You are on page 1of 26

ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N.

3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins

“Omnes et Singulatim”:
Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault∗

“Omnes et Singulatim”:
Government and pastoral inside of critical of the reason politics of Michel Foucault
Rone E. dos Santos Pós-Graduando em Filosofia – IFAC/UFOP Mestrando em Filosofia Social e Política – FAFICH/UFMG Correio eletrônico: roneeleandro@yahoo.com.br

Resumo: O presente texto tem por objetivo demonstrar a análise empreendida por Michel Foucault sobre a questão do governo, de maneira central sobre as reflexões efetuadas em Securité, Territoire, Population. Para Foucault, governar não é agir de forma a tornar o Estado soberano e centralizado, mas é antes uma espécie de “pastoral” que, usando uma variedade de técnicas de controle, visa dirigir, sustentar e conhecer a fundo “todos e cada um” dos indivíduos. O “governo pastoral” é fruto da aproximação foucaultiana entre o pastorado cristão e uma nova maneira de governar surgida entre os séculos XVII e XVIII e denominada através de neologismo “governamentalidade”, onde o domínio de ação é calculado graças a uma série de instrumentos que compõem a nascente tecnologia de governo chamada polícia. Palavras-chave: governo, poder pastoral, crítica da razão política, estado de polícia. Abstract: The objective of this text is to show the analysis undertaken by Michel Foucault about the question of the government, in central way about the reflections effected in Securité, Territoire, Population. To Foucault, ruling is not to act using a

∗ Texto originalmente apresentado, com algumas modificações, sob forma de comunicação no III Colóquio Franco-Brasileiro de Filosofia da Educação: Foucault 80 Anos, realizado pelo Programa de PósGraduação em Educação da UERJ, Rio de Janeiro, de 09 a 11 de outubro de 2006.

1

Rone E. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault

variety of control techniques. It aims at direct, to support and have a thorough knowledge of “everybody and each one” of the individuals. The “pastoral government” is the result of the pastorado foucaultiana approach between the Christians and a new way of governing. It appeared between XVII and XVIII centuries, the one called through the neologism “governmentality”, where the domain of the action is calculated thanks to a series of instruments that compose the government technology rising called policy. Key-words: government, pastoral power, critical of the reason politics, policy state.

Michel Senellart, em texto escrito com o intuito de situar o curso Securité, Territoire, Population (1977-1978) no conjunto da obra foucaultiana, afirma que já no curso Les anormaux Michel Foucault falava sobre a problemática da arte de governar. Nesse curso de 1975, foi estabelecida uma oposição entre o modelo de exclusão imposto aos leprosos e aquele referente à inclusão dos pestilentos. Além do mais, segundo Senellart, Foucault afirmava que desde a Idade Clássica ocorreu uma inventiva profusão de tecnologias do poder, técnicas estas aplicadas em diversos níveis: no aparelho administrativo do Estado, nas mais diversas instituições sociais (prisões, casernas, hospitais, escolas, etc) e na família (Senellart, 2004: 403-404). Nesse sentido, faz-se necessário entender o que significa a noção de governo dentro do pensamento foucaultiano. Sobre o que está falando Foucault quando reflete e escreve sobre a ação de governar? Governo tem um sentido burocrático-administrativo ligado a um poder estabelecido como Estado de Direito nos moldes de um contrato legal ou refere-se a algo mais amplo e complexo que extrapola qualquer

2

mas designava a maneira de dirigir a conduta dos indivíduos ou dos grupos: governo das crianças. Senellart informa ainda que no curso Le pouvoir psychiatrique. digo que não se trata apenas de fazer uma análise da questão governamental pela via do poder soberano e centralizado ou do Estado de Direito. muito menos de construir uma teoria geral sobre poder e governo. Foucault não restringiu sua análise sobre o governo. 1995a: 244. algo muito mais amplo e complexo. Pelo contrário. ministrado no Collège de France entre 1973-1974. dos doentes. tal como o termo era pensado no século XVI. não significando total desvinculação dos métodos de governo político estatal.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. ele estendeu a reflexão até às “técnicas de governo das almas inventadas pela Igreja em torno do ritual da 3 . mas modos de ação mais ou menos refletidos e calculados. das almas. Ele não recobria apenas formas instituídas e legítimas de sujeição política ou econômica. sustentar e conhecer a fundo “todos e cada um” (“omnes et singulatin”) dos indivíduos. Ele [o governo] não se referia apenas às estruturas políticas e à gestão dos Estados. considerando apenas as práticas disciplinares. Na verdade. De acordo com Foucault. acontecendo mais na ordem das relações? Logo de início. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins legitimação judiciária e contratual. 1994c. porém todos destinados a agir sobre as possibilidades de ação dos outros indivíduos (Foucault. dirigir. das famílias. na concepção foucaultiana percebo que se objetiva uma investigação mais pontual e analítica onde a relação entre poder político e sociedade desenrola-se sob a forma de técnicas de vigilância e controle voltadas para os indivíduos. governar significa conduzir. 237). das comunidades. de modo a conduzi-los de maneira contínua e permanente.

Mas. com Foucault objetivou retratar uma mentalidade política Príncipe inteiramente nova. Veiga-Neto. Concordo com a argumentação de A.Rone E.. escondida na imensa e monótona coleção de textos minuciosos conselhos administrativos destinados ao (Foucault. 2002: 17). Parto de seu exame sobre o pastorado cristão. Ramos do Ó. na perspectiva foucaultiana. para Foucault. como isso ocorreu? Quais foram os elementos que possibilitaram esta união de noções tão distintas como as práticas religiosas de ascese e confissão com procedimentos governamentais e políticos? No presente artigo. Procuro também verificar como a partir de uma crise do pastorado se construiu após o século XVI uma prática nova de política que Foucault definiu pelo conceito de governamentalidade1. como também governamental. reflito sobre o caminho analítico percorrido por Foucault para entender melhor como se estruturou a noção de governo em seu pensamento. A técnica pastoral (ou pastorado) era considerada tão importante que foi chamada pelos padres antigos de “arte das artes”.. “ciência das ciências”. de como ocorreu o desenvolvimento nos primeiros séculos do Cristianismo de uma forma de poder que buscou (e busca) conhecer profundamente a consciência e as almas dos homens para melhor governá-las. 2004: 404). em seu artigo “Coisas de Governo. Através desse neologismo. são correlatos de governamento. Assim. Faço uso deles quando me refiro à questão da ação ou da arte de governar dentro do âmbito da crítica da razão política de Michel Foucault.”. 2005: 15). As Os termos governamentalidade. é do casamento entre a disciplinarização dos corpos e o governo das almas que nasceu a concepção moderna de política. 2004: 93. onde conclama a “ressurreição” da palavra governamento na língua portuguesa com o intuito de “tornar mais rigoroso e mais fácil o duplo entendimento que. 1 4 . é possível atribuir à palavra governo” (Veiga-Neto. Procuro ainda entender como se articularam e se entrelaçaram as noções de pastorado cristão e o conceito de governamentalidade. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault penitência” (Senellart. controlá-las e conduzi-las à salvação.

controles e castigos. seja no sentido espiritual de governo das almas ou no sentido de imposição de um regime para um doente. num sentido material. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins técnicas pastorais são percebidas por Foucault como as antecessoras das técnicas próprias da governamentalidade. esta nova técnica governamental criada nos século XVII e XVIII. aos cuidados para com um indivíduo e à salvação que se lhe assegura. vigilância. num sentido político. “governar” pode referir-se à “condução de alguém”. a partir da articulação entre pastorado e governamentalidade Foucault. Tomando significações de ordem moral. à distribuição de alimentos. sendo assujeitado por redes contínuas de obediência. dirigir a si mesmo sobre um caminho seguindo uma rota ou. dentro da análise política desenvolvida por 5 . além de subjetivado pela imposição de dizer sempre a verdade sobre si a outrem. Foucault apresenta uma série de sentidos históricos atribuídos à palavra governo. A partir do século XVI. O “bom pastor” e o governo das almas Na quinta lição do curso Securité. já que ambas buscam a constituição de um sujeito específico que constantemente passa pelo crivo da analítica dos méritos e punições. Neste sentido. Governar pode significar. 2004: 124-125). ainda verificarei o papel fundamental desempenhado pela polícia. Population. manter uma quantidade de alimentos para o melhor gerenciamento de uma cidade durante um tempo (Foucault.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Territoire. percebe-se que a noção de governo cobre um largo domínio que engloba noções referentes ao movimento e ao deslocamento das pessoas no espaço.

Nota-se então que os possíveis campos de ação do governo revelam que. assim como.Rone E. analogamente. sob a forma da idéia e da organização de um poder de tipo pastoral. mas sim com o que concerne aos problemas relativos à cidade. 2004: 126). o poder pastoral. sob a forma da direção de consciência. pois para estes povos o governante não deve se preocupar com os problemas específicos de cada indivíduo. Ora. na concepção grega estes são governados apenas indiretamente. Quanto à primeira forma de governo dos homens. em toda a extensão territorial na qual o Cristianismo estabeleceu sua influência no Oriente e no Ocidente. mas. principalmente. 2004: 127128). 2004: 127). sobre os corpos. A idéia de um governo dos homens teve sua origem no Oriente précristão e. Segundo Foucault. Essa identificação pastor-rei e rebanho-homens é encontrada 6 . os indivíduos ou as coletividades. É por isso que uma das imagens que mais aparece na literatura grega é a que associa o rei ou o governante ao timoneiro ou piloto de um navio. “E isso sob duas formas: primeiramente. não se governa uma estrutura política. em primeira instância e acima de tudo. posteriormente. Certamente esta idéia de governo não é grega nem romana. não se governa um Estado ou um território. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault Também se refere ao domínio sobre si e os outros. o que o timoneiro governa é o navio e não os marinheiros. este é etimologicamente o poder que o pastor exerce sobre o rebanho. o que se governa são os homens. Para Foucault. o rei governa a cidade e não os cidadãos. pois vivem e habitam a cidade (Foucault. sobre as almas e as maneiras de agir (Foucault. e em segundo lugar. e este último à cidade. da direção das almas” (Foucault.

dirigia. 7 . que era incapaz de lhe assegurar alimento e de o movimentar sobre a terra (Foucault. acabava por usar de seu povo em seu proveito próprio. O mau pastor era o rei negligente que. as que se formaram no ocidente europeu desde a Antiguidade foram capazes de criar inúmeras maneiras de governo político. 2004: 129). O mau pastor era aquele que dilapidava o rebanho. O bom pastor era aquele que conduzia.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. encontrava alimento e reconduzia o rebanho sobre a terra. pois se tratava de um título reservado a Deus. Dentre todas as sociedades surgidas ao longo da história. Era através da atuação do pastor-rei e do destino que tivesse o rebanho-súditos que se conhecia e se distinguia o bom pastor do mau pastor. O rei era aquele que recebia das mãos de Deus o rebanho de homens a ser conduzido. contínuas e paradoxais entre monarcas e súditos. entre governantes e governados. o mais interessante é destacar o desenvolvimento de uma inusitada tecnologia de poder que tratava os homens como um rebanho guiado por alguns pastores. além de continuamente efetuarem modificações em suas estruturas jurídicas. em povos como os egípcios. ao contrário de garantir a subsistência de seu povo e de lhe garantir a vida plena. mas principalmente entre os hebreus. Criava-se assim um conjunto de relações complexas. Nenhum rei hebreu (à exceção de Davi) recebia o título de pastor. assírios e mesopotâmios. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins com freqüência no período antigo. No entanto. de tal maneira que a relação pastor-rebanho adquiriu uma conotação quase que exclusivamente religiosa. Em nenhum povo antigo a temática do pastorado foi tão intensa quanto entre os hebreus. o dispersava.

O poder pastoral era exercido sobre uma multiplicidade de homens e não sobre um território. Ele visava todos e cada um (“omnes et singulatin”) em sua paradoxal equivalência. era estranha para as estruturas do Império Romano e da cidade grega. e não uma unidade superior que compõe um todo. o pastor se via diante de um paradoxo. Um olho sobre o rebanho e um olho sobre cada uma em particular. 2004: 132). O poder pastoral era ao mesmo tempo totalizante e individualizante já que o pastor devia cuidar de todo rebanho e em particular de cada uma das ovelhas. Era preciso todo o cuidado para com a totalidade do rebanho. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault No exercício de condução do rebanho. estar disposto a sacrificar todo o rebanho pela vida e salvação de uma só das ovelhas. Foucault lembra a existência de diversas referências à temática pastor-rebanho entre os gregos que possibilitam uma identificação com a relação entre soberano ou responsável político e seus súditos ou cidadãos. como por exemplo. Eis o desafio. na 8 . sacrificar a si mesmo para salvar o rebanho. Esta idéia de exercício do poder. Mais do que isso. o paradoxo moral e religioso do pastor na tradição hebraica que será a problemática cristã do pastorado: sacrifício de um pelo todo e sacrifício do todo por um (Foucault.Rone E. “omnes et singulatin”. Apesar disso. mas também era preciso cuidar especialmente de cada uma das ovelhas. Era um poder aplicado sobre um conjunto de elementos heterogêneos e não sobre uma unicidade coesa e superior como a cidade. 2004: 133). Além de conduzir todo o rebanho e cada uma das ovelhas de forma particularizada. de maneira de governar. o território ou o Estado. o pastor devia estar disposto a se sacrificar por eles. segundo Foucault (Foucault.

integrado a outros dispositivos e instrumentos de poder. o poder pastoral foi deslocado. o bom magistrado é considerado como um pastor e ser bom pastor significa ser o magistrado ideal.C. Foi nesse momento da institucionalização de uma religião nos moldes de uma Igreja que se começou a estruturar um dispositivo de poder sem par na história humana. Contudo. O fato de Platão ter dedicado uma longa reflexão n’O Político sobre esse tema serve como prova da importância da discussão sobre o pastorado no seu tempo. transformado. Foucault diz que a temática pastor-rebanho teve seu auge em um processo único na história. a República. raridade quebrada por uma exceção de peso. do século II/III d. momento em que uma religião. até o século XVIII. Durante todo esse tempo. logo essa metáfora se tornou rara no vocabulário político clássico. em textos de tradição pitagórica e no vocabulário político clássico. principalmente o Crítias. isso porque tipologia. mas nunca totalmente abolido. O próprio Foucault afirma poder estar equivocado ao estabelecer do poder o século XVIII como sua limite do desenvolvimento pastoral. o pastorado como modelo e matriz de procedimentos de governo dos homens não começou com o cristianismo. não cessou de se desenvolver. Nestes. Mas. as Leis e O Político. como os textos de Isócrates. Dispositivo que durante quinze séculos.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins Odisséia e na Ilíada. uma comunidade religiosa se constitui como Igreja. os textos políticos de Platão. o cristianismo foi o principal difusor do pastorado. Herdeiro direto da tradição hebraica. organização e funcionamento são característicos de um poder e de uma forma de governo da qual não estaríamos ainda livres. ou seja. 9 .

nem simplesmente como uma 10 . Mesmo o movimento da Reforma Protestante. as reflexões efetuadas não o tomam apenas como uma instituição simplesmente necessária. As diversas guerras que ocorreram no mundo cristão ocidental desde o século XIII até o século XVIII tiveram em sua maioria o poder pastoral como estopim. E no fundo. Apesar da inexistência de um minucioso estudo histórico sobre o pastorado. buscou retomar seu pastorado reforçando a hierarquia e aumentando a centralidade do poder. essas guerras de religião ocorriam para saber quem tinha o direito de governar os homens. 2004: 154). A reflexão levantada por estas revoltas acabou incitando uma profunda reorganização do poder pastoral. Múltiplas foram as revoltas. Foucault afirma que todas as grandes revoltas em torno da temática pastoral giram em torno do conhecimento de como se vai ser governado e por quem. intensidade e profundidade com que foi implantado o poder pastoral no Ocidente cristão está na verificação das numerosas tensões que provocou em diferentes épocas e países. Segundo Foucault. seja contra ou a favor dele. Na sua visão. de seus diferentes tipos de análises e saberes (Foucault. O pastorado protestante destacou-se por ser meticuloso e mais flexível que o pastorado da Igreja. das doutrinas. Esta.Rone E. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault Um modo de medir a importância. muitos foram os estudos realizados tendo como enfoque a história das instituições eclesiásticas. batalhas e guerras que foram deflagradas tendo como motivo o poder pastoral. através do movimento da Contra-Reforma. crenças e práticas religiosas. das técnicas por ele empregadas. lutas. acabou formando sua própria estrutura pastoral. que foi uma revolta contra o pastorado exercido pela Igreja Católica. de seu desenvolvimento. faltaria efetuar uma história do pastorado.

a pastoral cristã faz uso de diversas práticas que vão desde o exame detalhado da consciência até a confissão das faltas e pecados mais escondidos da alma.. no Japão. ‘epistemè epistemôn’. a fazer aparecer sua subjetividade e para estruturar a relação que ele tem consigo mesmo e com sua própria consciência” (Foucault. Tomemos como exemplo São Gregório Nazianzeno.. mas também de modo a o conhecer. um “regimen animarum”. “um governo das almas”. Foucault afirmou que o desenvolvimento do poder pastoral ocorreu ao longo da Idade Média no interior das complicadas relações da sociedade feudal. proferida em abril de 1978. de caráter filosófico. o governo das almas e o cuidado para com elas. isto é. Na conferência A Filosofia analítica da Política. foi com a Reforma protestante e a Contra-Reforma católica no século XVI que seu desenvolvimento se fez mais intenso. Esta relação realiza-se de si para consigo mesmo numa reflexão que se estrutura sobre a busca da 11 . 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins coleção de prescrições obrigatórias a uns e permissão de privilégios a outros. a o descobrir. um “regime das almas”. em Tókio. uma reflexão. Para realizar a direção de consciência. Esta definição de Gregório refletirá no século XVIII sob a forma de uma “ars artium”.) não somente para o obrigar a agir de tal ou tal maneira. 2004: 154). pode-se dizer. a ‘arte das artes’. tem-se feito uma reflexão teórica sobre o pastorado. Este bispo católico foi o primeiro que “definiu esta arte de governar os homens pelo pastorado como ‘technè technôn’. 1994a: 548-549). Contudo. a ‘ciência das ciências’” (Foucault.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. O poder pastoral buscava tomar por encargo cada indivíduo em particular “(. Desde o início do cristianismo primitivo.

o cristianismo possui um segundo sentido confessional. 1994e: 805). ou seja. o poder pastoral conseguiu se manter como a forma de governo dos homens durante toda a Idade Média. que reconheça suas faltas.Rone E. no sentido de que investe na missão de conduzir os homens a uma “vida eterna” e impõe uma série de obrigações e preceitos de verdade. Os movimentos dissidentes enfrentados 12 . admita suas tentações. Na verdade. O cristianismo além de ser uma religião de salvação. zela por ser ao mesmo tempo confessional. procuro pensar como o poder pastoral se re-significou e se expandiu de um sentido estritamente religioso e moral para uma concepção político e social. Além de exigir uma fé numa verdade revelada. Esta verdade se esconde nos discursos que cada um é obrigado a pronunciar sobre si mesmo.. localize seus desejos. contra si mesmo” (Foucault. “(.. seja aos outros membros da comunidade. cada um deve em seguida revelar essas coisas seja a Deus.) que se empenhe em descobrir aquilo que passa em si mesmo. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault verdade de si. dogmas e leis canônicas. conduzindo desta maneira a um testemunho. público ou de caráter privado. pois requer que cada um dos indivíduos saiba quem é. procurarei discutir agora como se estabeleceu no limiar da modernidade a crise do pastorado. Uma vez apresentado o panorama do desenvolvimento da noção de pastorado como o foi delineado por Foucault. Crise do pastorado e a governamentalidade Apesar de ter enfrentado diversos movimentos contrários.

Ao contrário do que se poderia pensar. Contudo. 2004: 197). Uma outra questão que tomou grandes proporções. Por outro lado existiram problemas de 13 . Não somente ocorreu um aumento do número de condutas de devoção e controle espiritual.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins pelo pastorado foram desde aqueles criados por populações em via de cristianização que não aceitavam serem cristianizadas até aqueles deflagrados dentro do próprio pastorado. do mesmo modo que sua extensão sobre o plano temporal. Na verdade. problemas ligados a seus bens e propriedades e à educação de suas crianças (Foucault. intensificandose a tal ponto que passou a ser um foco constante de discussão foi o problema da condução. Os debates que surgiram buscaram resolver questionamentos do tipo: como conduzir a si mesmo do melhor modo possível? Como conduzir as crianças? Como conduzir da melhor forma as famílias? Questões como estas estão ligadas à conduta privada e ao governo da ordem do particular. o que ocorreu foi uma intensificação do sistema pastoral sob uma roupagem religiosa. Mas. 2004: 235). o que mais chama a atenção é que no início da Modernidade. como os movimentos que surgiram contra a obrigação da confissão imposta após o Concílio de Latrão em 1215 (Foucault. como também aconteceu um estreitamento das relações entre as pessoas e seus diretores espirituais. a crise do pastorado não acarretou o seu desaparecimento. importa para a análise de Foucault (e para o presente texto) a forma como o pastorado entrou em um processo de crise e de que modo ele pôde se espalhar e tomar a dimensão de uma governamentalidade. o pastorado tomou sob seu encargo questões relacionadas à vida material e temporal dos indivíduos.

na era das direções. Segundo Foucault. “Com o século XVI se entra na era das condutas. tarefas estas referentes à condução das almas. passando pela natureza e o trabalho pastoril (Foucault. na era dos governos” (Foucault. O soberano governaria bem se seguisse o continuum teológico-cosmológico que vai de Deus ao pai de família. Referindo-se a São Tomás de Aquino. O que de fato aconteceu foi uma intensa proliferação generalizada das questões e técnicas da condução. 2004: 236). O primeiro dizia respeito a que tipo de racionalidade deveria ser aplicada no governo dos homens. A partir do século XVI. não ocorreu uma passagem do pastorado religioso para outra forma inteiramente nova de conduta e direção dos homens. como o pastor conduz suas ovelhas e como o pai cuida de sua família. É precisamente este continuum apresentado por Tomás de Aquino e rompido no limiar do século XVI que durante toda a Idade Média justificou o governo dos homens pelo rei. O soberano deveria exercer o governo de três formas: como Deus governa o mundo. o soberano político começou a tomar sob sua responsabilidade novas tarefas que antes não eram suas. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault condução e governo da ordem pública que também tiveram sua intensificação neste período. surgiram dois novos problemas para o soberano. O ponto mais debatido pelos teóricos da esfera da política no fim do século XVI e início do século XVII “é justamente a busca e a definição de uma forma de governo que seja 14 . Após assumir o novo encargo. através de analogias. O segundo questionava quais seriam os domínios e objetos específicos sobre os quais o governo dos homens poderia e deveria ser aplicado.Rone E. quais os caminhos o governante deveria tomar para governar. 2004: 239). Foucault diz que este já no século XIII apontava.

estabeleceu a ampla discussão sobre o governo dos Estados pelos príncipes. Em segundo lugar. 2004: 240). é a arte de governar” (Foucault. Em outras palavras. Como Foucault enfatiza. Aquilo que o dirigente de um Estado deverá fazer “é mais que a soberania. A emergência da busca pela especificidade do nível e forma de governo pode ser ilustrada pela problematização da coisa pública (“res publica”) no fim do século XVI. Por último. ela retomou a discussão sobre o governo de si ao reatualizar o estoicismo clássico através da discussão sobre a noção de conduta − basta tomar como exemplo o pensamento de Michel de Montaigne (1533-1592). e de forma mais intricada. pode ser traduzido por um fenômeno de governamentalização da coisa pública. ela reativou o problema do governo das almas com as disputas pastorais entre católicos e protestantes. o soberano deverá fazer algo mais do que simplesmente exercer a soberania ou desempenhar indivíduos. ele deverá ser um artista especializado na arte de bem governar um Estado e um conjunto de 15 . Primeiramente. a temática do governo colocou no centro do debate a questão do governo das crianças como um problema pedagógico. Como visto. como ser governado. é algo diferente do pastorado. Dessa forma. 2004: 242). a temática do governo ressurgiu no século XVI retomando antigas questões e trazendo novos problemas para o debate. que deve buscar seu modelo. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins específico em relação ao exercício da soberania” (Foucault. como governar os ações de pastoreio. a dificuldade a ser resolvida pode ser expressa nas seguintes questões: “como se governar. e alguma coisa que não tem modelo. Em terceiro lugar.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. é um suplemento em relação à soberania.

O outro processo diz respeito a um tema diametralmente diverso. 2004: 102. 1979: 285). pelo conjunto de instituições. Foucault faz o inventário do surgimento. 1979: 282). É no encontro deste movimento de dispersão e dissidência religiosa que foi instalado o problema geral do governo: governar de que forma. procedimentos. 2004: 104. como fazer para ser o melhor governante possível?” (Foucault. Na análise política foucaultiana. por 16 . cálculos. mas que tem ligação com o primeiro: trata-se de todo o movimento da Reforma e da Contra-Reforma que colocaram em xeque o privilégio de uns poucos no domínio da direção espiritual dos homens e da condução deles a uma salvação. Todo este conjunto de tópicos discutidos direciona-se para a convergência de dois processos bem distintos. Por outro lado. 2004: 92. Com efeito. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault outros. táticas e técnicas que têm por eixo principal a população. pois “a teoria da arte de governar esteve ligada desde o século XVI ao desenvolvimento do aparelho administrativo da monarquia territorial: aparecimento dos aparelhos de governo” (Foucault. Primeiramente. porque se deve aceitar ser governado. O primeiro é o que trata da formação dos Estados territoriais e administrativos no lugar da estrutura feudal. Esta teoria não se resumiu a mero exercício acadêmico.Rone E. a arte do governo rompe com a tradição da teoria jurídica da soberania − fundamentada no governo do território − afirmando que “o governo é uma correta disposição das coisas” (Foucault. o conceito de governamentalidade deve ser entendido através de três vias distintas e interligadas. de toda a literatura que trata da arte de governo. 1979: 277-278). desde o século XVI. até quando e por quais meios.

Em terceiro lugar.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Qu’est-ce que la critique? Critique et Aufklärung. 1979. Em segundo. no sentido amplo que tinha a palavra governo nessa época” (Foucault. arte econômica (. sobre os loucos. não seria um processo de estatização 292). 2004: 111-112. 291- 17 . aclamado e abominado: a clássica obra O Príncipe de Nicolau Maquiavel (14691527). aconteceu uma profusão de circulação de escritos e manuais sobre “artes de governar — arte pedagógica. Maquiavel coloca o príncipe em posição de exterioridade e de transcendência em relação ao principado visto que este ou foi recebido por herança ou foi conquistado e tomado à força das mãos de da sociedade. arte política. mas sim e decididamente uma “governamentalização” do Estado (Foucault. sobre os filhos.) — e de todas as instituições de governo. Em decorrência dessas discussões.. sobre os presos) que levou ao desenvolvimento de uma série de aparelhos específicos e ao desenvolvimento de uma série de saberes. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins instrumento maior de conhecimento a economia política e por instrumentos essenciais os dispositivos de segurança. a governamentalidade deve ser vista como o processo pelo qual o Estado de Justiça da Idade Média seria transformado nos séculos XV e XVI em Estados administrativos.. Como exemplo Foucault cita um texto que do século XVI ao XVIII foi motivo de reverência e de repúdio. Este livro é considerado por muitos estudiosos um manual no sentido de que foi escrito como um conjunto de conselhos ao Príncipe destinados a demonstrar como o monarca deveria agir para conservar seu principado. 1990). pela tendência. no Ocidente. que não cessou de conduzir os outros desde a ascensão de um poder visto como “governo” (governo sobre os fiéis. sobre os doentes. Nesse sentido.

como a natureza. Entretanto. 1995: 101). 1979. De acordo com Foucault. 1979: 286).) o Estado se governa segundo as regras racionais que lhe são próprias. mas naquele relacionado à racionalidade da atuação estatal (Maia. Essa situação faz com que o objetivo principal do exercício de poder do príncipe seja o da manutenção. 18 . Ou seja. mas em seu sentido positivo. 2004: 105. reforço e proteção do território do principado contra seus inimigos (Foucault. A definição dada por Foucault de Razão de Estado se articula com uma noção de arte de governo tal como pensada entre os séculos XVI-XVII. nem dos preceitos da sabedoria ou da prudência: o Estado. Por sua vez. pois (. 2004: 95. Para Antonio Cavalcanti Maia. 279). tem sua racionalidade própria..Rone E. toda a discussão sobre as artes de governo está estreitamente articulada com um tema importante para a análise política: a Razão de Estado. ainda que de outro tipo. Razão de Estado que trabalha dentro de uma estreita ligação entre a atuação da macroestrutura político-administrativa e as ações da microestrutura familiar e individual.. possuir habilidades que possibilitem conservar a extensão territorial do reino de maneira alguma pode ser considerado uma arte de governo. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault outrem. Portanto. deverá encontrar sua racionalidade naquilo que constitui a sua racionalidade própria (Foucault. que não se deduzem nem das leis naturais ou divinas. não no sentido moderno atribuído ao termo. segundo os críticos de Maquiavel. Contra O Príncipe surgiu uma grande quantidade de escritos anti-Maquiavel que buscaram substituir esta espécie de manual de habilidades por detalhados tratados de arte de governar. a arte de governo em vez de fundar-se em regras transcendentais ou em um ideal filosófico-moral. a racionalidade de Estado não deve ser entendida no sentido negativo de leis rígidas de um Estado de Direito.

a ação governamental se fundamentou em duas matrizes: a idéia de razão de Estado surgida no século XVI.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. ou seja. aplicado em inúmeras circunstâncias da vida. Assim. questão central quando se considera o fortalecimento estatal. Esta nova técnica passou a ser. denominada de polícia (de police. coletar o maior número de informações sobre a prosperidade do Estado 19 . uma nova tecnologia estruturada dentro do centralizado poder político e administrativo realizará esta ligação entre Estado e indivíduos. depois do século XVII. Verificaremos a seguir como no limiar da Modernidade o Estado de polícia passou a desempenhar funções semelhantes a aquelas realizadas pelo poder pastoral cristão. A fusão dessas duas matrizes levou à constituição do que foi chamado no pensamento foucaultiano de estado de polícia no século XVIII. O Estado de polícia: governo e pastorado em plena Modernidade No Ocidente. A técnica da ação policiada passou a ter uma grande importância nos séculos XVII e XVIII porque refletia o propósito de codificar o conjunto de relações sociais onde se aplicava a intervenção racional e reguladora do Estado. para tanto ela deveria deter-se sobre toda necessidade daquele que era seu objeto principal: a população. encarregada dos indivíduos para conduzi-los à salvação. surgiram condições históricas para o exercício do cálculo detalhado. e a idéia cristã de poder pastoral. Tal aspecto realizou a concretização do propósito nuclear da police. bem como sua influência nas regulamentações estatais. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins um novo formato de domínio. Polizeiwissenchaft ou science of police). O objetivo principal da polícia era cuidar do bem-estar e da maior felicidade possível do homem.

Por esse motivo. nem um mecanismo existente no interior do Estado. algo semelhante ao modo como o poder pastoral buscava recolher o maior número de informações sobre suas “ovelhas”. “Homens e coisas são vistas em suas relações: a coexistência dos homens no território. o que se troca no mercado” (Foucault. A questão a ser levantada é por que meios e em que campos a polícia aplicava seus métodos. os autores dos compêndios e tratados sobre polícia e administração estatal da época falam repetidamente de ciências do governo e da felicidade dos cidadãos. as suas relações de propriedade. Foucault ilustra sua análise com o exemplo de uma “utopia-programa” de um Estado policiado. Concebiam como sendo polícia uma técnica de governo essencialmente estatal que possibilita a intervenção do Estado sobre domínios e objetivos que lhe eram próprios (Foucault. e por um compêndio chamado Traité de la police escrito por Nicolas De Lamare (1639-1723). Então. a polícia não era nem uma instituição. Foucault diz que a idéia principal é que “a polícia engloba tudo”. O que os autores dos séculos XVII e XVIII entendiam por polícia é bem diferente de nossa concepção atual. 1994d: 153). dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault e de seus habitantes. 2005: 19). aquele do bem-estar e da bem-aventurança dos governados (Ramos do Ó. No caso da obra de Turquet de Mayerne. o que eles produzem. 1994d: 155) Além do mais. mas uma tecnologia de governo. escrita por Turquet de Mayerne (1550-1615) chamada La Monarchie aristodémocratique. Para responder. ou le gouvernement composé dês trois formes de legitimes republiques. mas de um modo extremamente particularizado. ela focaliza sua atenção sobre a 20 . Jorge Ramos do Ó comenta que o corpo de conhecimento onde recai este novo tipo de intervenção política é o da própria vida.Rone E.

7) as artes liberais (em geral. O poder estatal agia através da ação da polícia que buscava incessantemente consolidar a vida cívica e aumentar a potência do Estado. a ocorrência de doenças sobre eles e os acidentes aos quais estão expostos. 3) a saúde. 10) os criados e os carregadores. as artes e as ciências). e os edifícios públicos. 1994d: 156-157). 1994d: 155). O que está em jogo nesses escritos é o problema da intervenção atuante e permanente do Estado. “Ora. “É de um homem vivo. 2) a moralidade. 1994f: 825). Em seu Traité de la police designa onze campos ou elementos sob o encargo da polícia dentro do Estado. “A polícia governa não pela lei. o que interessa compreender é que foi esta a via de 21 . De Lamare. permanente e positiva na conduta dos indivíduos” (Foucault. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins maneira como os homens vivem. 1) a religião. mas intervindo de maneira específica. é visto por Foucault como uma fonte inesgotável de informações sobre a técnica policial.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Como ressalta Foucault. 6) a segurança pública. Já. a polícia coletava diversas informações sobre os níveis de prosperidade do reino e de seus habitantes que seriam de extrema necessidade na formação da racionalidade do Estado. Turquet resume sua teoria policial ao dizer que “o homem é o verdadeiro objeto da polícia” (Foucault. ativo e produtivo que a polícia cuida”. 9) as fábricas. 5) as estradas. as pontes e calçadas. 11) os pobres (Foucault. 4) os mantimentos. um administrador francês que compilou uma série de regulamentos de polícia de toda a França do século XVIII. Jorge Ramos do Ó enfatiza que ao desempenhar suas funções. 8) o comércio.

Foucault. etc. O exercício de disposição praticado pela nova maneira de governar devia otimizar os homens em sua relação com as riquezas. com o Estado de polícia o que importava era governar dispondo coisas e homens da melhor maneira possível. 2004: 99. produção de alimentos. bem distinta da noção de governo geral. 2005: 20). Conclusão 22 . 282). as teses sobre o bem comum e a importância do território onde se vivia. De forma mais precisa. fome. fertilidade.Rone E. doenças. trata-se de um processo sutil que. meios de subsistência. às quais se assume o encargo de conduzir a um fim conveniente” (Foucault. 2004: 107. 1979: 288). etc. Enquanto o antigo sistema jurídico de soberania enfatizava o direito público. A arte de governar seria então aquele conjunto de saberes que estabelece o estatuto de uma racionalidade própria do Estado. Assim como deveria ser procurado o melhor relacionamento dos homens com os costumes. 1979. hábitos. morte e natalidade. quando reconstituído no detalhe mostra que a ciência do governo. a centralização da economia em outra coisa que não a família e o problema da população estão ligados” (Foucault. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault identificação que o Estado encontrou para tocar diretamente a existência individual dos cidadãos” (Ramos do Ó. pode-se dizer que “o problema do desbloqueio da arte de governar está em conexão com a emergência do problema da população. citando La Perrière. clima. recursos. acrescenta que o “governo é a correta disposição das coisas.

um fio condutor que interliga as ações minúsculas e subjetivas de uma pessoa com a ordem 23 . A última esfera é a mais generalizada e ligada à soberania política que administra e gerencia uma nação. gostaria de deixar a hipótese de que existe uma semelhança entre as funções executadas pelo poder pastoral e as realizadas pelo poder governamental. entrecruzam-se e convivem lado a lado três esferas que vão da ordem da micro à macro sociedade. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins Para concluir este texto. Como foi visto. executado pela polícia estatal. De certa forma. uma intensa proliferação generalizada das questões e técnicas da condução. o papel desenvolvido pelo pastorado na Antiguidade e no Cristianismo passou a ser. importava executar ações que conduziam os homens à felicidade e ao bem-estar nesta vida. Já no Estado de polícia. no pastorado o importante era conhecer o que se passava na consciência e na alma de cada ovelha-fiel a fim de melhor conduzi-la na direção da salvação e à felicidade eterna. A primeira diz respeito ao campo mais individualizado e subjetivo do governo de si mesmo e das práticas de si como regra de conduta pessoal. A segunda esfera estaria ligada às tecnologias políticas aplicadas ao corpo. Ocorreu. direções e governos (Foucault. neste mundo e no território em que viviam. da vida de um conjunto populacional. Apesar da similaridade.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. entrássemos numa era das condutas. seja através de técnicas disciplinares ou através de interferências na ordem do bios. Importa notar que existe um continuum. fazendo com que. 2004: 236). uma população ou uma sociedade. sim. Foucault não aceita que ocorreu uma passagem do poder pastoral para outra forma inteiramente nova de conduta e direção dos homens. Dentro de uma miríade de tipos de governos. a partir do século XVI. na Modernidade.

1988. Disponível na Word Wide Web: http://www. 1979. Sage Publications. La phylosophie analytique de la politique. London/Thousand Oaks/ New Delhi. 24 .º 2. M. 82. FOUCAULT./juin 1990.Rone E. avr. Vol. Gallimard. 1954-1988. no campo das problematizações. vol. 1994a. de como fomos subjetivados a ponto de sermos como somos hoje. Bibliografia DEAN. A governamentalidade. __________. uma analítica de como nos constituímos como sujeitos. __________. Graal. Bulletin de la Societé Française de philosophie. no pensamento foucaultiano. A Vontade de Saber. (Conferência proferida em 27 de maio de 1978). 35-63.br/fe/tef/filoesco/foucault/critique. de empreender um diagnóstico sobre o período histórico crítico que vivemos. Governmentality: Power and Rule in Modern Society. é preciso se lançar na tarefa de realizar uma ontologia de nós mesmos. III. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault política responsável pelo bom ordenamento da coisa pública. Paris. passar pela análise das maneiras como desde a Antiguidade até nossos dias nos relacionamos com nós mesmos e com os outros.unb. Rio de Janeiro. História da Sexualidade I. 1999. Deve ser efetuado.html consultado no dia 12/03/2004. pp. n. Mais do que nunca. In: Dits et Écrits. Rio de Janeiro. In: Microfísica do poder. __________. Graal. M. Esta é uma das razões por que qualquer reflexão sobre a formação do homem moderno deve.

1994c. Gallimard. A crítica da razão governamental em Michel Foucault. J. Territoire. 19541988. uma trajetória filosófica: para além do existencialismo e da hermenêutica. 1995. Paris. P. In: Dits et Écrits. III. __________. 1954-1988. Michel Foucault. Forense Universitária. nº 1-2. Gallimard. Notas sobre Foucault e a Governamentalidade. Lagrange. In: Dits et Écrits. Michel Foucault. Editora Achiamé. F. 1954-1988. SENELLART. Rio de Janeiro. 1994f. In: Dits et Écrits. In: Michel Foucault: Perspectivas. 3 – dezembro 2006/março 2007 Organização: Margareth Rago & Adilton Luís Martins __________. Paul. La technologie politique des individus. In: Dits et Écrits. p.231-249. 1994e. Paris. Defert. Editado por D. 1-14. M. RAMOS DO Ó. 1995. Hubert. Sécurité. “Omnes et singulatim”: vers une critique de la raison politique. Ewald e J. 2005. Uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. 1954-1988. Vol. Vol. 1995ª. H. A. 7. nº 1-2. RABINOW. Paris. MAIA. IV. 1954-1988. Tempo Social.. 2004. 1994b. Sobre a analítica do poder de Foucault. IV. RABINOW. Paris. Rio de Janeiro. Tempo Social. C. 7.ISSN 1981-1225 Dossiê Foucault N. Cours au Collège de France . DREYFUS. In: Dits et Écrits. Sécurité. Le sujet et le pouvoir. __________. IV. __________. Paris. 1994d. Gallimard. Les techniques de soi. Population. p. 1995. __________. Forense Universitária. Gallimard. L. Gallimard/Seuil. Vol. Paris. Vol. Vol. 25 . Population. O sujeito e o poder. Gallimard. 83-103. Rio de Janeiro. p. Vol. IV. In: DREYFUS. Vol. Territoire. 1994f. __________. __________. 1977-1978.

Cours au Collège de France. Aprovado em fevereiro/2007. 2004. Gallimard/Seuil. Rio de Janeiro. VEIGA-NETO.. M.. 2002. ORLANDI. In: FOUCAULT. Situation des cours.Rone E. dos Santos “Omnes et Singulatim”: Governo e pastoral dentro da crítica da razão política de Michel Foucault SENELLART. 13-34. L. 1977-1978. Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzscheanas. Population. B. A. L. Paris.). Territoire. p. M. A. e VEIGA-NETO. DP&A. In: RAGO. Recebido em dezembro/2006. M. Sécurité. 26 . Coisas de Governo. (org..