RELAÇÃO GOVERNO, FAMÍLIA E EDUCAÇÃO NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX NA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS

Fabiana da Silva Viana Cynthia Greive Veiga

fae-ufmg

Esta comunicação apresenta como tema de investigação as relações entre as famílias, a escola e o Estado no contexto de organização da instrução pública na província de Minas Gerais, nas primeiras décadas imperiais.1 Para isso buscou-se compreender as representações produzidas por algumas parcelas das elites políticas mineiras acerca da família e sua função na educação dos filhos no momento em que introduzia-se no âmbito dos costumes a instrução elementar (ler, escrever e contar) como uma atribuição que cabia ao Estado regulamentar e inspecionar. A partir do estudo de diferentes autores e da análise de documentos diversos queremos problematizar o significado social do estabelecimento, em lei, da obrigatoriedade dos pais em dar instrução aos seus filhos. No nosso entendimento, esta prática contribuiu para dar uma nova centralidade às funções familiares. Entre a obrigatoriedade imposta pelo Estado, as normalizações para isso estabelecidas, através dos procedimentos de identificação dos alunos e seus pais e as precárias condições de freqüência à escola, vemos surgir mecanismos diferenciados que possivelmente interferiram na cultura familiar oitocentista, particularmente, das famílias pobres habitantes da província. Temos que na primeira Constituição brasileira, 1824, Art. 179, a inviabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros estava garantida, entre vários dispositivos, pela instrução primária gratuita a todos os cidadãos. Qual foi o sentido atribuído pelas famílias à essa nova condição de sujeito social, ou seja, cidadãos que iriam usufruir da instrução pública? Por outro lado, quais foram os efeitos do exercício dos poderes locais na fiscalização e interferência na rotina da educação dos pais e seus filhos? Que conseqüências essas ações teriam trazido para o esforço moralizador do Estado sobre as famílias pobres brasileiras?
1

Tema desenvolvido a partir do projeto integrado de pesquisa Escolarização, culturas e práticas escolares: investigações sobre a instituição do campo pedagógico em Minas Gerais – 1820/1950 e do sub-projeto Viajantes

1

CONTAMINE (1990). à interferência do Estado na regulação jurídica das famílias através da codificação das civilidades (código civil). entre outras coisas. o estabelecimento de instituições (filantrópicas. a proliferação de uma nova cultura material. É neste sentido que observamos a reorganização interna das famílias.4 O bom andamento das famílias havia se tornado um dos elementos do saber: os visitadores e os inspetores ambulantes da instrução pública em Minas Gerais (1820/1906) coordenado pela professora Dr. não se fizeram de forma homogênea e linear para o conjunto das populações e é exatamente por isso que como componente da dimensão civilizatória. no que se refere à divisão do trabalho doméstico.A FAMÍLIA COMO PRINCÍPIO DO ESTADO Autores diferenciados2 tem indicado para mudanças no comportamento familiar ocorridas na Europa a partir do século XV. FARGE (1991). a família é o princípio do Estado”3. Na França. Podemos contextualizar essas alterações no movimento da modernidade a partir da produção de novas atitudes mentais e de novas práticas sociais. o desenvolvimento das teorias médico-higienistas e sua disseminação através de vasta literatura de práticas de controle do corpo e da afetividade das pessoas. por diferentes fatores. PERROT (1991). amamentar e criar os filhos. 1991. p. a cientifização dos espaços físicos públicos e privados e a produção de uma nova mentalidade educacional que previa a homogeneização cultural da população. 1991) que acreditava na revitalização da sociedade civil através da felicidade das famílias. 4 Afirmamos como nova função devido. “A vida privada imprime sua marca na vida pública.99. instituíram uma cultura de civilidades permitindo no século XIX a consolidação de sociedades que se auto-interpretaram como portadoras de características de uma civilização modelar (ELIAS. Cynthia Greive Veiga. entre eles podemos destacar o de Frédéric Le Pay (PERROT. consolidou-se um modelo familiar que viria a se estabelecer como referência de civilização. COLLOMP (1991). financiado pela FAPEMIG e pelo CNPq. Tais ações lentamente. ARIÈS (1987). particularmente. onde se destaca a superioridade absoluta do marido no lar e a definição e consagração de uma nova função da mulher: cuidar do arranjo da casa. As mudanças as quais nos referimos e que permitiram uma nova estrutura familiar estão relacionadas. pós-revolução. 2 Entre vários outros podemos citar DONZELOT (1986). 1993). a efetiva participação das mulheres na esfera econômica presente nos séculos anteriores. assistimos a profusão de vários ideários sobre a família. 3 Citado por PERROT. Evidentemente que tais mudanças. principalmente. religiosas e estatais) de acolhimento das crianças órfãs e abandonadas. 2 .

reprodutor. 105. 1991. “De fato. 1971. médicos. Nas palavras de Michele Perrot (1991). foi expressão do fracasso da ação da Igreja e do governo em PERROT. marcada pelos concubinatos. estadistas que pretendem protegê-lo. mancebias e demais relações consideradas ilícitas. 6 5 3 . cidadão e soldado do amanhã. PERROT.fundamentais para o progresso do Estado e da humanidade. quando esta é pobre e tida como incapaz insinuam-se terceiros: filantropos. 9 Um breve balanço historiográfico da história da família brasileira pode ser encontrado em Del Priore. educá-lo. No caso das populações pobres. podendo ainda ser acrescidos outros presentes na bilbiografia deste texto. Entre ele e a família. Neste sentido. a estruturação das famílias pobres das Minas Gerias de inícios do século XIX. Não somente aventou-se com a proibição de ida das mulheres brancas para os conventos. disciplinálo. diferentes autores7 informam a defesa da família como estratégia fundamental de consolidação das relações de poder e do progresso das civilidades. pela suas características sócioeconômicas e raciais.”6 Também no Brasil. pela diversidade econômica e dualidade de condição – ser livre ou ser escravo. Figueiredo (1997) comenta os contrastes existentes entre a ação repressiva da Igreja na condenação das relações consensuais ao mesmo tempo em que seus membros não eram os melhores exemplos para um disciplinamento. uma vez que a ausência de laços familiares se constituíram um problema para as autoridades. as medidas empreendidas pelo governo para a normalização dos grupos sociais da localidade. o filho não pertence apenas aos pais: ele é o futuro da nação e da raça. A autora afirma ainda que. as famílias não somente garantem o funcionamento econômico e a transmissão dos patrimônios. como também o estabelecimento de critérios raciais para a ocupação de cargos públicos. Luciano Figueiredo (1997) observa. Destaca-se também as tensões presentes na estrutura familiar brasileira. produtor. além ainda das altas taxas cobradas que não estavam ao alcance da população pobre. amasiamentos. 1991. p. por exemplo. 148. p. “é criadora da cidadania e civilidade”5. marcada por uma sociedade que se caracterizava pela pluralidade étnica. Nas Minas Gerais do século XVIII. Tal defesa esteve relacionada principalmente à afirmação do sagrado matrimônio e do casamento monogâmico como necessários para desfazer da cultura familiar produzida pelo passado colonial. principalmente.

8 Termo usado por MUAZE para caracterizar a elite brasileira. era necessário educar a infância na tentativa de criar um habitus civilizado. Essa mentalidade permitiu que a mãe assumisse o importante papel de criar o cidadão. da difusão de ideais civilizatórios. portanto. a incorporação desse habitus estabelecia uma diferenciação entre a elite e a “gente miúda”10. de uma maneira geral. Contudo. é possível detectar através do desenvolvimento da urbanização o surgimento de um patriarcalismo urbano. buscando ordenar o mundo da desordem em que viviam esses últimos. em consonância com o uso deste termo por parte dos autores dos séculos XVIII e XIX para referir-se às populações pobres. delineado a partir de mudanças na vida familiar (MUAZE. transformando o espaço urbano através da diminuição das distâncias. interessada em manter a ordem e difundir as idéias. 9 4 . a educação física e a educação moral apareceram como disciplinadoras dos corpos e das mentes. imprimindo sobre os sujeitos posturas e comportamentos. a partir de então. 10 Termo usado por MUAZE para caracterizar a população livre que não fazia parte da elite brasileira. “era preciso criar padrões de comportamento e códigos de sentido que delimitassem e apreendessem o real de uma forma comum. 1999). que estabeleceu-se como o modelo de família a ser imitado. ideais e valores que lhes aproximariam do mundo civilizado europeu. A introdução da obrigatoriedade dos pais em dar instrução aos seus filhos poderia ser pensada como uma forma de regulamentação/moralização dos valores familiares? No Brasil do século XIX. 1999. Essa urbanização acontecia de forma desordenada. sendo destinada às mulheres. MUAZE. é a “boa sociedade”8. constituía-se a partir de três mundos: o mundo do governo (a elite).regulamentá-las. valores próprios à boa sociedade e uma forma eficiente de identidade entre os membros do mundo do governo”9. a família passa a ser o local por excelência. constituindo. dessa forma garantindo a manutenção das hierarquias sociais. De acordo com MUAZE. segundo MUAZE. o mundo da desordem (os homens livres e pobres) e o mundo do trabalho (os escravos). p. do surgimento de novos locais de sociabilidade. Mas em que medida aquelas novas relações sociais atingiram a família? Segundo a autora. em que os princípios da educação moral deveriam ser ministrados e os pais eram assim responsabilizados pela educação de seus filhos. o interesse em formar cidadãos que viessem futuramente a ocupar seus espaços dentro da sociedade. Nessa perspectiva. valores e costumes civilizados. uma educação voltada para os cuidados e a manutenção da família. Paralelamente. Portanto. Neste contexto. observa-se com a consolidação do Estado Imperial. da maior vinculação de bens materiais e. A estrutura dessas cidades. assim.28.

1999. 1999. Diferenciada porque ela vai obedecer às representações construídas acerca das diferentes famílias. vinham dos setores dominantes. quais eram os limites da educação e da instrução. conheciam os padrões desejados para transmitir a seus filhos? O que temos. uma vez que aqueles que compunham o corpo de funcionários públicos. o governo assumia a responsabilidade de instruir através da escolarização11. sendo inclusive considerada o modelo ideal de família.Na medida em que à família era atribuída a responsabilidade de educar (transmitir o habitus). Cabe questionar se as famílias pobres. na maioria das vezes. fazendo com 11 12 MUAZE. Por isso. viviam uma realidade marcada por crises de níveis diferenciados. portanto. MUAZE ajuda-nos a compreender esse fato quanto argumenta que houve na sociedade o predomínio de sentimentos próprios à comunidade doméstica – sentimentos esses herdados da sociedade colonial -. como mostra VENÂNCIO12. essas famílias compunham uma elite caracterizada por um estreito relacionamento com a burocracia estatal13. conseqüente. Assim.71. até que ponto a educação era responsabilidade dos pais e até que ponto era responsabilidade do governo? Mesmo que parte da formação acontecesse na família como ficavam aquelas famílias que faziam parte do mundo da desordem? Será que elas teriam condição de educar seus filhos segundo os padrões civilizados? Compreendemos que a realidade da elite aproximava-a mais dos comportamentos ditos civilizados. essas famílias poderiam transmitir uma educação moral aos seus filhos. diminuindo até mesmo a interferência do governo na formação desses. ou seja. Além de serem um referencial. que a partir de então deveriam submeter-se ao Império14. VENÂNCIO. 1997. difundindo seu padrão de vida como sendo o mais adequado. centralização do poder contribuiu para tornar mais tênue o limite entre a elite política e a burocracia. 14 ALENCASTRO. p. abalou em certa medida os poderes locais espalhados pelo interior do país. Entretanto. Entretanto. a influência da elite sobre os demais setores da sociedade brasileira não se limitava somente a um discurso de civilidade. o estabelecimento dessa rede de funcionalismo público. Neste sentido. a consolidação do Estado brasileiro e a. percebemos que antes de terem seu espaço invadido pelo público eram elas mesmas que interferiam sobre ele. é uma dosagem diferenciada de interferência do governo no ambiente familiar. 13 CARVALHO. mas se fazia sentir na prática através da interferência sobre a vida política e econômica. No que se refere às famílias da elite imperial. que. 1996. 5 .

Expressão utilizada por Jose Agostinho Vieira. Justificando. Dessa forma. Outras vezes. Tal contribuição tem possibilitado o surgimento de uma infinidade de questões. É o estabelecimento dessa rede de funcionalismo que permite-nos compreender até que ponto o espaço privado das famílias pobres foi sendo invadido e modificado. 12 dizia: “Os pais de família serão obrigados a dar a seus filhos a instrução primaria do 1o gráo ou nas escollas públicas. através da elucidação de nuances importantes para a História da Educação. reivindicando o direito a educação e levando o Governo a redefinir suas práticas. famílias e educação.formarem os futuros cidadãos da “civilização principiante”16. apontando diversas vezes que a falta de freqüência nas escolas era uma conseqüência da omissão dos pais. as famílias que viviam no “mundo da desordem” foram submetidas às determinações legais de um Governo que se apoiou na idéia de que essas famílias eram incapazes de – sozinhas . No caso da província de Minas Gerais. A Lei Mineira No 13 de 28 de Março de 1835. do Estado pela família15. e 15 16 MUANZE. esse mesmo problema era o resultado da extrema pobreza em que viviam as famílias dos alunos das escolas públicas. Vila Diamantina. O ESTADO COMO PRINCÍPIO DA INSTRUÇÃO A documentação referente ao início do século XIX tem contribuído amplamente para a problematização das relações entre Estado. Através desses agentes o Estado tornou-se cada vez mais presente no cotidiano da população pobre. Contudo. portanto. 6 . ou particulares. Elas se mostraram resistentes e muitas vezes questionadoras.que o cenário social fosse a extensão do privado. ou em suas próprias cazas. na tentativa de incorporar ao sistema educacional os meninos e meninas das diversas povoações. percebemos que aqueles funcionários passaram a fiscalizar a conduta dos pais com relação à educação de seus filhos. a invasão do público pelo privado. 99. em resposta a sua nomeação para o cargo de Delegado de Circulo Literário. em seu Art. ditando normas e difundindo valores que objetivavam o estabelecimento da ordem. algumas das quais propomo-nos a discutir. p. essas famílias não estavam alheias a implantação da Instrução Pública Primária obrigatória. 20/05/1835 (PP 1/42 Cx 02 – envelope 43 – APM (Arquivo Público Mineiro)). 1999.

conseqüentemente. por exemplo. Parte I. lápis e penas de escrever e nem mesmo possuíam roupas e sapatos para irem à escola. 18 Retomando aqui o processo de configuração da família brasileira gostaríamos de destacar que a obrigatoriedade de dar instrução aos filhos. Observa-se ainda que a legislação reforça as diferenças sócio-econômica nas formas de acesso à instrução. 20 Livro da Lei Mineira . Alegava-se ainda que muitos pais não tinham instrução e que. Isto demonstra a permanência no século XIX de uma complexa rede de veículos afetivos presentes na estrutura da família brasileira e a aceitação dela pelo Estado. Lei n. 12. tutores. cuidador. uma vez que regulamenta em lei os responsáveis e possíveis beneficiários. os Delegados passaram a registrar o andamento da Instrução Pública e. Atr.não os poderao tirar dellas. 19 Este fato foi constatado na documentação (ofícios dos delegados literários aos presidentes de província) estando presente de forma anexa a relação nominal dos pais. cabendo aos Delegados dos Círculos Literários fiscalizar o cumprimento de tal determinação.400. Assim. não compreendiam a importância da educação. 43). tutores. Lei No 13 de 1835. afilhados. Através dos relatórios dos delegados pudemos perceber que a Instrução Pública Primária teve como um de seus obstáculos a grande pobreza em que se encontravam as famílias. em quanto não souberem as materias proprias do mesmo gráo. em seus relatórios. confirmando de uma certa forma que a fiscalização esteve mais presente para as famílias pobres e aulas públicas. o cumprimento (ou descumprimento) do Art. Essa realidade levou os Delegados por diversas vezes a proporem ao governo que intervisse enviando materiais para os alunos pobres. 24/11/1838 (PP 1/42 Cx 12 – envelope 37 – APM). educadores que “fazem seus filhos falharem na escola”. o ensino familiar estaria isento de inspeção. 21 Vila de Campanha. Tomo XXXIII. ainda. embora estivessem centradas na relação pai-filhos. ou seja. agregados. 7 . A pobreza. mães. órfãos. Outras normatizações se fizeram frequentes como. bem como sujeitos distintos que deveriam ser instruídos – filhos. educadores. Os próprios Delegados indagavam ao governo que como pais que não tiveram acesso à escolarização poderiam enviar seus filhos à escola? Mas 17 Esta obrigatoriedade não compreendia as meninas que morassem em localidades em que não houvessem professoras (Regulamento No 3. apresentação por parte dos delegados da relação de meninos cujos pais eram “omissos” em não instruir os filhos19. pública. Também na lei 1400 de 186720. amos. o estabelecimento de multas para os pais que não enviassem seus filhos à escolas. levava os pais a ocuparem seus filhos nos serviços domésticos desde muito pequenos. protetor. o Governo oferecesse roupas a esses alunos21. portanto. 1. 09 de dezembro de 1867. Na documentação é possível detectar sujeitos diferenciados que são responsabilizados pela instrução como pais. particular ou doméstica. Alguns chegaram até a sugerir que além dos utensílios para a instrução pública. mães. não dizia respeito apenas a esse veículo. Os alunos não dispunham de materiais como papel.”17 A partir de então os pais eram obrigados a enviarem seus filhos à escola18.

Snr. sendo denunciado ao Delegado pelo pai da criança23. ainda por poucas ôras. Através dessas denúncias as famílias reivindicavam o direito de permanência de seus filhos na escola e o direito a uma escola que cumprisse o papel de ensinar a ler. queixavam-se que os alunos não obtinham adiantamento por culpa dos pais que 22 Delegado do 15o Circulo Literário.)”22 Se por um lado os pais eram acusados de omissão. 10/09/1843 (PP 1/42 Cx 13 – envelope 77 – APM). tendo ate o prezente ávido pouca energia daqueles. O mesmo professor já havia sido denunciado por outros pais. muitos pais resistiram à possibilidade de transferir a educação de seus filhos ao Estado. 11/04/1837. Aranha: “(. como pudemos observar no relatório do Delegado Suplente João Dias de G. ora por infligirem maus tratos sobre os alunos. muitos professores. No caso das aulas do sexo feminino. 8 . e do zelo com que se emprega na educação de suas alunas. que os devem compelir a mandar educar suas filhas. deixá-la sobre a responsabilidade de professores que não conheciam. vários professores eram denunciados ora por não estarem aptos ao ensino das primeiras letras. pois tratava os alunos com beliscões.. por não conseguir efetuar as contas...será que os empecilhos à freqüência dos alunos se restringiam somente à pobreza ou à incompreensão dos pais com relação à instrução pública? A qual interpretação o desconhecimento da importância da instrução pública nos leva senão a de que muitos pais não confiavam a educação de seus filhos ao Estado? Nesta perspectiva. se tem servido de diversos pretextos para não mandarem suas filhas a aula publica apezar da reconhecida probidade da Professora. ao enviarem aos Delegados suas listas e mapas de freqüência. ou seja. de suas vistas. Assim. (PP 1/42 Cx 07 – envelope 57 – APM).. unhadas e empurrões e por ter quebrado a cabeça de um deles com a palmatória. em outros casos percebemos sua intervenção sobre a escolarização de seus filhos através de reclamações e denúncias sobre a conduta dos professores. Contudo. como ordena a Lei (. essa desconfiança era ainda maior. e não querendo que estas se apartem.. Vila de Pouzo Alegre. Com relação aos castigos físicos poderíamos mencionar o caso de um professor que durante a sabatina castigou seu aluno com duas dúzias e nove palmadas e na semana seguinte com mais nove. escrever e contar. os Pais de famílias ainda pouco acostumados a mandar instruir suas filhas.) Exmo. (grifos nossos) 23 São João Del Rey.

ao maior numero por pobreza distratam seos filhos”24. “alguns professores se me tem queixado das grandes falhas dos Alunnos. indicando para uma punição não física. 24 25 Minas Novas. mesmo que isso não fosse suficiente para a ocorrência desta prática. Vila de Campanha. o problema referente à freqüência das meninas e o significado disso para a estrutura familiar bem como a temática relativa à educação moral. impedindo que esses obtivessem progresso na instrução. numa mínima amostra . 9 . alguns por desleixo. Carlos P. Delegado do 11o Círculo Literário. Observa-se aí que a legislação previa até demissão do professor caso houvesse denúncias de castigos. o pai seria chamado na escola caso o menino não se corrigisse. Temos ainda que nesta nova experiência de compartilhar a formação moral da criança. ou educadores. alegou que “os pais. podendo inclusive ser suspenso.não tinham o compromisso de mandar seus filhos para a escola. e de alguns Pais q. Freire de Moura. Como registrou o Delegado Salvador Machado de Oliveira. é curioso como na legislação houve uma regulamentação em relação aos castigos. se tem mudado para a distancia de mais de legoas. famílias e instrução. Até que ponto a Instrução Pública poderia interferir sobre o espaço privado dessas famílias? CONSIDERAÇÕES FINAIS Nos contrastes das representações aqui trazidas. provavelmente este esteve relacionado à necessidade de abrandar o medo de ir à escola por parte das crianças e por outro lado às resistências de alguns pais em entregar seus filhos à desconhecidos. Retomando algumas questões aqui indicadas podemos apontar algumas pistas reveladoras de que a obrigatoriedade dos pais em dar instrução aos filhos possibilitou uma alteração na cultura familiar oitocentista. particularmente nas famílias pobres. Entre elas podemos destacar por exemplo. justificavam muitas vezes as razões dos professores culparem os pais e educadores. Em relação à esta questão. 27/05/1836 (PP 1/42 Cx 05 – APM). em oficio enviado ao Presidente da Província. para assim não serem obrigados a mandar seus filhos á Escola”25. questões relativas aos conflitos tempo de trabalho e tempo escolar e sua interferência no arranjo doméstico. temos a evidência de significativas tensões que envolveram as relações entre Estado. 24/11/1838 (PP 1/42 Cx 12 – envelope 37 – APM). mas que levassem ao vexame público. As dificuldades em fazer valer a obrigatoriedade da Instrução Pública.

A questão da obrigatoriedade à instrução antes de mais nada buscou produzir uma nova qualificação para as famílias. 11 a 93. Neste aspecto. Colocavam às autoridades a necessidade de criação de escolas e de fiscalização da conduta dos professores e denunciavam a fragilidade de um Estado que se erguia a partir dos ideais das luzes. São Paulo: Companhia das Letras. Luiz Felipe de Alencastro (Org. 10 . p. ARIÈ. vol. num momento em que a educação moral doméstica já não era suficiente. temos que parece ter sido incorporado na rotina das famílias a percepção da instrução como fator que altera a condição de sujeito social. El niño y la vida familiar en el Antiguo Régimen. constituía-se como instância avaliativa daquele mesmo processo. Essas ações de uma certa forma parecem ter ultrapassado a expectativa dos gestores do ensino. por um lado. (1990). mas sobre uma estrutura marcada por uma tradição em que o público se inscrevia na esfera do privado. além de que os mapas de freqüência registram o comportamento moral e desenvolvimento no ensino destes sujeitos. 2. C. 26 PAIVA. Suas interferências na educação escolar funcionaram como meios de redefinição da prática docente e até mesmo das determinações do governo. Por outro lado. L. e por outro. as tensões foram múltiplas. Luiz Felipe de. A.).Outra pista refere-se aos procedimentos de identificação. 1997. no contexto de criação da rede de Instrução Pública. Neste aspecto também temos que produziram-se estereótipos de que as famílias não estavam qualificadas a cumprir tal dever. embora os documentos forneçam outros elementos. trazem dados da população infanto-juvenil e seus responsáveis. Apesar da prática de realização das listas nominais e mapas da população26. A família configurou-se. portanto. 1988. D. a partir das queixas em relação a conduta dos professores e/ou abaixo assinados pedindo a abertura de escolas. como uma instância que. Bibliografia ALENCASTRO. mantinha-se firmemente ligada à tradição. In: História da vida privada no Brasil. Madri: Taurus. os registros determinados pelo serviço de instrução pública. preservando seu espaço privado das interferências do Estado. e ARNAUT. qual seja a de serem capazes de exercer um dever. H. Philippe. Vida Privada e ordem privada no Império. Nestas representações é possível observar um acúmulo de impressões que alimentavam os estigmas em relação às famílias pobres.

e ARNAUT. 69-75. São Paulo: Companhia das Letras. In: História das Mulheres no Brasil. 1986. Trad. In: Cadernos de Pesquisa: A família em destaque. rev. 1986. Fontes para o Estudo de Minas oitocentista: listas nominativas. Mary (org. Famílias. Trad. São Paulo: Hucitec. FARJE. nov/1994. DEL PRIORE. Jacques. Philippe. p.). Mary L. Luiz D. Alain. A honra e o sigilo. MARCÍLIO. CONTAMINE. 1996. H. Da Europa feudal à Renascença. O processo civilizador. p. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 581-619. 1999. T. História social da criança abandonada. 2. Trad. 1991. Famílias. São Paulo: Companhia das Letras. No 91.). Brasil Colonial: um caso de familias no feminino plural. DUBY. Lisboa: Estampa. Da Renascença ao Século das Luzes. Maria Lúcia Machado. In: Anais do V Seminário sobre a economia brasileira: História 11 . Puc-Rio de Janeiro. ELIAS. In: História da Vida Privada. Arlette. 421-502. José Murilo de. In: História da Vida Privada. A descoberta da infância: A construção de um habitus civilizado na boa sociedade imperial. Cortez. CHARTIER. A Construção da Ordem: a elite política imperial: Teatro de Sombras: a política imperial. ed. p. da Costa Albuquerque. Maria Luiza. Trad. Luciano. F. Maria Beatriz Nizza da Silva (coord. FIGUEIREDO. 1990. Os arranjos do espaço privado – séculos XIV-XV. 1991. Da Renascença ao Século das Luzes.).). 2a. Norbert. p. Formação do Estado e Civilização. M. M. 1997. Mariana de A. Rio de Janeiro: Graal. 1998. VIII.). São Paulo: Contexto. MUAZE.CARVALHO. São Paulo: Companhia das Letras. A Polícia das Famílias. In: História da Vida Privada. DONZELOT. PAIVA. da versão inglesa Ruy Jungmann. CHARTIER. 1993. Hildegard Feist. NOVA HISTÓRIA DA EXPANSÃO PORTUGUESA: O IMPÉRIO LUSO-BRASILEIRO – 1750-1822. Roger (org. Habitação e coabitação. Clotilde A. COLLOMP. V 2. Hildegard Feist. Mulheres nas Minas Gerais. ed. V. Trad. p. Georges (org.141-189. 501-542. Roger (org. Rio de janeiro: UFRJ. DEL PRIORE. Relume Dumará.

Lisboa: Nova Fronteira. História da família no Brasil colonial. Bernardo Joffily. ______. ______. Vila Diamantina. In: História da Vida Privada. Michelle.Figuras e papéis. VENÂNCIO. 1991.: Denise Bottman partes 1 e 2. PERROT. 1997. Belo Horizonte. Michelle (org. PERROT. 187-192. Renato Pinto. Michelle (org. 85-113. partes 3 e 4. PERROT. PERROT. Campinas. partes 3 e 4. p. partes 3 e 4. São Paulo: Companhia das Letras. In: História da Vida Privada. Bernardo Joffily. 20/05/1835 (Fundo Seção Provincial-PP 1/42 Cx 02 – envelope 43 – APM). p. Funções da família. A família triunfante. Bernardo Joffily.: Denise Bottman partes 1 e 2. 1990. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra. 105-120. São Paulo: Companhia das Letras. 1999. Famílias abandonadas. Ofício de Bernardo Jacintho da Veiga enviado a Joze Feliciano Pinto Coelho da Cunha Presidente da Província de Minas Gerais. p. 15/09/1835 (Fundo Seção Provincial-PP 1/42 Cx03 – envelope 45 – APM) 12 . (Fundo Seção Provincial-PP 1/42 Cx 07 – envelope 57 – APM). Vila de Campanha.). Ofício de João Dias de G. Assistência à criança de camadas populares no Rio de Janeiro e em Salvador – século XVIII e XIX.: Denise Bottman partes 1 e 2. Aranha enviado a Antonio da Costa Pinto Presidente da Província de Minas Gerais.). 93-104. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Michelle (org. p. A vida em família. Trad. Vila de Pouzo Alegre. Trad. ______. In: História da Vida Privada. Trad. Maria Beatriz Nizza da. 1991.econômica e demográfica economia: avaliação e perspectivas políticas públicas. Bernardo Joffily. 11/04/1837. In: História da Vida Privada. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Companhia das Letras. Trad. FONTES Ofício de Jose Agostinho Vieira enviado ao Presidente da Província de Minas Gerais. Michelle (org. SILVA. São Paulo: Companhia das Letras. 1991. 1991. partes 3 e 4. São Paulo: Papirus.). p. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra.: Denise Bottman partes 1 e 2.). 121-186. PERROT.

3. Tomo XXXIII. Lei n. 10/09/1843 (Fundo Seção Provincial-PP 1/42 Cx 13 – envelope 77 – APM). Tomo I. Lei n. MINAS GERAIS. Parte II. 13 de 1835 MINAS GERAIS. Livro da Lei Mineira.Ofício de Carlos P. As Constituições do Brasil. 1. 08 de abril de 1846. 311. São João Del Rey. Bahia: Imprensa Oficial. Livro da Lei Mineira. de 1835 MINAS GERAIS. Parte I. 09 de dezembro de 1867. Minas Novas. 1937. Folha n. 27/05/1836 (Fundo Seção Provincial-PP 1/42 Cx 05 – APM). Lei n. IMPÉRIO BRASILEIRO. Regulamento número 3 da Lei n 13. Livro da Lei Mineira. Livro da Lei Mineira. 24/11/1838 (Fundo Seção Provincial-PP 1/42 Cx 12 – envelope 37 –APM). Vila de Campanha. Parte I. Tomo XII. Ato Adicional de 12 de Agosto de 1834. Ofício de Martiniano Severo de Barros enviado ao Tenente General Francisco José de Souza Soares. MINAS GERAIS. IMPÉRIO BRASILEIRO.400. 13 . Freire Moura ao Presidente da Província. Oficio de Salvador Machado de Oliveira enviado a Bernardo Jacintho da Veiga Presidente da Província.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful