MACHADO DE ASSIS E A FILOSOFIA

BENEDITO NUNES (UFPa)

Pascaliano sem o consolo jansenista da Graça distribuída aos eleitos da Salvação, schopenhaueriano que substituiu pelo ódio ã vida a moral da renúncia da vontade de viver, e céptico radical, pirrónico, derivando para o niilismo - eis os traços fi sionomico-doutrinários, carregados nas tintas do negativismo com as quais a tradição crítica revestiu o perfil filosófico de Machado de Assis que fez chegar até nós emoldurando-o na autoridade das fontes principais em que o criador de Dom Casmurro teria abeberado o seu pensamento. Montaigne ensinou a Machado as motivações naturais das ati tudes humanas; a essa primeira escola da skepsis, Pascal acres centou o trágico da condição humana, inquieta e desconsolada, di vidida e contraditória, em conflito consigo mesma, ã procura de auto-satisfação e encontrando o tédio, tendendo ao racional mas desnorteada pela razão, impotente para distinguir o verdadeiro e o falso como entre o bem e o mal. Leitor assíduo de Pascal, e no entanto privado do consolo da religião, que recusou por um ato de probidade intelectual, restou a Machado de Assis, sem o socorro da fé cristã, a visão desventurada da existência - o pes simismo congénito que selou a sua afinidade eletiva com o de

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A viagem delirante de Braz Cubas à origem dos séculos no dorso de um hipopótamo que o arrebata galopando numa planície branca de neve. virtudes. exposta pelo filósofo Quincas Borba a a Braz Cubas e a Rubião. "A dor cedia alguma vez. culmina na contemplação. doutrina de Humanitas. do mesmo modo que. De nada valem os indivíduos senão pela força comum que os habita.o humanistismo . como mood de ca rãter fluido. Quincas Borba . dando a ver ao moribundo Braz Cubas o espetáculo do mundo. em substância. a julgarmos como elemento afetivo. é. entre o estripado e o estripador a diferença é aparente. em perspectiva aérea. leva-o a defrontar-se com Pandora. o homem repartido por todos os homens. em relação à qual os indivíduos são as formações aparentes e passageiras. tanto pertencente à vida quanto à obra. o ódio à vida que mais de um estudioso atribuiu ao Bruxo do Cosme Velho (1). seu aguilhão e flagelo.nas mesmas Memórias e no romance seguinte. Humanitas. sob o comando de Pandora. mãe e inimiga do homem: a inelutável vontade de viver. Enfim.Schopenhauer. princípio das coisas. a essência. não sem antes compatibilizá-lo com a atitude céptica e a tragicidade pascaliana. ou ao prazer. segundo nos diz o filósofo de 8 . que era uma dor bastarda". necessidades e vícios misturados. mas cedia à indiferença que era um sono sem sonhos. Enquadrada no esquema de um percurso onírico.e o paralelo desenvolvido no capítulo IX (A Opera) de Dom Casmurro (2). que sacrifica o indivíduo pela força egoística do mesmo princí pio de conservação com que lhe alenta a esperança de mais vida. em Memórias Póstumas de Braz Cubas. em três momentos exemplares de sua obra: a prosopopéia de O Delírio. do desfile em turbilhão dos séculos. passando de uma a outra. a viagem. à biografia e à escrita. vertiginosa. o Bruxo teria sumarizado esse pessimismo que lhe im pregna a ficção. Complemento discursivo teórico dessa visão delirante. a glória e a miséria. como a vontade universal de viver. no algoz e na vítima. "o amor multiplicando a miséria" e "a misé ria agravando a debilidade". seria. a coisa em si. a expressão dialogistica do sistema filosófico do personagem Quincas Borba . supressor do espaço e do tempo. uma transposição pessoal da filosofia de Schopenhauer.

que é Machado de Assis enquanto narrador. alçava Machado de Assis as contradições da existência humana ao plano mítico ou metafísico do contraste dramático entre forças opostas e irredutíveis. introjetada nos temas. o homem de carne e osso.a ficção também é um modo de pensamento. senão falaciosa. a mosca que zumbe nesse mo mento em torno de mim não se diferencia na realidade de outra mosca que acabou de nascer ou que vai morrer esta noite. "Dal um conhecimento que não considere isso como a mesma coisa mas como coisas distintas.O Mundo como vontade e representação.outra de teor análogo poderia ser feita destacando-se o conteúdo conceptual ou a intenção argu mentativa retórica de certos contos . transformada pela imaginação e re cuperada pela fantasia literária.incorre numa hermenêutica equivocada. como a que agora apresentamos . Utiliza a obra ficcional para ilustrar ou documentar a filosofia do autor real. Mas uma tal recomposição exemplificativa do pensamento filosófico machadiano por meio de passagens isoladas dos romances. como experiência vivida. Mais didático ao transmitir a doutrina ao ignaro Rubião. que se combinam sem jamais harmonizar-se completamente. O intérprete equivoca-se quanto ao sujeito do pensamento buscado. conflitivas numas partes e repetitivas noutras. Por esse meio. capaz de absorver filosofias e de recondicionã-las a 9 . obscuras em certas passagens. esquecendo-se de que em seu modo próprio . Quincas Borba defende o caráter "conservador e benéfico da guerra" pela igualdade substancial entre vencedor e vencido que abole a morte. toda a sua maneira de sentir e de compreender o mundo. Toda a filosofia de Machado de Assis. nunca havendo identidade de vistas entre seus co-autores. O terceiro momento exemplar é o paralelo da vida com uma Opera. não ser um conhecimento absoluto mas relativo. tratan do a ficção como veículo de idéias. situações e perso nagens de seus contos e romances mais significativos. que a nega para recuperá-la esteticamente . fruto de uma inteligência que não sabe ver mais que o fenômeno e não a coisa em si" (3). E engana-se quanto ao objeto. estariam sintetizadas nessas três diferentes figurações. cuja partitura fôsse escrita por Deus e a música pelo demônio.o distanciar-se da realidade imediata.

por isso. coisa rara entre filósofos de vocação e profissão. e ninguém ignora que os números. alveja a filosofia com riso zombeteiro ou irónico no conto. que desce da condição de saber das causas primeiras ou das significa ções ocultas ã tarefa comezinha de descoberta do principio dos coletes. no romance e ate mesmo na crônica. creio ter decifrado este caso de empréstimo. a concepção do mundo ou a filosofia de Machado de Assis. irónica até ã mordacidade a sugestão de Nietzsche para que se tentasse classificar os filósofos de acordo com a qualidade de seu riso. "Como deveis saber. pela índole dos personagens e pelos temas. Nesse introito de O Empréstimo. ou mais propriamente. e cujos arcanos de sabedoria pitagórica realizaram-se como sistema loterico. há em todas as coisas um sentido filosófico. estabelece relações lúdicas com a filosofia. Por outro lado. implicado pelas inclinações de sua forma. não sendo a ficção um meio de transparência das idéias. ocorre a facecia do rebaixamento caricatural da filosofia. esse pensamento ficcional inerente ao mundo da obra. que é o objeto hermenêutico primeiro. de que trataremos no devido tempo. de Papéis Avulsos. muito antes da lo teria do Ipiranga. formavam o sistema de Pitágoras. que não foi filósofo. Machado. o sujeito dessas posições filosóficas recolhê-las. ao texto. Terá sido. Pela minha parte. bastam os nomes "metafísica" ou "filosofia da História" para conferir títulos de serieda- 10 . Ora. R antes de mais nada um pensamento que ri da filosofia. o comezinho. de que o conto e o romance foram as expressões privilegiadas. tomam o lugar dos conhecimentos altíssimos e profun dos. as posições filosóficas que ela altera ao do. Ou é a própria filosofia que se trivializa e deixa-se usar como instrumento de prestígio social. 2 a escala das filosofias dos "papéis velhos" e dos "epitáfios" enunciadas por Braz Cubas. só podem ser interpretadas conjuntamente com o pensamento ficcional. Conse qüentemente. Se pudermos falar no pessimismo e no cepticismo de Macha- e o narrador e não o autor real. O trivial.uma intenção diferente da que possuem nos discursos de origem. ides ver se me engano". o do vestuário. Carlyle descobriu o dos coletes. é inseparável da forma narrativa de seu discurso.

no Quincas Borba: "Há entre o céu e a terra muito mais ruas do que sonha a tua filosofia (cap. que o romancista glosa por trás vezes de diferentes maneiras. é uma locução que deves empregar com freqüência.é mais fácil e mais atraente . força é confessá-lo.ou os negócios miudos ou a metafísica política." (Teoria do Medalhão). mas prefere a metafísi ca. na realidade nada. es se "laboratório ficcional" machadiano. "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a tua filosofia". se pude res adota a metafísica. conforme atestam esses exemplos.Nenhuma filosofia? . O topos hamletiano anterior aparece no início de uma das muitas que o nosso autor escreveu sobre as prá ticas do espiritismo: 11 .. Vejamos agora o que no domínio da atitude lúdica risonha relativamente à rainha das ciências nos reservam as crônicas. mas. Nem ao filósofo Quincas Borba.Entendamo-nos: no papel e na língua. antes. com razão. tens à escolha: . como as chamou. finamente corrosiva. Sônia Brayner (5). será de algum préstimo esse saber. muito mais coisas do que sonha a nossa vã dialética (cap. originalidade. . desenganado pelo medico.Farei o que puder. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão. "Filosofia da História". não poupa também a pretensão magisterial da filosofia como saber da vida e da morte. Nenhuma imaginação? . por exemplo. mais do que sonha a nossa vã filantropia"(Cap. Os negócios miudos. etc. Mas a zombaria do narrador. De qualquer maneira. porque "Filosofia é uma coisa.. mas proibo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. CLXIX). retorna em Machado o topos medieval da inutilis inguisitio philoso phiae que teve o seu prolongamento shakespereano: a tão glosada advertência de Hamlet a Horatio. e morrer de verdade é outra" (4). própria do medalhão acabado. CXI). As teorizações filosóficas integram a superior teoria do medalhão a que servem: "Quanto à matéria dos discursos. faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo. não desdizem daquela chateza de bom tom.de intelectual a quem os pronuncia. . alguma.Nenhuma.

sobre a Sociedade Pro tetora dos Animais. de fenômenos obscuros. disse o burro da esquerda.. relativamente á miséria da Filosofia. e não por acaso associada nesse escrito aos remoques contra o espiri tismo .Tu és lúgubre. Mas a zombaria dessa miséria intrínseca . patrimônio comum de cavalos e asnos. Ao homem que anda sobre dois pés.. cabe a ciência da astronomia. mas a filosofia é nossa. da série Bons Dias. O burro distingue-se pela fortaleza sem par. animal que é a imagem quadrúpede do homem". e concordávamos todos com Hamlet. 12 . n. como o homem e o gafanhoto. pois que "se encontramos a amizade no cão. E será fácil compreendermos o motivo da maior dose de troça. o cronista acompanha uma conversa entre burros. Nós nunca seremos astrônomos. O próprio espiritismo teve alguns momentos de atenção. até que uma carroça. ". seria a conquista da liber dade definitiva. Para um deles. (A Semana. mas a esperança é própria das espécies fracas. Na primeira. só no burro achamos filosofia". o orgulho no cavalo."Bebíamos chá e falávamos de coisas e lousas. 171. que voa alto. puxada por outro burro. A nossa raça é essencialmente filosófica.vai converter-se em puro sarcasmo em duas crônicas parti cularmente.Pode ser. Na segunda. Cada século.não no mesmo sen tido da miséria enquanto condição carente da filosofia no conjun to da cultura nacional a que se reportara alguns anos antes Tobias Barreto em artigo incluído em Estudos Alemães (7). ganhariam a liberdade de apodrecer abandonados nas ruas. logo depois que os transportes públicos de tração animal começam a ser substituidos pelos bonds conversa que ele pode seguir por conhecer "um pouco a língua dos Houyhnnms". para o outro." (8). Saí de lã envolvido em sombras" (6). Não conheces a língua da esperança. . viesse recolher o cadáver. Ed. justifica-se que a competência desta não alcance o burro. Abriu-se um capitulo de mistérios. e em que debatem o destino que iam ter quando totalmente liberados pela eletricidade do brutal trabalho a que eram submetidos. etc. Todas as tentativas humanas a esse respeito são perfeitas quimeras. Aguilar). segundo lhe ensinou o famoso Gulliver. e provavelmente a águia. meu colega. 1985. Foi na quarta feira desta semana.

a imagem é do Nietzsche de A Origem da Tragédia . es cárneo que lhe reconhece a glória de teorizador definitivo reabaixando-a. irascível. entre ficção e filosofia ."que salvou a poesia anti ga e seus descendentes" (9). Quincas Borba . as únicas criaturas de índole verdadeiramente filosófica. nascida no meio dos cínicos. vão ao encontro de um dos temas preferenciais da sátira menipéia . como faz voar a coruja de Minerva na direção dos burros. descendente embora lon gínquo do asno de Luciano e de Apuleio. em face de antiga vertente do pensamento. A depreciação jocosa do philosophus gloriosus em nosso ficcionista é tanto intelectual quanto moral. põe-nos. da clássica polêmica entre poesia e filoso fia . Esse vínculo de Machado com a sátira menipáia alerta-nos sobre a impossibilidade de considerarmos.Não só Machado de Assis envolve num mesmo tom de mofa o debate entre otimismo e pessimismo transferido a esses interlocu tores. o artifício da sátira menipeia. por uma irrisão da história da jangada do drama platônico . Pois que o burro filosófico machadiano. após o debacle do espírito trágico sacrificado à dialética e à lógica.ou. da "conversação dialogada ou diatribe.detratação que lhe conserva a auréola de sabedoria manchando-a. colocou o criador do Humanitismo como réu da mesma acu sação que assacou contra os filósofos o Zeus de Luciano: pertenceram a uma "raça preguiçosa. a detratação irónica do filósofo na obra de Ma chado. como um gênero novo. de cho fre. desprendida.o qual assomou na venda em leilão das doutrinas dos pré-socráticos e do próprio Sócra tes ou do julgamento delas pelos próprios deuses nos diálogos de Luciano de Samosata. No fundo. digamo-lo assim. Essa inversão humorística da filosofia transposta à escala animal uma asinificação do saber humano. desmiolada e orgulhosa" (11). um dos ramos socráticos chamados menores. vaidosa. carrega no lombo de sua figura dúplice. que consiste em mostrar a solene pompa verbal de sua miséria.o philosophus gloriosus . em termos modernos. gulosa.expressamente referida por Platão no começo do Livro X de A República. rixenta. a vertente risonha à qual retrocede. O escárneo. que alcança o criador do Humanitismo. metamorfoses do bípede implume em quadrúpede pensante. independentemente do 13 . (10).

desenvolve-se. o choque dos contrários. os sentimentos."). O humor. Em Machado.humor que lhe embebe a ficção.tu do isso que o humorismo enquanto visão compreensiva inclui. na obra machadiana madura. objeto quase exclusivo destas conside rações. em Le Rire. do modo de narrar ao que é narrado. a inversão irônica de significados morais correntes. "O humorista. Os bruscos contrastes.ex14 . Henri Bergson. O humor. o alcance que emprestou "a filoso- fia e às filosofias. as agressões ao sen so comum.. che quando l'anima mal nata. essa transposição parodistica se faz como um ar tificio de teorização apoiado numa imitatio da exposição racio nal. esses dois aspectos do processo narrativo interligam-se no mecanismo analítico da compreen são humorística. algo assim como um anatomista que somente dissecasse para nos desagradar" (14). a galhofa que leva à caricatura. as atitudes e paixões analisa dos. De qualquer maneira. consigna essa tendencia do humor à descida cada vez mais baixo no mal para anotar suas particularidades com fria indiferença. desagrega. pois que essa compreensão é um mecanismo que de compõe. mundo falho e raso de instintos". • que Alcides Maya foi o primeiro a estudar extensivamente. a melancolia pela exploração do grotesco ou do absurdo. em Esall e Jacó. entrando na "esfera baixa do ridículo. com o aparato das citações de autoridade. Braz Cubas reinter preta o princípio de Helvetius . conforme observou Raymundo Faoro "no processo nar rativo e não na graça das palavras que traduz o wit" (12). As vezes são citações enviezadas ou truncadas. O Conselheiro Ayres.. do qual falou Alcides Maya (13). como visão compreensiva do mundo em Machado de Assis. continua ele. é a base do que antes deno minamos de pensamento ficcional do narrador. argumentativa. que leva à nuance sombria. vai. como visão compreensiva do mundo. Teríamos o deslocamento do moral em cientifico. é aqui um moralista que se disfarça em sábio. ou do comentário de realce erudito. ao humor meurtrier de Bakhtine privado da força regeneradora do riso . trunca um verso do seu Dante ("Dico. de seu discurso às suas histórias.a supremacia do interesse . cita Empédocles por Herãclito (a guerra é a mãe de todas as coisas). filosofando sobre o duelo dos Gêmeos. e o humor transformado em humorismo.

ao lado do Tristram Shandy. o pessimismo se concilia com o 15 . suplementadas por experimentos científicos.plicando por um interesse recôndito o seu desvanecimento em saberem-no ex-amante de Virgilia. convertendo a razão da loucura na loucura da razão. em Memórias Póstumas de Braz Cubas. a título digressivo. a teoria do efeito das bolas ou a lei da equivalência das janelas. adje tival. Memorial dos Ayres ocupam. meio confissão. que ainda sobrevive. com a sua tonalidade ou disposição efetiva peculiar. O Alienista. Quincas Borba. meio romance. da inteligentsia de sua época. um lugar ã parte. no sentido geral da palavra. Desse ponto de vista. Dom Casmurro. Paródicas são as várias teorias embutidas. por intermédio da prosa erudita e digressiva da Anatomy of Melancoly de Roberto Burton. encerrando a lista. por isso. Paródicas do analitismo científico são as hipóteses da língua das aranhas em A Sereníssima República (Conferência do Cônego Vargas) e da origem fisiológica da tendência impulsiva ao roubo no Conto Alexandrino. ou ainda. arrastam e destroem-na. a própria teoria do medalhão já citada. Atitude perante o mundo e o homem. E há também glosas ou replicas como a Pascal: o homem "roseau pensant" vira "errata pensante". e portanto uma crença. Enfim. de Sterne. As "rabugens de pessimismo" que Machado disseminou em sua obra introduzem nessa anatomia o pathos do malefício da vida individual. respeitadas as suas diferenças. de A Causa Secreta. congênere do sentimen to trágico. -e. descendente tardio da sátira menipeia. presa a forças estranhas incontroláveis que a comandam.o gênero híbrido. No mesmo nível situa-as a irrisão cruel da objetividade racional impiedosa na tortura que Fortunato. expandindo-se em digressões reflexivas e achegas eruditas. como a teoria do benefício. e não necessariamente uma metafísica da vontade como foi o de Schopenhauer. a mais mordente sátira de Machado à superficialidade pomposa. a grande paródia da ciên cia na psiquiatria de Simão Bacamarte. a anatomia do humor amplia-se até ã dimensão do que Northrop Fry chamou de anatomy . e dentro do qual Memórias Póstumas de Braz Cubas. meio discussão de idéias. inflinge a um rato.

os indivíduos não sentem e pensam da mesma maneira. o céptico conclula: por esse motivo.humor através do cepticismo em relação ao qual é compatível nesse plano não sistemático. para os antigos efeito salutar da enunciações dubitativas. a epoché ainda aparece munida de um suprimento prático. freqüentemente. os tropos ou logoi relacionados por Enesidemo e Agripa.para invertê-las ou conver tê-las no seu oposto . de ordem moral. porque os há quietos ou que se aquietam. as diferenças entre sensações. as verdades de ordem moral ou social enquanto crenças comuns. independente mente das posições escolásticas que assumiu na Antiguidade grega. Os animais não sentem como nós. probabillsticas ou plau síveis. O humorista. a ataraxia (imper turbabilidade ou equanimidade). Ao fim de cada tropo.como a prática da epoché. nenhuma conclusão racional é autosuficiente. e o humo rista em ato um praticante lúdico do cepticismo. retirando da coisa a comprovar o apoio de nos sas demonstrações. como as diferenças entre os animais. as sensações de um único indivíduo não se equivalem entre si. o círculo vicioso.as certezas consensuais mesmo científicas. praticamos a epoché (15). 16 . sem a vantagem terapêutica da ataraxia. A razão ceptica é a razão da dúvida permanente ou provisória relativamente ao conhecimento objetivo ou verdadeiro do real: ra zão que se pluraliza em razões. as diferenças entre os costumes e as formas de educação. da suspensão do juizo por meio da dúvida. pondo entre parêntese . como Descartes. um céptico que jamais deixa de jogar com a dúvida. a hipótese e o dialeto. O céptico inquieto é um humorista em potencial. as diferenças entre os indivíduos. Mas entre o cepticismo e o humorismo existe uma estreita correlação que podemos surpreender desde que vejamos o essencial da skepsis . a recorrén cia ao infinito.observação e investigação . remetendo a outros princípios numa cadeia infinita. cada lugar e cada povo elege normas de conduta e critérios morais que lhes são próprios. cometemos. hipotéticas. é de certo modo um céptico inquieto. as idéias ex plicativas são de caráter hipotético. Na antiguidade clássica porém.

O que prevalece na forma do discurso narrativo machadiano é o tom dubitativo . que reflete a pose exterior. de Papéis Avulsos. "A escrita é como a diplomacia .III Ousaria afirmar que a razão céptica. duplicando-se por uma tortuosa aproximação dela. pelo menos. que também pode ser enganadora e enganosa.a esquiva e equivoca maneira de narrar. Na composição temática dos enredos ingressam motivos interruptivos da certeza que tem força de convicção análoga ã dos tro pos relacionados pelos cépticos. como razões especiais para a suspensão do assentimento. Ele se projeta na forma de seu discurso narrativo. Vamos destacar alguns dos que se salientam nos contos: o espelhismo do Eu. como o Conselheiro Ayres. o foco mais incisivo do pensamento ficcional de Machado de Assis. a soberanis da opinião. O narrador céptico é também um ilusionista. E por isso a narrativa já faz muito "ao concertar farrapos de realidade" (17). é. pessoal. modelizada ludicamente dentro da compreensão humorística do mundo. e a contraparte do esvaziamento da identidade pessoal ao isolar-se o indivíduo do espelhismo gregário em Só. pondo em causa a própria capacidade de representação da realidade. a "boa solda da instituição doméstica" (20). social.esse veso para enganar que tem aquele que receia enganar-se. na identidade interior. permitiu John Gledson qualificá-lo de realista deceptivo (19). na posição do narrador e na composição temática dos enredos. obser- va o dúbio narrador de Esau e Jacó (16). podemos dizer o que pensamos e o que não pensamos. em O Espelho. ele se opõe ao logro da realidade. ou o poder da linguagem gerando a autori dade e a verdade das idéias correntes e a evidencia das idéias metafísicas ou dos "narizes metafísicos". é confiável. como em O Segredo do Bonzo. reticente e desconfiada. produção dos lugares-comuns e das frases feitas em O Anel 17 . Não esqueçamos porém a sua malícia e o que recentemente Robert Schwarz chamou a sua volubilida de ou veleidade (18) . de Outros Contos. Nem mesmo o papel da página de diário. onde. cuja desconfiança na realidade. A preocupação constante do narrador é não deixar-se iludir.descobre e encobre".

axiológi ca da verdade. para uma consideração valorativa. se embaralham e se confundem nas cinco grandes narrativas.de Policrates e Evolução. O historiador foi inventado por ti. Quincas Borba. "uma eterna loureira". O espelhismo impossibilita o autoconhe cimento. O paralelo po de valer quanto ao tipo de imaginário teriomórfico. o contador de histórias foi inventado pelo povo. isto é. quer quanto ao conhecimento da Natureza. letrado. o escritor fiado no engenho da língua portuguesa. leitor. Já numa crônica da série Histórias de 15 Dias. nivela o contador de histórias e o historiador. Memórias Póstumas. segundo o exprimiu Nietzsche. homem culto. Sabe o narrador em Dom Casmurro que "a veracidade absoluta é incompatível com o estado social" (21). quer quanto ao conhecimento do mundo humano. Esaii e Jacó. a opinião soberana e o poder da linguagem distorcem o real. e em Memórias Póstumas que a verdade da Natureza é caprichosa. pondo-os sob a luz do pensa mento riccional do narrador. que nunca leu Tito Livio. a "volúvel história que dá para tudo". "mas que é. as frases-feitas falseiam o saber ao anonimizá-lo. a imaginária e a real se cotejam. Dom Casmurro e Memorial de Ayres. de sua compreensão humorística do mundo. nada mais simples. e que assim não tem. Alcides Maya comparou a cena de O Delírio com as alucinações de La tentation de Saint Antoine de Flaubert. afinal de contas. "Um contador de histórias é justamente o contrário do historiador. que tem uma só palavra para designar ambas. E é certo que as duas histórias. não sendo um historiador.an timetafísico. Retornemos agora aos três momentos considerados exemplares do pessimismo de Machado de Assis. e entende que contar o que se passou é só fantasiar" (22). exigida pelos nossos interesses práticos e instintos vitais. humanista. Dir-se-ia que o pensamento ficcional de Machado. e ainda as- 18 . como a História. nos casos mais fundamentais tão só a relação de uns erros relativamente a outros" (23). como ficção útil. tão fie tícia quanto a história de imaginação. a sua antítese no erro. mais do que um contador de histórias. tendeu para o ficcionalismo pós-schopenhauriano. Por que essa diferença? Simples.

tomado no sentido de objeto de conhecimento empírico. encarnação da vontade uni versal. XIX pela filosofia pessimista de Schopenhauer. predomina um ritmo de farsa metafísica . mas nunca pela exemplariedade. como padrão representativo da tragicidade da existência indi vidual. que a ele também se apresenta como mãe e inimiga do homem. da mesma situação metafísica. objeto de intuição afetiva. Não há dúvida que a idéia. ilusório. dize-me o que nenhum filósofo sabe dizer-me: a quem pois agrada. um islandés no fundo do Sahara defronta-se com a Natureza.ela não tem mais do que um dever: dar volta à roda do universo. tal qual a Pandora de O Delírio. Trata-se. da ilusão da vida como perpetuidade do sofrimento à interpretação gnoseológica da oposição kantiana entre fenóme no. pergunta ainda: "Mas então posto que tudo o que se destrói sofre. ao contrário da gravidade trágica do diálogo de Leopardi. da mesma idéia. se me fizeste nascer. coisa em si. Devem estar lembrados que Braz Cubas pergunta a Pandora: "Quem me pós no coração este amor da vida senão tu? e se eu amo à vida por que hás de golpear a ti mesma. parcial. dramatizado. 19 . que uniu a doutrina budista da Maya. o islandés indaga: "Por que me enviaste sem contar comigo a este mundo? Por que. matando-me?" Dessa mesma figura impávida. a quem é útil esta vida desgraçada do universo que não subsiste mais do que pela ruma e pela morte de todos os elementos que a compõem?" (25). exposta ao ciclo natural recorrente de nascimento e morte. que mingua no final incorporan do-se a um gato doméstico ao pé do leito de Braz Cubas moribunda. Aqui. posto que o que destrói não sente prazer. porém. Em O Delírio. portanto. o fundo metafísico da lamentação patética nos dois diálogos. remonta ao mesmo conflito da vontade individual com a vontade universal. identificadora do sujeito e não de representação conceptual. não te ocupaste de mim?" E diante da resposta desta Pandora leopardiana de que só lhe cumpria fazer girar a roda do Uni verso. ou seja.sim em relação a detalhes. no séc.a viagem no lombo de um hipopótamo. Otto Maria Carpeaux dá-nos a indicação certa: a famosa cena é parente muito próxima do "Diálogo da Natureza e de um islandés". e o número. de Giacomo Leopardi (24).

jocoso. ao mesmo tempo paródia e sátira das filosofias monistas e do positivismo de Augusto Comte. sutilizadas. é executada fora do céu. sem dúvida. do equilíbrio e do 20 . dois leões famintos respondem por ela devorando-o. 2Q vol. a Bentinho: a partitura fora escrita por Satanás. 535). conforme mostrou John Gledson. a Natureza não contesta o seu interlocutor. a análise de um hábito mental típico da classe dominante do Segundo Reinado (26).. uma ramificação da ancestral polaridade do bem e do mal. por Deus. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo.B. Finalmente. numa versão caricatural e grotesca concei tos e metáforas do filósofo de O Mundo como Vontade e Representa ção. estabelece uma equivalência humorística do pessimismo schopenhaueriano com o otimismo panglossiano. Em O Delírio é a vítima. VI. de Schopenhauer. o paralelo da vida com uma Ópera proposto pelo velho tenor aposentado. Os indivíduos são "como as gotas da catarata que brama" e que "se precipitam em pó impalpável e que se sucedem com a rapidez de relampagos. A obra. a coisa é divertida. Pandora. cap.. abre o ventre e digere-me..No final do "Diálogo da Natureza e de um Islandés". como sabemos. e que acaba sendo. que. mas digere-me". Os indivíduos são essas bolhas transitórias (Q. da ordem e da desordem. de onde foi expulso. Marcolini. Um exemplo dessa deformação: em certa passagem dessa obra. em tom familiar. pede à Natureza que o devore: "Vamos lã. Schopenhauer compara as formas individuais perecíveis ás formas específicas. Pode-se ver nesse paralelo. ás Idéias que a vontade impessoal de viver produz diretamente. a substância é a mesma. Braz Cubas. "jovem maestro de muito futuro que aprendeu no conservatório do céu". enquanto que o arco-iris que nelas toma vida permanece inquebrantável. Mas também transpõe. Aguilar). ao estado gros seiro de bolhas da água fervendo. Machado de Assis rebaixa essas gotas pulverizadas. "Desaparece o fenômeno. O Humanitismo. e tudo fica na mesma água. e o libreto. hiperbolicamente. Ed. na doutrina humanitista de Quincas Borba transmitida a Rubião. adotados pela maioria dos intelectuais brasileiros da segunda metade do século XIX. pág." (O Mundo como Vontade e Representação.

às vezes de forma aguda. Para Machado de Assis. enfim. logo brincalhona. não ensaiaram juntos a peça operística. os comparsas. espírito de contradição e de subversão intelectual e moral. Também há obscuridade. fugindo ã monotonia. o diabo. Certos motivos cansam ã força de repetição. essa cena. as filosofias para zombar da filosofia. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição. sem razão suficiente. era o maior dos humoristas. da epoché de toda a transcendência no incompreensível drama humano. como na parábola de A Igreja do Diabo. Do ponto de vista intertextual.desequilíbrio. Tal é a opinião dos imparciais. em vez de produzir revolta e expulsão. como para Jean Paul Richter." O plano mítico ou metafísico do conflito entre o bem e o mal é neutralizado. não inflama nem regala e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado (28). a seu gosto. Dá-nos. O subversivo narrador machadiano transformou. No entanto. Modificam-se. disseminada nos escritos de Machado. contudo. o exemplo extremo de rebaixamento humorístico do pessimismo e da suspensão. encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. "Foi talvez um mal esta recu sa. e a contenda. 21 . há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. o maes tro abusa das massas corais. um embroglio de Opera cómica. e assim explicam o terceto do Éden. dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. a ária de Abel. O contraste dramático entre forças opostas e irredutíveis tornase um quiproquo. o desafio do Diabo é musical. da harmonia e da desarmonia. coisa que não edifica nem destrói. como pensamento ficcional. a que nos ofereceu. o autor da letra e o maestro. resumida em Memórias Póstumas de Braz Cubas. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. uma vez que se confundem os dois princípios. que mistura o que devia ficar separado. foi "desigual. Com efeito. com o ato bíblico as da rebelião dos anjos. os coros da guilhotina e da escravidão. grandemente. circunstãncias. do Fausto de Goethe. transforma-se em comparsaria. agora austera. a cena é uma fusão do Prólogo no Céu.

(2) As citações desses romances. bem como as dos contos e crOni cas. pags. cap. Machado de Assis (Algumas notas sobre o humor). Labirinto do Es paço Romanesco. Vide Rodolfo Mondolfo. pag. Aguilar. Rio. Oeuvres Completes. PUF.A Pirâmide e o Trapézio. Civilização Brasileira. Afrânio Coutinho. (16) (17) Quincas Borba. Estudos Alemães. Rio. Ed. (13) Alcides Maya. (9) Nietzsche. El Mundo como voluntad y representacion. Losada. pag. 382. pag. • Guimarães Tome I. a 5s edição da Obra Com plata. pag. 572. Laemmert & Cia. Buenos Aires. 1959. (3) Schopenhauer. (14) Henri Bergson. As Metamorfoses Machadianas.(1) Cf. seguem. Livraria São Jose. Edition du Cantennaire. 1989. Livraria Editora Jacinto Silva. IV. Les Lettres à l'Encan. Le Rire. Icaro menipo ou Le voyage aérien. 1950. Tome II. El Ateneo. (6) A Semana. 1959. 1985. Oeuvres Completes. Ver. Publicação Póstuma dirigida por Sylvio Romero. 1912. (12) Raymundo Faoro. A Filosofia de Machado de Assis. referidos por Sexto Empírico em suas Hipotiposis Pirrônicos. cap. Oeuvres. Paris. s/d. Forense Universitária. vol. CVI. Rio de Janeiro. Rio. (11) Lucian. sobre a philosophia do inconsciente. 1982. Ed. Lisboa. (4) (5) Quincas Borba. Sonia Brayner. Editores. n. (15) Resumimos dessa forma os tropos de Agripa e Enesidemos.. a propósito dessa fonte da ficção de Machado de Assis. Editora Nova Aguilar S. Editores Proprietários. 448. 55. A Origem da Tragédia. Machado de Assis . II. 529. 22 .A Sátira Menipéia e a tradição luciânica. no curso deste ensaio. (10) Lucian.Obras. Machado de Assis . Enylton de Sá Rego. 171. 20 vol. Garnier. pag. Ed. 1979. El Pensamiento Antiquo.A. 110/111. 1985. (7) Tobias Barreto. (8) A Semana.

(24) Otto Maria Carpeaux. Buenos Aires. Uma Fonte da Filosofia de Machado de Assis. pag. pag. II. Rio. (26) John Gledson. (28) Memórias Póstumas de Braz Cubas. IV (A Ideia Fixa). Poseidon.(18) Roberto Schwarz. pag. 273. 213. Editora Nova Aguilar. Editora Atica. El Mundo como VOluntad v Obras. 23 . 174. Machado de Assis. ed. 1984. Intervenção na Mesa Redonda in Alfredo Bosi e outros. The Deceptive Realism of Machado de Assis A Dissenting Interpretation of Dom Casmurro. 164. Milano. The Deceptive Realism of Machado de pag. (21) Dom Casmurro. 395. vol. Dialogo della Natura e di un Islandese. 1986. cit. La Voluntad de Poder. 1976. ed. Fontana. in Reflexo e Realidade. cit. Representación. (20) Dom Casmurro. (25) Giacomo Leopardi. 535. cap. Assis. 1982. 1947. (27) Schopenhauer. Liverpool. pag. pag. LXXXVIII. Editorial (23) Nietzsche. in Operette Morali. CXIII. 151. Cap. 1877. Biblioteca Universale Rizzoli. (22) 15 de março. (19) John Gledson.

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