A internet profunda e o mercado da exploração sexual infantil

Com o título Melhor estar a salvo do que lamentar, um homem – que por motivos óbvios mantém o anonimato –, relata em um fórum na internet como evitar problemas ao procurar sexo com crianças. O objetivo do post é ajudar outros a obter esse tipo de serviço sem o envolvimento de grandes riscos. Entre as chamadas “medidas de segurança” destacam-se os subornos e extorsões, estratégias para driblar o trabalho de ONGs de proteção infantojuvenil, cuidados com intermediários e um manual básico de comportamento nos bordéis. Tudo para não chamar muito a atenção e garantir a satisfação dos “clientes”. Publicações como essa podem ser facilmente encontradas na internet, mas principalmente em sistemas de busca e hospedagem que estão na “deep web”. Descrita por alguns como o inferno da internet (ou paraíso para outros), a deep web (ou internet profunda) caracteriza-se por conteúdos não acessíveis pelo modo convencional, como por exemplo, mecanismos de busca como o Google. É protegida por várias camadas que dificultam o rastreio do usuário e foi projetada para abrigar conteúdos privados, principalmente de ordem política, que não poderiam ser divulgados em países de regime fechado ou que controlam as informações na internet. É justamente lá, por exemplo, que sites como o WikiLeaks e grupos de
ciberativismo se articulam e publicam seus documentos.

Entretanto, a deep web tornou-se em pouco tempo território de inúmeras atividades ilegais, como venda de drogas, armas, falsificação de documentos, e apologia à pedofilia, com sites de apoio e militância por esta causa, além é claro, da troca e comércio de fotos e vídeos de pornografia infantil. Estima-se que seu tamanho seja até 500 vezes maior que a web comum. Isso significa que existe atualmente um valor incalculável de conteúdo dessa natureza sendo produzido, distribuído e armazenado na internet. E, consequentemente, que milhares de crianças e adolescentes estão sendo aliciadas cotidianamente a fim de alimentar um mercado em torno de 32 bilhões de dólares anuais ao redor do mundo, segundo a ONU. Cerca de 85% desse montante provém da exploração sexual (http://migre.me/djvqB). A publicação citada no início desse texto é um exemplo de como atividades relacionadas à exploração sexual comercial tornaram-se para muitos um negócio muito promissor. Outras postagens referem-se a descrições de como obter sexo com crianças de maneira “segura”, detalhando o funcionamento do mercado em cada país, com destaque para os melhores pontos para se hospedar, comer e passear. Ou seja, verdadeiros guias de turismo sexual. Discute-se de tudo, desde como cada país facilita a entrada, a circulação e atuação de turistas com essa finalidade, até detalhes sobre as preferências de idade e sexo, e a quantia média de propina reservada a policiais e intermediários (taxistas, donos de bares e quiosques, etc.). O clima entre os frequentadores é de intenso apoio, recomendações e camaradagem, constatado pelo final de mensagens do tipo: “Boa sorte para qualquer um que escolher essa rota!” Alguns sites desenvolveram uma moeda própria, a bitcoin, pela qual se pode negociar o valor das fotos e vídeos. Uma pessoa, alegando ser um adolescente, vende seus serviços com a seguinte descrição:

No entanto. agenciadores. mas para comprovar que sou eu. nem atribuir a eles toda a demanda pelos serviços sexuais. O conteúdo desses sites basicamente versa sobre racionalizações encontradas para justificar a prática do abuso. Muitas dessas pessoas estão envolvidas no mercado formal de trabalho. a manutenção desse crime: os sites de apoio a pedófilos. ou realizando algum ato de seu interesse. dentro e fora da internet e possui dimensões muito maiores do que qualquer pessoa possa supor ou calcular. você pode me pedir algum sinal nas fotos. não por acaso. da alma humana. traficantes de pessoas. produtores de material pornográfico. Levando seriamente em consideração a existência de uma rede de exploração temos vários sujeitos envolvidos em sua sustentação: aliciadores. cuja maior parte se encontra nas profundezas. donos de hotéis. Pela troca de bitcoins te envio fotografias minhas posando como você me pedir. mas refere-se às opções de que o cliente dispõe. e não se pode responsabilizar unicamente os pedófilos por todos os crimes cometidos contra elas. violência. Portanto. palavras como abuso.“Sou um adolescente de 16 anos. etc. prostíbulos e casas noturnas. Existem ainda muitos outros exemplos que demonstram a diversidade das formas de exploração. O negócio é quase sempre fechado por e-mail. Tudo é anônimo. em parte. Alexandre Gonçalves . e tem sido sistematicamente substituídas por orientação sexual. como algo escrito em mim mesmo. amor. proprietários de sites de compra e venda desse material. bares. A rede de exploração está profundamente difundida. não seria possível uma atividade movimentar tanto dinheiro e gerar tanto lucro se não houvesse uma rede criminosa altamente articulada e especializada no que faz. conforme sua imaginação. Se praticamente tudo o que sabemos sobre o fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescentes vêm dos casos que estão na superfície – dos quais tomamos conhecimento –. mas sobretudo.” O restante do anúncio é impublicável. crime não fazem parte de seu vocabulário. não só da própria internet. Dificilmente deve-se acreditar que não exista uma rede de exploração por trás de anúncios como esse. cujas contas estão hospedadas em algum provedor secreto da deep web. relacionamento. servindo como fachada para sua atuação. etc. taxistas. por serem estes os “consumidores” preferenciais de pornografia infantojuvenil. mas também outros que explicam. cafetões e cafetinas. isto então é só a ponta do iceberg. A regra por lá é naturalizar a prática. bastante protegido e complicado de rastrear. como algo aceitável e até mesmo recomendável. É importante ressaltar que o fenômeno da violência contra crianças e adolescentes tem muitas causas.