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Diversidade cultural, identidade nacional brasileira e os seus desafios contemporâneos Antonio Cavalcanti Maia

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Nos últimos decênios poucas idéias têm conseguido alcançar adesão próxima da unanimidade quanto a do apreço à diversidade. No que poderia chamar de espaço público letrado progressista, exauridas as propostas e perspectivas de experimentação política e existencial tão valorizadas pelas vanguardas novecentistas, “(...) o gosto pela diversidade baniu o gosto pela inovação.”1 Em um horizonte marcado pelo estreitamento das possibilidades de transformação política, com a hegemonia do pensamento neoliberal, restaram poucos domínios do campo políticosocial em que se evidenciam vitalidade e propostas de transformação. A identificação, o reconhecimento e a garantia dos direitos das minorias – étnicas, religiosas, sexuais – constituem um inequívoco sinal de aprendizagem político-cultural das democracias contemporâneas. No entanto, uma excessiva valorização das sub-identidades culturais presentes em uma determinada formação social pode colocar em risco a provisória estabilidade das multifacetadas identidades nacionais das complexas sociedades do capitalismo tardio. Tal fenômeno constitui motivo de preocupação em uma sociedade como a nossa, herdeira de um processo de colonização, cujo estado nacional é fruto de um processo histórico cultural recente, formação social marcada por assustadores níveis de exclusão social. Assim, impõe-se como tarefa urgente a procura de uma forma de compreensão da dinâmica das transformações culturais em curso em nosso país que possa, por um lado, respeitar, fomentar – através, por exemplo, de políticas públicas – as expressões de nossa diversidade cultural e, por outro, fortalecer os vínculos identitários capazes de garantir coesão simbólica e política à desigual e conflituosa realidade brasileira. A diversidade cultural, per se, tem sido apontada, de longa data, como elemento caracterizador de nossa identidade, começando a se forjar, no final do século XIX, a ideologia do “Brasil-cadinho”2. A isto somam-se o recente processo de enraizamento da democracia no Brasil e o correlato alargamento dos espaços de vocalização de diferentes interesses que colocaram no centro das políticas públicas culturais a atenção a grupos identitários minoritários – em especial aqueles menos favorecidos pelas benesses do progresso econômico-social, como os negros e os índios. Desta forma, constituem inequívocos vetores progressistas as medidas visando assegurar as especificidades culturais desses setores minoritários tradicionalmente alijados da condução de seus destinos tanto no plano político quanto no cultural. No entanto, há de se atentar para os riscos que tais medidas podem vir a ensejar no que concerne à “solidez” da identidade nacional brasileira. Poucos temas são tão elusivos como o das identidades nacionais. Procurarei oferecer alguns elementos no intuito de elucidar este conceito tão amplamente usado e pouco entendido. De início, desenvolverei considerações buscando compreender o significado da palavra identidade e seu emprego relacionado a certas configurações mentais socialmente referenciadas (como na utilização dos termos identidade cultural e identidade nacional). Em um segundo momento, articularei essa temática com cogitações acerca da questão específica da identidade nacional brasileira. Por fim, diante dos dilemas postos por uma excessiva valorização da diversidade vinculada a identidades minoritárias, em um quadro de globalização acelerada – ameaçador da manutenção das identidades nacionais (em especial no momento em que o “imaginário americano [está] em vias de se tornar o imaginário universal”3) –, defenderei a tese da necessidade da rediscussão do tema da identidade nacional.
** Professor dos programas de pós-graduação em direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 1 KHOSROKHAVAR, Farhad. “Introdução”. In. TOURAINE, Alain. A Busca de Si. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004, p. 14. 2 Neste sentido, ver ORTIZ, Renato. “Da raça à cultura: a mestiçagem e o nacional”. In. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 2003, p. 36-44

cabe ainda salientar o seguinte: “o termo identidade se converteu em uma dessas palavras-chave que articulam o peculiar engranzamento do pensamento filosófico antropológico com discurso político. Duas notas que se vêem reforçadas em virtude de sua polissêmica e ubíqua presença. In. La teoria discursiva del derecho. Não constitui. Como explica FERRET. um exemplo de noção clara e distinta. é fato que pode haver mais de uma identidade cultural dentro de um espaço político açambarcado por uma identidade nacional. interessa descobrir aquilo que dá a uma coisa ou pessoa a sua natureza essencial. p. 4 HABERMAS. 220. “Ricoeur.” 5 A definição supra mencionada já aponta para a utilização desse conceito de identidade para descrever tanto objetos (como. No campo semântico coberto pela noção de identidade cultural. através do tempo. Mas. os bascos e quiçá os catalães na Espanha. Paris: Flammarion. a despeito da sucessiva mudança de suas partes. com Parmênides. por exemplo. Stéphane. é considerado como sendo o ‘mesmo corpo’ ainda depois de anos decorridos. em outro sentido. Dentro desse esforço de reduzir a imprecisão terminológica no tocante à noção de identidade. tem-se “a identidade como conjunto de características comuns com o qual grupos humanos se identificam (e este termo alude ao processo psicológico de interiorização de traços e características sociais que se internalizam e 3 LOURENÇO. 2001. 5 BRUGGER.*** O tema da identidade representa uma perene indagação do discurso filosófico. Jürgen. apesar da mudança das aparências ou dos acidentes. p. o mesmo se diga de comunidades. por exemplo. 195. A nau de Ícaro e imagem e miragem da Lusofonia . In. 1998. Identité et ipséité”. 2000. NIZNIK.. principalmente da substância. Debate sobre la situación de la filosofía. Assim. culturas e nações. o corpo humano. John T. Walter. L´identité. p. Esta identidade pode entender-se de maneira mais ou menos rigorosa: assim. Madrid: Cátedra. (. p. o corpo humano) quanto agrupamentos humanos (comunidades ou nações). p. é claro. em dois sentidos: identidade como mesmidade (mêmete / sameness) – sentido tradicional relacionado ao conceito de identidade numérica (por exemplo: 2=2) e. Por exemplo.”6 A consciência dessas dificuldades impõe ainda mais cuidado no enfrentamento de tal temática. quando procuramos precisar essas formas diversas de identidade humana de que se fala tanto hoje. por exemplo. 1987. 6 ARROYO. São Paulo: Companhia das Letras. A identidade de algo implica sua diferença de outras coisas. esta se define por aquilo que é singularmente indispensável para que determinado indivíduo seja ele mesmo. Madrid: Centro de Estúdios políticos y constitucionales. 2000. devemos ter sempre em mente. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária. em dimensões nacionais. Importa observar que falamos de identidades relacionadas a pessoas. “El manejo de las contingencias y el retorno del historicismo”. o de identidade possui um confuso ar conceitual e um conteúdo pouco preciso. em especial quanto às identidades coletivas. . em nenhum caso. Certamente esse emprego amplo do termo não facilita sua precisão conceitual. De um ponto de vista teórico. 65. 194. segundo a lição de Ricoeur. a busca da definição daquilo que faz com que uma coisa seja aquilo que ela é e não outra coisa (o que acarreta a pergunta acerca da essência das coisas e da diferença em relação a outras) ocupa a atenção dos filósofos. Portanto. “o mundo se dividiu em fenômenos superficiais e essenciais [e] se desmantelou o regime de poderes míticos arbitrários”4. No tocante à indentidade individual.). Desde o momento em que. 15-16. ipseidade – ou identidade de si (selfhood). Dicionário de Filosofia. O tema identidade pode ser entendido também. o Canadá possui nitidamente duas identidades culturais (se não levarmos em consideração os remanescentes descentes dos indígenas) e uma identidade nacional. no tocante às questões relativas às identidades coletivas. como exigiria uma mente cartesiana. a origem do termo ligada à idéia de um elemento (ou conjunto de elementos) que compõe o núcleo essencial de algo (o que certamente pode ensejar objeções contundentes à própria possibilidade de discernir uma identidade em conjuntos complexos como países). Eduardo.. Józef e SANDERS. os conceitos de identidade e diferença aparecem inextricavelmente ligados um ao outro. Juan Carlos Velasco. Pode-se falar de “identidade real (ontológica) na perseverança de um ser.) Como sucede com quase todos os termos filosóficos aplicados à retórica política. (eds.

) Filosofía de la cultura. p. “Identidad y dependencia culturales”. . Sua mise-au-point foi a grande obra comum 7 GULBERG. uma abordagem de natureza hermenêutica se impõe. imprime caráter e não poucas vezes. saliento que uma descrição naturalista jamais poderá apreender o que está em jogo no âmbito da moral e da moralidade social quando nos referimos a idéias como imparcialidade. p. “de fato. há um elemento voluntarista de criação na formação das identidades nacionais observado tanto nas nações pilotos européias quanto em todas aquelas que se inspiraram nessas experiências fundantes do ideário nacionalista. já que. Tal representação simbólica e coletiva comum conseguiu suscitar uma legitimidade sem paralelos. op. Imagined Comunities. 6. cit. de sua história. Argumentos filosóficos. construções. foi possível gestar uma forma de vinculação e lealdade social – sobre as ruínas das erodidas formas de solidariedade estribadas na religião. no sentido de que “nacionalidades.”8 Trata-se de uma reflexão que lida com um problema relativo à auto-percepção de um grupo acerca de si mesmo. estabelece hábitos. 1998. certas paisagens e um folclore.passam a constituir os elementos diferenciadores de uns a respeito de outros). Madrid: Trotta. “Identidad y dependencia culturales”. como afirma Horácio Guldberg: A preocupação pela identidade constitui um dos leitmotiv do pensamento latino-americano. Em obra recente. reciprocidade e vulnerabilidade da pessoa humana. e referida a uma determinada forma de vida. Quanto à dimensão normativa. em um certo sentido. a nação se concebeu como “uma comunidade política imaginada – e imaginada como inerentemente tanto limitada como soberana” 12 e foi capaz de abrir à auto-compreensão dos Estados modernos um todo social sem precedentes. endogamias. lamentavelmente. enraizada necessariamente num certo horizonte valorativo. Só com a emergência da imprensa em larga escala. já que “identidade designa algo como uma compreensão de quem somos. em seu Imagined Comunities10. 13 Idem. “A política do reconhecimento”. 10 ANDERSON. p. Horacio Cerutti. são artefatos culturais de um tipo específico”11. ‘naturaliza’ comportamentos. de seu destino e de suas possibilidades. Logo. SOBREVILLA. São Paulo: Loyola.132. a historiadora Anne-Marie Thiesse explicou bem esse fenômeno ao salientar: As identidades nacionais não são fatos naturais. 2000. consagrou-se a interpretação de Benedict Anderson. com o abandono do latim e o emprego das línguas vernaculares. uma inescapável referência a uma dimensão interpretativa e a outra normativa. nossas características definitórias fundamentais como seres humanos. caracterizadoras das hierárquicas sociedades pré Revolução Francesa – em torno do nacionalismo. Horacio Cerutti. mas. mesmo ciente das objeções anti-essencialistas dominantes no tempo presente. 136. 9 GULBERG. uma língua. No caso do âmbito mais geral das identidades nacionais na América Latina. p. p. Londres: Verso. p.”13 Certamente.4 12 Idem. assim como nacionalismos. Benedict. David (ed. 1998. 241. inevitavelmente a “carregamos” ao atribuir algum traço como definidor do que seja um ser humano – e. Segundo esta interpretação. In. os heróis. 8 TAYLOR. xenofobias. exacerba rancores. In. 9 Nas últimas décadas. cuja condição de possibilidade se encontra nas transformações sociais e econômicas observadas com o fim do Ancien Regime e a ascensão do capitalismo. Que somos? Quem somos? Qual é o papel que nos corresponde na história? Que elementos distinguem a nossa cultura? Até que ponto nos equiparamos com outras zonas culturais? Quem decide sobre nosso presente e futuro? São algumas perguntas que nestas e em outras formulações vêm se reiterando por gerações. monumentos. alicerçadas em superadas cosmologias.”7 Falar de identidade no âmbito cultural acarreta. 3. no final do século XVIII. A lista de elementos de base de uma identidade nacional é hoje bem conhecida: ancestrais fundadores. a nacionalidade é o mais universalmente legítimo valor na vida política de nosso tempo. uma história. mesmo antes de que se possa falar propriamente de América Latina. Charles. 11Idem.

Foucault e Lyotard ou.. no caso do Brasil e também no do México e até do Canadá) inspiram reapropriações de tão cara temática. Eduard Said. como Aijaz Ahmad. inclusive. em especial sob a forma de uma filosofia da diferença – quer seja. José. aponta três caminhos: . a “pervasiva” influência no domínio da cultura letrada ocidental dos impulsos contextualistas provenientes do pós-estruturalismo. Europe XVIIe – Xxe siècle . Homi Bhabha e Stuart Hall. 14 No entanto. É praticamente inconcebível: 1) sem alguma forma de expressão política. sem que em algum momento da história se manifeste através da apropriação de um poder dotado de certo grau de autonomia (ou seja. interpelam os tradicionais quadros referenciais eurocêntricos. 14 THIESSE. Razões de índole econômica. o fim da União Soviética e o recrudescimento dos nacionalismos – em especial em sua forma quase patológica nos etnonacionalismos – impõem a atenção àqueles concernidos com as problemáticas contemporâneas político-culturais. alimenta teoricamente todas as reivindicações identitário-minoritárias. em uma matriz fenomenológica. 3) sem que a autonomia política e o seu âmbito territorial permaneçam de forma contínua durante um período temporal considerável. a redefinição político-geográfica da Europa insta esforços teóricos de compreensão das possíveis novas identidades gestadas a partir dessa experiência singular e admirável. com Derrida –. p.15 Nos dias de hoje. a globalização. como resultado do crescimento da homogeneização cultural e do ‘pós-moderno global’. impulsionada por um turbinado capitalismo financeiro. de início. isto é. 2001. 322. Forma de organização política estreitamente ligada ao desenvolvimento do capitalismo industrial. mapeando as possíveis conseqüências do processo de globalização em face das identidades nacionais. a hegemonia cultural estadunidense e a introdução de uma agenda política inspirada no multiculturalismo (penso. No âmbito da cultura. por outro. Pensar a tensão entre identidade nacional e diversidade cultural impõe hoje a necessidade de se levar em consideração essas novas coordenadas teóricas e realidades político-econômicas. de outro lado. da perspectiva de culturas periféricas. por um lado. 7 . referência incontornável no campo dos estudos culturais. A exaltação do arcaísmo acompanhou a entrada na modernidade. seria possível. a nação fundou sua legitimidade sobre o culto da tradição e a fidelidade a uma herança coletiva. A Identidade Nacional. com Deleuze. Como salienta José Mattoso: (. a desconfiança acerca da própria pertinência da questão. política e. Stuart Hall.. No plano político. Não seria esta uma questão já resolvida? Ou. a duração da autonomia política e a continuidade do território são fatores importantes para a solidez e o aprofundamento da identidade nacional. No domínio da economia. filosófica ensejam solo fértil para a retomada de um dos temas mais caros da reflexão política (em especial em nações periféricas).) identidade nacional não é apenas um fenômeno mental. por um lado. alija os estados nacionais de sua capacidade de gerenciamento minimamente autônomo de seus interesses e necessidades. mas também repousam sobre um suporte “físico-geográfico e histórico-político”. p. em vários estados nacionais. as identidades não têm o caráter exclusivamente construído.realizada na Europa durante os últimos dois séculos. em uma matriz mais francesa. Como é evidente. E o reequacionamento da questão da identidade nacional brasileira enfrenta. que. por outro. estas idéias oriundas da tempestuosa atmosfera dos animados anos 60 e 70 municiaram os instigantes trabalhos de importantes críticos culturais. lidar seriamente com essas vetustas inquietações? Tal dilema não é específico de nossa sociedade. uma série de fenômenos contribui para a rediscussão e a possível recodificação do tema da identidade nacional. Anne-Marie. no quadro de crescente integração econômica e simbólica. Lisboa: Gradiva. Ainda no plano político. mesmo que esse pólo se transfira para outro ponto e que as fronteiras do território variem ao longo dos tempos. La création des identités nationales. Tem sempre um suporte objetivo. 2) sem um pólo espacial e um território determinados. Paris: Éditions du Seuil. O militantismo patriótico e as trocas transnacionais de idéias e de saberes criaram identidades bem específicas mas similares na sua diferença. No plano filosófico. obviamente. através de alguma forma de Estado).As identidades nacionais estão se desintegrando. 15 MATTOSO. 1999.

Saliente-se que boa parte dos intelectuais entrevistados se manifestou com bastante desconfiança desse “verde-amarelismo” propulsionado pelo atual governo. nas prospectivas abordagens de José Maurício Domingues e no ponderado exame de Sérgio Costa (quanto às referências bibliográficas destes autores ver anexo). MOTA. 2000. Elisabeth Roudinesco . 2004. PINHEIRO. et. 2000. 16 HALL. perante a crescente hegemonia econômica e cultural norte-americana. Paulo Roberto (org). seja. insufladas pelo governo federal19. certamente. Afinal. deve-se.16 A dificuldade de se situar dentro desse elenco tipificado de opções demanda uma rearticulação de nossas auto-interpretações acerca de nossa própria história.As identidades nacionais estão em declínio. Flavio e PIRES. todavia. se afastem de posições subservientes – como uma potência média de escala continental. 2001. domingo. ALABARSE. p. Próximos 500 anos: as perguntas que o Brasil vai ter que responder.Caderno Mais! Folha de São Paulo. presente e futuro. 2 . ipso facto. obviamente. 19 Veja-se a primeira avaliação feita dessa onda de patriotismo patrocinada pelo governo federal: LIUDVIK. possibilidades e perspectiva de futuro e exige o esforço teórico de nossos intelectuais. impulsionada. 19 de setembro de 2004. minorizada. São Paulo: Ateliê Editorial. A identidade cultural na pós-modernidade. com interesses no hemisfério sul. emergiu uma literatura 18 rediscutindo a formação e as características de nossa identidade nacional e os impasses por ela gerados. em primeiro lugar. como a sensível mudança do papel geopolítico do Brasil – com a sua aproximação das nações emergentes –. São Paulo: Perspectiva. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. Na Conquista do Brasil. LUCAS. Quanto à pertinência das reflexões a respeito da identidade nacional brasileira. Fábio. SCHÜLER. 18Como. COUTO. In.). questões como identidade nacional. em especial da nova geração 17. Stuart.).As identidades nacionais e outras identidades ‘locais’ ou particularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização. José Geraldo. 2002. 2001. mas que. ensejam um cenário propício à retomada da discussão acerca de um projeto nacional de país e. patriotismo. 34. Assim.. Rio de Janeiro: Aeroplano. na cuidadosa reconstituição de José Carlos Reis. Lourenço Dantas (org. interesses republicanos. por exemplo: CHAUÍ.) Quatro autores em busca do Brasil: entrevistas a José Geraldo Couto.). assumir responsabilidades políticas que nos ordenem uma certa solidariedade para com aqueles que lutam contra esta ou aquela discriminação. 2001. necessidade de assumir posições que levem a confrontos xenófobos. 2000. De que amanhã: diálogo/ Jacques Derrida. 69. em muitos casos. entre outras. Jacques Derrida. Rio de Janeiro: Rocco.”20 Não parece necessário expender uma argumentação persuasiva para destacar as ameaças sofridas por nossa identidade. tanto as iniciativas de mobilização popular e de resgate da auto-estima. na busca de novas formas de compreensão que contribuam para uma diferente intelegibilidade da constituição de nossa identidade nacional – quiçá inaugurando um novo período de inquietações em torno dessa temática. e com níveis de exclusão social inaceitáveis não pode se dar ao luxo de abandonar os esforços de manutenção e criação de valores compartilhados que possam motivar um mínimo engajamento cívico e uma re-alocação de recursos a partir dos interesses gerais republicanos. Luciano (org. “Nacional por adição”. Introdução ao Brasil. mas novas identidades – híbridas – estão tomando seu lugar. Expressões da identidade brasileira. Celso. no caso específico da formação social brasileira. marcado por diferenças regionais gritantes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Hoje. deslegitimizada (. Com efeito. p. 2001. nacionalismo. São Paulo: Educ. sobretudo. Rio de Janeiro: DP&A. Em segundo lugar. Jacques. até o grande inspirador das políticas da diferença. por iniciativas oficiais. . seja diante de movimentos identitários minoritários. conduzida pelo Itamaraty na gestão de Celso Amorim. Um banquete no trópico. um país com as nossas dimensões. 17 Essa difícil tarefa já começa a ser realizada nas densas reflexões de Jessé Souza. al (org. Marilena. 4-5. Donaldo. marginalizada. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária . afirmou recentemente: “em certas situações. São Paulo. acredito que devem ser rechaçadas todas as posições céticas em relação à viabilidade dessa investigação. LAFER. São Paulo: Editora SENAC. Caio. Outros 500 anos – novas conversas sobre o jeito do Brasil . devemos retomar as reflexões acerca de nossa auto-consciência nacional coletiva.A.. A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira: passado. À época da comemoração dos 500 anos de descobrimento do Brasil. Nacional S. na aguda análise de Adrían Gurza Lavalle. Porto Alegre: Prefeitura Municipal.. e para fazer reconhecer uma identidade nacional ou lingüística ameaçada. se o Brasil acalenta alguma esperança de possuir voz independente no cenário internacional – sem. . 2000. p. 20 DERRIDA..

. Em um segundo nível. por um lado. a cultura indiana e o mundo africano. No entanto. Paulo Eduardo. Esta agenda política impôs-se originalmente na América do Norte. apresenta uma especial sensibilidade para esse controvertido problema. Uma reflexão teórica que se desenvolveu a partir das situações específicas do Canadá e dos Estados Unidos nem sempre pode ser aplicada sem a devida filtragem em um contexto cultural bem distinto como o nosso. a emergência das reivindicações articuladas por grupos minoritários (mulheres.). São Paulo: Ed. por outro. em algumas modalidades de feminismo e naquilo que se chama política do multiculturalismo” 21. “A Política do reconhecimento”. É fato que um certo léxico inspirado na matriz teórica norte-americana já está presente no discurso de diversos grupos políticos e culturais. pensa-se em multiculturalismo quando se identifica.. certamente mais próximo da forma como essa problemática tem sido tematizada em nosso país.. o mundo do islã. há a necessidade de uma mais cuidadosa compreensão do que significa realmente os termos nos quais uma agenda política pautada pelo multiculturalismo se desenrola. Zero à esquerda. São Paulo: Loyola. Questão oriunda da própria dinâmica de diversas formações sociais contemporâneas – quer seja pela existência de mais de um grupo lingüístico-cultural em um mesmo Estado nacional. no horizonte contemporâneo em nosso país. É claro que uma sociedade como a nossa não poderia ficar distante desse debate. em legítima manifestação de descontentamento pela situação de exclusão social em que se encontra parcela significativa deste grupo. Em seu texto “A política do reconhecimento”. sexuais. minorias étnicas. 2004. onde convivem com razoável grau de tensão dois grupos étnicos. 152. A temática do multiculturalismo tem ocupado um lugar de destaque nos debates teóricos na última década. Possivelmente temos aqui um dos principais desafios teóricos às novas gerações de intelectuais em nosso país. a civilização chinesa. negros. p. Charles. falando línguas diferentes e herdeiros de culturas – a inglesa e a francesa – que durante os últimos séculos estiveram em conflito. Em uma primeira abordagem deste termo de difícil definição. 241/274. Sobretudo a partir dos movimentos ligados às demandas formuladas por afro-descendentes. “em favor de grupos minoritários ou ‘subalternos’. ele procura oferecer uma grade de intelegibilidade a esta peculiar forma de luta política que se estrutura. etc. 2000. pode-se falar de uma espécie de movimento de “contágio” geral das idéias que faz com que as temáticas – em geral oriundas da cultura norte-atlântica – passem a ocupar a atenção também dos debates intelectuais das nações periféricas. Todavia. o qual se apresenta na complexa recepção de idéias estrangeiras. Por outro. In: Argumentos Filosóficos. podemos pensar em multiculturalismo referenciado às diferenças presentes entre distintos “padrões civilizacionais”: a civilização ocidental de matriz cristã. a própria composição étnica de nosso país pode nos levar rapidamente a reconhecer que assistimos em nosso país um “suposto multiculturalismo de nascença”22. 22 ARANTES. nos últimos anos tem crescido um debate em torno da incorporação da discussão acerca do multiculturalismo – de origem norte-atlântica – em nosso panorama cultural. como no acesso a posições de relevância no sistema político. Conrad. bem como as possibilidades abertas 21 TAYLOR. Não é episódico o fato de que a reflexão teórica marco desse domínio de cogitações seja proveniente de um intelectual canadense: Charles Taylor.necessitamos reforçar nossos vínculos identitários (no mesmo momento em que devemos atender a reivindicações culturais minoritárias). enfrentamos em relação a essa questão um desconforto permanente. a presença de diferenças étnicas marcantes num mesmo Estado nacional (os exemplos canadense e belga são ilustrativos). preocupado com a peculiar situação do Canadá. Por um lado. É clara a importância dessa inspiração ao municiar grupos tradicionalmente desprivilegiados – tanto na distribuição das benesses econômicas. Um intelectual bilíngüe como ele. cada vez mais presente nas sociedades contemporâneas. quer seja pelos resultados dos significativos movimentos migratórios observados nos últimos decênios – impôs-se como um problema a ser enfrentado pelas democracias constitucionais contemporâneas. pp. No tocante às reivindicações minoritárias.

Já em relação aos EUA. favorece a manutenção de guetos estanques. São Paulo: EDUSP. é evidente a especificidade de nossa experiência cultural. o racismo deste país assumiu já há algum tempo um caráter segregacionista. cit. em que o brasileiro se apresenta hesitante quanto à própria identidade e absurdamente cáustico quanto ao seu futuro.” 23 O maior perigo dessa “adaptação” em nossa cultura de uma perspectiva alienígena reside no fato de que tanto no Canadá quantos EUA o multiculturalismo está assentado em um enfoque segregacionista. Assim. Entretanto. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda. 25 LOURENÇO. Deve-se procurar articular elementos que possam funcionar como uma espécie de vetor motivador capaz de mobilizar os cidadãos brasileiros a se engajarem em um projeto coletivo. nem adotar bandeiras ufanistas.. 24 Quanto a esta idéia. por exemplo. Quanto aos dilemas de uma importação apressada dessa agenda. cabe destacar que ela tem que ser realizada a partir de uma apropriação crítica do nosso passado. Tais lealdades se articulam com um “teor de aderência profunda”25 com que nos sentimos e sabemos brasileiros. Isto se reflete em vários tipos de conduta pública. demandando a construção de um quadro interpretativo próprio. O anedotário depreciativo de sua capacidade constitui vibrante indicador do desapreço que o nosso cidadão alimenta a respeito de si mesmo e das possibilidades do país. op. Porém. o desafio é estabelecer uma parametrização jurídicoconstitucional capaz de ensejar um solo no qual pode prosperar a convivência não conflituosa entre duas culturas (em especial a francófona) que querem manter-se separadas.. sensibilizadas no sentido de apresentar uma disponibilidade para moderar seus interesses particulares em função do bem comum. há muito. justamente criticada nas últimas décadas em nosso país. competentemente teorizados e estudados por pensadores latino-americanos. atravessamos também grave crise de auto-estima. relacionados a uma certa identidade brasílica – não claramente definida. as possíveis lealdades despertadas por um discurso capaz de reforçar a nossa coesão poderão ser utilizadas nas inúmeras tarefas necessárias à construção de um país menos injusto. cuja crítica também já está sendo feita dentro dos EUA. usuais nessa discussão. sem cair nos lugares-comuns. Nós e a Europa – ou as duas razões.. p. enfoques que dizem respeito apenas ao mundo anglosaxônico. o que destaca Fábio Lucas: “No Brasil. a reboque do “mercado”. p. através de uma rediscussão do tema da identidade nacional – assunto que já tem merecido também ampla discussão acadêmica na cultura norte-atlântica. 2004. Essas questões referenciadas ao multiculturalismo devem ser também enfrentadas. No caso do Canadá. Leyla. com repercussões no campo da produção simbólica (no domínio da impregnação difusa das mentalidades). Expressões da identidade brasileira. entre nós. A respeito da retomada de um questionamento acerca da nossa identidade nacional brasileira. “Pós-estruturalismo e desconstrução nas américas. 185. ela se afastará radicalmente de certos discursos impregnados de miserabilismo 24 fatalista e vislumbra o papel do Brasil distante de uma posição de subalternização política. 1994. (Org.” In: _________.). . 23 PERRONE-MOISÉS. E esforços para garantir formas de motivação capazes de galvanizar os contraditórios interesses presentes na sociedade brasileira podem ser úteis no intuito de criar uma vontade política além dos interesses econômicos imediatos.10. Assim. O multiculturalismo. pelo menos no plano teórico. seria possível conclamar as diferentes forças políticas. veja-se. sem levar em conta as diferenças de nossas histórias e culturas latino-americanas. Será que no Brasil o nosso racismo apresenta esse traço característico? A nossa experiência multissecular. marcada pela especificidade da colonização portuguesa. Eduardo.) adotam-se fielmente. vistos com uma tolerância que responde a interesses econômicos. sincretismo e transculturação. Fábio.por tal forma de articulação das demandas políticas. Do positivismo à desconstrução: idéias francesas na América. Por exemplo: fala-se em multiculturalismo quando aqui já temos.” LUCAS. não originou uma forma diferente de lidar com o conflito de raças presentes no seio de nossa nação? Não se está aqui fazendo a defesa da controvertida tese da “democracia racial”. porém emocionalmente relevante. sintetiza uma abalizada observadora do quadro cultural brasileiro: “(.

Elogio da modernidade. Berkeley: University of California Press. 71-72. Andrew (ed. Pedindo paciência ao leitor pela extensão da citação: Diz-se muitas vezes que a cultura é a base da identidade de um povo. do patriotismo. em vez de se ver nela a manifestação da alma de um povo vagueando acima das vicissitudes históricas do seu ‘destino’. com seu reforço a vínculos identitários. com a busca da identificação de nossa singularidade cultural e a evocação de temas como patriotismo e o correlato engajamento cívico.) Habermas on Law and Democracy. abre-se a possibilidade de decidir quais de nossas tradições nós queremos continuar e quais não queremos: há uma capacidade de filtragem das tradições. caracterizada por seu universalismo. ROSENFELD. como as de classe. 1989. tão caras à compreensão marxista da dinâmica social. os discursos fomentadores da identidade nacional apostam em um apelo à unidade na diversidade. 399. Cardozo School of Law”. em cada momento. devemos estar cientes de três idéias fundamentais: 1) falamos de identidade sempre que dizemos quem somos e quem queremos ser.Ainda quanto a problemática da identidade nacional. Como não são pequenos os riscos de um discurso como este cair no ufanismo ou em 26 HABERMAS. mas que isso é um ‘erro funesto’.” CARRILHO. de raiz irracional. 27 Possivelmente. desqualifica reivindicações de natureza particularista (somada ao fato de que as propostas nacionalistas. ela é ao mesmo tempo nosso próprio projeto. p. pelo contrário. Qualquer cultura. A direita pensa que a identidade é uma substância – uma espécie de fundo inalterável de convicções e de sentimentos – que a política cultural deve defender. Jürgen. e definidoras dos enfrentamentos políticos. ilumina as dificuldades de um tema que certamente não é isento de ambigüidades. se caracteriza por um movimento que só afirma a sua identidade. se se conceber a identidade – seja ela nacional. As identidades submissas de que gosta o discurso de direita só existem em culturas mumificadas e nos seus estereótipos políticos. essa tradição. além disso. o retrato do jogo plural das diversidades mais dinâmicas numa sociedade. não a conservação. “Reply to symposium participants. p. não como algo que se tem e que se pode descobrir mas. posto que a questão da identidade nacional alemã constitui um dos motivos axiais de suas preocupações. Lisboa: Editorial Presença. Lourenço faz uma leitura da nossa história de modo a tornar esses valores investíveis pela esquerda. a considerarmos antes como a construção de uma configuração sem forma rigidamente definida e sem sentido previamente determinado. 28 Novamente explica Manuel Carrilho. como algo que se inventa e constrói. Manuel Maria. Manuel Maria. p. 1995. p. Grosso modo. nenhuma identidade consegue pendurar. Michel e ARATO. In. como será explicitado a seguir) pode imunizá-lo dessas críticas pois encerra um potencial indicador de uma saída para essas contradições. afinal. se pode prestar a confusões. Benjamin N. É uma concepção catatônica que se fecha ao próprio movimento de transformação das sociedades sem o qual. É uma tese que.”26 Saliente-se também o seguinte: os que advogam uma retomada da discussão acerca da identidade nacional não podem deixar de reconhecer as objeções formuladas pelo pensamento de inspiração marxista. tribal ou pessoal – mais como uma proposta do que como uma substância. 1998. O discurso cultural da esquerda deve privilegiar. mas a construção da identidade. . na sua generalidade. pelo seu teor afetivo. obnubilando as diferenças. 89. Aventuras da interpretação. 3) “Nossa identidade não é somente algo que nós recebemos. do sentimento nacional. a maior dificuldade enfrentada pela retomada dos temas ligados à identidade nacional. não costumam ser reivindicados pela Esquerda’. questionando-a. E. Lisboa: Editorial Presença. Ou seja. em geral se encontram defendidas por forças políticas conservadoras). a forma pela qual foi qualificado o nacionalismo neste artigo (bem como todos os cuidados que a noção de patriotismo constitucional requer. se encontra no esforço de desarmar as vozes críticas da esquerda28. Em outra passagem esclarecedora: “Tudo é todavia bem diferente se se flexibilizar a concepção da identidade e se. mas que uma posição de esquerda pode aceitar sem dificuldades desde que se pense a identidade mais como um projeto do que como um adquirido. 155. digamo-lo de um modo mais preciso. No entanto. Impossível dar uma resposta sucinta a essas objeções. Manuel Maria Carrilho. citando Eduardo Lourenço: “Convencido de que ‘os valores de pátria. Cabe consignar serem essas duas outras idéias também provenientes das reflexões habermasianas.” Idem. 2) No processo de transmissão de nossa herança cultural. O enquadramento dado à questão das identidades pelo filósofo e ex-ministro da cultura português. na convicção de que ela é. 27 CARRILHO. em especial do ponto de vista da esquerda.

questão nuclear dos movimentos modernistas dos anos 20 e 30. . Tais questões adquirem particular urgência no quadro de crescente integração regional do Brasil no Mercosul e a relação deste bloco vis-à-vis a Área de Livre Comércio das Américas – Alca. 30 VIANNA. a constatável complexificação da sociedade brasileira. à luz de matrizes teóricas vinculadas à Escola de Frankfurt – Habermas e Honneth – e do brilhante trabalho de Charles Taylor. Faoro. confira-se: CARDOSO. Vida Pública e Identidade Nacional: Leituras Brasileiras. o crescimento do peso econômico cultural dos Estados do sul brasileiro – aceleram o processo de regionalização e colocam problemas ao modelo federativo (federalismo cooperativo ou federalismo competitivo?). Maria Alice Rezende de. ensejando um esmorecimento das vozes críticas tão necessárias na identificação das inúmeras mazelas presentes em nossa formação social. há de se reconhecer que o tema da identidade nacional – e como poderemos construir uma identidade racional coletiva – tornou-se uma questão crucial para a nossa sociedade.). In. e pressionado pela avassaladora presença econômica e ideológica estadunidense. Luiz Werneck e CARVALHO.M. Jessé Souza desconstrói algumas das leituras padrões de nosso país (Buarque de Holanda.”30(grifo meu) Por fim. faz-se necessário identificar quais fatores e tendências poderão contribuir como forças centrípetas à manutenção e ao reforço de uma identidade nacional brasileira 31 capaz de garantir um substrato político-simbólico mobilizador e capaz de nos auxiliar nas inúmeras tarefas que se descortinam em nosso horizonte próximo.). por exemplo. marcado pela retomada das discussões acerca de um projeto de país. (Org.29 Entretanto. saliento neste momento apenas os seguintes pontos: A) Em relação a Jessé Souza. encontramo-nos diante do paradoxo: a tensão entre uma crítica punjente dos problemas da época e a elaboração construtiva das formas que permitam encontrar saídas. 2004. vários fatores. p. nos dias de hoje. 2004. nos últimos anos têm ensejado um ambiente favorável às cogitações acerca de um dos temas mais caros às nações periféricas. 223. devemos.). Da Matta e Freyre). reconhecer a seguinte lição: “nós ainda nos recusamos a reconhecer a riqueza da singularidade [da nossa experiência. Sérgio. contribuindo para o esgarçamento e o enfraquecimento dos vínculos de identidade. Belo Horizonte: Editora UFMG. ANEXO Quanto às referências indicadas na nota 17 acerca dos autores que já apresentam em seus trabalhos recentes os sinais dessa inquietação relativa às tradicionais análises de nossa identidade nacional. Newton. operam como forças centrífugas. CARDOSO. na busca de “esclarecer a singularidade do tipo de sociedade. Retorno ao republicanismo Belo Horizonte: UFMG. 2004. pelo menos. Sérgio. bem como as discussões relativas ao multiculturalismo. sigo a formulação de Adrián Gurza Lavalle. A.]. Ademais. Ancorado em um sólido conhecimento de Max Weber e Norbert Elias. acompanhada da emergência de novos pólos econômicos em nosso país – como. como já destacado. Eleva esta reflexão a um patamar hermenêutico mais refinado. Os efeitos da globalização. retomada quando da efervescência política dos anos 60 e 70. Sobre o assunto. sempre preocupados com o que nos falta e não com o que já temos. 31 Um debate que tem ocupado a atenção de importantes setores do pensamento nacional pode ser articulado com essas preocupações relativas à construção de um discurso político que funcione no sentido de reforçar a nossa identidade nacional. e BIGNOTTO. 2002. Assim. está novamente na ordem do dia. Pensar a república. de cultura política e de comunicação cultural que 29 Quanto a este paradoxo.bravatas patrióticas. Verdadeiro leitmotiv do pensamento latino-americano. São Paulo: Globo. (org. Belo Horizonte: Editora UFMG. sobredeterminadas pelos influxos econômicos e culturais das nações-piloto: a questão da identidade nacional. No tocante à formação social brasileira. a publicação recente de Modernidade Seletiva apresenta um novo panorama à explicitação da problemática de nossa identidade nacional a partir de uma releitura de intérpretes-marco que condicionaram nossa auto-percepção acerca de nós mesmos. (Org. “Experiência brasileira e democracia”. Retorno ao republicanismo.

”34 B) Já Sérgio Costa. no tocante a um aspecto central das leituras canônicas de nosso país. . enfrenta o crucial debate acerca do componente racial. 33 Idem. Antonio Cavalcanti. de origem negra. Rio de Janeiro: Editora FGV. Do Ocidente à modernidade: intelectuais e mudança social . retoma e analisa algumas das mais importantes interpretações do Brasil. As Cores de Ercília: esfera pública. “Elias. In. são as mesmas vistas como obstáculo para a criação de uma grande nação moderna. a interpretação dominante dos brasileiros sobre si mesmos está permeada por uma ‘sociologia da inautenticidade’. Atento à reconfiguração que essa problemática assumiu no Brasil a partir da importação da temática do multiculturalismo. no campo das relações entre Ocidente e Oriente –. em original análise. p. In.).” 33 A título de exemplo. em sua autolocalização.aqui se processou. As identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC . José Carlos. São Paulo: Edusp. 2002. Weber e a singularidade cultural brasileira”. 2003. em especial os capítulos: “A mestiçagem e seus contrários – política e etnicidade” e “Desigualdades raciais e identidades culturais”. A modernização seletiva: uma reinterpretação do dilema brasileiro . Jessé. culturas e instituições”. em livro cujo sucesso de vendagem (seis edições entre 1999 e 2003) demonstra a avidez dos brasileiros pelo conhecimento das grandes narrativas que inventariam e inventam nossa identidade nacional.” Quanto à sociologia da inautenticidade. In. de meros modelos discursivos. configurações pós-nacionais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. D) Inscrevendo-se em uma tradição de ambiciosa análise civilizacional – por exemplo. p. 34 SOUZA. democracia. José Carlos Reis seleciona.” REIS. impõe. Como destacado na apresentação de seu livro: “Neste livro. como o nosso ‘outro’ por excelência. p. sobre nossa reflexão sobre nós mesmos. O fato é que essas qualidades. 127. Dossiê Norbert Elias. 1999.80. Conferir: COSTA. e que exerce poderosa influência sobre o pensamento social. a necessária adequação dessa categoria à explicitação do nosso punctum dolens identitário. de onde destaco: Zéa (1965) argumentou que os ‘latino’-americanos têm inquirido sobre quem são os termos particulares. personalismo e patrimonialismo. et al (org). ângulo que escapa habitualmente a estes últimos. Perspectivas Atuais da Filosofia do Direito. auto-identificação e autorepresentação.”32 Sirvo-me também do resumo feito por Rachel Barros Nigro em “Considerações sobre a identidade nacional”. e referenciado às sociologias comparativas das culturas de Johann P Arnason e Shmuel Eisenstadt. Sérgio. 2000. capacidade de acomodação e compromisso com o gentio e com o meio físico. 2003. 225. que foram tão importantes na criação de uma grande nação nos trópicos. ou seja. por exemplo no texto “Identidades. José Maurício Domingues assume uma posição prospectiva. WAIZBORT. orientando os brasileiros em suas opções políticas. C) José Carlos Reis. aquelas que ultrapassaram a condição de simples referências intelectuais. Leopoldo (org. pouco usual nas ciências sociais. MAIA. temos que: “Os Estados Unidos são a referência principal também para nossa sociologia da inautenticidade. Esse é o ponto. para se tornar as ‘inventoras’ das identidades do Brasil vivido e real. esclarece Jessé: “isto não significa que o homem cordial não tenha qualidades para Sérgio Buarque. Brasília: Editora Universidade de Brasília. antes que em termos diretamente universalistas: eles podiam perceber que não eram ‘homens’ em geral – estavam jogados em condições particulares e sabiam que não eram ocidentais. Rio de Janeiro: Lumen Iuris. através de seu trabalho. pois tomam sua condição como universal para a espécie humana. Belo Horizonte: Editora UFMG. Jessé. Os ‘latino’-americanos tinham de compreender a particularidade de modo a compreender a condição humana em geral. como a plasticidade. Será que isso mudou com o desenvolvimento de uma 32SOUZA. 2005: “Como destaca Jessé Souza. em nossa identidade nacional. Como. um sistema de inter-relacionado que engloba os conceitos de herança hibérica.

De que amanhã: diálogo/ Jacques Derrida. uma vez que não podemos evitar a questão acerca do que é ser moderno na periferia da modernidade global. José Maurício. 2002. Newton. Elisabeth Roudinesco . 2003. n. 35 DOMINGUES. In. incorporado cultural e psicologicamente. “Identidades. Lisboa: Editorial Presença. Retorno ao republicanismo. 1995. esses países são agora claramente modernos. 2004. a identidade é. Jacques. compósito decantado no decorrer de longos processos históricos que. Adrían Gurza. “Identidades. 36LAVALLE. modernizou-se em grande medida. Do Ocidente à modernidade: intelectuais e mudança social. London: Blackwell Publishing. e. Por isso. 2003. (Org. Stéphane. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Walter. Belo Horizonte: Editora UFMG. a identidade é a um termo virtude e defeito. 2004. DOMINGUES. 36 BIBLIOGRAFIA AHMAD. Aventuras da interpretação. 2000. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Identité et ipséité”. In. p. Seleciono apenas a seguinte passagem – definindo identidade nacional como um “compósito decantado”: Nos autores que pensaram o Brasil diante do horizonte aberto pela Revolução de 30. Linhagens do Presente – Ensaios. DERRIDA. 01. conquanto não venha a se tornar ocidental. Do Ocidente à modernidade: intelectuais e mudança social. Londres: Verso. Belo Horizonte: Editora UFMG. ANDERSON. 1998. . ainda que a questão e sua resposta devam ser articuladas em termos bastante distintos em relação a como o foram anteriormente. BRUGGER. São Paulo: Globo. CARRILHO. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. In.). “Democracy and collective identity: In Defence of Constitutional Patriotism”.255. 93. 1998. Vida Pública e Identidade Nacional: Leituras Brasileiras. Lisboa: Editorial Presença. Sérgio. CARDOSO. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária. FERRET. José Maurício. ARROYO. BIGNOTTO. Elogio da modernidade. Manuel Maria. 35 E) Em brilhante trabalho. Juan Carlos Velasco. vol. Benedict. European Journal of Philosophy. culturas e instituições”. passível de mudança mediante o efeito vagaroso das tendências socioeconômicas de longo prazo. caracteriza de forma mais ou menos unitária o conjunto da população – não as raças ou certas camadas. São Paulo: Boitempo. Aijaz. 1989. 1987. In. A região em seu conjunto se ‘ocidentalizou’ – isto é. (Org. 11. Dicionário de Filosofia. Imagined Comunities. La teoria discursiva del derecho. CRONIN. Madrid: Centro de Estúdios políticos y constitucionales. L´identité. em tese. Paris: Flammarion. _______________________. 2002. “Ricoeur. p.).modernidade global cada vez mais explícita? Este não parece ser o caso. possuidor de uma combinação rara – erudição histórica. april 2003. acuidade conceitual e sofisticação metodológica – Adrián Gurza Lavalle revisita autores dos mais marcantes do pensamento social brasileiro. culturas e instituições”. Ciaran. porém decerto ele ou é abertamente discutido ou permanece latente. Pensar a república. Isso não quer dizer que o problema da identidade tenha tomado chá de sumiço: pode estar adormecido por vezes. 2004.

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