Universidade Federal de Pernambuco CCEN – Departamento de Física

Física Experimental L2/ Instrumentação para o ensino 2

Propagação de incertezas em medições indiretas Em várias situações não é possível medir diretamente uma dada grandeza. Como medir a força resultante, em uma dada direção, sobre uma partícula em movimento, por exemplo? Podemos utilizar a segunda lei de Newton, ou seja: medindo a massa e a aceleração da partícula na direção de interesse, poderíamos calcular a força resultante. Contudo, tanto a medida da massa como a medida da aceleração são afetadas pelas respectivas incertezas associadas aos instrumentos de medida. Tendo em vista que os dados necessários para calcular a força possuem incertezas, o valor calculado da força também é afetado por uma incerteza. Conhecendo-se os dados originais e suas incertezas, qual o procedimento para calcular a incerteza associada à força? Regras para soma (subtração) e multiplicação (divisão). Antes de apresentarmos o método de propagação de incertezas, vamos tratar rapidamente o caso em que uma série de operações são realizadas com valores de grandezas medidas em que não se conhece o valor das incertezas associadas nem o processo de medida utilizado. Esssas regras são bastante úteis quando realizamos operações algébricas (soma, subtração, divisão, e multiplicação) e necessitamos de uma estimativa do número de algarismos significativos do resultado. Regra 1. Na multiplicação ou divisão, o número de algarismos significativos do produto ou quociente, respectivamente, será igual ao número de algarismos significativos do elemento de menor precisão, ou seja, com o menor número de algarismos significativos. Ex: Suponhamos que duas grandezas foram medidas com instrumentos diferentes produzindo um resultado que precisa ser multiplicado: 0,91 x 1,23 = 1,1193 desconsiderando momentaneamente as unidades, digamos que este foi o resultado apresentado pela calculadora. Certamente um experimento utilizando uma única medida feita com esses instrumentos não teria condições de produzir um resultado com um número de algarismos significativos maior, ou seja, com uma incerteza menor, do que o de qualquer das parcelas medidas. Com efeito, utilizando a regra 1 obtemos: Resultado correto = 1,1 pois a grandeza 0,91 possui dois algarismos significativos enquanto que 1,23 possui três algarismos significativos. Regra 2. Na soma ou subtração escolhemos o número de algarismos significativos para o resultado como sendo igual ao número de algarismos significativos do elemento com o menor número de termos após a vírgula. Ex: Suponhamos que duas grandezas foram medidas com instrumentos diferentes produzindo um resultado que precisa ser subtraído: 7 146 – 12,8 = 7.133,2 → 7 133 51,4 – 1,67 = 49,73 → 49,7 A seta aponta para o valor da grandeza arredondado pelos critérios descritos na regra 2.

z)=xz..6) As quantidades f . as variações não são infinitesimais. (1. Ex: Considere a função f(x. constantes com relação àquela operação. xi. tomamos o valor absoluto destas quantidades. a derivada da função com relação à variável x é: df (x. todavia considerando todas as demais variáveis fixas. na forma: f (x1 . Sendo assim:  z0 x Utilizando o exemplo acima. vamos agora a uma definição formal: Suponha que a grandeza para a qual queremos calcular a incerteza associada possa ser escrita como uma função das n grandezas originais. Supondo que as diferenças são pequenas quando comparadas aos valores médios das grandezas xi. ou mesmo se existe alguma.indica que a derivada deve ser tomada com relação a variável x. na eq. z) d d d  z xx z  zx z dx dx dx dx (1. negativas ou nulas. não sabemos resolver a última derivada acima. Porém. Com este exemplo rápido.note a diferença nos símbolos. decorrente de variações infinitesimais das variáveis xi? Esta variação pode ser obtida da diferencial total da função f dada por: df  f f f dx1  dx 2  . Vamos agora tratar a mesma função usando o conceito de derivada parcial f (x. para facilitar as operações e x i obter uma estimativa para a incerteza. pois não sabemos qual a dependência funcional de z com relação a x. tente imaginar o caso F = ma.4) Qual a variação infinitesimal em f.2) a não ser que alguma informação adicional seja fornecida. ou seja.  dx n x1 x 2 x n (1.5) na forma aproximada: f  f f f x1  x 2  . das quais ela depende.x n ) (1. porém.  x n x1 x 2 x n (1. (1...Propagação de incertezas através de linearização por derivadas parciais Vamos apresentar agora um método para o cálculo da incerteza proveniente da operação sobre várias grandezas cujas incertezas dos instrumentos e o processo de medida das grandezas são conhecidos. mesmo de forma desfavorável..3) A definição operacional de derivada parcial aplicada acima. (1.6).. x i Todavia.5) onde f é a derivada parcial da função f em relação a xi. z)  z xz x x (1. de maneira que a eq.. vamos primeiro situar o problema do cálculo de derivadas em funções de mais de uma variável. no mundo real. pela regra do produto. mas finitas. podem ser positivas. x 2 .6) torna-se: . podemos escrever a eq..

a incerteza na área calculada também será grande.10) A partir da definição de A = L1L2 ao desprezarmos o termo não-linear da incerteza. A área é obtida a partir da medida dos lados L1 e L2 através do uso.9) obtida a partir do método da diferencial total. cálculos considerando derivadas parciais em ordem superior devem ser conduzidos.7) juntamente com os critérios para determinação de incertezas são utilizados para calcular as incertezas decorrentes de cálculos e consequentemente escrever o resultado da medição indireta.(L 2  L 2 )  L1L 2  L 2 L1  L1L 2  L1L 2 A L1 L 2   A L1 L2 (1. Além de ser esta uma grandeza adimensional. Do contrário. Sendo assim a grandeza mais adequada para comparação de incertezas será a incerteza relativa ao valor da grandeza calculada. Uma forma de verificar isso é simples. ela pode ser comparada a incertezas calculadas para superfícies de outros tamanhos. Considere uma nova área medida com o máximo de incerteza possível (1.. ou seja. .9) Considera-se as incertezas em L1 e L2 dependentes do instrumento de medida.L2 (1. reproduziremos a expressão (1. Por exemplo considere um aumento do dobro no valor dos dois comprimentos medidos teremos ΔA’ = 2 ΔA. para obter o resultado final para incerteza propagada.11) Essa fórmula nos dá um resultado mais interessante. ΔL1 e ΔL2. Dada a simplicidade do exemplo acima. permite a obtenção de uma fórmula geral assim como a identificação da contribuição de cada grandeza para a incerteza total propagada. Note que o sinal de igualdade acima não é válido em qualquer situação.9 por A: A  A  (L1  L1 ). de uma trena métrica. como será visto a seguir. o eventual aumento da incerteza no cálculo da área causado pelo aumento do tamanho dos lados é acompanhado de um aumento da área. Dessa forma. Todavia. por exemplo. Apesar do resultado ficar muito próximo daquele obtido pelo método da diferencial total. poder-se-ia implementar o método da substituição direta dos valores de uma dada medida. para um dado instrumento de medida. acrescidos de suas incertezas.8) A incerteza no cálculo da área é certamente função da incerteza na medida dos lados da superfície ΔL1 e ΔL2. Note que todos os cálculos realizados acima supõem pequenas variações dos valores reais medidos. grandezas e incertezas que contribuem com a maior parte da incerteza final podem ser identificadas e eventualmente corrigidas. Utilizando o método da diferencial total com derivadas parciais: A  A f L1  L2  L 2 L1  L1L 2 L1 L2 (1. os tamanhos medidos dos lados mudarem. (1.  x n x1 x 2 x n (1. a incerteza relativa depende do inverso das grandezas medidas.f  f f f x 1  x 2  . este último. essa comparação fica complicada pelo fato da área calculada variar se. por acaso. e A’ = 4A.7) A eq. Sendo assim. porém fixas. Percebemos que se as incertezas ΔL1 e ΔL2 forem muito grandes nenhum termo poderá ser desprezado. para uma incerteza do instrumento fixa. Neste caso a função que queremos calcular é a função área: A = L1.. Exemplo 1: Consideremos a situação em que precisa-se calcular a área de uma superfície retangular. Divindo ambos os lados da expressão 1. Concluímos que. se os comprimentos medidos são grandes. com o número correto de algarismos.

Obs: Certamente. por exemplo. tente. De agora em diante..y) = x cos (y). F x y n p  .15) Podemos obter uma expressão geral para a propagação de incertezas desde que o formato da função que queremos calcular a partir dos dados experimentais seja da forma F(x. todas as contribuições de incertezas são lineares e. d) Outra questão importante é que todas as grandezas medidas são independentes. ou seja. Novamente.15). F x y (1. Existem algumas conclusões que podem ser tiradas das expressões obtidas para as incertezas propagadas: a) Como esperado. vamos considerar um limite superior para a incerteza obtida por esse método. sempre se somam. consideramos o módulo das derivadas     1 m m  V  m  2 V m V V V (1. comparado com sua incerteza. (1. Wilson Barros. c) Note.  m V    m V (1. se o valor das incertezas for muito alto.11) e eq. ambas as medidas carregam alguma incerteza devido ao equipamento utilizado e nossa tarefa é descobrir como essas incertezas são transportadas para a incerteza da grandeza que estamos interessados em calcular:    m V' (1. Note que esta é uma condição que deve ser satisfeita para que o conceito de derivada parcial tenha efeito.16) Para verificar as limitações da expressão geral acima. que quanto maior o valor da grandeza medida. A equipe de Física Experimental L2/ Instrumentação p/ o Ensino 2 gostaria de agradecer à equipe de Física Experimental 1... de acordo com nossos critérios.Exemplo 2: Consideremos agora uma outra situação na qual queremos obter a densidade ρ de um dado composto a partir da medida de seu volume V e de sua massa m e suas respectivas incertezas ΔV e Δm. menor a contribuição da incerteza desta grandeza para o valor da incerteza final. não altera o resultado da medida feita na outra grandeza. . a partir das expressões eq.14) Novamente. Agradecimento Este material é utilizado na disciplina de Física Experimental 1 diurna..y) = xnyp .13)   1 m m  V  m  2 V m V V V Notemos o sinal negativo proveniente do processo de derivação. em especial ao prof. (1.. a medida feita em uma delas.12) (1. uma propagação linear não será suficiente para estimar o valor da incerteza final. calcular a incerteza associada ao cálculo da função F(x. sendo assim. b) As incertezas vêm multiplicadas por algum termo função que é função do valor de uma grandeza medida e essa dependência varia de acordo com a forma da função. dividindo ambos os lados pela densidade. por exemplo.

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