You are on page 1of 3

REFLEXÕES SOBRE A 'QUESTÃO SOCIAL' NO BRASIL

Marcelo Avelar de Souza1

Em meio ao processo de produção de mercadorias, historicamente com a maquinaria (séc. XVIII a XIX), a força de trabalho vivo começa a ser deslocada de sua participação direta na produção, tornando o ritmo do trabalhador a ser ditado pelas máquinas em uma nova divisão social do trabalho, onde as classes dominantes passaram a explorar de forma vigorosa o trabalho humano em condições depreciativas. Ou seja, estando o trabalhador a ser gradativamente ‘coisificado’, visto como uma mercadoria como outra qualquer. Neste momento, a “questão social” 2 é aflorada pelo movimento dos trabalhadores em sua máxima no universo da produção. Com o agravamento das necessidades sociais (tais como: educação, saúde, habitação) surge um novo processo de urbanização onde se formam os “bolsões de pobreza”, que se propagam proporcionalmente ao acúmulo de capital em reduzidas mãos capitalistas.
O Estado brasileiro da Nova República busca se modernizar dentro do contexto do capitalismo, acionando formas e mecanismos de absorver as tensões sociais e os conflitos dentro do aparato estatal. Ele procura formas de institucionalizar os conflitos e as tensões sociais: criando espaços institucionais, como ministérios, secretarias e outras instituições, para atuar nos conflitos e constituindo interlocutores oficiais para negociar com os movimentos sociais procurando com diferentes estratégias, incorporar a luta dos setores populares à lógica dominante. (CARVALHO, apud OLIVEIRA, 1996, p. 42-43)

O Estado, neste ínterim, através de políticas sociais vem dar respostas à “questão social”, fruto deste processo de acumulação (produção e reprodução) do sistema capitalista, em um âmbito de relações contraditórias entre as classes sociais fundamentais. A “questão social”, neste sentido, “...explica a necessidade das políticas
1 Assistente Social do Centro de Socioeducação de Cascavel I, especialista em “O Trabalho do Assistente Social – O Projeto Ético-Político e as Competências e Habilidades para sua efetivação: uma discussão contemporânea”, pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná e Professor da disciplina de Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social III do Instituto Tecnológico e Educacional de Cascavel/PR. 2 Em forma preliminar ao desenvolvimento deste conceito, destaca-se a compreensão da “questão social” como “detonadora” dos problemas sociais, efeitos da relação capital/trabalho gerados a partir da industrialização. A “questão social” poderia assim ser caracterizada pela exploração do trabalho e das condições subumanas de vida, denotando "...o conjunto de problemas políticos, sociais e econômicos que o surgimento da classe operária impôs ao mundo, no curso da constituição da sociedade capitalista.” (CERQUEIRA FILHO, apud CREMONESE, 2002, p. 16)

através de sua manutenção via a produção da Indústria Cultural que (re)orienta o comportamento das massas populares à dependência e servidão. E. ao mesmo tempo favorecendo o capital. que num momento dado podem representar.. 116-117. crescimento de contingentes situados na condição de subclasse. Para aprofundamento desta questão confira COHN (1994) e CAMPANER (1998). abala o próprio sistema de desenvolvimento do capital que. 2000. na história. os quais na contemporaneidade vem se transformando em mercadorias)... ou seja. apud MOTA. múltiplas manifestações de pauperização absoluta e relativa. através das políticas ‘universais’. Ressalta-se assim a dominação ideo-político-cultural da classe trabalhadora. 69) 4 Neste âmbito de discussão se faz justo enfatizar a seguinte compreensão teórica que compreende os seguros sociais como “. I.). intentando estas a intervenção nas relações de produção (esfera dos serviços sociais. miséria e fome. visto que. p. discriminação racial. à desautonomia dos homens (e conseqüentemente a perda de um pressuposto imprescindível à concretude de uma sociedade efetivamente democrática). 2000. grupos e coletividades em todas as direções (. Destaca-se neste ínterim “Alguns aspectos mais evidentes da questão social na sociedade global: desemprego cíclico estrutural. pelo sistema capitalista5. p.. .. 124). a produção de mais-valia (. velhice e invalidez. para sua reprodução. superexploração da força de trabalho. 2002. dentre outras) é falar de estratégia governamental. como instrumentos de dominação diretos. p. “. 157) Sendo assim... p. não explicam a questão social” 3 (ABESS. econômica. desemprego. de idade. desempregado pelo sistema produtivo). muitas vezes verbalizadas em termos de pobreza. fiscal. 1991.. SALVADOR. assim como pressões da classe operária organizada acerca da insegurança do trabalho em momentos tais como: doença. Assim se percebe em análise mais apurada que o Estado passou a atuar de forma direta nas relações de classes e práticas das instituições4. p. de controle dos movimentos sociais de insubordinação dos trabalhadores à ordem estabelecida.. em uma relação dual onde as lutas dos trabalhadores por condições de reprodução de sua força de trabalho são incorporadas pelo capital. 125-131). migração de indivíduos. da ‘compra e venda da força de trabalho’. famílias.políticas de reprodução da força de trabalho. p. de socialização pelo Estado dos custos de manutenção dos trabalhadores incapacitados ao trabalho. 6 Cf.. visto o gradativo desaparecimento dos postos de trabalho (mas há permanência do trabalhador. previdenciária. É esta lógica que leva o Estado ao controle.” (Ibid. e indiretos. necessita da mão-de-obra do trabalhador 6.o aumento da produtividade da força de trabalho (. 1995. principalmente. p. 18 e 23-24) falar de política (política social. apud KRÜGER. 65).. à regulação social. 159) 5 Incorporadas como instrumentos de dominação dos próprios trabalhadores. Pode-se assim observar a caracterização de um momento global quando se buscou “. presentemente a seguridade social tende a não ser vista como um mecanismo de redistribuição de renda. política. religiosa.)” (ALTVATER. no âmbito das relações entre as classes e o Estado..mantém as mesmas porcentagens de contribuição para as diferentes classes sociais e oferecem prestações desiguais segundo o lugar ocupado pelos contribuintes no processo produtivo. através de legislações e intervenções que asseguravam ao trabalhador a reprodução ampliada da força de trabalho. p. através de iniciativas particulares (Cf. os sistemas de proteção social nos anseios de manutenção da hegemonia da ordem capitalista.. 1995. sexual. BOSCHETTI. de prevenção das crises econômicas pelo estímulo à demanda e ao consumo. A não permanência do operário no mercado de trabalho.sociais. em virtude das situações eventuais que lhe são apresentadas.” (IANNI apud KRÜGER. MOTA.” (FALEIROS.. mas as políticas sociais por si. 3 Segundo VIEIRA (2001. Inserem-se assim.. permitindo sua acumulação. habitacional.).

A isenção do IPTU na perspectiva do usuário: um estudo. São Paulo: Cortez. 1992. A reforma da Previdência Social no Brasil e os impactos sobre o mercado de trabalho. A individualidade no círculo da cultura mercantilizada. na condição de classe. 145-181. reproduzindo as relações de classe. 1995. 17-26. CREMONESE. Caderno do Serviço Social. Tese (Mestrado em Serviço Social) – Departamento de Ciências Sociais Aplicadas. . 2002. Tal problemática se dá no seio do antagonismo entre burguesia e proletariado (relação capital/trabalho). 16-31. a política previdenciária é objetivada em atenção ao capital. n. 20). In:_____. visa superar a dominação burguesa (CARVALHO. jul. [S. p.) Estado e Políticas Sociais no Brasil. n. Isilda. apud MESTRINER. Evaldo Amaro. política e ideologicamente. Toledo. 2001. 9-125. 3. ano XXIII. MOTA. afim de que a estrutura produtiva e de mercado não sejam afetadas. Maria Luíza.: s. Assistência e Seguridade Social: oposições e aproximações. Tânia Regina. 70. em virtude do crescimento quantitativo desta última classe que. Ivanete. p. luta para melhoria de sua condição de vida. Cascavel: Edunioeste. São Paulo.É com estes fundamentos que. VIEIRA. Cultura da crise e seguridade social: um estudo sobre as tendências da previdência e da assistência social brasileira nos anos 80 e 90. Revista Serviço Social & Sociedade . no cerne das contradições da relação capital/trabalho. Claudinéia Lunkes. FALEIROS. ed. 2000. SALVADOR. Vicente de Paula. 1991. p. In: NOGUEIRA. Estado e Política Social na década de 90. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOSCHETTI. 1992. 6. Pode-se considerar a gênese da “questão social” no bojo do sistema capitalista quando o trabalhador. A política social do estado capitalista : as funções da previdência e assistência sociais. Ana Elizabete. p.l.117-149. São Paulo. 2002. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Cascavel: Edunioeste. 375 f. p.n]. Monografia (Graduação em Serviço Social) – Centro de Ciências Sociais Aplicadas – Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). 61-75. São Paulo: Cortez. 1998. 80 f. Evilásio. p. A questão social e sua centralidade no desenvolvimento sóciohistórico do Serviço Social. p. MESTRINER. KRÜGER. A seguridade social em tempo de crise. CAMPANER. p 114-139. Francis Mary Guimarães (Org.