A Teoria da Interpretação e a Hermenêutica Bíblica de Paul Ricoeur Adna Candido de Paula1

RESUMO: Esta análise tem por objetivo articular os temas, as fontes bibliográficas e as proposições feitas por Paul Ricoeur nas duas obras – Teoria da interpretação (1973) e A hermenêutica bíblica (2000). O interesse desta proposição, para o debate sobre a “Hermenêutica de Paul Ricoeur”, é observar os pontos de contato e de distanciamento relativos à aproximação entre a Literatura e a Teologia, ou ainda, entre a Hermenêutica Literária e a Hermenêutica Bíblica. PALAVRAS-CHAVE: Ricoeur; Hermenêutica; Interdisciplinaridade.

ABSTRACT: This analysis aims to articulate the themes, the bibliographic sources and propositions made by Paul Ricoeur in two works - Theory of Interpretation (1973) and The Biblical hermeneutics (2000). The interest of this proposition for the debate about the "Hermeneutics of Paul Ricoeur," is to observe the points of contact and distance on the approximation between the Literature and Theology, or even between the Literary Hermeneutics and Biblical Hermeneutics KEYWORDS: Ricoeur; Hermeneutics; Interdisciplinarity.

Uma questão interdisciplinar Para Ricoeur, toda teoria de abordagem de objetos a serem analisados deveria sempre pensar os limites de sua própria proposição estando assim aberta ao diálogo com outras linhas teóricas, às vezes, rivais. Foi o que ele fez com a fenomenologia e a hermenêutica, com a psicanálise e o marxismo, e com a filosofia e a literatura, entre outras relações dialógicas. O caráter altamente positivo do conflito das interpretações reside na possibilidade de crescimento e fortalecimento de duas ou mais áreas de saber em conflito, visto que o debate permite um olhar outro sobre o próprio discurso, sobre suas aporias. Para que a interdisciplinaridade seja produtiva é preciso considerar alguns pressupostos: (i) as duas, ou mais, disciplinas envolvidas têm vocabulários, pressuposições, prioridades, referências e critérios diferentes; (ii) disciplinas diferentes

Professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Muruci; Doutora em Teoria e História Literária e Pós-doutora na mesma área, pela UNICAMP. Doutoranda em Ciência da Religião, pela UFJF.

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contudo. (iii) é preciso que as disciplinas envolvidas estejam preparadas para aprender umas com as outras. Os pontos de contato entre os discursos teológico. Inicio essa incursão da hermenêutica proposta por Ricoeur onde ele mesmo considerou tomar um caminho próprio. cada uma. In: XI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Portanto. diferentemente de Heidegger. São Paulo. D. nesse sentido. cada uma. E. na posição de quem oferece uma lição. a psicanálise e a fenomenologia da religião. 2008. Trata-se de um percurso que passa por considerações linguísticas e semânticas. duas de suas obras: Teoria da interpretação (1976) e A hermenêutica bíblica (2000). Wilhelm Dilthey. p. aqui. Schleiermacher. suas próprias sub-culturas e as diferenças são antes exacerbadas que atenuadas pela existência de semelhanças superficiais. uma ontologia da compreensão. F. O primeiro procedimento defendido por Ricoeur. para a realização dessa empreitada. desrespeitar a natureza deste. v. . Para tanto. o método da história. 2008. inspirado na concepção da hermenêutica proposta por Paul Ricoeur. aqui. tendo como horizonte. Este objeto é a linguagem: verbal e nãoverbal. 1. 1-10. místico e literário só podem ser observados naquilo que se manifesta. “A Teia Dialógica da Teoria Literária: uma proposição hermenêutica”. serão consideradas. o filósofo francês inicia sua investigação com uma reflexão sobre a exegese e segue problematizando diferentes processos interpretativos. tais como.têm. de quem vai acrescentar um ensinamento à outra. Hans-Georg Gadamer e incorporou alguns de seus elementos à sua própria concepção do ato interpretativo enquanto fenômeno. A fim de compreender a epistemologia da interpretação. que este trabalho propõe. em diálogo. no entendimento de cada disciplina colocada. perceber as aproximações e os distanciamentos que configuram uma hermenêutica bíblica e uma hermenêutica literária. É. é a renuncia à idéia de que a 2 Esta introdução foi amplamente apresentada e discutida no artigo: PAULA. A hermenêutica ricoeuriana2 Paul Ricoeur dialogou com os autores da tradição dos estudos hermenêuticos. opta pela via longa no processo de enxerto [la greffe] da fenomenologia na hermenêutica. sem se colocarem. sem. termos idênticos utilizados com sentidos bem diferentes. sem proposta de reciprocidade. Anais do XI Congresso Internacional da ABRALIC. como por exemplo. é necessário configurar um suporte teórico de análise desse objeto. religioso. quando. que se configura como objeto de análise comum às áreas de conhecimento. São Paulo: ABRALIC. Adna Candido de.

em Ricoeur. Le conflit des interprétations – essais d’herméneutique. voltados para o sistema de referência interno. primário. a compreensão é uma conjectura. Mas. representado pelo slogan: Expliquer plus. 1969. buscou demonstrar como se dá esse processo. Ricoeur.hermenêutica seja um método digno de lutar com as mesmas armas que as ciências da natureza. voltados para o sistema de referência externo. da multiplicidade de sentidos e de sua capacidade simbólica. secundário. designa. A explicação surgirá. por isso. Este é. o objeto final desta pesquisa. de uma maneira geral. que só pode ser compreendido através do primeiro3. . é o duplo sentido ou o múltiplo sentido. passa pela frase e chega ao discurso. engendra a reflexão acerca dessa segunda referência. Paul. sair da problemática relação entre o sujeito e o objeto e se interrogar sobre o ser. onde cada um dos pólos tem peso e valor equivalente. figurado. literal. Essa semântica se constitui em torno do tema da significação. satisfaz o conceito de apropriação que se descreveu no terceiro ensaio como a resposta a uma espécie de distanciação associada à plena objetivação do texto. mostrar escondendo. O caminho escolhido para essa atestação é o da investigação sobre a linguagem. Da segunda. Ricoeur denomina-as simbólicas. por excelência. inicia-se com a palavra. outro sentido indireto. o objeto da investigação acerca da linguagem. Para ele. da exegese à psicanálise. Ricoeur propõe uma junção entre ambos. que tem como função. será um modo sofisticado de compreensão apoiada em procedimentos explicativos. para além do dado primeiro. A essas expressões multívocas. tem-se o paradigma da hermenêutica da suspeita. também. c'est comprendre mieux: Da primeira vez. a compreensão será uma captação ingênua do sentido do texto enquanto todo. Paris: Éditions du Seuil. A partir da definição do símbolo como algo que está no lugar de outra coisa e que. sobre o ser-no-mundo. O objetivo de Ricoeur foi mostrar que a compreensão de expressões multívocas ou simbólicas é um momento da compreensão de si. a mais. Ao contrário de uma proposição que divida os processos explicativos. 3 RICŒUR. ou seja. antes de subordinar o conhecimento histórico à compreensão ontológica. Ricoeur acorda com Heidegger que o ser investigado é o ser que existe compreendendo. Nesse sentido. pois é através dela que se poderá elucidar uma semântica do conceito de interpretação. dos compreensivos. ele defende que o elemento comum a toda atividade interpretante. é símbolo toda a estrutura de significação onde um sentido direto. o meio pelo qual a compreensão é um modo de ser. No princípio. portanto. No fim. o símbolo como algo que faz “pensar mais”. diferente de Heidegger. O estudo da dimensão metafórica. É preciso.

6 RICOEUR. Paulo Meneses. Para se interpretar a linguagem religiosa. para fazer manifestar seus plurais sentidos. é apenas uma simples abstração. um conjunto de palavras. A linguagem teológica-religiosa fornece. do provérbio ou do dito proclamatório. Trad. Paul. 98. São Paulo: Edições Loyola. p. seria então possível localizar a explicação e a compreensão em dois estágios diferentes de um arco hermenêutico único5”. o procedimento deverá ser o mesmo.pois. como a mediação entre dois estágios da compreensão. que articula a forma com o conteúdo e com o contexto no qual essa linguagem será interpretada. p. Chamando-o “qualificador” de cada um desses modos de discurso. assim como a linguagem literária. 4 . iniciado pela explicação. A hermenêutica bíblica e a hermenêutica literária A linguagem metafórica literária. 2006. Observa-se que essa hermenêutica reconhece todos os elementos formais que determinam a natureza e a função do objeto de análise dessa relação interdisciplinar – a linguagem. e complementado com a compreensão. em sua capacidade de ressignificar sempre. exige. provérbios ou ditos proclamatórios que falam dessa noção de uma maneira ou de outra. de símbolos. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. Se se isolar deste processo concreto. ela também é simbólica: Ao dizer que o Reino de Deus é o elemento comum a vários modos de discurso. É o “indicador” que aponta para além da estrutura. que se configura como símbolo. 86. de modo algum pretendo subentender que seja o referente último das parábolas. 5 Ibidem. Para que os sentidos sejam manifestos. A hermenêutica bíblica. Paul. para além mesmo da dimensão metafórica. um artefato da metodologia4. é preciso entender a “análise estrutural como um estágio – necessário – entre uma interpretação de superfície e uma interpretação de profundidade. de signos e representações que não cessam de RICOEUR. p. 2000. 136-137. um suporte teórico que contemple o círculo hermenêutico. e que requer um fator correspondente de radicalidade na “redescrição” da realidade humana6. Lisboa: Edições 70. trata-o como um símbolo que requer uma interpretação capaz de fazer dele uma parte do “sentido” da parábola. que se volta para a forma. visto que ela fala e faz falar indefinidamente.

. há nessa relação de proximidade entre religião. A literatura como correção crítica frente a uma linguagem teológica que obscurece a realidade do homem mediante fórmulas vazias.alalite.. de um sistema interpretativo que dê conta de sua natureza. seus temas são o nome de Deus e “Reino de Deus”. nas múltiplas dimensões da realidade. Apud LANGENHORST. . Kuschel. a teologia como correção crítica porque desafia a literatura a manter aberta a pergunta pelo homem. In: http://www. Karl-Josef. o que força o intérprete a considerar que. a pergunta. criativa e como um processo. 14. teólogo alemão. identificou que novos sistemas hermenêuticos têm surgido para dar conta dessa relação interdisciplinar. gastas que podem ser intocáveis e imutáveis. Mainz: Literarisch-theologische Porträts.] quem pensa em forma estrutural-analógica pode perceber correspondências do próprio no alheio7”.org/files/chile2008/ponencias/Geor%20Langenhorst. nelas. pelo todo do homem e do mundo no tempo e no espaço. Tradução livre da autora do artigo. Este modelo dialógico foi inspirado em Dorothee Sölle (1929-2003). 385. para além de sua estrutura discursiva. A linguagem religiosa não é puramente metafórica. “Teología y literatura: Historia. p. É 7 KUSCHEL. que figura como o traço que transforma a poética da parábola em uma poética da fé. Esses sistemas propõem as seguintes condições: (i) que a literatura não deve ser manipulada e utilizada teologicamente. necessitam. No que tange às parábolas. a extravagância que interrompe o curso da ação e que constitui o que Ricoeur chama de o extraordinário no meio do ordinário. senão em sua autonomia e em seu inquestionável valor próprio. O poder poético de ficção é o de re-descrever a realidade. mas. que tinha dupla formação. pois. ao contrário. igualmente. portanto. não é seu aspecto de realismo. busca formular um método de analogia estrutural: “Buscar correspondências significa um não apoderar-se. É nessa direção que Paul Ricoeur estabelece a especificidade da hermenêutica bíblica. a pergunta pelo estado do mundo como é. O que é simbólico em uma história-metáfora.pdf p. 1991. hermenéutica y programa desde una perspectiva europea”. Georg Langenhorst. era teóloga e teórica da literatura. apoiado na dupla “correspondências e distanciamentos”. (ii) que a relação com a literatura deve ser realmente realizada de forma dialógica. discurso explicitamente metafórico. Pensar em analogias estruturais implica justamente no apoderar-se [. que deve ser aceito de forma incondicional. “Vielleicht hält Gott sich einige Dichter”. é preciso considerar que. teologia e literatura um desafio mútuo onde os âmbitos se coincidem e podem se converter em uma correção crítica. Para Karl-Josef Kuschel. outro teólogo alemão analisado por Langenhorst. há algo a mais a ser percebido.significar e ressignificar e que. George.

literária e bíblica. mas o discurso religioso não é uma ficção como as outras. Há. p. que é o ponto de interseção e o indício de incompletude dos discursos parciais sobre Deus e porque este nome é solidário ao acontecimento-sentido pregado como ressurreição8. a pretensão da hermenêutica bíblica em dizer algo único precisa passar. segundo Ricoeur. por conta de seu reconhecimento de que os textos sagrados canônicos nomeiam verdadeiramente a Deus. . por outro lado. ou seja. A hermenêutica bíblica. em um primeiro momento. desempenha a função indispensável de norma contra a divisão ilimitada das interpretações: “As barreiras à disseminação encontram-se no papel estruturante exercido pela vida comunitária eclesial (. Mas. é um caso único visto que todos os discursos das Escrituras Sagradas se referem a um Nome. a hermenêutica geral e a hermenêutica bíblica estão em relação de inclusão mútua. redescreva a experiência humana. uma descontinuidade entre as duas hermenêuticas. 1986. e que ao representarem experiências-limite que funcionam como modelo-de-revelação. É. Paul. orienta para a experiência-limite. De qualquer forma. Paris: Éditions du Seuil. A comunidade eclesial. A linguagem religiosa deve ser tratada. Ricoeur aponta que a especificidade da hermenêutica bíblica confessante se encontra no nível do círculo que se estabelece entre a comunidade crente e as Escrituras que aquela recebe como “inspiradas”.precisamente neste sentido que ela. No plano metodológico da interpretação dos textos. como toda linguagem poética. então. a especificidade da linguagem bíblica. É dessa maneira que as 8 RICOEUR. O poder de redescrição que está ligado à linguagem religiosa. pelo mundo do texto. porque a hermenêutica bíblica incorpora conceitos. (iii) sobre o papel do leitor e sobre a historicidade do sentido. esta subordinada àquela. em termos de modelos-de-revelação. é uma metáfora limite. argumentos e métodos da hermenêutica geral: (i) a reflexão sobre as categorias do texto e de sua interpretação. para Ricoeur. portanto.. a originalidade “absoluta” de seu referente (o nome de Deus) e de seu mundo (o Reino) subverte a relação e faz da hermenêutica bíblica um caso único da hermenêutica geral. necessariamente.. a ficção. (ii) sobre a dialética da explicação e da compreensão. essa adequação da expressão-limite à experiência-limite que faz com que a linguagem religiosa. 141. “Herméneutique philosophique et herméneutique biblique” in: Du texte à l'action – essais d'herméneutique II. é uma espécie de modelo. que se dirige ao leitor como a coisa do texto.): uma comunidade histórica interpreta-se a si mesma ao interpretar o tesouro de sua Escritura. seu funcionamento como expressãolimite. Ficando.

Paul. busca atingir a realidade de que fala o texto. como fatos. Como indica François-Xavier Amherdt. Ao que tudo indica. 10 PAULA. A configuração é o intermédio entre a pré‐figuração e a refiguração e representa a terceira mimesis. disposta na narrativa. v. ou seja. A hermenêutica bíblica. Paris. L’interprétation de la Bible dans l’église. desse texto fundante: “O conhecimento bíblico não deve parar na linguagem. proliferam interpretações privadas. é possível depreender da tríplice mimesis uma estrutura que comporta três elementos fundamentais da constituição do objeto literário: o autor. Se no que tange à especificidade do objeto literário. Trata-se ainda da recepção e do ato de depreensão e compreensão do agenciamento das ações e do seguimento dessas. o COMMISSION BIBLIQUE PONTIFICALE. "Mimesis Tripartida. 67.109 . Paulo Meneses. também. Adna Candido de. A segunda mimesis é a configuração. A primeira mimesis é a pré‐figuração. Nesse sentido. é a forma que controla dinamicamente a interpretação.comunidades de leitura e de interpretação se constituem. Ao agenciamento dos fatos Ricoeur denomina de concordância e aos reveses de discordância. p. no qual. Uma Leitura Hermenêutica de 'O Almada’ de Machado de Assis". Trad. 2006. Apud RICOEUR. não correm o perigo de uma dispersão infinita”. a pré‐figuração é. ficcional. Ricoeur. Ricoeur está perfeitamente consciente de nosso contexto pós-moderno. até a peripécia. p. Ricoeur elaborou o conceito da tríplice mimesis com o foco na recepção. analisando a estrutura e o funcionamento das narrativas ficcionais identifica o processo da “tríplice mimesis10”. a mudança de fortuna (tragédia). que responde ao anseio de concordância temporal do sujeito. 1993. tanto a pré‐figuração quanto a configuração e a refiguração fazem parte do complexo processo interpretativo de desdobramento da linguagem simbólica. 35. São Paulo: Edições Loyola. A linguagem religiosa da Bíblia é uma linguagem que visa a uma realidade transcendente e que. ao mesmo tempo. o que controla a ressignificação ou a superinterpretação da linguagem bíblica é a comunidade. a obra e a recepção. desperta a pessoa humana para a dimensão profunda de seu ser9”. Como observa Ricoeur. Nesse sentido. p. visto que é no ato de leitura que esse primeiro se manifesta. p. ou seja.1. mesmo anárquicas. dos documentos bíblicos. a identidade da comunidade eclesial está ligada à identidade do texto. de fato. 9 . que embora não sendo redutíveis a uma unidade. 2008. 119. Considerando o fato de que o filósofo dialogou tanto com a semiótica como com a linguística e que partiu do esquema de comunicação descrito por Roman Jakobson. É na refiguração que se dá a junção entre o mundo do texto e o mundo do leitor. é a pré-compreensão comum do mundo no ato interpretativo.124. Revista da ANPOLL .

Paris: Esprit. Como referência primeira que se abre potencialmente para a segunda referência. o qual apresenta a ele novas possibilidades de agir e de sentir. 41. Paris: Éditions du Seuil. onde cada um dos pólos tem peso e valor equivalente. por isso. p. A mudança operada no mundo real só é possível porque o mundo do texto perturba. se distancia dele pela inovação metafórica. Réflexion faite: autobiographie intelectuelle. dá-se pela relação entre escritor e obra. trata-se da observação. a leitura não deixa o leitor intacto. suspende e reorienta as expectativas prévias do leitor. O procedimento hermenêutico é dividido em etapas e faz o caminho inverso de configuração da tríplice mimese: 11 12 RICŒUR. Quanto à interpretação desses mundos possíveis dispostos na linguagem. O texto ganha. representado pelo slogan: Expliquer plus. Du texte à l'action – essais d'herméneutique II. pois sua subjetividade é colocada em suspenso por sua exposição ao texto. Em termos literários. . A configuração pode ser traduzida por trabalho estético. representa as escolhas que o escritor faz dos elementos que ele elege no mundo real para serem transformados esteticamente no mundo ficcional da poesia ou da prosa. voltados para o sistema de referência interno. 1986. da inscrição direta do discurso na littera11”. ao contrário de uma proposição que divida os processos explicativos. mas que.movimento primeiro da elaboração literária. é o trabalho de configuração estética empreendida pelo autor no tratamento dado ao material colhido na pré‐figuração. toda narrativa é uma concordância discordante: “Concordância no sentido da referenciação e discordância no sentido da transformação da linguagem. a narrativa ficcional oferece. 158. Olivier. na ressignificação produzida pelas diferentes comunidades de leitores. mais especificamente. ABEL. 13 RICOEUR. Paris: Presses Universitaires de France. Nesse sentido. da vivência e da eleição de ações. L’éthique interrogative: herméneutique et problématologie de notre condition langagière. Exatamente. 1995. por outro lado. à realidade comum. a interpretação do objeto literário é fundamentada na capacidade de descontextualização deste e recontextualização em diferentes períodos históricos. visto que ela constrói um todo heterogêneo que tem por referência o mundo mimetizado. na configuração. Paul. dos compreensivos. p. sujeitos. e por extensão. A narrativa ficcional problematiza o mundo e permite a aparição de outros mundos possíveis. 2000. Segundo Olivier Abel12. autonomia em relação ao autor e ao contexto. voltados para o sistema de referência externo. Ricoeur propõe uma junção entre ambos. novas possibilidades de ser no mundo. Paul. c'est comprendre mieux13. temporalidade e espacialidade a serem configurados na obra literária.

é aplicando esse método à exegese bíblica que se faz aparecer a verdade final. A explicação surgirá. Observa-se que Ricoeur reconhece todos os elementos formais que determinam a natureza e a função do objeto literário e. proposta por Ricoeur. 141. la rend à elle-même et la délivre de plusieur illusions. é colocada. propõe a análise estrutural como um estágio – necessário – entre uma interpretação de superfície e uma interpretação de profundidade. Da segunda. D’abord. p. será um modo sofisticado de compreensão apoiada em procedimentos explicativos. seria então possível localizar a explicação e a compreensão em dois estágios diferentes de um arco hermenêutico único15. Paris: Éditions du Seuil. pois como a Bíblia é considerada uma revelação. pois. o objeto dessa hermenêutica. a compreensão é uma conjectura. Se se isolar deste processo concreto. O mundo do texto é. a coisa do texto. Lisboa: Edições 70. a proposição de um mundo. No fim. para que seus sentidos sejam manifestos. elle délivre de la tentation d’introduire prématurément des catégories existentielles de compréhension.Da primeira vez. comme pour contrebalancer des éventuels excès de l’analyse structurale16. pois. satisfaz o conceito de apropriação que se descreveu no terceiro ensaio como a resposta a uma espécie de distanciação associada à plena objetivação do texto. A hermenêutica geral. p. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. Paul. a compreensão será uma captação ingênua do sentido do texto enquanto todo. o ser-si do leitor. Cette “application”. como a mediação entre dois estágios da compreensão. indica que a etapa necessária entre a explicação estrutural e a compreensão de si é o desenvolvimento do mundo do texto. Segundo Ricoeur. é apenas uma simples abstração. “Herméneutique philosophique et herméneutique biblique” in: Du texte à l'action – essais d'herméneutique II. acima das disposições de crença ou descrença. isso deve ser dito a respeito da coisa que ela diz. 15 Ibidem. 98. assim. É ele que forma e transforma. 86. 1986. segundo sua intencionalidade. A implicação teológica para Ricoeur é clara e pode ser compreendida em quatro pontos: (i) esta hermenêutica permite manifestar o mundo do ser que é a coisa do texto bíblico. (iii) o sentido do mundo do texto não legitima nenhum privilégio de princípio por uma RICOEUR. No princípio. loin de soumettre l’herméneutique biblique à une loi étrangère. um artefato da metodologia14. (ii) suplanta as questões sobre a inspiração das Escrituras. Paul. 2000. o mundo novo sobre o qual fala a Bíblia. 14 . o mundo da nova aliança. 16 RICOEUR.

144. A fé é inseparável do movimento de esperança que se clareia o modo de transformar as razões do desespero em razões de esperança. apesar da experiência. é preciso retomar a quarta implicação teológica da categoria do mundo do texto. Entretanto. para Ricoeur. Contudo. . que é tanto o coordenador como o índex da incompletude desse discurso. p. tem implicações quando se retoma o conceito de fé. trata-se de Israel. que soma às duas funções do nome “Deus” o poder de encarnar todas as significações religiosas em um símbolo fundamental: le symbole d’un amour sacrificiel. etc. que se distancia da realidade cotidiana. Ibidem. este também é um mundo possível. a fé não pode estar separada do movimento da interpretação que a eleva à linguagem. (iv) da mesma forma que o mundo do texto literário é um mundo projetado. 144. des législations. o mundo bíblico tem aspectos cósmicos – é uma criação –. comprendre le mot “Dieu” dit plus: il présuppose le contexte total constitué par l’espace entier de gravitation des récits. do reino de Deus –. des prophéties. des hymnes. p. d’un amor plus fort que la mort. esta afirmação. Aqui. como a coisa do texto. des législations. em geral. ao mesmo tempo em que é a origem não hermenêutica de toda interpretação. a da apropriação. A hermenêutica bíblica só pode pretender dizer uma coisa única se essa coisa única fala como o mundo do texto que se endereça a nós. des hymnes.instrução que se dirige ao ser individual e. A 17 18 Ibidem. O mesmo ocorre com o nome de “Cristo”. que se distancia poeticamente da realidade cotidiana. visto seu caráter prélinguístico e hiper-linguístico. de acordo com as leis paradoxais de uma lógica da profusão. comunitários – é um povo –. em linguagem teológica. quando se afirma que o reino de Deus vem.. des prophéties. nenhum privilégio a aspectos personalistas na relação do Homem com Deus. Ricoeur indica três consequências para a hermenêutica bíblica da relação entre o mundo da obra e a compreensão que o leitor toma de si-mesmo diante do texto: (i) A fé é o limite de toda hermenêutica. O nome de Deus é o nome religioso do ser: “il présuppose le contexte total constitué par l’espace entier de gravitation des récits. e pessoal. etc. histórico-culturais –. C’est la fonction de la prédication de la Croix et de la Réssurection de donner au mot “Dieu” une densité que le mot “être” ne recèle pas18. ao sentido do compreender-se diante do mundo. comprende le mot “Dieu”. projetado. O ponto fundamental que dita a especificidade da hermenêutica bíblica é o nome de Deus. c’est suivre la fleche de sens de ce mot17”.

p. . Observa-se 19 20 Ibidem. É através dela que se desconstrói os preconceitos que impedem o mundo do texto de se deixar ser. as vozes em questão são ouvidas. Para Ricoeur. 148. (iii) A terceira e última consequência vem da hermenêutica da apropriação. propondo ao sujeito os figurativos de sua liberação. é à imaginação do sujeito que o texto fala. que faz parte integrante da compreensão deste diante do texto. 21 Ibidem. há troca. Trata-se. seria vazia se ela não estivesse apoiada na interpretação. A imaginação é a dimensão da subjetividade que responde ao texto como poema: Quand la distanciation de l’imagination répond à la distanciation que la “chose” du texte creuse au coeur de la réalité. p. p. uma vez que o poder de se deixar tomar por novas possibilidades de ser precede o poder de se decidir e de escolher. 146. têm dupla função: apresentar um possível procedimento metodológico que oriente a prática interdisciplinar. aqui. há solidariedade e ética. 148. Ibidem. (ii) A segunda consequência resulta do tipo de distanciamento que a hermenêutica bíblica produz na compreensão de si quando essa compreensão é um compreender-se diante do texto. Em um processo dialógico como este. Considerações Finais As considerações feitas. dos acontecimentos-signos relatados pelas Escrituras: Ce sont ces événements de délivrance qui ouvrent et découvrent le possible le plus propre de ma liberté et ainsi devient pour moi parole de Dieu19. que faz parte de toda apropriação de sentido. respeitando a natureza dos objetos a serem analisados. sempre renovada. É na imaginação que se forma o ser novo. que a fé confere.confiança incondicionada. teologia e religião. e chamar a atenção para a legitimidade das práticas interdisciplinares e da necessidade de se refletir epistemologicamente esses procedimentos. em última instância. entre literatura. No momento da apresentação de si à coisa do texto. é o aspecto positivo do distanciamento de si implicado em toda compreensão de si diante do texto. Trata-se da dimensão criativa do distanciamento que estabelece um tipo de jogo com a realidade: le jeu ouvre aussi dans la subjectivité des possibilites de métamorphose qu’une vision purement morale de la subjectivité ne permet par de voir20. une poétique de l’existence répond à la poétique du discours21. há respeito. a estrutura da compreensão incorpora a crítica de si. Esta última consequência é a mais relevante uma vez que coloca a coisa do texto acima da compreensão de si. de uma hermenêutica da suspeita.

2000. 1969. Apud LANGENHORST. _____. Karl-Josef. Réflexion faite: autobiographie intelectuelle. v. _____. Paris. Anais do XI Congresso Internacional da ABRALIC. São Paulo. "Mimesis Tripartida. 2006. Olivier. RICŒUR. Uma Leitura Hermenêutica de 'O Almada’ de Machado de Assis". 158. “A Teia Dialógica da Teoria Literária: uma proposição hermenêutica”. 2008. 2008. Mainz: Literarischtheologische Porträts. Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de significação. In: http://www. _____. 2008. George. 1986. Trad. 1986. Apud RICOEUR. “Teología y literatura: Historia.109 . p.que é do interesse das áreas envolvidas e dos agentes que promovem a relação interdisciplinar estabelecerem os limites e as pontes entre esses saberes. Adna Candido de. L’interprétation de la Bible dans l’église. A hermenêutica bíblica. _____. Paulo Meneses.alalite. _____. Paris: Presses Universitaires de France. Paris: Éditions du Seuil. Paul. _____. L’éthique interrogative: herméneutique et problématologie de notre condition langagière.pdf PAULA. 1991.org/files/chile2008/ponencias/Geor%20Langenhorst. Lisboa: Edições 70. hermenéutica y programa desde una perspectiva europea”. KUSCHEL. “Vielleicht hält Gott sich einige Dichter”. São Paulo: Edições Loyola. 2006. Du texte à l'action – essais d'herméneutique II. . Le conflit des interprétations – essais d’herméneutique. Paul. Paris: Esprit. Paris: Éditions du Seuil. Revista da ANPOLL . p. 1995. A hermenêutica bíblica. “Herméneutique philosophique et herméneutique biblique” in: Du texte à l'action – essais d'herméneutique II. p. Bibliografia ABEL.124. 2000. Paris: Éditions du Seuil. Paulo Meneses. São Paulo: Edições Loyola. In: XI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada.1. São Paulo: ABRALIC. 1993. 385. Trad. COMMISSION BIBLIQUE PONTIFICALE.

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