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ELIO EUGENIO MÜLLER

Sangue de Inocentes
Coleção Memórias da Figueira Volume: II

Editora – AVBL 2009
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

MÜLLER, Elio Eugenio “Sangue de Inocentes – Coleção Memórias da Figueira – Volume: II” – Elio Eugenio Müller -- Curitiba/PR. Editora AVBL, 2009. -- Bauru/SP 150p. il. 14,8 X 21 cm. ISBN: 978-85-98219-50-9 1. Contos: Literatura Brasileira. I. Título. 11-09-09 CDD-869.93

Índice para catálogo sistemático: 1. Contos: Literatura Brasileira - CDD-869.93 Copyright © - ELIO EUGENIO MÜLLER eliomuller@uol.com.br - eliomuller@gmail.com SANGUE DE INOCENTES Coleção Memórias da Figueira - Volume: II ISBN: 978-85-98219-50-9 Direitos reservados segundo legislação em vigor Proibida a reprodução total ou parcial sem a autorização do autor. EDITORA AVBL www.editora.avbl.com.br e-mail: editora@avbl.com.br

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“SANGUE DE INOCENTES”
Coleção Memórias da Figueira Volume: II Episódio da Revolução Farroupilha

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ÍNDICE - AGRADECIMENTOS - PALAVRAS AO LEITOR - A REZA DE UM GENERAL FARRAPO - O ataque dos farrapos - Sangue e morte na casa dos Bobsin - UMA NOITE DE MUITA DOR E DE PRANTOS - CONTANDO COM A PROVIDÊNCIA DIVINA - O sepultamento dos inocentes - Isso dá pra matar? - CARROÇAS ABANDONADAS PELOS FARRAPOS - O sonho do templo de pedra - Lucrando com a Revolução - EM NOSSAS FLORESTAS EXISTE ATÉ (...) - Um relato sobre a troca de esposas - FARRAPOS RONDAM OUTRA VEZ (...) - Barata e Loré, guias do efetivo de Bento (...) - A tropa de Bento tenta escapar. Barata e (...) - Em meio ao luto ajudem uns aos outros - METADE DA TROPA DE BENTO SE RENDEU - Os dois batedores farrapos na companhia (...) - BRINCANDO DE REVOLUÇÃO - A SITUAÇÃO DA PATRULHA SERRANA - UMA AÇÃO DE GRAÇAS NATALINA 6 7 11 17 19 24 27 36 42 46 50 53 60 64 71 72 74 80 86 87 91 94 100

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- O ENCONTRO DA CLAREIRA - QUEM FOI CORONEL CALDWELL? - CONCLUSÃO - TRAGÉDIA E COMÉDIA, LÁGRIMAS E RISOS - A IDADE DE SER FELIZ NOTAS EXPLICATIVAS FIGURAS em “Sangue de Inocentes” FONTES DE CONSULTA COLEÇÃO MEMÓRIAS DA FIGUEIRA

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AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus fonte da vida e de toda a boa inspiração, que me permitiu a realização desta obra. Que estas memórias sirvam como um instrumento para a edificação do Seu Reino sobre a terra. À Doris, minha esposa, pelo permanente incentivo, como companheira valorosa, ao longo destes 40 anos de pesquisa e trabalho, que me ajudou a localizar e dar vida aos personagens, muitos dos quais parentes dela, que viveram esta saga contada em "Memórias da Figueira". À Profa. Dra. Solange T. de Lima Guimarães (Sol Karmel), amiga e conselheira, pela avaliação da obra e orientação. Ao publicitário Rodrigo Sounis Saporiti pela orientação, na fase inicial, para a escolha do formato literário da obra. À escritora Maria Inês Simões, Presidente da Academia Virtual Brasileira de Letras - AVBL, pela orientação na fase de publicação do livro.

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PALAVRAS AO LEITOR No primeiro volume, em “De Pés e a Ferros”, na Palavra ao Leitor, registrei a motivação que encontrei para a produção desta seqüência literária. Volto a explicar que semelhante aos diálogos que então tive com a figueira, assim são também os diálogos dos personagens que surgem em Sangue de Inocentes, sempre elaborados a partir do espírito criativo do autor. O objetivo é o de conceder mais vida para as narrativas. Porém o fundo de toda a obra é baseado em fatos reais da história e com personagens verdadeiros, de gente que construiu a Colônia Alemã de Três Forquilhas. Foram quase quarenta anos de pesquisas, no envolvimento contínuo com a vida destes personagens. Fui desvendando a alma deste povo. Fui me familiarizando com o sentimento deles e com o modo de pensar e crer, independente do sobrenome que levavam. Hoje vemos descendentes destes imigrantes que carregam em seu sangue uma herança genética de dez, doze ou mais genearcas da Colônia. Tomo por exemplo a minha esposa Doris, e isso, em conseqüência, vale para os nossos filhos Carlos Augusto e Cristiane e para os nossos netos Arthur, Lucas, Amanda, Stephanie e Vincenzo. A avó paterna de Doris foi a Guilhermina Mittmann que casara com Carlos Luis Bobsin. A avó materna foi a Maria Justo que casara com Adolfo Voges. Assim sendo, Doris, bem como os nossos filhos e netos, carregam no sangue a carga genética dos Bobsin, Mittmann, Voges e Justo, além dos Schmitt, Jacoby, Brehm, Justin, Marlow, Diefenthaeler, Knewitz, Helbig ou Helwig, Wetter, Diehl, Eigenbrodt e Vollbrecht.
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Voltando a enfocar a figueira que fala, ela permanece atenta ao que se passa... Ela se eleva altaneira no meu Sítio, em Itati – RS. Encontro pessoas que não acreditam que ela saiba se comunicar. No entanto ela tem falado comigo. E confesso que as lições recebidas são de grande valor. Um dos últimos ensinamentos que ela me concedeu foi a respeito de solidariedade e acolhimento. Ela me mostrou de modo muito claro que cada qual, de nós, se tiver disposição, pode dar muito de si mesmo em favor dos outros. É isto que desejo também fazer. Por isto passei a produzir as “Memórias da Figueira”, para transmitir às novas gerações, as lições que esta árvore vem me transmitindo. Convido o leitor sugerindo que passe, pelo menos, algumas horas com a figueira, no meu “Sítio da Figueira” em Itati. Com certeza sairá com uma convicção firmada: - O que escrevi sobre a figueira que se comunica com as pessoas, é a mais pura realidade. Certamente, no contato com a figueira, haverão de constatar. Ela concede abrigo. Ela estende sua proteção para todos que a procuram. Os leitores haverão de se encantar com a sombra acolhedora que ela proporciona, para todos que a buscam. De modo semelhante ao da figueira, almejo que as páginas desta Coleção das Memórias da Figueira também sejam portadoras de aconchego. Que as páginas deste 2º volume, Sangue de Inocentes, permitam aos leitores, um envolvimento pleno com as palavras dos personagens. Que os leitores possam, neste contato com
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a fala dos antigos, renovar o espírito e a vontade de viver e de lutar, por uma boa causa. Em 2009 faz 170 anos que o vale do rio Três Forquilhas sentiu o efeito direto do embate entre caramurus e farrapos, dando origem ao episódio de Sangue de Inocentes e que serve de pano de fundo para esta obra literária. Em minhas pesquisas procurei conhecer melhor cada personagem. Conhecer não só o nome, mas saber um pouco mais da história pessoal e coletiva deles. Procurei diagnosticar a realidade social, na qual eles viviam e vivem. Na conversa, junto às “Fontes da História Oral”, é que me foi possibilitada a identificação do contexto sócio-histórico e cultural. Persegui a necessidade de uma maior compreensão das relações institucionais ali existentes, das relações de grupos e das relações comunitárias. Observei a situação desta população do vale do rio Três Forquilhas, desde os primórdios da colonização, desde 1826. E, finalmente, declaro ser o herdeiro espiritual de pastor Carlos Leopoldo Voges, ou como costumava me dizer a bisneta dele, Othilia Voges Bobsin: - “Du bist unser geistlicher Guardian” (Tu és o guardião espiritual do povo deste vale). Nesta condição tão particular recebi a missão de compartilhar com todos um pouco do muito saber que me foi dado, nestes quase quarenta anos de pesquisas.
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Desejo a todos uma boa leitura, ou “leitorem salutem” conforme diziam os latinos.

ITATI (RS), 20 de setembro de 2009. Elio Eugenio Müller Membro da Academia Virtual Brasileira de Letras – AVBL

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A REZA DE UM GENERAL FARRAPO - “Padre. O General Davi Canabarro1 está aqui, diante de sua capela. Ele pede para falar com o senhor” disse o oficial farrapo que adentrara a igreja. Pastor Voges, postado diante do altar, revelava tranqüilidade. O oficial tirou o boné e, agora, ainda mais respeitoso, insiste em dizer: - “O General Davi Canabarro está lá fora e pede para falar com o senhor”. Era o mês de novembro de 1839. O sul do Brasil estava em plena Revolução Farroupilha. Voges olhou com curiosidade para empoeirado, e o acompanhou. o militar

Próximo à porta do templo, estava parado um homem forte e corpulento, ares de enérgico e resoluto, com olhar firme e penetrante. Quase que não se podia mais distinguir a cor da sua farda, empoeirada. O militar estava acompanhado por diversos oficiais, Coronéis, certamente integrantes do Estado-Maior do efetivo da Cavalaria. Quando Voges chegou diante do general, este tirou o boné e falou: - “Padre. Passando aqui com a minha tropa, vi a sua capela aberta. Fiquei com vontade de rezar. Peço a sua licença para entrar e fazer a minha prece...”. - “A minha humilde capela está ao seu dispor, general. Tenha a bondade de me acompanhar até o altar” - respondeu o pastor Voges, de propósito, não corrigiu o engano que ocorrera, ao ser identificado como sendo um padre católico. Considerou que seria melhor
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para a sua segurança que o confundissem com um padre, uma vez que a grande maioria dos farrapos devia ser do credo católico. Canabarro chegou diante do altar. Olhou em torno como que a procura de alguma coisa em particular. Devia estar em busca da imagem de Nossa Senhora da qual ele era devoto. Finalmente, postou-se diante do crucifixo sobre o altar, onde se via a figura do Cristo Crucificado. O general inclinou a cabeça e, em silêncio, começou a rezar. Os integrantes do seu Estado-Maior estavam postados a certa distância também em postura de recolhimento e devoção. General Canabarro estava ali, na Colônia Alemã de Três Forquilhas, rezando diante do Cristo Crucificado pedindo pelo amparo divino para a tarefa de conter o avanço do General Labatut, da Força Caramuru, que se encontrava nas proximidades de São Francisco de Paula. A missão do General Labatut era de alcançar Porto Alegre, para atrapalhar os planos dos Farrapos. A situação presente é que Bento Gonçalves também seguia a Porto Alegre, através de Viamão, e enfrentaria uma ameaça muito séria, caso os reforços de Labatut conseguissem chegar até a Capital. O Comandante Farrapo permaneceu ali, silencioso, por mais de cinco minutos. Depois, girando sobre os calcanhares, causando um leve tilintar das esporas, aproximou-se do pastor e falou: - “Padre. Quero dar uma oferta para o santo de sua capela...”. Voges estendeu a mão aberta e recebeu duas moedas de ouro. Agradeceu por esta generosidade e acompanhou o militar até a saída.
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Canabarro e seus Oficiais montaram em seus cavalos. O General girando sobre a sela, recomendou: “Padre. Não me esqueça em suas preces. Rogue sempre a Deus para que ele proteja a vida de nossos soldados e que nos seja concedida a vitória, amanhã, lá na Serra”. Enquanto o General se afastava levantando poeira, Voges ainda permaneceu ali, parado, observando o efetivo farroupilha passando. Já fazia mais de meia hora que o movimento iniciara. No início haviam sido alguns batedores. Depois carroças puxadas a cavalo. Agora iam passando cavaleiros. Tratava-se do efetivo da Cavalaria sob o comando de Canabarro.

FIGURA 1 – Pastor Carlos Leopoldo Voges 1º pastor da Colônia de Três Forquilhas Fonte: Foto do Arquivo da Família Voges
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Quando finalmente o pelotão da retaguarda sumiu, na curva, em direção do Passo do Cemitério, chegaram à galope Johann Nicolaus Mittmann e seu vizinho o cervejeiro Schneider. - “Que grande susto que tivemos nesta tarde” diz Mittmann, ao apear e cumprimentar o pastor. Voges respondeu prontamente: - “E te digo que o General Canabarro, comandante deles, parou aqui. Apeou e pediu para fazer suas orações...”. - “E você permitiu? - quis saber Mittmann. - “Por que não haveria de permitir?” - disse Voges. Mittmann, contrariado, explicou: somos fiéis ao nosso Imperador”. “Mas nós

Voges olhou para o seu amigo, demoradamente e então explicou: - “Caro Mittmann. Pensei que tivéssemos deixado bem claro em nossa reunião de 1835, quando rompeu a Revolução, que a nossa posição aqui na Colônia seria da neutralidade. Estamos desprotegidos, sem ninguém em condições de garantir a nossa segurança. Por isto combinamos que, quem quiser, pode ir e vestir a farda, seja dos Farrapos ou seja a do Império... Mas decidimos que aqui na Colônia não formaríamos um Exército nem para este e nem para aquele lado...”. Voges continuou: - “O Michel Eberhardt se alistou com os Farrapos e seguiu com eles. Você também pode se alistar. Pode vestir a farda dos caramurus, se quiser combater ao lado deles...”.

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Mittmann decidiu mudar de assunto. Perguntou então ao pastor: - “Alguém veio aqui, te avisar que uma tropa estava para chegar?”. - “Sim. Teu menino apareceu aqui, ofegante, em companhia do Jacob Feck, num galope adoidado. Agradeço pela atenção. Tomei providências imediatas. Minha esposa e crianças e da vizinhança, foram todos para o mato. Eles tangeram as vacas e levaram bois e cavalos com eles. Teu filho ficou aqui e o Feck seguiu adiante, para avisar os demais até o Passo de Cemitério e não regressou ainda. Devem estar ainda, no mato...”. Mitmann ouviu com satisfação as palavras do pastor e então relatou os acontecimentos: - “Pastor. Eu e meus filhos estávamos cortando pasto para as vacas, quando escutei o som distante de um trote de muitos animais. Olhei na direção das “terras de areia” e vi uma intensa nuvem de poeira que se levantava até além dos morros. Falei para meu mais velho: “Isso é sinal de coisa ruim. Estamos em Revolução e pode ser uma grande tropa de Farrapos. Dei ordens para que avisassem minha mulher e filhas. Eles levaram toda a nossa criação com eles, para escondê-los na invernada da mata, perto da trilha dos jesuítas. Em seguida mandei meu filho avisar o Comandante Schmitt... Como meu filho não voltou, fiquei preocupado e vim atrás, para ver o que aconteceu com ele”. O pastor colocou a mão sobre o ombro de Mittmann e falou: - “Amigo. Já falei que dei ordens ao teu filho para ficar aqui. Ele se escondeu junto com minha família. Só posso te garantir uma coisa... Você agiu corretamente. Acredito que o aviso foi muito importante para todos nós, pois pudemos esconder as mulheres e crianças, o gado e os cavalos”.
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Mittmann continuou: - “Mas espera, pastor, que ainda não contei tudo. Dez minutos depois da saída do meu filho apareceram soldados Farrapos, dizendo que eram batedores. Chegaram diante de minha casa gritando < Não tenham medo. Vamos passar em paz. O general Canabarro mandou dizer que deu ordens para a tropa, de não molestar o povo deste lugar > Imagine, que apenas os cachorros, amarrados nos fundos da casa, latiram para eles. Nós todos estávamos muito bem escondidos...”. Pela primeira vez Schneider participou da conversa, dizendo: - “Lá em casa foi a mesma coisa. Os farrapos que vinham na frente, gritaram e disseram estas mesmas palavras. Apenas tiveram a resposta dos cachorros...”. - “E os demais moradores? Quando vieram para cá, notaram alguma coisa errada?” - quis saber Voges. Mittmann disse: - “Não vi nenhuma pessoa. As casas estavam todas fechadas. Não havia nem cavalos e nem gado à vista. Parece que todos foram avisados e se esconderam”. A conversa de Mittmann foi repentinamente interrompida por um tiroteio que vinha do outro lado do rio. Voges e os demais apuraram os ouvidos. - ”Isso é da imediação das casas dos Sparremberger ou talvez dos Mauer ou Bobsin. O que poderia estar acontecendo?”. Não se passou muito tempo, veio à galope, das bandas do Passo do Cemitério o ferreiro Sparremberger, acompanhado pelos vizinhos Witt e Klippel, munidos com suas armas de cano longo. O ferreiro aflito diz: - “Estou muito preocupado com todos os meus parentes que
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moram lá do outro lado. Creio que eles estão sendo atacados”. Mittmann se escusou dizendo: - “Não sou homem de armas. Mas vou avisar o Hellwig e outros das redondezas para que também se armem para irem atrás de vocês. Vocês já podem ir e ver se algum bandido desgarrado ficou por aqui para fazer maldades...”. Mais alguns tiros foram pipocando, Sparremberger meteu as esporas na sua montaria e pediu que os amigos o acompanhassem. Desceram até o passo, que ficava a uns cem metros adiante, para alcançar os moradores do núcleo nordeste. O ataque dos farrapos Voltemos novamente para observar a tropa de Canabarro. A coluna da frente, com pressa, já se deslocara pelos caminhos da Serra do Pinto. Enquanto isso, alguns dos integrantes do pelotão de retaguarda, os últimos a passarem pelo Passo do Cemitério pararam para descansar. O Sargento falou: - “Estou com fome e os nossos suprimentos estão lá longe, no meio da tropa que vai acampar na subida da Serra. Não vou ficar de barriga vazia, nesta noite”. - Os demais soldados farrapos o rodearam, concordando. O Sargento continuou: - “Pelo caminho ao longo da vila só vimos casas fechadas e cachorros ladrando. Creio que estão escondidos. Por isso me acompanhem. Vamos descer por este outro lado do rio, onde certamente existem outras casas de colonos. Podemos pegá-los em casa, desprevenidos...”.
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Figura 2 - Farrapos atacam Três Forquilhas Gravura feita pelo autor.

Eram oito soldados. Cavalgando estrada abaixo, foram se aproximando da casa do velho Georg Sparremberger. Ele estava, nesse instante, na intenção de levar as vacas para o rio. Era hora de saciar a sede delas, antes de irem para o estábulo, para passarem a noite. Vendo a aproximação dos estranhos, o velho espantou os animais, fazendo-os correr estrada abaixo, rumo aos vizinhos. Os soldados farrapos apressaram os cavalos. Quatro entraram na propriedade de Sparremberger e o agarraram aos safanões, dizendo: “Queremos comida, queremos charque, queremos farinha...”. Georg não entendeu o que eles queriam. Começou a gritar, pedindo que a esposa e a nora com as crianças fossem para o mato. A neta Catharina de doze anos pegou a maninha Susana, recém nascida, no colo e saiu
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pelos fundos. A esposa de Georg pegou Jacobina de cinco anos e pediu que Georg e Johann Peter a seguissem. Conseguiram sair, todos, pelos fundos, entrando pelo canavial, rumo ao mato. Quando os quatro farrapos entraram na casa, arrastando Georg, já não encontraram mais ninguém. Georg respirou com alívio. Porém o sofrimento dele não acabara. Passou a ser espancado. Os soldados farrapos pediam charque e comida. Ele, por sua vez, imaginou que os invasores do seu lar queriam o dinheiro. E, gritava: - “Nein! Nein! Ich habe kein Gold”! (Não, não. Eu não possuo ouro). Um dos soldados falou: - “Esse homem caramuru. Ele está negando comida para nós?”. é

A raiva dos soldados aumentou. Deram algumas coronhadas na cabeça do colono, que desmaiou. Um dos soldados encontrou o charque, num canto pendurado numa tira de couro, estendida entre dois barrotes e com um pano por cima, como proteção contra as moscas varejeiras. Os quatro ouviram o som de tiros. Pegaram o charque e tomando seus cavalos, saíram galopando naquela direção. Sangue e morte na casa dos Bobsin Enquanto aqueles quatro ficaram envolvidos com o “Velho Sparremberger”, os demais galoparam, estrada abaixo, para tentar pegar uma das vacas. A idéia que passou pelas cabeças deles, foi de abater uma, para tirar uma boa manta de carne. Poderiam depois, mais adiante,
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no chegar da noite, assar um churrasco. Os animais, porém espantados correram muito. Em fuga desabalada, passaram por diversas propriedades e entraram pelo pasto, diante da propriedade de Johann Bobsin. Os soldados farrapos seguraram o galope, por um momento. Bobsin viu os estranhos armados e uniformizados e gritou aos filhos: - “Alguém busque a minha arma. Digam para a mãe que ela fuja para o mato. Estarei aqui no canto do estábulo”. O pequeno Peter Friedrich, de dez anos, foi buscar a arma do pai, enquanto Thron foi em busca do vizinho Stollenberg, que tinha uma das melhores armas da Colônia. Os Farrapos foram avançando lentamente, para o pátio da casa de Bobsin. Este estava à espreita, observando-os. Era apenas um contra quatro... Um homem desarmado, contra quatro armados. Na frente do grupo de Farrapos vinha o Sargento, que gritou: - “Oh de casa. Queremos charque... queremos farinha, queremos comida...”. - Bobsin não entendia o que eles queriam. Imaginou que não poderia ser nada de bom, para virem com armas na mão. Neste momento o pequeno Peter saindo pela porta dos fundos, passou correndo na direção do pai, para entregar-lhe a arma. O Sargento, vendo o menino armado, correndo na direção do estábulo, imaginando que mais pessoas armadas deviam estar por ali, mirou e abateu o pequeno com um tiro certeiro. A criança caiu, já sem vida, perto dos pés do pai que deu um urro de dor e de inconformidade, vendo o filho no estertor da morte, se
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esvaindo em sangue, tão pertinho, quase ao alcance da mão. Conseguiu alcançar a arma, com o braço estendido. Empunhou a arma e mirou cuidadosamente... Conseguiu abater o sargento farrapo, que caiu por terra, mortalmente ferido. Os outros três recuaram se refugiando junto ao barranco. Eles não sabiam quantas pessoas poderiam estar ali escondidas e armadas. Nesse meio tempo Thron vinha vindo com o padrinho Viking. A situação tornou-se complicada para os Farrapos, pois ficaram entre dois fogos. Atiraram na direção do Viking. Mas não eram bons de mira. Já o Viking, exímio atirador, voluntário da Guerra Cisplatina, mirou com cuidado e eliminou outro farrapo.

FIGURA 3 - O colono, com certeiro tiro, derrubou mais outro farrapo. Gravura feita pelo autor.
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Os dois, considerando estarem em desvantagem subiram nos cavalos e saíram em disparada em busca dos demais companheiros. Estes que já haviam ouvido os disparos vinham em socorro dos amigos. Agora o Viking e o menino Thron ficaram entre dois fogos. O Viking ordenou: - “Menino, vá contornando pelo valão d’água e volte para junto do teu pai. Eu vou me entrincheirar aqui, para resistir...”. Bobsin, porém, vendo a dificuldade em que o Viking se encontrava já vinha contornando pelo valão. Ao deparar com o filho disse: - “Vá até junto de tua mãe. Diga apenas que eles machucaram teu mano”. A situação estava novamente a favor dos dois colonos. O Viking com outro certeiro tiro, derrubou mais um soldado farrapo. Finalmente chegaram outros vizinhos. Jost Sparremberger, que ouvindo os tiros, viera às pressas da lavoura. Encontrou o pai morto, pelas coronhadas recebidas. Pegou uma espingarda de um esconderijo na casa e saiu correndo, sedento por uma desforra. Além dele, vinham também o Eigenbrodt, Carl Maschmann, João Beck e João Hoffmann, todos armados. Eles foram cercando os farrapos. Houve intenso tiroteio. Era o tiroteio ouvido no outro lado do rio, por pastor Voges, Mittmann e pelo Schneider. Os soldados desesperados atiravam, agora, em diversas direções. Um deles acertou o Viking, perfurando-lhe o braço. Jost Sparremberger também levou um tiro, que lhe atravessou o músculo da coxa. Os soldados estavam em situação muito difícil. Não podiam mais escapar rumo ao norte, pois ali
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estavam postados entrincheirados diversos colonos armados. Rapidamente subiram nos cavalos e galoparam para o sul, na tentativa de encontrar um passo de rio e tentar retomar o rumo da Serra para se juntarem ao efetivo do general Canabarro. Eles sabiam que haviam descumprido uma ordem expressa do Comandante, que dissera com muita energia: - “Ninguém moleste os moradores das vilas pelas quais haveremos de passar. A desobediência para esta ordem, será severamente punida”. Eles não conseguiram ir longe. Uns cem metros abaixo estavam escondidos, na espreita, os colonos Adam Marlow, Carl Witt, Klippel, o ferreiro Johann Andreas Sparremberger, irmão de Jost e o Hellwig. O Adam Marlow alertou: - “São eles. Aí vêm os nossos agressores Farrapos em fuga”. Pipocaram mais alguns tiros e todos os soldados farrapos estavam mortos. O silêncio repentino que se fez foi, logo de novo, quebrado. Os gritos de dor de Charlotta e de sua mãe Maria Marlow se faziam ouvir. Elas haviam retornado do mato. Carl Witt falou: - “É da casa dos Bobsin. Será que os farrapos mataram alguém?”.

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UMA NOITE DE MUITA DOR E PRANTOS Os colonos do núcleo nordeste reuniram-se diante da casa do Johannes Bobsin para determinar as providências mais urgentes. Um grupo de colonos seguiu até a casa de Georg morto a coronhadas. Precisavam ajudar a viúva a preparar o velório. Outro grupo decidiu permanecer ali, na casa de Bobsin, para apoiá-lo no que se fizesse necessário. Carl Maschmann foi para a casa do Viking para ver a ferida e fazer-lhe um curativo. Ele comentou, ao sair: - “Quanta falta faz o Dr. Elias em nossa Colônia...”.

FIGURA 4 - A mãe ao lado do menino morto, sendo confortada. Fotomontagem feita pelo autor.
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Eigenbrodt foi à casa dos Sparremberger, atender Jost que se queixava de fortes dores no ferimento à bala, recebido na coxa direita. Para fazer um novo curativo. Hellwig retornou até o outro lado do rio. Inicialmente foi até a casa do pastor relatar sobre o sucedido. Mittmann e Schneider, aflitos, ainda estavam por ali, à espera de informações sobre o tiroteio havido. O pastor pediu: - “Mittmann e Schneider, vocês podem ir avisando aos moradores que encontrarem, pedindo que venham para uma reunião aqui na igreja, já no raiar do dia? Avise, em particular, o Comandante Schmitt!”. Os dois se despediram, para atender o solicitado. Voges e Hellwig ficaram examinando a situação para ver outras providências que se faziam necessárias. Hellwig perguntou: - “O que faremos com os oito cadáveres insepultos. Não podemos deixá-los lá”. - “Neste momento temos que deixá-los, sim. Existem coisas bem mais urgentes. Amanhã veremos o que se pode fazer...”. Hellwig continuou: - “O Johannes Bobsin pediu que eu providenciasse os caixões para o filho dele e para o Jost”. Voges orientou: - “Vá então até a casa do carpinteiro Johannes Dresbach, no núcleo sudeste. Já faz quase dois anos que ele está residindo aqui na Colônia. Desde então ele assumiu a confecção de caixões. Ele trabalha bem e é rápido. Além disso, ele poderá pedir a ajuda do filho Casper Dresbach, se ele necessitar de ajuda. Por isto, vá logo... E, faça mais um favor. Avise o
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vizinho dele, o Paul König a respeito do ocorrido. Tenho certeza que o Paul irá avisar os demais vizinhos. Que venham todos para uma reunião, amanhã cedo, no raiar do dia. Explique que temos um problema de extrema gravidade, para ser resolvido, no tocante a oito cadáveres de soldados farrapos, que jazem insepultos, na margem da estrada entre as casas do falecido Jost e dos Marlow”.

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CONTANDO COM A PROVIDÊNCIA DIVINA - “Vivemos situação de muita gravidade. Temos os cadáveres de oito soldados farrapos insepultos. O que podemos fazer?” falou o Comandante Schmitt, ao abrir a reunião ao nascer do sol, na igreja. Voges respondeu: - “Na condição de pastor desta Comunidade digo que devemos sepultá-los. Que seja no nosso cemitério”. Sucedeu-se um burburinho de vozes. Alguém dizia: - “No nosso cemitério não...”. Outra urubus...”. voz dizia: “Joguem os corpos aos

Ouviu-se mais outra voz: - “Bandido em nosso cemitério, jamais...”. O pastor levantou-se e olhou demoradamente para os presentes e comentou: - “Nós matamos oito soldados farrapos. Pesa sobre nós este ato. Imaginem o que fará o Exército dos Farrapos, quando souber disto? Acreditarão que houve a necessidade de eliminá-los? Poderemos sofrer uma represália coletiva. O mínimo que os Farrapos esperam é que tenhamos respeito pelos mortos e lhes concedamos um enterro correto...”. O burburinho acabou de vez. Olhavam espantados para o pastor. Ele dissera, nós matamos? Ele nem estivera lá? Por que ele falava em represália coletiva? Comandante Schmitt, mesmo sentado, em virtude de seus problemas de saúde, falou: - “O pastor levantou uma questão muito delicada. Temos oito cadáveres de
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soldados farrapos insepultos. Proponho que a nossa primeira medida deva ser a de recolher esses corpos, com uma carroça e traze-los para as proximidades do cemitério. Sugiro uma cova comum, seja dentro do cemitério ou mesmo fora dos muros, mas nós é que devemos sepultá-los”. Enquanto estavam neste dilema, na espera por voluntários dispostos a recolher os cadáveres, Feck foi até o lado de fora para ver uma estranha movimentação que ocorria na estrada. Parecia o som de muitos cascos de cavalos e vozes. – “Será que os farrapos voltaram?”, perguntou alguém. Feck voltou e dirigindo-se ao Comandante Schmitt, falou: - “Estão aí na estrada muitos soldados com armas, carroças... É uma tropa bem numerosa que não acaba na curva, lá embaixo...” Instalou-se um grande silêncio. Via-se grande temor, desenhado no rosto da maioria dos colonos. Hellwig perguntou ansioso: - “São os Farrapos?”. Feck adiantou: - “Parece que não. Eles são muito disciplinados e bem uniformizados...”. - “Devem ser Imperiais”, disse o Comandante Schmitt com satisfação. Nisto ouviram-se vozes, vindas do lado de fora, e alguém chamando: - “Está aqui o Coronel John Caldwell, do Exército de Sua Majestade. Ele deseja falar convosco!”. Pastor Voges foi até a porta da igreja. Ali estava um oficial, com galões, que devia ser o tal de Coronel do
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Exército Imperial do Brasil. Trajava um uniforme vistoso e apresentava no rosto um ar de muita tranqüilidade.

FIGURA 5 - Coronel João Frederico Caldwell Fonte: Foto em “Ministros da Guerra do Brasil: 1808 – 1946. (Oficinas Gráficas Pongetti Rio de Janeiro – RJ, 1947)

O pastor convidou: - “Entre e venha participar de nossa reunião. Estamos tratando de graves problemas que nos afligem neste momento...”. O militar recebeu uma cadeira e tomou acento entre os colonos reunidos. Voges explicou: - “Somos integrantes da Colônia Alemã de Três Forquilhas. Aqui estamos, instalados oficialmente, desde 1827. Saudamos a sua vinda, nobre oficial do Exército de Sua Majestade. Recebemos a sua
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chegada como uma ação da Providência Divina, diante de um grave problema que pesa sobre todos nós...”. O militar agradeceu pela acolhida recebida e voltou a se apresentar: - “Sou o Comandante deste efetivo do Exército Imperial Brasileiro que está às portas deste vosso templo. Estamos chegando em missão urgente para fechar a trilha da Serra do Pinto. O General Canabarro, dos Farrapos, deverá ser contido em seus movimentos. Por aqui ele não mais deverá descer...” . Pastor Voges foi traduzindo as palavras do oficial. Foi possível constatar um visível alívio a se desenhar na fisionomia de todos. Coronel Caldwell continuou: - “Alguém pode me descrever o grave problema que vos aflige? Em que ou com o que podemos socorrê-los?”. Voges explicou: - “Sou o único aqui que domina o português e inclusive o francês. Portanto serei eu mesmo a fazer um relato da nossa difícil situação, surgida na tarde de ontem...”. O pastor traduziu o assunto em andamento permitindo aos colonos, para que se situassem na conversa. Dirigiu-se novamente ao militar, dizendo: “Ontem, após o meio dia, passou por aqui um efetivo do Exército Farroupilha. Deviam ser quase dois mil homens. O General Canabarro interrompeu por breves instantes a sua jornada rumo à Serra onde pretende conter o avanço de um tal General Labatut. Canabarro esteve aqui diante deste altar e fez suas preces. Depois agradeceu, ofertando duas moedas de ouro, para a nossa igreja”. Voges mostrou as duas moedas de ouro. Os olhos de todos voltaram-se ao pastor e, ele traduziu aos presentes o que estava ocorrendo. Voges continuou: - “Depois que
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a tropa toda soldados”.

se

foi,

passaram

por

aqui

diversos

Caldwell explicou: - “Estes deviam ser integrantes de um pelotão de retaguarda. Isso é de praxe durante a movimentação de um efetivo militar...”. Voges agradeceu e voltou ao assunto: - “Fazia talvez meia hora que eles por aqui passaram, quando ouvimos tiros, vindos do outro lado do rio, onde existe um núcleo de colonos, à margem de outra estrada que também leva para a Serra. Recebemos a notícia que eles mataram dois dos nossos e feriram outros dois. Porém os oito soldados farrapos foram mortos...”. E o pastor enfatizou: - “Nós os matamos. E eles estão lá, jogados no ponto onde tombaram, insepultos. Eis aí o nosso grave problema...”. Caldwell olhou surpreso para o pastor e explicou: - “Se este é o vosso grave problema, já não o é mais. O problema agora é meu e do meu efetivo. Nós assumimos a identificação dos cadáveres. Nós faremos o recolhimento dos corpos e os levaremos até o vosso cemitério para um sepultamento que será sem honras, porém com todo o respeito pelos adversários mortos...” . Voges traduziu as palavras do militar. Entre presentes podia ser ouvido agora um burburinho vozes, denotando satisfação pelo encaminhamento situação. Caldwell continuou: - “Tenho um médico meu efetivo. Ele irá ver os vossos feridos...”. os de da no

Comandante Schmitt levantou-se e disse: - “Ein Doktor? Vielen Dank!”. (Um médico? Somos gratos...). Voges traduziu as palavras do Comandante Schmitt e aproveitou para esclarecer que a Colônia
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perdera o seu único médico, o Dr. Jorge Elias Zinckgraf, pelo fato de o Governo ter cessado de conceder amparo financeiro. Além disso, ele fora acometido de uma enfermidade delicada. O médico seguira então a Porto Alegre e conforme notícias recebidas viera a falecer na Capital, no dia 17 de abril de 1835, portanto antes do romper da Guerra dos Farrapos. Voges apresentou o Comandante Schmitt, dizendo: - “Este é o nosso Comandante Philipp Peter Schmitt, o nosso líder administrativo local”. Coronel Caldwell levantou, estendeu a mão esquerda ao Comandante Schmitt, dizendo: - “Senhor Schmitt. Receba os meus cumprimentos pela sua importante tarefa para a condução administrativa desta Colônia. Conte com a minha ajuda e com a ajuda do meu efetivo, para fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance, na garantia de vossa segurança e para a vossa tranqüilidade, enquanto aqui permanecermos”. O pastor traduziu as palavras de Caldwell. O militar pediu licença, para sair da reunião, pois desejava tomar providências imediatas a respeito do problema existente no outro lado do rio. Pastor Voges o acompanhou, recomendando aos colonos reunidos: “Continuem com a reunião. Vejam as providências para os sepultamentos de hoje à tarde” . Caldwel, reunindo os seus oficiais, deu diversas ordens. Ordenou que o grosso do efetivo seguisse rumo norte, para fechar as trilhas da Serra. Em seguida ordenou a formação de um grupamento e mais duas carroças para se deslocarem até o outro lado do rio. O médico iria com eles. Receberam a tarefa de identificar e recolher os cadáveres dos soldados farrapos mortos.
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Deveria ser feito um laudo não só dos farrapos, mas também dos dois mortos da Colônia. Pastor Voges indicou o colono Hellwig para servir de guia e anunciar, no outro lado do rio, a chegada deste efetivo de socorro. Foi valiosa a presença de Hellwig, pois pode ir alertando os moradores do núcleo, anunciando em alta voz que estava chegando um efetivo do Exército Imperial. Em cada ponto onde viam cadáveres de soldados farrapos, uma das carroças parava. Soldados examinavam os bolsos dos mortos em busca do cartão de identificação que, de praxe, ia no bolso direito do dolman2. O médico aproveitava as paradas para fazer um rápido exame cadavérico, para detalhar a causa da morte. No final do percurso identificaram sete soldados e um sargento. O médico foi, em seguida, à casa de Bobsin. Examinou o cadáver do menino e redigiu o laudo de necropsia. Seguiu então até a casa de Georg Sparremberger, com idêntico procedimento. Foi ainda às residências dos dois feridos. Verificou os ferimentos e concedeu-lhes medicação. Realizada a tarefa o grupamento retornou até a igreja. O médico entregou dez laudos de necropsia que Coronel Caldwell examinou minuciosamente. A carroça com os cadáveres dos soldados insepultos estava agora ali, com um pano jogado por cima. Caldwell solicitou que a carroça fosse conduzida para um local mais distante, à sombra de uma árvore, para aguardar o sepultamento. Voges e o comandante Schmitt que já haviam concluído a reunião com os colonos, aproximaram-se de
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Caldwell e convidaram: - “Pedimos que o senhor e seus oficiais fiquem aqui conosco, para o almoço. Já tomamos providências para isto...”. O Coronel aceitou o convite. Porém chamou seus dois cozinheiros, que integravam seu grupamento, dando-lhes rápidas instruções. Estes foram até o local onde a Professora Elisabetha, esposa do pastor, com o auxílio de Frau Schmitt, Frau Feck e Frau Hellwig estavam envolvidas com trempes e panelas, preparando o almoço. Os cozinheiros já haviam contado o número de pessoas presentes e agora examinaram o conteúdo dos panelões. Retornaram até o carroção de mantimentos e com o auxílio de dois soldados retiraram charque, farinha e outros ingredientes. Levaram mais trempes3 panelões. Com rapidez o equipamento foi instalado, fogo aceso, e os alimentos colocados nos panelões. Um aroma gostoso dos cozidos passou a se espalhar pelo ar. Este almoço foi algo jamais imaginado pelos colonos que permaneceram no local. Misturados entre oficiais caramurus que eles não entendiam e nem conheciam, viram-se fartamente servidos, com a utilização de pratos de metal e talheres, que os militares haviam trazido. Após o almoço, Coronel Caldweel dirigiu-se ao pastor: - “Quero afirmar que com a nossa chegada, a morte destes oito soldados farrapos já não é mais problema vosso. Nós assumimos tudo, com os devidos laudos e procedimentos. Nós é que faremos o sepultamento que deverá ocorrer, de forma bem simples e antes do enterro dos vossos entes queridos. Apenas queremos contar com alguma prece, que o pastor queira fazer por estes defuntos”.

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Pastor Voges prontamente respondeu: - “Com certeza vos acompanharei até o cemitério, que fica logo adiante” O pastor indicou para a direção do Passo do Cemitério. Passada em torno de uma meia hora, depois do descanso pós almoço, o Coronel deu ordens para reunir os homens e movimentar a carroça com os cadáveres. Chegados ao cemitério ali já podia ser vista, num canto, uma enorme cova que alguns colonos haviam aberto, conforme a recomendação do pastor. Os farrapos mortos foram então colocados na sepultura, com cuidado. Pastor Voges abriu o Novo Testamento, em português, daqueles que recebera do Reverendo Main, da Sociedade Bíblica Britânica e leu, de forma pausada, o Salmo 23: - “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”. Jogou então terra sobre os defuntos invocando o Deus triuno. Pediu que Cristo, por seu ato Salvador da Cruz, cobrisse estes mortos com a sua compaixão, para lhes dar entrada no Reino Eterno. Finalizando o breve ato fúnebre, Voges fez um sinal aos soldados coveiros para que fechassem a sepultura. Uma singela cruz foi então fincada sobre a terra fofa, para marcar o local de repouso destes oito soldados farrapos, que perderam as vidas, pelo simples fato de terem descumprido a ordem do General Canabarro. É provável que o Exército Farroupilha jamais soube do fim que tiveram estes inditosos soldados. Quem sabe eles passaram por desertores, por não mais estarem presente junto ao efetivo. Ou, quem sabe, foram contados como desaparecidos, depois de algum confronto posterior.

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O sepultamento dos inocentes - “Vamos sepultar dois inocentes que nada tinham a ver com esta revolução”. - Foi assim que pastor Voges designou os dois mortos, o menino Peter Bobsin e Georg Sparremberger. Saíram da igreja onde haviam feito algumas orações e dali foram caminhando rumo ao cemitério, sem utilização de carroças. O campo santo ficava a aproximadamente quatrocentos metros, no rumo ao passo do norte, pela estrada que leva à Serra. Voges acrescentou ainda: - “O sangue destes inocentes clama aos céus, pedindo por um final para toda esta barbárie e para tanta violência inútil entre irmãos brasileiros...”. Chegando ao cemitério encontravam-se ali mais algumas famílias que não haviam estado na igreja e desejavam despedir-se dos falecidos. Os dois caixões foram colocados sobre dois blocos de pedra que se encontravam próximos da entrada. O choro das mulheres voltou a ecoar pela planície e alguns pássaros que estavam sentados em galhos de árvores esvoaçaram, desaparecendo na mata próxima. Enquanto as pessoas iam passando diante dos caixões, para a despedida, Frau Schmitt puxou Elisabetha, esposa do pastor, para um lado e falou, em voz baixa: - “Que falta que eu sinto da tua irmã Catharina. Tantas vezes e em tantos cultos, ela tocou aquela flauta, para nos conceder conforto espiritual”. Catharina Petersen falecera fazia pouco mais de meio ano, em 28 de abril de 1839. Fora em virtude de um parto mal sucedido. Não só ela, mas a criança também havia perecido. Depois do primeiro parto que Catharina tivera nesta Colônia de Três Forquilhas, em 1827, na época ainda contando com a assistência médica do Doutor Elias, ela perderia, em seqüência, duas outras
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crianças. Quando em 1832 ficara novamente grávida, insistiu com o marido, para regressarem imediatamente a Campo Bom, onde pelo menos haveria um bom médico à disposição. O barqueiro teve que abandonar o seu empreendimento de navegação pela Lagoa Itapeva. Já o estavam chamando, em Torres, de Barqueiro da Itapeva. Porém a ida para o vale do rio dos Sinos fora necessária, para o bem de Catharina. Entretanto, mesmo contando com toda a ajuda médica possível, o parto do pequeno Peter Friedrich Petersen Júnior, em janeiro de 1833, fora muito difícil. Frau Schmitt quis saber: - “Onde ficou esse menino?”. - “Mas o que é isso? Não te lembras do pequeno Peter que eu e o pastor estamos criando, juntamente com minha Catharina e meu Adolfo Felipe. É aquele menino de cabelos escuros, que ainda hoje corria lá pela igreja. Aquele foi o menino que Catharina teve em Campo Bom e que foi confiado a nós, logo depois do falecimento de minha irmã?”. Frau Schmitt continuou com as perguntas e quis saber: - “Mas onde anda o pai do menino? Porque ele não ficou com a criança?”. - “O meu cunhado foi se estabelecer em Campo Bom. Ele acha que lá existem melhores oportunidades no ramo da navegação. Preciso explicar... Ele ficou muito abalado com a morte de Catharina. Agora, ele se considera culpado pela morte dela, por tê-la deixado engravidar em 1838. Ele começou a beber... É difícil encontrá-lo sóbrio... Por isto o Carlos aceitou a guarda do menino, trazendo-o para cá, na última viagem a São Leopoldo”.
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Frau Schmitt ficou muito emocionada. Lágrimas deslizaram pela sua face, pois ela devotara grande estima e admiração pelo casal Petersen. Enquanto as pessoas ainda iam passando diante dos caixões, se despedindo, Frau Schmitt fez uma última pergunta: “Onde ficou a tua sobrinha Elisabeth, a primeira que os Petersen tiveram aqui na Colônia e das primeiras que aqui foram batizadas?”. - “Ela foi confiada à minha mãe, em Campo Bom. Lá ela tem muito carinho e todo o cuidado, para receber uma boa educação. Eu simplesmente não vi condições de ficar com os dois filhos da mana Catharina, pois já tenho os meus para criar...”. - “Nisso você está mais que certa” - disse Frau Schmitt. A esposa de Voges continuou: - “A minha irmã lamentavelmente foi chamada tão cedo, pela morte, e o lar dela se desintegrou. Ela mal completara trinta e três anos de idade. Mas agora, olho para este menino inocente, dos Bobsin, inerte naquele caixão. Um menino que era tão forte e saudável e sempre alegre e disposto a ajudar em tudo. Ele foi tirado do nosso meio de forma muito cruel e estúpida. Isso me deixa revoltada... Estou revoltada com a nossa sociedade e com a nossa política brasileira. O que será que sentem os Bobsin nesta hora? E olhe para os Sparremberger? O Georg que deixou a viúva tão aflita e família tão numerosa...”. Ouviu-se a voz do pastor. Fez-se silêncio. Ele convidou todos para seguirem com os caixões até o local das sepulturas. Eram duas covas bem próximas uma da outra. Voges declamou o Salmo 42 – “A minha alma anela por Deus”. Proferiu então um breve sermão fúnebre, dizendo: - “O espanto tomou conta das nossas
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mentes e dos nossos corações, diante de mais uma tragédia causada pela Revolução. Além de duas pessoas tão queridas e conhecidas de todos nós, mais outras oito vidas de soldados para nós desconhecidos, devem ser lamentadas”. - O pastor apontou então com a mão direita na direção dos morros, dos fundos da propriedade de Johannes Bobsin e dos demais moradores do núcleo nordeste e perguntou - “Elevo os meus olhos para os montes: de onde me virá socorro?” (Salmo 121, 1). Depois indicou para a cruz de madeira que se levantava acima da cabeça de todos, no cemitério, e falou: - “O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra” (Salmo 121, 2). - Acrescentando outra pergunta: “Aquele que não poupou o Seu próprio Filho, antes por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com Ele todas as coisas?”. (Romanos 8, 32). - Voges concluiu: - “A ressurreição de Jesus seja o consolo de todos nós, crendo que o Deus vivo está aqui, também agora. Ele, em meio a toda esta nossa dor, está presente para socorrer e para confortar. Com Ele superamos a morte. Assim como Ele vive, nós também viveremos. Por este motivo temos a confiança de entregar os nossos queridos falecidos e, porque não, as nossas próprias vidas, e o nosso futuro, em Suas mãos, na esperança da ressurreição para a vida eterna, pois que Jesus, nosso Senhor, é o herói da sepultura vazia. Ele nos conclama para a paz. Ele afirma que os mansos herdarão a terra e os pacíficos são chamados de filhos de Deus.”. Em seguida, o pastor convidou o Grupo de Canto, regido por Christian Mauer, integrado pelos casais Mittmann, Dresbach, Maschmann, Schmitt, Justin, Jacoby, König, que entoaram um hino de consolo. Os caixões foram baixados à sepultura. O pastor jogou três vezes um pouco de terra sobre os caixões
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dizendo: - “De terra fostes formados e à terra tornareis, porém Jesus Cristo nosso Salvador vos ressuscitará no último dia”. - O pastor passou a apresentar os dados dos falecidos. Iniciou com Georg, dizendo: - “Georg Sparremberger nasceu em 1773 em Wendelsheim/ Hessen. Casou com Sofia Sparremberger e tiveram três filhos: André, Jost e Johannes, casados e que deram noras e netos ao casal e que aqui se encontram. O falecido alcançou a idade de 66 anos. Era conhecido por todos como “O Velho”. Forte choro das mulheres passou a ser ouvido. A família Sparremberger era bastante numerosa. O pastor leu em seguida os dados do menino: “Peter Friedrich Wilhelm Bobsin, nascido aqui em Três Forquilhas no dia 03 de maio de 1829, filho de Johannes Bobsin e Charlotta Marlow Bobsin. Ele alcançou a idade de dez anos, seis meses e quinze dias”. As covas foram cobertas de terra e uma cruz de madeira com os nomes dos mortos foi fincada, para identificação. Mais tarde as famílias haveriam de fazer alguma lápide de granito ou mármore. Após o sepultamento, alguns colonos curiosos foram até a cova dos oito soldados farrapos. Daquele canto do cemitério, olhando sobre a cerca de pedra, eles podiam ver o passo do rio Três Forquilhas e as águas correndo, em sua melodia viva e característica. O ferreiro Johann Andréas Sparremberger que morava ali, em frente ao cemitério, comentou: - “As águas continuam correndo. A terra continua girando... A nossa vida segue em frente, como as águas, com certeza, correm até a Lagoa. Também teremos que partir algum dia...”.
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Todos olharam para o colono filósofo. Carl Witt comentou: - “Ferreiro. Não sei falar bonito assim... Sou um homem rude... Mas estou de acordo com o que disseste. Nossa vida é isso mesmo!”. O ferreiro Sparremberger disse: - “Imaginem estes oito soldados que ontem atravessaram por aquele passo do rio...”. Sparremberger indicou para o passo, tão próximo. E continuou: - “Estes soldados esqueceram de ir em frente para cumprir a missão recebida. Tiveram a infeliz idéia de voltar, ali pelo outro lado, para causar tanta tragédia e dor. Foi o fim deles e o fim de dois inocentes, como o pastor tão bem explicou. Dois inocentes que nada tinham a ver com a briga desta revolução...”. - “Isso é verdade” - disse Jost Sparremberger “eu, por exemplo, não estaria, agora, com essa dor horrível em minha perna, varada à bala. Mas, o que significa a minha dor diante da situação da minha mãe ou diante, da situação dos Bobsin que perderam um menino tão cheio de vida e de alegria”. Aqueles homens rudes enxugaram lágrimas que teimavam aparecer no canto de seus olhos. Carl Witt mudou de assunto e quis saber: - “Como anda o Viking?”. Andréas explicou: - “Ele não está nada bem. O ferimento dele foi feio. Hoje pela manhã, acordou com febre e ficou em casa repousando, conforme a recomendação do médico”. O Viking nunca mais se recuperou plenamente das feridas.
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“Isso dá pra matar?” Uma iniciativa inteligente da parte do Coronel Caldwell foi a de mandar o médico Dr. Josué Abreu e Silva, do Corpo de Saúde do seu efetivo, para fazer visitas a pessoas doentes da Colônia. A população ficou agradecida por este zelo do Exército Imperial. Pastor Voges teve que fazer companhia ao médico, para servir de intérprete. O problema mais sério constatado pelo médico, foi, certamente, o estado de saúde do Comandante Schmitt. Já na primeira visita, o doutor explicou com a ajuda do pastor Voges: - “Está se formando um típico caso de hidropisia, no seu organismo”. Voges explicou a palavra hidropisia4, dizendo que se tratava de contenção de água no organismo. Frau Schmitt perguntou: - “Qual a origem deste problema?”. O médico explicou: - “Pode ser o mau funcionamento dos rins, talvez também problema do fígado e do coração”. - “Isso dá pra matar?” - quis saber o Comandante. O médico sorriu diante desta pergunta e falou: “Vou lhe contar uma história muito antiga, senhor Schmitt. O meu professor de medicina nos contou esta. Diz que o caso ocorreu na Grécia com o filósofo grego Heráclito, de Éfeso. Esse indivíduo viveu durante muitos anos numa gruta. Comia somente verduras. Aos 60 anos de idade ele foi acometido pela hidropisia. Preocupado ele deixou a gruta. Foi para a cidade buscar tratamento.
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Chegando lá quis saber do povo se eles conheciam alguém com a capacidade de transformar um aguaceiro numa seca. Todos riram dele, dizendo que não tinham resposta. Ninguém imaginou que o filósofo, na verdade, queria a ajuda de um médico. Heráclito foi para casa. Por três dias, logo após as refeições ia até o pátio para tomar banho de sol. Deitava no sol quente. Ele imaginou que o forte calor ajudaria a evaporar a água que ficava retida no seu organismo. No terceiro dia, ele morreu. Com certeza deu resultado, pois ele se livrou da hidropisia”. Comandante Schmitt deliciou-se com este humor do médico e riu e gargalhou a ponto de as lágrimas encherem os seus olhos. O médico continuou: - “Heráclito escolheu o horário mais impróprio para tomar sol. Devia ter sido apenas um bom banho de sol diário, pela manhã, mais cedo. O sol quando nasce, faz bem para a saúde. Todos nós precisamos pegar sol”. O médico certamente disse isso por verificar que Comandante Schmitt estava muito branco, como alguém que não pega sol, jamais. Nisto Frau Schmitt se aproximou do marido e ralhou: - “Tu ouviste isto, Peter. Só queres sombra. De hoje em diante vais pegar o sol, bem cedinho...”. O Comandante, agora bem sério, quis saber do médico: - “O senhor tem aí algum remédio para combater a hidropisia?”. - “Não” - disse o médico. - “Não tenho conhecimento de algum medicamento para tal tratamento. Apenas aprendi alguma coisa sobre o regime alimentar que deve ser seguido pelo paciente”.
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Frau Schmitt interessou-se. Buscou um papel, tinteiro e pena e pediu: - “Doutor. Isto me interessa. Fale que irei anotar, para cuidar daquilo que Peter vai comer de hoje em diante”. O médico orientou: - “Evite comer carne de gado. Se comer, coma pouca. Prefira comer peixe. Evite tomar leite diariamente. De vez em quando até faz bem. Evite sal e pimenta. Coma frutas. Aqui no vale do Três Forquilhas vi a pacova. Coma pacova, no café da manhã ou duas pacovas como jantar. Faça um suco com as folhas de aipo. É preciso cozinhar as folhas. Tome duas xícaras por dia, como se fosse um chá. É disto que me recordo neste momento. Se eu me lembrar de mais alguma coisa, vou anotar e entregar para Frau Schmitt”. Pastor Voges teve muitas dificuldades para servir de intérprete, com tantas perguntas e explicações e comentou: - “Ainda bem que é somente aqui que o médico recebe tantas perguntas e fornece tantas explicações. Nas demais casas onde já estivemos o médico é que precisa perguntar e dar explicações. É difícil arrancar de um doente alguma coisa sobre o que sente ou sofre”. Comandante Schmitt animado, falou: - “Se é assim então vou aproveitar para mais uma questão que me enche de dúvida. Eu gostaria de saber quanto tempo de vida ainda me resta...”. Desta vez o médico teve que rir e respondeu: “Senhor Schmitt. Eu não sou Deus. Ninguém de nós sabe o quanto de tempo de vida lhe resta. No seu caso, senhor Schmitt, a hidropisia que está se anunciando, não deveria atrapalhar os seus planos de vida. Faça planos para dezenas de anos. Isso é importante para as suas idéias...”.
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- “Obrigado”, disse Schmitt. “Então posso criar as minhas filhas e filho e vê-los casar”. O pastor deu algumas leves palmadas nas costas do Comandante, dizendo: - “Deus te ajude. Ele te conceda a alegria de viver e de ver os filhos crescendo, a alegria de vê-los entrar na vida de adultos, para, no futuro, tomarem o nosso lugar, pois todos teremos que partir algum dia”.

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CARROÇAS ABANDONADAS PELOS FARRAPOS - “Trago esta carroça e mais dois cavalos dos Farrapos, para o serviço em favor de sua igreja”, disse o Coronel Caldwell, em visita ao pastor Voges. O militar continuou: - “Está aqui comigo o Sargento João Patrulha, da Guarda da Serra. Foi ele quem nos indicou o esconderijo das carroças. Foram seis veículos abandonados, utilizados pelo General Canabarro”. O General Farrapo certamente fora informado de que a trilha da Serra não daria trânsito para a passagem das carroças. Apenas havia a possibilidade de passagem de cavalos, cargueiros de mulas e pessoas a pé. Além do mais, Canabarro tencionava retornar por este caminho, caso necessário. Pastor Voges saudou o jovem João Patrulha e perguntou: - “Não foi você quem batizou a pequena Cristina, faz uns cinco meses?”. - Patrulha fez sinal positivo com a cabeça. O pastor foi então examinar a carroça. Era bem leve e com acomodação para levar em torno de nove pessoas, confortavelmente sentadas. Existiam bancos removíveis. Eles possuíam molejo, proporcionando um grande conforto. Havia ainda um encosto em cada banco e que garantia a segurança dos ocupantes. Eram carroças, quando com carga plena, podiam ser puxadas por quatro cavalos. Portanto ótimo meio para carregar, ao invés de pessoas, alguma carga. Voges lembrou-se de ter visto inúmeros destes veículos quando da passagem da tropa do General Canabarro, todas carregadas de soldados, certamente oficiais. Coronel Caldwell falou: - “Pastor. Deixo aqui mais outra carroça e mais dois cavalos dos Farrapos. Será
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uma doação ao senhor Pedro Schmitt que, na condição de administrador local, necessita de mais conforto e recursos para o trabalho com este povo. Notei que ele possui somente uma carreta de bois. Quanto ao restante das carroças, terei que enviá-las ao meu Comando, para uso militar”. Pastor Voges agradeceu pelas doações recebidas, porém insistiu com o Coronel Caldwell argumentando que ele, na qualidade de Comandante do efetivo, devia fazer a entrega ao Comandante Schmitt. Voges explicou: “Coronel Caldwell. Considero que será de maior significado que o senhor Schmitt possa receber esta doação de suas mãos...”. O militar concordou e seguiu com o pastor até a propriedade do Comandante Schmitt. Este decidiu fazer um verdadeiro discurso, em forma de agradecimento: “Nobre Coronel, nobre representante do Exército de Sua Majestade. A sua presença neste vale transformou-se em um fato memorável que marcará para sempre a nossa recordação e desperta a nossa perene gratidão. A sua presença devolveu ao nosso povo o ânimo para lutar e para ter esperança, apesar da insegurança que ora nos cerca, apesar da violência que nos enche de tristeza e apesar da escassez de perspectivas de mercado para a nossa produção agrícola. O senhor trouxe esperança quando com o seu efetivo promoveu bons negócios para muitos colonos, quando decidiu buscar em nosso meio o abastecimento para a sua tropa, com produtos na nossa Colônia. Eu soube que o seu oficial administrativo passou com diversas carroças por todos os núcleos para comprar charque, farinha de mandioca, mandioca, milho, galinhas e ovos. O moleiro Mauer me falou ter vendido oito sacos de fubá. E tudo foi pago com moeda e com preço justo. Não fosse tudo isto de grande importância para nossa Colônia, agora o senhor vem e faz a doação de duas
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carroças, uma para o trabalho da igreja e outra para o trabalho da minha administração. Além da carroça dois bons cavalos para a igreja e mais dois cavalos para a administração. Devo fazer este agradecimento em nome de todo o povo da nossa Colônia de Três Forquilhas, por esta inestimável ajuda que o Exército de Sua Majestade nos proporcionou. Muito obrigado, Coronel”. Pastor Voges passou dificuldade para servir de intérprete para um discurso tão longo, pois surgiram algumas palavras difíceis, para a tradução ao português. Coronel Caldwell com sua costumeira calma e tranqüilidade, estendeu a mão esquerda ao Comandante Schmitt, apresentando-lhe votos de progresso para a Colônia. Anunciou que recebera ordens de sair desta localidade nos próximos dias, pois General Canabarro tomara outro rumo, sem condições de voltar por Três Forquilhas. A notícia trouxe, por um lado, alívio, pois os colonos temiam que os Farrapos pudessem retornar e se vingar da morte dos oito soldados. O alívio consistia na comunicação de que General Canabarro não teria mais nenhuma possibilidade de retornar ao vale. E, por outro lado, a notícia da saída do Exército Imperial trouxe tristeza, pois a presença da tropa passara a significar uma oportunidade de bons negócios, para a venda de produtos agrícolas, sempre pagos com moeda sonante. Coronel Caldwell seguiu com o pastor rumo norte, pois tinha que retornar para a posição da tropa, ao pé da Serra. Durante a cavalgada até diante do templo ficaram conversando. O militar mostrou interesse para conhecer detalhes a respeito da Colônia. Em certa altura da conversa, perguntou: - “Pastor Voges. O senhor é subvencionado pela coroa?”.
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- “Já fui subvencionado. Isto foi até ser assinada a lei de 15.12.1830, quando o Governo Imperial cortou todo e qualquer subsídio para a imigração e colonização alemã. O meu auxílio financeiro e o do nosso médico Dr. Zinckgraf, foram cortados, abruptamente. Fiquei em situação muito difícil, como homem casado e com um cargo público, sem ter retorno financeiro. Entre os anos de 1831 até 1833 fui morar em Campo Bom e depois São Leopoldo. Constatando o rumo da política e seguindo conselhos do meu amigo Coronel e Dr. Hillebrand, de São Leopoldo, decidi retornar para cá. Creio que fiz bem. Mesmo com grandes dificuldades financeiras, estou conseguindo reorganizar a minha vida doméstica e o meu trabalho pastoral”. Caldwell escutou com grande atenção. Depois comentou: - “Caro senhor Voges. Também passei por momentos difíceis quando D. Pedro I voltou a Portugal. Os Regentes não depositaram nenhuma confiança em mim, pois servi com o Coronel Bento Gonçalves durante a Guerra Cisplatina. Passei a ser suspeito de ser admirador da causa do Farrapos, o que jamais ocorreu. Sou um militar fiel a D. Pedro II, o nosso menino Imperador”. Voges mostrou-se muito interessado no assunto que Caldwell explicava. O militar continuou: - “No posto de major, no início da Revolução Farroupilha, fui desligado do Exército, por breve tempo. Vim ao Rio Grande do Sul e me dediquei ao comércio. Sugiro que o senhor faça algo semelhante, enquanto a sua situação financeira estiver difícil. Tenho observado que neste núcleo, em volta do seu templo não existe nenhum estabelecimento comercial que se preze. Por que não abre um pequeno comércio de artigos trazidos da Capital?”.

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O assunto interessou muito ao pastor e ele respondeu: - “Coronel Caldwell, posso lhe assegurar que isto já passou pela minha idéia. Apenas temo a reação da Comunidade...”. - “Neste caso sugiro que o pastor faça um começo bem discreto. Aproveite as suas viagens à Capital e as suas idas a São Leopoldo, para atuar como um intermediário dos colonos. Compre os produtos deles, para comercializar. No retorno traga artigos e gêneros que eles não encontram aqui. Será um comércio com garantias de sucesso. Terá em mãos um capital disponível, ao natural. O senhor compra os produtos dos colonos para somente pagar quando do seu retorno. Os vende na Capital, recebe o pagamento. Aproveita os recursos financeiros que terá em mãos, para comprar os artigos que os colonos necessitam e desejam adquirir. No seu retorno poderá talvez fazer o pagamento aos colonos, com mercadorias, sempre tirando a sua percentagem de lucro. Tem tudo para dar certo...”. Voges agradeceu pelas sugestões. Chegando diante do templo ele convidou o militar para chegar e tomar um chá ou café. Coronel Caldwell aceitou o convite. O sonho do templo de pedra Parados diante do templo de madeira, Caldwell quis saber: - “O que pretende construir ali, ao lado do seu templo?” O coronel indicou para um fundamento que podia ser visto no lado sul da casa igreja. Enormes blocos de pedra haviam sido colocados, para servirem de base para uma construção bem sólida.
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Voges respondeu: - “É o nosso sonho, de termos um templo de pedra, que dure no tempo. Mas a Revolução acabou com tudo. Além disso, faltaram recursos e a tranqüilidade para uma construção desse porte”. O pastor convidou Caldwell e seguiram até o local. Na verdade, ali já não era mais propriedade de Voges. Não houvera mais espaço em suas terras. Fora então que o seu cunhado Petersen ofereceu um pedaço do seu terreno, na divisa, próximo ao templo. Isto ocorrera já em 1830. No entanto, Petersen, desiludido vendera a propriedade para Karl Klein, que viera para integrar a Colônia. O preço da terra fora de pequeno valor, pois ninguém vinha com muito dinheiro. Por isto Petersen colocara a condição de ficar resguardado o espaço para o templo de pedra. O colono Klein concordou e manteve a doação. Em fins de 1834, quando Voges retornara de modo definitivo para a Colônia de Três Forquilhas é que as obras começaram. Fora feito o lançamento da pedra fundamental e tudo parou. O motivo foi o clima de intranqüilidade que se instalara com o romper da Revolução Farroupilha. Caldwell examinou minuciosamente aquele fundamento. Quis saber quem era o construtor. Voges informou: - “Na verdade não temos nenhum mestre pedreiro aqui, na Colônia. Este fundamento foi feito pelos próprios colonos, em particular com o trabalho infatigável dos Sparremberger. Com muito sacrifício eles prepararam estas pedras para arrastá-las até aqui, trazidas de longa distância”. Caldwell muito interessado sugeriu: - “Caro pastor. Quando acabar esta Revolução, vá até Porto Alegre, na Rua da Praia. Lá sempre surgem profissionais a procura de serviço. Certamente não lhe será difícil encontrar algum pedreiro competente”.
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Voges explicou: - “A necessidade de pedreiro não resolve todos os nossos problemas. O pior de tudo é que não encontro pessoas dispostas a quebrar pedras. Alguns colonos antes de virem ao Brasil foram reclusos saídos de prisões de Mecklemburgo e Rostock, na Alemanha... Eles fomentaram uma revolta, alegando que quebrar pedra é serviço de prisioneiro ou de escravo”. Caldwell sorriu e falou: - “Compreendo. Eles devem ter péssimas recordações da prisão. Mas falando em escravos, o senhor poderá encontrar, em Porto Alegre, negros competentes que entendem deste tipo de trabalho. Certamente o senhor, na qualidade de pastor, deve ser contrário à escravatura. Por isso sugiro que compre escravos, mas sem colocá-los em regime de escravidão. Conceda-lhes a vida digna de peões ou empregados, com toda a dignidade da qual eles são merecedores. Deste modo, o seu pior problema estará resolvido...”. O pastor mostrou muito interesse pelas explicações de Caldwell. Agradeceu pelas orientações e então convidou o militar para chegar até o templo, onde uma mesa estava posta para um café. Voges explicou: “Começamos a colher o nosso próprio café. É uma novidade para nós”. Os dois ficaram conversando por mais algum tempo, quando coronel Caldwell pediu licença: - “Senhor Voges. A conversa foi muito boa, mas o dever me chama”. Acompanhado pelo pastor ele foi até um local, onde diversos de seus Oficiais estavam reunidos conversando. Os militares subiram nas montarias e seguiram pela trilha da Serra, rumo ao norte, para junto da Força Imperial ali estacionada.
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Lucrando com a Revolução? - “Temos gente lucrando com a Revolução, enquanto outros choram as suas perdas e prejuízos” - diz Mittmann, em visita que ele fez ao Comandante Schmitt. - “A que te referes, amigo Mittmann” - perguntou Schmitt. - “Refiro-me ao pastor Voges. Ele recebeu duas moedas, dadas pelo General Canabarro e ouvi hoje que ele acabou de receber mais outro presente. Me contaram que se trata de uma carroça bem inovada e mais dois cavalos, como um presente do Governo Imperial” completou Mittmann. Naquele momento Schmitt convidou o visitante para seguir com ele até o quintal. Mostrou-lhe a carroça que também recebera, em forma de doação do Governo, e perguntou: - “Você veio aqui para me dizer que também recebi, de presente, uma carroça inovada e dois lindos cavalos?. Pois lhe asseguro que o Coronel veio pessoalmente fazer a entrega destes bens e me garantiu que se tratava de uma doação para conceder melhores condições de administração, da nossa Colônia?”. Mittmann caminhou em torno do veículo e mostrou-se admirado com a tecnologia utilizada na fabricação do mesmo. Depois falou: - “Parabéns, Comandante Schmitt. O senhor que se encontra enfermo realmente necessita de bons meios de locomoção. Dava dó vê-lo seguindo na carreta de bois. Concordo que, com este veículo, o senhor recebe melhores condições de atender os interesses do nosso povo”.

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- “E o pastor? Não atende ele também o nosso povo? Considero que ele tem feito muito mais do que eu em favor da administração da nossa Colônia. Isso é inegável. Ele está fazendo muita coisa que eu gostaria de fazer, mas não posso em virtude de minha saúde precária e do desconhecimento da língua nacional”. Schmitt continuou: - “Caro amigo Mittmann. Deves recordar muito bem o vai-vem do pastor, nos anos de 1826 e 1827 fazendo uma verdadeira ponte entre o nosso acantonamento em Torres e os voluntários que me acompanharam para a abertura de roçados e núcleos, para ser feita a base da nossa então futura Colônia. Notaste a incansável presença do pastor? E agora quando chegaram aqui os Imperiais. O pastor ainda está acompanhando o médico que está passando pelas casas dos colonos onde existem pessoas doentes. Ele esteve aqui comigo, apoiando o médico e servindo de intérprete. Voges também percorreu os nossos núcleos de colonização em companhia do oficial administrativo da tropa do Caldwell. Compraram produtos agrícolas, dos colonos, tudo na base da moeda sonante. Mas porque falo tudo isso? Preciso eu fazer a vez da defesa do pastor?” - Schmitt, um líder bem falante e que gostava de fazer discursos, continuou: - “Diga, amigo Mittmann. Vendeste produtos agrícolas aos militares imperiais? Voges estava com eles?”. - “É verdade. O pastor estava com eles, servindo como intérprete. Confesso que fiz bons negócios. Num só dia, em minha propriedade eles encheram duas carroças. Vendi charque, mandioca, farinha de mandioca, feijão, milho, galinhas e ovos...” - Mittmann ficou refletindo coçando a barbicha. Depois continuou: - “Vendi duas novilhas gordas para abate e vendi uma carga de cana de açúcar, penso que era para o consumo dos animais deles”.
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Schmitt, agora com ares de autoridade maior, insistiu: - “Meu amigo Mittmann. Tu és dos colonos mais esforçados que temos aqui na Colônia. São poucos os que podem querer se igualar contigo. Tens das lavouras mais lindas do vale. E isso que as tuas terras nem são as mais férteis. Vendes muito, pois plantas muito, trabalhas muito e muito também tens colhido. Tenho ouvido vizinhos que parecem ter inveja da tua capacidade. Em tuas mãos parece que cada semente se transforma. Seria isto resultado da tua grande fé que dizes ter em Jesus?”. Mittmann estufou um pouquinho o peito. Agora o Comandante havia tocado num ponto que ele considerava fundamental para a vida e respondeu: - “É isso mesmo, caro amigo Schmitt. A fé em Jesus faz diferença em tudo, na família, no trabalho e na vida de toda a Colônia. E é nisto que o nosso pastor vive pecando. Ele não é suficientemente firme e forte nas prédicas dele. Parece que ele só quer agradar pessoas e não martela com força, nas pregações que faz. Depois tem o problema da disciplina na Comunidade. Ele permite que tudo aconteça, sem punições...”. - “O teu ranço com o pastor Voges é por causa de doutrina e pregação?” - quis saber Schmitt. - “Caro Comandante Schmitt. Na verdade não era só isso. Eu tinha saído de casa para dizer ao pastor que havia gente na Colônia se aproveitando para terem lucro com a Revolução. Porém depois das suas ponderações reconheço que fui exagerado. Não quero fazer injustiças para ninguém. No entanto com relação aos assuntos de Vida em Comunidade de Fé preciso falar, pois é para mim a coisa mais séria que existe. O pastor vem recebendo para a Santa Ceia pessoas que não têm condições de chegar diante do altar...”.
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Frau Schmitt que até ali estava metida no cantinho da casa, que servia de cozinha, entretida com suas panelas a fazer o almoço, puxou o avental para secar as mãos e se intrometeu na conversa: - “Querido senhor Mittmann. Até agora fiquei aqui no meu canto trabalhando e só escutando a conversa de vocês. Fiquei de boca fechada, do jeito que a maioria de vocês homens querem. Já que tenho certeza que o meu marido não te dará uma resposta adequada para o que acabas de dizer sobre tua acusação sobre o relaxamento do nosso pastor e do modo como ele trabalha, preciso dizer alguma coisa. O meu marido que me perdoe por esta intromissão na conversa de ambos...”. Tanto Comandante Schmitt como Mittmann olharam surpresos para Frau Schmitt postada ali, com as mãos nos quadris, algo que ela fazia quando ficava incomodada. Ela era tida como uma mulher muito alegre e divertida, sempre com alguma palavra pronta para despertar o bom humor, com o seu jogo de palavras e ditos jocosos. Agora ela estava postada que até parecia ter os cabelos em pé. Mittmann a encarou com interesse, pois gostava de ser desafiado em assuntos de Bíblia e fé, para uma discussão. Isto era algo que o pastor jamais fizera com ele, sempre afável e contemporizando, até concordando, mas continuando a trabalhar do mesmo jeito, sem dar duro nas pessoas com uma vida errada. Mittmann quis saber: - “Frau Schmitt. A senhora considera que o pastor Voges está servindo corretamente a Comunidade? O que ele fez diante do grave problema dos dois membros da Comunidade que trocaram suas esposas? Faz já alguns anos que isso aconteceu, mas nunca ouvi dele uma palavra de condenação para tal conduta. E desses casalzinhos que se juntam, não casam e aparecem para batizar as crianças que vão nascendo? Que disciplina que ele aplica? Podem ser batizadas
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crianças em tais circunstâncias? Vejo gente indo à Santa Ceia, mas que brigam e criam inimizade com os vizinhos e fazem conversa inconveniente, difamando. Já perdi muitas noites de sono... Acho que já perdi alguns dos meus pêlos da barbicha, de tanto coçá-la... Essa situação que vejo em nossa Comunidade me deixa incomodado...” - Mittmann coçou a barbicha rala e continuou: - “Uma Comunidade de Fé para ser fiel a Jesus precisa ser disciplinada com muito rigor, com base na Palavra de Deus. Quando vou a Santa Ceia e vejo ao meu lado pessoas sem a mínima preparação, sem um pouco de respeito do sagrado, fico com vontade de berrar e protestar, ali mesmo, diante do altar. Acho que temos os sinais claros que o fim dos tempos está chegando sobre nós...”. O inconformismo de Mittmann com relação ao pastor era sincero. Ficava evidente em suas palavras. Frau Schmitt e o Comandante perceberam que a questão entre Voges e Mittmann estava ficando casa vez mais séria. E o pastor nem parecia se importar com as arengas e reclamações. Já o haviam ouvido concordar com Mittmann, dizendo que este tinha razão e que um dia as coisas haveriam de ser diferentes, com um futuro melhor que estava por chegar para todos. Frau Schmitt agora com voz calma e amistosa, ponderou: - “Querido senhor Mittmann. Preciso lhe confessar que é pouco o meu conhecimento sobre esta tal de disciplina conforme a Palavra de Deus. Não posso e nem quero discutir isso com o senhor que entende do assunto como ninguém. Por isto penso que o melhor seria que o senhor procurasse novamente o pastor Voges. Trate com ele estas suas preocupações. Faça isso de modo pessoal e bem particular e longe dos curiosos...”.
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Comandante Schmitt interveio: - “Mittmann. O que a minha esposa acaba de lhe dizer é a coisa mais certa que já escutei em minha vida. Você precisa começar a falar com o pastor em particular e não na frente dos outros, como vem fazendo. Na frente dos outros o pastor vai contemporizar. Ele é um mestre nisso, sempre muito atencioso com todas as pessoas. Porém em particular, creio que ele não fugirá de um debate. Vá até a casa do pastor. Com todo o carinho, faça as suas ponderações. Converse com o pastor a respeito destas suas dúvidas...”. Mittmann levantou-se. Parecia ouriçado. Disse com voz ríspida: - “Comandante. Não estou com nenhuma dúvida a respeito de tudo isso que lhe falei. Estou convicto do que falo. Tenho certeza. É a certeza que a Palavra de Deus me concede. Disso eu não abro mão. Essa história de contemporizar é uma falha e fraqueza do pastor. É falta de preparo, na base da Palavra de Deus. Se o pastor fica agradando e alisando as pessoas é por não saber o que ele deve dizer e fazer. Por que ele foge de um debate diante de outros. Os demais membros devem e podem discutir estes assuntos que, eu digo, que estão errados na Igreja”. - “Pois bem, senhor Mittmann” - disse Frau Schmitt. Está aí mais um motivo para que o senhor converse este assunto com o pastor, pois eu não vejo erro nele. Estou muito satisfeita com o casal. Agora, ainda mais... Observe a esposa do pastor. Ela é um coração, que está aqui só pensando nos outros. Ela se dedica às crianças, que dela recebem aulas. Ela dá atenção às mulheres que vão a casa dela para receber conselhos e aprender a fazer as coisas no lar, como cozinhar e cuidar de um recém nascido. Elisabeth Voges é uma professora e, uma boa esposa de pastor. Ela é muito competente. E ele? Ele é um pastor que se
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preocupa com tudo e com todos. Por isto penso. A nossa Comunidade está de parabéns. Este casal é uma preciosidade...”. Mittmann não ficou satisfeito com os elogios que Frau Schmitt fez ao Voges. Despediu-se dizendo ir até a casa pastoral para ver se encontrava o pastor em casa, para uma conversa entre amigos.

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“EM NOSSAS CANELA FEDIDA”

FLORESTAS

EXISTE

ATÉ

Mittmann chegou à casa do pastor e sem muitos rodeios foi direto ao que vinha. Disse ele em tom de reclamação: - “Pastor. Faz algum tempo que eu precisava levar uma boa conversa contigo, a respeito da situação de nossa Comunidade”. O pastor, como sempre fazia, foi contemporizando e respondeu: - “Faz bem. É bom colocar para fora o que tranca na garganta. Você é uma pessoa que pode falar sobre a igreja, pois tem revelado amor por ela. Lembro com gratidão dos quase três anos, entre 1831 a 1833, quando atendeu com muita atenção as necessidades de serviço deste nosso povo. Realizou diversos batismos e enterros, sempre prestativo. Vamos sentando, para tomar um café, que já está pronto. Acabou de sair o Coronel Caldwell que me concedeu a satisfação de sua visita além de muitos e bons conselhos e idéias que poderão servir de apoio para o meu serviço pastoral”. - “O que um militar católico poderá ter ensinado a um pastor evangélico” - quis saber Mittmann. - “Caro Mittmann. Os bons conselhos que ele me concedeu, nem vem ao caso, neste momento. São assuntos para o futuro de nossa Comunidade e sobre o meu futuro. Apenas quero deixar claro que este homem traz, de suas origens familiares, uma admiração pelos anglicanos e pelos protestantes da Inglaterra. Ele é viajado... Ele conhece o mundo bem melhor do que nós. No entanto, caro Mittmann, vamos ao que nesta hora o trouxe aqui.”.

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Mittmann ficou coçando a barbicha, demoradamente. Depois decidiu contar, que ele já estivera na casa dos Schmitt: - “Pastor. Confesso que estive há pouco na casa do Comandante. Troquei idéias com ele, a respeito da situação de nossa Comunidade. Eles me aconselharam a chegar até aqui para termos uma conversa em particular”. - “Fale!” - disse Voges. Mittmann parecia estar confuso. Não sabia bem por onde iniciar. Finalmente foi direto a um dos problemas que ele considerava mais grave e foi explicando: - “Vou começar com a questão da vida desenfreada de muitos membros, que não atentam para a Lei de Deus e que são aceitos na Santa Ceia como se estivesse tudo em ordem. Como exemplo eu aponto para o problema do Maschmann e do Becker, que trocaram suas mulheres. O senhor aceita que casais possam trocar as esposas entre si?”. - “Mittmann. Isso é modo para falar de um problema da vida particular de dois casais?” - perguntou Voges. E continuou: - “Além do que, esta troca ocorreu no período em que estive ausente de Três Forquilhas. Naquela época você estava respondendo pelos serviços pastorais na nossa Comunidade. Poderia ter feito algo para evitar o ocorrido? Eles pediram conselho de alguém? Simplesmente fizeram... Quando cheguei de retorno, logo me foi contado o fato. O que poderia ser feito? Eles me apareceram com crianças para batizar, cada casal com a nova esposa, adquirida por troca mútua e tendo filhos com a nova companheira. Pensei bastante e concluí que não me era permitido recusar o batismo. Avisei que registraria as crianças, mas mencionando que elas haviam nascido fora dos sagrados laços matrimoniais. (De fato, no Registro de Batismos, o pastor escreveu a
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palavra alemã unehelich fora do matrimonio, ou sob infidelidade conjugal)”. - “Pastor. O senhor nem os ameaçou de exclusão da Santa Ceia? Não tentou aplicar uma disciplina mais rigorosa neles?”. - “Mittmann. Vou te contar uma coisa. Um dia destes, entrei na floresta, que ainda conservo nos fundos da minha propriedade. Fiquei olhando para as árvores que ali tenho. E notei que a floresta não tem somente árvores belas e perfeitas. Tem árvores de todo o tipo e de todo o tamanho. A gente olha para as árvores e vê algumas que são tortas e deformadas. Mas preciso aceitar de que elas fazem parte da minha floresta... Não fui eu quem as plantou. Eu cuido da floresta e das árvores que nela existem e quero que elas se desenvolvam. Preciso aceitar que ali existem árvores de diferentes espécies, mesmo aquelas, das quais não gosto. Não tenho só madeira de lei ao meu dispor... Concluí ainda de que não me cabe eliminar a floresta só porque existem árvores tortas e feias ou de madeira fraca! Vi até a canela fedida5... Veja se concorda comigo: no final sempre temos uma boa serventia para a canela fedida!”. Mittmann ficou em silêncio. Gostava de escutar o pastor, quando este começava a fazer sua pregação. Agora mesmo era uma dessas situações. Estava encantado com a história. Lembrou-se então das parábolas que Jesus contava. Os Evangelhos continham inúmeras parábolas e eram tão instrutivas... - “É verdade! Em nossas florestas temos até canela fedida” anuiu Mittmann. Despediu-se. Enquanto cavalgava de retorno ao seu lar ficou remoendo a conversa que ele mantivera com o pastor. E, não estava nem um pouco satisfeito com o resultado. Saíra do encontro como quem
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concordou. Esquecera de levantar os diferentes problemas que o incomodavam. Problemas que segundo ele, feriam profundamente a vida da Comunidade. Agora lembrou-se do caso de Jacob Gross Esse homem abandonara a esposa e fugira com a cunhada. Um homem que largou a esposa lá em Lomba Grande, perto de São Leopoldo, para vir se esconder no meio do mato, ao pé da Serra, no chamado Passo do Josaphat. Mittmann estava mais incomodado era com o fato de o Jacob Gross ter recebido atendimento pastoral, da parte de Voges. Como o pastor pode fazer isto? Será que ele não sabe que uma batata podre faz feder um paiol todo? Mittmann ficou agora se recriminando. Decidiu finalmente que, algum outro dia ele haveria de retornar à casa do pastor para dizer-lhe isto, com todas as letras. Chegando em casa, Mittmann foi logo desabafando com a esposa: - “Não suporto esse pastor. Ele me faz sentir pequeno e derrotado...”. - “Vocês discutiram...” - quis saber ela. - “Até hoje não consegui discutir com esse homem. Ele vai me envolvendo com a conversa dele... Se tivéssemos discutido eu me sentiria bem melhor. Mas veja só. Mais uma vez ele me convenceu e saí pensando que ele é que estava certo e eu enganado”. - “Não fique assim, querido. Isto só te faz mal...”. - “Se eu tivesse recebido a oportunidade de ser o pastor desta Comunidade, eu teria a oportunidade de revelar o jeito como deve ser uma Comunidade de Fé!” concluiu Mittmann.

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Um relato sobre a troca de esposas Quando Mittmann saiu, Elisabetha perguntou ao marido: - “O que ele queria contigo? Ele parecia estar bastante agitado e nervoso?”. - “Ele veio para reclamar do meu serviço pastoral. É a mesma ladainha de sempre, exigindo maior disciplina sobre os membros da Comunidade. Agora ele veio implicar com os dois que andaram trocando as mulheres entre si...”. Elisabetha sorriu e explicou: - “Em 1834 quando voltamos em definitivo para a Colônia de Três Forquilhas também fiquei um tanto chocada ao saber dessa troca que esses dois homens fizeram, logo ainda tomando cerveja, lá no Schneider. Mas agora são passados quase sete anos e noto que os novos casais que eles formaram, estão vivendo felizes e em harmonia”. O pastor mostrou acentuado interesse pelas explicações da esposa e pediu: - “Querida. Poderias me contar de novo a conversa que vocês tiveram na última reunião das senhoras da Comunidade, que foi realizada aqui na igreja? A mulher do Mittmann também esteve presente?”. - “A mulher dele não veio. Ela tem alegado que a morada deles fica muito distante do templo e que ela precisa cuidar dos filhos e do marido e que não sobra tempo para participar das nossas reuniões periódicas. Mas vieram lá de baixo, a Anna Maria do Casper Dresbach. Isso que ela está com nenê nascido no ano passado. Talvez até por este motivo ela faça questão de vir, para fazer perguntas sobre os cuidados com o nenê e outros assuntos de mulher. De lá veio também a Clara,
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esposa do cervejeiro Schneider, que também está com criança pequena, de dois anos mais ou menos. Foi lá na cervejaria dos Schneider que aqueles dois agricultores trocaram suas mulheres... Deves lembrar que os Schneider já têm quatro filhos. E, mesmo assim, ela veio e até trouxe as crianças com ela...”. Voges, muito interessado respondeu: - “É claro que lembro das crianças. Eu que as batizei...”. Elisabetha continuou: - “Têm vindo em torno de vinte a vinte e cinco mulheres para participarem das minhas reuniões. Vem gente do outro lado do rio, em particular dos Bobsin e dos Sparremberger que agora enfrentam esse grande sofrimento pela morte que os Farrapos trouxeram para eles...”. Voges interrompe a esposa. Ele queria maiores detalhes sobre a troca de esposas. Por isto pediu: “Querida. Lá do outro lado veio a Gertrudes Maschmann? E deste lado, veio a jovem Maria Christina Gross, agora do Becker. Vieram as duas mulheres que foram trocadas pelos maridos?”. Elisabetha sorriu: - “Essas duas jamais faltam às minhas reuniões. Elas até fazem questão de serem vistas juntas... Parece que elas querem mostrar para a Comunidade, que a troca foi boa para ambas... Elas parecem felizes e conformadas com o ato dos maridos...”. A esposa do pastor continuou no relato: - “A Gertrud, agora do Maschmann, sempre vem em companhia da mamãe dela, a Margaretha Klippel. A Gertrud já teve agora o quinto filho com o Johann Maschmann, além dos dois que ela já tivera com o Becker e que ela levou para criar, como mãe muito
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amorosa que ela é. Essa é uma boa parideira. O filho menor da Gertrud deve ter apenas quatro meses. Lembras do pequeno Johannes que batizaste aqui na igreja em julho deste ano...”. - “Claro que lembro...” - disse o pastor. Elisabetha continuou: - “A Maria Christina Gross que agora é do Heinrich Becker na verdade não tivera nenhum filho com o Maschmann. Ela está agora com a segunda filha, com o Becker. São duas meninas que ela tem. A menor nasceu no ano passado. E ela se queixa que o marido quer filho homem dentro de casa. Eles vão continuar tentando fazer filho até que venha o homem esperado...”. Pastor Voges riu, à vontade. Achou engraçado o modo como à esposa falava sobre estas questões das famílias. Abraçou Elizabetha com força e pediu: “Continue com este teu relato. Preciso saber de cada detalhe que é importante, se mais outras pessoas começarem a fazer algum coral6 com o Mittmann a respeito dessa troca de esposas, ocorrida na minha ausência. E mesmo que eu tivesse estado aqui, atuando no meu serviço pastoral, o que eu poderia ter feito para evitar o ocorrido?”. - “Você não teria feito nada, pois a troca ocorreu lá na Cervejaria Schneider. Esses dois homens não pediram conselho a ninguém, para fazer o que fizeram...” - disse Elisabetha. continuando: - “A Clara, esposa do cervejeiro Schneider, me contou em detalhes a troca que ocorreu. O marido dela teve que servir até como testemunha do acerto”. - “Fale, Elisabetha. Isso me interessa...” - disse Voges.
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FIGURA 6 - Elisabetha Diefenthaeler Voges, esposa do pastor Voges. Foto do Arquivo da Família Voges.

Ela continuou: -“A Frau Schneider me explicou que o fato ocorreu o ano de 1832. Heinrich Becker que gosta muito de tomar cerveja, como já se acostumara a fazer, foi até a cervejaria do Schneider comprar uma pipa do precioso líquido. Nisto também apareceu, lá, outro colono, o recém chegado à Colônia, Johannes Maschmann. Este não era só novo na Colônia, mas também casado fazia pouco tempo, com uma jovem de dezessete anos de idade, a Maria Christina Gross. Esta é das moças ainda nascidas na Alemanha. Era de 1815 e que chegara em Torres em 1826, em companhia do pai, o carpinteiro Philipp Peter Gross. É conhecida como sendo uma moça muito faceira e alegre que gosta de danças e festas. Ela detesta o trabalho da lavoura. Já o Johannes Maschmann além de religioso, calmo e
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paciente, é de uma dedicação integral ao trabalho, fazendo muito gosto em ter lindas roças, bem cuidadas. Ele não se conformava com a rebeldia da jovem esposa, que não queria acompanhá-lo no trabalho”. Voges interrompeu a esposa e falou: - “Nisso a Frau Schneider está muito acertada. O Maschmann e a jovem Gross realmente não combinavam, nem nos interesses e nem quanto ao temperamento...”. Elisabetha continuou a relatar o que Frau Schneider havia contado: - “Enquanto os dois colonos faziam a compra da cerveja, aproveitaram para também beber umas e outras, oferecidas como cortesia, pelo cervejeiro. Passaram a se deliciar com a bebida. Com isto a conversa também passou a rolar cada vez mais solta. Passaram a desabafar. Um falando das virtudes da mulher do outro. O outro falando dos defeitos da própria esposa. De repente, ambos silenciaram. Um olhou nos olhos do outro e, ao mesmo tempo, falaram as mesmas palavras: < “Porque não trocamos, entre nós, as nossas mulheres?”.> Novamente silenciaram. Pediram outro copo de cerveja. Procuraram ganhar mais um pouco de tempo para raciocinar. A coisa era muito séria, mas deixava ambos muito excitados. Johannes Maschmann parecia preocupado com alguma coisa. Becker, entretanto, se mostrava mais ansioso e perguntou : < “O que atrapalha as tuas idéias? Porque não trocamos logo as nossas mulheres?”. > Maschmann desabafou: < “Você pensa por acaso que sou algum bobo? A minha mulher é bem jovem e muito bonita. Ela tem apenas dezessete anos de idade. Ela nem teve filhos ainda .. . No mano a mano não aceito.”. > Becker concordou com o amigo. Realmente cabia uma indenização. A mulher do amigo valia esse gasto. Prontamente ofereceu uma porca que dera cria fazia poucos dias e mais uma gamela nova, de madeira, que ele também confeccionara fazia poucos
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dias. Maschmann coçou a cabeça. Considerou que a oferta não era o suficiente. Queria mais alguma coisa. Becker arriscou nova proposta. Mostrou-se disposto a incluir mais um saco de batatas, recém colhidas. Maschmann finalmente entrou em acordo. Chamou o cervejeiro para servir como testemunha”. O pastor interrompeu a esposa e perguntou: “Querida. Por acaso Frau Schneider soube dizer alguma coisa sobre o que disseram as duas mulheres, quando souberam do negócio?”. Elisabetha acrescentou: - “O certo é que ambas devem ter ficado satisfeitas, uma que elas prontamente consumaram a troca, acertada pelos maridos. Se agora elas chegam às minhas reuniões e fazem questão de mostrar, em público, de que estão felizes na nova situação, então é porque aprovaram o acerto feito pelos antigos maridos. Não estão elas vivendo com muito amor e felicidade, na nova união, até que a morte os separe? Por isso, Carlos. Sou de opinião que elas deveriam receber a benção da Igreja, sobre essa nova situação que elas vivem. A Gertrudes que é muito religiosa, e também a mãe dela ainda mais religiosa, vem insistindo comigo, pedindo que eu as ajude a preparar a tua cabeça, para esse desejo que elas tem, de receberem a benção de Deus para a nova união, que se consumou com essa troca. Já faz, agora, sete anos que isso sucedeu...”. O pastor ficou agora pensativo. Finalmente respondeu: - “A minha cabeça já estava preparada para essa idéia de uma benção para eles. Não irei mais anotar no Livro do Registro de Batismos essa questão da infidelidade, caso vierem a fazer comigo o batismo de alguma outra criança. Aceito que a troca foi definitiva. Além disso, concordo que os dois casais estão em harmonia e vivendo corretamente. Por isso creio que
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recebi uma lição com esses dois casais. No meu entender a moral da história é que a incompatibilidade de gênios atrapalha muitos casais, para viverem o dia a dia da vida conjugal. Por isto, convém que eu fale com toda a clareza, em minhas prédicas, que é melhor pensar um pouco antes de noivar ou então antes de pensar em casar, para não cair na separação, que depois se apresenta como inevitável”.

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FARRAPOS FORQUILHAS.

OUTRA

VEZ

RONDAM

TRÊS

O médico da Força Imperial chegou à casa pastoral. Era o dia 15 de dezembro de 1839. Ele viera se despedir do pastor: - “Pastor Voges. Ainda hoje estarei deixando a nossa posição ao pé da Serra. Os pelotões de vanguarda já começaram a subida, pela manhã. Após o almoço o próprio Coronel Caldwell e o grosso do efetivo também avançarão. Por isto ele ordenou que eu viesse até a sua casa e vos transmitisse um pedido de desculpas dele. Pessoalmente ele pretendia fazer esta despedida.”. - “Doutor. Entendo a situação dele” - disse o pastor. E comentou: - “Até cheguei a pensar que ele já tivesse ido, pois passaram muitas tropas diante de minha casa, rumo à praia”. O médico explicou: - “A tropa que passou aqui era a do Major José Inácio Ourives. Ele foi reforçar a posição de Sanga Funda. Eles foram dar combate a Bento Gonçalves”. Voges mostrou espanto: - “O próprio Bento Gonçalves anda aqui perto?”. - “Bento Gonçalves saiu de Viamão já no dia 12 de dezembro, disse o médico. Nossas tropas fecharam a passagem de Conceição do Arroio. Também a trilha de Maquiné que sobe a Serra, estava bem guarnecida. Soubemos que o General Bento evitou combates e não quis abrir caminho por ali. Ele desviou para Tramandaí e prossegue pela estrada que vai entre as lagoas e o mar. Com certeza ele pensa poder entrar através do sangradouro da Lagoa do Inácio7, para tomar a trilha que
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passa aqui pela Colônia de Três Forquilhas. Por este motivo Coronel Caldwell reforçou a nossa posição na entrada deste vale”. Voges demonstrou preocupação: - “Vão acontecer combates na entrada para Três Forquilhas?”. O médico tranqüilizou o pastor: - “O perigo de combates existe. Bento Gonçalves está evitando... Descobrimos que ele tem pouca gente. São apenas uns seiscentos ou setecentos homens. É um terço da força que o General Canabarro tinha, quando passou por aqui.”. A situação do General Bento Gonçalves era extremamente difícil. O final da Revolução Farroupilha parecia se aproximar. Barata e Loré, guias do efetivo de Bento Gonçalves A tropa do general Bento Gonçalves contava com dois eficientes guias, bons conhecedores de toda esta região do Litoral Norte. Eram eles, o colono Miguel Barata e o pedreiro Jorge Loré. Eles haviam sido voluntários alemães na Guerra Cisplatina, que em 1827, a partir de Torres, seguiram com D. Pedro I, e até chegaram a lutar sob o comando de Bento Gonçalves. Agora estavam alistados no Exército da República do Piratini, sob a liderança desse mesmo chefe militar riograndense. Na situação de batedores, Barata e Loré não usavam farda. Apresentavam-se como sendo dois colonos alemães, interessados em conseguir terras na região. Eles entraram pelo sangradouro da Lagoa do Inácio, rumando para Três Forquilhas. Ao chegarem próximo a Sanga
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Funda depararam com o forte efetivo do Exército Imperial, sob o comando de Major Rodrigo. Barata e Loré foram barrados e um dos guardas quis saber:- “Alto lá. Quem são vocês? Para onde pretendem ir?”. Barata explicou: - “Somos colonos alemães de São Leopoldo. Estamos em busca da área de colonização das proximidades de São Pedro das Torres. Queremos ver se ainda existem terras para nós. Gostaríamos de trazer as nossas famílias para cá...”. O guarda orientou: Colônia de Três Forquilhas. seja somente em Torres, caminho entre a Lagoa e o prático”. “Por aqui vocês chegam à Caso o interesse de vocês então voltem. Peguem o mar que é melhor e mais

Barata quis saber ainda: - “Não existe o perigo de topar com os Farrapos?”. - “Ainda não” - disse o guarda - “Mas o General Bento Gonçalves parece que vem vindo de Tramandaí. Com certeza ele vai tentar passar por aqui, para subir pela trilha da serra de Três Forquilhas”. Sugi ro que se apressem. Peguem o caminho para Torres, imediatamente. Aqui, as coisas irão esquentar, dentro em breve”. Barata e Loré agradeceram e foram ao encontro do efetivo Farroupilha. Descreveram a situação para Bento Gonçalves. O general farrapo ordenou então marcha acelerada, rumo a Torres. A cavalaria foi se distanciando. Ficou evidente que a artilharia e a infantaria teriam dificuldade para acompanhar o general.
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O comandante farrapo ordenou então: “Providenciem duas montarias mais descansadas para meus dois batedores. Eles terão que chegar ao vale do Mampituba para descobrir o caminho mais seguro. Precisamos subir a Serra se quisermos salvar a nossa causa republicana”. Barata e Loré receberam novas montarias. Saíram em galope forçado. Tinham pressa para cumprir a missão recebida. A tropa de Bento tenta escapar Barata e Loré recebem nova missão Miguel Barata e Jorge Loré constataram que a única passagem ainda totalmente livre era mesmo o Passo do Rio Verde. Quando Bento Gonçalves finalmente chegou com a cavalaria, ordenou aos dois batedores: “Quero que desviem dos Imperiais e encontrem algum caminho para São Leopoldo. Levem um comunicado, informando que estou subindo a Serra pelo Passo do Rio Verde. Mas a minha infantaria e a minha artilharia dificilmente conseguirão me acompanhar. Não sei o que será deles. Talvez combaterão até o último homem, ali, diante de Torres”. Barata e Loré pegaram dois outros cavalos, pois que os deles estavam em estado sofrido de tanto galopar pelo vale do Mampituba. Quando iam se despedindo de Bento Gonçalves, este ordenou ainda: - “Consigam encontrar algum efetivo em condições de ir ao meu encontro, lá no alto da Serra. Necessito de reforços, com urgência...”.

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Os dois batedores se despediram. Foram pelo caminho dos campos da Itapeva. Notaram muita poeira, na altura de São Pedro de Alcântara. Esconderam-se. O forte efetivo de Major Rodrigo passou em marcha acelerada. Os caramurus haviam descoberto que Bento Gonçalves seguira para a direção do Passo do Rio Verde e desejavam interceptá-lo antes da subida da Serra. Quando os últimos homens da tropa caramuru sumiram pelo caminho, Barata e Loré retornaram a estrada, buscando o rumo de Três Forquilhas. Não encontraram mais nenhum obstáculo pela frente. Pernoitaram numa gruta. No raiar do novo dia, colocaram-se novamente a caminho. Porém, já próximo do vale do rio Três Forquilhas, começou a chover forte. Chuva rápida de verão. Por isso decidiram parar em algum lugar. Estavam chegando à Colônia Alemã Protestante, de Três Forquilhas, que eles conheciam muito bem. Vinham pelo lado direito do rio Estavam passando pelo núcleo sudeste. Pararam na ferraria do Schütt. Foram atendidos pelo jovem ferreiro Wilhelm Brehm, enteado do ferreiro, já com seus quatorze anos de idade. O menino perguntou: - “Vocês não toparam com os soldados imperiais?”. - “Vimos sim” - disse Barata. “Seguiram no rumo de Santa Catarina, pelo jeito...”. - “Vão pegar o Bento Gonçalves” - disse o menino. Loré e Barata riram. - “Não acreditam?” - quis saber o jovem Brehm.

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Eles informaram: - “Bento já deve estar lá no alto da Serra. Esse? Eles não o pegarão mais...” - Barata fez mais algumas perguntas, sobre as famílias da Colônia. O menino foi respondendo com desenvoltura. Quando a chuva amainou, os dois batedores se despediram. Tomaram o rumo do núcleo nordeste no caminho para a Serra. Passaram diante da casa comercial do Jacoby. Viram ali o König descarregando algum produto da lavoura. Os dois não pararam para conversar, pois estavam com muita pressa. Passaram como se fossem dois colonos alemães, em andança pela localidade e sumiram pela estrada. Chegaram diante da casa de Johannes Bobsin. Barata falou para Loré: - “Tenho que parar aqui. Quero ver como anda o meu grande amigo Bobsin, o colono mais forte que um touro. Quero dar um abraço nele”. Loré era de pouca conversa. Fez apenas um sinal afirmativo. Entraram pela porteira e Barata assobiou, por diversas vezes. Era um código deles. Era um assobio bem característico deles, para avisar a chegada de algum amigo e conhecido. Frau Bobsin assomou discretamente a janela para espiar. Ela perguntou: - “Quem é?”. - É o Miguel Eberhardt em companhia do pedreiro Loré. Estamos só de passagem rumo a São Leopoldo”. - “Vá lá para os fundos” - orientou ela. Johannes está envolvido lá no paiol, fazendo trançado de corda de couro. É uma encomenda pastor. O nosso pastor vende os laços lá na Serra”. “O um do Os

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dois visitantes alcançaram o paiol. Barata assobiou novamente. Ouviu-se a voz forte de Bobsin, dizendo: “Venham chegando! Estou aqui na minha oficina de laços e de artefatos de couro...” - Grande foi a surpresa de Bobsin quando reconheceu o seu amigo Eberhardt. Foi ao encontro dele de braços estendidos, para um aperto bem demorado e caloroso. Bobisn largou algumas tiras de couro e convidou: - “Quanto tempo... Venham... Vamos lá em casa... Charlotta fará alguma refeição para vocês... Até parecem que são dois mortos de fome, pela cara que vocês tem”. - “É verdade” - disse Loré - “Estamos sem comer, desde ontem, quando saímos das proximidades do Passo do Rio Verde. Paramos para dormir, de estomago vazio. Somente tomamos água numa fonte, que deparamos em nosso caminho”. - “Quem é esse” - quis saber Bobsin - “Parece que não o conheço?”. - “Conhece sim” - respondeu Barata. “É o pedreiro Loré, que foi comigo para a Cisplatina. Lá ficou doente. Veio para cá e recebeu um lote de terra. Depois desistiu e se mandou para São Leopoldo onde havia deixado a mulher e os filhos...”. - “Agora lembro dele. É o pedreiro que tanto precisávamos aqui. Continuamos sem pedreiro, aqui na Colônia...”. Os três amigos entraram pela porta dos fundos e foram sentando em torno da mesa. Charlota já se encontrava diante do fogão, preparando um café para os visitantes. Ela foi explicando? - “Temos o nosso próprio
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café, colhido de alguns pés que plantamos no meio do pomar”. - O aroma gostoso do café chegou até os visitantes. Estavam famintos. Olharam para a mesa posta. Viram pão fatiado, queijo, lingüiça, manteiga e melado. Já seria uma farta alimentação para alguém que estava com o estomago roncando. Bobsin porém recomendou para a esposa: “Charlota. Veja um charque e farinha. Ou melhor, não sobrou daquela costela de porco, do almoço? E feijão? Esquenta tudo, pois estes aí estão sem o almoço do meio dia”. Com muita disposição, esta dona de casa, ágil, preparou uma refeição reforçada. Os dois visitantes não tiveram mais disposição para conversar. Com uma verdadeira sofreguidão foram se servindo, mastigando e servindo de novo. Estavam mesmo precisando de uma refeição quente. Finalmente satisfeito, Barata passou a manga do paletó surrado pelo queixo e pelos cantos da boca. Um pouco de gordura das costelas de porco, quase lhe pingava do queixo. Barata girou a cadeira para ficar de frente ao Bobsin. Perguntou curioso: - “Vocês aqui em Três Forquilhas, trabalhando muito? E a família? Sempre com saúde e felizes?”. Ouviram-se soluços. Era Charlota que rompera em prantos. Barata e Loré olharam espantados para a mulher. Johannes Bobsin explicou: - “Os farrapos atacaram o nosso núcleo. Mataram um dos meus meninos, o Peterchen” (diminutivo de Peter, ou seja, Pedrinho, em português).
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Barata ficou pálido. Quis saber detalhes. Levantou-se e chegou diante do casal. Ajoelhou-se diante deles. Pegou as mãos dos dois e as colocou contra a sua testa. Começou a chorar. Bobsin puxou o amigo pela mão e disse: “Levanta daí, amigo Barata. Não inventa querer chorar também...”. Eberhardt levantou-se. Indicando para Loré e falou: - “Somos soldados farrapos. Decidimos apostar as nossas vidas pela causa da República do Piratini. Queremos ajudar a construir uma terra de liberdade e de bem-estar para todos”. Charlota retraiu-se assustada, como se pudesse buscar algum refúgio no canto do fogão. ela

Bobsin falou : - “Amigo Eberhardt. Eu já sabia que você é Farroupilha. O pastor explicou isso, lá na igreja. Respeito a sua escolha. E digo mais. Eu não sou caramuru. Não o culpo pela morte do meu filho. Foram elementos desclassificados que não souberam honrar a causa. Só souberam fazer este estrago em nosso meio”. - Bobsin ficou conversando com os visitantes por mais uns trinta minutos. Contou detalhes sobre o ataque dos farrapos e do modo como os oito foram eliminados. Falou ainda a respeito do enterro. Mencionou que o pastor fizera muita ênfase para denunciar que o sangue de inocentes era derramado nesta Revolução. Bobsin foi falando até que Loré se levantou impaciente e falou: - “Barata. Precisamos tomar a estrada. Temos uma missão urgente para cumprir”. - “É verdade” disse Barata. - Levantou-se também. Agradeceu pela hospitalidade e pela refeição.
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Finalmente despediu-se do casal com muitas palavras de carinho. Buscaram os cavalos e tomaram o rumo da Serra. Em meio ao luto, ajudem uns aos outros... O médico do Exército Imperial apareceu diante da igreja batendo palmas. Quando o pastor apareceu, ele falou: - “Pastor Voges. O coronel Caldwell ordenou que eu me apresentasse ao senhor, pelo fato que ainda hoje, estarei deixando a posição ao pé da Serra, Ele quer que, juntos, eu e o senhor, façamos mais algumas visitas aos doentes. Serão visitas que o senhor considerar necessárias”. O pastor refletiu por um instante e sugeriu: “Vamos até o outro lado do rio para ver a situação dos feridos e dos enlutados, que foram vítimas dos Farrapos?”. - “O senhor é quem manda” - disse o médico. Foram à cavalo. O médico bem falante argumentava sobre a expectativa que ele tinha, com um fim rápido para a Revolução. Relatou sobre os planos que ele alimentava para algum dia conseguir lugar na Corte, para ali clinicar. A primeira casa em que chegaram foi a da família Bobsin. Entrando na cozinha, viram que a mesa ainda estava posta, como se recém tivessem almoçado. O médico e o pastor não podiam imaginar que faziam apenas alguns breves instantes, que os dois farrapos, Barata e Loré haviam saído dali.
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O casal Bobsin nada falou sobre a passagem dos dois. Revelavam apenas um abatimento muito grande. Charlota fazia ouvir os seus lamentos e suspiros. E Johannes passou a contar do quanto doía a falta do menino alegre e trabalhador que fora tirado deles de modo tão absurdo. O pastor orientou: - “Essa dor é cruel. Em geral demora bastante tempo para passar. Por isso, nesta hora, de dor tão recente, só posso pedir que olhem para os filhos que aí estão ao redor de vocês. Quando a dor parecer grande demais, abracem estes filhos, com todo aquele amor que gostariam de dar para aquele que se foi. Lembrem também de visitar, de vez em quando, a viúva Sparremberger. Ela enfrenta uma dor semelhante e muito grande. A vida das famílias continua, apesar de tudo isso que aconteceu”. - “Obrigado, pastor” - disse Johannes. “Ainda bem que podemos contar com as suas visitas e sua palavras de conforto”. Voges reuniu a Família Bobsin à sua volta, impôs então as mãos, em sequência, sobre a cabeça de cada um. Invocou a presença e a benção de Deus para cada pessoa. Em seguida, o médico aproximou-se pedindo para examinar Charlotta Bobsin. Ele disse: - “A senhora está bem, físicamente. O seu problema, por ora será a dor e a tristeza. Para isso só o remédio para a alma que o pastor deverá vos ministrar”. Seguiram então até a moradia de Hans Thron Stollenberg. O Viking não estava nada bem. A ferida no braço, próximo ao ombro, estava infeccionada. O médico procedeu na limpeza da mesma e aplicou uma pomada,
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que ele trouxera em sua maleta. Concedeu então informações sobre procedimentos futuros e os cuidados necessários para ajudar no fechamento da ferida e para uma boa cicatrização. O pastor foi traduzindo todas as orientações e depois acrescentou: - “Caro Hans Thron. A sua coragem foi fundamental para não termos mais mortes a lamentar. A sua resistência naquela trincheira, perto do valo d’água foi fundamental para que o socorro dos outros colonos chegasse até vocês. Mesmo ferido você continuou na defesa destas famílias”. Voges teve que chamar pelo médico. Este fora dar de beber para o seu cavalo, num cocho de água, que se encontrava perto do estábulo das vacas. Seguiram até a propriedade da viúva Sparremberger. O filho Andréas, apesar de ferido também se encontrava ali, com a mulher e os filhos, na intenção de levar consolo para a mãe. Quando ela viu o pastor chegando em companhia de um militar fardado, ela colocou as mãos na cabeça e passou a gritar em desespero: - “Pastor... Oh, pastor! Essa gente me matou. A minha vida acabou, quando acabaram com a vida do meu marido...”. O pastor apeou do cavalo e foi até a varanda. Colocou as mãos sobre a cabeça desta mulher que continuava chorando, em desespero. Voges permaneceu assim, talvez por dois minutos, impondo as mãos sobre ela. A mulher foi então se acalmando. Finalmente parou de chorar. Voges falou: - “Essa dor é muito forte. É uma dor que cortou o seu coração. Por isto devo orar com a senhora e pela senhora. Peço que Deus a ajude e a console por meio de Jesus, que deu a vida por nós”. - “Sim, é isto, pastor. Preciso desta força que, bem sei disso... Força que somente Deus pode me dar...”.
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Voges concluiu: - “Frau Sparremberger. Estou chegando da casa dos Bobsin. Lá a dor também é muito grande. Por isto peço um favor. Quando a senhora sentir que Deus está renovando as suas forças, olhe para os seus filhos, noras e netos. Eles ainda necessitam do seu amor. Ou então, vá até a casa dos Bobsin. Em meio ao luto, procurem ajudar uns aos outros... Deus está convosco para vos consolar”. O médico aproximou-se de Jost Sparremberger e examinou o ferimento à bala, que este recebera na coxa. O médico falou: - “A ferida fechou bem. Não ocorreu nenhuma infecção. Em breve restará apenas uma pequena cicatriz como uma amarga lembrança desta Revolução”. Pastor Voges colocou a mão sobre o ombro de Jost e falou: - “Amigo Jost. Você foi corajoso. Esta sua coragem foi decisiva para que chegasse o socorro de outros colonos. Você e o Viking colocaram as vidas em risco, para proteger as famílias”. O médico e o pastor se despediram. Retornaram e desceram pelo outro lado do rio até a casa do Comandante Schmitt. O pastor explicou que o médico viera se despedir. Os últimos integrantes da Força Imperial já estavam se aprontando para sair da área desta Colônia. Frau Schmitt foi rapidamente até a cozinha. Buscou uma cuca de banana e outros doces que ela acabara de fazer e pediu ao pastor: - “Diga ao médico que esta cuca é especialmente feita para ele. A orientação que ele nos concedeu foi muito importante. O Peter já me parece bem melhor. Cada manhã eu o faço sentar no sol. Veja a cor que ele tem. Não está ficando saudável?”.
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Voges riu e transmitiu as informações ao médico. Este também riu, mas insistiu que desejava levar a receita da cuca de banana, para oferecer à mãe dele. Frau Schmitt buscou um papel, o tinteiro e a pena e pediu que o pastor fosse anotando: Ingredientes = 2 xícaras de farinha de trigo, 1 pitada de fermento, 1 pitada de sal, 1 pitada de açúcar, 2 ovos, ½ copo de água e 3 colheres das de sopa de manteiga. Amassar todos os ingredientes. A massa deve ficar mais mole do que dura. Colocar numa forma, espalhando a massa. Para fazer o recheio que vai por sobre a massa = 7 bananas (pacovas) picadas em rodelas de 1 cm de grossura. Bater 3 ovos e 3 colheres de manteiga, para jogar sobre as bananas. Finalmente, polvilhar canela e açúcar sobre este recheio. Colocar em forno bem quente, durante 50 minutos. O médico apertou a mão do Comandante e de Faru Schmitt e agradeceu efusivamente pelo presente. Prometeu saborear a cuca, antes de partirem. O pastor e o médico subiram nas montarias. Tomaram o rumo norte. Chegando próximo à igreja, o médico falou: - “Não posso chegar. Preciso retornar ao nosso acampamento, ao pé da Serra. Coronel Caldwell já seguiu rumo a Torres. Mas o pastor tenha certeza de uma coisa. O meu comandante tem um grande apreço e admiração pelo senhor e pela sua Comunidade de Fé. Farei um relato para ele, a respeito da situação dos feridos e dos enlutados, de Três Forquilhas”. Voges estendeu a mão ao médico e se despediu: “A sua passagem e a passagem da Força Imperial pela nossa Colônia nesta ocasião tão difícil jamais será esquecida. Guardaremos em nossa memória a gratidão a Deus, pelo socorro que Ele nos concedeu com a vossa
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chegada. Ele vos guie sempre no bom caminho e vos proteja em meio aos perigos que vos rondam”. - “Amém” - disse o médico.

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METADE DA TROPA DE BENTO SE RENDEU Quando o médico ia girando o cavalo para seguir caminho, ouviu-se o tropel de diversos cavalos. Eram militares caramurus. Vendo o médico, pararam para cumprimentá-lo: - “Bom dia doutor. Estamos levando importante notícia para Coronel Caldwell. É que a metade da tropa de Bento Gonçalves se rendeu, na área do alto do rio Mampituba...”. O pastor e o médico demonstraram alívio. A notícia poderia significar o final da Revolução. O médico quis saber: - Bento Gonçalves então se rendeu?”. - “Não” - disse o oficial - “O homem conseguiu escapar com a cavalaria dele”. O oficial caramuru passou então a contar de modo resumido, outros detalhes importantes. Explicou que mais uma vez não haviam ocorrido combates. Bento Gonçalves conseguira apressar a marcha do seu efetivo. Ele fora mais rápido que Major Rodrigo, que se atrapalhara com a série de passos de rio, que dificultaram a progressão do efetivo. Desta maneira Bento Gonçalves chegara um pouco antes, ao Passo do Rio Verde. Na verdade Bento Gonçalves chegara antes, pelo fato de ter colocado sua tropa em marcha acelerada. Porém isto lhe custara bem caro. Tivera que se desfazer de carroças com munição, de todos os canhões e dos víveres. Tudo foi jogado nas águas da Lagoa Itapeva. Com esta manobra desesperada, Bento Gonçalves e sua Cavalaria conseguiram cruzar o Passo do Rio Verde com uma antecedência de talvez apenas trinta minutos,
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pois quando o Major Rodrigo alcançou o local, apenas conseguiu ainda interceptar a Infantaria dos farrapos, retardatária, que foi tomada de assalto. Estes se renderam, sem nenhuma disposição, para o combate. Foram feitos aproximadamente trezentos e cinqüenta prisioneiros. Major Ourives que chegou um pouco mais tarde ao Passo do Rio Verde, foi quem deu início na perseguição a Bento Gonçalves. A trilha era difícil. O general farrapo notando que estava sofrendo perseguição, ordenou que a cavalhada, que levava, fosse tocada de volta rumo ao Passo do Rio Verde. O objetivo era bem claro. Queria era atrapalhar a perseguição movida pelos imperiais. E a estratégia deu resultados. O efetivo de Major Rodrigo teve que se envolver com esses animais que vinham chegando em disparada. Os cavalos chegavam em disparadas e desviavam pelas ribanceiras. Só restou a alternativa de captura dos animais. Recolheram mais de mil e duzentos cavalos. Quando finalmente o caminho ficou livre, Bento Gonçalves já estava longe. O oficial, porém garantiu: - “A perseguição a Bento Gonçalves continuará. Major Rodrigo está agora seguindo por aquela trilha do Passo do Rio Verde, rumo a Serra. Ele espera ter o privilégio de prender o Comandante dos Farroupilhas, se houver oportunidade”. Os dois batedores farrapos na companhia dos caramurus Ocorreu um fato jamais imaginado. Barata e Loré, chegando ao pé da Serra depararam com o pelotão de retaguarda dos caramurus. O próprio Comandante e o
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grosso do efetivo já deviam estar quase chegando ao alto da Serra. O guarda interpelou os recém chegados: “Alto lá. Quem são vocês e para onde querem ir?”. - “Somos dois colonos” - disse Barata “Gostaríamos de seguir até São Leopoldo, mas temos medo de cair nas mãos dos farrapos”. O guarda garantiu com firmeza: - “Por aqui não tem nenhum Farrapo. Eles estão muito longe. Nós dominamos tudo nesta região do Litoral até o Cima da Serra”. O guarda continuou: - “Por que vocês não esperam pelo nosso médico? Ele deve estar chegando de Três Forquilhas e então subiremos a Serra com ele”. Os dois batedores farrapos agradeceram pela atenção. Desmontaram para deixar os cavalos pastando. Não demorou muito tempo, apareceu o médico em companhia do grupamento que trazia notícias do Passo do Rio Verde para ser transmitida ao Comandante. Como este já estava distante, desmontaram por instantes, para comentar as novidades com os presentes. Barata e Loré ficaram na escuta, curiosos pelas notícias. Souberam assim que Bento Gonçalves tivera êxito e conseguira escapar rumo à Serra. Triste, porém era a informação sobre a Infantaria que caíra prisioneira, sem oferecer nem combate e nem resistência. O médico aproximou-se dos dois colonos e quis saber: - “Vocês desejam subir à Serra? Os guardas me falaram... Não querem ir comigo?” - Barata agradeceu pela gentileza. O médico quis saber: - “Conheço bem a Colônia de Três Forquilhas. Visitei muitos doentes na companhia do vosso pastor. Onde ficam as propriedades de vocês?”.
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Barata explicou: - “A minha propriedade fica a meio caminho do Passo do Cemitério rumo à igreja”. O médico revelou satisfação e comentou: - “Então eu passei diante de sua casa, faz pouco tempo. Estive com o pastor, visitando doentes e enlutados. Estive lá do outro lado do rio, visitando os Bobsin e os Spange. Vim de lá agora”. Barata teve vontade de dizer que também estivera na casa do Bobsin e que até haviam almoçado lá. Mas não convinha dar bandeira para o inimigo. O médico voltou-se então a Loré e quis saber: “Onde afinal fica a sua casa?”. Loré ficou nervoso e gaguejou. Barata foi em socorro dele e explicou: - “O meu amigo não é colono. Ele é um pedreiro e de pouca conversa. Se atrapalha quando perguntam alguma coisa para ele. E o pior, ele é pedreiro, do tipo de ferreiro que faz churrasco com espeto de pau”. O médico deu risada. Barata continuou: - “O Loré deixou a esposa e os filhos em São Leopoldo e ainda não tem casa aqui na Colônia. Ele cuida de fazer casa para os outros e nem foi capaz de construir pelo menos um ranchinho para si mesmo”. O médico ainda quis saber: - “Vocês dois não quiseram se alistar com o nosso Exército Imperial?”. Barata respondeu: - “Estamos cansados da guerra. Fomos voluntários em 1826 e acompanhamos D. Pedro I. Lutamos na Guerra Cisplatina. Agora queremos
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sossego. Chega de guerra, mais ainda, porque quem mais sofre são os inocentes. Não foi sobre isso que o pastor falou no enterro do menino Pedrinho Bobsin? O pastor denunciou que é o sangue de inocentes que está sendo derramado nesta guerra entre irmãos brasileiros”. O médico permaneceu em silêncio, pensativo. Enquanto isso, o grupamento que viera de Torres já saíra apressado, fazia algum tempo. Eles tinham pressa para levar as notícias para ao comandante deles. O médico em companhia de Barata e Loré e o pelotão de retaguarda finalmente também se movimentaram. Iam sem nenhuma pressa

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BRINCANDO DE REVOLUÇÃO Durante mais de trinta dias as aulas na Colônia de Três Forquilhas haviam ficado suspensas com o temor de algum confronto entre caramurus e farrapos. Finalmente no dia 20 de dezembro de 1839 o pastor decidiu que as aulas poderiam ser retomadas, na Escola da Comunidade. A ameaça do choque bélico ficara afastada, por enquanto. No enorme pátio atrás do templo, crianças começaram a chegar aos poucos, para a hora marcada para início das aulas. Os que vinham aproveitavam para brincar um pouco. Em dado momento um deles propõe: - “Vamos brincar de revolução?”. Todos acharam interessante a brincadeira e vieram correndo. Uns pegavam um pedaço de pau e diziam ser uma arma de fogo. Outros quebravam uma vara, de algum arbusto próximo e alardeavam que tinham uma espada. Foram então se dividindo entre caramurus e farrapos. A maioria foi para as fileiras imperiais. Os farrapos estavam em menor número e foram se esconder entre os arbustos próximos. Os imperiais teriam que procurá-los. Nisto seguiu para o centro do pátio o pequeno Adolfo Felipe, filho do pastor Voges gritando: - “Sou Coronel Caldwell! Vou defender Três Forquilhas! Quem me ajuda?”. - Ele ainda estava para fazer cincos anos de idade. Mas já mostrava liderança sobre os demais, pois todos o cercaram. Em instantes ele estava acompanhado por todos os meninos caramurus. E ele gritou: - “Vamos perseguir o Bento e o Davi. Vamos acabar com essa Revolução”. - Todos levantaram os paus e as varas, fazendo sinais de luta. Estavam apenas brincando de
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revolução. Como era de mentira, eles não podiam bater em ninguém. O pequeno Adolfo Felipe falava grosso porque sabia que ninguém viria enfrentá-lo de verdade. Finalmente apareceu Dona Elisabetha, esposa do pastor e ordena: - “Chega de revolução. Vamos, agora, brincar de Escola. Quem me acompanha? Façam fila aqui”. As meninas mais próximas e que não quiseram brincar de revolução, foram as primeiras a se enfileirar diante da professora. Neste instante chegou o pastor Voges que insistiu: - “Meninos. Mais ligeiro... Vocês estão perdendo para as meninas!”. - Com um pouco de alarido eles também se apressaram. Largaram os paus e as varas e entraram em fila, com rapidez. Nisto vinha chegando uma menina que lhes parecia retardatária. Ela estava em companhia da mãe. E um dos meninos gritou: - “Nós é que vencemos, pastor. Já estamos prontos e as meninas ainda tem uma que está lá, fora de fila”. Dona Elisabeth sorriu. Aproximando-se dos meninos, explicou: - “Meninos. Vocês pensam que são os mais espertos? Essa menina que chegou, é nova. Ela não irá entrar em fila. Ficará com a mãe, esperando, para falar comigo”. Os meninos fizeram outra zoeira pela decepção e responderam: - “Isso não vale, professora. A senhora está ajudando as meninas...”. Pastor Voges permaneceu por um breve momento, em silêncio, fazendo uma reflexão a respeito
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da brincadeira das crianças e concluiu: “No mundo infantil uma revolução não causa vítimas e não ocorre derramamento de sangue. Porém no mundo dos grandes, no mundo adulto, a situação muda. Não que na face da terra não houvesse possibilidades de promoverem revoluções sem derramar sangue. Com certeza é a ganância humana que causa situações limite onde uma parcela da sociedade (a reprimida) não consegue suportar por mais tempo o opressor, e então resolve fazer alguma coisa, definitiva, para mudar a situação. Em última análise não era isso também que acontecia com os Farrapos do sul do Brasil? Eles não suportaram mais a situação vigente, vendo-se oprimidos, com o total descaso da política nacional... Será que por isso essa Revolução não se fazia necessária, para que o Rio Grande do Sul obtivesse o respeito merecido?”.

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A SITUAÇÃO DA PATRULHA SERRANA O pastor decidiu aproveitar a presença de João Patrulha que estava por perto, na casa da mãe. Ele recebera alguns dias de folga. O soldado viera em companhia da esposa e, em particular, da filhinha, só para fazer a alegria da avó. A Viúva Anna Maria Menger, que na realidade não era viúva, pois que viera da Alemanha, já unida com Franz Strach. A casa dela distava aproximadamente trezentos metros da igreja, perto do local onde morara o comerciante Philipp Leonhard Niederauer, que fechara seu comércio e fora embora. João Patrulha mostrou muita alegria com a visita do pastor e disse bem alto, abrindo os braços: - “Mamãe, venha só pra ver quem veio nos visitar...”. Sentaram debaixo de uma árvore de sombra que fora deixada quando da derrubada da floresta. Teve início uma animada conversa. João Patrulha aproveitou para contar ao pastor a respeito da passagem recente do grande efetivo do Exército Farrapo. Foi explicando: “Quando ouvi a barulheira daquela tropa, ordenei aos meus homens para se esconderem no mato. Sempre estaríamos em risco de sofrer alguma violência, pois que vestimos a farda do Exército Imperial. Recebemos comunicação dos Farrapos de que a nossa patrulha seria respeitada por considerarem que nós concedemos apenas proteção para os viajantes e comerciantes que passam pela trilha da Serra. Nós não fazemos combates. Mas fica na gente o forte receio que algum dia apareça algum farrapo malvado, como foi ali no outro lado do rio, onde até mataram um colono e uma criança indefesa...”.

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Voges fez sinal de estar concordando e perguntou: - “Como foi esta história das lindas carroças que os Farrapos abandonaram ou até esconderam, ao pé da Serra”. João Patrulha explicou: - “O meu grupo estava ao pé da Serra. Existe um outro lá no alto, onde é a nossa sede da Patrulha, sob o comando do Sargento João Silístrio. Somos quatro homens cá embaixo, eu, o meu padrasto, mais o Tilo Fabrício com família e o Zeca Flor com família. Os quatro lá no alto são: nosso Sargento Silistrio, mais o José Cândido com esposa e filhos, o Tonho Cabeleira com família e o índio Esteban dos Santos, missioneiro, com família. Estávamos, tanto os cá embaixo bem como os lá no alto, todos muito bem escondidos, quando os farrapos chegaram. Nós cá embaixo, vimos tudo. Eles pararam por algum tempo e discutiram a respeito das carroças. Aí veio o Comandante deles e ordenou que escondessem todas elas, pois que não teriam trânsito pela trilha. O problema é que eles mesmos, os farrapos, fizeram o estrago em nossa trilha a uns tempos atrás, para impedir que os caramurus tivessem passagem com canhões e carretas”. A conversa continuou animada. A certa altura o pastor perguntou: - “Como andam o teu sogro, o carpinteiro Pedro Gross. Já estiveste lá embaixo, no outro lado do rio, para visitá-lo?”. - “O meu sogro trabalha muito, construindo casas de madeira e galpões. Ele cria gado e cavalos, faz charque para vender e curte couro...”. Voges aproveitou para especular um pouco mais sobre os integrantes da Patrulha Serrana.

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João passou então a contar um pouco de sua vida e perguntou ao pastor: - “O senhor sabe qual é meu nome verdadeiro? Por aí todos só me conhecem por João Patrulha!”. O pastor respondeu prontamente: - “Claro que sei o teu nome. Batizei a tua filhinha faz pouco tempo. Você é Johannes Menger, nascido em Distellsheim, na Alemanha e é um filho da viúva Ana Maria Menger. Você tem uma irmã, a Cristina, sentada ali ao lado da tua esposa”. - “O senhor sabia que a minha mãe casou de novo, lá na Alemanha?”. Anna Maria Menger que estava atenta na conversa do filho veio mais perto e corrigiu: - “Não casei, não. Nós nos juntamos e tivemos um casal de filhos”. - Dirigindose ao pastor ela explicou: - “Veja lá estão a Anna e o Miguel. Eles são nascidos na Alemanha, ela em 1820 e Miguel em 1824”. - “Onde está o seu companheiro” - quis saber Voges. - “Ele é Franz Strach, o “França Estraque”, da Patrulha. É meio católico. O senhor já o viu por aqui. Ele sempre anda fardado. Ele também é da patrulha da Serra”. O pastor se recordava que Maria Menger havia sido incluída para receber um lote de terras em Três Forquilhas, como integrante da segunda leva de colonos. Ela se fizera de esperta. Fora incluída na relação dos protestantes e conseguira, no sorteio, um ótimo terreno, no núcleo da igreja. Um núcleo que agora passava a ser disputado e valorizado.
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A viúva que não era viúva, explicou: - “O Franz Strach serviu como soldado no Baluarte Ipiranga, em Torres. Ele levou o meu filho Johannes e o apresentou ao Coronel Franz Paul. O coronel aceitou o meu Johannes, que então passou a ser preparado como soldado”. João interrompeu a mãe e explicou: - “Em 1835 quando rebentou a Revolução, eu já tinha vinte e quatro anos. Fui enviado, com o meu padrasto para ficarmos sob o comando do Sargento João Silistrio, integrando a patrulha da trilha da Serra de Três Forquilhas”. Conforme já falamos, a missão desta patrulha consistia em acompanhar e dar segurança aos viajantes que tivessem que transitar por aquela trilha da Serra. Não se tratava de ação contra os farroupilhas. Estes também respeitavam esse grupo de homens, como um valioso instrumento de proteção para todos os patrícios desprotegidos que se viam obrigados a fazer uma viagem por aquela área. Esta foi a forma encontrada por Paula Soares, para manter as atividades comerciais, no transporte de produtos coloniais e aquisição de produtos essenciais para a vida dos colonos de Três Forquilhas, da Colônia São Pedro e da Vila de Torres. O transporte mais comum era de pólvora, sal, tecidos e medicamentos, os quais atraíam mais a cobiça dos ladrões”. Esta conversa do pastor com João Patrulha aconteceu na segunda quinzena do mês de dezembro de 1839, quando da passagem do efetivo de General Canabarro e posterior chegada de Coronel Caldwell. Já fazia quatro anos que João Patrulha e seu grupamento ali atuavam. O pastor dirigiu a conversa para descobrir mais um pouco sobre a família de João Patrulha. Ele perguntou: - “Então faz mais ou menos um ano que você
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convidou a Maria companheira?”.

Catharina

Gross

para

ser

tua

- “Sim. Eu estava cansado de viver sozinho. A maioria dos meus companheiros tinha levado a família e podiam ter um rancho próprio. Eu era solteiro e morava com o meu padrasto, no rancho dele. Certo dia passando aqui pela Colônia conheci a filha do Gross, a Maria Catharina. No ano passado, criei coragem e a convidei para que ela me acompanhasse. Eu também queria ter o meu rancho próprio, naquele platô, no início da Serra”. - “E o sogro e a sogra Gross, deixaram a moça partir?” - perguntou Voges. - “Eles não colocaram dificuldades. Deixaram sim a filha partir comigo...”. Conforme já foi mencionado João Patrulha e Maria Catharina não casaram. A moça simplesmente acompanhou esse soldado, para ser a sua companheira. Cada soldado construía o seu próprio rancho, particularmente quando tinha uma companheira e filhos. Devia ser deprimente ficar sozinho naquela solidão, mês após mês e ano após ano. Pastor Voges foi recordando quando em 1839 nascera a primeira filha de João Patrulha. Este viera procurá-lo. Desejava acertar o batismo da pequena. Aí teve que dar um conselho: - “Johannes. Por que não aproveitas o dia do batismo para logo casar e colocar a união em ordem, conforme a vontade de Deus”. João Patrulha resistira: - “Quero deixar o casamento para mais tarde, quando esta Revolução
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acabar. Prometi fazer uma linda festa para ela e familiares dela e para todos os meus familiares”. A insistência do pastor não dera resultados. João Patrulha manteve-se resoluto, para deixar o casamento para após a Revolução. Por este motivo, o pastor, ao se despedir, aproveitou mais esta oportunidade para orientar este membro da Comunidade. Ao dar a mão, falou: - “Tomara que a Revolução acabe logo. Tenho certeza que terei diversos casamentos para oficiar, desde o de João Patrulha, mais da mãe dele com o soldado João Strach. Existe mais alguém aqui, em condições de receber a benção do matrimônio?”. Todos riram. O pastor saiu a pé, caminhando até a igreja.

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UMA AÇÃO DE GRAÇAS NATALINA No dia 25 de dezembro de 1839, em pleno dia de Natal, festejado por toda a cristandade no mundo, pastor Voges decidiu também realizar um encontro comunitário, que ele denominou de “Uma ação de graças natalina”. Pela manhã, oficiou um culto solene, na igreja, para as famílias. Iniciou, explicando o motivo para a realização da programação: - “Precisamos aproveitar este momento de relativa tranqüilidade para reorganizarmos as nossas vidas, a nossa Comunidade e para avaliar a situação da nossa Colônia. Parece que neste momento a Revolução entrou numa calmaria... Tomara que o conflito encontre logo um final. Farei este culto e depois o Comandante Schmitt continuará com uma reunião com todos os membros da nossa Comunidade de Fé. Ao meio dia teremos um almoço natalino, para as famílias que se inscreveram e que ajudaram nos preparativos. Será um almoço para recordar com gratidão, o nosso primeiro Natal, que aqui conseguimos comemorar em 1826, com nosso pequeno grupo de pioneiros, mais os soldados que, naquela época, nos acompanhavam. Não podemos nos esquecer dos índios que estavam conosco e que nos presentearam com a construção das nossas primeiras choupanas. À tarde o Comandante Schmitt fará uma reunião com todos os habitantes da Colônia que atenderam o nosso convite”. O templo estava lotado. Vozes de satisfação por reencontros, com abraços e demonstrações de alegria, ecoavam pelo recinto. Famílias de todos os núcleos estavam ali. Dona Elisabeth Voges contara com a ajuda de seu grupo de senhoras. Haviam enfeitado a igreja. com ramos de “ripeira”. Sobre o altar estavam colocadas flores silvestres. O cenário era festivo e acolhedor. As crianças, principalmente os alunos da escola comunitária,
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corriam pelo corredor, fazendo zoeira. As mães tentavam acalmá-los, em vão. Somente quando o pastor retomou a palavra, o silêncio também retornou ao recinto. Voges convidou os alunos para que sentassem sobre o assoalho, junto dele, em torno do altar. Outras crianças menores também se aproximaram, procurando a companhia de algum irmão ou irmã que ali estivessem sentados. O pastor os queria, todos, ali, para abençoá-los no final do culto, com a imposição das suas mãos sobre cada um. O pastor desenvolveu a liturgia natalina, de praxe. Leu em seguida, o texto do Evangelho de João, 3, 16: “Tanto amou Deus ao mundo que deu o Seu Filho Unigênito para que todo o que n’Ele crê não pereça mas tenha a vida eterna”. - Em seu sermão enfocou: - “A dádiva do amor divino, veio ao mundo, para habitar com todas as famílias da terra. Um amor que parece ter sumido em meio aos conflitos entre irmãos brasileiros, que se combatem de modo tão feroz, causando vítimas por toda parte... Causando dor, luto e muito pranto. Mas tudo isso terá o seu final. Olhemos em frente, com esperança, acreditando que o entendimento e o respeito entre as famílias irão vencer. Todos precisam abrir os seus corações para o amor. O amor que quer morar em nosso meio. Amor que significa respeito e consideração pelos que são fracos e os que mais padecem diante do choque dos que se consideram fortes. Vamos nesta manhã receber o amor também em nossas famílias, em nossos corações, para termos o Natal que Deus preparou para a humanidade”. O hino que mais animou os presentes foi o costumeiro, cantado na época de Natal: “Eu venho a vós dos altos céus...” Diversas mulheres, particularmente as mais idosas não se contiveram. Caíram em pranto e com
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lágrimas, recordando do primeiro culto de natal que elas haviam vivenciado. O pastor intercedeu em favor dos dois exércitos em conflito, os caramurus e os farrapos, pedindo que Deus concedesse a eles disposição para buscar um entendimento, e colocar um fim ao derramamento de sangue. Chamou então os familiares enlutados, as famílias Bobsin e Sparremberger, para a fixação de duas coroas fúnebres, na parede do templo, contendo o nome dessas duas vítimas da Revolução. Após o culto as crianças, os jovens e as mulheres foram liberados. O recinto ficou exclusivamente para os chefes de família. Comandante Schmitt foi até uma mesa e falou: - “No meu cargo de Dirigente da Comunidade, assumo a condução da reunião. Peço que o meu protocolista8, o pastor Voges registre as nossas decisões. Quero também a presença do nosso caixa de finanças, o senhor Johann Peter Jacoby”. Pastor Voges pediu a palavra e corrigiu: - “Bruder Schmitt, eu acredito que sou um escrevente e não um protocolista”. Muitos dos presentes riram. A maioria riu, sem saber direito o que poderia ser um escrevente e muito menos o que fazia um protocolista. Comandante Schmitt sorriu e falou: - “Quero que o senhor escreva, como sempre, o que aqui vamos tratar e decidir. Faz tanto tempo que não mais fizemos reuniões que até já esqueci quais os cargos que temos em nossa Comunidade”. O pastor pegou algumas folhas de papel, um tinteiro e a sua pena.

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Peter Schmitt continuou: - “Quero tratar hoje alguns assuntos que são necessários para o progresso da nossa igreja. O primeiro problema que deve preocupar a todos é que, em virtude desta revolução, a nossa nova igreja de pedra, ficou parada no fundamento. Na Colônia, nós não temos nenhum mestre pedreiro e nem mestre de cantaria para conduzir a obra. A falta de pedreiro nos deixou mal desde o início da Colônia. Nossas casas tiveram que ser construídas de pau-a-pique”. Pastor Voges pediu a palavra e propôs: - “Colocome à disposição para procurar um mestre pedreiro em Porto Alegre ou então em São Leopoldo, assim que a revolução acabar”. Todos aceitaram a proposta. Diversos colonos se pronunciaram dizendo também terem interesse na vinda de um mestre pedreiro, para terem a possibilidade de construir uma casa nova, todos dando preferência ao estilo enxaimel. Comandante Schmitt apresentou então o segundo assunto, referente aos apoiadores de cada núcleo, para auxiliarem nos serviços da Comunidade. O colono Philipp Knewitz, pediu para ser integrado aos apoiadores do núcleo sudeste, onde ele passara a residir. Knewitz era cunhado de Johann Nicolaus Mittmann. Karl Kellermann pediu a palavra e falou: - “Eu e meus vizinhos somos moradores novos da Colônia. É o Friedrich Strassburg, mais o Johann Dahl e eu. Estivemos conversando e decidimos formar um trio de apoiadores, da nossa área, que fica entre a igreja e a sede administrativa. É permitido?”. Comandante Schmitt sorriu e explicou: - “Os apoiadores sempre serão bem vindos, independente da área onde moram. Nós convidamos, a princípio, apenas dois, para liderar cada núcleo no apoio para os trabalhos
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que se fazem necessários, seja para a construção da igreja, ou seja, nos assuntos do interesse da nossa Colônia. Claro que vocês três são bem vindos e podem se integrar com os apoiadores da sede, onde eu moro”. Levantou-se o moleiro Christian Mauer, regente do grupo de canto da Comunidade. Ele falou: - “Todos gostam quando nos cultos, em enterros ou nos casamentos, podemos estar presentes para cantar e animar o povo. Porém preciso alertar que somos poucos. Aproveito para convidar casais, para se unirem ao nosso grupo de canto. Nossos encontros de ensaio acontecem quinzenalmente, nos domingos à tarde, aqui na nossa igreja”. Comandante Schmitt falou: - “Os assuntos que tenho para serem tratados sãos estes. As demais questões serão, deixadas para hoje à tarde, uma vez que se referem a uma avaliação da nossa Colônia. Caso alguém ainda queira tratar de algum assunto que diz respeito ao trabalho religioso em nossa comunidade, pode falar agora. Pois em seguida teremos uma pausa para o nosso almoço natalino, aqui mesmo, na igreja. Nicolaus Mittmann levantou-se e pediu a palavra. Ele disse: - “Tenho uma solicitação a ser feita”. Pastor Voges olhou para o seu auxiliar, com um leve olhar de constrangimento. Temia as intervenções de Mittmann, principalmente que ele pudesse vir a abordar publicamente alguma questão mais delicada, de disciplina eclesiástica, como era o caso da troca de esposas, que fora feita por dois colonos, há sete anos.

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Figura 7 – Dirigentes da Comunidade Evangélica de São Pedro de Alcântara das Três Forquilhas. Fonte: Arquivo da Família Voges Dirigente: Felipe Pedro Schmitt Secretário: Pastor Carlos Leopoldo Voges Tesoureiro: João Pedro Jacoby Sênior Grupo de Apoiadores (auxiliares): Noroeste: João Bobsin e João Maschmann. Igreja: Carlos Klein e Henrique Becker. Sudeste: Paul König e Valentim Justin Sul: Martim Schneider e Gaspar Dresbach Coral: Cristiano Mauer (regente) Cemitério: João Sparremberger e Carlos Witt Escola da Comunidade: professora Elisabetha Diefenthaeler Voges Pastor: Carlos Leopoldo Voges Auxiliar: João Nicolau Mittmann
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Mittmann, porém devia saber muito bem de seu papel de colaborador eclesiástico. O assunto que ele levantou, deixou o pastor aliviado e tranqüilo. Mittmann disse: - “O que tenho para reclamar não é nada grave. Só quero explicar que não gostei dessa história da disputa no pauzinho, que o pessoal está espalhando pela Colônia. Nunca aconteceu nada disso. Nunca pretendi ser o pastor da Comunidade. Existem serviços que eu nunca me dispus a realizar, como casamentos, por exemplo. Até hoje, nunca oficiei uma benção matrimonial, mesmo nos dois anos que o pastor foi para Campo Bom e São Leopoldo. Apenas servi de auxiliar, para enterros e batismos. Os cultos também não são do meu papel, pois todos sabem que não recebi o dom da oratória”. Comandante Schmitt sorriu de modo amistoso e explicou: - “Bruder Mittmann. Essa história da disputa no pauzinho é apenas um sinal do quanto às pessoas confiam na sua ajuda e presença na nossa Comunidade. Não existe nenhuma maldade nesta anedota que alguém inventou...”. Karl Kellermann levantou-se e quis saber: - “Mas que anedota é esta que ainda não ouvi? Que disputa no pauzinho foi esta? Nós novatos, o Strassburg, o Dahl e eu estamos aqui querendo entender a conversa, mas não conseguimos. Alguém pode explicar isso melhor?”. O colono Brusch também se levantou e falou: - “A minha turma de colonos, neste nosso cantinho, o Triesch, o Führ e eu, também somos novos na Colônia e nunca ouvimos nada sobre essa anedota. Alguém brigou com o nosso amigo Mittmann?”. Comandante Schmitt sorriu e tranqüilizou os dois grupos de novatos e falou: - “Bruder Mittmann. Peço que
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o senhor explique essa história da disputa no pauzinho, para estes que nada ainda sabem, dessa anedota”. Quem agora ficou constrangido foi Nicolaus Mittmann. Ele respondeu: - “Não. Eu não sei contar essa anedota. Aliás, eu não sei contar nenhuma anedota. Que fale aquele que a inventou... Que fale o Valentim, meu cunhado, pois sei que partiu dele essa história”. Valentim Justin deu uma gostosa gargalhada. Levantou-se, abriu o peito e se pôs a falar: - “É verdade. Eu inventei essa anedota. Era apenas para mexer com o meu estimado cunhado. Como eu sabia que ele às vezes é sério demais, em alguns assuntos da nossa igreja, inventei essa história, só para animá-lo um pouco. Era para ele rir conosco, para ele se alegrar conosco, pois todos nós damos muito valor para o bom serviço que ele desempenhou, durante a ausência do pastor, lá por volta de 1831 a 1833”. Friedrich Strassburg interveio: - “Agora que o Mittmann levantou a lebre sobre essa disputa do pauzinho, queremos saber mais. Por favor, Justin, conta logo de vez, essa anedota”. Valentin Justin levantou-se novamente e finalmente apresentou a anedota, com aquele seu jeito peculiar e jocoso de animar algum encontro ou reunião. Ele falou: - “O fato ocorreu lá por volta do ano de 1833. O pastor Voges havia se ausentado e aqui apareceu só poucas vezes, em rápidas visitas. O pastor havia deixado o meu cunhado, responsável para fazer os batismos e realizar os enterros, que se fizessem necessários. O meu cunhado, o nosso querido “Bibelmann” se saiu muito bem. Não deixou de batizar as crianças que precisavam de batismo e não deixou de enterrar quem precisasse ser enterrado”.
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Mittmann sorriu e mostrou satisfação com esse floreio de palavras do seu cunhado. Valentim Justin continuou: - “Quando Voges voltou e disse: < aqui estou. Agora eu serei o pastor >, o Mittmann não gostou. Ele se acostumara com o trabalho de ser um pastor. Estavam ali, os dois frente a frente. O Voges querendo o pastorado de volta. O meu cunhado Mittmann, não queria entregar o cargo, de jeito nenhum...”. Mittmann levantou-se e reclamou: - “Ouviram isso. É mentira dele. Eu não pretendi, jamais, ser o pastor de Três Forquilhas”. O Comandante Schmitt interveio: - “Isso faz parte da anedota. Todos sabemos que o Justin enfeitou a história, para deixá-la bem interessante”. Brusch levantou-se e pediu: - “Poderiam fazer o favor de deixar que a anedota seja concluída?”. Valentim Justin continuou a falar: - “Quando Voges e Mittmann estavam nessa lenga-lenga, cada um querendo ser o pastor, veio o Comandante Schmitt. Ele sempre teve e até hoje sempre encontra uma saída, até mesmo para os problemas mais difíceis. O Comandante Schmitt foi até um arbusto, quebrou dois pedacinhos de pau, um mais comprido e o outro menor. E então explicou: < vamos já decidir quem de vocês dois será o nosso pastor. Venham os dois aqui, diante de mim. Na minha mão tenho dois pauzinhos. Aquele que puxar o maior será o nosso pastor” >. A gargalhada que ecoou pelo recinto da igreja, foi unânime. Alguém reclamou: - “Conte logo. Como acabou a história?”.
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Valentim Justin falou: - “Será que preciso contar como terminou essa história? Quem é o pastor aqui? É o Voges. Ele, cheio de sorte, como sempre, deixou o Mittmann puxar primeiro. E o Mittmann, bem naquele jeito que ele tem, eufórico puxou, e levantou o pauzinho dele. Oh, como era pequenino. Só que ele nem olhou para ver. Já foi dizendo: < ganhei... >.”. Outra gargalhada sonora, de muitos, em uníssono ecoou pela igreja. E Justin completou: - “Voges foi lá e puxou o outro pauzinho. Era enorme. Não precisou mais dizer coisa alguma. E assim resolveu-se essa complicada disputa, na nossa Colônia, para finalmente sabermos quem é o pastor aqui”.

FIGURA 8 – Voges e Mittmann na disputa do pauzinho. Fonte: Gravura de Elio Müller. Ano 1970.

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Mittmann estava agora sorrindo. Tudo indicava que ele desejava ser lembrado pelo Comandante e pela Comunidade. Realmente, havia faltado uma referência ao papel que ele, com tanto zelo, exercera e ainda desempenhava, nas eventuais substituições ao pastor. Da mesma forma, também não fora mencionada Elisabeth Voges, a professora da Escola da Comunidade. Na verdade, o ensino, de modo mais regular, somente passara a ocorrer com a chegada dela, já que o pastor viajava muito e ficava envolvido com inúmeras questões eclesiásticas e administrativas. A reunião foi interrompida, para dar espaço para o almoço de confraternização natalina, da Comunidade. O pastor comunicou: - “Teremos agora a nossa refeição comunitária. À tarde voltaremos a nos reunir. As mulheres ocuparão o espaço do templo. Nós iremos até o bosque, nos fundos de minha casa”. Voges rindo concluiu: - “Iremos realizar o encontro da clareira. Afinal, o dia está lindo e agradável e sem nenhum sinal de chuva”.

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O ENCONTRO DA CLAREIRA Durante o Encontro na Clareira foram tratados os seguintes assuntos, considerados de grande importância para a vida administrativa da Colônia e para a organização da Comunidade Evangélica. 1 – Famílias que saíram da Colônia, desde 1827: Dezessete famílias da Colônia de Três Forquilhas abandonaram os seus lotes de terra desde o início da colonização. 2 – Famílias novas que chegaram desde 1827: Dezesseis famílias chegaram após o ano de 1827. Em 1828 chegaram Johann Maschmann e Philipp Knewitz (cunhado de Johann Nikolaus Mitmann). Em 1830 chegaram Karl Klein (que adquiriu o lote de Philipp Peter Petersen, ao lado da igreja). Em 1833 chegaram Johann Dresbach, Casper Dresbach, Christian Friedrich Kraemer e Karl Hammer. Após 1835 chegaram Heinrich Wilhelm Brusch, Karl Kellermann, Friedrich Strassburg, Heinrich Georg Triesch, Karl Führ, Johann Teisinger, Johann Dahl, Heinrich Gehrmann e Johann Schwartzhaupt. 3 - Inclusão do nome de Christian Mauer como auxiliar do pastor, para serviços de emergência. Pastor Voges propôs que o moleiro Christian Mauer fosse designado, ao lado de Johann Nikolaus Mittmann, para servir de auxiliar na prestação de eventuais serviços de emergência, tais como batismos e enterros, na Comunidade. A mesma foi aprovada por unanimidade.
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4 - O medo dos índios. Os índios ficavam cruzando pelos fundos das propriedades, na trilha que seguia ao pé do morro, rente à floresta, de Três Pinheiros até a área das Pacovas, seguindo pela área das Limeiras e desembocando na área de caça dos índios, na Pedra Branca. Os índios já transitavam por ali, desde bem antes da chegada dos colonos. Porém, os moradores de Três Forquilhas, agora começavam a criar obstáculos. Não queriam mais que os índios transitassem pelas propriedades. Colonos vindos recentemente trouxeram histórias tristes, de casos ocorridos no interior de São Leopoldo com relatos, dando conta sobre o roubo de crianças e da destruição de casas e lavouras de colonos. Na Colônia de Três Forquilhas não houvera, desde 1826 nenhum caso de violência. Apenas relatos sobre bugres que colheram milho em lavouras dos colonos, assim como os colonos haviam passado a colher o pinhão, as pacovas e limas, dos índios. Afinal, o índio sempre coletara da natureza, os frutos e a caça que esta oferecia prodigamente. Surgiu, no entanto, um clima de mal estar entre índios e colonos. Os índios se mostravam contrariados quando eram impedidos de coletar algumas espigas de milho. Assumiam gestos hostis, quando alguém tentava impedi-los, mais ainda de querer impedi-los de seguir pela trilha, pelos fundos das propriedades dos colonos, que afinal sempre lhes pertencera. Os colonos, vendo os índios andando com arcos, flechas e facões, não saíam mais de casa sem levar a espingarda a tiracolo”. 5 – Os colonos alemães elevados a cidadãos riograndenses. Comandante Schmitt explicou aos presentes que a cidadania brasileira
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sempre fora uma grande esperança acalentada pelos imigrantes alemães, desde 1824, desde o começo da colonização. Esta fora uma promessa do Governo Imperial. Schmitt leu então o Decreto baixado por ordem de Bento Gonçalves, redigido nos seguintes termos: Piratiní, 18 de Dezembro de 1838 - Terceiro da Independência e da República Rio-grandense. Tomando na mais séria consideração os relevantes serviços prestados pelos Colonos de São Leopoldo, e das Três Forquilhas na presente luta de nossa Independência política. E, outrossim, a necessidade de empregar o que mais se tem distinguido no Exército, e nas diferentes Comissões, de que tem sido encarregados, como Cidadãos da República, o que de muito solicitam os referidos Colonos, bem como aqueles estrangeiros, que a semelhança destes têm servido no Exército, Marinha e Comissões diversas: o Presidente do Estado, depois de ouvir o Conselho de Ministros Decreta: Art. 1°. Os Colonos de São Leopoldo e Três Forquilhas, desde já são considerados Cidadãos da República, e como tais no gozo de todos os direitos civis, e políticos a estes concedidos. Art. 2°. São igualmente Cidadãos da República, e considerados na fruição daqueles mesmos direitos todos os estrangeiros, que têm trabalhado, e passam para o diante trabalhar na defesa da Liberdade, independência, e prosperidade deste País, provando: § 1°. Constância, e permanência continuada por mais de um ano no serviço do Exército, Marinha, ou Comissões diversas. § 2°. Terem definitivamente fixado sua residência no Estado. § 3°. Terem introduzido objetos bélicos para munição, e aparelho de Exército, e um gênero de indústria qualquer. § 4°. Terem no
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Estado o Capital de quatro contos de reis em estabelecimento industrial ou comercial, ou neles exerça alguma profissão útil, ou viva honestamente de seu trabalho. § 5°. Terem casado com Cidadão Rio-Grandense, ou adaptado a um Rio-Grandense de qualquer dos sexos, § 6°. Terem os conhecimentos indispensáveis para serem admitidos ao Magistério das Universidades, Licêos, Academias, ou Cursos Jurídicos do Estado. Art. 3°. Para as provas exigidas no Artigo anterior são suficientes justificações produzidas perante os Juízes Municipais do Termo, e julgadas pelo Juiz de Direito da Comarca, onde elas tiverem origem, Art. 4° Ficam revogadas as Leis, e disposições em contrário. Domingos José de Almeida, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Fazenda, interinamente encarregado do expediente dos da Justiça o tenha assim entendido, e faça executar com os despachos necessários. Bento Gonçalves da Silva - Domingos José de Almeida - Registre-se, imprima-se, e publique-se. Secretaria era ut supra Almeida. Registrado no Livro 1° dos Decretos. Era ut supra – No impedimento do Oficial Maior, o Escriturário Miguel José de Campos Junior". (DECRETO DE BENTO GONÇALVES, DECLARANDO OS ALEMÃES, CIDADÃOS RIO-GRANDENSES. Jornal "O Povo" N°32, 1838, 19 de dezembro de 1838). 6 - Colonos de Três Forquilhas integrados no Exército Farroupilha. Johann Bobsin aproveitou o momento dessa reunião para informar que Barata e Loré haviam passado pela Colônia, rumo a Serra. Ocorreu uma reação da parte de Johann Nikolaus Mittmann: - “O Eberhardt teve a coragem de
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passar por aqui depois da barbaridade que eles cometeram contra os Sparremberger e os Bobsin, no núcleo nordeste? Ele devia ser proibido de pisar em nossa Colônia”. Bobsin reagiu - “Quem vos fala é alguém que perdeu um filho, morto por alguns farrapos desclassificados. Mas o Eberhardt não teve nenhuma culpa pelo ocorrido, pois tenho certeza que até nos teria defendido caso estivesse aqui. Creio que ele tem todo o direito de retornar à propriedade dele, quando bem entender e mais ainda, quando terminar a Revolução.”. Mittmann insistiu: - “Creio que ele não deve mais pisar aqui... Vamos votar esta questão?”. - Comandante Schmitt interveio, avisando que isto não era assunto para ser decidido no voto. Explicou que Michel Eberhardt estava em situação privilegiada no Exército dos Farrapos, Integrado à Cavalaria do próprio General Bento Gonçalves. Isto era muito bom para a Colônia de Três Forquilhas, para ser considerada e respeitada pelos Farroupilhas. Eberhardt teria assegurada a posse de sua terra, independente dessa posição política, pois, afinal de contas, muitos outros colonos de Três Forquilhas não eram também farrapos? Apenas não tinham a coragem de Miguel Barata, de assumir uma posição de modo público e notório, quem sabe, com medo de represálias. O lote de terra do Eberhardt se situava a aproximadamente trezentos metros da igreja, rumo ao norte. Quem cuidava da propriedade era o colono Henrique Geb, sogro do Barata, que estava ali sentado, apenas escutando, em silêncio. 7 – A passagem de Coronel John Caldwell pela Colônia. O Comandante Schmitt relatou a respeito da breve estada de Coronel Caldwell no vale do Rio Três Forquilhas. Fez os
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seguintes destaques: a) – Coronel John Caldwell trouxe apoio num momento muito difícil para a Colônia, no dia em que oito soldados farrapos desgarrados causaram uma tragédia e foram mortos pelos colonos. b) – Coronel Caldwell proporcionou atendimento médico para pessoas doentes da Colônia e adquiriu produtos agrícolas, pagos com moeda. c) – Coronel Caldwell doou duas carroças, uma para o pastor Voges e outra para o administrador local. Diante disto faz o registro como sinal de gratidão ao ilustre militar, pelo socorro prestado à Colônia. COLONOS DE TRÊS FORQUILHAS, MORTOS PELOS FARROUPILHAS

1 – Georg Sparremberger, morto em sua propriedade, na Colônia de Três Forquilhas, em novembro de 1839. 2 – Heinrich Peter Müller, ferreiro, que se alistou no Exército Imperial, foi morto em combate, em Lomba Grande, em 26.06.1836. 3 – Peter Friedrich Wilhelm Bobsin, morto diante do pai, em sua propriedade, na Colônia de Três Forquilhas em novembro de 1839. Estava para fazer 11 anos. 4 – Johann Diefenbach, sogro de Johann Jost Sparremberger, feito prisioneiro na região de São Leopoldo, e depois degolado, em 10.07.1836.

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QUEM FOI CORONEL CALDWELL?

Coronel Caldwell ou João Frederico Caldwell, tinha a mesma idade do pastor Voges. Seus cabelos eram levemente avermelhados, puxando mais para o castanho. A informação mais remota que Coronel Caldwell possuía a respeito de suas origens davam conta que os seus antepassados haviam saído de um lugarejo das proximidades de Glasgow. Eram dedicados à vida pública. Um seu antepassado, de nome John Caldwell, fora membro do Parlamento Escocês, um Laird9. Outros foram militares, que chegaram a ocupar altos postos na hierarquia militar, como súditos do Reino Britãnico, e vinculados à Igreja Anglicana. Entre estes constava o seu pai, o general Frederick Caldwell, que, já antes de 1800, se colocara à serviço da Coroa Portuguesa, passando porém a esconder os seus vínculos evangélicos. Portanto, o Coronel João Frederico Caldwell, do Exército Imperial do Brasil, era de uma estirpe de militares de valor. Ele assentara praça Cavalaria, no Rio de Janeiro. no 1° Regimento de

Em 1817, foi enviado para combater a Revolução Pernambucana. Retorrnou ao Rio de Janeiro, no mesmo ano. Em 1821 foi promovido a capitão e novamente enviado a Pernambuco para sufocar a Revolução Republicana. No ano seguinte, após breve passagem pela corte, partiu para o Rio Grande do Sul, para onde já havia ido o 1° Regimento de Cavalaria. Participou de
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combates na Guerra Cisplatina. Serviu sob o comando de Bento Gonçalves da Silva, sendo por este elogiado. Finda a Guerra Cisplatina ele retornou à corte, no Rio de Janeiro. Em 1834, já no posto de major, retornou ao Rio Grande do Sul, com a sua familia. Pelo fato de ter servido sob as ordens de Bento Gonçalves, por ocasião da Guerra Cisplatina, ficou sob a suspeição dos Regentes. Atuou, por breve tempo, como comerciante, em Porto Alegre. Ao romper a Revolução Farroupilha, ao não aderir aos Farrapos, ele foi convocado pelo Governo Imperial para acompanhar, em viagem à corte, o presidente da província Antônio Rodrigues Fernandes Braga, deposto pelos Farrapos. Em 1836 já no posto de Tenente Coronel foi novamente enviado ao Rio Grande do Sul recebendo o Comando Militar de Rio Grande. Participou da Batalha de Seival onde foi ferido na mão direita e feito prisioneiro. Ele perdeu a mão ferida. Conseguiu escapar do campo de prisioneiros. Caldwell passou uma temporada na corte para tratamento de saúde. Retornou ao Rio Grande do Sul e em novembro de 1839, combateu a tropa do General Canabarro expulsando-o da área de Torres. Com sucesso fechou a retaguarda dos Farrapos, ao pé da Serra do Pinto, no vale do rio Três Forquilhas, impedindo aos Farrapos um retorno para o Litoral Norte. A presença do Coronel João Frederico Caldwell em Três Forquilhas foi de grande importância, num dos momentos mais difícieis vividos pelos colonos alemães, ali radicados.
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Caldwell era um homem calejado em combates, maneta, mas muito experiente, soube captar a confiança da Comunidade Alemã Protestante de Três Forquilhas. Caldwell era um militar vivido com livre trânsito na Côrte, apresentando uma afinidade secreta com os protestantes. Ele tinha à disposição recursos e meios, para fazer um trabalho de alcance social. Ajudou aqueles colonos deprimidos, num dos momentos mais adversos. Ele os ajudou a levantar a cabeça, para novamente lutar e acreditar que a construção de um mundo melhor era possível. Coronel Caldwell concentrou especial atenção na pessoa de Carlos Leopoldo Voges, pastor de Três Forquilhas. Viu no pastor um líder, capaz de conduzir aquele povo. Não escondia a sua admiração pelo pastor. Um pastor que escolhera uma região tão remota e tão isolada do progresso, e se mostrava disposto a tudo, para ajudar estes colonos, na prestação da tão necessária assistência espiritual. Já somente o fato de permitir que Voges transitasse como intérprete, ao lado do médico da tropa, para o contato com os colonos, foi decisivo para firmar definitivamente a liderança do pastor, na Colônia. Ainda mais que o médico foi de casa em casa, levando orientação e medicação, para os enfermos. Além disso Caldwell ordenou que o seu oficial administrativo, com diversas carroças e militares, fôsse a todos os nucleos de moradores, em companhia do pastor. Certamente havia a necessidade de um intérprete. O fato de ser realizada a aquisição de produtos agrícolas com pagamento em moeda, foi de um efeito altamente positivo. Possivelmente nesta hora pastor Voges foi despertado para assumir um papel de
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intermediário dos colonos, para a comercialização dos produtos. Afinal Coronel Caldwell também chegara a trabalhar como comerciante por breves anos e entendia do ramo. De uma forma subliminar conseguiu influenciar o pastor, a também atuar nesta área de atividades. Orientou também o pastor para buscar a mão de obra de negros (na época escravos), mas com capacitação para talhar pedras, para ,assumirem o trabalho que os colonos alemães não se propunham a realizar. Seria somente ao final da Revolução Farroupilha, que o pastor haveria de assumir plenamente o vazio deixado pelos Irmãos Niederauer, no Nucleo da Igreja. Voges passou a levar produtos dos colonos em suas viagens a São Leopoldo e Porto Alegre e também passou a trazer encomendas que lhe faziam, de artigos que não estavam à venda na Colônia A breve estada de Coronel João Frederico Caldwell no vale do rio Três Forquilhas foi de elevada importância para a Colônia.. Ele é merecedor do nosso reconhecimento. O seu nome deve ser registrado, ao lado do Coronel Francisco de Paula Soares Gusmão e do Coronel João Niederauer Sobrinho, entre os militares de escol, que deixaram suas marcas no meio do povo da Colônia de São Pedro de Alcântara das Três Forquilhas. João Frederico Caldwell, no final de sua carreira militar chegou a ocupar o cargo de Ministro da Guerra, entre 29 de setembro e 10 de novembro de 1870, no posto de Marechal do Exército. (Fonte Bibliográfica: Silva, Alfredo P. M. Os Generais do Exército Brasileiro, 1822 a 1889, M. Orosco & Co, Rio de janeiro, 1906, vol. 1, página 949).

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CONCLUSÃO TRAGÉDIA E COMÉDIA, LÁGRIMAS E RISOS Sangue de Inocentes mostra que, onde há personagens em meio aos conflitos de uma guerra, a tragédia se faz inevitável. Surgem personagens que se enganam sobre atitudes que lhes foram atribuídas. Homens que se equivocam a respeito do fim que os espera. São personagens, que em seus caminhos deixam um rastro de sangue e de lágrimas, para pessoas que absolutamente nada deveriam ter, ou a ver, com a briga deles. Em meio a esta mesma tragédia, no entanto, surgem também personagens que sabem revelar suas grandes virtudes. Homens e mulheres que demonstram uma inteligência superior, uma elegância, que é a manifestação da nobreza de espírito. Há uma concordância, uma convergência harmoniosa em vista de atos e de palavras, que nos sugerem: sempre ainda pode ser buscado o domínio do sujeito sobre os danos e sobre estragos, que são encontrados em cada trágica situação. Sangue de Inocentes revela, não apenas tragédias ou lágrimas. Revela também que a vida segue em frente... Revela que o riso tende a retornar ao rosto antes anuviado pela dor, para que a comédia receba, de novo, o lugar que a ela pertence. Tragédia e comédia, lágrimas e risos, se entrecruzam no dia a dia das pessoas, dos povos e do mundo todo e, também nesta obra literária.
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Dizia Charles Chaplin: “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”. E Chaplin insistia, revelando a sua grande veia de comediante, mas também de alguém que soube observar, com grande sensibilidade, a vida dos seus semelhantes: “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”. “O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela” - escreveu Fernando Pessoa. Li, também, um dia destes em algum lugar, que a vida de uma pessoa pode ser vista de várias maneiras: com os olhos, com a mente, com a intuição. Mas que a vida só é verdadeiramente conhecida por aqueles que falam e ouvem a linguagem do coração. Constatei isso, e acredito que todas as vidas têm um significado... Mesmo aquelas vidas que tiveram uma breve existência ou então aquelas que apenas por breve tempo conviveram conosco... Por isto importa que aprendamos a ver e ouvir de uma forma nova e diferente. Eu, também tive que aprender isso, para conseguir escrever estes sete volumes que compõe a Coleção Memórias da Figueira. Tive que aprender a enxergar cada personagem diante das múltiplas facetas da vida. Elas, as facetas da vida, podem estar escondidas... Às vezes vem em uma roupagem muito simples e comum, ou mesmo até em meio de situações de brutalidade ou insensibilidade, onde tudo parece estar ruindo sob os pés de uma família ou de
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uma coletividade maior. Outras vezes podem chegar em meio a atos e gestos bem pensados, de pessoas que observam, de pessoas que sentem e notam todo o drama, que notam a dor dos seus semelhantes e agem para modificar o rumo das coisas. Felizmente ainda existem pessoas que se dispõe a socorrerem, prontas para ajudar, e aliviar as dores produzidas por uma sociedade convulsionada pela violência. Por que seria tão importante, aprendermos a ver e a ouvir a linguagem, que vem do coração? Porque somente ela é capaz de alcançar, com mais intensidade, os corações da nossa gente. Eis aqui descrito o meu objetivo, ao reunir os diálogos dos diferentes personagens que esta coleção das “Memórias da Figueira” deseja revelar aos leitores. O objetivo é de alcançar não apenas a mente, mas de também tocar o coração dos leitores. Para finalizar quero deixar uma homenagem ao grande poeta Mário Quintana com suas tocantes palavras em A Idade de Ser Feliz. A IDADE DE SER FELIZ Mário Quintana Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
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Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa.

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NOTAS EXPLICATIVAS (1) Página 11 - GENERAL CANABARRO: Davi José Martins Coelho, era o seu nome de batismo. Nasceu a 22.08.1776 em Taquari – RS, filho de José Martins Coelho e de Dona Mariana Inácia de Jesus. Passou a assinar Canabarro depois de trabalhar por algum tempo com o seu tio Antonio Ferreira Canabarro, Lutou na Guerra Cisplatina, na Guerra dos Farrapos foi Farroupilha. Lutou na Guerra do Paraguai. Alcançou o posto de General.
Bibliografia: PORTO-ALEGRE, Achylles. Homens Illustres do Rio Grande do Sul. Livraria Selbach, Porto Alegre, 1917.

(2) Página 33 – DOLMAN: em nossos dicionários consta, hoje, como dolmã – Trata-se de um casaco ou jaqueta curta, que fazia parte do uniforme militar. Hoje é conhecido como túnica do militar. (3) Página 34 – TREMPE: termo gaúcho, utilizado para designar uma armação composta de três varas de ferro fixadas por uma correia e uma corrente de ferro com gancho para suspender a panela ou chaleira sobre o fogo. (4) Página 42 – HIDROPISIA: do latim: hydropisis; da língua grega: hýdrops., Os médicos a denominam de Anasarca. É a acumulação anormal de fluido nas cavidades naturais do corpo ou no tecido celular. A hidropisia por si só não leva a morte. Geralmente é a doença que a causou que mata. Pode ser por falência renal, insuficiência hepática são algumas e as mais graves que matam por não eliminar todas as toxinas do corpo humano e porque os órgãos não realizam suas funções adequadamente. O tratamento deve ser da doença que causou a hidropisia.
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(5) Página 61 - CANELA FEDIDA: a canela possui diversas espécies e que fornecem madeira de excelente qualidade. A espécie conhecida como canela-bosta (Nectandra sp.) era utilizada pelos índios para fins curativos e como medicamento. Em estudos recentes descobriu-se que a canela bosta , Nectandra sp., é fundamental para a prevenção de doenças degenerativas, como doença arterial coronariana e câncer, pois estimula o sistema imunológico e age como antioxidante. A canela bosta exala um fedor que se assemelha às fezes humanas. O cheiro desagradável desta espécie de canela, levava os madeireiros a rejeitála da finalidade em construções de moradias ou móveis. (6) Página 65 – FAZER ALGUM CORAL: uma alusão ao canto coral. Os integrantes do coral elevam as vozes, em conjunto, para executar algum cântico ou melodia. (7) Página 70 - LAGOA DO INÁCIO: hoje Lagoa dos Quadros, que tem início no atual município de Terra de Areia. (8) Página 100 – PROTOCOLISTA: termo indevidamente utilizado, pois um protocolista, em geral serve numa repartição pública e apenas arquiva documentos. Hoje o termo utilizado para aquele que redige uma ata de assembléia ou reunião de membros, de uma igreja. é o secretário. O dirigente é o presidente. O caixa é tesoureiro. Todos integram o que hoje denominamos de Presbitério de uma Comunidade. (9) Página 115 – LAIRD: é um termo escocês que significa Lord, em inglês, portanto designação para a nobreza da Escócia.
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FIGURAS em “Sangue de Inocentes” FIGURA 1: Página 13 - Pastor Carlos Leopoldo Voges 1º pastor da Colônia de Três Forquilhas. Fonte: Foto do Arquivo da Família Voges. Figura 2: Página 18 - Farrapos atacam Três Forquilhas. Fonte: Gravura feita pelo autor, 2009. FIGURA 3: Página 21 - O colono, com certeiro tiro, derrubou mais outro farrapo. Fonte: Gravura feita pelo autor, 2009. FIGURA 4: Página 24 - A mãe ao lado do menino morto, sendo confortada. Fonte: Fotomontagem feita pelo autor, 2009. FIGURA 5: Página 29 - Coronel João Frederico Caldwell Fonte: Foto em “Ministros da Guerra do Brasil – 1808 – 1946. Oficinas Gráficas Pongetti – Rio de Janeiro – RJ, 1947). FIGURA 6: Página 66 - Elisabetha Diefenthaeler Voges, esposa do pastor Voges. Fonte: Foto do Arquivo da Família Voges. Figura 7: Página 103 - Dirigentes da Comunidade. Fonte: Arquivo da Família Voges FIGURA 8: Página 107 - Voges e Mittmann na disputa do pauzinho. Fonte: Gravura de Elio Müller. Ano 1970.

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FONTES DE CONSULTA Acervo documental do Pastor CARLOS LEOPOLDO VOGES. Pastas de documentos, livros, relatórios, fotografias e papéis avulsos. Theodorico Lopes Gentil Torres. em MINISTROS DA GUERRA DO BRASIL – 1808 – 1946. Oficinas Gráficas Pongetti – RIO DE JANEIRO - RJ, 1947 Livros do Registro Eclesiástico da COMUNIDADE EVANGÉLICA DE TRÊS FORQUILHAS, em Itati – RS. (Registro de Batismos, Casamentos e Óbitos). Arquivo pessoal do escrivão ALBERTO SCHMITT e de seu pai, o escrivão CHRISTOVAM SCHMITT. Depoimentos de Alberto Schmitt vindos da tradição oral. Arquivo pessoal de BALDUINO MITTMANN, com acervo de fotos. Depoimentos de Balduino Mittmann com base na tradição oral. Depoimentos de EUGENIO BOBSIN, com memórias sobre os seus antepassados Eberhardt e Bobsin. Eugenio Bobsin foi criado pelo avô Cristiano Eberhardt, com o qual colheu memórias valiosas sobre a história da Colônia de Três Forquilhas. Depoimentos de JACÓ MAUER, sobre a personalidade do pastor Voges e as relações do pastor com o povo do vale do rio Três Forquilhas. Memórias de OTHILIA VOGES BOBSIN e fotografias do “Arquivo da Família Voges”. Vovó Othilia confiou ao autor, em 1970, uma foto do pastor Voges,
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depois publicada pelo historiador Dr. Carlos H. Hunsche, que esqueceu de mencionar a origem da mesma. ELIO E. Müller, em “TRÊS FORQUILHAS 1826 – 1899”, Fonte Gráfica e Editora Ltda, Curitiba, 1992.

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COLEÇÃO MEMÓRIAS DA FIGUEIRA Autor: Elio Eugenio Müller Volume: I “De Pés e a Ferros” O nascer da Colônia de Três Forquilhas. Volume: II “Sangue de Inocentes” Episódio da Revolução Farroupilha. Volume: III “Dos bugres aos pretos” A tragédia de duas raças. Volume: IV “Amores da Guerra” Histórias da Guerra do Paraguai. Volume: V “Face Morena” A miscigenação na Colônia de Três Forquilhas. Volume: VI “Os Peleadores” Um episódio da Revolução Federalista. Volume: VII “E a vida continua...” O drama humano diante do flagelo da epidemia.

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