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Testamentos e codicilos

1 – INTRODUÇÃO Se uma pessoa falece sem ter manifestado sua vontade em testamento, supre a lei tal omissão e determina a vocação legítima. Dá-se, assim, a sucessão legítima quando a herança é deferida a pessoa da família do de cujus, por não ter este deixado testamento, ou por ineficaz ou caduco o seu ato de ultima vontade. Já a sucessão testamentária decorre de expressa manifestação de ultima vontade, em testamento ou codicilo. A vontade do falecido, a quem a lei assegura a liberdade de testar, limitada apenas pelos direitos dos herdeiros necessários, constitui, neste caso, a causa necessária e suficiente da sucessão. Tal espécie permite a instituição de herdeiros e legatários, que são, respectivamente, sucessores a título universal e particular. 2- CONCEITO Testamento é o ato personalíssimo e revogável pelo qual alguém, de conformidade com a lei, não só dispõe, para depois de sua morte, no todo ou em parte, do seu patrimônio, mas também faz estipulações. 3- CARACTERÍSTICAS DO TESTAMENTO As principais características do testamento são: a) É um ato personalíssimo: privativo do autor da herança, não se admite sua feitura por procuração nem mesmo com poderes especiais, o ato deve ser elaborado unicamente pelo testador; b) Constitui um negócio jurídico unilateral: isto é, aperfeiçoa-se com uma única manifestação de vontade, a do testador, e presta-se à produção de diversos efeitos por ele desejados e tutelados na ordem jurídica; c) É solene: só terá validade se forem observadas todas as formalidades essenciais prescritas na lei. Não podem elas serem postergadas, sob pena de nulidade do ato. d) É um ato gratuito: pois não visa obtenção de vantagens para o testador. Sendo as
disposições testamentárias patrimoniais ou não, o ato é de natureza gratuita. Não se impõe ao beneficiado qualquer contraprestação. O encargo imposto no legado não lhe tira tal característica.

e) É revogável: pode o testador usar o direito de revogá-lo total ou parcialmente, quantas vezes quiser, salvo na parte em que o testador tenha reconhecido um filho havido fora do patrimônio. f) È um ato causa mortis: produz efeitos apenas após a morte do testador. 4- CAPACIDADE TESTAMENTÁRIA

que o testador escolha o tabelionato de outra cidade. 4. em geral obedecido o de domicílio do testador. dadas as condições e circunstâncias. porém. ou o comandante ou escrivão. b) as testemunhas do testamento. arrola os casos de incapacidade testamentária passiva relativa. c) o concubino do testador casado. pois a grande importância do testamento é produzir efeitos jurídicos após a morte do disponente. mesmo sem a assistência de seu representante legal. pelos interesses econômicos-morais que a ele se prendem. além dos que a lei taxativamente determina. não pode ser admitidos outros casos de incapacidade. nada obsta. sem culpa sua. escreveu o testamento. se assim o preferir. nem o seu cônjuge ou companheiro. de acordo com o que for ditado ou com as declarações do testador. Em casos excepcionais. art. a rogo. 5. sendo isso registrado no documento. a capacidade testamentária não só ativa como passiva. São incapazes para testar: 1) Os menores de 16 anos. O local onde esse testamento é elaborado é o próprio tabelionato. proibindo que se nomeie herdeiros e legatários: a) a pessoa que. por exemplo. Desse modo. ser efetuado no local onde se encontra o paciente. Só pode ser feito em idioma nacional.1-Capacidade testamentária ativa O Código Civil ao prescrever a capacidade testamentária reconheceu a todas a pessoas o direito de dispor de seus bens por testamento. ao firmar o princípio da lei domiciliar como reguladora da sucessão legítima e testamentária. Daí ser imprescindível.801. mais apurados devem ser os requisitos para a sua validez. 4. perante quem se fizer. assim como o que fizer ou aprovar o testamento. na presença de duas testemunhas. objeto lícito e forma prescrita ou não defesa em lei. por estarem impossibilitados de emitir vontade por não se encontrarem no gozo das faculdades mentais.TIPOS DE TESTAMENTO 5. entretanto. requer para sua validade agente capaz. . em presença de duas testemunhas. d) tabelião. que o menor entre 16 e 18 anos faça testamento livremente. salvo se este. qualquer que seja sua nacionalidade. Permite.Sendo o testamento um negócio jurídico.1 – Testamento Público É escrito por tabelião. Deve ser lido em voz alta pelo tabelião ao testador. estiver separado de fato do cônjuge há mais de cinco anos. a internação do testador em um hospital. para que seja válido. 2) Os desprovidos de discernimento.2-Capacidade testamentária passiva O Código Civil. 1. civil ou militar. ou os seus ascendentes e irmãos.

após o óbito do testador. ou por seu substituto legal. 1. ainda. 1. Parágrafo único. Ao cego só se permite o testamento público.1 – Registro e cumprimento do testamento público Sujeita-se o testamento a formalidades processuais para que se reconheça sua validade e se determine seu cumprimento. Se o testamento não foi lavrado pelo testador. que lhe será lido em voz alta duas vezes. irmão. para não tornar o ato nulo. poderão fazê-lo perante o agente consular. se ele. na presença de duas testemunhas.128. Estando conforme. designada pelo testador. é escrito pelo próprio testador. só tendo eficácia após o auto de aprovação lavrado por oficial público. Não sendo cumprida a ordem. 1. como requer o disposto no Código de Processo Civil:. na presença de duas testemunhas. e a outra por uma das testemunhas. Deve ser entregue ao oficial do cartório. para verificar se não existem falhas formais. descendente. já o surdo-mudo. poderá requerer ao juiz que ordene o seu cumprimento. estão impedidos de testar por meio cerrado os analfabetos e os incapacitados de visão. mas por alguém a seu rogo.1. 5. não se tiver antecipado em fazê-lo.872 prevê que não poderão dispor de seus bens os que não souberem ou não puderem ler. CC).126. Art. também chamado secreto ou místico. porque não poderão ver ou ler a transcrição.129. nesta situação. procede a lacração do testamento e seu registro (art. a área de jurisdição do notário. o oficial procede a leitura silenciosa do testamento. e afirmá-lo perante ao escrivão e duas testemunhas. 1. Parágrafo único. conforme disposto no artigo 1.125 e 1. e que deseja tê-lo registrado. exibindo-lhe o traslado ou certidão. mediante ratificação por escrito que aquele documento foi de sua lavra. se tiver condições de escrever o seu. ordenará ao detentor de testamento que o exiba em juízo para os fins legais. proceder-se-á à busca e apreensão do testamento. Dado que o art. redige o auto e o lê em voz alta para o testador e as testemunhas. Em seguida. Pode ser datilografado ou manuscrito. cônjuge ou companheiro do mesmo). redigiu o documento. uma pelo tabelião. Em seguida. 1868. devendo o testador dizer que aquele é seu testamento. de conformidade com o disposto nos arts. 839 a 843. O juiz. fazendo-se de tudo circunstanciada menção no testamento.867 do Código Civil. Para o caso de brasileiros residentes no exterior. . mesmo que por meio de interposta pessoa (ascendente. ou por alguém a seu rogo. qualquer interessado. Quando o testamento for público. à seu rogo.observada. O juiz mandará processá-lo conforme o disposto nos arts. Art. de ofício ou a requerimento de qualquer interessado. O analfabeto também só pode testar por meio da forma pública. após a morte do testador. 5. essa pessoa não pode ser incluída como beneficiária.2 – Testamento Cerrado Este testamento. para se certificarem se o que foi ditado está registrado por aquele quem.

2. Uma vez morto o testador. dada a exigência de que o testador leia o testamento perante as testemunhas e estes tenham a condição atestar que o que está sendo lido é o que está escrito e de assinar o documento. Qualquer pessoa capaz e que saiba praticar a escrita pode testar por instrumento particular. poderia ser dada a capacidade por meio de utilização da escrita especial para essa necessidade. Art.a data e o lugar do falecimento do testador. observando-se a preferência legal. o escrivão extrairá cópia autêntica do testamento para ser juntada aos autos de inventário ou de arrecadação da herança. após verificar se está intacto. Se todas as testemunhas falecerem. à repartição fiscal. III . o juiz. há doutrinadores que divergem.o nome do apresentante e como houve ele o testamento. Pode ser escrito em língua nacional ou estrangeira. Assinado o termo de aceitação da testamentária. Feito o registro.3 – Testamento Particular Este testamento deve ser inteiramente escrito e assinado pelo testador. estiver ele ausente ou não aceitar o encargo. registro e cumprimento do testamento cerrado com fulcro no Código de Processo Civil: Art. II . mandará registrar. lido perante três testemunhas e por elas também assinado (CC. O testamento será registrado e arquivado no cartório a que tocar. IV . como por exemplo em incêndios. desta forma. ou ainda quando o testador residir em local ermo.125. contanto que as testemunhas a compreendam (CC.a data e o lugar em que o testamento foi aberto. O Código Civil prevê ainda. assim como ser testemunha. caso em que o juiz nomeará testamenteiro dativo. não se admitindo a assinatura a rogo. Isto poderá ocorrer em circunstâncias em que seja impossível a constituição formal do testamento. sem contato com pessoas que possam servir de testemunhas. rubricado pelo juiz e assinado pelo apresentante. CC).876). em seu artigo 1879. todavia. ou não forem encontradas. os mudos e os cegos. no prazo de 5 (cinco) dias. 1.126. no caso de testador. o escrivão intimará o testamenteiro nomeado a assinar. 1. que devem ser declaradas no próprio documento.qualquer circunstância digna de nota. se Ihe não achar vício externo. Parágrafo único. Conclusos os autos.5. Parágrafo único. será necessário que pelo menos uma das testemunhas reconheça sua autenticidade em juízo. este não será cumprido (art. Ao receber testamento cerrado. arquivar e cumprir o testamento. ouvido o órgão do Ministério Público.1 – Abertura. o juiz. que em circunstâncias excepcionais. assim como a leitura e aferição . se não houver testamenteiro nomeado.880). art. O testamento particular é facultado apenas aos que podem ler e escrever. sem testemunhas. Parágrafo único. encontrada no invólucro ou no interior do testamento. 1. 1. ou porventura não reconhecerem a autenticidade do testamento. Lavrar-se-á em seguida o ato de abertura que. 1878. o escrivão certificará a ocorrência e fará os autos conclusos. 5. excluem-se dessas práticas os analfabetos. poderá ser confirmado a critério do juiz. que o torne suspeito de nulidade ou falsidade. art. Art. revoluções. mencionará: I . 1. o abrirá e mandará que o escrivão o leia em presença de quem o entregou. dele remetendo o escrivão uma cópia. os surdos-mudos. desabamentos. pois ao cego. o testamento particular de próprio punho e assinado pelo testador. o termo da testamentária. no prazo de 8 (oito) dias.127.

891 do Código Civil estabelece o prazo de eficácia dessa forma especial de testamento: “caducará o testamento marítimo. art. durante as viagens. ou aeronáutico. manifestar-se sobre o testamento. Parágrafo único. depois da morte do testador. II – assemelhado ao cerrado. há alternativas que podem ser utilizadas e aceitas em juízo. como manifestação de última vontade. o comandante ficará com a guarda do documento. o legatário ou o testamenteiro poderá requerer. serão intimadas por edital. testamento será registrado no diário de bordo.3. 1. nem nos 90 (noventa) dias subseqüentes ao seu desembarque em terra. o juiz poderá admitir o testamento sem testemunhas (art. outro testamento”. se o testador não morrer na viagem. portanto não podem ser feitos em caso de navio ancorado ou aeronave em solo. dentro ou fora do País. Comporta três formas: I assemelhado ao público. depois disso.888).896 do Código Civil. 1. obedecidas a regras do testamento público ou particular cerrado. os herdeiros e os legatários que não tiverem requerido a publicação.893 a 1896 do CC. ou mercantes.aqueles a quem caberia a sucessão legítima. Dadas as circunstâncias excepcionais. o assinaram. As regras para esses dois testamentos são bastante semelhantes. no prazo comum de 5 (cinco) dias. também de transporte. em viagens de alto-mar (CC. Serão intimados para a inquirição: I . Art. III -nuncupativo. na forma ordinária.1. o comandante irá designar alguém para registrar as ordens do testador. qual seja aquele feito de viva voz.1 – Publicação e confirmação do testamento particular segundo o CPC Art. conforme estabelece o artigo 1.4 – TESTAMENTO MILITAR É declaração de última vontade feita por militares e demais pessoas a serviço do Exército.o testamenteiro. onde possa fazer. pode alguém. inquirindo-se as testemunhas que Ihe ouviram a leitura e. III . Pode ter forma assemelhada ao testamento público ou ao testamento cerrado. Inquiridas as testemunhas. por pessoas empenhadas em combate ou feridas. conforme previsão dos artigos 1. perante duas testemunhas.132.130. Art. Parágrafo único. 5. As pessoas. sendo em aeronave. no caso de navio será diante do comandante e de duas testemunhas. que estejam participando de operações de guerra. diante de perigo e iminente possibilidade de o navio vir a afundar ou a aeronave cair. a publicação em juízo do testamento particular.o Ministério Público. . quanto aos surdos-mudos e mudos. consiste no testamento feito a bordo de navios ou aeronaves de guerra. 1. 5.5 –TESTAMENTO MARÍTIMO OU AERONÁUTICO Poderá ocorrer quando o testador estiver a bordo de navios de guerra ou mercante. poderão os interessados. 1.979). 5. que não forem encontradas na comarca.dessa por outras pessoas que tenham conhecimento específico. A petição será instruída com a cédula do testamento particular.131. O artigo 1. O herdeiro. II .

São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. e atual. em cada caso. DINIZ.406 de 10 de janeiro de 2002. amp. ver. Direito civil brasileiro: direito das sucessões. contudo. Institui o Código de Processo Civil. no entanto. caberá ao magistrado. como por exemplo: deixar disposições sobre seu enterro. justamente por conter disposições sem conteúdo patrimonial relevante. Tem sido mais ou menos aceita a ideia de que se poderia considerar como “pouca monta” as liberalidades até 10% do valor do total do patrimônio. Curso de direito civil brasileiro: direito das sucessõe. – São Paulo: Saraiva. isso não afasta a necessidade de apreciação do caso concreto pelo magistrado. 6 ed. nomear e substituir testamenteiros. Lei 10. devendo ser por ele datado e assinado. – São Paulo: Editora Atlas. reconhecer filho havido fora do casamento (art. A falta de referência ao codicilo. de seu uso pessoal. O testamento. 6. no testamento posterior. Curso didático de direito processual civil. 2011. não havendo necessidade de testemunhas (CC. deixar esmolas de pouca monta. 1.. Institui o Código Civil. legar jóias.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GONÇALVES. In: Vade Mecum acadêmico forense.881). v.5. devendo ser inteiramente escrito pelo autor. 7 ed. que a lei não estabelece critério para determinar-se o que seja esta “pouca monta”. esta pode ser feita por outro codicilo.869 de 11 de janeiro de 1973. 15 ed. 2006 BRASIL. 7 ed. Carlos Roberto. ou pela elaboração de testamento posterior. BRASIL.0.6 20 ed. Assim. O codicilo pode ser utilizado pelo seu autor para várias finalidades previstas em lei. – São Paulo: Saraiva. importa revogação tácita daquele. 2012. 1609. Quanto à revogação do codicilo. no entanto. do CC). No entanto. Lei 5.6 – CODICILO Podemos conceituar codicilo como o ato de última vontade destinado a tratar de disposições de pequeno valor. Maria Helena. II. 2012. Será suficiente para considerar-se válido o codicilo que ele tenha a forma escrita. roupas ou móveis de pouco valor. Elpídio. sem confirmá-lo ou modificá-lo. 2012. não pode ser revogado por um codicilo. In: Vade Mecum acadêmico forense. determinar se trata-se de pequeno valor ou não. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. as liberalidades previstas em codicilo devem ter por objeto bens e valores “de pouca monta”. . Não é exigida grande formalidade na sua constituição. DONIZETTI. Ocorre. Em todos os casos. de qualquer natureza. art.