Faculdades Integradas do Brasil – UNIBRASIL Escola de Comunicação – Design A PORNOGRAFIA REALCORE SOB A ÓTICA DE UM SIMULACRO

Rafael Ferreira de Souza RESUMO: A pornografia realcore é apresentada no presente artigo como modelo de um simulacro de interação. O realcore, a princípio, é observado ideologicamente como uma forma de pornografia que se aproxima do sexo “verdadeiro”, propondo, então, uma transgressão à pornografia hiper -realista mainstream. Mas em segunda análise, o realcore é pode ser considerado como uma outra forma de simulacro, ou seja, mais uma das representações da realidade simulada. O objetivo desta peça científica é compreender as possíveis vertentes em interações advindas da pornografia realcore online. Acredita-se na hipótese que não há uma dissimulação de interação inserido neste contexto, e sim na existência de uma lacuna a ser preenchida direcionada a compreensão do consumismo, onde este ilustra um cenário “fictício” tornando difícil, se não impossível, a distinção de simulação, simulacro e hiper-realidade acerca do “real”. A interação do homem-computador e, consequentemente, o design de interação é a uma das ferramentas responsáveis pela criação destas realidades simuladas em ambientes virtuais.

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INTRODUÇÃO “The future is here... and it’s sweaty, it’s sticky, and it swallows.”1 Sergio Messina Em meados dos anos 90, graças à facilidade de acesso aos novos aparatos tecnológicos,

como as câmeras digitais e webcams, e uma ânsia em interagir com as novas mídias online, os usuários de sites pornográficos criaram uma nova categoria deste tipo de conteúdo adulto: o realcore. A primeira vez que se ouviu a palavra realcore foi durante a conferência Netporn 2005 em Amsterdam, onde Sergio Messina atribuiu esta definição à categoria de pornografia amadora (DERY, 2007). Segundo Messina (2007), o realcore é baseado na criação de imagens e vídeos de conteúdo pornográfico amador, ou seja, carentes, propositalmente, de alta qualidade de imagem, scripts ou roteiros. A ausência da encenação é a característica que acabou por definir esta categoria, retratando os verdadeiros desejos dos usuários através de uma performance real. Enquanto na pornografia tradicional, conhecida no âmago do netporn como mainstream, cujo foco performático está ligado à estética2, o realcore propõe a ruptura da

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Tradução: “O futuro está aqui... e é suado, é grudento e engole”. (MESSINA, 2007) A estética baudrillardiana é a concepção de mundo que põe a imagem em um lugar superior a realidade, que transforma a imagem, fato da realidade, em vetor de amplificação do real, ou seja, transformando o real é hiper-real.

adoração do corpo estético, exagerado; a fisionomia do performer então, no realcore, é a que mais se aproxima da sexualidade enquanto eleimento da noção de exposição.

E é em um viés epistemológico na definição do real que este artigo apresenta a problemática nesta categoria da pornografia amadora: a simulação. Numa busca para compreensão dos conceitos pós-modernos de simulação e realidade, o presente estudo centrou-se na contextualização da pornografia realcore em dois filósofos: Guy Debord e Jean Baudrillard. Embora que não compartilhem de um mesmo “ponto de vista”, é possível criar uma relação entre os mesmos a fim de inserir o realcore nestes conceitos. Antes de imergir-se em analogias, é importante um entendimento claro e conciso de três conceitos pós-modernos: simulação, simulacro e hiper-real. Segundo Jean Baudrillard (1991), a simulação é uma cópia “fiel” do real (TONIN, 2011), na qual, em uma conclusão “vulgar”, não se pode ser reproduzida. Em segunda inferência, isso se deve ao fato de uma redenção à causa, cujo não é compreendida em si, ou seja, esta cópia de real possui finalidade única de reproduzir a realidade. O simulacro, por outro lado, é uma cópia incompleta da realidade (BAUDRILLARD, 1991), levando à outra inferência: enquanto a simulação possui uma finalidade única, independente de dissimulações, o simulacro não possui apenas uma finalidade. Isto é, o simulacro apresenta uma lacuna para ser compreendida, deixando espaço a um agente mediador que é responsável por interpretações distintas e que, por fim, não se fia a uma única verdade absoluta. E hiper-real, finalmente, é o último estágio de um simulacro (ibid.). O que difere o hiper-real do simulacro é a relação com a simulação do real. Enquanto o simulacro é produz uma realidade “fictícia”, propondo uma nova realidade que esconde a “realidade real”, por assim dizer, o hiper-real não se constrói imitando, simulando ou escondendo a realidade. A hiper-realidade apresenta um novo real, no qual é totalmente livre de qualquer relação com o real em si. Assim como Baudrillard, o filósofo Guy Debord também afirma que a “simulação é a reprodução da realidade” (TONIN, 2011, p. 4), cujo ele refere-se como espetáculo, onde a sociedade vive sobre este palco sob o controle do consumismo. Em adição, Baudrillard, sociólogo e estudioso sobre o impacto da comunicação nas sociedades contemporâneas e, com um olhar mais ausente do consumismo, afirma que a hiper-realidade é um obstáculo na consciência para percepção do real (BAUDRILLARD, 1991). Sendo assim, a pornografia é observada, para Baudrillard, como uma experiência desconstrucionista do sensual e sedução, onde a mídia transforma o corpo humano em um

produto comercial; o sexo é comercializado virtualmente em um mundo hiper-real (TONIN, 2011). Todavia, conforme a problemática proposta pelo presente artigo, seria o realcore uma simulação da realidade, ou seja, reprodução do sexo? Ou seria este um simulacro que circula no ambiente virtual da Internet? Ou ainda um produto hiper-real, se senão, produto do hiper-real?

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O SIMULACRO DE SIMULAÇÕES: PARADOXOS DO REALCORE “Tudo é perfeitamente visível com relação à mercadoria, pois nada mais se vê senão ela: o mundo visível é o seu mundo”. Guy Debord3 O mais intrigante da pornografia realcore4 encontra-se na forma totalitária em que a

mesma é interpretada. Há diversos agentes mediadores na interpretação desta categoria do mercado adulto, os quais nos levam à dissuasão compreensiva do realcore em si. Em primeira análise, tomamos o aspecto principal do realcore: transgressão à estética do mainstream. Ou seja, enquanto o esse último é representado por uma hiper-realidade5, o realcore é mais fiel à realidade do ato sexual, ou, pelo menos, à noção de exposição da sexualidade, logo, podemos dizer que se trata de um produto fruto da simulação do sexo. No entanto, mais uma vez, o fator estético é apenas um dos elementos da estrutura compositiva que permeia a pornografia amadora. O paradoxo do realcore é notável quando se confronta a ação performática com estes conceitos da pós-modernidade ditadas por Baudrillard e Debord. Num filme pornô, independente do tipo categórico, mais do que atores, há performances. Em segunda análise, mais que performances de ficções narrativas, a pornografia apresenta a performance do obsceno6. E uma vez que espetáculo é a reprodução da realidade (DEBORD, 2003), logo é possível a falácia que o ato performático presente na pornografia realcore é o espetáculo.

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Ibid., p. 32. Afirmação baseada na proposta do artigo. 5 O mainstream, conforme apresentado na introdução, é recheado de conteúdo que não corresponde a realidade em si: homens e mulheres musculosos e “perfeitos”. 6 O autor entende o obsceno, sob o ponto de vista etimológico, como aquilo que não deveria ser exposto, não deveria estar ali. Ou seja, a pornografia é um discurso que veiculador do obsceno: a exibição do que deveria estar oculto (ABREU, 1996).

Nesse equívoco sentido, a simulação espetacular desta performance teria como proposta, única e elementar, representar fielmente o ato sexual existente no plano real. Se uma simulação tem apenas um único objetivo (representação do real), na qual dispensa interpretações senão àquela intrínseca objetiva, o “espetáculo em questão não possuiria espectadores”. Tal sofisma é percebido quando se insere o mercado no contexto, ou melhor, quando se tem a pornografia como produto. “O espetáculo é o capital a um tal grau de acumulação que se toma imagem” (DEBORD, 2003, p. 27). Ao criar uma ponte análoga com Baudrillard, ousamos dizer, então, que a mercadoria impera sobre a percepção do real em si, ou seja, a representação já foi condicionada previamente por um simulacro – onde o consumo o é -, e já não pode mais então ser percebida em sua essência. Isso não quer dizer que a performance deixa de ser espetáculo – enquanto agente responsável por uma simulação, mas sim atribui um outro sentido na compreensão de espetáculo, senão apenas como simulação: a performance passa a protagonizar a função mediadora dentro do simulacro de consumo. Em outras palavras, o espetáculo é a performance enquanto lacuna/agente mediador da imagem frente ao produto em si. A solução do paradoxo “espetáculo performático simulatório”7 se encontra no próprio espetáculo. Uma vez que o espetáculo é a performance enquanto simulacro de uma simulação e não o contrário -, esta, por vez, já existe previamente inserida dentro de outro simulacro: consumo. Isso quer dizer que, anterior ao simulacro resultante da simulação sexual - isto é, a performance sexual apresentada escancaradamente com uma naturalidade sugerida pela ideia de real -, existem outros simulacros quem o precedem e que, de uma maneira ou outra, acabam por determinar as estruturas, e até mesmo os propósitos, de outros simulacros nos quais permeiam o produto (o realcore). Sendo assim, a lacuna que existe no simulacro realcore é o espetáculo em si. Se a performance é o espetáculo, ou seja, a lacuna que separa o real da imagem (sexo real X sexo virtual), é o simulacro anterior (consumo) quem dita as coordenadas do simulacro realcore. E justamente por ser separado do real e da imagem, o espetáculo é o agente unificador das mesmas (DEBORD, 2003). O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens (ibid., p. 14). Isto é, a performance realcore não é definida pela singularidade que categoriza em si esta pornografia, mas sim pela relação entre as pessoas que compartilham o apreço à esta categoria. Em segunda análise, o simulacro é a resultante de uma relação simbólica entre a performance e a imagem.

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Expressão criada pelo autor.

Dito isso, o espetáculo não é um complemento do mundo real. O espetáculo, nas palavras de Guy Debord, é:
o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário – o consumo (ibid. p. 15).

Para Baudrillard, a pornografia se apresenta como uma experiência desconstrucionista do sensual e sedução, onde a mídia transforma o corpo humano em um produto comercial; o sexo é comercializado virtualmente em um mundo hiper-real (TONIN, 2011), ou seja, o espetáculo se dá em virtude da influência midiática do produto frente ao simulacro da pornografia amadora. Nesse sentido, a mídia é a responsável pela criação do simulacro consumo. Se a pornografia é o produto resultante da interferência da mídia sobre corpo humano, a ponto de transformar esta em um produto mercadológico, logo a performance do realcore existe apenas se, e somente se, inserida no contexto do simulacro consumo. Em suma, sem este simulacro, a pornografia não existe e que, portanto, o espetáculo (performance) não exerceria a função mediadora entre a imagem e o real. Enquanto a simulação possui finalidade única e exclusiva de copiar o real, o simulacro consumo nasce da premissa proposital de um simulacro em si: atrair (BAUDRILLARD, 1991). E a atração, no contexto de consumo de pornografia realcore, não está relacionada primeiramente com o aspecto estético que difere o realcore do maintream. Esta atração referese, a priori, ao próprio consumo. Enfim, a performance é interpretada nesse sentido como o simulacro de uma simulação, onde a simulação é a tentativa da representação do ato sexual, cujo esta é simulada no ambiente do simulacro de consumo. Portanto, o realcore é somente passível de conceituação a partir do momento em que se torna um produto percebido através do espetáculo (performance) e com isso, acaba criando um outro simulacro secundário, no entanto, mais visível: o simulacro da interação social estabelecida por meio da simulação do sexo. A sociedade do espetáculo, segundo Guy Debord (2003), é reflexo fiel da produção das coisas, e por outro lado, é a objetivação infiel de quem os produz. Em uma análise, o espetáculo não condiz com a realidade totalitária de quem atua na performance, e sim com a realidade da performance enquanto objeto de consumo.

Não obstante a Debord, Baudrillard atribui o fator desejo como responsável pela inferência do espetáculo sobre o simulacro do consumo e, consequentemente, ao simulacro realcore. O desejo é mediador da percepção a imagem. Em segunda análise, há uma dicotomia ao redor do desejo. De um lado, há o desejo por consumir a pornografia realcore enquanto simulação, isto é, pela reprodução fiel da realidade do sexo. Por outro lado, existe o desejo de consumo despertado pelo consumo em si, isto é, o desejo do simples ato de consumir. Tal dicotomia é apenas possível pelo espetáculo degradar o que se entende por ter e ser. A sociedade do espetáculo possui a tendência de fazer ver, levando à interpretação de que a realidade (o ser) é aquela que se pode ver. No entanto, “a visão, o sentido mais abstrato, e o mais mistificável, corresponde à abstração generalizada da sociedade atual [sociedade espetacular]” (DEBORD, 2003, p. 19). Dito isso, o que se obtém do espetáculo é aquilo que a sociedade já espera obter. Doravante, já contextualizando o realcore, o simulacro desta pornografia existe apenas na ausência da realidade (por isso então, simulada8), isto é, o real em si jamais será percebido pelo simples fato dele mesmo ser incompleto a uma interpretação, dependendo sempre de mediadores que atribuirão sempre o sentido que se é esperado. Este real intangível é convertido em imagens que atribuem esse sentido. A performance realcore não são as imagens, mas sim o mediador do sentido, que por tantas vezes, é induzido pelo desejo da sociedade de consumo. Ao consumir um filme de conteúdo pornográfico realcore, o usuário já sabe, mesmo que de maneira inconsciente (ou não), o que se espera obter deste consumo. Sendo assim, a imagem resultante do consumo é clara (fruição, por exemplo, todavia, é a performance que atribuirá a maneira com que esta imagem será percebida afim de concluir o ato de consumo. Em análise, sob o ponto de vista do simulacro, a simulação verdadeira, aquela que reproduz a fiel realidade, é a do corpo humano como produto. O corpo é representado fielmente com objetivo único de existir como um produto. Em outro contexto, senão pornografia realcore, o corpo humano assume outro papel frente a situação. Por exemplo: na pornografia mainstream, o produto é a reprodução uma de uma hiper-realidade; hiper-realidade esta que não pode ser interpretada de outra maneira, a não ser daquela dependente da imagem do produto, isto é, pelo objetivo final dele: fruição.

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Conforme descrito anteriormente, a simulação não pode ser reproduzida.

REFERÊCIAS JACOBOS, Katrien; JANSSEN, Marije; PASQUINELLI, Matteo. C’lick Me: A Netporn Studies Reader. Institute of Network Cultures, 2007, Paradiso, Amsterdan. TONIN, Juliana. Paradoxos da Imagem. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Imagem e Imaginários Midiáticos do XX Encontro da Compós, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, de 14 a 17 de junho de 2011. MESSINA, Sergio. Naked Lunch: Talking Realcore with Sergio Messina in C’lick Me: A Netporn Studies Reader. Institute of Network Cultures, 2007, pg. 17-20. Paradiso, Amsterdan. DERY, Mark. Naked Lunch: Talking Realcore with Sergio Messina in C’lick Me: A Netporn Studies Reader. Institute of Network Cultures, 2007, pg. 17-20. Paradiso, Amsterdan. DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. E-book Brasil, 2003. Brasil. Disponível em <http://www.geocities.com/projetoperfria>, acesso em 11 de setembro de 2011. BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Relógio D’Água, 1991. Lisboa, Portugal. SCRUTON, Roger. Kant; tradução de Denise Bottmann. L&PM, 2011. Porto Alegre, RS, Brasil. 176p : il. (Coleção L&PM Pocket Encycolpedia; vol. 926). ABREU, Nuno César. O Olhar Pornô: a Representação do Obsceno no Cinema e no Vídeo. Campinas, Mercado das Letras, 1996.

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