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CURSO DE PÓS – GRADUAÇÃO EM ARQUEOLOGIA UNISA

Jeremias Silvério de Moura

OLARIAS DOS GRASSMANN: DO BARRO AO TIJOLO E O SONHO DA CASA.

São Paulo 2013

JEREMIAS SILVÉRIO DE MOURA

OLARIAS DOS GRASSMANN: O TIJOLO QUE VAI DAR FORMA AO SONHO DA CASA.

Trabalho apresentado ao curso de pós-graduação em arqueologia, Universidade Santo Amaro, como requisito parcial à obtenção do título de especialista. Orientadora: Prof.ª Doutora : Adriana Ramazzina.

São Paulo 2013

COMISSÃO EXAMINADORA

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São Paulo, _____de___________de 2013.

DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho a minha esposa Viviane Maria da Silva e aos meus filhos João Pedro da Silva Moura e a Sophia da Silva Moura que possam seguir nos caminhos do conhecimento. .

A minha mãe Esmênia Aparecida de Moura e ao meu querido pai Euclides Silvério de Moura (in memoriam) que desde pequenino mostrou a importância do conhecimento. Wagner Porto que tem uma bela história de vida que me inspira cada vez mais. . principalmente a minha orientadora Drª Adriana Ramazzina pela dedicação e compromisso. aos meus filhos João Pedro da Silva Moura e a Sophia da Silva Moura razão do meu viver. onde todos os joelhos devem ser curvados. Wilson Grassmann e ao Sr. a minha esposa Viviane Maria da Silva Moura que me dá forças e compreende minha posição de estudante e professor. ao coordenador e Dr. aos meus queridos professores. Amaro Camargo. ao historiador da PUC Carlos Fatorelli pelo comprometimento em socializar conhecimento e a todos que diretamente ou indiretamente contribuíram com esse trabalho. aos entrevistados Sr.AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente á Deus e ao seu filho o nosso senhor Jesus Cristo.

ó casa de Israel”. ó casa de Israel? diz o SENHOR. (Livro de Jeremias . como o barro na mão do oleiro.“Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro. Eis que. assim sois vós na minha mão.18:6) .

acreditando que essa seria a melhor forma para educar seus filhos. Essa atividade cultural deixada por gerações passadas foi por muito tempo realizado manualmente por homens. . ou seja. O pai é o símbolo do poder e do respeito moldado como o tijolo pelas mãos dura da vida. Hoje no mundo pós-moderno os tijolos foram substituídos por blocos mais modernos e resistentes. existia toda uma relação socioeconômica que envolvia todas ás famílias desse período. Situada numa região bastante privilegiada. mulheres e crianças. Por trás desse processo. mas foi nas décadas de 1960. onde os mesmos retiravam da natureza o barro e passavam aplicar todo um trabalho cultural até a formação do tijolo como resultado do processo. onde tudo girava entorno do chefe da família. o barro passou a ser o sustento de muitas famílias. do pai. a família Grassmann que é foco de estudo do meu trabalho. Sendo um período que ainda trás resquícios de um sistema patriarcal passado. 70 e 80 que eclodiu uma nova fase denominada de olarias. os homens por maquinários mais produtivos e precisos e todo aquele conhecimento cultural deixado pelas gerações passadas correndo o risco de desaparecer.RESUMO O município de Itapecerica da Serra ao longo de sua história apresentou inúmeras atividades econômicas. entre essas famílias.

where everything revolved around the head of household. Today in the postmodern world the bricks were replaced by more modern blocks and resistant men by machines more productive and accurate and all that cultural knowledge left by past generations in danger of disappearing. 70s and 80s that broke out a new phase called potteries. women and children. where they were withdrawing nature of the clay and spent an entire work apply to cultural training brick as a result of the process. Being a period that still behind remnants of a past patriarchal system. there was an entire socioeconomic relationship involving ace all families that period. the family that is Grassmann study focus of my work. Situated in a very privileged area. believing that this would be the best way to educate their children.ABSTRACT The municipality of Sierra Itapecerica throughout its history has presented numerous economic activities. . Behind this process. or the parent. but it was in the 1960s. the clay has become the livelihood of many families. The father is the symbol of power and respect as brick molded by the hands of the hard life. This cultural activity left by past generations has long been performed manually by men. including those families.

Aujourd'hui. croyant que ce serait la meilleure façon d'éduquer leurs enfants. notamment les familles. où tout tournait autour du chef de ménage. la famille c'est accent étude Grassmann de mon travail. il y avait toute une relation socio-économique impliquant as toutes les familles de cette période. a présenté de nombreuses activités économiques. l'argile est devenue le gagne-pain de nombreuses familles. ou le parent. Derrière ce processus. Situé dans un quartier très privilégié. . les femmes et les enfants. mais c'était dans les années 1960. Être une période qui reste derrière les vestiges d'un ancien système patriarcal. 70 et 80 qui ont éclaté dans une nouvelle phase appelée poteries.RÉSUMÉ La municipalité de Sierra Itapecerica tout au long de son histoire. où qu'ils se retiraient nature de l'argile et a passé tout un travail s'appliquent à la brique de formation culturelle en tant que résultat du processus. Cette activité culturel laissé par les générations passées a longtemps été effectuée manuellement par les hommes. Le père est le symbole de la puissance et de respect que la brique moulée par les mains de la dure vie. dans le monde postmoderne les briques ont été remplacées par des blocs plus modernes et les hommes résistants par des machines plus productives et plus précis et tout ce savoir culturel laissé par les générations passées en danger de disparition.

.....14 Figura 5 – Imagem hidrográfica do município.......................................................................17 Figura 6 – Imagem tridimensional do tijolo maciço........................................30 ....2 Figura 2 – Gráfico do crescimento populacional a partir de 1970..LISTA DE FIGURAS Página Figura 1 – Mapa do município de Itapecerica da Serra na RMSP...........13 Figura 4 – Quadras onde estão localizadas ás olarias da Família Grassmann...............................3 Figura 3 – Mapa do Estado de São Paulo e do Município de Itapecerica da Serra..............................................

....................................................................14 Foto 6 – Foto aérea da olaria da família Grassmann de número 3.......10 Foto 5 – Foto aérea das olarias da família Grassmann de número 1 e 2.............................................16 Foto 9 – Foto do solo das olarias.....15 Foto 8 – Espaço de trabalho das olarias.................................................................... 17 Foto 10 – Córrego que corta o lote.........29 Foto 20 – Detalhe do tijolo produzido pela olaria da família Grassmann.......................................................................................................................................14 Foto 7 – Crescimento de mata secundária.................23 Foto 15 – Detalhe onde foi encontrado outro tipo de argamassa....27 Foto 19 – Forma de organização dos tijolos para queima.............................21 Foto 13 – Boca do forno para colocação da lenha olaria de número 2.........................24 Foto 16 – Areia com quartzo...............................26 Foto 18 – Processo de modelagem e secagem do tijolo......8 Foto 4 – Casa de taipa da família alemã Cremm.................18 Foto 11 – Olaria de número 2.........................................................................................................31 ................................6 Foto 2 – Olaria do Sr....................... ...........................................................................................................................................................................................................24 Foto 17 – Pipa para mistura da massa..........................................................LISTA DE FOTOS Página Foto 1 – Forno de carvão vegetal década 1940................................................................ Nunes na década de 1960......................................20 Foto 12 – Descrição da olaria de número 2........21 Foto 14 – Parede com argamassa da olaria de número 2.............................................................................................7 Foto 3 – Busto do Padre Belchior de Pontes.........................................................

........... Wilson Grassmann....32 Foto 22 – Sr..................... Amaro Camargo e Sr..Foto 21 – Detalhe do tijolo proveniente de outra olaria...................................37 ............................

...41 CONCLUSÃO..........3 Aspectos Geográficos............................................................................................................................................................54 ................................13 2.........12 2................5 1........................................................................................2 1...................Entrevista..............2 Dados Contextuais: Olarias dos Grassmann.......51 BIBLIOGRAFIA............................2 Dados da População e Economia do Município............OLARIA DOS GRASSMANN.............................1 Um breve contexto histórico............................................................................................5 Breve História da Origem de Itapecerica da Serra.............................1 1..............1....................................O OLEIRO.................4 1............................7 2................................................................................................4 Análises de Produção e Material........................................................SUMÁRIO Página INTRODUÇÃO.......................................................12 2....2 1....................................................................25 3....................................33 3.......................................4 Atividades Econômicas no Século XX........................................UM BREVE HISTÓRICO DE ITAPECERICA DA SERRA..................19 2.....................1 Dados da Região de Estudo......................................................3 Dados da pesquisa............................................................................................................................................................................................................3 1......................

Devido ao tema ser pouco explorado a pesquisa encontrou dificuldades em se apoiar em livros ou artigos voltados para a produção de tijolos. Itapecerica da Serra possui uma característica bastante complexa no seu aspecto geográfico.INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como objetivo resgatar a importância das olarias da família Grassmann que grandemente contribuiu para o desenvolvimento do município de Itapecerica da Serra como para Capital paulista. Essas olarias permitiu o sustento de inúmeras famílias. seu terreno é muito irregular com serras e planaltos. resgatar não só a técnica utilizada no tijolo como o cotidiano das relações familiares. fadada ao esquecimento e fragilizada por valores éticos e morais o trabalho não estará suscetível a falhas. todos esses fatores . subtropical. A região é coberta por uma vegetação pertencente a Mata Atlântica que permite encontrar inúmeras espécies de plantas e árvores nativas. seu clima é muito parecido com o da capital paulista. tanto para aqueles que detinham um capital acumulado. Esse ciclo do tijolo. pois na história do Município sempre se destacou uma única atividade. permitindo assim novos investimentos como para aqueles que trabalhavam diretamente nas olarias vindo mais tarde á possuir pequenos terrenos particulares. alcançou seu auge nas décadas de 1970 e 1980 e veio mais tarde se findar no final dos anos 80. procurando assim. ou seja. dando espaço para o bloco de cimento. Pioneiro na região essa família de descendência alemã irá contribuir á partir do seu patriarca Luiz Grassmann um trabalho cultural que exigiria um grande conhecimento com a técnica do tijolo. podendo ser classificado dessa forma. Para sanar essas dificuldades bibliográficas a pesquisa teve que recorrer a memória daqueles homens que vivenciaram aquele período de uma forma direta ou indiretamente. mas seria muita ingenuidade acreditar que á memória humana seria um porto seguro de informações precisas e claras. onde no final do dia cai uma névoa deixando o ambiente bastante úmido. No calor o ar fica bastante abafado e seco e no inverno um ar mais refrescante. Outro fator que corrobora com a umidade do terreno são seus inúmeros braços fluviais que remonta o principal rio da região o Embu Mirim.

secagem ao tempo até sua queima por completo no forno. Nesse capitulo levanto dados históricos do povoamento do município com seus primeiros habitantes indígenas. japoneses e outros que trouxeram toda uma bagagem de conhecimento para região passando da fase de isolamento para o desenvolvimento.contribuiu com a matéria-prima necessária para o surgimento de várias olarias de tijolos no município. A estrutura dessa pesquisa e a sequência dos capítulos serão apresentadas a seguir com um breve resumo de cada capitulo. O trabalhar com o tijolo exige e exigiu um grande conhecimento técnico e cultural deixado pelas gerações passadas como uma herança para os homens do futuro. mapa hidrográfico. Mais tarde com a expulsão dos jesuítas o município passou por uma fase de isolamento até a chegada dos imigrantes italianos. relevo. Sendo ás olarias . O segundo capitulo me dedico ao processo de produção do tijolo artesanal desde sua retirada da natureza como matéria-prima ao trabalho aplicado pelo homem dando a esse barro uma nova roupagem. de forma a facilitar tanto a leitura e o entendimento de todo o trabalho. No terceiro e último capitulo procurei divagar o cotidiano da família Grassmann e dela entender de uma visão mais geral as relações sociais do período. alemães. demografia. renda per capita. comércios. Esse processo está bastante explicito com imagens para um melhor entendimento do leitor. Essa transformação do barro em tijolo voltado para construções de abrigos denominados casas. Esse processo que passa pela retirada no barro. O capitulo primeiro me atento em levantar dados da geografia do terreno de estudo como clima. atividades econômicas no século XX. indústrias e outros fez parte do desenvolvimento econômico de nosso país. colonos portugueses e padres da ordem jesuítica. Boa parte dos dados me apoio na tese de doutorado do autor Luis Antônio Bittar Venturi da Universidade de São Paulo. vegetação e outros. destaque ao Padre Belchior de Pontes que foi responsável pelo aldeamento no século XVII. passando por misturas. Contei com a colaboração das autoras Manuela Xavier Gomes de Matos da Universidade de Pernambuco e de Carla Antunes do Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa de Lisboa que grandemente deram atenção ao processo do tijolo.

onde hoje contemplamos construções cada vez mais modernas e resistentes. Apontar a importância da preservação desse patrimônio cultural que vem gradativamente sendo extinta tanto no material como na memória pelo mundo moderno foi objeto de preocupação. Suas memórias não só contribuíram com o entendimento do processo de produção do tijolo como trouxeram lembranças particulares de suas infâncias o que permitiu explanar melhor as relações familiares. Amaro Camargo e do Sr. Na parte 2 do capitulo 3 encontra-se a entrevista realizada com eles no dia 12/01 na casa do Sr. pois muitas das falas não tiveram utilidade para o foco da pesquisa. pois as olarias representara uma fase evolutiva das construções humanas.responsável pela base econômica da família. quem a controlava detinha o poder de mando de dentro da família. Neste terceiro capitulo contei com a colaboração do Sr. ou seja. É importante ressaltar que a entrevista não foi transcrita na integra. . Amaro Camargo no bairro da Lagoa em Itapecerica da Serra. Wilson Grassmann descendentes daqueles que na prática sabiam como funcionavam as olarias. mas a entrevista pode ser ouvida na integra pelo cd que acompanha esse trabalho. as mesmas tinham o poder de influência nas relações familiares.

A área está inserida nas leis Estaduais de Proteção aos Mananciais (Lei n.15). 2 .UM BREVE HISTÓRICO DE ITAPECERICA DA SERRA 1. de Itapecerica. Fonte: Google (2013). M’ Boi Mirim. 2001. Taboão da Serra. p. as duas bacias são responsáveis por 97% da vazão afluente ao reservatório do Guarapiranga (Venturi.9km²) situa-se na bacia do Guarapiranga. Fazendo divisas com os Municípios vizinhos como Embu das Artes. 898/75 e 1.866/97). de Parelheiros.172/76 e 9. Embu-Guaçu e São Paulo. Cotia. São Lourenço da Serra. O Município pode ser acessado pelas vias como Estr. 2001) 72% (108.469 km² (IBGE. ao sul 23º 45’. Região Metropolitana de São Paulo.1 Dados da Região de Estudo Localizada entre os meridianos 46º 45’ e 47º W e. onde dos 151. o Município de Itapecerica da Serra pertence aos 39 municípios que remontam a Região Metropolitana do Estado de São Paulo (RMSP). Senador Teotônio Vilela e Estr. Tanto as bacias do rio Embu Mirim quanto do rio Embu Guaçu banham simultaneamente o Município de Itapecerica da Serra. Figura 1: Município de Itapecerica da Serra.

2001. A população Itapeceriquese hoje formada por uma população jovem que se enquadra na media nacional e estadual que na sua maioria vai do 0 a 19 anos de idade. População essa que tem uma renda per capita de R$ 617 reais inferior á media nacional de R$ 737 reais. que reflete e expressa o Figura 2: Gráfico do crescimento populacional a partir da década de 1970 3 .1. A partir das décadas de19 70 e 1980 há uma ascensão nos dados demográfica da RMSP crescimento estadual. ocupando uma área de 151km². que colaborou para ocupações clandestinas e irregulares (Venturi. devido às leis ambientais os imóveis que perderam valor com o passar o tempo.4). a população estimada em Itapecerica da Serra hoje é de 152.614 hab. o inchaço do município de São Paulo que busca nas RMSP novos lotes. Tema da sua tese de doutorado o autor Luis Antônio Bittar Venturi crê que o crescimento populacional se dá pela desvalorização dos imóveis. P. além dos altos índices de criminalidade e arrecadação do IPTU.2 Dados da População e Economia do Município Segundo censo do IBGE de 2007. Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) depois de 10 anos o Brasil teve um crescimento de 13% já considerando a inflação do período e o Município teve uma ligeira queda de -2%. esse inchaço acompanha o deslocamento demográfico do centro de Itapecerica para novas áreas rurais do município.

cadastrou imóveis e estabeleceu tributação progressiva. pois o município não se encontra dentro de uma zona industrial ou agrícola. Desses assentamentos surgiram pequenas usinas. Essa folga nas contas não significou uma melhora no desenvolvimento social e ambiental no município. Naquele ano. ruas não asfaltadas.php?option=com_content&view=article&id=1142:reportagensmaterias&Itemid=39. Boa parte desses recursos vem por impostos ou serviços. Esses pequenos canais fluviais permitiram o assentamento de uma população mais distante do centro. O fato cria um efeito cascata.. Quem arrecada e investe pior apresenta desempenho cada vez mais negativo.: Venturi (2001) Org.694. falta de rede de esgoto. em 1991 a prefeitura estruturou a planta genérica. falta de hospitais ou postos de saúde.: pelo autor. moradias irregulares e outros. Itapecerica possui uma rede hidrográfica densa composta por uma malha de pequenos canais fluviais que de acordo com Guerra (1997) denominam-se córregos (Venturi. o IPTU já representava 4. falta de escolas e creches. 1 http://www. ou seja. 11. pois sem melhorias urbanas os imóveis não se valorizam e a arrecadação tributária não aumenta (. olarias e uma pequena agricultura familiar de subsistência. Então. 4% das verbas disponíveis na cidade e. Com uma paisagem Serrana e de Planaltos.9% (203.com o agravante de que o inchaço se verificou em áreas de mananciais.3 Aspectos Geográficos No final dos anos cinquenta (1959) o município viria a perder 88% do seu território. 2% .359.) Itapecerica da Serra tem 130 mil habitantes e densidade demográfica de 852. 4 .881) e contra 44. (.48). falta de transporte.451) com despesas. formando-se assim novos municípios como: Embu das Artes e Taboão da Serra.br/desafios/index. ainda hoje são visíveis os problemas como: falta de moradias.)1 1.. Segundo o censo do IBGE (2007) Itapecerica da Serra arrecadou 55.gov.. Embu Guaçu e Juquitiba (1965) e mais tarde São Lourenço da Serra em 1993..ipea. Em 1989. mais rural.Fontes: Emplasa (São Paulo 1997) e IBGE (2001) Imag. falta de água. nível de tributação dos municípios vizinhos e cultura regional impactam na arrecadação. 8%. 2001. em 1992. "Influência política.1% (160. p. 7 habitantes por quilômetro quadrado. 9% da composição da receita orçamentária do município. Dados da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) e do IBGE indicam que entre 1970 e 2001 a população cresceu 410. o IPTU representava 0. Acesso em 04 de jan de 2013.

2001. mesmo depois do reflorestamento com eucaliptos é visível a área desmatada (Venturi. Segundo Venturi o percurso entre Itapecerica da Serra e Miracatu. inflação alta e principalmente com a falta de combustível a capital paulista se vê na necessidade de recorrer a outras RMSP para sanar a falta de combustível. de 2013 5 .br/list. Eram equipamentos antiestéticos. vistos como grotescos. Boa parte do ano há chuvas constantes que contribui para formação de uma vegetação densa constituída de Mata Atlântica. tubos estranhos.4 Atividades Econômicas no Século XX Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial (agosto de 1942) o Estado de São Paulo sente os reflexos dessa guerra. onde no final do dia forma-se uma névoa que pode ser intensa de acordo com á localidade. e quando começou a faltar de gasolina. 2 Durante os anos 40 desenvolveram inúmeras carvoarias na Região.44).asp?ID=307. Exigia mais manutenção porque os ductos entupiam facilmente com os produtos secundários da combustão. O gás de carvão queimado reduzia em 50% a potência do motor do automóvel. um equipamento movido a carvão vegetal (chamado gás pobre). sul do Estado.saopaulominhacidade.O clima subtropical se assemelha a outras RMSP. Sujavam o ar e o usuário. o automóvel em 1943 representava um ícone de ascensão social e objeto de consumo mais cobiçado. com a escassez de alimentos. colocados atrás do automóvel. 1. a criatividade levou ao aparecimento do gasogênio. linhas de ônibus e qualidade nas vias de acesso ao município. 2 http://www.com. Falta de gasolina . essa demanda por combustível vegetal tem como consequência um reaquecimento na economia do município. permitindo se assim o surgimento de novos comércios. Acesso 06 de Jan.Objeto de desejo de pobre e de rico. p.

Transportados por caminhões o comércio com tijolos ganhou espaço fora da região fornecendo para a capital paulista e para outras RMSP. 6 .Foto 1: Forno de carvão na década de 40 Fonte: Museu de Itapecerica da Serra Img.: do autor. prédios públicos como a primeira câmara municipal e outros. Acredito que muitas delas se dedicavam a tijolos e telhas que grandemente comercializavam no comércio local na construção de casas. Não há um levantamento documental dessas olarias o que dificulta sabermos quantas eram e quais eram as atividades que realizavam. Mesmo que não haja nenhuma em funcionamento encontramos inúmeras olarias como testemunho de um passado recente. Situadas nas várzeas as olarias se beneficiaram das condições físico-geográficas da região que fornecia toda matéria-prima necessária para realização das atividades como madeira para a cura. argila ou barro para formar o tijolo ou telha e principalmente água para ajudar na mistura com á terra. Uma outra atividade muito importante e ainda muito visível na região foram as olarias. Muitas dessas olarias eram conduzidas por famílias que encontraram nelas uma atividade de subsistência juntamente com uma pequena agricultura familiar. comércios.

789. Mesmo sem nenhum documento que comprove sua localização. Nunes na década de 1960 Fonte: Museu de Itapecerica da Serra Img. P. 3 A partir de 30 de Novembro de 1944. 4 HOLANDA. 9ª. areia.: do autor. algumas se adaptaram à legislação dos anos 1970 e continuaram extrair o caulino. A paisagem econômica de Itapecerica contou com as mineradoras dentro desse mesmo período. além das pedreiras que exploram os afloramentos rochosos. Aurélio Buarque. de encostas lisas e escorregadias” 4. muitos acreditam que esse caminho esta localizado na Rua Henrique Sóter Fernandes no centro do município. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Tapecerica ou Itá Pissirica essas palavras foram escritas ou pronunciadas por diversos indivíduos que remontaram à História de Itapecerica da Serra 3. Conta-se a lenda que dois índios passavam pelo Caminho do Quara. Ed. acrescentou-se “da Serra” como forma de diferenciação da cidade mineira Itapecerica. Segundo o Aurélio Buarque de Holanda Ferreira a palavra tem origem no tupi que significa “Monte granítico. Novo dicionário da língua portuguesa. 7 . Itapissirica. Itapycyryca. 1975. Itapecerica. 1.Foto 2: Olaria do Sr. Nesse caminho existia ou ainda existe um grande rochedo que segundo o mito um desses índios ao passar sobre ela escorregou dizendo ita (pedra) e o outro que o acompanhava teria completado pecerica (lisa).5 Breve História da Origem de Itapecerica da Serra.

A História da Cidade pode ser dividida em três períodos: o primeiro período muito mais controverso seria o seu aldeamento no final do século XVII. veio do coronel Luiz Tenório de Brito. Fonte: Google (2013). 8 . onde Itapecerica teria surgido com o objetivo de apaziguar os constantes ataques dos índios ao Colégio de Piratininga. com a escassez de fontes fica difícil dar uma conclusão plausível sobre sua origem. por volta do ano de 1562. o segundo quando os jesuítas foram expulsos do Brasil pelo Marques de Pombal no ano de 1759 e o terceiro e último período remonta o inicio do século XIX com a vinda dos imigrantes. 5 Mesmo não tendo um consenso da sua fundação o município defende que o aldeamento teria iniciado por volta do ano de 1562. Devido a essa escassez bibliográfica conta-se duas versões da História: A primeira versão do aldeamento. onde Itapecerica se constituiria como um Município. A origem de Itapecerica da Serra é um assunto ainda muito debatido pelos historiadores. Essa versão se apoia na existência da primeira capela que estaria por volta do século XVI 5. Foto 3: Busto do Padre Belchior de Pontes no Largo da Matriz (Centro).

Segundo o autor Pasquale Petrone a organização completa do aldeamento de Itapecerica só se completou no final do século XVII. o padre também era um grande mediador da língua nativa com os colonos. A segunda versão do aldeamento de Itapecerica origina-se com a transferência de índios vindos da aldeia de Carapicuíba para Itapecerica ficando sobe os cuidados do Padre Belchior de Pontes no final do século XVII. (Petrone. Com os aldeamentos os jesuítas construíram um corredor de influências dentro da região que partia do Alto Pinheiro na Capital Paulista.108). O motivo dessa emigração não tem um dado conclusivo. onde afirma que todos os aldeamentos inclusive o do próprio Colégio estavam inseridos em áreas indígenas. A missão dada ao Padre Belchior não foi uma escolha aleatória da Companhia de Jesus. além do Padre ter uma boa relação com os nativos. mas que não foram referidos na documentação. evitando-se assim. mas também servia para reforçar a doutrinação católica aos colonos brancos. 1995. mas com qualquer outra necessidade. qualquer ataque inesperado às ordens religiosas. Essa mediação e catequização não só impunha a doutrinação cristã europeia aos índios. Essa influência tornou-se uma ameaça ao Estado português que decidiu expulsá-los no ano de 1759. p. Carapicuíba e Itapecerica que serviriam não só com alimentos e matéria-prima ao Colégio. a resposta mais aceita seriam as condições geográficas da região que não permitiam um desenvolvimento do plantio.Mesmo não sendo uma versão tão bem aceita aos olhos de alguns historiadores que defendem que o nome de Itapecerica não consta no Mapa da capitania de São Vicente que somente no século XVII o nome passa a ser referido. Uma outra questão levantada por ele que alguns lugares que sediaram os aldeamentos eram muito antigos muito antes da chegada dos portugueses e espanhóis. Após a saída dos jesuítas muitos colonos saíram com seus índios forros sentido a Minas Gerais e a Goiás buscando nestes “Estados” melhores condições de vida. passando por Cotia. Essa versão seria baseada no trabalho do jesuíta Manoel da Fonseca no livro A vida do venerável padre Belchior de Pontes. M’ Boi (Embu). os índios que 9 . lembrando que a região nunca foi uma área boa para a plantação e pouco fornecia ao Colégio diferentemente de Cotia e Carapicuíba com terras mais férteis. o que permitia amansá-los e adocicá-los. O autor tráz duas questões de suma importância no seu livro.

. Fonte: Google (2013). muitos deles eram agricultores e trouxeram á região ferramentas. Este período de decadência aos poucos foi sendo modificado com a chegada dos imigrantes alemães. palmito. diversos conhecimentos e profissões. fornecimento de gêneros alimentícios. Este período marca a independência econômica e administrativa que o Município teria em relação a São Paulo. feijão etc. Depois de trinta e seis anos servindo com 10 . Foto 4: Casa de taipa da família alemã Cremm em Itapecerica. Esta estrada que cortava todo o Município permitiu certo desenvolvimento à região com o transporte de carga pelos tropeiros. Mais tarde com a chegada de outros imigrantes iniciaram a construção da Estrada de Ferro Sorocabana ramal Mayrink – Santos.. entre o sertão e a cidade. extrativismo de madeiras..permaneceram no aldeamento ficaram a mercê de um Estado autoritário sobe o julgo no homem branco. mas logo buscaram no sul da capital melhores condições de vida. iniciando uma terceira fase chamada de colonial. como batata. fabricação de tijolos e principalmente na utilização da mão de obra dos trabalhadores de Itapecerica da Serra. por volta do ano de 1827/28. Custeada pelo Governo do Imperial desembarcaram no porto de Santos mais ou menos 227 imigrantes alemães que se dirigiram a Santo Amaro e Itapecerica. fabricação de carvão.

passou a denominar-se: “ITAPECERICA DA SERRA”. tendo como primeiro secretário o sr.038 Itapecerica foi elevada à categoria de Cidade. Taboão da Serra. Francisco de Morais. Lei nº 1. pela Lei nº 5. como já foi citado.285. 11 . deve-se ao fato de existir no estado de Minas Gerais uma cidade homônimo de Itapecerica. o Município em 1841 foi elevado pela Lei Provincial nº 12 a Freguesia de Itapecerica e mais tarde em 8 de maio de 1877 pela mesma Lei nº 33 a Vila de Itapecerica se desmembrando da Vila de Santo Amaro.alimentos.htm. matéria-prima e fornecendo índios para o trabalho. de acordo com o Decreto Lei Estadual nº 14. Para Venturi este desmembramento não significou mudanças profundas no cenário de decadência do Município (Venturi. 42). composta pelos municípios: Embu. foi criada a Comarca de Itapecerica da Serra. 2001. e o acréscimo da palavra “SERRA”.117 de 27 de dezembro de l907.2013. de l8 de fevereiro. Juquitiba. Em l9 de dezembro de l906. Juquitiba e Itapecerica da Serra que é a sede da Comarca.br/Reg_13/Reg13_ItapecericaDaSerra. Embu-Guaçu. p. 6 6 http://www. através da Lei Estadual nº 1.nossosaopaulo. Em 11de novembro de l877 foi instalada a primeira Câmara Municipal.com. Acesso em 10 de jan. Foram criados os seguintes distritos: Embu (M’Boy) pela Lei nº 93 de 2l de abril de l880.335 de 30 de novembro de l944. outra razão é devido a sua localização entre montanhas. Itapecerica. Em l959.

Ao chegar à casa do oleiro. Jeremias observa o trabalho do profissional e fica maravilhado com tal habilidade que o oleiro tem em tirar da argila o vaso.O OLEIRO 2. ele passa a buscar um lugar seguro que pudesse protegê-lo. 12 .16).bibliaonline. Vendo Deus a grande preocupação que assolava o coração de Jeremias o convidou para descer até a casa do oleiro.C. p. datado do período Neolítico inicial (Vieira. Na Mesopotâmia. no Oriente Médio. Na bíblia no livro de Jeremias (18:1). tanto dos fatores climáticos quando de eventuais ameaças de predadores ou do próprio homem.7 A terra sempre foi objeto de disputa ao longo do processo histórico da humanidade. Acredita-se que o homem passou a utilizar argila como instrumento de sobrevivência mais ou menos 4000 a. de 2013. 2009. desde o início da Civilização. preocupado com a função que lhe foi determinado sabia que Deus jamais revogaria tal função á favor dele. O trabalho que o homem exercia e ainda exerce sobre á natureza buscando sanar os seus desejos não só transformou o meio o qual ele vivia.1 Um breve contexto histórico. 7 http://www. A necessidade de sobrevivência fez com que ele criasse inúmeras experiências chegando num material mais rígido que é o tijolo. há evidências do uso de tijolos feitos de barro nas construções. mas ao terminar o vaso um leve descuido do oleiro colocou tudo a perder deixando o vaso se quebrar. mas o transformou juntamente com o objeto modificado.com. o que se difere do Egito feitas de pedras. o grande profeta de Deus trazia a seu mando profecias de juízo e de castigo. Para Vieira o homem teria passado a usar blocos secos ao sol quando as pedras naturais começaram a ficar escassas.br/acf/jr/18>Acesso em 19 de Jan. O registro mais antigo de um tijolo foi encontrado nas escavações arqueológicas na cidade de Jericó. O oleiro muito paciente não se deixou abalar e recomeça todo o processo. Quando o homem deixa de ser nômade e passa a se fixar num determinado lugar.

as olarias que pertenceram à família Grassmann.A natureza é a grande responsável pelos recursos fornecidos a uma olaria sem esses recursos dificilmente ela se constituiria. p. Mesmo que a natureza seja responsável por esse processo o homem é a cerne dessa transformação.: João Rodrigues de Moraes. o sítio tem acesso pela Estr. pelo autor 13 . é necessário que as populações estejam na posse das técnicas necessárias para o manipular. que é importante perceber (Antunes. Figura 3: do Estado de São Paulo e do Município de Itapecerica da Serra. como qualquer outra técnica de fabrico.2 Dados Contextuais: Olarias dos Grassmann. Situado numa zonal rural. 2007. Numa distância de 20 minutos ou mais do centro do Município. Sem o barro não é possível fazer-se cerâmica. no Município de Itapecerica da Serra na Rua: dos Grassmann (Ex-Particular). cadeias de operações. As técnicas articulam-se e formam processos.: dos Francos e pela Estr. Fonte: Google (2013). sua habilidade em visualizar o que não foi constituído permitiu traçar caminhos que o levou a sua realidade. mas como o barro não se transforma sozinho. resulta da interdependência da matéria prima e da técnica. Org. 2. A cerâmica. 50). localizam-se no Estado de São Paulo.

dos pesqueiros (amarelo). local da retirada do barro (amarelo). área desmatada (preto) e acesso ás outras olarias (azul). devido às obras do Rodoanel Fonte: Google (2013). reservatório de água (verde). Org: pelo autor. da lenha utilizada para queima (preto). rua de acesso a olaria 3 (azul) e o córrego que corta o terreno (verde). 14 . Fonte: Google (2013). onde se retirava o barro.2 1 Foto 5: Foto aérea das olarias (identificado em vermelho). Org: pelo autor. 3 Foto 6: Foto aérea da olaria de número 3 (vermelho). A olaria de número 1 não existe mais.

Fonte: do autor. geografia. como a antropologia.Figura 4: foto das quadras onde se encontravam ás olarias.: pelo autor. Org. Guiados por uma cultura. política. Consciente ou inconscientemente os homens nas suas relações sociais modificam o seu ambiente segundo os seus interesses. Essa transformação hoje é investigada por diversas ciências. simbólica. arqueologia. religiosa ou por uma tradição.: pelo autor. figura 3 (mata secundária). dando inúmeras interpretações após uma investigação precisa do local. Fonte: Google (2013) Org. seja ela econômica. Foto 7: Retirada da lenha para queima. 15 . essa modificação na paisagem passa a contecer quando o sujeito homem atua sobre o meio com algum tipo de propósito. turismo e outras.

As olarias dos Grassmann dispunham dos recursos necessários para o processo do tijolo. na sua ausência. o terreno é plano permitindo boa locomoção para os carroceiros. permitindo assim uma produção em larga escala. transformando-o num lugar significante. 2008 apud Ferro. Assim. O Município de Itapecerica da Serra é um bom exemplo de ambiente propenso para olarias. o lote é cercado por morros de onde desce toda água e com um solo bastante encharcado e barrento (barro preto outra qualidade de argila). geralmente estão assentadas sobre brejos de ambiente bastante úmido. 16 .Foto 8: Modificação do espaço. às quais o homem não criou relação emotiva e simbólica. Fonte: do autor. p. Coberta por uma intensa mata pertencente à Mata Atlântica fornecia antigamente todo tipo de madeira. O produto da interação do homem com o meio é o que faz o lugar porque. o simbolismo do lugar representa não só as características físicas do mesmo como também uma transformação no interior do homem que permite a atribuição de um significado mítico. figura 3 (olaria número 2 ao fundo). (Bornal. o lugar é sítio de características físicas. 2004. depois das leis ambientais ficou restrito somente o corte de eucaliptos. A construção de uma olaria necessita um conhecimento prévio da área a ser construída. 15).

48-49). A área do Município apresenta uma rede hidrográfica bastante densa. Fonte: do autor Figura 5: Imagem hidrográfica de Itapecerica da Serra. para Venturi os canais fluviais medem mais ou menos 2 metros de largura. O rio Embu Mirim é o principal rio da região para desaguar na represa do Guarapiranga percorre 30 km com nascentes o território municipal (Venturi. Fonte: Venturi (2001). 17 .Foto 9: imagem do solo argiloso. 2001. p.

saindo por trás do morro (foto 3) e segue seu curso8. A demanda por tijolos chegou ao auge nas décadas de 1970/80 permitindo a construção de mais duas olarias pela família Grassmann como mostra a figura número 3 e 4.O sítio da família Grassmann faz parte do gráfico hidrográfico apresentada pelo autor. Fonte: do autor.50). Wilson Grassmann responde: “tem muito terreno de baixada aqui e o terreno fornece muita matéria-prima. Um dos canais fluviais descrita pelo autor percorre as costas do terreno (figura 3). Mesmo que não haja um levantamento documental de quantas olarias existiam no Município. A entrevista com os moradores Wilson Grassmann (neto de Luiz e filho de Alberto Grassmann) e Amaro Camargo (filho de Amaro Rodrigues) pioneiros da região confirmaram os dados documentais. 8 Não foi possível identificar sua nascente. p. suas margens apresentam areia com granito e quartzo. os entrevistados confirmaram que Itapecerica da Serra tem os recursos necessários para a produção de tijolos. Foto 10: canal fluvial dentro da área de pesquisa. 18 . Você cortar o barro aqui e não vai levar para Santo Amaro” (Camargo e Grassmann. Perguntado ao que contribuía tantas olarias em Itapecerica da Serra o Sr. Na entrevista Amaro Camargo confirma: “Contaram uma vez e diziam que só aqui na região existiam mais de 90 olarias”. O comércio só foi possível porque todos esses recursos estavam próximos um do outro não compensava levar um determinado recurso para ser produzido em outro local. material identificado nas estruturas na olaria de número 2. 2013.

Suas medidas não se diferem da terceira olaria.12). onde o homem retira da natureza o material bruto aplicando um trabalho e dando uma nova forma. 1988. mas toda pesquisa com um grau de complexidade necessita de recursos que podem vir de forma humana. depois da morte do Sr.Atualmente. tempo e etc. não há mais nenhuma atividade com as olarias. análise do material bibliográfico e as entrevistas realizadas com os proprietários das olarias. Mais tarde á primeira olaria foi destruída pelas obras do Rodoanel (trecho sul) e as olarias de número 2 e 3 continuam como testemunho dentro do sítio. O espaço da segunda olaria hoje está sendo reutilizado como pesqueiro. Segundo Grassmann a primeira olaria produzia por forno mais ou menos 70 mil tijolos chegando a 90 mil. 2. reduzindo as medidas do tijolo (Grassmann. análise laboratorial. Alberto Grassmann em 1985 as olarias da família deixaram de funcionar no final do mesmo ano. Com a grande demanda por tijolos a família Grassmann decide construir mais uma olaria no começo da década de 1980. visando sempre á compreensão do funcionamento e transformações das sociedades humanas (Funari. Para Funari a arqueologia parte de elementos materiais apropriados pelo homem. o que me faz crer que tinha a mesma capacidade de produção de mais ou menos 50 mil tijolos por forno. Sabemos que o homem é constituído por um saber cultural coberto de tradição e memória atuando sempre com algum propósito. Uma pesquisa em que o homem é o sujeito das próprias relações não pode ser entendida de uma forma mecanizada sem sentido. o que deixa sempre um novo parágrafo a ser construído por futuros pesquisadores.3 Dados da pesquisa A pesquisa não busca somente o entendimento do processo artesanal do tijolo. p. investimento econômico. Geralmente os proprietários após intensa atividade de retirada do barro reutilizam o espaço com essa atividade já o lote da terceira foi vendido e hoje tratam de equinos. 19 . Uma pesquisa nunca é conclusiva. Toda pesquisa foi realizada pelo autor desde a saída de campo.

99). Foto 11: olaria de número 2 construída no começo da década de 80. qualquer não-conformidade produzida nas etapas anteriores pode provocar defeitos que serão percebidos na queima.20 x 1. A segunda olaria apresenta as seguintes características: 6 x 6 x 5m (comprimento/ largura/ altura) possui dois fornos com capacidade média por forno de 50 mil tijolos. p. 2009. medindo 1. 20 . Desgastada com o tempo suas paredes são bastante grossas e resistentes o que permitia uma grande intensidade ao calor.80 (largura/altura). deduzo que as medidas da primeira olaria se diferenciavam em muito da segunda e terceira olaria.2013. Matos citando Andrade afirma que nessa etapa da cadeia operatória do material cerâmico. mais duas bocas de 80cm x 60cm (largura/altura) para colocação da lenha. Fonte: do autor. Com essa capacidade de produção.200 ºC (Matos. p. Cada forno possuí duas bocas de entrada e saída de tijolos para uma melhor organização. mais espaço de saída da fumaça ao alto e telhado que cobre toda olaria aparentando ser industrializado.51). Esse procedimento consiste na submissão das peças cerâmicas a temperaturas de 500ºC a 1.

: pelo autor. Fonte: do autor. Foto 13: Boca do forno para queima. Org. Fonte: do autor. saída do vapor (vermelho) e base de sustentação da olaria (azul). 21 .Foto 12: Boca de entra e saída (identificado em preto).

o saber técnico e as opções dos atores.22). p. Ao analisar as paredes do prédio percebi que os tijolos não recebiam a mesma marcação do produtor Alberto Grassmann. 2013. o que pode ter acontecido foi a utilização de formas de modelagem com suas iniciais. daí a necessidade de recorrer a outros produtores da região. p. mas de outros fornecedores como Jorge O. A demanda por tijolos me leva à seguinte conclusão: A família tinha urgência na construção de pelo menos mais uma olaria a única olaria da família estava trabalhando no seu limite máximo e continuassem por mais algum tempo começariam a perder capital e clientes.A argamassa que preenche as paredes da olaria aparenta ser do mesmo material dos tijolos. por meio de operações que articulam os meios de ação. sendo que tinha uma olaria em funcionamento? Segundo Wilson Grassmann a demanda por tijolos fez com que se construísse mais uma olaria na década de 1970 e outra mais tarde no inicio dos anos 1980 até a paralização por completo das olarias em 1985 (Grassmann.S e de seu irmão Frederico Grassmann. qualquer que ela seja resume-se essencialmente numa ação do homem sobre uma determinada matéria.51). A olaria antes de mais é uma técnica. Mas e seu irmão Frederico? Para Grassmann (2013) nenhum momento foi comprado tijolos das olarias do irmão. com determinados objetivos específicos: aquisição. Acredito que somente uma análise laboratorial mais precisa possa dar uma resposta mais conclusiva das substâncias encontrada na argamassa. Todos os espaços das paredes são rigorosamente fechados com o intuito de não existir qualquer fuga de calor. 2009. consumo e transporte de bens (Antunes. os gestos. pois o mesmo arrendou por alguns anos a primeira olaria. produção. 22 . Essa situação me levou à seguinte pergunta: Por que a família precisou comprar tijolos de outros produtores.

acredito por ser um solo diferente da terceira olaria um solo bastante encharcado. foram encontradas nas suas colunas e no quadrante de sustentação uma mistura arenosa com pequenas pedras (foto 13) mais outras substâncias típicas de rios e córregos. como mostra a imagem número 12. No entanto. é preciso antes de tudo compreender a diferença entre técnica e tecnologia (Matos. 2009. 23 . como já apontado.Foto 14: Argamassa utilizada na produção de tijolos. para identificar processos de transformação tecnológica. Mas. essa diferença pode estar materializando uma mudança tecnológica.39). Nos casos em que uma estrutura em alvenaria apresentar mais de um modus construendi. tiveram que reforçá-la com uma argamassa muito mais resistente de pedras fornecida pelo braço fluvial (imagem 7) que passa por detrás do lote. A análise do enfoque tecnológico possibilita conhecer a maneira como uma estrutura foi construída. Fonte: do autor. Mesmo que Grassmann não saiba nada a respeito. Essa olaria apresenta uma característica peculiar na sua base de sustentação que não foi encontrada na terceira. p. muitas vezes numa mesma estrutura estão materializadas diferentes culturas construtivas.

Foto 16: Material arenoso com pedras típico de rios e lagos. Fonte: do autor. Fonte: do autor.Foto 15: Estrutura identificada com material arenoso. 24 .

aos poucos era acrescentada água até dar a liga. uma pá de terra para uma pá de barro. 2013. Porém. E a argila? “é o melhor de todos. Perguntado para Amaro Camargo sobre a qualidade de barros que existiam. como o amarelo. buscando o recurso necessário para própria sobrevivência. 2009.. a preparação da pasta indiferente dos instrumentos utilizados. O barro tem diversas proveniências e características que lhe concedem cores mais claras. pois o barro é muito forte já de terra dava. onde as atividades eram realizadas manualmente. eu quando não tinha barro já fiz muito de terra”. onde não se utiliza qualquer força externa à do homem. moldagem.. Não havendo dados precisos. o barro chumbinho que é meio cinzento e o barro branco”. p. feitas de madeira amarradas no lombo dos animais que giravam em torno dela para fazer a mistura. Essa mistura era feita de forma igual. Nas olarias mais sofisticadas eram construídas as “pipas”. a homogeneização. desprovido de qualquer força animal Esses trabalhadores carregavam o barro em carrinhos de mão até as olarias completando a mistura com os pés. Mas há casos de olarias que não dispunham de qualquer tipo de animal. (.22). oxidante ou redutora. ou mais escuras como o vermelho. secagem e queima (Matos. que distingue a olaria vermelha da negra (Antunes. o mesmo responde: “tinha o barro preto.59). Essa fase pode ser vista como fase primeira.4 Análise de Produção e do Material Matos citando Manacorda afirma que todo material cerâmico segue a mesma ordem de sequências que são: a retirada da matéria-prima da natureza. (Camargo. 25 . Questionado qual era o melhor barro responde: “O barro preto”. p. exigindo um grande esforço físico. levando para fase de mistura.54).2. Não há nenhuma pretensão em vender os tijolos além do comércio local. p. é a forma de cozedura. 2007.) você não podia fazer só de barro. existiam inúmeras olarias que realizavam todo o processo operatório manualmente. Retirado de escavações profundas o barro era transferido para carroças puxado por algum animal de carga. ou seja.

Foto 17: Imagem de uma “pipa”. cada banca será numerada e seu número será estampado no tijolo. A dificuldade de se encontrar argila primária faz com que o oleiro recorra a um material secundário. A função de pipeiro exigia não só conhecimento da melhor mistura como um grande esforço físico em colocar tanto a terra como o barro dentro da pipa. a mesma era transportada para a banca que geralmente era ocupada por duas pessoas. 2013.) era parecido com um barril de um metro e pouco de largura no meio tinha um buraco que descia a barra de ferro grosso que girava como um peão e no meio do ferro ia umas chapas de ferro que nós chamávamos de faca uma contraria á outra para misturar o barro.. p. Após a homogeneização da pasta. 9 (. sendo a argila primária a mais nobre de todas. Fonte: Google (2013). p. imagem somente ilustrativa. Como afirmado anteriormente. existe uma variedades de argila. portanto.53). mas há casos de até três pessoas ocuparem uma única banca (Grassmann. 2013. serão responsável pela qualidade do enformamento 9 O lugar e a pipa não fazem parte das olarias pesquisadas. 26 .. (Camargo.52). Feita rusticamente de madeira a banca é responsáveis pelo enformamento da pasta .

Não há registro também sobre o formato dos moldes e a quantidade de unidades de tijolo que poderia ser moldados ao mesmo tempo (Matos. 27 . Cada dono de olaria estampava suas iniciais (nome e sobrenome) nos tijolos como forma de distinguir das demais olarias. depois da pasta enformada o seu excesso será retirado com um arco de madeira com uma “linha” resistente. o que permitia saber qual trabalhador moldou cada tijolo e responsabilizá-lo por deformidades. O procedimento de moldagem ocorre da seguinte maneira. como apontado acima. p. o molde que dá forma ao tijolo maciço é confeccionado em madeira. qualquer resto de material que possa trazer deformação à próxima modelagem.96-97).evitando qualquer tipo de deformidade do tijolo. Após cada procedimento as formas terão que ser limpas ou umidecidas. uma vez que a pasta passa a ocupar todos os espaços do molde e seu excesso será retirado. evitando-se assim. No meio do tijolo o número da banca. Fonte: Matos (2009). Não há registro de padronização dos tamanhos de moldes. é provável que cada oleiro produzisse seus moldes de acordo com o seu entendimento. com a finalidade de desprender o barro o molde será virado e a pasta terá o formato de um tijolo. Historicamente. Com leves batidas pelas laterais. Foto 18: Processo de moldagem e secagem dos tijolos. De diferentes tamanhos uma olaria poderia produzir diariamente de quatro a seis mil tijolos dia. 2009. a pasta é colocada no molde recebendo um pequena pressão com o intuito de fixá-la.

da pasta. estes testes podiam verificar se os tijolos estavam enxutos e prontos para queima. ou a gás. Matos cita Andrade nas etapas de secagem que eram as seguintes:    Nas primeiras 12 horas. É importante ressaltar que a queima que ficava entorno de 500º C a 1200ºC.98). dependendo da qualidade do barro pode significar um dia a menos de queima. a peça continua encolhendo. Nas próximas 96 horas (4 dias). Depois de enxutos serão colocados no forno para uma queima de até seis dias. no entanto. a peça estará seca (nessa etapa. da sua homogeneização e da queima. depois das primeiras 12h a peça não encolhe mais (Matos.Os tijolos depois de modelados serão secados e enfileirados em campo aberto. A secagem consiste na evaporação da água que está na superfície da peça cerâmica. Uma pasta que conta com argila de grãos grossos. o fator clima passa a ser preponderante nessa etapa. p. a água que está no interior da peça começa a ser atraída para a superfície por diferença de pressão (atração capilar). Uma peça grande e espessa está susceptível a apresentar um elevado encolhimento. Ao longo da história da produção de peças cerâmicas.97-98). Na medida em que essa água começa a evaporar. como já citado. tanto o sol quanto o vento são grandes aliados na secagem. Durante esse processo as peças encolhem de 8% a 12% dependendo da espessura de dimensão da peça. e/ou com antiplástico encolhe menos. Para Grassmann (2013) depois dos tijolos espalhados no terreno para secagem. Para a queima de tijolos. E quando a pasta está muito úmida e é submetida uma secagem rápida. a queima ocorre em fornos elétricos. 2009. p. essa organização além de deter um conhecimento técnico é de suma importância para uma queima completa dos tijolos. onde há maior controle. encolhe mais e pode apresentar defeitos durante o procedimento de secagem (Matos. Quando a pasta não está bem homogeneizada e/ou apresenta diferentes graus de umidade pode ocorrer secagem diferencial entre partes da peça. faziam-se testes periódicos espetando-lhes pequenos palitos. Na atualidade. Dentro do forno os tijolos eram rigorosamente organizados. os fornos eram à lenha ou a carvão. Segundo Camargo (2013).5 dias). no 28 . já era possível visualizar deformidades dos tijolos. o palito permitia você fazer uma projeção de mais quanto tempo o tijolo precisava ficar ao tempo. 2009. Nas próximas 60 horas (2. a peça encolhe de 5% a 7%.

caso contrário podem explodir dentro do forno (Matos. usa-se organizar os tijolos de maneira a conformar um forno. o resto da água presente na argila evapora. a alumina se transforma em mulita. a água química presente na argila é eliminada e a argila se transforma em metacaolim perdendo sua estrutura cristalina. solta um vapor muito quente e perigoso. e que as peças estejam bem secas. p. Segundo Andrade. Entre 450ºC e 700ºC. o metacaulim se transforma em alumina gama. 29 . Fonte: Matos (2009).98-99).entanto. era sinal que o vapor estava penetrando entre os tijolos. Quando o forno permitia visualizar a queima dos tijolos. o forneiro tinha o trabalho árduo de manter a temperatura do forno. durante a noite colocavam-se duas toras enormes para garantir o processo de queima. Foto 19: Organização dos tijolos para queima. o processo de queima da pasta promove as seguintes transformações químicas e físicas: Até 400ºC. após três dias aumentava-se a intensidade do fogo com mais madeira. 2009. De 700ºC a 830ºC. Segundo Camargo (2013) no período de seis dias de queima. Até 1050ºC. O importante é que haja espaços entre as peças para que o calor possa circular permitindo uma queima uniforme.

reforço de colunas. colocação de telhados e outras funções. ou quando a peça não está seca por igual. principalmente quando a temperatura estava em torno de 600ºC. pois todo o seu espaço será preenchido com uma massa homogênea. a dilatação típica desse mineral. quando a pasta foi queimada rapidamente. pode provocar rachaduras e gretas ( Matos.Os defeitos das peças cerâmicas durante a queima podem ocorrer por diversos motivos: quando o calor dentro do forno não está uniformemente distribuído. as peças podem rachar. a olaria dos Grassmann concentrava todas as suas atenções somente para a produção de tijolos maciços. Utilizados geralmente em construções o tijolo tem uma função maior levantar paredes. O tijolo maciço não possui furos ou partes ocas. 30 . mas pode ser utilizado para diversos fins. podem ocorrer deformações devido a diferença de tensão entre as partes. podem aparecer bolhas e inchaços nas peças e mesmo rachaduras. Uma olaria pode desenvolver diversos trabalhos artesanais. Quatro faces serão pelas laterais e duas maiores com frente que recebera a marca de seu produtor e verso de espessura lisa. objeto de contenção. 2009. De uma mesma aparência de um bloco de paralelepípedo. temperatura considerada crítica na queima da cerâmica126. Neste caso. à 1200ºC.100). desde estéticos. p. Fonte: Matos (2009). quando os grãos de quartzo são grandes. quando ocorre o esfriamento rápido. Figura 6: Imagem tridimensional do tijolo maciço. o tijolo maciço possui seis faces e oito arestas (Matos 2009). desde vasos cerâmicos. tijolos e outros provenientes de argila. telhas. utensílios domésticos.

a fim de 31 . a aparência e a dimensão contribuem para o conhecimento que se tem sobre o modus construendi de determinada comunidade. Foram analisados os tijolos da própria olaria e tijolos provenientes de outro fornecedor. como já apontado anteriormente. o mesmo apresenta ser mais argiloso de uma forte coloração avermelhada. visualmente não foram encontradas outras substâncias nela. Fonte: do autor.60). por demanda de tijolos a família teve que recorrer a outro fornecedor (Jorge S) para a construção de mais duas olarias. Ter conhecimento das marcas deixadas na feição de um tijolo é evidenciar procedimentos utilizados na sua preparação (Matos. Sua queima apresenta ser mais completa devido a sua qualidade de reter água não permitindo o seu escoamento e dificultando a entrada de ar. tanto na sua coloração quanto na sua durabilidade. por exemplo. O primeiro material analisado foi o tijolo da própria olaria.: pelo autor. O material analisado apresentou características peculiares. Foto 20:Tijolo produzido pela olaria da família e no detalhe a matéria-prima depois do processo de queima. Org. 2009. Segundo Matos. p. Esse mesmo material foi encontrado como argamassa nas paredes das olarias. O segundo material analisado também compõe as paredes das olarias. Como já apontado. mas acredito que uma analise laboratorial mais precisa poderia apontar restos de outros materiais como vegetais. após várias batidas com martelo de construção.Os tijolos identificados possuem as seguintes medidas: 21 cm x 10 cm x 5 cm x 2 kg (comprimento/largura/espessura/peso).

2009. o tijolo será mais branco etc. A substância analisada no seu interior apresenta ser bastante arenoso. Org. p. onde é possível verificar pequenos cristais de quartzos.verificar o seu interior e testar sua durabilidade. material bastante adverso do primeiro. se for maior a presença de óxido de cobalto. Foto 21: Tijolo encontrado nas paredes das olarias. No caso da temperatura de cocção. as pastas escurecem: segundo Lusa Andrade. Quando o tijolo é composto por uma argila com elevada quantidade de óxido de ferro. Sua coloração esbranquiçada apresenta uma queima bastante incompleta possível de ser verificada na imagem. Por ser um material que não retêm água sua queima não seria tão intensa. a pasta ficará mais amarelada. as pastas avermelhadas se tornam marrom escura (Matos.: pelo autor. quando a temperatura do forno é elevada até atingir o ponto de fusão da argila. sua pasta tende a ser mais avermelhada depois de queimada. o mesmo apresentou ser um material muito mais rígido em relação ao primeiro material analisado. 32 . se for maior a de carbonato de cálcio. argila e outras substâncias que somente uma investigação laboratorial permitiria apontar. Fonte: do autor.64).

é ele o grande responsável pela limitação dos homens do presente. Klara Grassmann. modificar e difundir as suas criações. Neste momento. casado com a Srtª Luise Jasper. na Chácara Santo Antônio com dois pequenos empresários portugueses. embarcação de fundo chato. José Costa e João Costa.Capitulo 3: Olaria dos Grassmann O tempo é o maior inimigo das construções humanas. pois vivemos mais no passado e no futuro do que neste “presente” que tanto falamos. Luiz Grassmann. se é que existe presente. experiências guardadas na sua memória. com umas conchas que colocadas no convés do batelão.98-99). dito criativo. O jovem Luiz. Essa mesma memória também está fadada ao tempo e sua ação pode ser percebida quando questionamos quem somos de verdade. p. pois o presente é algo que nasce e morre ao mesmo tempo. tornou-se sócio de um porto de areia. 2011. comum à época. acumulando assim. o Lut. estamos perdendo as nossas referencias do passado. Segundo o autor Friedrich Sommer do instituto Martius – Stade. a genealogia da família Grassmann inicia-se no século XVIII por Joahnn Martin Grassmann. eram descarregadas na margem do Rio Pinheiros. mas meu interesse a priori parte de Henrique Grassmann que emigrou para o Brasil no ano de 1882. A missão de preservar e resgatar os passos que os homens deram no passado cabe a nós os homens do “presente”. O pesquisador precisa aguardar as ordens do tempo para poder prosseguir com sua pesquisa. É o poder da memória que nos diferencia e nos colocam numa posição que pode ser analisada como positiva ou negativa. natural de Blumenau. Frederico Grassmann. Santa Catarina. A areia era extraída manualmente. tem o poder de criar. O casamento proporcionou para eles 10 filhos que são: Heinrich Grassmann. Sua capacidade de destruição faz com que os homens fiquem atordoados e montando eternos quebra cabeças. Olga Grassmann. Margarete (Margarida) Grassmann. empreendedor. com muito trabalho e esforço. Frieda Grassmann e Paulo Grassmann (Sommer. Este homem. Charlotte Grassmann. que já passava pela retificação de 33 . Lina Grassmann.

seu curso nos seus 45 quilômetros de várzea sinuosa, passando para 27 quilômetros. 10

Não tendo muita experiência com olarias, pois segundo o seu neto Wilson Grassmann sempre se dedicou em trabalhar com agricultura (Grassmann, 2013, p.50). O jovem Luiz Grassmann percebendo a expansão e o dinamismo o qual vivia o Estado paulista, teve a feliz decisão de mudar de atividade, dando total atenção ás olarias fornecendo inúmeros tijolos para moradias, comércios e indústrias, principalmente no bairro de Santo Amaro. Em 1940 vende suas terras, localizada no bairro Chácara Santo Antônio para empresa Giroflex que vendia móveis para escritório, passando a morar no bairro da Vila Prel, localizada na Estr. do Campo Limpo, próximo ao bairro Jardim São Luiz na região de Santo Amaro.

Neste tempo um mercado promissor em expansão, Santo Amaro via crescer seu pólo industrial, e em 1942 era fundada a “Sociedade Eletro Mercantil Paulista - SEMP”, fabricante de rádios e “eletrolas”, na Avenida João Dias, 2476, indústria deste tempo áureo da expansão industrial paulista em Santo Amaro. Em sua ampliação do final da década de 1950, teve fornecimento de tijolos da olaria, e também forneceu os pontaletes da construção das pontes em arco da “The São Paulo Tramway Light And Power Company Limited”, ou simplesmente, Light, em 1941. 11

Luiz Grassmann nasceu em 19 de setembro de 1907 no bairro de Santo Amaro na Capital paulista, mais tarde casou-se com Barbara Nyari, vindo á falecer com 72 anos no dia 13 de novembro de 1979. O casamento permitiu a eles 5 filhos que são: Rodolfo Grassmann, Frederico Grassmann, Carlota Grassmann, Alberto Grassmann e Stefano Grassmann, onde somente Frederico, Rodolfo e Alberto Grassmann seguiram com os passos do pai em dar continuidade com o trabalho cultural nas olarias. Frederico Grassmann foi dos filhos que mais levou adiante o trabalho deixado pelo pai, construiu suas olarias no bairro da Lagoa e mais tarde começou arrendar algumas olarias dos irmãos Alberto e Rodolfo. No começo da década de 90 suas olarias deixaram de funcionar. Seu casamento proporcionou 4 filhos que seriam: Reinaldo Grassmann, Geraldo Grassmann, Carlos Grassmann e Sergio Grassmann (pai de Daniel Grassmann que colaborou com algumas informações deste trabalho), sendo que nenhum
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http://www.saopaulominhacidade.com.br/list.asp?ID=1674. Acesso em 13 de Fev. de 2013. Idem.

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deles seguiram com os passos do pai. Hoje o Sr. Frederico Grassmann tem 82 anos e ainda mora no bairro da Lagoa em Itapecerica da Serra. Alberto Grassmann também seguiu os passos do pai, onde juntos construíram mais duas olarias como apontado no capitulo anterior. Alberto Grassmann nasceu no dia 26 de março de 1936 e acompanhou o pai até seus últimos dias de vida, com o pai construiu mais duas olarias no bairro da Lagoa e passou arrendar a primeira olaria para seu irmão Frederico. Senhor Alberto possuía 3 filhos Luiz Alberto Grassmann, Wilson Grassmann e Oswaldo Grassmann. Por um destino trágico se acidentou no corte de madeira vindo á falecer no dia 28 de março de 1985, dois dias depois do seu aniversário. Com a morte do Sr. Alberto coube aos filhos, principalmente o mais velho Luiz Alberto Grassmann á decisão de seguir ou não com as olarias, mas infelizmente no final do ano de 1985 resolveram encerrar ás atividades. Rodolfo Grassmann seguiu pouco tempo com olarias, preferindo seguir com outras atividades, teve dois filhos Roberto e Reinaldo Grassmann, o mesmo continua vivo até os dias atuais, mas não foi possível saber de seu paradeiro. É importante o resgate do pioneirismo desses homens que grandemente colaboraram com o desenvolvimento tanto da capital paulista, principalmente no bairro de Santo Amaro como também no município de Itapecerica da Serra. Esses homens deixaram registrados na história desses dois municípios toda uma vida de muito trabalho e dedicação, daí á importância de se documentar todo seu trabalho. O Sr. Luiz Grassmann foi à raiz desse conhecimento cultural que ensinou tanto os filhos e consequentemente deixou na memória dos netos e bisnetos seu grande legado. Segundo seu neto Wilson Grassmann (2013) seu avô também contribuiu na construção do reservatório de água do Guarapiranga (Largo do Socorro) no inicio do século XX, onde se retiravam terra e mais terra com carroças de dentro do reservatório todas presas no lombo de cavalos. Hoje muitos utilizam o resultado daquele trabalho mais poucos sabem desses homens e dos animais sacrificados em nome do progresso. 12

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Morriam em torno de três cavalos por dia de exaustão, onde eram chicoteados até á morte.

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Um produto cultural, resultado de gerações passadas, perspectivandose um equipamento social, vivo e dinâmico, preservado na sua função original, a produção de uma arte, utilizável pela sociedade contemporânea e futura. Atendendo ao elevado valor patrimonial, histórico, antropológico, económico, cultural e testemunho da memória local e nacional, considera-se urgente a sua preservação e conservação (Antunes, 2007, p.9-3).

Um senhor muito sisudo e autoritário cuja presença se faz sentir por todos, os homens do passado nada mais são do que reflexos do seu momento, momento este de muito trabalho e de poucas oportunidades que retiravam da terra o alimento para a sobrevivência. São homens de pouco acesso não só aos bens materiais mas também ao conhecimento, aprenderam e ensinaram que o respeito se conquista pela força e não pela conversa. A palavra deve ser a virtude de um homem uma vez dada jamais seria revogada, afastando-se assim, qualquer ideia de indecisão e fraqueza.

Fatores biológicos, ambientais e culturais são as variáveis explicativas das diferenças individuais, que determinam os diversos tipos de personalidade básicos das culturas. Na tarefa de proceder a esse conhecimento, antropólogos e psicólogos auxiliam-se mutuamente, fornecendo dados que propiciam a compreensão de problemas comuns (Marconi e Presotto, 2008, p. 9).

Uma sociedade que traz do passado resquício de um sistema patriarcal autoritário, onde tudo deve ser girado em torno do chefe da família. O homem sustenta a família e é ele o grande responsável por coordenar e tomar decisões. Subjugada pelo marido, a mulher ainda é assombrada por um ranço do passado, pois sua atenção deve se virar para o lar que inclui cuidado com o marido e filhos, o que não significa que eram ausente de qualquer atividade nas olarias.

O pai e a mãe eram os chefes da casa, quando eles falavam todos acompanhavam. Eu lembro que apanhei muito da minha mãe e do meu pai uma vez só. Uma vez dada á ordem eles não voltavam atrás. Minhas irmãs quando levavam os namorados para casa, sentavam todos separados, lembro que meu pai tinha um relógio de parede e ele acertava o relógio no meio da sala para que todos vissem acertando o relógio esse gesto era um sinal para que todos fossem embora. (Camargo, 2013, p54).

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2013. onde hoje abrange os bairros de Vila das Belezas (Estr. p. como mostra as fotos 5 e 6 no capitulo anterior.55). segundo Grassmann de uma forma não tão precisa 50% dos homens bebiam naquela época e as mulheres eram as maiores vítimas porque eles “sentavam o osso” nelas (Grassmann. Segundo Grassmann quando levava os tijolos para um comprador alguns comerciantes ou qualquer outra pessoa percebendo que eram tijolos já faziam encomendas ali mesmo no local. Devido à demanda por tijolos foi necessário a construção de mais duas olarias. Com o crescimento da região de Santo Amaro no começo da década de 1940 muitos tijolos produzidos nas Olarias dos Grassmann foram levados para as construções no bairro de Santo Amaro. Para enfrentar a dureza do trabalho muitos homens recorriam à bebida que desencadeava ações violentas dentro da família. SEMP (João Dias. Wilson Grassmann Fonte: do autor. Foto 22: Sr. 2476). Moema e outras regiões. 2013. Camargo aponta que muitas mulheres eram vitimas de violência física e sexual. de Itapecerica). como não tinham tijolos suficiente no estoque foi preciso comprar tijolos de outro produtor para terminar o projeto. Morumbi.47). p. mas que infelizmente não se preservou nenhum documento de compra e venda de tijolos daquela época (Grassmann. Amaro Camargo e Sr. Grassmann e o Sr.A entrevista realizada com o Sr. 37 .

Para Camargo não era tão simples ser dono de uma olaria. 2013..52). 2013. os mesmos produziam certa quantia de tijolos que poderia variar de mais ou menos de 5 mil tijolos por dia. (.) Nós levantávamos quatro ou quatro e meia da manhã. porcos. quando eu falo animais falo os cavalos. desempenhavam outras atividades como trabalhos domésticos ou o cuidado com alguma criação. todos os dias jogávamos bola (Grassmann. meus pais tinham mais de vinte animais naquelas olarias. íamos para escola e voltámos meio-dia e meia. o mesmo tinha que ter um capital e ir à busca de um lote que reunisse condições necessárias para tocar a olaria. Ele afirma que geralmente os donos das olarias davam preferência para a contratação de famílias. A tarde era uma correria. cavalos. madeira e uma terra propícia para se fazer o tijolo. tirávamos o leite. ou seja. Muitos perceberam que o momento era propício para trocar de atividade. não via a hora de terminar. Mesmo atarefados os pais incentivam os filhos a irem à escola. se tivesse condições. quando o acordo se firmava o responsável tinha que dar condições para aquela família morar no local como água.54).. p. As crianças também tinham seus afazeres estabelecidos: se não realizassem nenhuma atividade nas olarias. já estava escuro e meu pai assoviava e nós estávamos jogando bola com o pessoal da olaria. tinha os burros da caçamba. 38 .O auge dos tijolos (1970-80) fez com que eclodissem novas olarias por toda região de Itapecerica da Serra. vacas entre outros animais. capital nessa nova atividade. Antes de contratá-las faziam um acordo sem necessidade de contrato. por exemplo. galinhas. Essa fase fez com que muitos inclusive aqueles que trabalhavam diretamente nas olarias ampliassem sua renda e seu patrimônio: os donos compravam novos terrenos investindo em novas olarias e os empregados realizavam o sonho com pequenos lotes para morarem. tinha os burros da pipa. tinha uma cana vassourinha que nós colocávamos na carroça dos cavalos e espalhávamos todas no campo para servirem de alimento para os gados e para os cavalos. o lote tinha que ter a matéria-prima necessária como água. casa e. luz (Camargo. Mesmo contribuindo para a realização das tarefas não significava que deixavam suas brincadeiras de lado. p. sabiam que a educação poderia colocá-los numa posição melhor que a deles. assim todos se dedicavam a uma mesma atividade. investindo assim.

dos Fracos de Estr. sapatos e até mesmo açúcar (Grassmann. Todo mundo tinha um porquinho. o milho. por exemplo. Meu pai. 13 Em 22/04/1986 o Município aprovou e promulgou a lei municipal nº399 que denomina a Estr. O milho plantado fornecia não só uma alimentação rica para a família. pois era tido como chave para a complementação de outros. 39 . p. como servia para alimentar os animais e a realização de outras atividades. por exemplo. Alberto Grassmann (pai de Wilson Grassmann). Grassmann afirma que seu pai levava um pequeno porco numa pequena venda próximo ao sítio. ambos trocavam os produtos. Essa agricultura não só fornecia os recursos para família como também poderia servir como moeda de troca. deixaram para seus filhos e netos não só um conhecimento técnico cultural de como trabalhar com as olarias. assim. não tinha energia (Camargo. o arroz diferente do lote do vizinho que fornecia feijão. a palha que alimentava ás vacas e o sabugo que você utilizava para passar á roupa.49). plantava milho e através do milho ele alimentava os porcos.A terra é a base de retira de todo o sustento. Só através do milho você tinha um monte de coisas fora bolo. tinham uma alimentação mais rica e variada. Eram homens simples de pouca escolaridade que conquistaram e sobreviveram com muito trabalho. mas paralelo às olarias desenvolveu-se uma pequena agricultura de subsistência que se completava com a criação de alguns animais. 13 Foi encontrado o nome de logradouro com o nome de Luiz Grassmann e de seu irmão Frederico Grassmann no bairro Jardim São Luiz em São Paulo. mas uma vida regrada em valores e honestidade. localizada numa zona rural de pouco comércio. as galinhas e as galinhas forneciam ovos a vontade para gastar. Um determinado produto jamais poderia deixar de ser plantado. as famílias não retiravam somente das olarias recursos para sobrevivência. uma galinha. pamonha. Hoje são lembrados com muito carinho e emoção não só pela família ou amigos. quando chegava à venda pesava o animal e do peso comprava o que faltava dentro da casa como roupas.49). por exemplo. uma vaquinha para tirar leite. quando um lote fornecia um determinado produto. Os porcos quando matava retirava óleo da sua banha colocava uns torresmos de porco dentro de umas latas de vinte litros. mas também pelo Estado que reconhece o valor destes homens na história do município. 2013. 2013. mas tudo pra família (Wilson afirmando com a cabeça). p. essa venda fornecia desde açúcar a sapatos.

A identidade é. um processo. no Bairro da Lagoa. encerrando uma superfície total de 2.gov. 15 As olarias representaram uma fase importante da história nacional uma arte deixada de herança pelos primeiros imigrantes que adotaram o Brasil como a mais nova pátria.sp. que tem seu início na altura do nº 495 da Estrada João Rodrigues de Moraes.50m² (dois mil. margeia o Rodoanel Mário Covas e termina em terras particulares. de propriedade de Frederico Grassmann.174 que revogava a lei municipal nº 1. 1º Fica declarada de Utilidade Pública. Assim.camaraitapecerica. Localizado no Bairro do Jardim Analândia.894. onde as gerações futuras não possam mais reconhecê-las como parte da sua identidade. que inicia na Estrada Abias da Silva.035 o nome Estr. Idem.153 a “Rua Rodolpho Grassmann (tio)". nem sem os sujeitos que a reclamam perante situações de adversidade ou a alteridade. para fim de ser desapropriada judicialmente ou adquirida mediante acordo a área de terras sem benfeitorias. mas com o advento da modernidade essas estruturas do passado vêm perdendo espaço a novas estruturas modernas.234. mas em várias identidades. No dia 18/03/2011 foi aprovada a lei 2. numa extensão de 600 metros. antes de mais. No dia 19/11/2012 a lei municipal de nº 2. Mais a preocupação maior daqueles que se ocupam com o legado humano está na preservação da memória. Em 23/11/2009 foi promulgada e aprovada pela câmara municipal à lei nº 2. Acesso em 12 de fev. 14 Art. de maio de 2008 que passou a se chamar Isabel Grassmann (tia). de 2013. uma construção cultural. situada à Estrada João Rodrigues de Moraes. com início na Estrada dos Francos e término na Estrada Abias da Silva. neste Município. No dia 24/03/1983 foi decretada a lei municipal nº 515 passou a denominar-se Luiz Grassmann (avô) a área de terras existentes no Bairro da Lagoa pertencente á Frederico Grassmann (Decreto Expropriatório nº 496 de 19 de janeiro de 1983). dos Grassmann. não se pode falar numa identidade pessoal ou cultural.Em 05/06/2000 o Município aprovou e promulgou a lei municipal nº 1. em que as sociedades atuais 14 15 http://www. localizado no Bairro da Lagoa. Uma cultura viva que as geração passadas colheram com muito carinho. duzentos e trinta e quatro metros e cinquenta decímetros quadrados) e assim descrito.aspx.277 fica denominado Rua Felisbina Grassmann (avó).br/Camara/Mesa. 40 . que não existe fora.

mexia-se com carvão ou vendia uma vaca e o tijolo começou a dar mais renda.Vila das Belezas. Ali em Santo Amaro perto da SEMP (Av. Isto porque a memória do passado e a sua consciencialização no presente projetam a comunidade na posteridade (Antunes.No tempo do meu pai uns cinquenta anos atrás (começo da década de 1960). cabe a ele conduzir esse processo. 41 . Capão Redondo naquela região. MOURA . Moema. WILSON . MOURA – Como era realizado o comércio dos tijolos? SR AMARO – No tempo do meu pai faziam-se vilinhas de blocos. WILSON GRASSMANN E O SR. AMARO . dando total responsabilidade ao Estado.. 2005:29). mas não seria muito cômodo para nós pesquisadores. TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA REALIZADA NO DIA 12/01/13 COM O SR. p. Wilson. Morumbi.Foram investindo mais nas olarias. AMARO CAMARGO. Cabe a quem a preservação dessas olarias e da identidade cultural? Essa pergunta poderia ser respondida de uma forma muito simples. João Dias) existiam vilas feito de tijolos. 2007. as três olarias construídas então foram construídas por questões de demanda? WILSON .10). educadores ou outros que reconhecem a importância da preservação? Acredito que a ideia de preservação não pode ficar somente a mercê do Estado.Quanto tempo atrás? AMARO . Segundo Antunes as sociedades atuais vem investindo na conservação e divulgação do patrimônio.. depois de vinte e cinco ou trintas anos para cá começou a surgir o bloco e aí diminuiu a saída (final da década de 80). MOURA . pois ele tornou-se fundamental para a definição de identidade de uma comunidade.Sr.reconhecem as múltiplas identidades fragmentadas e mutáveis dentro de si mesma (Magalhães.Ia para a região de Santo Amaro. MOURA .Qual era a finalidade desses tijolos? AMARO .No tempo do meu pai e do dele fazia-se tijolo. mas a nós todos resgatarmos uma parcela desse passado.

Naquele tempo quando viam que você descarregava alguns tijolos era como pizzaria. os construtores quando viam o caminhão cheio de tijolos já encomendavam.E por que levaram os tijolos daqui para lá? WILSON . Wilson na sua olaria (número dois) encontrei tijolos diferentes. compramos alguns tijolos daqui para montar as olarias de lá. MOURA .Quantos tijolos você levou para construir minha casa. WILSON . uns 40 mil? AMARO .Como o Amaro não tinha construído aqui ainda. mas bater tijolo não.Sim. Eu trabalhava só com um motorzinho que puxava á massa. mexeu com olarias? WILSON . Amaro quando ás olarias do senhor deixou de funcionar? AMARO . MOURA .Sim. A minha família e a dele.Não tinha muito depósito.O. MOURA . MOURA .Mais ou menos isso. marcados J.Era uma olaria daqui perto (casa do Sr. então comprei dele. AMARO . pois as olarias da família Amaro Rodrigues (pai do Sr. Amaro). Amaro o Senhor trabalhou diretamente nas olarias? AMARO . MOURA . Amaro) tal de Jorge. Essa parte ficou meio subentendido. 42 .Com trabalho manual. quando você descarregava lenha os pedreiros.Eu comprei os tijolos para construir minha casa das olarias dele.WILSON . pois as minhas já estavam paradas.S As olarias da família recebiam o sobrenome Grassmann. WILSON . MOURA .Toda a família do Sr.Parei no ano de 2001.Sr. compravam direto da olaria e do porto de areia.Sr. Amaro) já tinham olarias mais de 60 anos na região.Do ponto de vista histórico. WILSON .Sr. Trabalho manual. WILSON .Meu pai parou com a olaria em 78 e ai eu comecei a tocar. isso foi ontem.Depois de tanto mexer com tijolos. areia e pedra que começaram a construir um depósito (referindo-se a família do Sr. MOURA. sem qualquer tipo de maquinário? AMARO .

plantava milho e através do milho ele alimentava os porcos.Eu não. uma galinha. MOURA . MOURA . Só através do milho você tinha um monte de coisas 43 . Como ele já tinha o conhecimento de montar uma olaria ele casou-se com ela e construiu sua casa e a olaria no terreno dela. mas tudo pra família (Wilson afirmando com a cabeça).Todo mundo tinha uma hortinha. Os porcos quando matava retirava óleo da sua banha colocava uns torresmos de porco dentro de umas latas de vinte litros.Toda renda da olaria ficava na olaria? Sr. Você tirava da ponta a terra seca e mais embaixo o barro que misturava e dava á liga.O Amaro já. uma vaquinha para tirar leite.Mas existia uma agricultura? WILSON .Quando meu pai casou com minha mãe ele pesquisando o terreno percebeu que era um varjão (não encontrado o significado da palavra. pois se existia um motorzinho que puxava a massa essa olaria não desenvolvia um trabalho 100% manual como ás outras. nessa já existia um trabalho mais moderno.O próprio terreno fornecia a massa (aponta para um pequeno barranco como exemplo).Todo mundo tinha um porquinho. MOURA . AMARO .E você Sr. por exemplo. Meu pai.. Amaro e Wilson: não. Wilson? WILSON .Todo o sustento via da terra? Existia alguma agricultura familiar? WILSON . meu pai já amassava barro.Eu não. Você está falando em encher a pipa!? Aquilo era muito pesado não era brincadeira. MOURA . WILSON ...Nesse ponto há uma contradição. AMARO . Amaro afirmou que a sua ultima olaria ainda realizava serviços manuais. MOURA . Minha mãe assentou tijolo. depois com o dinheiro do lucro da olaria comprova um terreno e construía mais uma olaria..Essa hortinha e o cuidado com algum bichinho só ficava para á família? AMARO . O Sr. acredito que seja um local úmido que fornecia barro de qualidade). as galinhas e as galinhas forneciam ovos a vontade para gastar.

. WILSON . MOURA . Não existe mais nada lá o Rodoanel passou por cima.Quando ele veio de Santo Amaro pra cá ele já montou as olarias no Natália (bairro).No seu caso Sr.A primeira olaria é da década de cinquenta. AMARO .Mais ao centro tinha umas feiras que também se tinha de tudo arroz.Na media uns 4 mil tijolos por dia. batata. bolacha.Trabalhava. O avô do Wilson (Luiz Grassmann) também é bem antigo.Quantas olarias o pai do Sr. Meu pai matava um porco toda semana e levava na vendinha de um dito Bernardo.fora bolo. MOURA .O pai dele foi pioneiro (Amaro Rodrigues).. meu pai tinha um trator manivela. MOURA . Meu vô mexia com agricultura.Como era deixado esse conhecimento com ás olarias? AMARO .Tinha três: uma no bairro da Mombaça (parou de funcionar em 2001) e duas aqui no Bairro da Lagoa. meu pai que começou com olaria.Seu avô mexia com olaria? AMARO .E as outras? AMARO . não tinha energia. pamonha. 44 .Quando chovia atrapalhava um pouco. a palha que alimentava ás vacas e o sabugo que você utilizava para passar á roupa.Acho que tem uns 70 anos atrás. Tênis.E vendia. Wilson ás suas olarias forneciam por dia? WILSON . tinha? AMARO . mas tinha olaria que virava 6 mil. WILSON . Esse ano ele faria 100 anos. AMARO . MOURA .Não. pois todas as olarias compram dele. mas sempre tinha tijolo para retirar do forno.Wilson o seu avô foi o pioneiro? WILSON . WILSON . têm dois anos que ele faleceu.E o fator tempo? AMARO .Tinha que enfornar e desinformar.No armazém tinha-se de tudo. AMARO . MOURA . Wilson também trabalhava com milho? WILSON . quanto nós construímos a nossa já existiam as deles. Com o peso do porco comprava-se açúcar.Quantos tijolos Sr.No caso do Sr. uma roupa coisas que não tinha em casa. MOURA . MOURA .Os pais deixam de pai para filho. MOURA .

Hoje você não pode cortar mais qualquer árvore.Tem muito terreno de baixada aqui. MOURA .Quantos tijolos cada forno forneciam? AMARO .Os meus uns 48 mil. depois comprou do Gênico Moreira. o Bentinho e outros tinham olarias. AMARO .Por ser uma região de nascentes e de muita madeira ajudava? AMARO . MOURA .Ao que se devem tantas olarias em Itapecerica da Serra? WILSON . O caminhão dava umas 10 viagens com 5 mil tijolos.Meu tio. Tinha uma técnica para colocar os tijolos que nem eu sabia quem colocava eram os empregados. O terreno fornece muita matériaprima.Manuel Brito tinha.Isso. Quem mais tinha olaria? Pedro Barbosa. onde colocava na olaria para queimar. Os meus tios todos ficaram aqui. mas permitia você enxergar tudo por dentro. 45 . quando os tijolos espelhavam um vapor muito quente e perigoso saia. MOURA .Seu pai (Alberto Grassmann) trabalhou lá? WILSON . AMARO .Como eram colocados os tijolos? AMARO . Você cortar o barro aqui e não vale apena levar para Santo Amaro. Você tinha que deixar espaço entre eles (dando exemplo com dois blocos de 13 no quintal) uma pontinha de diferença do outro que se encontrava em cima. MOURA .As nossas levavam 6 dias de queima de manha e de noite.Ah! Sim. Você olhava pela boca do forno nem enxergava de tanta fumaça. AMARO .MOURA . sinal que o vapor estava varando os tijolos. AMARO . MOURA .Tinha o José Mariano.Só meu avô e meu pai. MOURA . Colocavam-se duas toras para aquecer o forno á noite e no terceiro dia colocavase mais um pouco de madeira e depois do terceiro dia apertava-se o fogo. WILSON . WILSON .Frederico Grassmann era? WILSON .Quando um forno estava queimando o outro tinha que estar sendo limpo e esfriando para receber outros tijolos.Qual era o tempo de queima? AMARO .Naquele tempo você poderia tirar qualquer madeira para desbravar e para fazer cerca.Contaram uma vez e diziam que só aqui na região existiam 90 olarias.

muitos utilizavam lamparinas ou no caso das olarias mais antigas do Pai do Sr.Tinha forno de 70 mil.MOURA . WILSON . WILSON . por exemplo. Tinha diversos tipos. o bom que comprava só de você. Tinha olaria que fazia a casa dos funcionários de Taipa (construção de bambu e barro). puxar luz e quando contratavam empregados pegava toda a família com mulheres e crianças (12 anos ou mais). automaticamente meu pai ganhava pela produção.Quando você começa com um tamanho de tijolo ia até o fim. dessa forma saia mais barato para construir uma olaria.Com essa diferença de tamanho não dava problema com a venda.Não. não era padrão? AMARO . Os filhos muito ajudavam os pais naquela época. AMARO .Não. Você precisa de um capital para construir uma olaria. Amaro e do Sr. 46 .Eu vendia naquela época de 30 a 50 cruzeiros o milheiro. Você tinha que construir a casa do empregado. chegando a colocar 95 mil tijolos. Meu pai arrendou a olaria para ele e retirava de 15 á 20 % do que era produzido.Naquele tempo era difícil até para ter um televisor.No tempo do meu pai era assim Wilson. onde pegavam água no poço manualmente. por ter o tamanho da forma. quem tinha era rico. sem luz.Á media que cada forno fornecia era 50 mil tijolos? AMARO . MOURA . AMARO . seu terreno dava feijão e o meu arroz nós trocávamos mercadoria. AMARO . Wilson um sistema que a própria força da água girava uma roda de madeira com uma correia que girava um dínamo que dava uma luz fraca. Meu tio diminuía o tamanho dos tijolos para lucrar mais. Lembrando que as olarias mais antigas não possuíam luz. o meu era mais vermelhinho e mais acabadinho. Eu tinha um vizinho que tinha e chegava a ter sessenta pessoas na casa dele para ver Irmãos Coragem. Você fazia um contrato com o pai (que não pagava nada) pelo quanto eles produziam (por milheiro).Era fácil construir uma olaria? AMARO .A primeira olaria (figura 7) quando meu pai arrendou para o tio Frederico ele fornecia 75 mil tijolos. MOURA .

o pipeiro e contando com as crianças uma média de doze pessoas.O barro era trazido com um burro puxando uma caçambinha ou um motorzinho. ninguém aguentava.O cara que cuidava do forno não dormia muito não quando terminava um forno. né Wilson? WILSON . AMARO . por exemplo. WILSON . MOURA . por exemplo. MOURA . Tinha o caçambeiro. Mas ele ia dormir. Era 47 . WILSON . o pipeiro jogava uma pá de terra. Eram seis dias de queima.Ah! Sim. WILSON . AMAROS . ele acordava duas horas da manha e via que o forno estava bom ele levantava ás quatro para ver de novo.O cara trazia o barro.MOURA . MOURA . logo tinha o outro.Era como uma betoneira. por exemplo. Era feito um buraco no chão onde fica o barro.Não. quando era nove ou dez horas já estavam parando.E a pipa? Como era? AMARO . Ele fazia outras atividades. AMARO . Mas tinha uma qualidade de barro. meio dia.Não adiantava levantar oito horas da manha para ir trabalhar com o sol escaldante.Cada banca ia duas pessoas.Muitos iam para escola depois do almoço. WILSON . AMARO .Era parecido com um barril de um metro e pouco de largura no meio tinha um buraco que descia a barra de ferro grosso que girava como um peão e no meio do ferro iam umas chapas de ferro que nós chamávamos de faca uma contraria á outra para misturar o barro. acordavam quatro da manha faziam o tijolinho e na hora do almoço tomavam um banho e iam para escola. Moura: mas ele só tinha essa função? AMARO .Varava á noite para manter o forno? AMARO . o barro preto que queimava um dia menos.Quantas pessoas trabalhavam numa olaria? AMARO .Naquele tempo Jeremias vou falar a verdade pra você.Mas o cara quando percebia que o forno estava bom ele dormia a qualquer hora.Ora por tarefa. a molecada trabalhava você não ouvia falar de febem. mais uma pá de barro e um pouco de água até dar á liga.Dependendo da banca até três.

MOURA .. Eu lembro que apanhei muito da minha mãe e do meu pai uma vez só. como um sanduiche. meus pais tinham 48 . Uma vez dada á ordem eles não voltavam atrás. uma roupa.É o melhor.Vou contar uma realidade com ás minhas irmãs. Nós levantávamos quatro ou quatro e meia da manha. tudo que elas faziam de segunda a sexta-feira nas olarias ia para casa.Eu apanhei muito do meu pai. uma sandália. cortava terra. tirávamos o leite. o barro chumbinho que é meio cinzento e o barro branco. eu quando não tinha barro já fiz muito de terra.Meio a meio. A tarde era uma correria.assim (dando exemplo com uma caçamba de um carro ao lado): faziam um buraco no chão e traziam uma viagem de terra que eu espalhava depois uma viagem de barro e eu espalhava por cima novamente.Tinha o barro preto. Tudo o que elas faziam no sábado e domingo era para elas. meu pai fala: “quem come trabalha”.E a qualidade do barro? AMARO . quando eles falavam todos acompanhavam. MOURA . pois o barro é muito forte já de terra dava. você não podia fazer só de barro.Nas olarias do Sr. elas compravam sapatos.O pai é a mãe eram os chefes da casa. Se tivesse alguns adultos conversando e nós simplesmente olhássemos ou passássemos perto (dando um exemplo de um carro parado próximo de nós) já era um motivo para olhar feio. AMARO . Quando você cortava. WILSON . lembro que meu pai tinha um relógio de parede e ele acertava o relógio no meio da sala para que todos vissem acertando o relógio esse gesto era um sinal para que todos fossem embora. Minhas irmãs quando levavam os namorados para casa.Argila é um bom material? AMARO . hoje é totalmente diferente. sentavam todos separados. Moura . íamos para escola e voltamos meio-dia e meia. AMARO . qual era o barro? WILSON .Barro preto. MOURA . Hoje os filhos não ajudam mais os pais.. WILSON . (Wilson).Vou falar pra você a molecada de hoje são mortos. Moura: A porcentagem para fazer o tijolo era a mesma? AMARO .Fale um pouco das relações familiares. barro e terra como um sanduíche.

mais de vinte animais naquelas olarias.Hoje quando eu levo lenha para por na caldeira para aquecer o bloco ele é feito nove horas e quando for duas (quatorze) horas ele já pode ser vendido.. MOURA .Quatorze. MOURA . tinha os burros da caçamba. Depois voltou a inflação só foi um ano só.E tinha ânimo para estudar. eu não podia falar que tinha aumentado se não eu poderia levar uma multa. MOURA .Quando foi o auge do tijolo? AMARO . 49 . comprei casa..Tínhamos. AMARO . tinha uma cana vassourinha que nós colocávamos na carroça dos cavalos e espalhávamos todas no campo para servir de alimento para os gados e para os cavalos. caminhão. já estava escuro e meu pai assoviava e nós estávamos jogando bola com o pessoal da olaria. AMARO .O cliente mais antigo que vinha pedir tijolo eu dava o preço de 300 mil cruzeiros quando vinha um cliente mais “pobrezinho” que pagava menos eu falava que estava em falta.Para nós foi quando o primeiro congelamento do Sarney.A turma que tinha dinheiro guardado tirou o dinheiro e colocou para produzir não tinha juros. eu cheguei a vender por mil cruzeiros. quinze metros. mas depois da morte de meu pai meu irmão assumiu á frente das coisas.Mas por quê? Não tinha mais demanda? WILSON . WILSON . WILSON . Quando congelaram os preços eu vendia 250 mil cruzeiros o milheiro e existia uma procura muito grande por tijolo.Poderíamos levar mais alguns meses á frente.Hoje nós vivemos dos aluguéis que conseguimos com ás olarias. O tijolinho não tinha inflação não tinha uma tabela para ele nós vendíamos por vários preços. não via a hora de terminar. AMARO . AMARO . terrenos. tinha os burros da pipa. todos os dias jogávamos bola.Quanto metro de lenha leva por semana? WILSON . O tijolo você trabalha trinta dias até ele ser vendido. WILSON .Mas naquele tempo já não tinha tanta demanda já tinha muito bloco. Wilson? WILSON: meu pai (Alberto) morreu em 1985 no final deste ano meu irmão mandou encerrar com tudo. quando eu falo animais falo os cavalos. MOURA .Quando as olarias deixaram de funcionar Sr.

depois chegou a comprar terreno. Wilson contando os relatos do pai sobre seu avô na construção da represa do Guarapiranga (Largo do Socorro). Wilson relata o acidente que houve com um dos filhos do empregado numa explosão de gasolina e o grande sofrimento do pai ao saber que o filho tinha morrido. O pessoal chegava para trabalhar e não tinha nem mudança para descarregar nem o que comer.WILSON . A entrevista termina com o Sr.O tijolo ajudou muita gente. Ao falar da morte do pai (28 de agosto de 1985 dois dias depois do seu aniversário).Eu tinha dezenove anos.Na história das olarias as décadas de 70 e 80 foi o auge dos tijolos meu pai e o dele (Wilson) ganharam dinheiro. mas exalta sua humildade e os bons valores deixados. onde retiravam terra com carroças no lombo de cavalos. segundo ele morriam dois a três cavalos por dia de exaustão que eram chicoteados até á morte. WILSON . Ele fala do jeito rude do avô. ele chegou a estocar um milhão de tijolos.Qual era a nacionalidade do seu avô? WILSON . WILSON . acidente este causado pelo corte de árvores se emociona e termina falando da simplicidade do mesmo no seu cotidiano. 50 . MOURA .Era alemão. Nesse trecho.Meu tio (Frederico) chegou a comprar tijolos e a estocar. Nesse momento da entrevista (1:40:00) o Sr. Muitas mulheres estavam sobe o julgo do homem sofrendo agressões físicas e sexuais. O pessoal das olarias (referencia aos homens) 50 % bebiam muito ás mulheres que sofriam com eles porque eles “sentavam o osso”. Ele conta que os filhos dos empregados cresceram juntamente com eles e mesmo que o pai era patrão tinham uma boa relação com eles. AMARO . mostra o poder que o homem tinha dentro do lar.

retirada do depoimento da própria família. Quando o assunto se volta para o processo de produção o barro como matériaprima primordial apresenta dentro de uma escala uma diversidade na sua qualidade. Os tijolos estudados na área de pesquisa permitiu concluir que tijolos com substâncias arenosas possuem uma coloração mais amarelada se diferenciando do 51 . o que me permite afirmar que o tijolo e a olaria devem passar por uma análise em particular. por exemplo. informação essa. Ao analisar os tijolos produzidos nas olarias da família Grassmann não foram encontradas substâncias arenosas nos mesmo. onde grupos de indivíduos resolvem ariscar seus recursos nessa mais nova atividade. dando atenção aos projetos voltados para sobrados e prédios o que permite novas técnicas construtivas de melhor resistência.CONCLUSÃO Após longos dias de dedicação essa pesquisa chega ao fim tirando as seguintes conclusões: O fator geográfico do Município de Itapecerica da Serra esclarece a quantidade de olarias que passaram a surgir nas décadas de 1970/80. Recursos em abundância atrelado a uma nova realidade de crescimento econômico e urbano da capital paulista. mas ao analisar o revestimento da olaria foram encontradas substâncias provenientes de rios e lagos. As olarias representaram no cenário nacional uma fase que antecede as construções modernas. Uma melhor investigação do tijolo ou da olaria permitiria desvendar recursos provenientes da área de estudo. O patriarca Luiz Grassmann é o exemplo de investidor que preferiu mudar de atividade mesmo sem experiência com o labor do barro. os dois tijolos analisados me permitiram entender que um exame laboratorial mais preciso permitiria uma melhor compreensão de sua qualidade. Com o crescimento populacional e das cidades o homem vê a necessidade de uma melhor reutilização do espaço. apresentando na sua superfície pequenas imperfeições. o bloco faz com que as cidades se desenvolvam também para cima. O desenvolvimento da área construtiva. Tijolos produzidos por barro de qualidade inferior tende a não resistir no processo de queima.

mas tudo indica que a qualidade do barro é o fator que determina sua coloração. ou melhor. constrói e se interagem.  Não houve uma organização adequada nos tijolos. O mundo pós-moderno com suas tecnologias conquistou todas as esferas da vida humana sendo responsável pela anulação da memória local ou saberes deixados por gerações passadas. uma investigação laboratorial certamente apontaria restos de plantas ou raízes até mesmo pelos de animais. As olarias correm o risco de desaparecer com os anos vindouros. pois é nele que se planta. Essas imperfeições fornecem dados que podem ser analisados das seguintes formas:  Falta de homogeneidade da massa. colhe.argiloso ou barrento que mantém uma coloração bastante avermelhada. Alberto Grassmann me permitiram inferir que o terreno é bastante argiloso tendo como qualidade reter uma grande quantidade de água. não houve quantidade considerável de barro e terra na formação do tijolo podendo apresentar rachaduras. O tijolo é um importante material de análise o que permite ao pesquisador compreender não só a qualidade e tipo de solo da área pesquisada como também entender a diversidade de plantas e animais que compartilham o mesmo espaço dos grupos humanos. a queima foi incompleta. Os tijolos produzidos pelas olarias do Sr. Não foi possível verificar o fator determinante da coloração. Como apontado anteriormente as olarias representaram uma fase intermediária que sucede a casa de taipa e antecede as construções modernas feitas de bloco. quanto mais se 52 . ou seja. pois quanto mais aumentam os mecanismos de produção. O processo de queima é outro importante processo em que se permite visualizar imperfeições nos tijolos. fragilidade ou ondulações no tijolo. Esse solo tem uma grande importância para todos e em todos os sentidos. ou seja. tendo como consequência imperfeições nos tijolos. Sua retenção de água explicaria a intensa vegetação do espaço tanto rasteira como árvores bastante altas.  O forno não mantém uma temperatura constante ou adequada apresentando fuga de calor.

Ha necessidade de uma política voltada para a preservação destas olarias como também dos saberes e da memória daqueles que trouxeram do velho continente não só o corpo. mas tem muita vontade de aprender tem como proposta a musealição desse patrimônio histórico.aperfeiçoa as técnicas construtivas. a pesquisa apresentou e concluiu que esses saberes foram passados muito indiretamente. 53 . A memória também tende a desaparecer com as olarias. mas todo um conhecimento. Assim como as antigas construções vem perdendo espaço para novas construções. mais chances há de desaparecer saberes das construções anteriores. enquanto os filhos que vivenciaram. mas não trabalharam diretamente no processo guardam nas suas memórias os procedimentos já os netos poucos se identificam com esses saberes. Assim esse autor que pouco sabe. pontes ou rodovias como é o caso de duas olarias apresentadas no corpo desse trabalho. a memória caminha para o mesmo sepultamento.

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