Atribuicao e Intencao - Uma Perspectiva Pragmatica Dos Processos Interpretativos Em Arte

ATRIBUIÇÃO E INTENÇÃO: UMA PERSPECTIVA PRAGMÁTICA DOS PROCESSOS INTERPRETATIVOS EM ARTE Rodrigo Bueno FERREIRA (PG – UFPR) 1 Aristeu MAZUROSKI

JR (PG – UFPR)2 Maurício Fernandes Neves BENFATTI (PG – UFPR)3

Resumo: As artes, representadas neste trabalho principalmente pela música e pela literatura, produzem artefatos culturais tradicionalmente dotados de amplo potencial interpretativo, refletido principalmente nos ofícios da crítica literária e musical. Paralelamente a tal característica das artes, corre a capacidade humana de atribuição de intenção às produções culturais, mesmo sem a presença ou anuência do seu autor original. O descompasso entre intenção original do autor e a atribuição da intenção realizada pelo leitor, ouvinte ou crítico gera efeitos de ressignificação do objeto em análise, reorganizando-o e dotando-o de novo potencial interpretativo. O sistema composto pelo artefato e o processo constante de ressignificação parece gerar as mudanças de gênero musical (por exemplo), permitindo que as produções de um mesmo gênero mudem, mas continuem sendo identificadas como pertencentes a um grupo específico. Este trabalho procura identificar quais são as características de um artefato que o tornam um atrator, dentro da perspectiva da Epidemiologia das Representações, proposta por Dan Sperber, explorando os processos de interpretação do objeto, no que tange as atribuições de intenção ao autor, e à mudança da significação do artefato ao longo do tempo. Palavras-chave: Interpretação. Epidemiologia das Representações. Pragmática. Teoria da Relevância.

Introdução Ao nos voltarmos para os estudos estéticos realizados acerca da arte, nos deparamos com uma vasta literatura, inúmeros conceitos e diversas abordagens divergentes entre si. Isto se deve ao fato de que a arte é produto humano, um artefato cultural e, consequentemente, tão diversa quanto o próprio homem e a cultura. Nossa intenção neste texto não é solucionar o problema da estética, com seus séculos de tradição, tampouco os problemas que as artes têm levantado para o campo da lingüística, teoria literária ou das ciências cognitivas; o que

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Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Linguísticos. Bolsa CAPES REUNI. Departamento de Letras. Universidade Federal do Paraná. Curitiba. Paraná. Brasil.. ruod_rik@ymail.com 2 Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Linguísticos. Bolsa CAPES REUNI. Departamento de Letras. Universidade Federal do Paraná. Curitiba. Paraná. Brasil.. aristeumj@gmail.com 3 Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Linguísticos. Bolsa CAPES REUNI. Departamento de Letras. Universidade Federal do Paraná. Curitiba. Paraná. Brasil.. mfbenfatti@yahoo.com.br

quando do não reconhecimento intencional do artista e sua obra e à mudança da significação do artefato ao longo do tempo. a falta de compreensão é acirrada e é necessária a aprendizagem de um novo sistema para que se possa avaliar a obra. Lévi-Strauss (1989) afirma a existência de duas ordens da arte: a individualização da produção artística e o caráter figurativo ou representativo que estas produções adquirem. Alguns autores argumentam que a explicação para a não-compreensão da obra artística é que elas existem realmente para não serem entendidas. mas este conteúdo é normalmente baseado na exploração do estoque de padrões já existentes. algumas das intenções que regem os processos comunicativos são mais coletivas que individuais. Desta forma. Nossos questionamentos partem da possibilidade de interpretação de uma obra de arte mesmo na ausência de seu autor para explicá-la. portanto. Porém. não apenas em casos ritualísticos. dentro da perspectiva da Epidemiologia das Representações proposta por Dan Sperber. tornando-se novos atratores. e de nosso engajamento em atribuir significados particulares ao objeto na falta do reconhecimento da intenção original do autor. mas sentidas. através de suas implementações mentais e públicas. buscaremos identificar quais são as características de um artefato que o tornam um atrator. no que tange às atribuições de intenção ao autor. já que o antigo sistema não permitirá tal avaliação ou até mesmo poderá levar a inovação à rejeição imediata. Ao relacionar arte e linguagem.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. respondendo o que faz com que algumas cadeias causais sejam mais estáveis que outras. para explicar estes fenômenos o objeto de estudo deve ser o fluxo global de informações entre seres humanos. Diante da novidade do surgimento de um novo padrão. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 2 pretendemos é expor uma perspectiva pragmática de como a interpretação da obra artística é possível neste aparente caos que parece ser a arte. Pragmática e arte: em busca da intencionalidade e da compreensão Dascal (2006) apresenta vários aspectos da relação pragmática e arte. nossa hipótese é de que nas demarcações individuais e culturais do seres humanos a cultura é melhor vista como propriedade das representações mentais humanas e práticas de exposição e. sendo relevantes . Baseados em Claidière e Sperber (2008). bem como tais alterações resultantes tendem a se estabilizar. A tarefa principal da pragmática é explicitar os detalhes dos mecanismos inferenciais que o ouvinte emprega para reconhecer uma intenção comunicativa. E Marcelo Dascal (2006) afirma que quando uma obra de arte é criada ela traz consigo algum conteúdo original. à ressiginificação do objeto. Exploraremos os processos de interpretação do objeto.

Dentro dos fluxos de estímulos a que estamos expostos. Estamos certos de que nosso objeto necessita de uma reformulação conceitual para nos fornecer um tratamento teórico mais consistente. mas inferido na forma pragmática. ou até mesmo combiná-los. Assim. Tais alegações não se excluem mutuamente e são complementares no processo de compreensão. desde Peirce e Wittgenstein I. Existe porém outra forma muito mais radical de novidade que não a de uma obra dentro de uma forma. A questão que diz respeito à produção de novas informações só pode ser resolvida por uma teoria pragmática já que. Outros argumentam que a ausência de compreensão decorre da falta de background intelectual de conhecimentos estéticos. dos objetivos do artista e do quadro conceitual no qual a obra se insere. regulados por normas de conduta que estabelecem seu uso e a situação apropriada para tal uso. por sua vez. p. Quando uma obra de arte é criada ela traz consigo algum conteúdo original. em grande parte. . nossas capacidades cognitivas parecem ser baseadas em alguma forma natural de organizarmos a nossa experiência em padrões regulares. como os de ordem social e institucionalizados. Argumentada a coerência do enfoque da teoria pragmática sobre o objeto artístico. mas sim a criação de uma nova forma de arte.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. A comunicação lingüística. um sistema de normas que resulta naquilo que chamamos ‘tradição’. O grau de redundância ou de novidade não pode ser apreendido dedutivamente. resta-nos uma preocupação com a caracterização tradicional com que as artes são tratadas. 2008. somente tautologias e contradições (COSTA. pois ela só pode ser compreendida e apreciada com a ajuda de um conhecimento prévio. criar e compreender a arte é gerar e reconhecer padrões regulares. sabe-se que a lógica não pode expressar informações novas. dado o sistema de regras da língua em questão permanecer intacto. opera sempre entre dois extremos. Independente do grau da nossa capacidade natural de reconhecer padrões (seja inata ou aprendida precocemente). já que. proferindo inúmeras combinações de palavras e sentenças jamais proferidas por outro falante mas que são facilmente compreendidas. mas este conteúdo é normalmente baseado na exploração do estoque de padrões já existentes. Sobre esta capacidade natural é que podemos estabelecer outros padrões. é através dela que construímos uma forma de compreensão desvinculada do aprendizado formal. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 3 somente as emoções a partir da experiência estética. o conhecimento é necessário para a apreciação estética da arte. elaborando novos e sofisticados padrões. Tal exploração é semelhante à criatividade lingüística da qual dispõem todos os falantes de uma dada língua. 36).

Para Lévi-Strauss. dentro de uma perspectiva de abertura perceptiva. para o trabalho a que estamos propostos. enquanto a linguagem articulada pode significar qualquer coisa. necessária e automaticamente. Umberto Eco apresenta uma abordagem fenomenológica. p. mas que não nos apresenta ferramentas plausíveis para um mais profundo entendimento de nosso objeto. não possui substância semântica (BORGES NETO. ao elaborar a estética da obra aberta. a função semântica da obra tende a desaparecer. como qualidade comunicativa inata do ser humano. sua estrutura. 53) afirma a existência de duas ordens da arte: de um lado o que se pode chamar de individualização da produção artística e.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. e ela desaparece em proveito de uma aproximação cada vez maior do modelo que se procura imitar. um gosto. Sobre esta afirmação. em que o problema do fenômeno com seu fundamento ontológico. segundo uma perspectiva. detentora de alguns conceitos com quais compartilhamos. p. enfatiza que cada obra de arte . não apresentando conteúdo proposicional. isto é. apresentaremos uma abordagem natural das artes. p. uma execução pessoal (Eco. 2008. Sendo à medida que um elemento de individualização se introduz na produção artística que. O caráter particular da linguagem de arte é que sempre existe uma homologia muito profunda entre a estrutura do significado e a estrutura do significante. por exemplo. seu caráter cada vez mais figurativo ou representativo. mas que o plano do conteúdo permanece impreciso. Ao comentar a relação das artes com a linguagem. 1989. divergimos da abordagem tradicional fenomenológica. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 4 Arte: fato cultural de origem natural. de outra. todavia. 79). visando a identificação das características de um artefato que o tornam um atrator.ainda que produzida em conformidade com uma explícita ou implícita poética da necessidade . cada uma das quais leva a obra a reviver. na medida em que a obra de arte é um signo do objeto e não uma reprodução literal. p. Umberto Eco (2009. aberto a qualquer interpretação. Lévi-Strauss (Charbonnier.64). 1989. Para tanto. e não somente significar. alguns tipos de operações semióticas espúrias. Admitimos as propriedades culturais da produção artística.é substancialmente aberta a uma série virtualmente infinita de leituras possíveis. não existindo homologia obrigatória entre as palavras e os objetos aos quais se relacionam (Charbonnier. uma das possíveis controvérsias é a de que a música. 2005). em quais não se pode negar a existência de um plano de expressão perfeitamente articulado. ela manifesta algo que não tinha sido imediatamente dado à percepção que temos do objeto. cujo exemplo mais típico é dado por um quadro abstrato ou uma composição de música atonal.206) confirma esta idéia ao mencionar as pseudo-unidades combinatórias. transforma-se no modelo de relação do fenômeno com a plurivalência que dele podemos ter. . Eco.

p. é fundamental à coisa e ao mundo apresentarem-se abertas. as afirmações de Lévis-Strauss sejam equivocadas no que tange ao caráter homologamente significativo da arte. na medida em que rejeitam a ideia de um "belo" transcendental ou de um "certo e errado" absoluto.4). os darwinistas assemelham-se aos fenomenologistas.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. é válido ressaltar algumas limitações que a abordagem fenomenológica nos apresenta ao tratar as artes. ter conhecimentos . A teoria evolucionista é o conceito central unificador da biologia moderna. representação. Dennis Werner (1997) observa que os fenomenalistas preocupam-se muito em não "coisificar" os seus conceitos. como já demonstrado acima.um dos conceitos acaba prevalecendo como "o correto". eficiência. criatividade. Isto leva a grandes discussões sobre "qual" conceito entre as várias definições de um fenômeno é mais adequado. imaginação. epidemiologia. De acordo com os psicólogos evolucionistas Leda Cosmides e John Tooby (1992. Isto. uma abordagem naturalística é coerente com tais fenômenos. complexidade. beleza. 2008. ao filósofo e ao psicólogo. A teoria é essencial para a evolução da medicina moderna. pelo menos em parte. p. diferem dos fenomenologistas na medida em que reconhecem certos limites no que o ser humano poderia considerar como "belo" ou "certo". um produto da seleção natural (WERNER. No entanto. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 5 A contradição que encontramos entre a realidade do mundo é um problema fenomenológico tal que propõe ao artista. ao observar que um denominador comum entre os versados estudiosos. Então. expressão. ou filósofos da arte seria a apreciação. portanto. 1997. estímulos à sua atividade formativa. antropólogos. No entanto. confiabilidade e efeito (DISSANAYAKE. sua afirmação sobre as dimensões individual e coletiva da produção artística são inquestionáveis. precisão. p. Embora. especialização. agricultura.165) as adaptações são caracterizadas por economia. Deste modo. pois querem evitar que estes conceitos tomem o ar de "verdadeiros". Concordamos também com a explanação de Eco ao se referir ao caráter aberto que a significação artística nos apresenta. 13). Tais discussões acabam fazendo justamente o que queriam evitar . tais performances são de ideais iluministas e não são universalmente praticadas. Além de que várias sociedades humanas não têm noção da arte no sentido ocidental do termo. precisão. porque as nossas noções de "belo" e "certo" também poderiam ser. Contudo. visto que em termos de estética e ética. Ellen Dissanayake apresenta ainda um argumento central sobre a importância de um estudo naturalístico das artes. e produtos farmacêuticos que dependemos no quotidiano. isto na noção ortodoxa ocidental. em que as artes são intimamente relacionadas com o conceito de habilidade.

E embora tenhamos a capacidade de gravar permanentemente performances dos seus melhores exemplares. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 6 sofisticados de arte hoje seria atestar um axioma de que arte não possui um denominador comum. p. Mas ainda assim elas estão na base de uma psicologia que evoluiu usando a experiência estética em todo o ciclo de vida para guiar nossas mentes a tornarem-se mais plenamente realizadas. como vimos acima. Afinal.12/13). Epidemiologia das representações artísticas: o exemplo da música e da literatura Confirmados o caráter individual e coletivo que a arte apresenta. 25). sendo estas atratores de performances que por sua vez resultam em constantes práticas e seqüências de melhorias e atualizações nos padrões formais. sua melhoria. sendo apenas mais um conceito socialmente construído. estados cerebrais ou imagens que a contenham. conduzindo-a no sentido do aperfeiçoamento de suas funções. e estamos convencidos de que as constantes performances sociais fazem a manutenção da atualidade dos padrões formais da arte. e a própria linguagem seria inútil (PINKER. sucessivamente elaborada e aperfeiçoada. tais obras são permanentes porque sua elaboração social testou-se experimentalmente através de longas seqüências de melhoria. que padrões estéticos são atratores para o reconhecimento social das artes. portanto. e uma vez que os outros podem experimentar produções estéticas de um indivíduo como membros da audiência. apud TOOBY E COSMIDES. p. permitindo a repetição de seu desempenho e. Entretanto. é . a informação pode ser relevante para a identificação do passado e futuras relações causais de itens. 2008. assim. p. se a informação nunca fosse transmitida com alguma fidelidade entre os indivíduos o conhecimento jamais se acumularia numa sociedade. (SPERBER. consequentemente. 108). as artes socialmente reconhecidas são apenas uma pequena parte do reino da estética humana. para entender como a informação é distribuída. 2008.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. 25). a capacidade de lembrar como produzir uma experiência permite à experiência ser re-executada e. Música e histórias são duas formas de arte que não necessitam de tecnologia específica: o público pode adicionar informações ao longo de sua reprodução e contar com a memória como suficiente para registro da experiência. a arte torna-se social e podem os motivos para sua produção tornarem-se mistos. como afirmam Tooby e Cosmides (2001. Além disso. Apesar de seu caráter abstrato. Compreendemos. Além do mais. p. deflagrando adaptações funcionais dos objetos artísticos. Este último argumento é central em nosso trabalho. (DISSANAYAKE. 2001.

ou até mesmo seu autor. mas desconhecem a intenção da obra. A audiência que domina todas as informações contextuais de Pour Elise. Na esteira da epidemiologia das representações (SPERBER. Para exemplificar estes fenômenos. através de suas implementações mentais e públicas. ilustremos o caso da composição de Ludwig van Beethoven. b) aqueles que conhecem a composição. atestam que nas demarcações individuais e culturais do seres humanos. diante da seleção de alguma de suas propriedades . podendo fazer outras inferências sobre os sentimentos causados pelos recursos melódicos. a cultura é melhor vista como propriedade das representações mentais humanas e práticas de exposição. então. gerar um estímulo-ostensivo. E isto mesmo que a audiência desconheça a intenção original de Pour Elise. observando a construção ou recuperação de representações mentais que indivíduos produzem de uma representação pública.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. Assim. Claidière e Sperber (2008). dadas as ostensões das primeiras notas. sendo tais processamentos baseados em informações disponíveis anteriormente. nos termos da Teoria da Relevância. consequentemente. recuperando tanto o autor quanto suas intenções comunicativas. (e até mesmo Beethoven como seu compositor). c) aqueles que desconhecem a obra. que nunca chegou a ser concretizado. pela sua produção em um ambiente comum.como a época ou escola a que pertenceu seu compositor. 1985). A execução desta obra em publico poderia.possivelmente chegará às inferências implicaturiais de que esta música pertence ao padrão erudito. . a intencionalidade da música. em no mínimo três tipos de níveis de audiência: a) aqueles que conhecem Pour Elise como composição de Beethoven e sua intenção original. harmônicos e rítmicos ou mesmo estabelecendo relações lógicas com o enredo proposto por Beethoven. a ausência de letra para evidenciar seu enredo ou a complexidade da compreensão da própria estrutura musical . A audiência que conhece a obra. para explicar estes fenômenos o objeto de estudo deve ser o fluxo global de informações entre seres humanos. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 7 necessário observar como ela é implementada. respondendo o que faz com que algumas cadeias causais sejam mais estáveis que outras. o compositor e. Pour Elise. Os relatos bibliográficos sobre Beethoven apresentam o tema da composição como inspirado em seu amor por uma jovem. Informação cultural se espalha por meio de uma população através de suas interações que são. fará inferências no caminho das informações contextuais da obra. olhamos para o objeto investigando as cadeias causais em que estas representações mentais e públicas estão envolvidas. eventos e objetos que carregam informações das quais outros possam se apropriar.

ao não reconhecer nada da composição de Beethoven. Diante disto. passado algum tempo. tendo entrado no território de Tebas. Porém. Para ilustrar tal fato. tendo . levam à implicatura de que está passando o caminhão do gás. Dado o contexto. foi consagrado como rei. Porém. Deste modo. que narra o infortúnio do herói diante de seu destino. uma vez que foram substituídos os esforços atribuitivos por inferências que. senão numa interpretação possível. No entanto. a primeira audiência. assassinou a um homem que o agredira no caminho e. como o de uma música desconhecida . de Sófocles. de improvável contabilização. Pour Elise deixa de ter ambos os atributos anteriores . No nascimento de Édipo. rumo a uma atribuição de intencionalidade para tal obra. Outro exemplo pode ser ilustrado através do clássico literário Édipo Rei. Cada uma das três audiências atribui à música um significado próprio e idiossincrático.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. o efeito contextual é fundamental para a atribuição de significado. previu o oráculo que sua fortuna seria o parricídio e o incesto com a própria mãe. a decisão dos pais foi o sacrifício do filho. com um equipamento de som amplificado e com uma característica adicional peculiar: sua carroceria transporta um carregamento de recipientes metálicos usados para armazenamento de produtos voláteis. mas para todas as audiências. passados alguns repetidos episódios daquele mesmo veículo executando a mesma composição. Tebas. suponha-se uma execução pública de Elise num veículo transportador de grande porte. talvez a terceira audiência. como o de uma peça de música erudita. a ostensão do próprio veículo se torna desnecessária para a interpretação do que se sucede na rua. que atormentava a cidade. tendo Édipo saído em busca de seu destino.tanto o da intenção original de Beethoven. Deste modo. o responsável pelo extermínio da criança se compadeceu dela. faça inferências no sentido de tentar entender o motivo daquele caminhão executar aquela música aparentemente estranha. já dados os efeitos contextuais anteriormente. fazendo com que Édipo fosse adotado por uma família de fora do território de sua cidade. após vencer a esfinge. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 8 A audiência que desconhece por completo a obra. recuperassem as informações que possuem sobre Pour Elise e inferissem algo relacionado à obra. talvez a segunda audiência reconhecesse a música e inferisse algo relacionado à música erudita. tende a uma maior exposição a efeitos contextuais guiados pelas suas inferências. quais seriam as inferências dos três níveis de audiência? Talvez num primeiro episódio os apreciadores de Beethoven. não tendo nenhuma referência de autoria ou intencionalidade.e passa a significar “a música do gás” não só para algumas.

qual delas retém maior possibilidade de alcance das audiências? Propõe-se com base nos conceitos até aqui apresentados que será aquela versão que gerar maiores efeitos contextuais na audiência. com quem casara. desde Freud (KUSNETZOFF. instituídos no pensamento do ocidente hebraico-cristão e da necessidade de alguma habilidade ou letramento em textos gregos clássicos. não sendo acessível a qualquer leitor não-iniciado. Dadas as três “versões” de Édipo Rei. quando nos referimos a Édipo Rei. que tratam do inconsciente. Contrariamente às duas primeiras. Todavia. apresenta o mesmo enredo. 1994). Obviamente. era sua mãe. é possível que grande parte das pessoas se remeta ao Édipo do inconsciente freudiano e não ao Édipo desafortunado. A proposta catártica de Sófocles para a reflexão sobre os infortúnios da vida pode não obter muito sucesso. resultando num maior espalhamento de sua versão da temática original de Édipo Rei. como a exibição da telenovela Mandala. porém num caminho de menor esforço e com maiores efeitos contextuais. A consagração da tragédia de Sófocles é universal. a telenovela adquire maior probabilidade de veiculação da informação. outras são mais duradouras. das três. as idéias de Freud se propagaram de tal modo que hoje. para tornar-se a figura central das analogias dos estudos psicanalíticos de linha freudiana. Portanto. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 9 direito a casar-se com a rainha viúva Jocasta. veiculada pela Rede Globo. ii) e deve permanecer estável ao longo de gerações em seu processo de propagação. se caracterizam como o que se denomina epidemiologia das representações. Édipo deixou de protagonizar o enredo do homem diante da impossibilidade da fuga de seu destino. visto ser seu objetivo uma ilustração dos fenômenos do inconsciente. encerrando Édipo na vida de um cego errante pelo mundo. duas condições devam ser satisfeitas: i) ele deve se propagar em um grupo social. Existem também contemporaneamente outras formas alusivas às narrativas de Édipo Rei. enquanto outras ainda são levadas ao longo dos . O clímax da obra é a revelação de que o homem que Édipo assassinara no caminho era seu pai Laio e a rainha Jocasta.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. O Desfecho desta tragédia se dá com o suicídio de Jocasta e a moral da impossibilidade da fuga do homem ao seu destino. a versão da telenovela. diante dos adventos da superação da idéia do destino pela do livre-arbítrio. a música e a narrativa. ambos os fenômenos exemplificados. A explanação psicanalítica de Freud é de caráter especializado. de Sófocles. Porém. obtendo maior estabilidade social. Muitas das cadeias causais de distribuição de informação são curtas. Freud não se apropriou da totalidade do enredo da obra de Sófocles para seus postulados sobre o complexo de Édipo. Ressalte-se que para um comportamento adquirido ser considerado cultural.

Considerações Se. possibilitando que mentes categorizem famílias de artefatos seja por forma ou função. e definindo a permanência do artefato em uma certa cultura. o conhecimento é necessário para a apreciação estética da arte. 2005. . De tal perspectiva conceitual. 8). que se deflagram em adaptações funcionais dos objetos artísticos. podendo ela ser compreendida e apreciada com a ajuda de um informações prévias que nos permitem organizar nossas experiências em padrões regulares. Embora tais informações estejam sujeitas aos desvios idiossincráticos.Anais do XX Seminário do CELLIP – Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná CELLIP 25 anos | Londrina. O processo idiossincrático se deve ao fato de que a imaginação trabalha principalmente suspendendo alguns princípios que normalmente condicionam processos inferenciais (BOYER. já que suas características estão essencialmente validadas na interpretação daquele que entra em contato com o artefato. tal conhecimento só é possível devido à estabilidade das informações. ao mesmo tempo. UEL | 25 a 27 de outubro de 2011 ISSN 2175-2540 10 séculos. por via de efeitos contextuais. 239). visto que resultam em constantes práticas particulares e consequentes seqüências de melhorias e atualizações nos padrões formais. sendo tal criatividade essencial para a atualização de dados por meio de efeitos contextuais. elas se acumulam e permanecem. p. como afirma Dascal (2006). as idiossincrasias são necessárias para a geração e reformulação de novos padrões. com diferentes disposições de atribuição de significados (ao artefato) e de intenções (ao seu autor). O atrator cultural prototípico permite a disseminação de artefatos semelhantes. mas seu sucesso cultural tem muito a ver com o fato de que eles podem ser interpretados mentalmente com um alto grau de idiossincrasia (SPERBER E CLAIDIÈRE. nas suas mais diversas formas. p. sendo possível assumir também que a arquitetura cognitiva humana evoluiu porque permitiu que organismos transcendessem os limites do aqui e agora e para criar objetos e técnicas inteiramente novas. surge então a noção do artefato como perene e mutável ao mesmo tempo. sendo nestes casos fácil de encontrar comportamentos ou artefatos estáveis como rituais. 2007. Os artefatos culturais. Este processo de manutenção das artes como tecnologias dos aparatos adaptativos humanos só é possível devido à característica epidemiológica que as representações adquirem ao se propagarem de ambientes cognitivos particulares e coletivos. são as mesmas que permitem e ocasionam a sua mudança como objetos passíveis de interpretação. Baseados nas informações já formalmente estáveis. possuem caracterísitcas perenes que. ao mesmo tempo em que mantém as informações anteriores como alicerce da criatividade.

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