Em sua obra clássica, Linhagens do Estado Absolutista, Perry Anderson constrói um modelo do que seria o absolutismo em sua mais

perfeita forma. Mas antes disso, ele procurou demonstrar a natureza desse Estado característico do período de transição. Qual seria então a natureza desse Estado? Como se dão os mecanismos de sua consolidação? Ao responder a essas perguntas, ou ao enumerar as características marcantes dessa forma de poder, o melhor exemplo a ser utilizado é o caso francês. A França é quem mais se encaixa no modelo proposto por Anderson, e responder sobre sua natureza, sobre seu caráter é, portanto, falar da natureza do que Perry Anderson acreditava como crucial no absolutismo. Segundo Anderson, o processo de centralização se dará inicialmente ainda na Dinastia Carolíngia num processo de submissão dos senhores feudais das redondezas do poderio. Há a partir daí a expansão dos poderes dos Capetos. Anderson transita desse início até o que ele chama de deslocamento da coerção exercida pelo senhor feudal e a transferência para figura do rei. O que torna a França tão especial para Anderson, é o fato que nem os mais importantes senhores feudais interferiram no forte processo de centralização já iniciado com os Capetos. O texto de Anderson passa a percorrer os caminhos para a unificação necessária a França para consolidação do poder absoluto. Para que isso se dê é preciso uma série de fatores que Anderson coloca no seu modelo e que aparecerão no caso francês. No seu tabuleiro de xadrez, Anderson ressalta a importância do uso do Código Jurídico Romano adaptado de forma a fortalecer a figura do rei. Isso se dá com a noção de propriedade privada que é intimamente vinculada ao monarca. Temos ainda a necessidade de um sistema fiscal abrangente, um exército forte e um sistema de controle do mercado. Na França houve tudo isso, e como forma de manter o controle, a aristocracia foi mantida entrincheirada. E é isso que interessa a Anderson. É todo esse aparato, o passo a passo de erguer uns e derrubar outros em favor do processo de centralização. Como nas sucessivas linhagens que chegaram ao poder, os elementos econômicos e sociais possíveis de abalar a fortíssima centralização política são contornados e enfraquecidos. Daí a diferença da França, daí o Estado absolutista Francês ter se tornado o exemplo especial. Nessa tentativa de justificar o poder e explicar seus porquês que a abordagem de Perry Anderson encontra Peter Burke, este que através de imagens vai fazer uma análise da construção ideológica e mental do que o rei significava na França, a partir da excelência do modelo de absolutismo que foi o de Luís XIV. O trabalho de Burke, A Fabricação do Rei, trabalha não só com iconografias mas com representações artísticas em geral da época que estiveram a serviço da legitimação do poder real. Não só isso, mas também de toda uma construção de uma memória desse rei. Burke mostra a minúcia desse processo, seja da ritualização do dia-a-dia do rei à forma como diversos artistas se posicionaram em momentos importantes no sentido de favorecer a imagem do monarca, no sentido de sacralizá-lo. Ainda no que diz respeito à minúcia, à aparato, ou cuidado, temos Michel Foulcaut em seu Vigiar e Punir. Para tratar de uma grande preocupação de fabricação real no período moderno, Foulcaut recorre ao corpo e suas possibilidades nessa história de poder. É através do olhar ao corpo e seus suplícios que Foulcaut caminha para falar da construção preocupada desse poder centralizado. Como o ritual de punição fez parte da construção de um

de lhes deixar ter esse poder conseguido e brilhar. o fato de ser possível nos darmos conta da existência dessas vidas hoje. com o desejo de lhes dar significado nesse meio de poder aparentemente consolidado. Mas há um Foulcaut outro. e ainda de sua desgraça. que brilha somente. afinal. as vidas clarão que ele escolheu trabalhar. nem que seja por alguns minutos. A luz do poder absolutista. E o que ele vai nos dizer é que não é bem assim. para Foulcaut. sua análise não pode ser mais importante que suas existências nem de sua passagem pela história. também ilumina. O lugar de Foulcaut no texto é de lhes dar esse espaço.absolutismo forte. tratam-se de existências relâmpago. E o que Foulcaut vai fazer é se agarrar a elas com força. Foulcaut opta por uma abordagem incomum. Seu encontro com o poder absolutista lhe roubou a luz. . o fato de terem havido as letras de cachê possibilitou a essas vidas um poder. o fato de que por breves segundos de leitura termos a consciência da dor dessas existências. Temos no Foulcaut do texto “A vida dos homens infames” uma possibilidade mais diversa de olhar a esse poder reluzente que foi o absolutismo. Foulcaut trata essa luz de forma diferente. não como uma luz que se impõe. como a máquina do poder absolutista pôde usar elementos aparentemente não significativos na materialização desse poder.

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