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EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

CONSELHO

FEDERAL

DA

ORDEM

DOS

ADVOGADOS DO BRASIL – OAB¸ por seu Presidente, vem, à presença de Vossa Excelência, por intermédio de seu advogado infra-assinado, com instrumento procuratório específico incluso e endereço para intimações na SAS Qd. 05, Lote 01, Bloco M, Brasília-DF, com base no art. 103, inciso VII e art. 102, inciso I, alínea “a” da Constituição Federal e no art. 2º, inciso VII da Lei nº 9.868/99, propor

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE COM PEDIDO CAUTELAR

em face da a) MESA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS, por intermédio de seu Presidente, com endereço para comunicações no Palácio do Congresso Nacional, Praça dos Três Poderes, Brasília-DF; e b) MESA DO SENADO FEDERAL, por intermédio de seu Presidente, com endereço para comunicações na Praça dos Três Poderes, Brasília-DF, todos órgãos/autoridades responsáveis pela elaboração da EMENDA

CONSTITUCIONAL Nº 58/2009, publicada no Diário Oficial da União, Seção 1, nº 183, do dia 24/09/2009, pelos seguintes fundamentos:

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1 - DO ATO NORMATIVO IMPUGNADO: A Emenda Constitucional nº 58/2009 promoveu alteração na redação do inciso IV do „caput‟ do art. 29 e do art. 29-A da Constituição Federal, tratando, assim, das disposições relativas à recomposição das Câmaras Municipais. No entanto, e desconsiderando o princípio da segurança jurídica, o ato jurídico perfeito e a impossibilidade de retroação de seus efeitos a processo eleitoral já finalizado, o art. 3º da EC em referência engendrou regra inconstitucional ao prever a aplicação do disposto no art. 1º a partir do processo eleitoral de 2008. Eis o seu teor do dispositivo ora questionado, conforme negrito:
“Art. 3º - Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua promulgação, produzindo efeitos: I – o disposto no art. 1º, a partir do processo eleitoral de 2008, e (...)” (Grifo não constantes do original).

Ao disciplinar a possibilidade de retroação de seus efeitos para fins de recomposição das Câmaras Municipais a partir do processo eleitoral de 2008 o legislador não observou o ato jurídico perfeito, a anualidade/anterioridade da lei eleitoral e a segurança jurídica, tendo o ato normativo ora impugnado, pois, violado a Constituição Federal. Eis o mote pelo qual o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, como legitimado universal para a propositura de ação direta de inconstitucionalidade e, portanto, defensor da cidadania e da Constituição, no exercício de sua competência legal (Art. 44, inciso I da Lei nº 8.906/94), comparece ao guardião da Carta Magna para impugnar o
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art. 3º, inciso I, da Emenda Constitucional nº 58/2009, como adiante será demonstrado. Feitas essas considerações, passa-se a demonstrar a inconstitucionalidade dos dispositivos normativos combatidos.

2 - FUNDAMENTOS JURÍDICOS: Como se sabe, em 2004 o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a redução do número de cadeiras de Vereadores em todo o País. Na época, o Congresso Nacional resolveu regulamentar a questão com uma emenda constitucional, cuja proposta de emenda ficou parada até meados do ano passado, quando foi votada em primeiro turno no plenário da Câmara dos Deputados, voltando a ser o centro das atenções com a votação em segundo turno (27/5/2008), às vésperas das eleições municipais de outubro/2008. As Resoluções nºs 21.702, de 2/4/2004, e 21.803, de 8/6/2004, ambas do TSE, e em conformidade com o julgamento advindo do Recurso Extraordinário nº 197.717-8, de 6/6/2002, do STF, já fixaram um critério definitivo para o cálculo do número de Vereadores por Câmara Municipal. De acordo com esse critério, as Câmaras Municipais fixarão em no mínimo nove e no máximo 21 o número de Vereadores em Municípios com população de até um milhão de habitantes, limitados, todavia, ao número máximo de 55 Vereadores, o qual foi permitido pela Resolução de 2004 para Municípios com população acima de 6.547.612 habitantes.
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O balizamento advindo do TSE, inclusive, já foi objeto de questionamento neste C. STF, sob a relatoria do Min. CELSO DE MELLO, tendo o Tribunal assim se manifestado:
“O Tribunal, por maioria, julgou improcedentes os pedidos formulados em duas ações diretas de inconstitucionalidade (...) em face da Resolução 21.702/2004, editada pelo Tribunal Superior Eleitoral-TSE, que estabeleceu instruções sobre o número de Vereadores a eleger segundo a população de cada Município. (...) Em relação ao mérito, concluiu-se pela inexistência das apontadas violações aos princípios da reserva de lei, da separação de poderes, da anterioridade da lei eleitoral e da autonomia municipal. Esclareceu-se que a Resolução 21.702/2004 foi editada com o propósito de dar efetividade e concreção ao julgamento do Pleno no RE 197.917/SP (DJ 27-4-04), já que nele o STF dera interpretação definitiva à cláusula de proporcionalidade inscrita no inciso IV do art. 29 da CF, conferindo efeito transcendente aos fundamentos determinantes que deram suporte ao mencionado julgamento. Salientando que a norma do art. 16 da CF, consubstanciadora do princípio da anterioridade da lei eleitoral, foi prescrita no intuito de evitar que o Poder Legislativo pudesse inserir, casuisticamente, no processo eleitoral, modificações que viessem a deformá-lo, capazes de produzir desigualdade de participação dos partidos e respectivos candidatos que nele atuam, entendeu-se não haver afronta ao referido dispositivo, uma vez que a Resolução sob análise não ocasionou qualquer alteração que pudesse comprometer a finalidade visada pelo legislador constituinte.” (ADI 3.345 e 3.365, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 25-8-05, Informativo 398)

Não obstante a origem da celeuma na redação anterior do art. 29, IV, da Constituição Federal, que determinou os limites máximos e mínimos de Vereadores que devem ter as Câmaras Municipais, criando três faixas de classificação, critério esse agora reformulado pela redação da EC nº 58/2009, o fato é que a lei eleitoral deve guardar a devida compatibilidade com os postulados da anualidade/anterioridade, da segurança jurídica e do ato jurídico perfeito.
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Assim, para que tivesse validade para as eleições ocorridas em outubro de 2008, a chamada PEC dos Vereadores, como é conhecida a proposta, teria de ser votada no Senado Federal antes das eleições de 2008. Não foi isso, contudo, que ocorreu, visto que promulgada no último dia 24/09/09, daí a manifesta inconstitucionalidade do art. 3º, inciso I, da EC nº 58/2009 por infringência aos artigos 5º, XXXVI, e 16, da Carta da República. De fato, o Supremo Tribunal Federal, no RE nº 197.917-8SP, de relatoria do Min. MAURÍCIO CORRÊA, criou uma fórmula matemática com o intuito de efetivar o referido dispositivo constitucional, não havendo dúvidas, nesse particular, a respeito da competência dos Municípios para fixar o número de Vereadores, desde que respeitadas as balizas constitucionais. Esse é o entendimento, inclusive, do Supremo Tribunal Federal, como se pode comprovar no julgamento do AGRRCL 488-TO de relatoria do Ministro Carlos Velloso (DJ, de 6.12.96). Ocorre, no entanto, que a EC nº 58/2009 (art. 3º, inciso I) não pode retroagir seus efeitos de modo a atingir situações jurídicas já consolidadas no processo eleitoral de 2008, sobretudo para gerar expectativas nos suplentes de vereadores das eleições de outubro/2008. Portanto, ainda que a EC ora impugnada tenha, de fato, elevado o quantitativo de vagas, a circunstância de ter sido promulgada em 24/09/09 afasta qualquer possibilidade de aplicação das novas regras imediatamente, evitando, assim, uma grande confusão e insegurança jurídica.

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Isso porque o TSE tem como consolidado o entendimento de que, na fixação do número de vereadores, deve ser observado o prazo estabelecido pela Resolução TSE nº 22.556/2007, a saber, "o início do processo eleitoral, ou seja, o prazo final de realização das convenções partidárias".
Número do Processo 1421 Nº Decisão Município - UF Origem

Andamentos CTA-1421 Tipo do Documento

Inteiro Teor

Tipo do Processo CTA - CONSULTA Data 19/06/2007

222556 BRASÍLIA - DF RESOLUÇÃO JOSÉ AUGUSTO Relator(a) Relator(a) DELGADO designado(a) Publicação Ementa

DJ - Diário de justiça, Data 7/8/2007, Página 215 CONSULTA. EMENDA CONSTITUCIONAL QUE REGULAMENTA NÚMERO DE VEREADORES. APLICAÇÃO IMEDIATA DESDE QUE PUBLICADA ANTES DO FIM DO PRAZO DAS CORRESPONDENTES CONVENÇÕES PARTIDÁRIAS. 1. Consignou-se no voto que: "(...) a alteração do número de vereadores por emenda constitucional tem aplicação imediata, não se sujeitando ao prazo de um ano previsto no artigo 16 da Constituição Federal. Esse ¿dispositivo está dirigido à legislação eleitoral em si, ou seja, àquela baixada pela União no âmbito da competência que lhe é assegurada constitucionalmente ...¿ (RMS nº 2.062/RS, Relator Ministro Marco Aurélio, DJ 22/10/93)." (fl. 7). 2. Ressaltou-se que: "todavia, a data-limite para a aplicação da emenda em comento para as próximas eleições municipais deve preceder o início do processo eleitoral, ou seja, o prazo final de realização das convenções partidárias." (fls. 7-8). 3. Consulta respondida positivamente, com a ressalva acima mencionada.

Catálogo

EL0048 : ELEIÇÕES - NÚMERO - VEREADOR 6

Indexação

Inaplicabilidade, princípio da anualidade, aplicação imediata, emenda constitucional, alteração, número, vereador, limitação, norma constitucional, legislação eleitoral; exigência, aplicação, eleição municipal, publicação, anterioridade, encerramento, prazo, convenção, partido político. (CLE) Leg.: Federal CONSTITUICAO FEDERAL Nº.: 1988 Ano: 1988 (CFD CONSTITUICAO FEDERAL DEMOCRATICA) Art.: 16 Precedente: RMS Nº: 2062 (RMS) - RS, AC. Nº 2062, DE 23/09/1993, Rel.: MARCO AURÉLIO MENDES DE FARIAS MELLO . Inteiro Teor Precedente: CTA Nº: 1153 (CTA) - DF, RES. Nº 22045, DE 02/08/2005, Rel.: MARCO AURÉLIO MENDES DE FARIAS MELLO . Inteiro Teor Precedente: CTA Nº: 1041 (CTA) - DF, RES. Nº 21852, DE 01/07/2004, Rel.: FERNANDO NEVES DA SILVA . Inteiro Teor Precedente: RMS Nº: 2070 (RMS) - PR, AC. Nº 2070, DE 26/04/1994, Rel.: TORQUATO LORENA JARDIM . Inteiro Teor

Referência Legislativa Precedentes/ Sucessivos

Decisão Vide

O Tribunal, por unanimidade, respondeu a consulta na forma do voto do relator. Vide: RESPE Nº: 30521 (AgR-REspe) - SC, AC. Nº , DE 03/11/2008, Rel.: ARNALDO VERSIANI - Mantém decisão que exclui précandidato por não observância da proporcionalidade entre o numero de vagas e de candidatos, ausente lei municipal aprovada antes das convenções partidárias . Inteiro Teor (05 fls.)

Observação

Tal entendimento encontra sua razão de ser porque a incidência da alteração do processo eleitoral preconizada pelo art. 3º, inciso I, da EC nº 58/2009, para as eleições ocorridas em 2008, afronta o art. 16 da Constituição, abaixo transcrito, uma vez que restou fixado a inaplicabilidade de lei que altere o processo eleitoral ‘à eleição que ocorra até 1 (um) ano da data de sua vigência’.

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Art. 16. A lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência. (Redação da EC nº 04/93)

No sentido de lei, previsto no art. 16 da CF, inclui-se também a emenda constitucional. Como se sabe, lei é termo de acepção ampla, é gênero. Agregado o termo a outro que lhe amplia a compreensão e lhe diminui a extensão surgem as várias espécies normativas: lei constitucional, lei complementar, lei ordinária e etc., todas inseridas no conceito mais amplo de lei. Logo, é de se concluir que o art. 16 da CF veda a edição de emenda constitucional que tenha por escopo alterar o processo eleitoral sem a prévia observância do prazo de um ano nele estabelecido. A intenção do constituinte originário, então, quando introduziu a regra da anualidade, foi a de preservar a segurança do processo eleitoral, fundamental para o exercício e consolidação da democracia, sendo certo que quaisquer alterações contingenciais, casuísticas, sejam elas advindas de emendas constitucionais, de leis complementares ou ordinárias, traduz-se em violência ao princípio da anterioridade. Ora, as regras para a eleição de 2008 foram estabelecidas antes do pleito e não podem ser alteradas agora, falecendo competência à EC nº 58/09 para autorizar a retroação de seus efeitos ao processo eleitoral findo de 2008, por manifesta inconstitucionalidade (afronta) aos artigos 5º, XXXVI, e 16, da Carta Maior, trazendo consigo, igualmente, violência ao art. 60, § 4º, IV, da Lei Fundamental, em face da violência ao direito e garantia individual da segurança jurídica. A ofensa à segurança jurídica revela-se, pois, na vertente de que o cidadão não tem ciência das normas que prevalecem no processo,
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tampouco o candidato interessado, já que não sabe a que normas deve se submeter, recaindo, ainda, na matriz de que os órgãos judiciários que cuidam especificamente da legislação eleitoral se vêem surpreendidos com normas para as quais haverão de emitir resoluções que as operacionalizem e esclareçam sua forma de aplicação. A segurança jurídica qualificada, e sua estreita vinculação com a anualidade/anterioridade da lei eleitoral, insere-se no contexto mais abrangente do art. 5º, „caput‟, da Carta Maior, haja vista tratar -se de segurança especialmente tutelada ante o fato regrado. Tal entendimento é corroborado pela Lei Geral das Eleições, Lei nº 9.504/97, que dispõe em seu art. 10º, abaixo transcrito, que o número de candidatos depende do número de vagas, sendo claro que os eleitores foram às urnas escolher em quem votar de acordo com os candidatos lançados ao pleito de 2008, e tais candidatos existiam em número proporcional ao número de vagas, pelo que, à evidência, a retroação de efeitos configura burla à vontade do eleitor e ao princípio democrático.
„Art. 10 – Cada partido poderá registrar candidatos para a Câmara dos Deputados, Câmara Legislativa, Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais, até cento e cinqüenta por cento do número de lugares a preencher.‟

A aplicação retroativa, nesse contexto, fere princípio básico da República – segurança jurídica -, consubstanciado no direito à não surpresa, ou, em outras palavras, no princípio da confiança no sistema, de modo a demonstrar que a norma do art. 3º, inciso I, da EC 58/2009 é casuística e não se coaduna com o princípio republicano de tratamento impessoal das matérias públicas.

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Assim, a interpretação correta é a de que a nova conformação dos legislativos municipais só entraria em vigor no próximo pleito, ou seja, em 2012, incorrendo no vício da

inconstitucionalidade o art. 3º, inciso I, da EC nº 58/2009, eis determina a aplicação de seus efeitos ao processo eleitoral já finalizado e em plena legislatura. A impossibilidade de alteração do processo eleitoral nos 12 meses que antecedem sua abertura deriva do próprio princípio democrático de direito, e, como tal, deve ser entendida a norma do art. 16 – indiscutivelmente norma de segurança jurídica -, daí sua inserção dentre as cláusulas pétreas por força do § 2º do art. 5º da CF, incorrendo em inconstitucionalidade a regra do art. 3º, inciso I, da EC nº 58/2009 também por ofensa ao art. 60, § 4º, IV. A regra, com todo respeito, não pode ser alterada no decorrer do jogo, tampouco em processo eleitoral já findo, lembrando-se apenas que a prevalecer a tese de validade imediata do texto constitucional haverá uma modificação do quociente e recálculo das cadeiras por cada partido/coligação, o que gera, por certo, uma grande confusão e insegurança jurídico-eleitoral. Há casos, inclusive, de vereadores que hoje ocupam uma cadeira e que, com o recálculo, não mais terão esse direito. A rigor, o aumento do número de vereadores decorrente da EC nº 58/2009 e a aplicação imediata de seus efeitos ao processo eleitoral de 2008 importam em alterar diretamente a representação política dos municípios. Tal mecanismo atenta de forma flagrante contra a autonomia desse ente federado e, também, viola a anterioridade da lei
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eleitoral (anualidade), conforme art. 16, posto que é evidente que uma vez definido o resultado das eleições e tendo início a legislatura nenhuma lei (quiçá emenda à constituição) pode determinar sua aplicação imediata. Esse é o entendimento deste C. STF na RP 1209-SC, RP 1091-PA e na RP 1159-SC, vejamos:

Rp 1209 / SC - SANTA CATARINA REPRESENTAÇÃO Relator(a): Min. OSCAR CORRÊA Julgamento: 28/03/1985 Órgão Julgador: Tribunal Pleno Publicação: DJ 26-04-1985 PP-05888 EMENT VOL-01375-01 PP-00045 RTJ VOL-00113-02 PP-00488 Parte(s) REPTE. : PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA REPDOS. : GOVERNADOR DO ESTADO DE SANTA CATARINA E ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SANTA CATARINA Ementa: VEREADORES FIXAÇÃO DO NUMERO. COMPETÊNCIA. INCONSTITUCIONALIDADE DE ALTERAÇÃO POSTERIOR, PARA VIGENCIA NA LEGISLATURA JA INICIADA, BEM COMO DA CONVOCAÇÃO IMEDIATA DE SUPLENTES PARA PREENCHER AS VAGAS DECORRENTES DA MODIFICAÇÃO. PERMANENCIA NA VEREANCA INSUSCETIVEL DE SER ASSEGURADA, DECLARADA A INCONSTITUCIONALIDADE DO CRITÉRIO DA LEI COMPLEMENTAR ESTADUAL 18/82. (REPRESENTAÇÃO 1159/SC). REPRESENTAÇÃO ACOLHIDA, EM PARTE. Decisão: Julgou-se procedente, em parte, a representação e declarouse a inconstitucionalidade da expressão "a partir da presente legislatura", no § 2º do art. 10, bem como dos §§ 4º, 5º e 7º do mesmo artigo 10, da Lei Complementar nº 5, de 26.11.1975, na redação da Lei Complementar nº 20, de 12.09.1983, do Estado de Santa Catarina. Decisão unânime. Votou o Presidente. Plenário, 28.03.85. Observação: Acórdãos citados: Rp-1159 (RTJ 107-941), Rp-1091 (RTJ 100-1003). Número de páginas: (11) - Alteração: 01/08/05, (AAS).

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Rp 1159 / SC - SANTA CATARINA REPRESENTAÇÃO Relator(a): Min. FRANCISCO REZEK Julgamento: 08/09/1983 Órgão Julgador: TRIBUNAL PLENO Publicação: DJ 14-10-1983 PP-15825 EMENT VOL-01312-01 PP-00080 RTJ VOL-00107-03 PP-00941 Ementa: REPRESENTAÇÃO POR INCONSTITUCIONALIDADE. É INCOMPATIVEL COM O ART-15 PAR-4. DA CARTA DA REPUBLICA A NORMA ESTADUAL QUE, FIXANDO O NUMERO DE VEREADORES AS CÂMARAS MUNICIPAIS, TOMA POR PONTO DE REFERENCIA A POPULAÇÃO DE CADA MUNICÍPIO, E NÃO O RESPECTIVO ELEITORADO, COMO PRESCREVE A REGRA MAIOR. REPRESENTAÇÃO PROCEDENTE.

Rp 1091 / PA – PARÁ REPRESENTAÇÃO Relator(a): Min. RAFAEL MAYER Julgamento: 04/11/1981 Órgão Julgador: TRIBUNAL PLENO Publicação: DJ 27-11-1981 PP-12012 EMENT VOL-01236-01 PP-00001 Ementa: COMPETÊNCIA. TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL. VEREADORES (NUMERO). SUPLENTES (CONVOCAÇÃO). LEI ESTADUAL N. 4.827-79 - (INCONSTITUCIONALIDADE). 1 - E INCONSTITUCIONAL A LEI ESTADUAL QUE CONFERE AOS TRIBUNAIS REGIONAIS ELEITORAIS A ATRIBUIÇÃO DE FIXAR O NUMERO DE VEREADORES DE CADA MUNICÍPIO, POIS AS ATRIBUIÇÕES RESPECTIVAS SÃO FIXADAS PELAS NORMAS CONSTITUCIONAIS E LEGAIS, DE ORDEM FEDERAL. 2 - É INCONSTITUCIONAL A LEI QUE DISPÕE SOBRE CONVOCAÇÃO DE SUPLENTES PARA COMPLETAR VAGAS NA MESMA LEGISLATURA, POSTO QUE IMPLICA EM ALTERAR DIRETAMENTE A COMPOSIÇÃO POLITICA DO MUNICÍPIO, COM ABSTRAÇÃO DO SUFRAGIO DIRETO E UNIVERSAL. 3 - REPRESENTAÇÃO JULGADA PROCEDENTE, EM PARTE. Observação: VOTAÇÃO UNÂNIME. RESULTADO PROCEDENTE, EM PARTE. Ano:1981 AUD:27-11-1981 Alteração: 13/01/2000, (SVF). 12

O art. 3º, inciso I, da EC nº 58/2009, na parte em que permite a aplicação imediata de seus efeitos ao processo eleitoral de 2008, revela-se incompatível com a Constituição Federal, notadamente por contrariar a segurança jurídica (art. 5º, „caput‟, e art. 60, § 4º, IV), o ato jurídico perfeito (art. 5º, XXXVI) e o princípio da anterioridade (art. 16). Tanto é assim que este STF já decidiu pela irretroatividade da lei eleitoral, conforme ADI 3.685, Rel. Min. ELLEN GRACIE, de modo que falece competência a EC em comento para determinar a retroação de seus efeitos ao processo eleitoral de 2008, já findo e em pleno exercício da legislatura, sob pena de pura abstração do sufrágio direto e universal.

"A inovação trazida pela EC 52/06 conferiu status constitucional à matéria até então integralmente regulamentada por legislação ordinária federal, provocando, assim, a perda da validade de qualquer restrição à plena autonomia das coligações partidárias no plano federal, estadual, distrital e municipal. Todavia, a utilização da nova regra às eleições gerais que se realizarão a menos de sete meses colide com o princípio da anterioridade eleitoral, disposto no art. 16 da CF, que busca evitar a utilização abusiva ou casuística do processo legislativo como instrumento de manipulação e de deformação do processo eleitoral (ADI 354, Rel. Min. Octavio Gallotti, DJ de 12-2-93). Enquanto o art. 150, III, b, da CF encerra garantia individual do contribuinte (ADI 939, Rel. Min. Sydney Sanches, DJ de 18-3-94), o art. 16 representa garantia individual do cidadão-eleitor, detentor originário do poder exercido pelos representantes eleitos e ‘a quem assiste o direito de receber, do Estado, o necessário grau de segurança e de certeza jurídicas contra alterações abruptas das regras inerentes à disputa eleitoral’ (ADI 3.345, Rel. Min. Celso de Mello). Além de o referido princípio conter, em si mesmo, elementos que o caracterizam como uma garantia fundamental oponível até mesmo à atividade do legislador constituinte derivado, nos termos dos arts. 5º, § 2º, e 60, § 4º, IV, a burla ao que contido no art. 16 ainda afronta os direitos individuais da segurança jurídica (CF, art. 5º, caput) e do devido processo legal (CF, art. 5º, LIV). A modificação no texto do art. 16 pela EC 4/93 em 13

nada alterou seu conteúdo principiológico fundamental. Tratou-se de mero aperfeiçoamento técnico levado a efeito para facilitar a regulamentação do processo eleitoral. Pedido que se julga procedente para dar interpretação conforme no sentido de que a inovação trazida no art. 1º da EC 52/06 somente seja aplicada após decorrido um ano da data de sua vigência." (ADI 3.685, Rel. Min. Ellen Gracie, julgamento em 22-3-06, DJ de 10-8-06) (Grifo não constante do original).

Do voto da eminente Min. ELLEN GRACIE extrai-se a seguinte passagem, cuja transcrição reflete a impossibilidade de retroação dos efeitos da EC nº 58/09 ao processo eleitoral de 2008, „verbis‟.

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(...)

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(...) E prossegue a eminente Relatora, „permissa venia‟ a transcrição:

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(...)

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Conclui, portanto, o seguinte:

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É patente, desse modo, a inconstitucionalidade do inciso I do art. 3º da EC nº 58/09, em relação aos arts. 5º, „caput‟ e inciso XXXVI, 60, § 4º, IV, e 16, da Carta Maior, especialmente quando permite a aplicação do disposto no art. 1º da norma ora impugnada ao processo eleitoral de 2008, o que desde já se requer seja declarado.

2.2.1

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PEDIDO

ALTERNATIVO

INTERPRETAÇÃO

CONFORME A CARTA MAGNA: Como visto acima, a aplicação imediata dos efeitos da EC nº 58/2009 ao processo eleitoral de 2008 revela-se inconstitucional e incompatível com os artigos 5º, „caput‟ e inciso XXXVI, 60, § 4º, IV, e art. 16, da Constituição Federal. Contudo, caso esse C. STF não identifique

inconstitucionalidade flagrante, o que se admite apenas por amor ao debate, requer o Conselho Federal da OAB que este Tribunal dê ao inciso I do art. 3º da EC nº 58/2009 interpretação conforme à Constituição Federal, de modo a evitar a imediata posse de vereadores nas Câmaras Municipais, desnaturando, pois, o processo eleitoral findo em 2008, viabilizando-se, assim, a aplicação de seus efeitos a partir do processo eleitoral de 2012. Tal pretensão alternativa, com efeito, destina-se a evitar e impedir a posse de vereadores ao processo eleitoral já findo em 2008, sobretudo em respeito ao art. 16 da CF/88, situação essa que já está lamentavelmente ocorrendo, conforme noticia a imprensa (doc. anexos).

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Em verdade, o art. 3º, inciso I, da EC nº 58/2009, ao pretender aplicação imediata ao processo eleitoral de 2008, induz sua plena incidência, isso sem observância ao disposto no art. 16 da CF/88. O sentido e o alcance do dispositivo impugnado, no que toca à sua incidência, deve ser entendido como aplicável às próximas eleições – cuja realização se dará antes de um ano -, posto que esse é o entendimento que deriva do sentido do texto normativo contido no art. 16, Portanto, o que se objetiva é que seja conferido ao inciso I do art. 3º da EC nº 58/2009 interpretação conforme à Constituição Federal, de modo a uniformizar o entendimento acerca do alcance e da abrangência da expressão „a partir do processo eleitoral de 2008‟, sobretudo para definir que não se aplica ao processo eleitoral de 2008. Como consectário da concessão de medida cautelar, que ora se requer, e objetivando a máxima efetividade, comunicação e transparência, pugna a requerente pela expedição de Ofício ao Eg. Tribunal Superior Eleitoral – TSE informando-lhe a decisão desta Corte Suprema e orientando-lhe a comunicá-la a todos os Tribunais Regionais Eleitorais – TRE‟s e aos juízes eleitorais, tudo de modo a evitar: - a posse de suplentes de vereadores nas Câmaras Municipais que já estão com preparativos avançados; bem como - cancelar/revogar os atos de eventuais suplentes de vereadores que tenham tomado posse com base na equivocada interpretação da EC nº 58/2009, objetivando, com isso, proteger o Erário do pagamento de vencimentos indevidos.

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3 - DO PEDIDO CAUTELAR: Todos os graves danos à ordem jurídica constitucional indicados no item 2 estão ocorrendo desde 24/09/2009 (data da publicação da EC nº 58/2009 no Diário Oficial da União). Isso porque noticia a imprensa que as Câmaras Municipais país afora, a exemplo do ocorrida na cidade de Bela Vista de Goiás (GO), já estão dando posse aos suplentes de vereadores, enquanto outros 50 (cinqüenta) municípios daquele Estado estão com seus preparativos para a posse em estágio avançado. Igualmente, há fundada expectativa de suplentes de vereadores na cidade de São Gonçalo, já prevista posse para outubro/2009, conforme doc. anexo. Imprescindível, portanto, a rápida e eficaz análise desta C. Suprema Corte acerca do pedido cautelar ora requestado, haja vista que as Câmaras Municipais estão promovendo interpretações equivocadas acerca do texto da Emenda Constitucional, elastecendo seu conteúdo e desconsiderando a anterioridade da lei eleitoral, e, ato contínuo, dando posse aos suplentes de vereadores, o que desnatura o processo eleitoral findo em 2008, bem como faz abstração do sufrágio direto e universal, gerando, por consequência, insegurança jurídica. Registre-se, ainda, que consta a seguinte notícia no sítio eletrônico do TSE, a saber:
“(...) O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Ayres Britto, enviou a todos os presidentes de Tribunais Regionais Eleitorais nos estados ofício no qual informa que em 2007 o TSE respondeu à Consulta 1421/07 e disciplinou a data-limite para promulgação de emenda constitucional alterando o número de 22

vereadores. Na consulta, o deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE) questionava se a quantidade de vereadores nas Câmaras poderia ser alterada por meio de emenda constitucional promulgada pelo menos um ano antes da eleição municipal. Em resposta à consulta o Tribunal decidiu, por unanimidade, que a regra constitucional deveria entrar em vigor até o final de junho de 2008, quando terminou o prazo para realização das convenções partidárias que aprovaram os nomes dos candidatos ao pleito. A decisão se transformou na resolução nº 22.556. No ofício, o ministro diz não ter a intenção de interferir na esfera da autonomia interpretativa dos tribunais regionais. No dia 23 de setembro de 2009 foi promulgada a Emenda Constitucional nº 58, que autoriza a criação de mais de 7 mil novas cadeiras de vereador. Em regra geral, a posse de um candidato depende da sua diplomação pela Justiça Eleitoral. No caso de vereadores, são competentes para diplomá-los os juízes eleitorais. (...)”

Com todo respeito, ainda que o Tribunal Superior Eleitoral – TSE tenha enviado Ofício aos TRE‟s esclarecendo o entendimento acerca da data-limite para aplicação da Emenda Constitucional, conforme noticiado pela imprensa, tal fato, por si só, tem se revelado insuficiente para coibir a posse de suplentes de vereadores em algumas Câmaras Municipais, de acordo com a documentação anexa, o que evidencia, à saciedade, a urgente necessidade de manifestação deste C. STF sobre o tema e a concessão da cautelar, ora requerida. Não existe tempo processualmente hábil para a espera do julgamento definitivo da presente ação direta de inconstitucionalidade, de modo que qualquer fator de espera somente fará perpetuar o presente estado de grave inconstitucionalidade e de violação ao ato jurídico perfeito, à anterioridade e à segurança jurídica.

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Todo esse quadro está a justificar a concessão da medida cautelar, suspendendo a eficácia do dispositivo ora combatido, até o julgamento definitivo da presente ação.

4 - DOS PEDIDOS: Pelo exposto, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil requer: a) a notificação da MESA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS e da MESA DO SENADO FEDERAL, por intermédio de seus Presidentes, para que, como órgãos/autoridades responsáveis pela elaboração da EC nº 58/2009, ora questionada, manifeste-se, querendo, no prazo de cinco dias, sobre o pedido de concessão de medida cautelar, com base no art. 10 da Lei nº 9.868/99; b) a concessão de medida cautelar, com base no art. 10 da Lei nº 9.868/99, para suspender a eficácia do art. 3º, inciso I, da EC nº 58/2009, até o julgamento do mérito; c) a notificação do Exmo. Sr. Advogado-Geral da União, para se manifestar sobre o mérito da presente ação, no prazo de quinze dias, nos termos do art. 8º da Lei nº 9.868/99 e da exigência constitucional do Art. 103, § 3º; d) a notificação do Exmo. Sr. Procurador Geral da República, para que emita o seu parecer, nos termos do art. 103, § 1º da Carta Política; e) a procedência do pedido de mérito, para que seja declarada a inconstitucionalidade do inciso I do art. 3º, da EC nº 58/2009
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ou, acaso não atendido esse pleito, que seja conferida interpretação conforme à Constituição Federal 1988, de modo a impedir seja aplicado ao processo eleitoral de 2008, valendo, portanto, apenas ao pleito de 2012. Deixa-se de atribuir valor à causa, em face da

impossibilidade de aferi-lo. Nesses termos, pede deferimento. Brasília/DF, 29 de setembro de 2009.

Cezar Britto Presidente do Conselho Federal da OAB

Oswaldo Pinheiro Ribeiro Júnior OAB/DF 16.275

RELAÇÃO DE DOCUMENTOS ANEXOS - DOCUMENTO 01 – Ata de posse da atual diretoria do Conselho Federal da OAB; - DOCUMENTO 02 – Procuração; - DOCUMENTO 03 – Texto Integral da EC nº 58/2009; - DOCUMENTO 04 – Notícias de jornais informando a posse de vereadores em desconformidade com o ordenamento jurídico; - DOCUMENTO 05 – Manifestações contrárias à chamada PEC dos Vereadores.

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