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Revista dos Estudantes da Faculdade de Direito da UFC (on-line). a. 2, v. 5, fev./abr. 2008.

O Direito comercial e as Compilações Mercantis da Idade Média
CAMILA DA SILVA LEAL MEDEIROS* Resumo: Para se entender o Direito Comercial contemporâneo mostra-se necessário ressaltar os principais aspectos de sua evolução histórica Na Idade Média, o Direito Comercial tornou-se uma disciplina jurídica autônoma. Um dos fatores decisivos para essa autonomia foi a elaboração, pelas corporações de ofício, das Compilações Mercantis, que objetivavam reger as atividades comerciais. Este artigo tem como intuito tratar das principais Compilações, traçando um pequeno histórico dos fatores que influenciaram para o surgimento dessas codificações e mostrando a importância das mesmas para o Direito. Palavras-chave: Direito Comercial. Idade Média. Compilações Mercantis. Abstract: To understand the Commercial law contemporary reveals necessary to stand out the main aspects of its historical evolution. In the Average Age, the Commercial law became one disciplines legal autonomous worker. One of the decisive factors for this autonomy was the elaboration, for the corporations ex-officio, of the Mercantile Compilations, that objectified to conduct the commercial activities. This article has as intention to deal with the main Compilations, being traced a small description of the factors that had influenced for the sprouting of these codifications and showing the importance of the same ones for the Law. Keywords: Commercial law. Average Age. Mercantile Compilations. 1. Introdução O Direito Comercial está ligado à própria história da humanidade. As manifestações do que mais tarde seria o Direito Comercial remontam à Idade Antiga, “mas essas normas ou regras de natureza legal não chegaram a formar um corpo sistematizado, a que se pudesse denominar de direito comercial” (REQUIÃO, 1988:8). Entre as mais remotas leis que possuem disposições relativas ao comércio, destacam-se o Código de Hamurábi, o Código de Manu, as Leis de Rodes e o Código de Justiniano. Apesar de já existirem regras relacionadas ao comércio marítimo, desde a Antigüidade, somente na Idade Média desenvolveu-se o direito comercial como um sistema autônomo, pois, com as relações comerciais consolidadas na sociedade, os
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Aluna da Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará.

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comerciantes passaram a se organizar em corporações, objetivando definir as regras e diretrizes que deveriam reger o desenvolvimento do comércio.

2. A Idade Média e as compilações mercantis A queda do Império Romano e o desmoronamento do carolíngeo causaram várias mudanças sociais e políticas. A insegurança causada pelas invasões bárbaras obrigou as classes mais humildes a procurar segurança em torno de seus senhores feudais. Porém, com o tempo, as classes humildes passaram a se reunir contra os abusos dos senhores feudais e para defenderem seus interesses comuns. Surgem as associações de classe. “Floresceram incentivadas pela impotência das autoridades no exercício de seu papel econômico se social” (FERREIRA, 1954:19). Essas associações tornaram-se poderosas, exercendo até mesmo poderes que eram do Estado. Elas eram responsáveis por organizar as feiras e os mercados. Com relação às feiras e os mercados, são elucidativas as palavras do professor Fran Martins:
Os mercados eram locais, situados nas cidades, a que compareciam os agricultores com seus produtos, vendendo-os e adquirindo bens ou produção citadina. Mais tarde, criou-se o costume de os comerciantes de várias regiões, muitas vezes bem distantes, se reunirem em dias certos, em determinadas cidades, para fazerem as trocas dos seus produtos. Essas reuniões, que se denominavam feiras, em geral eram realizadas de três em três meses e duravam dias. O Estado, que usufruía impostos nas feiras, estimulava-as e criava normas especiais de garantia para os que a elas acorressem. Eram as feiras o centro de comércio terrestre, para lá dirigindo-se mercadores de lugares longínquos. (2001:6)

As associações acabaram por criar suas próprias leis (estatutos) e jurisdições particulares, as chamadas jurisdições consulares. Os integrantes das associações elegiam um juiz, chamado de cônsul, para dirimir os processos. Esse juiz exercia a justiça sem formalidades e de acordo com a eqüidade, utilizando-se como guia não só as regras estatutárias, mas os usos e costumes adotados por esses comerciantes. Alguns usos e costumes e decisões proferidas pelos tribunais consulares foram sendo transformados nas Compilações Mercantis, que ganharam grande importância na Idade Média. Essas Compilações foram as primeiras codificações mercantis e foram responsáveis por separar definitivamente o Direito Comercial do Direito Civil.
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Entre as muitas compilações merecem destaque o Consulado do Mar (Consulato Del mar), os Rólos de Oléron (Rôles d’Oléron ou Jugements), a Tábua Amalfitana (Tábula Amalfitana), o Guidão do Mar (Guidon de La mer), as Leis de Wisby e a Jus Hanseticum maritimum.

2.1. Consulado do Mar (Consulato Del mar) Publicado em Catalão, em meados do século XI e aprovado em Roma, no ano de 1075, sua paternidade foi disputada por algumas cidades, como as cidades de Barcelona (Espanha), de Marselha (França) e de Pisa (Itália). Entretanto, o que parece é que foi o conjunto de decisões do Tribunal Consular de Barcelona. Embora se tenha duvidado de sua existência, foi encontrado um exemplar na Biblioteca Imperial de Viena, em 1844. Consolidadas por ordem dos antigos Reis de Aragão, foram compilações de usos e de regras seguidas pelo Tribunal Consular de Barcelona (Consulatus Maris) e que influenciou todo o Mediterrâneo. Disciplinava todos os institutos de direito privado da época, exceto o câmbio e o seguro marítimo. Dividido em 334 capítulos, somente no 46º é que propriamente começa a tratar do comércio marítimo, com a declaração de que “aqui começam os bons costumes do mar”. Entretanto, tratou de vários assuntos importantes para o direito comercial, como a construção, a compra, a venda e a propriedade dos navios; a carga e descarga de mercadorias; o contrato de fretamento; as avaria e as relações entre armadores, carregadores, capitães e marinheiros. O Consulado Mar acabou se tornando “a regra a que voluntariamente se submetem todos os povos cristãos dedicados ao comércio marítimo, reunindo todo o direito marítimo do tempo das margens do Baixo Mediterrâneo” (BULGARELLI, 1998:32).

2.2. Rólos de Oléron (Rôles d’Oléron ou Jugements) Os Rólos de Oléron eram um conjunto de costumes marítimos e de decisões judiciais proferidas no Tribunal de Oléron. Nele estava registrado o direito comercial

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em vigor no Atlântico, tendo se estendido até o Mar Báltico e para o Mediterrâneo e por sua grande influência era chamado de Universalis Consuetudo (costumes univesais). Seu nome deve-se ao fato de serem redigidos em papéis de pergaminhos, enrolados em torno de um cilindro e de derivarem da Ilha de Oléron, na costa atlântica da França, que havia sido sede de um amplo comércio de sal e vinho. Sabe-se que essas regras foram feitas entre o século XI e o século XII, porém há dúvidas quanto a seu autor. Existem apenas suposições: de que o documento haveria sido feito pela corte da Ilha de Oléron ou de que foi simplesmente trabalho de um notário. Porém, a versão mais popular é atribuir a iniciativa à Eleanor de Aquitânea, esposa de Henri Plantagenet, Duque da Normandia e que seria posteriormente Henrique II, Rei da Inglaterra. Esta compilação, destinada aos portos do oceano, continha 56 capítulos que regularam matérias importantes vigentes até os dias atuais, como a obrigação de não abandonar o navio sem ordem do Capitão, o salvamento de navio naufragado, a morte de tripulante em viagem, o sacrifício do mastro e da âncora para salvação comum e a responsabilidade do Capitão e da Tripulação em relação à carga durante a viagem. Sobre a importância dos Rólos de Oléron, anota J. C.Sampaio Lacerda:
As regras contidas nesse monumento foram reproduzidas nas Partidas, de Castela; nos Julgamentos de Damme, de Flandres; nas Leis de Westcapelle, na Zelândia; nas Leis de Wisby ou na lei marítima de Gothland e nas Ordenações holandesas (1960:32).

2.3. Tábua Amalfitana (Tábula Amalfitana) Algumas cidades marítimas mais importantes fizeram sua própria codificação sobre direito comercial, como a cidade de Amalfi, na Itália, que foi uma das primeiras repúblicas marítimas italianas. Amalfi disputou a hegemonia comercial com diversas outras cidades italianas, como Pisa, Génova, Veneza e Gaeta, sendo um das maiores potências navais do comércio com o Oriente. O poder naval de Amlfi e o seu forte envolvimento no comércio do Mediterrâneo foram os fatores decisivos para a realização da Tábua Amalfitana.

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Escrito pelos amalfitanos, entre o século XI e o século XIV, foi reconhecido no Mediterrâneo até cerca de 1570. A Tábua, que foi sendo compilada ao longo dos tempos, divide-se em sessenta e seis capítulos, sendo vinte e um deles escritos em latim, formando assim uma coletânea de máximas jurisprudenciais e consuetudinárias. No seu texto inclui regras sobre o ajuste, a navegação, o crédito naval, o pagamento de frete, a construção e a venda de navios e a obrigação do capitão. Centro comercial florescente nos séculos X e XI, Amalfi foi a primeira cidade que na Idade Média realizou um extenso comércio marítimo, e seu direito marítimo (Tabula Amalphitana) tinha validade em toda a Itália e era respeitado nas nações cujos barcos navegavam no Mediterrâneo

2.4. Guidão do Mar (Guidon de La mer) A cidade de Rouen, na França, era considerada como o ponto de encontro entre o direito do Mediterrâneo e o Nórdico. No século XVI, foi elaborado nesta cidade, por autor desconhecido, o chamado Guidon de La mer, código marítimo de grande importância na Idade Média. Composto de 20 capítulos e 169 artigos, distingue-se das outras codificações por sua ordem sistemática e pela utilização de material consuetudinário e legislativo. Essa compilação era o resumo do que era praticado na França, na Espanha, na Itália e na Inglaterra.

2.5. Leis de Wisby e o Jus Hanseticum maritimum As Leis de Wisby (Ordinanze dei mercanti e patroni della magnífica città di Wisby) são compilações feitas no porto sueco de Wisby, na ilha de Gotland, no Mar Báltico, posteriormente ao século XIV. Compunha-se de 67 capítulos e era a reunião de usos e costumes do Consulado do Mar e dos Rólos de Oléron e estendeu sua influência até o Mar do Norte. O Jus Hanseticum maritimum foi criada pelas cidades do Norte da Europa que formavam as Ordenações da Hansa Teutônica, incluindo os portos de Hamburgo e Bremen e Lubeck.
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Publicada em Lubeck em 1591 e posteriormente modificada, eram a regulamentação náutica da Liga Hanseática, com o fim de proteger o comércio no Mar Báltico.

3. Considerações finais O Direito Comercial como um conjunto de normas jurídicas especiais, a parte do Direito Civil, e com o objetivo de regular as atividades profissionais dos comerciantes, tem seu início na Idade Média. Na Idade Média, com a decadência do feudalismo e a ascensão do comércio, houve a necessidade de elaboração de regras que disciplinassem a atividade comercial. E assim, surgiram as primeiras codificações de Direito Comercial, as chamadas Compilações Mercantis. Algumas das regras contidas nessas Compilações ainda são vigentes, como é o caso das regras sobre seguros marítimos, presente no Guidão do Mar. Outras, não vigentes, influenciaram e ainda influenciam o Direito Comercial contemporâneo.

4. Referências BULGARELLI, Waldirio. Direito Comercial. 13. ed. São Paulo: Atlas, 1998. FERREIRA, Waldemar Martins. Instituições de Direito Comercial: o estatuto do comerciante e da sociedade mercantil. 4. ed. São Paulo: Max Limonad, 1954. LACERDA. J. C. Sampaio. Curso de Direito Comercial Marítimo e Aeronáutico: direito privado da navegação. 4. ed. Rio de Janeiro: Livraria Freitas de Bastos s/a, 1960. MARTINS, Fran. Curso de Direito Comercial. 27. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001. MATOS, Azevedo. Princípios de Direito Marítimo. 4. ed. Lisboa: Ática, 1956. REQUIÃO, Rubens. Curso de Direito Comercial. São Paulo: Saraiva, 1988.

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