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A GEOPOLÍTICA ALEMÃ NA REPÚBLICA DE WEIMAR: O SURGIMENTO DA REVISTA DE GEOPOLÍTICA1

Altiva Barbosa da Silva2
Resumo O presente artigo discute o surgimento da Revista de Geopolítica, em 1924, dentro de um universo eclético de idéias e tendências no âmbito da "crise da ciência" do início do século XX. O eixo básico dessa argumentação está nas críticas promovidas pelo grupo de geopolítica da Zeitschrift für Geopolitik (ZfG) - Revista de Geopolítica - ao "tradicionalismo acadêmico da Geografia na Alemã". Essas críticas eram baseadas na idéia de modernização e rompimento com a racionalidade científica, típicas do ambiente intelectual da República de Weimar, marcado pelo subjetivismo da Lebensphilosophie. Além da discussão de alguns aspectos dessa modernização, exemplificada através da "Cartografia Geopolítica", o artigo também traz uma caracterização dos aspectos formais da revista: tiragem, público-alvo, temário, dentre outros. Palavras-chave : Geopolítica, Geografia Política, Geografia Alemã, Revista de Geopolítica

Abstract The German Geopolitics in the Republic of Weimar: the advent of Journal of Geopolitics in Germany This article discusses the advent of Journal of Geopolitics, in 1924, in the eclectic universe of ideas and tendencies in the crisis of the science of the beginning of the 20th Century. The basic axis of this argument stand on the critics made by the group of geopolítico of the Zeitschrift für Geopolitik (ZfG) – Journal of Geopolitics - to the "academic traditionalism of Geography in Germany". Those critics were based on the modernization idea and breaking off with the scientific rationality, typical of intellectual atmosphere of the Republic of Weimar, marked by the Lebensphilosophie. Besides the discussion of some aspects of that modernization, exemplified by the Geopolitics Cartography, the article brings a characterization of the formal aspects of the journal: circulation, target public, themes, among others. Key words : Geopolitics, Political Geography, German Geography, Journal of Geopolitics

1 O presente artigo apresenta resultados parciais da dissertação de mestrado: "Do povo sem espaço ao espaço sem povo: Uma análise da Zeitschrift für Geopolitik ", orientada pelo Prof. Dr. Heinz Dieter Heidemann e apresentada ao Departamento de Geografia/USP em 1996. 2 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da USP - altiva.barbosa@uol.com.br

Estudos Geográficos, Rio Claro, 1(2): 1-15, Dezembro - 2003 (ISSN 1678—698X) - www.rc.unesp.br/igce/grad/geografia/revista.htm

1984:21) Estudos Geográficos. a revista volta a ser publicada. teorias. (TROLL.W. Quais métodos.unesp. lemos as críticas feitas por pesquisadores franceses e norte-americanos. bem menos. contribuiu decisivamente a um distanciamento dos chamados "pais da geografia". de algum modo. Interessa-nos também compreender o diálogo estabelecido entre os autores da revista com renomadas figuras do campo científico da Geografia. de que modo a ciência geográfica interagiu com a nova proposta de atuação político-acadêmica. durante as primeiras décadas do século XX. "a verdadeira data de nascimento da Geopolítica foi o ano de 1924. no âmbito acadêmico.rc. Rio Claro. (1982). 1(2): 1-15.ZfG). No Brasil.. em todos os seus caminhos e encruzilhadas.4 Segundo Troll. (Sanguin. 4 Vide. a revista tornou-se sinônimo.www. Após os anos 50. além das perseguições e censuras de idéias ocorridas durante o período nazista.INTRODUÇÃO A Revista de Geopolítica (Zeitschrift für Geopolitik .htm 2 . 5 "A pesar de su edad Alfred Philippson (1864-1953) fue encerrado en el campo de concentración (. atingindo geógrafos renomados que. En 1945. entre os anos de 1924 e 19443 . Ainda que nenhum pesquisador a tivesse estudado especificamente. Houve um claro déficit na contribuição dos geógrafos alemães para o mundo científico. não apenas da Geografia que foi produzida na Alemanha no período entre-guerras.5 Dessa maneira. um retrato do que foi essa geopolítica. geopolíticos. e em épocas imediatamente posteriores. la escuela alemana había dejado de existir". por se tratar de um tema fortemente marcado por interesses nacionais. N. de forma mais autêntica. foi publicação mais citada por geógrafos. podemos dizer.. 1950:18). sobretudo. de maior instrumento de propaganda já empregado pela ciência geográfica a serviço do expansionismo germânico.o jornalista Kurt Wovinckel. Dezembro . conceitos e temas. quando começou a ser publicada a Zeitschrift für Geopolitik ".br/igce/grad/geografia/revista. interessados em questões geopolíticas. políticos e acadêmicos em geral. que a crítica generalizada à geopolítica alemã. foram assimilados da geografia pelos geopolíticos? Ou ainda. geralmente.) Hettner murió em 1942 y Albrecht Penck en 1945. cuja influência central na ZfG permaneceu durante toda sua existência. introduzida pelos geopolíticos da Revista? É importante ainda aceitar o desafio de interpretar os documentos que possam nos oferecer. à literatura produzida pelos geógrafos alemães. resta-nos resgatar a história dessa disciplina. perderam sua respeitabilidade e motivação acadêmica. Assim sendo. ou seja. para termos uma visão mais abrangente da contribuição da geografia à ciência.2003 (ISSN 1678—698X) . a revista sempre foi referência de pesquisadores que se dedicam ao tema Geopolítica do período que antecede a II Guerra. editada na Alemanha. à geografia e seu envolvimento na geopolítica e. mas sim de tudo o que fora produzido antes. sob a liderança do general e geógrafo Karl Haushofer (1869-1946). pelo editor principal da Revista. 3 De 1951 a 1968. por um grupo. em sua primeira fase. por exemplo a obra de SODRÉ. em toda América. em vista dos "resultados da Geopolítica".

unesp. uma crise de cultura. sobretudo as acepções de Jeffrey (1993) O Modernismo Reacionário. não veio acompanhada de um suporte estrutural em setores básicos como o econômico. as disputas por espaço no próprio continente. Segundo Forman (1983): "Existia uma sensação generalizada de crise. por colônias. que impôs à Alemanha fortes sanções econômicas e perdas de território e de autonomia em setores estratégicos. Sobre este tema vide também: Gay (1978). Rio Claro. pode ser entendido como um reflexo de todos esses conflitos que extrapolavam a reivindicação territorial. por exemplo. desde o século XIX. correspondente às transformações que estavam se dando nesse império 8 . às vezes. Por um lado. 1(2): 1-15. essa noção de crise no. após a Primeira Guerra Mundial. 24-25) Essa crise tornou-se mais acirrada devido às obrigações do Tratado de Versalhes. Estudos Geográficos. 10 Para o debate destas questões tomou-se como base. buscava uma base espiritual que resguardasse os valores da "alma alemã". p. o país almejava encontrar um novo caminho que lhe garantisse a estrutura material básica. Parcelas significativas da população alemã engajaram-se. conduzida política e militarmente por Bismarck que. respaldadas em seus respectivos estados pelo espírito nacionalista que tomava conta até mesmo das mentes mais esclarecidas. social e político. e constituiu o primeiro império (Reich) alemão7 . ou do conhecimento. dentre outros que poderiam ser citados como exemplo. 7 Vide: Almeida (1982) A República de Weimar e a ascensão do nazismo.www. Richard (1988) A República de Weimar. remontando-se à época da guerra franco-prussiana e da unificação. apenas emergiu como clichê universalmente aceito no período que se seguiu à derrota alemã na guerra"(Forman. dessa maneira. ciência e conhecimento.rc. expressos em termos de Deutsche Kultur. impulsionou fortemente seu crescimento industrial.AS BASES DA GEOPOLÍTICA NO CONTEXTO CIENTÍFICO DA REPÚBLICA DE WEIMAR O pensamento geopolítico que se desenvolveu durante os anos 20. ou seja: o Lebensraum autárquico9 . imbricados à noção de Lebensraum e harmonia. Dezembro . por mercado consumidor e fornecedor de matérias-primas. Nesse sentido. 1983. A rápida industrialização do Reich a partir dessa época aliada ao aumento vertiginoso da populacão e da urbanização. em 1871. durante a República de Weimar.htm 3 .6 A historiografia mostra que na Alemanha esses conflitos foram mais acentuados que em outros países. mas longe de se limitar a isso. como uma reação conservadora da geopolítica alemã ao universo capitalista anglo-americano. traça um quadro bastante esclarecedor da "crise da ciência". 8 Vide. possui estreita relação com os conflitos políticos entre as potências imperialistas que. Embora suas raízes se estendessem até o século anterior. Em ambos 6 Forman (1983). Ademais. filiada à Lebensphilosophie. ou até mesmo da ideologia völkisch10 . lutavam para assegurar a hegemonia em toda a extensão do globo. dentro do âmbito geográfico. 9 Nas páginas 40 à 48 da dissertação de mestrado da autora deste texto foram apresentadas as acepções mais recorrentes à época desses conceitos. na luta contra as imposições desse Tratado. por outro. como o militar.2003 (ISSN 1678—698X) .br/igce/grad/geografia/revista. desde 1850. o conseqüente recrudescimento da "questão nacional". juntaram-se à crise generalizada enfrentada pelo país no início deste século. sentia-se que o fenômeno fundamental era uma crise moral e intelectual. Isso incluia a permanente crise política e econômica. "perdida ou ausente".

que forçaram essa interpretação da crise do conhecimento.rc. intuição. característica de parte relevante do meio intelectual de Weimar.. Deve ser lembrado. op. de fato foi vista como uma chance para livrar a ciência do "beco sem saída" em que se encontrava . e do funcionalismo caracterizado pela Bauhaus. do vivo. entretanto. COSTA.retorno ao artesanato como reação contra a tecnologia moderna.) a Bauhaus foi de fato característica da República de Weimar . como crise do monismo causal. a influência intelectual mais poderosa. op. e que a associava à própria elite científica. 1(2): 1-15.. Assim. com atitudes bastante "positivas" perante as ciências exatas. p. pretendia ser uma crítica contundente ao positivismo. ou às conquistas da tecnologia moderna . entende-se que a rejeição à razão enquanto instrumento epistemológico. (Forman. conhecida como Lebensphilosophie.a nova arquitetura e o movimento de design que lhe era associado constituíram a expressão de um impulso inerentemente peculiar aos métodos das ciências exatas. e 11 12 In. haveria também muito a se dizer sobre a influência dos grupos de esquerda. A crise do conhecimento deveria ser seguida por uma revolução que liquidasse esses mecanismos estéreis e intolerável. Gropius negou a associação entre arte e tecnologia no design industrial. 31.M (1992). Seu livro: O Declínio do Ocidente. sentimentos. uma entidade cósmica una" 12 . caracterizada pela negação do "universalismo abstrato. Dezembro . afirmando que seu principal objetivo no planejamento do currículo da Bauhaus era treinar as capacidades naturais do indivíduo de abarcar a vida como um todo. oferecer respostas a uma sociedade decepcionada com os resultados da guerra. a tendência predominante nos anos do pós-guerra. entendidos como correntes da ciência tradicional que não respondia às demandas do momento. publicado em 1918.br/igce/grad/geografia/revista. tendo sido lido quase que universalmente nos círculos acadêmicos. 23) Ainda segundo este autor: "Foram os Lebensphilosophen radicais. antes de uma tendência geral.os casos a explicação geográfico-geopolítica. representado pelo Círculo de Viena. dos métodos positivistas da Wissenschaft. ou pelo menos. como exposto por Herder para marcar "a posição distintiva da filosofia alemã frente à filosofia da ilustração"11 . Era imprescindível para o cientista. Gropius (1935) The New Architecture and the Bauhaus.unesp. Rio Claro. raciocínio mecanicista". pág. ainda que não se tratasse de um sistema ou escola. dominados pelo marxismo.26) A literatura sobre a República de Weimar indica ter sido a Lebensphilosophie. serviu de apoio à construção de um ideário cada vez mais distante da lógica e da racionalidade científicas. Para Spengler a construção artificial da ciência foi erigida contra a noção mais fundamental e irracional de destino.htm 4 .2003 (ISSN 1678—698X) . do orgânico". p. em favor de uma "nova Wissenschaft" de valores. acreditava ter ela contribuído decisivamente nesse processo. W. Sob a ótica desta pesquisa. tem precisamente o tom certo para uma Alemanha derrotada. cit. (Forman. cit. Estudos Geográficos.www. cosmopolitismo uniformizador. Para completar esse cenário do ambiente intelectual de Weimar. ao mecanicismo e ao materialismo. Há um relativo consenso em considerar Oswald Spengler o representante característico da Lebensphilosophie. Conforme Gropius (1935): "(. que o universo weimariano incluiu também expressões típicas do positivismo lógico.

resultante da ligação íntima entre raça e espaço. ritmo. em 1923. inaugurada. P ossuia um grupo fortemente oposto ao "tradicionalismo acadêmico". ex-membro do Partido Comunista. arte. a sensibilidade.. como a Antropologia. 1(2): 1-15. Outro mito que obteve forte repercussão entre os geógrafos e geopolíticos foi o da centralidade.ainda. a pesar de que el método científico siga siendo inductivo. passando pela fundamentação na Lebensphilosophie." (CAPEL. do racionalismo científico e de outras correntes críticas do pensamento. L. aceito como científico. no contexto da ZfG.www. foram publicados na Seleção de Texto n. em 1932. p. totalidade. Conforme Capel (1981): "La crisis del positivismo a fines del siglo XIX supone la aparición de corrientes historicistas. sino la "comprensión". SCHWARCZ. 14 É interessante também observar tendências semelhantes em outras disciplinas das Ciências Humanas. sob alegações absolutamente subjetivas. se valoren ahora nuevas faculdades como la intuición. 13 Interessante observar que essa pesquisa de mestrado foi iniciada em função da curiosidade em situar o artigo de K. tais como a intuição. neokantianas y espiritualistas. Assim. após os anos trinta na Alemanha. como o da Deutschtum (germanidade). unidade. essência. es decir. elementos presentes no debate da Landschaft. cuja radicalização expressou-se em outro mito: o do sangue e solo (Blut und Boden). com sua crítica mais generalizada à sociedade. com trabalhos social-darwinistas. que fomentou uma forma de racismo. em 1992. supone la posibilidad de afirmar la autonomía de las ciencias humanas. Para uma visão mais abrangente. a partir do qual foi elaborado o conceito Mitteleuropa. Rio Claro. vinculadas à idéia de destino. ha de ser empatética. harmonia. por exemplo. sobre a famosa Escola de Frankfurt. via Lebensphilosophie.13 Por outro lado. a filiação dos geopolíticos da Zeitschrift für Geopolitik . alma. A "Escola Geógrafica Alemã" estava em busca de sua identidade. desde Humboldt. Augut Wittfogel. Tentava superar sua crise e renovar-se. atendia aos requisitos mais amplos de uma ciência desgastada e enfraquecida pelas críticas. 1981:262). A biografia de Wittfogel e o artigo em questão. o ambiente intelectual de Weimar teve como característica marcante o domínio de idéias avessas às explicações do materialismo dialético. passa pelo historicismo. inclusive de ampla repercussão no Brasil. situando também num contexto mais amplo de época. Nas mãos dos geopolíticos esses conceitos foram reelaborados para justificar a política nazista que se impôs.ex.rc. não existiu na Revista de Geopolítica qualquer recorrência a essas correntes de pensamento. vide. La vuelta al dualismo y la critica del reduccionismo naturalista.M (1993) Estudos Geográficos.br/igce/grad/geografia/revista.2003 (ISSN 1678—698X) . No entanto. o sentimento. las cuales se individualizan por referirse al "reino de la liberdad". Se entiende así que.htm 5 . dentre outras comuns nos ensaios da Revista de Geopolítica. la cual sólo puede hacerse desde dentro. com os clássicos trabalhos de Levi Straus. Na leitura que os geopolíticos fizeram dos conceitos geográficos. enquanto reação metodológica da geografia e da geopolitica do início do século. Deste modo. de lo que posee historia. a pesquisa realizada mostra que o vínculo estabelecido pelos geopolíticos entre os conceitos de povo e espaço erigiram-se a partir de uma série de mitos. Dezembro . emoção. que aglutinou o amplo espectro de reivindicações expansionistas. predominou uma argumentação baseada em faculdades que não seriam admissíveis para um positivista. 20 da Associação Geógrafos Brasileiros-AGB. a Lebensphilosophie. El objetivo del trabajo científico no es ya la explicación y la previsión. de modo que. e incluído de algum modo em algumas disciplinas universitárias na Alemanha14 .unesp.

1979:512) Não foi possível.. ficando estabelecido desde o início que o corpo teórico seria proveniente de Ratzel e Kjellén.Dentro desse "universo científico eclético". cujas "leis científico-naturais" elucidariam a política da época. Todavia.) "O primeiro encontro entre eles ocorreu na cidade de Munique. eram associados às raízes do declínio do Ocidente. como parte destes documentos extraviou-se. em março de 1923.assuntos geopolíticos . entretanto. a ele e a Hesse. a modernização. teve que aguardar até que o próprio Vowinckel pudesse inaugurar sua editora. com indústrias e cidades modernas . o discurso geopolítico da Zeitschrift für Geopolitik . foi quem lhe apresentou o jornalista e redator Kurt Vowinckel ". fiel à sua alma. Rio Claro.rc. pois a idéia de declínio foi difundida na Zeitschrift für Geopolitik desde sua inauguração. e principalmente do capital financeiro. nos dias 15 e 16 de dezembro de 1923. sobretudo no que concerne às relações internacionais. discípulo de Drygalsky. a primeira reunião do grupo da ZfG 16 . assim como os geopolíticos. que conhecera Haushofer quando trabalhara no consulado alemão em Londres. foi organizada em Berlin. viabilizar imediatamente esta proposta devido aos efeitos generalizados da crise inflacionária na Alemanha. e a partir daí estreitaram laços de amizade". "Kurt Hesse. "as observações sobre os resultados destas conferências apoiaram-se não apenas nos documentos existentes como também em depoimentos de seus participantes" (Harbeck.e de outra. possuiam enorme culto à técnica. o projeto da criação de uma revista de geopolítica. quando trabalhava para a editora Hugo Wolff em Munique. em parte. deve ser ressaltado que o próprio Spengler. Sob esse prisma. 1963:12) Estudos Geográficos.o nome de Haushofer. A afinidade de interesse entre ambos culminou rapidamente na concepção de uma nova revista. Vowinckel pretendia abrir sua própria editora. apresentado à editora Oldenbourg. A pesquisa realizada mostra que Vowinckel há muito vinha buscando uma parceria como aquela que efetivou com Haushofer. Desse modo. op. cit. quer social. desde 1895.htm 6 .um império cujos poderes se estendessem por todo o globo .br/igce/grad/geografia/revista. para a qual Vowinckel e Haushofer convidaram os geógrafos recém admitidos na academia alemã: Erich Obst 15 Utilizou-se o título da obra de Spengler (1920) Der Untergang des Abendlandes (O Declínio do Ocidente).www. bastante conveniente para assumir a direção do novo periódico. ainda no primeiro semestre de 1923. oscilou entre a defesa de uma Alemanha tecnologicamente avançada.. (. pareceu. n o "arquivo de Haushofer" (Haushofers Nachlass-HN). Jeffrey. 16 As Atas das conferências dos editores realizadas normalmente uma vez ao ano encontram-se. Deve-se lembrar que. (JACOBSEN. 1(2): 1-15. p. simbolizadas pela nostalgia romântica da Bauertum ("ruralidade"). Benjamin que compreendeu que "a modernização técnica e industrial não implicava necessariamente a modernização em sentido mais amplo. presa a raízes profundas. que já lhe era conhecido através de conferências assistidas. o mundo do capital.47. Após a inauguração da editora. quer cultural". com a qual permaneceria ao longo de toda a sua vida . Certamente acreditando no sucesso de tal empreendimento. Esse paradoxo foi bem contextualizado na obra de W. em 1924. Como ele já tinha clara a linha editorial.unesp. Um segundo objetivo da ZfG seria oferecer instrumentos adequados à atuação política. como assessor de imprensa. Dezembro .2003 (ISSN 1678—698X) . quer político. devido ao amplo interesse por assuntos geopolíticos na conjuntura de conflitos latentes do pós-guerra.15 O NASCIMENTO DA REVISTA DE GEOPOLÍTICA Segundo Jacobsen (1979:181).

Erich Obst. 3) a essência dos espaços terrestres compreendidos pela Geografia oferece à Geopolítica o quadro no qual se realiza o percurso dos processos políticos. 18 Até as primeiras décadas deste século. Estudos Geográficos. para tanto o grupo sintetizou-a do seguinte modo: “1) A Geopolítica é a ciência de vinculação dos processos políticos à terra. mais cedo ou mais tarde. b) compreende os acontecimentos da atualidade. existia nas universidades alemãs a disciplina "Ciência do Estado". A referência às obras de Kjellén pelo recém formado grupo. c) para a explicação da política mundial. publicada em 1917.2003 (ISSN 1678—698X) . "representante do ultra-conservador Partido Nacional da Suécia" (Kost. recebendo modificações para que se constituisse num programa básico. 2) ela se baseia no fundamento amplo da Geografia. e neste caso. Dezembro .1979:187 e 263) A organização dos temas e a formatação ficou a cargo de Kurt Vowinckel. 1988:42). que esboçou o primeiro programa de trabalho. deve explicitar o movimento de superação espacial (raumüberwindende). foi traduzido na íntegra e encontra-se nos anexos da dissertação de mestrado da autora deste texto. e) quando tratar da cultura mundial. Apresentando ao grupo sua concepção de Geopolítica.rc." (HARBECK. (Jacobsen. Com certeza os sujeitos da vida política ocasionalmente ultrapassam esse quadro. àqueles ligados ao "Velho Mundo". K.htm 7 . especialmente da Geografia Política. releva a dependência dos fatores naturais. Dada sua importância pela tentativa de fundamentar o objeto basilar da revista. isto é. Vowinckel enfatizou os seguintes aspectos: "a) o seu principal papel é o de ser ‘intermediária da vida prática`. persistiu durante os anos de existência da revista.1963:15): A proposta de Vowinckel foi avaliada pelo grupo no final de 1923. o espaço vital. 17 O artigo inaugural da revista também foi escrito por Fritz Hesse. Rio Claro. e. Fritz Hesse ocupou-se com a direção redatorial. 19 A obra de Kjellén que mais despertou atenção dos geopolíticos intitula-se Der Staat als Lebensform (O Estado como forma de vida). Elegeu-se como fonte de inspiração a obra do "cientista político"18 Johann Rudolf Kjellén (1864-1922)19 . mas com uma abrangência maior. de qualquer forma. e o geógrafo Lautensach da literatura geral e sistemática sobre a Geopolítica. considerado pelos editores modernizador e capaz de atender às demandas da época.unesp. a Geopolítica pretende oferecer as armas para a atuação política e ser guia na vida política. em alemão) se ocuparia com questões próximas ao âmbito do Direito Constitucional. e. Fritz Hesse17 . O "cientista do Estado" (Staatswissenschaftler. será feito novamente o vínculo à terra. Hermann Lautensach (Giessen). d) ao se referir à economia mundial deverá relevar a estrutura interna. para que ocorra êxito permanente.(Hannover). Otto Maull (Graz). Fritz Termer encarregou-se do "Novo Mundo" (América e o restante da África). através da condicionalidade do espaço e da história. ou seja Europa e norte da África. que não corresponde exatamente à Ciência Política. 1(2): 1-15.br/igce/grad/geografia/revista. Karl Haushofer encarregou-se da discussão de assuntos ligados ao Indo-Pacífico. 4) neste sentido. como ciência dos organismos espaciais e políticos e sua estrutura.www.

1(2): 1-15. no final da década de Trinta este número chegou a cinco mil exemplares. conhecimento. Fritz Termer . a ZfG abriu espaço à publicação de artigos dos editores da revista "Política e Economia Mundiais" Weltpolitik und Weltwirtschaft (W&W). Erich Obst . e informações sobre 20 Kunstlehre foi um termo utilizado pelos geopolíticos para expressar a associação imediata da ciência com a "arte" (Kunst). Trata-se de uma obra coletiva dos editores da ZfG. 21 In: Haushofer.docente do Instituto de pesquisas da América na Universidade de Würzburg22 . embora cada um dos colaboradores procurou.23 Em 1925. 23 Jacobsen (1979) e Harbeck (1963). ainda que se trate antes de um discurso laudatório do expansionismo. elaborada com o intúito de esclarer as principais concepções deste grupo. habilidade. até sua extinção. apud Wittfogel.professor no ensino médio. por isso. como era de se esperar. gráficos. foram os de Karl Haushofer e de Kurt Vowinckel. No entanto. .5) assim.br/igce/grad/geografia/revista. trazendo a partir daí uma série de tabelas. capaz de direcionar até certo ponto a política prática.) (1925:27) Bausteine zur Geopolitik. K. 22 Fritz Termer. no primeiro número da revista.. ou ao menos a um consenso sobre a "nova disciplina". ela se torna "ciência prática" (Kunstlehre20 ).unesp. em 1944. atingindo. O primeiro artigo da revista. ASPECTOS FORMAIS E COMENTÁRIOS GERAIS SOBRE A ZEITSCHRIFT FÜR GEOPOLITIK O primeiro número da Zeitschrift für Geopolitik foi publicado em janeiro de 1924 com a seguinte composição editorial e redatorial: . 6) A Geopolítica quer e deve se tornar a consciência do estado". escrito por Fritz Hesse. no contexto da geopolítica acredita-se mais adequado traduzí-lo por "ciência prática". no seu artigo específico.colaboradores: Hermann Lautensach (Hannover) . em janeiro de 1925.). eram realizadas mudanças no corpo diretivo da revista. 21 Esses postulados não foram publicados. A revista tinha periodicidade mensal.2003 (ISSN 1678—698X) . cem páginas.general e professor da universidade de Munique. Estudos Geográficos. embora.rc. Freqüentemente. o dono da editora.editora: Kurt Vowinkel .Berlin – Grünewald. a maioria das "novas proposições" não foram elaboradas por Karl Haushofer.www. em 1927.professor da Escola Superior Técnica de Hannover. com artigos que possuíam em torno de oito laudas. esclarecer a que vinha a Geopolítica. -chefe redação: Fritz Hesse. à época professor de geografia em Würzburg. dados estatísticos. A tiragem inicial era de mil exemplares. que tinha participação decisiva nesta publicação.editores: Karl Haushofer . do que propriamente de uma esclarecimento imprescindível à "nova ciência". mas sobretudo por Otto Maull e Hermann Lautensach. (org. Dezembro . por Otto Maull. não se tenha chegado a nenbum debate consistente. Por outro lado. Somente assim se realiza a transposição do saber para o poder (. Iniciou-se com um total aproximado de cinqüenta páginas. (1992). Rio Claro.htm 8 . como apontam as críticas. Kunst provém de können = saber. tendo sido substituido. Os únicos nomes que permaneceram na sua direção. . tentou suprir esta lacuna.. de Hamburg. escrevia na coluna "América Central".

Na literatura brasileira. Estudos Geográficos. Essa estrutura vigorou até 1929. dos mares. c) investigações geopolíticas: subdivididas em Europa. ensino etc. fronteiras. De 1930. nesta seção discutiam-se as "bases teóricas da geopolítica". Chegou-se a um consenso entre os diferentes atores que foram se juntando à Revista de que sua estrutura básica conteria o seguinte: a) artigo(s) principal(is) sobre uma questão atual em destaque. até sua extinção em 1944. in: Costa (1992). além dos ensaios sobre a 24 Vide referências sobre a obra de Arthur Dix em Kost (1988). a Zeitschrift für Geopolitik abrangia uma grande variedade de questões: econômicas. a partir de 1933. vide a análise da obra de Dix: "Geografia Política". o Partido Nazista. os membros da W&W eram em sua maioria economistas. d) resumo e comentários sobre a literatura de teor geopolítico.a idéia era traçar um quadro sucinto dos assuntos geopolíticos que estavam em voga fora da Alemanha. ou seja: cultura. Rio Claro. publicada em 1929. devido à formalização da fusão com a revista Weltpolitik und Weltwirtschaft. a partir daí não houve mais essa preocupação.unesp. da cartografia. e de interesse geopolítico. f) dados estatísticos . e) artigos sobre a economia mundial. inclusive com suas vinculações teóricas. c) informações sobre os mais importantes processos geopolíticos . composto por membros do Partido Operário Nacional Socialista Alemão (NSDAP). religiosas. b) artigos com discussão mais aprofundada a respeito dos problemas geopolíticos do globo. isto é questões que envolviam dois ou mais países. do ensino. por exemplo: rotas aéreas. Em relação à temática. d) artigos de âmbito global. Doutrina Monroe. Ásia e América. sob auspício de Kurt Vowinckel.discussão sobre seu significado para a Geopolítica e demonstrações de seu uso e aplicabilidade. produzida interna e externamente. Um outro aspecto importante a ser mencionado diz respeito à alteração de enfoque em quase todos os ensaios. No aspecto visual. Referia-se ainda a qualquer parte do globo terrestre. dentre outros. passou a promover uma censura direta dos artigos publicados na revista. Posteriormente esse grupo. culturais. das estradas. até mesmo aos Pólos Árticos e Antárticos. migração.www.2003 (ISSN 1678—698X) . em 1931.pretendia-se nesta coluna oferecer um quadro mais elaborado do assunto em questão. além dos mapas . científicas. África e Oriente Médio. enfim tudo que pudesse ser classificado como de interesse da geopolítica. O enfoque central passou a ser a função estratégica do rádio.rc. políticas. Outra fusão decisiva na história deste periódico deu-se com a criação do "Grupo de Trabalho" (Arbeitsgemeinschaft für Geopolitik /AfG). 1(2): 1-15.br/igce/grad/geografia/revista.htm 9 . obviamente quase nada escapava.já freqüentes nos textos publicados antes de 1930. g) resenhas e informações sobre a literatura geopolítica. apareceram de forma inusitada a profusão de tabelas e caricaturas de figuras proeminentes. das rotas aéreas. das fronteiras. Dezembro . Se antes predominava um verniz científico em cada argumentação. b) política exterior da Alemanha. a revista passou a conter os seguintes tópicos: a) reportagens geopolíticas .o mercado financeiro. exceto em um ou outro autor. Apesar de ter o geógrafo Arthur Dix24 como um dos diretores. e.

conforme a área geográfica abordada. antes da publicação. ou já eram professores de Geografia do ensino médio" (HEINRICH. de uma lista de mil assinantes c onstante no arquivo de Haushofer. defendida no Departamento de Geociências e Geografia de Giessen. e nesse momento assumiu. o que certamente contribuía para a ausência de um debate efetivo entre seus autores. para publicação no próximo número da revista. alguns deles eram. um quarto residia no exterior.rc. que vinha destacado na capa. no círculo militar. Rio Claro. só era facultada ao editor.www. No geral. e não diretamente pela editora. deste modo. Harbeck (1963) afirmou. A revisão e aprovação dos artigos ficavam a cargo dos diretores da ZfG. Harbeck ressaltou ainda que. elaborou um quadro revelando que mais de 70% dos artigos publicados pela ZfG eram de autores formalmente não geógrafos. Kurt Vowinkel. O PÚBLICO-ALVO DA ZEITSCHRIFT FÜR GEOPOLITIK (ZFG) É difícil traçar um quadro definitivo do perfil dos leitores da ZfG. Acrescenta-se a isso os fatos de residirem em cidades diferentes . A tese de Harbeck sobre a Revista de Geopolítica mostra ainda que a maioria dos leitores era composta de assinantes. na economia. eram pessoas que "publicaram mais de um artigo.à época um fator limitante .htm 10 . Quase todos possuiam formação acadêmica em geografia. em sua área de atuação. A leitura da revista sugere que esse critério acabou levando a uma certa independência por parte de cada editor. uma delas com cerca de cento e cinquenta nomes. por exemplo. 1(2): 1-15. sobretudo com Karl Haushofer. que sempre ocupou amplo espaço na revista. era distribuída através de livrarias. políticos eminentes. todos os ensaios e investigações. Desse modo.br/igce/grad/geografia/revista.2003 (ISSN 1678—698X) . e por ele serem encaminhados ao chefe de redação. Heinrich. que centralizava todo o material. que possuíam contato pessoal com o grupo de editores da ZfG.unesp. Estudos Geográficos. embora partilhassem de idéias básicas sobre a Geopolítica. Dezembro . história. em sua tese de doutorado. política ou jornalismo. a visão do todo. inclusive. Uma parte. deveriam passar pela aprovação de Karl Haushofer. que foram encontradas entre os documentos deixados por Haushofer listas de endereços. 25 Praticamente não existia nenhuma restrição quanto à temática. explicitamente. ganhando assim importância. Deste modo.e de se comunicarem praticamente através de correspondências. no entanto. o que nos mostra o interesse e a repercussão desse periódico fora da Alemanha. sendo todos atuantes no campo da "politica popular" (volkspolitisch). ao âmbito do Indo-Pacífico. e sendo então classificados pelos editores como geógrafos. muitos ensaios não apresentavam ligação com o tema central do periódico. e no mundo científico.questão da nacionalidade. 1991:58). Em outra lista encontrada nos arquivos deixados por Haushofer estão elencados nomes de trinta personalidades influentes na politica. um teor racista. sendo que na maioria das vezes não seguiam uma linha temática única25 . que dissessem respeito. inclusive. Não há registro suficiente de dados dos assinantes.

que ela certamente teve um papel importante para o desenvolvimento do pensamento geopolítico como um todo27 . o fato de se poder contar apenas com os documentos presentes no arquivo de Haushofer. Constata-se. sobretudo nos países onde Haushofer possuia contatos pessoais. Adverte-se aqui para o fato de poder existir a coleção completa deste periódico. era a figura que centralizava todas as informações. Pretendia ser também um instrumento de fácil acesso a um público leigo que precisava ser despertado para os acontecimentos mundiais. (1935:318-320). A influência mais direta. Estudos Geográficos.28 A MODERNIZAÇÃO NA REVISTA DE GEOPOLÍTICA Um dos aspectos que chamou muita atenção na atuação dos geopolíticos. possuia o cadastro dos assinantes. 28 A preocupação com o ensino da Geografia e da Geopolítica tornou-se frequente na revista. a revista passou a veicular assuntos da ordem do dia.2003 (ISSN 1678—698X) . em outras bibliotecas brasileiras. (1938:169-175). mas seleto: bibliotecas e figuras ligadas ao poder . (HARBECK.unesp. dessa maneira. JANTZEN. como o Japão e os países anglo-saxões. incidia sobre o professorado alemão. que utilizavam o conteúdo desta em seus respectivos campos de atuação. que a distribuição da Revista foi bastante ampla.a partir do público. pretendia abrir espaço a qualquer profissional interessado em questões políticas.htm 11 . pois. "Em comunicação pessoal. fazia a triagem final dos artigos. A leitura dos artigos da revista sugere que pretendia atingir um público esclarecido de pessoas influentes. não encontramos nenhum número da década de 1940. tendo em vista o vínculo explícito com o nazismo. restringiu bastante esta investigação. a partir da década de 30.br/igce/grad/geografia/revista. esse material tenha sido destruído. 1(2): 1-15. na Tese de Jacobsen (1979). e não com aqueles que certamente ficaram em posse de Vowinckel. 27 O único geógrafo (e engenheiro). sem estar catalogado pela IBICT. Vowinckel. possuindo ou não formação científica. No entanto. Rio Claro. entretanto. pode-se inferir . podendo ser citados os ensaios de: OFFE. Dezembro .No Brasil também foi observada a fragilidade das fontes para se chegar a esse tipo de informação. obviamente. sabemos que o Museu Paulista da USP possui a maior parte dos periódicos da ZfG que para cá vieram. THIES. Ainda assim. Vowinckel afirmou que no final dos Anos Trinta.. na íntegra. e certamente a que permitiu a maior difusão das idéias do grupo de geopolíticos. Acredita-se que após a guerra. Em contraposição. voltava-se primordialmente às questões internacionais. foi a tentativa de rompimento com o "tradicionalismo e imobilismo acadêmicos". sobretudo para a situação 26 O diálogo de Harbeck com Vowinckel é extremamente importante para a reconstituição da história da revista. residente no Brasil. que foram publicados. que escreveu para a revista. quinhentos eram destinados a bibliotecas estrangeiras". ou dos demais editores. (1932:503-512 e 626-637). apregoava o enfoque interdisciplinar. decidia os rumos da revista. SCHMIDT. dos cinco mil exemplares da ZfG. como o isolamento dos acontecimentos dinâmicos da sociedade. 1963:15)26 Embora não se possa mensurar a influência desta revista interna ou externamente à Alemanha. pelos geopolíticos. seu artigo: "Das politische Conglomerat Brasilien" foi publicado em 1926. foi Everardo Backheuser.www. com o aval de Haushofer e principais editores. restrito. agrupados em torno da ZfG. entendido.rc. (1931:388-390).

Schumacher acrescentou um componente novo. além do mais. posteriormente. ao referir-se à importância das cores para destacar certos elementos e encobrir outros. segundo o ponto de vista dos geopolíticos. sobretudo porque os temas priorizados nesses mapas eram aqueles que possuíam ampla ressonância. permitiam visualizar. partindo de um critério de predominância lingüística. passa a ser uma constante na Revista. maior interesse foi a grande ênfase atribuída à tecnologia. forjando dados que. desvinculados da realidade. Ao mesmo tempo em que o autor buscava fundamentar suas idéias a respeito da representação espacial. sobre a "teoria da representação espacial. Nesse sentido a vanguarda intelectual conservadora da Zeitschrift für Geopolitik. o significado do Lebensraum pôde ser veiculado a todos os segmentos da população . Estudos Geográficos.unesp. A cartografia geopolítica representou para os geopolíticos. que resultaria numa imagem na qual as fronteiras do estado alemão tornavam-se muito maiores do que a que se via no mapa oficial. e (1935: 247:265) "Zur Theorie der geopolitischen Signatur". uma forma de se contrapor aos métodos e técnicas de representação visual que consideravam ultrapassados e ineficientes.peculiar da Alemanha. a técnica foi vista como a grande aliada da Geopolítica.br/igce/grad/geografia/revista.htm 12 . 1(2): 1-15. Em sucessivos ensaios da Zeitschrift für Geopolitik . se deu sobretudo através das propostas apresentadas pelo engenheiro e geógrafo Ruppert von Schumacher em 1934 e 193529 . crianças ou adultos. bem como à importância dos sinais adequados a cada tipo de idéia que se quisesse incutir. era a de que a importância da técnica empregada poderia ser comprovada por qualquer leigo. através dos ensinamentos aos mestres. o aumento da população alemã em toda a Europa.2003 (ISSN 1678—698X) . notadamente. Sua argumentação básica. constatou-se o quão importante foram para os geopolíticos as proposições de 29 Schumacher (1934:635-652) "Zur Theorie der Raumdarstellung".rc. também desejava vê-la implementada nos atlas difundidos à época. após 1930. traduzindo. Nesse sentido. como se observou nos ensaios sobre a cartografia geopolítica e sobre o poder dos meios de comunicação.www. violou todos os métodos convencionais. e deu asas à imaginação. O refinamento desta concepção cartográfica na ZfG. (figura 1) A eficácia desse método era incontestável também. reveladora da "fragilidade da Alemanha frente aos seus vizinhos europeus". Nessa proposta de modernização o que despertou. jovens. e dos signos geopolíticos". e por isso mesmo capaz de despertar a atenção de um público mais amplo. Através de fórmulas diretas e atraentes de representação. a intenção de atrair um público jovem. porque a força da imagem provocada no subconsciente da nação não permitiria equívocos: a Alemanha encontrava-se ameaçada por todos os lados. o imaginário social. A cartografia geopolítica foi considerada um dos instrumentos pedagógicos mais significativos à efetivação do ideário geopolítico alemão. sem receio. a supremacia racial ariana. Foram confeccionados mapas que expressavam o desejo expansionista. não havia saída senão o confronto bélico. Dezembro . por assim dizer.a leigos ou intelectuais. um exemplo inconteste seria o traço sugestivo dessa cartografia. por exemplo. depois de meados da década de 1930. Rio Claro.

passou de 652 em 1942. Estudos Geográficos. A tecnologia e a idéia de fortalecimento da identidade nacional foram os pilares do debate geopolítico nas primeiras décadas do século XX.1963:xii). mas o grupo de editores da revista procedeu à sua extinção em 02 de setembro de 194430 . Rio Claro.rc. permitindo que em julho de 1943. pois.unesp.www. as questões internas.2003 (ISSN 1678—698X) .Schumacher. praticamente a edição passou a ser bimestral.htm 13 .Haushofer. e exerceram enorme fascínio nas mentes dos dirigentes da nação. se ampliasse o número de leitores e se obtivesse um volume maior". Antes de sua extinção ainda se efetuou uma última fusão com a revista "Escola da Liberdade". 1944. Foi nesse sentido que a cartografia geopolítica recebeu tratamento especial na Revista de Geopolítica. Por outro lado. (HARBECK.Schumacher (1934) . a revista garantiu sua "aceitabilidade social" e alcançou um de seus principais objetivos. que era justamente de ser um instrumento para atuação prática. A partir de então. 1(2): 1-15. 30 Não se obteve dados mais precisos a respeito da extinção da revista em 1944. Dezembro . não eram trazidas a público. "fortemente anti-semita e ferozmente anti-soviética". para 347 em 1943. não se efetuou ainda uma análise de todas correspondências do arquivo K. Figura 1 – Exemplo de Cartografia Geopolítica na ZfG Área Limite ameaçada por aviões de países vizinhos .br/igce/grad/geografia/revista. No último ano.ZfG O FINAL TRÁGICO DA GEOPOLÍTICA NA ALEMANHA Face às circunstâncias da guerra. onde talvez se possa encontrar este tipo de informação. a Zeitschrift für Geopolitik foi-se extinguindo aos poucos: o número de páginas publicadas anualmente.

em 1944. Tese do Dep.Paul A Cultura de Weimar. 1978.Atemweite. Berlin-Grunewald. Cadernos de História e Filosofia da Ciência. Unicamp. ---. 14. 1. 1920. Estudos Geográficos. Ensaio. 1926. São Paulo. Everard.I e II (660p.Volkstum un Rasse in Süddeutschland. JEFFREY. tendo sido assassinado pela Gestapo em abril de 1945. Ewald Expressionismus und Geographie . Ele e sua esposa Martha Meyer-Doss.. Barcelona. Herf O modernismo reacionário: tecnologia.J.Ramos. ZGEB. 355 p. 1979. SP. Dezembro . 1925. Karl (1924) (org. Karl Haushofer. Karl-Heinz (1963) Die Zeitschrift fur Geopolitik 1924-1944. 1981). 1983.Das harmonische Landschaftsbild. Zeitschrift fur Geopolitik . IMWKT. Tese de doutorado do Instituto de Geografia da Universidade de Giessen.unesp. Albrecht Zur Problematik des Raumbegriffes.723-734. 1926. como o próprio filho de Haushofer. Ao término da II Guerra. Horacio Filosofía y ciencia en la geografía contemporánea. p. Peter A Cultura de Weimar.www. Banse. nº 70.) Geographie und Weltmacht .Robert Die Erdkunde und ihre Nachbarwissenschaften. Tese da Universidade de Kiel. Albrecht. Supl. 2.31. de origem semita. Hans-Adolf Karl Haushofer: Leben und Werk . ---. RJ.625-630."Zum Geleit" . Gay. 1924. Harald Boldt. JACOBSEN. 1983. Tradução de C.2003 (ISSN 1678—698X) . Horst-Alfred Politische Affinitat zwischen geographischer Forschung und dem Faschismus im Spiegel der Fachzeitschriften. 1(2): 1-15. Hucitec-Edusp. (1ª ed. Paz e Terra.129-147. e ocupou importantes cargos durante o III Reich.F. 1918-1927.135-146. Bopard am Rhein. ed. foi levado a julgamento pelo Tribunal de Nüremberg.. Das politische Conglomerat Brasilien. cometeram suicídio.. HEINRICH. Gradmann. BIBLIOGRAFIA Backheuser. Ed. p. 1936. Lebensraum und Gleichberechtigung auf Erden!. Volk und Rasse. cultura e política em Weimar e no Terceiro Reich. Rio Claro. vol.). HARBECK.No final do regime nazista. GZ 27 P. 283 p.S. até mesmo alguns membros da revista foram perseguidos. 1993. 1920.605626. Berlin-Grunewald.br/igce/grad/geografia/revista. Segunda edição. Forman . Haushofer. Tese da Universidade de Bonn. em março de 1946. p. COSTA. ---.) Bausteine zur Geopolitik . Zeitschrift fur Geopolitik p.htm 14 .. que teve papel de destaque na Zeitschrift für Geopolitik . Geografia Política e Geopolítica. (org. 615p. Albrecht Haushofer foi acusado de estar envolvido no atentado contra Hitler. 1991. Barcanova. Haushofer. 1992. Wanderley M.rc. p. 510 p. CAPEL. 1934. a Causalidade e a Teoria Quântica. Haushofer deixou um documento para tentar esclarecer sua concepção político-partidária e participação na Geopolítica. Geografia da USP. Zeitschrift fur Geopolitik . ---. São Paulo. (original 1984) Ed. in: Fairgrieve.

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