Destoca para limpar área de pastagem não é crime ambiental A destoca – limpeza da área, terreno – praticada por proprietário

rural para desobstruir a área de pastagem em sua fazenda não é compatível com o crime descrito no artigo 38 da Lei n. 9.605, de 1998. O entendimento unânime é da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Essa legislação dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e o artigo em questão considera que pratica crime contra a flora, passível de pena de detenção de um a três anos e multa, quem destruir ou danificar floresta considerada de preservação permanente, mesmo que em formação, ou utilizá-la com infringência das normas de proteção. O proprietário rural recorreu ao STJ de uma decisão do Judiciário mineiro, o qual lhe negou o pedido para que trancasse a ação penal. A defesa alega que o fato do qual é acusado é atípico e a denúncia, inepta. Primeiramente porque não descreveu que a área era de floresta e depois porque não descreveu que a floresta era de preservação permanente. Além disso, porque a descrição da conduta em si só já deve caracterizar crime consoante a regra do artigo 43, inciso I, do Código de Processo Penal (CPP) , sob pena de inépcia; e porque a conduta descrita não é crime previsto na Lei n° 9.605/98, ou sequer infração administrativa descrita no Decreto-Lei 3.179/99". Para a defesa, trata-se de crime impossível, pois o que o pecuarista fez foi limpar a área de pastagens de sua fazenda próxima à sede. E "isso, conforme se infere da legislação própria, ou seja, a Lei Estadual 14.309/02, vigente à época dos fatos, não há necessidade de prévia autorização para exploração de áreas que não sejam florestas nativas ou de preservação permanente ou de reserva legal", afirma. Afora isso, não teria sequer ocorrido a apreensão de qualquer material ou rendimento lenhoso, como determina a alei, a justificar o auto de infração. "Não há, portanto, prova da materialidade, que viabilize a ação penal, porquanto não há tipicidade aparente." Ao apreciar o pedido, o relator no STJ, ministro Hamilton Carvalhido, entendeu ser clara a incompatibilidade entre o fato imputado e o tipo descrito no artigo 38 da Lei nº 9.605/98. Para ele, é imperativa a declaração da inépcia formal da denúncia, não se cuidando de simples omissões e circunstâncias acidentais do fato, mas de imputação de fato atípico. Assim, deu provimento ao recurso ordinário para trancar a ação penal. Processo: RHC 16651 Leia a íntegra da decisão: "Superior Tribunal de Justiça RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 16.651 - MG (2004⁄0136135-5) RELATOR : MINISTRO HAMILTON CARVALHIDO RECORRENTE : JOSÉ ARTUR BARBOSA AFONSO ADVOGADO : VANESSA POLASTRINE RECORRIDO : TRIBUNAL DE ALÇADA DO ESTADO DE MINAS GERAIS EMENTA

assim ementado: "HABEAS CORPUS .Ordem denegada. DIREITO PROCESSUAL PENAL. SR. relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas. como não se cuida de simples omissões e circunstâncias acidentais do fato. . TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL.EXAME APROFUNDADO DAS PROVAS . não se cuidando.INVIABILIDADE EM SEDE DE HABEAS CORPUS . IV . CRIME AMBIENTAL.Quando para se aferir se a conduta constitui crime ou não é necessário o profundo exame das provas. Manifesta a incompatibilidade entre o fato imputado e o tipo do artigo 38 da Lei nº 9. acordam os Ministros da SEXTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça. Os Srs.A denúncia não é inepta quando preenche os requisitos do artigo 41 do CPP. Brasília. por unanimidade. Ministro Relator. Recurso provido.651 MG Relator (2004⁄0136135-5) O EXMO. 104).ORDEM DENEGADA. 14 de junho de 2005 (Data do Julgamento) MINISTRO RECURSO EM RELATÓRIO Hamilton HABEAS CORPUS Nº Carvalhido. 16. denegando writ impetrado em favor de José Artur Barbosa Afonso. o habeas corpus não é via adequada para aferir a tipicidade. preservou-lhe o processo da ação penal a que responde como incurso nas sanções do artigo 38 da Lei nº 9. Paulo Medina. I .DENÚNCIA EM CONFORMIDADE COM O DISPOSTO NO ARTIGO 41 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL . II .É cediço que o magistrado não está adstrito à capitulação dos fatos dada pelo Ministério Público. Hélio Quaglia Barbosa e Nilson Naves votaram com o Sr. OCORRÊNCIA. Presidiu o julgamento o Sr. dar provimento ao recurso. MINISTRO HAMILTON CARVALHIDO (Relator): Recurso ordinário contra acórdão da Segunda Câmara Mista do Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais que. 2. Ministro Relator. ACÓRDÃO Vistos.RECURSO EM HABEAS CORPUS. Ministro Paulo Gallotti. mas de imputação de fato atípico." (fl. INÉPCIA FORMAL DA DENÚNCIA. a declaração da inépcia formal da denúncia faz-se imperativa.605⁄98. Ministros Paulo Gallotti.CRIME AMBIENTAL . nos termos do voto do Sr.605⁄98. 1. III .

' Precedente do STJ. ao final. ao menos em tese. O Ministério Público Federal veio pelo improvimento do recurso. Alegação de atipicidade da conduta. e "Isso.. É o relatório. Lei 3. Alega. não há de falar em trancamento da ação penal. com a feitura do corpo de delito e da lavratura de auto de infração. não há necessidade de prévia autorização para exploração de áreas que não sejam florestas nativas ou de preservação permanente ou de reserva legal.". sim.309⁄02. vigente à época dos fatos. ou sequer infração administrativa descrita no Dec. consoante a regra do art. em síntese. O parecer é pelo conhecimento e não-provimento do recurso. . eis que. Contra-razões às fls. primus ictus oculi. I do CPP. pelas próprias palavras de seus subscritores.605⁄98. pois. o auto que consta nos autos menciona propriedade diversa da do paciente. afora tratar-se de crime impossível. criminosos." (fl. conforme se infere da legislação própria. porque não descreveu que a floresta era de preservação permanente. Recurso em Habeas Corpus. que nem "sequer houve. "o que o paciente fez. adequados." (fl. em parecer assim sumariado: "Penal. 43. Aduz. sob pena de inépcia. enquadrando-se acertadamente ao tipo. Processo Penal. ainda. que se chama Maria do Carmo Rodrigues Scalon Afonso. a atipicidade da conduta ou a extinção da punibilidade. 139). que.605⁄98. que se verifica que não houve a apreensão. mais. Pretensão de exame fático-probatório que refoge aos estreitos limites do remédio heróico.. Pleito de trancamento da Ação Penal. "A uma. E inclusive. que viabilize a ação penal. '(." (fl. somente cabível na via angusta do remédio heróico quando demonstrados. pois basta uma leitura no B. foi limpar a área de pastagens de sua fazenda próximo a sede.) Ajustando-se a vestibular acusatória ao comando do artigo 41 do Código de Processo Penal e descrevendo. e não a esposa do paciente. em tese. porque a conduta descrita não é crime previsto na Lei 9. pelo trancamento da ação penal. ao tempo e à sede da sentença. O auto de infração que está nos autos pertence à outra pessoa. 144⁄147.179⁄99. a quatro. 153). a duas." (fl. a Lei Estadual 14. conforme determina a legislação ambiental. na luz da evidência. Pugna. Não há. portanto prova da materialidade. Lei nº 9. a exclusão da autoria. a apreensão de qualquer material ou rendimento lenhoso. porquanto não há tipicidade aparente. fatos. porque a descrição da conduta em si só já deve caracterizar crime.O. ou seja. Improcedência. Engana se o ilustre relator ao afirmar que houve a apreensão de material lenhoso. 136). A conduta descrita na peça pórtica revela. a três. porque não descreveu que a área se tratava de floresta. 132).Está o recorrente em que o fato é atípico e a denúncia inepta. Crime contra o meio Ambiente. a ocorrência de fato típico. licitamente.

detenção. nesta Cidade. natural de Sacramento⁄MG. na Fazenda Santo Antônio. filho de Leonidas Afonso Primo e de Maria da Glória Barbosa Afonso. dou provimento ao recurso ordinário para trancar a ação penal. por meio do Promotor de Justiça em exercício nesta Comarca. brasileiro. no uso de suas atribuições e com base no incluso inquérito policial militar. ou ambas as penas cumulativamente. mas de imputação de fato atípico. onde foi constatado uma destoca em corte raso em uma área estimada em 0.605⁄98. ou multa. MINISTRO HAMILTON Senhor Presidente. vem. bairro Centro. de 1 (um) a 3 (três) anos. Relata mais. casado. tendo o denunciado incorrido nas iras do artigo 38. oferecer denúncia contra: José Arthur Barbosa Afonso.RECURSO VOTO EM HABEAS CORPUS Nº 16. respeitosamente." Manifesta a incompatibilidade entre o fato imputado e o tipo do artigo 38 da Lei nº 9.605⁄98 do Código Penal Brasileiro. mesmo que em formação. (. residente na rua Capitão Borges. na cidade de Sacramento⁄MG. a do artigo 38 da Lei nº 9. SR. . de responsabilidade do denunciado. é está a letra da denúncia: CARVALHIDO (Relator): "O Ministério Público do Estado de Minas. nascido aos 16 de fevereiro de 1942. equivalente a 18 (dezoito) metros cúbicos de lenha. da Lei nº 9. como não se cuida de simples omissões e circunstâncias acidentais do fato. Pela prática do seguinte fato delituoso: Consta no procedimento policial que no dia 03 de janeiro de 2003. E esta.)" (fls. 16⁄17). durante uma fiscalização da Polícia Militar Florestal.3 hectares. o caderno policial.. É O VOTO. nº 271. ASSIM. a declaração da inépcia formal da denúncia faz-se imperativa. advogado. de propriedade do denunciado.. que o corte foi efetuado sem autorização do órgão ambiental competente. ou utilizá-la com infringência das normas de proteção: Pena .651 - MG (2004⁄0136135-5) O EXMO. não se cuidando. Pelo exposto.605⁄98: "Destruir ou danificar floresta considerada de preservação permanente.

Paulo Medina. Ministro Relator. por unanimidade. Ministros Paulo Gallotti. Ministro Relator. Sra.DJ: 01/08/2005 .Crimes Contra o Meio Ambiente ( Lei 9. 14 de junho de 2005 ELISEU Secretário AUGUSTO NUNES DE SANTANA Inteiro Teor do Acórdão . ELISEU AUGUSTO NUNES DE SANTANA AUTUAÇÃO RECORRENTE : JOSÉ ARTUR BARBOSA AFONSO ADVOGADO : VANESSA POLASTRINE RECORRIDO : TRIBUNAL DE ALÇADA DO ESTADO DE MINAS GERAIS ASSUNTO: Penal . ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data. Sr. deu provimento ao recurso. Hélio Quaglia Barbosa e Nilson Naves votaram com o Sr. Ministro PAULO GALLOTTI da JULGAMENTO TURMA CRIMINAL Sessão República Subprocuradora-Geral da Exma. Ministro HAMILTON CARVALHIDO Presidente Exmo. Presidiu o julgamento o Sr.Leis Extravagantes . Dra. proferiu a seguinte decisão: "A Turma.CERTIDÃO DE SEXTA Número Registro: 2004⁄0136135-5 RHC 16651 ⁄ MG MATÉRIA Números Origem: 10000044078178 343672 4554558 EM MESA JULGADO: 14⁄06⁄2005 Relator Exmo. Ministro Paulo Gallotti." Os Srs.605⁄98 ) CERTIDÃO Certifico que a egrégia SEXTA TURMA. CLÁUDIA SAMPAIO MARQUES Secretário Bel. Brasília. Sr. nos termos do voto do Sr.

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