Universidade Federal do Pará Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH Departamento de Antropologia Disciplina: Antropologia Política Professora: Ana

Lídia Aluno: André Luiz Ferreira Cozzi. 0203604101 Data: 10/03/2006. Resumo do Texto: GEERTZ, Clifford. A Política como significado. In: A interpretação das culturas. Zahar Ed.; Rio de Janeiro, 1978.

I Geralmente a política é vista como um reflexo da cultura de determinada sociedade. Mas o caso da Indonésia, objeto de estudo neste capítulo, lança dúvidas sobre essa idéia como uma regra, pois “Na corrente de acontecimentos que formam a vida política e a teia de crenças que a cultura abarca é difícil encontrar um meio-termo” (p. 206). Nas análises da “Culture and Politics in Indonésia” tenta-se fazer uma “reconstrução teórica”, capaz de explicar as obscuras e vastas relações de julgamentos e sentimentos na sociedade Indonésia, tornando “[...] a vida política indonésia inteligível olhando-a [...] como informada por um conjunto de concepções [...] derivadas de preocupações que a transcendem de longe”. Benedict Anderson e Taufik Abdullah, na cultura; Daniel Lev e G. Willian Liddle, na política; e Sartono Kartodirdjo, em ambos as perspectivas. Tudo é dificultado por não haver nenhuma referencia teórica geral para conduzir as análises, que dificulta um contorno mais nítido da cultura (“impressionismo aperfeiçoado”). Neste caso, é preciso a construção de um patíbulo teórico, e isso requer uma diversificação nas abordagens. Esse é o caso do livro de Holt: conflitos, arte e literatura, instituições legais, milenarisamo popular, conservadorismo social, dinamismo ideológico; em que não se leva em conta o tópico ou o argumento, mas o estilo analítico dos objetivos e dos múltiplos temas metodológicos. Esses temas envolvem: definição, verificação, causalidade, representatividade, objetividade, medição, comunicação. Mas “[...] em sua base, todos eles se resumem numa única questão: como enquadrar uma análise do significado – as estruturas conceptuais que os indivíduos utilizam para construir experiência – que seja, a só tempo, suficientemente circunstancial para ter convicção e suficientemente abstrata para se construir numa teoria”. A proposta é de se evitar as generalizações que são tão comuns e, a partir da Indonésia, traçar uma metodologia de compreensão “[...] de como cada povo alcança a política que imagina” (p. 206- 208).

algo que tenha sentido.II A Indonésia é o melhor local encontrado por Geertz para discutir a política do significado porque: • “Dispõe de mais símbolos hieráticos por metro quadrado do que qualquer outra extensão de terra do mundo” (p. Antes.. 211). mas não desordenada. Durkheim conceitua) ou o padrão de vida oficial e o “arcabouço do sentimento popular no qual essa consciência se assenta” (p. Por trás desta realidade está a complexidade dos relatos tradicionais da história tribal das “concepções arcaicas das fontes de autoridade” (p.208. sincretismo indico versus dogmatismo islâmico”. o temperamento do povo sempre tende a uma paixão ideológica que não aceita oposição. 208). mas também por comportar “contrastes e contradições internas” (p. foi um misto de certa curiosidade . III A legitimidade só é possível na continuidade de um determinado “sistema político”. • • É necessário cautela por parte do pesquisador para que não entenda os conflitos ideológicos como meros embates de mentalidades opostas: “misticismo javanes versus pragmatismo sumatrano. 210). O autor defende que isto ocorre porque a elite local criou uma “anarquia do significado”. a saber: uma política do significado desgovernada. O país é uma ilha não apenas em sentido geográfico. dando a impressão de ser um “Estado manque”. mas a eles “juntou-se ainda outra tarefa. preocupando-se apenas em proteger seus estilos de vida ou. nas questões mais gerais. levando a um distanciamento cada vez maior entre a “consciência coletiva” (cf. A dominação estrangeira. Os esforços conjuntos no processo de independência contribuíram para amenizar esta situação. abrangente.] a de dispensar a aura de alienação das instituições do governo moderno” (p. 212). Na Indonésia. A densidade e variedade do referencial simbólico (p. 209). 209). a idéia de um governo central ativista. Essa não identificação com o governo afetou diretamente os próprios governantes.209). por cerca a de duzentos anos na Indonésia contribuiu significativamente para que isso não ocorresse lá. acostumada a senhores como governantes. Na população em geral. seja “familiar e inteligível”.. esses embates constituem a substancia para criação de uma “estrutura institucional” aceita pela maioria – concepção Weberiana (p. com a mediação da estratificação social. [. A peculiaridade do líder político Sukarno e do comunismo por este praticado (p. 212).

Quer seus autores concordem ou não. classificado por Jouvenel de “o estado casa-de-força”: as mudanças na natureza do governo não foram acompanhadas por uma mudança mental da população (p. Os exemplos contidos no Culture and Politics mostram que “[. quando “um tremendo trauma interno abalou seu tema de estudo. 218).. também futura.. mas um movimento sinuoso.. a longo prazo. enquanto os massacres não estão”. usado por Geertz neste capítulo. ou talvez supera-lo”. “O valor desses ensaios [. não há uma simples progressão do “tradicional” para o “moderno”. menos por combinarem com os fatos do qual derivam [.] os homens são atraídos por um duplo objetivo: permanecerem eles mesmos e manterem o ritmo século XX.] do que pela possibilidade de iluminarem o curso futuro da política indonésia” (p. a não ser vagamente. mas sem saber. Apesar de se concentrar nos acontecimentos anteriores ao golpe de 1965.. espasmódico. “Para onde quer que se olhe. V As tensões chegam a seu clímax em 1965.. 216). sempre há alguém procurando combinar idéias avançadas e sentimentos familiares” (p. O que se tem são apenas resultados mais comuns registrados pela história após golpes políticos: falta de coragem.. 220. e isto vale não apenas para a Indonésia. .e muito medo. o “pessoal esclarecido” na Indonésia tentou fazer um casamento entre a tradição espiritual do oriente com o dinamismo ocidental. 219). não-metódico que se volta tantas vezes para retomar as emoções do passado como para repudia-las” (p.] será determinado. que acabou tendendo para uma “incongruência paralisante entre o arcabouço ideológico [..] porque ela está profundamente enraizada nas realidades das estruturas social e econômica indonésia..] e o futuro do estado “casa-de-força” e aquele dentro do qual a formação política total da. 213. 215).. 217). “Em tais assuntos. que estabelece um comportamento enrijecidor individual e coletivamente (p.. 214). é inevitável sempre nos voltarmos ao passado” (p... nação tomou forma” (p. em que viver sua contemporaneidade requer uma constante revisão do conceito de modernidade.. 221).. Neste movimento pendular entre passado e presente. IV As mudanças mentais são mais fáceis de sentir do que documentar.] qualquer que seja a curva do progresso ele não segue uma curva graciosa [. 214). mas para todo o terceiro mundo. nesses dias febris do despertar nacionalista (1912-1950. é útil na avaliação pois “[. quais foram os seus efeitos” (p. aproximadamente).] a matriz conceptual dentro da qual o país se vinha movimentando não pode ter mudado radicalmente [. o volume de Holt.