usuário considera interessante e deseja dividir com a própria rede etc. Os exemplos indicam que o sentimento de pertença a um grupo eletivo pode ser reafirmado pelo ciberespaço. Mesmo dotado de uma dimensão de temporalidade diferenciada, como já mencionado no capítulo anterior – o que, evidentemente, impulsiona a efemeridade dos encontros pontuais –, o ciberespaço conta com um território recheado de circunstâncias próprias para a agrupação. A evidência de que o espaço é determinante para a socialidade leva Maffesoli a considerar que o lugar se

torna laço45. Dotado de uma estética própria que vetoriza as agregações, o território serve para a tribo marcar a proximidade e fundar as religações. O ideal comunitário de bairro ou aldeia age, nesse sentido, mais por contaminação do imaginário coletivo do que por persuasão de uma razão social (ibidem: 29); e já que a existência do social só é possível por conta da existência de uma aura específica, o território torna-se a cristalização dessa aura. (ibidem: 189). Seguindo o conceito maffesoliano de tribo, no qual há um ‘devotamento graças ao qual se reforça aquilo que é comum a todos’, a interface46 do ciberespaço parece ser o termo que mais se aproxima da ideia de território no ciberespaço, pois é o local da troca nas relações sociais. É importante observar, entretanto, que a ressignificação de distância e de temporalidade transformam a interface em objeto de extrema importância para a análise na socialidade. Em reportagem no programa Fantástico, da TV Globo, veiculada no dia 19 de abril de 2009 sobre redes sociais, a antropóloga Vanessa Pereira afirma que a internet ampliou, de uma maneira nunca antes vista, “a possibilidade de escolha por afinidade” dos laços entre pessoas. Contudo, para evitar divagações mais extensas, limito-me a considerar, aqui, que essa afinidade é a resposta à sublimação da aura específica. É na interface que ocorre a sublimação da aura específica. Em outras palavras, pode-se dizer que, no Twitter, assim como em outras redes sociais, a interface é o território. Uma característica maffesoliana de tribalismo que se apresenta de forma contraditória no Twitter é a lei do segredo. Para o teórico, em qualquer agrupamento há um mecanismo de proteção frente ao exterior, ou seja, frente às formas impostas de poder, que se manifesta na criação de segredos que fortalecem o grupo. Maffesoli lembra a máfia como exemplo latente de como o segredo age na manutenção da unicidade tribal. Para ele, “as práticas do silêncio são, antes de tudo, orgânicas. Quer dizer: o inimigo tem menos importância do que o laço social que elas tecem” (ibidem: 132). O caráter público47 das contas do Twitter parece, entretanto, não acompanhar a ideia de
45 No original, há um jogo das palavras francesas lieu e lien, que significam lugar e laço, respectivamente. 46 Aqui, é tomado o conceito de Lúcia Santaella, para quem “uma interface ocorre quando duas ou mais fontes de informação se encontram face-a-face, mesmo que seja o encontro da face de uma pessoa com a face de uma tela. Um usuário humano conecta com o sistema e o computador se torna interativo.” (Santaella, 2004a: 91) 47 O usuário tem a opção de deixar a conta aberta ou fechada. Nesta última, permite que apenas os perfis que a pessoa segue possam visualizar a conta. Não foram encontradas estatísticas com a porcentagem de cada tipo de perfil, mas, aparentemente, boa parte dos proprietários mantém-no aberto.

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secredo. Em primeiro plano, nota-se que a publicação de mensagens aleatórias rompe, inclusive, com algumas noções de privacidade na sociedade. Em reportagem da revista Época, o psicólogo norte-americano John Grohol48 afirma que a ingenuidade diante da publicação do cotidiano em mensagens on-line está “à mercê daqueles que entendem e sabem como cavar aquelas maravilhosas histórias que as pessoas estão deixando na internet”. Contudo, ao registrar que a constituição de uma sociedade eletiva passa pelo crivo da lei do segredo, pela existência de “uma sutil dialética entre o mostrar e o esconder” (ibidem: 128), Maffesoli desloca a discussão para o fato de que as mensagens carregam senhas que passam por um processo de reconhecimento dos grupos que se comunicam. Isso quer dizer, no exemplo do Twitter, que a leitura de um tweet, por mais que se estabeleça em uma interface pública, fica direcionada pela identificação seleta nas tribos das quais o usuário faz parte. Vale especificar que, no caso do Twitter, a apropriação das tribos tem caracterizações próprias em relação a outras redes sociais. A pesquisadora Raquel Recuero entende, como já citado, que a plataforma não é apenas um espaço social, mas “junta a questão social com a busca por informação”49. Inserido num panorama de desenvolvimento da comunicação, o Twitter foi apropriado por um público mergulhado em um espaço no qual a produção de informações é incessante, uma vez que boa parte do fluxo comunicacional é suportado pela rede mundial de computadores. Essa combinação dá à lei do segredo um patamar eletivo que, conforme duas conclusões de Maffesoli, evidencia a necessidade de estar-junto e vitaliza a produção dos microgrupos:
Por um lado assistimos à saturação do princípio de individuação, com as inevitáveis conseqüências econômicas que resultam daí. Por outro, podemos ver como se projeta um desenvolvimento da comunicação. É esse processo que permite constatar que a multiplicação dos microgrupos só é compreensível num contexto orgânico. Tribalismo e massificação caminham lado a lado. (ibidem: 134)

A saturação da individualização tem a ver com a potência agregadora do segredo. O argumento central do livro O Tempo das Tribos supõe que haja um declínio da
48 Ver referências, em O Twitter vê e mostra tudo, reportagem da Revista Época. O texto apresenta Grohol como um “especialista em saúde mental on-line”. O psicólogo tem uma visão pessimista da ferramenta, acreditando que o serviço “está exacerbando, nas pessoas, a necessidade de ‘sempre estar lá, online’ para não perder nada”. 49 Em declaração à reportagem O Twitter vê e mostra tudo, da Revista Época. Ver referências.

individualização da sociedade moderna e uma ascensão de um tribalismo pós-moderno. O desgaste da ideia de indivíduo refere-se à falta de referência com relação às identidades firmes, como a nacional, a sexual e a individual, uma das conquistas mais importantes do burguesismo (ibidem: 92). A essa altura, Maffesoli aponta o desgaste para a relação entre o indivíduo e o político, “pólos essenciais da Modernidade” (ibidem: 91). A saturação de um caminha, para ele, lado a lado com a saturação do outro. A insistência na solidão e no trancafiamento do moderno parece perder efeito nas redes que constituem a sociedade contemporânea. Com a possibilidade de um arranjo tribal pela internet, a solidão das máquinas não significa o isolamento do homem, mas uma nova tendência do arranjo tribal. Há, nesse sentido, uma disposição maior em constituir grupos com durações variáveis de vida dependendo do investimento de seus protagonistas (ibidem: 195). Um trabalho que ilustra bem a posição de Maffesoli com relação às redes é a já comentada dissertação de mestrado de Aglair Barnardo. Na pesquisa, intitulada Um Novo Tipo de Impulso na Cidade - um Estudo Antropológico do Sistema de Interligação Múltipla Disque-Amizade em Florianópolis, Bernardo sinaliza que as conversações por canais tecnológicos contrapõem a visão isoladora insinuada pela a sociologia moderna no século 19. Para ela,

O surgimento de novas abstrações tecnológicas, ao mesmo tempo que cooptam essas novas necessidades, faz-nos possíveis entendê-las também enquanto articuladoras e geradoras de novos tipos de desejos nas sociedades contemporâneas. São visíveis, assim, as respostas que o mercado oferece ao surgimento destas novas tecnologias em comunicação, que diversificam os serviços no campo das interações sociais. (Bernardo, 1994: 157)

As tribos que povoam as interfaces do Twitter, interessadas em paixões específicas e descoladas das pretensões da era moderna, caminham, como indica Maffesoli, na compreensão de que o maciço desengajamento político “não significa uma acelerada destruição, sendo, pelo contrário, o indício de uma vitalidade renovada” (1987: 85).

41 3.

Nomadismo, uma tendência

“A continuidade da existência é feita de múltiplos desvios [...]”, 57 caracteres. Sobre o Nomadismo, página 116.

Dos conceitos de Michel Maffesoli atravessados pela noção de socialidade, o nomadismo parece ser o que mais contribui para o estudo do ciberespaço e das práticas comunicacionais na pós-modernidade. No livro Sobre o Nomadismo, o sociólogo arremata sua teoria colocando o movimento e a identidade como termos indispensáveis para compreender o porquê de o presenteísmo possibilitar um número inesgotável de manifestações. O infinito de respostas à pergunta “O que você está fazendo?” ganham, por esse aspecto presenteísta, uma inconstância nomádica por causa das paixões que se justificam nessas manifestações, e tornam-se um referencial mutante que permite a convivência com identidades plurais. No Twitter, como apontado desde o início, identidade e movimento convivem mutuamente e um corrobora para a manifestação do outro. É por causa disso que Maffesoli argumenta que, com a rede mundial de computadores inserida na vida das pessoas, “o nomadismo e a internet se entendem cada vez melhor” (2001: 142). Há uma série de demonstrações de como o nomadismo, também chamado de errância, tornou-se uma prática cada vez mais evidente. Assim como na argumentação do presenteísmo e do tribalismo na sociedade contemporânea, Maffesoli recorre ao enfraquecimento da modernidade, agora visível pelo nascimento de grupos dotados de um potencial de circulação: “hippies, vagabundos, poetas, jovens sem ponto de referência, ou mesmo turistas surpreendidos nos circuitos de férias programadas” (ibidem: 27), ou seja, há um número crescente de indivíduos que se descolam da imobilidade do Estado Moderno em direção à retomada do espírito da inconstância. Para captar como, nos últimos anos, o imaginário formou-se nesse sentido, basta recorrermos aos temas musicais que embalavam a geração daqueles que se iniciavam fora das responsabilidades imobilizadoras:

Enfim, como indício da volta à errância nas sociedades contemporâneas, pode-se lembrar uma idéia obsedante marcando a história do rock, o tema da “pedra que rola”, numa constante a merecer atenção. Tomada de empréstimo à mitologia dos escravos arrancados da África a lembrança que se está a caminho: “I’m a rollin’ Stone” (Muddy Watters, 1950), será retomada por Bob Dylan: “like a rolling stone”.

[...] Esse “nomadismo espiritual”: “I’m a wandering spirit” (Mick Jagger) pode ser considerado, por mais de um motivo, o símbolo de um mundo em gestação. (ibidem: 34)

No entanto, a figura da “pedra que rola” não permanece limitada ao domínio do indivíduo, como sugere as canções de Jagger e Dylan. Segundo Maffesoli, a errância pode ser considerada uma constante antropológica presente no corpo social e em seu conjunto. Nessa linha comunitária, o autor adverte que estamos diante de uma orientalização do mundo, pois o nomadismo contemporâneo pede emprestado de outras culturas diversos elementos que o racionalismo escondeu ou marginalizou. “Assim, a liberdade do errante não é a do indivíduo, econômico de si e ecônomo do mundo, mas exatamente a da pessoa que busca de um modo místico “a experiência do ser’” (ibidem: 69), em clara referência ao seu conceito de estética, ou experiência, que aparece ao longo da obra. Essa mística sem racionalidade tem o mesmo caráter da aura estética e serve como vetor para a convivência comunitária. Eis outro motivo pelo qual o arquétipo nomádico formula-se como evidência nas redes sociais. Resgatemos da introdução, de modo a ilustrar essa afirmação, a noção de grupo que se manifesta no Twitter de Paul Saffo: “em vez de criar o grupo que deseja, o indivíduo envia uma mensagem e o grupo monta a si próprio”. A estruturação aleatória tem melhor compreensão com a validação das práticas nomádicas na sociedade contemporânea. De fato, a imobilização da modernidade contribui para o impulso do errante. As funções – profissional, ideológica, afetiva – sofreram, durante os últimos dois séculos, uma fiscalização e uniformização que a sufocaram. O pensador lembra o personagem Grande Irmão, do romance 1984 de George Orwell50, e utiliza-o como ilustração culminante desse fechamento. A pós-modernidade trouxe um amaciamento dessa mecânica social rígida, deixando-a emperrada, e, conforme sugestão de Maffesoli, a violência totalitária transformou-se no oposto, “em impotência” (ibidem: 26). A desconstrução da modernidade aconteceu no momento em que a tecno-estrutura, os dispositivos tecnológicos dos quais se acreditava ser capaz de fixar tudo, tornaram-se um paradoxo capaz de transpor as fronteiras, transgredir a moral estabelecida e atuar de forma nomádica:

50 George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, um jornalista, ensaísta e romancista britânico da primeira metade do século XX que escreveu o romance 1984.

43 O Minitel e o avião, a “internet” e as diferentes redes eletrônicas, a televisão e as auto-estradas da informação, tudo isso, para o bem ou para o mal, permite viver, em tempo real e sobretudo coletivamente, as experiências culturais, científicas, sexuais, religiosas que são, justamente, o próprio da aventura existencial. As potencialidades do “cyberespaço” estão longe de se esgotar, mas já testemunham o enriquecimento cultural que está sempre ligado à mobilidade, à circulação, quer sejam as do espírito, dos devaneios e até das fantasias, que tudo não deixa de induzir. Sendo de um lugar, o homem da tecnópolis não existe a não ser na relação (nas relações). (ibidem: 29-30)

Manifestar a existência do ser pelas relações sociais é o argumento central de Maffesoli quando explica as motivações da mobilidade. Essa circulação é muito bem traduzida no ciberespaço pelo pesquisador André Lemos, que recorre ao flâneur de Baudelaire51, do século XIX, para mencionar que a prática de flanar por uma cidade é similar à de navegar por um hipertexto. Para ele, “o flâneur é atraído por coisas das cidades, da mesma forma que o internauta é pelos links” (Lemos, 2002: 24), tomando a ideia de que o ciberespaço permite uma viagem imprevisível a partir do computador pessoal. Contudo, há um permissivo de mobilidade no Twitter que acentua ainda mais a evidência da circulação. Quando desenvolvido, a plataforma era para ser utilizada majoritariamente em telefones móveis com tecnologia 3G52. Mesmo que a maioria dos tweets sejam publicados a partir da web, o considerável número de usuários que utilizam o Twitter pela tecnologia móvel traduz o imaginário inesgotável de translado do ciberespaço. A partir de então, é possível estar em qualquer lugar e no ciberespaço ao mesmo tempo, criando uma condição nomádica constante, de acordo com a necessidade do usuário em praticar as ciberviagens. Cria-se uma possibilidade infinita de viagens. Quanto a isso, Maffesoli lembra que a errância dá uma nova dimensão de contato com as pessoas, nasce outra relação com o outro e com o mundo, repousando sobre a impermanência das coisas, dos seres e dos seus relacionamentos. Para o autor,
51 Charles Baudelaire foi um poeta e teórico da arte francês. Desenvolveu o termo flâneur, que refere-se a uma pessoa que anda pela cidade com o fim de buscar experiências. Em portugês, utiliza-se flanar. 52 3G é a terceira geração de padrões e tecnologias de telefonia móvel, substituindo o 2G. É baseado na família de normas da União Internacional de Telecomunicações (UIT), no âmbito do Programa Internacional de Telecomunicações Móveis (IMT-2000). As tecnologias 3G permitem às operadoras da rede oferecerem a seus usuários uma ampla gama dos mais avançados serviços, já que possuem uma capacidade de rede maior por causa de uma melhora na eficiência espectral. Entre os serviços, há a telefonia por voz e a transmissão de dados a longas distâncias, tudo em um ambiente móvel. Normalmente, são fornecidos serviços com taxas de 5 a 10 Megabits por segundo. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/3G

citando W. Benjamin, o “passeio sem destino” dos viajantes é uma espécie de protesto contra o ritmo de vida orientado pela produção. Essa resistência leva o viajante a uma desterritorialização, ou na desconstrução das fronteiras, que desempenharam papel importante na constituição do imaginário de modernidade. O twitteiro, assim, é um citadino nômade. Esse processo, porém, não se reduz a uma atitude espiritual, e Maffesoli lembra que o corpo é parte indispensável no nomadismo. Por se tratar de uma marca psicológica profunda de nossa estrutura mental, a dispersão e a errância inferem quimicamente no processo migratório. O exemplo posto em evidência é o do nomadismo sexual, que leva a pessoa a se deslocar por um desejo manifestado quimicamente pelo indivíduo. O anseio intelectual por encontrar manifestações imageticamente compatíveis com a herança informacional da pessoa também faz parte disso – e, por se tratar de uma relação cuja troca tem valor simbólico, esse exemplo ilustra melhor como a interferência corporal constitui um fator definitivo na navegação pelo Twitter –, dando forças à religação das pessoas por conta da nova ordem proxêmica das redes sociais. Ao analisar o perfil cognitivo do leitor imersivo do ciberespaço, Lucia Santaella, em Navegar no ciberespaço, traça algumas evidências dessa intervenção mútua. Para ela, assim como a leitura no impresso, o texto na tela traz, com seus adendos interativos, cognições que validam uma experiência:

Conectado na tela, por meio de movimentos e comandos de um mouse, os nexos eletrônicos dessas infovias, o leitor vai unindo, de modo a-sequencial, fragmentos de informação de naturezas diversas, criando e experimentando, na sua interação com o potencial dialógico da hipermídia, um tipo de comunicação multilinear e labiríntica. Por meio de saltos receptivos, esse leitor é livre para estabelecer sozinho a ordem textual ou para se perder na desordem dos fragmentos, pois no lugar de um volume encadernado com páginas onde as frases e/ou imagens se apresentam em uma ordenação sintático-textual, previamente prescrita, surge uma ordenação associativa que só pode ser estabelecida no e por meio do ato de leitura. (Santaella, 2004b: 11-12)

Para ela, ao procurar traçar um perfil dos usuários da Internet, existem três tipos de usuários: o errante, o detetive e o previdente, que correspondem, cada um deles, a um processo inferencial ou tipo de raciocínio. Enquanto o errante vai, por ensaio e erro, adivinhando o que deve fazer, o internauta detetive caracteriza-se pela busca do sentido

45

no universo informático. Já o previdente refere-se ao leitor que navega sob o domínio de inferências dedutivas. Independente do nível cognitivo de internauta, ou seja, ainda que ele seja experto, as referências ao “errante” e ao “detetive” caem bem ao twitteiro. Inundado em uma atmosfera de links e referências de sinais contemporâneos, as mensagens do Twitter são o produto de uma incessante busca errante e detetivista, não apenas das funcionalidades do ciberespaço como inclusive às sensibilidades do cotidiano. O público, como colocado no primeiro capítulo, é, aqui, uma evidência. Esses nomádicos que trocam mensagens e repassam endereços de páginas virtuais interessantes são, em sua maioria no Twitter, jovens. A informação confirma que os anos da errância juvenil constituem, conforme Maffesoli, uma tradição em todas as sociedades:

Qualquer que seja a coloração política, esse nomadismo dos jovens exprime uma revolta contra o instituído, uma reação contra o tédio de uma cidade tornada uniforme. [...] O certo é que esses “pássaros migrantes” se opõem ao conformismo e às convenções sob suas diversas formas. (2001: 136)

Como resultado, há um espalhamento que desloca o centro dos grupos e dos acontecimentos para infinitos núcleos autônomos e móveis. A estrutura das redes configura um intermédio definitivo para permitir que os indivíduos “vivam a marginalidade em um espaço sem centralidade” (ibidem: 132). Eis o espírito do nomadismo: cada um vivendo um vício específico com o permissivo de englobar, em seu cotidiano, a interferência de infinitos desejos.

4.

As formas criadas pelo Twitter

Depois de argumentar que o presenteísmo, o tribalismo e o nomadismo na sociedade contemporânea podem ser evidenciados no ato de twittar, resta-nos, em linhas gerais, observar as consequências das apropriações da ferramenta. Assim como Simmel e Maffesoli, parto do pressuposto de que a técnica criou uma forma que organiza e orienta os novos padrões de convivialidade no ciberespaço. Dentro da análise formista ao longo da elaboração dessa monografia, observei que estamos lidando, na sociedade contemporânea, com a mutação de duas formas bastante pertinentes durante o último

século. Trata-se de uma nova forma de fluxo informacional e nova forma de relacionamento societal. Apresento-os por considerar que ambos os conceitos passam pelo crivo desta monografia. Estão evidenciadas por um imediatismo e efemeridade cuja troca é vitalizada no presente, fazem parte de uma transfiguração da lógica política da sociedade moderna reordenada de uma maneira tribal e respondem a uma circulação evidente por conta das novas mobilidades que a tecnologia disponibilzou. Vale considerar, para sintetizar as exposições do trabalho, os eixos de mudança que acompanham a conversão dessas formas. De fato, as alterações tecnológicas são as responsáveis pela nova forma nas quais se inserem o centro da análise da socialidade no Twitter. Mas a proposta foi promover a discussão sobre a nova estética, o novo tipo de experiência que se apresenta. Por isso a insistência em reafirmar a opção pelo termo pós-modernidade na apresentação dos conceitos. Por mais simplificadas que possam parecer, as dicotomias Prometeu versus Dionísio, moral versus estético, sociabilidade versus socialidade, mecânico versus orgânico etc. não se apresentaram para criar um antagonismo de margem proselitista, mas sim para identificar as bases do novo comportamento societal. O Twitter é um recente suporte técnico cuja forma está mudada graças a uma demanda social e técnica. Com isso, as trocas internadas no miolo do suporte devem ser repensadas e observar-se qual o novo espírito dessas relações. Destaco duas mudanças essenciais:

a) Forma de fluxo informacional: A condição imediatista liberada pela

forma tecnológica e resolvida pela internet condicionou-nos a um imediatismo que compete diretamente com os produtores de notícia. A mobilidade e o presenteísmo do Twitter permitiram que o senso coletivo fosse estendido para dezenas de milhões de pessoas ao redor do mundo, “que podem reportar qualquer coisa que estejam vendo, trazendo a informação para qualquer pessoa do planeta” (Dawson, 2009, online). Segundo Lemos, acompanhando o racicínio de Dawson sobre o impacto dessa mídia digital nos sistemas informacionais tradicionais, o Twitter faz parte de um conjunto de ferramentas inserido em uma era pós-massiva, ou seja, uma configuração comunicativa com processos que permitem circulação, emissão e mobilidade, todos ao mesmo tempo. Trata-se,

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completa, de um sintoma da crise comunicacional “abrindo inúmeras possibilidades online). para se questionar dogmas, certezas, formações profissionais, reservas de mercado, regimes totalitários” (Lemos, 2009,

b) Forma

de relacionamento societal: A forma de comunicação

instantenísta também reinventou os módulos do relacionamento societal. A teatralidade e a ritualização ganharam, no ciberespaço, um palco comum com visibilidade amplificada, e as distâncias foram trocadas pelas identidades. Influenciado também pelo fluxo informacional, as novas formas de relacionamento são mais efêmeras e pontuais, conforme assinala Maffesoli em sua análise da socialidade na sociedade contemporânea. Contudo, isso não pode ser considerado como uma alienação ou predileção pelo banal, mais sim uma percepção diferenciada da existência e da valorização do cotidiano. Observando esses dois eixos, quis evidenciar que há, de fato, um processo de ressignificação em evidente constituição por conta das novas formas que a tecnologia impôs. Para finalizar o estudo, tenho a impressão de o que mais nos cabe é a constatação, por André Lemos, de que a pergunta “O que você está fazendo” resume o fim de uma era:

"O que vc está fazendo agora" parace ser a máxima da época. Importa o que todos fazem, importa as vozes em conversação. importa as ações colaborativas e politicas de baixo para cima. O que você, pessoa comum, fora dos centros de controle, dos círculos de poder e do controle editorial da informação, "está fazendo agora" nunca foi tão importante. Dizendo isto, você pode emitir livremente, conectar-se a outros e reconfigurar o mundo a sua volta. Os exemplos acima mostram que o fim de uma era está em andamento. (Lemos, 2009, online)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma característica na obra de Michel Maffesoli que me chamou a atenção durante a redação da monografia foi o fato de que o autor imita, em seu estilo, a metodologia de análise. Aconteceu nos três elementos que analisei: enquanto fala do presente, é nítido que o autor observa a ritualização e a experiência a partir de um ponto de vista bastante particular; quando comenta os conceitos que garantem o cimento do neotribalismo, esclarece as paixões que envolvem esse tipo de agregação; e ao ensaiar sobre o nomadismo na sociedade contemporânea, parece imitar o errante no próprio texto ao ir e vir nas constatações. Essa compreensão faz-se importante porque tem todo o sentido com a compreensão da manifestação da comunicação em Maffesoli. Para ele, o comunicar não se refere apenas ao verbal, ainda que a palavra ocupe um lugar de destaque, “mas a um sistema total, um misto de palavras, de objetos e de gestos que remetem a uma poética globalizante” (Maffesoli apud Silva, 2004: 47). As observações levantadas por esse estudo tentaram traçar, em linhas gerais, os elementos constitutivos dos conceitos presenteísmo, tribalismo e nomadismo e as relações que podemos fazer com os novos tipos de comunicação e, mais especificamente, o Twitter. Como alertado desde a apresentação, o trabalho não buscou ser um mapa definitivo dos argumentos para esse tipo de análise, mas um esboço para uma discussão dialógica. O tempo limitado para elaborar a pesquisa e a vasta bibliografia do autor restringiu o trabalho a levantar as características e traçar evidências, ficando claro que há espaço para aprofundarmos as considerações sobre o alcance da obra de Maffesoli na análise das práticas comunicacionais contemporâneas. Foi possível deduzir que Michel Maffesoli trabalha com a tese de uma sensibilidade pós-moderna para enxergar mudanças na civilização. É seguro afirmar que a grande peculiaridade do ponto de vista teórico da larga obra do francês seja a reflexão sobre uma nova “dinâmica social”, termo que, aliás, foi o título da tese de seu doutoramento

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em 1978. De lá pra cá, investe na alegação de que, se antes nós podíamos, seguramente, ter um perfil delineado, uma profissão segura, o perfil agora do indivíduo é mutante, a profissão quase não existe e o futuro é incerto (Barros, 2008: 181). Eis a origem do encadeamento de sua obra: o que vale é o presente. A partir do estudo sobre o cotidiano, observa a transfiguração do político e a tribalização do mundo, sempre emoldurado por uma circulação cada vez mais evidente. Quando comecei o estudo, há quatro meses, também era um nômade desavisado. A falta de referencial e a característica errante, confesso, eram fatores que angustiavam minha existência no ciberespaço. Naquela época, fiz uma opção arriscada para um trabalho de conclusão de curso, pois não conhecia o trabalho de Maffesoli e “surfava” precariamente nas ondas do Twitter. Mas a experiência do relacionamento como prática ritualística por conta da valorização do presente, da pergunta “O que você está fazendo?”, levaram-me sem muita aflição aos fatores que criavam os agrupamentos nas redes sociais. O estudo serviu para desconstruir minha noção de formalidade dos relacionamentos e pensar nas possibilidades de significação da existência graças às infinitas formas de arranjo que eles podem tomar tanto na internet quanto fora dela. Se antes o errante me angustiava, hoje, passou a me inspirar.

REFERÊNCIAS

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