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Silviano Santiago e Roberto Schwarz representam dois paradigmas antagônicos no que se refere à analise e construção de uma obra literária (ou cultural) dentro do contexto brasileiro. Schwarz, que parte de uma compreensão marxista da história, vê o a obra artística como reflexo da infraestrutura, que são as relações econômicas e sociais, na superestrutura, o campo em que se localizam os produtos culturais e a ideologia. Partindo desse pressuposto Schwarz estabelece os meios para se entender a questão da produção artística brasileira. O conceito de ideias fora do lugar é essencial na proposta estabelecida por Schwarz. Ao longo de sua história as ideias que vigoravam no Brasil sempre foram importadas e não se relacionavam com a realidade em questão no Brasil, ao contrário, somente expunham as contradições da sociedade brasileira. Havia no Brasil uma relação de dependência não só econômica, mas cultural em relação à Europa, o centro irradiador das grandes ideias que desembarcavam no Brasil. O principal exemplo de ideias fora do lugar dado por Schwarz foi a introdução das ideias liberais no Brasil que tinha como principal força de trabalho a mão de obra escrava. A obra artística seria o lugar onde as relações de dependência cultural na sociedade brasileira eram expostas, sendo o grande escritor aquele que consegue ver as contradições que imperam na sociedade e se valer delas como material para a composição da obra, as ideias fora do lugar eram usadas como instrumento de composição,
Ao longo de sua reprodução social, incansavelmente o escritor põe e repõe as ideias europeias, sempre em sentindo impróprio. É nesta qualidade que elas serão matéria e problema para a literatura. O escritor pode não saber disso, nem precisa para usa-las. Mas só alcança uma ressonância profunda e afinada caso lhes sinta, registre e desdobre – ou evite – o descentramento e a desafinação. (SCHWARZ,1977, p.29)

O papel do crítico seria verificar como as obras lidam com as contradições. Justamente por isso Schwarz louva a obra de Machado de Assis, para ele um mestre, Machado por meio da ironia, de personagens, como os agregados, que expõe a lógica do favor, que é uma das características da sociedade brasileira, deixa transparecer em suas obras as ideias que estão fora do lugar. Por esse mesmo motivo Schwarz é pouco condescendente com movimentos como o romantismo, para o autor um, “pastiche”, do romantismo europeu, uma vez que se dedica a apenas reproduzir nas obras o modelo europeu. Para Schwarz a maioria das obras literárias produzidas no Brasil no século

Em ambos os casos. em fins do século XVI. que mais do que apresentá-lo à religião tem por objetivo coloca-lo dentro como participante do conflito religioso europeu.. perdendo seus traços característicos.20. Duplamente despojado a história europeia é a história do indígena. salvo exceções como Machado de Assis a literatura brasileira é marcada pela cópia. mero ator recitador que é. Contudo.. e principalmente de transformar a história europeia em história mundial. a transgressão como forma de expressão. O processo de colonização esconde uma proposta de uniformização das civilizações do mundo ao modelo europeu. p. opera duas ações de despejo contra os indígenas: convertendo-o. ainda que exista influencia. essa diferença é a transgressão. “O artista latinoamericano aceita a prisão como forma de comportamento. p. não necessariamente fruto de uma influência de uma estrutura econômica subjacente. Dentro dessa lógica é que Santiago irá estabelecer como se dá a formação da obra literária no contexto brasileiro. Quanto mais assimilado mais civilizado. que revela a suas faltas.15. Santiago vê a obra literária como autônoma.) Esse processo acaba por tornar a imagem do nativo à imagem do conquistador. a obra literária funciona como um mecanismo de combate ao processo de colonização. Tal processo se dá por meio da ocupação da terra e da catequização do indígena. aquilo que o escritor latino americano acrescenta à obra “original”. fá-lo entrar nos conflitos maiores do mundo ocidental sem que tenha tomado parte nos acontecimentos.2 XIX não são mais do que cópias de obras europeias. É preciso colocar em perspectiva a formação do pensamento brasileiro. As terras recém-descobertas na America funcionam como uma tentativa da Europa de estender sua estrutura econômica.(Santiago. desprovido de qualquer contato “alienígena” é devaneio verde amarelo”(Santiago.” . 1980. de modo que não se veja que sua formação se deu de maneira independente e isolada sem pontos de contato com a cultura europeia. O indígena se torna um outro europeu. A conversão.) acreditar que possamos ter um pensamento autóctone auto suficiente. há uma característica que diferencia as obras literárias produzidas no contexto latino americano. Silviano Santiago vê a produção literária brasileira como resposta a um modelo de sociedade imposto pelos colonizadores. desaloja-o da sua cultura. 1980).“(. fazendo com que se revolte contra os hereges desaloja-o de toda ocupação que não seja católica. social e política a um Novo Mundo.

uma vez que a superioridade da obra original não passa de um construto. o qual por sua vez esquecerá e negligenciará a caça às fontes e influências e estabelecerá como único valor crítico a diferença. negligenciados e abandonados pela critica policial serão isolados.. p. 1971. a cópia ganha destaque sobre o original. não dá ideia e as quais não especifica.) Declarar a falência de tal método implica a necessidade de substituí-lo por outro em que os elementos esquecidos . P. (SANTIAGO. A base da crítica de Schwarz é o fato de que Silviano tem por aporte teórico o desconsctrucionismo. pois não ataca as bases do problema que se encontra justamente nas questões econômicas e sociais... mas ao mesmo tempo torna os artistas súditos de seu magnetismo superior. 1980. sem se deixar contaminar contamina. com sua conotação psicologizante. (SCHAWARZ. o fato de que existe uma inversão de valores em relação ao original e a cópia. (. p. Contrariamente ao que aquela análise faz supor. porque vivemos uma ficção desde que fizeram da história europeia a nossa estória. e o “corte radical” proposto pelas vanguardas. a noção de traição da memória de Mario de Andrade. são saídas encontradas para o dilema da influência. o modelo de fonte e influência. Roberto Schwarz em Nacional por Subtração faz uma critica direta a Santiago.36) A crítica de Silviano reside justamente no fato de Schwarz não conceber a literatura como sendo produto da estrutura econômica e a partir disso tentar explicar o que nos constitui. Para a história universal. A reprodução de situações de ponta reponde a necessidades culturais. brilha para os artistas dos países da America Latina. a quebra do deslumbramento cultural do subdesenvolvido não afeta o fundamento da situação que é prático. antropofagia oswaldiana. O discurso critico que fala das influências estabelece as estrelas como o único valor que conta. essa concepção serviria para combater as relações de subordinação entre a cultura europeia e a latino americana. Todos eles reconhecem a dependência da cultura europeia. somos explicados e destruídos. (SANTIAGO. Como já dito as concepções de Santiago e Schwarz são mutuamente excludentes. e a ideia de obra original uma ilusão. econômicas e políticas que a noção de cópia. Santiago sugere que se rompa com os discursos dos críticos tradicionais.3 A partir dessa proposta.(. Para Schwarz essa teoria não é suficiente. Como “explicar” a “nossa constituição”.. postos em relevo em favor de um novo discurso crítico. 1987.20-21) Nessa perspectiva.) É preciso buscar a “explicação” da “nossa constituição.18) . Ela ilumina os movimentos das mãos. através de um entrelugar. quando estes dependem de sua luz para o seu trabalho de expressão. e como refletir sobre a nossa inteligência? Nenhum discurso o poderá fazer sozinho. A fonte torna-se a estrela intangível e pura que. mas trazem em si o elemento da subversão.

1980.23) Schwarz não propõe um modelo de literatura comparada.. Santiago subverte essa lógica ao retomar as categorias de obra visível e obra invisível do texto de Borges Pierre Menard. pela primeira vez. “(. mas é possível verificar que a partir da analise que o autor faz da obra de Machado de Assis que caberia ao comparatista ler as obras a partir de uma perspectiva que tentasse localizar as contradições que a infraestrutura impõe à superestrutura. . consegu-se realmente que os textos da metrópole tenham também.4 Tanto as posições de Santiago quanto de Schwarz trouxeram implicações para a literatura comparada. o comparatista deveria buscar nas obras os traços de subversão. autor de Quixote. É seguindo essa categorias que Silviano Santiago estabelece seu padrão de literatura comparada. Para Santiago a obra visível é o lugar da subversão. P.. onde o autor latino americano deixa transparecer a sua originalidade e a obra invisível é o lugar onde o modelo da fonte é reproduzido. Santiago explicitamente propõe um modelo.) fazendo o texto da cultura dominada retroagir sobre o texto da cultura dominante. tal qual Silviano. uma avaliação real de sua universalidade”(SANTIAGO. de maneira concreta. a obra invisível. Se tradicionalmente a literatura comparada trabalha com literaturas de diferentes nações buscando estabelecer relações de fonte e influência.

p.9-26. Nacional por Subtração. 1980. O Entre-Lugar do Discurso Latino-Americano. Companhia das letras. Universal. In_____: Que Horas São? São Paulo. Roberto. Silviano. SANTIAGO.5 BIBLIOGRAFIA SANTIAGO. Rio de Janeiro. Rocco.29-48. p. SCHWARZ. Rio de Janeiro. Roberto.1971.13-24. In______: Vale Quanto Pesa. Paz e Terra. Silviano. 1977.11-30. Livraria duas cidades. 1987. São Paulo. p. Apesar de Dependente. As ideias fora do lugar. In______: Ao Vencedor as Batatas: forma literária e processo social no início do romance brasileiro. . In______: Uma Literatura nos Trópicos: ensaios sobre dependência cultural. SCHWARZ. pag.