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SERMÕES DO ANO DE AVIVAMENTO

Pregados no Surrey Music Hall, Londres

1859
C. H. Spurgeon

PUBLICAÇÕES EVANGÉLICAS SELECIONADAS Caixa Postal 1287 01059-970 - São Paulo, SP

Título original: Revival Year Sermons E d ito ra: The Banner of Truth Trust P rim eira edição em inglês: 1959 T rad u to r: Edgard Leitão

Capa:
Ailton Qjiveifa Lones Revisão: Antonio Poccinelli P ru .ie ^ a edição em portuguêí

M .

RIGUES

NOTA BIOGRÁFICA SOBRE SPURGEON
Charles Haddon Spurgeon, filho de um pastor calvinista independente, nasceu em Kelvedon, Essex, na Inglaterra em 1834. Seus grandes dons como pregador não tardaram em manifestar-se. Com a idade de apenas 16 anos já encontramos o jovem Spurgeon pregando em diferentes congregações independentes. Um ano mais tarde o vemos à frente de uma humilde obra batista próximo de Cambridge. A partir de então a fama do jovem pregador se estendeu por toda a Inglaterra, alcançando inclusive a populosa cidade de Londres. Em abril de 1854, antes de completar os 20 anos, ele aceitou o pastorado da Igreja de New Park Street. Esta congre­ gação estava numa fase de decadência, reunindo não mais de 200 pessoas num santuário com capacidade para 1.200. Em menos de um ano o templo se encheu totalmente e em fevereiro de 1855, tornou-se uma urgente necessidade a ampliação do antigo edifício. Toda a Londres se deu conta do novo pregador a ponto de os jornais anunciarem que “desde os tempos de Wesley e Whitefield não havia existido um interesse religoso tão profun­ do”. Em 1861 foi inaugurado o famoso Tabernáculo, com capacidade para mais de 9.000 pessoas. Neste lugar, e por mais de 30 anos, Spurgeon deu poderoso testemunho da verdade evangélica. As conversões foram incontáveis, e tanto na Ingla­ terra como na América seus sermões impressos se tornaram um meio maravilhoso de bênção para milhões de almas. Além de

seus esforços como pregador, Spurgeon fundou um colégio para a formação teológica de pastores, um orfanato e uma sociedade de colportores. O ministério de Spurgeon começou subitamente e concluiu de maneira semelhante. Terminou sua gloriosa carreira em 1892, quando contava com 58 anos de idade. A notícia da sua morte ocupou a primeira página dos jornais ingleses e europeus, e com ele morria “o último dos puritanos”. O poder do ministério de Spurgeon residia em sua teologia. Ele redescobriu o que a Igreja por muito tempo havia esquecido - o poder evangélico das chamadas doutrinas calvinistas. Seu ministério constituiu um poderoso testemunho da única verdade salvadora.

“A antiga verdade que Calvino, Agostinho e o apóstolo Paulo pregaram é a verdade que eu também devo pregar hoje; do contrário deixaria de ser fiel à minha consciência e ao meu Deus. Não posso remodelar a verdade; desconheço tal coisa como lapidar uma doutrina bíblica. O evangelho de John Knox é o meu evangelho. Aquilo que trovejou por toda a Escócia precisa trovejar novamente por toda a Inglaterra. ” “Uma inércia espiritual é nossa inimiga; uma tempes­ tade talvez seja nossa amiga. A controvérsia talvez provoque pensamento, e por meio dele talvez venha a mudança espiritual necessária. ” - C . H. Spurgeon

ÍNDICE
Introdução ....................................................................... 1 A história dos poderosos feitos de D eus....................... “Ouvimos, ó Deus, com os nossos próprios ouvidos: nossos pais nos tem contato o que outrora fizeste em seus dias ” -S a l. 44:1 9 21

2 O sangue do concerto eterno.......................................... 44 “O sangue do concerto eterno” -H e b . 13:20 3 A necessidade da obra do Espírito Santo..................... “Eporei dentro de vós o meu Espírito” - Ex. 36:27 4 Predestinação e cham ada............................................... “E aos que predestinou, a estes também chamou ” - Rom. 8:30 63

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5 Um sermão de despedida................................................ 102 “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos; porque nunca deixei de anunciar-vos todo o conselho de Deus” -A t. 20:26-27

INTRODUÇÃO
O ano de 1859 foi de pouco significado político para fazê-lo permanentemente memorável. A agonia da guerra da Criméia e os efeitos causados pelo Motim da índia, já haviam passado. A Guerra Civil Americana, com suas repercussões sobre o comércio inglês, ainda não havia começado. No outro lado do Canal da Mancha, os conflitos entre a França e a Áustria se desenvolviam sobre a península italiana sem interferência inglesa. Com normalidade rotineira, a rainha Vitória cumpria seus vinte e dois anos de reinado, e em Westminster, pela segunda vez, Lord Palmerston tomava posse do cargo de primeiro-ministro, função que desempenharia sem aconteci­ mento algum de importância. Sem dúvida, nos anais da Igreja Cristã, este ano se destaca como um verdadeiro ano de graça. Desde então a Inglaterra não conheceu outro ano como este, e é por isso que os notáveis episódios do período merecem um registro duradouro. Numa terça-feira à noite, exatamente no dia 4 de janeiro de 1859, Charles Haddon Spurgeon, que na época contava com 24 anos de idade, dirigia a palavra a uma grande multidão reunida no Exeter Hall, sob os auspícios da Associação Cristã de Moços. O tema do seu discurso versou sobre a propagação da fé e no decorrer do mesmo, Spurgeon destacou a necessidade de um avivamento. “Devemos confessar que nesta hora não gozamos da presença do Espírito Santo na medida que a desejaríamos. Oh, que resultados se produziriam nos que se congregam aqui nesta noite, e sobre todas as assembléias dos santos, se o Espírito de Deus descesse! Não buscamos
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exaltações extraordinárias - as quais são as falsas acompanhan­ tes de todo avivamento genuíno - mas realmente aspiramos que o Espírito Santo seja derramado sobre nós. O Espírito está soprando sobre nossas igrejas com Seu alento afável, porém não é mais que um sopro suave. Oh, se viesse como um vento impetuoso que arrebatasse tudo após si! Esta é a necessidade destes tempos - a grande falta em nossa nação. Oh, que nos venha como uma bênção do Altíssimo!” Este desejo se cumpriu. Na primavera do ano de 1859, deflagrado pela notícia do aviva­ mento que iniciara na América no inverno de 1857-58, se iniciou um grande despertamento na Irlanda do Norte e no País de Gales. No princípio do verão já se havia propagado desde a Irlanda até à Escócia, e no final do ano Spurgeon podia escrever: “Os dias de refrigério pela presença do Senhor, finalmente se deixam sentir em nossa nação”. Dentre todos os pregadores daquele ano de graça, o Senhor Se serviu de maneira extraordinária de C. H. Spurgeon; e embora Londres não chegasse a ser o centro de cenas de avivamento, tais como as que se presenciavam noutros lugares, contudo não existia em toda a nação uma voz mais influente que a do jovem pastor da capela de New Park Street. Cinco anos antes, com apenas 19 anos, Spurgeon deixara uma humilde obra batista em Waterbeach, perto de Cambridge, para aceitar o pastorado desta igreja londrinense. A igreja se encontrava em avançado estado de decadência. Não mais que 200 pessoas se reuniam num edifício com capacidade para 1.200. Entretanto, num período de doze meses, o templo se encheu totalmente. Em fevereiro de 1855, a ampliação da antiga estrutura tornou-se uma urgente necessidade e a congregação decidiu realizar as reuniões
Spurgeon pregou em N ew Park Street pela primeira vez em dezembro de 1853; foi-lhe oferecido o pastorado em abril de 1854. Permaneceu nessa congregação até a morte. 10

em Exeter Hall (capaz de congregar mais de 2.500 pessoas) até maio, data em que seriam concluídas as reformas. No entanto, a ampliação da capela de New Park Street tornou-se insuficiente, pois toda a Londres se dera conta do novo pregador, e inclusive os jornais anunciavam que “desde os tempos de Wesley e Whitefield não havia existido um interesse religioso tão profundo”. Em junho de 1856, a congregação se viu obrigada a voltar de novo ao Exeter Hall para os cultos da noite, e se destinou uma verba especial para construir um novo edifício. Em novembro a congregação outra vez teve que transferir-se, e durante três anos a igreja de New Park Street se reuniu no Surrey Gardens Music Hall. Domingo após domingo, durante todo este tempo, Spurgeon pregou o evangelho a uma audiência que oscilava entre 5.000 e 9.000 pessoas. Além disso, durante a semana geralmente pregava cerca de dez vezes. Ao chegar o ano de 1859, já havia pregado na Escócia, Irlanda e a maior parte da Inglaterra. Recusou repetidos convites para ir à América, mas tanto ali como em outras partes do mundo seus sermões encontravam elevado número de leitores. Era, pois, evidente que muito antes de 1859 o poder do Espírito Santo já se havia manifestado eficazmente no minis­ tério de Spurgeon. No final desse ano de avivamento e no prólogo do 59 volume do New Park Street Pulpit, Spurgeon escrevia: “Em meio destas novas mostras do amor divino, é bastante agradável visitar os lugares que por muito tempo têm sido favorecidos, não somente com desejados frutos, porém com alegria e gozo indizível. E este é o caso com a igreja na qual foram proferidos estes sermões. Seu “arco” permanece com firmeza... Por seis anos o orvalho não cessou de descer, nem a chuva deixou de cair.” E acrescenta: “Atualmente o número de convertidos é mais numeroso que em tempos passados, e o zelo da igreja cresce extraordinariamente”. De maneira indiscutível, inclusive para seu ministério, o ano de 1859 foi extraordinário.
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Talvez alguns fatos deste ano memorável merecem destaque. No dia l 9 de março, Spurgeon pregou a uma nume­ rosa afluência de ouvintes no Tabernáculo de Whitefield. Em 10 de julho, em vista de ter perecido um homem em Clapham Common, vítima de um raio, Spurgeon falou nesse lugar a mais de 10.000 pessoas. A reunião foi ao ar livre e o tema do seu sermão foi: “Estejam também prontos”. Dois dias depois, noutra reunião ao ar livre, Spurgeon pregou a outra multidão em Rowland’s Castle, num vale próximo a Havant. Nesse lugar as próprias montanhas recolhiam o som de sua voz, enquanto as multidões, em suspenso, podiam ouvir a comovedora exortação, repetida ao longe através do eco: "v in d e , v in d e , v in d e , v in d e !" No dia 20 do mesmo mês, Spurgeon pregou no País de Gales pela primeira vez, novamente ao ar livre, a uma multidão de 9.000 a 10.000 pessoas. Os habitantes de Castleton, aldeia situada entre Newport e Cardiff, onde se realizou a reunião, tiveram motivos de sobra para recordar tal acontecimento até o dia de suas mortes. Estas reuniões ao ar livre efetuadas em distritos rurais constituíram uma faceta distintiva do ministério de Spurgeon naquele ano. Quase no final do ano, em outubro de 1859, ainda encontramos Spurgeon pregando ao ar livre a uma congregação de 4.000 pessoas em Carlton, Bedfordshire. O ano de 1859 foi também o último em que Spurgeon pregou no Surrey Gardens Music Hall. Por algum tempo os proprietários do mesmo não se atreveram a abrir o auditório e suas dependências aos domingos para diversões públicas, pois haviam sido advertidos por Spurgeon de que, se o fizessem, a congregação deixaria de usar o edifício e com isso os proprie­ tários se privariam de um aluguel muito respeitável. Mais tarde, porém, confiando obter maior lucro, abriram o lugar para diversões, forçando assim a Spurgeon a cumprir sua palavra. Na ocasião em que teve de deixar o Music Hall, Spurgeon pregou o
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sermão de despedida que aparece neste livro. Depois disso, os empresários do edifício se arruinaram completamente, não apenas moral como também financeiramente, e em junho de 1861 o Hall foi destruído por um incêndio. Anos mais tarde, alguém escreveu as seguintes impressões das últimas reuniões no Music Hall: “Jamais esquecerei aquele sermão de 17 de julho de 1859: “A história dos poderosos feitos de Deus.” Como Spurgeon se empolgou na pregação daquela manhã! Havia muito calor, e ele constantemente enxugava o suor da sua fronte, mas esse desconforto em nada afetou seu discurso; as palavras fluíam como uma torrente de sagrada eloquência...Eu estava também presente no último culto que se celebrou no Music Hall, a 11 de dezembro de 1859. Densa era a neblina naquele dia, não obstante o local estava tão repleto quanto podia ser. Eu ocupava um dos assentos da frente na segunda galeria, de modo que desfrutava de uma vista esplêndida de toda a multidão. Num fervoroso sermão, Spurgeon apresentou todo o conselho de Deus. Sempre há uma nota triste naquilo que põe fim a algo; e assim, enquanto abandonava o lugar, me dei conta de que uma das experiências mais felizes da minha juventude pertencia já ao passado. E assim foi, também, em minha opinião, como terminou uma das mais românticas cenas da maravilhosa vida do Sr. Spurgeon”. Os sermões incluídos neste livro foram todos pregados no Surrey Music Hall e são típicos dos muitos ali proferidos. Neles se encontrará a razão que explica o extraordinário êxito que em todo o tempo acompanhou o ministério de Spurgeon. O que seria que reunia e sustentava uma congregação de 8.000 pessoas? Propaganda? Cultos vistosos? Acompanhamentos musicais? Conselheiros organizados? Não! Spurgeon não dependia de nenhuma destas coisas. “Ora, era o mesmo evangelho que se prega hoje em dia por toda a parte”, talvez diga alguém. Certamente, o que ele pregava era o evangelho, todavia
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no evangelismo que tão profusamente se apresenta hoje em dia, encontraríamos o mesmo evangelho de Spurgeon? Que o leitor destes sermões - com toda a seriedade - responda por si mesmo a essa pergunta. O poder do ministério de Spurgeon residia em sua teo­ logia. Ele descobriu novamente o que a Igreja há tempo havia esquecido - o poder evangélico das chamadas doutrinas “calvinistas”. No sermão que pregou no lançamento da pedra fundamental do Tabernáculo Metropolitano (15 de agosto de 1859) ele declarou: "Nós cremos nos cinco pontos que comumente se chamam calvinistas; os reputamos como cinco grandes luzes que irradiam da cruz de Cristo.” Na inauguração do Tabernáculo em 1861, o tema dos diferentes sermões foi precisamente sobre estes cinco pontos: eleição, depravação total, redenção particular, chamada eficaz e perseverança final dos santos. Longe de considerá-las como um estorvo para seu evangelismo, Spurgeon reputava essas verdades como a força impulsora que move o ministério evangélico. “A eleição - e me refiro aqui a todo o conjunto de verdades que se agrupam em torno dela, como se esta fora um sol central - não somente tem um poder salvador, mas exerce também um poder que comunica gosto e qualidade a todas as demais doutrinas. O evangelismo mais puro brota desta verdade. . . Esta doutrina, que à primeira vista parece como se condenara todo o esforço à indolência e fizera sentar o homem em morbidez e desespero, é verdadeiramente nada menos que a trombeta de Deus para des­ pertar os mortos. E visto que ela honra a Deus, Deus a honrará.” Além disso, Spurgeon percebeu uma conexão vital entra a proclamação destas verdades e o irrompimento de avivamentos. "Na história da Igreja, excetuando uns poucos casos, não encontrarão nenhum avivamento que não tenha sido produzido por uma fé ortodoxa. Não foi assim com a grande obra produzida por Agostinho, ao despertar subitamente a Igreja
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do sono funesto e mortal dentro do qual o pelagianismo a colocara? Que foi a Reforma, senão um despertar das mentes humanas para estas verdades antigas? Mesmo que luteranos modernistas de hoje tenham abandonado suas doutrinas antigas, e ainda que alguns deles não estejam de acordo comigo, de todos os modos devo dizer que Lutero e Calvino não mantiveram argumento algum concernente à predestinação. Seus pontos de vista eram idênticos, e a obra de Lutero sobre O Cativeiro da Vontade é tão enfática com respeito à livre graça de Deus como se fosse um escrito de Calvino. Escutem esse grande trovejador quando exclama nesse livro: “Que o leitor cristão saiba que Deus não prevê nada de maneira contingente, porém que, pelo contrário, Ele prevê, propõe e atua de acordo com Sua eterna e imutável vontade. Ela é o baque de trovão que rompe e vence o livre-arbítrio.” Acaso precisaria mencionar-lhes nomes mais célebres que os de Huss, Jerônimo de Praga, Farei, Knox, Wicliffe, Wishart e Bradford? Todos estes sustentaram os mesmos pontos de vista, e em sua época um avivamento arminiano não só teria sido inconcebível, como também impossível de sonhar. E no tocante a um avivamento mais recente, sob João Wesley, e no qual os metodistas wesleyanos contribuíram tão extensamente, parece ser, à primeira vista, que este avivamento constituiu uma exceção ao que foi afirmado até aqui; no entanto, permitam-me afirmar que o poder doutrinal do metodismo wesleyano reside em seu calvinismo.A maioria dos metodistas reprovou totalmente as doutrinas do pelagianismo. Defendeu a doutrina da depravação total do homem, a necessidade de uma
* O arminianismo foi oficialmente condenado no Sínodo de Dort (1618-1619), mas é importante notar que, na atualidade, este sistema doutrinário tão contrário aos ensinamentos bíblicos, se transformou na teologia oficial de um grande setor do protestantismo. Nota do tradutor. 15

intervenção direta do Espírito Santo na salvação, e que o primeiro passo na conversão provém, não do homem, e sim de Deus. Essas pessoas negaram ser pelagianas. Acaso o metodista não sustenta, com a mesma firmeza que nós, que o homem é salvo unicamente pela operação do Espírito Santo? Não é certo, porventura, que muitos dos sermões de João Wesley estão saturados daquela grande verdade, ou seja, que o Espírito Santo é necessário para a regeneração? Sejam quais forem os seus erros, o certo é que ele continuamente pregou a absoluta necessidade do novo nascimento através da atuação do Espírito Santo. E, também, há outros pontos em que estamos de acordo com Wesley, como por exemplo, no que diz respeito à incapacidade humana. Não importa como alguns nos ridicu­ larizem, quando dizemos que o homem por si só não pode se arrepender nem crer; contudo^ os antigos manuais arminianos afirmavam a mesma coisa. E verdade que eles afirmam que Deus dá graça a todo homem; no entanto não debatem o fato de que, à parte daquela graça, não há capacidade no homem para fazer algo de valor quanto à sua própria salvação. E voltando agora nossa atenção aos avivamentos do continente americano, descobrimos quão falsa é a acusação de que as doutrinas calvinistas são contrárias a todo avivamento. Recordem o abalo espiritual produzido pela pregação de Jonathan Edwards e também por muitos outros pregadores americanos. Ou, se preferem, voltem a atenção para a Escócia: que diremos de M ’Cheyne? E daqueles famosos calvinistas tais como Livingstone, Chalmers, Wardlaw, Haldane, Erskine e muitos outros? Todos esses servos de Deus sustentaram e proclamaram sem vacilação alguma as grandes verdades do calvinismo, e com que resultado? Deus aprovou a mensagem deles e multidões foram salvas. E sem que agora trate de engrandecer-me de meu trabalho para o Senhor, me atrevo a dizer que nunca pude observar que a pregação destas doutrinas
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por minha parte puseram esta igreja a dormir; antes, pelo con­ trário, seus membros, além de amar e sustentar estas verdades, agonizam pelas almas dos homens. As 1.600 ou mais pessoas que batizei, ao confessarem sua fé, constituem testemunho vivo de que estas antigas verdades não perderam seu poder para promover avivamentos religiosos.* Para explicar a falta de poder nos sermões de alguns pregadores que pareciam não afetar alma alguma, Spurgeon dizia: “A razão está, creio, em que eles não sabem o que na realidade é o evangelho', têm medo do verdadeiro evangelho calvinista, e por conseguinte o Senhor não reconhece seu minis­ tério”. Falando da influência destas doutrinas sobre sua própria igreja, Spurgeon escreveu: “Entre os muitos candidatos para o batismo e para a membresia desta igreja, havia um grande número de jovens e também de pessoas de mais idade. Eu me deleitava em ouvir-lhes expressar tão claramente, não só as grandes verdades da justificação pela fé, mas também ao darem clara evidência de haver sido instruídos nas doutrinas relacionadas com o pacto da graça. Creio que uma das razões pelas quais esta igreja tem sido tão distintamente abençoada por Deus, é porque a maioria daqueles que se agregaram a nossas fileiras está bem fundamentada na antiga fé dos puritanos e
O avivamento de 1859 foi uma ilustração do vínculo entre as doutrinas calvinistas e os avivamentos. Outros líderes envolvidos no avivamento, tais com o Brownlow North (cujo pregação foi tão influente na Escócia e na Irlanda), reconheceram isto: “N ão deixa de ser digna de observação que a vasta maioria dos servos de Deus, honrados por Ele para produzir avivamentos em escala nacional, desde o inglês W ycliffe e o boêm io Huss até os da atualidade, tem sido agostiniano ou calvinista em seus pontos de vista teológicos. O ensino de Brownlow North foi decididamente calvinista. D e fato, era tão calvinista que é de se admirar que obteve tanta popularidade”. (R ecords and R ecollections o f Brownlow North (1810-75), por K. Moody-Stuart, p. 258.) 17

portanto não se afastou de nós.” Exortando a seus companheiros de ministério, Spurgeon afirmava: “Irmãos, na proporção em que um ministro é fiel, dependerá a bênção de Deus. Podem esperar que o Espírito Santo ponha o Seu selo de aprovação a uma mentira? Podem esperar que Ele abençoe aquilo que não revelou ou confirme com sinais o que não é verdadeiro? Cada vez estou mais convencido de que se desejamos ter Deus ao nosso lado, devemos guardar a Sua verdade”. Qualquer erro referente às doutrinas mencionadas ante­ riormente, Spurgeon o considerava como um atentado à própria essência do evangelho. O arminianismo - o erro que sustenta que Cristo morreu para a salvação de todos e de que o homem tem de decidir-se por Cristo antes de que Deus possa convertê-lo - foi severamente condenado por Spurgeon: “A heresia de Roma não é outra senão a de acrescentar algo aos perfeitos méritos de Cristo, o acréscimo das obras da carne para ajudar a nossa justiça. Não seria essa também a heresia do arminianismo ao acrescentar algo à obra do Redentor? Minha opinião é que não é possível pregar a Cristo crucificado, a menos que não preguemos também o que hoje em dia se chama calvinismo. O nome calvinismo é só apelativo; o calvinismo é o evangelho e nada mais. Não podemos dizer que pregamos o evangelho se não pregamos a justificação pela fé, sem as obras. Tampouco podemos dizer que pregamos o evangelho se não pregamos a soberania de Deus na dispensação da Sua graça e muito menos se não destacamos o amor eletivo, invariável, eterno e imutável do Senhor. Ainda mais, não podemos dizer que pregamos o evangelho a menos que o baseemos na redenção especial e particular do povo eleito, povo que Cristo resgatou ao morrer na cruz. Acima de tudo, não podemos aceitar um evangelho que permita aos santos cairem da graça uma vez que foram chamados. Tal evangelho eu detesto”.

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No ano de 1859, Spurgeon também pregou em Brighton. Depois desta visita, os jornais locais anunciaram que ele havia abandonado as doutrinas calvinistas. Como resultado desta falsa afirmação, Spurgeon enviou as seguintes linhas ao Brighton Examiner: “A afirmação segundo a qual abjurei a doutrina calvinista é - desde o princípio até ao fim - pura invenção e somente podia ser idealizada com propósitos maliciosos. Minha posição doutrinária é a mesma de antes, e espero que até ao dia de minha morte permanecerei fiel à mesma verdade sublime”. Após revisar seus primeiros sermões para serem publicados, declarou: “Regozijo-me no fato de que não tive necessidade de mudar nenhuma das doutrinas que preguei nos primeiros dias do meu ministério. Com respeito a estas verdades, minha posição é a mesma que quando o Senhor as revelou para mim pela primeira vez”. Spurgeon faleceu em 1892. Viveu o suficiente para observar ao seu redor um terrível declínio das doutrinas funda­ mentais do evangelho. Perto do fim da sua vida ele foi considerado “o último dos puritanos” e parecia como se fora o único que se mantinha firme pela verdade. “Sentimos declarava ele - como se um processo de endurecimento estivesse agindo nas massas. A situação agora não é a mesma como no princípio do meu ministério. E a que se deve isso? Qual a razão desse desagrado pelos cultos simples do santuário? Creio que a resposta, em grande parte, aponta a uma direção que pouco se suspeita. Tem havido uma crescente tendência para o sensualismo. Não condeno a ninguém, mas confesso que me sinto profundamente entristecido ao ver algumas das invenções empregadas na obra missionária moderna.” Em 1892 o fluxo do pensamento popular nas igrejas era muito diferente do de 1859. A teologia de 1892 veio a ser como predissera Spurgeon - a teologia da primeira metade do século vinte. “O que está ocorrendo agora afetará os próximos
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séculos. Da minha parte estou completamente disposto a ser devorado pelos cães nos próximos cinqüenta anos; mas as gera­ ções de um futuro mais distante me darão a razão.” Cem anos já se passaram desde o último grande avivamento nacional. Certamente chegou o momento de submetermos a um exame os frutos das mudanças teológicas registradas desde então. Eles teriam contribuído realmente para um crescimento maior de avivamentos? Acaso eles aumentaram o poder da santidade? Porventura trouxeram convicção do pecado ao mundo? Eles estariam enchendo as igrejas com ouvintes sequiosos? Ao ler estes sermões e ver-nos confrontados com a mudança teológica de hoje em dia, perguntemo-nos: essa mudança tem contribuído para o bem ou para o mal? As idéias modernas sobre o evange­ lho e os métodos evangelísticos recentes têm enriquecido ou empobrecido a Igreja? Se o evangelho pregado por Spurgeon era o evangelho genuíno, então atualmente em quantos lugares se anuncia com poder o puro evangelho? Que o centenário do avivamento de 1859 faça com que muitos crentes considerem tais questões e busquem um despertamento semelhante ao que ocorreu há cem anos na Inglaterra. março de 1959 OS EDITORES

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A HISTÓRIA DOS PODEROSOS FEITOS DE DEUS*
“Ouvimos, ó Deus, com os nossos próprios ouvidos: nossos pais nos tem contado o que outrora fizeste em seus dias” -S a l. 44:1. Talvez não haja histórias que permaneçam por tanto tempo gravadas em nossa memória como as que ouvimos da boca de nossos pais, em nossa infância. É triste lembrar que muitas delas eram inúteis e vãs, de modo que desde crianças nossas mentes tenham sido influenciadas por fábulas e narrativas estranhas, todas manchadas de falsidade. Entre os primeiros cristãos e crentes do passado, os contos infantis eram muito diferentes dos da atualidade, e as histórias com as quais entretinham os filhos eram de classe bem distinta das que nos fascinavam nos dias de nossa infância. Sem dúvida Abraão teria falado às crianças a respeito do dilúvio e de que maneira as águas chegaram a cobrir a terra, de modo que apenas Noé foi salvo pela arca. Os antigos israelitas, quando habitavam a Terra Prometida, teriam contado a seus filhos o milagre realizado por Deus no Mar Vermelho, e falado das pragas lançadas sobre o
D om ingo de manhã, 17 de julho de 1859. 21

Egito quando o Senhor libertou o Seu povo do cativeiro. Sabemos que entre os primeiros cristãos, os pais costumavam relatar a seus filhos tudo concernente à vida de Jesus, o que os apóstolos fizeram e narrativas semelhantes. Também foram essas as histórias que deleitaram a infância dos nossos antepassados, os puritanos. Sentados ao redor da lareira e em frente daqueles mosaicos holandeses, com desenhos antigos da vida de Cristo, as mães instruiam os seus filhos acerca de Jesus e lhes falavam de como Ele andou sobre as águas, da multiplicação dos pães, da Sua maravilhosa transfiguração e principalmente sobre a Sua crucificação. Oh, quanto desejaria que essas histórias fossem repetidas e que as narrações feitas na nossa infância versassem outra vez sobre a vida de Cristo! Deveríamos convencer-nos de que, finalmente, não pode haver nada mais interessante do que aquilo que é verdadeiro, e que coisa nenhuma pode produzir uma impressão mais viva na mente do que as histórias contidas no Livro Sagrado. Nada pode influenciar mais profundamente o coração de uma criança como as obras maravilhosas que Deus realizou nos tempos antigos. Parece que o salmista que escreveu esta ode tão poética havia ouvido dos lábios do seu pai, o qual, por sua vez, aprendera da tradição familiar, a descrição das maravilhosas obras de Deus; e mais tarde o doce cantor de Israel a contou a seus filhos, e assim, de geração em geração, se louvaria a Deus pelos Seus poderosos feitos. Nesta manhã pretendo recordar-lhes algumas das coisas maravilhosas que Deus fez nos tempos antigos. Meu propósito e objetivo será estimular suas mentes a se voltarem para tais coisas, de modo que, recordando-se do que Deus fez, vocês possam ser levados a olhar para frente com olhos de expecta­ tiva, esperançosos de que Ele estenda novamente Seu braço santo e Sua mão poderosa, para repetir aquelas grandes obras das épocas passadas.
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Primeiro lhes falarei das histórias maravilhosas que nossos pais relataram e que temos ouvido referentes aos tempos antigos. Em segundo lugar mencionarei algumas dificuldades quanto a nossa compreensão dessas antigas histórias. Por último, extrairei certas conclusões naturais destas obras maravilhosas que temos ouvido que o Senhor efetuou em tempos passados. I. Iniciarei, pois, com AS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS QUE TEMOS OUVIDO REFERENTES AOS ANTIGOS FEITOS DO SENHOR. Temos ouvido que Deus, por vezes, tem realizado feitos poderosos. O curso comum da vida no mundo tem sido alterado com prodígios, diante dos quais, os homens ficaram grande­ mente maravilhados. Nem sempre Deus tem permitido que Sua Igreja suba aos cumes da vitória em intervalos curtos, contudo em certas ocasiões tem derribado de um só golpe os inimigos do Seu povo e ordenado aos Seus filhos que avancem sobre os corpos prostrados dos adversários. Voltem-se então para os relatos antigos e lembrem-se como Deus agiu. Porventura não se lembram do que Ele fez no Mar Vermelho, de que maneira Ele feriu a cavalaria dos egípcios, sepultando-a, junto com a carruagem e os cavalos de Faraó, nas profundezas do Mar Vermelho? Não ouviram falar de que modo Deus derrotou Ogue, rei de Basã, e a Sion, rei dos amorreus, porque eles se opuseram ao avanço do Seu povo? Não aprenderam como Ele provou que a Sua misericórdia é eterna quando destruiu esses grandes reis e derrubou os poderosos dos seus tronos? Não leram também como Deus feriu os cananeus e os lançou fora da sua terra para a entregar aos filhos de Israel por herança perpétua? Não ouviram que quando os exércitos de Jabin mar­ charam contra eles, as próprias estrelas desde as suas órbitas pelejaram contra Sísera? “A torrente de Quisom os arrastou, a
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antiga torrente, e nem um se salvou.” Não ouviram, também, como Deus pela mão de Davi feriu os filisteus, e como pelo poder de Sua destra os filhos de Amon foram desbaratados? Não ouviram como Midiã foi entregue à confusão e como as miríades da Arábia foram dispersas por Asa no dia de sua fé? Acaso não ouviram, também como o Senhor enviou um ataque sobre os exércitos de Senaqueribe, de modo que pela manhã todos eles eram homens mortos? Proclamem - proclamem estas maravilhas de Deus! Falem sobre elas nas ruas! Transmitam esses feitos a seus filhos e jamais os deixem ficar no esquecimento. A destra do Senhor tem operado coisas maravi­ lhosas e Seu nome é conhecido em toda a terra. Entretanto, as maravilhas que de modo mais direto se relacionam conosco são as da era cristã; certamente não pode­ mos relegá-las a segundo plano com respeito às maravilhas do Antigo Testamento. Nunca leram como Deus obteve para Si mesmo grande renome no dia de Pentecoste? Voltem-se para o livro dos relatos das maravilhas de Deus e leiam-no. Pedro, o pescador, levantou-se e pregou em nome do Senhor, seu Deus. Afluiu uma grande multidão e o Espírito Santo desceu sobre ela. E, que ocorreu? Umas três mil pessoas foram compungidas de coração e creram no Senhor Jesus Cristo. Porventura não sabem como os doze apóstolos junto com os discípulos foram a todas as partes anunciando a Palavra e como caíram os ídolos de seus tronos como resultado de sua pregação? As portas de muitas cidades se abriam e os mensageiros de Cristo percorriam as suas ruas pregando a mensagem da salvação. Na realidade, os discípulos no início foram perseguidos por toda parte e como perdizes foram perseguidos nos campos; mas, não sabem que mesmo nessas circunstâncias o Senhor obteve para Si a vitória, e que cem anos depois de haver Cristo ter sido cravado na cruz, o evangelho já havia sido pregado em todas as nações, e até as ilhas mais remotas haviam sido alcançadas pela pregação? Já se
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esqueceram, de como em todos os rios, milhares e milhares de gentios eram batizados ao mesmo tempo? Que área existe na Europa que nunca tenha ouvido a mensagem sublime do evangelho? Que cidade há em nosso país que não possa testemunhar como a verdade de Deus tem triunfado e como os pagãos, abandonando seus falsos deuses, dobraram os joelhos diante de Jesus Cristo, o Crucificado? A maneira como o evangelho foi propagado nos primeiros séculos, é, realmente, um milagre que jamais poderá ser eclipsado. O que quer que Deus tenha realizado no Mar Vermelho, Ele realizou ainda mais durante os primeiros cem anos que se seguiram a vinda de Cristo ao mundo. Parecia como se um fogo do céu houvesse corrido pelo chão e que nada pudesse resistir à sua força. A relampejante seta da verdade fez em pedaços o pináculo do templo idólatra e o nome do Senhor Jesus Cristo era adorado desde o levantar do sol até o seu ocaso. Isso é uma das coisas que temos ouvido dos tempos antigos! Acaso vocês nunca ouviram das coisas poderosas que Deus efetuou através de pregadores durante os séculos desde aquela época? Nunca lhes foi relatado o caso de Crisóstomo, o pregador apelidado “boca de ouro”? Sempre que ele pregava, uma grande e bem atenta multidão se comprimia no templo para escutá-lo. Crisóstomo, de pé e levantando mãos santas, com majestade incomparável, lhes falava a palavra de Deus em verdade e justiça. As pessoas o ouviam e inclusive se curvavam para a frente, para captar cada palavra; de vez em quando rompiam o silêncio com seus aplausos e com o ruído dos pés; logo o silêncio voltava e ficavam cativados pelas palavras do grande pregador, até que outra vez, levados pelo entusiasmo, punham-se em pé e aplaudiam, gritando de alegria. Em seus dias as conversões foram inumeráveis e o nome de Deus foi altamente glorificado na salvação de muitos pecadores.

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Porventura não lhes contaram seus pais as maravilhas operadas mais tarde naqueles tempos de superstição e densas trevas, quando o romanismo, entronizado, estendia sua vara de ferro sobre as nações, fechava as janelas do céu, apagava as próprias estrelas de Deus e fazia com que a escuridão cobrisse o povo? Não ouviram como Martinho Lutero se levantou para anunciar o evangelho da graça de Deus, como as nações treme­ ram, e o mundo reviveu ao escutar de novo a voz de Deus? Não ouviram a respeito de Zwínglio, entre os suíços, e Calvino, na cidade de Genebra, e dos poderosos feitos que Deus efetuou por meio deles? E como britânicos, já se esqueceram dos grandes pregadores da verdade - cessaram de vibrar seus ouvidos ao ouvirem a maravilhosa história dos pregadores enviados por Wicliffe a cada cidadezinha e aldeia da Inglaterra, para pro­ clamar o evangelho de Deus? Não nos informa a história que esses homens foram como tochas de fogo no meio de palhas secas; que suas vozes se assemelhavam ao rugir de leões e seus ministérios como o ataque de leõesinhos? Eles empurraram a nação para a frente e com respeito aos inimigos, clamavam: “Destruam-nos”. Ninguém podia resisti-los, porquanto o Senhor os revestira de poder. Aproximando-nos de tempos mais recentes, estou certo de que nossos pais nos relataram as coisas maravilhosas que Deus operou nos dias de Wesley e Whitefield. Naqueles dias todas as igrejas estavam adormecidas. A falta de religião era a regra do dia. As próprias ruas pareciam estar cheias de iniqüi­ dade e as sarjetas estavam repletas da perversidade do pecado. Levantaram-se, então, Whitefield e Wesley, homens cujos corações o Senhor havia tocado e que se atreveram a anunciar o evangelho da graça de Deus. De repente, como num momento, ouviu-se o tatalar de asas e a Igreja interrogou: “Quem são estes que voam como uma nuvem, e como pombas às suas janelas?” Elas vêm! Elas vêm! São incontáveis como os pássaros do céu,
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e seu ímpeto é como vento forte a que não pode resistir-se. Em poucos anos, como fruto da pregação destes dois homens, toda a Inglaterra foi permeada pela verdade evangélica. A Palavra de Deus era conhecida em cada cidade, e raramente encontrava-se uma aldeia na qual os metodistas não tivessem penetrado. Naqueles dias dos transportes vagarosos, quando o cristianismo parecia ter comprado os vagões nos quais os nossos pais viajaram - onde a vida comercial se movia a vapor e muitas vezes a religião rastejava seu ventre sobre a terra - ficamos atônitos diante de tais histórias, e nós as vemos como maravilhas. Apesar disso, creiamos nelas, pois foram parte substancial da história. E as maravilhas que Deus operou em tempos passados, pela Sua graça Ele ainda fará outra vez. “Aquele que é poderoso tem feito grandes coisas e santo é o seu nome.” Há uma característica especial nestas obras que Deus efetuou nos tempos antigos, para a qual gostaria de chamar a sua atenção: é que elas despertam nosso interesse e nossa admiração pelo fato de que foram efetuadas de maneira repentina. Os velhotes de nossas igrejas crêem que as coisas devem desenvolver-se paulatina e gradativamente; que se deve avançar passo a passo. A ação concentrada e o labor progressivo - dizem - nos levarão finalmente ao êxito. Mas a maravilha é que todos os feitos de Deus aconteceram subitamente. Quando Pedro se levantou para pregar, não levou seis semanas para que fossem convertidos os três mil. A conversão deles foi instantânea e o seu batismo ocorreu no mesmo dia. Naquela mesma hora eles se voltaram para Deus e chegaram a ser discípulos tão verdadeiros de Cristo como se a conversão resultasse de um processo de setenta anos. Assim foi também nos dias de Martinho Lutero: o grande reformador não precisou de séculos para superar as densas trevas de Roma. Deus acendeu a vela e a luz brilhou num instante. Ele age de modo repentino. Se alguém pudesse
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ter estado em Wurtemburg e ter perguntado: “Pode o papado estremecer, pode o Vaticano ser abalado?” a resposta teria sido: “Não, será preciso pelo menos mil anos para que isso aconteça. O papado, a grande serpente, tem se enrolado nas nações e apertado-as tão rapidamente em sua espiral, que elas não podem ser libertadas a não ser por um longo processo”. Contudo, “não é assim”, disse Deus. Ele feriu o dragão violentamente, e as nações foram libertas; Ele partiu os portões de bronze, quebrou em pedaços as barras de ferro e o povo foi liberto na mesma hora. A liberdade não veio ao longo dos anos, e sim num instante. “O povo que andava em trevas viu uma grande luz; aos que moravam em terra de sombra de morte a luz resplandeceu sobre eles.” O mesmo ocorreu nos dias de Whitefield. A censura que pesava sobre uma igreja adormecida não foi trabalho de eras; aconteceu imediatamente. Vocês nunca ouviram a respeito do grande avivamento sob o ministério de Whitefield? Tomemos, por exemplo, o que sucedeu em Cambuslang. Enquanto pregava no pátio de uma igreja, pois nenhum edifício podia comportar a multidão, o poder de Deus veio sobre as pessoas, e uma após outra caía por terra como se tivesse sido golpeado. Estima-se que uma multidão de não menos de três mil indivíduos chorava em uníssono sob a convicção do pecado. Whitefield prosseguia com a mensagem: ora suas palavras faziam tremer como Boanerges, ora eram suaves como tons consoladores de um Barnabé. Não há linguagem capaz de descrever as grandes maravilhas operadas por Deus através daquele sermão memorável. Nem ainda o sermão de Pedro no dia de Pentecoste se assemelhou a ele. Assim tem sido em todos os avivamentos; a obra de Deus tem sido feita repentinamente. Como o rebombar do trovão, Ele desce do alto; não de maneira lenta, porém majesto­ samente tem cavalgado sobre os querubins e voado sobre as asas do vento impetuoso. Repentina tem sido a Sua obra, as pessoas
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mal podiam crer que ela fosse verdadeira - foi realizada em tempo tão breve. Considerem o grande avivamento que está ocorrendo em Belfast e arredores. Depois de tê-lo acompanhado cuidadosamente e após ter falado com um querido irmão que morou naquela região, e que merece a minha confiança, estou convencido, apesar do que os inimigos possam dizer, que se trata de uma genuína obra da graça e que o Senhor está operando maravilhas ali. Um amigo que veio me visitar ontem informou que os homens mais sórdidos e vis, assim como as mulheres mais depravadas de Belfast, têm sido alcançados por esta extraordinária epilepsia - como diz o mundo - mas que sabemos ser a influência poderosa do Espírito. Homens costumeiramente bêbados de repente sentiram um grande impulso que os obrigou a orar. Eles resistiram, voltaram à bebida, a fim de se livrarem daquilo; mas mesmo no meio de suas blasfêmias e tentativas de apagar o Espírito, Deus os fez dobrar os joelhos e se viram obrigados a pedir misericórdia com gritos desesperados, e a agonizar em oração. Então, depois de certo tempo, o maligno parece ter saído deles; e, com a mente sossegada, santa e feliz, eles fizeram profissão de sua fé em Cristo e têm andado em Seu temor e amor. Católicos romanos têm sido convertidos. Pensei que fosse algo extraordinário; contudo eles têm sido convertidos muito freqüentemente mesmo em Ballymena e em Belfast. De fato, foi-me dito que os padres estão agora vendendo pequenas garrafas de água benta para que o povo a beba, a fim de serem imunizados contra este contágio irremediável do Espírito Santo. Dizem que esta água benta possui tal eficácia que aqueles que não freqüentaram nenhuma das reuniões muito provavelmente estarão livres da ação do Espírito Santo - assim dizem-lhes os padres. Todavia, se eles comparecerem às reuniões, até mesmo esta água benta não poderá imunizá-los - tornam-se passíveis de cair como presas da influência divina. Creio que eles são
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passíveis desta influência, tanto com tal água benta como sem ela. Tudo isso tem acontecido de maneira súbita, e embora possamos encontrar algum elemento de excitamento natural, estou persuadido de que, em essência, é um avivamento verda­ deiro e espiritual, uma obra que permanecerá. Há um pouco de espuma na superfície, mas existe uma corrente de água profunda que não pode ser resistida e que arrasta e leva consigo tudo que encontra. Pelo menos há algo que desperta nosso interesse ao saber que na pequena cidade de Ballymena, nos dias de feira, os donos de bares costumavam ganhar mais de cem libras diariamente, pela venda de uísque, mas agora todos os taverneiros juntos não ganham nem uma libra. Homens que outrora eram beberrões, agora se reúnem para orar; depois de ouvir um sermão, o povo esperará para ouvir outro e nalgumas ocasiões para escutar um terceiro sermão, até que o pregador se vê obrigado a dizer: “Agora vocês precisam se retirar; estou esgotado”. Ao sair do templo, se espalham pelas ruas e pelas casas em pequenos grupos, para suplicar que Deus continue Sua obra poderosa e a fim de que os pecadores sejam convertidos. “Nós não podemos crer”, talvez digam alguns de vocês. Provavelmente não podem, porém alguns de nós podemos, porque o temos ouvido com os nossos ouvidos e nossos pais nos contaram as grandes obras que Deus fez em seus dias, de modo que estamos dispostos a crer que hoje em dia Ele pode realizar feitos semelhantes. Devo destacar agora que em todas estas velhas histórias, há uma característica bastante evidente. Sempre que Deus reali­ zou um feito poderoso, Ele o fez por meio de um instrumento bem insignificante. Quando matou Golias, foi através do pequeno Davi, que não passava de um jovem ruivo. Não guardem a espada de Golias - sempre pensei que fosse um erro de Davi - guardem, não a espada de Golias, e sim a pedra, e
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entesourem a funda da armadura de Deus para sempre. Quando Deus quis matar Sísera, foi uma mulher que teve de fazer isso com um martelo e uma estaca. Deus tem executado Seus feitos mais poderosos por meio dos instrumentos mais insignificantes: este é um dos fatos mais verdadeiros com respeito a todos os feitos de Deus - Pedro, o pescador, no Pentecoste; Lutero, o humilde monge na Reforma; Whitefield, o atendente da antiga hospedaria Bell de Gloucester na época do avivamento do século passado - e assim deve ser até o fim. Deus não atua por intermédio dos cavalos e da carruagem de Faraó, mas sim pela vara de Moisés; Suas maravilhas não são feitas com o furacão nem com a tempestade; Ele as realiza por meio de uma pequena e calma voz, para que a glória possa ser Sua e a honra seja absolutamente Sua. Acaso isso não abre espaço para que eu e vocês sejamos encorajados? Por que não podemos ser usados para realizar algum feito poderoso para Deus aqui? Além disso, temos notado que, em todas estas narrativas dos poderosos feitos de Deus no passado, onde quer que tenha realizado algo de grandioso, Ele Se serviu de alguém que possuía grande fé. Neste momento acredito firmemente que, se Deus o quisesse, todas as pessoas neste auditório seriam convertidas num só instante. Se fosse do Seu agrado pôr em ação a operação do Seu Espírito, nem mesmo o coração mais endurecido poderia resisti-la. Deus tem misericórdia de quem Ele quer. Agirá conforme Lhe apraz; ninguém pode reter a Sua mão. “Bem,” dirá alguém, “mas eu não espero ver grandes coisas”. Então, meu caro amigo, você não ficará desapontado, porque não irá vê-las; todavia aqueles que esperam grandes coisas, as verão. Homens de grande fé realizam grandes coisas. Foi a fé de Elias que pôs fim aos sacerdotes de Baal. Se ele tivesse o pequeno coração que alguns de vocês têm, os sacerdotes de Baal ainda teriam continuado a governar o povo e jamais teriam sido destruídos pela espada. Foi sua fé que
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impulsionou Elias a dizer: “Se o Senhor é Deus, segui-o; se Baal, segui-o”. E mais tarde: “Escolham para si um dos bezerros, e o dividam em pedaços, e o ponham sobre a lenha, porém não lhe metam fogo. Invocai o nome do vosso deus e eu invocarei o nome do Senhor”. Foi a sua nobre fé que fê-lo dizer: “Tomem os profetas de Baal; que nenhum deles escape”; assim ele os levou ao ribeiro de Quisom, e ali os matou - um holocausto ao Senhor. A razão pela qual o nome de Deus foi tão magnificado foi porque a fé que Elias possuía em Deus era muito poderosa e heróica. Quando o papa enviou sua bula de excomunhão a Lutero, este a queimou. No meio de uma multidão, e sustentando nas mãos o documento a ponto de ser devorado pelas chamas, Lutero exclamou: “Olhem, isto é a bula do papa.” Que importância tinha para ele todos os papas que já estavam dentro ou fora do inferno? Quando Lutero tinha que ir a Worms a fim de comparecer diante da Dieta, os seus seguidodres lhe disseram: “Não vá; sua vida corre perigo.” “Ora”, replicou Lutero, “Ainda que houvesse tantos diabos em Worms como telhas nos telhados das casas, ainda assim não temeria; eu irei à Dieta”. E se dirigiu a Worms, confiando no Senhor seu Deus. O mesmo aconteceu com Whitefield; ele cria e esperava que Deus realizasse grandes coisas. Cada vez que subia ao púlpito estava convencido de que Ele abençoaria o povo, e assim Deus o fez. Uma pequena fé só fará pequenas coisas, mas uma fé robusta será grandemente recompensada. Ó Senhor, nossos pais nos tem contado que sempre que exibiram uma grande fé, Tu os honraste realizando grandes obras. Não os deterei mais neste ponto, exceto para fazer uma observação. Todos os poderosos feitos de Deus têm sido o resultado de muita oração, junto com uma grande fé. Já ouviram como iniciou o grande avivamento americano? Certo homem, desconhecido e ignorado, propôs no coração orar para que Deus
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abençoasse o seu país. Depois de orar intensamente e de fazer a pergunta que estremece a alma: “Senhor, que queres que eu faça? Senhor, que queres que eu fa ça T , alugou um casa e pôs um anúncio de que se realizaria uma reunião de oração numa determinada hora do dia. À hora indicada ele não encontrou ninguém na casa; novamente se pôs a orar e por meia hora orou sozinho. No fim dessa meia hora chegou uma pessoa e em seguida outras duas, e penso que a reunião terminou com seis pessoas. Na outra semana, cerca de cinqüenta pessoas se reuniram para orar; afinal, quando eram mais de cem as pessoas que partcipavam das reuniões, resolveu-se iniciar outras reuniões de oração. Semanas mais tarde era quase impossível encontrar uma rua em Nova Iorque onde não houvesse reuniões de oração. Os comerciantes reservavam tempo para orar no meio do dia. Reuniões de oração chegaram a ser realizadas diariamente por uma hora. Comunicavam os pedidos e os assuntos de oração e de maneira simples as pessoas as apresentavam ao Senhor, e as respostas vieram. Muitos eram os corações alegres que se levantavam para testificar que a oração feita na semana anterior já havia sido respondida. Foi então, quando todos se dedicavam ardentemente à oração, que o Espírito de Deus desceu sobre eles de maneira repentina. Menciona-se o caso de certo pregador numa pequena povoação, que dentro duma semana viu como o Senhor havia usado sua pregação para conversão de centenas de almas. O avivamento se estendeu aos estados do Norte e pode afirmar-se que chegou a ser generalizado. Calcula-se que em menos de três meses, mais de duzentas e cinqüenta mil pessoas foram convertidas ao Senhor. Os mesmos efeitos foram produzidos em Ballymena e Belfast através de meios semelhantes. Um crente fez o propósito de orar e orou. Mais tarde organizou uma reunião de oração periódica. Dia após dia se congregava um grupo de irmãos para suplicar um avivamento, e assim o fizeram até que o fogo
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celestial desceu e o avivamento se tornou uma realidade. Pecadores foram convertidos, não em pequeno número, mas às centenas e milhares, de modo que o nome do Senhor era intensamente glorificado pelo progresso do Seu evangelho. Amados, apenas me limito a apresentar-lhes fatos. Façam cada um de vocês suà própria estimativa dos mesmos.

II. De acordo com a divisão apresentada de início, ago devo mencionar ALGUMAS DESVANTAGENS MUITAS VEZES ALEGADAS COM RESPEITO A TAIS HISTÓRIAS ANTIGAS. Ao ouvir das maravilhas que Deus tem operado, uma das coisas que as pessoas dizem é esta: “Ora, isso aconteceu há muito tempo atrás”. Elas imaginam que desde então os tempos mudaram. Alguém diz: “Posso acreditar em qualquer coisa sobre a Reforma; por maiores que sejam os relatos, posso admiti-los”. “O mesmo faria em relação a Whitefield e Wesley”, diz outro, “tudo aquilo é absolutamente verdadeiro, ambos trabalharam vigorosa e eficientemente, mas isso ocorreu há muitos anos atrás. Naqueles tempos as coisas eram diferentes de como são agora”. Está certo que os tempos mudaram, mas isso que tem a ver? Pensei que foi Deus quem fez tudo aquilo. Acaso Deus mudou? Não é Ele um Deus imutável, o mesmo ontem, hoje e para sempre? Isso não seria uma prova para demonstrar que o que Deus realizou numa ocasião, Ele pode fazer numa outra? Certamente que sim; e ainda iria mais além, porquanto me atreveria a afirmar que o que Ele já fez uma vez constitui uma previsão do que Ele Se propõe a fazer novamente. Os poderosos feitos que operou em tempos passados se repetirão outra vez, e o cântico do Senhor será entoado novamente em Sião, e o Seu nome será glorificado. Outros entre vocês afirmam: “Bem, mas considero estas coisas como prodígios, como milagres. E, portanto, não podemos esperar que ocorram
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todos os dias”. Esta é precisamente a razão pela qual não acontecem. Se houvéssemos aprendido a esperá-las, sem dúvida as obteríamos, porém nós as arquivamos e separamos de nossa religião moderada e as relegamos como meras curiosidades da história bíblica. Imaginamos que tais coisas, ainda que verdaderias, sejam prodígios da Providência e não podemos imaginar que elas ocorram na área da Sua obra costumeira. Rogo-lhes, meus amigos, que se desprendam de tal pensamento e o afastem de suas mentes. Tudo que Deus tem feito para converter os pecadores deve ser considerado como um precedente, pois “não se enco­ lheu a mão do Senhor para salvar, nem está agravado o seu ouvido para não ouvir”. Se nos sentimos limitados de alguma íorma, não é por causa dEle, é por causa de nós mesmos. Tomemos esta culpa sobre nós mesmos e com verdaderiro anseio supliquemos que Deus nos conceda a fé de nossos ante­ passados, a fim de que desfrutemos ricamente de Sua graça como nos tempos de outrora. Há ainda outra desvantagem referente àquelas histórias antigas. E é a de que não as temos visto. Por mais que lhes fale sobre avivamentos vocês não chegarão a crer tão firmemente neles como fariam se ocorresse um entre vocês. Se o vissem com os próprios olhos, então se convenceriam do poder do mesmo. Se tivessem vivido nos tempos de Whitefield ou ouvido a pregação de Grimshaw, vocês creriam totalmente. Por mais quente que fosse o tempo e apesar de ter de viajar a cavalo, (irimshaw costumava pregar, no mínimo, vinte e quatro vezes por semana. Era um verdadeiro pregador. Parecia como se o próprio céu descesse à terra para escutá-lo. Falava com ardor extraordinário, com todo o fogo que jamais pudesse aquecer um peito mortal, e o povo tremendo ante o que ouvia, exclamava: " (’crtamente esta é a voz de Deus”. O mesmo pode ser dito a respeito de Whitefield. Enquanto ele pregava, as pessoas se
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retorciam de um lado para outro, da mesma maneira que o trigo no campo se move ao impulso do vento. De tal modo se manifestava a energia de Deus, que mesmo o mais endurecido dos corações tinha de confessar: “Nunca escutei algo semelhante; tem que haver algo nisso”. Porventura vocês não reconhecem que estes fatos são reais? Eles se levantam ante os seus olhos com todo o seu brilho? Então creio que as histórias que chegam hoje aos seus ouvidos devem produzir um verdadeiro e transformador efeito em suas próprias vidas.

III. Em terceiro lugar, tratarei de CERTA INFERÊNCIAS DECORRENTES DAS ANTIGAS HISTÓRIAS DOS PODEROSOS FEITOS DE DEUS. Como desejaria poder falar com o mesmo ardor demonstrado por alguns desses homens cujos nomes mencionei! Orem por mim, para que o Espírito de Deus repouse sobre mim, para que eu possa pleitear com vocês por alguns minutos, com toda minha força, procurando exortá-los e animá-los, a fim de que também entre nós ocorra um avivamento. Meus queridos amigos, o primeiro efeito que a leitura da história dos poderosos feitos de Deus deveria produzir em nós é o de gratidão e louvor. Existiria algo atualmente que nos impulsione a cantar? Se não há, então louvemos ao Senhor pelas maravilhas operadas nos tempos passados. Se não podemos elevar ao nosso Amado um cântico pelo que Ele está fazendo em nosso meio, retiremos as harpas dos salgueiros e entoemos uma canção antiga e bendigamos o santo nome pelas maravilhas operadas na Igreja do passado. Exaltemos o Seu nome pelas maravilhas realizadas no Egito e em todas as terras por onde conduziu o Seu povo, e das quais o libertou com mão poderosa e braço estendido. Quando assim começarmos a louvar a Deus pelas maravilhas que Ele tem realizado, creio que posso me aventurar a imprimir nas suas mentes outra grande tarefa. Desejaria que o que Deus
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tem feito os movesse a orar para pedir-Lhe que realize de novo esses sinais e maravilhas entre nós. O irmãos, como se alegraria o meu coração em saber que existe entre alguns de vocês o desejo de regressar aos seus lares para orar por um avivamento. Oxalá houvesse homens com uma fé tão grande e um amor tão ardente que seriam movidos a cair sobre os joelhos para rogar com súplicas incessantes para que o Senhor Se manifestasse entre nós e realizasse aqui as mesmas maravilhas que operou nos tempos antigos! } Lembrem-se dé que muitas das pessoas aqui reunidas deveriam ser objeto de nossa compaixão. Olhando ao meu redor, posso ver algumas pessoas cujas vidas conheço mais ou menos, contudo quantos há que ainda não são convertidos! Há aqui muitos que têm tremido - e eles mesmos sabem que o têm feito - pois se sentem atingidos por temores; estão arriscando seu destino e havendo resolvido ser suicidas de suas próprias almas, tem depreciado a graça que um dia parecia estar operando em seus corações. Deram as costas às portas do céu e agora estão correndo em direção às portas do inferno. Não estenderão vocês as mãos a Deus para que Ele os detenha em sua carreira louca? Se nesta congregação houvesse apenas um incrédulo e eu pudesse assinalá-lo publicamente e dizer: “Ali está sentado uma pessoa que nunca experimentou o amor de Deus nem jamais foi movida ao arrependimento,” estou seguro de que todos vocês lhe dirigiriam um olhar ansioso. Creio que dentre os milhares de cristãos aqui reunidos, nem um só deixaria de orar por essa alma não convertida. Todavia, meus irmãos, não é somente uma alma que está em perigo do fogo do inferno; aqui há centenas e milhares de nossos semelhantes nessa condição. Deveria lhes dar outra razão que justifique a necessidade da oração? Até agora parece ser que todos os meios empregados têm sido sem resultado algum. Deus me é testemunha de quantas vezes deste púlpito Lhe supliquei que me usasse como
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instrumento de salvação dos homens. Tenho lhes pregado sempre do fundo de meu coração. Nunca lhes pude dizer mais do que lhes tenho dito, e espero que a intimidade do meu quarto um dia testifique do fato de que não termina meu afeto e amor pelas almas ao concluir a pregação. Meu coração intercede por aqueles que nunca foram afetados pela Palavra de Deus e pelos que, depois de atingidos, tratam de apagar o Espírito de Deus. Meus queridos ouvintes, tenho feito tudo o que posso. Vocês não virão para ajudar o Senhor a lutar contra o poderoso inimigo? Talvez suas orações possam fazer o que a minha pregação não consegue. Ei-los aqui; eu os encomendo aos seus cuidados. São homens e mulheres cujos corações recusam-se a derreter, cujos joelhos obstinados não querem se dobrar; entrego-lhes a vocês e peço que orem por eles. Apresentem-nos, de joelhos, a Deus em oração. Esposa, nunca deixe de orar pelo seu esposo incrédulo. Esposo, jamais interrompa as súplicas até ver a sua esposa convertida. Pais e mães, vocês não têm filhos não convertidos? Não os têm trazido aqui domingo após domingo, e eles permanecem como sempre foram? Já os têm enviado de uma igreja a outra, e eles ainda continuam na mesma. A ira de Deus permanece sobre eles. Têm de morrer; e vocês sabem que, se morressem agora, as chamas do inferno os devorariam. Vocês ainda deixarão de orar por eles? Que corações duros e almas embrutecidas têm vocês se, professando conhecer a Cristo, não oram por aqueles que nasceram do seu próprio sangue. Não sabemos o que Deus faria por nós se de nossa parte suplicássemos a Sua bênção. Temos sido testemunhas de como o Exeter Hall, a Catedral de São Paulo e a Abadia de Westminster ficam lotados inteiramente, contudo não temos visto resultado algum desses enormes ajuntamentos. Será que nós temos tentado pregar sem antes tentar orar? Acaso não parece que a igreja tem estendido a mão da pregação, e não a da
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oração? Ó amados amigos, agonizemos em oração, e neste grande auditório se escutará os suspiros e gemidos dos peniten­ tes e os cânticos dos convertidos. Então esta grande multidão não entrará e sairá deste recinto de forma rotineira, porém aban­ donará o local louvando a Deus e dizendo: “Foi bem estar alí. Não é outro lugar senão a casa de Deus e a porta do céu!” Isso deve impulsionar-nos à oração. Outra dedução que deve­ ríamos tirar dessas histórias que ouvimos, é a de que deveriam corrigir qualquer sentimento de suficiência própria que possa ter-se introduzido em nossos corações traiçoeiros. Quem sabe se nós, como igreja, não temos confiado em demasia em nossos números ou em qualquer outra coisa. Podemos ter pensado: “Certamente o Senhor há de abençoar-nos através deste minis­ tério”. Pois bem, que as histórias que os nossos pais nos têm contado façam-nos recordar, tanto a vocês como a mim, que não é por muitos nem por poucos que o Senhor salva. Pelo contrá­ rio, é que não somos nós que fazemos a obra, e sim o Senhor que a faz totalmente. Quem sabe, um pregador desconhecido, cujo nome jamais se ouviu - até um estrangeiro naturalizado comece a pregar nesta cidade de Londres com um poder maior do que o jamais experimentado pelos bispos e ministros locais. Eu lhe daria as boas-vindas e pediria que Deus o acompanhasse. Não importa o local de procedência; só desejo que o Senhor o envie e que se realize a obra. Contudo, pode ser que Deus pretenda usar este servo que lhes fala para seu bem e sua conver­ são. Nesse caso, meu gozo transbordaria até o limite. Mas não ponham confiança no instrumento. Saibam: quanto mais os homens riram e zombaram de nós, tanto mais Deus nos abençoou. Atualmente não é um descrédito assistir às reuniões do Music Hall. Não nos deprezam tanto agora como a princípio, porém duvido que desfrutamos agora tantas bênçãos como outrora. Estaríamos dispostos a sofrer, como escravos, e a passar outras humilhações, tendo todos os jornais contra nós,
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com todos os homens vaiando-nos e insultando-nos, se assim Deus o quiser, se, com isso, Ele apenas nos enviasse uma bênção. Mas abandonemos a idéia de que o nosso arco e a nossa espada possam conduzir-nos à vitória. Nunca poderemos expe­ rimentar um avivamento, a não ser que creiamos que o Senhor, e somente o Senhor, é quem pode realizá-lo. Tendo feito essa declaração, tratarei agora de estimular-lhes a confiança de que, ainda hoje, podemos ter um avivamento e de que as grandes obras que Deus efetuou nos tempos antigos podem repetir-se. Por que razão não pode ser convertido cada um dos meus ouvintes? Encontra-se o Espírito de Deus limitado? Por que não deveria o mais simples ministro chegar a ser o meio de salvação de milhares de almas? Encolheu-se o braço de Deus? Meus queridos irmãos, quando os concito a orar para que Deus torne o ministério deste seu servo como espada de dois gumes para a salvação dos pecadores, não requeiro de vocês uma tarefa árdua, muito menos um algo impossível. Somente temos que pedir para receber. Antes que clamemos, Deus responderá; e enquanto estamos falando, Ele ouvirá. Só Deus sabe os frutos que resultariam deste sermão se fosse do Seu agrado abençoá-lo. Doravante talvez orarão mais; talvez daqui em diante o Senhor abençoe mais este ministério. Quem sabe se a partir desta hora outros púlpitos irradiarão mais vida e vigor. Deste momento em diante a Palavra de Deus talvez irrompa com tanta força que alcance uma vitória assombrosa e sem precedentes. Apenas lutem em oração, reúnam-se em suas casas e individualmente em seus quartos, instem a tempo e fora de tempo; agonizem pelas almas. E assim notarão que o que ouvi­ ram será logo esquecido pelo que verão; o que os outros contaram será como nada em comparação com o que ouvirão com os ouvidos e verão com os próprios olhos.

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Ó vocês, para quem tudo isso parece uma fábula oca, que não amam a Deus, nem O servem, rogo-lhes que parem e pensem por alguns momentos. Ó, Espírito de Deus, desça sobre Seu servo e torne poderosas as suas palavras. Deus tem contendido com alguns de vocês, de modo que têm experimen­ tado períodos de convicção. No entanto, agora estão tentando adotar uma atitude ímpia e dizendo consigo mesmos: “Não existe inferno, não há nada depois da morte”. Isso não é verdade. Vocês sabem que há um inferno e que nem mesmo as gargalhadas dos que desejam destruir suas almas podem fazer com que acreditem o contrário. Não pre­ tendo discutir com vocês agora, pois suas consciências testemunham que Deus os castigará por seus pecados. Podem ter certeza que jamais terão felicidade enquanto tentarem neutralizar o Espírito de Deus. Estão longe da senda da felicidade por resistirem os pensamentos que os levariam a Cristo. Rogo-lhes que retirem suas mãos do braço de Deus; não resistam mais ao Seu Espírito. Dobrem os joelhos, apeguem-se a Cristo e creiam nEle. Isso há de acontecer. O Espírito Santo será vitorioso sobre vocês. Espero que, em resposta às muitas orações, Deus ainda queira salvá-los. Rendam-se agora, tendo em mente que se conseguirem apagar o Espírito, esse triunfo será o desastre mais terrível que lhes pode ocorrer. Se o Espírito os abandonar, vocês estarão perdidos para sempre. Talvez seja este o último aviso que lhes será dado. A convicção que vocês agora estão tentando abafar, talvez seja a última. Quem sabe, o anjo já pode estar a ponto de pôr o selo e o lacre sobre seu destino, dizendo: “Abandone-os. Eles preferem os vícios e a concupiscência; que se cumpra, pois, seus desejos - que no fogo do inferno recebam o salário do pecado”. Ouso dizer com Pedro: pecadores, creiam no Senhor Jesus; arrependam-se e sejam convertidos. Eu os exorto, em nome de Deus, a que se arrependam e escapem da condenação. Mais algum tempo e
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saberão o que significa a perdição, caso não se arrependam. Apressem-se a vir a Cristo enquanto o azeite arde na lâmpada e ainda se prega a misericórdia. A graça ainda está sendo proclamada; aceitem a Cristo, não O rejeitem por mais tempo, venham a Ele agora. As portas da misericórdia estão abertas de par em par; venham agora, pecadores, para que seus pecados lhes sejam perdoados. Quando os soldados da antiga Roma atacavam uma cidade, muitas vezes costumavam pôr uma bandeira branca no alto da porta central da muralha, e se a guarnição se rendia enquanto estava hasteada a bandeira branca, era-lhe poupada a vida. Depois içavam uma bandeira negra e todos os que não tinham aproveitado da oportunidade oferecida, pereciam sob a espada inimiga. A bandeira branca está levantada hoje; talvez amanhã a bandeira negra seja hasteada sobre o mastro da lei, e então não haverá esperança de arrependimento ou salvação, nem nesta vida nem na vida vindoura. Um conquistador oriental, ao chegar às portas da cidade que tencionava conquistar, acendia um braseiro de carvão e colocando-o sobre um mastro bem alto, fazia soar a trombeta com a condição de que todos aqueles que se rendessem enquanto permanecesse o fogo, desfrutariam de sua clemência, mas ao consumir-se o último tição, com seu exército acometeria com ímpeto e não deixaria pedra sobre pedra. Tanto homens, como mulheres e crianças, teriam morte cruel. De modo semelhante, os trovões de Deus hoje os concitam a escutar o aviso divino. Ainda permanecem a luz, a lâmpada e o braseiro aceso. Com o correr dos anos o fogo vai se consumindo; no entanto ainda resta um pouco de carvão. Neste instante, porém, o vento da morte está tentando extinguir a última brasa viva. Ó pecador, arrependa-se enquanto dura a chama do braseiro! Faça-o agora, pois ao extinguir-se o último tição, de nada lhe aproveitará o arrependimento. Uma vez no tormento, seu gemido eterno não
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poderá comover o coração de Deus; seus gemidos e suas lágrimas amargas não farão com que Ele tenha compaixão de você. “Se ouvirdes hoje a Sua voz, não endureçais o coração como na provocação”. Ó, apegue-se a Cristo hoje! “Beijai o Filho para que não se ire e pereçais no caminho, quando se acender em breve o seu furor. Bem-aventurados todos os que nele confiam”.

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O SANGUE DO CONCERTO ETERNO*
“O sangue do concerto eterno” - Heb. 13:20. Todas as relações que Deus tem mantido com o homem têm o caráter de concerto. Agradou-Lhe dispor as coisas de tal maneira, que todas as Suas relações com Suas criaturas deviam verificar-se através de um pacto; e não sendo desse modo tam­ pouco podemos relacionar-nos com Ele. No Éden, Adão estava sob um pacto com Deus, e Deus em aliança com ele. Mas Adão logo rompeu aquele pacto. Todavia existe um concerto com todo o seu terrível poder, e digo terrível porque tem sido des­ respeitado por parte do homem, e portanto Deus cumprirá as solenes ameaças e sanções contidas nele. É o pacto das obras. Por meio dele, Deus Se relacionou com Moisés, e através dele Deus Se relaciona com toda a raça humana tal como estava representada no primeiro Adão. Depois, nos tratos que Deus teve com Noé, também foram em forma de aliança. Mais tarde com Abraão, Lhe aprouve relacionar-Se mediante um pacto. Abraão o manteve e o guardou, sendo o pacto renovado a muitos da sua descendência depois dele. Inclusive com Davi, homem segundo o Seu coração, Deus Se relacionou através de um pacto.
* D om ingo de manhã, 2 de outubro de 1859. 44

Mesmo nesta época Se relaciona conosco mediante um concerto. Quando em Seu furor vier a condenar, ferirá com um pacto, isto é, com a espada do pacto do Sinai; quando, entretanto, vem no esplendor da Sua graça para salvar, Ele o faz mediante um pacto, isto é, o pacto de Sião, que é o que foi feito com o Senhor Jesus Cristo, representante e cabeça do Seu povo. E notem bem, que sempre que desejemos estabelecer estreitas e íntimas relações com Deus, elas devem verificar-se, mesmo de nossa parte, na forma de um concerto. Após a conversão, fazemos com Deus uma aliança de gratidão; movidos pelo que Ele realizou por nós, nos aproximamos e nos entregamos completamente a Ele. Pomos nosso selo a este pacto quando através do batismo nos unimos à Sua Igreja, e todas as vezes que participamos da Ceia do Senhor renovamos o voto do nosso concerto e temos comunhão pessoal com Deus. Não posso orar a Deus a não ser através do pacto da graça; e não me torno Seu filho a menos que não tenha sido comprado mediante o pacto de Cristo - através do qual tenho-me entregue a Ele, e dedicado tudo que sou e possuo. Posto que o pacto é a única escada que se estende da terra ao céu, e o único caminho pelo qual Deus mantém comu­ nhão conosco, e mediante o qual podemos relacionar-nos com Hle, é extremamente importante que saibamos distinguir entre aliança e aliança. Seria lamentável manter algum erro ou dúvida referente ao que significa e não significa o pacto da graça. Portanto, nesta ocasião desejo falar-lhes, da maneira mais simples possível, do valor e do significado do concerto mencionado em nosso texto bíblico. Tratarei de fazê-lo com franqueza e clareza. Inicialmente lhes falarei do concerto da graça', a seguir, do seu caráter eterno; por último, da relação (/ue o sangue tem com respeito ao mesmo - “O sangue do con­ certo eterno”.

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I. Considerando, primeiramente, O CONCERTO mencionado em nosso texto, destacaremos o seu caráter específico, o que não será coisa fácil. Aqui não se fala do pacto das obras, pois se o fosse, não seria chamado eterno. O pacto das obras de modo algum possuiu um caráter eterno. Não era eterno, uma vez que foi feito no jardim do Éden. Teve princípio; não foi observado e constantemente foi violado. Aquele pacto logo terminou e deixou de ser; portanto, não foi eterno em nenhum sentido. O pacto das obras não pode levar um título eterno; mas o concerto do nosso texto, por tratar-se de uma aliança eterna, não pode de modo algum identificar-se com o pacto das obras. O pacto que Deus fez primeiramente com a raça humana incluía as seguintes promessas e condições: se o homem fosse obediente, viveria e seria feliz; porém se desobedecesse, pereceria. “No dia em que deixar de obedecer-me, certamente morrerá”. Esse pacto foi feito com todos nós na pessoa do nosso representante, o primeiro Adão. Se Adão houvesse observado o pacto, nós agora estaríamos isentos do pecado. Mas Adão não o guardou, e com sua queda todos nós também caímos. Como consequência de haver caído em Adão, cada um dos seus descendentes se tomou filho da ira, herdeiro do pecado e está inclinado a toda maldade e sujeito a toda miséria. Esse pacto foi abolido com respeito aos filhos de Deus; a vinda de uma nova e melhor aliança o eclipsou e o aboliu com sua glória resplandecente. Devo acrescentar que o concerto mencionado em nosso texto não é o pacto de gratidão que se faz entre um filho de Deus e o seu Salvador. Tal pacto existe e deve ocupar um lugar próprio na vida de cada cristão. Espero que todos nós que conhecemos o Salvador tenhamos exclamado em nossos corações: “Está feita! A grande transação está feita; Pertenço ao meu Senhor e Ele me pertence a mim”
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Já entregamos tudo a Ele. Não há que confundir este pacto com o concerto que encontramos em nosso texto, pois o do nosso versículo é eterno, enquanto que o nosso pacto pessoal foi escrito há poucos anos. E mesmo esse teria sido depreciado por nós nos primeiros anos da nossa vida, devido a nossa incredulidade. Tendo assim demonstrado negativamente o que este concerto não é, estudemo-lo agora positivamente e vejamos em que consiste. E aqui me será preciso fazer algumas sub-divisões. Primeiro, para entender o que seja um concerto, temos de saber quais são as partes contratantes; a seguir, quais as estipulações ou condições do contrato; e por último, qual o seu conteúdo. E se desejamos aprofundar ainda mais sobre o tema, teremos de compreender algo sobre os motivos que moveram as partes contratantes para estabelecer um pacto entre si. 1. Observemos, pois, inicialmente, as ilustres partes contratantes entre as quais se fez este concerto da graça. Foi firmado antes da fundação do mundo entre Deus o Pai e Deus o Filho; ou, expressando-o numa linguagem ainda mais bíblica, foi feito entre as três pessoas divinas da adorável Trindade. Este pacto não foi diretamente entre Deus e o homem; o homem nesse tempo não existia; Cristo aparece neste concerto como representante do homem. E é neste sentido que pode declarar-se ter sido uma aliança entre Deus e o homem, mas nunca como um pacto entre Deus e qualquer homem pessoal ou individual. Foi uma aliança entre Deus e Cristo; e através de Cristo, de maneira indireta, com toda a linhagem humana que foi comprada pelo Seu sangue. Cristo amou a esta linhagem desde antes da fundação do mundo. É um pensamento nobre e glorioso - o mesmo lirismo da doutrina calvinista, a qual nós ensinamos que antes que a estrela matutina conhecesse seu lugar, antes que do nada Deus criasse o universo, antes que a asa do anjo agitasse os virgens espaços etéreos, e antes que um solitário cântico
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perturbasse o silêncio no qual Deus reinava supremamente, Ele já havia entrado em conselho conSigo mesmo, com Seu Filho e com Seu Espírito, e havia determinado, proposto e predestinado a salvação de Seu povo. Além disso, havia disposto neste concerto a maneira e os meios e todas as coisas que deviam operar conjuntamente para levar a efeito o propósito e o decreto. Minha alma se transporta até ao passado, com as asas da imaginação e da fé, e contempla no profundo dos mistérios daquele conselho eterno, e através dos olhos da fé contempla o Pai comprometendo-Se com o Filho e o Filho comprometendoSe com o Pai, enquanto o Espírito Se compromete com ambos, e desta maneira, aquele convênio divino, que por muito tempo estaria escondido na obscuridade, foi completado e ultimado. Esta era a aliança que nos últimos tempos tem sido lida à luz do céu e que veio a ser o gozo e a esperança e a glória de todos os santos. 2. Quais foram as estipulações deste concerto? Pode riam apresentar-se da seguinte maneira. Deus já havia previsto que o homem, depois da criação, romperia o pacto das obras, que apesar das delícias do paraíso, o homem julgaria estas condições demasiadamente severas e chegaria a rebelar-se, contribuindo para a sua própria ruína. Deus também havia previsto que Seus eleitos, a quem havia escolhido do resto da humanidade, cairiam pelo pecado de Adão, já que eles, tanto quanto os outros mortais, estavam representados no primeiro homem. Por conseguinte o concerto devia ter como meta a restauração do povo escolhido. Agora facilmente poderemos entender as condições do concerto. Por parte do Pai assim se expressaria a aliança (e devo confessar que não posso expressá-la na gloriosa linguagem celestial; infelizmente me vejo obrigado a fazê-lo na que é própria do mortal): “Eu, Jeová, o Altíssimo, dou ao Meu unigénito e amado Filho, um povo que será mais numeroso que
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as estrelas. Este povo será por Ele lavado do pecado, pre­ servado, guardado e guiado, e por último será apresentado por Ele diante do Meu trono, sem mancha nem ruga, ou coisa seme­ lhante. Eu solenemente Me comprometo, e juro por Mim mesmo, pois não posso jurar por ninguém superior, que estes, que agora dou a Cristo, serão para sempre objetos do Meu amor eterno. A eles perdoarei pelos méritos do Seu sangue; lhes darei uma justiça perfeita; os adotarei, tornando-os Meus filhos e Minhas filhas, e através de Cristo reinarão eternamente coMigo”. O Espírito Santo, outro dos ilustres contratantes do concerto, faria semelhante declaração: “Pela presente Me com­ prometo a vivificar, no seu devido tempo, a todos aqueles que o Pai tem dado ao Filho. Mostrar-lhes-ei a necessidade que têm de redenção; removerei deles toda a esperança vã e destruirei seus refúgios de mentiras. Eu os levarei ao sangue derramado e lhes concederei fé para que este sangue lhes seja aplicado. Operarei neles todas as graças; manterei a sua fé viva; os purificarei e apartarei deles toda a depravação, para que possam ser apresentados sem mancha e sem mácula”. Esta é uma das partes do pacto que até hoje tem sido cumprida e rigorosamente observada. Em referência à outra parte do concerto, assumida e prometida por Cristo, poderia ser expressa assim: “Meu Pai, de Minha parte comprometo-Me que na plenitude dos tempos assumirei a natureza humana. Tomarei sobre Mim a forma e a natureza da raça decaída. Viverei no seu miserável mundo e cumprirei perfeitamente a lei para Meu povo. Conseguirei uma justiça irrepreensível que será aceita pelas demandas da Tua justa e santa Lei. A seu devido tempo tomarei sobre Mim os pecados do Meu povo. Tu reivindicarás de Mim suas culpas; sofrerei o castigo de sua paz, e pelas Minhas chagas serão cura­ dos. Meu Pai, faço pacto e promessa de obediência até à morte,
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e morte de cruz. Engrandecerei Tua Lei e a farei digna de toda a honra. Sofrerei por tudo que deveriam sofrer. Padecerei a maldição da Lei e toda a Tua ira se descarregará sobre Mim. Depois ressuscitarei; subirei aos céus e, sentado à Tua destra, farei intercessão por eles, a fim de que nenhum dos que Me deste jamais seja perdido. No último dia trarei todo o rebanho do que Tu, pelo Meu sangue, Me constituíste o Pastor”. Desta maneira, mais ou menos, se espressariam os con­ tratantes divinos do concerto. Creio que agora já podemos ter uma idéia bastante clara de como se formou a aliança, e de que maneira ainda perdura. Apresentei, tão resumidamente quanto possível, as suas condições. Desejaria que observassem de modo especial que uma parte do pacto se cumpriu com toda a exatidão: Deus o Filho já pagou pelas dívidas de todos os Seus eleitos. Por nós e por nossa redenção sofreu toda a ira divina. No que se refere a Cristo nada resta a cumprir-se, a não ser que Ele continue intercedendo pelos remidos até conduzi-los jubilosamente à glória. No que concerne ao Pai, Sua parte no pacto se tem cumprido para com incontáveis multidões. Deus o Pai e Deus o Espírito Santo não têm retrocedido no cumprimento dos Seus respectivos contratos divinos. Serão levados a bom termo tão completa e perfeitamente como o de Cristo. Quanto ao que havia prometido realizar, Cristo pode agora afirmar: “Está consumado”; porém o mesmo poderão dizer as outras gloriosas partes contratantes do pacto. Todos aqueles pelos quais Cristo morreu receberão a justificação, o perdão e a adoção. O Espírito Santo os vivificará a todos, lhes outorgará fé e os levará à glória; de modo que cada um deles, sem estorvo nem impedimento, será aceito no Amado naquele dia quando serão contados os redimidos, e Jesus Cristo será glorificado. 3. E agora, havendo visto quais eram as ilustres parte contratantes do concerto e os seus termos e condições,
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consideraremos quais foram os seus objetivos. Fez-se esta aliança para cada homem da raça adâmica? Certamente que não; com os nossos próprios olhos podemos ver que não foi feita para todo homem. Contemplo as grandes multidões que perecem e que expressamente continuam em seus caminhos de perdição; vejo-as, dia a dia, rejeitando a oferta que por meio do evangelho se lhes faz de Cristo e as vejo pisando sob os pés o sangue do Filho do homem. Observo-as desafiando o Espírito Santo que trata de operar em seus corações; vejo estas multidões que vão de mal a pior, até que finalmente perecem em seus pecados. Portanto, não tenho a loucura de crer que tais pessoas tenham alguma parte na aliança da graça. Os que morrem impenitentes, os que desprezam ao Salvador, claramente provam que não têm porção nem parte no sagrado pacto da graça divina, pois não sendo assim haveria nelas certas notas e evidências que nos demonstrariam o contrário. Se estivessem incluídas no pacto, veríamos que em determinado tempo de suas vidas tais pessoas passariam por uma experiência de arrependimento e chegariam a ser salvas. O concerto - vamos diretamente ao assunto, não importa quão ofensiva seja a doutrina - o concerto só se rela­ ciona com os eleitos e com ninguém mais. Você se ofende com isso? Pois ofenda-se ainda mais. Que disse Cristo? “Rogo por eles; não rogo pelo mundo, senão pelos que me deste, porque são teus”. Se Cristo orou pelos Seus escolhidos e por ninguém mais, por que alguns se enchem de ira quando a Palavra de Deus os ensina que a provisão do concerto é somente para os eleitos, e para que eles recebam a vida eterna? Todos quantos crerão, todos quantos confiarão em Cristo, todos quantos perseverarão até ao fim, todos quantos encontrarão o descanso eterno, e só esses e ninguém mais, são os que estão incluídos no pacto da graça divina. 4. Além disso temos de falar a respeito dos motivos do concerto. E a primeira pergunta que vem aos nossos lábios é:
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por que foi feito o concerto? Deus não estava sob compulsão ou obrigação de nenhum tipo. Quando se estabeleceu o concerto não existia ainda a criatura para poder de alguma forma influenciar o Criador. O motivo pelo qual se fez o concerto, não o podemos encontrar em nenhuma outra parte a não ser em Deus mesmo, pois naquele instante se podia dizer literalmente a respeito de Deus: “Eu sou e não há ninguém além de mim”. Por que, pois, estabeleceu o concerto? A esta pergunta, respondo: Ele o fez motivado por Sua absoluta soberania. Mas por que certos homens foram os objetos do mesmo e outros não? Respondo: a graça soberana guiou a pena que escreveu seus nomes. Não foi por méritos humanos, nem porque Deus havia previsto algo em nós que O motivou a escolher uns e deixar outros a continuarem em seus pecados. Nada havia neles; foi, sim, a graça e a soberania que juntas produziram a eleição divina. Se vocês, irmãos e irmãs, têm a sã esperança de pertencer ao pacto da graça, com razão podem entoar aquele cântico: “Que havia em mim que merecesse estima ou desse ao meu Criador agrado? Aconteceu assim, ó Pai, preciso cantar porque assim agradou aos Teus olhos”. “Ele terá misericórdia de quem tiver misericórdia”, pois “não é do que quer, nem do que corre, senão de Deus que tem misericórdia”. Sua soberania elegeu; Sua graça distinguiu; e Sua imutabilidade decretou. Fora do motivo do Seu amor e da Sua soberania divina, não houve outra razão que determinasse a eleição dos indivíduos. Sem a menor dúvida, a grandiosa intenção de Deus, ao fazer o concerto eterno, não foi outra senão a da Sua própria glória. Qualquer outro motivo inferior a esse não corresponderia à Sua dignidade. Deus tem que encontrar
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Seus motivos em Si mesmo; para Seus propósitos, Ele não tem que consultar a traças ou a vermes. ELE é o grande “EU SOU” . “Não Se senta em trono instável, nem tem de pedir permissão para ser. ” Ele faz o que quer com os exércitos celestes. Quem pode resistir Sua mão e perguntar: “Que fazes?” Perguntará o barro ao oleiro o motivo pelo qual ele o transformou em vaso? Poderá a coisa antes de ser criada ditar ao Criador? Não, deixem que Deus seja Deus e que o homem se retraia para seu nada natural, e se Deus Se compraz em exaltá-lo, que não se orgulhe pensando que Ele encontrou nele algum motivo. Ele encontra os Seus motivos em Si mesmo. Deus é auto-suficiente; Ele não depende de nada fora de Si mesmo. Que o Espírito Santo nos guie nesta sublime verdade que expus no meu primeiro ponto sobre o concerto eterno.

II. Mas agora, prosseguindo, devemos notar O CARÁTER ETERNO DO CONCERTO. Em nosso versículo ele é chamado eterno. E com esta designação podemos dar-nos conta imediata da sua antigüidade. De todas as coisas, o pacto da graça é a mais antiga. Às vezes é motivo de grande gozo para mim pensar que o pacto da graça é mais antigo que o pacto das obras. Este último teve um princípio, enquanto o da graça não teve princípio; e bendito seja o Senhor que o pacto das obras teve o seu fim, enquanto o da graça permanecerá firme mesmo depois que céus e terra tenham passado. A antigüidade do pacto da graça requer uma reconhecida atenção de nossa parte. A verdade do mesmo eleva a mente. Não posso pensar em nenhuma outra doutrina mais sublime que esta. Ela se constitui a verdadeira alma e essência de toda a poesia, e ao recolher-me para meditar sobre ela, devo confessar que às vezes meu espírito
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tem sido arrebatado em puro deleite. Pode conceber que antes de todas as coisas Deus já havia pensado em você? De que antes que houvesse as montanhas, Ele já havia pensado em você, pobre e insignificante verme? Antes que as esplêndidas constelações começassem a brilhar, antes de que o centro do universo se houvesse fixado, e planetas colossais e mundos diversos iniciassem a girar, Deus já havia determinado o centro do Seu pacto e ordenado o número daquelas estrelas, subordinadas ao pacto, a que girassem em torno daquele bendito centro e dele recebesse a luz. Certamente, quando alguém pensa neste universo sem limites e voa (com os astrônomos) por estas regiões sem fim, habitadas por incontável número de estrelas, acaso não pareceria realmente maravilhoso que Deus tenha dado preferência ao pobre e insignificante mortal antes que a todo o universo? Isto não nos pode tornar orgulhosos, pois se trata de uma verdade divina, mas deve encher-nos de gozo. Ó crente, você se considera como o próprio nada, porém Deus tem outro conceito a seu respeito. Os homens o depreciam, todavia antes de criar qualquer coisa Deus Se lembrou de você. O pacto de amor que realizou em seu benefício com Seu Filho é mais antigo que a época mais remota; e se você retrocedesse até antes que se iniciasse o tempo e anterior às rochas que agora levam o selo da antigüidade começassem a sedimentar-se, Ele já o amava, Ele já o havia escolhido e feito um pacto visando ao seu bem. Lembre-se bem destas coisas antigas dos cumes eternos. Ainda mais: é um concerto eterno em face da sua firmeza. Nada pode ser eterno se não permanece. O homem pode erigir suas estruturas e julgar que permanecerão para sempre, entretanto a torre de Babel foi destruída e as próprias pirâmides egípcias revelam sinais de ruína. Nada que o homem faz é eterno, nem possui garantia contra a destruição. Mas com respeito ao pacto da graça, com razão Davi afirmou: “É firme e em todas as coisas tem sido ordenado.” Foi
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“Firmado, selado e ratificado, e em tudo bem ordenado ”. Desde o princípio até o final não há nem um “se” nem um “mas”. Os que creem no livre-arbítrio do homem, detestam o futuro enfático ou “farei” do Senhor, e preferem em seu lugar os “se” e os “mas” no pacto da graça; porém não há um “se” nem um “mas” nele. “Eu farei”, diz o Senhor, e em conse­ quência os eleitos farão. Jeová o promete e o Filho o cumpre. As promessas do pacto são firmes e verdadeiras. O EU SOU lhes dá um caráter determinante e inquebrantável. “Havendo-o dito, não o fará? Ou havendo-o prometido, não o cumprirá?” É um pacto firme. Certas vezes tenho dito que se um homem, estando para construir uma ponte ou uma casa, me deixasse colocar uma pedra ou um ladrilho lá onde quisesse, garanto-lhes que sua casa viria a cair. Se o construtor de uma ponte me permitisse colocar apenas uma pedra, eu escolheria a pedra principal, e sobre ela ele poderia edificar quanto quisesse, mas lhes asseguro que logo desabaria. Ora, o pacto defendido pelos arminianos não pode manter-se de pé, porque alguns dos seus ladrilhos os faz depender da vontade humana (e deste modo o ponho da maneira mais suave, já que bem poderia ter dito: “porque todos os seus ladrilhos os subordina à vontade humana”- e isso estaria mais próximo do alvo!). De acordo com os arminianos, a salvação depende, em última instância, da vontade da criatura. Se esta não quer, não há influência nem poder que consiga modificar essa vontade. Conforme os ensinos arminianos não há promessa alguma que possa modificar a vontade humana. De maneira que a questão depende do homem; e Deus - o poderoso Construtor - mesmo que ponha pedra sobre pedra e o faça sólido como o universo, em última instância pode ser derrotado pela criatura. Fora com tal blasfêmia! Toda a
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estrutura, desde o início até o fim, está nas mãos de Deus. Os termos e condições do pacto se tornaram os selos e garantia do mesmo, visto que o Senhor Jesus os cumpriu. E tudo será cumprido em todos os seus detalhes, quer o homem queira, quer não. Não é um pacto da criatura, e sim um pacto do Criador. Não é o pacto do homem, é um pacto do Todo-poderoso, e Ele o realizará e o levará a termo, apesar da vontade humana. Nisto consiste a glória da graça, em que o homem rejeita a salvação e é inimigo de Deus, e apesar de tudo Deus o redime. No pacto Deus diz: “Será salvo”, enquanto o homem resiste: “Não serei salvo”; mas o “será” de Deus conquista o “não serei”do homem. A graça todo-poderosa cavalga vitoriosamente sobre o livrearbítrio, e o leva cativo, em glorioso cativeiro, o poder do amor e da graça irresistível que tudo conquista. E um pacto firme e portanto merece o título de eterno. Igualmente, não apenas é firme, também é imutável. Se não fosse imutável não poderia ser eterno. Tudo que muda é perecível. Podemos estar seguros de que qualquer coisa que possa incluir a palavra “mudança”, tarde ou cedo morrerá e será considerado como algo inútil. Contudo, no pacto todas as coisas são imutáveis. Tudo que Deus determinou há de acontecer, e nenhuma palavra, nenhuma linha ou nenhuma frase podem ser alteradas. O que o Espírito prometeu se realizará, e o que Deus, o Filho, Se comprometeu a fazer já se cumpriu e se consumará no dia da Sua volta. Se pudéssemos crer que as sagradas linhas pudessem chegar a apagar-se, que o pacto pudesse ser anulado, borrado ou manchado - aí então seria desesperadora a nossa situação. Tenho ouvido alguns pregadores dizerem que quando o cristão vive santamente, ele permanece no concerto, mas quando peca é desligado dele. Ao arrepender-se, novamente se põe no pacto, porém se volta a cair, outra vez seu nome é riscado; e assim entra e sai da porta do concerto da mesma maneira que entra e sai de casa. Entra por uma porta e sai por
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outra. Nalgumas ocasiões é filho de Deus; noutras é filho do diabo; às vezes é herdeiro do céu, e noutras é herdeiro do inferno. Conheço um homem que chegou ao extremo de afirmar que embora uma pessoa tenha perseverado sessenta anos na graça, se no último ano da sua vida cair em pecado e morrer, tal pessoa seria condenada eternamente e toda a fé e todo o amor demonstrados nos anos anteriores seriam em vão. Apresso-me em dizer que essa noção que tais pessoas têm de Deus é nada menos que a noção que possuo a respeito do diabo. Não poderia crer em tal Deus nem prostrar-me diante dEle. Um Deus que ama hoje e amanhã odeia; um Deus que faz uma promessa e de antemão sabe que esta promessa não se cumprirá no homem; um Deus que perdoa e castiga, que justifica e mais tarde condena, é um Deus que não posso suportar. Não é o Deus das Escrituras, disso estou certo, porque Ele é imutável, justo, santo e verdadeiro. É um Deus que “havendo amado aos seus, os amará até o fim”. Um Deus que cumprirá e guardará as promessas que tem dado aos Seus filhos, de modo que qualquer alma que foi objeto de Sua graça, continuará para sempre nessa graça, até que um dia, sem falta, entrará na glória. E para concluir este ponto, devo acrescentar que o con­ certo é eterno porque nunca terminará. Cumprir-se-á, mas permanecerá firme. Quando Cristo tiver completado tudo e conduzido cada crente ao céu; quando o Pai tiver reunido a todo o Seu povo, então verdadeiramente o pacto terá chegado a uma consumação, porém não a uma conclusão, porque nele está determinado que os herdeiros da graça para sempre serão bem-aventurados, e enquanto durar este “para sempre”, o pacto demandará a felicidade, a segurança e a glorificação de toda alma que foi o objeto do mesmo.

III. Havendo, pois, estudado o caráter eterno do concerto, concluirei fazendo referência ao seu aspecto mais doce
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e precioso, a relação que existe entre o sangue e o pacto: O SANGUE DO CONCERTO ETERNO. O sangue de Cristo mantém quatro relações distintas com o pacto. Com respeito a Cristo, Seu sangue precioso derramado no Getsêmane e no Gólgota significa o cumprimento do pacto. Por Seu sangue o pecado foi apagado; com Sua agonia, a justiça foi satisfeita; com Sua morte a lei foi honrada. Foi precisamente com Seu sangue precioso, com toda a sua eficácia mediadora e com todo o seu poder purificador, que Cristo cumpriu tudo quanto havia Se comprometido efetuar a favor do Seu povo. Ó crente, contemple o sangue de Cristo e recorde que essa foi a parte da aliança que Ele realizou! Nada falta para ser cumprido; Jesus o realizou totalmente; nada existe que o livre-arbítrio possa contribuir; Cristo já cumpriu todas as demandas de Deus. As contas da parte devedora do pacto foram saldadas graças ao sangue de Cristo, e agora Deus está comprometido, por Sua própria e solene promessa, a mostrar graça e misericórida a todos aqueles que Cristo redimiu com o Seu sangue. Noutro aspecto, o sangue significa, para Deus o Pai, o compromisso do concerto. Quando vejo Cristo morrendo na cruz, vejo Deus - cujo essência é verdadeira liberdade - com­ prometido desde então, por Sua própria promessa, a levar a termo tudo o que fora estipulado. Porventura não nos promete o pacto um novo coração e um espírito reto dentro de nós? Pois deve cumprir-se, porquanto Jesus morreu, e Sua morte veio a ser como o selo do pacto. Acaso não diz também: “Derramarei água pura sobre eles e serão limpos; de todas as suas iniqüidades os purificarei”? Então igualmente isto deve cumprir-se, pois Cristo levou à perfeita consumação Sua parte no concerto. Portanto agora não podemos falar do pacto como algo duvidoso, visto que, graças a Cristo, tornou-se nosso próprio direito diante de Deus. E ao achegar-nos humildemente sobre os nossos joelhos reivindicando o pacto, nosso Pai celestial não nos negará as
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promessas contidas nele, porém de cada uma delas fará um “sim” e um “amém” através do sangue de Jesus Cristo. A terceira relação que o sangue de Cristo mantém com o pacto nos aponta como seu objeto. Não é só referente a Cristo o cumprimento do concerto e com respeito ao Pai um com­ promisso solene, o mesmo constitui, também, uma evidência com relação a nós. E sobre este particular, amados no Senhor, permitam-me extravasar o meu afeto para com todos, pois o tema me faz arder o coração por cada um. Vocês confiam completamente no sangue de Cristo? O sangue - o precioso sangue de Cristo - purificou suas consciências? Vocês experi­ mentaram o perdão dos seus pecados mediante o sangue de Jesus? Gloriam-se em Seu sacrifício e é Sua cruz seu único refúgio e sua única esperança? Se é assim, então estão no pacto. Algumas pessoas querem saber se foram eleitas. Mas não podemos dar-lhes segurança, a menos que nos respondam a estas perguntas: “Crêem? Está sua fé fundamentada no sangue precioso?” Se assim é, estão no pacto. E se você, pobre pecador, não tem nada em que confiar e se mantém distante, dizendo: “Não me atrevo a vir; tenho medo; não estou no pacto”, ainda Cristo o convida a chegar-se: “Venha a M/m”, Ele apela. Se não pode vir ao Pai do pacto, aproxime-se do seu Fiador. “Venha a Mim e achará descanso.” Uma vez vindo a Ele e recebido o Seu sangue, então jamais duvide que o seu nome esteja no livro carmezim da eleição. Pode agora ler seu nome nos caracteres do sangue de Cristo? Então um dia o lerá nas letras douradas da eleição do Pai. Aquele que crê é um eleito. O sangue é o símbolo, o sinal, a garantia, a segurança e o selo do concerto da graça para você. Ele pode ser considerado um telescópio através do qual cada um consegue ver as distâncias espirituais. Com seu olho natural ninguém pode ver sua eleição, mas através do sangue de Cristo pode enxergá-la com nítida clareza. Ponha sua confiança no sangue, pobre pecador, e chegará a descobrir que o
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sangue do pacto eterno constitui uma prova de que você é um herdeiro do céu. Finalmente, devemos dizer que o sangue constitui a glória das três relações já mencionadas. O sangue para o Filho significa o cumprimento, para o Pai significa uma promessa solene, e para o pecador é uma evidência; todavia para os três, Pai, Filho e pecador, o sangue vem a ser a glória comum e a unfania suprema. Nele o Pai tem contentamento; o Filho, com gozo, contempla o que foi adquirido com agonias; e nele o pecador deve sempre encontrar seu consolo e seu cântico eterno - “Jesus, Teu sangue e Tua justiça para sempre constituirão minha glória e minha canção”. E agora, amados ouvintes, para encerrar, tenho uma pergunta a dirigir-lhes: teriam vocês a esperança de estar no pacto? Teriam posto sua confiança no sangue? Em vista do que tenho apresentado nesta manhã, talvez alguns cheguem a pensar que o horizonte do evangelho é muito restrito; devem notar que o evangelho é anunciado a todos sem restrição de espécie alguma. O decreto da eleição é limitado, porém as boas novas abrangem o mundo todo. A ordem que recebi de Deus é a de proclamar as boas novas a toda criatura debaixo do céu. A aplicação eficaz do evangelho está restringida aos eleitos de Deus, e conseqüentemente pertence à vontade secreta de Deus, porém não é assim com a mensagem; esta deve ser anunciada a todas as nações. Vocês têm ouvido o evangelho em muitas ocasiões da sua vida e conhecem o seu tema central: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores...” Crêem nisso? Que o Espírito Santo faça que esta seja, mais ou menos, sua confissão: “Sou um pecador e confio em que Cristo morreu por mim; ponho minha confiança nos méritos do Seu sangue e, haja o que houver, minha atitude perante Deus será esta:

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“Nada em minhas mãos conduzo, só me apego à Tua cruz”Quem ouvir a mensagem da salvação e a receber em seu coração evidencia ser um dos que estão no concerto. Por que, então, o espanta a doutrina da eleição? Se alguém escolheu a Cristo, tenha por certo que Ele antes o escolheu. Se com os olhos cheios de lágrimas dirige seu olhar a Cristo, então saiba que Ele, muito antes, já havia contemplado você. Se do seu coração brotar amor por Cristo, não esqueça que o Seu coração o ama com um amor que jamais o poderá igualar. Se você agora está clamando: “Senhor, Tu serás o guia da minha juventude”, eu lhe contarei um segredo: Ele tem sido o seu guia, levando-o a que você agora seja um pecador ansioso em buscá-10 e Ele o dirigirá e o conduzirá às mansões seguras da glória. Talvez você seja um orgulhoso e altivo arminiano, que diga: “Quando eu quiser me arrependerei e crerei. Tenho tanto direito como qualquer outro de ser salvo, pois, afinal de contas, cumpro com minhas obrigações tão bem como os demais, e sem dúvida receberei a minha recompensa”. Pois bem, se você é um daqueles que reclamam uma reconcilição universal, e crê que se pode receber a salvação por própria opção da vontade humana, então reclame-a, e você será desapontado em sua reclamação! Você descobrirá que Deus não terá relacionamento algum com quem assumir tal posição, mas dirá: “Aparte-se de Mim, porque não o conheci. O que não vem a Mim através do Filho, não posso de modo algum aceitá-lo”. Creio que o homem que não está disposto a submeter-se ao amor eletivo e à graça soberana de Deus, tem firme razão para duvidar se em verdade é cristão, porque o espírito que se rebela contra isso é o espírito do diabo, o espírito daquele que não foi humilhado nem regenerado. Que o Senhor faça desaparecer a inimizade do seu coração às Suas sublimes verdades, para que possam aceitá-las e ser
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reconciliados com Ele pelo sangue do Seu Filho, cujo sangue é o vínculo e o selo do concerto eterno.

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A NECESSIDADE DA OBRA DO ESPÍRITO SANTO*
“Eporei dentro de vós o meu Espírito” - Ez. 36:27. Os milagres de Cristo são notáveis pelo fato de que nenhum deles foi desnecessário. Os pretensos milagres de Maomé e os de outras religiões, mesmo se fossem autênticos, teriam sido evidências de loucura. Imaginemos que São Dionísio andou com a cabeça na mão depois que essa lhe foi cortada; que sentido prático haveria nisso? Quanto a fazer benefício à humanidade, melhor que ficasse no túmulo. Entre­ tanto, os milagres de Cristo nunca foram desnecessários. Não são monstruosidades de poder; é certo que são manifestações de poder, mas todos eles tiveram um fim prático, e o mesmo pode ser afirmado a respeito das promessas de Deus. Não há nem uma só promessa nas Escrituras que possa ser considerada um mero desatino. Da mesma maneira que todo milagre foi necessário, absolutamente necessário, assim ocorre com cada promessa da Palavra de Deus. Por conseguinte, do versículo que temos lido, deduzirei o argumento - e creio de modo convincente - de que se Deus, no pacto feito com Seu povo,
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prometeu pôr Seu Espírito dentre dele, então deve ser absolutamente necessário para nossa salvação que cada um de nós receba o Espírito de Deus. Isso constituirá o tema para a meditação desta manhã. Não espero torná-lo interessante, a não ser para aqueles que ansiosamente buscam o caminho da salvação. Começaremos, então estabelecendo a proposição de que a obra do Espírito Santo é absolutamente necessária para que possamos ser salvos.

I. Tratando de provar isso, inicialmente farei notar qu tal necessidade se manifesta claramente quando RECORDA­ MOS O QUE O HOMEM É POR NATUREZA. Algumas pessoas dizem que o homem, por si mesmo, pode alcançar a salvação; que ao ouvir o evangelho, está em seu poder recebê-lo e por ele experimentar uma mudança salvadora. A isso replicamos: tais pessoas não sabem o que o homem é por natureza; doutro modo não se aventurariam a fazer tais declarações. As Escrituras Sagradas afirmam que por natureza o homem está morto em delitos e pecados. Não nos diz que está doente, fraco ou que se tenha tornado duro e insensível, mas assevera que o homem está completamente morto. Tudo o que a palavra “morto” significa com referência ao corpo, o mesmo indica, do ponto de vista espiritual, com respeito à alma humana. Quando o corpo está morto, não tem poder; de si mesmo é incapaz de fazer algo; quando a alma humana está morta, no sentido espiritual, essa alma - se é que a comparação tem algum significado - está completamente desprovida de poder, e incapaz de fazer algo por si mesma ou para si mesma. Quando presenciarem os mortos ressuscitarem-se de suas tumbas, quando as virem soltando seus sudários, abrindo as tampas de seus ataúdes, e andando por nossas ruas vivendo e respirando - e tudo isso como resultado de seu prórpio poder - então talvez
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possam crer que as almas que estão mortas em pecados podem voltar para Deus, transformar sua natureza, e tornar-se elas mesmas herdeiras do céu, embora antes fossem herdeiras do inferno. Contudo, não antes disso! O teor do evangelho gira em torno do fato de que o homem está morto em seus pecados, e que a vida eterna é um dom de Deus, e se colocaria contra a totalidade deste teor básico do evangelho quem defendesse que o homem pode conhecer e amar a Cristo sem a atuação do Espírito Santo. O Espírito Santo encontra os homens tão desprovidos de vida espiritual, como aqueles ossos secos na visão de Ezequiel; o Espírito tem de juntar cada osso com seu osso, até reconstituir o esqueleto, e depois, vindo dos quatro cantos, precisa soprar sobre esses ossos mortos a fim de que recebam vida. A não ser pelo Espírito de Deus, as almas dos homens teriam de permanecer no vale de ossos secos, mortas, e mortas para sempre. Mas as Escrituras não dizem apenas que o homem está morto em pecado; afirmam algo pior que isso: que ele, por natureza, é absoluta e totalmente contrário a tudo que seja bom e reto. “Portanto a intenção da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser” Rom. 8:7. Folheemos as páginas da Bíblia e continuamente é repetido que a vontade do homem é contrária às coisas de Deus. Que disse Cristo naquele texto tão freqüentemente citado pelos arminianos para negar a doutrina que tão claramente afirma? Que disse Ele aos que imaginavam ser possível ao homem vir a Ele sem a influência divina? Primeiramente afirmou: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer”. Entretanto, disse algo ainda mais enfático: “E não quereis vir a mim para terdes vida”. O homem não quer vir. Aqui se encontra a coisa fatal; não é apenas que o homem se encontra sem forças para fazer o bem, e sim que é suficientemente poderoso para fazer o mal, de modo que a sua vontade está
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perversamente disposta a ir contra tudo que é reto. Vá, arminiano, e diga a seus ouvintes que eles podem vir a Cristo, se assim o desejam, mas saiba que o seu Redentor o observa face a face e lhe diz que você está proferindo uma mentira! Os homens não querem vir. Nunca virão por si mesmos. Ninguém pode induzi-los a vir, nem mesmo forçá-los a vir com todas as suas ameaças, nem seduzi-los com todos os seus convites. Eles não querem vir a Cristo para terem vida. Até que o Espírito os traga, não quererão vir, nem poderão vir. E é pelo fato de que a natureza humana é hostil ao Espírito de Deus, que o homem odeia a graça, despreza a maneira pela qual se oferece esta graça, e é contrário à sua natureza orgulhosa o humilhar-se para receber a salvação pelos méritos de outro. Daí, pois, surge a necessidade de que o Espírito opere diretamente no homem para mudar a sua vontade, corrigir as inclinações do seu coração, e depois de colocá-lo no caminho certo, dar-lhe forças para andar nele. Oh, se todos estudassem o homem e chegassem a compreendê-lo, não poderiam deixar de ser zelosos nesta doutrina da necessidade da obra do Espírito Santo! Com razão um grande escritor observou que jamais conheceu um homem que sustentasse algum erro teológico, que ao mesmo tempo não mantivesse alguma doutrina que atenuasse a depravação humana. O arminiano diz que é verdade que o ser humano está espiritualmente caído, todavia acrescenta que ele ainda possui o poder da vontade e essa vontade é livre; ele pode levantar-se. Atenua-se dessa forma o caráter desesperador da queda do homem. Por outro lado, o antinomiano afirma que o homem não é responsável, pois nada pode fazer; por conseguinte não está obrigado a fazer nada. Não é sua obrigação crer, nem é sua obrigação arrepender-se. Vemos aqui que ele também atenua a condição pecaminosa do homem e lhe faltam idéias corretas a respeito da Queda. Entretanto, uma vez mantida a posição verdadeira, ou seja, a de que o ser
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humano não só está completamente caído, perdido e condenado, e sim também de que é culpado e por si mesmo impotente, então necessariamente você adotará a posição doutrinária correta em todos os demais pontos do grande evangelho do Senhor Jesus. Desde que se creia o que as Escrituras ensinam sobre o homem posto que se aceite que o seu coração é depravado, seus afetos corrompidos, seu entendimento obscurecido e sua vontade pervertida, então você terá de sustentar que, se uma pessoa assim tão miserável há de ser salva, essa salvação deverá ser efetuada pelo Espírito de Deus, e por Ele somente.

II. A seguir vou apresentar-lhes outra prova. A salvação tem de ser a obra do Espírito Santo em nós, porque, OS MEIOS USADOS NA SALVAÇÃO POR SI MESMOS SÃO INSUFICIENTES PARA REALIZÁ-LA. Quais são os meios da salvação? Em primeiro lugar, e de maneira destacadíssima, está a pregação da Palavra de Deus. Mais almas têm sido leva­ das a Cristo através da pregação do que por qualquer outra meio, pois ela é o instrumento principal de Deus. A pregação é a espada do Espírito, viva e eficaz, a ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas. O testemunho das Escrituras é que “aprouve a Deus salvar aos que crêem pela loucura da prega­ ção” . Mas, o que existe na pregação que a torna o meio eficaz da salvação de almas? Eu lhes poderia indicar diversas igrejas e capelas, nas quais poderiam entrar e dizer: “Eis aqui um pastor com conhecimentos verdadeiramente profundos, homem capaz de instruir e iluminar o intelecto”. Sentam-se nos bancos e dizem: “Bem, se Deus tenciona realizar uma grande obra, utilizará um homem tão instruído como este”. Por acaso, per­ gunto, vocês conhecem homens instruídos que de maneira marcante têm sido feitos instrumentos para levar almas a Cristo? Dêem uma volta pelas igrejas; observem-nas e depois respondam à pergunta. Vocês conhecem homens famosos - em
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erudição e sabedoria - que chegaram a ser guias espirituais em nosso Israel? Não seria verdade que salta à vista que os nossos pregadores modernos, tão eloqüentes e instruídos, são justa­ mente os homens mais inúteis da criação quando se trata de ganhar almas para Cristo? Onde se convertem mais almas? Ora, no lugar em torno do qual se descobre a mofa, a zombaria e o desdém do mundo. Os pecadores são convertidos pela pregação daquele cuja eloqüência é rude e simples, e sem acréscimos de vanglória; daquele que precisa cair de joelhos para confessar sua torpeza, e quando o mundo fala mal dele, sente como se na verdade o merece, porquanto nada mais é que um vaso de barro, dentro do qual Deus se compraz em pôr o Seu tesouro. Atrevome a acrescentar que, através dos séculos, os pastores mais depreciados têm sido os mais úteis; mesmo no presente poderíamos encontrar pobres pregadores metodistas primitivos, que mal podem falar uma linguagem correta, e que têm sido os pais de mais almas e têm trazido mais troféus a Cristo do que qualquer bispo em sua cátedra. É porque Deus Se agradou de dar poder ao bronco e ao débil, mas nunca àqueles que, ao conseguir algo, o pudessem atribuir à excelência do poder de sua sabedoria ou de sua eloqüência. À semelhança do apóstolo Paulo, a obrigação de todo pastor é gloriar-se em suas fraquezas. O mundo exclama: “Fora com sua eloqüência! É áspera, rude e excêntrica”. Sim, é precisamente assim, porém estamos contentes, porque o Senhor a abençoa. É muito melhor que haja imperfeições nela, pois desse modo se verá claramente que a obra da conversão não é do homem nem pelo homem, e sim que é a ação de Deus, e de Deus somente. Conta-se que uma vez um homem, extremamente curioso, desejou ver a espada com a qual um famoso guerreiro havia enfrentado batalhas arriscadas; lançando um olhar ao longo da folha, disse: “Bem, nada vejo de extraordinário nesta espada”. “Não”, respondeu o guerreiro, “mas você não observou o braço daquele que a maneja”. Da
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mesma maneira, quando se escuta um pastor que Deus tem abençoado, algumas pessoas são propensas a dizer: “Não vejo nada nele”. Não, é certo, porém vocês não consideraram o braço eterno que efetua a colheita com a espada do Espírito. Se tivessem visto a queixada de jumento nas mãos de Sansão, teriam dito: “Que coisa! Tão grande número de vencidos com isso? Impossível! Tragam uma faca afiada, preparem o aço de Damasco!” Não; pois a Deus pertence toda a glória, portanto não com arma afiada, e sim com a simples queixada Sansão há de alcançar a vitória. Assim acontece com os ministros; comumente Deus abençoa os mais frágeis para realizar o maior benefício. Daí não se deduziria, então, que tem de ser a obra do Espírito? Porque, se não há nada no instrumento mesmo para obtê-lo, não seria a atuação do Espírito quando o fato se realiza? Permitam-me fazer a seguinte colocação. Sob o ministério da pregação, as almas mortas recebem vida, pecadores se arrepen­ dem, os piores são feitos santos, e os que vêm com o propósito de rejeitar, são obrigados a crer. Agora, pergunto: quem opera tudo isso? Se alguém diz que é o pastor quem o faz, então terei que recusar totalmente essa opinião, porque nada há no ministro que Deus tem abençoado que indique tal coisa. Tem de ser o Espírito atuando no homem através do ministério da pregação, doutra maneira tais resultados nunca poderiam ocorrer. Haveria mais esperanças de ressuscitar os mortos sussurrando-lhes aos ouvidos, do que salvar as almas através da pregação - a não ser pela agência do Espírito. Consta que em certa ocasião Melancthon, sem o Espírito de Deus, pôs-se a pregar confiante em converter às pessoas; mas, finalmente compreendeu que o velho Adão era demasiado forte para o jovem Melancthon, e teve de retirar-se e suplicar a ajuda do Espírito Santo, pois, sem Ele, nem uma alma seria salva. Afirmo, portanto, que o fato de que a pregação do evangelho é abençoada, prova que é a atuação de um poder sobrenatural, posto que nada há no pregador.
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Outros meios, contudo, além da pregação, são usados para abençoar as almas dos homens. Vejam, por exemplo, as ordenanças do Batismo e da Ceia do Senhor. Ambas constituem ricos meios de graça. Mas permitam-me interrogar: existe algo no mero batismo que possa abençoar a alguém ou possuir a mais leve semente de bênção para a alma? E com respeito ao pão e ao vinho que se tomam na Ceia do Senhor, pode-se de algum modo conceber que haja algo de extraordinário neles? No entanto, não há dúvida de que a graça de Deus acompanha ambas as ordenanças para confirmar a fé dos que as recebem, e inclusive, nalguns casos, para a conversão dos que presenciam a celebração. Então, deve haver algo que ultrapasse o externo da celebração; deve haver, realmente, o Espírito de Deus dando testemunho através da água, testificando mediante o pão e o vinho; doutro modo, nenhuma destas coisas poderia chegar a ser meio de graça para as nossas almas. Não poderia edificar, nem ajudar-nos para a comunhão com Cristo; não poderiam promover convicção de pecado nos pecadores, nem firmar os santos. Deve haver, portanto, à luz de todos esses fatos, uma influência misteriosa, invisível e do alto, a influência do Espírito de Deus.

III. Recordarei, em terceiro lugar, que a absoluta necessidade da obra do Espírito Santo se patenteia uma vez mais ao considerarmos que TUDO O QUE DEUS O PAI FAZ E DEUS O FILHO EFETUA NÃO TEM VALOR PARA NÓS A MENOS QUE O ESPÍRITO SANTO NOS REVELE ESTAS COISAS EM NOSSAS ALMAS. Cremos, inicial­ mente, que Deus o Pai elegeu o Seu povo; desde antes da fundação do mundo o escolheu para Si mesmo. Mas, que significado tem esta doutrina para qualquer homem até que o Espírito faça morada nele? Como posso chegar a saber, efetiva­ mente, se Deus me escolheu antes da fundação do mundo?
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Como me é possível sabê-lo? Posso, acaso, escalar os céus e ler a lista dos eleitos? É possível para mim abrir caminho através das espessas névoas que escondem a eternidade e abrir os sete selos do livro e ler ali o meu nome? Ah, não! A eleição é uma carta muda para minha consciência até que o Espírito me chame das trevas à luz maravilhosa. Então, através de minha chamada, me convenço da minha eleição, e sabendo que fui chamado por Deus, me asseguro de que também fui escolhido por Deus desde antes da fundação do mundo. Para um filho de Deus, esta doutrina da eleição é preciosa. No entanto que é que a torna preciosa? Nada, a não ser a influência do Espírito. Até que o Espírito nos abra os olhos para ler e nos comunique o místico segredo, nenhum coração pode certificar-se da sua eleição. Jamais algum anjo poderia revelar ao homem os arcanos da eleição; é o Espírito quem o revela. Ele, através das Suas operações divinas, dá testemunho ao nosso espírito de que somos nascidos de cima; e então nos habilita a ler com clareza o título a nós outorgado para ocupar as mansões das alturas. Considere novamente o concerto da graça. Sabemos que antes da criação foi feito um pacto entre o Pai e o Filho, e nessa transação todos os eleitos foram dados ao Filho, ao Senhor Jesus Cristo; mas, de que nos serve ou aproveita o mencionado pacto enquanto o Espírito não nos outorgue os seus benefícios? O pacto se assemelha a uma árvore sublime carregada de frutos; se o Espírito não a sacode para cairem os frutos no local em que estamos, de que modo poderiam beneficiar-nos? Aproximem-se de um pecador e digam-lhe que há uma aliança da graça; que proveito ele alcançaria disso? “Ah! - diria - talvez eu não esteja incluído nela; talvez meu nome não apareça nela ou eu não tenha sido eleito em Cristo.” Mas deixem que o Espírito penetre em seu coração pela fé e pelo amor que está em Cristo Jesus, e esse homem verá a aliança, firme e ordenado em todas as coisas, e,

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como Davi, ele exclamará: “És toda a minha a salvação e todo o meu desejo”. Notemos outra vez a redenção operada por Cristo. Sabemos que Ele tomou o lugar do Seu povo, e que todos os que um dia aparecerão no céu, estarão ali como resultado de um ato da justiça e da graça, pois seria um ato de injustiça da parte de Deus castigar os eleitos, já que Cristo sofreu o castigo que eles mereciam, quando morreu na cruz no lugar deles. Cremos que por haver Cristo pago todas as suas dívidas, eles têm direito à sua liberdade em Cristo, e que, também, por haverem sido revestidos com a justiça de Cristo, têm tanto direito à vida eterna como se houvessem sido sempre santos. Todavia, de que me aproveita isso até que o Espírito tome as coisas de Cristo e as manifeste a mim? Que valor possui o sangue de Cristo para qualquer mortal, enquanto não tiver recebido o Espírito da graça? Mais de mil vezes vocês ouviram pregar sobre o sangue de Cristo, mas permaneceram no mesmo; não tinha significado algum para vocês o fato de que Cristo morreu. Vocês sabiam que Ele estava expiando pecados que não eram dEle; mas consideravam tudo como um conto, talvez como uma historieta inútil. Entretanto, quando o Espírito de Deus os levou à cruz e lhes abriu os olhos a fim de que pudessem contemplar a Cristo crucificado, então, por certo, havia algo no sangue! Quando o Espírito molhou o hissopo no sangue e aplicou esse sangue aos seus espíritos, então seus corações se encheram de gozo e paz ao crerem, algo que nunca antes haviam experimentado. O Espírito Santo precisa habitar em cada coração, doutro modo a morte de Cristo nada significa para vocês. Cristo não lhe traz nenhum benefício salvador, pessoal e duradouro, a não ser que o Espírito de Deus o tenha batizado na fonte cheia do sangue do Salvador e o tenha lavado nela da cabeça aos pés.

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Simplesmente menciono estas poucas bênçãos, entre as muitas, da aliança eterna. Das muitas bênçãos da aliança eu menciono apenas essas, para provar que de nenhuma delas podemos tirar proveito se o Espírito Santo não as derramar sobre nós. Aí estão penduradas no prego todas as bênçãos - no prego Cristo Jesus; todavia, nós somos baixos de estatura e não podemos alcançá-las. O Espírito de Deus as apanha e no-las outorga; assim se tornam nossas. São como o maná celestial, longe do nosso alcance; porém o Espírito de Deus abre as janelas do céu, abaixa o pão, o coloca nos nossos lábios e nos capacita a comer. O sangue è a justiça de Cristo são como vinho guardado na adega, mas não podemos penetrar aí. O Espírito Santo mergulha a nossa vasilha nesse vinho precioso, e então bebemos. Entretanto, sem o Espírito morreremos e pereceremos como se o Pai nunca nos tivesse eleito e como se o Filho nunca nos tivesse comprado com o Seu sangue. O Espírito é absolutamente indispensável. Sem Ele, nem as obras do Pai, nem as do Filho, nos valeriam coisa alguma.

IV. Isso nos conduz à outra consideração. A EXPE­ RIÊNCIA DO CRISTÃO VERDADEIRO É UMA REALIDADE; MAS NUNCA PODE SER CONHECIDA OU SENTIDA SEM O ESPÍRITO SANTO. Qual é a experiência do cristão? Apresentarei uma simples descrição de algumas das suas facetas. Suponhamos que se encontra entre nós nesta manhã um dos homens de melhor reputação de Londres. Nunca se entregou ao vício nem jamais foi desonesto; seu conceito é de um comerciante de perfeita integridade. Para seu grande assombro, é informado que é um pecador perdido e condenado, de igual modo ao ladrão que morreu na cruz por seus crimes. Vocês acham que este homem o crerá? Suponhamos, então, que ele creia pelo simples fato de lê-lo na Bíblia. Pensam que chegará a senti-lo? Eu sei que dirão: “Impossível!” Alguém
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talvez agora mesmo esteja dizendo: “Bem, se esse fosse o meu caso, jamais o sentiria”. Podem imaginar aquele honesto e íntegro comerciante clamando: “Ó Deus, seja propício a mim, pecador”? Podem imaginá-lo ajoelhado junto com a prostituta e o blasfemo, sentindo em seu próprio coração que é tão culpado quanto eles, de modo que deve recorrer à mesma súplica: “Senhor, salve-me, ou pereço”? Não podem concebê-lo, não é mesmo? É contrário à nossa natureza imaginar que um homem tão respeitável como ao que nos referimos tenha de considerar-se a si mesmo com o pior dos pecadores. Entretanto, precisa ser assim antes que ele possa alcançar a salvação! É imprescindível que tenha essa experiência antes de poder entrar no céu. Agora pergunto: quem pode conduzi-lo a tal experiência, a não ser o Espírito de Deus? Eu sei perfeitamente bem; nossa natureza orgulhosa não se submeterá a tal plano. Todos somos aristocratas em nossa própria justiça; não nos agrada inclinar-nos e descer ao nível dos pecadores comuns. E se o fazemos, é porque o Espírito nos quebranta até ao pó. Por minha própria experiência sei que se antes da minha conversão alguém me dissesse que um dia eu suplicaria a Deus por misericórdia, confessando ao mesmo tempo ser o pior dos piores, teria rido abertamente na sua face; teria respondido: “Como pode ser isso? Não pratiquei nada particularmente mau; nunca fiz mal a ninguém”. Mas mesmo agora sei que posso ocupar o nível mais baixo, e ao entrar no céu me sentirei ditoso em poder sentar-me entre os piores pecadores e louvar aquele amor todo-poderoso que me salvou da minha condição de perdido. Como se opera essa humilhação no íntimo? Através da graça. Contraria nossa própria maneira de ser que um homem honesto e íntegro, na opinião do mundo, possa chegar a experimentar sua condição de pecador perdido. Há de ser, na verdade, a obra do Espírito Santo; doutro modo isso jamais ocorreria. Pois bem, depois de um pecador ser conduzido a essa
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condição, vocês poderiam imaginá-lo sentindo remorsos de consciência e crendo que sua conduta passada merece a ira de Deus? Sua primeira reação será: “De agora em diante viverei melhor do que tenho vivido”. E acrescentará: “A partir deste momento me esforçarei para imitar o ermitão; torturarei o meu corpo, farei penitência e me negarei a mim mesmo; agindo assim, observando as cerimônias externas da religião, junto com um caráter moral elevado, certamente poderei apagar qualquer falha e mancha do passado”. Podemos conceber que alguém que pensa dessa maneira possa crer que o único modo de entrar no céu é através da justiça de outro? “Através da justiça de outro?” dirá, “eu não quero ser recompensado por aquilo que outro homem fez; não, eu não. Se hei de ir ao céu, será pelo meu próprio risco e graças ao que eu faça. Digam-me o que tenho de fazer e o farei! Sentir-me-ei orgulhoso em fazê-lo, por mais humilhante que seja, contanto que com isso possa ganhar o amor e a estima de Deus!” Ora, vocês podem conceber que tal homem chegue jamais a experimentar no íntimo da sua alma que nada pode fazer para merecer o amor e o favor de Deus, e que se ele pretende ir ao céu, então deve ser unicamente mediante o que Cristo fez? Do mesmo modo que o viciado entra lá pelos méritos de Cristo, da mesma forma é que esse homem tão moral terá de entrar, nada tendo por cobertura, a não ser a perfeita justiça de Cristo. E afirmamos que isso é tão contrário à natureza humana, tão diametralmente oposto a todos os instintos da nossa humanidade caída, que nada, a não ser o Espírito de Deus, pode despojar-nos de toda a justiça própria e de todo esforço humano, compelindo-nos a descansar simples e totalmente em Jesus Cristo, o Salvador. Essas duas experiências que descrevemos seriam sufici­ entes para demonstrar que a atuação do Espírito Santo é essencial para tomar uma pessoa numa cristã; porém descreverei agora essa pessoa após a conversão. Vêm as dificuldades como
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se fossem tempestades, mas ela as enfrenta, dizendo: “Eu sei que todas as coisas contribuem para o meu bem”. Morrem os filhos; a companheira da vida é levada à sepultura, todavia ele diz: “O Senhor deu, o Senhor tomou; bendito seja o nome do Senhor”. A fazenda declina, a colheita se perde, as perspectivas do negócio são sombrias; tudo parece acabar-se e inclusive ele mesmo é deixado em pobreza, porém ele exclama: “Ainda que a figueira não floresça e na vinha não haja frutos; o produto da oliveira minta e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco e no curral não haja gado, eu me alegrarei no Senhor e exultarei no Deus da minha salvação”. Mais tarde vocês o verão no leito, enfermo, mas ainda assim ele diz: “Foi-me bom ter sido afligido, porque andava errado; mas agora guardo a tua Palavra”. Quando por fim se aproxima o obscuro desenlace, o ouvirão exclamar: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum; porque tu estarás comigo”. Agora pergunto: o que é que faz esse homem demonstrar tal serenidade espiritual em meio a todas estas provas e dificuldades pessoais, a não ser o bendito Espírito Santo? Ó vocês que duvidam da influência do Espírito, tentem produzir sem Ele coisa semelhante; tentem viver e morrer como os cristãos, se forem capazes de mostrar a mesma calma resignação, o mesmo gozo sereno, a mesma firme confiança de que as coisas adversas, sem dúvida redundarão para o seu bem, então talvez nos encontremos numa posição que nos faça abandonar nossa afirmação - contudo só quando fizerem isso. As elevadas e nobres experiências de um cristão em período de prova e aflição demonstram que são a obra do Espírito Santo. Mas considerem também o cristão no meio da prosperi­ dade. É rico. Deus lhe tem concedido tudo o que seu coração desejava na terra. Observem o que ele diz: “Em nada valorizo estas coisas, exceto como dons de Deus; não estou apegado a
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elas; e apesar desta casa e de todas estas comodidades, estou pronto a deixá-las e estar com Cristo, que é incomparavelmente melhor. Na verdade nada me falta na terra, no entanto creio que o morrer para mim seria lucro, mesmo que tivesse de deixar todas estas coisas”. Debilmente se liga às coisas da terra; não as sustém com firmeza, mas as considera como pó, como algo que passará. Pouco prazer encontra nelas, por isso pode afirmar: “Não tenho aqui cidade permanente; aquela que busco, não pode ser vista aqui”. Observem esse homem. Tem ampla liberdade para lançar-se aos prazeres mundanos, porém ele bebe de uma fonte mais elevada. Suas alegrias brotam de mananciais invisíveis; seus momentos mais felizes se constituem daqueles em que, isolado das coisas apetecíveis deste mundo, ele se aproxima de Deus como pobre e culpado pecador, e através de Cristo pode entrar em comunhão com Ele e achegar-se confiadamente ao trono da graça celestial. Considerem: que impede a tal cristão gozando de todas essas bênçãos - de colocar o coração nas coisas deste mundo? É maravilhoso, na verdade, que um homem que possua ouro, prata, rebanhos e gado, não faça deles o seu deus, antes, pelo contrário, testifique: “Nada existe nos âmbitos desta terra espaçosa para satisfazer meu grande desejo; O gozo sem fronteiras e a alegria pura é de meus pensamentos nobres a aspiração contínua ” As coisas da terra não constituem meu tesouro; meu tesouro está no céu, e no céu somente. A que se deve toda esta serenidade espiritual e aspiração nobre? Não a uma simples virtude moral. Nenhuma doutrina estóica produzirá algo
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semelhante. Não. Tem que ser a atuação do Espírito, e dEle somente, o que pode levar um homem a viver no céu, não obstante a tentação de viver na terra. Não me admira que um homem pobre suspire pelo céu, pois não possui nada na terra. Quando existe espinho no ninho, não admira que a ave busque as alturas, pois não há descanso para ela lá embaixo. Quando alguém se sente ferido e vencido pelas dificuldades, não é de admirar que exclame: “Jerusalém, meu lar feliz, Teu nome é sempre doce para mim! O quando no final do meu penar, poderei em gozo epaz em ti habitar?” Mas a grande maravilha é que, embora seja bem macio o ninho do cristão e esteja beneficiado com o melhor desta vida, ninguém o impedirá de afirmar: “A Jesus, a coroa de minha esperança, minh ’alma anseia ansiosamente voar, O, leva-me, querubim, lá para cima e conduze-me até o Seu próprio trono! ” V. Agora, finalmente, direi que as ações, AS BOA AÇÕES DA VIDA CRISTÃ NÃO PODEM REALIZAR-SE SEM O ESPÍRITO; daí mais uma vez a necessidade do Espírito de Deus. O primeiro ato na vida do cristão é o arre­ pendimento. Vocês tentaram alguma vez se arrependerem? Caso afirmativo, então sabem que instar com alguém que se arrependa sem contar com a promessa do Espírito para ajudá-lo, é exigir o impossível. Mais facilmente poderia uma rocha chorar ou um deserto florescer, do que um pecador arrepender-se pela própria iniciativa. Se Deus oferecesse o céu à criatura
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humana, simplesmente na base que ela se arrependesse do pecado, o céu seria tão impossível de conseguir como o é pelas boas obras, uma vez que o homem, por si mesmo, não é capaz de arrepender-se nem de cumprir perfeitamente a Lei de Deus, pois o arrependimento inclui nada menos que o mesmo princípio de perfeita obediência à lei divina. Inclino-me a crer que no arrependimento se encontra basicamente toda a lei, embora de maneira condensada, e se o homem por si mesmo pode arrepender-se, então não há necessidade de um Salvador; ele poderia entrar no céu escalando as íngremes encostas do Sinai. Ao arrependimento segue a fé. Talvez pensem que a fé seja algo simples; mas se a alguém fosse dado experimentar a carga do pecado, então não consideraria a fé como algo fácil. Alguém estando no lodo profundo, onde não existe nada sólido, não lhe seria fácil pôr os pés sobre uma rocha, sobretudo quando parece que não há nenhuma rocha aí. Acredito que a fé seja uma das coisas mais fáceis do mundo quando não há nada para ser crido, porém quando surge uma oportunidade para usar minha fé, então descubro que não tenho poder suficiente para exercitá-la. Enquanto falava com um camponês, ele usou esta figura: “No meio do inverno algumas vezes penso que bem poderia ceifar; e no princípio da primavera penso: como gostaria de colher! Sinto que estou pronto para fazê-lo; no entanto, quando o tempo da colheita vem, e a época de colher se aproxima, me acho como não tendo energias para fazê-lo”. Assim é quando não há dificuldades. Não as poderiam colher todas de uma vez? Quando não têm trabalhos a realizar, não seriam capazes de efetuá-los? Mas quando surgem as dificuldades e há trabalho a realizar, vocês descobrem quão difícil é fazê-lo. Muitos cristãos são como aquele veado que, falando consigo mesmo, dizia: “Por que tenho de fugir dos cachorros? Com um par de chifres afiados e patas tão ágeis como possuo, poderia causar dano a esses atrevidos. Por que não permaneço firme aqui e lhes ensino
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o que posso fazer com meus chifres? Por numerosos que sejam, sou capaz de mantê-los à distância”. Entretanto, no instante em que os cães ladraram, o veado saiu em disparada. Algo semelhante ocorre conosco. “Que se levante o pecado”, dizemos, “e logo o arrancaremos e o destruiremos; que cheguem as dificuldades e prontamente as superaremos.” Todavia, quando o pecado e as dificuldades vêm, reconhecemos a nossa fraqueza. Temos então de recorrer à ajuda do Espírito, porquanto sem Ele nada podemos fazer. Por outro lado, auxiliados por Ele, tudo nos é possível. Em todas as ações da vida do cristão, quer no ato de consagrar-se a Cristo, seja na oração diária, na submissão constante, na proclamação do evangelho, na ajuda aos necessi­ tados ou ao confortar os deprimidos, em todas estas coisas o cristão descobre suas fraquezas e sua falta de poder, a não ser que seja revestido do Espírito de Deus. Indo visitar a enfermos com o desejo de confortá-los, muitas vezes senti que não me saía dos lábios nenhuma palavra que valesse a pena ser ouvida. Eu me senti numa grande agonia. Ansiava confortar o pobre e desconsolado irmão doente, porém nada podia fazer; saía da casa quase desejando que nunca tivesse ido visitar uma pessoa enferma em toda a minha vida. De tal maneira me convenci da minha própria insuficiência. Algo semelhante ocorre ao prega­ dor. Prepara um sermão, estuda-o, e ao pregá-lo faz dele uma confusão terrível. E então exclama: “Oxalá nunca tivesse pregado!” Tudo isso é para demonstrar que nem no pregar, nem no confortar, alguém pode fazer bem, a menos que o Espírito opere em nós tanto o querer como o efetuar, conforme a Sua vontade. Além disso, tudo o que fazemos sem o Espírito é inaceitável a Deus; e qualquer coisa que realizemos sob a Sua influência, mesmo que a depreciemos, não será depreciada por Deus, pois Ele jamais deprecia Sua própria obra, e o Espírito não pode contemplar o que Ele realiza em nós de outra maneira
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senão com complacência e deleite. Se o Espírito me ajuda a gemer, então Deus tem que aceitar aquele que geme. Se você pudesse fazer a melhor oração possível, mas sem o Espírito, Deus a rejeitaria; todavia se sua oração fosse pobre, entrecortada e débil, originada no Espírito, Deus a contemplaria como fez com as obras da criação e diria: “É muito boa”, e a aceitaria. E agora concluirei fazendo a pergunta: querido ouvinte, você possui o Espírito de Deus? Você tem alguma forma de religião, atrevo-me a afirmar. Mas, que tipo? E uma religião feita por você mesmo? O que você é, deve a si mesmo? Então, se é assim, mesmo neste momento é um homem perdido. Se não tem ido além do que andou por si mesmo, está longe do caminho que conduz ao céu; seu rosto está voltado para um caminho errado. Contudo, se recebeu algo que nem carne nem sangue puderam revelar, se tem sido conduzido àquilo a que antes aborrecia e a amar aquilo que outrora depreciava, e a depreciar aquilo no qual seu coração e orgulho se apegavam, então, amigo, isso é atuação do Espírito e portanto, regozije-se, pois onde o Espírito começa uma boa obra Ele a aperfeiçoará até ao fim. E pode certificar-se quando a obra é do Espírito pelo seguinte: tem sido levado a Cristo e a renunciar o seu próprio eu? Já desprendeu-se de toda a emoção, obra, desejo e oração que constituiam o fundamento de sua confiança e esperança? Já foi impulsionado a confiar na suficiente obra de Cristo? Se aconteceu assim, você aprendeu algo que a natureza humana jamais pode ensinar; é algo demasiadamente alto para ser escalado pela força humana. E a atuação do Espírito de Deus, e Ele nunca abondona aquilo que uma vez iniciou; você irá de força em força e um dia estará entre aquela multidão lavada no sangue, e finalmente completo em Cristo e aceito no Amado. Mas se você não possui o Espírito não é dEle. Que o Espírito o conduza agora ao seu quarto, para chorar, para arrepender-se, para contemplar a Cristo, e que possa receber agora a vida
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divina, a qual nem o tempo nem a eternidade poderão destruir. Que o Senhor nosso Deus escute esta súplica e nos despeça com a Sua bênção, em nome de Jesus. Amém.

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PREDESTINAÇÃO E CHAMADA*
“E aos que predestinou, a estes também chamou ” - Rom. 8:30. O grande livro dos decretos de Deus está firmemente fechado para a curiosidade humana. O néscio gostaria de ser sábio; gostaria de abrir os seus sete selos e desvendar os misté­ rios da eternidade. Mas isso é impossível. Não chegou ainda o tempo para o livro ser aberto, e mesmo quando chegar, os selos não serão desatados por mão mortal, porém será dito: “Aqui está o leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu para abrir o livro e desatar os seus sete selos”. “Quem esquadrinhará, ó Pai Eterno, os arcanos de Tua vontade secreta? Ninguém senão o Cordeiro tomará o livro dos decretos, e seus selos, bem atados, até o último abrirá. ” Ele, e só Ele, desenrolará o sagrado registro para lê-lo a todas as pessoas do mundo. Como, então, poderei saber se fui predestinado por Deus para a vida eterna ou não? Esta pergunta se relaciona com os meus interesses eternos. Acaso estou entre
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o desgraçado número de pessoas que será deixado a viver em pecado e deste modo colher o fruto da sua iniqüidade? Ou pertenço à numerosa companhia de homens e mulheres que, não obstante haver pecado, serão lavados no sangue de Cristo e com vestes brancas andarão um dia nas ruas douradas do paraíso? Até que estas perguntas me sejam respondidas, meu coração não poderá descansar, porquanto elas são a causa de uma ansiedade intensa. Meu destino eterno me preocupa infinitamente mais do que os assuntos desta vida. Digam-me, se o sabem, profetas e advinhos: meu nome está escrito no Livro da Vida? Sou um daqueles ordenados para a vida eterna? Ou serei deixado a seguir minhas próprias inclinações e paixões e desse modo destruir minha própria alma? Ó homem, há uma resposta à sua pergunta. O livro não pode ser aberto, mas Deus publicou muitas de suas páginas. Não divulgou a página na qual os nomes dos redimidos estão escritos; porém a página do decreto sagrado onde é descrito o caráter dos eleitos está inserida em Sua Palavra e ser-lhe-á proclamada hoje. Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz. Amado ouvinte: não o conheço pelo seu nome, nem a Palavra de Deus o distingue nominalmente, mas através do seu caráter pode ler o seu nome; se está participando do chamado que é mencionado neste texto, então pode concluir, sem sombra de dúvida, que está entre os predestinados: “Aos que predestinou, a estes também chamou”. E se tem sido chamado, segue-se como inferência natural que também foi predestinado. Entretanto, ao considerar este tão solene tema, permitam-me frisar que na Palavra de Deus são mencionadas duas classes de chamado. Fala-se, primeiramente, de um chamado geral, que sinceramaente se dá no evangelho a todos os que o ouvem. O servo de Deus tem a obrigação de convidar a todas as almas, sem distinção alguma, a aceitar a Cristo: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura” (Mar. 16:15). A trombeta
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do evangelho soa fortemente nos ouvidos de cada pessoa de nossas congregações: “Ó vós todos que tendes sêde, vinde às águas; e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei. Vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” (Is.55:1); “A vós outros, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens” (Prov. 8:4). Este chamado é sincero da parte de Deus; mas o homem por natureza é tão contrário a Deus, que o apelo nunca resulta eficaz, pois despreza-o, dá-lhe as costas e prossegue seu caminho sem preocupar-se com ele. Todavia lembrem-se que embora o chamado seja rejeitado, o homem não tem nenhuma desculpa para fazê-lo; o chamado universal tem em si tal autoridade, que a criatura humana que não o atende não terá escusa no dia do juizo. Quando alguém é ordenado a arrepender-se e crer, quando é exortado a fugir da ira vindoura, se ele menosprezar a exortação e rejeitar o mandamento, terá que sofrer as conseqüências disso. Aparece na Epístola aos Hebreus um solene aviso: “Como escaparemos nós se rejeitarmos uma tão grande salvação?” Mas repito: este chamado universal é desprezado pelo homem; é um chamado, porém não vem acompanhado com a força e a energia do Espírito Santo para torná-lo um chamado invencível; e em conseqüência, as almas perecem, mesmo depois do chamado universal do evangelho ter soado em seus ouvidos. Os sinos da casa do Senhor soam cada dia; os pecadores os ouvem, porém pondo os dedos nos ouvidos continuam seu caminho, uns para seus campos, outros para seus negócios. Embora sejam convidados para a festa (Luc. 14:1618), não querem vir, e não vindo, se tornam sujeitos à ira de Deus, que afirma a respeito deles: “Nenhum daqueles homens que foram chamados, provará do meu banquete” (Luc. 14:24). O chamado de nosso texto é de natureza distinta; não é um chamado universal, e sim especial, particular, pessoal, diferenciador, eficaz e invencível. Este chamado é dirigido aos
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predestinados, e a eles somente; eles pela graça ouvem o chamado, o obedecem e o recebem. São aqueles que agora podem dizer: “Leva-nos após Ti e correremos”. Nesta ocasião, ao pregar sobre este chamado, dividirei o sermão em três breves partes: primeiramente darei ilustrações deste chamado', a seguir, passaremos a examinar se realmente fomos chamados', por último, meditaremos nas gratas conseqüências do chamado. Ilustração, exame, consolação. I. ILUSTRAÇÕES DESTE CHAMADO. ilustrar a chamada eficaz da graça estendida aos predestinados, devo mencionar, inicialmente, o caso de Lázaro. Podem ver aquela pedra posta à boca do túmulo? É absolutamente neces­ sário que feche bem o sepulcro, pois dentro dele está um corpo já em estado de decomposição. A irmã do morto está junto ao sepulcro e diz: “Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias”. Tal objeção é natural; Marta tem razão. No entanto, ao lado de Marta observamos um homem que, apesar de sua aparência humilde, é o próprio Deus. Ele ordena: “Tirem a pedra,” e é obedecido; agora clama: “Lázaro, venha para fora!”. A ordem é dirigida a uma massa de podridão, a um corpo já morto há quatro dias, e sobre o qual os vermes já haviam cele­ brado um banquete. Todavia, por estranho que pareça, daquela tumba sai um homem vivo; aquela massa de podridão fora vivificada de novo, e “aquele que estivera morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com ataduras, e o rosto envolto num lenço”. “Desatai-o e deixai-o ir”, acrescenta o Redentor; e quando isso é feito, vemos Lázaro andando com a liberdade peculiar da vida. A chamada eficaz da graça é precisamente algo seme­ lhante. O pecador está morto em pecado; não apenas está em pecado, mas também está morto em pecado, sem poder algum para obter por si mesmo a vida da graça. Ainda mais, não
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Para

apenas está morto, está também corrompido; suas más inclina­ ções o tornam asqueroso como vermes, fazendo com que um detestável mal cheiro alcance os átrios da justiça. Deus o detesta e a justiça clama: “Sepultem-no fora da minha vista! Lancem-no ao fogo, deixem que se consuma!” A graça e a misericórdia soberanas se achegam a essa massa inconsciente de pecado, e clamam, quer seja através de um pregador ou diretamente, sem agente humano, pelo Espírito de Deus: “Venha!” E aquele homem vive. Acaso ele contribuiu com algo para sua nova vida? Certamente que não; a vida lhe foi dada exclusivamente por Deus. Ele estava morto, absolutamente morto, putrefato em seu pecado; veio-lhe a vida ao receber o chamado e, em obediência a esse apêlo, o pecador saiu da tumba de perdição e começou a desfrutar a nova vida, aquela vida eterna que Cristo concede a Suas ovelhas. “Mas”, perguntará alguém, “que palavras usa Jesus para chamar um pecador da morte?” O Senhor pode usar qualquer palavra. Não faz muito que veio a este local um homem que vivia sem Deus e sem Cristo, e a simples leitura do hino “Jesus, amante de minha alma” foi o meio usado para dar-lhe vida. Ele considerou consigo mesmo: “Jesus me ama? Então eu devo amá-lO!”, e naquele mesmo instante recebeu a vida espiritual. As palavras de Cristo são distintas em diferentes casos. Espero que enquanto estou pregando nesta manhã, Ele esteja falando através de mim, e que alguma palavra que saia dos meus lábios, improvisada e sem intenção, possa ser enviada por Deus a algum coração morto e perdido, como mensagem de vida, a fim de que alguém que até agora tenha andado em pecado, passe a viver para Cristo e em justiça. Este é o primeiro exemplo que apresento para dar-lhes a entender o que seja o chamado eficaz. Tal chamado vivifica o pecador, morto em suas transgressões, e o habilita a obedecer à ordem de Deus.

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Pois bem, consideremos agora uma segunda fase do mesmo. Podem observar o fato de que, embora morto em seus pecados, o pecador possui bastante capacidade para opor-se a tudo que concerne a Deus. Não tem forças para obedecer, porém é suficientemente poderoso para resistir ao chamado da graça divina. Isto pode ser ilustrado com o exemplo de Saulo de Tarso: este orgulhoso fariseu detestava o Senhor Jesus Cristo; prendeu todo seguidor de Jesus que lhe caiu nas mãos, e arrastou homens e mulheres para a prisão; com a mesma ambição com que o avarento persegue o ouro, Saulo perseguiu a vida dos discípulos de Jesus, e por não poder fazer mais presos em Jerusalém, conseguiu cartas do sumo sacerdote a fim de continuar sua sangrenta missão em Damasco. Encontrem-no na estrada! Enviem o apóstolo Pedro para que lhe diga: “Saulo, por que se opõe a Cristo? Chegará o dia em que se tornará seu discípulo”. Saulo se voltaria para ele e com riso desdenhoso lhe responderia: “Retire-se, pescador! Vá embora! Eu, discípulo daquele impostor, Jesus de Nazaré! Olhe, esta é a minha confissão de fé: arrastarei seus irmãos e irmãs para a prisão, os castigarei por todas as sinagogas e os forçarei a blasfemar. Assim os perseguirei até à morte, porquanto meu alento é como ameaças e morte contra eles, e meu coração é como fogo de encontro a Cristo”. Tal cena não ocorreu, porém poderia ter acontecido, pois não há dúvida que esta teria sido a resposta de Saulo. No entanto, Cristo determinou chamar tal homem. Que empresa mais arriscada! Quem pode deter Saulo - este homem indomável que se lançara a uma carreira insensata? Mas acon­ teceu que, aproximando-se de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu, e caindo em terra ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões”. Saulo, com os olhos cheios de lágrimas e mais tarde cobertos de escamas, pergunta: “Quem és, Senhor?” E do alto a voz responde: “Sou Jesus, a quem

persegues”. Não transcorreram muitos minutos sem que ele reconhecesse o pecado de haver perseguido a Cristo e não passaram muitas horas para alcançar a certeza de haver sido perdoado. Dias mais tarde, o ex-perseguidor se levanta a pregar com eloqüência veemente a mesma causa que havia pisoteado. Vejam, portanto, o que a chamada eficaz consegue realizar. Se neste momento, através da pregação do evangelho, Deus decretasse chamar o homem de coração mais duro e miserável, tal homem não poderia fazer outra coisa senão obedecer. Quando Deus chama, o homem pode resistir, porém não pode resistir vitoriosamente. O pecador cairá por terra, se Deus o chama; nada há que possa sustentá-lo quando Deus decreta que ele caia. E observem: todo homem que foi salvo, o foi graças a um chamado poderoso a que ele não pôde resistir. Embora o resistisse por algum tempo, ainda assim não conseguiu superá-lo. Ele tem que ceder; tem que render-se quando Deus fala. Se Deus ordena: “Haja luz”, as trevas mais impenetráveis dão lugar à luz. Se determina: “Que haja graça”, o pior pecado cede e o coração do pecador mais endurecido se derrete ante o fogo da chamada eficaz. Dessa maneira, portanto, ilustrei a chamada eficaz em dois aspectos: pela condição do homem em seu pecado e pelo poderio que vence à resistência que o homem possa oferecer. E agora outro caso. A soberania da chamada eficaz pode ser ilustrada na história de Zaqueu. Cristo entra em Jericó para pregar. Nessa cidade morava um publicano, homem avarento, extremamente ambicioso, e que com avidez e rapina oprimia às pessoas. Cristo tinha vindo para chamar alguém, pois estava determinado que teria de pousar em uma casa. Vocês podiam imaginar que a pessoa a quem Cristo Se propôs chamar seria o pior homem da cidade, Zaqueu, o opressor? Ele revelou grande curiosidade para ver a Jesus, mas não podia por causa da multidão, sendo ele de pequena estatura; de modo que subiu
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numa figueira, e achando-se seguro no meio da espessa folha­ gem, se pôs a esperar com grande expectativa àquele homem maravilhoso que havia transtornado o mundo. Ele pouco imaginava que chegaria a lhe “transtornar” também. Enquanto falava e pregava às pessoas, o Salvador Se aproximou daquela árvore e, levantando a vista, o viu e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa”. Então ele desceu rapidamente, hospedou ao Salvador em seu lar, e demonstrando que havia sido chamado, não apenas de palavra mas pela graça salvadora, declarou: “Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos pobres; e se em alguma coisa defraudei a alguém, pagarei quadruplicado”. E Jesus declarou: “Hoje veio a salvação a esta casa”. Agora interroguemos: por que Jesus chamou Zaqueul Simplesmente porque o chamado de Deus se estende a pecadores indignos. Nada existe no homem que o faça merecedor desta chamada - nem mesmo no melhor dos homens. Deus tem misericórdia de quem quer ter misericórdia, e o Seu chamado humilha e quebranta mesmo os piores dos pecadores. Eles não podem fazer outra coisa senão cair da árvore do seu pecado e prostrar-se penitentes aos pés do Senhor Jesus. E agora, para ilustrar os efeitos deste chamado, eu desejaria recordar-lhes que em Abraão temos outro exemplo notável da chamada eficaz. “E Jeová disse a Abraão: “Sai da tua terra e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vai à terra que te mostrarei”. E, “pela fé, Abraão, sendo chamado, obedeceu para ir ao lugar que havia de receber por herança; e saiu sem saber para onde ia.” Ah, pobre Abraão, como diria o mundo! Que tribulações não lhe causou este chamado! Ele era suficiente­ mente feliz no seio do lar paterno, porém quando a idolatria marcou aquele lar, Deus chamou unicamente a Abraão, dizendo: “Deixa a tua terra, Abraão”, e ele abandonou Ur dos Caldeus, ignorando para onde se dirigia. Quando a chamada eficaz separa um homem, ele se verá obrigado a sair fora do arraial e levar o
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vitupério de Cristo. Deve abandonar seus amigos mais íntimos e deixar os antigos conhecidos; precisa abandonar aqueles amigos entre os quais costumava beber e blasfemar, e com os quais se deleitava nos prazeres. Precisa separar-se de todos eles para seguir ao Cordeiro onde quer que Ele vá. Que prova para a fé de Abraão ter que abandonar tudo aquilo que lhe era tão querido e sair sem saber para onde ia! No entanto, Deus tinha para ele uma terra próspera e estava disposto a abençoá-lo em grande medida. Ó homem, se você foi chamado, se realmente recebeu a chamda, sairá e marchará sozinho. Talvez alguns dos que se intitulam seguidores de Deus o abandonem e você tenha de sair sem nenhum amigo; talvez a própria esposa o repila e você chegue a ser um estrangeiro em terra estranha, um solitário peregrino à semelhança dos seus antepassados. Ora, se na verdade existe uma chamda eficaz, e a sua salvação é o resultato dela, então que importa que tenha de ir ao céu sozinho? Melhor ser um peregrino solitário a caminho da glória, que um dos milhares que se apertam no caminho para o inferno. Acrescento ainda outra ilustração. Quando a chamada eficaz é dirigida a alguém, talvez a princípio ele não saiba que se trata de uma chamada eficaz. Lembrem o caso de Samuel, que ao receber o chamado do Senhor, se levantou e se dirigiu a Eli, dizendo: “Eis-me aqui; para que me chamaste?” Eli respondeu: “Não te chamei; volta a deitar-te”. E ele voltou e se deitou. Pela segunda vez o Senhor tomou a chamar: “Samuel, Samuel”. Novamente se levantou Samuel e se dirigiu a Eli, dizendo: “Eis-me. Para que me chamaste?” E então foi Eli, e não Samuel, que compreendeu primeiro que o Senhor havia chamado o menino. E quando Samuel o soube, respondeu: “Fala, Senhor, porque teu servo ouve”. Quando uma obra da graça se inicia nalgum coração, nem sempre se vê claramente que é a atuação de Deus. Por intermédio de um pregador alguém pode haver recebido uma forte impressão, e pode estar mais preocupado com esta
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impressão do que com o seu autor, e desse modo pode refletir: “Não sei como, mas fui chamado; Eli, o pregador, me chamou”. E talvez se dirija a Eli a fim de perguntar-lhe o que deseja. “Estou certo,” diz, “que o pregador me conhece, pois se dirigiu diretamente a mim como se conhecesse a minha vida”. E vai ao encontro de Eli, e somente mais tarde, talvez, é que conclui que Eli nada tinha a ver com aquela impressão, porém que havia sido o Senhor quem o chamara. Citando meu próprio caso, eu diria que o Senhor operava em meu coração por alguns anos, antes que eu o reconhecesse. Estava ciente de que algo ocorria no meu íntimo, e que orava e chorava, e suspirava por misericórdia; mas não entendia de que tudo isso era operação do Senhor. Inclusive cheguei a julgar que era minha própria ação. Mais tarde, porém, ao conhecer a Cristo como meu único Salvador, convenci-me de que o Senhor me havia chamado muito antes, pois que todas essas experiências não eram fruto da minha própria natureza, e sim o resultado de uma obra da graça. Creio que posso garantir aos principiantes na vida cristã que, desde que o seu chamado seja verdadeiro, podem descansar seguros de que também é divino. Se é um chamado que se ajusta às características que apontarei na segunda parte do sermão, mesmo que julguem que a mão de Deus não está nele, descansem seguros, pois é de origem divina; nossa natureza não é capaz de produzir uma chamada eficaz. Se se trata de um chamado pelo qual alguém foi libertado do pecado e conduzido a Cristo, foi livre da morte e transplantado para a vida, resgatado do jugo da servidão e posto em liberdade, então ainda que não possa perceber a mão de Deus nele, não duvide: Sua destra originou este chamado.

II. Até aqui tenho ilustrado a chamada eficaz. Agora proponho que nos EXAMINEMOS A NÓS MESMOS à luz de algumas características do chamado celestial que vou mencionar
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a seguir. Se abrirem a Bíblia em 2 Tim. 1:9, encontrarão: “Que nos salvou e chamou com uma santa vocação”. Aqui encontramos, portanto, a primeira prova pela qual podemos examinar nosso chamado - muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos - e isso porque há várias classes de chamado; porém o chamado verdadeiro, e somente ele, corresponde à descrição deste texto. É um “chamado santo, não conforme às nossas obras, mas segundo o seu propósito e graça, a qual nos é dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos”. Este chamado elimina toda confiança em nossas obras, e nos leva a confiar unicamente em Cristo para nossa salvação. Além disso, nos purifica de nossas obras mortas para que possamos servir ao Deus vivo e verdadeiro. Se alguém anda em pecado, então não foi chamado; se continua vivendo da mesma maneira que antes da sua pretendida conversão, então não se trata de conversão real; o bêbado que receber o chamado, abandonará o vício. Vivendo na prática do pecado os homens podem receber o chamado, mas depois de recebê-lo já não continuarão mais no pecado. Saul foi ungido rei enquanto estava buscando as jumentas do pai, e muitos foram chamados enquanto buscavam satisfazer seu próprio desejo, porém abandonaram as jumentas e os desejos logo que foram chamados. À luz desses fatos cada um pode saber se realmente foi chamado por Deus ou não. Se continua em pecado, se anda conforme este mundo e de acordo com o espírito que opera nos filhos da desobediência, então ainda está morto em seus delitos e pecados. “Como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos.” Acaso você pode dizer: “Senhor, sabes todas as coisas, sabes que desejo guardar todos os Teus mandamentos e andar santamente diante de Ti”? Sei que minha obediência não pode salvar, no entanto anseio obedecer-Te. Nada há que me doa tanto como o pecar; por isso desejo abandoná-lo e ver-me livre dele. Ajuda-me, Senhor, a ser santo. Este seria o clamor do seu coração? Seria
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esta a atitude da sua vida perante Deus e a Sua Palavra? Então, amado ouvinte, tenho motivos para crer que você foi chamado por Deus, pois é um chamado santo aquele com o qual Deus chama o Seu povo. Outro versículo. Em Fil. 3:13-14 lemos estas palavras: “Esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. Seria, na verdade, o seu chamado um chamado soberano? Já ergueu o seu coração e o pôs em coisas celestiais? Elevou suas esperanças, de modo que não espera coisas terrenas, mas as celestiais? Elevou seus gostos de modo que não são mais gostos baixos, fazendo com que agora você prefere as coisas que são de Deus? Levantou seus desejos ao ponto de que já não suspira pelas coisas terrenas, e sim pelas que são invisíveis e eternas? Elevou o nível da sua vida, de modo que agora emprega a vida em oração a Deus, em louvor e gratidão, e já não o satisfazem os ideais baixos e pobres que adotava nos dias de sua ignorância? Recorde-se, no caso de ter sido realmente chamado, que seu chamado é um chamado soberano, que veio do alto, eleva o seu coração e o levanta para as coisas de Deus, da eternidade, do céu e da santidade. Em Hebreus 3:1 lemos estas palavras: “Irmãos santos, participantes da vocação celestial”. Aqui achamos outra prova. Um chamado celestial significa algo que veio do céu. Foi chamado por Deus? Ou chamado pelo homem? Pode agora descobrir em seu chamado a mão de Deus e a voz de Deus? Se foi apenas o homem quem o chamou, então você não recebeu o verdadeiro chamado. Seu chamado veio de Deus? E um chamado que o encaminha ao céu, do mesmo modo que veio do céu? Pode dizer de todo o coração que nunca descansará satisfeito até q u e .. .

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“Chegue a contemplar Seu rosto, e por fim, já livre do pecado, das eternas águas da Sua graça possa beber o prazer infindável”? Ó homem, a menos que você seja um estrangeiro nesta terra e que o seu lar esteja no céu, você não foi chamado com uma vocação celestial, pois aqueles que o têm recebido manifestam que buscam “uma cidade com fundamento, da qual o artífice e construtor é Deus”, e se consideram como estrangei­ ros e peregrinos na terra. Desejo lembrar-lhes um versículo das Escrituras que pode contribuir muito para sua edificação e também ajudá-los neste exame pessoal. Aqueles que foram chamados são homens que, antes de sua chamada, gemiam no pecado. Que diz Cristo? “Eu não vim chamar os justos, mas sim, os pecadores ao arrependimento.” E porque se refere a mim, embora eu seja incapaz de mencionar as profundidades de minha condição pecadora, com plena convicção posso afirmar que me sinto pecador, que aborreço minha condição pecaminosa, que detesto minha iniqüidade e que por causa das minhas transgressões mereço a ira divina. Sendo este o meu caso, tenho esperança de encontrar-me entre a multidão daqueles que Deus chamou e predestinou. Ele não veio para chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento. Assim sendo, posso dizer sem demora ao que confia na justiça própria, que ele não possui evidência alguma de haver sido eleito. Eu lhe digo - não! Cristo nunca chama os justos, e se você não foi chamado, isso confirma que não faz parte do número dos eleitos e portanto você e sua justiça própria devem ser sujeitos à ira de Deus e à perdição eterna. Somente o pecador a quem Deus tem despertado de sua condição pecaminosa pode estar seguro de que foi chamado, e

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mesmo ele, à medida que cresce na graça, deve buscar os selos distintivos do chamado santo e celestial em Cristo Jesus. Como outro teste - restringindo-nos estreitamente às Escrituras, porque quando se trata do estado de cada um de nós diante de Deus, nada há tão revelador quanto a Sua santa Palavra - recordarei que na Primeira Epístola de Pedro, capítulo 2 e versículo 9 nos é dito que Deus nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz. Foi este o seu chamado? Você andava nas trevas, em relação a Cristo, quando a luz maravilhosa lhe manifestou um Redentor admirável e poderoso para salvá-lo? Responda, alma, pode sinceramente dizer que sua vida passada era tenebrosa, porém seu estado presente é luz no Senhor? “Noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz.” O homem que não vê trevas, ignorância e pecado em sua vida anterior, e que agora não pode dizer que sabe mais do que sabia, e que não goza de vez em quando da luz do conhecimento e do resplendor de Deus, tal homem, afirmo, não foi chamado. Ainda mais. Encontramos outro texto sobre o chamado no versículo 13 do capítulo 5 de Gálatas: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade”. À luz deste texto, devo interrogar novamente: foram quebradas as cadeias do meu pecado e sou, graças ao Senhor, um homem livre? Foram soltas as algemas da justiça e eu posto em liberdade por Aquele que é o grande resgatador de almas? O escravo não foi chamado. É o homem livre, o qual foi retirado do Egito, que apresenta evidências de ter recebido o chamado divino e ser agora precioso ao coração do Altíssimo. Um outro precioso texto para examinar nosso chamado se encontra em I Coríntios 1:9, onde lemos: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor”. Estaria eu experimentando comunhão com Cristo? Acaso comunico-me com Ele? Sofro com Ele e para
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Elel Identifico-me com Ele em Seus objetivos e propósitos? Amo o que Ele ama e aborreço o que Ele aborrece? Posso levar Seu vitupério e carregar a cruz? Ando em Seus passos e sirvo à Sua causa? E minha maior esperança a de que um dia verei o Seu reino e me sentarei em Seu trono para reinar com Ele? Se assim é, então fui alcançado pela chamada eficaz, que é uma obra da graça de Deus, e um sinal seguro da minha predestinação. Antes de terminar este ponto, permitam-me que lhes diga que é possível ao homem saber se Deus o chamou ou não, e que pode sabê-lo sem nunhuma dúvida. Pode sabê-lo tão certamente como se o lesse com os seus próprios olhos; ainda mais do que isso, pois, se eu ler uma coisa com os meus olhos eles podem enganar-me, e o testemunho dos sentidos às vezes pode ser falso; entretanto, o testemunho do Espírito é verdadeiro. Possuimos o testemunho do Espírito dentro de nós, testificando com o nosso espírito que somos nascidos de Deus. É possível chegar a ter uma certeza infalível da nossa salvação. Tal convicção ungiria a cabaça do crente com óleo novo e o vestiria com vestes de louvor, e, além disso, poria cânticos angelicais na sua boca. Feliz, bem feliz o homem que desfruta da plena certeza de sua participação no pacto da graça, do sangue reconciliador e das glórias celestes! Neste dia e neste lugar poderemos encontrar pessoas com tal certeza de participação, às quais digo: “Regozijai-vos sempre no Senhor, e outra vez digo: regozijai-vos”. Oh, quanto alguns de vocês dariam para obter esta certeza! Certifiquem-se de que se ansiosamente o desejam alcancar, podem alcançá-la. Se os seus corações anseiam ler claramente o título de eleitos, logo poderão fazê-lo. Nunca ocorreu o caso de um homem desejoso de ter Cristo em seu coração, com um desejo vivo e ardente, que não chegasse, cedo ou tarde, a encontrá-10. Se você possui o desejo, é porque Deus
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lho deu. Se você anseia, chora e clama por Cristo, ainda isso é dom provindo dEle. Louvado seja Seu nome. Por pequena que seja a medida da graça que tenha recebido, louve-0 por ela e rogue que lhe seja concedida graça maior. Ele lhe concedeu esperança, peça-Lhe fé; e quando lhe der fé, peça-Lhe certeza; e quando alcançar certeza, peça-Lhe certeza completa; e quando receber certeza completa, peça-Lhe gozo; e quando obtiver gozo, peça-Lhe glória, e no Seu aprazado tempo certamente tudo lhe será concedido. III. Concluirei agora descrevendo a CONSOLAÇÃO que flui deste chamado. Oh, sim, torrentes de consolo fluem do chamado que tenho recebido! Primeiramente, afirmo que se fui chamado, fui também predestinado, e disso não há dúvida. O grande esquema de salvação se assemelha àquelas correntes que vemos nos ancoradouros. De um lado do rio há uma corrente presa a uma argola e se estende à outra argola da margem oposta do rio, porém a maior parte da corrente está debaixo dágua e não pode ser vista; somente se vê à medida que o barco avança e a corrente é levantada pela força que move a embarcação. Se posso dizer que fui chamado, então sou como essa embarcação no meio do rio. Posso ver a parte que está presa à argola do chamado, mas - bendito seja o Senhor! - que está unida também com a argola da margem oposta a qual se chama eleição, e sei que a última parte igualmente está ligada à da glorificação final. De meu chamado, necessariamente se infere a minha eleição, e não posso duvidar disso. Deus nunca engana ninguém chamando-o com Sua graça eficaz, como se tivesse escrito seu nome no Livro da Vida do Cordeiro. Oh, quão preciosa é a doutrina da eleição quando alguém pode ver-se eleito! Uma das razões pelas quais muitos se rebelam contra esta doutrina é porque temem que não sejam eleitos. Não conheco nenhum homem que tenha boas razões para considerar-se salvo pela
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graça de Deus e que ao mesmo tempo se oponha à doutrina da eleição. Alguns a depreciam da mesma maneira que os ladrões odeiam as fechaduras de segurança; por não conseguirem levar o tesouro, odeiam aquele que o protege. A eleição guarda os preciosos tesouros do pacto para os filhos de Deus, para os penitentes - os pecadores que buscam a salvação. Mas aqueles que não se arrependem nem crêem, nem andam pelos caminhos de Deus, continuamente murmuram e se rebelam contra Deus por lhes haver vedado os tesouros da Sua graça. Quando o homem chega a crer que o tesouro lhe pertence, ah, então, quanto mais sólido for o cadeado e mais segura a fechadura, melhor. Quão doce é crer que nossos nomes estavam no coração do Senhor e gravados nas mãos de Jesus muito antes que o mundo existisse! Não seria este motivo suficiente para fazer-nos transbordar de gozo e encher-nos de alegria? “Escolhidos de Deus antes que iniciasse o tempo. ” Venham, pois, os caluniadores! Digam tanto mal quanto queiram! Venha o mundo com todos os seus dardos! Desçam as catadupas de prova e cubram-nos as avalanches de aflição, se assim foi determinado! Que importa tudo isso, se Deus inscreveu nossos nomes no Livro da Vida? Firme como a rocha permanecerei ainda que a própria terra cambaleie e os elementos se desfaçam. Que consolo, então, ser chamado, pois o chamado revela a minha predestinação. Maravilhemo-nos, pois, da graça soberana que nos alcançou, e recordemos as palavras do apóstolo: “...vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados; mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo, para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo e as desprezíveis, e as que
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não são, para aniquilar as que são, para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justificação, e santificação e redenção; para que, como está escrito: aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”. Uma segunda consolação que pode extrair-se desta doutrina do chamado é que, se uma pessoa foi chamada, certa­ mente será salva. Para provar isso citarei as próprias palavras das Escrituras: “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rom. 11:29). O Senhor jamais Se arrepende do que dá, nem de ter feito o chamado. E isso é comprovado por outra passagem da mesma Epístola citada: “Aos que pre­ destinou, a estes também glorificou”. Crente, você talvez seja pobre ou esteja enfermo; talvez seja ignorado ou mesmo depreciado. Não importa: reflita no seu íntimo e considere o chamado que recebeu e as conseqüências que resultam dele. Tão certo como hoje é um filho chamado por Deus, um dia terminará sua pobreza e alcançará as riquezas da mais alta felicidade. Espere um pouco; breve uma coroa cingirá sua cabeça cansada; suas mãos, endurecidas pelo trabalho, colherão as palmas da vitória. Cesse o pranto, pois em breve Deus enxugará suas lágrimas para sempre. Abandone esse suspiro. Por que suspirar, quando o cântico celeste está a ponto de chegar a seus lábios? As portas do céu lhe estão abertas de par em par. Ainda breves horas devem passar, mais algumas ondas o devem envolver, e depois, já seguro para sempre, alcançará as douradas praias da glória. Náo diga: “Eu serei perdido; serei condenado”. Impossível! “Aos que uma vez amou, jamais os abandona; Ele os ama com amor eterno. ” Se Ele o chamou, nada poderá separá-lo de Seu amor. O lobo da fome não poderá destruir o vínculo de Seu amor; o fogo
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da perseguição não conseguirá fundir o elo, nem o martelo do inferno poderá romper a cadeia do amor; o tempo não poderá devorá-lo com ferrugem, nem a eternidade dissolvê-lo com todas as suas eras. Descanse! Está seguro! A voz que o chamou, o chamará outra vez da terra para o céu, e da escuridão da morte a uma imortalidade resplandecente e indescritível. Descanse confiado; o coração que o chamou pulsa com um infinito amor que jamais acaba, para com os seus eleitos; as muitas águas e as longas distâncias jamais poderão apagar este amor eterno. Sossegue-se; descanse em paz; erga os olhos de esperança e entoe um cântico com apaixonada antecipação. Breve se ajuntará aos glorificados, com os quais está a sua parte. Aguarde aqui; é apenas uma preparação para sua herança e, concluída a mesma, as asas dos anjos o arrebatarão até às alturas do monte da paz, do gozo e da bem-aventurança, onde repousará para sempre. “Longe deste mundo de dor e de pecado, por Deus eternamente acompanhado. ” Examinem-se, portanto, se foram chamados. amor de Cristo seja com todos. Amém. E que o

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UM SERMÃO DE DESPEDIDA*
“Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos; porque nunca deixei de anunciar-vos todo o conselho de Deus” - At. 20:26-27. Por ocasião de separar-se de seus amigos efésios que tinham vindo a Mileto a fim de despedir-se dele, Paulo não esperou deles cumprimentos por seu labor, nem solicitou elogios por sua fervente eloqüência, conhecimento profundo ou capacidade de pensamento. Sobejamente reconhecia que, mesmo que pudesse merecer parabéns por tudo isso, ainda assim poderia figurar como um reprovado. Por isso Paulo requeria um testemunho que fosse válido no tribunal celeste e de valor na hora da morte. Daí sua solene declaração: “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos; porque nunca deixei de anunciar-vos todo o conselho de Deus”. Estas palavras do apóstolo não continham egoísmo algum; ele havia pregado a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, tal e como lhe foi ensinada pelo Espírito Santo, e a tinha recebido no seu coração. Oh, se todos os ministros de Cristo pudessem honestamente lançar o mesmo desafio!

* D om ingo de manhã , 11 de dezembro de 1859. 102

Nesta manhã, com a ajuda do Espírito de Deus, me proponho fazer duas coisas. Primeiramente falarei sobre a solene declaração do apóstolo ao despedir-se; em seguida, em poucas e solenes palavras, lhes darei minha mensagem de despedida pessoal. I. Inicialmente, pois, consideraremos AS PALAVRAS DO APÓSTOLO AO DESPEDIR-SE: “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos; porque nunca deixei de anunciar-vos todo o conselho de Deus”. O que aqui primeiro nos chama a atenção é a afirmativa do apóstolo com respeito às doutrinas que havia pregado. Havia anunciado TODO o conselho de Deus. E por isso devemos entender que ele havia proclamado aos efésios todo o evangelho. Não havia desenvolvido uma única doutrina, e excluído as demais, porém que em todo o momento se esforçou por apresentar todas as verdades do evangelho de acordo com a analogia da fé. Ele não tentou engrandecer desproporcionadamente uma verdade e diminuir outra até à insignificância; mas ele se esforçou em combiná-las conjuntamente, como as cores do arco-íris, e formar assim um todo harmônico e sublime. Como homem inspirado por Deus, seus escritos são isentos de erro. Mas como simples homem, jamais reivindicou para si infalibilidade; antes, pelo contrário, como qualquer outro indivíduo, Paulo também tinha de confessar seus pecados e lamentar-se de muitas faltas perante Deus. Talvez em mais de uma ocasião, ao pregar a Palavra, não a apresentou com a clareza que desejava. Talvez também em mais de uma ocasião lhe faltou o zelo desejado para fazê-lo. No entanto, pelo menos, Paulo podia reclamar para si que jamais havia escondido voluntariamente a mínima parte da verdade tal como está em Jesus. Agora devemos estudar a declaração do apóstolo em relação com a pregação atual. Se na verdade nos anima o desejo de apresentar todo o conselho de Deus, devemos, primeiramente,
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pregar as doutrinas do evangelho. Precisamos apresentar aquela grandiosa doutrina do amor do Pai para com o Seu povo, ainda antes da fundação do mundo, e ao mesmo tempo, proclamar com voz de trombeta Sua eleição soberana, os propósitos do Seu pacto referentes àqueles incluídos nele, e as promessas por Ele promulgadas. Ainda mais, o verdadeiro evangelista não deve deixar nunca de apresentar toda a beleza que irradia da Pessoa de Cristo, a glória e perfeição da Sua obra, e sobretudo a eficácia do Seu sangue. Seja o que for que omitirmos nalguma ocasião, essas verdades precisam ser proclamadas energicamente vez após vez. Mensagem sem Cristo não é evangelho, e a idéia moderna de pregar A v e r d a d e em vez de Cristo, é um perverso estratagema do diabo. Entre­ tanto, ainda não concluímos, pois do mesmo modo que há três Pessoas na Deidade, nós, em nosso ministério, devemos ter cuidado para que as três recebam a honra que Lhes é devida. Portanto, a obra do Espírito Santo na regeneração, na santifica­ ção e perseverança dos santos, deve ser exaltada em nossos púlpitos. Sem o poder dEle o nosso ministério seria uma carta morta, e não podemos esperar que Ele o manifeste a não ser que O honremos todos os dias. No que temos afirmado até aqui todos estamos de acordo, por conseguinte me referirei a outros pontos doutrinários sobre os quais há divergência; por isso merecem estudo mais diligente, porquanto habitualmente se corre o perigo de ocultá-los. Inicialmente, pois, direi que o pastor que não proclama a doutrina da predestinação, com toda a sua solenidade e certeza, como uma das verdades reveladas por Deus, não prega todo o conselho de Deus. Da mesma forma, a doutrina da eleição. E a obrigação do ministro, iniciando por este manancial de origem, assinalar todas as correntes doutrinárias que se derivam dela - a da chamada eficaz, a da justificação pela fé, e a da perseverança segura e firme do crente, etc.
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Precisa, além disso, o ministro de Deus, deleitar-se na proclamação daquele glorioso pacto no qual estão inseridas todas estas coisas; coisas que são garantidas para todos os esco­ lhidos, comprados com o sangue de Cristo. Atualmente existe a tendência de empurrar toda a verdade doutrinária para a sombra. Muitos são os pregadores que se ofendem com a austera verdade dos pactuários e que os puritanos testificaram no meio de uma geração licenciosa. Dizem-nos que os tempos mudaram; que devemos modificar as assim chamadas velhas doutrinas calvinistas e adaptá-las aos tempos modernos. Tais doutrinas, eles afirmam, devem ser diluídas, já que o homem alcançou tal nível intelectual que é absolutamente necessário recortar as arestas de nossa religião, suprimir os aspectos mais polêmicos, e desse modo, de um quadrado, fazer um círculo. Qualquer um que procede assim, conforme julgo, deixa de declarar todo o conselho de Deus. Com referência a todas essas doutrinas, o fiel ministro deve ser claro, simples e direto. Não deve haver nenhuma dúvida quanto à sua crença nessas doutrinas. Ele deve pregar de tal modo que os ouvintes possam saber imediatamente se lhes anuncia um plano de salvação arminiano ou um plano de salvação segundo o pacto da graça ou, noutras palavras, se lhes proclama salvação pelas obras ou salvação através do poder e da graça de Deus. Mas, irmãos, alguém pode pregar essas doutrinas em toda a sua plenitude e ainda assim não declarar todo o conselho de Deus. Existe um elemento de atividade e luta na vida do cristão; aquele que é discípulo fiel terá que enfrentar uma batalha. Pregar apenas doutrina não basta; devemos pregar também o dever. Devemos insistir fielmente e com firmeza na vida prática. Enquanto não pregar nada mais que doutrina, o ministro se encontrará com certa gente de intelecto pervertido que o admirará, porém logo que começar a dar ênfase à respon­ sabilidade humana, a dizer que se um pecador se perde é por
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culpa própria, e que se perecer no inferno é também por culpa própria - então imediatamente clamarão: “Inconsistência! Como podem ser harmonizadas essas duas coisas?” Inclusive surgirão bons cristãos que não podem suportar toda a verdade, e portanto se oporão ao servo de Deus que não se contenta com fragmentos, aquele que honestamente apresenta todo o evangelho de Cristo. Essa é uma das provas que o ministro fiel tem que sofrer. Com toda a solenidade afirmo que não é fiel a Deus, nem tampouco à sua consciência, aquele que simplesmente prega a soberania de Deus e deixa de insistir sobre a doutrina da responsabilidade humana. E creio firmemente que todo homem que termina no inferno somente terá de culpar a si mesmo. A cada um que entrar pela porta chamejante ser-lhe-á dito: “Você não quis”. “Não escutou nenhum dos Meus avisos. Foi convidado à ceia, mas não veio. Eu o chamei, porém recusou; estendi Minha mão, e não fez caso. Então agora zombarei das suas calamidades e Me rirei dos seus temores.” O apóstolo se atreveu a enfrentar a opinião pública e pregou, por um lado, a responsabilidade humana e, por outro, a soberania de Deus. Quando prego sobre a soberania divina, gostaria de possuir asas de águia para poder transportar-me às alturas desta doutrina. Deus tem absoluto e ilimitado poder sobre o homem para fazer dele o que deseja, do mesmo modo que o oleiro determina o que executará com o barro. Que não discuta a criatura com o Criador, pois Deus não tem obrigação de justificar Suas ações a ninguém. Mas ao pregar sobre o homem, e ao referir-me à sua responsabilidade, me esforço para dar toda a ênfase possível sobre o tema. Confesso que sou, se alguém quiser chamar-me, homem de doutrina vulgar, uma vez que como fiel mensageiro de Cristo devo usar Suas próprias palavras e dizer: “Quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do Filho unigénito de Deus”. Não vejo como possa ser apresentado todo o conselho

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de Deus, a menos que esses dois pontos, aparentemente contraditórios, sejam salientados e claramente expostos. Para pregar todo o conselho de Deus, é necessário declarar a promessa de salvação em toda a sua espontaneidade, segurança e riqueza. Se o conteúdo do versículo bíblico se refere a essa promessa, de modo algum o ministro de Deus deve temer pregar sobre ele. Se se trata de uma promessa incondicional, o servo de Deus deveria fazer dessa incondicionalidade um dos traços mais proeminentes da sua mensagem. Seja o que for que o Senhor tenha prometido ao Seu povo, o ministro deve pregá-lo irrestritamente. Se em vez de uma promessa, o conteúdo do texto bíblico se referir a um mandato ou a uma ordem, o ministro não deve hesitar, deve proclamá-lo com todas as forças e com idêntica confiança que o faria com a promessa. O servo de Deus deve exortar e repreender com toda a mansidão. Deve sempre sustentar que a parte preceptiva do evangelho é tão valiosa como a que se refere à promessa - cujo valor é inestimável. Ele precisa insistir com firmeza que os crentes “pelos frutos serão conhecidos” e “se a árvore não der bons frutos, será cortada e lançada ao fogo”. Constantemente devemos insistir numa vida de santi­ dade, tanto como numa vida feliz. Para anunciar todo o conselho de Deus - isto é, para reunir-se dez mil coisas em uma só - creio ser necessário que o pregador, após ter encontrado o seu texto, pregue sobre ele com toda a fidelidade e integridade. Há muitos pregadores que tomam um versículo e o cortam em pedaços! Primeiramente o torcem, depois o saturam de noções vazias e por fim o oferecem como alimento espiritual a mentes de baixo nível intelectual. Todo aquele que não permite que a Palavra de Deus fale por si mesma, na sua linguagem pura e simples, não prega todo o conselho de Deus. Se num dia deparar com um versículo como este: “Assim que não é do que quer, nem do que corre, mas de Deus que tem misericórdia”, o
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pregador fiel o desenvolverá e apresentará em toda a sua ampli­ tude. E se no dia seguinte, o Espírito Santo puser em seu coração o texto: “E não quereis vir a mim para terdes vida” ou aquele apelo que insiste: “Quem quiser, tome de graça da água da vida”, o fiel pregador o desenvolverá tão integralmente como o primeiro. Não fugirá da verdade. Ele ousará contemplá-la de frente e então a apresentará do púlpito, dizendo: “Fala, Palavra de Deus, e que somente tu sejas ouvida! Não permitas, Senhor, que eu perverta ou interprete falsamente Tua própria verdade enviada do céu”. Requer-se simples honestidade à Palavra de Deus por parte daquele que trata de anunciar todo o Seu conselho. Isso, no entanto, ainda não é tudo. Para anunciar todo o conselho de Deus, o pregador deve assinalar, de maneira bem particular, os terríveis pecados da hora presente. O verdadeiro pregador não condena o pecado de maneira geral, porém distingue separadamente os pecados; não atira a esmo, e sim coloca a flecha na corda do arco para que o Espírito Santo a dispare à consciência do indivíduo. O servo que é fiel ao Senhor não contempla a congregação como um aglomerado de pessoas, mas como um conjunto distinto de indivíduos, e portanto se esforça para ajustar o seu discurso às suas consciências, de modo que percebam que está falando diretamente a eles, como indivíduos. Comenta-se de Rowland Hill que seus sermões eram tão pessoais que mesmo uma pessoa sentada à distância, numa janela ou nalguma outra parte, não deixaria de dizer: “Esse homem está falando comigo”. E o verdadeiro pregador sempre fala de maneira que os seus ouvintes sintam que há algo proveitoso para eles - uma reprovação, uma exortação ou uma orientação. Se houver algum vício que deve ser abandonado, algum erro que deve ser evitado, ou algum dever para ser cumprido, e no entanto nada disso foi mencionado no púlpito, então o pregador tem falhado em anunciar todo o conselho de
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Deus. Havendo predominância de certo pecado numa comunidade, ou pior ainda, numa congregação, se o ministro não se atrever a condená-lo por temer ofender a alguém, podemos dizer que o tal não terá sido fiel à sua vocação, nem sincero diante de Deus. Não há maneira melhor de descrever-lhes o homem que anuncia todo o conselho de Deus, do que conduzir-lhes às Epístolas do apóstolo Paulo. Nelas encontrarão doutrina e preceito, experiência e prática. Ele nos fala de corrupção interna e de tentações externas. Toda a vida espiritual está exposta e as orientações que precisamos são dadas. Nelas encontraremos palavras que caem como chuva e refrescam como orvalho, mas também frases que batem como trovões e resplandecem como relâmpagos. Nelas observarão o apóstolo, agora com o cajado na mão e guiando gentilmente o rebanho aos verdes pastos; mais tarde vê-lo-ão com a espada desembainhada combatendo aos inimigos de Israel. Quem desejar ser fiel, e pregar todo o conselho de Deus, tem que imitar ao apóstolo Paulo e pregar como ele escreveu. Existiria algo capaz de tentar o servo de Deus, de modo a que se afaste da direção certa e seja induzido a não pregar todo o conselho de Deus? Irmãos meus, vocês pouco compreendem qual seja a posição do ministro, se nalguma ocasião não sentiram a grande responsibilidade que pesa sobre ele. Identifiquem-se apenas com um aspecto da verdade e serão elogiados até às alturas. Limitem-se a um calvinismo que lhes permita usar apenas metade da Bíblia, de modo a perder de vista a responsabilidade humana, e encontrarão pessoas que os aplaudirão e gritarão: “Aleluia!” Sobre as costas eles lhes levan­ tarão para um trono e chegarão a ser nada menos que príncipes no Israel deles. Por outro lado, comecem a pregar mera moralidade, prática sem doutrina, e verão que serão conduzidos nos ombros de outros homens; todavia, se pregarem todo o conselho de Deus, ambos os grupos se lançarão sobre o
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pregador. Uns o acusarão de arminianismo exagerado, enquanto outros o taxarão de hipercalvinista. Ora um homem não gosta de estar entre dois fogos. Existe sempre a inclinação de satisfazer a um ou a outro grupo, ou seja, para aumentar o número de adeptos, a fim de conseguir um grupo de ferrenhos seguidores. Pobres de nós, se nos deixarmos influenciar por seus gritos! Logo abandonaríamos o caminho estreito, a senda da justiça, verdade e retidão. Há tantos ministros sob a influência de pessoas ricas! Habitualmente o pregador pensa: “Mas...que dirá o Sr. Fulano, editor de tal jornal, no seu artigo da próxima segunda-feira?” “Que dirá a Senhora Tal, na próxima vez que encontrá-la?” Se todas estas coisas acrescentam um pouco de peso à balança, e se o pregador não permanece firme pelo poder do Espírito Santo, tudo isso fará com que se afaste um pouco do caminho estreito, no qual só pode permanecer se ele declarar todo o conselho de Deus. Certamente aquele que adota a opinião da gente contrária, receberá honras; enquanto o pregador que permanece sob o puro estandarte da verdade, talvez encontrando-se só e lutando contra toda a maldade, tanto no mundo como na igreja, será objeto de vergonha e desonra. Portanto, não era um vulgar testemunho que o apóstolo reivindicava para si ao afirmar que não havia deixado de anunciar todo o conselho de Deus. Mesmo que exista a tentação de não pregar todo o conselho de Deus, ainda assim o verdadeiro servo de Cristo sente-se impulsionado a proclamar toda a verdade, porque ela, e somente ela, pode satisfazer às necessidades do homem. Quantas maldades não são vistas neste mundo como resultado de um evangelho distorcido e feito em pedaços pelos moldes humanos! Que prejuízo tão terrível se tem causado a muitas almas por pessoas que têm pregado apenas uma parte e não a totalidade do conselho de Deus! Meu coração sangra ao refletir sobre famílias onde a doutrina antinomiana já está
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predominando. Eu poderia contar muitas histórias tristes de famílias mortas em pecado, cujas consciências são cauterizadas, devido à pregação fatal que ouvem. Já vi convicções suprimidas e desejos sufocados pelo sistema destruidor que retira ombridade do homem e o torna tão irresponsável como um bovino. Não posso imaginar um instrumento mais útil nas mãos de satanás para arruinar as almas dos homens, do que o ministro que diz aos pecadores que não precisam se arrepender dos seus pecados nem de crer em Cristo. Esse homem é tão arrogante que se chama um ministro do evangelho - mesmo quando ensina que Deus odeia certos homens infinita e imutavelmente, por nenhuma outra razão do que a de que Ele simplesmente decide assim fazer. Oh irmãos, que o Senhor os livre da sedução do encantador e os conserve sempre surdos à voz do erro. Inclusive em famílias cristãs, quantos males não tem ocasionado um evangelho falsificado! Tenho visto o recém-convertido andando em humildade diante de Deus, vivendo cheio de gozo as primeiras fases da vida cristã. Mas logo o maligno se introduziu na sua vida disfarçado como manto da verdade. Com o dedo da cegueira parcial lhe tocou os olhos e agora ele pode ver apenas uma doutrina. Pode ver a soberania, porém não a responsabilidade. O pastor, que por um tempo, foi amado, agora é aborrecido; por um tempo foi considerado como fiel na pregação do evangelho, todavia agora veio a ser como o lixo. E qual foi o resultado final? Nada menos que tudo o que é contrário ao bom e à benignidade. O fanatismo tomou o lugar do amor; a amargura fez morada onde antes existia um caráter nobre. Eu poderia apresentar-lhes inúmeros exemplos para provar que onde se insistiu demasiadamente numa doutrina particular, o resultado foi excessivo fanatismo e rancor. E quando alguém chega a cair no fanatismo, facilmente sucumbirá a outros pecados para os quais satanás o arrastará. É necessário,

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pois, que se pregue todo o evangelho; doutro modo, inclusive os espíritos dos cristãos serão danificados e mutilados. Tenho conhecido homens que eram diligentes na obra de Cristo e que trabalhavam com afinco para ganhar almas, mas de repente se identificaram com uma só doutrina, e não com a verdade total, e acabaram caindo em apatia espiritual. Por outro lado, quando as pessoas tomam apenas o lado prático da verdade e negligenciam o aspecto doutrinário, então com freqüência caem no legalismo; falam como se a salvação dependesse das obras e chegam quase a esquecer a graça pela qual foram chamadas. São semelhantes aos gálatas; têm sido fascinados pelo que ouviram. O crente só pode conservar-se puro em doutrina e simples e humilde em caráter, se está sob a influência de uma pregação que abrange toda a verdade como está no Senhor Jesus. E com referência à salvação de pecadores, queridos ouvintes, não podemos esperar que Deus abençoe nossos esforços para a conversão de almas, a menos que preguemos a totalidade do evangelho. Se eu pregar sempre sobre um só aspecto da verdade e excluir todos os outros, de modo algum poderei esperar a bênção do meu Mestre. Contudo, se eu pregar como Deus quer que pregue, então Ele abençoará a mensagem e porá na pregação o selo do Seu testemunho vivo. Se penso que posso melhorar o evangelho ou torná-lo mais consistente, que posso revesti-lo de modo a aparecer mais atraente, então logo perceberei que o Mestre me abandonou e que a palavra "Icabod" foi escrita nas paredes do santuário. Quantas pessoas são mantidas na escravidão porque negligenciam os convites do evangelho. Elas anseiam pela salvação. Sobem à casa do Senhor anelando ser salvas, mas só ali encontram a predestinação. Por outro lado, quantas multi­ dões são aprisionadas nas trevas por meio da pregação do dever. É fazer! Fazer! Fazer! Nada senão fazer! E as pobres almas

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saem da igreja dizendo: “Que valor tem isso? Não posso fazer nada. Oxalá alguém me mostrasse o caminho da salvação”. A respeito do apóstolo Paulo, verdadeiramente podemos afirmar que nenhum pecador que o ouviu deixou de receber o consolo que flui da cruz de Cristo; nem tampouco algum santo foi turbado em espírito por lhe ter sido negado o pão do céu, ou por haver ele omitido aspectos preciosos da verdade. De maneira alguma, sob a pregação de Paulo, o cristão prático chegou a ser tão prático que caiu no legalismo, nem o cristão imerso só em doutrina chegou a abandonar por completo o aspecto prático. Sua pregação possuía tal consistência e riqueza espiritual, que aqueles que o ouviram, sendo abençoados pelo Espírito Santo, tornaram-se cristãos em espírito e vida, refletindo em tudo a imagem do seu Mestre. Não creio que posso expor mais demoradamente este versículo. Nestes dois últimos dias me tenho sentido tão doente que os pensamentos que esperava apresentar-lhes de forma mais clara, têm saído dos lábios desordenadamente.

II. Agora devo deixar o apóstolo Paulo, a fim de que eu possa dirigir-lhes UMAS FERVOROSAS, SINCERAS E AFETUOSAS PALAVRAS DE DESPEDIDA. “Portanto, eu vos protesto no dia de hoje que estou limpo do sangue de todos, porque jamais deixei de anunciar-vos todo o conselho de Deus.” Nada desejo dizer que seja de recomendação ou de exaltação própria; não quero testificar da minha própria fidelidade, porém apelo a todos vocês e por isso lhes protesto no dia de hoje, que não deixei de lhes anunciar todo o conselho de Deus. Com grande debilidade subi muitas vezes a este púlpito, e em muitas outras ocasiões desci dele com profunda tristeza, por não haver pregado com o ardor que desejei. Devo confessar os meus muitos erros e omissões, especialmente certa carência de fervor ao orar por suas almas. Não obstante, nesta manhã minha
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consciência me absolve duma acusação, e estou seguro de que também todos me absolverão - a de não ter deixado de anunciar todo o conselho de Deus. Se nalguma coisa tenho errado, foi um erro de juízo; mas naquilo que se refere à verdade, posso dizer que nem o temor à opinião pública, ou particular, me fez abandonar aquilo que mantenho ser a verdade do meu Senhor e Mestre. Eu lhes preguei as coisas preciosas do evangelho. Esforcei-me, tanto quanto possível, a proclamar-lhes a graça do Senhor em toda a sua plenitude. Conheço por experiência o grande valor dessa doutrina; e que o Senhor faça que eu nunca pregue nenhuma outra. Se não formos salvos pela graça, jamais poderemos ser salvos. Se desde o princípio até o final a obra da graça não dependesse de Deus, nem um de nós poderia aparecer diante dEle com plena aceitação. Proclamo esta doutrina da graça, não por escolha própria, mas por ser uma absoluta necessidade, pois se esta doutrina não for verdadeira, então somos todos perdidos; nossa fé é vã, nossa pregação é inútil, ainda estamos em nossos pecados e neles permaneceremos até o fim. Por outro lado, posso acrescentar que não tenho deixado de exortar, de convidar e de implorar. Tenho convidado o pecador a vir a Cristo. Pediram-me que não o fizesse, porém não pude obedecer. Com as entranhas a suspirar por pecadores que perecem, não podia concluir as mensagens sem antes suplicar: “Vem a Jesus, pecador, vem”. Às vezes com lágrimas nos olhos me sentia movido a apelar aos pecadores para irem a Jesus. Sem este elemento de convite, não posso de forma alguma pregar doutrina. Se alguém não recorre a Cristo, não será por falta de chamada, nem porque eu não tenha chorado por seus pecados nem me tenha esforçado pelas almas dos homens. A única coisa que devo pedir-lhes é esta: testifiquem, dêem testemunho de que neste aspecto estou limpo do sangue de todos, porque tenho anunciado tudo o que sei sobre o conselho
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de Deus. Há algum pecado que eu não tenha censurado? Retive em segrado alguma das doutrinas nas quais creio? Existe alguma parte da Palavra de Deus, seja doutrinária ou prática, que conscientemente lhes tenha escondido? Longe estou de ser perfeito, e novamente, com lágrimas, devo confessar minha inutilidade; não tenho servido a Deus como devia, nem demonstrado pelo rebanho o fervor que desejaria. Agora que meu pastorado neste lugar terminou, desejaria iniciar de novo para assim poder ajoelhar-me perante todos e rogar-lhes que atentem para as coisas que se relacionam com a sua paz. Mas aqui outra vez repito, que embora quanto ao ardor e ao zelo me considero culpado, em troca, em relação à verdade e à sinceridade posso apelar ao tribunal de Deus, aos anjos eleitos e a todos vocês, de que não tenho falhado em anunciar todo o conselho de Deus. Se alguém o deseja, é fácil não pregar sobre uma doutrina polêmica; basta não mencionar os textos que a ensinam. Uma doutrina polêmica, você imagina, poderia perturbar o seu ensino anterior. Tal atitude pode ser mantida com êxito por algum tempo; talvez decorram anos antes que a congregação perceba isso. Entretanto, se há uma coisa que tenho tentado fazer, é a seguinte: tenho tentado apresentar-lhes alguma verdade que anteriormente eu havia descuidado; e se até esta data tenho omitido a menção de alguma verdade, minha oração será que daqui por diante tal verdade ocupe preeminência em minha pregação, e desta maneira possa ser vista e entendida por todos. No momento só lhes peço que neste dia de despedida sejam testemunhas de minha pergunta, e se caio num pouco de egoísmo, ou chego a “ser néscio em gloriar-me”, não é por amor à vanglória, e sim por motivo mais elevado que lhes dirijo a pergunta. Talvez sobrevirão tristes provas a muitos. Dentro de pouco tempo talvez alguns estejam freqüentando lugares onde o evangelho não é pregado. Outros talvez adotem um evangelho
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falso. Apenas uma coisa lhes solicito: sejam testemunhas de que não o foi por minha culpa, testifiquem que tenho sido fiel e jamais deixei de anunciar-lhes todo o conselho de Deus. Em pouco tempo, alguns que até aqui têm freqüentado este lugar de culto, ao ver que seu pastor se retirou, talvez não vão a nenhum outro local. Talvez se tornem indiferentes. Quem sabe se no próximo domingo permaneçam em casa ociosos e dissipando o dia. Mas tenho algo a perguntar-lhes antes que tomem a resolução de não assistir à casa de Deus outra vez: são testemunhas de que tenho sido fiel? Pode ser que alguns “tenham corrido bem” enquanto estiveram sob a pregação da Palavra, porém de agora em diante talvez o abandonem totalmente; quem sabe se retornarão plenamente ao mundo, aos vícios, às blasfêmias ou algo parecido. Deus não permita tal coisa! Todavia lhes rogo que, se de novo se afundarem no pecado, pelo menos façam o seguinte em favor de quem não desejou outra coisa senão a sua salvação: digam dele que foi sincero com todos e que jamais deixou de lhes anunciar todo o conselho de Deus. Oh, meus amados! Talvez dentro de muito pouco tempo alguns de vocês se encontrem no leito de morte. Quando o pulso se tornar fraco e os terrores da horrível morte o rodearem, se ainda não for convertido, eu lhe suplico que, mesmo nesses momentos acrescente algo à sua última vontade, ao seu testamento - a exclusão deste pobre ministro, que hoje está à sua frente, de toda participação nessa desesperada loucura que o levou ao descuido da sua própria alma. Porventura não o chamei em altas vozes para que se arrependa? Não o exortei a que o fizesse antes que a morte o surpreendesse? Não o aconselhei a fugir da ira vindoura e a refugiar-se na Rocha da Salvação? Ao atravessar o rio da perdição, ó pecador, não me culpe de homicida, pois no seu caso posso dizer: “Lavo as mãos na inocência; sou limpo do seu sangue”.

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Aproxima-se o momento quando todos nós nos reuni­ remos outra vez. Esta grande assembléia se verá absorvida por outra muito maior, semelhante a uma gota dágua que se perde no oceano. Naquele dia terei de comparecer diante do tribunal de Deus. No caso de eu não lhe ter avisado, ali serei acusado de sentinela infiel e seu sangue será requerido de minhas mãos; se não lhe tiver pregado a Cristo e apelado a que busque refúgio nEle, então, ainda que pereça, sua alma me será requerida. Ainda que tenha rido de mim e rejeitado a minha mensagem; mesmo que menospreze a Cristo e aborreça a Seu evangelho; ainda que se afunde na condenação, todavia lhe rogo que me absolva do seu sangue. Eu vejo alguns aqui presentes que só me ouvem ocasionalmente, e no entanto posso dizer que eles têm sido o assunto das minhas orações, como também das minhas lágrimas, quando eu os vejo continuando nas suas iniqüidades. Bem, solicito de vocês só uma coisa e, como pessoas honestas, não me podem negá-la. Se vocês querem os seus pecados, se querem ser perdidos, se não querem vir a Cristo, pelo menos, no meio dos trovões do dia do juízo, quando eu estarei diante do tribunal de Deus, absolvam-me de haver destruído as suas almas. E que mais posso dizer? Como posso pleitear com vocês? Tivesse eu língua de anjo e o coração do Salvador, talvez então pudesse fazê-lo; mas não sou capaz de fazer mais do que tantas vezes tenho feito. No nome de Deus lhes rogo que recorram a Cristo para refúgio. Se o que até aqui lhes tenho dito não foi suficiente, que Deus faça com que o seja agora. Venha, pecador culpado, apresse-se em vir Aquele cujos braços estão estendidos para receber a toda alma que com arrependimento e fé se achega a Ele. Um pouco mais de tempo e este pregador estará em seu leito de morte. Mais uns poucos dias de reuniões solenes, mais uns poucos sermões, mais algumas reuniões de oração, e já me verei no meu quarto rodeado de amigos, pela última vez. Aquele que pregou a grandes multidões, agora
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precisa de consolo. Aquele que confortou a muitos na hora da morte, agora ele mesmo atravessa o rio. Meus amigos, acaso verei alguns de vocês junto a meu leito de morte a me acusar de não ter sido fiel? Acaso os meus olhos serão perseguidos por visões de homens aos quais tenho entretido e divertido, mas em cujos corações jamais lancei a semente da verdade? Estando eu em meu leito de morte, ocorrerá que numa visão horrorosa desfilarão ante os meus olhos as grandes multidões que perante minha face se congregaram, que um após outro dos que me escutaram me amaldiçoarão por haver sido infiel? Que Deus não o permita! Espero que todos me façam este favor: ao jazer no meu leito de morte, testifiquem de que sou limpo do sangue de todos e que jamais recusei de anunciar-lhes todo o conselho de Deus. Vejo-me naquele grande dia do juízo como prisioneiro em pé perante o tribunal. Que farei diante de uma acusação como a seguinte: “Você teve muitos ouvintes, milhares se agregaram para ouvir as palavras dos seus lábios; todavia, você os iludiu, você os enganou, propositadamente você defraudou essas pessoas”. Trovões, tais como nunca se ouviu antes, passarão por cima da minha cabeça, e relâmpagos mais terríveis do que já cairam sobre o diabo rasgarão este coração, se eu tiver sido infiel a vocês. Uma vez que tenha pregado às multidões, a minha posição será a mais terrível no universo todo, se eu for achado infiel. Oh, que Deus tire da minha cabeça o pior dos males - a infidelidade! E agora, neste momento, faço o meu último apelo: “Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus”. Entretanto, se não quiserem fazer isso, peço-lhes este único favor - e acho que não mo negarão culpem-se a si mesmos pela sua ruína, pois estou livre do sangue de todos os homens, porquanto não deixei de anunciar-lhes todo o conselho de Deus. Isso é o bastante quanto ao testemunho que peço de vocês. Agora me dirijo a vocês com uma petição. A todos que
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aqui se acham presentes desejo pedir-lhes um favor. Se em algo encontraram proveito, se em algo obtiveram consolo, se de algum modo as pregações que aqui escutaram serviram para conduzi-los a Cristo, rogo-lhes nesta ocasião, que talvez seja a última, que me apresentem em oração diante do trono de Deus. Graças às orações dos crentes nós pregadores vivemos. Os ministros devem mais do que podem imaginar às orações das suas respectivas congregações. Amo a minha congregação, entre outras coisas, pelas incessantes orações que fazem por mim. Nunca houve um ministro pelo qual se orasse tanto como acontece comigo. E é por isso que peço a todos quantos, por razão de distância e por outras causas, se separaram de nós, a que continuem apresentando-me em seus pensamentos diante de Deus, e a que gravem meu nome em seus corações tantas vezes quantas se acheguem ao trono da graça. Pouco é o que lhes peço; simplesmente que supliquem: “Senhor, ajuda a Teu servo a ganhar almas para Cristo”. Roguem que o Senhor o faça mais útil do que tem sido até agora; se nalguma coisa está equivocado, ensine-lhe o que é verdadeiro. Se não tem confor­ tado suas almas, peçam que possa fazê-lo no futuro; mas se tem sido honesto com vocês, orem para que o seu Mestre o guarde nos caminhos da santidade. E o que solicito para mim, o peço para todos quantos pregam a verdade do nosso Senhor Jesus Cristo. Irmãos, orem por nós. Desejamos trabalhar em seu favor como servos que um dia terão de dar contas. Ah, não é uma tarefa insignificante o ser ministro quando se deseja ser fiel ao chamado. A alguém que pensava ser o ministério coisa fácil, Baxter disse: “Desejaria, senhor, que ocupasse o meu lugar e que se certificasse”. Se agonizar em oração com Deus e inquietar-se pelas almas humanas, é tarefa fácil; se sofrer em silêncio toda espécie de abusos, e experimentar desprezo e calúnias, constitue um trabalho ameno, então façam vocês, porque eu de boa vontade cederia o meu lugar. Peço que orem por todos os
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ministros de Cristo, para que recebam ajuda, sustento e apoio e a fim de que não lhes faltem as forças em todas as tarefas a desempenhar. Havendo-lhes, portanto, dirigido esta petição com refe­ rência a mim mesmo, e talvez nisso me possa culpar de certo egoísmo, ainda me resta fazer um apelo a determinado setor de meus ouvintes. Não posso afastar da mente o fato de que ainda há muitos que depois de ter ouvido inúmeras vezes a Palavra de Deus aqui, ainda não tenham entregado seus corações a Cristo. Alegro-me de vê-los neste recinto, mesmo que seja pela última vez. E é movido pelo pensamento de que não voltem mais a dirigir-se aos sagrados átrios da casa de Deus, e nem tampouco a ouvir a Sua Palavra outra vez, nem aos insistentes convites e solenes advertências contidas nela, que nesta ocasião lhes dirijo uma súplica. Notem: não é apenas um pedido, e sim uma súplica. E esta é de tal natureza, que se tivesse de suplicar pela minha própria vida, não o faria com mais força e insistência como ao dirigir-lhes este apelo. Pobre pecador, pare por uns momentos e raciocine. Você tem ouvido o evangelho, mas não se beneficiou dele; quando estiver às portas da morte, que pen­ sará das muitas oportunidades de salvação que rejeitou? Que dirá ao ser lançado no inferno e estas palavras forem repetidas aos seus ouvidos: “Ouviu o evangelho, porém o rejeitou”? Que dirá quando, rindo diante de sua face, os demônios lhe dirão: “Nos nunca rejeitamos a Cristo nem depreciamos Sua Palavra”? Que dirá quando o empurrarem para um inferno mais profundo ainda do que eles jamais sofreram? Imploro-lhe que se detenha e pense sobre isso. Valeria a pena viver nos prazeres deste mundo? Acaso não é este mundo lugar árido e sem brilho? Oh, que o Senhor lhe revele o mal que reside no pecado! Você está nos seus pecados, e ainda não foi perdoado. E enquanto perdurar esta situação, não poderá ser feliz aqui nem na vida vin­ doura. Minha súplica é que se recolha ao seu lar, reconheça-se
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culpado e faça uma plena confissão a Deus dos seus pecados. Peça que Ele lhe manifeste Sua misericórdia por amor de Jesus e Ele não a negará. Sim, Ele o atenderá e lhe concederá o que pedir; removerá os seus pecados, o receberá e o tornará Seu filho. E então não somente será mais feliz nesta vida, como também no mundo vindouro. Rogo-lhes, homens e mulheres cristãos, que implorem a operação do Espírito Santo, que Ele conduza a muitos dos que estão reunidos aqui a uma confissão sincera, a uma oração verdadeira, e a uma fé humilde. Que Ele faça com que muitos que nunca se arrependeram antes, voltemse para Cristo agora. Ó pecador, a vida é breve e a morte se avizinha. Seus pecados são muitos, e se o julgamento possui pés de chumbo, possui também mão firme e pesada. Volte, eu lhe imploro, volte! Oh, que o Espírito Santo mude o rumo de sua vida! Diante dos seus olhos o Senhor Jesus está sendo levantado. Volte-se para Ele, eu lhe rogo, e contemple as feridas que padeceu em seu lugar. Olhe para Ele e viverá. Confie nEle e será salvo, porque todo aquele que crê no Filho do homem tem vida eterna, e não verá a condenação nem a ira de Deus descerá sobre ele. E que agora o Espírito de Deus nos outorgue Sua bênção permanente: a vida eterna, por amor de Jesus. Amém.

Observação: Ao iniciar a reunião, Spurgeon afirmou: “O culto desta manhã terá muito o caráter de uma reunião de despedida e também de um sermão de despedida. Ainda que muito me doa ter de separar-me de tantos de vocês, cujos rostos tenho visto inúmeras vezes entre a multidão dos meus ouvintes, sem dúvida, por amor a Cristo e à verdade, nos vemos obrigados a nos retirarmos deste lugar (Surrey Gardens Music Hall), e no próximo domingo pela manhã esperamos estar louvando a Deus
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em Exeter Hall. Em duas ocasiões, como os nossos amigos bem sabem, nos foi proposto abrir esta casa à noite para realizar diversões mundanas, entretanto conseguimos impedi-lo ao declararmos aos proprietários do prédio que se assim o fizessem, deixaríamos o lugar. Mas nesta última tentativa deles nossa palavra não bastou. Compreendem, portanto, que eu seria um covarde perante a verdade e incongruente com as minhas próprias afirmações, se me submetesse às suas demandas. Em fazê-lo, meu nome deixaria de ser Spurgeon. Não posso ceder, nem jamais cederei em nada sobre o qual sei que estou certo. Em defesa do santo dia do Senhor, devemos dizer com Jesus: “Levantai-vos e vamo-nos daqui”.

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O INÍCIO DO DESPERTAMENTO NA IRLANDA*
Em novembro de 1856, um jovem irlandês, o Sr. James McQuilkin, foi levado a conhecer o Senhor. Logo após sua conversão ele viu a propaganda dos primeiros dois volumes das minhas Narrativas. Ele teve um grande desejo de lê-las, tanto que procurou-as e as adquiriu por volta de janeiro de 1857. Deus o abençoou grandemente em sua alma, especialmente ao mostrar-lhe o que poderia ser obtido através da oração. Ele disse a si mesmo o seguinte: “Veja só o que Sr. Müller consegue simplesmente por meio de oração! Por conseguinte, eu também posso obter bênção mediante a oração”. Ele se pôs a orar para que o Senhor lhe desse um companheiro espiritual, alguém que conhecesse o Senhor. Logo após ele se tornou conhecido de um jovem crente. Os dois começaram uma reunião de oração numa das escolas na paróquia de Connor. Tendo sua oração respondida ao obter um companheiro espiritual, o Sr. James McQuilkin pediu que o Senhor o levasse a conhecer mais dos Seus servos. Logo em seguido, o Senhor deu-lhe mais dois jovens, anteriormente crentes, tanto quanto ele podia julgar. No outono de 1857, o Sr. James McQuilkin declarou a estes três jovens, dados a ele em resposta à oração com fé, que bênção ele tinha alcançado por meio das minhas Narrativas,
* Extraído das N arrativas dos P rocedim entos do Senhor com G eorge M ü ller (vol. I I I ). 123

como elas o levaram a ver o poder da oração com fé; e ele propôs que eles deveriam se encontrar para orar, buscando a bênção do Senhor sobre suas várias atividades na Escola Dominical, nas reuniões de oração e na pregação do evangelho. Com base nisso, no outono de 1857, estes quatro jovens reuniam-se para orar numa pequena escola perto da cidadezinha de Kells, na paróquia de Connor, todas as noites de sexta-feira. Por esta época, a grande e poderosa atuação do Espírito, em 1857, nos Estados Unidos, tornara-se conhecida, e o Sr. James McQuilkin disse a si mesmo: “Por que não podemos ter tal obra abençoada aqui, vendo que Deus fizera tais grandes coisas pelo Sr. Miiller, apenas em resposta à oração?” Em primeiro de janeiro de 1858, o Senhor lhes concedeu a primeira resposta notável à oração através da conversão de um trabalha­ dor de uma fazenda. Ele se ajuntou aos outros, e eis que havia cinco pessoas que se entregavam à oração. Pouco tempo depois, outro jovem, com cerca de 20 anos, foi convertido; agora eram seis. Isto muito encorajou os outros três que a princípio também eram acrescentados ao grupo; contudo apenas os crentes eram admitidos a tais reuniões de comunhão, em que liam, oravam e ofereciam mutuamente poucos pensamentos das Escrituras. Estas reuniões de oração e outros para a pregação do evangelho foram realizadas na paróquia de Connor, Co. Antrim, Irlanda do Norte. Até esta ocasião, quase tudo estava acontecendo em silêncio, embora muitas almas estivessem sendo convertidas. Não aconteceram prostrações físicas como posteriormente. Por volta do natal de 1858, um jovem de Ahoghill, que viera morar em Connor e que foi convertido por meio deste pequeno grupo de crentes, foi ver seus amigos em Ahoghill e falou-lhes sobre suas próprias almas e sobre a obra de Deus em Connor. Seus amigos quiseram ver alguns destes convertidos.

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Conseqüentemente, o Sr. James McQuilkin, com dois dos primeiros que se reuniram para orar, foram até lá em 2 de fevereiro de 1859 e realizaram um culto em Ahoghill, numa das igrejas presbiterianas. Alguns creram, outros zombaram e outros ainda pensaram que havia muita presunção nestes jovens convertidos. Apesar disso, muitos quiseram um outro culto. Este foi realizado pelos mesmos três jovens em 16 de fevereiro de 1859, e nessa ocasião o Espírito de Deus começou a operar, e a operar poderosamente. Almas foram convertidas, e daí em diante as conversões se multiplicaram rapidamente. Alguns destes convertidos foram para outros lugares e levaram o fogo espiritual com eles, por assim dizer. O trabalho abençoado do Espírito de Deus espalhou-se por vários lugares. Tal foi o início da poderosa obra do Espírito Santo que levou à conversão centenas de milhares. Alguns dos meus leitores se lembrarão como, em 1859, este fogo espalhou-se pela Inglaterra, pelo País do Gales e Escócia. Lembrarão também como o continente europeu participou um pouco desta obra poderosa do Espírito Santo, e que este fogo levou milhares a entregarem-se à obra de evangelização. Recordarão como até o ano de 1874, não apenas os efeitos desta obra abençoada (iniciada na Irlanda) se fizeram sentir, como também ela ainda prossegue, de modo geral, na Europa continental. É quase desnecessário acrescentar que, em grau algum, a honra é devida aos instrumentos, mas somente ao Espírito Santo; mesmo assim, estes fatos estão registrados para que possa ser visto o prazer que Deus tem em responder de modo gracioso a oração com fé de Seus filhos.

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Charles Haddon Spurgeon, filho de um pastor calvinista independente, nasceu em Kelvedon, Essex, na Inglater­ ra em 1834. Seus grandes dons como pregador não tardaram em manifestar-se. Com a idade de apenas 16 anos já encon­ tramos o jovem Spurgeon pregando em diferentes congre­ gações independentes. Toda a Londres se deu conta do novo pregador a ponto de os jornais anunciarem que "desde os tempos de Wesley e Whitefield não havia existido um inte­ resse religioso tão profundo". Por mais de 30 anos Spurgeon deu poderoso tes­ temunho da verdade evangélica. As conversões foram incon­ táveis, e tanto na Inglaterra como na América seus sermões impressos se tornaram um meio maravilhoso de bênção para milhões de almas. A sua gloriosa carreira terminou em 1892, quando contava com 58 anos de idade. A notícia da sua morte ocupou a primeira página dos jornais ingleses e euro­ peus, e com ele morria "o último dos puritanos". O poder do ministério de Spurgeon residia em sua teologia. Ele redescobriu o que a Igreja por muito tempo ha­ via esquecido - o poder evangélico das chamadas doutrinas calvinistas. Seu ministério constitui um poderoso testemunho da única verdade salvadora.


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