Canto de Ossanha

Baden Powell Vinicius de Moraes

-"O canto da mais difícil E mais misteriosa das deusas Do candomblé baiano Aquela que sabe tudo Sobre as ervas Sobre a alquimia do amor" Deaaá! Deeerê! Deaaá! O homem que diz "dou" Não dá! Porque quem dá mesmo Não diz! O homem que diz "vou" Não vai! Porque quando foi Já não quis! O homem que diz "sou" Não é! Porque quem é mesmo "é" Não sou! O homem que diz "tou" Não tá Porque ninguém tá Quando quer Coitado do homem que cai No canto de Ossanha Traidor! Coitado do homem que vai Atrás de mandinga de amor... Vai! Vai! Vai! Vai! Não Vou! Vai! Vai! Vai! Vai! Não Vou! Vai! Vai! Vai! Vai! Não Vou! Vai! Vai! Vai! Vai!

Não Vou!... Que eu não sou ninguém de ir Em conversa de esquecer A tristeza de um amor Que passou Não! Eu só vou se for prá ver Uma estrela aparecer Na manhã de um novo amor... Amigo sinhô Saravá Xangô me mandou lhe dizer Se é canto de Ossanha Não vá! Que muito vai se arrepender Pergunte pr'o seu Orixá O amor só é bom se doer Pergunte pr'o seu Orixá O amor só é bom se doer... Vai! Vai! Vai! Vai! Amar! Vai! Vai! Vai! Vai! Sofrer! Vai! Vai! Vai! Vai! Chorar! Vai! Vai! Vai! Vai! Dizer!... Que eu não sou ninguém de ir Em conversa de esquecer A tristeza de um amor Que passou Não! Eu só vou se for prá ver Uma estrela aparecer Na manhã de um novo amor... Vai! Vai! Vai! Vai!

divindade das folhas terapêuticas e litúrgicas. não vou). convivência entre as pessoas e entre as pessoas e a sua comunidade. não vou / Vai.. Op. A coexistência entre o tempo de fala e de silencio é o momento de penetrarmos em nós mesmos. a imagem da África mãe emerge como um ancestral comum. Ou. Como notamos. imitando o pássaro. cit. Por acaso. vai. ao engano de uma artimanha musical usada para seduzir o ouvido (e o coração) de suas possíveis amantes. você já ouviu algumas vezes seus pais. Lenda de Ossanha/Ossaim “Um rei decidiu casar a sua filha mais velha. além da conotação da traição eminente (Coitado do homem que cai / No canto de Ossanha traidor / Coitado do homem que vai / Atrás de mandinga de amor) e indecisa (Vai. Dá-la-ia em casamento ao pretendente que adivinhasse o nome de suas três filhas. o que mais contribuiu para a preservação das culturas africanas foi o sentimento de agregação e de solidariedade. Um dos mais importantes princípios da cosmovisão africana é a perspectiva da convivência entre os diferentes. vai. os africanos escravizados foram espalhados pelo mundo. no espaço onde se ouve e onde se elabora aquilo que é preciso dizer com toda inteireza e vigor. vai. Sua esperteza havia dado certo. a ancestralidade e a terra. Fora de sua pátria e do seu povo. Vejamos um provérbio iorubano: · Os dedos da mão são irmãos mas não são iguais · Ika kó dogbá (Os dedos não são iguais). Ossaim aceitou o desafio. (PRANDI. ainda. eram estes os nomes das filhas do rei. Quando as três princesinhas saíram para brincar. No dia seguinte Ossaim foi ao rei e declamou a ele o nome das princesas. Mas o canto era de Ossaim. Os provérbios contêm uma sabedoria milenar. Omi Delê e Onã Iná.156). significa: Todos juntos como um só corpo. propiciando a criação de grupos que se organizaram em torno da vida material. em situações muitas vezes contraditórias. Mas talvez possamos visualizar nesta canção. À tarde.. casou-se com a mais velha.. cuja base é sempre a família. O passarinho brincou com as três princesas e conseguiu saber o nome delas: Aio Delê. Ossaim. Ossaim saiu sorrateiro por trás do palácio. Sua esperteza havia dado certo. É o fato de que não se deve falar só por falar. Quando. Este é um provérbio que revela o pensamento africano na condição de respeito e aceitação das diferenças. Nas comunidades de terreiro a regra é ouvir mais do que falar principalmente entre os mais novos. como avisam os versos: Se é canto de Ossanha não vá / Que muito vai se arrepender. vai. Ara wara kosi me fara Este é um trecho de uma cantiga na língua ioruba que. está associado ao artifício. Era o canto de pássaro irresistível. nada no mundo será contra mim. p. Ossanha. Subiu no pé de obi [nogueira] e se escondeu entre seus galhos. provérbios e histórias que são conhecidas tanto na Nigéria como no Brasil. cultivando juntos histórias míticas e vivências como herança dos antepassados. juntos dificilmente seremos atingidos na nossa individualidade.MUZUERI RONENE KALUNGUÊ O grande falador não tem razão O falador passa mal/ Temos dois ouvidos para ouvir e uma boca para falar menos. de seus avós ou de outros mais velhos provérbios que são indicativos de valores e atitudes de convivência? Existem adágios. de um passarinho das matas de Ossaim. criando sociedades. então. pela diáspora. Ossaim desde então é identificado com o pássaro. no sentido metafórico. foram surpreendidas por um canto que vinha daquela árvore. cantos de trabalho (grupos de trabalhadores autônomos) em torno da vida espiritual. uma crítica implícita aos “homens de poder” em plena instauração .

instrumentos musicais. dotando o transe de corporeidade e transformando a cerimônia religiosa em uma performance ritual na qual estão envolvidos todos os aspectos da herança cultural africana: a música. devem-se a esta herança. de forma que sua origem africana é quase imperceptível para a maioria de seus falantes. As línguas africanas (kimbundo. reafirma seus pactos com os vivos e dispensa a estes a força vital e a proteção necessárias a seu bem-estar. a extensão dos poemas orais. Outro recurso fundamental utilizado para a memorização e exata transmissão da tradição oral é a música: a literatura oral é ritmada e muitas vezes apresenta-se em forma de canções e/ou acompanhada de instrumentos musicais. A musicalidade e o “jeito de corpo”. cultuados por Irmandades de Homens Pretos). nas saudações. decoração arquitetônica. originando diferentes práticas religiosas. animais. o corpo torna-se o receptáculo da divindade. pinturas murais. o zambiampunga da Bahia e muitos outros. adornos. tatuagens. Também as primeiras manifestações da religiosidade afro-brasileira são de raiz bantu. Espírito Santo e São Paulo. alimentos. insígnias de chefia. yoruba e fon. contos. não dá / Porque quem dá mesmo não diz). cantigas. máscaras. dentre outros. são todos de origem bantu. kikongo. Goiás. penteados. Os povos bantu do Atlântico Sul. as culturas africanas têm a performance das divindades. escarificações. tão peculiares ao brasileiro e especialmente ao baiano. poemas. a culinária ritual. Ao longo dos séculos. que comparecem às cerimônias chamados pelos instrumentos. principalmente) mantiveram-se em uso nos terreiros. Isto nos permite compreender um dos sentidos das expressões plásticas africanas e afro-brasileiras. Nesta performance. como o catimbó. católicas e de outros povos africanos. o catolicismo popular (especialmente as devoções a santos negros e a Nossa Senhora do Rosário. em meio a uma sociedade que estigmatizava e proibia sua expressão. Mbundo e Ovimbundo. de geração em geração de iniciados. objetos de culto e inúmeros outros vocábulos. revelando ao mesmo tempo uma prodigiosa habilidade de memorizar a literatura oral e uma enorme capacidade de acionar essa memória através de símbolos gráficos. sob as condições mais adversas. através das máscaras e/ou do transe de possessão. nos títulos da hierarquia do terreiro e no nome iniciático de seus membros. Manifestações culturais que se tornaram o “cartão postal” do Brasil. estabelecendo um ideal de comportamento no qual o corpo é sublimado. como o samba e a capoeira. A música também estabelece a comunicação com os ancestrais. Com o passar dos séculos. o jongo do Rio de Janeiro e São Paulo. a jurema. especialmente os Bakongo. as diversas festas de Bois. como o maracatu pernambucano. incorporaram-se ao português brasileiro. Ao seu som. que cultuam ancestrais divinizados chamado de inquices. especialmente das línguas bantu. são responsáveis pela formação inicial e pelas características mais marcantes da cultura afro-brasileira. Evidentemente inúmeras palavras africanas. como elemento central de sua religiosidade. a religiosidade bantu tomou diversas formas. malgamandose com tradições indígenas. a umbanda e os candomblés angola ou congo-angola. a variedade dos mitos e dos provérbios na tradição afro-brasileira seriam espantosos. e sua expressão através da dança reencena e atualiza os mitos de criação. a dança. como esculturas. o adjá (sino) tocado pela sacerdotisa ou sacerdote e os atabaques consagrados.da ditadura pós-golpe de 1964: a ilusão das promessas demagógicas (O homem que diz dou. além de outras de alcance regional. utensílios. no nome de plantas. provérbios. Tudo isso nos mostra que os povos africanos desenvolveram formas de escrita pictográficas e ideográficas. que são saudados e respeitados como as próprias divindades que ajudam a manifestar. foram desenvolvidos mecanismos mnemônicos e recursos de apoio à transmissão oral. Ao contrário da tradição cristã que opõe diametralmente corpo e espírito. Mas o terreiro preservou mais que vocábulos ou formas de construir as frases: preservou-se um grande corpus literário transmitido oralmente. O enorme número de cantigas. as congadas e moçambiques de Minas Gerais. não fosse sabido o papel central que a tradição oral ocupa nas sociedades africanas. desenhos na areia. . através do uso de símbolos gráficos presentes em inúmeros tipos de objetos e suportes. a literatura oral na forma de cantigas. com o mero recurso à memória de alguns indivíduos. as divindades dançam.

os cantos. falam da situação do negro no Brasil. . Dessa forma. assim como a sensualidade – a percepção através dos sentidos e seu exercício. estabelece um elo entre o individuo e a musicalidade. As músicas que fazem parte destas manifestações afro-brasileiras constituem-se em verdadeiras oferendas. mãe companheira? Ainda permaneço aqui enquanto tudo o que mais amo Tudo o que mais prezo. Chegar e partir. Deixem-me aqui na minha cubata escura Sentindo esse cheiro de azeite de dendê Deixem-me sentindo esse cheiro de morte Esse cheiro de sorte Na noite em que me encontrarei com os meus ancestrais. Banzo. O aperto gigante interminável acelera o coração. Quem enxergará meu sofrimento escuro? Onde estão meus irmãos? Onde tu. Ainda o mesmo banzo Ainda o mesmo sangue coagulado. Duas faces da mesma máscara negra. Banzo.A dança e a música são sagradas. volta-se às raízes culturais e históricas. é necessário compreender tais práticas culturais como um exercício crítico respaldado no desafio de não se contaminar por visões estereotipadas cultivadas sistematicamente por uma sociedade racializada que devota às africanidades um conjunto de interpretações desqualificantes. Ainda o mesmo navio negreiro. continua distante Inconquistável. poesia de Cristiane Sobral Ainda aquela solidão. Nas rodas de capoeira as ladainhas sempre narram diversos fatos históricos. a oralidade e todo universo simbólico que constitui essas duas culturas afrobrasileiras operam com uma lógica que resgata a sua identidade. inacessível. As ladainhas fazem crítica social. Para tanto. lendas dos mais variados assuntos. Ainda a mesma sensação de asfixia A mesma ansiedade Os mesmos impulsos destrutivos incontroláveis. Essas características se manifestam também de forma muito peculiar e própria nos processos educativos e na transmissão de saberes e conhecimentos que tradicionalmente se fazem presentes nesse universo simbólico. É pelo canto que se reconstitui a história tradicional de um povo que resulta na criação dos espaços de sociabilidade e de resistência contra a opressão imposta ao povo negro. Tragam por favor Os meus tambores Meu acarajé. Uma lágrima negra fugitiva embaça os contornos da realidade. Até mesmo invisível consigo ser Neste país que eu julgava tão negro quanto eu.

muitas vezes. Recorremos a Amadou Hampâté Bâ. O mesmo ancião podia ter conhecimentos profundos sobre religião ou história. não pode ir definitivamente ao encontro da morte. os mais especializados na sabedoria de contar histórias. ganhando assim.185). escritor e intelectual africano. no âmbito da literatura. a autoridade dos griotes e outros elementos integrantes do mundo angolano que buscam revisitar práticas ancestrais. A narrativa é tecida por Ermelindo Mucanga. sabe-se que narrar é atribuição dos velhos. ódio e rancor. Não tive sequer quem me dobrasse os joelhos. Inclusive. para exemplificar a relação entre a palavra. harmonia. como também ciências naturais ou humanas de todo tipo. vida. Maa Ngala. Entrelaça-se com o ouvir tornando-se divina. a sua má utilização passa a ser profana e desprezível. de origem divina. Assim. dar conselhos e partilhar experiências. pois se a palavra é vista como algo sagrado e divino. As narrativas que mesclam oralidade com técnicas exclusivas de escrita. “A tradição africana. interdependente e interativo. Logo. uma espécie de generalista. A obra inicia com a expressão “Sou o morto” e retrata a história de um espírito que passa a habitar o corpo de um policial que investiga um assassinato ocorrido em um asilo. concretizado em volta da fogueira. uma espécie de 'ciência da vida'. do mundo. filósofo. o grande Deus. a tradição oral. Em determinadas situações. é que eles podem desencadear uma mentira. mas podia também ensinar sobre numerosos outros assuntos porque um 'conhecedor' nunca era um especialista no sentido moderno da palavra mas. o criador confiou no homem para ser o seu interlocutor e proferir a sua palavra. Nessa sociedade. considerada aqui como uma unidade em que tudo é interligado. além de informarem ensinamentos próprios daquela cultura. um xipoco – fantasma – que. Um dos motivos para ter-se tamanho receio diante de sentimentos como. configurando narrativas que pontuam a presença do velho como imprescindível na conservação da memória coletiva.Ainda o mesmo instante dolorido Em qualquer parte do mundo. cuidando para que não se perca o que restou dos costumes e tradições locais. ódio ou rancor. O conhecimento não era compartimentado. As narrativas orais estão entrelaçadas com a vida e também com o funcionamento das comunidades. condenado a vagar feito fantasma. A fala é a materialização das palavras. tais como o diálogo coletivo. é capaz de gerar diversas manifestações de sentimento como: paz. Dessa maneira. para todo o universo. enfim o que rege o universo africano. a necessidade de reverenciar os aspectos identitários que determinam a cultura. é utilizada como justificativa da origem e surgimento das coisas. explica o motivo de ser ele um xipoco: “Me faltou cerimónia e tradição quando me enterraram. Continha em sua grafia um fragmento (a inicial do nome) do grande ser supremo. como uma terrível “doença” [termo empregado metaforicamente]. Era um conhecimento segundo a competência de cada um. textos literários refletirão esse costume tradicional. Os dois últimos exemplos são temidos por aqueles que acreditam no poderio e na intensidade do falar. Ela é ao mesmo tempo divina no sentindo descendente e sagrada no sentindo ascendente” (BÂ. do cosmo.1983. criou o homem e passou a se chamar Maa. ela é vista. logo no início. muita vez se encarregaram de denunciar os efeitos dilacerantes do colonialismo. por não ter sido enterrado segundo as tradições. para as sociedades orais africanas. corroboram. mais precisamente.p. em que o material e o espiritual nunca estão dissociados. Esse narrador homodiegético. corpo e forma. portanto. o conhecimento e o saber vivenciados na escola dos mestres da palavra : Um mestre contador de histórias africano não se limitava a narrá-las. concebe a fala como um dom de Deus. A pessoa deve sair do mundo tal . Na cultura angolana ancestral. A palavra permanece silenciada até que a fala venha colocar-lhe em movimento.

. Deste momento em diante. Minha campa estendeu-se por minha inteira dimensão. porém. Nhonhoso. Transitei-me com os punhos fechados. o português Domingos Mourão. 5. sempre defendendo o resgate e a valorização do “antigamente”. E ainda mais: não me viraram o rosto a encarar os montes Nkuluvumba [. o policial passa a ter dúvidas que o fazem refletir sobre a sua origem.. vão surgindo os velhos para depor. que sucumbirá em breve. A feiticeira Nãozinha. Ninguém me abriu as mãos quando meu corpo ainda esfriava.] Os desleixos foram mais longe: como eu não tivesse outros bens. Izidine decide que a cada dia interrogará um dos velhos na busca de esclarecer a morte de Vasto Excelêncio. Cada habitante do asilo que depõe ao investigador assume a autoria do crime. em sua maioria. Posteriormente. percebendo que as confissões têm o objetivo de esconder o verdadeiro assassino de Vasto Excelêncio. trazem à tona elementos místicos e a tradição oral. O pangolim aconselha o fantasma a “remorrer” para poder.. [. Nunca se deixa entrar em tumba nenhuns metais” (COUTO. que. voluntariamente. descansar em paz. enfim. diz o motivo que teve para assassinar Vasto. p. Para não se tornar um herói e deixar de ser incomodado anualmente nas datas festivas. A partir do momento em que Izidine tem por testemunhas os velhos apegados a antigas tradições é que se dá a retomada ou o estabelecimento de incertezas quanto à sua origem. O policial vai até a antiga fortaleza para investigar o assassinato do diretor do asilo. Ao buscar descobrir pistas do assassinato de Vasto. os Mucangas. interrogando os velhos e a enfermeira Marta. O policial sente-se perdido. a narrativa de Mia Couto vai apresentando outros personagens. As muitas narrativas. grifos nossos). uma “criança velha” ou um “velho-criança”. pois os velhos não o tratam como igual. Os mortos devem ter a discrição de ocupar pouca terra. O pangolim tem uma representação importantíssima na cultura moçambicana. A enfermeira faz a mediação entre o mundo dos velhos e o mundo do policial. temos obrigações para com os antigamentes. É ele quem aconselha Emerlindo a morrer novamente através do corpo de Izidine. do extremo à extremidade. O investigador Izidine é um moçambicano que foi educado no meio urbano europeu e perdeu as ligações com as antigas tradições. enrolada em poupança de tamanho. Não o deviam ter feito.igual como nasceu. com o passar do tempo. me sepultaram com minha serra e o martelo. . porém. Mas eu não ganhei acesso a cova pequena. Emerlindo apela para o pangolim. Ocorre.. Primeiro é Navaia Caetano. o investigador não é considerado parte do grupo. mesmo sendo negro. Vasto Excelêncio.] Nós. no qual Emerlindo alojará o espírito em seu corpo durante alguns dias à espera da morte em definitivo. em especial o investigador de polícia Izidine Naíta. 1996. Após se instalar na fortaleza. é tratado feito um estrangeiro. por meio das histórias de sua vida. chamando maldição sobre os viventes. animal escamoso com representação mística em Moçambique.

era isso? O inspector constatava estar em pleno ritual de adivinhação. Balançou-se diante dele.O halakavuma é que devia aparecer. Domingos Mourão. descido lá do céu. O policia entrou e ficou andando para a frente dando passos para trás. Nhonhoso.“A Varanda do Frangipani” – Mia Couto Décimo quarto capítulo A revelação Era a última noite. . ela se virou bruscamente. olhos cerrados. Nãozinha se dirigiu para ele e fez escorregar qualquer coisa entre as suas mãos. sugerindo que ele se calasse. . Pedia as licenças: .Venha! Conduziu-o pelo caminho de pedra até ao seu quarto.Hoje sou eu a depor? Não esperou que ele respondesse. Izidine olhou: era mais uma escama de pangolim. abriu a porta. Veio à cadeira do inspector e o puxou pela mão: . Depois de um tempo disse: . . A feiticeira se ergueu. Os velhos estavam todos naquele aposento: Navaia Caetano. Antes de abrir a porta. Passou-lhe os dedos sobre os lábios como se esculpisse uma despedida no relevo da sua carne. Deu-lhe um beijo.É a última. A feiticeira ordenou que se sentasse. Estava vestida a rigor de cerimónia. Depois. Marta veio chamar o polícia. ao de leve.O que se passa? Mourão fez um gesto com a mão. Seu rosto refrescou uma fresta na porta. Afinal. Nãozinha.

Eles virão aqui. Se acautele. você sabe pisar na lama sem sujar o pé. Todos se suspenderam. Nãozinha atropelava sílabas em salivas. devia aprender esses cuidados. uma dessas escamas tinha trabalhado a alma do inspector. O senhor espantou a verdade. Você já está perdendo a sombra. porém. bem ali ao dispor de mãos feiticeiras. A verdade é esta: o senhor deve deixar a polícia.Amanhã será. Não lhe transferiram a secção? Não lhe ameaçaram? Por que não segue acção do pangolim? Por que não se enrosca a proteger as suas descamadas partes? O senhor não sabe mas eles o odeiam. O crime é o capim onde pastam os seus colegas. E. Você estudou em terra dos brancos. Eles devem calçar o sapato da mentira. Esse mundo que está chegando é o seu mundo. inspector. Restavam as escamas que o halakavuma deixara escapar da última vez que tombara. os derradeiros artifícios dos aléns. Até que a feiticeira se enclavinhou. o senhor está a ser perseguido. tem habilidades de enfrentar as manias desta nova vida que nos chegou depois da guerra.Matar-me? Quem me vai matar? . Nãozinha espalhou nele as cascas do pangolim: sobre os olhos. Virão para lhe matar. o bicho já não sabe falar a língua dos homens. em Maputo.Nos dias de hoje.” As palavras pareciam sair-lhe não da boca mas de todo o corpo. Esse é quem o vai matar. Enquanto falava ela sofria de convulsões. escutando as revelações que se seguiram. Temos pena de si pois é um homem estúpido. Você é um fruto bom numa árvore podre. Não é vontade dele. Agora ele era chamado a prostrar-se no chão. Isto é. a boca. O assassino eu o estou a ver. o que faz? Agora. Só de noite ele se desenrola. Nãozinha as tinha apanhado junto do morro de muchém. perdemos os laços com os celestiais mensageiros. Esta fortaleza é um depósito de morte.Eles virão amanhã. Nãozinha acelerava o transe. Não sabe como se faz com o capim: há que cortar sempre não para que acabe mas para que cresça ainda com mais força. em espasmo.Cuidada! Vejo sangue! . agora. Nãozinha se lamentava: quem nos mandou afastar das tradições? Agora. Você. Deveria ter tido maneiras para rondar por aí. se espantou o polícia. Aquelas eram as últimas réstias do pangolim. Izidine: você se meteu na casa da abelha. Os relatos se misturavam. os velhos falavam como se tudo estivesse ensaiado. Vão devorá-lo antes que você os incomode. Em cada noite.Sabe como faz o halakavuma? O bicho se enrola a esconder a barriga. parece o javali que foge com o rabo em pé. Izidine ficou imóvel. nas mãos. ao lado dos ouvidos. Lá. Izidine. Você é o amendoim num saco de ratos. onde ele não tem escamas. Era como se o corpo dela se animasse de viva labareda: . Tiraram-lhe do charco dos sapos e você se meteu no charco dos crocodilos. escorriam-lhe babas pelo pescoço. um homem bom. É o piloto. a peúga da traição. . É esse mesmo que o trouxe de helicóptero. inspector. Mas não. ávidos pela palavra que se seguia: . Lhe deram a missão: tirar-lhe do mundo. . no cuidado do escuro.Sangue!?. . E desatava discurso: .

foi desvendando os sucessivos véus do misterioso assassinato do director. Os velhos desembocavam num impossível: não se podia deitar no mar. Mas as armas eram pesadas. A seus olhos se esculpiu a fantástica visão: ali.Então que podemos fazer. Onde. assustados. . dava nas vistas transportar as caixas. Certa vez. escoando para além do mundo. então. Os velhos espreitaram o gesto de Nãozinha e ainda hoje eles se estão para crer. não se podia escavar na terra. puseram braço na obra. fosse mesmo no escuro da noite. Não havia fora que bastasse para aqueles ferros manchados de morte. Excelêncio escondia armas. não sabiam. de mais para as suas forças. De súbito. Ainda hoje se ouvem as armas. . ecoando no nada. De imediato. O réptil cambiou de cores. Despejavam as munições no abismo e ficavam. A verdadeira razão do crime era só uma: negócio de armas. E os velhos reuniram. Só a intercedência de Nãozinha podia valer.E a feiticeira. Deitaram algumas lá perto das rochas. E a feiticeira os conduziu junto à capela. fazer desaparecer o dito paiol? Aquilo não era coisa para se resolver com pensamento. De um saco retirou o camaleão e o fez passear sobre o pano. E assim optaram por deitar o armamento no mar. Além disso. Abriu as portadas com simples roçar de unha. Levantaram a ideia de escavar um buraco. afastando as poeiras com as mãos. A fortaleza se transformara num paiol.Me sigam. regirou os olhos e desatou a inchar. onde havia chão. estourou. inflou a pontos de bola. a escutar o ruído dos metais entrechocando. um oco dentro do nada. Ela retirou a capulana dos ombros e cobriu com ela o chão da capela. E atiraram os armamentos nessa fundura. mufanitas. sobras da guerra. Os velhos tossiram. Foi então que ribombeou o mundo. próprio. um dia. um vão no vazio. E foi o que foi. Inflou. As caixas eram atadas a pedras que lhes davam o peso do eterno fundo. Aquelas armas eram sementes de nova guerra. Apenas Salufo tinha esse conhecimento. Os velhos. Na capela se guardavam brasas de um inferno onde os pés de todos já se haviam queimado. Até que. o segredo transpirou. Só o Salufo Tuco tinha acesso a esse armazém. E a feiticeira adiantou: não chegava deitar fora as armas. era agora um buraco sem fundo. tempos infindos. Por isso. decidiram: pela calada da noite abririam o depósito e fariam desaparecer as armas. . Fizeram-no combinados com Salufo.Um buraco que perdeu o fundo o que é? . Nãozinha? .É o nada.A terra não é lugar para enterrar armas. ela se virou para a velharia e perguntou: . mais respirável. Eram guardadas na capela. Mas Nãozinha se opôs. no princípio. extravasando-se todo o escuro que há nas nuvens.

os céus. Halakavuma: pangolim. descendo à terra para transmitir aos chefes tradicionais as novidades sobre o futuro. Em todo o Moçambique se acredita que o pangolim habita.Frangipani: árvore tropical que perde toda a folhagem no período da floração. mamífero coberto de escamas que se alimenta de formigas. . Pertence ao género Plumeria. Muchém: o mesmo que formiga muchém (as termiteiras).

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