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Poemas e Canções

por Vicente de Carvalho

Prefácio a Poemas e Canções de Vicente de Carvalho
Aos que se surpreenderem de ver a prosa do engenheiro antes dos versos do poeta, direi que nem tudo é golpeantemente decisivo nesta profissão de números e diagramas. É ilusório o rigorismo matemático imposto pelo critério vulgar às formas irredutíveis da verdade. Baste atender-se em que o objetivo das nossas vistas teóricas está no descobrir uma simplicidade que não existe na natureza; e que desta nos abeiramos, sempre indecisos, já tateantes, por meio de aproximações sucessivas, já precipitadamente, fascinados pela miragem das hipóteses. A própria unidade das nossas mais abstratas construções é enganadora. Nos últimos trinta anos – nesta matemática tão, ao parecer, definitiva – idearam-se não sei quantas álgebras, através de complicados simbolismos; e o número de geometrias elementares, como no-lo mostra H. Poincaré, é hoje, logicamente, incalculável. Ainda mais: na mesma geometria clássica sabe-se como se definem pontos, retas e planos, que não existem, ou se reduzem a conceitos preestabelecidos sobre que se formulam postulados arbitrários. Continuando: vemos a mecânica basear-se, paradoxalmente, no princípio da inércia universal e instituir a noção idealista do espaço absoluto, em contradição com tudo quanto vemos e sentimos. Destarte se constrói uma natureza ideal sobre a natureza tangível. Ilude-se a nossa incompetência para abranger a simultaneidade do que aparece, por meio de processos vários nos nomes pretensiosos, mas na essência perfeitamente artísticos, porque consistem em exagerar os caracteres dominantes dos fatos, de modo a facultar-nos uma síntese, mostrando-no-los menos como eles são do que como deveriam ser. Assim nós vamos – idealizando, conjecturando, devaneando. Na astronomia resumem-se as leis conhecidas menos imperfeitas; no entanto, à medida que ela encadeia os mundos, vai libertando-nos a imaginação. Os mais duros experimentadores sonham neste momento aos clarões indecisos das nebulosas, vendo abrir-se em cada estrela incandescente um vasto laboratório onde trabalham os químicos da terra descobrindo surpreendentes aspectos da matéria... Prosseguimos, idealizando flagrantemente a física, com a estrutura subjetiva de sólidos e fluidos perfeitos e sistemas isolados, e até singularíssimos fios inextensíveis, de todo em todo inexistentes; e romanceando a química, definida pelo simbolismo imaginoso da arquitetura atômica de seus corpos simples, irreais. Até que na físico-química, recém-instituída e já intensamente iluminada pela percepção transubstancial dos raios X, admitamos todas as utopias do misticismo transcendental dos alquimistas, e não nos maravilhemos de que os pensadores mais robustos estonteiem e delirem com faquires esmaniados, vendo, improvisamente, resplandecer no radium a alma misteriosa da matéria... Assim nos andamos nós – do realismo para o sonho, e deste para aquele, na oscilação perpétua das dúvidas, sem que se possa diferenciar na obscura zona neutral alongada à beira do desconhecido, o poeta que espiritualiza a realidade, do naturalista que tateia o mistério. Apeamo-nos então, acobardados, dessas presuntuosas cogitações. Encouchamo-nos, tímidos, no esconderijo de uma especialidade. Constringimos a alma. Moralizamos rasamente a vida, evitando a grande embriaguez dionisíaca da Vida. Renuímos às fantasias perigosas: utilitarizamo-nos... E ao cabo de tamanho esforço, para descermos

até ao fastígio do maciço senso comum conservador e timorato – vemos com espanto, que mesmo no terra-a-terra da atividade profissional, todas as asperezas das nossas fórmulas empíricas e os traços rigorosos dos tira-linhas ainda se nos sobredoiram de um recalcitrante idealismo. No pedaço de carvão de pedra, que acendemos na fornalha de uma locomotiva, reacendemos muitos raios de sol extintos há milênios. A locomotiva parte, e não concretiza apenas o mito poético de Faetonte. O que mais nos encanta é a imagem fulgurante da Força, renascendo e restaurando ao mesmo passo os esplendores de tantas auroras apagadas... Pelas vigas metálicas de nossas pontes, friamente calculadas, estiram-se as “curvas dos momentos”, que nos embridam as fragilidades traiçoeiras do ferro. E ninguém as vê, porque são ideais. Calculamo-las; medimo-las; desenhamo-las – e não existem... E assim por diante – infinitamente, em tudo o que fazemos e em tudo o que pensamos, ainda quando lançados na trilha heróica da profissão, vamos pulsear no deserto as dificuldades e os perigos... Porque quando nos vamos pelos sertões em fora, num reconhecimento penoso, verificamos, encantados, que só podemos caminhar na terra como os sonhadores e os iluminados: olhos postos nos céus, contrafazendo a lira, que eles já não usam, com o sextante, que nos transmite a harmonia silenciosa das esferas, e seguindo no deserto, como os poetas seguem na existência, . . . a ouvir estrelas! Vede quanto é falso o prejuízo da esterilidade das cousas positivas. Em pleno critério determinista, somos talvez mais sonhadores do que nos tempos em que ao ingênuo finalismo teológico bastavam duas sílabas para descrever as maravilhas da Criação. Numa intimidade mais profunda com o mundo exterior, a nossa idealização aumenta de um modo quase mecânico. Estira-se-nos na visão deslumbrada. Alarga-se-nos nos novos quadros reveladores das imagens infinitas da natureza. E, à medida que se nos torna mais claro o sentimento das energias criadoras que nos circulam e vai eliminandose do nosso espírito o velho espantalho da discórdia dos elementos, de que tanto se apraziam os deuses vagabundos, e nos sentimos mais equilibrados, mais fortes, mais solidários com a harmonia natural – maior se torna a fonte inspiradora do nosso idealismo fortalecido por impressões mais dignas da majestade da vida. Se tivéssemos dúvidas a este respeito, no-las dissiparia o próprio espetáculo da última fase revolucionária da poesia contemporânea, caracterizada pelo contraste entre a decadência dos que a falseiam e a expansão crescente do sentimento estético da humanidade. Realmente, o que se afigura a tantos profetas agourentos a morte próxima da poesia é a demonstração ad absurdum da sua vitalidade mais ampla. Troca-se o efeito pela causa. Nas várias escolas esporádicas – que vão do parnasianismo, com a idiotice de seu culto fetichista da forma, ao simbolismo, com a loucura de suas idéias exageradamente subjetivas –, o que parece a decadência da poesia é apenas o desequilíbrio e as emoções falsificadas dos que não podem mais compreendê-la na altitude a que chegou o nosso pensamento. Considerando-se, de relance, apenas um dos extremos dessa longa cadeia de agitados – não seria difícil mostrar no desvio ideativo de Mallarmé, ou Verlaine, como outrora no satanismo de Baudelaire, os gritos desfalecidos de todos os fracos irritáveis, reconhecendo-se inaptos para entenderem a vida numa quadra em que o progresso das ciências naturais interpretadas pelo evolucionismo reage sobretudo e tudo transfigura, desde a ordem política, onde se instaura o predomínio econômico dos povos ativos, glorificados na inspiração prodigiosa de Rudyard Kipling, até a filosofia moral, onde se alevanta a aristocracia definitiva do homem forte,

Muito de altivo.lobrigado pela visão estonteadora do gênio de Frederico Nietzsche. hoje. fisiológica e rudimentar. . o idealismo filosófico de Fichte. já não basta o êxtase. Baudelaire. cada vez mais fortalecido por um largo sentimento da natureza. E dela se deduz que nessa aproximação crescente entre a realidade tangível e a fantasia criadora. de um egoísmo a dois. a ressuscitarem num período avantajado da existência humana e para logo invadidos do desespero de já não sentirem o amparo das antigas verdades absolutas. são apenas ignorantes. O homem não é – isoladamente – artista. Os “poetas malditos”. Oú. sábio ou filósofo. risonho e sem cuidados. . un cimetiére. senão um belo pretexto para resumir num objeto. continuadamente mais próximo do pensador. vai cada vez mais refletindo no ritmo de seus versos a vibração da vida universal. “Nesta altura. a terra mais vivaz depois das generalizações de Lyell. em harmonioso . o que para logo se destaca nos “Poemas e Canções”. senão a solidariedade de suas leis com a nossa harmonia moral. de retardatários. de revenants. . porque a natureza é íntegra”. de modo que. Porque o quadro que defrontam é outro. e ainda quando se fingem de demônios agitam-nos aos olhos o espectro da antiga fé agonizante. malgrado as blasfêmias de tanto verso convulsivo. se traînent des longs vers. um tanto insolente diz-nos bem que na sua forma comum. todas as perspectivas particulares se fundem. entre os desconchavos de seu bárbaro misticismo. O amor. Deve ser de algum modo tudo isto a um tempo. escravo de uma preocupação mórbida e humilhante. considera-o Vicente de Carvalho como ele é. envolvendo e transfigurando-se como um maravilhoso organismo. Então veríamos. certa vez. A descrença nasce-lhes da inviabilidade da crença. É compreensível. um lance genial. Mas vê-se que ela reproduz. embora o envolvamos nos véus simbólicos da mais ardente fantasia. que nos fazem rir com o truanesco de suas visagens. positivamente: um caso particular da simpatia universal. quase literalmente. São almas velhas onde se acumulam as influências ancestrais mantidas pela hereditariedade. ou realizar a síntese de seus aspectos. comme des remords. E tal como no-lo apresenta . teve. ao definir-se . o poeta. ele não lhe traduz uma condição primária do sentimento. ou a genuflexão admirativa. Encontram os céus mais azuis depois das induções de Tyndall. . em estrofes onde os traços de degenerescência resultam sobretudo da incompatibilidade com os novos ideais. Para abarcar a vida. poeta. alentando o subjetivismo equilibrado de um verdadeiro poeta. nos remotos tempos de onde saltam por atavismo – claudicantes no ritmo dos versos – para nos entristecerem com as suas queixas de almas doentes da nostalgia do sobrenatural. . como um falso ceticismo pode significar a última tentativa da retrógrada explicação deísta do universo.[1] A frase é de um naturalista. Símbolo perfeito dessas organizações retrógradas. • ** Ora. transcorrido um século de atividade intelectual. que os alentavam outrora. submetidos à unidade do universo. sejamos cada vez mais a própria miniatura dele e possamos traduzi-lo sem falsificá-lo. é um grande sentimento da natureza. E falam-nos naturalmente numa língua morta. .

Neste lance poderíamos aplicar-lhe a frase pinturesca de Stanchwith: “Não podendo apertar a mão desse gigante que se chama Universo. O povo mais prático e mais lúcido do mundo é o que por ele mais irradia à caça do pinturesco. O movimento atual para os grandes quadros objetivos. cujo corpo bronzeado Mantinha a liberdade inata da nudez. enfarado talvez . Entre a concepção estreitamente clássica da vida rústica das Geórgicas e o nosso esplêndido lirismo naturalista há diferenças tão flagrantes que fora inútil indicá-las. num consórcio que é a definição da verdadeira arte. . Não há neste momento. um ponto de admiração: o inglês! Além disto. desponta-nos como uma reação do nosso sentimento. nas pirâmides dos tetos. e as vistas se fatigam na repetição das formas e das cores. em Chamonix ou num rincão qualquer na África Central. paralelamente.Negra. onde é tudo claro. passaria mil anos sobre a Serra do Mar . disforme. O poeta diviniza a mulher como o estatuário diviniza um pedaço de mármore: pela necessidade ansiosíssima de uma síntese do maior número possível de belezas infinitas que lhe tumultuam em torno. nos quadrados das praças. predispondoo ao nomadismo aventureiro de algum avô selvagem: Algum bugre feroz. à parte outras causas mais profundas. nos paralelepípedos dos calçamentos e nas elipses dos canteiros.. onde se lhe deparam as melhores imagens e as mais radiosas alegorias. dá largas à expansão centrífuga da individualidade transbordante. nos poliedros das casas. a uma alma remota que as energias profundas do atavismo lhe despertam. E em tanta maneira se lhe impõem as escapadas para a amplitude do mundo objetivo. e a alma se fatiga na invariabilidade das impressões e dos motivos – vai se tornando a mais e mais imperioso à medida que a civilização progride. compreensível. resume-os num exemplar da humanidade. nem dar um beijo apaixonado na Natureza. matemático.. imensa. indiferente. e os ouvidos se fatigam no martelar monótono dos sons. quando atribui todo o seu culto À doce Religião da Natureza amiga.Passivo. O nosso selvagem . com o próprio rigorismo prático da vida. Para aformosear o seu símbolo. nos ângulos diedros das esquinas.Que dormia tranqüilo um sono descuidado.Sob o mistério azul do céu todo estrelado. rijamente empertigado. que nos diz em alexandrinos correntios o que hoje lemos em páginas austeras de gravíssimos psicofisiologistas. que até geometricamente se nos desenha nas ruas retangulares. os atributos encantadores da vida.sincretismo. eu penso que alma antiga não sentiria esta atração da grande natureza que domina a poesia moderna. Ao contrário. só o pensamento atual pode animar a alma misteriosa das cousas. e as inteligências se nivelam na evidência de tudo.. Esse fugir ao racionalismo seco das cidades.” Por isto mesmo não se apouca limitando-se a essa redução graciosa. . a crescer.. nenhuma página vigorosa da natureza onde se não veja.

em convulsões. encolhendo-se nos vales. bruscos como arrepios. e se crispa. Resvala num declive. Surge. Branco de espuma. ressurge. através da escuridão noturna. a farejar E. e anseia Atrás de cômoros de areia E de penhascos de granito. recai. Trepa agora alcantis por escarpas a prumo. e se alevanta. Debalde a terra em flor. requer-se a intuição superior de um poeta capaz de ampliar.. à modesta. como em torrente. levemente se enruga Na crespa ondulação de cômoros macios. Erriça-se em calhaus. como em fuga Precipite.. .. se esconde... Vemo-la na escultura destes versos: Na sombra em confusão do mato farfalhante Tumultuando. na terra devastada.. vai com as suas Ondas e a sua espumarada Lamber. Barrancos nus e rochas nuas. além. à chaníssima topografia. brutal e impuro. é o mesmo chão que o geólogo denomina “solo perturbado” e inspira à rasa.. Tenta despir o seio duro E virginal da terra em flor. refletindo num minuto a marcha milenar das causas geotectônicas que a explicam.” A mesma harmonia de sua visão interior com o mundo externo rebrilha quando o poeta observa que o mar . uma verdade rijamente geológica. mostrando-no-la vivamente monstruosa. E. segue o mar. indiferente e inútil. ébrio de amor. Mais repousado. Furiosa. o chão corre às soltas. vai rolando na treva Despedaçadamente e indefinidamente. .Enegrecendo a noite. Este chão que tumultua. É a realidade maior – vibrando numa emoção. . Segue. Despenha-se de chofre ao vácuo de uma furna. Para no-la definir e no-la agitar sem abandonar a realidade. Do fundo dos grotões outra vez se subleva. achado o rastro. assim. sem a deformar. e logo. com o fito De lhe escapar. e foge. ou escalando as alturas nos arrancos dos píncaros arremessados. No encalço dessa esquiva amante Que se lhe furta. sem rumo. a torcer-se nas anticlinais. e corre. a metáfora garbosa dos “movimentos do terreno.. tombando nos grotões. a arrepiar-se. e cai. e as maretas solta adiante Como matilha.

a plebe Da floresta.. Atulhando o desvão de dous troncos. Um dia serás minha. não poderão contemplar a “artilharia” de seixos e graeiros.Idealização. derruindo-as e esfarelando-as – seguida logo da “cavalaria das vagas” de Granville Cole... like a regiment overwhelmed by cavalry. Também ao descrever-nos um recanto labiríntico de nossas matas. sobre os litorais desmantelados. é o nivelamento da terra. refulge. solapando-as. Submergindo montanhas.. e tu.. ressoa. “quebrada de onda em onda”. desmontando-as. ou de Lapparent... e mostrando-nos que Acesa num furor de seiva transbordante Toda essa multidão desgrenhada – fundida Como a conflagração de cem tribos selvagens Em batalha – a agitar cem formas de folhagens Disputa-se o ar. oprimida e em perpétuo levante.. evidentemente. e de súbito disparando – longos penachos brancos dos elmos rebrilhantes distendidos na diluição das espumas – numa carga. a vida. E os que fecharem as vistas à esplêndida imagem daquela matilha de maretas. É um verso.... Mas. Hei de romper-lhe a crosta e cavar-lhe as entranhas Dentro de vagalhões penhascos submergindo. a empinar-se nas ondas desbridadas. quando o poeta escuta a grande voz do mar. é a mesma voz de Geike. o chão.. Mais longe. pelo curso indefinido dos tempos. o espaço. Que importa? O tempo é vasto. esta voz monstruosamente romântica. do ilustre Playfair. Prende o sonhador e o cientista diante da idealização tangível de um expressivo gesto da natureza. . a entrechocar-se nas arrebentações. a bombardear arribas. violentíssima. quando o mar exclama: “Lua! Eu sou a paixão. Há mil anos que vivo a terra suprimindo. bem que eu reclamo. que seria apenas um ridículo exagero panteísta. eu sou a vida.. certo. Cem espécies formando a trama de uma sebe. a torvelinhar no entrevero dos redomoinhos. quem quer que se alarme ante este mar perseguidor e esta terra prófuga riscará os melhores capítulos da geologia dinâmica. do mar. no céu. o orvalho. e diz uma alta verdade de ciência diante do agente físico cujo destino lógico. desdenhosa rainha. fazendo à lua uma declaração de amor. . canta.. a curvetear nos rolos das ondulações banzeiras. de modo que o litoral desmantelado se nos apresente. eu te amo! Paira. longe. disjungindo-as. que se desentranha da árida prosa de um livro didático. em linha. se não fosse um pouco desse infinito amor que se chama gravitação universal. [2] Considerai: esta frase.

..o mar criado às soltas Na solidão. Apraz-se antes de no-lo mostrar. desafia O céu. Aumenta. desde logo... porém. Porque Ao pôr-do-sol.. angustiosamente. alastra e desce pelas Rampas dos morros. embora seja ela rigorosamente positiva em todos os elementos de sua estrutura artística. e impando de ousadia Pragueja. A Vicente de Carvalho não lhe basta o pintar-nos . e a tudo invade .. pouco a pouco. a desfibrar-se e a estirar-se. É o mar. onde se nos dilata de algum modo a impressão visual da impressão interior e vaga do Infinito.. Em turbilhões de ondas revoltas. Digamos. agitada e desabrida. insulta. na procura ansiosíssima da luz – avalia-se bem o brilho daquela síntese comovente. recebendo de instante em instante a . e cuja vida Corre. tempesteiando. nas “Sugestões do Crepúsculo”. cuspindo-lhe a salsugem. e. vago e oco. Tudo amortece. alenta e ao mesmo passo sacrifica em nossa terra o desenvolvimento vegetativo. ou quando ele. A uivar. no vasto nivelamento das grandes águas tranqüilas.. com a melancolia soberana que por vezes o invade e lhe torna mais compreensível a grandeza. rebela-se.. criando-se o tremendo paradoxo da floresta que mata a árvore. que em todo este lúcido panteísmo não é a floresta e a montanha que mais atraem o poeta. Tem a toada de uma reza A voz do mar. ou reduz-la ao arbúsculo que foge à compressão dos troncos escapando-se na distensão esquiva do cipó.cutilada de um corisco.e atentando-se no quanto à pletora tropical. O ermo de sombra. ou uma sorte de congestão da seiva. Do céu sem sol e sem estrelas. pela tristeza Da meia-luz crepuscular. a uivar dentro da sombra Nas fundas noutes da procela braceja com os ventos desabalados.

. que aquela miniatura shakespeariana da última fase da escravidão em nosso país absolverá completamente. Nas “Palavras ao Mar”. já elaboradas. apenas balbucia A voz piedosa do gigante.... Toda se abranda a vaga hirsuta. com a amplitude e o desafogo da sua visão admirável.Uma fadiga.. tão essenciais a todas as transformações verdadeiramente políticas. anteriormente aludida. Além disto.. as estrofes eternas das “Vozes d’África” e do “Navio Negreiro”. diante da posteridade. e à floresta. Tem a toada de uma prece A voz tristíssima do mar. plácidos ermitas. Vicente de Carvalho agarrou. entretanto. um desconforto. a irromperem dos quadros envolventes. de passagem. não se podem mutilar em extratos. À imensa desventura do africano abatido pelo traficante contrapusemos a rebentina do crioulo revoltado. bem nossas. referta de rumores e gorjeios.. Escutem bem. Os próprios troncos velhos... apenas adivinhado dos píncaros da serra. Sentimo-las. a nossa geração das culpas ou pecados que acaso lhe adviriam de uma dolorosa fatalidade social. que as emoções estéticas. Fora impossível citar tudo prolongando a tortura do contraste entre estas frases duras e a flexibilidade desses versos... não as fomos buscar somente. a mesma estrutura inteiriça torna inviolável a concepção artística. da nossa harmonia moral com a do Universo refulge num dos mais breves e maiores poemas que ainda se escreveram na língua portuguesa. remoçados. Que pede ao céu que não a escuta A voz do mar? . pelo menos. Na meia-luz crepuscular. Domado então por um instante Da singular melancolia De entorno. decorando e recitando. num lance magnífico. Quando entardece. Digamos. Toda se humilha.. a única situação heróica e fugaz – durando o que durou o relâmpago da fouce coruscante brandida por um hércules negro – de uma raça humilhada e sucumbida. aquela identidade. Em “Fugindo ao Cativeiro” – epopéia que se lê num quarto d’hora –. nos quais o metro parece nascer ao compasso da sístole e da diástole do coração de quem os recita. associou ao dramático itinerário do êxodo da turba miseranda e divinizada pelo sonho da liberdade a natureza inteira – do oceano longínquo. Como a infeliz serenidade Do embaciado olhar de um morto. às colinas que se idealizam azulando-se com as distâncias. alguns deles. Riem no riso em flor dos parasitas. .. para se definir o perpétuo anseio do ideal diante das magias crescentes da existência. exaustivamente. mercê da unidade perfeita. onde Os velhos troncos. E ainda nesse trecho. na alma da geração anterior. Ver-se-á. a murmurar. à montanha abrupta abrolhando em estrepes e calhaus.

a inspiração piedosa e casta do “Pequenino Morto”. De mim.. rosa de Amor”.. Quero cerrar com ela todos os conceitos vacilantemente expostos. Que outros definam o lírico gentilíssimo da “Rosa. Euclides da Cunha Rio – 30 de setembro de 1908. que se emparelha com as mais radiosas engenhadas por toda a poesia humana. satisfaço-me com haver tentado definir o grande poeta naturalista que nobilita o meu tempo e a minha terra. . ou os sonetos onde tão antigos temas se remoçam..imagem encantadora na sua belíssima simplicidade.

sim: mas nós não a alcançamos Porque está sempre apenas onde a pomos E nunca a pomos onde nós estamos Belas. severo ou distraído. um quase nada: Falta-lhes a paixão que em mim te exalta. Em vosso olhar. pálidas. Velho Tema: III Velho Tema: V . Hão de à força escutar quanto eu sustente. Por quê? Porque lhes falta a todas elas.Velho Tema: I Só a leve esperança em toda a vida Disfarça a pena de viver. airosas. Velho Tema: IV Eu não espero o bem que mais desejo: Sou condenado. que é cego. mais nada. pálidas. avanço. resumida.. com que sou punido. Muito de altivo.. sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Põe-se a sonhar o bem que não existe. e não rastejo. Existe. Árvore milagrosa que sonhamos Toda arreada de dourados pomos. mas ele insiste. Sonho que a traz ansiosa e embevecida. Quero que meu amor se te apresente . e ele. airosas. e o meu desejo Apenas cobra um bem que se me deve. E vou de olhos enxutos e alma leve À galharda conquista do teu beijo. Essa felicidade que supomos. O eterno sonho da alma desterrada. Que uma grande esperança malograda. um tanto de insolente. Têm a alvura do mármore. Digo-lhe quanto sei. E anda à vista naquilo que mais vejo. e segue-as num cortejo Extensa multidão de almas cativas. E indiferente e desdenhoso as vejo Belas. e disso convencido. São penas e verdades que sobejo. outras mulheres vejo: São rainhas. altivas.Não andrajoso e mendigando agrados. Como tu mesma. É uma hora feliz. Um detalhe sutil. Mesmo às que são mais puras e mais belas. Vossas palavras. Nem ele mais a desejar se atreve Do que merece: eu te amo. dominados. Mas tal como é: — risonho e sem cuidados. lascivas Formas. os lábios feitos para o beijo. Velho Tema: II Eu cantarei de amor tão fortemente Com tal celeuma e com tamanhos brados Que afinal teus ouvidos. Clamo. altivas. Pois nem se esconde nem procura ensejo. falta O vago encanto da mulher amada. Nem é mais a existência. Tudo quanto afirmais eu mesmo alego: Ao meu amor desamparado e triste Toda a esperança de alcançar-vos nego. E entre os encantos de que brilham. Conto-lhe o mal que vejo. O que dizeis é mal muito sabido. e não gemo.

Deixa a saudade e foge da esperança. Louca.. morrer comigo Este amor criminoso e condenado. querida. engano. Assim penso. se puderes: Que a bondade nas mulheres É como o aroma nas flores... entre as formosas Reina e brilha. assim me engano. Bem meu que de teus males fosse feito".. E tu és de outro. Sendo bonita e mais nada Cumpre a mulher com fulgor Sobre a terra iluminada O seu destino de flor... Meiga. Sê resignada: a roseira Que mais viça e mais prospera Velho Tema: VI “Lembra!” diz-me o passado. menos eu: Beijo dos lábios da mulher amada. Tu. entre as melhores Sê a melhor.. E assim possa morrer. Serás feliz? Ai. Como se não sentisse que em meu peito Pulsa o covarde coração humano.” “Sonha!” diz-me o futuro: “O sonho é tudo. o teu único bem. Sê bondosa. E o desgraçado coração humano Só com o que não possui é que é feliz. abençoado O rigor que te salva e é meu castigo. assim quero. Sê sempre pura! Eu com denodo enjeito Uma ventura obtida com teu dano. Eu sou a mocidade. e nunca serás meu! Menina e Moça Tu. eu sou o amor. Faze do pouco que teu braço alcança O teu mesquinho. nem ouças o que eu digo. todos. Ama e sê amada: o amor Na areia solta da vida Brota roseiras em flor. que eu persigo Com o meu sonho de amor e de pecado. Abençoado seja.. Assim desvies sempre do meu lado Os teus olhos. que és quase uma criança E acreditas quanto diz A enganadora esperança De ser amada e feliz. se puderes: Que a beleza nas mulheres É como o viço nas rosas. “Alma suicida. que és quase uma criança E que enlevada sorris À tentadora esperança De ser amada. porque nisto Todos se enganam. o olhar que se enamora De quanto vê pelo caminho em flor. Para o teu coração cansado e triste É recordar-me — o único bem que existe."Alma serena e casta.. e calo-me: desisto De quanto me prometem. não peças à árvore da vida Mais que os amargos frutos que ela tem. não queiras Ser feliz: às mais ditosas Brotam mágoas entre as rosas Como espinhos nas roseiras. O único bem és tu! Não há mais nada. Eu sobre as tuas pálpebras sacudo A poeira da ilusão! . e feliz: Sê formosa.” Eu ouço os três.. “Eu sou a aurora E a primavera. formosa. sonha e bendiz! Eu sou o único bem porque te .” “Vive!” diz-me o presente.

. Num eco de sua voz piedosa. Pequenino.. Pequenino. acorda! Que caminho triste. Vai chegando a hora. E no meio a cama. e chora Na melancolia do cair da noite. pela noite fria... Pequenino. hirtos sempre. No caixão dourado. É a hora quando a procuravas.. Como aquela imagem de Jesus. tange.. teu quarto era tão lindo! Havia Na janela jarras onde abriam rosas. Pequenino.. e que viagem! Alas De ciprestes negros a gemer no vento.. em casa.Dá rosas na primavera E espinhos a vida inteira. Acorda! Olha que te levam para o mesmo lado . Pela Ave-Maria. tão desconsolado.. Por aqui. acorda! Recupera o alento. Vai rezar com ela! E depois. como em berço de ouro. levam-te dormindo...... como em berço de ouro. De lençóis de linho no colchão de penas. Numa voz de choro. vai chegando a hora Em que a mãe ao seio chama o filho... tange.. Como vais bonito. Acorda! Olha que te levam para o mesmo lado De onde o sino tange numa voz de choro.... Que suaves coisas que tu murmuravas... macia.. o sino diz adeus.... A espaços. Pequenino.. De mãozinhas postas.. É a hora Do cair da noite. a rezar com ela. só cruzes com seus magros braços Que jamais se fecham. Tanta boca aberta de famintas valas A pedir que as fartem. Pequenino.. De onde o sino tange numa voz de choro. de vestido novo Todo azul celeste com debruns de prata! Pequenino. acorda! E te acharás tão lindo Florescido em rosas! Tange o sino. No caixão dourado.... como procuravas Tua mãe!. Foge das cobiças dessas fundas valas. tão desconsolado.Com a grinalda feita de botões de rosas Trazes na cabeça um resplendor de flores. No colchão de penas. Badalando... tua mãe saudosa Reza a sós. levam-te dormindo. é pena que não possas ver-te. acorda! E gostarás de ver-te De vestido novo. toda alvor.... acorda! Como o sono apaga o teu olhar inerte Sob a luz da tarde tão macia e grata! Pequenino.. tão lindo Que até vai levado em cima dos andores. numa voz de choro. A pedir que as encham. Sobre a fronte loura um resplendor fulgindo . numa voz de choro Numa voz de choro. Que acordar alegre nas manhãs cheirosas! Que dormir suave..... Pequenino Morto Tange o sino. a esperar que as encham. Pequenino.

. para arrecadar seu patrimônio.. É tarde!. do Amor e da Harmonia. E. entregando ao Diabo a metade do mundo.. como era de razão. Lá ficaste.. Deu-lhe a parte pior. porém. Pode o Senhor fazer esbanjamento de ouro Nas estrelas da noite e no esplendor do dia.. Só uma vez Satã respirou satisfeito. Acorda! Olha que te levam para o mesmo lado De onde o sino tange numa voz de choro... acaso.. abrindo-se. Tão sozinho sempre por tamanha noite!. coube em partilha a treva. tange. Sobre ti cai todo esse montão que ao lado Vai desmoronando.. ao sair do seu covil estreito.. cheia De lepra e maldição como o punho de Jó. semeia Astros de ouro no céu. Pequenino. debruçado à beira Dessa cova funda? Vais ficar sozinho no caixão fechado. Pequenino. De repente se achou dentro do Paraíso. Numa voz de choro. o Imundo Foi forçado a varrer todo o cisco do chão. tão desconsolado. a mão sacode..Tange o sino.... Nem caminho deixam para quem lá dorme. No caixão dourado.. Eis fechada a cova.. levam-te dormindo.. E arregaçou-lhe o beijo um pérfido sorriso: Quando. Satanás. Nem acordes nunca! A Invenção do Diabo Deus. E. como em berço de ouro. .... dorme! Pequenino dorme. acorda! — Pequenino!.. A enorme Noite sem aurora todo amortalhoute... Pequenino. Pode esparzir na areia as pérolas do orvalho.. E ele lá no seu reino escuro a vida leva De um cão magro a que dão muita pancada e um osso. O ódio como prazer. numa voz de choro. Para quem lá fica e que não volta nunca. Fazer a primavera — e por em cada galho O gorjeio de uma ave e o riso de uma flor. acorda! Por que estacam todos dessa cova à beira? Que é que diz o padre numa língua estranha? Por que assim te entregam a essa mão grosseira Que te agarra e leva para a cova funda? Por que assim cada homem um punhado apanha De caliça. Tomando para si todo o imenso tesouro Da Bondade e da Luz.. A Satanás. vai desmoronando? Pequenino. como covil um poço. Marchetar de rubis a asa de um beija-flor. messes de ouro no pó.. e espalha-a. enquanto a mão de Deus. furioso. Não será bastante para que te guarde? Para que essa terra que jazia ao lado Pouco a pouco rola.

II Estranha voz. Cuja humildade nem parece Provir do mar bruto e feroz. Toda se humilha. Do céu sem sol e sem estrelas.. pela tristeza Da meia-luz crepuscular. Como a infeliz serenidade Do embaciado olhar de um morto. Espantado. Do mar. Aumenta. . Como um resumo viu de toda a primavera Na frescura sem par daquela boca em flor. imperfeito e indeciso. Eva. De um suspiro de amor. a murmurar. formosa e nua. Eva os lábios abriu — e abriram-se.apenas balbucia A voz piedosa do gigante. imprecações de dor. Entreabriu-os Satã. de rosas ao sereno. a tudo invade Uma fadiga. E foi somente então que o Príncipe das Treva Imaginou o Amor furioso e desgrenhado. E resolveu fazer dos róseos lábios de Eva O cálix consagrado às missas do Pecado.A primeira impressão que teve foi de inveja: Daquele estranho quadro o imprevisto esplendor.. Domada então por um instante Da singular melancolia De em torno. e cuja vida Corre. vago e oco. um desconforto. Uma idéia triunfante. de repente.. alastra e desce pelas Rampas dos morros. Sorriu.. uma sinistra idéia. Só lhe pode arrancar à boca malfazeja Uivos de cão ferido. ardente e encantador. Sobre um macio chão todo em musgos e rosas. De céu do amanhecer franjado em rosicler. orvalhadas. Satã viu que esse mármore era Animado e gentil. pagão criado às soltas Na solidão. adormecera ao luar: E sobre a alva nudez dessas formas graciosas Satã deixou cair um desdenhoso olhar.. Tinha inventado o beijo da mulher. O ermo de sombra. Mas. Lábios feitos de mel. Tem a toada de uma reza A voz do mar. estranha prece Aquela prece e aquela voz. Fuzilou-lhe no olhar e iluminou-lhe o rosto... como o corisco clareia O tenebroso céu nas borrascas de agosto. Mas num sonho talvez de cousas ignoradas. Num desejo sem alvo. pouco a pouco. as rosas de um sorriso. agitada e desabrida.. Sugestões do Crepúsculo -IAo pôr do sol. Tudo amortece. Toda se abranda a vaga hirsuta. e enchendo-os de veneno. Que pede ao céu que não a escuta A voz do mar? .

Donas do campo.a sombra e a paz. Quando entardece. Torvo gigante repelido Numa paixão lasciva e louca. De entre a celeuma. tirano enfurecido... Pragueja. com o fito De lhe escapar.. da sombra em meio. as ondas rugem. E o monstro impando de ousadia.. o céu e o mar. vai com as suas Ondas e a sua espumarada Lamber. cuspindo-lhe a salsugem. afrouxa. Comove-se à melancolia Conventual do entardecer.III Mais formidável se revela. E mais ameaça. ébrio de amor. . . Tenta despir o seio duro E virginal da terra em flor. Quando.. dentro da sombra Nas fundas noites de procela. Tanto beijar como morder.. Tremendo e próximo se escuta Varrendo a noite. Barrancos nus e rochas nuas. e mais assombra A uivar. um estampido Avulta e estoura. com o agudo Sibilo de uma chicotada. .IV A alma raivosa e libertina Desse tenaz batalhador Que faz do escombro e da ruína Como os troféus do seu amor. Em cada ríspida rajada O vento agride o mar sanhudo: Roça-lhe a face. E pelas praias aonde descem Do firmamento .. se esconde — e anseia Atrás de cômoros de areia E de penhascos de granito: No encalço dessa esquiva amante Que se lhe furta.... A alma rebelde e mal composta Desse pagão e desse ateu Que retalia e dá respostas À mesma cólera do céu. Ouvem os ermos espantados Do mar contrito no clamor A confidência dos pecados Daquele eterno pecador. achado o rastro. e assim Como uma vaga sonolência O luar invade o céu sem fim. e as maretas solta adiante Como matilha. De quando em quando. A alma arrogante. Como o fragor de uma disputa Entreo tufão.Em turbilhões de ondas revoltas. E. Sonha a nudez: brutal e impuro. E pelas várzeas que emudecem Com os derradeiros sabiás. que vive a combater. mora o rugido. Segue. um tênue risco De chama vem. segue o mar. Troveja o céu ameaçador.. Cuja ternura assustadora Agride a tudo que ama e quer... a farejar. desafia O céu. nas praias onde estoura. na terra devastada. a uivar.. Mas a batalha é sua. alto e maior. insulta. E o mar recebe em pleno seio A cutilada de um corisco. vence-a: Cansa-se o vento. indistinta e espiritual. Escutem bem. Na meia-luz crepuscular Tem a toada de uma prece A voz tristíssima do mar. No seu clamor esmorecido Vibra. Debalde a terra em flor. Alguma coisa do gemido De um órgão numa catedral. Branco de espuma. É todo fúria: em sua boca Blasfema a dor. E vai. enchendo o ar.. a alma bravia Do mar..

tenho uma pena infinda De nós: Provoquei esse pranto humilde e resignado. Seja fingido embora o teu agrado.. .. para mim. do que fiz. Tu sorris? Por quê? Sorris De uma vontade que tomei por norma No que fui..como uma primavera Em mim E fiz todo esse mal que com algumas frases Te fiz Só porque te amo.. Isso me deixa consolado Do que fui. Há pouco. esse resplandecente Olhar. doido eu de amor. Choras?. o que fiz.... Fragmentos da "Arte de Amar": II Ofendi-te. Eu. apunhalei-te a golpes de ironias Brutais.Não. Nasceste atriz. Do teu suave amor. a ti. que o que eu não quis Quero agora. Turvo. És tão boa! Finges tão bem o amor. turvo de pranto. vejo-te humildemente Chorar. mais que contigo ainda. Julguei mal a que adoro... Sorria em tua boca em flor tua'alma toda Em flor. no que fiz. Quem se acredita amado se conforma Com o poder dos encantos feminis: Tudo explica e desculpa. tu doida De amor. Desfolhei esse teu lindo sorriso que era Assim -Mais ainda que em ti . A todas condenei de foz em fora. só porque tu me fazes Feliz.. Que bem pus fora à toa! Fui imbecil. Pois confesso que nisso se resume O que fui... E assim fui no que fiz. bem vingado. Fui comigo também. Porque abrolha em espinhos a roseira Quem negará que as rosas são gentis? Do teu encanto de mulher faceira Ninguém dirá .. pois. que te quero tanto.. e se maldiz.. que se não queira. de tal forma Que. Fui infeliz..Fragmentos da "Arte de Amar": I Dizer mal das mulheres é costume De todo o amante que não foi feliz: Um coitado mordido de ciúme Tudo maldiz.e ninguém diz Que é coisa sem valor. o que fiz. Feroz: Vendo-te assim chorar. Sou infeliz Pois com remorso reconheço agora O que fui. Eis me vingado. Brutal... que me queiras Demais. e que me adora E as mulheres.E depois.. És tão linda! Eu adoro-te. por pérfidas e vis. de quanto Sofri.És boa atriz....do meu suave encanto Por ti..Aos imbecis É caridade perdoar. Perdoa No que fui . Agrada-me! Os teus modos infantis Me dão a idéia de que sou amado.o que fiz..

Por fazer-te infeliz. Caro se paga em alma.. Sorris?.. alta e serena. a ninguém! Mais valerá. em corpo.. nunca. às mulheres. É bela E finge que te quer bem. . imensa. A ampla curva do céu das noites de geada: Como a palpitação vagamente azulada De uma poeira de estrelas. Uma cena de ciúme sempre custa Depois. e bens. ao longe. Fragmentos da "Arte de Amar": III "Nem mesmo com uma flor.. em bens. menos dirás que as tens: Afinal.. Declara-te feliz.." Fragmentos da "Arte de Amar": IV Se a tua amante é bela E tem ciúme." Diz o provérbio árabe. e sê galante: O seu amor que tu nâo tens Que falta faz? Melhor do que possuir o amor sempre exigente De uma mulher que além de ser amada é bela Mais vale à gente Viver com ela Em paz..Vais perdoar? Mas. Que mais reclamas? Ela Com ser linda e fingir . Em cima. Em plena Serra do Mar. Queixas de amor que tiveres Não as dês a entender.. A culpa de sem perdão De ter. disforme. fria como a neve. Em plena mata. Parece Que com dobrado primor Falara êle se dissesse: "Nem mesmo com uma frase Sequer Seja ela embora tão leve Ou quase Como a mais leve pluma Se deve Bater numa Mulher.dá quanto deve E tem. Engana-te ela e finge que és amado? Engana-a tu também Fingindo-te enganado: Vivendo assim perfeitamente bem Os dois. Fugindo ao cativeiro Horas mortas. alguém o não perdoa: Sou eu. Negra. calá-las. ter contra elas. finge que o não tens. Ou caro pagarás Com alma. Poupar-te-ás a quanto. injusta ou justa. Não o perceba ela. sou o mais desgraçado Dos dois. ó tu que és tão boa. O meu Crime de te magoar. Razão.. e sorrir: Ouvidos de mulheres Só ouvem bem o que lhes soa bem E lhes convém Ouvir Pois tua linda amante Finge que te ama.dá-te parabéns. Pois tua amante. E quanto mais tiveres Boas razões.Depois. corpo.. Inverno. Cada uma dessas coisas pueris Que um ciumento a cada passo faz Ou diz.

como em torrente Furiosa. . e por tudo. Do fundo dos grotões outra vez se subleva. inteiriça Sob a rija galhada o torso de gigante. brutalmente Enlaçando à jissara o talhe adolescente. Surge. o chão. ressurge. Que. Atulhando o desvão de dois troncos.Uma vegetação turbulenta e bravia Rasteja. vai rolando na treva Despedaçadamente e indefinidamente. Rugem sinistramente as moitas sussurrantes. assim. fura. como em fuga Precípite. quase maciça De tão cerrada. . Toda essa multidão desgrenhada fundida Como a conflagração de cem tribos selvagens Em batalha . alastra. e logo. Aguça o ouvido ansioso e a visão quase extinta: Lembra .urros de onça faminta A mal ouvida voz da trêmula cascata Que salta e foge e vai rolando águas de prata. E. afogando arbustos. Na sombra em confusão do mato farfalhante. Como um sonho febril no seu sono ofegante. a confusão do mato Gera alucinações de um pavor insensato. o orvalho. em redouças balouçando Hastes vergadas. As trepadeiras. e em cada humilde arbusto. a cordilheira dorme. touceiras De brejaúva. sem rumo. em convulsões. porfia: Moitas de craguatás agressivos. além levemente se enruga Na crespa ondulação de cômoros macios: Resvala num declive. o espaço. Há contorções de raiva ou frêmitos de susto. bruscos como arrepios. Rajadas sorrateiras De um vento preguiçoso arfam de quando em quando Como um vasto motim que passa sussurrando: E em cada árvore altiva.. e em tudo emaranhadas. ... Acesa num furor de seiva transbordante. galho a galho acorrentando Árvores. Trepa agora alcantis por escarpas a prumo. a desdobrar-se pelas Amplidões do horizonte. Tumultuando. imperturbavelmente imóvel. Ao pé do tronco dominante. recai. rasteiras Trapoeirabas tramando o chão todo. a vida.Enegrecendo a noite. oprimida e em perpétuo levante. Despenha-se de chôfre ao vácuo de uma furna.em riste as flechas oriçadas De espinhos. A mata é tropical: basta. através da escuridão noturna. Eriça-se em calhaus.e talvez abafe . Mais repousado. Muge na sombra a voz rouca das cachoeiras. o chão corre às soltas. enrosca-se.a agitar cem formas de folhagens Disputa-se o ar.. Na confusão da noite. Acoitam-se traições de abismo . a plebe Da floresta. Cem espécies formando a trama de uma sebe.

Penedos traçam no ar figuras de gigantes. Rompendo o mato e a noite. . Vêm de longe. Improvisam o rumo ao acaso das moitas. rumo do Jabaquara . A tortura da marcha imposta ao corpo exangue. e a longa Marcha através da noite e das furnas avança. O bando É numeroso. Um bruxoleio mais mortiço da esperança. em vaivéns. São cativos fugindo ao cativeiro. vagarosa. E Mães. bem mais alta que o Calvário. Uns tardos caminhantes Sinistros. Vão andrajosos. A rajada mais fria arrepiando a floresta E a pele nua.. se prolonga. Bem mais fragosa. Da vasta escuridão que os cega e que os ampara.numa alfombra. . investindo as ladeiras. Galga de fraga em fraga a montanha fragosa. . Vão calados. II Ei-lo. O joelho exausto que. Levam com o coração mais do que com o braço Os filhos pequeninos.. infinda. o tremendo Cativeiro. no atropelo Da fuga perseguida e cansada. De furna em furna a Serra.. esboçados na sombra. E através desses grotões por onde Se arrastam. arrima o pai octogenário: Os mais valentes dão apoio aos mais franzinos. Hesitando. alenta-os a esperança: Fica-lhes para trás.. Incita-os o terror. . Passam. E o seu cume de súbito aparece De um resplendor de estrelas aureolado. De quando Em quando . contra a vontade. como visões vagas de um pesadelo. poupando o fôlego. vão famintos. E a longa fila segue: a passo. Do mato que obsta e apaga os seus passos furtivos. meio nus. almas de hebreus. Seguem.. a agonizar de fome e de cansaço. o termo desejado Da subida: a montanha avulta e cresce De um vale escuro ao céu todo estrelado. Vão arrastando os pés chaga dos de frieiras. .A Canaã dos cativos. como de dobra em dobra.. um choro de criança. ajoelha. se desdobra. E flexuosa.. a aresta De um seixo apunhalando o pé já todo em sangue: Uma exacerbação nova da fome velha. Em recuos de susto e avançadas afoitas. tropeçando. Cada ruído ameaça. De sombra em sombra a noite. Conta uma nova dor em peito já dorido. imensa. Um grito de mulher.. e cada vulto assombra. do sertão que os esmaga e os esconde. vão morrendo. o espinho entrando a carne. para longe. A longa fila ondula e serpenteia. Um.fio d'água humilde murmurando As tristezas de um lago imenso algum gemido. por fim.

Tiritando.. Falta-lhe a fôrça. E.. em tôrno. Tenta erguer-se. e recaí. . em tôrno..E do caminho em meio Ela... por instantes Pensam que a morte hão de encontrar bem antes Do termo desse itinerário infindo. aperta e espreme. Ela ergue os olhos para o céu distante E pede ao céu que descortine a aurora: Dorme embuçado em sombras o levante.. morrer nos próprios braços. explode . o mato das barrocas. . Os olhos fecha para não ver nada. faz tanto frio! . Árido e seco!.. tenho fome!" a criancinha geme. de espinhos. arrastando para longe os passos.. dos trapos arrancando o seio. Põe-lho na boca ansiosa. numa curva O bando esgueira-se. Mas ai! Tão longe ainda! . ela de medo.. para os seus abraços. Morrer de fome. a chorar.. Tôda a coragem na alma lhe esmorece.. e os olhos apagados. Esse cadáver pequenino. ela e o filho. de estrépitos. Vai-lhe morrer. E tudo vê com a alma alucinada. Tão longe ainda!. Ficam sós. estaca e treme.. Há de ficar sozinho. E apenas o eco lhe responde ao grito.E os peitos arquejantes. Mal bruxuleia pela noite fora Das estrelas o brilho palpitante... perdido Para os seus beijos. Toda essa vida morta de improviso.. a vista se lhe turva. E as fôrças e a coragem sucumbindo. Desde a cabeça aos pés. ao longe. Onde passa a visão errante e vária Dos lobisomens ameaçadores Em desfilada solta e tumultuária. E de permeio A vastidão da sombra sem caminhos.. Um fundo vale. a brusca Voz do vento ululante e cavernoso. aterrada e muda. O amado corpo deixará. . . E sacudindo os ramos e o folhedo Movem-se as árvores gesticulando. e. e desaparece. aterrados. "Mãe. E ela.. Hão de ficar no chão. E tudo vê com o coração aflito. Estacando. cheia de pavores." E a mãe os olhos desvairados lança Em torno..granizo... uma criança Diz com voz débil: "Mãe. E. afastando-se. agonizando. e o riso Murcho no lábio.. cheio De fantasmas. E o mato. o filho bemquerido. tenebroso e feio. Ulula o furacão de quando em quando. . e vê apenas o sombrio Manto de folhas que o tufão balança. soluça e brada. E ela. Que ao mais leve rumor se assusta e busca O asilo do seu seio carinhoso. Ele a morrer de fome. abandonados À inclemência dos sóis e do Esse entezinho débil e medroso. a vasta noite solitária Cheia de sombra. Dentro se lhe revolta a carne. tôda estremece.

só. triunfantes. Murmura.. exsurge à superfície Do alto cimo. em pranto. nos olhos a alma e a vida. Descem barrancos e . risonha. Tardo. de repente Larga-o no chão e foge como louca.. Andrajosos. extasiado. Num verde-claro de ervaçal que ondeiaA aparição da Terra Prometida.. trôpego. Clara... aberta. em frente. Arrancando-o do seio. Sob o orvalho das fôlhas gotejantes. esboçando . Adora o Céu nessa visão terrena. Amanhece por fim. compreende-a pouco a pouco. Pode menos que a indômita ansiedade Em que o terror os músculos sacode! Ela.. a boca. dessa turba macilenta: Um borborinho de palavras loucas. vê-a Anunciando próxima. e ajoelhado. nos longes da planície O olhar quase apagado. e quebra-lhe a vontade: Mães. De frases soltas que ninguém escuta Na vasta solidão se ergue e se espalha. Começa a íngreme descida. Enchendo o céu inteiro. E de mãos postas sempre. Todo trêmulo. As colinas azuis do Jabaquara." Seguem. O olhar dos fugitivos Descansa enfim na terra milagrosa Na abençoada terra Onde não há cativos. E desvairada. Ele. resmungando. Fita-a. o mesquinho e o bemaventurado.No chão que brilha de um fulgor de areia. com a trêmula cabeça Toda a alvejar das neves da velhice. dessas bocas Famintas. De mãos postas. apertando o filho estreitamente. Rosando os morros e dourando o céu. Descem. tão sonhado Lá do fundo do escuro cativeiro. reza esta oração serena Como um tôsco resumo do Evangelho: "Foi Deus Nosso Senhor que teve pena De um pobre negro velho. Uma explosão de júbilo rebenta Desses peitos que arquejam. verdejante: E ao fundo do horizonte. Um coitado. vosso grande amor.. E espraia-se risonha. Entre as moitas cerradas de espinheiros. O dia de ser livre. desamparado. ao fim da extensa Macia várzea que se lhes depara Ali. logo adiante. E em pleno seio da floresta bruta Canta vitória a meio da batalha. ajoelha. ébria e tremente. uma planície imensa. A caravana trôpega e ansiosa Chega ao tope da Serra. Longamente. Esfumadas na luz do sol nascente.. E recomeça A peregrinação entontecida No labirinto da floresta espêssa. duvida. Distingue-a mal.. repousa.. Em baixo da montanha. famintos. consolado. III Aponta a madrugada: Da turva noite esgarça o úmido véu. Seguindo a turba gárrula e travessa Que se alvoroça e canta e salta e rise.. leve e dourado. Chega afinal.O instinto bruto. próxima. alvoroçada. que tanto pode. Quase a seus pés. Beija-lhe os olhos úmidos..

Tudo é festa. da alegria Deles. como um agouro e uma ameaça. nôvo alarido passa. Severos e calados... remoçados. A água das cachoeiras. Alcatéia usurpando a forma e a face humana. Os próprios troncos velhos. num alarma instintivo. E os frangalhos ao vento. escutando o silêncio. E morro abaixo vem ladrando-lhes no encalço. cheia Do murmúrio das fontes. Riem no riso em flor das parasitas.. em fúria. em rilha Os dentes. Presa a respiração. Uiva a matilha enquanto inquire o chão agreste. Descem rindo. . alongado o pescoço.. Varando acaso às árvores a sombra Da folhagem que à brisa arfa e revoa.. clara e pura. João se dependura Festivamente à beira dos barrancos. Mas no meio Dessa alegria palpitante e louca. da voz dos pássaros. pelo caminho Por onde fogem como alegre bando De passarinhos da gaiola escapo . seu nome em lágrimas gemendo.Fica um pouco de trapo em cada espinho E uma gôta de sangue em cada trapo. a cantar. Grita e avança em triunfo a soldadesca ufana. espreitando A solidão. Tôda a floresta. felizes. Como. plácidos ermitas.. Sem reparar que atrás. aos solavancos. Uma mulher. cheirando A aragem. alvoçada investe E vai correndo e vai latindo de mistura. Rosna ao dar-lhes na pista a escolta que os procura. em vozeria E em confusão.. Que transborda do seio E transbordada canta e ri na bôca. Nova rajada vem. acabrunhada. Vão alegres. arquejando. topando o rastro inda fresco da caça. gorjeia. do fundo dessas selvas brutas Chama-a. onde geme que tão bem o escutas Teu filho agonizante? IV De repente. Na verde ondulação da úmida alfombra O ouro leve do sol bubuia à toa. ruidosos. Descem rindo e cantando.. Uma vozinha ansiosa e suplicante. Um alarido de vozes estranhas passa Na rajada do vento. Os velhos troncos. Mãe. Estaca e põe-se alerta o bando fugitivo.despenhadeiros. e a cada Instante os olhos para trás volvendo: De além. absorta. Segue parando a cada passo. assim. Imóveis.. Seguem. Como um bando De ariscos caitetus farejando a matilha. o olhar em fogo. E de repente. Salta de pedra em pedra.. em sangue o pé descalço.. Estacam.. E a flor de S. Sem reparar que os pés lhes vão sangrando Pelos espinhos e pelas raízes. dilatada a narina.

Arqueja. Lança Em tôrno um longo olhar tranqüilo.. humildes e tristonhos. correi. Hércules negro! Corre... E enquanto a caravana Desanda pelo morro atropeladamente. A morte assim me agrada: Eu tinha de voltar p´ra conservarme vivo. Além. Sôbre eles. Adeus. para sempre. Arrasta-se. Tangidos do azorrague e abrasados de sonhos. Como a trôpega boiada. A várzea está lá em baixo. Vou morrer combatendo e trancando o caminho.. as angústias da volta. se emaranha. saltai pelos despenhadeiros.. Agrupam-se. hesita. vencidos. sonho apagado De ser livre! É preciso acordar. Se arrasta pela areia adusta de uma estrada: Volverão a arrastar-se. uma funéria noite Cai. figura humilde e soberana.. e chora.... torvo. E é melhor acabar na ponta de uma espada Do que viver cativo". e desanima.. fitando o vasto céu deserto. fulge na luz da manhã leve e clara. o Jabaquara é perto. para longe e para o cativeiro. Foge. abrasada de sede e tangida do açoite. e acordado Ver-te ainda.. Mães aflitas levando os filhinhos de rastos. a dentro e barrocais a fora. Deixai-me aqui sozinho. E. Ingenuamente exprobra o Pai que enjeita os filhos.. Rompendo o mato e rolando a montanha. Os fugitivos. nesse aproximar da escolta Sentem que vai chegando o epílogo da fuga: A gargalheira. Eu vou morrer. de esperança. a algema.. Nesse magote vil de negros maltrapilhos Mais de um olhar. novamente. velhinhos Esfarrapando as mãos a tatear nos espinhos. Param. abrasa-lhe nas veias . E voltar. tropeça. escutando o tropel e os rugidos Da escolta cada vez mais em fúria e mais perto. Perto..Almas em desespero arfando em corpos gastos. Que.. Tôda essa aluvião de caça perseguida Por um clamor de fúria e um tropel de batida.. Fica. Foge. E diz aos companheiros: "Fugi. moitas. decerto. A tremer. a escolta o passo estuga.. O contôrno ondulante e azul do Jabaquara.. bramindo. Homens com o duro rosto em lágrimas. e dizer-te um adeus derradeiro. Ele. e a pé firme espera o inimigo iminente... Destaca-se do grupo um fugitivo. esbarra. afrouxa. Pelo deserto areal desse caminho estreito: A vida partilhada entre a senzala e o eito. terra bendita! Adeus.

inerte. armava um golpe.. inerte. Não pode a escravidão domar-lhe a índole forte. ele ergue a foice: a foice volta... formidando. E. e matando. jamais!" respondem as foiçadas Turbilhonando no ar. Tudo nele. Visa. coriscando no ar. vai fugir. a foice rodopia. ébrio de covardia.. Sobre ele vem cruzar-se o gume das espadas.. E retalham-no à solta os gumes das espadas. E não se entrega.... Recua. E rola sobre a terra uma cabeça solta. Acostumado à guerra. Ágil. o lutador vencido Todo flameja em sangue e expira num rugido. O negro abrira um passo à frente. E vagarosamente alçando a carabina. Ele. Sem que lhe ensombre o olhar o medo suplicante.. e não fraqueja. Cantigas praianas: I Ouves acaso quando entardece Vago murmúrio que vem do mar. A coragem resiste. sente o gosto da chacina. E retalhado. De repente Estremece-lhe todo o corpo fulminado. batendo as fráguas. a agilidade vence. defendese e repele. Assanham-se-lhe em cima os golpes sem resposta. Afinal um soldado. choram em vão: O inútil choro das tristes águas Enche de mágoas A solidão. possante. A cantar e a sorrir no meio da carnagem A desprezar a morte espalhando-a às mãos cheias. "Ah. peleja: O braço luta. Pende-lhe. ousado. e ferindo. exausto. Faz frente: um contra dez. Recua mais. indefeso Ilumina-lhe ainda a face decomposta Um derradeiro olhar de afronta e de desprezo.. Erguendo o braço. Duvidas que haja clamor no mundo Mais vão. Choram as ondas... detém-se: Fora da luta. o braço.Sangue de algum heróico africano selvagem. e não recua. prendê-lo. heróico. e ajoelhá-lo diante Do carrasco e da algema: Sorri para o suplício e a fito encara a morte Sem que lhe o braço trema. alma e corpo ajustados. E vergar-lhe a altivez. Erguera a foice. Vago murmúrio que mais parece Voz de uma prece Morrendo no ar? Beijando a areia. o olhar ameaça e desafia. para um lado. De lado a lado o sangue espirra a jorros. mais triste que esse clamor? Ouve que vozes de moribundo Sobem do fundo Do meu amor.. Impotente. . a devastar aldeias. desfecha. Cai-lhe das mãos a foice. Como enxame em furor de vespas assanhadas..

Tu eras uma roseira.. amanhece. Corre em procura do mar.. Vejo cobrir-se de rosas Um lábio que me sorri. Amor que me vais levando! Terá fim esta descida? Há de ter. Meu destino está traçado: Amar. a lua serena. Emcima. Gorjeie o sabiá gemendo Nas aroeiras em flor: Mal o escuto e não o entendo.. Tão forte.. Que há de entender no exagêro Das queixas dos infelizes Quem ama come eu te quero E escuta o que tu me dizes? Sei que há roseiras viçosas Por que. amar toda a vida. corre para o mar.. Cantigas praianas: VII Tinha momentos amargos Teu amor.Cantigas praianas: II É tão pouco o que desejo. a chorar: Desce da encosta do monte. Pende de rama tão alta. Pobre da fonte.. Perdição da minha vida.. E turva.. Fica noite se te vais. quando Eu estou à tua espera. minha sina está lida. Quem não perdoa um espinho Pelos encantos da flor? Depois. Que por mais que em roda espreito Só te vejo a ti... arrufos. Logo que tu vens chegando.. Meu amor! bem compreendo Onde vou nesta descida. e tenho pena. E eu pensando em minhas mágoas. Ouço o mar. que era tão doce.. Temi esse amor tão grande. caprichos. Só por que a flor do teu beijo.. baqueia Na vargem. Os meus olhos são de cego Para o que de ti se aparte: Só em te ver os emprego. Cantigas praianas: VI Sobe o sol? A noite desce? Dia e noite são-me iguais: Se tu chegas. Ninguem sabe o que suporta O mar que chora na areia Por essa tristesa morta Das noites de lua cheia: Embaixo o pranto das aguas. sempre a chorar. Mas é tudo o que me falta. Nem posso dizer que fosse Tudo céu naquele céu: Deu-me carinhos e zelos Gosto e desgostos. Contudo Tenho saudades de tudo. Mal me bastam para olhar-te. Seja abril ou junho.. Morrer de não ser amado. . Eram apenas o ensejo De mais sabor em teu beijo E mais viço em meu amor.. Cantigas praianas: V Eu sou como aquela fonte Que vai tão triste. Que só sei do meu amor. Meu amor é todo feito De neblina tao cerrada.. Morre nas ondas do mar.. E vou chorando e descendo.. Mas onde? e quando? Com pouco mais que descaia Lá vai a fonte parar: Chega na beira da praia. De tudo que ele me deu. Corre. Principia a primavera.. Ai. mais nada. turva de areia.. tão exclusivo.. com os olhos em ti.. Perdição de minha vida. Que eu topara no caminho.

luminoso e alegre. sois inocente O crime do meu amor. Desvias dos meus olhos infelizes Cantigas praianas: IX Vida. porque os inda tenho Se já te não hei de olhar? Ai. que eu preciso . um grande esforço. Como simbolizar O passado. Olhos. Ou passa porque nos cansa. Folhas soltas: I Ontem.. e morre.Que me tornava cativo Dos teus caprichos sem lei: Tentei do seio arrancá-lo. hoje.. indiscrição bendita. Folhas soltas: II Nem só o olhar dos olhos de que quem ama Revela o amor que se supõe discreto.. de criança. O bem que de ti se alcança Ou passa porque nos foge. Nem sei de bem pela terra Que mereça algum empenho. E debalde a palavra finge e mente: Na voz que treme o coração palpita. E rindo-se (de quê? de tudo) uma caveira.Um rosto. Vida que corres tão cheia Para a morte tão vazia. e é meu.. nesse mas se resume Tudo que sinto e não digo Hoje que sofro o castigo De ter cedido à razão. e não vosso Esse crime sem perdão. Duas mãos perseguindo uma bolha de espuma. Perdido para o teu beijo. foi apenas Meu coração que arranquei. E o meu amor sem teu beijo. O crime de um suicida Que em sonhos esbanja a vida Sabendo que sonha em vão. porém chorar. que és o dia de hoje. o presente. Ou antes. Mas. Haverá queixa mais justa Que a do feliz que se queixa? Ai.. E a minha vida sem ti! Ainda mesmo quando corre Na vida dos mais felizes... . A mágoa deita raízes. Certo venci com deixar-te O encanto que me encantava Quando eu tinha a vida escrava Dos teus braços na prisão. Que ele não foi. Tem alicerces de areia O que constróis cada dia.. o bem que menos custa Custa a saudade que deixa. o futuro – as três fases Da vida? Com três frases De sentido corrente e de uso o mais vulgar: . expondo-as numa Tríplice imagem que resume a vida inteira: . Pouco importa.Uma saudade.Não sorrir. Também a voz. Trai o amor sob a frase indiferente. Perdeu meu lábio o sorriso. e talvez melhor. como é triste o deserto Do nosso leito vazio! Como eu agora avalio O que por gosto perdi! Como são tristes as horas Desde que já te não vejo. amanhã. por minhas penas. Mas vejo. Cantigas praianas: VIII Do que sofro sem queixar-me Sois causa sem o supor: Matais-me. o mais medroso afeto Ingenuamente à luz do sol proclama. Matais-me. O prazer floresce. E o mais oculto. uma esperança.

Sob o nublado céu de Agosto Nem os jardins começam a brotar. veio Reduzir-me a um olhar que. Que mais queres? Fico.... Loucura! Em tua voz que trêmula murmura Ouço tudo que sentes e não dizes. num perpétuo anseio. Desde o caso de Adão e Eva no Paraíso. Desde que te amo. posso-o jurar. minha amada! Coitado do nosso amor! Mas tu que partes sorrindo Talvez algum dia... dizendo-m´o. esse ano. Pálido sonhador.. e bruma no ar O meu coração floresce E há luz. como loucura Veio cantando. ou te procura. mais nada. Pois que te vais tão contente E me deixas tão sem nada. que não me engano. Folhas soltas: VII Tu dizes que é loucura este amor. Talvez nada.. um suspiro.. quando Voltares. Nem eu imagino o amor de outra maneira. eu... Dizes que não.... Fito no azul do céu vazio o olhar tristonho. a sorrir.. minha amada! Coitado do nosso amor! Folhas soltas: VI Tu. Que mais posso? Levas tudo que era nosso: Tua mocidade em flor.. Feliz de ti. Pobre de ti. Folhas soltas: III Pálido sonhador que há dois mil anos quase Sobre uns palmos da Terra atravessaste a vida Semeando ao vento um gesto. A primavera veio Antes do tempo. voltes chorando Tua mocidade em flor. pus-me a sonhar de amor Somente porque vi por acaso. e terra nua.. E assim como se não houvesse Inverno. há dois mil anos quase Enchem de mágoa e sombra a Terra comovida O eco da tua voz e a névoa do teu sonho.. Folhas soltas IV Faz frio. É loucura este amor? Foi-o desde começo. moça. Amo-te.O teu olhar.. quando voltes? Talvez pouco. este ano.. a lembrar. Vinte anos de distância.. Sobre um muro em ruína uma roseira em flor.. há luz de sol.. que horror. Como loucura me sorriu. bendito engano. uma frase. azul de céu. Bem o creio. Agosto vai em meio. Vi-te. Vais-te. Há bruma. Te vê. confesso: Há muito tempo – há quanto! – eu sinto e reconheço Que te amo como louco. Que importa o frio? A bruma? Agosto em meio? Juro.. Entre nós dois. bem pouco Me adiantas. Mas. Que a primavera veio Antes do tempo. Mas há rosas no teu rosto E azul. Que encontrarás.. na estrada. E hoje. Entre nós dois. quase velho.. Toda num sonho vago absorta a alma dorida. pensando em ti. E eu iria jurar.. Folhas soltas: V . no meu olhar. no teu olhar. Tu.

eu sou como tu mesmo Uma alma sobre a qual o céu resplende .a minha alma Abriu-se para a vida como se abre A flor da murta para o sol do estio. Sonho-a.. O teu murmúrio. A que o vento do largo eriça o pêlo! Junto da espuma com que as praias bordas. dos teus clamores. Palpitante de estrelas quando é noite. Debalde! O céu.de um esplendor distante. Ó mar! A minha vida é como as praias. Paira.. como olhas soltas Num leve sopro de aura dispersadas. longínquo e indiferente. As largas ondas marulhando estendes. É o tempo em que adormeces Ao sol que abrasa: a cólera espumante. acima Da tua solidão. Pelo marulho acalentada.. De ti.Nunca pelo juízo. Apenas se ouve. Vinham do azul do céu turbilhonando Pousar o vôo à tona das espumas. minha faceira. ó mar que em ondas te arrepelas. Ó velho condenado. .. E que a alma jorra desmaiado em versos. Pela manhã de sol dos meus vinte anos. Nadando em luz na oscilação das ondas.O amor.ao cárcere das rochas que te cingem! Em vão levantas para o céu distante Os borrifos das ondas desgrenhadas. belo mar selvagem Das nossas praias solitárias!Tigre A que as brisas da terra o sono embalam. tímido e plangente. Sei que a ventura existe. Toda a poeira de ouro dos meus sonhos. Este marulho que me canta na alma. Não os sacode mais. Meu tumultuoso coração revolto Levanta para o céu como borrifos. nem brame e estoura.. aquela Canção de amor sentida e murmurante Que eu vim cantando. Ah! vem daí por certo A voz que escuto em mim. subo por instantes. Quando eu nasci.Longínquo céu . e pelo alvor das praias. à sombra Das palmeiras que arfando se debruçam Na beirada das ondas .. e as curtas asas Da alma entreabrindo. sonhando a vejo. raiava O claro mês das garças forasteiras: Abril. Toda a vida se fez notar pela cegueira . de ti unicamente. numa carícia de amoroso. E as leves garças. belo mar selvagem Das nossas praias solitárias! Tigre A que as brisas da terra o sono embalam. Em vão tento alcançá-la. luminosa. sem saber se a ouviam.. Palavras ao Mar Mar. cheio de sol se é dia. E o sonho morre como as ondas voltam! Mar. Que estoura e brame sacudindo os ares. sorrindo em flor pelos outeiros.. Como dentro da noite amortalhado Vês longe o claro bando das estrelas. Langue. Desenrolava a primavera de ouro. trêmula e triste. Condenado e insubmisso Como tu mesmo. Debalde.

. Eu adivinho mais: eu sinto. como um bem ausente.A que o vento do largo eriça o pêlo! Ouço-te às vezes revoltado e brusco. E. buscando a ventura que arfa em roda. clamores e blasfêmias Contra essa mão desconhecida e vaga Que traçou meu destino.. Triste flor que já brota desfolhada. pecador. batendo. sentindo e vendo A larga terra engalanada em pompas Que te provocam para repelir-te.... belo mar selvagem! O olhar que te olha só te vê rolando A esmeralda das ondas. Também eu ergo às vezes Imprecações.entre as mesmas Rochas nuas que os flancos te espedaçam. Morto para o desejo de ar e espaço. Versos.áridas escarpas. oculta... Crime absurdo O crime de nascer! Foi o meu crime. devorado Por esta angústia do meu sonho inútil. E eu expio-o vivendo. E não pairasse.. Os teus gritos de cólera insubmissa. Esse vago clamor. morto para o sonho.. se o olhar descobrisse Quanto esse lençol de águas e de espumas Cobre. De tanta vida condenada à morte! Ninguém entenda... ou sonho Um coração chagado de desejos Latejando. Maldita a vida que promete e falta. Entre as nuas areias que te cingem.Beijo que se desfaz sem ter vivido.. Que mostra o céu prendendo-nos à terra. A alma dos homens Apiedada entendera os teus rugidos. Se com isso estou perdendo A minh´alma transviada. Mar.. Que sai da minha solidão na vida. Todo o infinito em cima de teu túmulo! Fosses tu como um lago.. Como um lago perdido entre as montanhas: Por só paisagem . restrugindo Pelos fundos abismos do teu peito.. Que importa? Vibre no ar. debruada Da leve fímbria de irisada espuma. . A onda elevasses para a ver tombando.. Ah. Os bramidos de angústia e de revolta De tanto brilho condenado à sombra. Eu. marulho ou versos. fantástico. Uma nesga de céu como horizonte.. me confesso De tudo quanto anda impresso Em meu olhar enlevado. não permite o vôo! Ah! cavassem-te embora O túmulo em que vives . dando as asas. Que sai da tua solidão nas praias. acode os ecos E embale-nos a nós que o murmuramos. Nem.. embora. Escondido.. atirando Pela sombra das noites sem estrelas A blasfêmia colérica das ondas. E nada mais! Nem visses nem sentisses Aberto sobre ti de lado a lado Todo o universo deslumbrante perto Do teu desejo e além do teu alcance! Nem visses nem sentisses A tua solidão.. Mas fosses morto. marulho! Amargos confidentes Do mesmo sonho que sonhamos ambos! Trovas Ouve: se amor é pecado. . amortalha!.

Confesso-me... Onde o teu caminho te arrasta? A que destino? A que têrmo? Segues.. caminha. Eu vivo tão descuidado De tudo mais desta vida. e se azula. que queres? Eu te amo por que me encantas -Tu. Delícia calma! Mar tranquilo e sem escolhos! É o pecado dos meus olhos E a salvação da minh´alma. Dá rosa. Perdoa a muda insistência Dos olhos que a ti levanto: Olhar-te é o supremo encanto De toda a minha existência. que nos pôs face a face E deu-me os olhos que tenho. Deste ardor em que me inflamo Direi. Pelo azul. No mar largo Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noite no mar! Como princesa encantada Que um leve sonho conduz. Surges do mar. por gosto Quando pousa no teu rosto O meu olhar se ilumina. Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noitr no mar! Surgida do mar infindo. e se estrela. a mais linda das santas E a mais santa das mulheres. Olhar-te..e te amasse. Eu peco. Deus. absorta e sòzinha. -Como te agradeceria O que eu por ti padecesse! Deixa tu. Que nem me ocorre.E nisto de amar-te Só tenho de minha parte A culpa se não ser cego. criado por ela. queira ou não queira... O infindo céu te seduz . se é primavera. Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noite no mar! Lua. Por força da lei divina E não. vasto e deserto. Que dele somente espero Amar-te mais do que te amo. e não me arrependo... querida. mais se reduz No alvor em que empalideces Teu nimbo de ouro e de luz. Teu passo.. Sem razão foras severa Com a pobre de uma roseira Por que ela. De dentro da noite imensa Surge. lento. Nisso mostrou certo empenho Em que eu te visse . Se rezo.... e à tua presença. Amor com o feitio desse Que a si mesmo renuncia. lua. A idéia de ser amado. nada nego: Amo-te.. não te apresses: Mais sobes. para ser sincero. Onde vais? É longe? É perto? Sobes.Campo em flor que vês fulgindo Em flores de ouro e de luz. É meu destino. O céu.. coroada De um ninho de ouro e de luz. A noite é tão vasta . Surges.-Minh´alma não vale nada. nas minhas preces Só peço a Deus essa graça: Que me conceda e me faça Amar-te quanto mereces. pois que se farte Meu olhar impenitente Todo embebido e contente Da só ventura de olhar-te. decerto.

Sem sorrisos. Sob o cetim do Azul e as Deslumbramentos Milady. se afigura Mais vago. Ir impondo toilettes complicadas!.... sob a triste alvura Desse lívido sudário... Êrmo e vago.. Quando passa aromática e normal. sempre sozinha. Lá do azul da noite imensa: De todo o céu luminoso Sôbre todo o escuro mar Desce o alvor silencioso Do luar. E um dia. pairas suspensa Lá dos páramos celestes. Para a vingança aguçam os punhais. Eu ontem encontrei-a. Com seu tipo tão nobre e tão de sala. cortante. ó lua. e fazendo-me assombrar. ou das tuas mágoas O mar que deixaste. Quantas vezes. E afaga como o pêlo dum regalo! Pois bem. não se afoite. Mas cuidado. Entre as flores de ouro e luz. quando vinha. mais solitário. Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo.. milady. A sua voz que tem um timbre de ouro E o seu nevado e lúcido perfil! Ah! Como me estonteia e me fascina. Como entristece da tua Ausência. pela noite.. Do céu a flux. Ó linda princesa Que vens aumentar A imensa tristeza Da noite no mar! Eu vejo-a. como um brilhante. E mostre. ... Como um florete. ó flor do Luxo.. E com firmeza e música no andar! O seu olhar possui. Conserve o gelo por esposo. Que eu procuro fundir na minha chama Seu ermo coração.. pálida e triste. Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noite no mar! Tão alto que tu subiste! Tão longe!. Grande dama fatal. Sem que nisso a desgoste ou desenfade. Lua surgida das águas! Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noite no mar! Como uma lágrima prestes A rolar. fere agudamente. na graça distinta do seu porte. E tão alta e serena como a Morte!. Britânica. E enfim prossiga altiva como a Fama. com real solenidade. Que hão de acabar os bárbaros reais. E o mar. Como a Moda supérflua e feminina.. Com seus gestos de neve e de metal.Pelo azul do céu tão êrmo. E os povos humilhados. Em si tudo me atrai como um tesouro: O seu ar pensativo e senhoril. Vagueias. é perigoso contemplá-la. nas estradas.. O modo diplomático e orgulhoso Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos. E é. se eu beijar-lhe as brancas mãos. seguindo-lhe as passadas... dramática. num jogo ardente.

atravessa. Mais a ti mesma do que a mim resistes Não me culpei a mim de amarvos tanto Não me culpeis a mim de amar-vos tanto Mas a vós mesma.. Eu hei-de ver errar. pois Uma impressão de D. negando o amor que em vão me negas. minha senhora. e assim armado e forte. Era segredo teu? Adivinhei-o. folha a folha. Errou quem disse que as paixões são cegas. Suspiros de paixão.andorinhas. Se me quereis diverso do que agora Eu sou. mudai. em quanto Meu amor se lastima. . Que mais defendes. arfar de seios. mudai vós mesma. Li. Enganei-me Enganei-me supondo que. enfim. e à vossa formosura: Que. gozeios. E arrastando farrapos . em suma. e aceitas dessa Torrente que te arrasta — a só promessa De ir lentamente desaguar na morte. Vêem. de altiva. (se há sonhos certos) De ter vivido em plena claridade Dos sonhos que sonhei de olhos abertos. tu vias sem receio Desabrochar de um simples galanteio A agreste flor desta paixão tão viva. Enfadai-vos. me tortura Ver-me cativo assim do vosso encanto. A um poeta moço Desanimado. Juan Gastei no amor vinte anos — os melhores. à vida. Da minha vida pródiga: esbanjei-os Sem remorso nem pena. entregas-te. Sem relutância. Que eu sou quem sou por serdes vós quem sois. O coração que eu tento e se me esquiva Treme. buscaram-me. Deixam-se ver... Que pode haver. o livro dos amores. Quentes olhares de olhos tentadores. sem norte.. que já vou fitando céus desertos. Trouxe a certeza. Ouve: da minha extinta mocidade Eu. alucinadas. treme de susto no teu seio. Debalde insistes. trouxe a saudade. Conheci-os.. Colhendo beijos. Desdenhosa.. se tu'alma entregas? Bem vejo (vejo-o nos teus olhos tristes) Que tu. Trouxe a consolação. em defensiva. Vida e mágoas.as rainhas! Ido o rigor que em vosso peito mora. que te impeça De seguir o teu rumo contra a sorte? Sonha! e a sonhar. vos censura: Mas sendo vós comigo áspera e dura Que eu por mim brade aos céus não causa espanto. desfolhando flores. se vos aborrece. A mudança será para nós dois: E então podereis ver. incólume. Parece-vos que. Hoje sei tudo: alerta. em galanteios.

Amortalha-me tu! E possa eu desfazer-me No ar claro e sonoro! Sonho Póstumo Poupem-me. quando morto. canções suaves — A música sonora Em que parece rir a alegria das aves.. E soe o farfalhar das árvores. o mar dizia: "Lua. Ora em pompas. Encantadas da aurora. Muda o céu. Não. encanece em musgos. Ah! deixem-me acabar alegremente. à doçura A Ternura do Mar No firmamento azul. Desfolha-se. escura e fria. e chora Marejado de estrelas. a terra. Úmidas e cheirosas.. jovializando o ar. ... A sepultura é noite onde rasteja o verme. E cada flor que um galho acaso dependura À beira dos caminhos Entreabra o seio ao sol. cheio de estrelas de ouro Ia boiando a lua indiferente e fria. aos rigores Do céu mostra a nudez dos seus galhos mesquinhos. em meio Da luz. moroso Como o rumor de um beijo.. E tudo vibre e esplenda. tanto amor que me passou na vida! E nada sei do amor. E tudo sonhe e viva. e pelas Sombras do entardecer todo entristece. bela e amante. asas Palpitando de leve. às brisas. A árvore que viçou toda folhas e flores.Quanta lembrança de mulher amada! Quanta ternura de alma carinhosa! Sim. O meu último sono eu quero assim dormi-lo: — Num largo descampado. e tudo fulja e cante. E cada rosto de mulher formosa Dá-me a impressão de folha inda não lida. De insetos de ouro e azul. que se alegra à madrugada.. não sei nada. Palpite a natureza inteira. Subam. De entre moitas em flor. Volutuosa e festiva.. em pleno dia. Ou claros como neve.. à sepultura: odeio A cova. Tendo em cima o esplendor do vasto céu tranquilo E a primavera ao lado. ora desfeita e nua — Como a folha que vai arrastada na brisa — Aos caprichos do tempo inconstante flutua Indecisa. Embaixo.. ou rubros como brasas. Passe em redor de mim um frêmito de gozo E um calor de desejo. E perfumes de rosas. Espalhando em redor frescuras de folhagem. oscilantes na aragem. indecisa. De todos os carinhos. Ó luz que eu tanto adoro.. De penhasco em penhasco e de estouro em estouro. só meu amor é fiel tempo em fora. Bailem sobre o meu corpo asas trêmulas.

A tudo o tempo alcança. Que foram conquistar às praias mais remotas... bramidos. afagando-te a vista. Um passo para ti cada dia entesouro. nua e clara. Submergindo montanhas.. Um dia serás minha! E serei teu escravo. E abrir-se-á de meu seio a brancura imprevista Das ondas arquejantes. Quando a aurora romper no céu despovoado. nunca visto... Hei de chegar aí de onde vens.. Dentro de vagalhões penhascos submergindo. Ao longe.. Far-te-ei ver o país. de rastros. seguindo Seu vôo claro e leve. tufões brutais. varando ermos desconhecidos. Onde o marulho canta e a salsugem polvilha A alva nudez das praias. Que ser dona dos astros. Tesouros a teus pés estenderei.. Rudes ondas. .. e o meu amor caminha.... Onde cascos de naus arrombadas. turvas procelas. Céu que em sombras se esvai. Todo me tingirei de mil cores cambiantes. Ser amante do mar vale mais. verás alva de neve: Teus olhos sonharão enlevados. Embalde nos separa A largura da terra e o fraguedo dos montes. Hei de alcançar-te um dia. e a tudo o tempo altera. velas Desfraldadas. vis monturos. Nos acasos do vento.. À noite. Opulentos galeões.Toda aromas e ninhos: Cóleras de tufão. fuzis. Sonharão. nos balanços da vaga. troféus inúteis. ermas como atalaias. Dona do céu azul e das estrelas de ouro. Vertem ouro. na delícia indefinida e vaga De sentir-se levar sem destino. da sombra. a espaços Dormem o último sono. Sombra. para além. Deliciando-te o olhar. pela calma Rendilharei de espuma o teu berço de areias. terra que se desnuda. um momento.. Alguma vela. de repente assomando e fugindo. pompas de primavera. estendido na alfombra De algas e de sargaços.. ao sol. Todo o estranho pavor das águas afrontando. Pelos parcéis mais duros: Flâmula ao vento. Levar-te-ei de onda e monda a vagar de ilha em ilha. sonho amado.. Para além. E há de embalar teu sono e acalentar tua alma O canto das sereias. Subindo os horizontes. pelas junturas rotas. Tranquilas solidões. proa em rumo ao largo. Há de ter fim o espaço. — Só o meu amor não muda! Há mil anos que eu vivo a terra suprimindo: Hei de romper-lhe a crosta e cavarlhe as entranhas.

dos grotões mais fundos De meu seio.. obtem-n´o e. Da herdeira de algum morto milionário. Lua. levanta a pouco e pouco as ilhas. aceita Daquela que o teu sonho diviniza A efêmera ambrosia do seu beijo. bem que reclamo! Um dia serás minha! Embalde nos afasta e embalde nos separa A largura da terra e o fraguedo dos montes: Hei de chegar aí de onde vens. Paira. riqueza. flutua E espalha-se no luar. Mas se pretendes ser feliz apenas. . Pede-lh´o. Onde o humilde infusório aspira ás maravilhas Da glória. eu sou a paixão. Esqueletos de heróis. as louçanias. e que não existe Senão em teu olhar? A tudo mais preferes a Opulência? Pede-lh´a. Dos moluscos sem nome. longe.. agita o sossego. a flora Rebenta pelo chão pérolas cor de estrela E conchas cor de aurora. Eu te amo. numa bizarra exuberância... mundos. e. em triunfo arrastando Uma esteira de espumas.. nua e clara. Omnia Vanitas Pois cheio de ambição e de confiança Tu a vida começas (A vida.. Que importa? O tempo é vasto. Arquipélagos..Altivos como reis e leves como plumas. que buscas.. Tão farta das riquezas da esperança Tão pródiga em promessas ... realiza A só conquista digna de um desejo. e tu. hás de vê-la. desdenhosa rainha!. Essa estranha região nunca vista.. que não basta. amor. Não lhe peças apenas isso tudo: Glória. Que pedes ao Futuro? Em que consiste O esplêndido tesouro Que esperas encontrar . E é fácil a ciência De descobrir em autos de inventário O encanto. à escolha) Para algum desses cumes teatrais Onde quem os atinge faz figura . sobretudo Pede-lhe bom humor. correm loterias..Enquanto não vivida). Queres a glória? Pede-lh´a: procura Caminho (e há cem. sonha o sol.. Sonhas o Amor? Pois pede-lh´o: na eleita Dos teus olhos. no céu.Argonauta feliz – nessa ilha de ouro Que vês. Iam de golfo em golfo. deslumbrado. dei-os em pasto à fome Silenciosa e sutil da multidão obscura. carcassas vis donde o ouro em vão supuro.De bolha Soprada das colunas dos jornais.. Ei-los." ---**** Na quietação da noite apenas tumultua Quebrada de onda em onda a voz brusca do mar: Corta o silêncio. há Crésos. Subindo os horizontes. Onde. Pede mais. Pede mais ao teu pródigo Mecenas. eu sou a vida.