CURITIBA – 25 A 28 DE JULHO DE 2002

ANAIS DO VIII ENCONTRO REGIONAL
DE HISTÓRIA















150 Anos de Paraná: História e Historiografia
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA
NÚCLEO REGIONAL DO PARANÁ

2004
Aos Quatro Ventos
ISBN: 85-86534-66-8

FICHA CATALOGRÁFICA


ARIAS NETO, J osé Miguel ; DE BONI, Maria Ignês Mancini de; SOUZA, Silvia Cristina
Martins de. (Orgs). 150 ANOS DE PARANÁ: HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA –
ANAIS DO VIII ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA. Curitiba: 2004, 866 p.

Bibliografia
ISBN 85-86534-66-8
1.História . 2. Anais do VIII Encontro Regional de História
I. Título







Copyright ©2004 dos autores




Capa: Gilberto Militão da Silva








Todos os direitos desta edição estão reservados à
Casa Editorial Tetravento Ltda.
CNPJ 02.615.734/0001-00
R. XV de Novembro, 1222-204
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e-mail: aosquatroventos@yahoo.com.br

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE HISTÓRIA

Título: 150 ANOS DE PARANÁ: HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA
Anais do VIII Encontro Regional de História – ANPUH/PR

NÚCLEO REGIONAL DO PARANÁ





Diretoria:
Presidente: Silvia Cristina Martins de Souza - UEL
Vice-Presidente: Marco Aurélio Monteiro Pereira - UEPG
Secretaria Geral: Geni Rosa Duarte - UNIOESTE
2º Secretário: Izabel Cristina Couto - UTP
1º Tesoureiro: Edméia Aparecida Ribeiro - UEL

Organização dos Anais do VIII Encontro
Organizadores:
J osé Miguel Arias Neto – UEL
Maria Ignês Mancini De Boni – UTP
Silvia Cristina Martins de Souza – UEL
Revisão técnica e editoração:
Gilberto Militão da Silva

Comissão Organizadora do VIII Encontro

Ana Paula Vosne Martins - UFPR
Eduardo Spiller Pena - UTP
Erivan Cassiano Kassat - UTP
J osé Miguel Arias Neto - UEL
J udite Barbosa Trindade - UFPR
Marco Aurélio Monteiro Pereira - UEPG
Marcos Napolitano - UFPR
Maria Ignês Manicini De Boni - UTP
Robson Laverdi - UNIOESTE
Roseli Boschilia - UTP
Valéria Floriano M. de Souza – UTP

Comissão Científica do VIII Encontro
Ana Silvia Volpi Scott – UniABC
Dilma Andrade de Paula – UNIOESTE
Edson Armando Silva – UEPG
Geni Rosa Duarte – UNIOESTE
Geraldo Magela Pieroni – UTP
Helena Izabel Muller – UTP
Hilda Pívaro Stadniky – UEM
J ozimar Paes de Almeida – UEL
Luiz Geraldo Santos da Silva - UFPR
Silvia Cristina Martins de Souza – UEL












APRESENTAÇÃO





A realização do VIII Encontro Regional de História em Curitiba foi resultado do
esforço conjunto de várias Instituições de Ensino Superior do estado, destacando-se
as Universidades Federal e Tuiuti do Paraná, co-promotoras do evento.
A Universidade Tuiuti abriu suas portas para receber a ANPUH com
generosidade e cordialidade que devem ser sempre lembradas e destacadas por
todos os associados. O evento, como já é costume entre nós, foi um sucesso, tendo
contado com o apoio da Fundação Araucária, da Editora Contexto e da nossa
tradicional parceira e companheira de trabalho, a Casa Editorial Tetravento, mais
conhecida como Editora Aos Quatro Ventos, a quem devemos agradecer.
Na publicação destes Anais a Anpuh/Pr , ao invés do tradicional livro, optou
pelo suporte eletrônico. Várias são as razões que justificam esta mudança.
Em primeiro lugar deve se destacar a possibilidade de acesso de um número
muito maior de pesquisadores aos Anais que permanecerão na Internet. Sobre o
conhecimento das novas tecnologias pelos historiadores, o grande mestre Marc Bloch
se interrogava já nos anos quarenta do século XX: “Admite-se que o historiador de
uma época em que a máquina é rainha ignore como são constituídas e se modificaram
as máquinas?”
1
Trata-se hoje, não apenas do conhecimento, mas sim da utilização
das mesmas, isto é, “devemos nós ignorar a potencialidade das novas tecnologias que
possibilitam a socialização por um número cada vez maior de pesquisadores,
professores, estudantes, de vastos conjuntos documentais, de periódicos, anais, e
obras completas?
Em segundo lugar, a produção, distribuição e circulação dos Anais em papel,
dado o seu custo atual, torna-se cada vez mais inviável para uma associação do porte
da nossa, pois que exige, além de busca de recursos junto às agências - cada vez
mais econômicas neste sentido - uma estrutura empresarial que não possuímos.
Neste sentido a distribuição e circulação dos Anais é bastante difícil. Em outras
palavras as discussões científicas de alto nível realizadas em nossos eventos circulam
pouco e terminam por ficar restrita a pequenos círculos num momento em que a
pesquisa na Internet é obrigatória a todo o historiador.
Assim, pareceu aos organizadores do volume e à direção da ANPUH /PR que a
elaboração dos anais em suporte eletrônico e sua disponibilização na Internet
representam um ganho para todos.
Uma outra inovação feita neste volume diz respeito aos textos publicados.
Como se trata de Anais e, portanto, da memória da Associação, os organizadores
optaram por publicar todos os textos que foram enviados, por entender que eles
representam na sua totalidade e no seu conjunto, o estado do ofício entre nós.
Àqueles que contribuíram de um modo ou de outro para a concretização dos
Anais do VIII Encontro, nossos agradecimentos.

Curitiba/ Londrina, outono de 2004


J osé Miguel Arias Neto
Maria Ignês Mancini De Boni
Silvia Cristina Martins de Souza



1
BLOCH, Marc. Introdução à História. Lisboa: Europa-América, 1997, p. 115.
Representação política no poder legislativo de Marechal Candido Rondon
de 1964 a 1968

Andrinea Cordova da Rosa
1
Carla L. S. da Silva
2



O objetivo desta comunicação é apresentar uma reflexão inicial acerca da
representação política no poder Legislativo de Marechal Cândido Rondon (MCR), no
período de 1964 a 1968. Tal recorte temporal se dá pelo fato da documentação deste
período já estar organizada pelo Centro e disponível a pesquisas. Cabe destacar que
esta pesquisa surgiu de minha experiência como bolsista no projeto intitulado: “Centro
de Memória da Câmara Municipal de Vereadores de Marechal Cândido Rondon”, sob
a coordenação da Professora Carla L. S. da Silva*.
Ao vasculhar os documentos como as Atas das Assembléias realizadas no
período assinalado acima, percebe-se várias possibilidades de análise acerca da
representação política. Um aspecto que chamou a atenção foi à associação entre
representação política e a religião. A partir de 1965, foi votada uma norma acerca do
início e conclusão das sessões:

(...) Projeto de Resolução da Mesa Legislativa, visando editar ao Art. 88º do
Regimento Interno da casa o parágrafo 5º, com a seguinte redação: ‘As
sessões serão abertas com o seguinte enunciado: Em nome de Deus
declaro aberta a presente sessão e, no encerramento: Em nome de Deus
declaro encerrada a presente sessão’ (...).
3

O projeto de resolução, ao adotar essa prática, visava inserir os trabalhos da
Câmara na esfera do sagrado. Isto de certo modo referendava também os políticos da
época como representantes da vontade divina. Os projetos, seriam elaborados
portanto, s sob a inspiração dele.
Nesse sentido, os vereadores seriam os condutores da população do
município. O repasse das informações necessárias sobre a administração municipal
seria função dos mesmos. Isso pode ser verificado na seguinte passagem:

Após a votação sobre a doação de um terreno para a construção de
escolas, (...) passou-se ao período das explicações pessoais, fazendo-se
ouvir inicialmente o vereador Seyboth julgando que deveria haver mais

* Atualmente o Projeto esta sob coordenação do Professor Ms. Marcos Nestor Stein, Professor do
Colegiado do Curso de História UNIOESTE.




entrosamento entre o Órgão Executivo eo Legislativo, com o objetivo de
prestigiar a casa Legislativa. O Senhor presidente em atenção ao exposto
afirmou que sendo os vereadores os líderes do povo, por intermédio desses
que a população deverá conseguir as informações desejadas(...).
4
,
Através das Atas é também possível analisar as posições dos edis com relação
ao golpe militar de 1964. Na Ata n. º 11/64 observa-se o apoio manifestado do poder
legislativo ao “glorioso exército brasileiro”. Segundo os vereadores, os militares teriam
a capacidade de superar a conjuntura de crise vivida no país, bem como as ameaças
exteriores, representadas por países de regime socialista como Cuba e Rússia:

(...) Ao fazer uso da palavra, o vereador Lindolfo Nienkötter, inicialmente
louvou as atitudes tomadas pelo glorioso exército nacional pela crise que
viveu o país, ora superada. Fez ouvir-se em seguida o vereador Harry
Pydd, solicitando esclarecimento do senhor Presidente, por não ter sido
realizado sessões da Câmara, há aproximadamente um mês, período em
que todo país estava envolvido em crise. Assinalou adiante, que todas as
demais Câmaras do Estado do Paraná estiveram reunidas, juntamente com
seus prefeitos, tomando posição, só não sabia onde se encontrava o
presidente desta Casa. Desta maneira, nada foi feito nem sequer a
Prefeitura Municipal tomou qualquer providência. Por outro lado, expressa
seu contentamento pelas drásticas medidas adotadas pelas Forças
armadas do nosso país, no que diz respeito ao movimento revolucionário,
afirmando que no Brasil não há lugar para socialistas nem nacionalistas,
mas sim, democratas. Nesse sentido, sugestionou fosse enviado voto de
louvor aos senhores Auro de Moura Andrade, Ranieri Mazzili, Exército
Brasileiro, Ney Braga e enfim, voto de confiança ao presidente da
Republica, senhor Humberto Castelo Branco, pelas severas medidas
tomadas contra a gente da Rússia e Cuba. O senhor presidente submeteu
inicialmente a apreciação do plenário a proposição do vereador Lindolfo
Nienkötter, a qual foi mudada por votação unânime (...).
5


A fala do vereador, ao apresentar as forças armadas como instituições cujo
objetivo é proteger a democracia, visa também legitimar a ações da mesma. Nessa
perspectiva, o Regime Militar e a democracia não são antagonistas, contraditórios,
pelo contrário, o golpe militar de 1964 foi a forma encontrada para "proteger os ideais
democráticos".
Outra questão que pode ser percebida referente à representação política, é a
relação entre vereadores e os partido dos quais eram membros.Sendo os vereadores
“delegados e líderes do povo”, não havia, portanto, prioridade partidária no legislativo
de M. C. R. Isso pode ser verificado nos discursos dos vereadores na Ata nº 16/66
folha 4:




Ao saudar o prefeito municipal, o vereador Seyboth (...) expressou o
pensamento da casa com um brilhante discurso. Ao finalizar disse que
apoiá-lo à testa da municipalidade é visar o engrandecimento do município,
mediante a formação de somente um partido – PROGRESSO
6
(...).

Visto dessa forma, não há partido de oposição no interior da Câmara
Municipal de Vereadores de M.C.R. No lugar dos conflitos partidários polarizados na
dicotomia Arena x M.D.B, existiria um consenso.Todos os edis trabalhariam em prol
dos interesses dos munícipes . Para os vereadores o desenvolvimento econômico no
município estava acima dos interesses partidários.
A questão relacionada à ausência partidária na representação política de
M.C.R, pode ser averiguada em outros documentos, tais como o Ofício nº 34/66, que
trata de uma solicitação (...) do Excelentíssimo senhor Governador do Estado
comunicando a sua excelência e demais pares para subscrever o livro de filiação
partidária da Arena
7
(...).
Apesar do desejo manifestado do Governador do Estado, para que os
vereadores se filiem a Arena, estes acreditam poder bem representar o povo sem
manifestarem suas posições partidárias, sem pertencerem a partido político algum. É o
que constatamos também na nºAta 11/67 Folha 2. Nela um suplente de vereador, ao
ser empossado, também afirma que será defensor da democracia e que apoiará os
projetos que visam o desenvolvimento do município:

O suplente de vereador Porfírio M. Sobrinho, ao tomar posse afirmou (...)
que será intransigente defensor da democracia e que concederá integral
apoio aos projetos de autoria do Chefe do Executivo que visam beneficiar
ao município
8
(...).

Os representantes do poder legislativo além de se colocarem acima das
diferenças partidárias, se auto-apresentam como políticos, cujo objetivo comum é
“transformar Marechal Cândido Rondon em uma das cidades mais progressistas do
oeste do Paraná”. Assim, verifica-se a construção de um discurso que apresenta a
Câmara de Vereadores como local do consenso e da harmonia.
No entanto, às vezes “ essa harmonia” é quebrada. Isso pode ser percebido
quando da tomada de posição por parte do legislativo, com relação à implantação da
lei sobre a indicação de prefeito em áreas de segurança nacional:

(...) concedendo a palavra ao vereador Antônio Maximiliano Ceretta, que
teceu considerações acerca do assunto. Disse que o governo central



.

considera acertada a nomeação de prefeitos. Frisou seu pensamento
contrário, porquanto acredita que deveriam realizar-se eleições ao invés de
simples nomeações
9
(...).

A análise de tais documentos demonstra, portanto, que a Câmara de
Vereadores não é, como alguns discursos sugerem, um lugar da harmonia absoluta. A
existência de tal contradição, ou seja, deixar a escolha do representante maior local,
no caso o prefeito, nas mãos do governo central, demonstra a complexidade da
questão envolvendo a representação política.
Assim,verifica-se, através dos discursos presentes nas Atas analisadas, um
amplo leque de possibilidades para o estudo de questões relacionadas à
representação política, o que se revela como algo inovador na produção
historiográfica regional.

1
Acadêmica do 3º Ano do Curso de História da UNIOESTE e bolsista do Projeto
Centro de Memória da Câmara de Vereadores de Marechal Cândido Rondon.
2 Mestre pela PUC/ RS, Professora do Colegiado do Curso de História UNIOESTE e
coordenadora do projeto “Centro de Memória da Câmara Municipal de Vereadores de
Marechal Candido Rondon”.
3 Ata 32/65, p.2.
4 Ata 32/65 p 5.
5 Ata 11/64 p.2
6 Ata 16/66 p 4.
7 Ofício 34/66
8
Ata 11/67 p. 2.
9 Ata 13/68 p.3.




A CONSTUÇÃO DO MITO HERÓICO NAS TRAGÉDIAS DE SÓFOCLES

Alessandro Santos da Rocha
1



Sófocles, nasceu em Colono
2
em aproximadamente 497/6 a.C., pertencendo
ao tempestuoso transcurso do século V a.C., sendo o segundo tragediógrafo do qual
possuímos peças conservadas, traz consigo a tradição de uma época em que Atenas
estava no ápice de sua grandeza. Todavia, era uma grandeza diferente ao período em
que os Atenienses lutavam contra os persas; um período em que as idéias geraram
toda a realização que marcaria para sempre a história da Grécia.
Historicamente, podemos averiguar que a Confederação Marítima criada em
478/7 a.C., ligou vastos territórios de colonização grega, aprimorando e consolidando
formas cada vez mais peculiares do que seria o grande império ático. Assim, Atenas
assume o poderio político do mundo grego, mostrando-se como a pólis por excelência.
Na esfera artística e cultural a Atenas acompanhava o apogeu político, por sua vez,
Sófocles foi um homem deste período, presenciando o surgimento de um novo regime
de governo que alcançou formas duradouras com Péricles (ap. 500-429 a.C.), a
democracia.
Toda essa evolução ocorrida no mundo helênico se deu de forma turbulenta e
arriscada, haja vista que, a pressão externa ocorrida no tempo dos persas, gerou
grandes deficiências para a comunidade.
Não distante, o espírito ateniense encontraria abeira de um abalo, só que
ocasionado pelas raízes que brotavam do próprio espirito ático. Este quadro foi
evidenciado pelas novas aspirações intelectuais que buscavam na razão filosófica um
mundo, onde os deuses teriam seus feitos diminuídos pelo logos da sabedoria. Por
outro lado, no que tange a democracia ateniense, podemos verificar que encontrou
forças nas mãos de Péricles, todavia, a disputa de Atenas com Esparta, colocaria as
realizações deste período em colapso total.

“Essa vida prenhe de grandeza e perigo que, apesar de todo o
alargamento externo de poder, se mantinha nos sólidos vínculos da
polis, viveu–a Sófocles, e suas obras dão mostra de que conhecia seus
dois aspectos: a orgulhosa incondicionalidade da vontade humana e os
poderes que, à sua indomabilidade, lhe preparam a perda.”
3
(LESKY,
1996: 146-147).

Através destas palavras podemos compreender como um homem de grande
reputação, que era Sófocles, soube descrever e criar, em sua produção teatral, as
personagens mais trágicas e as cenas mais temerosas do teatro grego. “A arte do
grande poeta consiste em revelar-nos seus pensamentos sem fugir a textura da obra
de arte” (LESKY, 1976: 148)
Sua vida nos remete a uma estreita vinculação com Atenas. Sófocles não
contribuiu para a cidade apenas por meio de sua obra literária, mas também por
atividades realizadas em cargos públicos, bem como participou do culto a deusa
Atenas.
Em seu brilhante desempenho no teatro grego, podemos supor algumas
inovações postuladas por Sófocles, como o aumento do número de coreutas e a
implantação de um terceiro ator.
4
Quanto a sua vida política, Sófocles chegou a alcançar posição de destaque
como: tesoureiro dos fundos da Confederação Marítima (443 a.C.), sem dizer que, e
juntamente com Péricles participou da Guerra de Samos
5
(441 a.C.) como um dos
estrategos. Porém, suas melhores virtudes estavam destinadas a produção literária,
haja vista que, não foi um grande general, mas um cidadão ateniense exemplar. Após
uma vida cheia de suntuosidade, Sófocles faleceu em 406 a.C. na sua cidade natal, a
qual sempre defendeu e contribuiu com sua obra.
Sófocles deu grande importância ao mito dos Labdácidas, sendo que três de
suas produções referem-se ao mito desta família. Estas três peças fazem parte da
Trilogia Tebana, sendo elas: Édipo Rei (ap. 430 a.C.), Édipo em Colono (401 a.C.), e
Antígona (ap. 442 a.C.). Em sentido literal, estas peças não compõem uma trilogia,
pois não foram escritas para uma mesma representação seqüencial no teatro grego.
Porém ao referir-se ao mesmo mito, as três peças seguem um determinado
desenvolvimento do qual favoreceu a determinação como Trilogia Tebana
6
. Desta
forma, nosso estudo se exemplifica com os elementos que envolvem as peculiaridades
de Édipo, a personagem que abarca toda trama das peças da Trilogia Tebana.
Sempre que nos referimos ao herói grego, devemos ter claro que ele era fonte
de inspiração para feitos religiosos, servindo várias vezes como modelo de conduta
para os espectadores do teatro ateniense.
Não era simples coincidência a busca pelo heroísmo presente no homem
grego, já que desde a poesia mais remota, proveniente do Período Micênico
7
, se ouvia
cantar as desbravuras e os grandes feitos dos heróis, que cheios de esplendor e
dignidade, maravilhavam aos ouvidos dos gregos. Basta lembrarmos de Odisseus ou
Aquiles na inesquecível Guerra de Tróia, narrada por Homero
8
.
Podemos pensar que todo esse culto ao heroísmo permaneceu arraigado em
toda a crença e na maneira de ser do grego. A essência desta perspectiva heróica era
o desejo de alcançar a honra pela ação de um fato glorioso. Como haveria de ser, o
personagem heróico sempre foi mostrado como destemido e superior, por isso,
freqüentemente, é tomado como modelo de inspiração, de coragem, bravura e
honestidade; seus feitos tendem a influenciar, alavancando seguidores ao mesmo
tempo em que eram cultuados dentro de algumas religiões, como é o caso da religião
Grega.
Toda esta faceta heróica dos gregos, confirmava-os no seu gosto pela guerra,
ao mesmo tempo em que a guerra os confirmava no heroísmo. Entretanto, não é só
nas virtudes guerreiras que a superioridade heróica se centra, mas é também, nos
valores individuais, como: a sabedoria, a generosidade e a prudência.
Este ideário de qualidades estava vivo na mentalidade do homem grego,
habituado ao culto dos heróis que os inspiravam para a batalha cotidiana. Não
devemos esquecer que este homem está inserido em uma sociedade onde a guerra
era aspecto comum do dia a dia. Lembremos que, “os estados gregos lutavam uns
contra os outros como se isso fizesse já parte dos seus hábitos políticos ....” (BOWRA,
1967: 43).
Na sociedade grega era possível encontrar o mito heróico em tudo, seja na
Acrópole, na ágora ou nos templos, “[...] o mito acabou por viver uma vida própria,
esfera intermediária entre a razão e a fé. Foi fonte de todo o pensamento grego, e
depois dele, dos seus longínquos herdeiros; no mito os poetas trágicos pediram seus
temas e os poetas líricos suas imagens” (GRIMAL, 1965:11)
É notável a funcionalidade do mito acarretava nesta sociedade. Como
menciona Grimal, o mito estava por toda parte, e foi justamente nele que os poetas
trágicos se inspiraram, para descrever e “re-elaborar” os mais comoventes heróis de
toda a literatura grega que alcançaria sua expressividade no teatro de Dioniso. Assim,
podemos perceber que a compreensão da dramaturgia grega nos possibilita algumas
particularidades das crenças religiosas e do comportamento deste povo.
Em primeiro lugar, para entendermos tais particularidades, devemos entender
como se fundamentava as crenças dos gregos em seus mitos heróicos. Paul Veyne
ao refletir sobre o tema, faz a seguinte indagação: Os gregos crêem na palavra dada e
transmitida oralmente durante o transcorrer do tempo? Ou suas crenças provêm da
experiência diária e do contato direto com a mitologia?
Como sugere o próprio autor
9
, não devemos falar em crença, mas antes em
verdades. Sim, verdades que se manifestam em uma dada sociedade e que ao longo
do tempo se cristalizam e tomam forma. Exemplificando, quem não acreditaria na
veracidade dos deuses titãs? Assim sendo, não devemos pensar em uma crença
grega nos mitos, mas antes, em um povo que compartilhava das verdades mitológicas
e que não se preocupava com a veracidade do mesmo, pelo menos até a inserção do
logos filosófico.
De modo geral, o mito heróico que perscrutava a tragédia grega tinha suas
origens no longínquo pensamento dos gregos, em particular dos atenienses. Mas foi
no espetáculo trágico, através da perspicácia dos poetas, que eles foram difundidos de
forma a comover uma Atenas preocupada com a reflexão moral e política do seu
tempo.
Todavia, a relação entre os homens e os deuses deveria ser cuidadosamente
respeitada, não só nas esferas do cênico, mas sim fora do teatro, onde os deuses
também estavam freqüentemente participando da vida comunitária. Neste cenário de
deuses versus mortais, a tragédia grega é caracterizada pela contraposição entre o
ideário heróico e a força dos deuses, gerando o efeito trágico.
Evidentemente, que a tragédia grega, dotada de sentido religioso não poderia
desbancar os poderes divinos, muito menos incitar os espectadores contra os deuses.
Entretanto, Sófocles não intensifica esta regra, pelo contrário, na dramaturgia
sofocliana o homem possuí desejos próprios e a sua a vontade humana sempre se
mostra mais vigorosa, o que não quer dizer que ela sobressaia vitoriosa.
Neste sentido, o drama sofocliano está permeado de todo este heroísmo
pertinente a Atenas. O autor percebe que o herói é um humano e como tal deve
passar por provações, ainda mais quando subjuga uma vontade divina em interesse
aos seus próprios ideais. O “[...] herói, considerado como representante da camada
superior da humanidade, nos faz ver a luta do homem contra as forças do mundo”
(LESKY, 1976: 78).
O herói sofocliano é mostrado com falhas e limitações, que provam que o autor
procurava desvendar com todo realismo as ações humanas e sugere que estas só
serão desculpadas pela nobreza de seus feitos. O rei de Tebas, Édipo, tem uma morte
gloriosa em Atenas, mas antes, é colocado a prova no ideal benéfico causado aos
seus concidadãos.
Assim, o herói só atinge a sua plenitude na morte. Logo, ninguém devia ser
considerado feliz antes de morrer por que se desconhecem as desgraças que poderão
vir a cair sobre ele durante a vida, não menos os intérpretes do ideal heróico olham a
morte como o apogeu e a dádiva que a vida pode ofertar.
Contudo, não é possível admitir que uma vida, assim conduzida, comece a
declinar com uma força que diminuiria e com as aptidões que vão enfraquecendo. A
tragédia grega, exige para um desfecho que lhe corresponda, um fim dramático, no
qual o herói se esforça pela última vez, da melhor maneira e da mais adequada. É
então que se revela em sua personalidade, e termina a sua existência fecunda, com
um último apelo á glória , que é um direito seu, percebamos na heroína Antígona em
sua infindável luta para fazer valer as leis divinas
A partir do que foi dito, podemos notar a tragédia grega participava ativamente
das manifestações culturais helênicas. Os heróis trágicos difundidos visavam
emocionar e perplexar toda uma multidão que acompanhava a encenação teatral.
Contudo, para que este mito alcançasse o público era necessário que o poeta trágico
utilizasse “recursos” na sua atividade criadora. Sendo assim, é perceptível que a
função do mito decorre de seu caráter, isto fica claro ao lançarmos luzes sobre Édipo e
Antígona.
Nestas duas personagens, encontramos a formulação heróica sofocliana
mostrada através de um misto de superioridade humana com anseios divinos, onde o
herói tem por finalidade a realização dos feitos condizentes com os próprios fins da
arte trágica.
Aristóteles ao observar o caráter e a função do herói na dramaturgia grega,
verifica que:

“Como a composição das tragédias mais belas não é simples, mas
complexa, e além disso deve imitar casos que suscitem terror e piedade
(porque tal é o próprio fim desta imitação), evidentemente se segue que
não devem ser representados nem homens muito bons que passem da
boa para a má fortuna – caso que não suscita terror nem piedade, mas
repugnância – nem homens muito maus que passem da má para a boa
fortuna [...] o mito também deve representar um malvado que se
precipite da felicidade para a infelicidade....” (ARISTÓTELES, 1966: 81).

Como podemos ver, o mito heróico não deve apenas ser representado pelas
virtudes de um homem frente aos demais. Mas ele deve passar por discordâncias que
a vida lhe impõe. Esta transformação é condizente com o fim próprio da tragédia
grega. Um homem que está no ápice do seu poderio, em breve conhecerá a
profundeza de sua desgraça. São os princípios da Peripécia e do reconhecimento
mencionadas por Aristóteles.
Édipo Rei de Sófocles é o mito exemplar, sua mutação o faz perceber o quanto
suas características eram superiores e o quanto a conduta humana podia ser errônea
quando ignorar o oráculos divinos no estopim de sua realeza.
Ainda de acordo com Aristóteles, no capítulo XIII da Poética, os mitos heróicos
que deveriam ser apresentados sintetizam-se da seguinte forma: não devem ser
representado homens nem muito bons e nem muito maus, que passem da boa para
má fortuna, nem da má para a boa fortuna. A rejeição dessas situações é justificada
pelo fato de elas não satisfazerem do ponto de visto dos efeitos exigidos pela tragédia,
ou ainda, porque se afastam dos sentimentos humanos. O caminho certo estará na
representação do herói em situação intermediária, que é a situação

“[...] do homem que não se distingue muito pela virtude e pela justiça, se
cai no infortúnio, tal acontece não porque seja vil e malvado, mas por
força de algum erro; e esse homem há de ser algum daqueles que
gozam de grande reputação e fortuna, como Édipo e Tiestes ou outro
insignes de representação ...” (ARISTÓTELES, 1966: 82).

Este homem é o que equilibra virtude e vício, sendo falível e passando da dita
para a desdita, ou seja, cai no infortúnio em conseqüência de um erro. Édipo, mesmo
sabendo de sua desgraça luta contra o destino de forma drástica, não se deixando
levar pelo seu destino. “Os personagens de Sófocles defendem seus princípios como
se tratasse de uma causa contra outra, e se contrapõe aos que o cercam como uma
regra de vida se contrapõe a outra” (ROMILLY, 1984: 106).
O homem trágico é julgado e arrebatado pelos deuses, revelando que o mito
heróico de Sófocles é validado por personagens que estão em constante luta com o
destino. “No teatro de Sófocles a grandeza dos deuses torna ainda mais trágico o
destino do homem, mas também torna mais radiante seu ideal” (ROMILLY, 1984: 102).
A construção do mito na tragédia de Sófocles nos mostra todo o ideal heróico
expresso nos moldes teatrais atenienses. “Antes da tragédia, nenhuma poesia
escolheu o mito simplesmente para exprimir uma idéia, nem escolheu os mitos de
acordo com os seus próprios intentos”. (J AEGER, 1994: 299-300).
Portanto, os mitos heróicos permearam a literatura grega e adentraram o
espaço teatral, mostrando aos espectadores a supremacias dos deuses olímpicos e as
aventuras e “desventuras” pelas quais qualquer homem podem passar. As tragédias
sofoclianas, de maneira peculiar, revelam heróis com vontades próprias, que não
aceitam de antemão as vontades divinas, porém, não desbancam a tradição
mítica/religiosa ateniense, pelo contrário, vem a confirmar.


ARISTÓTELES, Poética. Trad. Eudoro de Souza. Porto Alegre: Globo, 1966.
BALDRY, H. C. A Grécia Antiga. s/t. Lisboa: Verbo, 1968.
BOWRA, C.M. A experiência grega. Trad. Maria Isabel Belchior. Lisboa: Editora Arcádia, 1967.
BRANDÃO, J . S. Teatro grego origem e evolução. São Paulo: Ars Poetica, 1992.
CARLSON, M. Teorias do teatro: estudo crítico-histórico, dos gregos à atualidade. Trad. Gilson César
Cardoso de Souza. São Paulo: Editora da UNESP, 1997.
COSTA. L. M. A Poética de Aristóteles: mímese e verossimilhança. São Paulo: Ática, 1992.
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________________. Mito e Razão na Grécia Antiga. São Paulo: Perspectiva, 1998.
VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos? Trad. Horácio González e Milton Meira
Nascimento. São Paulo: Brasiliense, 1984.

1
Bolsista do PIBIC/CNPq – UEM. Orientado pelo Prof. Dr. David Ferreira de Paula.
2
Colono – Demo da Ática, a cerca de aproximadamente 1,6 Km de Atenas. Local lendário da
Morte de Édipo e terra natal de Sófocles.
3

4
A ampliação do número de atores na representação teatral favoreceu a flexibilidade do diálogo cênico.
5
Cf. Harvey (1987: 453) “Guerra de Samos” em ap. 440 a.C. Samos rebelou-se contra Atenas, até então,
Samos, situada em frente à costa da Ásia, participava da Confederação Ateniense.
6
Devido ao mito conter as sagas dos descendentes de Labdaco (avô de Édipo) uma das figuras mais
ilustres da grande Tebas.
7
Micêncio - Período remoto da História Grega, que se estendeu até ap. séc. XII a.C.
8
Homero – Grande poeta épico, considerado o autor de Ilíada e Odisséia. Existe dúvidas sobre a data de
seu nascimento e sua terra natal. Muitos eruditos nos tempos modernos rejeitaram a unidade original de
cada poema e questionaram a própria existência de Homero.
9
- Cf. VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos? Trad. Horácio González e Milton Meira
Nascimento. São Paulo: Brasiliense, 1984.


Moradia e conflito: o olhar e discurso policial sobre a habitação em Curitiba
durante as reformas urbanas de Cândido de Abreu (1913 – 1916)
1

Alexandre Fabiano Benvenutti
2



Meu projeto de mestrado está relacionado à questão da moradia em Curitiba,
durante a administração do prefeito Cândido de Abreu. Assim, procuro analisar de que
forma, intensidade, meios e os impactos que estas reformas atingiram as moradias
populares em Curitiba durante estes três anos.
Dentro do contexto, devemos enfatizar que a construção da República implicou
em uma reorganização das cidades. A nova capital da República, o Rio de J aneiro, foi
o palco inicial desse desejo de transformar e colocar o país à altura de cidades
européias como Paris.
A cidade mais importante da República, então sede do governo e porta de
entrada ao país, herdava uma velha estrutura que não sustentava as novas
necessidades econômicas e políticas. Com seu porto pequeno, os navios grandes não
podiam atracar e o seu descarregamento era lento; com ruas estreitas, o tráfico do
porto para o comércio era prejudicado.
A capital federal enfrentava ainda problemas relacionados à alta concentração
demográfica. Em 1890 o censo demográfico indicava uma população de 226.831
habitantes. A grande parcela desta população encontrava moradia nos cortiços
3
,
estalagens e pensões, localizadas na área central. A superlotação destas moradias
pobres, as quais se misturavam aos estabelecimentos comerciais e residências ricas,
geravam inúmeros problemas. Para a elite, a localização e a superlotação destes
espaços representava uma instabilidade permanente devido às constantes ameaças
de revoltas populares e aos problemas como a propagação de doenças, uma vez que
havia estrutura sanitária e de abastecimento para um número grande de habitantes.
Além disso, existiam em seus arredores muitas áreas pantanosas, onde proliferavam
doenças como febre amarela.
Todos esses fatores distanciavam o país do centro mais desenvolvido do
mundo, a Europa. Fazia-se necessário projetar uma imagem de República moderna.
Era urgente apagar o passado colonial e tudo o que se referia a ele, a escravidão, a
cultura popular, o atraso da economia imperial, etc. Era urgente apresentar às nações
desenvolvidas que o país estava caminhando rumo ao “progresso” e à “civilização”, e
ao mesmo tempo construir uma imagem de cidade higiênica, que oferecesse

estabilidade e credibilidade. Para a elite republicana era preciso “...garantir a
transformação social e cultural da cidade, e obter um cenário decente e atraente aos
fluxos do capitalismo internacional, tão refreados pelas precárias condições da capital
quanto ambicionados pelas elites atreladas aos grandes interesses exportadores
instalados no governo da União”.
4
Além de atrair o fluxo do capital, as reformas visavam exercer o controle sobre
os espaços, como coloca VAZ:

Muito mais do que higienizar, a necessidade de controlar e adequar a
cidade às novas exigências econômicas e sociais impunha a criação de
uma nova capital federal, incompatível com a forma e a estrutura urbana
coloniais. Uma série de melhoramentos foi definida e sintetizada no
programa de renovação urbana implementado durante a administração
Pereira Passos(1902-1906). A primeira grande intervenção do poder
público sobre o espaço urbano carioca resultou da ação conjunto dos
governos municipal e federal e se centrou em três pontos: o controle
sanitário, urbanístico e da circulação.
5

A reforma urbana iniciada em 1902, também chamada de “Bota abaixo”,
remodelou o porto, abriu grandes avenidas, fez o alargamento, alinhamento e
arborização das ruas; promoveu a higienização e a reestruturação do espaço urbano,
reservando a área central para as elites e obrigando as camadas pobres e menos
abastadas a se fixarem nos morros ou em bairros mais afastados; locais sem
nenhuma estrutura. Também, como parte deste projeto, as autoridades promoveram a
campanha de saúde contra a febre amarela, com a imposição da vacina obrigatória.
Nesse processo a moradia popular foi duramente atingida. As reformas
urbanas, alegando o combate a insalubridade, promoveram a demolição dos cortiços e
casas de cômodos na área central, expulsando a população pobre para bairros
distantes e para os morros.

A relação entre as habitações coletivas populares e a insalubridade da
cidade foi rapidamente detectada. A aglomeração era associada a duas
ameaças potenciais: a propagação de doenças e a convulsão social. As
habitações coletivas passaram então a ser responsabilizadas pela
insalubridade e, por esse motivo, foram condenadas a desaparecer,
substituídas por habitações higiênicas. Dessa maneira, considerava- se
possível não só controlar as epidemias, como também as classes
trabalhadoras. No combate às habitações coletivas destacaram- se dois
agentes sociais; o Estado, atuando através da normalização e do controle
da construção, da imposição de normas higiênicas e da intervenção
direta(fechamento de cortiços); e o emergente setor da construção civil.
6

Os acontecimentos no Rio, tiveram de alguma forma reflexos na forma com
que a elite curitibana projetaria a cidade e a forma com que resolveria os seus

inúmeros problemas, como a propagação de doenças, epidemias, a deficiência
sanitária, os problemas relacionados à moradia, o transporte, a saúde; entre outros.
As mudanças ocorridas em Curitiba na passagem do século XIX para o XX
foram notadas pelos intelectuais do período. O crescimento da população
7
e os
investimentos em áreas estratégicas como estrada de ferro, energia elétrica,
impulsionaram a indústria e o comércio; alterando a imagem de “vila” para um grande
centro
8
.
A descrição de Nestor Vítor sobre Curitiba em 1912 é bastante elucidativa.
Além de descrever as mudanças e os problemas que se abatiam sobre a cidade
9
, ele
evidência a necessidade de uma intervenção no seu quadro urbano, afim de que
sejam garantidos os melhoramentos necessários:

Aquelas pitorescas chácaras de outrora já perderam o seu caráter
vivamente campestre, enfileiradas agora em ruas regulares com outros
prédios, que lhes empobreceram a atmosfera e em muitos casos tiraram-
lhes grande parte do terreno. Estão desaparecendo os leves chalets de
madeira, e rarejam ainda mais as pobres casinhas encardidas, de telhas de
tábua, cujo aspecto, às vezes, era miserando.
Os pobres e os sapos vão indo de cada vez para mais longe, dizia- me
Emiliano Perneta... Está aí o motivo principal, acrescentou, porque não
achas mais na cidade esse cheiro campesino de que falas, e de que eu me
recordo: com os pobres vão-se distanciando também as culturas.
...porque li num artigo do Dr. Jayme Reis que por enquanto persistem in
loco as águas do pernicioso lençol que outrora era visível nas partes mais
baixas da cidade. Diz ele que, em vez de haverem dissecado o solo por
meio de bem orientada rede de bueiros e drenos, os poderes municipais
limitaram- se a aterrar as praças e ruas de modo a dar apenas uma
agradável ilusão à vista.
Os poderes municipais! Exclamou o meu interlocutor, mas é justamente o
que tem faltado por completo em Curitiba: é a ação benéfica desses
poderes... Se fôssemos contar com ela, nem água, nem esgoto ainda
teríamos. Esses melhoramentos foram realizados não há muito, mas por
iniciativa e sob a responsabilidade do Governo Estadual. Pode- se dizer
que esta cidade ainda patina na lama...
10

Apesar de alguns melhoramentos, diga- se o restrito sistema de água e esgoto
e as casas com fachadas arquitetônicas européias no lugar das casas “pobres” e
“encardidas”; a cidade “ainda patina na lama”. Para Nestor Vítor era preciso lançar
mão dos poderes municipais: era “justamente o que tem faltado por completo em
Curitiba”. A administração não satisfaria as exigências de uma cidade que queria se
modernizar. Curitiba precisava de reformas urbanas.
A gestão de Candido Ferreira de Abreu
11
, de 1913 até 1916, foi marcada por
promover estas reformas tão esperadas. Para tal, “foi instituída uma “Comissão de
Melhoramentos da Capital”, que conferia ao prefeito poderes “ditatorias” na condução

das reformas, fazendo com que ele dispusesse discricionariamente do aparelho
administrativo municipal, sem nenhuma ingerência dos outros poderes constituídos”
12
.
Dentro desse contexto, podemos compreender as reformas urbanas de
Curitiba, não como um processo de embelezamento da cidade, mas como uma nova
forma de organização do espaço urbano. Assim como nas reformas do Rio de J aneiro,
estavam presentes as idéias de “progresso”, de “civilização” e de apagar o passado
colonial. Mais especificamente em Curitiba,

...por se tratar da capital do Estado, precisaria adequar- se tanto aos
anseios “cosmopolitas”, como às estratégias do acúmulo de capital de uma
burguesia ervateira que estava começando a diversificar seus negócios.
Para tanto, o desenvolvimento capitalista passava a exigir uma cidade que
oferecesse serviços, que concentrasse as unidades produtivas, que
congregasse um mercado consumidor e que organizasse e disciplinasse
uma massa trabalhadora. Nesse quadro, a intervenção do Estado no
cenário urbano era fundamental...
13

As moradias populares foram atingidas de varias formas: seja pelas
conseqüências da valorização do centro, seja pela fiscalização higiênica e policial
impostas a esses locais.
A remodelação da cidade fez com que a área central fosse valorizada, o que
significou um aumento nos aluguéis e terrenos. Mesmo antes das reformas, em 1912
Nestor Vítor enfatizava a valorização dos terrenos do centro, onde “...já se dão
100:000$ na Rua Quinze apenas pelo terreno de uma casa”
14
.
Os aluguéis também estavam altos. Podemos comparar os custos do aluguel
através de duas descrições de Nestor Vítor sobre Curitiba. Em 1884 ele afirmava que:
“por 40$ ou 50$ morava-se em bom prédio para numerosa família”
15
. J á em sua
descrição de Curitiba de 1912, ele enfatiza: “Uma moradia mediana pela qual no seu
tempo , meu amigo, se pagava 40$ ou 50$ mensais, custa hoje 120$ ou 150$”
16
. Com
as reformas implementadas por Cândido de Abreu, no mínimo os custos de moradia
mantiveram-se neste patamar. A questão da moradia, inclusive, foi uma reivindicação
do movimento operário durante a greve de 1917
17
em Curitiba. Entre as 19
reivindicações, uma exigia a “Diminuição dos preços de aluguel de casa”
18
.
Por outro lado, as reformas passaram a exigir um comprimento das legislações
presentes nos Códigos de Posturas de Curitiba
19
. Criadas sob a administração de
Cyro Persiano de Almeida Velloso em 1895, elas foram aplicadas durante as duas
primeiras décadas do século XX.
No que se refere à moradia, as Posturas fazem referências a inúmeros
aspectos: desde as normas para construção e reforma de casas e prédios, higiene
interna até a limpeza e a manutenção. Em específico para os hotéis, temos duas

referências: uma diz respeito ao horário de funcionamento: “Os cafes, bilhares,
restaurantes, hoteis e confeitarias... poderão conservar- se abertos até as 12 horas da
noite”
20
. J á o artigo 153 faz referência ao cancelamento de licença, “...desde que
verifique que taes casas transformaram- se em bordeis”
21
.
No que se refere à construção das casas, uma das exigências seria a
construção de casas de alvenaria, como enfatizam os seguintes artigos:

Art. 121: É expressamente prohibido construir dentro da cidade e em
povoações do município e mesmo no interior dos quintaes, casa de meia-
agua, ranchos ou puxados, cobertos de capim, palha ou sapé. O infractor
incorrerá na multa de 30$000 além de ser obrigado a destruir ou substituir a
cobertura.
Art. 124: São prohibidas as meias-aguas nas frentes das ruas. A infracção
será punida com 100$000 de multa alem de ser demolida a obra a custa do
infrator.

De acordo com as Posturas, aqueles que não a respeitassem estariam sujeitos
às penalidades impostas pela Prefeitura, seja na forma de multas, cancelamento de
licenças e fechamento, tanto para habitações como para os mais variados
estabelecimentos comerciais. Como nos mostram os jornais, durante a segunda
década do século XX, vários prédios tiveram seu atestado “habita- se” negado, em
virtude das péssimas condições de higiene, e outros ainda foram fechados por serem
“bordéis”.
Medidas como essas de certa forma procuravam restringir ou até mesmo
expulsar da centro as “...pobres casinhas encardidas, de telhas de tábua, cujo
aspecto, às vezes, era miserando”
22
, dificultando assim a população pobre de ter sua
casa na área central. É importante que se enfatize que por área central de Curitiba
neste período, podemos imaginar como sendo ruas: Riachuelo, Liberdade, XV de
Novembro, Comendador Araújo, Marechal Deodoro, Aquidabam, São Francisco, 13 de
Maio, Serrito, J osé Bonifácio, Rosário, Muricy, Ébano Pereira, Praça Tiradentes e
Praça General Osório. De acordo com o Relatório Policial de 1911
23
, a Guarda
Municipal mantinha um efetivo permanente composto de 60 policiais para a vigilância
destas áreas, importantes em função do comércio, dos edifícios e também das
residências luxuosas.
Mesmo com esses obstáculos, seja pelo auto custo dos terrenos e dos
aluguéis, seja pela imposição das Posturas e da vigilância das autoridades, a
população de baixa renda encontrava abrigo no próprio centro da cidade, nas
moradias coletivas – pensões e hotéis populares. Diga- se populares aqueles
estabelecimentos com um preço mais acessível e com serviços simples, muitas vezes

apenas com dormitório ou que ofereciam apenas uma cama. Esses locais eram
chamados também de “cochicholo”
24
ou casas de cômodos.
É importante destacar que não só existia uma diferenciação entre hotel e
pensão, como também uma diferença entre as próprias pensões e entre os próprios
hotéis. Se algumas pensões ou hotéis eram chamados de “cochicholos” por abrigarem
a “pobreza” como demonstra o Diário da Tarde, nas páginas do Guia Paranaense
25
,
encontramos um anúncio da pensão Busnard
26
, que nos mostra um espaço de
moradia bastante diferenciado desses, com serviços diversos como comidas quentes,
bebidas finas nacionais e estrangeiras, doces, frutas; além de enfatizar a existência de
um salão de barbeiro, charutaria e bar.
Ao mesmo tempo em que existiam hotéis como o Grande Hotel Moderno
27
,
com uma diária acima de 7$000 onde os “distintos cavalheiros e Exmas. Famílias”
poderiam encontrar o “luxo e a presteza” como bem anuncia o Guia Paranaense
28
,
espaço aliás conhecido por ser “...a hospedagem chic, preferida pelos touristas de
luxo, pela gente notável que vem á Coritiba”
29
; existiam aqueles hotéis que eram
notícias nas matérias e colunas policias dos jornais da cidade ou que apresentavam
problemas de higiene.
No Livro de Alvarás da Prefeitura do Município de Curitiba, entre 1900 a 1916,
encontramos 21 registros e concessões a estabelecimentos dedicados à hospedaria.
Desse total temos 15 registros para hotéis
30
e 6 para pensões
31
. Nestes registros
podemos encontrar dados referentes ao nome do proprietário, endereço (nome da rua
e em muitos casos o seu respectivo número) e ano do registro. Através desta fonte
podemos fazer o levantamento dos número de pensões oficialmente reconhecidas em
Curitiba no determinado período, identificando os seus proprietários e a localização.
Esse número oficial, no entanto, não representa o número exato desses
estabelecimentos. Provavelmente, existiram várias outras pensões ou hotéis que não
foram registradas. Mas como torna- se impossível determinar o seu número total, no
qual incluiriam- se aquelas que são registradas e não, limitarei a trabalhar com esses
números.
Sobre os seus moradores, encontramos informações nos Relatórios de Polícia.
Cada relatório anual traz a seção chamada de “Gabinete de Identificação e Estatística:
Quadro demonstrativo do Movimento de hotéis e pensões na capital”, apresentando a
identificação e a estatística do movimento nesses locais. Apresentando levantamentos
trimestrais, eles indicam o número de moradores no referido período, classificando- os
quanto ao sexo, nacionalidade, profissão, origem e destino.
Entre seus moradores encontravam- se comerciantes, industriais, militares,
viajantes, operários, artistas, domésticas, a classificação “diversas”, o que poderíamos

imaginar como desempregados ou talvez uma designação aqueles(as) que realizavam
atividades tidas como “suspeitas” pelas autoridades, como as garçonetes
32
,
vendedores ambulantes, mendigos, etc.
Afim de podermos visualizar melhor estes dados, analisaremos aqui os
relatórios dos respectivos períodos: quarto trimestre de 1912 e o primeiro trimestre de
1916.
Em 1912
33
, temos uma população de 2.171 moradores destes espaços. Entre
este número temos: 847 comerciantes, 107 industriais, 35 militares, 119 viajantes e
artistas, 17 domésticas e um número de 1046 para “diversas”. Para o primeiro
bimestre de 1916
34
, temos uma população composta de 1674. Entre estes temos: 512
comerciantes, 40 militares, 240 viajantes, 50 industriais, 60 artistas, 202 operários, 230
domésticas, 342 para “diversas”.
Temos assim um cenário conflitante. No mesmo espaço urbano de Curitiba, as
residências de luxo - os palacetes e sobrados, às casas comerciais freqüentadas pela
elite, os hotéis de “hospedagem chic” da “gente notável”; dividiam o espaço com as
moradias coletivas, as quais em sua grande maioria abrigavam aquela população
pobre, que não tinha condições de adquirir um terreno, uma casa ou de pagar aluguel.
Foco de uma preocupação constante para a elite, a questão da moradia dessa
população pobre vai estar presente nos discursos e relatórios policiais e nos jornais
que circulavam pela cidade, evidenciando a “necessidade” de controlar e higienizar
esses espaços.


1
Este texto é parte do projeto de pesquisa do Mestrado em História pela UFPR, com a orientação da Dr
a

J udite Maria Barbosa Trindade.

2
Mestrando em História(UFPR - Universidade Federal do Paraná). E-mail para contato:
aalexfab@yahoo.com.br

3
Os cortiços eram a principal moradia popular no Rio de J aneiro na passagem do século XIX para o XX.
Em relação a sua origem, CHALHOUB destaca que: “A proliferação dos cortiços na cidade do Rio se
deu a partir das décadas de 1850 e 1860, e esteve ligada ao aumento do fluxo de imigrantes portugueses
e ao crescimento do número de alforrias obtidas pelos escravos” (CHALHOUB, S. Cidade febril:
cortiços e epidemia na corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 26.)

4
MARTINS, Paulo Cézar Garcez. Habitação e vizinhança: limites da privacidade no surgimento das
metrópoles brasileiras. In: História da vida privada n Brasil República: da Belle Époque à Era do Rádio.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.p.143.

5
VAZ, Lilian Fessler. Modernidade e Moradia: habitação coletiva no Rio de Janeiro séculos XIX e XX.
Rio de J aneiro: 7Letras, 2002. p.51.
6
VAZ, Modernidade.... 2002. p.32.
7
De acordo com Romário Martins em“Quantos somos e quem somos” enquanto em 1890 as estatísticas
apontavam para uma população de 24.553 mil habitantes, em 1900 as estatísticas indicavam 50.124 mil
habitantes.

8
ROCHA POMBO, J . F. O Paraná no Centenário: 1500 – 1900. 2
a
ed. Rio de J aneiro: J . Olympio;
Curitiba: Secretaria da Cultura e do esporte do Governo do estado do Paraná, 1980. p. 141.
9
Os jornais deste período também enfatizam inúmeros problemas como: abastecimento de água, esgotos,
doenças, pobreza, etc.
10
SANTOS, Nestor Vítor dos. Terra do futuro: impressões do Paraná. Curitiba: Prefeitura Municipal,
1996. p.91.
11
Sobre as reformas urbanas em Curitiba, indispensável o trabalho de: SEGA, Rafael Augusto. A capital
Belle Époque; a reestruturação do quadro urbano de Curitiba durante a gestão do prefeito Cândido de
Abreu (1913-1916). Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2001.
12
SEGA, A capital... 2001.p.42.
13
SEGA, A capital... 2001.p.01.
14
SANTOS, Terra... 1996. p.82.
15
SANTOS, Terra... 1996. p.76.
16
SANTOS, Terra... 1996. p.83.
17
Sobre a greve de 1917 ver: FONSECA, Ricardo Marcelo; GALEB, Maurício. A greve de 1917 em
Curitiba: resgate da memória operária. Curitiba: IBERT, 1996.
18
Diário da Tarde, 19 jul. 1917.p.01.
19
As Posturas fazem referência a: Limpeza da cidade, Tranquilidade e Segurança Públicas; Higiene e
Salubridades Públicas; Quadro Urbano; Edifícios Ruinosos e Escavações; Servidões; Comércio; Fábricas,
Oficinas e Curtumes; Casas de J ogos e Divertimentos Públicos; Mercado; Matadouro Público, seu asseio
e economia, açougues, condução de carne verde e de deveres do veterinário; Cemitérios e Enterramentos;
Rocio; Estradas, caminhos, conservação de árvores e extinção de formigueiros; Cercas; Agricultura e
Criação.
20
CURITIBA. Código de Posturas do Município de Curitiba. Decretada pela Câmara Municipal em
Sessão de 22 de Novembro de 1895. Curitiba, 1895. Art. 146.p.26.
21
CURITIBA. Código... 1895.Art. 153.p.27.
22
SANTOS, Terra... 1996. p.91.
23
De acordo com o relatório, a guarda estava dividida da seguinte forma: “Rua da Liberdade 2 guardas,
Riachuelo 2, 15 de Novembro 3, Commendador Araujo 2, Marechal Deodoro 1, Aquidabam 1, São
Francisco 1, 13 de Maio 1, Serrito 1, José Bonifácio 1, Rosario 1, Dr. Muricy 1, Ebano Pereira 1, Praça
Tiradentes 1 e Praça General Ozorio 1.
Na sala da inspetoria ficou de promptidão o fiscal Nascimento Teixeira, sendo incumbidos da ronda os
fiscais srs. Jeronymo Fanha e Pedro Lagos Marques.
O patrulhamento da cidade será feito por 60 guardas, divididos em trez turmas”.
(Relatório apresentado ao Exmo. Snr. Secretário dos Negocios do Interior pelo Dr. Estanislaú Cardozo,
Chefe de Policia, em 31 de dezembro de 1911. Curityba: Typ. da Penitenciária do Estado, 1911. p.29.)
24
O jornal Diário da Tarde de 1911, em uma matéria sobre a moradia e os altos aluguéis na capital
paranaense faz referencia a estes locais de moradia mais simples: “Alugueis de casas... Em Coritiba, mez
a mez sobem. Qualquer cochicholo que custava 20$000 mensalmente, hoje é alugado por 40$000 pelo
menos... A pobreza, cujos meios de vida não augmentaram, vê- se em apuros. Que há de fazer?” (Diário
da Tarde, 16/01/1911.p.01)
25
O Guia Paranaense, 1916. Ano 1, N
o
1.p.230.
26
A pensão Busnard estava localizada na Praça Tiradentes n
o
09.
27
O Grande Hotel Moderno, pertencente a Gino Zanchetta , localizava- se na Rua XV de Novembro n
o

110.
28
O Guia Paranaense, 1916. Ano 1, Número 1.p.230.
29
Comentário do repórter do Diário da Tarde sobre o Grande Hotel, por ocasião da conversar com o Dr.
Bruno Perneta, médico que veio a Curitiba na para estudar a doença typo. Diário da Tarde, 18 out. 1917.
p.01.
30
O primeiro registro referente a hotel no Livro de Alvarás de Curitiba aparece já em 1885, ano da
inauguração da ferrovia Curitiba – Paranaguá. De acordo com o registro, este estabelecimento estava
localizado na Rua do Imperador, e consta como proprietário Pedro Antonio Camacho. Ver:
PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA. Livros de Alvarás. Livro 01 a 04, 1885.p.13.
31
O primeiro registro referente a pensão no Livro de Alvarás de Curitiba aparece em 1901, constando
apenas o seu proprietário, Ignacio Keulig. Ver: PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA. Livros de
Alvarás. Livro 01a 04, 1901.p.169.
32
Ver: GANZ, A. M. Vivências e falas: trabalho feminino em Curitiba, 1925-1945. Curitiba, 1994.
Dissertação (Mestrado em História) – UFPR.
33
Relatório apresentado ao Exmo. Snr. Dr. Marins Alves de Camargo D. D. Secretario de Estado dos
Negocios do Interior, J ustiça e Instrucção Publica, pelo Chefe de policia Desembargador Manoel

Bernardino Vieira Cavalcanti Filho, em 31 de dezembro de 1912. Curityba: Typ. d`A Republica, 1913.
p.84.
34
Relatório apresentado ao Exmo. Snr. DR. Eneas Marques dos Santos, Secretário do Interior, J ustiça e
Instrucção Publica, pelo Dr. Lindolpho Pessoa da Cruz Marques, Chefe de Policia do estado, em 31 de
dezembro de 1912. Curityba: Typ. da Penitenciária do Estado, 1916. p.86.

A LEITURA DA BÍBLIA NA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS

Alfredo dos Santos Oliva
1



Introdução
A tarefa do historiador é, então, a de reconstruir as variações que
diferenciam os espaços legíveis – isto é, os textos nas suas formas
discursivas e materiais – e as que governam as circunstâncias de sua
efetuação – ou seja, as leituras compreendidas como práticas concretas e
como procedimentos de interpretação.
2

Durante alguns anos fui professor em uma escola teológica. No início de uma
das aulas um aluno me perguntou se Abraão havia, de fato, sido o primeiro sem-terra
da história. Disse que não e expliquei que a palavra sem-terra é uma categoria
contemporânea e não servia para designar uma realidade social tão distante, temporal
e espacialmente. Perguntei de onde tinha tirado a idéia e ele respondeu que um
professor da própria escola lhe havia dito isso. Tratava-se de professor muito
simpático à teologia da libertação.
Alguns meses depois, passei a freqüentar a I.U.R.D.
3
como um meio de coleta
de dados para uma dissertação de mestrado em sociologia que viria a escrever. Em
uma das visitas ouvi um bispo da igreja afirmar que a vontade de Deus é que todos
sejam prósperos, pois Abraão havia sido a primeira pessoa rica da história. Segundo o
líder, Abraão perambulava de um lado para outro por opção e possuía muitos bens
materiais, recebidos como presentes vindos da parte de Deus. Com base na biografia
de Abraão, o bispo desafiava as pessoas a terem fé na mesma medida que Abraão
para que viessem a ter bens materiais na mesma proporção que o patriarca hebreu.
Abraão assume os contornos de um rico empresário quando sua história é lida por um
líder da I.U.R.D., defensor da teologia da prosperidade.
Penso que os dois exemplos de leitura da Bíblia demonstram que um mesmo
texto, ou uma mesma história, pode se prestar a leituras muito diferentes. Abraão teria
sido um sem-terra para um teólogo da libertação e um homem rico para um teólogo da
prosperidade. Os exemplos demonstram dois fatos importantes sobre a forma como as
pessoas lêem. O primeiro é que toda leitura tem sempre uma comunidade de
referência. Mesmo quando se trata de uma leitura feita por um indivíduo no isolamento
de seu quarto em sua casa, às portas trancadas, a sua atividade é
informada/conformada pela comunidade à qual está socialmente integrado. Nínguém
está só quando lê algo, logo, cabe ao historiador da leitura empreender uma
investigação minuciosa acerca dos referenciais comunitários a partir dos quais as
pessoas lêem. O segundo é que a leitura é uma atividade criadora. A leitura não pode
ser encarada como simples recepção, onde o leitor apenas consome uma verdade
criada pelo autor do texto, mas é uma criação tanto quanto o é a produção do texto.
Cabe ao historiador da leitura investigar as práticas que são criadas e legitimadas a
partir da leitura que as pessoas fazem da Bíblia.
Abaixo, primeiramente, procurarei trazer alguns dados sobre a I.U.R.D., o
contexto comunitário em que a Bíblia é lida. O ciclo semanal e anual da igreja, suas
ênfases teológicas, o modo como seu líder maior interpreta a Bíblia, servem como
elementos a priori para toda leitura da Bíblia feita no âmbito da denominação. Em
seguida, irei fazer algumas considerações sobre os ritos que envolvem a leitura da
Bíblia de forma propriamente dita. Desemboco em exemplos concretos de como a
Bíblia é lida a partir de exemplo provenientes de observações feitas nos cultos da
referida igreja.

1- A I.U.R.D. como comunidade de referência para a leitura da Bíblia

Pensada desta forma, a ênfase sobre as apropriações culturais também
nos permite ver que os textos ou palavras destinadas a configurar
pensamentos e ações nunca são inteiramente eficazes e radicalmente
aculturadores. As práticas de apropriação sempre criam usos ou
representações muito pouco redutíveis às intenções daqueles que
produzem os discursos e as normas. (...) A chamada religião popular era ao
mesmo tempo aculturada e a aculturadora: nem totalmente controlada, nem
absolutamente livre, afirmava os modos específicos de crença no cerne da
aceitação dos novos modelos de espiritualidade.
4

A I.U.R.D. foi fundada em 1977 e começou a experimentar um crescimento
vertiginoso a partir dos anos 1980.
5
Para se ter uma noção da velocidade do
crescimento da I.U.R.D., em 1980 ela possuía 21 templos em 5 estados do país,
enquanto que em 1998 tinha cerca de 3.000 templos e já atingia 50 países.
6
Como
costuma acontecer com freqüência no âmbito do pentecostalismo, a I.U.R.D. nasceu
como fruto de um cisma no seio de uma outra denominação, a Igreja de Nova Vida.
Ricardo Mariano afirma que esta igreja, apesar de pequena, desempenhou um papel
importante no sentido de fornecer lideranças que iriam formar duas das igrejas
pentecostais mais importantes da atualidade, a Igreja Internacional da Graça de Deus
e a I.U.R.D.
7
Da Igreja de Nova Vida é que saíram Romildo Ribeiro Soares, Edir
Bezerra Macedo e Roberto Augusto Lopes para fundar a I.U.R.D. Roberto A. Lopes
enveredou pelo mundo da política, Romildo R. Soares e Edir B. Macedo se
desentenderam até que este último assumiu a liderança sozinho da I.U.R.D.
Edir B. Macedo é de uma família de origem nordestina. Seus pais migraram de
Alagoas para o interior do Rio de J aneiro e tiveram 33 filhos, sendo que apenas 7
sobreviveram. Edir B. Macedo é o quarto destes 7 filhos que sobreviveram. Aos 17
anos tornou-se empregado da loteria do estado do Rio de J aneiro. Antes de se filiar à
Igreja de Nova Vida peregrinou pelo Catolicismo Romano e pela Umbanda. Parece ter
conseguido relativo sucesso como funcionário do estado do Rio de J aneiro, mas aos
33 anos deixou o trabalho “secular” para se dedicar à atividade religiosa.
8
Desligou-se
da Igreja de Nova Vida para fundar o que viria a ser a I.U.R.D. Inicialmente a nova
denominação fundada por Edir B. Macedo e seus parceiros de empreitada chamava-
se Igreja da Benção e funcionava em uma ex-funerária na cidade do Rio de J aneiro.
No ano de 1977 a igreja foi registrada com o nome que a projetaria no Brasil e em
vários países do mundo.
9
Em julho de 1980, na comemoração do terceiro ano da
denominação, Edir B. Macedo foi sagrado bispo por Roberto A. Lopes, assumindo a
forma de governo episcopal para sua igreja.
10
A I.U.R.D. tem um ciclo semanal diversificado e de intensas atividades. A
“Catedral da Fé” da cidade de Fortaleza segue o padrão de cinco cultos diários, cada
dia com um destaque diferente, presente em todas as igrejas do país. Há uma
adaptação em termos de conveniência dos nomes que se deve utilizar para designar a
ênfase de cada culto, bem como uma adaptação aos horários que se adeqüem à
realidade local. Os horários dos cultos são:
Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Domingo
08:00 08:00 08:00 08:00 08:00 08:00 07:00
10:00 10:00 10:00 10:00 10:00 10:00 10:00
12:00 12:00 12:00 12:00 12:00 12:00 12:00
15:00 15:00 15:00 15:00 15:00 15:00 15:00
19:00 19:00 19:00 19:00 19:00 19:00 18:00
22:00
00:00


O dia de atividades mais intensa é a sexta-feira, o mesmo dia em que os
terreiros de Umbanda intensificam suas atividades. Também a abordagem dos temas
da semana sugerem uma relação com o calendário da Umbanda, uma vez que a
sexta-feira é o dia dedicado à libertação. É neste dia também que os demônios vão
sendo nomeados, via de regra eles têm um nome de um orixá, e recebem uma ordem
para “desalojar” a vida das pessoas. Quando manifestos, são, então, entrevistados e
expulsos. Um folheto fornecido por uma obreira na “Catedral da Fé” traz os seguintes
dados:


Segunda Corrente dos Empresários
Terça Corrente da Saúde
Quarta Reunião do Divino Espírito Santo
Quinta Corrente da Família
Sexta Corrente da Libertação
Sábado Reunião da Revolta/Terapia do amor
Domingo Reunião da Salvação Espiritual

É possível perceber que a liderança da denominação criou um ciclo semanal
que propicia a difusão e a fixação de ênfases teológicas que lhes interessa. A I.U.R.D.
se edifica teológica e ritualmente sobre um discurso que dá destaque à necessidade
de ser exorcizado para alcançar o estado de prosperidade. A Bíblia quase sempre é
lida com o intuito de legitimar a veracidade deste discurso teológico que vê o caminho
da prosperidade na atitude corajosa de dissipação das trevas. Pode-se concluir que a
“chave” de leitura da Bíblia (o a priori comunitário) da I.U.R.D. é marcada pelas
teologias da prosperidade e da batalha espiritual. Penso que isso pode ser verificado a
partir dos exemplos empíricos que cito abaixo.

2- A prática da leitura da Bíblia nos cultos da I.U.R.D.

Se portanto o livro é um efeito (uma construção) do leitor, deve-se
considerar a operação deste último como uma espécie de lectio, produção
própria do leitor. Este não toma nem o lugar do autor nem um lugar de
autor. Inventa nos textos outra coisa que não aquilo que era a intenção
deles. Destaca-os de sua origem (perdida ou acessória). Combina os seus
fagmentos e cria algo não-sabido no espaço organizado por sua
capacidade de permitir uma pluralidade indefinida de significações.
11

Seja lá o que for, ler é uma prática criativa que inventa significados e
conteúdos singulares, não redutíveis às intenções dos autores dos textos ou dos
produtores dos livros.
12

Um culto na I.U.R.D. segue uma estrutura estável. Começa com uma oração,
que via de regra é um clamor para que Deus inspire e oriente o dirigente na condução
do culto e abençoe aos que ali estão e enfrentam dificuldades. Depois segue um
cântico, que normalmente fala de vitória sobre o sofrimento e a pobreza. Em seguida o
dirigente faz uma exposição de um texto bíblico, na maior parte das vezes do Antigo
Testamento e que sempre serve como discurso legitimador do rito que segue à sua
exposição. Após a leitura e exposição do texto bíblico, está presente um ritual que
varia conforme o dia da semana: oração pelos enfermos, clamor por prosperidade,
oração pela família, glossolalia
13
, exorcismo etc. Em seguida as pessoas cantam uma
ou duas músicas e, sempre, há um desafio a entregar dízimos e ofertas.
A estabilidade desta estrutura básica do culto na I.U.R.D. pode ser atestada a
partir das observações de campo de Margarida Oliva, sobretudo porque a autora fez
suas pesquisas no início dos anos 1990 na cidade de São Paulo. Esta semelhança
demonstra a eficácia da liderança da I.U.R.D. em criar uma padronização litúrgica e
ritual:

As sessões de culto obedecem a um certo esquema básico entremeado de
cânticos de melodia fácil e repetitiva: (1) oração inicial do pastor, pedindo a
benção de Deus Pai para o povo sofrido que está ali; (2) explicação de um
texto da Bíblia relacionado com o tema do dia (busca de prosperidade,
saúde, Espírito Santo, paz na família, libertação); (3) momento de oração
individual, ao mesmo tempo que o pastor, ao microfone, invoca a Deus; (4)
algum tipo de exorcismo, coletivo e/ou individual; (5) coleta do dízimo e das
ofertas espontâneas.
14

A pregação é um rito muito freqüente e de muita importância porque confere
legitimidade a vários outros ritos. A leitura e a exposição do texto bíblico ocupam a
maior parte do culto. Via de regra a seqüência é a seguinte: leitura de um texto, quase
sempre tirado do Antigo Testamento, depois uma oração pedindo a Deus que ilumine
o pregador e fale à platéia, e, finalmente, a explicação do sentido do texto ao público.
Um fato notável é que alguns dos pregadores dão uma entonação da voz muito similar
à que possui o líder maior da denominação, o Bispo Macedo. A leitura e a exposição
bíblica servem de fundamentação para o dirigente pedir dinheiro ao público, justificar a
existência de maldições, demonstrar o poder curador de Deus, o desejo de Deus de
fazer prosperar seus filhos e filhas etc. É notável também a forma como o pregador se
movimenta o tempo todo no palco, de um lado para o outro, e se comunica com seus
ouvintes, o tempo todo perguntando: “Pessoal, tá entendendo?” ou “Sim ou não,
pessoal?” Quando o pregador desconfia da dispersão de seu auditório, pergunta:
“Pessoal, tá ligado?” Ao que a platéia responde afirmativamente com uma solitária
batida de uma mão na outra.
A leitura da Bíblia pode servir para instrumentalizar a evangelização e o medo
do Diabo, conforme observei em um culto que assisti na I.U.R.D. e registrei em meu
diário de campo:

Algumas pessoas endemoninhadas sobem ao palco para uma entrevista.
Uma senhora endemoninhada é a primeira. “Qual o teu nome?”, “Exu-
caveira, quero matar toda a raça dela”. “Você recebeu o que?”, “Galo preto
pra matar toda a família dela”. O dirigente pergunta pelos familiares da
senhora endemoninhada e sobe ao palco uma jovem, que diz ser sua filha,
e uma criança muito pequena. O dirigente pergunta para a filha da senhora
endemoninhada o que a mãe dela tinha, não espera resposta. Pergunta
para o demônio “Que você fez com a filha dela?” e o demônio responde
“Prostituição, beber, cigarro, tudo que ela gosta ...“. O dirigente pede que os
seus auxiliares preparem uma bacia com água e óleo santo trazido de
Israel. Recomeça a entrevista com o demônio: “Que doença você coloca na
vida dela?” e o demônio responde “Nenhuma, só desgraça. Matei o marido
dela, joguei o carro em cima dele!”. “Se você puder, você faz o quê com a
filha dela?”, “Eu mato como matei o marido dela”. Há uma interrupção no
exorcismo para uma leitura bíblica.

Leitura bíblica - Jo 10: 9,10: “Eu sou a porta. Quem entrar por mim será
salvo. Entrará e sairá e encontrará pastagem. O ladrão vem só para roubar,
matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”
Orientação do dirigente sobre o texto bíblico. “Quando você entra pela
porta, assume compromisso com Jesus, isso não vai acontecer com você”,
referindo-se à mulher que estava à frente endemoninhada e fala para a sua
filha: “Se você não aceitar Jesus, o demônio vai te matar também”. O
dirigente relê o texto de Jo 10: 10 trocando a palavra ladrão por Diabo: “O
Diabo veio somente para roubar, matar e destruir”.

Recomeça a entrevista com o demônio. O demônio fala “Coloquei dois
bandidos na vida do filho dela”, fato confirmado pela filha. O dirigente
pergunta: “Tem quantos demônios aí?”, ”Só eu”. “Como você entrou na vida
dela?”, “Através da raiva dela pela vizinha”. “Anda de joelho aí. Você vai
soltar da vida desta família”. O demônio diz “A encruzilhada é o meu lugar,
é lá que eu mato as pessoas”. “Você mata as pessoas e leva pra onde?”,
“Para o inferno”. “Que você faz na vida dela?”, “Tudo. Até o amante dela eu
tô trazendo de volta. Ela botava cifre no marido, no abestado”. O dirigente
interrompe para explicar para a platéia que, se deixar, o Diabo entrega em
público toda a vida da pessoa, pois sabe de tudo porque é ele
pessoalmente que apronta as coisas na vida das pessoas. Há uma
interrupção no exorcismo e o dirigente chama à frente as pessoas. O apelo
é para as pessoas irem à frente para serem libertas de vícios e rancores
para com seu próximo. As pessoas vão à frente e os pastores e obreiros
oram por estas e também aspergem água com óleo santo sobre elas.
15

A leitura da Bíblia também pode sevir para legitimar a campanha da Fogueira
Santa de Israel, considerada pela liderança a campanha “mais forte” da igreja. Na
ocasião as pessoas são desafiadas a ofertar a Deus uma certa quantia em dinheiro:

O templo estava ornamentado com algo parecido com um santuário com
quatro colunas no estilo romano, todo envolto em véu. Dentro do santuário
havia uma mesa com uma toalha vermelha e uma menorá
16
pequena. No
decorrer do culto o oficiante entrava no santuário, imitando o gesto do sumo
sacerdote que adentrava ao santo dos santos na época do Antigo
Testamento. À frente do santuário tinha um púlpito de onde o oficiante regia
o culto, sempre se deslocando para outras localidades, seja para falar, seja
para representar/encenar o que narrava. Também à frente do santuário se
via uma menorá muito grande. Às costas de quem está sentado assistindo
ao culto estava estendida uma enorme faixa com os seguintes dizeres:
"Fogueira Santa de Israel - traga a sua carta de afronta." No templo
estavam afixados muitos cartazes anunciando a "Fogueira Santa de Israel".
Nos cartazes estava grafado o seguinte texto bíblico de 2Cr 32: 27-29:
“Ezequias possuía riquezas e glória à vontade. Mandou fazer casas-fortes
para guardar ouro, prata, pedras preciosas, perfumarias, jóias e toda
espécie de objetos de valor, bem como armazéns para as colheitas de
trigo, de vinho, de azeite e bem assim estrebarias para toda espécie de
animais e currais para os rebanhos. Construiu cidades; tinha grandes
rebanhos de ovelhas e bois: sim, Deus lhe concedeu muitíssimos bens”.
17

Os dois exemplos citados demonstram o papel ativo/criativo dos leitores/as da
Bíblia na I.U.R.D. Parece ficar evidente que os líderes da denominação não estão
preocupados com um sentido original do texto sagrado, nem em situá-los em um
contexto sócio-histórico, mas desejam demonstrar como estes podem legitimar
práticas dos dias de hoje. Para dar legitimidade e sentido às suas ações nos dias
atuais, inventam, criam e recriram sentidos para os textos bíblicos a partir de um
paradigma perpassado pelas teologias da prosperidade e da batalha espiritual.

Considerações finais
Acima procurei analisar as ênfases doutrinárias da I.U.R.D. que servem como
referência interpretativa para as leituras da Bíblia que são feitas em seus cultos: a
teologia da batalha espiritual e a teologia da prosperidade. Em seguida, analisei os
ritos que envolvem as leituras da Bíblia nos cultos da I.U.R.D., bem como a forma
como os textos sagrados instrumentalizam suas ênfases teológicas através de
exemplos. Através deste trajeto foi possível perceber que Bíblia é lida pelos fiéis desta
denominação de forma bastante criativa. Os leitores são inventores de significados e o
fazem em conformidade com as ênfases teológicas de sua igreja.
Para encerrar, gostaria de voltar ao exemplo que citei na introdução para
levantar algumas questões que devem abrir fronteiras para novas investigações: Que
fatores históricos e sociais fazem com que a leitura de um mesmo texto bíblico seja
lido de uma forma (Abraão foi o primeiro sem-terra) e não de outra (Abraão foi o
primeiro homem próspero)? Como estariam alinhados um e outro discurso (o de
libertação e o de prosperidade) no âmbito das discursividades que perpassam a
sociedade brasileira contemporânea como um todo?


1
Graduado em História pela UEL (Londrina), mestre em Sociologia pela UFC (Fortaleza) e doutorando
em História pela UNESP (Assis).
2
Roger CHARTIER. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas entre os séculos XIV e XVIII.
Brasília: UnB, 1999. p. 12.
3
Igreja Universal do Reino de Deus.
4
Roger CHARTIER. “Textos, impressão, leituras”. In: HUNT, L. A nova história cultural. São Paulo:
Martins Fontes, 1992. p. 233-234.
5
Paul FRESTON. “Breve história do pentecostalismo brasileiro”. In: ANTONIAZZI, A. et ali. Nem anjos
nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 131.
6
Ricardo MARIANO. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo brasileiro. São Paulo:
Loyola, 1999. p. 64-65.
7
Ibid. p. 51.
8
Paul FRESTON. Op. cit. p. 132.
9
Ibid. p. 133.
10
Cf. Ricardo MARIANO. Op. cit. p. 56. J á Paul FRESTON. Op. cit. p. 134 diz que o fato ocorreu em

1981, ocasião em que Edir B. Macedo e Roberto A. Lopes instituíram o episcopado e se sagraram
bispos mutuamente.
11
Michel de CERTEAU. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 264-5.
12
Roger CHARTIER. “Textos, impressão, leituras”. In: HUNT, L. Op. cit p. 214.
13
Experiência mística muito comum na igreja cristã primitiva e bastante enfatizada pelas comunidades
pentecostais contemporâneas, que valoriza a fala e a interpretação de uma língua estranha/espiritual.
14
Margarida OLIVA. O Diabo no Reino de Deus: por que proliferam as seitas? São Paulo: Musa, 1997.
p. 37.
15
DIÁRIO DE CAMPO, Fortaleza, 04 de agosto de 2000, Sexta feira, 19h.
16
Candelabro judaico com sete hastes. Ver, por exemplo, Êxodo 25,31.
17
DIÁRIO DE CAMPO, Fortaleza, 20 de julho de 2000, Quinta feira, 15h.
Reflexos do cotidiano: uma análise sobre as práticas de lazer em Maringá
através da fotografia.

Alisson Bertão Machado
*
T



A presente comunicação tem por objetivo apresentar o projeto de iniciação
científica em desenvolvimento intitulado Retratos do cotidiano: uma abordagem das
práticas de lazer dos primeiros povoadores de Maringá por meio da fotografia. A
pesquisa, sob a orientação da Profª. Drª. Silvia Helena Zanirato, está sendo
desenvolvida no interior do Laboratório de Apoio à Pesquisa da Documentação
Imagética, e o acesso aos textos sobre imagem tem sido dentro desse mesmo espaço.
Objetivamos analisar as práticas coletivas de lazer dos primeiros povoadores de
Maringá através das fotografias referente ao período que compreende as duas
primeiras décadas que sucederam à fundação da cidade e para tanto faz-se
necessário apresentar inicialmente um pouco da história da cidade.
A colonização do Norte Novo do Paraná se deu a partir da expansão cafeeira
como prolongamento do estado de São Paulo, gerada pela grande extensão de terras
férteis ainda inexploradas, tendo ainda forte ligação à política de exploração da
Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. O crescimento do setor agrícola durante
o processo de ocupação das terras se deu de forma espantosa. A partir desse
momento, viu-se a necessidade de implantar núcleos urbanos com o objetivo de servir
como ponto de convergência para a vasta região, que se via cada vez mais diante da
necessidade de serviços públicos e privados, que servissem de base para seu
desenvolvimento. Em 1929 foi construído o primeiro núcleo, Londrina, e
posteriormente, em 1947, foi fundada Maringá, sendo que seu planejamento montava
em moldes urbanísticos modernos para época, com o objetivo de prevenir um
crescimento rápido e suprir as necessidades dele decorrentes.
Os padrões de comportamento impostos aos habitantes de Maringá visavam
fazer deles um reflexo do planejamento urbano tecnicamente perfeito, elaborado
previamente para a cidade. Portanto, estavam voltados às pessoas que tinham o
propósito de fazer dessa região um lugar de prosperidade e progresso, no que se
refere às concepções capitalistas de trabalho e convívio social. Para concretizar o
projeto de ser um centro urbano, houve a necessidade de um povoamento rápido, que
ocorreu de forma surpreendente. A migração de pessoas atraídas pela propaganda
desenvolvida pela Companhia de terras Norte do Paraná e pela divulgação das
oportunidades oferecidas pela exploração agrícola, com um grande contingente de
pessoas se dirigiu para Maringá “entre as décadas de 40 e 50, a região foi uma das
áreas mais dinâmicas do país em termos de absorção de imigrantes” (Gonçalves,
1999, p. 93), levadas pelo sonho de melhores condições de vida.
A Companhia emitia, através de uma carta, uma autorização para a construção
da casa, num dos lotes reservados ao povoamento inicial, com a condição de que o
trabalhador se dedicasse a um dos ramos de atividade de que o povoado necessitava.
Sendo assim, apesar da agitação ser uma das características de um povoado pioneiro,
este não foi o caso de Maringá. Para uma família se estabelecer na cidade deveriam
estar com o desejo de trabalhar e progredir honestamente, “o que deferiu um núcleo
ordeiro, voltado para o trabalho e composto de famílias bem constituídas” (Luz, 1999,
p. 103). Portanto, Maringá nasceu e prosperou com base na valorização do trabalho.
Inclusive a construção espacial da cidade, com vilas para os trabalhadores, mostrava
esse ideal de valorizar o homem trabalhador e o mundo do trabalho.
Entretanto, nem só de trabalho vivia o habitante da cidade naquele momento.
O labor ocupava boa parte de seus dias, mas havia um espaço em seu cotidiano para
o lazer, conforme pode ser constatado nas memórias fotográficas da cidade. Nesse
sentido, nossa preocupação é a de analisar se as práticas de lazer dos primeiros
povoadores de Maringá reduzem-se a um fenômeno complementar do trabalho em
uma sociedade disciplinada para o labor ou, se em outro sentido, foi determinante e
agiu sobre o próprio trabalho nessa mesma sociedade. Pretendemos, assim, perceber
as opções de lazer criadas em uma sociedade de construção recente, inserida na
lógica da modernidade e do crescimento rumo ao progresso, sendo que, o ideal do
progresso urbano incorporou o paradoxo da sociedade do trabalho, isto é, o
progresso, “ao representar a perspectiva de valorização do trabalhador no processo de
produção, reproduziu, ao mesmo tempo, desajustes comportamentais diametralmente
opostos aos ritmos determinados pela lógica do capital” (Campos, 1999, p. 331).
Compreendemos que as atividades profissionais podem ser completadas pelas
atividades prazerosas de participação e de projeção ligadas a uma determinada forma
de vida, muitas vezes vista como marginal, regulamentada por regras e valores
diversos daqueles que dominam o mundo do trabalho. Uma questão a se pensar diz
respeito a indagação de que até que ponto essas atividades laterais podem vir a
inspirar transformações positivas nas atividades profissionais e aumentar a satisfação
com as condições de trabalho, ou até mesmo “proporcionar condições para a
presença de uma certa poesia na vida” (Dumazedier, 1976, p. 106).
O trabalho influencia o lazer em muitas formas, e alguns observadores
acreditam que o reverso disso a cada dia se torna mais evidente. Um importante ponto
por onde começar uma explicação do lazer é o modo como as próprias pessoas
definem a experiência. Se o lazer fosse apenas uma questão de tempo, se fosse
equivalente a tempo-livre, seria possível ser inteiramente objetivo e aceitar como lazer
aquilo que as pessoas fizessem durante as horas especificamente livres. Mas o tempo
livre de obrigações nem sempre é sentido como lazer, e as experiências de lazer
podem ser possíveis durante um espaço de tempo designado como trabalho ou como
algo que não seja lazer, como expõe Stanley Parker no livro A Sociologia do Lazer.
Isto significa que a situação é complicada segundo a outra dimensão do lazer
apresentada por Parker: a dimensão de atividade. Não se pode distribuir atividades
específicas segundo lazer e não-lazer. No caso de dois homens executando a mesma
atividade, assistindo a um filme ou tocando um instrumento musical, por exemplo, um
poderá estar gozando de seu lazer e o outro ganhando o seu sustento. Todo lazer
ocupa um segmento de tempo e consiste em certas atividades, mas não é redutível a
estas coisas.
Sendo assim, uma compreensão adequada de lazer exige que consideremos
tanto as suas dimensões de tempo quanto de atividade. A quantidade de tempo de
que dispomos para o lazer determina o que podemos fazer nesse período; se é
possível inserir um breve intervalo em um horário sobrecarregado, ou empreender um
longo processo de aquisição de nova aptidão lúdica, tal como aprender a tocar um
instrumento musical ou viajar para alguma parte longínqua do mundo. Por outro lado,
seria inadequado supor que o lazer é simplesmente o tempo livre. As pessoas que
perdem o emprego ou que se aposentam com baixos rendimentos geralmente têm
muito tempo de folga, mas é pouco provável que considerem estar gozando de um
verdadeiro lazer. Sendo assim, o lazer está intimamente ligado ao sentido de diversão
e de liberdade das pessoas, à sua capacidade de auto-realização e auto-expressão,
ao processo de recreação e renovação, à possibilidade de escolha.
Ao analisar os aspectos do cotidiano da cidade por meio da fotografia como
fonte, faz-se necessário adotar procedimentos adequados. Muito embora muito tenha
sido discutido quanto a novos registros que foram incorporados como fontes de estudo
para a escrita da História, não é de todo ignorado que a fonte imagética continua
sendo vista como ilustração por um número significativo de historiadores. Sendo
muitas vezes arroladas ao corpo do texto unicamente para "ilustrar" um assunto
abordado, as imagens têm se prestado ao longo do texto a serem ignoradas enquanto
portadoras de discursos.
A imagem, como parte do sistema simbólico, se presta a legitimação da
ordem vigente e, como instrumento de comunicação e conhecimento, é responsáveis
pela forma nodal de consenso. A força das imagens não se encontra na veracidade
dos fatos que elas tentam representar e sim na capacidade que têm de interferir no
comportamento humano, gerando sentimentos e atitudes de medo, repulsa, inveja,
submissão, adoração, etc. Neste sentido, cabe analisar a função desempenhada pela
imagética, aqui abordada através do estudo da fotografia, enquanto veículo de
produção e atribuição de sentidos, portanto enquanto elemento constitutivo da
representação social.
Uma vez ciente da propriedade mecânica intrínseca à fotografia, alguns
procedimentos são necessários para o emprego da documentação fotográfica
enquanto fonte de pesquisa na História. Um deles implica em conhecer a natureza do
documento, ou seja, certificar-se da origem do documento, de sua gênese, sua
procedência e trajetória. Esse passo nos leva a uma análise técnica do artefato, ou
seja, o conjunto de informações de ordem técnica que caracterizam a configuração
material do documento.
A tecnologia empregada na produção de uma fotografia pode ser sempre
detectada pelas características técnicas que lhes são inerentes. Através da
identificação da tecnologia empregada podemos portanto recuperar, com relativa
aproximação, a época da produção da fonte. Torna-se pois, fundamental para aqueles
que pretendem estudar a fotografia, reconhecer os processos fotográficos
empregados, da guerrotipia ao instantâneo, ou seja, a história da fotografia, com as
etapas sucessivas da tecnologia, estilos e tendência de representação. (Kossoy, 1989,
p. 37).
Essa questão nos remete a análise iconográfica da fotografia, a análise do
registro visual, isto é, o conjunto de informações visuais que compõe o conteúdo do
documento. Esta análise, como adverte Kossoy, situa-se ao nível da descrição e não
da interpretação do documento, situa-se no meio do caminho do significado do
conteúdo uma vez que, ver, descrever e constatar não é o suficiente para a análise do
documento fotográfico. (Kossoy, 1989, p. 57).
Entretanto, a reconstituição por meio da fotografia não se esgota na
competente análise iconográfica. Esta é apenas a primeira tarefa do historiador que se
utiliza dessa fonte na sua pesquisa. A reconstituição de um tema determinado do
passado, por meio da fotografia ou de um conjunto de fotografias, requer uma
sucessão de construções imaginárias. O contexto particular que resultou na
materialização da fotografia, a história do momento daqueles personagens que vemos
representados, o pensamento embutido em cada um dos fragmentos fotográficos,
enfim, a vida do modelo referente – sua realidade interior – é, de todavia, invisível ao
sistema óptico da câmara.
É necessário admitirmos que a imagem fotográfica pode prestar-se a
utilizações interesseiras justamente em função de sua pretensa credibilidade como
registro visual “neutro” dos fatos. Sempre houve um condicionamento quanto à
“certeza” de a fotografia ser uma prova irrefutável de verdade. Cabe, nesse momento,
considerar as manipulações e interpretações de diferentes naturezas que ocorrem ao
logo da vida de uma fotografia. Desde o momento em que ela foi materializada
iconograficamente. Essas manipulações/interpretações envolvem do fotógrafo que
registra e cria a cena, ao receptor que a vê, no caso, o pesquisador.
As possibilidades de o fotógrafo interferir na imagem – e portanto na
configuração própria do assunto no contexto da realização – existem desde a invenção
da fotografia. Dramatizando ou valorizando esteticamente o cenário, deformando a
aparência dos retratados, alterando o realismo físico da natureza e das coisas,
omitindo ou introduzindo detalhes, elaborando a composição ou incursionando na
própria linguagem do meio, o fotógrafo sempre manipulou seus temas de alguma
forma: técnica, estética ou ideologicamente. O produto final, a fotografia, é o
documento que temos diante de nós para estudo: "interpretado" no passado a partir do
próprio ato da tomada do registro e ao longo das sucessivas etapas (laboratório edição
e publicação).
Sendo assim, a fotografia comunica significados que, por mais pessoais que
possam parecer, se inserem em um conjunto de escolhas possíveis, delimitadas pelo
quadro cultural de uma época, e são realizadas pelo fotógrafo mediante tanto as
opções técnicas e estéticas de que compõe o arsenal de recursos ao seu alcance,
como pela ideologia em que está inserido ou comprometido. Nesse sentido, cabe à
cultura comunicar os significados e, à ideologia, estruturá-los em discursos
coletivamente reconhecidos como verdadeiros. Compreendemos portanto que
a fotografia não constitui um registro fidedigno de fatos passados. Cabe ao interprete
entendê-la enquanto informação descontínua da vida passada. Toda fotografia contém
múltiplas significações. Desmontar a fotografia para avaliar suas potencialidades, um
campo aberto para a pesquisa histórica em suas diversas abrangências. Esperamos
que essa pesquise contribua para ampliar o conhecimento da colonização de Maringá
e da formação da sociedade, com histórias que ainda hoje refletem em nosso meio.



ANDRADE, Arthur. Maringá: ontem, hoje e amanhã. Maringá: s/e, 1979.
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1933-1942. Diálogos: Revista do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá.
Maringá: s/e, nº 03, vol. 03, p. 323 – 340, 1999.


*
Acadêmico do curso de História da Universidade Estadual de Maringá.

AS FRONTEIRAS DO SENTIR-SE EM FAMÍLIA – UM ESTUDO SOBRE LIBERTOS
MORADORES NA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO (1850-
1888)
*

Ana Paula Wagner
Mestre em História/UFPR


O texto que aqui se apresenta é parte integrante de uma pesquisa mais ampla
sobre os libertos moradores na Ilha de Santa Catarina, na segunda metade do século
XIX.
1
Objetivo de tal trabalho era o de investigar as relações sociais estabelecidas
entre os libertos e o conjunto da população da Ilha. Para isso nos detivemos em dois
momentos específicos da trajetória desse grupo: os caminhos percorridos por esses
homens e mulheres para ingressar no mundo da liberdade e a construção de uma vida
em comum via arranjos familiares. Insere-se neste campo maior de discussão a
proposta deste texto.
Nosso ponto de partida na discussão que aqui se faz é a posição que os ex-
escravos ocupam na sociedade em questão e que ainda continua sendo regida pelo
sistema escravista. Uma literatura sobre esse tema diverge quanto a esses espaços
ocupados. Alguns autores consideram que o peso do cativeiro foi além do aspecto
jurídico e que o mesmo marcaria definitivamente a trajetória de vida destas pessoas.
Leila Mezam Algranti escreve que “preterido de todos os lados, o liberto poder-se-ia
dizer, era um desajustado socialmente numa sociedade onde não havia espaço para
ele – nem senhor, nem escravo, nem totalmente livre, nem totalmente cativo”.
2
Porém,
para compreendermos as relações cotidianas estabelecidas pelos ex-escravos, é
preciso levar em conta que eles participavam da construção dos espaços sociais nos
quais estavam inseridos. Portanto, não é possível concordar com a afirmação de Leila
Algranti no que se refere à existência de um lugar destinado ao liberto que estivesse
situado fora da sociedade, à ausência de um lugar social. Ao contrário, observamos
que o liberto enfrentava algumas dificuldades que atingiam o conjunto da população
livre pobre e os escravos, não caracterizando uma situação específica com a qual os
ex-cativos se deparavam. Ademais, dizer que os forros eram ‘socialmente
desajustados’, além de soar um pouco forte, mostra uma avaliação carregada de
juízos de valor.
Essa discussão sobre a inserção dos forros no tecido social preocupou alguns
estudiosos. O pesquisador Carlos Lima dialogou com estudos que, ora apresentam os
libertos como “ponte nas relações sociais”, profundamente marcados por seu passado


escravo, ora aproximam as vivências dos forros ao mundo dos homens livres. A
hipótese defendida pelo autor é que o conjunto dos forros não pode ser considerado
em termos unívocos.
3
Nesse sentido, os libertos não se orientavam por uma única perspectiva ou por
uma única pauta de comportamentos, tão pouco formavam uma comunidade
isoladamente. No artigo de Lima, os libertos aparecem como diferenciados e
estratificados, e de acordo com mais de um critério subjetivamente assumido pelos
atores.
Ressalte-se, que observamos situação semelhante para a Ilha de Santa
Catarina. Ao investigar o campo de relações pessoais e familiares estabelecidas pelos
libertos, como por exemplo, as de compadrio, notamos que os vínculos formados por
homens e mulheres se deram em diferentes direções, tanto no sentido da liberdade,
quanto no sentido do cativeiro. Todavia, esses encaminhamentos não eram
excludentes, notou-se que os ex-escravos apropriaram-se destas práticas
concomitantemente.
Observou-se, em função da pesquisa com a documentação, composta de
cartas de alforrias e assentos eclesiásticos,
4
que os ex-escravos englobavam um
segmento vivendo em articulação com o conjunto dos homens livres, mas congregava
também uma comunidade “liberta” fortemente ligada aos esquemas cativos de
circulação na cidade e de estabelecimento de interações cotidianas.
5
É exatamente neste circular constante pelas ruas de Desterro que homens e
mulheres estabeleceram contatos, tinham seus locais de moradia, de trabalho e de
lazer. Concomitante às relações de cunho particular, o ambiente citadino permitiu que
os libertos construíssem redes de relações que colocava esse grupo em contato com
pessoas de distintos estatutos jurídicos.
Dentre as diversas relações possíveis, uma que chama a atenção do
interessado em compreender como os libertos viviam no interior de uma sociedade
escravista é aquela relativa à constituição da família. Nossa perspectiva do termo
arranjo familiar, serve para circunscrever um campo de relações pessoais e sociais
entre sujeitos que vivem num determinado complexo espaço-temporal. Além de ele
abranger relações fundadas na consangüinidade, inclui relações de afinidade, de
parentesco espiritual e um reconhecimento social entre seus membros. Nesse sentido,
se observamos uma diferença entre papel social e laços biológicos, restringir nosso
estudo apenas ao biológico seria deixar para trás um rico e complexo campo de
relações como, por exemplo, as de compadrio.
Considerando esse comportamento multifacetado, heterogêneo do grupo dos
ex-escravos, bem como este conceito mais flexível de arranjo familiar, buscamos


identificar quais as fronteiras do sentir-se em família para esse grupo social. Por meio
de práticas nominativas observamos que estas se encontravam sedimentadas no
desejo de explorar vivências e relações que extrapolavam o núcleo familiar
consangüíneo formado por mãe, pai e filhos.
Segundo Florentino e Góes, a escolha do nome era um indício para uma
possível delimitação das fronteiras do sentir-se em família.
As práticas de nomeação de filhos capturados via cruzamento de fontes
diversas (...) indicam um reconhecimento, enquanto familiares, do seguinte espectro
de relações: mãe, pai, filhos, irmãos, sobrinhos, primos, tios, sobrinhos, primos, avós e
netos. Trata-se de um quadro que aponta no sentido de que, na primeira metade do
século XIX, os limites verticais máximos da família escrava iam dos avós até os netos,
englobando um conjunto de três gerações ligadas por laços consangüíneos.
6
Em Desterro, na segunda metade do século XIX, observamos que a prática de
nomeação de crianças relaciona-se à idéia de pertencimento a uma família, a um
grupo familiar. Nesse sentido nos colocamos um questionamento: Quais seriam,
então, as fronteiras do sentir-se em família para os libertos de Desterro? Quais os
critérios de pertencimento estabelecidos pelos forros?
Dos 323 registros de batismo com os quais trabalhamos, e que se referem às
cerimônias realizadas na Paróquia de Nossa Senhora do Desterro, entre os anos 1850
e 1888, em 59 deles foi possível identificar que o nome da criança batizada fazia
referência ao nome de algum parente, fossem os pais, avós ou padrinhos. O que
significa que, grosso modo, a cada 5 crianças batizadas, uma homenagearia um
parente. Esta prática traz à tona um delineamento do que estas pessoas identificavam
como sendo os limites do sentir-se em família. Lamentavelmente, porém, nossas
fontes só nos permitiram chegar ao núcleo primário dos arranjos familiares: casais
e/ou pais e filhos. Em alguns casos apenas foi possível chegar até os parentes
ascendentes, avós, e laterais, tios.
Um olhar mais aproximado sobre os padrinhos de crianças batizadas na
paróquia de Nossa Senhora do Desterro demonstra que o compadrio também
constituiu um outro tipo de associação reconhecida pelos libertos, bem como pelo
conjunto da população, como sendo um complexo sistema de alianças.
Para a Igreja Católica, com o sacramento do batismo, tornavam-se parentes
aqueles envolvidos no ritual. Os vínculos espirituais eram tão prezados quanto os
consangüíneos.
7
Desta forma, o compadrio estendia os laços familiares para além do
núcleo biológico. Dos 59 registros de batismo que fazem menção a nomes de
parentes, os padrinhos são os homenageados em 44 deles. Sabe-se que havia por
detrás da escolha dos padrinhos uma lógica de escolha.


Observou-se que a independentemente do estatuto jurídico dos padrinhos,
homenagens foram feitas e laços com antepassados fossem fortalecidos. A condição
de pessoa escrava também não foi um obstáculo para que estes fossem convidados
para padrinhos e, como tais, que fossem reverenciados numa homenagem. Em
novembro de 1854, Israel, filho natural de Vitorina Marianna, crioula liberta, foi
batizado com o nome de seu padrinho, Israel Conceição. Tanto este como a madrinha
eram escravos.
8
Implícito na homenagem está o estreitamento de laços talvez antigos,
bem como sugere a delimitação de fronteiras do arranjo familiar construído pela liberta
Vitorina.
Se o sentimento de pertença estendia-se aos padrinhos, como acreditamos, é
interessante observar que os militares que batizaram crianças no período em estudo,
não tiveram seus nomes colocados nos afilhados. Esta situação também sugere algo.
O Tenente Coronel Anastácio Silveira de Souza, por exemplo, que batizou 4 crianças,
não era encarado como parte integrante dos arranjos familiares que estavam se
formando. Embora o parentesco espiritual o trouxesse para mais próximo daqueles
que o convidaram, sua escolha prendia-se a questões mais objetivas. O convite fazia
parte de uma estratégia de sobrevivência, pela qual almejava-se o estabelecimento de
alianças verticais que poderiam ser acionadas e adaptadas às circunstâncias que
envolviam as situações de vida dos grupos familiares dos afilhados.
Pode-se pensar, assim, que quem estabelecia as regras para o
estabelecimento dessas relações eram os próprios forros e escravos, como um
resultado de ações e interações recíprocas estabelecidas num processo social de
construção de distinções entre “nós” e os “outros”. Não dar o nome dos padrinhos
militares aos filhos expõe os critérios empregados pelos libertos para determinar a
pertença e a exclusão de seus arranjos familiares. De fato, o compadrio é uma relação
de parentesco espiritual, mas nem por isso tenentes, capitães e coronéis faziam parte
efetiva daquele grupo. Eram padrinhos, porém não faziam parte “da família”. Desta
forma, o processo de nomeação de crianças mostra-se como um fértil instrumento que
permite vislumbrar o entendimento que livres, libertos e escravos faziam de seus
arranjos familiares.
Recorrendo a diversos e diferentes momentos da vida de um conjunto de
pessoas que habitavam a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro, na segunda
metade do século XIX, pudemos perceber que as vivências cotidianas de libertos,
escravos e livres extrapolavam o núcleo familiar consangüíneo, formado por mãe, pai
e filhos, e envolviam parentes imediatos, como tios e avós, além de padrinhos e
madrinhas. As diversas histórias que buscamos construir, mesmo que
fragmentariamente, quando tomadas de maneira interligada nos apresentam o desejo


dessas pessoas de estabelecer fronteiras entre o “nós” e os “outros”. Os traços que
levamos em conta, neste trabalho, foram unicamente aqueles que os próprios agentes
consideravam como significativos.
Observar a busca empreendida por homens e mulheres na procura de um
padrinho e madrinha para batizar seus filhos, nos possibilita inferir que o grupo dos
libertos não estava fechado em si mesmo. Ao contrário, suas relações e vínculos
extrapolaram constantemente a aparente barreira colocada pelo seu estatuto jurídico,
sendo os critérios de pertencimento e exclusão, estabelecidos no decorrer de um
processo assentado na interação social entre os agentes envolvidos.
9
. Neste sentido,
as escolhas adotadas pelos libertos obedeciam a uma lógica própria: construída tanto
a partir de elementos subjetivos, quanto por valores intrínsecos àquela sociedade.



*
Pesquisa financiada pela CNPq.
1
WAGNER, Ana Paula. Diante da Liberdade. Um estudo sobre libertos da Ilha de Santa Catarina, na
segunda metade do século XIX. Curitiba, 2002. Dissertação (Mestrado em História). Universidade
Federal do Paraná.
2
ALGRANTI, Leila Mezan. O feitor ausente. Estudos sobre a escravidão urbana no Rio de J aneiro
(1808-1822). Petrópolis: Vozes, 1988. p. 123.
3
LIMA, Carlos M. Cindidos entre o patriarcalismo e a comunidade cativa – os casamentos de libertos na
cidade do Rio de J aneiro 1803/1834. Anais... 10
o
. Encontro Nacional de Estudos Populacionais. V. 4.
Belo Horizonte:ABEP, 1996.
4
Para este estudo pesquisamos fundamentalmente em dois arquivos. O primeiro deles foi o do Primeiro
Tabelionato de Notas de Florianópolis, o qual analisamos escritos de liberdade registrados entre os anos
de 1850 a 1872. O segundo grupo de fontes foram os assentos eclesiásticos compostos de certidões de
batismo, casamento e óbitos da Paróquia de Nossa Senhora do Desterro (1850 a 1888). Esta
documentação encontra-se depositada no Arquivo Histórico Eclesiástico de Santa Catarina.
5
LIMA, Carlos M. Cindidos entre o patriarcalismo e a comunidade cativa – os casamentos de libertos na
cidade do Rio de J aneiro 1803/1834. Anais... 10
o
. Encontro Nacional de Estudos Populacionais. V. 4.
Belo Horizonte:ABEP, 1996. p. 1713.
6
FLORENTINO, Manolo, GÓES, J osé Roberto. A paz das senzalas: famílias escravas e tráfico atlântico,
Rio de J aneiro, 1790-1850. Rio de J aneiro: Civilização Brasileira, 1997. p. 81.
7
GOLDSCHMIDT, Eliana. Compadrio. In: Dicionário da história da colonização portuguesa no Brasil.
Lisboa: Verbo, 1994, p. 190-191.
8
ARQUIVO HISTÓRICO ECLESIÁSTICO DE SANTA CATARINA. Certidão de batismo. Livro n. 18,
f. 93v.
9
Para uma discussão sobre o estabelecimento de fronteiras, ver BARTH, Fredirk. Grupos étnicos e suas
fronteiras. IN: POUTIGNAT, Philippe e STREIFF-FENART, J ocelyne. Teorias da etnicidade. São
Paulo: UNESP, 1998.

IDENTIDADES POLÍTICAS NA CRISE DO ANTIGO REGIME PORTUGUÊS.
Formas de identificação coletiva
na Capitania de Minas Gerais, entre 1808-1831.

Ana Rosa Cloclet da Silva
1



Introdução

A historiografia sobre o nacional foi, tradicionalmente, marcada por dois tipos
de anacronismos. Num primeiro grupo, inserem-se as interpretações que, privilegiando
a dimensão das continuidades que permearam o processo de formação do Estado
brasileiro – basicamente, independência com manutenção do escravismo e da
Monarquia sob o herdeiro da casa de Bragança – concluem pela não existência de
efetivas mudanças, havendo antes reiteração de velhas formas
2
. Num segundo, estão
as teses que focalizam as rupturas, entendendo que a mudança estava
predeterminada em cada movimento da sociedade colonial.
3
Numa perspectiva inovadora, inaugurada por Caio Prado
4
e seguida por
Novais
5
, a obra da Independência - e, por conseguinte, a emergência da nova nação -
passou a ser vista antes como resultado da “invenção política”, prenhe de significados
e possibilidades. Diversos trabalhos, a partir de então, têm focalizado o caráter de
indeterminação e complexidade que envolveu o processo de transição da colônia para
o Estado nacional brasileiro
6
, salientando, na linha de E. J . Hobsbawm
7
e Ernest
Gellner, “o elemento de artefato, da invenção e da engenharia social que entra na
formação das nações”, o que implica em negar a tradicional associação entre
nativismo e nacionalismo.
8
No bojo desta atual tendência, destaca-se uma vertente historiográfica
preocupada em analisar o processo de constituição dos Estados nacionais ibero-
americanos a partir do desvendamento das dimensões e limites de formas de
identidades políticas coletivas engendradas em contexto colonial.
Se para o caso da América espanhola é mister destacar os recentes estudos
do historiador argentino José Carlos Chiaramonte
9
- cujo enfoque tem salientado a
própria historicidade das nações e do conceito de nação, desvinculando a emergência
dos Estados Nacionais de um suposto princípio das nacionalidades -, para o caso
brasileiro destacam-se alguns trabalhos pioneiros, como os de Carlos Guilherme
Mota
10
e Roderick Barman
11
, historiadores que concluem pela inexistência de uma
identidade política autônoma na colônia, capaz de dar coesão ao todo, associando-se
à visão de uma nação singular e unida no futuro. A mesma tendência orienta trabalhos
mais recentes, como os de István Jancsó
12
, Demétrio Magnoli
13
e Garrido Pimenta
14
.
É ela, por sua vez, que orienta este estudo, o qual, reconhecendo as
multifacetas do processo de construção do Estado nacional brasileiro, pretende
abordá-lo a partir da dimensão das formações identitárias coletivas em curso no
período de 1808 a 1831, tendo como base a elite dirigente da Capitania de Minas
Gerais.
***
Diversos trabalhos têm destacado o “regionalismo” presente nos projetos e
reivindicações externadas pelas elites coloniais no momento da independência, a
maior parte deles tomando como fonte os discursos das deputações brasileiras em
Cortes, de 1821-22
15
. J á aqui, o caso de Minas parece singular, pois, não tendo
enviado seus representantes à Lisboa, acaba legando um certo “vazio historiográfico”
no concernente às idéias e projetos que os orientaram, no momento da emancipação
política brasileira. Outros pontos, também pouco estudados, orientaram nosso
interesse específico pela Capitania de Minas Gerais: o fato de ter sido o foco de
atenção da Metrópole a partir da segunda metade do XVIII; de ter integrado-se
diretamente nas políticas fiscais e econômicas empreendidas pelos estadistas
migrados com a Corte, em 1808; de ter conformado-se, no momento da
independência, numa fundamental base de apoio à Monarquia constitucional na figura
de D. Pedro, sendo o locus privilegiado para o estabelecimento do novo pacto político
travado entre este e as elites locais; de ter, contrariamente, representado um dos
principais focos de oposição aos “descaminhos”do Primeiro Reinado, sob um espírito
liberal externado, quer através da imprensa, quer através das vias abertas pelo regime
constitucional.
Estes, portanto, elementos que justificam a fecundidade de uma análise que se
proponha a pensar a transição da colônia para o Estado nacional a partir do
desvendamento dos nexos estabelecidos entre identidades coletivas particularistas
(emergidas em Minas Gerais) e aquela formulada pela esfera do poder central que,
longe de ser consensual e uníssona, manteve-se fundada num ideal de Império (luso-
brasileiro e depois brasílico) e, portanto, de uma identidade mais geral capaz de dar
coesão ao corpo político imaginado.
Com relação ao enfoque teórico-conceitual e metodológico adotado,
gostaríamos de assinalar que as identidades coletivas apresentam-se como uma
construção social
16
, guardando raízes profundas tanto em estruturas persistentes,
quanto em aspirações coletivas, o que implica considerá-las como resultado do
acúmulo de experiências políticas partilhadas ou herdadas pelo grupo, de “trajetórias
particulares” sedimentadas pela elaboração de uma memória comum recortada
regionalmente, fato este que impõe, necessariamente, a atenção à dimensão
diacrônica e subjetiva da análise
17
.
Por outro lado, é preciso considerar que as identidades são sempre reflexas,
expressando, como sugerido por Guerra, “o que um grupo considera ser e o que, por
conseguinte, o faz diferente dos demais”
18
.Daí sermos levados a considerar os
diferentes níveis da dimensão sincrônica da análise, referenciais mais imediatos das
elites: a)num plano mais geral, a condição colonial e escravista das formações
societárias estudadas; b)do mesmo modo, as formas de identificações e os projetos
políticos emanados da esfera do poder central; c) os exemplos históricos e o
aprendizado político internacional, acessíveis às elites coloniais; d) e, ainda, a
dimensão “atlântica” das formações identitárias estudadas
19
, bem como a relevância
de uma abodagem comparativa do caso brasileiro em relação às demais nações ibero-
americanas
20
.
Em suma, portadoras do duplo sentido de continuidades e rupturas
resguardado por este processo mais geral de transição e tendo em vista sua dupla
dimensão - sincrônica e diacrônica -, as identidades em construção serão referidas
tanto às experiências políticas acumuladas pelas elites locais, quanto às principais
inflexões no plano de seus referenciais mais imediatos e da própria configuração geo-
política do Império, levando à revisão de seus sentimentos de pertencimento político e
à polissemia dos termos usados para expressá-los
21
. Para efeitos do texto aqui
apresentado - o qual, vale notar, deriva de uma pesquisa ainda preliminar das fontes
pertinentes -, privilegiaremos os marcos de 1808, 1821-22 e 1831, em que formas
consagradas de identificação foram abaladas.

1808: Expectativas imperiais revistas

O marco de 1808 assume relevância na medida em que a internalização do
poder central, impôs uma nova articulação com os poderes periféricos, obrigando-os a
reformularem suas percepções dos referenciais básicos de identificação no conjunto
do Império.
De um lado, é preciso pensar esta transformação de referenciais e das
identidades neles fincadas a partir dos possíveis impactos que o deslocamento do eixo
político imperial para a colônia americana teve sobre o próprio equilíbrio do poder
político, alterando aquilo que J ancsó identifica como a “percepção que os homens da
época tinham da adequação do Estado português ao novo equilíbrio entre suas
diferentes partes”
22
.
Neste sentido – e conforme constatamos em nosso trabalho de doutoramento –
1808 representou um marco não apenas na sustentação do regime absolutista -
fragilizado no Reino pela ausência do Monarca e, na colônia, dependente da criação
novas bases políticas que, necessariamente, deveriam contemplar interesses locais –
como no que então denominamos as “expectativas imperiais”.
Em termos gerais, se por um lado a população reinol e parte da elite de Estado
transferida para a colônia encarou como provisória a nova localização do centro
político do Império, por outro, as elites regionais encararam entusiasticamente a
situação, contemplando os benefícios políticos que, a partir de então, poderiam auferir
pela maior proximidade do Trono. Convencidos da superioridade brasílica em relação
ao “velho Reino” – o que em muito devia-se às próprias atividades investigativas
acerca da natureza ultramarina, levada a cabo por intelectuais e estadistas sediados
no mundo luso-brasileiro, principalmente a partir de 1798 – as elites coloniais
encaravam como adequada a nova localização do centro político do Império, aderindo,
a partir de então, ao projeto encampado por D. Rodrigo de Sousa Coutinho, de
edificação de um “vasto Império luso-brasileiro”, a partir do Brasil.
Entretanto, ainda que esta “expectativa” – aqui traduzida como um novo
referencial de pertencimento político - propiciasse uma imediata adesão às políticas
emanadas do poder central e, particularmente, ao que poderíamos identificar como um
sentimento de “Patriotismo imperial”, ela instaurou, por um lado, o receio de que a
nova situação pudesse significar uma perda de autonomia das Capitanias – registrado
nas várias reivindicações das elites locais pela manutenção de suas ingerências nas
respectivas questões locais – e, por outro, um potencial de conflito entre as diversas
partes do Brasil, na medida em que alterara o “tradicional equilíbrio político entre as
capitanias”, estabelecendo uma “hierarquia entre espaços sociais que anteriormente
se relacionavam horizontalmente”
23
.
Estes, portanto, elementos que afetaram os referenciais das elites regionais,
assumindo relevo no processo de construção das identidades políticas coletivas e dos
projetos por elas embasados. Pensando no caso mineiro, o discurso oficial registrado
pelos camarários aponta para um plano de referencial político mais geral – os
“Estados e Império do Brasil”
24
– embasador de um senso de identidade coletiva que,
naquele momento, aparecia referido por uma expressão própria ao Antigo Regime –
em especial ao absolutismo de Luis XIV, como nota Guerra
25
-, englobadora dos
habitantes dos dois hemisférios: a noção de que se tratavam de “fiés vassalos”de Sua
Magestade Soberana
26
, de modo que era antes o critério político, de submissão a uma
mesma dominação, que o étnico-cultural, o elemento embasador de uma idéia de
Nação que, naquele momento, aparecia absorvida pela de Estado e Império.
Contudo, este referencial mais geral, alinhado aos objetivos e projetos
emanados da esfera do poder central, era assumido a partir de sentimentos
regionalizados de pertencimento político – mais ou menos referidos às “pátrias”
específicas – e somente na medida em que contemplasse interesses locais. Em outros
termos, o que as elites mineiras almejavam a partir da nova constituição política
imperial eram, prioritariamente, benefícios específicos à sua capitania, vislumbrados
pela maior proximidade da Monarquia, sendo esta a forma como esperavam contribuir
para a grandeza de todo Império. Daí procurarem ressaltar as potencialidades locais
de cada Capitania – como expresso em correspondências de Minas, Espírito Santo e
Goiás
27
– visando formas particulares de seus desenvolvimentos.
É interessante notar que atender a estes anseios tornou-se essencial no
firmamento das novas bases políticas do Estado para cá transferido. Por um lado, é
possível concluir, na esteira de Manchester, que as diversas reivindicações
encaminhadas à Corte pela manutenção das autonomias locais encontraram certo
respaldo na atuação de D. J oão VI, o qual fortaleceu as elites e a própria estrutura
administrativa vigente, sendo esta uma situação constatada por diversos estadistas
(Silvestre Pinheiro Ferreira e J osé Bonifácio, dentre outros), que encamparam o
processo da independência. Por outro, não se pode ignorar que a capitania mineira foi
especialmente favorecida pelas políticas econômicas e fiscais, capitaneadas por
Sousa Coutinho a partir de 1808.
Numa correspondência de 1814, a Câmara de Campanha da Princesa louva
estes “grandes Benefícios”concedidos pelo Príncipe Regente – “principalmente depois
da feliz Colocação do Real Trono no meio dos seus Estados do Brasil”- aliviando “logo
os Povos desta Capitania dos vexames e prejuízos, que dantes sofriam no antigo giro
do ouro em pó; facultando-lhes o uso de toda a moeda corrente; firmando os seus
contratos de compra e venda Livres de reivindicações e rivalidades com o Feixo da
Sisa; segurando as suas possessões de culturas com a providentíssima nova forma de
Sesmarias, e animando os seus estabelecimentos de Engenhos de Açúcar com o
Privilégio concedido”, além de “outras mercês”, como o restabelecimento do “vigor da
Mineração”, a reanimação “da Extração do ouro com saudável Providência de
privilegiar todos os Serviços Minerais, e os Escravos neles empregados de qualquer
número que seja”.
28
Assim, era em nome de todos estes benefícios locais que afirmavam “lealdade”
e “obediência” ao Soberano, bem como rogavam pela “conservação e prosperidade de
todos os seus Reinos e Domínios nas quatro partes do Mundo”, de modo que o
referencial mais geral – o Império – era adotado, mas a condição para esta sintonia
com o poder central era a viabilização de projetos regionalmente direcionados.

1820-22- Império fraturado e identidades revistas

O período de 1820-22 marca uma dupla ruptura: a do regime político,
instituindo a Monarquia Constitucional, e a do sistema luso-brasileiro, rompendo com a
identidade portuguesa, ambas processadas sobre um plano de continuidades mais
profundas.
No primeiro caso, a ruptura implicava que as Cortes Constituintes passassem a
ser reconhecidas como novo centro de poder e articulação política do Império,
impondo, do ponto de vista da elite de Estado, a ameaça de desagregação das
províncias do Brasil, acentuada pela verificação das tendências marcadamente
regionalistas externadas por seus representantes enviados à Lisboa. Daí a tentativa de
promover a adesão das elites regionais ao novo regime através de mecanismos
políticos familiares – expressos tanto no processo de constituição das J untas de
Governos, quanto no momento da firmação do pacto político em torno da figura de D.
Pedro I – refletindo um processo de ruptura política que, necessariamente, deveria
compatibilizar-se com a manutenção da ordem internamente vigente.
Embora da perspectiva das elites persistisse o projeto da união luso-brasileira
sob o novo regime constitucional, o deslocamento da fonte de “legitimação do poder”
para os representantes do povo implicava, já então, o rompimento do vínculo
institucional entre os Reinos, colocando o Brasil em posição subordinada. Por isso,
conforme defendido por Berbel, 1821 passou a exigir, por parte dos “brasileiros”, “uma
elaboração sobre sua própria definição nacional”.
29
A partir de 1822, a ruptura com a identidade portuguesa impusera aos
dirigentes do Estado a tarefa de forjarem uma identidade capaz de dar coesão ao
corpo político emergente, o que, se por um lado implicava definir o sentido da
alteridade em relação ao colonizador, por outro, significava a necessidade de
contemplar interesses particulares das elites regionais e, portanto, forjar um
sentimento de pertencimento político que não implicasse identificação com os
segmentos sociais dominados. Daí a necessidade de averiguar-se o processo de
politização das identidades particularistas, no novo contexto de firmação da
nacionalidade.
A análise preliminar da documentação das Câmaras indica algumas
recorrências no discurso oficial dos representantes de Minas Gerais, fundamentais
para se pensar os elementos que pesaram no processo de elaborações identitárias no
período considerado.
Primeiramente, parece evidente que o rompimento com a identidade lusa aparece
como alternativa no discurso político analisado a partir do momento em que o novo
polo do poder (as Cortes) adotam medidas ameaçadoras das autonomias provinciais
e da própria ordem social vigente. As elites entendem a “autonomia de autoridades
provinciais, ligadas só a Lisboa”como uma tentativa de recolonização do Reino, a
qual levaria à “discóridia e arruinaria a causa nacional”.
Assim, frente a tal ameaça, vão delineando o sentido de alteridade em relação
ao colonizador e revendo seus sentimentos de pertencimento político. Por um lado,
fica clara a defesa de interesses locais e o fato de os camaristas visarem a promoção
de suas províncias específicas no novo arranjo político-institucional. Isto aparece nas
referências às potencialidades e vantagens de Minas, cogitando-se, inclusive, o
estabelecimento da Pessoa Real na província. Em outros momentos, referem-se a
Minas Gerais como principal província, capaz de “por si só encher as funções do
Império e fazer inveja a todas as Nações do Mundo”
30
. Indiretamente, ressaltam a
província mineira referindo-se à coincidência entre o sentimento que move os
membros da Câmara e o princípio da Monarquia, ambos assentados na “honra”.
Por outro lado, entretanto, a negação da identidade lusa não se dá, ao menos
no plano deste discurso oficial, pela predominância da exaltação e politização de
formas identitárias particularistas. Em suas falas, as elites mineiras reconhecem a
necessidade de um “centro de força e união” internamente constituído, para dar
coesão ao todo político emergente, mantendo unidas suas partes e, desse modo
impedindo que vingasse a “diversidade dos interesses e o risco da anarquia”, bem
como as intenções recolonizadoras das Cortes. Recorrendo à representação da
Câmara de Caeté, de 2 de Fevereiro de 1823, ficam claros os termos sob os quais
concebiam a adesão dos mineiros à Monarquia Constitucional, na figura de D. Pedro:

“aderiram a seus Irmãos de Portugal (…) movidos (…) pelo instinto
irressistível de melhorarem a sua sorte já fatigados de velhaçõess e
arbitrariedades; que semelhantemente quando se acharam enganados na
esperança de futuros mais felizes pela tirania do Congresso, o qual
dividindo as Províncias do Brasil as desarmava para receberem novos
ferros, eles não precisavam de informaçòes para (…) reivindicarem seus
inauferíveis direitos ofendidos, estabelecendo-se espontaneamente a
opiniào Pública, de que as Cortes de Portugal eram tiranas e de que a
salvação do Brasil dependia de medidas diametralmente opostas, a saber,
a convergência das Províncias para um centro comum de forças para que
no caso de repulça da Justa Reclamação se lavrassem novo Pacto no qual
nunca deixasse de ser o Chefe do Poder Executivo o Herdeiro da
Monarquia a quem o Senhor Dom João Sexto havia conferido a
Regência”.
31

Gostaríamos de destacar algumas dimensões centrais das identidades
coletivas que aparecem no texto referido e em outros de mesmo teor, as quais indicam
que, no momento específico da ruptura luso-brasileira, as identidades particularistas
aparecem absorvidas por construções identitárias mais gerais, na medida que estas
embasavam projetos contemplativos de interesses específicos às elites brasileiras.
No que se refere à “dimensão diacrônica”dos processos identitários - expressa
pelo resgate de experiências políticas acumuladas por uma memória comum – a
documentação das Câmaras acena com uma noção de direitos que remete não para
conquistas particulares da província (como em 1789 e outros momentos de
“alterações”na colônia
32
), mas para aquelas auferidas por todo o Reino do Brasil, a
partir de 1808. Assim, defendem a idéia de que a liberdade do Brasil obedece a seus
Direitos, sendo ainda uma conseqüência natural de sua própria superioridade face a
Portugal. Desse modo, o passado de um todo reconhecidamente diversificado é
recomposto a partir de noções unificadoras, tanto a nível histórico (comum situação
colonial) quanto naturais (superioridade da natureza brasílica), casando-se
perfeitamente com as formulações emanadas do poder central (José Bonifácio).
Ainda no concernente à dimensão temporal dos referenciais mais imediatos –
ou seja, das práticas e valores mais ou menos arraigados ao Antigo Regime – é
interessante destacar não só a ênfase na Honra, como sentimento comum aos
mineiros e condizente com a Monarquia (idéia esta bebida em Montesquieu), mas o
fato de só conceberem a viabilidade de tal modelo na figura de um herdeiro da
Dinastia de Bragança. Isto porque fundavam a idéia da obediência no costume,
impondo a figura de um governo identificado como “familiar” e, daí, a necessidade de
um descendente da Dinastia, único capaz de afastar o risco da separação, seja entre
os Reinos, seja entre as províncias do Brasil
33
. Este fato sugere o embasamento de
um projeto de Estado Dinástico, concebido pela esfera dos poderes locais. Revela, por
outro lado, o quanto a autoridade permanecia fincada na pessoa do Governante –
representação própria ao Absolutismo – ainda que sob o novo regime constitucional.
No concernente à sua dimensão espacial, portanto, o referencial das
identidades políticas emergentes parecia ser, em última instância, o do Império,
inicialmente luso-brasileiro e, pós-22, o Império Brasílico. Por isso, no discurso político
coevo o 12 de Outubro ganha maior relevância que o 7 de Setembro: a Aclamação do
Imperador não só conferia a este os “plenos poderes” para garantir a ordem e união
das províncias, mas representava o próprio nascimento do Império.
A nosso ver, portanto, o que estava em jogo era muito mais a questão da
organização política interna deste corpo político imaginado – a qual,
incontestavelmente deveria contemplar as particularidades e conceder autonomias
locais- que sua conformação territorial, e era no jogo destas tensões que emergiam as
identidades políticas.

1831- Do Estado Dinástico aos esboços de um Estado Nacional.

O ano de 1831 apresentou-se como nosso ponto de chegada, por ter
representado, também, uma dupla ruptura. No plano internacional, naufragava
definitivamente o projeto de unidade da “nação portuguesa”, acalentado por setores da
elite brasileira e pela potência britânica, mesmo após a Independência, em função do
caráter dinástico do novo Estado nacional, que alimentava na figura de D. Pedro a
possibilidade de uma futura reunião luso-brasileira. No plano interno, a Abdicação
significou a possibilidade de projeção das elites regionais na esfera do poder central,
delineando o perfil político-institucional do novo Estado segundo seus próprios
interesses e criando um senso de nacionalidade fincado na distinção social.
Para nossos objetivos, interessa fixar o modo como as identidades
particularistas emergem e se politizam no novo contexto, o que faremos privilegiando
os registros da segunda viagem do Imperador à província, em 1831
34
, a qual tem sido
atribuída pela historiografia à tentativa de reprimir, com a sua presença, o
desenvolvimento de anseios federalistas e recuperar as suas bases políticas junto às
elites locais, pela reeleição do deputado J osé Antônio da Silva Maia, que ele havia
nomeado ministro do Império.
Durante o episódio, contudo, o Imperador encontraria, em meio a
manifestações aparentemente adesistas, firmadas em formalidade semelhante à de
1822, a marca da ruptura, a qual expressara-se não só pelas vias constitucionais –
não reeleição do ministro do Império – mas durante as celebrações e festas de
recepção, pelas Câmaras das diversas Vilas.
Verificando este último ponto, é míster sublinhar as inúmeras referências à
idéia de que a “Coroa era um dom espontâneo do povo”, que desse modo tinha forças
para ser livre e livremente escolher seus condutores. Neste sentido, se em 1822
afirmava-se um vínculo orgânico do novo Estado emergente – segundo Iara Lis,
expresso pela metáfora do pacto estabelecido entre a persona de D. Pedro e os
corações dos mineiros
35
– em 1831, o discurso dos camaristas apelam para a noção
de que o trono constitucional firmava-se sobre “corações livres”, e de que o novo
regime proclamara a “soberania do povo”.
É interessante contrastar a fala dos camaristas com as proferidas pelo
Imperador. Enquanto os primeiros concebem a idéia de que a Coroa foi “ofertada
pelos povos e aceita pelo Imperador”, dando vivas “à Pátria, ao Povo e à Lei”, o
segundo reafirmava laços de adesão diretamente estabelecidos entre ele e os povos
da província – “e os mais Brasileiros honrados e verdadeiramente constitucionais”- que
deverão ajudar-lhe “sempre a sustentar a constituição que eu lhes ofereci, que o Brasil
aceitou, e que todos juramos”.
36
Segundo interpretação de J osé Lúcio dos Santos, esta ênfase na força do povo
sugere os impactos mais recentes da experiência liberal francesa, de 1830, contra o
governo absolutista, associado naquele momento às medidas centralizadoras de D.
Pedro I. Para nossos objetivos, interessa não só atentar para este nível mais geral dos
referenciais das elites mineiras - não alheias às experiências políticas dos países
europeus - mas identificar os diferentes níveis das identidades políticas então
externadas.
A grosso modo, podemos dizer que, no momento em que é clara a reprovação
à política imperial, as elites da província resgatam a memória do caráter libertário dos
habitantes das Minas – a qual, segundo Maria Arminda Arruda, radica no episódio de
1789-1792, vindo substituir a pecha de “súditos rebeldes e insubordinados”, que
impregnara o imaginário metropolitano
37
– identificando-se como “Mineiros”, de
“caráter brioso e verdadeiramente constitucional”, de “corações livres e fiéis”, sob o
que estaria firmado o trono constitucional de Vossa Magestade, que jamais seria
abalado.
Na verdade, podemos dizer que, neste momento, as elites da província
reconhecem três níveis de referencial político, conforme expresso em discurso da Vila
de Baependi: o Império, a Província e a Vila, referidos, respectivamente, pelos três
termos de pertencimento político: “os Brasileiros, os Mineiros e os Baependianos”.
Desse modo, é enquanto “habitantes das Vilas e termos” mencionados e, num
segundo plano, de uma província de reconhecido “peso na balança política do Brasil”,
conforme registrado pelos camaristas, que afirmavam aderir ao “sistema monárquico
hereditário constitucional representativo”. Em outros momentos – embora com menor
freqüência – identificavam-se como um “povo livre e americano”, visando estabelecer
um contraponto à identidade portuguesa/européia.
É importante notar ainda que, neste momento, “ser brasileiro” aparecia
associado à idéia de ser favorável à causa constitucional, significado este que se
delineia já a partir de 1821-22. É este o sentido atribuído ao termo num discurso da
câmara marianense, o qual refere-se aos “mineiros de coração verdadeiramente
brasileiro”.
A segunda jornada do Imperador fora acalentada pelas elites locais, também
sob a expectativa das “vantagens particulares” à província, que deveria prover.
Basicamente, esperava-se “um desenvolvimento feliz em todas as fontes de grandeza
pública de que é suscetível a mais populosa província do Império, mediante a
inspeção ocular e refletida solicitude de Vossa Magestade Imperial”, bem como a
“união, paz e concórdia de toda província”, por alimentar a convicção de que o
Imperador só quer o sistema de governo com que aceitou “espontaneamente a coroa
que lhe ofereceram os Brasileiros” e que “não pretende alteração em nosso pacto
fundamental da constituição do Império”.
Assim, os mineiros recuperavam uma noção de direitos fincada num passado
muito próximo, mas de fundamental peso na revisão dos referenciais das elites: a do
pacto constitucional estabelecido em 1822, cuja lembrança tornava clara a oposição à
guinada absolutista do Primeiro Reinado e os riscos que corria a própria sustentação
do trono, caso ferisse suas bases.
A politização das identidades particularistas no momento destacado
desvendava, assim, os contornos de um arranjo político-institucional de cunho
federativo, já externado pelas elites brasileiras no debate em Cortes, entre 1821-22, e
que desembocaria, a partir de 1834, no que a historiografia tem concebido como o
momento de ascensão das elites liberais ao controle do Estado. Em termos gerais,
aderiam ao Estado constitucional pela afirmação de especificidades locais – imputadas
ao suposto caráter dos mineiros e às singularidades de sua experiência política (mais
diretamente referidas ao espírito constitucional firmado durante a primeira viagem do
Imperador) – e pela expectativa das vantagens particulares à província, que daí
esperavam auferir.
De forma figurativa, esta concepção do arranjo político aparecia na ocasião da
recepção de D. Pedro num colégio em Sassuhi, durante a qual “asteava-se a bandeira
nacional no centro do pátio, ao lado da qual se dispunham em linhas diagonais oito
pequenos mastros, com bandeiras de diferentes cores, que apresentava a vista
pitoresca, todas içadas enquanto o Imperador aí permaneceu”.

Conclusão

Assim, em 1808 as elites regionais aderem ao projeto imperial luso-brasileiro,
na medida em que este se apresenta como a possibilidade de viabilização de
reivindicações locais. Aderem, portanto, a uma “identidade portuguesa”, endossando
com isso a nova localização do poder central e os benefícios esperados.
Em 1822, aderem ao projeto nacional encampado pelo poder central, pela
condizência deste com seus anseios mais imediatos – afastatamento da recolonização
(perda de autonomia) e da reversão da ordem interna -, de modo que as “identidades
particularistas” acabam mascaradas pelo sentido de alteridade mais geral contra o
colonizador e os “inimigos internos”, habilmente promovido pelo poder central
mediante o resgate de uma memória da exploração colonial e do recente exemplo de
São Domingos, a fim de dar coesão ao corpo político emergente.
Em 1831, por sua vez, as identidades particularistas se politizam mediante um
senso de “constitucionalidade”que, se por um lado resgata a recente experiência do
pacto político estabelecido entre D. Pedro e as elites locais, em 1822, por outro se
forja em oposição aos “descaminhos”do Primeiro Reinado, ameaçadores de
autonomias locais longamente estabelecidas.




1
Doutora pela UNICAMP.
2
Esta a versão consagrada pela obra de Francisco Adolfo de Varnhagen e pelas atividades do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838. Para uma análise crítica desta tendência
historiográfica predominante no século XIX, ver Arno Wehling (cord.), Origens do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro: idéias filosóficas e sociais e estruturas de poder no Segundo Reinado. Rio de
J aneiro: IHGB, 1989; Lilia M. Schwarcz, O Espetáculo das Raças: cientistas, instituiçòes e questão
racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Cia das Letras, 1993; Iara Lis Carvalho Souza, Pátria Coroada.
O Brasil como corpo político autônomo – 1780-1831. São Paulo: Unesp, 1999; da mesma autora: “Entre
a natureza e a História: Imagens do Brasil”, texto apresentado em versão preliminar no Seminário
internacional Brasil: formação do Estado e da nação. São Paulo: USP, 3 a 8 de setembro de 2001.
3
Capistrano de Abreu inaugura a crítica à historiografia do século XIX, trazendo à tona a ação dos
anônimos no processo histórico e, desse modo, focalizando dimensão até então ignorada das rupturas.
(J oão Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial. 4a.ed., Rio de J aneiro, 1954).
4
Caio Prado J r..Formação do Brasil Contemporâneo.9a. ed., São Paulo: Brasiliense, 1969.
5
Fernando Antonio Novais, Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial(1777-1808). 4a. ed.,
São Paulo: HUCITEC, 1986.
6
A fecunda transição da colônia para o Brasil-Nação fora pioneiramente destacada por Sérgio Buarque de
Holanda, em “A herança colonial – sua desagregação”, in: História Geral da Civilização Brasileira. São
Paulo: Difusão Européia do Livro, 1965, Tomo II, 1o. vol., pp. 10-39.
7
E. J . Hobsbawm. Nações e Nacionalismo desde 1780. Programa, mito e realidade.(Trad.), Rio de
J aneiro: Paz e Terra, 1990; Ernest Gellner. Naciones y Nacionalismo. Madrid: Alianza, 1983.
8
Nesta linha, destaca-se o recente estudo de Forastieri da Silva. Colônia e Nativismo: a História como
“biografia da nação”. São Paulo: HUCITEC, 1997.
9
J osé Carlos Chiaramonte, “Formas de identidad politica en el Rio de la Plata luego de 1810”, in: Boletin
del Instituto de Historia Argentina y Americana “Dr. Emilio Ravignani”, 3a. série, n. 1, Buenos Aires,
1989; “El mito de los orígenes en la historiografia latinoamericana”, in: Cuadernos del Instituto
Ravignani, n. 2, Buenos Aires, s.d; “Metamorfosis del concepto de Nacion durante los siglos XVII y
XVIII”, texto apresentado no Seminário Internacional Brasil: Formação do Estado e da nação (1770-
1850), op. cit.
10

10
Carlos Guilherme Mota. Idéia de Revolução no Brasil, 1789-1801. Estudo das formas de
pensamento.Petrópolis: Ed. Vozes, 1979.
11
Roderick Barman, Brazil; the forging of a nation, 1798-1852. California: Standford University Press,
1988.
12
István J ancsó. Na Bahia, contra o império: história do ensaio de sedição de 1798. Sao Paulo:
HICITEC, 1996; “A sedução da Liberdade”, in: História da Vida Privada no Brasil: Cotidiano e vida
privada na América portuguesa. São Paulo; Cia das Letras, 1997, vol. 1, pp. 388-437; em co-autoria com
Garrido Pimenta, “Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade
nacional brasileira”, in: Carlos Guilherme Mota (org.), Viagem Incompleta. Formação: histórias. São
Paulo: Ed. Senac, 2000.
13
Demétrio Magnoli. O Corpo da Pátria. Imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-
1912). São Paulo: UNESP/Moderna, 1997.

14
J oão Paulo Garrido Pimenta, “Estado e Nação na crise dos Impérios ibéricos no Prata (1808-1828)”,
São Paulo: USP/FFLCH, Departamento de História, 1998. (Dissertação de mestrado).
15
Marcia Regina Berbel, A Nação como Artefato. São Paulo: Hucitec, 1999; J osé Alves Souza J únior,
“Constituição ou Revolução: os projetos políticos para a emancipação do Grão-Pará e a atuação política
de Filippe Patroni (1820-1823)”, Campinas: Unicamp, Departamento de História, 1997 (Dissertação de
Mestrado).
16
Ilmar R. Mattos. O Tempo Saquarema. A Formação do Estado Imperial. 4a. ed., Rio de J aneiro:
Access, 1994. O autor compartilha do enfoque de E. P. Thompson. Tradicion, Revuelta y Consciencia de
Clase. Estudios sobre la crisis de la sociedad preindustrial. Barcelona: Editora Critica, s.d. Do mesmo
autor, ver, A Formação da Classe Operária Inglesa. (Trad.), Rio de J aneiro: Paz e Terra, 3 vols, 1987, p.
10.
17
Sobre a relação entre “experiências” e “expectativas/projetos”, ver Reinhart Koselleck, Futuro pasado.
Para una semántica de los tiempos históricos. Barcelona/Buenos Aires/México: Ediciones Paidos, s.d.,
pp. 333-357.
18
François-Xavier Guerra. “A nação na América espanhola: a questão das orígens”, in: Revista
Maracanan, ano 1, no. 1, 1999/2000, pp. 9-30.
19
Nicholas Canny e Anthony Padgen, Colonial Identity in the Atlantic World, 1500-1800. Princeton:
Princeton University Press, 1987.
20
J oão Paulo Garrido Pimenta, op. cit.; Demétrio Magnoli, op. cit.
21
Pensando em termos de uma análise conceitual, compartilhamos do enfoque de Koselleck, segundo o
qual a história de um conceito implica, sincronicamente, em tematizar situações e, diacronicamente,
tematiza sua modificação, significando, com isso, que os dois níveis da análise não se dissociam, havendo
antes a premissa teórica de tal história ver-se na incumbência de “amortizar e comparar a permanência e a
permanência”.(R. Koselleck, op. cit., pp. 122-126).
22
István J ancsó e J oão Paulo Garrido Pimenta, “Peças de um mosaico…”, op. cit., p. 19.
23
István J ancsó e Garrido Pimenta, op. cit., p. 24.
24
Câmara da da Vila Campanha da Princesa, em 7 de fevereiro de 1808,in: As Câmaras Municipais e a
independência, vol. 2, Conselho Federal de Cultura/Arquivo Nacional, 1973, p.74.
25
François-Xavier Guerra, “La Nation Moderna: nueva legitimidad e viejas identidades, in: Seminário
internacional Brasil: Formação do Estado e da nação (1770-1850). São Paulo, USP, 3 a 8 de setembro
de 2001.
26
Câmara da da Vila Campanha da Princesa, em 7 de fevereiro de 1808, op. cit., p. 77.
27
Ana Rosa Cloclet da Silva, op. cit., p. 234.
28
Câmara da Vila da Campanha da Princesa, 15/jan/1814, in: As Câmaras Municipais e a independência,
op. cit., p. 82.
29
Márcia Regina Berbel, op. cit., p. 143.
30
Correspondência da Câmara de Vila Rica, in: As Câmaras Municipais e a Independência, op. cit., p.
288.
31
Correspondência da Câmara de Caeté, in: As Câmaras Municipais e a Independência, op. cit., pp. 66-
70.
32
Sobre as formações identidárias em outros momentos de “alterações coloniais” ver: Luciano de A.
Figueiredo, “Revoltas, Fiscalidade e identidade colonial na América portuguesa. Rio de J aneiro, Bahia e
Minas Gerais (1640-1761)”. São Paulo: USP, 1996, (tese de doutoramento). Especificamente sobre a
politização das identidades coletivas na Inconfidência de 1788-89, ver: Roberta Stumpf, “Filhos das
Minas, americanos e portugueses: identidades coletivas na capitania das Minas Gerais (1763-1792)”. São
Paulo: USP, 2000.(Dissertação de mestrado).
33
Em correspondência da Vila de São J oão del Rey, de abril de 1822, concebem D. Pedro como aquele
“em quem por miraculosa Graça da Divina Providência aparecem reunidades simultaneamente as
preclaras virtudes dos maiores Reis Augusto Predecessores de VAR. Sim Magnanimo, Generoso e
Idolatrado Príncipe, que formais as delícias, e a esperança de todo este Reino, nós divisamos em VAR a
religiosa fé, e a eximia Piedade de D. Afonso Henriques, a imparcial J ustiça do Grande Rei D. Diniz, a
depurada e sólida política de D. J õao I, Ilustre Tronco da Sereníssima Casa de Bragança, a sabedoria
famigerada de El Rei D. Duarte, e o valor e constância e a prudência do imortal D. J oão 2o., que mais que
adquirem para VAR, do que o fervorozo zelo e incrível atividade com que VAR plantou no Brasil a
Arvore da nossa Liberdade”. (As Câmaras Municipais e a Independência, op. cit., p. 362).
34
“Viagem do Imperador D. Pedro I a Minas Gerais em 1830 e 1831”, in: RIHGB, vol.60, parte I, 1897,
pp. 305-386. Trata-se da narração da segunda viagem do Imperador à província mineira, extraída do
iDiário Fluminense.

35
Iara Lis Carvalho Souza, Pátria Coroada. O Brasil como corpo político autônomo – 1780-1831. São
Paulo: Unesp, 1999.
36
Fala do Imperador na Vila de Sabará, in: “Viagem do Imperador D. Pedro I a Minas Gerais em 1830 e
1831”, op. cit.
37
Maria Arminda do Nascimento Arruda, Mitologia da Mineiridade. O imaginário mineiro na vida
política e cultural do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990.
Espaço, território e comunidade:
a contribuição da Antropologia e da História a partir de um exemplo do noroeste
de Portugal

Ana Silvia Volpi Scott
*
T



O espaço territorial assume um papel fundamental em toda e qualquer
comunidade. Por isso mesmo, o território e suas diversas concepções e configurações
têm merecido da Antropologia uma atenção especial, reconhecendo-se a sua
onipresença.
As noções de espaço, as formas de apropriação social e os sentidos
produzidos pelos grupos que os habitam estão intimamente ligados, e isto justifica o
interesse em refletir sobre o que podemos designar "a espacialidade ou territorialidade
dos grupos"
1
. Neste trabalho examinaremos um território particular, composto por
uma região portuguesa.
Antes de mais nada é importante sublinhar que as concepções de
territorialidade e de espaço variam profundamente de acordo com as várias regiões de
Portugal. Aqui pretendemos focar nossa atenção na região do noroeste português,ou
mais genericamente o Minho, espaço de grande interesse para nós brasileiros, uma
vez que foi desta área que partiram os principais contingentes migratórios que
conformaram a população brasileira desde, pelo menos, o século XVI.
As noções de espacialidade e territorialidade ocuparam um lugar privilegiado
em nossas reflexões, porque faz parte da essência de ser Minhoto a sua necessidade
de se identificar como natural desta ou daquela freguesia, e de pertencer a este ou
aquele lugar.
Assim, freguesia e paróquia constituem dois elementos fundamentais para o
Minhoto. Mais do que palavras, escondem muito da mentalidade e dos modos de ser,
estar, entender-se e fazer-se reconhecer daquela população, muitas vezes sendo
encarados como sinônimos.
Além destas referências a um espaço concreto, simbolizado pela freguesia e
pela paróquia, outras palavras constantemente referidas nas fontes eclesiásticas
empregues em nosso pesquisa, constituídas pelos Registros Paroquiais e Róis de
Confessados, foram adquirindo uma importância crescente para a compreensão da
"territorialidade" da comunidade. Entre elas merece também destaque o termo "lugar".
A relevância de se tratar deste tema, “o lugar”, brotou inicialmente de uma
forma intuitiva, quando nos preocupávamos em apreender e compreender o
significado do termo que, no princípio de nosso trajeto de investigação era muito claro

(subentendido no seu sentido mais amplo e coloquial), mas que gradativamente foi
adquirindo uma acepção cada vez importante e diferente, ao darmo-nos conta da
variação de sentidos que ele poderia tomar no senso comum dos portugueses, e mais
especialmente na própria concepção mental minhota.
Mas por que o nosso interesse surgiu de forma intuitiva e quase inconsciente?
A resposta é simples: porque no interior de uma pequena freguesia de São Tiago de
Ronfe, que estudamos com profundidade
2
, os registros paroquiais fizeram referência a
mais de uma centena de lugares! Como era possível que em poucos quilômetros
quadrados surgissem designações para, exatamente, 125 lugares diferentes?
Ora, estava claro que não bastava conhecer os quantitativos da população, sua
estrutura por sexo, estado matrimonial, faixa etária etc. Afigurava-se também
fundamental saber como esta mesma população se organizava espacialmente, e a
que corresponderia aquela fração de terreno designada como “lugar”.
Apesar da importância da evolução histórica das freguesias e paróquias, no
contexto da história portuguesa
3
, interessa-nos mais de perto o aspecto antropológico
que o espaço da freguesia/paróquia adquire para os habitantes das comunidades
minhotas
4
.
Para esta abordagem, servimo-nos de uma análise específica sobre o Minho,
elaborada por Carlos Alberto F. de Almeida, que constituirá o referencial fundamental
no qual que basearemos nossas reflexões
5
.
A paróquia medieval, no Noroeste português, segundo Almeida, é um
fenômeno que se estrutura, essencialmente, nos séculos XII e XIII. Ela é o resultado
de uma organização-funcionante, vicinal e dos senhorios, centrada numa igreja, que
assegurava proteção de Deus e dos santos para os vivos e para os mortos.
A partir do século XIII, paróquia e freguesia passam a ser sinônimos. A
territorialidade do direito de sepultar vai-se firmando também, impondo cada vez mais
a idéia de que a igreja paroquial, e só ela, tem o direito de abrigar, em seu redor, a
sepultura de todos os residentes de seu espaço. Assim, a freguesia se tornou naquilo
que ela, ainda hoje, radicalmente é, nos meios tradicionais, e que devemos lembrar:
“uma comunidade de vivos e de mortos sob a égide de um campanário” (Almeida
1986):115. A igreja com os seus santos, suas relíquias, seus ofícios religiosos e com
seu sino era o pólo sacralizador de todo o espaço da comunidade e de seus 'filhos'.
Era uma cidadela contra o mal.
Do que foi mencionado, já se intui toda a simbologia que envolve a paróquia.
Formada pois, em volta da igreja, de que é resultado, a comunidade paroquial recebeu
expressivas designações, como freguesia, paróquia ou sub-sino
6
, perdendo ou não
alcançando outras, como vila, povo, herdade, etc.
7
.

Um símbolo importante da paróquia, são as festas patronais. Ali ocorrem as
rivalidades entre elas, consagram todo o seu território e lhes dão prestígio. Todo o
paroquiano, conforme as suas posses têm de contribuir, até os emigrantes tem de o
fazer, se querem continuar a pertencer à sua comunidade. Portanto, a questão da
pertença à comunidade e da sua manutenção, já apresenta-se como um ponto
fundamental na compreensão das relações entre os fregueses e sua terra natal.
Um outro traço importante para a compreensão destas relações é a crença de
que a igreja não só protege os mortos, assegurando-lhes o além, mas também
beneficia os vivos e é a garantia da proteção de Deus para os frutos da terra e o
exorcismo dos males. Dela saíam as procissões, com as relíquias e ladainhas, a
abençoar os campos e a excomungar as pragas das sementeiras. Isto representa uma
das facetas mais fortes da religiosidade popular.
A igreja era o pólo difusor da proteção de Deus e dos seus santos para os
vivos e seus interesses, com um sino tudo anunciava e cujo som também sacralizava
o espaço paroquial. Para fechar, a paróquia é um espaço produzido pela igreja em sua
volta, com diversos lugares hierarquizados e grande número de fortes inter-relações
comuns. Outro referencial, portanto, que deve ser retido é a hierarquia dos lugares.
Um outro aspecto a ser levado em conta para avaliar-se o papel da paróquia
no contexto minhoto, é a complexidade social que apresenta. A paróquia minhota
(própria de um habitat disperso) apresenta uma relativa complexidade social que lhe
advém do fato de ser uma comunidade religiosa, polarizada numa igreja e num
cemitério (e atualmente também política) de um grupo de núcleos vicinais de
povoamento, os lugares.
As primeiras tentativas de apreensão do conceito ligaram-se, de forma óbvia, à
geografia física. Um ponto de partida foi compreender melhor a própria zona do Minho,
onde o habitat predominantemente montanhoso e com terrenos extremamente
irregulares marca a paisagem.
Diversos autores referem-se a este povoamento disperso característico. O
Minho estaria marcado pela disseminação do povoamento, pelos lugares de casas
esparsas, pelos casais isolados que teria raízes bastante recuadas
8
.
Isto tudo ajudava a lançar algumas luzes sobre a questão, mas ainda não de
forma que nos satisfizesse, pois muitas vezes, notávamos, o que a princípio
tomáramos como uma certa distração do pároco, ao confundir o lugar de residência de
um indivíduo (como havíamos definido intuitivamente e comprovado depois através
das fontes), com a sua naturalidade (ou como entendíamos, a freguesia onde havia
nascido, de onde o indivíduo era natural).

O que parecia ser uma falta de clareza, ou em certos casos, até mesmo um
sinal de relapso do pároco, tornou-se muito recorrente, e passamos a conjecturar que
o lugar tinha significados que ultrapassavam o sentido comum, que havíamos atribuído
inicialmente.
Foi então que, bebendo na fonte da antropologia, encontramos as pistas mais
valiosas para que compreendêssemos e passássemos a interiorizar a concepção
mental que vinha atrelada aos termos, intimamente relacionada com as diversas
regiões geográficas de Portugal.
Por outro lado, a especificidade da análise histórica emergiu da ligação
possível dessa temática com o texto escrito ou do documento local.
Seria o historiador capaz de recuperar estes elementos a partir das fontes
disponíveis? Esta questão é de extremo interesse para o nosso caso, especialmente
quando temos a possibilidade de utilização do Rol de Confessados, permitindo,
queremos crer, recuperar as ligações com as configurações do espaço e dos grupos
sociais que os apropriam.
J oão de Pina Cabral discutiu sobre este tema
9
. Para este autor um conceito
importante para a compreensão do lugar naquela contexto regional está intimamente
ligado à noção de propriedade, assentada na observação de que a propriedade é uma
relação entre pessoas e não entre coisas, isto é, a propriedade é um fato social.
A esta observação geral, Pina Cabral identifica alguns princípios que lhe
estariam associados, e aqui destacaremos dois: o princípio da verticalidade da
apropriação do espaço e dos objetos e o princípio da temporalidade, ou melhor, da
devolução da apropriação.
O princípio da verticalidade ou das identidades sobrepostas é a apropriação
social do espaço e dos objetos, que realiza-se, segundo o autor, concomitantemente a
vários níveis de coalêscencia social, estando portanto, sujeita a uma manipulação
entre esses níveis, que também são níveis de identidade.
A apropriação social do espaço e dos objetos é efetuada, não por indivíduos,
mas por categorias de identidade socialmente reconhecidas. Portanto, como as
categorias de identidade social se sobrepõem em esquemas de hierarquia ou de
complementaridade, toda a propriedade é uma manipulação entre os vários níveis de
apropriação.
Desta maneira, no contexto do Alto Minho, a maneira como um agricultor utiliza
um campo é a síntese de todo um jogo de considerações e interesses que se situam a
níveis diferentes - em relação à sua unidade conjugal, em relação a seu agrupamento
familiar, em relação aos outros residentes de sua casa, em relação aos co-herdeiros

da sua casa paterna e da sua casa materna, em relação aos vizinhos de lugar, em
relação à freguesia, e assim sucessivamente.
Dentro de cada nível da coalescência social existe uma estrutura de poder,
marcando portanto o princípio da verticalidade, seja no agrupamento familiar (o pai
tem mais poder que o filho) seja em esferas diferentes e públicas que escapam ao
privado (por exemplo a freguesia). Por conseguinte, o autor conclui que a forma como
uma pessoa age a um nível específico, reflete a forma de participação que tem nos
outros níveis.
O princípio da temporalidade ou dos “modos de devolução”, refere-se à
manipulação estratégica da propriedade (tanto vertical: entre níveis de apropriação
que se complementam; como horizontal: entre entidades alternativas de apropriação),
está sempre sujeita a uma temporalização - ela presume um modelo socialmente
reconhecido de evolução em relação ao qual as pessoas se situam. Presume a
existência de um modelo do que a apropriação será e do que foi. A sociedade não
permite uma violação excessiva desse modelo. Assim quando um velho deixa de ter
condições físicas ou mentais para explorar a sua terra dentro dos parâmetros que,
apesar de latamente definidos, são, no entanto bem explícitos, os vizinhos exercem
uma forte pressão social para que ele efetue partilhas. O próprio aparelho legal
reconhece estas situações em que uma pessoa não se encontra em condições de
reter a sua propriedade, sendo forçado a cedê-la a outrém.
É claro que Pina Cabral formulou toda a sua teorização sobre a questão mais
ampla do “lugar” nos parâmetros que lhe interessavam e no contexto de uma
investigação essencialmente antropológica. Ele participou como observador, viveu na
comunidade, presenciou como as pessoas reais lidavam com a concepção de lugar,
propriedade, família, casa, in loco.
Numa reconstrução de comunidades históricas, mesmo que ocorram
conversas informais com os moradores da freguesia, como aconteceu conosco
algumas vezes, a essência destes conceitos vêm, necessariamente das fontes
históricas, e da nossa capacidade de filtrar os elementos que dêem uma coerência
interna ao significado de termos como lugar, por exemplo.
De qualquer modo, outros aspectos mais específicos sobre os lugares de uma
dada freguesia foram abordados (Almeida, 1986). Entre eles destaca-se o fato de que
era muito comum a rivalidade entre os diversos lugares de uma mesma paróquia. Por
ocasião dos cortejos a favor de obras, festas etc. São muito comuns as divisões entre
a parte alta e a zona baixa, entre a mancha dos lavradores e operários, entre o pólo
mais comercial e o mais agrícola e, como veremos, isso verificou-se em alguns casos
na freguesia de Ronfe.

O ponto de encontro de todos dava-se na ida à missa, ao domingo.
Proporcionava-se aí a vivência e espetáculo da coletividade que é a freguesia. Era
também a altura da visita aos mortos de todo o perímetro. No final da missa havia as
reuniões de confrarias e o convívio dos mais diferentes grupos.
Entretanto, como foi o caso de freguesia de São Tiago de Ronfe, não faltam
casos de lugares da paróquia que têm, por exemplo, capela própria, festa local e
outros fenômenos que vão sedimentando a simbolização da personalidade de seu
espaço e consagrando a sua comunidade vicinal. Almeida destaca a importância da
vicinalidade como uma estrutura de altíssima importância na vida tradicional das
aldeias. É, sobretudo, nestes espaços dos lugares que se vê a socialização de certos
trabalhos agrícolas, como as entre-ajudas, alguns dos quais tinham quase uma
sacralização festiva. É esta também a área da organização vicinal, intensa das águas,
das dádivas mútuas e dos empréstimos de pão e outros bens (Almeida 1986):120.
Mais ou menos na mesma linha de Pina Cabral, Almeida também refere-se a
relações de diversos níveis no interior da freguesia, verticais e horizontais. As
comunidades paroquiais minhotas são um pouco difusas, com partes diferentes que o
campanário junta e concilia. Têm dentro de si diversos núcleos vicinais, os lugares,
dentro dos quais dominam fortes relações verticais, mas proporcionam também um
espaço, mais aberto, o dos outros lugares, onde se podem desenvolver relações mais
horizontais (Almeida 1986):120.
Foi, portanto no espaço destas reflexões que pareceu-nos mais adequado
tratar dos lugares, isto é, dos espaços que compunham a freguesia de São Tiago de
Ronfe.
A sua população encontrava-se distribuída sobre uma espaço territorial de
aproximadamente 9 quilômetros quadrados (Hespanha 1986), e dispersa numa
paisagem muito bem definida. Mais do que isso, os nossos dados comprovaram que
ela estava enquadrada no tipo de ocupação espacial assumida como típica para o
Minho: povoamento rural disperso. A infinidade de lugares demonstra isso, pois cada
parcela do território, por pequena que fosse, recebia uma designação particular.
Além de serem numerosas, as designações de cada lugar variaram de acordo
com a fonte utilizada, consoante ainda um maior ou menor grau de divisão interna.
Tais referências basicamente estavam atreladas à noção de “acima ou abaixo” ou à
proximidade a alguma outra referência espacial ou existência de determinados
atributos: Outeiro de Cima e de Baixo; Chosende e Souto de Chosende; Cachada e
Azenha da Cachada: Cerquinha e Talho da Cerquinha; Gremil e Monte Acima de
Gremil; Quintela e Poça de Quintela e assim sucessivamente.

Nitidamente esta variação estava ligada à fonte documental utilizada conforme
fossem registros paroquias ou os róis de confessados. Nos registros paroquiais
encontramos uma quase pulverização dos lugares (os nomes de lugares atingiram,
como vimos, 125 designações diferentes, onde abundaram as referências citadas
acima); para os róis de confessados sistematicamente analisados essas designações
reduziram-se à pouco mais que a metade, 72.
Esse fato, por si só já demonstra que os lugares não estavam somente
associados a um espaço físico pura e simplesmente. Outras questões levavam o
mesmo pároco, a fazer o assentos em ambos os documentos de forma diferenciada.
Uma explicação plausível para essa diferença poderia indicar, quem sabe, que como
os registros paroquiais tratavam de atos isolados que se referiam a pessoas e famílias
individualizadas, em cada ato de batismo, casamento ou óbito, o pároco desse maior
relevância à situação específica de cada indivíduo envolvido no ato que assentava nos
livros paroquiais. O mesmo já não acontecia no caso da feitura do rol de confessado.
Ali o pároco, possivelmente, tinha em mente um outro referencial, mais amplo, que se
comporia através da imagem da paróquia, do rebanho todo que deveria cumprir os
preceitos pascais e, neste caso ele, consciente ou inconscientemente, não julgava
necessário descer a um nível de especificidade tão grande como nos registros vitais.
Um ponto de reflexão é conjecturar sobre quais seriam os critérios adotados
para o caso dos registros paroquiais. Seriam meramente ligados à uma maior precisão
espacial/territorial? Ou entrariam aí alguns dos princípios estabelecidos por Pina
Cabral, como o das identidades sobrepostas e/ou o dos direitos adquiridos e o da
temporalidade?
Esta é uma hipótese que deveremos apreciar a partir de outros elementos
reunidos, que tiveram como referencial fundamental, os lugares designados a partir da
documentação composta pelo conjunto de rol de confessados. Na nossa perspectiva
esta fonte representa melhor o aspecto da comunidade que nos interessa aqui, que
prende-se ao território da paróquia e aos fregueses nele residentes num sentido mais
abrangente.
O tempo, para começarmos, constituiu, sem dúvida, um importante fator na
dinâmica própria dos lugares. O aparecimento/desaparecimento de lugares ao longo
dos anos não poderia apresentar uma prova mais clara a este respeito. Essa variação
toca os extremos da nossa amostra, isto é, lugares que aparecem todos os anos
selecionados em 33 róis de confessados selecionados em períodos sensíveis de cinco
anos, entre 1740 e 1900, e outros que aparecem uma única vez.
Poucos foram os lugares que atravessaram toda a extensão do período da
mesma forma. De fato, apenas quatro lugares foram denominados da mesma forma

entre 1740 e 1900: os lugares do Monte, Outeiro, Quintela e Romãos. Lugares que
deixaram de aparecer, em até três oportunidades foram: Casa Nova, Covelo, Lourinha,
Oleiros, Riba D’Ave, São Miguel, Gremil, Mesão Frio, e Cerdeiras. Em contraposição,
aqueles que apareceram em menos de dez oportunidades foram: Bica, Boa Vista,
Cachada, Cavada, Assento, Casais, Fonte, Cima de Pele, Devesa, Azenha, Bouça de
Chosende, Mogada, Talho, Costeira, Boucinha, Queimados, Quinteiro, e Venda (os
quatro últimos aparecendo uma única vez.).
Se, por um lado muitos deixam de ser registrados - por exemplo o lugar do
Talho (1740-1750); Azenha (1740-1755); Casais (1745-1770), Assento (1740-1760,
1775) - outros passam a ser registrados apenas nos anos finais do período - Boa Vista
(1865-1900); Cima de Pele (1880-1900); Igreja (1820-1900); Outeirinho (1885-1990).
Em tese, os mais recentes teriam uma explicação mais simples, pois poderiam
significar a criação de novos lugares, em áreas antes não ocupadas, ou a subdivisão
dos lugares já existentes. O mecanismo inverso poderia ser utilizado para aqueles que
desapareceram (incorporação em outros lugares, alteração do nome, etc.).
Outras variáveis podem, por outro lado, interferir com a referência à citação ou
não de determinados lugares. Os párocos ao longo dos anos mencionam lugares, em
determinados períodos, que depois desapareciam e, mais tarde, novamente, voltavam
a ser citados, como ocorreu com os lugares da Cavada (1740-1755, 1765, 1895-1900),
Quintães (1740-1765, 1857-1860, 1877-1900), Ermigio (1740-1750, 1844-1900).
Em alguns dos casos, é mais fácil encontrar uma explicação para o
aparecimento/desaparecimento. O lugar do ‘Assento’, por exemplo, segundo
informações obtidas, era assim denominado porque era o local onde se faziam os
“assentos” dos batizados, casamentos e óbitos, e com o passar do tempo foi
associado não mais ao ato de registrar tais ocorrências, mas ao local específico onde
isso era feito, no caso, a igreja paroquial. Portanto o lugar do “Assento” (entre 1740 e
1765, 1775) evoluiu para o lugar da “Igreja” (1820-1900). Mesmo que a lógica desta
suposição pareça aceitável, não se pode explicar o hiato de quase de cinco décadas
(1770-1815) em que não apareceu nem o lugar do Assento, nem o lugar da Igreja.
Uma hipótese que nos colocamos foi, portanto, aquela de que alguns lugares
poderiam ou ser subdividos ou incorporados. As informações esparsas que eram
dadas em cada ano no rol de confessados respectivo, foram a chave para algumas
destas incongruências. Fica claro que, muitas vezes, dois ou mais lugares tinham sido
incorporados, como sucedeu com os exemplos que se seguem: Arieiro, Cerquinha e
Talho; Cabo da Vila, Cartas e Devesa; Ermigio, Sobrado e Costeira; Pedroso e Olival;
Dentro e Bica. Conseqüentemente, dependendo do pároco, e como ele “percebia” o
espaço territorial da freguesia (certamente baseado em idéias ou fatos que não nos foi

possível esclarecer, apenas conjecturar), agregava determinadas zonas. Em outros
anos estes mesmos lugares poderiam ser desmembrados novamente. Alguns desses
movimentos de incorporação/desincorporação explicam o surgimento e/ou
desaparecimento de determinados lugares.
Este foi o caso do lugar da Ermida. Durante mais de um século (1740-1860) foi
designado como tal. Depois deste período, o lugar da Ermida, algumas vezes, vinha
reunido ao lugar da Boa Vista (1865-1890, 1900). Nota-se que, progressivamente, o
lugar da Ermida perdeu sua proeminência, e acabou por desaparecer, incorporado ao
lugar da Boa Vista.
O grande problema que se coloca é o que estaria por trás destes inúmeros
arranjos e re-arranjos do espaço. A primeira pergunta que se pode fazer é se, de
alguma forma, estes lugares que mais freqüentemente foram referidos pelos párocos
estariam ligados às propriedades (quintas) mais importantes.
Ora, os lugares que recorrentemente foram mais citados e que ocupam o topo
da lista são os lugares do Monte, Outeiro, Quintela, Romãos, Casa Nova, Covelo,
Lourinha, Oleiros, Riba d´Ave, São Miguel, Gremil, Mesão Frio, Cerdeiras e Cabo da
Vila, todos registrados em, pelo menos, trinta oportunidades. Mais de vinte vezes,
foram arrolados os lugares do Mourisco, Soutinho, Souto, Venda da Ladra, Barroca,
Ermida, Requeixo, Várzea, Ferreiro, Barreiro, Ouca, Pedroso, Monte Queimado, Olival,
Sobrado e Bouça.
Em conversas com um morador, natural e residente em Ronfe, foram
recordadas e enumeradas as quintas que existiram e/ou que ainda hoje existem na
comunidade. Da lista, foram encontrados os nomes dos lugares que derivam ou foram
originados a partir destas mesmas propriedades. Isto é há uma estreita vinculação
entre ambas as designações. Mas também o inverso é verdadeiro, isto é, os lugares
do Monte, do Covelo, Pedroso, Soutinho, Barroca entre outros, que nunca estiveram
associados a uma quinta. Portanto, pode-se conjecturar que os lugares associados a
determinadas quintas não apareceriam numa freqüência necessariamente maior que
os outros. Esta não seria então a relação dominante que estaria por trás do
aparecimento/desaparecimento ou anexação/divisão dos lugares.
Assim como ao longo do tempo houve uma nítida variação da denominação do
lugar, e da própria territorialidade (variação do espaço territorial específico de cada
lugar, estando ou não incorporado a outro - princípio da temporalidade), o princípio da
identidade sobreposta é um fenômeno especialmente importante para determinados
lugares onde percebeu-se claramente a apropriação social do espaço.
Tudo indica que para a comunidade de Ronfe este conceito se aplicava melhor
a determinados lugares, que eram nitidamente ocupados por “famílias” localmente

mais importantes, ou pelo outro extremo da hierarquia interna da comunidade, lugares
associados às mulheres sós e muitas vezes com filhos ilegítimos.
No caso do lugares estreitamente vinculados aos grupos familiares mais
poderosos, encontramos o lugar da Ermida, do Barreiro, de São Miguel. Curioso é
notar que nestes três casos há um denominador comum: a existência de capelas que
eram administradas pelos mesmos grupos familiares. Também foi um traço comum a
estes lugares reunirem poucos fogos e um número reduzido de habitantes.
Tomemos o exemplo do lugar do Barreiro, que também tem ainda hoje uma
capela importante, aparece nos primeiros róis de confessados com apenas um fogo,
chefiado pelo Cônego Domingos Rodrigues Rosa que lá vivia com duas criadas. Até o
seu falecimento, ocorrido em 1755, ele foi o cabeça do único fogo existente naquele
lugar.
Nas suas últimas vontades, declaradas em testamento feito aos dois de
setembro de 1754, o Cônego Domingos Rodrigues Rosa nomeava por seu universal
herdeiro e testamenteiro, Manuel Rodrigues Cardoso da Silva, filho de um sobrinho
seu, residente no lugar do Loureiro, na freguesia contígua de São J oão de Brito. O seu
herdeiro, entretanto, deveria cumprir à risca as condições e cláusulas expressamente
declaradas pelo testador, sob pena de ser excluído do testamento. Entre as cláusulas
destacamos as seguintes:

“E assim lhe nomeio este meu patrimônio com todas as pertenças que
constam de várias compras que fiz e meus pais com condição que ele
dito meu herdeiro será obrigado a residir nele a maior parte do ano ou
ao menos seis meses dele e nele fomegar, e nem ele nem seus
herdeiros partir, dividir, alienar, nem vendão cousa alguma das (...?)
por estarem todas (ligadas) à dita capela de N. S. da Assumpção cita neste
dito patrimônio, e se constar que algumas das ditas terras sejam de prazo,
não o dito meu herdeiro largar, deixar nem dividir as ditas terras sempre e
comprar outras e ajunta-las outras que sejam de herdades de melhor e não
de menor ou peior, com mais obrigação de mandar dizer uma missa pela
manhã ao nascer do sol todos os domingos e dias santos de preceto na dita
capela, e atenção das ditas missas aplicará o dito meu herdeiro a quem
quiser, e no dia de N.S. de Agosto a quinze do dito mês mandará dizer uma
missa cantada de canto chão por minha tenção todos os anos, e que a dita
capela esteja sempre ornada e venerada com toda a veneração devida

Pelo rol de confessados do ano de 1756 fica patente que o herdeiro cumpriu as
determinações feitas pelo testador, passando a residir no lugar do Barreiro,
juntamente com sua mulher Dona J osefa Maria do Couto, sua sogra J eronima
Mendes, além de dois criados.
Manuel Cardoso da Silva continuou a viver no mesmo lugar do Barreiro, com
sua mulher, sua sogra, um filho, o escravo Manuel Preto e a criada Custódia. Sua filha

Dona Maria Teodora, residiu com os pais no lugar do Barreiro, até o ano de 1778, e o
mesmo sucedeu ao filho J oão J osé, que deixou o domicílio paterno em 1782, para
casar-se com D. Maria J oaquina, do lugar de São Miguel, fazendo assim a vontade
dos pais que o haviam dotado para que se casasse com uma das herdeiras da Quinta
de São Miguel, como ficou expresso na escritura deixada por Manuel e sua mulher
feita em Guimarães em 1781, e testemunhada por todas as partes interessadas, os
pais do dotado, os pais da noiva e os noivos
10
:
“Cópia da escritura com que faleceu Manuel Cardoso da Silva do lugar do
Barreiro desta freguesia de São Tiago de Ronfe feita aos 24/01/1781 pelo
tabelião Luís Antonio de Abreu da vila de Guimarães. Primeiramente disse
que dotava a seu filho João José Cardoso do Couto para haver de casar
com Dona Maria Joaquina de São Miguel. Declarou ele dotador e sua
mulher que seu filho lhe fará os bens da alma ao último deles dotadores
que falecer conforme o uso da freguesia e pessoas de sua qualidade ao
que foram testemunhas João Machado; Antonio João Gonçalves, Bento
Antonio do Couto; Manuel Cardoso da Silva; Dona Josefa do Couto;
Sebastião Luís Leitão de Almeida; Dona Antónia do Espírito Santo; João
José Cardoso; Dona Maria. E não se continha mais enquanto ao pio que
tresladei da escritura à qual me reporto. São Tiago de Ronfe, 29/08/1789

Com o falecimento de Manuel Cardoso da Silva, em 1789, a chefia do
agregado passou à viúva D. J osefa do Couto, em 1790. Até o ano de 1800 a viúva
permaneceu à cabeça do agregado, e com ela continuavam a viver os criados que já
há alguns anos acompanhavam a família. Em 1801 foi dada como ausente, sendo
arrolados somente os criados naquele fogo. Daí por diante, é difícil assumir com
segurança o que de fato ocorreu. De qualquer modo, esta família esteve, durante
anos, perfeitamente identificada com o lugar do Barreiro.
No outro extremo, ficaria o lugar do Monte, nunca associado a uma quinta, e
que sempre foi o lugar mais povoado da freguesia e com o maior número de fogos.
Qual seria a identidade deste lugar? Ao longo da observação dos róis de
confessados, foi sedimentando-se uma impressão, cada vez mais reforçada por
informações colhidas no decorrer da investigação, que o lugar do Monte poderia ser
uma espécie de zona destinada ao acolhimento de mulheres solteiras, viúvas, ou de
estado matrimonial indeterminado, que poderiam dedicar-se ao comércio do seu corpo
e de maneira mais ampla, à prostituição. A existência de um casal, residente no
mesmo lugar do Monte, que foi acusado de alcoviteirice também pode ser encarado
como mais um fator que reforçaria esta hipótese
11
.
Entretanto, um dado contundente que reforça essa hipótese, é o peso relativo
dos domicílios chefiados por mulheres no lugar do Monte, que está muito além dos
índices encontrados para a freguesia como um todo.

Durante o século XVIII e XIX o lugar do Monte era um recanto dominado pela
presença de mulheres “desacompanhadas”. Solteiras, viúvas, mulheres sós,
acompanhadas ou não pelos seus filhos bastardos, que encontravam ali, o espaço de
seus vivências quotidianas, e até quem sabe redes de solidariedades femininas que
propiciavam apoio e entre-ajuda nos momentos mais difíceis.
Esta idéia, de fato, não parece descabida. De acordo com Antonio A. Neves, os
cuidados que as autoridades civis e religiosas sempre manifestaram em relação à
moral pública está patente na referência à lei de 1608 sobre os Julgadores de Lisboa,
que é uma fonte privilegiada para compreendermos os problemas criados pelas
mulheres solteiras. Depois de recensearem as mulheres solteiras que viviam, pública e
escandalosamente entre outra gente de bem viver, os julgadores deveriam expulsá-las
dos bairros, obrigando-as a deslocarem-se para as ruas públicas ordenadas pela Lei
(Neves 1996).
Ora, numa freguesia rural, como é o caso de São Tiago de Ronfe, é muito
plausível que a pressão da população e das autoridades religiosas levasse essas
mulheres, tal como ocorria nas zonas urbanas, a se fixarem numa determinada área
ou lugar. Os dados quantitativos e os exemplos de algumas mulheres devassas ou
desonestas que viviam no lugar do Monte (relacionadas através de denúncias
ocorridas por ocasião das Visitas Pastorais efetuadas à freguesia) levam-nos a
considerar esta assertiva positivamente.
A existência de determinados espaços conhecidos como “putanheiros” não é
estranha ao Minho. Pina Cabral ao realizar o estudo de campo socioantropologico em
duas freguesias rurais fez referência à fama que determinadas freguesias tinham de
ser mais e menos "putanheiras", especificamente quando analisou a questão das
mulheres, da maternidade e da posse da terra no Alto Minho (Pina Cabral 1984).
A associação feita pelo autor mostrou uma estreita ligação entre a posse da
terra e a ilegitimidade, onde o acesso à terra funcionaria como inibidor da
ilegitimidade. Freguesias invariavelmente pobres , onde a maioria dos habitantes não
possuíam terra , o número de mães solteiras seria mais elevado. Mas isso ocorreria
também de forma mais generalizada mesmo naquelas freguesias "menos"
putanheiras, especialmente naqueles fogos sem terra, que partilhariam igualmente
tendência para a ilegitimidade.
De acordo com Pina Cabral, o modelo proposto por Peter Laslett de uma
"bastardy prone sub-society"- sub-sociedade com propensão à bastardia - poderia ser
encaixado ao campesinato sem terra do Alto Minho. Este modelo seria caracterizado
por uma série de mulheres que produziriam bastardos, que vivem nas mesmas
localidades, cujas atividades persistiriam através de várias gerações e tenderiam a

estar relacionadas entre si por laços de parentesco ou casamento. Muitas daquelas
mulheres seriam responsáveis por mais de um nascimento ilegítimo
12
.
Poder-se-ia conjecturar que não só freguesias poderiam ser conhecidas por ser
"putanheiras". Pina Cabral admite que em outras freguesias, os fogos mais pobres
tenderiam a estar mais associados à ilegitimidade e, conseqüentemente, a um número
elevado de mulheres que viviam desacompanhadas. Seria este o caso do lugar do
Monte? Seria esta a sua identidade? Seria um lugar putanheiro?
De uma forma ou de outra, os lugares que compunham a freguesia de São
Tiago de Ronfe não constituíam um espaço territorial, sem especificidade, sem
identidade, sem uma relação estreita com os moradores que lá se fixavam.
Acreditamos que as reflexões sobre o espaço e a territorialidade, não podem
prescindir de uma abordagem antropológica, especialmente se adotamos como
metodologia de trabalho o estudo da comunidade. O Historiador não pode ignorar as
contribuições da Antropologia neste campo, tendo, contudo, de ter consciência das
especificidades de seu estudo.
Esta especificidade está ligada principalmente à questão da utilização de
determinados tipos de fontes, contando basicamente com textos escritos de cunho
diversificado, e com limitações e lacunas que, como Historiadores, bem conhecemos.
Este é o grande desafio que se coloca ao pesquisador que pretende fazer a
reconstrução de comunidades históricas, utilizar-se de métodos de outras ciências
sociais, sem perder a essência do métier de Historiador.

Almeida, Carlos Alberto Ferreira de. 1986. A paróquia e seu território. Cadernos do Noroeste.
Sociedade, Espaço, Cultura. Braga (U.Minho) Inaugural:113-130.
Braga, Alberto Vieira. 1960a. Curiosidades de Guimarães XIX. Paróquias eclesiásticas e Paróquias civis
ou tradicionais. Confrarias do sub-sino. J uízes e Homens de Falas. Comunitarismo Agrário. Autarquias
Rurais. As terras do Concelho. Movimento judicial e administrativo das confrarias. Revista de Guimarães
LXX (1-2):231-280.
Braga, Alberto Vieira. 1960b. Curiosidades de Guimarães XIX. Paróquias eclesiásticas e Paróquias civis
ou tradicionais. Confrarias do sub-sino. J uízes e Homens de Falas. Comunitarismo Agrário. Autarquias
Rurais. As terras do Concelho. Movimento judicial e administrativo das confrarias. Revista de Guimarães
LXX (3-4):383-436.
Hespanha, Antonio Manuel. 1986. Às Vésperas do Leviathan: Instituições e Poder Político. Portugal
século XVII. 2 vols. Lisboa.
Neves, António Augusto Almeida Amaro. 1996. Filhos das Ervas. A ilegitimidade no Norte de
Guimarães (séculos XVI-XVIII). Mestrado, Depto. de História, Universidade do Minho, Braga.
O'Neill, Brian J uan, and J oaquim Pais Brito, eds. 1991. Lugares de Aqui. Actas do Seminário "Terrenos
Portugueses". Lisboa: Publicações D. Quixote.
Pina Cabral, J oão de. 1984. As mulheres, a maternidade e a posse da terra no alto Minho. Análise Social
20 (1):97-112.
Pina Cabral, J oão de. 1989. Filhos de Adão, Filhas de Eva. A visão de mundo camponesa no Alto Minho.
Lisboa: Publicações D. Quixote.
Pina Cabral, J oão de. 1991. A "minha" casa em Paço: um estudo de caso. In Lugares de Aqui. Actas do
seminário "Terrenos Portugueses", edited by B. J . O´Neill and J . P. Brito. Lisboa: Publicações D.
Quixote.

Poeira, Maria Lourdes, and Nuno Soares. 1994. As formas de povoamento. In Portugal perfil geográfico,
edited by R. S. Brito. Lisboa: Editorial Estampa\.
Ribeiro, Orlando. 1991. Opúsculos Geográficos. O Mundo Rural. Vol. IV. Lisboa: Fundação Calouste
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Ribeiro, Orlando. 1995. Opúsculos Geográficos. Estudos Regionais. Vol. VI. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian.
Sampaio, Alberto. 1979. Estudos Históricos e Económicos. "As Vilas do Norte de Portugal", Documenta
Historica. Lisboa: Editorial Vega.
Santos, J osé António dos. 1995. As freguesias: história e actualidade. 1ª ed. Oeiras: Celta.

*
Pesquisadora Visitante NEPO-UNICAMP (Campinas / SP) e Professora do Depto. de História
da UniABC (Santo André / SP)
1
Veja-se po exemplo (O'Neill eBrito 1991):14.
2
Scott, Ana Silvia Volpi (1999). Famílias, Formas de União Reprodução Social no Noroeste
Português (séculos XVIII e XIX). Guimarães: NEPS / Universidade do Minho.
3
Também sobre as paróquias e freguesias veja-se (Braga 1960a; Braga 1960b). Uma útil síntese
da evolução das freguesias e paróquias ao longo da história de Portugal está em Santos, 1995.
4
Os termos freguesia e paróquias serão adotados como sinônimos na maior parte das ocasiões em
que forem uttilizados, caso contrário, haverá sempre uma advertência expressa neste sentido.
5
(Almeida 1986) Em seu estudo Almeida esquadrinhou os componentes fundamentais existentes
entre a paróquia e seu território, remontando aos tempos medievais.
6
Veja-se Braga, 1960, para uma extensa descrição do termo sub-sino.
7
Veja-se sobre estes termos Sampaio, 1979.
8
Veja-se (Poeira e Soares 1994) e (Ribeiro 1991):318
9
(Pina Cabral 1989) e (Pina Cabral 1991)
10
Infelizmente, como era hábito somente a parte pia constou do treslado efetuado pelo pároco.
11
A este caso voltaremos com mais detalhes na parte relativa à vigilância da igreja ao seu rebanho.
12
Sobre a questão das mulheres e da ilegitimidade voltaremos ao tema em outra seção.

A CRÔNICA ESPORTIVA PARANAENSE: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O
PERIÓDICO DIÁRIO DA TARDE

André Mendes Capraro
UnicenP /Uniandrade



O Contexto

Quando do iniciou da prática esportiva no estado do Paraná, especificamente
na cidade de Curitiba no final da primeira década do século XX, o periódico, de
características modernistas, Diário da Tarde, já havia sido fundado, tornando-se o
mais popular da cidade.
Neste período as práticas físicas de longe poderiam ser consideradas um
ponto comum a toda população. Genericamente, quaisquer exercícios físicos eram
desconsiderados - embora já valorizados pelas elites econômicas e culturais
influenciados pelas idéias higienistas originárias do Rio de J aneiro da belle-epoque –
assim, nota-se que ainda havia resquícios das idéias do período colonial que remetiam
qualquer atividade física somente à dimensão do trabalho (Sevcenko, 1998: 567-577).
Portanto, para a maioria da população, era acentuada a discriminação à prática física,
ainda mais se tal atividade fosse de caráter braçal, pois, este tipo de atividade era
necessário somente às classes inferiores. O perfil estético era pautado na
intelectualidade. Poetas, escritores, músicos eram os homens atraentes daquela
época.
Com tais idéias ainda reinantes na população, incentivar a prática esportiva
consistia também em “quebrar” alguns ideais reinantes no Brasil do início do XX, um
deles era o forte hábito de apostar – presença constante nos páreos de Turfe e nos
jogos de cartas – que ainda, nos primórdios, era vinculado ao futebol: Arriscamos,
porem, aqui, um palpite [...] Usando o seguinte score para o torneio de amanhã:
Internacional 3 Paraná Sport Club 1.
1
O vínculo com velhos hábitos como as apostas
dificultavam a consolidação do campo. Pregando contra as apostas (jogos de azar), o
Diário da Tarde modifica seu parecer menos de um ano depois expondo a opinião de
um renomado intelectual, político e defensor dos esportes brasileiro:

O Jogo Diathese cancerosa das sociedades amenizadas pela sensualidade
e pela preguiça, elle entorpece, calleja, desviriliza os povos, nas fibras de
cujo organismo insinuou o seu germen, proliferante, inextirpavel. Os
desvairos do encilhamento dão e passam como rápidos temporaes. São
irregularidades violentas das épocas da prosperidade e esperança. Só o
jogo não conhece remitências: com a mesma continuidade com que devora
as noites do homem occupado e os dias de ócio, os milhões de opulento e
as migalhas do operario, tripudia uniformemente sobre a sociedade nas
quadras de fecundidade e penuria, de abastança e de fome, de alegria e de
luto. É a lepra do vivo, é o verme do caracter. Ruy Barbosa.
2


O Incentivo Regular ao Futebol

Neste contexto, os jovens praticantes eram inovadores precisando provar que
sua iniciativa era válida enquanto valor higienico, despertando, principalmente, o
interesse dos meios de comunicação – os jornais e diários – que se incumbiriam de
divulgar as atividades marcadas e, posteriormente, realizadas. Era noticiado então
numa nota do Diário curitibano...

Domingo próximo, às 3 horas da tarde, realizar se-á, no ground do Prado, o
match com o qual o Paraná Sports Club inaugurará a estação sportiva
deste anno. Convidado para tal fim, accedeu, gentilmente, o Internacional
Foot-ball Club, tendo sido resolvido que o match terá apenas um caráter
amigável. Não obstante, reina grande enthusiasmo entre os sócios e
jogadores de ambos os clubs que estão empenhados em dar o maior realce
possível a este certamen.
3


Os jovens das duas equipes, segundo o imparcial cronista, se emprenhariam o
máximo para agradar aos novos espectadores. Era o início da tentativa de busca de
aceitação. O periódico Diário da Tarde fornecia aos jovens locais pequenas notas
jornalísticas que passaram de esporádicas e pequenas notas entre os anos de 1909 a
1911, tornando-se mais constantes à partir de 1912. Em apenas um ano, passaram a
ser diárias, alternando pequenas notas e matérias relativamente grandes nos anos
ente 1913 e 1915. A partir de 1915, matérias diárias, algumas chegando até a ocupar
grande espaço na “capa”. Mas, qual a vantagem em publicar noticias sobre o futebol?
Existiam vários motivos coerentes para que o Diário se entusiasmasse com a
publicação de noticias esportivas. Listar-se-á os mais relevantes.
1) Os anúncios publicitários. Por exemplo, era escrito ao lado de uma noticia
sobre o Internacional: CASA CLARK– Calçados, Meias, Impermeáveis, Perneiras e
artigos inglezes, Foot-balls e seus pertences. Sortimentos completos.
4
As vendas
deveriam ser acentuadas, pois o anúncio seguinte foi feito em um espaço
considerável, mas o desconhecimento do esporte era tanto que o anunciante não
sabia a grafia correta: PARA FOOT-BAAL [sic] E TENIS Variado sortimento de
calçado para estes sports. Recebeu a CASA VICTRIX.
5
Concordamos então com a obra de Toledo que, discorrendo sobre a função
inicial do esporte para a imprensa, afirmou: [...] essas publicações são representativas
de um público específico: segmentos das elites que praticavam os esportes
socialmente prestigiados e que também cultivavam um certo estilo e modo de vida
pautados pelo consumo de bens esportivos importados, proibitivos à maioria da
população.
6

2) Além de render lucro com os vendedores de produtos esportivos, os próprios
clubes eram anunciantes regulares – sendo que, dentre eles o elitista Internacional era
o que mais utilizava os serviços do jornal. Constava então na seção publicitária, entre
anúncios de vendas, animais perdidos e notas de falecimento: INTERNACIONAL
FOOT-BALL CLUB A directoria desta sociedade, pede a todas as pessoas e exmas.
famílias que até hoje não receberam convites para festa sportiva amanhã, a fineza de
os procurarem em nossa séde á rua 15 de Novembro n. 07. Pela directoria – Hugo
Maeder, 1
o
Secretario.
7
Além dos convites existiam outros motivos para o anúncio. As
cartas – o meio de comunicação mais utilizado nas primeiras décadas do século XX –
demoravam muito para chegar ao seu destinatário, isto quando não se extraviavam.
Em virtude disto era mais fácil marcar as reuniões via jornal. Mesmo eleições para
diretoria eram anunciadas vias jornais
8
. O início do século que seria, posteriormente,
caracterizado como o de maior avanço tecnológico referente à comunicação, ainda era
bastante rudimentar. Posteriormente, em 14, os anúncios e convocatórias realizados
passaram a ser redigidos na coluna social, provavelmente deixando de serem pagos
9
.
3) Ao retirarem tais convocatórias da seção de anúncios e recolocarem na
coluna social, acredita-se que os jovens praticantes de futebol – principalmente os
internacionalistas – por si só, já chamavam a atenção o suficiente para aumentar as
vendagens do periódico. Era noticiado, por exemplo, no meio das notas
futebolísticas... Fomos testemunhas ocular e auricular de grácil senhorinha em voz alta
prometter ao “player” Collares, que, caso fizesse um “goal” lhe daria uma passagem
na 3
a
secção do Mignon [cinematógrafo]. Não sabemos se foi cumprida a promessa.
10

Na mesma coluna intitulada “Binóculo Sportivo” tinha outra dessas notas sarcásticas:
Domingo ultimo no momento que os animos “footballísticos” achavam-se exaltados,
ouvimos distinctamente vozes femininas que cheias de aflicção gritavam: - Oh! Meu
Deus onde está o Edgard? Doca, Doca, onde está elle? Não viram o Luiz? Quero elle
aqui!
11
Todos os jogadores citados pertenciam à fina mocidade curitibana do início do
século e, quase conseqüentemente, ao quadro de atletas do Internacional Foot-ball
Club. Com certeza, tais notícias aumentariam o número de vendagem diária,
principalmente tratando-se do público jovem feminino. Podemos comprovar tal
afirmativa pelo simples fato das notícias futebolísticas serem redigidas oportunamente
na coluna social que era intitulada A “ Chronica da Vida Social” . Em uma dessas
crônicas, cuja periodicidade era diária, esclarecia-se que... Esta chronica que, sem
immodestia, é a mais lida pelo sexo fraco, nos tem causado sustos “dolorosos”.
12

Mesmo sendo politicamente incorreto para os padrões atuais, o que é justificável pela
cultura da época, o autor, sem querer, demonstra quem era o público interessando nas
notícias sobre o futebol, ou melhor, os jogadores de futebol, e ainda mais
especificamente, os jogadores da fina-flor curitibana pertencentes ao quadro do
Internacional.
Comprovando a preferência do periódico em publicar matérias sobre o
Internacional, encontramos mais uma extensa e elucidativa carta à redação dirigida ao
Diário da Tarde:

Do sr. J. Rocha digno presidente do “Paraná Sport Club”, recebemos a
seguinte carta:
[...] Mao grado meo, venho á sua presença para fazer uma tão respeitosa
quão justa observação a uma grande falta da Imprensa da nossa culta
Coritiba.
Sou presidente de um Club sportivo que, a mercê do stoicismo dos seus
membros tem vencido os obstaculos quase insuperaveis para seu avanço,
o que, de resto, acontece aos dois congeneres aqui existentes. Todavia o
mais forte e o mais desanimador entrave aos nossos passos forçados, é a
indiferença que nos vota a Imprensa: si não procurarmos publicar o anúncio
de um “match” de “foot-ball” que se vae realizar, podem entulhar as vitrines
das casas commerciais os nossos papelões de reclame que as modela não
sabe; si não redigirmos a noticia de um “match” realisado e formos levar á
redacção de um jornal, também não há noticias, isso tem acontecido muitas
vezes e agora ainda acontece: O Club que presido encontrou-se, domingo,
com o valoroso “Coritiba Foot-ball” num “match” sensacional e... nenhum
jornal soube disso!
Não podemos esperar as attenções do povo porque elle não tem ainda a
alma affeita ás emoções do Sport e nem conhece a sua utilidade, mas,
sentimos a dura necessidade de suplicar o auxílio da Imprensa á nossa
tarefa de educação, de preparação do homem forte cappaz de suportar
com valor o “struggle for life”, dia a dia mais pesados.
Como um attestado da importancia do assumpto, não é demais lembrar a
V. S. que a culta Suecia acaba de abrir os cofres públicos, sob uma
enthusiasmada approvação do seu grande povo, para um maior
desenvolvimento do Sport que a prática provou ser o único remédio para o
alcoolismo e conseqüentemente decrescimento da criminalidade.
Os jornais de S. Paulo, do Rio, dos Estados do Norte, do Sul e até os de
Santa Catharina não poupam os seus virtuosos incitamentos ao Sport –
dando notícias estimulantes e bem feitas que, por vezes, occupam muito
mais de columna: será possível que só a nossa afamada Imprensa persista
nesse criminoso indifferentismo? Por certo que não, pois, da sua cultura
espera as providências que o caso exige, quem é seu, etc.
Tem toda razão o distincto “Sportman”.
Devemos, entretanto, dizer-lhe que essa lacuna já foi notada por nós que
temos procurado sanal-a.
13


Embora no ano de 14 já fosse uma constante as matérias sobre o
Internacional, a carta do dirigente do “Paraná” questionava a falta de interesse nos
outros dois clubes de maior repercussão na cidade – o próprio Paraná e o Coritiba.
Segundo o relato da carta, notícias sobre estes clubes só eram inseridas quando era
pago anúncios nos jornais, significando mais um gasto para as associações que,
naquele período encontravam fortes dificuldades em se consolidar. Além disso, pode-
se notar a tendência a comparar o esporte praticado em Curitiba com os outros
estados, e, estas comparações, na década de 1910, serviam para demonstrar que o
futebol local era deficitário. O dirigente atribui uma parcela de culpa à esta tendência
reacionária aos jornais curitibanos. Inclusive demonstrando preconceito com o estado
vizinho quando este afirma que “até em Santa Catarina” divulga-se o futebol nos
periódicos e aqui ainda há a necessidade de se fazer anúncios publicitários para a
divulgação.
A carta é também um bom referencial para delinearmos a mentalidade
daquela época: o esporte era, mais do que uma forma de lazer, um meio para se obter
saúde – embora esta ainda fosse vista de maneira bastante fragmentada –
combatendo velhos vícios do antigos períodos colonial e imperial como o alcoolismo e
os jogos de azar. Sintetizando o esporte entrava no campo simbólico representando o
novo – ou os ideais republicanos – em contrapartida ao velho e ultrapassado – os
antigos valores monárquicos. Outro fato interessante é que é citado o apoio
governamental realizado na Suécia. Contudo, a força das atividades físicas naquele
país fora chamada de Ginástica Sueca que, realmente, visava o bem estar da
população, mas com ênfase na ginástica geral (não competitiva) e não nos esportes.
Realmente depois da publicação desta carta as matérias começaram a se
diversificar, mas a preferência no Diário da Tarde pelo Internacional ainda iria
permanecer por mais alguns anos. Logo, apareceria um novo motivo para o Diário da
Tarde continuar a publicar, cada vez mais constantemente, matérias sobre o futebol.
4) Logo o próprio esporte começaria a despertar o interesse da população, pelo menos
naquele segmento que tinha o hábito de ler um diário. Assim, as notícias sobre futebol
aumentavam a venda, intensificando, por sua vez, o número de colunas e também o
espaço destina as mesmas.
Mas cabe aqui uma ressalva, cientes disso, os editores deveriam se
questionar: o que deveria ser publicado? Quais as notícias mais relevantes? Como
descrever um match futebol? Quem saberia o suficiente sobre o “novo esporte” a
ponto de escrever crônicas sobre ele? Levanta-se estas dúvidas percorrendo o sentido
inverso da investigação, ou seja, deduzindo através da minuciosa análise das matérias
futebolísticas, os maiores problemas ocorridos nos anos iniciais da prática do “esporte
bretão” no estado do Paraná. Várias matérias podem comprovar que os problemas
deduzidos realmente existiram, observa-se algumas delas: esta primeira fornece
subsídios para acreditar que, em algumas circunstâncias, faltava até notícias para
serem relatadas: Aos srs. presidentes dos Clubs sportivos e demais interessados
pedimos a fineza de remetter ao redactor desta secção toda e qualquer ocorrencia que
se relacione com os sports, afim de darmos cabal desempenho da missão do
“Binóculo”.
14
O próprio título da coluna, DESPORTOS – Hypismo, Foot-ball, etc., já
demonstrava que existia uma certa dificuldade em diferenciar os esportes modernos -
originários do Movimento Esportivo Inglês – dos tradicionais jogos que envolviam
apostas. Para exemplificar, nesta mesma coluna era noticiado em um único texto: [...]
Esse nosso creoulo [raça de cavalo] derrotou por completo 8 competidores puro
sangue, já por duas vezes. O Internacional Foot-baal [sic] Club cogita de levar a effeito
um festival desportivo [...].
15
Além de pouco diferenciar os esportes e jogos os
comentários sobre os eventos esportivos eram breves e superficiais limitando a
informar, por exemplo, que... No segundo “half-time” o jogo tornou-se muito mais
animado [...]. Os rapazes do “Internacional” redobraram então os seus esforços
marcando três “goals”.
16
Observando uma reportagem futebolística na integra,
podemos notar como era superficial o tratamento realizado pelo enviado do jornal:

No 1
o
“half-time” o jogo despertou certo enthusiasmo nos rapazes do
Internacional que conseguiram marcar um “goal”. Os “goals” marcados pelo
“Internacional” foram feitos pelos “sportmen” Cruz e Manequinho. O
“Internacional”, derrotou com o “score” de 2 a 0. O “Internacional” se impôs
pela correção. Os jogadores do Paraná se esforçaram para que o “match”
corresse com enthusiasmo.
17


A matéria restringia-se a enaltecer os valores do esporte e comentar que a
partida despertou o interesse dos espectadores. A parte tática e técnica - os fatores
mais frisados nas matérias jornalísticas da atualidade - praticamente eram ignoradas
naquela época, por sinal, em algumas circunstâncias, até mesmo pelos jogadores.
Assim, noticiava-se:

Vinte minutos passados, o “back” direito do Paraná, por natural equivoco
nesse jogo, fez um “goal” contra o seu “team”, mais uns oito minutos, foi
marcado um segundo “goal” pelo Internacional, em virtude de ter o “back”
esquerdo do Paraná, atrapalhado a defesa do seu afamado “goal-keeper”
[...].
18


Mesmo quem deveria ser conhecedor do assunto, como os praticantes do
esporte, às vezes se confundiam, como foi o caso citado acima. Tornando a
circunstância, para os padrões da atualidade, até cômica. Em virtude dessa falta de
conhecimento de alguns atletas e, na medida que foi... o foot-ball tomando grande
incremento em Coritiba
19
, o jornalista esportivo do Diário da Tarde afirmava que
interessará aos nossos foot-ballers ter os seguintes conselhos.
20
Assim, em sua
coluna, tenta passar noções básicas e esclarecimentos de como deveria ser jogado o
futebol. Mas, nem o próprio colunista tinha o conhecimento suficiente para redigir sua
coluna, indo buscar subsídios então no livro de um jogador francês chamado Barreau.
Dentre as recomendações destacavam-se: 1
o
) tomar atitudes de acordo com o ponto
fraco do adversário; 2
o
) Cabe ao capitão decidir qual tática será adotada (ou seja, o
capitão desenvolvia a função de representante e também de técnico); 3
o
) noções
básicas da técnica como passar a bola sempre rasteira, funções dos defensores,
armadores e atacantes.
21

O hábito de resenhar livros europeus na coluna esportiva prosseguiu no Diário
da Tarde. Sabendo da existência da obra “Foot-ball Associacion” do autor e técnico
francês chamado Maurice Parat foi noticiado: por julgarmos úteis aos nossos
jogadores aqui os reproduzimos, syntheticamente, recomendando a sua leitura [...].
22
Em um tempo de curta duração, apenas alguns meses, as colunas destinadas
à prática futebolística começaram a ser definidas melhor. Centrava-se na descrição
dos melhores lances do jogo acompanhado do tempo exato do lance. Antecedendo,
ou esporadicamente sucedendo, aos comentários do jogo, algumas palavras sobre os
jogadores que se destacaram na partida – sempre de forma positiva. Por último,
sempre frases de incentivo a ambas as equipes, independentemente dos resultados
23
:
Termino esta minha pequeníssima chronica, enviando a ambos os clubs os meus
salutares e [...] inestimáveis de singela solidariedade, fazendo votos para que os
mesmos progridam sempre e cada vez mais, no terreno proveitoso dos sports.
24
Em
algumas situações mais esporádicas, relacionava-se o futebol com notas sociais.
Citava-se, quais personagens vultuosos estavam presentes no pugilo esportivo –
geralmente políticos locais, visitantes de ilustres, ou senhoritas renome. Outra situação
comentada era a homenagem a qual o jogo se dirigia – na maioria dos casos
filantrópica.
25


O Cronista Especializado em Esportes: Jean Sport

Nos meados de 14, o Diário da Tarde, apresenta um jornalista especializado
em esportes e, mais especificamente, no futebol. O cronista utilizava o pseudônimo de
J ean Sport. O novo jornalista esportivo tinha realmente um conciso conhecimento do
futebol tanto é que o mesmo anunciava: Acoroçoado por innumeros amantes do bello
sport bretão, projectamos fazer uma palestra sportiva na sede de um dos clubs desta
capital. Jean Sport.
26

A palestra ocorreu nas dependências do Internacional. Cabendo mais um
questionamento: seria uma coincidência J ean Sport proferir sua palestra no espaço
físico do Internacional, ou existiam ligações de interdependência maiores entre o
jornalista e clube?
Evidências guiam a uma afinidade maior entre o colunista e a Internacional –
equipe das elites. Quando, por exemplo, ocorreram divergências entre esta equipe e o
Paranaguá Foot-ball Club, a divergência se estendeu dos campos para as colunas
esportivas. O jornal Diário do Commercio de Paranaguá, representado pelo seu
articulista esportivo, defendia veementemente as cores da equipe conterrânea. Em
contrapartida, J ean Sport, foi o defensor da causa internacionalista, usando do Diário
da Tarde, como meio de divulgação do seu testemunho. Assim, quando soube que o
renomado e influente presidente do Internacional, J oaquim Américo Guimarães,
sofrera severas críticas na cidade litorânea, logo solidarizou-se: - O sr. Joaquim
Américo Guimarães, presidente do Centro Hyppico Paranaense tem recebido provas
de solidariedade contra a grosseria do articulista do “Diário do Commercio” de
Paranaguá, acrescentando-lhe qualidades que ao mesmo tempo não são peculiares.
[...] Prosseguiu escrevendo... – Nas boas rodas sportivas commenta-se
desfavoravelmente a manifesta parcialidade [...] por parte da secção “o Sport” do
“Commercio do Paraná”.
27

O conflito, que aparentava já ter sido resolvido, logo retorna com mais
intensidade, quando, um residente da cidade de Morretes escreve uma carta a J ean
Sport, explicando vários entreveros ocorridos num jogo entre uma equipe morretense
e outra parnanguara, só que no meio dessa contenda novamente sobraram algumas
ofensas para o sr J oaquim Américo o que despertou, novamente, a ira do cronista
contra o polêmico jornal de Paranaguá.
Passado dias sem se manifestar, J ean Sport agia com prudência, investigando
o caso:

Encontramos na “Vida Sportiva” do “Diário do Commercio” de Paranaguá, o
seguinte: “No “Binóculo Sportivo” do DIÁRIO DA TARDE, de ante-hontem,
um sr. Kick, de Morretes, respondendo um escripto publicado na secção
sportiva desta folha, que é completamente estranha a redacção, houve por
bem externar algumas palavras menos delicadas a nosso respeito. Dando-
nos como insultador do sr. presidente do Internacional Foot-ball, de
Coritiba. A nossa folha não insultou ninguém, a não ser que o ilustre Kick
de uma figa, viu isso em sonho, e como os demais jornaes da capital
mantemos uma secção sportiva sem dar satisfação a Kick ou a Kick-off de
espécie alguma.”
28


A partir daí, os ânimos se acalmaram, no que se refere à rivalidade
futebolística entre Paranaguá e Curitiba. Alguns dias após J ean Sport brincava com
versos:

A vida é um match. Em vão se shoota a bola / Lutando pelo goal que se
deseja / Por goal-keeper melhor que a gente seja/ E’um corner que se faz
...ora pistola!
A vida é um match. Em tempos maos de crise / Debalde a s mãos se mette
na algibeira / Nem a falar de sports quem precise / Conseguirá sahir da
quebradeira.
Também fazendo esta palestra inglória / Que talvez não deixasse de achar
páo / Pensei neste match ter Victoria / Mas vejo agora que só fiz um foul!
Jean Sport
29

1
Diário da Tarde. Sports. Curitiba, 27/07/1912. p. 2.
2
Ibid. O Jogo. Curitiba, 17/02/1913. p. 2.
3
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 02/07/1912. p. 3.
4
Ibid. Indicador Commercial. Curitiba, 02/11/1913. p. 3.
5
Ibid. Ibid. Curitiba, 10/10/1912. p. 2.
6
TOLEDO, Luiz Henrique de. No País do Futebol. Rio de J aneiro: J orge Zahar, 2000. p. 15.
7
Ibid. Internacional Foot-ball Club. Curitiba, 17/07/1912. p.4.
8
Ibid. Ibid. 07/06/1913. p. 2.
9
Ibid. Vida Social. Curitiba, 16/09/1913. p. 3.
10
Ibid. Op. Cit.. Curitiba, 21/07/1914. p. 2.
11
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 16/09/1913. p. 3.
12
Ibid. A “Chronica da Vida Social”. Curitiba, 18/03/1914. p. 5.
13
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 17/06/1914. p. 3.
14
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 24/07/1914. p.3.
15
Ibid. DESPORTOS – Hypismo, Foot-ball, etc. Curitiba, 05/07/1913. p. 4.
16
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 26/08/1913. p. 4.
17
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 03/11/1913. p. 3.
18
Ibid. Sport. Curitiba, 22/04/1913. p. 3.
19
Ibid. Os Sports. Curitiba, 23/04/1914. p.2.
20
Ibid. Ibid.
21
Ibid. Ibid.
22
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 03/08/1914. p. 5.
23
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 25/08/1914. p. 4.
24
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 14/04/1913. p. 3.
25
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 25/04/1914. p. 3.
26
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 08/08/1914. p. 3.
27
Ibid. Op. Cit. Curitiba, 25/07/1914. p. 4.
28
Diário da Tarde. Op. Cit. Curitiba, 04/08/1914. p. 2.
29
Ibid. Ibid. Curitiba, 25/08/1914. p. 3.
IMAGINÁRIO ANTICOMUNISTA EM REVISTAS E PERIÓDICOS CURITIBANOS
DA PRIMEIRA METADE DA DÉCADA DE 60.

Andrea Beatriz Wozniak Giménez
Universidade Fedeal do Paraná
Mestranda em História



A motivação para uma pesquisa envolvendo o anticomunismo surgiu a partir da
ansiedade de compreender o medo do vermelho ainda remanescente entre vários
segmentos da sociedade brasileira, em particular da cidade de Curitiba.
1
Tal medo
pode ser pensado como receio ou insegurança frente a concepções políticas e de
sociedade distintas do status quo vigente, quase sempre relacionadas à esquerda
política e grupos contestatórios. Observou-se a sobrevivência de certas
representações e de um imaginário anticomunista ainda disperso na memória coletiva
de certos grupos sociais, que se reanima conforme o momento político e as apelações
de certas instituições sociais: mídia, igreja tradicional, partidos e grupos políticos
preponderantes, etc.
2

A presente pesquisa toma como espaço social Curitiba, cidade bastante
representada como conservadora, e busca compreender a constituição de seu
imaginário anticomunista. A década de 50 e a primeira metade da década de 60
constituem um período de destaque devido à efervescência de representações
anticomunistas em diversos espaços da sociedade curitibana: jornais cotidianos,
revistas em geral, anais da Assembléia Legislativa, depoimentos de personalidades da
época, periódicos da Igreja Católica ou de instituições com algum vínculo religioso,
etc. A partir da análise das representações anticomunistas detectadas em alguns
destes espaços, busca-se compreender o anticomunismo em Curitiba, no período em
destaque, principalmente algumas de suas motivações, relações e inter-relações na
sociedade.
Grande parte do corpo documental da pesquisa em curso constitue-se em
material da Divisão Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná, importante acervo
para pesquisas sobre Curitiba e o Paraná em geral. As fontes consistem em:

• algumas revistas de cultura e sociedade em geral de produção
curitibana: A Divulgação, Panorama e Planalto Paranaense;

• outras mais especializadas em economia, também de produção local:
Paraná Econômico, Boletim da Federação das Indústrias do Estado
do Paraná e A Indústria;
• alguns periódicos e boletins relacionados a Igreja Católica de Curitiba
ou à instituições de cunho católico: Boletim Eclesiástico da
Arquidiocese de Curitiba, Boletim da Federação das Congregações
Marianas, Sacré-Coeur, Pais e Mestres Maristas, O Santa Maria;
• alguns jornais curitibanos de circulação diária: o Correio do Paraná e o
Diário do Paraná;
• algumas biografias de jornalistas e personalidades políticas da época.

O objetivo desta comunicação consiste em apresentar parte do corpo
documental utilizado na pesquisa e tecer algumas reflexões e comentários sobre este,
disponibilizando alguns subsídios para pesquisadores interessados na temática
abordada, no período ou nas fontes analisadas. Além de uma breve apresentação das
fontes, de algumas de suas especificidades e de alguns elementos anticomunistas
detectados, também serão tecidos alguns comentários sobre outros objetos de
pesquisa que podem ser trabalhados a partir das publicações analisadas.

Algumas revistas e periódicos curitibanos: década de 50 e
primeira metade da década de 60.

Na perspectiva de compreender as motivações anticomunistas em Curitiba,
três revistas possuem grande relevância para esta pesquisa por serem revistas de
cultura e sociedade e terem produção e circulação regional: A Divulgação, Panorama
e Planalto Paranaense. Tais revistas, de público alvo centrado nas classes médias e
elites paranaenses e curitibanas, trazem idéias, crenças, valores, códigos
comportamentais e representações sobre temas diversos. Todas possuíam seções
sobre política, economia, cultura e sociedade, e, para além de abordarem questões
nacionais e mundiais, enfocavam principalmente o panorama regional da época.
Representações sobre o “desenvolvimento” e a “modernidade”, tanto de Curitiba
quanto do Paraná, bem como aspectos da sociabilidade das elites regionais e padrões
de consumo podem ser percebidos através de tais fontes.
A Divulgação entrou em circulação em 1947, tendo como diretor-proprietário
Arnaud F. Velloso, que foi seu principal editorialista até 1965, cobrindo todo o período
pesquisado. Entre seus colaboradores encontravam-se personalidades relacionadas à
intelectualidade curitibana: Davi Carneiro, Valfrido Pilotto, Homero Braga, Serafim

França, etc. Sua meta era o “intercâmbio cultural, econômico e financeiro”. As idéias
paranistas foram retomadas desde seu primeiro número, centrando nestas seu
principal objetivo: “propagar as idéias e realizações paranistas por todo o Brasil, bem
como a cultura material e espiritual do Paraná.” Receberam destaque em suas
páginas: as idéias paranistas, questões pertinentes ao “desenvolvimento” e
“progresso” de Curitiba e do Paraná; questões relacionadas ao trabalho;
personalidades e obras públicas das elites administrativas; a religiosidade cristã e
algumas personalidades católicas; colunismo social, etc. O acervo da Divisão
Paranaense da Biblioteca Pública encontra-se incompleto e com poucos exemplares
para fotocópias, existindo a necessidade de consulta local e transcrição dos textos e
artigos de interesse.
A revista Panorama, foi fundada em 1951 em Londrina, mas já a partir de 1954
transferiu-se para Curitiba. Adolfo Soethe foi seu primeiro diretor-responsável e
principal editorialista durante todo o período estudado. Outros editorialistas que
merecem destaque: H.P.Zimermmann e Samuel Guimarães da Costa. Vários
jornalistas e paranaenses destacados entre as elites e classes médias do período
fizeram parte de seu corpo de colaboradores, entre os quais alguns escreviam
também para os principais jornais da cidade: Xavier Assumpção, J .J .Pulls, Augusto
Sylvio, Adherbal Fortes J r., Samuel Guimarães da Costa, Milton Cavalcanti, Luiz
Geraldo Mazza, entre outros.
Curitiba e o Paraná como um todo (principalmente o “desenvolvimento” do
Norte, Oeste e Sudoeste do Estado) passaram a receber destaque a partir de 1954,
após a transferência da revista para a capital. No final da década de 50 a revista
ganhou corpo e investimentos maiores, ampliando sua divulgação a outros Estados
brasileiros e, ganhando uma conotação mais sensacionalista, conforme o tema
abordado. No início da década de 60 seu diretor-responsável passou a ser Oscar
Sharappe Sobrinho, membro da Associação Comercial do Paraná e proprietário da
Impressora Paranaense, um dos maiores e mais modernos complexos gráficos da
região.
A revista colocou-se, desde seu primeiro número, como divulgadora de “cultura
geral”: em suas páginas circularam assuntos os mais variados possíveis, desde
política, economia, sociedade (questões estruturais), cinema, rádio, turismo,
decoração e interiores, moda, etc. Suas páginas trouxeram tanto temas nacionais
quanto internacionais e as questões da Guerra Fria recebeu grande cobertura e
destaque. Entre seus objetivos encontrou-se sempre possibilitar “informação” para
diferentes faixas etárias e classes sociais, com “isenção partidária”. Uma forte
influência da doutrina cristã de vertente católica tradicional marcou suas páginas

durante todo o período pesquisado. Sua disseminação parece ter sido maior entre as
classes médias. O acervo encontra-se no mesmo estatus da revista A Divulgação.
Planalto, ou Planalto Paranaense surgiu em dezembro de 1961. Entre seus
principais editorialistas estavam J amil Snége e Valfrido Pilotto. Com design arrojado
para a época, entre seus destaques estavam o colunismo social, a bancada do Partido
Trabalhista Brasileiro ao redor dos deputados petebistas Amaury de Oliveira e Silva e
Luiz Alberto Dalcanalle, a elite administrativa do Estado e também questões
relacionadas ao “progresso” e ao “desenvolvimento” de Curitiba e do Paraná. O acervo
encontra-se completo e há exemplares duplicados de todos os volumes o que facilita
fotocópias.
No que diz respeito aos elementos anticomunistas detectados em tais revistas,
em meio aos artigos de cultura e sociedade, as revistas trazem notícias sobre o
contexto de bipolarização mundial, sempre com representações negativas envolvendo
o comunismo e os países do bloco soviético. Por outro lado, principalmente nos
editoriais e artigos de política e economia, transparecem representações
anticomunistas envolvendo o contexto brasileiro e a necessidade de preservação da
democracia, da propriedade, da liberdade, da chamada civilização ocidental-cristã e da
família. Observa-se nelas e sobreposição de motivações para as representações
anticomunistas, quer de cunho religioso, político-econômico ou mesmo do contexto da
Guerra Fria.
A revista Paraná Econômico surgiu em Curitiba em 1953 e circulou
regularmente para além dos limites desta pesquisa, 1965. Colocou-se como orgão de
informação das atividades produtoras do Estado do Paraná. Seu patrocínio provinha
das principais instituições econômicas do Estado: Federação do Comércio, Federação
das Indústrias, Federação das Associações Rurais do Paraná e da Associação
Comercial. J . Petrelli Gastaldi foi seu diretor e redator chefe durante todo o período
analisado. A partir do final da década de 50 o Serviço Social do Comério (SESC) e o
Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) aparecem entre seus
colaboradores. Cabe ressaltar que entre seus colunistas e escritores estavam
diretores e presidentes das próprias instituições patrocinadoras (J osé Luiz Guerra
Rêgo e Osmário Zilli da Federação do Comércio) e seu público alvo era a elite
econômica paranaense: empresários, industriários, comerciários e proprietários rurais.
Através de suas páginas podem ser observadas questões relacionadas ao
comércio, à indústria, à lavoura, aos transportes e ao trabalho. Os temas que
receberam destaque foram: questões concernentes ao “progresso” e ao
“desenvolvimento” do Estado, principalmente econômico, como também as atividades
do SESC, SENAC E SESI, questões de economia e relações exteriores e as elites

dirigentes do Paraná e de sua capital. A Biblioteca Pública do Paraná possui acervo
completo da revista, disponibilizando mais da metade dele para fotocópias, e a outra
parte para consultas locais e transcrições.
Outra produção econômica, com pressupostos semelhantes, patrocinada pela
Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP) foi o Boletim de Informações
da FIEP, surgido no final de 1958 com o espírito do dinamismo industrial que se
gestava no Estado. A partir de 1962 cedeu espaço para uma publicação melhor
estruturada, a revista Indústria, dirigida por Danilo J osé Loureiro e com colaboração
de membros da própria Federação das Indústrias do Estado do Paraná: Hasdrubal
Bellegard e Apollo Taborda França, entre outros. Seu público alvo, semelhante ao
Paraná Econômico, eram os empresários, industriais e proprietários rurais, bem como
as questões que recebiam destaque estavam relacionadas ao desenvolvimento
econômico do Estado. O acervo de ambas as publicações encontra-se disponibilizado
apenas para consulta local: o Boletim da FIEP encontra-se bastante incompleto e a
revista Indústria praticamente completo.
Tais publicações podem possibilitar análises do pensamento econômico das
elites paranaenses nas décadas de 50 e 60, seus projetos de desenvolvimento para o
Estado, suas visões com relação à política e a economia nacional, os espaços
destinados às classes trabalhadoras e principalmente os valores sociais dos grupos. A
recorrência de representações anticomunistas é maior a partir da década de 60,
momento em que os discursos e as práticas reformistas e nacionalistas de vários
grupos da sociedade brasileira, principalmente do governo Goulart, explicitaram-se. As
representações anticomunistas aparecem sempre atreladas à defesa e preservação
da estrutura social: suas instituições democráticas (a Democracia), a liberdade
econômica e a propriedade. No Paraná Econômico aparecem artigos de política,
economia ou sobre o trabalho em que transparece certa inspiração de doutrinas da
Igreja Católica (da vertente tradicional), nos quais se defende a proposta de sociedade
da Democracia Cristã. Observa-se a fusão de motivações religiosas, políticas e
econômicas para o combate ao comunismo, e a tudo que fosse rotulado a partir dele.
As fontes pesquisadas relacionadas à instituição Igreja Católica, também
encontram-se relacionadas aos grupos tradicionais (Boletim Eclesiástico da
Arquidiocese de Curitiba e Boletim da Federação das Congreções Marianas de
Curitiba) e com colégios da elite curitibana (Pais e Mestres Maristas, orgão oficial da
Associação de Pais e Mestres do Colégio Santa Maria; Sacre-Coeur, orgão do colégio
Sacré-Coeur e O Santa Maria, orgão oficial dos alunos do colégio Santa Maria). O
arcebispo de Curitiba Dom Manuel da Silveira D’Elboux (1950-1970) esteve entre os
principais personagens. Com exceção da revista Pais e Mestres Maristas, que

encontra-se completa no acervo no arquivo consultado, com alguns volumes
disponibilizados para fotocópias, o acervo encontra-se bastante incompleto, possuindo
raros exemplares.
Para o período analisado, tais fontes trazem grande quantidade de
representações anticomunistas. Explicita-se um imaginário relacionando comunismo
ao ateísmo e à dissolução da família e da cristandade. Entre seus artigos e colunas
aparecem inspirações originadas nas bulas papais (quer do final do século XIX ou
mesmo do correr do século XX), que condenavam o socialismo e o comunismo por
destruírem o considerado direito natural e inquestionável: a religião, a propriedade, a
família e o Estado. A perspectiva da Democracia Cristã, uma terceira via entre o
comunismo e o capitalismo, bastante disseminada e defendida pela Igreja Católica e
por determinados grupos da sociedade no período, aparece na grande parte de tais
fontes. O período próximo ao Golpe Militar de 1964 também é o de maior
efervescência de representações anticomunistas, bem como relações entre estas e às
questões políticas brasileiras.
Mostra-se relevante ressaltar a comunhão de temas, representações e
propostas de sociedade entre várias das publicações analisadas, bem como de
redatores ou personalidades citadas. A partir das primeiras análises parciais vem se
observando a existência de um imaginário anticomunista disseminado em diversos
grupos e setores da sociedade da época. As fontes analisadas dão conta de
demonstrar como representações anticomunistas, advindas de motivações
específicas, circularam em diferentes espaços da sociedade e estiveram relacionadas,
principalmente, ao medo da desintegração da estrutura social e do esfacelamento de
alguns de seus valores: Democracia, Liberdade, Propriedade, Ordem, Deus, Pátria,
Família, entre outros.
Nos encaminhamentos teórico-metodológicos que norteiam a pesquisa em
curso, busca-se levar em consideração a produção de cada fonte documental: seu
contexto histórico, seus grupos de influência, as bases sócio-culturais de seus
idealizadores, enfim algumas das manipulações inerentes ao processo de produção.
4
T
De certa maneira, as principais fontes desta pesquisa estão relacionadas, tanto
produção quanto público alvo, a grupos das classes médias e das elites curitibanas.
As motivações para as representações anticomunistas, a grosso modo, possuem
estreita relação com o contexto histórico da Guerra Fria e dos conflitos político-sociais
existentes na sociedade brasileira. Além disso, percebe-se o teor diferenciado de cada
motivação para o desencadeamento de representações anticomunistas: catolicismo,
nacionalismo ou regionalismo e liberalismo, principalmente o econômico. Observa-se
também a circularidade de motivações anticomunistas entre algumas publicações.

No estágio atual da pesquisa vem se buscando compreender melhor os grupos
relacionados às fontes trabalhadas, bem como suas relações e inter-relações na
sociedade curitibana da época. Além disso, um dos objetivos principais é compreender
os porquês da disseminação de representações anticomunistas através de orgãos de
produção e circulação regional, considerando que o Paraná e, especialmente sua
capital Curitiba, encontravam-se, na época analisada, sob o signo do
“desenvolvimento” e da “modernidade”.



1
Um primeiro exercício sobre o anticomunismo foi concretizado numa monografia de graduação:
GIMÉNEZ, Andrea B.W. As representações anticomunistas na grande imprensa curitibana, 1961-64.
Monografia de graduação. História. UFPR. 1999.
2
Sobre o anticomunismo ver: MOTTA, Rodrigo P. de Sá. Em guarda contra o “perigo vermelho”: o
anticomunismo no Brasil (1917-64). Dissertação de Doutorado. História. FFLCH/USP. São Paulo. 2000.
FARIAS, Damião Duque de. Em defesa da Ordem. Aspectos da práxis conservadora católica no meio
operário em São Paulo (1930-1945). São Paulo: Hucitec, 1998. DUTRA, Eliana Regina de Freitas. “O
fantasma do outro – espectros totalitários na cena política brasileira dos anos 30.” In: Revista Brasileira
de História. V.12. n.23/24. São Paulo: ANPUH, setembro de 1991/agosto de 1992, p.125-41. CHAUI,
Marilena. “Apontamentos para uma crítia da ação integralista brasileira.” In: CHAUÍ, Marilena de S,;
FRANCO Maria Sylvia C. (orgs.). Ideologia e mobilização popular. Rio de J aneiro: CEDEC/Paz e Terra,
1978, p.17-149. RODEGUERO, Carla S. O diabo vermelho. Imaginário Anticomunista e Igreja Católica
no Rio Grande do Sul (1945-1964). Passo Fundo: Edupf, 1998. SINTONI, Evaldo. Em busca do inimigo
perdido: construção da democracia e imaginário militar no Brasil (1930-64). Araraquara:
FCL/Laboratório Editorial UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica Editora, 1999.
4
MARIANI, B. O PCB e a imprensa. Os comunistas no imaginário dos jornais 1922-1989. Rio de
J aneiro: Revan; Campinas: Unicamp, 1998.

O “ COMUNISMO CABOCLO” E A “ KU-KLUX-KLAN INDÍGENA” :
O EMBATE ENTRE ANTI-REFORMISTAS E REFORMISTAS NOS JORNAIS
DIÁRIO DO PARANÁ E ÚLTIMA HORA, 1961-1964.

Andrea Beatriz Wozniak Giménez
Universidade Federal do Paraná
Mestranda em História



Durante o período de 1945 a 1964 a sociedade brasileira converteu-se em
espaço aberto para o debate e para a discussão de propostas de desenvolvimento e
de soluções para as crises e os conflitos sociais brasileiros. Gradações diferenciadas
de revolucionários, reformistas, revisionistas e anti-reformistas travaram debates na
sociedade apresentando propostas distintas e compondo movimentos sócio-políticos.
Uma utopia reformista e nacionalista mobilizou expressivos segmentos da
sociedade brasileira até as portas do Golpe Militar de 1964. J orge Ferreira ressalta
que “não seria exagero afirmar que, na década de 1950, surgiu na sociedade brasileira
uma geração de homens e mulheres que, partilhando de idéias, crenças e
representações, acreditou que no nacionalismo, na defesa da soberania nacional, nas
reformas das estruturas sócio-econômicas do país, na ampliação dos direitos sociais
dos trabalhadores do campo e da cidade, entre outras demandas materiais e
simbólicas, encontrariam os meios necessários para alcançar o real desenvolvimento
do país e o efetivo bem-estar da sociedade.”
1
Diferentes grupos, movimentos ou
partidos políticos com propostas não menos matizadas se engajaram nesta utopia
reformista e nacionalista: grande parte dos integrantes do Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB), integrantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), sindicatos, a
União Nacional dos Estudantes (UNE), setores católicos progressistas, entre outros.
Lucília de Almeida Neves destaca que a ênfase nacionalista e distributivista
caracterizou-se como fator constitutivo da identidade entre grupos diferenciados.
2
De outro lado tal utopia não deixou de causar dissabores e levantar
desconfiança de investidores internacionais, de setores do capital nacional, de
proprietários rurais, correntes do pensamento conservador católico, militares
relacionados à Escola Superior de Guerra, integrantes de partidos como a União
Democrática Nacional (UDN) e o Partido Republicano (PR), entre outros. Partindo de
uma perspectiva antiestatista e antinacionalista, alguns desses grupos tinham como
proposta de sociedade a continuidade da internacionalização da economia e da
implementação de programas econômicos liberais como “reais pressupostos de

progresso e de modernização”.
3
O clima da Guerra Fria, com a intensificação de
relações econômicas e trocas culturais entre EUA e Brasil, colaborou na polarização
entre reformistas e anti-reformistas.
Na primeira metade da década de 60, principalmente durante o Governo
Goulart, os embates acirraram-se e explicitaram-se em diversas instâncias da
sociedade. O discurso nacionalista e reformista pode ser considerado tanto o principal
elo aglutinador quanto o divisor de águas entre os vários grupos da sociedade
brasileira. De um lado os reformistas clamando por reformas estruturais – as “reformas
de base”; de outro os anti-reformistas defendendo a intocabilidade da “ordem”, da
“Pátria”, da “democracia”, da “liberdade”, da “propriedade”, da “família” e dos “valores
ocidentais-cristãos”. Os grupos reformistas e nacionalistas e suas práticas sociais
foram envoltos em representações e discursos anticomunistas com grande capacidade
mobilizadora de ações e sentimentos e que tiveram forte ressonância no imaginário
social da época.
4

O embate entre reformistas e anti-reformistas pode ser percebido através da
imprensa, um dos palcos privilegiados de discussões, discursos e representações. Os
jornais curitibanos Diário do Paraná e Última Hora circularam em meio a este contexto
polarizado, colocando-se como filiais de cadeias nacionais de comunicação – a Cadeia
dos Diários Associados e a Rede Nacional Última Hora. Através de suas páginas o
embate entre reformistas e anti-reformistas pode ser percebido tanto no nível do
discurso quanto no das representações.
Maria Helena Capelato analisando a imprensa, ressalta que “sua existência é
fruto de determinadas práticas de uma época”.
5
Para o uso da imprensa como fonte de
análise histórica, sua produção deve ser compreendida a partir da posição social
ocupada pelo periódico, também a partir da ideologia de seus grupos de relação e do
contexto social e histórico vivido. O que aparece expresso nas páginas do jornais são
representações do mundo social determinadas pelos interesses do grupo que as
forjam.
6
Bethânia Mariani ressalta que “a produção de sentidos na notícia dos fatos se
realiza a partir de um jogo de influências em que atuam impressões dos próprios
jornalistas (eles também sujeitos históricos), dos leitores e da linha política dominante
no jornal.”
7
A sucursal do jornal Última Hora em Curitiba pode ser pensada a partir de sua
ligação à rede nacional Última Hora, fundada pelo jornalista Samuel Wainer, em 1951,
em apoio ao trabalhismo. Seus editoriais e principais colunas políticas trouxeram
recorrentemente grupos e personagens engajados na utopia reformista e nacionalista:
J oão Goulart e seus ministros, deputados do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), a
União Nacional dos Estudantes (UNE), a Central Geral dos Trabalhadores (CGT), as

Ligas Camponesas, etc. Parte de suas matérias, colunas específicas e editoriais eram
da agência nacional Última Hora, ficando sob os cuidados da filial os assuntos
regionais. As informações internacionais provinham das agências Fance Press (FP) e
da United Press Internacional (UPI). As “reformas de base” e os movimentos sociais,
camponeses ou urbanos, também recebiam relevo em suas páginas. Além disso, o
jornal apoiava à “autodeterminação dos povos” e os países “não-alinhados”, e
denunciava os movimentos e articulações de grupos anti-reformistas.
J á o jornal Diário do Paraná tem a sua posição sócio-histórica relacionada à
Cadeia Nacional dos Diários Associados, a qual encontrava-se afiliado. Os Diários
Associados eram de propriedade de Assis Chateaubriand no período de 1920-1945.
Na década de 60, converteu-se num grupo com rede nacional, possuindo larga cadeia
de jornais e emissoras de rádio e televisão, relacionado ao grupo IPES/IBAD (Instituto
de Pesquisa e Estudos Sociais/ Instituto Brasileiro de Ação Democrática), um dos
principais centros de oposição ao Governo Goulart e ao reformismo e nacionalismo da
época.
8
A agência Meridional, pertencente ao mesmo grupo, era a sua produtora e
divulgadora central de notícias nacionais, e a United Press Internacional (UPI) de
informações internacionais. Em suas notícias e principais editoriais receberam
destaque: Carlos Lacerda
9
, Adhemar de Barros
10
, Bilac Pinto, J oão Calmon
11
, Plínio
Salgado
12
, entre outros. Seu principal colunista foi Assis Chateaubriand possuidor de
forte vínculo com as teses defendidas pela UDN.
Entre as principais metas do jornal estava a “defesa do regime, das instituições
democráticas, da família brasileira e da moral cristã”. Além disso, entre suas
abordagens centrais para as questões nacionais e internacionais, seu posicionamento
era favorável aos Estados Unidos. Nas páginas do Diário do Paraná circularam ondas
de boatos nacionais envolvendo o Governo Goulart e os grupos e personalidades
nacional-reformistas durante toda a primeira metade da década de 60. A partir de
colunistas ou personagens acima citados, várias representações e discursos
anticomunistas enredaram as perspectivas e os grupos reformistas e nacionalistas.
Durante o período Goulart, período de crise político-institucional e de contexto
de bipolarização mundial, percebe-se uma efervescência de representações e mitos
políticos nas páginas da imprensa tanto reformista quanto, e principalmente, anti-
reformista. Raoul Girardet ressalta que nos períodos críticos de uma sociedade, onde
ocorrem situações de vacuidade, de inquietação, angústia e contestação, os mitos
políticos ganham maior força.
13
Todas as sociedades possuem seus mitos coletivos,
quer relacionados à melhor época, ao líder ideal ou aos inimigos. Para além da
atuação de diversos grupos de esquerda e da efervescência de movimentos sociais
urbanos e rurais, pode-se destacar o papel de mito político desempenhado pelo

comunismo na sociedade brasileira após o período de redemocratização,
principalmente para segmentos relacionados ao anti-reformismo – seus projetos de
sociedade e suas representações.

O embate entre reformistas e anti-reformistas no nível das representações
através dos jornais Última Hora e Diário do Parná

As perspectivas político-econômicas e as propostas para o desenvolvimento e
para a solução dos problemas sociais brasileiros estiveram no centro de conformação
do embate.
14
T O que se pode perceber, é que a partir da manipulação de
representações positivas ou negativas sobre temas ou eventos, personalidades,
discursos e práticas políticas, o próprio espaço simbólico do poder encontrava-se em
disputa. Remetendo-se às reflexões de Pierre Ansart, os grupos reformistas e anti-
reformistas colocaram em prática um duplo raciocínio de validação/invalidação de
sistema de poder.
15
O posicionamento frente às reformas, o tratamento entregue a
personalidades representativas de cada perspectiva e mesmo a recorrência de
circulação de possíveis golpes advindos do grupo opositor, entregam visibilidade para
tal embate no nível das representações.
Em meio às diferenças existentes entre os termos revolução, reforma e revisão,
a reforma agrária era tratada no jornal Diário do Paraná
16
como “socializante” no
sentido confiscatório e “anticristã”, assim o periódico angustiava-se por uma
“organização agrária sem comunismo” (DPr, 30/08/61, p.2) e para isto enunciava o
“revisionismo agrário” (DPr, 17/06/61). Para o jornal os participantes dos movimentos
no campo, principalmente das Ligas Camponesas, eram “agitadores vermelhos”
preando-se de “guerrilhas de acordo com exemplos cubanos e chineses” (DPr,
10/10/61, p.1).
J á no jornal Última Hora
17
, as reformas eram retratadas como “democráticas” e
dentro da “legalidade”, não podendo ser confundidas com “comunismo”. Elas eram
defendidas como forma de solução dos problemas brasileiros pois, utilizando-se das
palavras de Goulart, “sem mudar a estrutura atual não venceremos o
subdesenvolvimento” (Goulart, UH, 19/12/63, p.1). Assim, as reformas recebiam a
chave da salvação de uma “revolução social” no país (UH, 19/08/61, p.1). As Ligas
Camponesas, representantes da luta pela reforma agrária, eram colocadas como
“defensoras de 40 milhões de escravos” (F. J ulião, UH, 07/07/61). Percebe-se também
a existência de preocupações quanto a “revoluções sociais” no orgão reformista,
entretanto o que se apreendia por esta era completamente diferente da perspectiva
anti-reformista.

A figura de J oão Goulart foi um dos principais alvos de representações. Desde
que chegou à Presidência da República, com a Renúncia de J ânio Quadros em agosto
de 1961, o Diário do Paraná entregou-lhe representações negativas: “O sr. João
Goulart constituir-se-á sem dúvida alguma, no mais evidente incentivo a todos aqueles
que desejam ver o País mergulhado no caos, na anarquia e na luta civil” (DPr,
31/08/61, p.1). Goulart foi representado por este jornal como “aprendiz de Vargas”,
“galo de crista rubra” (DPr, 06/08/63, p.2), “presidente vermelho” (DPr, 05/03/64, p.2),
possuidor de “postura comunista” (DPr, 06/08/63, p.2) que era retirada das “rezas pela
cartilha vermelha”, subdividida em “cartilha de tártaros e mongóis”, “cartilha do
fidelismo” e “cartilha marxista” (27/03/64, p.2). Goulart estaria tentando fazer da “Pátria
uma caricatura imunda de Cuba” (DPr, 06/08/63, p.2), já que possuía diretas ligações
com o “banditismo fidelista” (DPr, 08/08/63, p.1). Ele era o campeão da “anti-
democracia” (DPr, 12/01/64, p.3), sendo comparado a um “golpista” (DPr, 23/01/64,
p.1) pois era contra a Constituição (DPr, 25/01/64, p.2). Seu governo era representado
como “patológico”, tendo se revelado desde o início “cannestro e calamitoso”. J ango
teria sido o primeiro a contrair “vermelhite” e, enfermo, teria transmitido a moléstia a
tudo o que de sadio existia no país. Seus “mestres em transfusão” eram Havana,
Moscou e Pequim (DPr, 05/04/64, p.2) e até mesmo sua suprema corte já havia
passado por uma “serena bolchevização” (DPr, 06/08/63, p.2).
No J ornal Última Hora, Goulart era retratado como o grande “líder trabalhista”,
“patriota”, “digno de estar à altura do Brasil” (UH, 06/09/61, p.4) e colocado entre os
principais estadistas mundiais (UH, 01/05/62, p.3), pois encontrava-se lutando contra o
subdesenvolvimento e o colonialismo (UH, 08/09/61, p.1), pelas “reformas de base” e
pela manutenção da “democracia” e da “legalidade”.
Enquanto líderes trabalhistas foram envoltos em representações
anticomunistas no Diário do Paraná, como o caso de Leonel Brizola chamado de “Fidel
de Bombachas” e “tonitroante revolucionário” (DPr, 26/05/62, p.2), e juntamente com
Miguel Arraes e o Deputado Francisco J ulião foram acusados de “relações sinistras
com os comunistas” (DPr, 09/10/63, p.3, 29/01/64, p.2 e DPr, 02/02/64, p.2) o Última
Hora demonizou personagens caras ao anti-reformismo como Plínio Salgado,
Adhemar de Barros e Carlos Lacerda. Lacerda foi o mais representado: “o corvo”, o
“matamendigo”, o “antinacional” (UH, 31/10/63, p.2), “sempre o mesmo” (UH,
03/10/63), o “Hitler caboclo” (UH, 11/03/64 p.4), o “mau-brasileiro”, o “traidor” (UH,
22/10/63, p.1), “Füher” (UH, 05/03/64, p.4), o “antipovo feito de carne” (UH, 13/02/64,
p.4), etc. J á o Movimento Anticomunista (MAC) era representado como a “Ku-Klux-
Klan indígena” (UH, 29/03/62, p.3).

Através das representações difundidas pelo Diário do Paraná o contexto
político-social brasileiro, no qual vários grupos mobilizavam-se em prol das reformas
sociais, era transformado em clima de revolução comunista. Para a linha editorial do
jornal a “infiltração comunista encontrava-se disseminada em todos os setores da vida
nacional” (DPr, 22/11/61, P.3) buscando sufocar às “liberdades democráticas
individuais”. Os “agitadores comunistas” insuflavam a invasão de terras e de engenhos
(DPr, 14/08/63), infiltravam-se na imprensa (DPr, 26/01/64), no movimento dos
comerciantes (DPr, 14/07/63), nos meios trabalhadores e estudantis (DPr, 11/11/61,
p.3), entre os quais a UNE encontrava-se movimentando “milhões e financiando a
subversão no país” (DPr, 23/08/63, p.4). Para o jornal os comunistas pretendiam
“escravizar o homem e iludir o povo com a miragem marxista”(DPr, 24/06/62, p.2).
Assim, sua grande meta estava na denúncia da “marcha revolucionária” em
andamento na sociedade brasileira (DPr, 09/11/61) e da influência de “minorias ativas
da extrema esquerda”, os “agentes da subversão”, que estariam organizados em
movimentos que forçavam a “marcha veloz do país em rumos revolucionários” (DPr,
16/12/63, p.2). O reformismo e o nacionalismo de diferentes grupos da sociedade
brasileira foi envolto em representações anticomunistas e todo um imaginário de medo
foi mobilizado.
O jornal alertava que a pátria deveria ser preservada de acordo com o recebido
dos antepassados: livre, cristã e democrática (DPr, 27/08/61, p.3). Colocava-se a
necessidade de um “rearmamento moral” como forma de endireitar o mundo e o Brasil
(DPr, 23/08/61). Através da “Revolução moral” sem derramamento de sangue, as
“instituições democráticas seriam aprimoradas”, o “capitalismo humanizado” e a
“avalanche vermelha” seria contida. Caso, esta (a revolução moral) não fosse feita, se
cairia “nas mãos dos soviéticos” e assim, também, “toda a América Latina” (DPr,
07/07/63, p.2).
O jornal Última Hora buscou defender o reformismo e o nacionalismo da
efervescência de representações anticomunistas sinalizadas por jornais anti-
reformistas como o Diário do Paraná. Em suas páginas, para além de circularem
denúncias de ações do Movimento Anticomunista e de outros grupos com a mesma
motivação, transpareceram, durante todo o Governo Goulart denúncias de golpes anti-
reformistas: “golpistas tentam impedir a posse: ‘operação mosquito’ para derrubar o
avião de Jango” (UH, 05/09/61, p.1), “conspiração dos gorilas” (UH, 28/05/62, p.1),
“ondas de boatos da direita prepara clima golpista” (UH, 18/09/63, p.2), “golpistas
voltam à guerra psicológica” (UH, 11/12/63, p.2), “oposição arma golpe do
‘impeachment’” (UH, 27/03/64, p.4), etc.

A partir de meados de 1963, com o retorno do Presidencialismo, a tentativa de
decretação de Estado de Sítio e a continuidade da pressão dos movimentos sociais, o
embate de representações entre reformistas e anti-reformistas acirrou-se. Os meses
que antecederam o Golpe Militar foram de efervescentes manifestações nos jornais.
Tanto o Comício pró reformas de base, realizado no dia 13 de março de 1964, quanto
as Marchas com Deus pela Família e Liberdade, foram representados de forma
polarizada.
No Última Hora o comício era “a primeira etapa de concretização” das
“reformas de base do presidente João Goulart” (UH, 13/03/64, p.4) e “o clima de
inquietação” que cercava o comício “nasceu do medo dos privilegiados”(UH, 13/03/64,
p.4). No Diário do Paraná a encampação das refinarias iniciada no Comício não
passava de “um golpe para a gradativa comunização do Brasil” (DPr, 18/03/64, p.2),
tendo sido “proclamada a República Sindicalista do Brasil” (DPr, 20/03/64, p.3) e,
assim, mostrava-se urgente repudiar o comunismo através das Marchas que se
seguiram e do “movimento de reação contra a comunização do País” (DPr, 01/04/64,
p.1) – instalava-se a cartada final: “a revolução vitoriosa” (DPr, 04/04/64, p.5).
Raoul Girardet destaca que o mito político é determinante e determinado,
saindo da realidade social e também sendo criado por ela
18
. Tanto as representações
anti-reformistas (anticomunistas) quanto as reformistas podem ser analisadas como
leituras imaginárias da crise social, visando dar conta desta. Ambas possuíram forte
apelo identitário, através dos símbolos coletivos que manipulavam, e do clamor por
coesão frente às propostas de sociedade que defendiam.
Girardet ressalta que o imaginário secreta um duplo legendário, um duo
antagônico com identidade estrutural que se alimenta dos mesmos fatos.
19
No jornal
anti-reformista Diário do Paraná, o contexto de manifestações populares e conflitos
sociais, resultado de transformações da estrutura da sociedade brasileira, era
representado como ameaça à ordem social reconhecida, fazendo ressonar o “perigo
comunista”. Nas páginas do Última Hora, o mesmo contexto efervescente foi retratado
a partir de representações outras, dentro da perspectiva de transformações de certas
questões político-econômicas tradicionais, e as ameaças provinham da “direita
reacionária” e seu “golpe fascista”.

Fechando esta comunicação, parte de uma pesquisa sobre o anticomunismo
ainda em andamento, mostra-se interessante ressaltar como os grupos buscaram
construir suas legitimidades a partir de alguns pontos em comum, mas com
significados sociais diferenciados como democracia e legalidade. Tanto projetos
político-econômicos encontravam-se em jogo, quanto a legitimidade de suas

construções. Paralelo ao processo de construção da legitimidade impetrado por cada
grupo, ocorreu o processo de demonização dos opositores, buscando fortalecer seu
espaço de domínio, bem como ilegitimá-lo enquanto proposta para a sociedade.
20
Pode-se pensar os jornais analisados como difusores e catalisadores do
embate entre reformistas e anti-reformistas no âmbito regional. As implicações no
regional vêm sendo pesquisadas.
Reformistas e anti-reformistas devem ser melhor compreendidos se pensados
dentro da perspectiva das paixões políticas: propulsoras de representações,
imaginários e práticas sociais. Através do embate fica patente o quanto uma proposta
político-econômica pautada no reformismo e no nacionalismo causou motivações
bastante distintas: para alguns grupos o momento era de luta pela transformação da
sociedade a partir de reformas sociais, para outros tais reformas repercutiram no medo
e fizeram tremular as bandeiras do anticomunismo, bastante difundidas em pleno
contexto de Bipolarização Mundial. A efervescência de representações anticomunistas
atreladas à utopia reformista e nacionalista e aos grupos a ela relacionados foram
importantes para legitimação e aceitação do Golpe Militar de 1964 para diversos
setores da sociedade brasileira. Salta aos olhos a força mobilizadora das
representações anticomunistas, bem como sua ressonância no imaginário social.

1
FERREIRA, J orge. O ministro que conversava: J oão Goulart no Ministério do Trabalho. Niterói, UFF,
1999 (mimeo). Citado por NEVES, Lucília de A. Trabalhismo, nacionalismo e desenvolvimentismo: um
projeto para o Brasil (1945-1964). In: FERREIRA, J orge (org.). O populismo e sua história. Rio de
J aneiro: Civilização Brasileira, 2001, p.171.
2
NEVES, Lucília de A. “Trabalhismo, nacionalismo e desenvolvimentismo: um projeto para o Brasil
(1945-1964)”. In: FERREIRA, J orge (org.). O populismo e sua história. Op.cit. p.172.
3
NEVES, Lucília de Almeida. “Frente Parlamentar Nacionalista: utopia e cidadania”. In: Revista
Brasileira de História. Vol.14. n.27. São Paulo: Marco Zero, ANPUH, 1994, p.61-71.
4
Sobre o anticomunismo no Brasil ver: MOTTA, Rodrigo P. Sá. Em guarda contra o “perigo vermelho”:
o anticomunismo no Brasil (1917-64). Dissertação de doutorado. História. FFLCH/USP. São Paulo. 2000.
5
CAPELATO, Maria H. Imprensa e História do Brasil. São Paulo: Contexto, 1988, p.21.
6
CHARTIER, Roger. A História cultural: entre práticas e representações. Rio de J aneiro: Bertrand do
Brasil, 1990, p.17.
7
MARIANI, B. O PCB e a imprensa. Os comunistas no imaginário dos jornais 1922-1989. Rio de
J aneiro: Revan; Campinas: Unicamp, 1998, p.60.
8
Sobre o complexo IPES/IBAD e as articulações de diversos grupos relacionados ao capital
multinacional-associado ver: DREIFUSS,René Armand. 1964: a conquista do Estado; Ação, Política e
Golpe de Classe. Petrópolis: Vozes, 1981.
9
Carlos Lacerda foi um dos principais críticos políticos de Getúlio Vargas e do trabalhismo na década de
50. Durante o período Goulart, como governador da Guanabara, foi um de seus principais rivais políticos.
10
Adhemar de Barros, líder político paulista, era governador de São Paulo na primeira metade da década
de 60 e também colocou-se na frente de oposição ao Governo Goulart.
11
Bilac Pinto foi presidete nacional da União Democrática Nacional (UDN), um partido de cunho
conservador, durante toda a primeira metade da década de 60. J oão Calmon foi vice-presidente da UDN.
12
Plínio Salgado foi um dos líderes do integralismo da década de 30, de cunho fascista. Após a
redemocratização tornou-se o presidente nacional do Partido de Representação Popular (PRP) e
retomou,entre outros várias de suas teses autoritárias. Foi eleito deputado federal pelo Estado do Paraná e
foi o candidato a presidente mais votado na eleição que elegeu J ucelino Kubitschek. Ver: SVARÇA,


Décio R.; CIDADE, Maria L. 1955: o Voto “verde” em Curitiba. História: Questões & Debates, n.10,
junho-dezembro 1989, p.181-211.
13
GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias politicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
14
Para melhor compreender o período de 1961-64 e os posicionamentos divergentes entre os diferentes
grupos da sociedade brasileira ver: REIS Filho, Daniel Aarão. “O colapso do colapso do populismo ou a
propósito de uma herança maldita.” In: FERREIRA, J orge (org.). O populismo e sua história. Op.cit.
15
ANSART, Pierre. Ideologias, conflitos e poder. Rio de J aneiro: Zahar editores, 1978.
16
Para facilitar a compreensão e a dinamicidade do texto as citações referentes ao Diário do Paraná serão
tratadas por DPr e estarão inseridas no corpo do trabalho.
17
Para facilitar a compreensão e a dinamicidade do texto as citações referentes ao Última Hora serão
tratadas por UH e estarão inseridas no corpo do trabalho.
18
GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias politicas. Op.cit. p,180.
19
Idem.
20
Sobre fudamentação para a luta político-ideológica e para o processo de legitimação/ilegitimação ver:
ANSART, Pierre. Ideologias, conflitos e poder. Op.cit.


Ora et Labora e o tempo do relógio

Andréa Mazurok Schactae
1




Este texto foi pensando a partir da minha dissertação de mestrado, cujo título
é: “O canto dos monges no silêncio do bosque: práticas representam o ser monge
beneditino no Mosteiro da Ressurreição”, e que está em processo de redação.
Como historiadores os objetos de nossas pesquisas são construídos temporal
e espacialmente. Porém essa construção não é uma tarefa simples se identificarmos
que o “tempo” e o “espaço” não existe a priori, mas são construções sociais, cujos
significados estão relacionados ao grupo ou a sociedade que os forjaram. Todavia
este texto aborda a questão do “tempo”.
O objetivo é identificar o “tempo” descrito na Regra de Bento
2
, escrita no
século VI, por um monge chamado Bento, que fundou um mosteiro próximo a Roma.
Para se descrever o “tempo” expresso na Regra, o qual marcou o dia a dia dos
monges que a adotaram como norma de orientação de vida religiosa, é necessário
relacioná-lo a cultura
3
.
Identificar o tempo como uma construção social, nos leva a admitir que no
século VI coexistiram uma multiplicidade de ritmos temporais, que eram
representações construídas socialmente
4
com a finalidade de se medir e ritmar
acontecimentos sociais e naturais. Desta foram o tempo só pode ser pensado em
relação um grupo ou uma sociedade que o utiliza. O tempo dentro de uma fábrica é
diferente do da natureza e do dia a dia de um mosteiro.
O relógio não mede o tempo. Ele é um instrumento composto por símbolos que
só têm significado para quem apreendeu a decifrá-los.
5
E o que ele mede são os
acontecimentos.
6

Para entendermos uma representação do tempo é necessário relacionar os
padrões de medidas que a compõe a cultura do grupo que a utiliza como referência,
7

pois as representações são construções sociais, expressas em práticas que fazem
parte da realidade do grupo ou da sociedade que a forjou.
8
Desta forma, passado,
presente e futuro são representações, cujo significado esta relacionado a quem as
usa. Todavia, as construções sociais são forjadas “a partir de um patrimônio de saber
já adquirido,(...)”.
9
Os indivíduos em seus grupos se apropriam de representações
existentes e constróem algo diferente.
10



O tempo na Regra de Bento (séc. VI)
Ao estudar a Regra de Bento
11
, conhecida como Regra de São Bento, é
possível identificar uma representação do tempo. Quando a Regra passou a ser
obrigatória em todos os mosteiros da Europa no século IX, a partir de uma reforma na
instituição monástica iniciada por Luís, o Piedoso
12
, essa forma de representação do
tempo passou a ser praticada por todos os monges e também marcou o tempo de
habitantes que viviam nas proximidades dos mosteiros. Segundo Le Goff, na Idade
Média era o toque do sino, que antecedia o início de cada momento de oração dentro
dos mosteiros, que marcava o tempo do trabalho e o tempo da oração, no campo e na
cidade.
13

Bento forjou uma forma de marcar as atividades dentro do mosteiro fundado
por ele a partir de uma herança cultural já existente, pois na Idade Média havia uma
multiplicidade de “tempos”, pertencentes a diferentes grupos, por exemplo o tempo da
Igreja, o do mercador, o da natureza. Não havia uma homogeneidade na
representação do tempo.
14
Apropriando-se de diferentes representações ele descreveu em sua Regra
uma representação do tempo, identificada por momentos de oração e trabalho, o Ora
et Labora da tradição beneditina. Essa representação estava relacionada a natureza, o
nascer e o pôr do sol, o inverno e o verão, o tempo do cultivo da terra; e o tempo
sagrado
15
cristão, o tempo da Igreja.
O tempo de oração era marcado pelos Ofícios Divinos, Matinas, Primas, Terça,
Sexta, Noa, Vésperas, Completas e as Vigílias noturnas, realizadas durante a
madrugada. “Em tempo de inverno [escreveu Bento], isto é, de primeiro de novembro
até a Páscoa, em consideração ao que é razoável, devem os monges levantar-se à
oitava hora da noite, [entre 2 e 3 horas, segundo o atual modo de marcar as
horas](...)”.
16
Todavia o dia e a noite para Bento tinham duração de 12 horas, a hora
sexta correspondia ao meio dia e a meia noite. “Ao pôr do sol começa pois a primeira
hora da noite e ao raiar do dia a sua primeira hora”.
17
O verão ia da Páscoa até
primeiro de novembro. Porém a oração de Matinas era rezada sempre quando o dia
começava a clarear, após o Ofício Vigílias. Mas além de orar os monges precisavam
trabalhar, pois naquela o Ocidente estava abalado pela peste e pelas invasões
bárbaras. Entre os anos de 568 e 572 a maior parte da atual Itália foi conquistada
pelos Lombardos. Sendo assim, o trabalho era um necessidade de sobrevivência,
além do mais Bento escreveu:

“a ociosidade é inimiga da alma; por isso em certas horas devem ocupar-se
os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com leitura espiritual.
Pela seguinte disposição, cremos poder ordenar os tempos dessas duas

ocupações: isto é, que da Páscoa até 14 de setembro, saindo os irmãos
pela manhã trabalhem da primeira hora até cerca da quarta, naquilo que for
necessário. Da hora quarta até mais ou menos o princípio da hora sexta,
entreguem-se à leitura. Depois da sexta, levantando-se da mesa, repousem
em seus leitos com todo o silêncio; se acaso alguém quiser ler, leia para si,
de modo que não incomode a outro. Celebrem-se a Noa mais cedo, pelo
fim da oitava hora [por volta das 14 h], e de novo trabalhem no que for
preciso fazer até a tarde”.
18


A duração dos dias variavam do inverno para o verão, tendo em vista que
no verão o dia amanhecia mais cedo e terminava mais tarde, ao contrário do inverno.
Desta forma os tempos dedicados a oração e ao trabalho também variavam. No verão
eles trabalhavam pela manhã e pela tarde. No inverno trabalhavam da manhã até a
tarde, sem pararem para a refeição. Além do mais, ele escreveu:

“De 14 de setembro até o início da Quaresma, entreguem-se à leitura até o
fim da hora segunda, no fim da qual se celebrem a Terça; e até a hora
nona [por volta das 15h] trabalhem todos nos seus afazeres que lhes forem
designados. Dado o primeiro sinal [o toque do sino] da nona hora, deixem
todos os seus respectivos trabalhos e preparem-se para quando tocar o
sinal. Depois da refeição, entreguem-se às suas leitura ou aos salmos.”
19


Além do trabalho manual o trabalho intelectual era um preocupação de
Bento. Sendo assim parte do tempo era dedicada a leitura, e assim ele escreveu:

“Nos dias de Quaresma, porém, da manhã até o fim da hora terceira,
entreguem-se às leitura, e até o fim da décima hora trabalhem no que for
designado. Nesses dias de Quaresma recebam todos respectivamente
livros da biblioteca e leiam-se pela ordem e por inteiro”.
20


O domingo era um dia dedicado ao estudo. Todos deveriam se entregar a
leitura, exceto aqueles que fossem designados para realização de trabalhos manuais
que não poderiam deixar de ser realizados.
21
Sendo assim, escreveu Bento:

“De 14 de setembro até o início da Quaresma façam a refeição sempre à
hora nona. Durante a Quaresma, entretanto, até a Páscoa façam-na à hora
de Vésperas. Sejam essas celebradas de tal modo, que tudo esteja
terminado com a luz do dia. E mesmo em todas as épocas esteja tanto a
hora da ceia como a do jantar de tal modo disposta, que tudo se faça sob a
luz do dia.”
22


Após a quaresma, da Páscoa até Pentecostes [quarenta dias depois da
Páscoa], Bento recomendava duas refeições, a primeira pela hora sexta (jantar) e
outra à tarde (ceia). Com relação ao número e o horário de alimentação ele procurou
relacionar o tempo religioso dedicado ao jejum e o tempo dos trabalhos nos campos.

Devemos consideram que até a Páscoa era o tempo da quaresma no qual os monges
se dedicavam ao jejum. Todavia, escreveu ele:

“a partir de pentecostes, entretanto, por todo o verão, se os monges não
têm os trabalhos dos campos ou não os perturba o excesso de verão,
jejuem quarta e sexta-feira até a hora nona; nos demais dias jantem à hora
sexta. Se tiverem trabalho nos campos ou o rigor do verão foi excessivo, o
jantar deve ser mantido à hora sexta: ao Abade cabe tomar providências. E
, assim, que tempere e disponha tudo, de modo que as almas se salvem e
que façam os irmãos, sem justa murmuração, o que têm de fazer.”
23


Desta forma Bento deixa para o superior do mosteiro (abade) decidir a hora do
jantar de acordo com que ele achar conveniente.
Segundo Le Goff, “o tempo concreto da Igreja [medieval] é adaptado da
Antigüidade, o tempo dos clérigos, ritmado pelos ofícios religiosos, pelos sinos que os
anunciam,(...),”
24
um tempo impreciso e variável. Esse era o ritmo do tempo dentro
dos mosteiros. Um tempo cíclico ditado pelo ritmo da natureza e marcado pela oração
e pelo trabalho. O tempo do trabalho no Ocidente Medieval “é o tempo de uma
economia ainda dominada pelos ritmos agrários, sem pressas, sem preocupações de
exactidão, sem inquietações e produtividade (...)”.
25

O Ora et labora era uma representação do tempo dentro do mosteiro de Bento,
que passou a ritmar o tempo religioso da sociedade medieval. Apropriando-se de um
conhecimento já existente, ele forjou um modo de ritmar o tempo de forma que a
oração e o trabalho ordenavam o dia a dia do mosteiro. Após as Completas, que era o
último Ofício do dia, os monges deveriam guardar silêncio. A noite era o tempo do
silêncio, que só seria quebrado com o toque do sino anunciando as Vigílias, que
marcavam o fim da noite. As Matinas, realizadas ao nascer do sol, marcavam o início
de outro dia de oração e trabalho.

O tempo no Mosteiro da Ressurreição (séc. XX)
O Mosteiro da Ressurreição, foi fundado em 1981, em Ponta Grossa, Paraná,
por um grupo que saiu do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção, o qual faz parte
da Congregação Beneditina do Brasil
26
. Inicialmente os monges beneditinos instaram-
se em Vila Velha. Em 1983 compraram 7 alqueires de terra na Colônia Eurídice, área
rural e passaram a construir o mosteiro definitivo para onde mudaram em 1985.
Um mosteiro rural onde os monges adaptaram o tempo da Regra ao tempo do
relógio. Da relação entre essa duas formas de representar o tempo, surgiu o tempo
vivido dentro do mosteiro, marcado pelos sete Ofícios Divinos e pelo trabalho, mas
também pelo relógio.

Na década de 1990 os monges acordavam por volta das 04h35 da manhã
quando o sino soava pela primeira vez e anunciava que em dez minutos seria iniciado
o Ofício de Vigílias. Porém nos sábados e domingos o sino soava mais tarde, às 5h10.
No decorrer do dia eram realizados os outros Ofícios, mais a Missa e o “lectio divina”
(leitura meditada da Bíblia) realizada entre Vigílias e Laudes. Após Laudes eles faziam
a refeição da manhã e a limpeza da cozinha. Em seguida vinha o Ofício de Tercia.
Terminando este Ofício os monges trabalhavam até às 12h, às 12h20 o sino soava
para o Ofício de Sexta. Em seguir eles almoçavam, lavavam a louça e descasavam
até o toque do sino às 14h20, anunciando o Ofício de Noa. Em seguida, às 15h eles
retomavam seus trabalhos, sejam estes manuais ou intelectuais (estudos, traduções),
os quais eram realizados até às 17h. No final da tarde, o Ofício de Vésperas marcava
o início da noite, com o fim deste ofício o jantar era servido. O Ofício de Completas era
o último antes do descanso noturno e o sino soava exatamente na hora do seu início.
O término deste Ofício anunciava o grande silêncio que terminava após o Ofício de
Laudes.
Sendo assim o dia a dia dos monges seguia os seguintes horários:


Ofícios
Divinos
Segunda a
Sexta
Sábado Domingo
Vigílias

4:45 5:20 5:20

Laudes c/
Missa
6:00 7:00

7:00 Laudes
10:00 Missa
Tercia

8:30 8:30 c/ Sexta
Sexta

12:30 12:00 12:00

Noa 14:30

14:30 14:30

Vésperas 18:30 17:00 17:00


Completas

20:00 19:00 19:00
27


A representação do tempo para os monge do Mosteiro da Ressurreição, a
partir dessa descrição pode ser identificada como uma relação entre o tempo da Regra
e o tempo do relógio. Um “diálogo” entre duas representações levou a construção de
uma diferente forma de se representar o tempo, pois o tempo do relógio marca o início
dos Ofícios e o ritmo da natureza, com suas estações que tornam o dia mais logo e a
noite mais curta ou vice-versa, não alteram mais o momento do dia de realização dos
Ofícios.
Não é mais o ritmo da natureza, mas o tempo do relógio que marca o inicio dos
Ofícios Divinos no Mosteiro da Ressurreição. Eles usaram o relógio porque é esta a
forma de marcar o tempo que predomina na época em que vivem. Um tempo preciso e
abstrato, desvinculado da natureza e do sagrado. Todavia o ritmo do Ora et labora que
dá significado ao dia a dia dos monges e é um elemento de reconhecimento o ser
monge beneditino, assim como o Ofício Divino torna o tempo vivido por eles sagrado.


1
Mestranda em História pela Universidade Federal do Paraná.
2
Foi utilizada neste artigo a tradução da Regra de Bento de ENOUT, D. J oão Evangelista. A Regra de
São Bento: latim-português. 2a. ed. Rio de J aneiro: Lumen Christi, 1992.
3
Segundo C. Geertz, “(...) a cultura consiste em estruturas de significado socialmente estabelecidas, (...).
Como um sistema entrelaçado de signos interpretáveis (o qual eu chamaria símbolos, ignorando as
utilizações provinciais), a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os
acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos, ela é o contexto, algo dentro
do qual eles podem ser descritos (...).” GERRTZ, Cliofrd. A interpretação das culturas. Rio de J aneiro:
Zahar, 1978, p. 24.
4
ELIAS, Norbert. Sobre o tempo. Rio de J aneiro: J orge Zahar Editor, 1998, p.15.
5
ELIAS, Op. Cit., p.16.
6
ELIAS, Op. Cit., p.8-9.
7
ELIAS, Op. Cit., p.40.
8
CHARTIER, Roger. Por uma sociologia histórica das práticas culturais. In: _____ . A história cultural:
entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990, p.17.
9
ELIAS, Op. Cit., p.10.
10
“A apropriação, tal como entendemos, tem por objetivo uma história social das interpretações,
remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais, institucionais, culturais) e inscritas
nas práticas específicas que as produzem.” CHARTIER, Op. Cit., p. 26.
11
As Regra de São Basílio, do Mestre, de Cassiano, são anterior a Regra de Bento. Porém a Regra do
Mestre foi a base para a obra de São Bento. Ver J EAN-NESMY, Claude. São Bento e a vida
monástica: mestres espirituais. Rio de J aneiro: Agir, 1962. DELUMEAU, J ean. O Monaquismo. In:
_____ . De Religiões e de Homens. São Paulo: Loyola, 2000, p.177-184.
12
AMANN, Emile; DUMAS, Auguste. La reforma monástica. In: _____ . Historia de la iglesia : el
orden feudal. Valência, España: Edicep, 1975, p. 335-360, p. 335.
13
LE GOFF, J acques. Tempo e Trabalho. In: Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho
e cultura no ocidente. Lisboa: Estampa, 1980, p. 17-133, p. 63.
14
LE GOFF, Op. Cit., p.55.
15
BERGER, Peter L. O Dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo:
Paulus, 1985. “ (...). Por sagrado entende-se aqui uma qualidade de poder misterioso e temeroso, distinto


do homem e todavia relacionado com ele, que se acredita residir em certos objetos da experiência. (...) . O
sagrado é apreendido como algo que ‘salta para fora’ das rotinas normais do dia a dia, (...). As rotinas da
vida cotidiana são profanas a não ser que, por assim dizer, se prove o contrário, caso em que se admite
que estão impregnados, de um modo ou de outro, de poder sagrado (...) [como o tempo sagrado e o
trabalho sagrado]”.p. 38-39.
16
REGRA DE SÃO BENTO, cap. 8, p.49.
17
ENOUT, Regra de ..., p. 164, nota 2 do capítulo 8.
18
REGRA DE SÃO BENTO, cap. 48, p.103.
19
REGRA DE SÃO BENTO, cap. 48, p.103.
20
REGRA DE SÃO BENTO, cap. 48, p. 103-105.
21
REGRA DE SÃO BENTO, cap. 48, p.105.
22
REGRA DE SÃO BENTO, cap. 41, p.93.
23
REGRA DE SÃO BENTO, cap. 41, p.93.
24
LE GOFF, op. cit. p. 53.
25
LE GOFF, op. cit. p. 62.
26
Os beneditinos chegaram no Brasil, vindos de Portugal, em 1582 e desembarcaram em Salvador na
Bahia, onde fundaram o primeiro mosteiro. Por volta do ano de 1586, foi fundado o Mosteiro de S. Bento
em Olinda. Em 1593 foi fundado o Mosteiro de N. Senhora de Montserrat, no Rio de J aneiro e em 1598 o
Mosteiro de Nossa Senhora de Assunção, em S. Paulo. Esses foram os primeiros mosteiros beneditinos
fundados na América. Entre 1582 e 1827 os mosteiros beneditinos fundados no Brasil constituíam a
Província de S. Bento do Brasil, pertencente a Congregação Beneditina de Portugal. Em 1827 o Papa
Leão XII assinou a Bula “Inter gravissimas curas”, criando a Congregação Beneditina do Brasil e os
mosteiros do Brasil passaram a constituir uma Congregação própria e independente. Ver: ENDRES, J osé
Lohr. A Ordem de São Bento no Brasil quando Província: 1582-1827. Salvador, Bahia: Editora
Beneditina, 1980. LUNA, J oaquim G. de. Os beneditinos no Brasil. Rio de J aneiro: Lumen Christi,
1947.
27
Mosteiro da Ressurreição de PG é destaque em todo o país. Jornal da Manhã, Ponta Grossa, 24 de
dez. de 1994. Caderno. 1, p. A-6. Esses horários sofrem alterações nos “dias livres” e nos “dias de
deserto”.
A (des) construção do discurso liberal

Andréa Wosniak
Ederson Prestes
Jefferson Goll
Viviane Zeni Leão



Procurando abordar alguns aspectos da política paranaense das décadas de
80 e 90 focalizamos nossa análise no pensamento difundido pelo Instituto Liberal do
Paraná. Esta instituição por durante 10 anos divulgou o liberalismo no Estado
utilizando para isso diversos meios: jornais, revistas, palestras e entrevistas.
Uma das revistas utilizadas foi DIREÇÃO: O PARANÁ NO RUMO CERTO.
Esta revista de publicação mensal teve entre seus articulistas ex-diretores e ex-
presidentes do Instituto.
Lançada em abril de 1997, esta revista abordou temas ligados à política, com
especial atenção aos feitos realizados pela equipe ligada a Cassio Taniguchi e J aime
Lerner. Circulando gratuitamente mas de forma direcionada a Direção era
encaminhada a empresários, associações de classe, professores e universitários,
enfim, formadores de opinião de grande parte dos municípios paranaenses. Nos dois
primeiros anos de circulação chegou à marca de 900.000 exemplares, o que em
termos do Paraná é um número considerável.
Com seu lançamento realizado em 1997, a Direção buscou ocupar um
importante espaço político ao longo daquele ano e de 1998, quando ocorreram
eleições para governadores de estado e a presidente da República. Nesse sentido a
Direção foi uma ferramenta de propaganda que conseguiu concentrar alta tecnologia,
excelente qualidade gráfica e nomes conhecidos da imprensa e da política
paranaense.
É importante lembrar que tanto no caso paranaense quanto no plano nacional
havia candidatos que buscavam a reeleição tendo como base de campanha as
transformações oriunda do pensamento liberal, as chamadas reformas liberais: J aime
Lerner e Fernando Henrique Cardoso. Durante o primeiro mandato já haviam sido
aplicadas várias medidas do receituário liberal:
Privatização de estradas e empresas estatais;
Corte de pessoal e gastos com funcionalismo;
Incentivos fiscais a empresas, em especial multinacionais.
Quebra de monopólios;
Entre outras medidas conhecidas.

Entre os vários artigos analisamos aqueles de responsabilidade do Instituto
veiculados entre abril de 1997 e o segundo semestre de 1998, num total de 17 artigos.
Dentre os vários aspectos que se destacam nesse discurso é a formação
maniqueísta de mundo utilizada para representar a oposição entre liberalismo e
socialismo e a demonização da intervenção estatal. Utilizando-se de uma prática
comum nos discursos religiosos os liberais constroem um mundo em que há apenas
dois planos possíveis: o céu representado pelo liberalismo e o inferno caracterizado
pelo socialismo/intervencionismo.
Certamente não é possível esperar um posicionamento muito diferente deste
em se tratando de liberais que assumem o posicionamento do ponto de vista
profissional e ideológico. Porém o nível de comparações e a forma pela qual é
realizada a crítica já no final da década de 90 é que se destaca. Durante grande parte
da década de 90 o liberalismo pode ser considerado quase como modelo econômico
hegemônico, o que descartaria ataques tão severos às idéias socialistas de cunho
social mais comum em décadas anteriores.
A partir dessa construção de mundo o socialismo é apresentado como um
sistema artificial de organização social, oriundo do pensamento inconsequente de
intelectuais ou pseudo-intelectuais. Segundo um dos fundadores do instituto, “o
socialismo há 40 anos parecia ser uma obra de arte em termos doutrinários,
capaz de resolver via Estado, todos os problemas do cidadão...” (Direção,nº12,
pg.72). Ainda neste mesmo artigo o autor conclui que “Culpa ou glória dos
intelectuais que com objetivo de criar um mundo melhor para todos os cidadão
acertam ou se equivocam provocando prejuízos e sofrimento para um povo
durante décadas e não são punidos....”
Num outro artigo intitulado Neocapitalismo cubano, um outro ex-presidente do
Instituto, critica o que chama de preconceito católico contra os ricos...”ilusão da
igualdade continua sendo sedutora mesmo que seja na pobreza geral. A ação
sugerida pela igreja é o controle social do mercado, em nome do bem comum” ...
E conclui em seu artigo que..
“ A globalização não é um fenômeno diabólico, como muitos querem fazer
parecer” ... (Direção, nº 10 pg.14/15)

Esses são alguns exemplos da forma negativa pela qual é apresentada
qualquer idéia ou pensamento ligado ao socialismo ou controle de mercados. Se
pensarmos que os candidatos a cargos públicos nas eleições de 1998 defensores
dessa proposta (liberalização de mercados) conseguiram a reeleição ainda no 1º turno
é possível crer que a circulação destes artigos de forma ampla e gratuita possa ter
contribuído de forma “eficiente” para que fosse possível esse resultado nas urnas.
Deixo claro também que nesse sentido uma verificação mais profunda da penetração
desse revista pelos municípios paranaenses ainda está por ser realizada.
Mas essa demonização das idéias socialistas ou simplesmente de um maior
controle dos mercados, é justificada quando se encontra nos artigos a saída triunfal
desse “pesadelo”: a liberdade, a livre concorrência, o liberalismo, este é o remédio
apresentado, é o céu dos liberais. Nesse sentido toda demonização requer uma
salvação e para isso as características ruins de alguns modelos socialistas são
apresentados (o stalinismo, o socialismo cubano como perverso, e o gigantismo da
máquina pública brasileira) contrapondo com as conquistas alcançadas pelo
liberalismo, em especial o norte-americano, mas também pelos resultados alcançados
pelas reformas liberais ocorridas no Brasil. Algumas frases de efeito são lançadas com
destaque:

“ A igualdade dá lugar à iniciativa privada
O Brasil das estatais e do monopólio passa a era das privatizações
O país começa a passar a limpo a história e promete se modernizar
Como e porque tantas mudanças ? Exatamente graças a uma doutrina
chamada de liberal” (Direção, nº12, pg.72)

Tal discurso de demonização e maniqueísta construído de forma simples e direta
deixa claro que o público alvo destes artigos é o pequeno empresário, o estudante
secundarista ou universitário, o agricultor e lideranças políticas no interior do Estado,
visto que, o discurso é direto, objetivando a classificação do mundo entre o Bem e o
Mal, deixando bem claro quem quer defender e quem quer atacar.
“ O Instituto Liberal do Paraná: seu pensamento através da Revista Direção”

Professora Judith
Viviane Zeni Leão
Andréa Wosniak
Ederson Prestes Santos Lima



Procurarei apresentar algumas das fontes utilizadas em nosso estudo sobre a
trajetória do Instituto Liberal do Paraná e as conseqüências de seu trabalho doutrinário,
que durante aproximadamente 10 anos buscou divulgar o liberalismo no Estado.
Para isso acredito ser importante relembrar alguns aspectos do contexto
internacional do final da década de setenta e início dos anos oitenta quando a decadência
do modelo de Bem Estar Social, implantado a partir do final da Segunda Guerra Mundial
tanto na Europa quanto na América do Norte (Estados Unidos e Canadá) abre espaço
para uma forma de organização social e econômica que estava em baixa desde o fim da
Guerra: o liberalismo.
A ascensão de Margareth Thatcher, na Inglaterra e Ronald Reagan nos Estados
Unidos dão início a um amplo movimento de conquistas liberais que além de ocupar
vários países na Europa chega também aos países da América Latina.
O Brasil não poderia estar alheio a essas mudanças na esfera mundial e buscou
estar afinado com esse pensamento. Ao buscarmos a forma pela qual o Brasil também
buscou alinharse com esta nova proposta econômica destacamos a presença dos
Institutos Liberais no Brasil. Tal coordenação com o contexto internacional é vista de
forma mais clara quando percebemos que o primeiro Instituto Liberal fundado no Brasil é
criado já em 1983, no Rio de J aneiro.
A partir desse instituto, segue-se a fundação de outros similares em vários estados
brasileiros: São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Brasília, entre outros. E o
Paraná funda o seu Instituto Liberal no ano de 1988.
Criado sob a iniciativa de empresários e profissionais liberais do estado, o instituto
liberal paranaense tinha também como objetivos a realização de palestras e seminários
que abordavam como tema principal as vantagens o sistema liberal, publicação de livros e
revistas. Vamos neste trabalho abordar 4 revistas:

Comemorativa dos 10 anos dos institutos liberais – editada no ano de
1993;
Think Tank – revista de circulação direcionada, porém nacional, editada a
partir de 1997;
Direção: o Paraná no rumo certo – esta revista de circulação direcionada a
leitores do Paraná iniciou sua publicação no ano de 1997;
Quem – esta revista que iniciou sua circulação no ano de 1979

Primeiramente destacamos as publicações próprias dos Institutos, como as
realizadas na comemoração dos 10 anos de existência.
No caso das revistas comemorativas a vantagem em trabalhar com elas é a
quantidade de dados possíveis de serem levantados, tais como:
financiadores dos programas,
principais participantes nas entrevistas e palestras,
diretorias e conselhos diretores, ou seja, podem ser consideradas como fontes
oficiais do Instituto onde é possível analisar a história do Instituto sob o ponto
de vista dos liberais;
obras publicadas;
Programas liberais para temas como saúde, previdência social, educação,
capital estrangeiro, energia, política industrial e globalização e mercados.

E a partir desses dados que formam mesmo que parcialmente uma história e pensamento
oficial dessa instituição é possível pensar de que forma os liberais acreditam estar
intervindo na sociedade paranaense das décadas de 80 e 90 e onde estavam, segundo
suas idéias os acertos a serem realizadas na sociedade. Esta revista foi lançada no ano
de 1993.
Uma Segunda revista a ser utilizada é a THINK TANK. Editada pelo Instituto
Liberal de São Paulo, iniciou sua circulação direcionada a partir do ano de 1997 e ainda é
editada, possuindo público específico. Nesta revista o objetivo principal é o combate
ideológico a partir de temas atuais, como globalização, Mercosul, Alca, qualidade de vida,
políticas educacionais, pobreza, todos sob a ótica liberal. Apesar de editada pelo Instituto
Liberal de São Paulo o Conselho Editorial da revista é formado por empresários liberais
de vários estados. Nessa revista é possível levantar as várias forças de direita que se
mobilizavam em nome do liberalismo. Quais os principais temas abordados, que no geral
estão em sintonia com as discussões gerais, os ícones que são também criados pelos
liberais.
A terceira revista abordada é a “QUEM”. Lançada em junho de 1979 serviu de
vitrine da e para a sociedade curitibana. Foi uma revista de pequenas discussões
políticas, muitas personalidades da sociedade, costumes, culinária, enfim uma revista que
numa análise mais superficial não agrega muito numa pesquisa sobre liberalismo, porém
em vários números realizou entrevistas com membros ativos do futuro Instituto Liberal do
Paraná.
Esta revista de circulação estadual, possibilitou mapear alguns dos futuros
membros do Instituto Liberal do Paraná e a forma pela qual eram mostrados à sociedade
paranaense os ideais do liberalismo e seus principais expoentes, ao menos aqueles que
formavam uma certa vanguarda desses ideais. Além dessas entrevistas com membros
mais ativos dentro da questão liberal, é possível retirar dessa revista que está disponível
na Biblioteca Pública do Paraná, aspectos importantes da forma de pensar da sociedade
paranaense.
Mas talvez a mais interessante das publicações possíveis de ser utilizadas, num
estudo sobre política no estado do Paraná neste período seja a Revista “Direção: o
Paraná no rumo certo”. Esta revista que circulou no Estado do Paraná teve nos anos de
1997 e 1998 artigos de propagação das idéias liberais sob a responsabilidade de
membros diretores do Instituto paranaense. Esta revista em seus 17 primeiros números,
nos quais era encartado o artigo liberal, chegou à marca de 900.000 exemplares o que
nos dá uma média de 52.000 exemplares por edição.
Sua periodicidade era mensal e chegava em quase todos os 399 municípios
paranaenses de forma gratuita e dirigida. Era encaminhada em especial à:
empresários;
associações de classe;
formadores de opinião;
homens do campo;
universidades;

As reportagens giravam em torno de personalidades políticas do grupo ligado à
J aime Lerner e Cassio Taniguchi.
Entre os anunciantes dessa revista, também é um dado interessante, pois ao
mesmo tempo que defendem um liberalismo, no qual o Estado reduza sua participação na
economia estadual, algumas empresas públicas são as grandes patrocinadores da
revista. Banestado e Sercomtel por exemplo. Este detalhe possibilita observar e analisar
de que forma o pensamento da estrutura governamental pensava a ação da empresas
estatais e se aproveitava para difundir seus ideais.
Encontramos nessa revista questões ideológicas bem definidas, na qual o artigo
de responsabilidade do Instituto Liberal era apenas o mais teórico talvez o mais radical
dentro da publicação, de certa forma, dando o respaldo para as demais reportagens.
Enfim, a utilização destas revistas pode contribuir muito para as pesquisas
históricas quando o objetivo for mapear toda uma rede de relações entre grupos
econômicos, setores da administração pública, empresas particulares que se relacionam
ao redor de idéias comuns sobre a forma de administrar o Estado e como espalhar essas
idéias a outras pessoas.
Outra fonte que pode ser trabalhada, sob o aspecto político são os outdoors.
Durante alguns meses o Instituto Liberal do Paraná patrocinou a instalação em toda a
cidade de Curitiba de outdoors em vários pontos. Essa tática surtiu enorme efeito,
gerando um interesse pelas idéias liberais, dando origem a uma busca pelas obras
publicadas pelo Instituto paranaense ou institutos de outros estados. Livros como “O que
é liberalismo” ou “O caminho da Servidão” possuíam lugar de destaque. A tática dos
outdoors colocou o Instituto Liberal do Paraná como o campeão de vendas de obras
liberais como livros e revistas no Brasil e mostrou-se um meio eficaz de divulgação e
doutrinação ideológica.
Através de idéias simples, mas nem sempre muito claras, o Instituto Liberal
instigou parte da população a questionar-se sobre suas idéias. Frases de efeito como “A
lei deve fazer justiça, não privilégios” ou “Participe da livre iniciativa: basta ser livre e ter
iniciativa” podem ter contribuído no sentido de aumentar a tendência liberal e
conservadora dos paranaenses chegando inclusive a desbancar o PMDB do Executivo
estadual após três governos sucessivos.
Ao analisar essas fontes, acreditamos ser possível pensar a forma pela qual se
procurava doutrinar a população paranaense no sentido de aceitar cada vez mais o
liberalismo como sistema econômico que viria a resolver todos os problemas enfrentados
pela população. Paralelo a isso é possível trabalhar a partir dessas fontes o pensamento
anti socialista dos liberais. Percebe-se, através das fontes a crítica à:
óbvia à intervenção do Estado na economia;
um anti-socialismo claro com críticas ferozes à intelectuais;
universidades federais com seu posicionamento estatizante;
e a quem chamam de nacionalistas xenófobos.

Certamente não poderemos chamar determinar estas fontes como anti-
comunistas, como nas décadas anteriores, porém toda a carga anti-socialista, anti-
estatizante ainda se faz presente, bem como, um ataque direto às universidades que
procuram trabalhar dentro de outros idéias.




AFONSO BOTELHO EM CURITIBA: DELINEAMENTOS DO ESPAÇO DE UMA
HISTÓRIA REGIONAL
*

Antonio Cesar de Almeida Santos
Prof. do Departamento de História/UFPR



O tema do VIII Encontro Regional da ANPUH/PR, "150 anos de Paraná:
História e Historiografia", enseja uma interessante questão: a lei de criação da
Província do Paraná (Lei nº 704, de 29/08/1853) seria também a certidão de
nascimento da História paranaense? E se aplicássemos esse mesmo raciocínio à
História do Brasil; ela teria nascido em 1822, com a Independência?
Em meados do século XIX, no interior do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, defendia-se uma posição que expressava uma nítida continuidade entre o
passado colonial e o presente de então. A independência fora, antes de tudo, uma
ação pela qual o Brasil alçara-se à categoria de nação, como tantos outros estados
europeus e americanos, estes últimos mais recentes. A idéia de continuidade apoiava-
se, por um lado, no entendimento de que os colonizadores europeus (os portugueses)
deveriam ser considerados como os responsáveis pela condução desse território à
história da humanidade,
1
por outro, pela necessidade de legitimação do sistema de
governo: uma monarquia entre ex-colônias transformadas em repúblicas.
De fato, nós nos acostumamos com isso; nem mesmo a passagem do Império
à República rompeu essa continuidade. Ao contrário, os artífices do novo regime
também buscaram no passado colonial brasileiro elementos para a afirmação da
história pátria que passaram a construir. Conforme indica Lúcia Lippi Oliveira, os
“historiadores monarquistas” conseguiram sedimentar uma interpretação histórica que
afirma o Império como o “garantidor da unidade nacional”. Aliás, entende-se que “a
unidade nacional, fruto da elite imperial que representa a continuidade da elite
portuguesa, ou melhor, européia, simboliza a continuidade, ou seja, a manutenção dos
laços entre Portugal e Brasil, entre o Velho Mundo e o Novo Mundo”.
2
Como corolário
desse entendimento, comemorou-se, há pouco, os 500 anos de Brasil, de História do
Brasil.
Evidentemente, podemos não concordar com essa interpretação, mas a
mesma Lúcia L. Oliveira adverte que “unidade e continuidade constituíram a visão e o
desejo da maioria dos intelectuais brasileiros e as principais questões a serem
enfrentadas por todos aqueles que quiseram (sic) se libertar desta construção
simbólica”.
3
Voltemos, entretanto, para o contexto paranaense e para a nossa questão
inicial: quando nasce a História do Paraná?
No início dos anos 1950, Brasil Pinheiro Machado, um pouco à maneira de
Martius, propõe o seu modelo de escrita para a história paranaense.
4
Aliás, as
principais referências presentes no texto de B. P. Machado são o próprio Martius e um
seguidor seu, J oão Ribeiro.
5
Assim, ancorado no pressuposto de que “a história do
Brasil, como da formação de um povo e de uma nação, como história interna é
formada de histórias regionais que, por justaposição, formaram a história geral da
nacionalidade”, um dos primeiros pontos abordados pelo historiador paranaense foi a
construção de um conceito de região, por ele entendida como “uma unidade
homogênea de população, de interesses, de convívio, de parentesco mesmo”.
6
Desse
conceito decorre outro, também fundamental para o entendimento de sua proposta de
história regional, a qual deve ser compreendida como a “história da formação de uma
comunidade que, como tal, adquiriu individualidade distinta, de qualquer forma, das
outras comunidades regionais do Brasil”
7
.
Assim, essa comunidade regional conhecida por Paraná formou-se em
determinada época, autonomizando-se em relação a outras comunidades e, com a
expansão de sua população, criou a sua própria região: “(...) no século XVIII, (...) o
pequeno sub-núcleo paulista de Curitiba adquire sua autonomia e se torna centro de
irradiação da conquista de uma parte do território, que iria, afinal, constituir a Província
e o Estado do Paraná”.
8
Ressalte-se à propósito, e é um ponto que interessa
particularmente a este texto, que essa “irradiação” informada por Brasil Pinheiro
Machado se manifesta de maneira mais explícita a partir da reinstalação do governo-
geral da capitania de São Paulo
9
.
Apesar do entendimento de alguns, de que as capitanias brasileiras
mostravam-se como se fossem pequenas colônias inscritas no território da América
portuguesa, somos obrigados a considerar que durante mais três séculos, a cultura e
as instituições portuguesas, não obstante peculiaridades locais, construíram um corpo
sociopolítico que se estendeu por quatro continentes.
10
Sabemos que, nos séculos XVII e XVIII, a idéia de Estado Nacional afirma-se,
e, daquele momento em diante, passa a vigir o exercício de uma soberania apoiada na
centralidade do poder.
11
Ou seja, a idéia de um estado nacional significaria o controle
de uma população colocada sob a tutela de um governo central e centralizado, ao
mesmo tempo em que, em relação ao exterior, definia-se seu território. Nesse sentido,
a Coroa portuguesa, a partir da Restauração (1640), passou a conduzir uma política
que visava, por um lado, a centralização das decisões políticas nas mãos do
soberano, e por outro, a construção do seu ‘espaço nacional’, o qual constituía-se do
reino e de seus domínios ultramarinos. Assim, o governo metropolitano buscava
assenhorear-se de territórios e populações espacialmente distantes.
Desde o reinado de D. Pedro II (1683-1706), os territórios portugueses na
América recebem uma renovada atenção no processo de colonização. O rei,
gradativamente, retira dos particulares privilégios antes concedidos. Este movimento
acentuou-se com D. J oão V (1706-1750), e ganhou contornos ainda mais nítidos com
D. J osé I (1750-1777). Em certa medida, é consensual o entendimento de que o
século XVIII trouxe profundas transformações para a administração da colônia, com a
consolidação da autoridade régia. Isso significou a reorganização da presença régia –
em que se insere a restauração da autonomia do governo paulista, em 1765 – e a
institucionalização das ações de povoamento, que passaram a ser dirigidas pelos
governadores das capitanias. No reinado de D. J osé I, aliás, verificou-se o fim das
últimas donatarias e a criação de novas capitanias régias.
12
Ressalte-se, porém, que o extenso interior da América portuguesa, em meados
do século XVIII, ainda estava por descobrir, povoar e civilizar. Para que tais ações
fossem levadas a cabo, a Coroa entendia que era necessário conhecer-se os sertões
brasileiros, sua geografia, e povoá-los. Nesse particular, irá se destacar a ação de D.
Luís Antonio Botelho de Souza Mourão, governador da reinstalada capitania-geral de
São Paulo. O estado guerra entre portugueses e espanhóis no sul do Brasil deu
contornos muito próprios ao governo de D. Luís. A instalação de povoações na região
sob sua administração prendeu-se especialmente a questões de cunho estratégico-
militar, recebendo acompanhamento constante da metrópole. Durante seu governo,
foram instaladas as seguintes vilas – no atual estado de São Paulo: São J osé do
Paraíba (São J osé dos Campos), São J oão de Atibaia, Faxina (Itapeva), Mogi-mirim,
Apiaí, Itapetininga, Sabaúna, São Luís do Paraitinga e Nossa Senhora da Escada
(Guararema); no atual estado do Paraná: São Luís de Guaratuba; no atual estado de
Santa Catarina: Lages. Acrescente-se ainda as povoações do Iguatemi, Piracicaba,
Ararapira, Paraíbuna, Campinas, Santo Antonio do Registro (Lapa) e Sant’Ana do Iapó
(Castro), a primeira no atual estado do Mato Grosso do Sul, as duas últimas no Paraná
e as demais em território paulista.
13
Contudo, deve-se entender que as ações de D. Luís Antonio de Souza não
foram ações isoladas ou determinadas exclusivamente pelas tensões existentes no sul
do Brasil, ao contrário. A administração ultramarina portuguesa da segunda metade do
século XVIII é marcada pela iniciativa de construção de uma nova racionalidade, do
que são exemplos a reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra, a criação do
Colégio de Nobres e da Aula de Comércio, em Lisboa. Nesse contexto, explorar,
descrever, racionalizar, instrumentos básicos para a construção de um saber
científico, foram também empregados na tarefa colonizadora das diversas regiões dos
domínios portugueses. Porém, em contrapartida, tais ações, conduzidas por militares,
viajantes e administradores coloniais, contribuiram para que, em outros momentos, as
regiões colocadas sob os olhares da Coroa portuguesa adquirissem suas
individualidades (no sentido dado por B. P. Machado).
É no interior dessa política portuguesa que procuramos conferir significado às
expedições que, entre 1668 e 1773, partiram de Curitiba para a exploração do território
inscrito entre os rios Iguaçu e Paraná. Sob as ordens de Afonso Botelho de Sampaio e
Souza, ajudante de ordens do governador da capitania-geral de São Paulo, foram
enviadas 13 expedições para os “sertões” de Curitiba.
14
A principal instrução para os
comandantes dessas expedições era a de reconhecer e explorar um território até
então apenas advinhado. Num segundo momento, buscar-se-ia a fixação de
moradores.
Longe de tal empreendimento constituir-se em ação particular de Afonso
Botelho, ou mesmo de D. Luís, essas expedições estavam respaldadas por instruções
originadas no gabinete do todo poderoso Sebastião J osé de Carvalho e Melo, ministro
de D. J osé I.
15
A ação exploratória em curso tinha por objetivo maior o
estabelecimento de vias de comunicação (e de abastecimento) com a Colônia de
Sacramento, ao sul, e com a Colônia do Iguatemi, a oeste, com o intuito de garantir a
posse portuguesa deste território. Como nota Brasil Pinheiro Machado, o governador
de São Paulo estava “perfeitamente integrado na nova política portuguesa de firmar o
poder brasileiro até o [rio da] Prata e o [rio] Paraguai”, de tal forma que suas ordens
previam o “descobrir e povoar os sertões da Capitania, examinar a extensão de seu
continente e a formação dos rios de sua fronteira”.
16
Paralelamente à ação oficial, D. Luís exercitava outra forma de consignar a
posse daquele extenso território posto sob sua jurisdição: ordenava o governador que
os acidentes geográficos descobertos e os povoados que viessem a ser criados
recebessem “nomes que nos pertençam e que fiquem bem claros no conhecimento
das gentes para que possam resistir à facilidade do esquecimento produzido pelo
tempo”.
17
Definia-se, assim, uma posse também demarcada pelo ato de nomear.
Enfim, o esforço de Afonso Botelho frutificou: em maior ou menor número,
moradores das cercanias de Curitiba foram compelidos a povoar os “novos
descobertos”, instalando-se em diversos núcleos de povoamento próximos aos rios
que cortam a região dos Campos Gerais (Segundo Planalto Paranaense). Para Brasil
Pinheiro Machado, já ao final do século XVIII, “delineava-se o Paraná como região
individualizada sob o comando de Curitiba”.
18
Esta opinião de Brasil Pinheiro Machado precisa ser compreendida em função
de suas considerações sobre a constituição de núcleos de irradiação (“as células
fundamentais do povoamento”). Nesse sentido, ele entende que, a partir da segunda
metade do século XVIII, com o movimento de sua população, a vila de Curitiba “se
assenhoreia de largos tratos do território”, estendendo seus limites “até onde vão os
seus habitantes”. Não importa aqui se este movimento populacional decorre de
estímulos privados, que geram uma expansão espontânea, ou oficiais, como ocorre
neste caso. O importante é reter que essa população que se espalha, e se fixa, por um
largo território conserva ligações com o núcleo de onde se irradia. Quer dizer, a partir
de Curitiba, que, ao longo do século XVIII, se autonomiza em relação à São Paulo e à
Paranaguá, ocorre um movimento de expansão, do qual resulta “a conquista, pela
posse, de determinado território”. E, a partir de então, “pela constante subordinação
social e política dos núcleos resultantes da expansão do centro social inicial de
Curitiba”, forma-se uma região, a qual adquire sua individualidade.
19
Retomemos algumas considerações anteriores. Como indicamos, as
expedições que partiram de Curitiba, na segunda metade do século XVIII, para realizar
a exploração do território inscrito entre os rios Iguaçu e Paraná, ao mesmo tempo em
que garantiram a posse portuguesa, mapearam e delinearam os limites da futura
Província do Paraná. Contudo, essa não foi uma ação que se verificou
especificamente na então capitania de São Paulo; ao contrário, a administração
metropolitana portuguesa, desde os anos iniciais do reinado de D. J osé I, já se
mostrava preocupada em determinar e conhecer com mais acuidade o território
americano sob seu domínio. O secretário de estado dos Negócios da Marinha e dos
Domínios Ultramarinos, em 1756, informava ao governador de Pernambuco que ele
deveria encarregar os ouvidores e as câmaras municipais sob sua autoridade de
fazerem “uma relação dos lugares e povoações dos seus distritos, com os nomes e as
distâncias que há de umas às outras, praticando-se a mesma descrição dos rios que
pelas ditas povoações passam, individuando os seus nascimentos, e os que são
navegáveis. E em cada uma das vilas se declararão as distâncias de léguas, ou de
dias de jornada que há das outras vilas circunvizinhas”. As razões que levaram a tal
procedimento foram expostas nos seguintes termos: “Todas estas notícias
topográficas são necessárias para se formar uma carta geral de todo o Brasil, com
individuação das terras estabelecidas nos sertões, para cujo efeito manda o mesmo
Senhor recomendar a V. Sª a brevidade desta diligência”
20
.
Alguns anos mais tarde, uma solicitação semelhante foi dirigida ao governador
do Rio de J aneiro: “Também é o mesmo Senhor servido que V. Excia. mande à sua
Real Presença uma coleção de todas as cartas corográficas e topográficas, que tiver,
e puder alcançar, das capitanias do Brasil, caminhos e lugares delas, vindo com a
maior brevidade possível, ainda que não sejam copiadas com a maior perfeição,
porque, na verdade, se não devem fiar de estrangeiros, nem ainda de portugueses,
que deixam nas suas mãos cópias que com o tempo se possam divulgar”.
21
Essa solicitação, que recomendava brevidade e segredo na confecção de
“cartas corográficas e topográficas” (em função da situação de beligerância com a
Espanha)
22
, prende-se a uma ampla orientação administrativa (política) que se
expressa em ações de enumerar e nomear territórios, medir distâncias e,
especialmente, contar e classificar as populações. Concorrentemente à necessidade
de “se formar uma carta geral de todo o Brasil”, buscou-se, sobremaneira, o controle
institucional das populações, buscando que elas se adequassem aos princípios de
governo emanados da metrópole. E o mais importante é saber que, guardadas as
devidas peculiaridades, ações semelhantes ocorreram em diversos e diferentes
domínios ultramarinos portugueses.
Se em dado momento, militres e administradores coloniais estiveram
envolvidos em ações que visaram garantir a posse de territórios para a Coroa
portuguesa, explorando-os e descrevendo-os, essas mesmas ações, em outros
momentos, contribuiram para que aquelas regiões adquirissem suas individualidades.
De certo modo, o processo colonizador português produziu os elementos necessários
à constituição de várias histórias regionais, no Brasil e nos demais territórios que
estiveram sob o domínio lusitano.
23



*
Texto elaborado a partir de pesquisa financiada pelo CNPq.
1
Ver MARTIUS, Karl F. von. Como se deve escrever a História do Brasil. REVISTA DO
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, nº 24, p. 389-411, jan. 1845, especialmente
p. 406.
2
OLIVEIRA, Lúcia L. As festas que a República manda guardar. ESTUDOS HISTÓRICOS, v. 2, n. 4,
p.172-189, 1989, p. 187.
3
Ibidem.
4
MACHADO, Brasil P. Esboço de uma sinopse da história regional do Paraná. HISTÓRIA:
QUESTÕES & DEBATES, v. 8, n. 14/15, p. 177-205, jul.-dez. 1987. A primeira publicação do Esboço
foi em 1951, em Separata do BOLETIM DO INSTITUTO HISTÓRICO, GEOGRÁFICO E
ETNOGRÁFICO PARANAENSE.
5
Ver MARTIUS, op. cit.; RIBEIRO, J oão. História do Brasil. 14 ed. ver. e completada por J oaquim
Ribeiro. Rio de J aneiro: Livraria São J osé, 1953. A primeira edição da História do Brasil de J oão Ribeiro
é de 1900.
6
MACHADO, p. 179-182.
7
MACHADO, p. 183; grifo meu.
8
MACHADO, p. 182-183.
9
Sobre esse tema, ver BELLOTTO, Heloísa L. Autoridade e conflito no Brasil colonial : o governo
do Morgado de Mateus em São Paulo (1765-1775). São Paulo: Conselho Estadual de Artes e Ciências
Humanas da Secretaria de Estado da Cultura, 1979.
10
Charles Ralph Boxer cunhou a felissíssima expressão “império marítimo português”, para designar a
ação colonial lusitana entre os séculos XV e XVIII. Ver BOXER, Charles R. O império colonial

português, 1415-1825. Lisboa: Edições 70, 1981.
11
BAUMER, Franklin Le Van. O pensamento europeu moderno : volume 1, séculos XVII e XVIII.
Lisboa: Edições 70, 1990. p.119.
12
No Estado do Brasil, a última capitania a ser instalada foi a de Rio Grande de São Pedro, por carta
régia de 9 de setembro de 1760, e que permaneceu subordinada ao Rio de J aneiro até 1807. Antes disso,
em 1755, no Estado do Grão-Pará e Maranhão, foi criada a capitania de São J osé do Rio Negro e, três
anos depois, o Piauí era elevado à mesma condição.
13
Para uma visão mais pormenorizada desta ação de povoamento, ver BELLOTO, op. cit., e SANTOS,
Antonio Cesar de Almeida. Para viverem em povoações bem estabelecidas: um estudo sobre a política
urbanística pombalina. Curitiba, 1999. Tese (Doutorado em História). Coordenação dos Cursos de Pós-
graduação em História, Universidade Federal do Paraná.
14
Sobre a ação de Afonso Botelho, ver CARNEIRO, David. Afonso Botelho de São Payo e Souza.
Curitiba: Litero-Técnica, 1986. David Carneiro considera o ajudante de ordens de D. Luís como um dos
precursores da formação da Província do Paraná.
15
Sebastião J osé de Carvalho e Melo recebeu, em 1759, o título de Conde de Oeiras, e, em 1770, o
título de Marquês de Pombal, sob o qual viria a ficar conhecido.
16
MACHADO, op. cit., p. 191.
17
CARNEIRO, op. cit., p. 87.
18
MACHADO, op. cit., p. 193.
19
Cf. MACHADO, op. cit., p. 182-183.
20
AHU. Códice 582. Carta de Diogo Mendonça Corte Real ao governador de Pernambuco, 13 de junho
de 1756. O mesmo se aplicava aos governadores do Rio de J aneiro e de Minas Gerais. Carta de teor
semelhante, na mesma data, foi enviada ao Bispo de Pernambuco.
21
AHU. Códice 566, fls. 2-2v. Carta de Mendonça Furtado ao Conde de Bobadela, 14 de outubro de
1761.
22
Em 1762, o governador de Buenos Aires invadiu a Colônia de Sacramento. A indefinição de
fronteiras no sul continou até 1777, ano em que foi firmado o Tratado de Santo Ildefonso; a situação de
beligerância, contudo, estendeu-se até 1801.
23
Foi o que a Comunicação Coordenada “Curitiba, Ilhéus, Angola e Moçambique: militares, viajantes e
administradores portugueses na formação de histórias regionais e nacionais” procurou demonstrar.
Empresas agroindustriais e camponeses integrados
na moderna agricultura paranaense.

Armando Dalla Costa
1



Em pouco mais de três décadas, a avicultura brasileira passou por profundas
transformações, tanto na produção como na comercialização e no consumo. Deixou
de ser uma atividade familiar e artesanal para ser dominada por grandes empresas.
Entre 1970 e 2001 a produção passou de 217.000 toneladas para 5,7 milhões de
toneladas. Fruto de diversas inovações organizacionais e transformações
tecnológicas, o preço médio da carne de frango no varejo diminuiu de US$ 4,05 para
US$ 0,80 entre 1974 e 2001. Com esta diminuição no preço, a mudança nos hábitos
alimentares, entre outros motivos, o consumo de carne de frangos passou de 2,3
kg/hab/ano para 29,9 kg/hab/ano neste mesmo período, tornando-se uma das
principais proteínas animais consumidas pela população brasileira
2
.
Para chegar a tais resultados, o setor da produção avícola organizou-se e
modernizou-se. Atualmente envolve a pesquisa genética para melhoria das raças de
aves, a produção de pintos de um dia, os agricultores que criam e engordam os
frangos, a fabricação de rações, o abate e a distribuição da carne de frangos inteiros e
os sub-produtos industrializados. A intenção com este artigo foi de entender um dos
elos desta cadeia produtiva – os integrados - produtores da matéria prima destinada
às empresas, os contratos de integração que determinam sua relação com as
empresas, suas formas de organização via associações e sindicato.

1. Os integrados e os contratos de integração
Entende-se por integrado, para fins deste trabalho, aquele agricultor que
produz uma mercadoria (um quilo de frango, mas também ocorre com fumo, suíno,
leite, tomate, mamão, entre outros produtos), com tamanho, quantidade, qualidade e
tempo pré-determinados, destinada previamente a uma determinada empresa, cuja
venda é garantida e obrigatória por via contratual.
A relação entre as agroindústrias e os integrados foram mudando com o
aumento do número de produtores e o avanço na sua organização.No início do
processo de integração, décadas de 60 e 70, as empresas não se preocupavam com a
assinatura dos contratos. Pesquisa em Santa Catarina, no final dos anos 70, mostrou
que 38% dos contratos eram escritos, 37% verbais e 23% por cadastro. Entre as nove

empresas pesquisadas, três utilizavam contratos escritos, duas contratos verbal e
cadastro, duas utilizavam só contrato verbal e apenas duas celebravam só contratos
escritos (CEAG, 1978, p. 143).
Apesar dos contratos tornarem-se cada vez mais formais, em geral não são
utilizados pelas empresas integradoras, como pode-se perceber em entrevista com o
responsável pelo setor na Sadia (18 de abril de 1995). “No início estes contratos eram
verbais. O que interessava era o perfil do produtor. Estabelecia-se uma relação de
confiança mútua entre a empresa e o integrado. Atualmente os contratos são escritos,
mas imagino que a maioria dos avicultores nem sequer os leu. Nós praticamente
nunca recorremos a eles para resolver nenhum tipo de problema. Eles existem mais
por uma exigência legal” (Dalla Costa, 1997, p. 200).
Fazendo uma análise dos contratos utilizados pelas agroindústrias pode-se
detectar as cláusulas básicas que contêm. Os pontos principais incidem sobre:
a) fornecimento exclusivo por parte do contratante, dos meios básicos de
produção (aves de um dia, ração, medicamentos, que permanecem como
propriedade da firma);
b) estabelecimento do prazo de entrega de um novo lote de pintos (perus) após a
retirada das aves para o abate;
c) obediência rigorosa às normas técnicas estabelecidas pela empresa e
prestadas pelo Departamento de Fomento;
d) formas de comercialização e determinação do preço do produto final e direito
exclusivo de compra por parte da empresa integradora;
e) fixação da percentagem de quilos de aves vivas que caberá a cada uma das
partes, conforme tabela anexa ao contrato;
f) despesas com serviços de tratamento, aquecimento e cuidados com as aves
correm por conta do produtor;
g) financiamento dos instrumentos e/ou meios de produção, adiantamento de
rações, medicamentos, pintos;
h) permissão à parceira proprietária de acompanhar a criação e engorda das
aves;
i) definição dos padrões de qualidade do produto final;
j) tempo de duração do contrato e foro onde se decidem as disputas que
porventura possam ocorrer.
Na prática, embora haja formulações diversas entre os contratos de integração,
todos indicam na mesma direção: “do conjunto das cláusulas e procedimentos
básicos, a maioria está na dependência direta do poder do integrador e sobre os quais
o produtor integrado não tem qualquer controle” (Dalla Costa, 1993, p. 147).
Estudo realizado pelo Banco de Desenvolvimento Econômico do Estado de
São Paulo – BADESP em 1987 indica as principais razões pelas quais as empresas
estabelecem contratos de produção com os agricultores (citado por Lopes, 1992, p.
20):
- Necessidade de as firmas processadoras oferecerem produtos em
quantidade e qualidade exigidas pela demanda. Esta sem dúvida parecer
ser a grande responsável pelo dinamismo do setor avícola brasileiro.

- Redução de custo, mediante o suprimento para manter economias de
escala.
- Conquista de posição de mercado, mantendo fornecedores fixos que
garantem o suprimento de matéria-prima.
- Maior facilidade de se aumentar a produção e introduzir tecnologia.
- Necessidade por parte do agricultor de capacidade e/ou de orientação
técnica.
- Redução de risco do agricultor e oportunidade de produzir para um
mercado assegurado
3
.

Outro estudo feito em Santa Catarina, nos anos 70, mostra as vantagens do
sistema de integração para as agroindústrias e para os integrados. As empresas
integradoras apontaram como principais vantagens do sistema de integração: matéria-
prima (frango) de maior qualidade de rendimento industrial; abastecimento constante
da matéria-prima qualificada; redução dos custos industriais nas operações de abate e
elaboração da matéria-prima; padronização das carcaças; redução de espaços, tempo
e capital de giro necessário para estocagem da matéria-prima no período anterior ao
abate (Ceag, 1978, p. 80-86).
As principais vantagens dos produtores com este sistema de integração podem
ser resumidas nos seguintes itens: assistência técnica intensa e permanentemente
atualizada; utilização de equipamentos e insumos de qualidade, inclusive rações de
alto valor nutricional a preços mais acessíveis; maior produtividade; redução dos
custos de produção e maior rentabilidade; melhor preço médio de venda; melhor
aproveitamento dos recursos disponíveis na propriedade (terra, capital e trabalho);
dimensionamentos adequados das instalações, com elevação de renda líquida anual e
capacitação profissional do produtor (Ceag, 1978, p. 22-25).
A partir de Santa Catarina
4
a integração via contratos avançou primeiro para o
Paraná e Rio Grande do Sul, onde a atividade não tinha expressão até meados da
década de 1970. Consolidado no Sul, o sistema de integração contratual expandiu-se
no Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste. Cálculo dos grandes abatedouros revelam que
70% da produção nacional de carne de frango provém do sistema de integração. “Na
ponta do lápis, teríamos em 1992, algo em torno de 20 mil avicultores integrados em
todo país, colocando no mercado de 100 a 140 toneladas de carne de frango cada um,
por ano”
5
.
Segundo dados da Associação Paulista de Avicultura – APA, quando as
empresas do Sul implantaram-se no Centro-Oeste levaram consigo o sistema de
produção integrada, graças à disponibilidade de grãos para a fabricação de ração, à
topografia plana, à presença de pequenos agricultores. Em 1992 toda a produção com
Serviço de Inspeção Federal de frango do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito
Federal era proveniente do sistema integrado. Em Goiás, este índice localizava-se em

torno de 25%. No Nordeste, segundo dados da APA, em 1992 os frangos produzidos
por integração representavam cerca de 20% da produção regional, responsável por
cerca de 10% da produção nacional.
A região Sudeste é a que mais se diferencia na produção integrada. Composta
por tradicionais e fortes produtores independentes, só mudou com a chegada da
Sadia, Perdigão, Ceval e Chapecó, que introduziram o mesmo sistema adotado em
Santa Catarina. Algumas empresas tradicionais do estado começaram a imitar o
sistema de parceria, como a Maristela, cujos 350 integrados fornecem ao seu
abatedouro 1,5 milhão de frangos por mês
6
. Em 1992, pelos dados da APA, 50% do
frango produzido em São Paulo era proveniente de produtores totalmente integrados,
30% de produtores parcialmente integrados e 20% de produtores independentes.

2. Organização dos integrados: associações e sindicatos
Apesar de terem fundado a primeira associação, a ACRAVE – Associação dos
Criadores de Aves de Santa Catarina no município de Chapecó, em 1979, foi a partir
dos anos 1980 que os avicultores se organizaram. No início, houve uma disputa pela
legalização da nova associação, quando a Associação Catarinense de Avicultura –
ACAV tentou impugnar o registro da associação de Chapecó (Belato, 1985, p. 354).
Depois desta primeira luta vieram outras, pela melhoria do preço pago por lote de
frango. “Após algumas conquistas, a ACRAVE passou a ter problemas por pressão
das empresas sobre os integrados, o que a enfraqueceu” (Mior, 1992, p. 264). A
experiência dos integrados levou a Acrave a organizar o SINTCRAVE – Sindicato dos
Trabalhadores Integrados na Criação de Aves de Santa Catarina (a Constituição de
1988 permitia formar sindicatos por categoria econômica).
Tal sindicato foi constituído em setembro de 1989, com a participação de mais
de 600 avicultores da região oeste (são cerca de quatro mil avicultores nesta região).
De acordo com seus Estatutos, o sindicato “é um órgão classista, de massa, autônomo
e democrático, constituído para fins de defesa e representação legal da categoria
profissional dos trabalhadores integrados na criação de aves na base territorial do
Estado de Santa Catarina”.
Uma disputa pela direção da entidade fez com que, alguns meses depois da
fundação, os integrantes da Acrave abandonassem o Sintcrave (cuja diretoria
pertencia à CUT) e organizassem o SINCRAVESC – Sindicato Patronal dos Criadores
de Aves de Santa Catarina
7
.
O Sintcrave buscou legitimar-se realizando seminários municipais com os
avicultores da região oeste e demais partes do estado. Nestes encontros, os
associados reivindicavam o esclarecimento sobre os critérios de fixação do preço das

aves e do lote e a unificação dos dias de pagamento após a entrega das aves. Depois
destes encontros, com uma pauta sugerida e discutida pelos associados, que envolvia
a discussão do custo de produção; nova tabela de remuneração do lote e; unificação
da data de pagamento, o Sintcrave pressionou para realizar negociações com as
agroindústrias.
No momento da negociação houve divisão entre as empresas e a
Coopercentral (Aurora). Esta negou-se a participar da negociação alegando que seus
integrados eram também ‘sócios’ da mesma e não deveriam buscar o sindicato para
representá-los, pois estariam indo ‘contra’ seus próprios interesses. Na primeira
negociação com as agroindústrias, unificou-se a data de pagamento para, no máximo,
três dias depois da entrega do lote (antes o prazo chegava a 10 dias). A discussão do
custo de produção e a tabela de pagamentos ficaram para negociação futura.
A maneira mais eficaz de combater a atividade sindical encontrada pelas
agroindústrias foi a criação do SINCRAVESC – Sindicato Patronal dos Criadores de
Aves, no dia 4 de março de 1990. Pelos estatutos da entidade, seus objetivos eram: a)
“Congregar criadores, pessoas físicas e jurídicas que se dediquem exclusivamente à
criação de aves, devidamente integrados às agroindústrias do Estado, com
comprovação através de contratos de parceria, locação ou comodato; b) Congregar e
representar de forma coletiva ou individual, os criadores de aves de corte ou postura,
sob atividade autônoma com fins lucrativos, e que comercializem sua produção com o
mercado varejista consumidor; c) Fomentar o desenvolvimento técnico e científico
através de centros de pesquisa, próprios ou conveniados com outras instituições
ligadas ao ramo, inclusive para o controle e qualidade dos produtos”.
O quadro social deste sindicato era formado, em sua maioria, por profissionais
liberais, que possuem uma área de terra onde construíram um, mas geralmente mais
de um aviário, onde colocam empregados para cuidar da criação. Existem alguns
avicultores desta categoria que possuem mais de dez aviários (Mior, 1992, p. 272). Em
Chapecó e região, onde se concentra a maior parte das agroindústrias (Sadia, Ceval,
Chapecó e Aurora), existem cerca de 30% dos avicultores integrados à Sadia que
fazem sub-parceria de seus aviários ou assalariam alguém que cuide da criação.
Esta associação, em função do perfil de seus associados, prioriza em suas
atividades os aspectos jurídicos, tentando renegociar cláusulas dos contratos através
da justiça, deixando para segundo plano a organização da categoria e sua pressão
direta sobre as empresas.
Existe ainda uma experiência regional de organização de uma associação com
integrados da Perdigão, a Associação dos Avicultores do Meio-Oeste Catarinense,
constituída em 1982. Mior (1992) ao relatar o histórico e funcionamento da associação

destaca a “parceria” entre integrados-agroindústria. O que melhor retrata esta parceria
é o fato de ambas terem montado uma fábrica de adubos a partir da “cama” (esterco
produzido pelas aves e usado como adubo orgânico) dos aviários. “Para isso, fizemos
um acordo com a Perdigão que entrou com a maior parte dos recursos (cada integrado
contribuiu com o valor de uma cama do aviário). Em conseqüência, os associados,
têm 30% da fábrica” (Mior, 1992, p. 276). Em seguida a Associação fez outro acordo
com a empresa para implantar uma loja de comercialização de equipamentos para
aviários. Novamente recebeu o apoio da Perdigão, interessada na atualização
constante e na melhoria na produtividade. O terceiro convênio foi um acordo entre
ambas as partes, em 1990, para que a Perdigão pagasse 5% além do ganho do
produtor à associação, fundo que permite o financiamento dos equipamentos nos
aviários.
A localização da sede da associação, com sua loja de equipamentos, junto à
fábrica de adubo organo-mineral, da qual a Perdigão é proprietária de 70% das ações,
indica a dificuldade de independência desta associação frente a agroindústria.
Em forma de conclusão, pode-se afirmar que nesta relação integrado-
agroindústria, as empresas são as grandes beneficiadas. Conseguem uma matéria-
prima de excelente qualidade, na quantidade necessária para atender sua demanda e
a um custo muito menor que através da criação própria. Os integrados entram com o
investimento do aviário, a mão-de-obra e o risco da criação, beneficiando-se de um
retorno distribuído ao longo do ano e da “cama” dos lotes.


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1
Doutor pela Sorbonne Nouvelle Paris III. Professor Adjunto e Pesquisador na Universidade Tuiuti do
Paraná
2
Informações retiradas de Dalla Costa (1997) e Dirceu Talamini “Avicultura em 2001”, in: Anuário
2002. Revista Avicultura Industrial. São Paulo: Gessulli Agribusiness, ano 93, nº 1.096, Dez/01-J an/02,
p. 14-16.
3
Além dos aspectos mencionados, existem estudos sobre outros pontos dos contratos de integração. Para
uma análise econômica destes contratos e sua viabilidade, ver Lopes (1992). Para melhor compreender
os contratos de integração com os agricultores integrados, produtores de frangos, ver os estudos de
Rizzi (1984), Belato (1985), Campos (1987), Paulilo (1990), Mior (1992), Dalla Costa (1993).
4
O Estado de Santa Catarina é o maior produtor de frangos, seguido do Paraná. A região sul concentra a
produção nacional (55,6% em 2001), seguida do sudeste (26,8%) do nordeste (8,3%), centro-oeste
(8,0%) e norte (1,3%). Revista Avicultura Industrial. São Paulo: Gessulli, ano 93, nº 1095, novembro
de 2001, p. 12.
5
Informações do artigo “Integração do Rio Grande do sul aos aviários de Pernambuco”, in: Revista Aves
& Ovos. São Paulo: Associação Paulista de Avicultura, agosto de 1993, p. 10.
6
Arnaldo de Souza. “Quem ganha com a integração?”, in: Revista Avicultura & Suinocultura Industrial.
São Paulo: Editora Gessulli, ano 85, nº 1.019, março de 1985, p. 14.
7
Existe também uma organização das agroindústrias no Estado, conhecida como Sindicarnes.

Arte no Paraná dos anos 60 e 70: entre o instituído e o dissidente

Artur Freitas



Após o Golpe de 1964 qualquer manifestação artística considerada subversiva
pelos militares e que almejasse levar suas idéias a público, especialmente às classes
populares, deveria ser suprimida a qualquer preço. Calaram-se, junto às vozes de
sindicalistas e de políticos inconvenientes, as vozes ligadas aos CPCs da UNE
1
. Em
pouco tempo o engajamento político nas artes se vai restringindo a um consumo
essencialmente classe média, via de regra jovem e universitário. Dentro desses
limites, todavia, intensificam-se as discussões sobre o lugar da arte e do artista na
sociedade brasileira, bem como as discussões a respeito de quais seriam as novas
formas artísticas condizentes com a nova conjuntura. O cinema marginal e a
radicalização do Teatro Oficina e do Tropicalismo (com Zé Celso, Caetano e Oiticica)
fazem explodir as estruturas de linguagem dinamitando a tendência à simplificação da
expressão, presente nos primeiros anos da década de 60: dínamos do momento, os
happenings e as performances se esparramam pelo teatro, pela a música, pelas artes
plásticas e pela literatura de vanguarda
2
.
Sobre a liberdade de expressão nessa conjuntura, num primeiro instante
(1964-1968), como destacam Schwarz (1978) e Ridenti (1993; 2000), a parafernália
repressiva do regime não silenciou de pronto as críticas mais virulentas, situação que
se alteraria posteriormente ao AI-5 (1968) quando o recrudescimento nesse ponto
(através da censura prévia, do exílio, das torturas, etc) se daria de forma tão violenta
que restava, aos que aqui permaneciam, ou saltar dos pincéis e das letras aos fuzis
(algo nada comum, como nos demonstrou Ridenti), ou emudecer politicamente sua
produção (ou mesmo, se não emudece-la, ao menos metaforiza-la). Surge a
autocensura
3
.
É preciso destacar ainda, no tocante às bases sociais e ideológicas da
atividade cultural durante o período militar, e conforme reza a bibliografia sobre o
assunto, o surgimento de um curioso fenômeno histórico: a coexistência entre uma
pesada repressão político-ideológica e uma intensificação sem precedentes na
produção e difusão nacionais de bens culturais, fruto direto de uma modernização
conservadora das indústrias da cultura, da regulação e do incentivo do Estado e da
aliança com o grande capital. A repressão imposta pelo Estado autoritário, portanto, é
simultânea a formação de um grande mercado nacional de produtos culturais. Nos

circuitos de distribuição restrita, como o meio social das artes plásticas, o contínuo
amadurecimento de suas instituições durante os anos 50 e 60 leva, entre 1970 e 1975,
a uma etapa eufórica do mercado, coincidente com o período do “milagre brasileiro”.
Nos circuitos ampliados, mormente nos veículos de comunicação de massa, as
alterações são ainda mais evidentes: a TV, a indústria fonográfica, a comunicação via
satélite, o mercado editorial e a publicidade têm suas estruturas alteradas em números
realmente assombrosos
4
. Frente a essas circunstâncias, segundo alguns autores, a
atuação dos artistas e dos intelectuais mais inquietos marcou-se por uma severa
ambigüidade: a presença impositiva da repressão e da censura por um lado, e a
consolidação, por outro, de uma indústria cultural “que deu empregos e bons contratos
aos artistas, inclusive aos de esquerda”
5
.
Em meu entendimento, de certa forma, algumas produções culturais desse
período responderam a tal contradição social através da elaboração de uma outra
contradição, esta de ordem artística: uma formidável torrente de artistas e intelectuais
se dispõe não só a contestar e problematizar a situação do país, mas igualmente a
manter em suas produções um certo referencial estético de padrões exclusivos e
relativamente herméticos
6
. Nas artes plásticas e na literatura, o sentimento de
vanguarda, enquanto crise do institucionalizado, converge ao centro dos debates. O
reino da aura e da autonomia da manifestação estética é posto em xeque pela
confrontação com os novos veículos de reprodução de linguagem. Aos artistas visuais,
exemplificando, cabia posicionar-se frente ao cinema, à fotografia e à TV, ao alcance
da publicidade, aos gigantescos out-doors, às histórias em quadrinhos e aos cartuns,
frente às artes aplicadas, ao desenho industrial, aos novos meios, enfim: era preciso,
pois, compreender qual papel caberia ao trabalhador intelectual naquela complexa
maquinaria de cultura.
O criador multimeios Luiz Carlos Ayalla Rettamozo (São Borja – RS, 1948) ao
chegar ainda bem jovem a Curitiba em 1970, já encarnava o espírito dessas
contradições. Fugindo da censura de Porto Alegre rumo a capital paranaense “onde a
censura era mais branda”, Rettamozo destacava-se por assumir “sem frescuras” a
fusão entre erudição e cultura de massa. Artista underground e maldito, circulou pela
publicidade, carregou a ofensa de “comercial” (embora nunca tenha vendido um
quadro que fosse), foi perseguido pelo regime, consagrou-se nas Bienais de São
Paulo e premiou-se nos Salões Paranaenses, editou na imprensa alternativa (Scaps,
Espalhafato, Isso, Chupeta), fez performances, happenings e arte processual, foi
ambíguo, inclassificável, filho bastardo do concretismo, poeta e escritor, cartunista
político, quadrinista non sense, cineasta ativo, letrado e massivo, militante e esteta,
conceitualista bem-humorado. Comungava da dispersão e da fragmentação dos

sentidos; da contracultura e da indústria cultural – era a cara plástica de Paulo
Leminski, seu parceiro e amigo, com quem atuou em diversas frentes e meios,
sobretudo pela convivência publicitária paranaense.
No contexto local, a eficácia de planejamento e administração dos governos do
Paraná e de Curitiba de inícios dos anos 70 ajustava-se às práticas políticas nacionais.
A racionalização e a centralização financeiro-administrativa de Pedro Viriato Parigot e
Emílio Hoffman Gomes (posteriormente J ayme Canet J únior), bem como os projetos
políticos de J aime Lerner mostravam-se bem adequados ao “milagre” do governo
Médici. No Município, a Fundação Cultural de Curitiba, através de seu Centro de
Criatividade, foi importante órgão de promoção artística, embora não tivesse, no plano
da visualidade, a vocação contra-cultural que no campo da música e do teatro cabia a
um Paiol. No Estado, no que tange às artes plásticas, a criação do MAC-PR, a
manutenção dos Salões Paranaenses e, de certa forma, o auxílio indireto aos
Encontros de Arte Moderna, foram as iniciativas mais relevantes. A política cultural de
Ney Braga no Paraná durante seu primeiro governo e posteriormente à frente do
Ministério da Educação e da Cultura, bem como o incentivo oficial à cultura local dado
por Paulo Pimentel tanto como governador quanto como empresário da maior rede de
comunicações do Estado serviram, de qualquer forma, como uma poderosa frente de
fomento à indústria cultural regional e mesmo nacional. Curitiba, por esse tempo,
abrindo-se às modificações institucionais das entidades culturais, possuía mais de
trinta agências de publicidade, com destaque à P.A.Z., de Paulo Vítola, onde, entre
outros, circulavam nomes como Paulo Leminski, Sérgio Mércer, Fernando Nogueira e
artistas plásticos-gráficos-publicitários como Rettamozo, Solda, Miran e Rogério Dias.
Conforme compreendo, à classe artística de então era quase impossível não
se posicionar a respeito dessas transformações. Às pouquíssimas manifestações de
artes plásticas que ainda resistiam nas trincheiras de uma figuração engajada (ou
“social”, como as de Nilo Previdi e poucos outros), só restavam as vaias e a pecha de
esteticamente reacionárias, afinal a experiência duradoura e negativa do realismo
socialista ainda ecoava por perto. A experiência da guerrilha, os boatos sussurrados
sobre a tortura e o desaparecimento de conhecidos, depois do AI-5, também
desestimulavam qualquer engajamento mais explícito. O pequeno alcance popular das
artes plásticas provavelmente não compensasse os riscos de militância. A exemplo do
resto do país, no Paraná, os artistas e intelectuais que se mantiveram em militância
política efetiva, entregaram-se aos riscos das agressões, das prisões e dos porões da
tortura
7
. A vanguarda dividia-se e revia-se; chegava o momento da chamada “fossa
cultural”, da metáfora crítica, do desbunde comportamental, da retórica da revolução
pessoal. As instituições culturais oscilavam do paraíso à execração.

Em Curitiba, os episódicos Encontros de Arte Moderna são a expressão sócio-
cultural desse momento, e servem aqui para caracterizar uma parcela importante do
ambiente cultural brasileiro. A cada ano, e durante seis anos entre 1969 e 1974, os
estudantes e os artistas locais puderam entrar em contato com a vanguarda nacional
através de palestras, lançamentos de livros, cursos práticos e manifestações estéticas
radicais
8
.
Durante os Encontros, surgem discussões acaloradas sobre os problemas da
arte contemporânea estimuladas por críticos e historiadores da arte renomados
nacionalmente como J osé Roberto Teixeira Leite, Roberto Pontual, Frederico Morais,
Mário Barata e Walmir Ayala entre outros. Artistas convidados do Rio e São Paulo
como Arthur Barrio, Pietrina Checcacci, Frederico Nasser (grupo Rex), J osé Rezende
(grupo Rex), Pedro Escosteguy e Ana Bella Geiger comparecem, agitando a
pasmaceira local. Artistas e intelectuais do Estado como J oão Osório, Lauro Andrade,
Márcia Simões, Fernando Bini, Ivens Fontoura, Paulo Leminski, Oraci Gemba e Silvio
Back participam ativamente dos eventos
9
. A utilização de espaços alternativos e
marginais ou a subversão dos espaços oficiais da cultura foram alguns dos resultados,
meio festivos e meio contra-culturais, do evento. Num sábado de outubro de 1971, por
exemplo, durante o encerramento do terceiro Encontro, o canteiro de obras da
rodoferroviária de Curitiba (então em construção, como parte importante do projeto da
equipe J aime Lerner para urbanização da cidade) é invadido por uma multidão de
estudantes de belas artes que, sob a coordenação do crítico e agitador cultural
Frederico Morais, faz do local um laboratório experimental e efêmero de criatividade,
lidando com terra, areia e outros materiais de construção. Batizava-se ali o Sábado da
criação, em referência direta aos Domingos da criação, série de eventos igualmente
organizados por Frederico (no Rio de J aneiro) e cuja tônica vanguardista rezava pela
inserção do espectador dentro da obra de arte como ato político. A utilização de
sucata industrial como matéria artística, segundo o crítico, “libera a criatividade,
acelerando a compreensão da arte” tendo em vista que “nossa condição de país
periférico obriga-nos a considerar a sobra como realidade concreta. Devemos fazer da
miséria nossa maior riqueza”, bem como aceitar que se a “vanguarda é atualização
permanente”, a arte surge como “ação e engajamento”, pois “o artista de vanguarda
não se restringe a produzir obras. Ele luta por impor suas idéias, que não se esgotam,
evidentemente, no campo estético”
10
.
Por sua vez, Rettamozo entende que a vanguarda brasileira não se constrói,
como para Frederico, a partir da reutilização das sobras de uma sociedade em franco
processo de industrialização, mas sim, ao contrário, a partir de sua efetiva inserção
nesse processo, justamente para transgredir-lhe ao modo dos antídotos: com as

próprias regras: “A vanguarda de hoje, usando a fotografia, a história em quadrinho, o
conceito, o néon, cartazes, poemas em tv, e pelaí os nomes Mec art, Pop art, body art,
poesia espacial, catastrófica, Vídeo art, arte excluída, etc... democratiza a arte ao
mesmo tempo que a anula como raridade” (RETTAMOZO, reeditado em Fique doente,
não ficção, 1977). Simultaneamente, J oão Osório, problematizando a questão, no
exato momento em que interpreta a visão caipira e subdesenvolvida dos avanços
tecnológicos através de seus insólitos objetos caboclos construídos a partir das sobras
de embalagens e mercadorias descartáveis, também defende fervorosamente o
desenho industrial em detrimento do artesanato
11
. O experimentalismo de poucos
recursos por um lado e a aceitação, subversiva ou não, dos novos meios de
comunicação por outro eram duas leituras distintas que concordavam num mesmo
credo vanguardista: a necessidade imediata de ofensiva brutal contra a
institucionalização de qualquer forma de arte, “erudita” ou “popular”, que pudesse ser
compreendida como algo ainda aurático e sagrado a ser oferecido em templos
museológicos. As instituições culturais, mormente as oficiais, lançavam-se ao centro
do alvo
12
.
No Paraná desses tempos, a história das instituições culturais foi escrita, em
sua boa parte, através da atuação específica de dois personagens: os amigos
Fernando Velloso (filho de ex-Secretário de Educação e Cultura do Estado do Paraná)
e Ennio Marques Ferreira (filho de J oão Cândido Ferreira Filho, ex-Secretário da
Agricultura e ex-Interventor do Paraná), ambos da geração dos “abstratos”, artistas e
burocratas da arte que revezaram-se na direção das mais relevantes entidades
artísticas do Estado e do Município de Curitiba, do Departamento de Cultura à
Fundação Cultural de Curitiba, passando pelo recém criado Museu de Arte
Contemporânea, pela organização dos Salões Paranaenses, bem como pela
coordenação das diversas seleções de artistas locais aos eventos nacionais, entre os
quais algumas Bienais de São Paulo
13
. Essas ocupações estratégicas dos principais
postos culturais da política paranaense consentidas a um reduzido grupo de agentes
privilegiados por certo não servia como estímulo ao inquieto ideário vanguardista,
embora seja evidente que essa gestão cultural local tenha conseguido avançar na
constituição de espaços, eventos e entidades comprometidos especificamente com as
artes. A questão, é claro, consistia, àquela altura, em saber que tipo de arte tais
órgãos apoiavam, pois, embora sabidamente a política cultural paranaense durante os
anos 60, sobretudo sob a figura de Ennio Marques Ferreira, tivesse promovido a
profilaxia de todo modorrento academicismo de suas instituições culturais
governamentais
14
, nada garantia que uma espécie de novo academicismo não se
engessasse nessas mesmas instituições sob a guarda oficial de um modernismo mal-

ruminado e conservador, acusação, aliás, freqüente naquele período
15
. Nilo Previdi,
apesar de não compartilhar as poéticas vanguardistas do momento, ainda mantinha
seu engajamento: “Nunca se soube quem recebeu essas verbas [as destinadas ao
Depto. de Cultura], se elas existiram, e para onde foram, porque ninguém sabe disso”;
há em Curitiba, “um grupo de velhos comandantes de nossa arte que dirigem
despoticamente os caminhos próprios, sem dar grande chance aos que estão
surgindo. Esse pequeno grupo privilegiado e protegido por nomes de família e
relações importantes deve morrer para ser substituído por gente nova e sem
pretensões de dinheiro fácil. Só assim o Paraná vai ter seu estilo e sua arte regional
desenvolvida” (PREVIDI, Estado do Paraná, 10/08/1975). A esse respeito Retta
possuía o perfil tipicamente polêmico e criativo daqueles que se encrencavam não só
com essa situação específica do meio artístico local, mas também com a
desconfortável situação da arte num absurdo regime político que é ao mesmo tempo
opressor e promotor da cultura: o artista não só soube explorar as contradições do
meio artístico: alimentou-se delas. Como artista plástico impôs-se através do
conhecimento das regras em jogo, estava a par da história recente e da ameaça de
falência das vanguardas, como artista gráfico inquietou pela denúncia política de suas
charges, pelas publicações nanicas e pelo ganha-pão como ilustrador, como
publicitário percebeu como poucos o início da inserção da instituição-arte na lógica da
indústria cultural, do espetáculo, do marketing, bem como compreendeu,
principalmente através do contato profissional e afetivo com poetas-redatores como
Paulo Leminski, Reynaldo J ardim e Alice Ruiz, as sutilezas das transliterações entre o
texto e a imagem. Através do caos de uma criação multimídia, denunciou e vivenciou,
em várias frentes de expressão, as contraditórias e desgastantes relações da arte de
seu tempo com o poder. Nada de purismos ou “belasartismos”, para Retta a arte
deveria inserir-se na lógica industrial da cultura (que aparece associada ao marketing
imperialista), justamente para subverte-la por dentro, re-significando-a.

Imediatamente novas relações de mercado da arte surgem. Nova York
assume a liderança e introduz o marketing. E cria condições de novas
manifestações que deixam o termo “avant garde” patético. Pela nova
vanguarda a introdução na arte dos não-valores norte-americanos. E
conseqüentemente a despersonalização da cultura popular. Um
afastamento que as Belas Artes mantinha com mais dignidade e hipocrisia.
A arte até então apoiada pela tríade: obra-público-mercado, perde suas
bases. A obra, agora proposta de trabalho e trabalho; o público, agora
massa; o mercado, agora consumo (...). Se o conceito de obra estava
afastado da grande arte, o público transformado em grandes massas, o
tripé seria apoiado pelo mercado. A massificação imediata pelos meios, a
produção seriada, a TV, os quadrinhos, o cartun. Dentro deste novo
sistema (...) o conceito de grande talento perde a força: a quantidade agora

é a qualidade. Mais artistas, mais massa, mais freqüência, mais informação
em bloco. (...) No Brasil algumas tentativas de aculturar o colonialismo:
Gerchman, Oiticica, Vergara, Antonio Dias, Escosteguy, Wesley Duke Lee,
Nelson Leirner, Glauco Rodrigues fazem do novo sistema uma coisa
brasileira. A inversão do processo colonialista: o aproveitamento de uma
relação de mercado pela identidade de nossa cultura popular. O que prova
que não há medos. A estética passa a ser a ética. Na mão e na consciência
do artista as ferramentas, e não nas formas e conteúdos propostos pelas
“Belas Artes” (...).

Aos conservadores locais, que não entenderam nada e só fizeram burocratizar
uma arte “pendurável”, sobrava somente o repúdio, sobretudo às instituições culturais
oficiais.

O medo de aceitar essa realidade fez com que a produção artística de
vanguarda no Paraná passasse a ter um sentido pejorativo. Ofender um
artista era chamá-lo de vanguardeiro. O medo, característica da classe
média, de perder as raízes conquistadas por anos de trabalho voltado para
o Louvre, e sem perspectiva nenhuma de alcançar o andamento que a
vanguarda mundial tomava fez com que toda e qualquer manifestação
artística que não pudesse ser pendurada nas paredes dos museus, fosse
desestimulada. Os artistas eram chamados e avisados que o gasto em
montar ambientes, conceitos, etc, nunca seriam repostos, e que não teriam
estrutura econômica para manterem tais projetos em mostras nacionais.
Uma grande verdade. E o que faziam os museus e as instituições
diretamente interessadas? Enchiam suas paredes de quadros e mais
quadros, forçando assim os artistas a produzirem alguma coisa que
pudesse ser pendurada.
Razão pela qual o Anexo
16
faz a documentação e ouve aqueles que
sobraram do incêndio da arte contemporânea paranaense (Rettamozo, Diário do
Paraná, 1976).

Com premiações tanto nas artes plásticas, quanto nos festivais de cinema e
nos meios publicitários, Retta obtém reconhecimento simultâneo em diversas áreas na
mesma medida em que é abominado pelos puristas de cada uma delas. Seu desejo de
participar efetivamente da complexidade do novo panorama da cultura brasileira o faz
caminhar como equilibrista sobre os frágeis intervalos existentes entre os diversos
circuitos culturais. No seu entender o lugar da arte não era mais o do privilégio de
poucos, o espaço do sagrado e do esotérico – como continuava ocorrendo inclusive
com frações da própria vanguarda terminal. Para ele, o lugar da arte era o da própria
esfera pública
17
.

1
A arte cepecista “popular revolucionária” ligada à mobilização das massas volatilizou-se pela ameaça
militar, ao mesmo tempo em que, passada a febre inicial, também se arrefeceram, no âmbito das artes
plásticas, os afãs não-figurativos, pouquíssimo adaptados à nova e instável realidade brasileira, onde as
“opiniões” se tornavam parte indispensável do momento. De outro lado, no Paraná, o apoio que o
governador Ney Braga e os principais políticos paranaenses davam ao regime militar talvez ajude a
entender não só o posicionamento que o Paraná manteve frente aos acontecimentos do país, mas também


a aparente tranqüilidade inicial que se refletiu na cultura local. “Na ocasião, os dirigentes da política
cultural de Curitiba não conflitavam, do mesmo modo que os artistas e a população de Curitiba não
tinham o apelo popular de uma Rio ou São Paulo” J USTINO, Maria J . 50 anos de Salão Paranaense.
Curitiba: Clichepar Editora, 1995. p. 18.
2
No panorama internacional a arte conceitual surge, neste mesmo período, como uma forma histórica de
vanguarda extremada e cosmopolita, termo empregado recorrentemente para designar uma grande
multiplicidade de manifestações artísticas que se apoiavam na linguagem verbal, no uso do corpo, no mix
das mídias, na preocupação política, na valorização do processo intelectual e vivencial em detrimento da
obra acabada. A idéia, o conceito, em guerra contra a sensualidade da forma. O nome do artista francês
Marcel Duchamp, há pouco falecido, destaca-se, nas teleologias vigentes, sob a condição de precursor. A
denúncia da condição de mercadoria da obra de arte e a crítica às instituições culturais recrudescem.
3
De acordo com os “dados estatísticos construídos com base nos processos levantados pelo BNM junto à
J ustiça Militar, a presença de artistas nas organizações de esquerda era ínfima – 24, dentre 3.698
denunciados com ocupação conhecida. Vale notar que as organizações armadas urbanas, mais que as
outras, contaram com ‘artistas’: nelas, participaram 18 artistas (0,9% do total de 1.897 supostos
integrantes dos grupos armados urbanos típicos), enquanto nas demais participaram 6 artistas (0,3%
dentre 1.801 envolvidos em processos dos demais grupos de esquerda)”. RIDENTI, Marcelo. O fantasma
da revolução brasileira. São Paulo: Unesp, 1993. p. 73. Exceções, que servem mesmo para confirmar a
regra, foram as atuações armadas de artistas como Sérgio Ferro – guerrilheiro urbano preso e exilado – e
Carlos Zílio – que passou dois anos na prisão após ter sido baleado em confronto de rua.
4
Quinze anos de regime militar: Conselho Nacional de Propaganda (1964); Federação Brasileira de
Marketing (1969); a profissão de publicitário ganha a universidade através das escolas de comunicação:
ECA (1966), Álvares Penteado (1967), UFRJ (1968); multiplicam-se os institutos de pesquisas
mercadológicas: Gallup (1967), Audi-TV (1968), Simonsen (1967), LPM (1969); criada a EMBRATEL
que inicia toda uma política modernizadora para as telecomunicações; o Brasil se associa ao sistema
internacional de satélites (INTELSAT); é criado o Instituto Nacional de Cinema; surge o Ministério de
Comunicações; o Brasil se torna, em 1975, no sétimo mercado de propaganda do mundo; FUNARTE;
EMBRAFILME; Conselho Nacional de Cultura; o número de salas de cinemas multiplica-se sete vezes;
os aparelhos de TV passam de dois mil para vinte mil.
5
RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro. São Paulo: Record, 2000. p. 323.
6
No campo das artes plásticas, a menção à história da arte internacional e recente, assunto sabidamente
restrito a poucos iniciados, surge agora atrelada à necessidade de denunciar as mazelas sociais e políticas
brasileiras. Distantes por definição do contato com as massas, as artes plásticas fornecem variados e ricos
exemplos históricos dessa inusitada síntese entre linguagem erudita e engajamento metafórico:
Parangolés e Tropicália de Oiticica, Lute de Carlos Zílio, Guevara de Cláudio Tozzi, Movimento
estudantil eO corpo é a obra de Antonio Manuel, o Porco Empalhado de Nelson Leirner, Fumaça do
prisioneiro de Antonio Dias, as exposições Opinião 65 e 66, Propostas 65 e 66 e as manifestações
artísticas performáticas Do corpo à terra, Nova Objetividade Brasileira, Domingos da criação, etc.
7
O comunista Nilo Previdi bem como o socialista Walmor Marcelino passaram pela cadeia, o segundo
diversas vezes. Oracy Gemba, estudante e conhecido teatrólogo curitibano, sem filiação partidária
específica, conheceu de perto os belos tratos da penitenciária do Ahu, enquanto Euclides Dada, ex-
integrante do CPC e artista paranaense de teatro de bonecos, teve “mais sorte”, pois resolveu “dar o
pinote”, conforme suas palavras, quando percebeu que sua prisão estava por ser decretada HELLER,
Milton. Resistência democrática: a repressão no Paraná. Curitiba: Secretaria da Cultura do Estado do
Paraná, 1988. p. 353-368.
8
Os Encontros de Arte Moderna foram idealizados pela crítica e historiadora da arte paranaense Adalice
Araújo, responsável pelos contatos pessoais com a vanguarda nacional. A organização era feita pelo
movimento estudantil do diretório acadêmico Guido Viaro, da EMBAP-PR. Os fundos, pequenos, eram
todos governamentais (Prefeitura de Curitiba e Estado – através do DC da SEC e da EMBAP-PR).
9
Durante o V Encontro de Arte Moderna (20 a 25 de agosto de 1973) Paulo Leminski fazia a apologia do
dadaísmo, movimento estético europeu dos anos 20 centrado na demolição da arte como instituição, cuja
maior referência era, de novo, Marcel Duchamp. E nesse caminho, contraditoriamente, tanto a destruição
antiformal de Dadá quanto a descoberta da autonomia da linguagem pela semiótica constituem-se em
fundamentos conceituais e criativos de uma considerável parcela de jovens intelectuais. Anos antes, em
1963, Leminski, com apenas 18 anos, já se aproximara de Augusto e Haroldo de Campos, de Décio
Pignatari, de Waldemar Cordeiro e Roberto Pontual, companhias das quais sorveria, avidamente, as lições
de teoria da linguagem, os debates culturais mais recentes, bem como a compreensão da obra
duchampiana (VAZ, Toninho. Paulo Leminski: o bandido que sabia latim. Rio de J aneiro: Record, 2001).
Retta dividiu com Leminski a admiração pelo gesto contraventor e vanguardista.


10
MORAIS, Frederico. Arte plásticas, a crise da hora atual. Rio de J aneiro: Paz e Terra, 1975. p. 63.
11
O artesanato “que só se justifica como requinte de uma classe abastada [é] anacrônico” e “tende a
desaparecer”, cedendo “lugar ao desenho industrial, mais coerente com a época”, J oão in ARAÚJ O,
Adalice. Um diálogo com um dos maiores artistas da nova geração. (Diário do Paraná, 14/12/1969).
12
Um exemplo: em 1972 Frederico é convidado por Fernando Velloso, então diretor do Museu de Arte
Contemporânea do Paraná (MAC-PR), para apresentar-se na instituição com alguma proposta estética
durante o IV Encontro de Arte Moderna. Armava-se a vanguarda. J oão Moderno, Arthur Barrio e
Valkyria Proença, artistas pessoalmente convidados por Frederico, ocupam o espaço oficial do museu,
transformando-o num chiqueiro, dessacralizando sua função, com direito a um porco de verdade,
audiovisuais, ações performáticas e ainda um gato vivo e amarrado que tenta desesperadamente alcançar
um peixe, morto, que aparece “fumando” um cigarro americano. A intenção de subversão do espaço
museológico, da arte como instituição, é evidente. Assim como é evidente que as reações dos artistas e
intelectuais locais aos Encontros não poderiam soar em uníssono. O conhecido artista paranaense J air
Mendes, por exemplo, ao lançar um desabafo a Velloso no livro de assinaturas do MAC-PR, deixou bem
clara sua opinião em relação ao evento “Arte total”, nome que se deu ao tal episódio: “Ao diretor (meu
amigo) do Museu de Arte Contemporânea. Lamento profundamente a violação dos mais primitivos
processos de criatividade, permitindo que cretinos tentem impingir cretinices. É profundamente
lamentável [que] uma casa que mantenha permanentemente Viaros, Bakuns, Wongs, Potys e tantos
nomes que têm através de seu talento (que V. Sr. também possui em abundância), permita que venham
violar através de processos ultrapassados (A Europa tomou ciência há 20 anos da posialidade [sic] que
faziam) um local destinado à verdadeira expressão da arte moderna. Perdoe, mas isto é uma merda”. (J air
Mendes, livro de assinaturas do MAC-PR, 1972).
13
E a essa altura é curioso perceber que eventos artísticos transgressores e pretensamente contra-
hegemônicos como os Encontros de Arte Moderna passavam, de alguma forma, pela subvenção da
política cultural do período, muito embora não se possa medir seus efeitos pela análise pura e simples de
seus componentes infraestruturais.
14
Ennio, sobre a cultura paranaense dos anos 60: “Realmente era difícil; as condições eram mais restritas
em relação a, principalmente, São Paulo e Rio. O público aqui tinha uma certa dificuldade para absorver
as novas tendências da arte mundial. Ele sempre foi mais voltado para as coisas mais acadêmicas. Foi um
trabalho do Estado, da Prefeitura, para acabar com essa má tendência da cultura, para mostrar que
existiam outras coisas, outras formas de criação do artista. Eu acho que o curitibano com isso abriu a
cabeça, não pelo meu trabalho apenas, mas eu fiz parte de um conjunto de condições que propiciou ao
público curitibano conhecer mais coisas” FERREIRA, Ennio Marques. Depoimento. In: Memória da
Curitiba urbana. Curitiba: IPPUC, 1991. v. 7.p. 160.
15
Pude perceber pelo menos três tipos de oposição à administração cultural paranaense desse período: (i)
a que acusava a formação de uma “igrejinha” política que favorecia somente quem lhe aprouvesse (ex:
Lauro Andrade, Nelson Padrela, Nilo Previdi); (ii) a que se opunha ao conservadorismo das
manifestações artísticas privilegiadas pela política cultural local (ex: Rettamozo, Leminski, Fernando
Bini) e a que desconfiava da honestidade e da credibilidade administrativa da mesma (ex: Nilo Previdi).
16
O “Anexo” citado era um caderno de cultura, suplemento do Diário do Paraná, do qual Rettamozo era o
funcionário responsável e que servia como porta de entrada às produções marginais e às críticas
corrosivas de um grupo de intelectuais e artistas inconformados com a “sopa rala” da cultura local,
conforme expressão recorrente de Leminski. “O jornal estava deixando de ser uma empresa dos Diários
Associados e passava por uma fase de transição, o que favorecia a apropriação quase clandestina de suas
páginas. E nós o fazíamos com a intenção de contra-atacar o silêncio dominante” (in VAZ, Toninho.
Paulo Leminski: o bandido que sabia latim. Rio de J aneiro: Record, 2001. p. 195).
17
Um exemplo em forma de epílogo: em 3 de abril de 1977 qualquer transeunte que passasse pela praça
Garibaldi, no centro de Curitiba, poderia servir-se das tintas, dos pincéis e das grandes folhas de papel em
branco que se espalhavam pelo calçadão para pintar, rabiscar ou escrever o que bem entendesse. Ao final
do exercício coletivo de criatividade e expressão, todo o material coletado e não selecionado foi
reorganizado e fixado por Rettamozo, elaborador da empreitada, num grande out-door ali existente. “A
proposta”, segundo o artista, “foi reorganizatória da paisagem mental”. Em jogo o incontrolável da
criação “popular”, a citação às instalações da arte contemporânea erudita, o happening processual, a fuga
do museu e do mercado, a suavização das fronteiras entre criador e receptor, a ocupação do espaço urbano
pelas mesmas armas da publicidade e da indústria cultural, a irresponsabilidade frente aos discursos
anônimos produzidos pela e para a multidão amorfa; um gesto de poesia e combate; ou como prefere Raúl
Antelo, a arte como transgressão, como o “avatar do político”.
A Medicalização da identidade pela Lepra

Beatriz Anselmo Olinto
1



“A doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais
onerosa, todas as pessoas vivas tem dupla cidadania, uma no reino da
saúde e outra no reino da doença.”
2

Vivenciar a diminuição da condição humana de uma pessoa, ou de um grupo,
dentro de uma determinada sociedade é uma experiência terrificante. Tornar-se um
cidadão de segunda categoria é uma realidade corriqueira na contemporanidade,
qualquer atributo ligado a sua pessoa poderá ser a base para isto, como a cor da sua
pele, a sua religião, a sua opção sexual, a sua nacionalidade, etc e etc; toda
informação que você transmite sobre você mesmo pode ser usada (e será) para
classificá-lo, nomeá-lo e localizá-lo dentro de uma miríade de seres e coisas, onde se
terá mais ou menos direito de ser humano.
Ser visto como uma pessoa sã é ser portador de uma ordem interna, de um
funcionamento sincronizado que o capacita a exercer o seu papel de sujeito moderno
limpo e ajustado à atual sociedade ocidental. A partir da percepção de um ser doente
a situação muda, o seu nome e o seu lugar são outros, você é um outro. Sua nova
identidade é a deteriorização da primeira. É deste pressuposto que se parte para
examinar alguns processos de desqualificação identitária pela lepra no início do século
XX no sul do Brasil, no estado do Paraná.
A comunicação aqui apresentada expõe algumas questões que vem sendo
trabalhadas dentro do Programa de Pós Graduação em História da UFSC para a
elaboração da tese de doutorado, buscando compreender de que maneira a lepra
estava inserida na alteração de sentido identitário em um momento de definição e
desqualificação de grupos em diversos discursos. Qual seria o espectro de atributos
que instrumentalizam este processo de deterioração da identidade? Como,
concepções de progresso, civilização e futuro – pensados em moldes europeus
ocidentais - inscreviam-se em meio a argumentações definidoras de quem seria o nós
e o diferente?
A partir do problema identitário que atravessa o ser/estar doente que se
compõem o vínculo entre a desqualificação dos doentes pelo mal de Hansen e os
discursos sobre a formação populacional paranaense durante o início do século XX.
Esta ponte é edificada sobre alicerces de preconceitos, nuanças e tragédias humanas.
Pois na elaboração de projetos identitários regionais estava incluído um amplo leque
classificatório de desviantes a ele, separando o dentro e o fora da ilusão civilizatória
por muralhas feitas com palavras e papel.
Ser um doente de lepra no final do XIX, era ser entendido dentro da noção de
“leproso”, esta nominação acarretava uma percepção de que a única maneira de lidar
com a doença era isolar o seu portador. Esta postura era apresentada de forma
naturalizada e fundamentada na teoria do contágio, assim:

“Desde que a bacteriologia afirma a existência do bacilo da lepra, desde
que a ciência afirma que o mal é transmissível, o primeiro cuidado dos
países onde se manifesta tem sido opor meios racionais a sua propagação,
sendo o mais eficaz e natural o isolamento.
Mas consegui-lo satisfatoriamente, é preciso empregar rigor, é
indispensável que haja ao redor do núcleo dos doentes um cordão sanitário
completo a fim de impossibilitar a comunicação”
3


O referendo científico era embasado na descoberta do bacilo por Hansen em
1873, ponto fundamental para compreensão das características do tratamento que
será dispensado a estas doentes durante a primeira metade do século XX no Paraná.
Pois se, pela perspectiva da historiografia médica tradicional, tal data é comemorada
como mais passo em uma irresistível caminhada da ciência rumo ao esclarecimento
completo sobre a doença, nas pesquisas mais recentes sobre o tema demonstra-se
que esta confirmação da transmissão por contágio acabou por reviver o medo da
lepra, bem como se apresenta no cerne do “leprosaria revival”
4
, com a escala mundial
do fenômeno da construção de grandes leprosários para isolamento destes doentes,
principalmente entre os anos 20 e início dos 40 no século XX.
Com a descoberta do bacilo, o debate de um século entre os médicos que
acreditavam ser a lepra uma doença contagiosa e os que a pensavam como
hereditária pendia para o lado dos primeiros. O espaço para este debate diminuía, o
isolamento passava a ser defendido pela medicina como medida profilática “natural”
para o combate a doença. A expansão desta medicalização social exigia rigor e pouca
contestação, assim logo tornar-se-á um assunto de polícia, pelo menos no Brasil.
A presente comunicação versa sobre alguns pontos sobre a constituição de um
“outro“ desqualificado e anômalo, o que possibilita a existência de um “nós” civilizado
merecedor do progresso. Analisando diversos discursos – leprologia, imigração,
historiografia - busca-se pelos instrumentos e operações instituidoras de identificações
deterioradas sobre algumas pessoas e como, uma vez portadoras deste estigma, elas
vivenciaram uma diminuição de sua humanidade na primeira metade do século XX, no
estado do Paraná. Ao seguir o pensamento de CASSIRER pode-se iniciar a
compreender a historicidade do nomear:

“não é a função de um nome referir-se exaustivamente a uma situação
concreta, mas apenas isolar um aspecto (...). Cada classificação é dirigida
e ditada por necessidades especiais, e é claro que essas necessidades
variam de acordo com as condições diferentes da vida social e cultural do
homem.”
5



O aspecto isolado pelo nome vai sobrepor uma característica às outras não
nomeadas ou não utilizadas em uma dada classificação. Assim se o atributo
observado e sobreposto aos outros for lido como depreciativo será sempre relacional a
uma normatização de um grupo. Utilizar-se-á, a concepção de estigma para o referido
atributo, acompanhando a categorização de GOFFMAN
6
. Tratar-se-á de três tipos de
estigmas nos discursos analisados: o corporal (que se refere a deformações físicas), o
moral (que julga comportamentos alheios) e o de grupo (preconceitos contra etnias,
nacionalidades, etc.), esta divisão é apenas para fins didáticos, já que estes aparecem
quase sempre imbricados, onde a percepção mescla preconceitos físicos,
comportamentais, etc. O estigma é um princípio organizador da diferença, ele
responde a uma necessidade de ordenação, catalogando o estigmatizado em uma
humanidade inferiorizada perante aos demais.
Tanto em relação a uma doença, no caso estudado a lepra, como na
identificação de grupos para a formação populacional paranaense, o debate
desenrola-se através dos sentidos atribuídos a percepção das diferenças, onde estas
transformam-se em signos de uma falta das qualidades (físicas, morais e/ou coletivas)
.
A lepra é uma doença prolongada que até 1941 não conhecia nenhum
tratamento comprovadamente eficaz. A evolução do seu quadro clínico potencializa a
incapacitação dos membros do corpo, pois atinge tanto a pele como o sistema
nervoso. É causada pelo microbacilo leprae, que só existe no ser humano. Por ser de
transmissão difícil, necessitando de um contato íntimo prolongado com um doente não
tratado e de alguma predisposição, dá margem à muitas incompreensões imersas no
medo do que é desconhecido, como lembra SONTAG: “Toda doença tratada como
mistério será temida e sentida como moralmente e literalmente contagiosa”.
7

Não é tão somente por ser uma doença contagiosa que se justificaria todo o
temor que a envolve, embora a questão do contágio esteja intrinsecamente ligada ao
fenômeno do “retorno” dos leprosários no início do século XX, quando a política de
isolamento destes doentes ganhou terreno em várias regiões do mundo
8
. Entretanto,
como o medo da lepra apresenta-se de maneira muito ampla e difusa, o foco na sua
contagiosidade tece relações muito mais controláveis através da noção de ameaça
social, onde a metaforização da doença e seus portadores como diferentes e inimigos
da comunidade estabelecida, implementa a mobilização necessária para o
funcionamento das políticas autoritárias de saúde pública.
No sentido inverso, a pesquisa percebe o mergulho no tema da lepra como
uma jornada trágica, pois que é falar da transformação das identidades submersas
nesta experiência criadora de sentidos e símbolos. Contudo segundo CASTORIADIS
9
,
um simbolismo só se edifica sobre as ruínas dos edifícios simbólicos precedentes
combinando elementos e assim inventando formas novas. É neste movimento que o
sentido gera o signo - e não o contrário - sendo que a constituição de novos sentidos e
seus deslocamentos se dão na e pela história. Para o autor o mundo humano é o
transformar do natural por um meio simbólico.
A problemática vem sendo trabalhada com vistas a elaboração da tese de
doutorado, nesta tentar-se-á entender alguns dos sentidos de uma doença como a
lepra, para isto ensaia decifrar alegorias que se inscrevem nos discursos sobre esta. A
opção por esta analise parte da percepção levantada por TRONCA, quando aponta
que também a fala científica, assim como a artística, lança mão de estilos estéticos –
principalmente o sublime e o pitoresco - nas suas imagens sobre a lepra. Compondo
uma linguagem alegórica para lidar com os sentimentos que a doença inspirava ao
mesmo tempo que se instituía um domínio de saber científico sobre ela, assim:

“não há por que deixar de considerar a alegoria como um desses
esquemas, uma estrutura artificial que construímos, entre outras, para
controlar acontecimentos que, especialmente diante do impacto da doença,
nos apavoram e sobre os quais, na verdade, não temos nenhum controle.
Até mesmo de um ponto de vista social, pode-se dizer que não se trata
apenas de controlar a manifestação sensível da doença, mas também de
exercer um domínio, por parte do saber médico, sobre o próprio doente.”
10


O sentido alegórico produziria um certo conhecimento sobre a doença ao
minimizar o choque aterrador inicial. Mas cabe apontar que existe um campo de
possibilidade polissêmica para a leitura da alegoria pois que os sentidos, apesar de
serem amplos, não são infinitos. O arco alegórico pode passar a impressão de
dissolver o tempo mas, também ele, só é possível dentro da história
11
A temática da pesquisa perpassa uma ampla gama de inter-relações que
constróem as identificações de grupos através do estranhamento do outro e da
sensibilidades ao diferente. Para isto a problemática é desenvolvida em três capítulos
onde se analisa como identificações deterioradas são impostas sobre pessoas,
prevendo o seu futuro e classificando-as. Dentre estas, destaca-se uma identificação
deteriorada em especial, uma estigmatização forte e extremamente alegórica, a lepra.
Seguindo ELIAS: “O sinal físico serve de símbolo tangível de pretensa anomia do
outro grupo, de seu valor humano inferior, de sua maldade intrínseca;”
12

Ainda busca-se em Elias a configuração
13
de seres humanos interdependentes
formando uma teia flexível de tensões que podem ser marcadas por figurações de
aliados e adversários, onde os estabelecidos se atribuem caracteres humanos
superiores e estigmatizam, com características inferiores, o outro.
14
Esta sensibilidade
às diferenças é composta dentro de um processo civilizador, que também acentuou a
solidão daqueles que por sua doença lembravam a transitoriedade da vida humana e a
frivolidade de muitas de suas conquistas. É um sentido trágico atravessa esta vivência
e expõem-se nas alegorias, nas políticas, nos tratamentos e nas falas sobre a lepra e
a diversidade humana.
O sentido moderno da palavra civilização é cunhado, segundo STAROBINSK,
no final do século XVIII e abrange as noções de: “ abrandamento dos costumes,
educação dos espíritos, desenvolvimento da polidez, cultura das artes e das ciências,
crescimento do comércio e da industria, aquisição de comodidades materiais e do
luxo.”
15
Esta concepção vem irmanada de seu próprio antônimo, a noção de barbárie.
Ela é “inseparável do seu avesso”
16
e só em relação a este é que pôde construir uma
paisagem de progresso, tão cara para a sua legitimação.
Quando em 1919 o jovem médico Souza Araújo, então chefe da Comissão de
Profilaxia Rural no Paraná, encontra no interior deste estado um senhor cego e
leproso, faz uma fotografia com a seguinte legenda: um cego leproso cuja a vida é um
inferno
17
.Não se sabe o nome do senhor fotografado, mas uma foto sua está em meio
as paginas dos trabalhos publicados pelo referido médico. É uma entre muitas outras,
onde doentes sem nome mostram as suas deformidades corpóreas, enquanto
médicos devidamente engravatados, nomeados e titulados, posam ordenadamente
para o seu pantheon acadêmico.
Hoje olhando para esta fotografia do homem cego e doente, pode-se afirmar
que se tratava de um indivíduo já adulto e maduro. Ele aparece sentado na soleira de
uma casa de madeira com os pés descalços, uma perna da calça arregaçada e as
mãos em frente ao seu peito, assim expõem as suas chagas para a lente. Do seu
rosto, em parte encoberto pela barba espessa, destacam-se seu olhos cansados e
uma testa longa. Suas roupas estão sujas e desordenadas. A perspectiva do fotógrafo
acompanha esta descrição a partir do primeiro plano com os pés, pernas, depois
mãos e, finalmente rosto. É uma imagem incomoda, seus olhos e sua mão esquerda
(ainda não muito deformada) parecem apelar pela sua humanidade, enquanto seus
membros mais deteriorados inspiram compaixão e repugnância ao mesmo tempo.
Estes sentimentos criam uma ponte sensível que faz recordar a Poética de Aristóteles
onde suscitar no público terror e piedade é o efeito esperado de uma tragédia
18
,
decerto a foto suscita-os. Novamente os elementos essenciais ao trágico encontram
olhos espectadores que o enxergam na vivência humana no espaço e no tempo.
Fonte: SOUZA-ARAÚJ O. Profilaxia Rural no Estado do
Paraná. Op. cit.
A tragédia humana sob a definição do médico como um inferno faz sentido
contemporaneamente, onde ter sua humanidade vinculada a perfeição corpórea não é
estranho. Muito pelo contrário, uma mácula desta pode fenecer a primeira,
principalmente se for uma marca visível sobre o corpo, principalmente nas mãos e no
rosto. Daí a análise desta experiência vital como tragédia que inspira a presente tese,
esta terá a sua trama tecida pelos processos de estigmatização e de medicalização
na primeira metade do século XX no Paraná e mais especificamente em Guarapuava.
Nas fotos para a literatura médica do período, os profissionais da saúde
diferenciam-se dos doentes por uma ordenação simbólica de elementos, como o uso
da gravata, a limpeza da pele, o ambiente solene ao fundo; assim se dá a composição
das noções de pertencimento. É uma leitura de sentidos de autoridade e de estigma
que permeiam o texto ou a imagem, ao mesmo tempo em que instruem as
solidariedade. Na fotografia abaixo posam os novos médicos pertencentes a
Comissão de Profilaxia Rural em 1919, da esquerda para a direita Souza Araújo é o
terceiro sentado. Apesar dos médicos, ao contrário do doente, serem jovens, o
ambiente, as roupas, o cabelo e a pose são rigorosos e ajudam a compor a aura de
solenidade e seriedade para o meio científico.

Fonte: SOUZA-ARAÚJ O. Profilaxia Rural no Estado do
Paraná. Op. cit.

É a partir desta dicotomização entre o doente, desordenado interna e
externamente pela doença e pela falta de higiene, e o médico como sujeito ordenador
das gentes e das coisas, que a presente tese pretende pensar a composição de
identificações e perguntar pelo medo da diferença. A pesquisa será desenvolvida pela
percepção de que a racionalidade moderna tentou subtrair o horrível da vida,
escamoteando o seu caráter trágico. Mas como ele é parte intrínseca da experiência,
acaba por transbordar novamente dentro da própria estratégia da modernidade, em
um embate trágico, onde o tema é o estranhamento do outro e a trama é a
constituição de uma identificação deteriorada, menos humana, sobre ele.
E é assim, com a depreciação identitária na modernidade, que se fornece um
sentido a própria existência, em uma auto localização como “nós” perfectível, ou seja,
os que são capaz de superar os obstáculos e realizar um progressivo futuro.
19

Neste horizonte de perspectiva é que a tese analisará a região de Guarapuava
no Paraná como um ponto de partida na pista dos discursos que engendram sentidos
de pertencimento, ao mesmo tempo que estigmatizam imagens de outros,
desqualificando estes pela não perfectibilidade, pela incapacidade civilizatória e pela
de identificação desumanizante. O destaque será a estigmatização da lepra reforçada
pelas posturas oficiais e midiáticas do município nas primeiras décadas do século XX.
Buscar-se-á também por indícios da sobrevida destes doentes, iniciando pela
análise da normatização de seu isolamento no espaço do novo leprosário São Roque,
passando por noções de sofrimento ali localizadas e pelos fragmentos possíveis de
suas experiências neste universo, lembrando HARVEY: “As ordenações simbólicas do
espaço e do tempo fornecem uma estrutura para a experiência mediante a qual
aprendemos quem ou o que somos na sociedade”
20
Quais as identificações que
podem sobrevir nesta ordenação? Esta pergunta procura respostas nos sentidos
alegóricos que fundamentam a tradição de pensamento sobre a lepra e ainda tenta
arriscar algumas analises estéticas desta tragédia.
Finalmente, se a pesquisa trabalha com questões envoltas pela figuração
trágica, então que seja para estar unida ao canto do coro de Antígona, quando este
afirma que: “Em mim só manda um rei: o que constrói as pontes e destrói muralhas”
21
.
Talvez enxergar e compreender as pontes e as muralhas que existem nas
construções de identificações deterioradas sobre os “outros” ainda seja uma
proveitosa maneira de derrubar aquelas últimas.


1
Doutoranda no Programa de Pós graduação em História da UFSC, professora assistente do
Departamento de História da UNICENTRO, membro do grupo de pesquisa C. E. I. – Cultura, Etnias e
Identificações.
2
SONTAG, Susan. A Doença como Metáfora. Rio de J aneiro: Graal,1984 ( p. 7).

3
J ornal “O Guayra”. Ano IV, n.º 38. 15/01/1898.
4
SILLA, Eric. The people are not the same. leprosy and identity in twentieth century Mali. Oxford:
J ames Currey, 1996 ( p. 24).
5
CASSIRER, Ernest. Ensaio sobre o Homem: introdução a uma filosofia da cultura. São Paulo: Martins
Fontes, 1994 (p.220 e223)
6
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4 ed. Rio de
J aneiro: Guanabara, 1988 (p. 13).
7
SONTAG, Susan. A Doença como Metáfora. Op. cit. (p.6).
8
SILLA, Eric. The people are not the same: ... op. cit. (p.24).
9
CASTORIADIS, Cornélius. A Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de J aneiro: Paz e Terra, 1982.
10
TRONCA. Ítalo. Máscaras do Medo : lepra e AIDS. Campinas: Unicamp, 2000 (p. 18).
11
Idem (p. 100).
12
ELIAS, Norbert & SCOTSON, J ohn L.. Os Estabelecidos e Outsiders: sociologia das relações de poder
a partir de uma pequena comunidade. Rio de J aneiro: Zahar, 2000 (p.36).
13
Configuração na obra de Norbert Elias é neste trabalho entendida como um padrão mutável das
interelações na sociedade, um modelo didático para romper com as polarizações clássicas que separam
indivíduo e sociedade, seguindo a análise proposta por: SALLAS, Ana Luisa F. IN: CAMPOS - Revista
de Antropologia Social. Curitiba: UFPr, jan. 2001.
14
ELIAS, Norbert & SCOTSON, J ohn L.. Os Estabelecidos e Outsiders: sociologia das relações de poder
a partir de uma pequena comunidade. Rio de J aneiro: Zahar, 2000 (p.36).
15
STAROBINSKI, J ean. As máscaras da civilização: ensaios. São Paulo: Cia das Letras, 20001 (p14).
16
Idem (p. 56).

17
SOUZA ARAUJ O, H. C. de . Profilaxia Rural no Estado do Paraná: em esboço de geografia médica,
Curitiba: Livraria Econômica, 1919 (p. 114).
18
Ver: ARISTÒTELES. Poética. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1979 (p245).
19
Perfectibilidade como capacidade progressiva de superar obstáculos ver: ROUSSEAU. Do Contrato
Social I. In: Os Pensadores. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978 ( p.31).
20
HARVEY, David. Condição Pós Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 8 ed.
São Paulo: Loyola, 1999 (p 198).
21
SÓFOCLES. Antígona. Rio de J aneiro: Paz e Terra, 1996 (p.19).
CIVILIDADE E PROGRESSO: IDEAIS DA IMIGRAÇÃO EUROPÉIA NOS
DISCURSOS DA ELITE POLÍTICA BRASILEIRA (1846-1888)
1

Cacilda Estevão dos Reis



A substituição da mão-de-obra escrava pela mão-de-obra livre no Brasil tornou-
se um dos temas centrais nos debates entre as autoridades do país, na segunda
metade do século XIX. Discutia-se a viabilidade da importação de trabalhadores
europeus, preferencialmente, daqueles vindos do norte da Europa, considerados
possuidores de ideais civilizatórios.
Buscar-se-á entender o sentido da colonização a partir da aquisição do
trabalhador europeu e o parâmetro que se tem da perspectiva do colono imigrante
como agente promotor de progresso, indivíduos morigerados e industriosos.
Por certo, faz-se necessário reconhecer que a economia brasileira, desde o
início do processo de colonização até a metade do século XIX, se caracterizava pelo
predomínio da produção agrícola. Da colonização subsistiram até o século XIX
determinados elementos estruturais, são eles: a grande propriedade latifundiária, a
produção monocultora voltada para o mercado externo e o uso da mão-de-obra
escrava.
Após a independência do Brasil, em 1822, como afirmaria Caio Prado J unior, o
sistema escravista manter-se-ia e aparentemente não haveria um sistema substituto
possível, pois os proprietários rurais - a classe mais interessada na conservação do
regime - se tornaram a força política e socialmente dominadora durante o Império
2
.
A partir de 1822, o Brasil seria obrigado a negociar o reconhecimento como
nação independente, de modo a garantir sua soberania nacional. Nesse quadro,
segundo Emília Viotti da Costa, a ordem econômica tradicional seria preservada e a
escravidão mantida. A nação independente continuaria sujeita à estrutura colonial de
produção do domínio português à tutela britânica. O advento da independência (1822),
não geraria alterações na posição assumida pelo Brasil no âmbito internacional. O
país se manteria como fornecedor de matérias-primas e comprador de produtos
manufaturados, posição defendida por alguns políticos.
Bernardo Pereira de Vasconcelos, por exemplo, um dos políticos mais
eminentes do primeiro Reinado e da Regência, em carta aos “senhores eleitores”,
afirmava que o país deveria enviar aos mercados estrangeiros aquilo que era capaz de
produzir de melhor e receber em troca os produtos que não estava apto a produzir em

iguais condições
3
, quais sejam, os manufaturados.
No entanto, com a crise do escravismo caracterizada pela falta de mão-de-obra
para a lavoura cafeeira em expansão e, posteriormente, a abolição da escravidão,
concretizada em 1888, o Brasil deparar-se-ia com dois problemas cujas soluções
faziam-se necessárias e urgentes. De um lado, tinha-se a necessidade de mão-de-
obra para substituir o escravo na lavoura de café, pois este produto tornou-se a
principal mercadoria de exportação, deixando a aristocracia agrária da região
apreensiva, ao se deparar com a iminência de ficar sem o braço escravo para a
lavoura; de outro, a grande extensão de terras ainda improdutivas na região Sul do
país, criava a imperativa necessidade de forçar os imigrantes a se adaptarem ao
trabalho nas fazendas e de colonizar o território brasileiro para proteger as fronteiras
do Império
4
.
Segmentos mais tradicionais ligados a intelectuais europeizados, identificados
com o pensamento ilustrado, apoiavam uma política colonizadora cujos pressupostos
baseavam-se na perspectiva civilizatória e na distribuição de pequenos lotes de terras
ao imigrante.
Antes da independência (no governo de D. J oão VI) e após a independência
(com D. Pedro I), percebe-se certas iniciativas no sentido de abrir o país aos
imigrantes estrangeiros preferencialmente os europeus. Haviam no entanto,
obstáculos à formação de núcleos coloniais. Entre eles, destacaram-se o isolamento e
a distância entre eles e os centros consumidores, a quase inexistência de
consumidores de excedentes num país onde a urbanização é reduzida e numa
economia rural baseada principalmente na grande propriedade que se auto-abastece e
na pequena propriedade que se ocupa da produção de subsistência.
Outros obstáculos, como a ausência de estradas e de meios de transporte
eficientes também contribuem para seu insucesso, de tal forma, que a discussão sobre
a necessidade de manter e estimular a imigração vinha acompanhada de discussão a
respeito da construção, conservação e melhoria de estradas e de outras vias de
comunicação.
A presença do elemento europeu como “civilizador”, associado ao processo de
branqueamento da raça, tornou-se, durante o século XIX, um dos importantes temas
na discussão dos benefícios que o elemento imigrante traria à ordem social ia além da
questão da mão-de-obra pois embora parte destes elementos tenham vindo das
práticas do trabalho industrial (artesãos ou operários), conheciam as práticas do
trabalho colonial na Europa.
A repercussão da entrada do imigrante europeu no Brasil, nas primeiras
décadas do século XIX, parece traduzir o interesse do poder monárquico em fortalecer

os princípios ocidentais da nação e garantir os domínios sobre as áreas de fronteira no
Sul do país.
De acordo com o discurso do deputado Fideliz Botelho, na sessão de 24 de
março de 1879, na Câmara dos Deputados, essa preferência pelo imigrante do norte
da Europa implicava uma tentativa de aumentar a população branca do país e
promover seu desenvolvimento econômico e intelectual. No extremo oposto, os latinos
não eram vistos como suscetíveis de progresso e os asiáticos eram tidos como uma
raça inferior, uma nação embrutecida na qual a “civilização” não tinha podido
penetrar
5
.
Nos discursos políticos, ficam claras as preocupações com a escassez de
mão-de-obra e com a solução desse problema, a oposição de alguns políticos à
imigração, a defesa da utilização do elemento nacional e a discussão acerca da
aprovação de créditos para a colonização via imigração.
O deputado J .J . Rocha, da Bahia, mostrava-se contrário ao crédito à imigração,
defendia o tráfico de escravos, pois entendia que a colonização beneficiaria somente o
Rio de J aneiro.
Quanto ao tipo de trabalhador, poder-se-ia utilizar o nacional, pois trabalhador
imigrante ou brasileiro trabalhará primeiro em seu benefício, depois ao do patrão. Em
seu discurso, na sessão de 31 de julho de 1856, segue afirmando:

Senhores, se quereis gente pobre que se entregue ao trabalho dos
campos, procurai-a primeiro no mesmo Brasil [...] Ofereção-lhes trabalho
nas mesmas condições e vantagens, e tende certeza de que, com as
condições, com as mesmas excitações que o europêo trabalhar o brasileiro
mais facilmente trabalhará
6
.

Discute-se na Câmara dos Deputados a aprovação de um crédito de seis mil
contos (6000.000) para favorecer a imigração. Daí a preocupação dos deputados com
o tipo de trabalhadores que se devia importar e a recusa de outro como o asiático por
exemplo, preferindo empregar essa soma na utilização do elemento nacional.
No tocante à escolha do imigrante dar-se-ia preferência aos oriundos do norte
da Europa, haja vista que se considerava necessário direcionar o processo para uma
imigração boa e regular com imigrantes definidos como trabalhadores e não vadios
que viessem a cultivar os campos em vez de se empenhar na povoação de outras
regiões. Dessa forma, valorizava-se a colonização alemã, ou, aquela oriunda de
alguns distritos da França e da Suíça, podendo utilizar-se também colonos
portugueses e italianos na opinião do deputado Figueira de Mello. Todavia, no tocante
aos portugueses devia-se observar que o referido parlamentar alerta para o fato de
que

Portugal não é um grande viveiro de colonos, demais sabemos que a
corrente da emigração portuguesa já está trabalhando no paiz e que se
Portugal fosse um grande viveiro de colonização muito maior numero de
portugueses existirão no Brasil (Sessão de 31 de J ulho de 1856)
7
.

O deputado Saraiva pontuava na sessão de 06 de Agosto de 1856, outra
vantagem da imigração do norte da Europa em relação à portuguesa. Segundo ele:

os portugueses só se estabeleceram, só procuraram a agricultura quando
não achão emprego em nossas cidades; os alemães só ficam nas cidades
quando não podem ir para o campo: aquelles gostão do commercio e estes
da agricultura
8
.

O crédito a ser obtido deveria ser empregado também na compra de aparelhos
e instrumentos para a agricultura, pois o país não carecia só de braços para a lavoura,
mas também, de estradas e melhorias nas comunicações. Além de promover-se a
colonização através da venda de terras, torna-se imperioso criar condições internas
para tornar a vinda para o Brasil atrativa e fomentar a imigração espontânea para este
país, de maneira a promover seu desenvolvimento.
Em síntese, buscou-se entender a preferência pelo imigrante vindo de países
do norte da Europa enquanto agente promotor de civilidade e progresso dado o grau
de desenvolvimento alcançado por esses países, desenvolvimento esse atribuído à
sua população.




1
Esta comunicação é parte integrante do projeto de mestrado em desenvolvimento no PGH-UEM/UEL,
sob a orientação da professora Drª Sandra de Cássia A. Pelegrini.
2
PRADO J R, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 143.
3
COSTA, Emília Viotti. O escravo na grande lavoura. In: IGLESIAS et al. O Brasil monárquico:
reações e transações. Rio de J aneiro: Bertrand Brasil, 1997.
4
COSTA, Emília Viotti. Op. cit., p. 12.
5
ANAIS DO PARLAMENTO BRASILEIRO. Rio de J aneiro: Tipografia H.J . Pinto, 1870.
6
ANAIS DO PARLAMENTO BRASILEIRO. Rio de J aneiro: Tipografia H.J . Pinto, 1870.
7
ANAIS DO PARLAMENTO BRASILEIRO. Rio de J aneiro: Tipografia H.J . Pinto, 1870.
8
ANAIS DO PARLAMENTO BRASILEIRO. Rio de J aneiro: Tipografia H.J . Pinto, 1870.
O Centro de Memória da Câmara Municipal de Vereadores de Marechal Cândido
Rondon e a História regional

Carla Luciana Silva
1

Emílio Gonzalez
2



Este texto discute algumas experiências e questões relacionadas ao projeto
Centro de Memória da Câmara Municipal de Vereadores de Marechal Cândido
Rondon, que vem sendo desenvolvido desde setembro de 2001, e que visa constituir
novos campos temáticos e um novo espaço de pesquisa histórica regional, onde será
disponibilizado e organizado um conjunto de documentos já existentes, produzindo
outros documentos, especialmente através da História Oral. Buscamos discutir o
significado e a importância que esse trabalho tem no contexto da pesquisa histórica
regional, e na própria construção de instrumentos de intervenção política da
sociedade, relacionadas à administração pública e na fiscalização das ações e
decisões políticas de seus representantes.

Diagnóstico da pesquisa historiográfica local

Desde há alguns anos, a História da cidade de Marechal Cândido Rondon tem
sido vasculhada e reconstruída a partir de diversos estudos historiográficos. Uma
rápida consulta aos arquivos e bibliotecas públicas do município e da região já seria
suficiente para revelar o grande interesse existente, por parte dos pesquisadores
locais, acerca dos temas que versam sobre a história do município e da região. Estes
trabalhos abordam diferentes aspectos da História municipal, tais como a formação
social, política, cultural e econômica do município. As pesquisas desenvolvidas vão
desde a etno-história, colonização, imigração, gênero, família, tradições, conflitos
sociais, economia, política, mentalidades, conflitos urbanos, êxodo rural, mecanização
da agricultura, construção de discursos e identidades, etc, para citar apenas alguns
temas sob os quais já se tem desenvolvido pesquisas.
Boa parte destas pesquisas foi desenvolvida no interior da UNIOESTE, e, de
maneira acentuada, por alunos e professores do Curso de História desta Universidade.
Este conjunto de trabalhos compõe um rico e diversificado acervo historiográfico,
disponível para consulta pública em alguns arquivos e bibliotecas públicas da região,
Biblioteca da Unioeste, e no CEPEDAL. Estes textos produzidos sobre a história
regional acabam se tornando também subsidiários para a realização de novas
pesquisas sobre a cidade e a região. Para se ter uma noção deste conjunto
historiográfico, basta mencionar um inventário prévio dessa produção regional que,
levando em conta apenas os trabalhos produzidos no interior da Universidade, revela
a existência de mais de uma centena de títulos, onde podemos listar Monografias de
Graduação, Especialização, Dissertações de Mestrado, artigos, livros, e até Teses de
Doutoramento, entre outros trabalhos.
A existência deste numeroso acervo historiográfico sobre a cidade chama a
atenção por um detalhe: Marechal Cândido Rondon é uma cidade relativamente nova.
O início de sua constituição urbana data de 1951, e sua emancipação política ocorreu
em 1960. Ou seja, em termos cronológicos, esta cidade possui pouco mais de 40 anos
de existência política. Salta aos olhos, portanto, o grande interesse existente por parte
de pesquisadores sobre temas relacionados à História local, e o grande volume de
trabalhos já produzidos sobre seus processos de constituição histórica.
Em recente pesquisa de iniciação científica, identificamos os principais
elementos que têm servido de base para grande parte dessas pesquisas
3
. Entre eles,
destacamos o rico conjunto de fontes disponíveis e utilizadas por estes pesquisadores:
fontes primárias, sobretudo iconográficas (fotografias em geral): documentos escritos
(relatórios, projetos de colonização e (re)ordenamento urbano, documentos produzidos
pelo poder executivo, fontes cartoriais, imprensa escrita, etc.): e fontes orais
(sobretudo depoimentos de políticos em exercício e antigos agricultores).
Esses depoimentos orais foram geralmente tomados de personagens
considerados por estes pesquisadores como pessoas de “destacado relevo” na
História da cidade, e que, no caso dos agricultores (também chamados por muitos
autores como “pioneiros” da colonização – décadas de 1950 e 60), já apresentavam
idade avançada, e que vivenciaram e experimentaram as transformações históricas
“fundantes” do município. Aqui, nos chama a atenção o grande interesse dos
historiadores e memorialistas locais no emprego da História Oral, como forma de
produzir novos relatos sobre o passado histórico vivido, buscando elementos e
respostas muitas vezes ausentes nas outras fontes igualmente disponíveis à consulta.
Outros tipos documentais também são empregados nestas pesquisas, como o
documento que constitui o projeto de colonização da Empresa colonizadora MARIPÁ;
relatórios e outros documentos (balanços, título de vendas de terra, panfletos
propagandísticos) produzidos pelos dirigentes dessa empresa colonizadora; e mesmo
pelo poder público local, notadamente o Executivo. Também podemos destacar um
amplo conjunto de fotografias sobre os primórdios da cidade, mas que se encontra
disperso em arquivos privados (familiares, empresariais) e públicos (Prefeitura,
Colégios, CEPEDAL). Por fim, documentos administrativos produzidos e emitidos por
órgãos públicos, principalmente pela Prefeitura Municipal, e privados (cooperativas,
empresas em geral) também aparecem no rol das principais fontes consultadas por
estes pesquisadores, ainda que de maneira secundária.
No entanto, é preciso destacar que os temas pesquisados não esgotaram as
possibilidades de investigação existentes sobre o município. Muito pelo contrário.
Estes trabalhos acabaram informando sobre a existência de novos caminhos ainda a
serem trilhados pelos historiadores, ainda que poucos deles tenham efetivamente ido
além. Assim, ao invés de construir respostas prontas e acabadas sobre os aspectos
inicialmente investigados, estes trabalhos mostraram ser urgente a necessidade de se
criar novos instrumentos de pesquisa e investigação sobre a história local. As próprias
fontes orais, largamente utilizadas, se mostraram insuficientes e limitadas no
esclarecimento de diversas questões.
Desta maneira, percebe-se o quanto é necessário ampliar o conjunto de fontes
disponíveis à pesquisa histórica. Há muito trabalho para ser realizado no sentido do
fortalecimento dos projetos já existentes e na criação de novos centros de pesquisa e
documentação de outras instituições e, especialmente, de órgãos privados. Além
disso, uma política de conscientização da população no sentido da doação de
documentos e materiais para a pesquisa pública em Centros adequados é necessária.
Esta justificativa, aparentemente reduzida a um interesse meramente
acadêmico, traz em seu bojo uma outra proposta, indissociável ao exercício de
pesquisa e investigação histórica, mas por vezes negligenciada; trata-se do
desenvolvimento e amadurecimento da noção de cidadania. Seria inútil desenvolver
um trabalho desta natureza - utilizando inclusive recursos públicos - pensando em
atender apenas uma demanda acadêmica.
De fato, este trabalho também carrega consigo uma proposta mais ampla, que
é fomentar e possibilitar o envolvimento da sociedade em questões relacionadas à
administração pública. Trata-se ainda de um pressuposto fundamental ao exercício
político democrático. Desta maneira, uma das preocupações centrais que norteiam
este projeto consiste em instrumentalizar a comunidade, para que esta tenha
condições, por um lado, de perceber antigas práticas político-partidárias autoritárias
vigentes em nossa atualidade; e, por outro lado, reivindicar maior atenção dos
representantes políticos para as questões relacionadas às demandas e participação
popular. Significa, neste caso, possibilitar que a sociedade se perceba e reivindique
sua condição de sujeito de sua história. Nestes dois casos, a abertura de arquivos
públicos, especialmente aqueles relacionados à administração político-partidária,
coloca-se como uma ação fundamental.
Finalmente, é preciso ressaltar que muitos dos trabalhos que vem sendo
produzidos, ou mesmo a fiscalização das atividades político-administrativas por parte
da sociedade, esbarram em algumas dificuldades para sua realização efetiva,
ocasionado principalmente pela dificuldade de acesso à documentação existente,
motivo pelo qual este projeto se torna necessário e urgente.

A constituição do Centro de Memória na Câmara Municipal de Vereadores
de Marechal Cândido Rondon

Foi com estas preocupações que o Colegiado do Curso de História da
UNIOESTE, em conjunto com a Câmara Municipal de Vereadores de Marechal
Cândido Rondon, passou a executar, desde setembro de 2001, o projeto Centro de
Memória
4
, visando a ampliação, disponibilização e preservação do acervo documental
da Câmara de Vereadores.
Para a execução deste projeto, são realizadas atividades de preservação e
conservação documental, estudos e discussões sobre história oral, produção de
documentação oral, constituição de um catálogo sobre o patrimônio documental
disponível, organização de um fundo documental, higienização e levantamento do
patrimônio documental ali existente. O principal objetivo deste projeto é tornar público
para a pesquisa uma rica documentação produzida ao longo dos 40 anos de
existência política de Marechal Cândido Rondon, fundamental para a reconstituição da
História Política local, iniciada ainda na década de 1960.
A atividade abrange duas grandes áreas. A primeira é a conservação da
documentação histórica da Câmara desde os seus primórdios na década de 1960, se
considerarmos apenas a documentação que disponibilizamos, produzida após a
emancipação política do município (julho de 1960). Essa documentação está
passando por um cuidadoso tratamento histórico e arquivístico. Para esse fim, foram
realizadas atividades de treinamento em noções básicas de arquivística e preservação
documental, capacitando os Bolsistas, estudantes de História, para a realização das
atividades.
Todo o material disponível está sendo listado para que tenhamos um Guia
completo do acervo disponível à consulta. Assim, o público consulente terá
possibilidades de encontrar com maior facilidade a documentação pesquisada. Além
disso, essa listagem vai auxiliar os pesquisadores a problematizarem suas atividades
de pesquisa.
A documentação abrange séries como Atas, Decretos, Projetos,
Requerimentos, Orçamentos, Correspondência, entre outros. Esse conjunto de
documentos, praticamente desconhecido e inacessível aos pesquisadores, resultará
na abertura de novas possibilidades e perspectivas para a investigação sobre a
História política da cidade de Marechal Cândido Rondon, além de sua região
5
.
A segunda área de trabalho é a produção de documentação oral, através da
constituição do Programa de História Oral, que visa a tomada de depoimentos de
políticos que formaram o legislativo rondonense no transcorrer de sua história. Essa
atividade segue padrões nacional e internacionalmente reconhecidos na área de
história oral, ao utilizar como referência a experiência do Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea de História do Brasil, CPDOC, da
Fundação Getúlio Vargas
6
. Através dos depoimentos, o público poderá reconstituir
importantes aspectos de nossa história para além daqueles presentes na
documentação escrita. Poderá perceber elementos subjetivos, pertinentes às
diferentes interpretações, justificações e pensamentos que condicionaram a ação dos
dirigentes municipais. As divergências, os projetos políticos, as percepções pessoais,
os gostos, as experiências familiares, são apenas alguns elementos possíveis de
serem recuperados pela documentação oral.

História e realidade social

Com esse projeto, a Câmara de Vereadores de Marechal Cândido Rondon se
coloca como uma das pioneiras em todo o País na preocupação com a consciência
patrimonial, histórica e cultural
7
. Essa iniciativa também nos coloca diante de um
importante desafio do ponto de vista da inserção do Curso de História na nossa
sociedade. Através dela, podemos atuar diretamente na preservação da
documentação, que servirá para o aperfeiçoamento de pesquisas futuras da história
regional, trabalho que deverá receber continuidade futuramente.
Com ela, e com a documentação oral produzida, será possível propor e
responder questões como: a inserção do legislativo na realidade e sociedade local; a
representação política local; as demandas da população e sua relação com o poder
legislativo; as relação do poder com o poder executivo e com o poder estadual; as
transformações econômicas e tecnológicas do município; as relações entre o campo e
a cidade; o sistema educacional; entre outros. Listamos apenas alguns temas
possíveis, aos quais várias questões poderão ser incorporadas e investigadas a partir
desse conjunto documental e que demonstram a relevância social desse acervo. Aqui
se percebe também que esse acervo, embora de origem eminentemente institucional-
política-partidária, não se restringe a questões eleitoreiras ou institucionais.
Demonstra-se que a política não pode ser pensada como uma atividade isolada do
social e do econômico que envolvem a população na qual o Poder está colocado.
Ocorre, como conseqüência, o incentivo à “ação cidadã”, à fiscalização das
ações concretas do Poder Legislativo. Com uma documentação devidamente
organizada e disponibilizada à consulta, torna-se mais fácil aos moradores e à
população de um modo geral, terem acesso a ela, fiscalizando as ações, trajetória e
decisões destes legisladores, sendo possível instrumentalizar essa população, de
modo a tornar possível sua intervenção junto aos seus representantes políticos, eleitos
para este fim.
Desta maneira, seja condicionando a intervenção política direta da sociedade
nos rumos e decisões políticas, seja promovendo a abertura de novas perspectivas de
investigação histórica, será possível propiciar o esclarecimento de questões outrora
incógnitas, ou trazendo novos sujeitos, projetos e interesses de classe à luz da
pesquisa histórica. Um trabalho deste caráter apenas tem a contribuir para o
desenvolvimento de uma sociedade onde os homens e mulheres se vejam como
agentes do processo histórico.
Talvez o que nos falta ainda seja conseguirmos multiplicar essa experiência na
nossa região. Trabalho semelhante pode ser realizado não apenas no âmbito do poder
público, mas pode abranger entidades como: hospitais, associações, partidos políticos,
sindicatos, clubes, cooperativas. Ou seja, qualquer grupo humano produz registros
materiais que podem ser considerados documentos que devem servir a pesquisas que
ajudariam a ampliar nossa compreensão sobre a realidade vivida. Poderemos com
novos documentos, associados à produção oral, acima de tudo colocar novas
questões para o nosso presente, contribuindo para “desnaturalizar” e “desmitificar” a
realidade, ou seja, perceber que ela afinal, não passa de uma construção histórica do
homem através de seus atos transformadores de suas relações sociais, políticas,
culturais.
Eis um desafio para os historiadores. E é também com esse sentido que os
cursos de História têm investido na formação dos profissionais que estão
disponibilizando ao trabalho. Cada vez mais os historiadores estão se capacitando a
participar dessa gratificante tarefa de formação de centros de documentação, museus,
centros de memória, enfim, de lugares para conservar, preservar, pesquisar e
reescrever nossa história.

1
Professora do Curso de História – UNIOESTE. Coordenadora do Projeto de set/2001 a junho/2002.
2
Professor do Curso de História - UNIOESTE, e colaborador do Projeto.
3 GONZALEZ, Emílio. As camadas da memória: perfil reflexivo da produção historiográfica e
memorialística sobre a cidade de Marechal Cândido Rondon (1950-1998). Relatório de Pesquisa.
PIBIC/UNIOESTE/CNPq, Marechal Cândido Rondon, 2000.
4 A iniciativa do projeto partiu do Presidente da Câmara de Vereadores, Dr. Italo Fumagali, que buscou o
Colegiado do Curso de História, garantindo autonomia de trabalho aos historiadores envolvidos no

projeto. Além disso, a Câmara se responsabilizou pelo financiamento do trabalho dos Bolsistas do projeto
e de atividades de conservação e preservação documental.
5
A partir de 1980, várias cidades foram se desmembrando de Marechal Cândido Rondon, formando
outros município vizinhos. São elas: Mercedes, Entre Rios do Oeste, Pato Bragado e Quatro Pontes. Desta
forma, parte importante da documentação histórica destes município também encontram-se no legislativo
rondonense. Certamente, o arquivo da Câmara de Vereadores de Marechal Cândido Rondon será uma
referência obrigatória para o pesquisador que desejar reconstituir a História política de qualquer um
destes municípios. Esta é, sem dúvida, uma das grandes vantagens e contribuições inerentes ao trabalho
que está sendo realizado neste arquivo.
6
Para uma discussão atualizada sobre esse Programa e o uso da História Oral no Brasil, ver: FEREIRA,
Marieta de Moraes, FERNANDES, Tania Maria e ALBERTI, Verena. História Oral: desafios para o
século XXI. (Orgs). Rio de J aneiro, Editora Fiocruz, Casa de Oswaldo Cruz , CPDOC, 2000.
7 Sobre outras experiências, consultar: SILVA, Zélia Lopes. “O Centro de Documentação e apoio à
pesquisa, um Centro e “memória” local?” E outros artigos em: SILVA, Zélia Lopes. Arquivos,
Patrimônio e Memória: trajetórias e perspectivas. São Paulo, UNESP e FAPESP, 1999.
Laboratório de Ensino: mídia e produção de conhecimento

Carla Luciana Souza da Silva
1



Essa comunicação reúne trabalhos realizados no âmbito do Laboratório de
Ensino de História da UNIOESTE. Trabalharei especificamente com um tema para
discutir possibilidades de atividade: a forma como foram divulgados pela imprensa,
especialmente a escrita, os atentados terroristas de 11 de setembro. A primeira
questão que se coloca é como toda a imprensa mundial se voltou para esse
fenômeno, criando com isso uma grande comoção para com o fato. A narrativa da
imprensa consolidou uma forma de percepção da questão. Além disso, essas
narrativas foram repetitivas e ideológicas. Embora seja impossível acompanhar a
enxurrada de matérias sobre o tema, a grande maioria delas repetia as mesmas
fontes, seja as matérias produzidas pela CNN, seja imagens das torres gêmeas
explodindo.
Os professores de história que entraram em sala naquele período foram muito
exigidos pelos seus alunos no sentido de forjar uma explicação para o fenômeno. E,
via de regra, as fontes utilizadas foram as provenientes da imprensa escrita. No
entanto, no afã de informar, muitas vezes não percebemos as armadilhas dessa
imprensa, que cria em nós a ilusão de que a quantidade de reportagens e imagens
não permitem uma reflexão sobre os fatos, e a alternativa que se coloca aos
professores são materiais como as revistas semanais de informação. Acaba-se
reproduzindo uma perspectiva ideológica de dominação capitalista. Foi isso que
aconteceu com quem se utilizou como fonte as principais revistas de grande circulação
nacional.
A grande imprensa e a mídia em geral reproduziram a sustentação ao aparente
consenso em torno de idéias como a inevitabilidade do capitalismo e da justeza de
qualquer medida em sua defesa. A mídia assumiu o papel central na disseminação do
Pensamento Único
2
.
A grande imprensa nacional fez uma cobertura ideológica, misturando
elementos diversos, tentando mobilizar figuras do senso comum de forma muitas
vezes grosseira e a-histórica. O caso principal de falta de seriedade jornalística que
atende a interesses ideológicos claros foi o da revista da Editora Abril Veja. Foram
recorrentes as digressões históricas descuidadas, além de paralelismos com a história
recente, especialmente a nacional, que poderiam surpreender pela rudeza. No
entanto, expressam formas subliminares de desqualificação dos fatos, demonstrando
pouca seriedade e ética com relação às notícias.
“O míssil e o Barbudo”, é o título da primeira matéria do Especial de
17/10/2001
3
. “O míssil” se refere aos mísseis Tomahawk, que teriam “arrasado as
posições do Talibã e posto em fuga os terroristas do Afeganistão”. O míssil, na
manchete da revista, adquiriu autonomia e mobilidade, pois não cita quem o disparou,
nem quando nem como. É, portanto, a autonomia da técnica. Infere-se também que
todos os afegãos, segundo a manchete, são terroristas. O “adversário” (na verdade
Suleiman Abu Ghaith, o “kuwaitiano barbudo”) é chamado por um epíteto conhecido e
muito utilizado pela imprensa brasileira para consolidar uma imagem negativa do
político Lula: o “Sapo Barbudo”. As expressões voltam a ser utilizadas em seguida: “na
primeira semana do confronto entre o míssil Tomahawk e o fundamentalismo islâmico,
os barbudos estavam tomando uma tremenda surra” (p.50). Novamente o míssil é
“sujeito”, acrescentando que a luta seria contra o “fundamentalismo islâmico”, que
seria então personalizado talvez nos soldados talebãs mortos. Se completa a falta de
seriedade da notícia com a “tremenda surra”, expressão infeliz para uma revista desse
porte para designar a destruição afegã. Quando se refere à destruição de alvos civis, o
comentário da revista beira ao tragicomédia: “a morte de civis não é apenas um dano
colateral de péssima repercussão, mas pode ser o início de uma incansável rixa com a
família do morto” (p.55). Fica patente aqui que respeito só se deve às famílias dos
soldados norte-americanos mortos.
A reportagem Mulá Bibi Fonfom parece diretamente inspirada na propaganda
anticomunista da década de 1920/30. Usando de falta de respeito com a política
alheia, diz que “o chefão incontestável do Talibã gosta de sentar ao volante de um
carro parado e brincar de motorista. Com a boca, simula o ronco do motor e o som da
buzina, do jeito que fazem crianças de 6 anos: roam, bibi fonfom”. A fonte dessa
informação seria um médico refugiado cujo nome não foi divulgado, e que teria
analisado que Omulá Mohamed Omar “é o fanático religioso que conduziu um país
miserável a um confronto militar com os EUA é doido varrido” (p. 60). Esse
comportamento se daria em função de que “Omar ainda ter encravado no cérebro
fragmentos do míssil soviético que arrancou seu olho direito em 1989” (p. 61). Não é
surpreendente que esse tipo de dado apareça, mas o é que uma revista menospreze a
inteligência de seus leitores, com dados sem fontes (outros dados seriam retirados de
um “guarda-costas que fugiu”), ou qualquer possibilidade de verificabilidade. Além
disso, desloca a questão da política para fatores deterministas personalistas.
A revista não se cansa em pregar a inevitabilidade do capitalismo, p. 92
(10/10): diz ela que “ainda é cedo para saber se os atentados de 11/9 aos EUA
também vão produzir um reordenamento qualquer ou se tudo voltará a ser como antes
quando o trauma passar”. Isso nos faz questionar: antes quando? O tempo evocado é
apenas o tempo recém passado, sem história. A sensação que se tem depois de
quase um mês dos atos terroristas é de que o mundo continua fora de seu eixo
natural (grifos meus). Ou seja, está aqui uma das grandes premissas do Pensamento
Único, a naturalização da história e do capitalismo.
Talvez onde ficam mais explícitas essas concepções seja O Vírus anti-EUA: a
demagogia que transformou a vítima em culpada, 3/10/2001. No Editorial a revista
expressa que “Uma das reportagens discute uma questão da qual quase todo mundo
fugiu: a existência de guerras justas, de batalhas que precisam ser lutadas, um
conceito que o próprio Vaticano reafirmou na semana passada”. Ou seja, utilizando-se
da máxima de que “ver é compreender”. Traz ainda uma entrevista “a guerra
irracional”, onde um historiador inglês diz que a única saída é eliminar os terroristas,
pois não se pode usar a razão para convencê-los. Volta-se, a exemplo do processo de
colonização americana, a utilizar o conceito de Guerra J usta, instaurando-se a noção
de “novas cruzadas contra os infiéis”.
Na pg 55 vemos uma fotografia de pés pisoteando a bandeira norte-americana,
seguida dos dizeres: “em tempos de paz, o antiamericanismo no Ocidente é uma
postura inofensiva, adotada por gente que veste jeans, toma Coca Cola, come
hamburguer e manda os filhos para os parques da Disney World. Nas conversas
dessas pessoas, os americanos são descritos como senhores do mundo mas
superficiais, imersos numa cultura consumista e tosca quando comparada aos
supostos refinamentos do estilo europeu”. Cabe nos perguntarmos: de que pessoas a
revista está falando, pois está colocando como “nós” apenas a classe média que tem,
ou objetiva ter essas possibilidades de consumo. Segue a revista: “Nos dias que se
seguiram ao assassinato de milhares de trabalhadores, predominantemente
americanos, mas também de dezenas de outras nacionalidades, no ataque terrorista
às torres gêmeas em NY, o uso político dessa ideologia perdeu a inocência de que
habitualmente se reveste. Mal se contaram os mortos nos atentados e já viajava pelo
mundo a idéia de que os EUA foram, em última análise, os causadores da tragédia
que se abateu sobre eles. Por mais graves que tenham sido os erros e até os crimes
cometidos pelos americanos em sua expansão imperial no decorrer do século que
se encerrou, as críticas de que foram alvo em demonstrações pelas capitais do mundo
na semana passada eram elas próprias um atentado ao bom senso”. Mas, Veja
apresenta sua explicação para esse tipo de posicionamento: “pode-se acrescentar
outro ingrediente, a inveja pura e simples. (...) Os americanos são hoje os mais
inteligentes, mais educados e cultos povos do planeta.” (Grifos meus). E fecha a
questão.
Na reportagem Quando a Guerra é justa, sabemos que “só se opõe a guerra
quem é bem intencionado e mal informado, o próprio papa é mostra disso”. (p. 63) O
Pentágono e a Casa Branca agradecem, pois não precisaram investir em propaganda
(acrítica) junto aos leitores de Veja. Se contar com a eficácia da revista, todos crêem
na justeza da guerra e na superioridade do Império.
Mas, a revista consegue ser ainda mais explícita nos seus posicionamentos
ideológicos. Ela diz, na edição seguinte: “A batalha das palavras envolve dois lados:
os rápidos e os lentos. Os rápidos são aqueles que captaram as dimensões da
mudança provocada pelos ataques. Perceberam que noções perfeitamente aceitáveis
no mundo pré-atentados não se aplicavam mais depois deles. Os lentos, tanto
conservadores quanto liberais, não assimilaram a guinada (...). Segue falando de um
“rápido”: seus “mísseis” tem endereço certo: o lingüista Noam Chomsky e sua turma.
Ícone da esquerda e último refúgio dos preguiçosos (todo mundo bate a sua porta
quando quer uma crítica invariável a qualquer iniciativa do governo americano), o
professor ficou patentemente ao lado dos lentos”. Quanto a Edward Said “o mais
conhecido intelectual palestino, foi um caso clássico de “confusão”: “escrevendo no
piloto automático, afirmou que o 11 de setembro se transformou numa enorme
propaganda em benefício de Sharon (...) Errado. Bush falou na semana passada, pela
primeira vez na eventual criação deu m Estado palestino, o tipo de assunto que
provoca aplopexia em gente como Sharon.”
É bastante preocupante a forma com que a liberdade de opinião e expressão é
tratada. O pensamento é imposto de tal forma que parece que os acontecimentos de
11 de setembro impediram todo e qualquer pensamento crítico. Assim Veja se
posiciona com relação a quem “ousa” questionar a sua versão: “Tantas manifestações
de flexibilidade não bastaram para impressionar a escritora Susan Sontag, que insistiu
com todas as letras que o atentado foi uma conseqüência direta das ações e alianças
americanas (...). Rod Dreher, colunista do jornal New York Post, escreveu que gostaria
de atravessar a Ponte do Brooklin, em NY, de pés descalços sobre cacos de vidro, até
o apartamento de Sontag, agarrá-la pelo pescoço, arrastá-la ao WTC e fazê-la repetir
o que havia escrito diante dos bombeiros que trabalharam nos escombros dos
prédios”. Ao que parece, seguindo o grande arauto do neoliberalismo, assim devem
ser tratados os que ousarem discordar do consenso.



Lembrando a Guerra do Golfo
A retrospectiva da forma como a mídia norte-americana fez a cobertura da
Guerra do Golfo é rica para tematizarmos a cobertura atual. Os interesses das redes
de TV e jornais nos EUA estão diretamente vinculados a multinacionais, que estão
vinculadas à venda de produtos visíveis ou não, como no caso da indústria
armamentista
4
. A mídia norte-americana forjou, atendendo às ordens do Pentágono, o
apoio à Guerra no Golfo, pois “à véspera da guerra, mais de 50% do público
americano se opunham à solução militar para a crise”
5
. Isso nos faz questionar sobre
os dados que nos chegaram sobre a Guerra de Bush. No período de crise do Golfo o
governo foi extremamente eficiente no sentido da tentativa da criação do consenso em
torno da justeza da posição militar. Para isso, se utilizou de mecanismos de produção
de notícias e informações; censura; propaganda e controle da desinformação.
Naquela guerra, o poder de censura foi exemplarmente exercido. Não existiram
debates nos espaços da mídia onde se discutissem as opções. O objetivo era levar à
desinformação, o que permitia plantar informações errôneas que acabaram por forjar
opiniões favoráveis à atitude do governo. As opiniões contrárias eram vetadas, sendo
que as grandes redes como a ABC, CBS e NBC dedicaram menos que 1% de seu
tempo à elas: “dos 2.855 minutos de cobertura da crise pela TV, de 8 de agosto a 3 de
janeiro, o grupo FAIR descobriu que apenas 29 minutos, cerca de 1% do tempo, foram
dedicados à oposição popular à intervenção militar americana no Golfo”
6
. Além disso,
“os manifestantes eram tratados como uma turba indisciplinada, marginais cabeludos;
seu discurso raramente era citado, e a reportagem focalizava mais a repetição de
slogans, ou imagens de passeatas cujos contexto e interpretação eram fornecidos pela
fala do repórter”
7
.
O controle de imagens também fazia parte dessa tática. Fotografias de satélite
mostravam que o discurso oficial de que o Iraque possuía em torno de 100 mil homens
na fronteira com a Arábia Saudita prontos para a invasão seria desmentido por
fotografias de satélite, que mostravam que o número não chegava a 1/5 desse. Mas, a
divulgação dessas fotografias não foram permitidas por Pentágono, que se recusou a
comentá-las. Fotografias de soldados mortos eram proibidas, sendo realizadas
metáforas esportivas, como se a guerra fosse uma decisão de campeonato, onde “os
militares e a mídia mantinham um placar diário com a contagem dos tanques e do
equipamento iraquiano eliminado, embora (...) não contasse ‘baixas’”
8
, pois esses
números eram proibidos. A população foi mobilizada, apoiando a atuação militarista, o
que se deu através da satanização do inimigo; da aceitação da idéia de que se travava
uma luta do “bem” contra o “mal”.

Anti-orientalismo: nada de novo
Logo que ocorreram os atentados terroristas de 11 de setembro ouvimos
comentários do tipo: nem Hollywood ousou filmar coisa parecida. No entanto, está
bastante claro que os atos terroristas tiveram inspiração no cinema, e ainda: a idéia
coletiva dos árabes como terroristas e “desumanos” nasceu do cinema. A Guerra Fria
se sustentou na arraigada ideologia que pregava a divisão do mundo entre dois
extremos: o mundo capitalista, o ideal; o mundo comunista, péssimo, aquilo que
deveria ser combatido. Os EUA se colocavam como baluartes dos valores cristãos
ocidentais, encetando a luta contra aquele que seria o inimigo comum: o comunismo.
As fontes para o estudo desse projeto ideológico são infindáveis, especialmente nos
veículos da mídia, que foram fundamentais para criação do consenso em torno dessa
idéia, que hegemonicamente se colocava, articulando para isso elementos de
pertencimento e de identidade do que seria o “bom”.
Em meados na década de 1980, um marco nesse sentido foram as políticas de
Ronald Reagan para uma reconfiguração dessa ideologia. A indústria cinematográfica
teve uma grande sacada quando da criação daquele que seria um marco para
redefinição de identidades do jovem médio norte-americano. O sentimento anti-bélico
norte-americano era bastante forte desde a Guerra do Vietnã e das manifestações
alternativas da década de 1960, que buscavam romper com preconceitos sexistas,
racistas e de organização social (família, casamento). Na tentativa de recolocar na
pauta o pensamento conservador, surge dos estúdios de Hollywood a figura do novo
herói: Rambo, que resumidamente pode ser caracterizado como o símbolo da
“energia, poder e vitalidade sobre-humana”, alguém deificado, que combatia
bravamente os “perversos soviéticos, torturadores sádicos e desumanos, burocratas
mecânicos”
9
. Importa destacar o poder dessas imagens, que geraram a chamada
“rambomania”, que movimento uma indústria de filmes, camisetas, fitas, facas high-
tech, e coisas do gênero em todo o mundo ocidental. Além disso, o filme moldava
comportamentos de jovens “rambos”, que se passavam a achar acima da lei, tomando
atitudes mais ou menos bárbaras por todo o mundo.
Essa lógica militarista se consolidou com outra grande produção: Top Gun,
Ases indomáveis, onde se tem uma guerra estetizada, e a reiteração dos elementos
tradicionais da família, do machismo e, sobretudo, a lógica de que a vida é uma
competição, onde os “mais fortes e mais espertos” vencem sempre. Um detalhe
importante na obra é que o inimigo não era claramente expresso, o mais importante
era a lógica do militarismo. Esses filmes “ofereciam uma iconografia que ajudava a
mobilizar apoio aos programas políticos conservadores e militaristas”
10
. A visão
maniqueísta do mundo era introjetada de forma a não deixar dúvida de quem seriam
os “bons”.
Mas, ainda na década de 1980 os inimigos começavam a mudar, passando a
ser forjado o arquiinimigo árabe, iniciando-se no filme Águas de Aço (1985 e 1988),
onde começa a ser forjado o novo inimigo: os árabes, que aparecem desistorizados,
homogeneizados e nebulosos, o que muitas vezes é feito com apoio do governo
israelense e da própria URSS, “enquanto americanos brancos e negros e os russos
aprendem a trabalhar juntos e a cooperar uns com os outros, voltam hostilidades para
os árabes e vilões que são aniquilados em meio às baixas que Hollywood costumava
reservar para os comunas”
11
. Estaria aí iniciado o caminho para a consolidação de um
imaginário “anti-árabe”, que vai ser diversas vezes reiterado pelo cinema norte-
americano.
Não é irrelevante o peso que isso teve e continua a ter para a formação de um
“sentimento comum”, pois esse cinema serve para formação de identidades, de
pertencimento e de posições políticas. Não foi a toa que fotografias mostram a
campanha de arrecadação de fundos para as “vítimas do World Trade Center”, onde
aparecem, em uma mesma foto, ninguém menos que Silvester Stallone e Tom Cruise,
os mega-astros da identificação com a guerra e da política Reagan-Bush
12
.

Algumas conclusões
Mas, a essa altura, o professor se questiona, então, como trabalhar com esses
temas de uma forma crítica. Num primeiro momento apontaríamos para uma série de
reportagens que foram realizadas na imprensa alternativa, tais como nas revistas
Caros Amigos, Reportagem, Correio da Cidadania. No entanto, por serem materiais de
maior qualidade, esses veículos não foram capazes, ou não tiveram a intenção, de
acompanhar o ritmo frenético imposto pelas novas tecnologias de controle da
informação. Por isso, suas reportagens esperaram, pesquisaram, foram atrás de
outras versões, deixando “baixar um pouco a poeira” para ver melhor por baixo dos
escombros. Às vezes essa deve ser a postura do historiador com relação à história
imediata, para evitar o risco de acabar caindo na reprodução do estabelecimento do
consenso fabricado.
Cabe ainda ao professor tentar, a partir de outras leituras, historicizar os fatos.
Mas além disso, um outro passo importante é conhecer a forma que a mídia funciona,
evitando cair nas suas “ilusões de informação”. E esse é um papel fundamental
assumido pelo Laboratório de História, ao agregar materiais que permitam a consulta
permanente, guardando recortes, reportagens, textos, sobre aquilo que “não aparece”
na grande imprensa. Usar esse material permanentemente em sala de aula vai
permitir aos alunos perceberem que podemos nos comover com os mortos dos
atentados, mas devemos lembrar dos mortos por todos os extermínios e guerras
promovidas para a manutenção da indústria armamentista norte-americana, por
exemplo.
Ramonet aponta alguns cuidados que se deve ter ao pensar a mídia, que
podem ser importantes dicas metodológicas, cuidados que devemos ter com o uso da
mídia como fonte: Informar hoje é mostrar a história em curso, acontecendo, a
imagem. Perde-se o alcance do evento, trazendo a ilusão de que ver é compreender;
o controle das fotografias e da linguagem é cada vez mais importante; a atualidade é
construída pela televisão; a imprensa escrita tenta seguir essa lógica, acabando com a
análise; o tempo da informação é rapidíssimo; muda a noção de verdade: a repetição
substitui demonstração. Caímos assim na ilusão de estar informando, quando na
verdade, apenas repetimos dados, ou como diz Ramonet, “comunicamos”, sem ter
noção real do processo histórico.

1
Professora do Curso de História da UNIOESTE – Marechal Cândido Rondon.
2
RAMONET, Ignacio. A tirania da Comunicação. 2
a
ed. Petrópolis, Vozes, 2001., p. 40.
3
“O Profeta do Terror”, Veja, 17/10/2001, ano 34, n.41.
4
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. Estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o
pós-moderno. Bauru, Edusc, 2001. p. 273.
5
Idem, p. 269.
6
FAIR, Comunicado à Imprensa, janeiro de 1991. In: KELLNER, p. 268.
7
Idem, idibem.
8
Idem, p. 270.
9
Idem, p. 93.
10
Idem, p. 103.
11
Idem, p. 117.
12
“Não à guerra”. Tudo, Ed. 35. 28/9/2001.
BIOGRAFIAS: séculos XIX e XX no Paraná

Cíntia M. S. Braga Carneiro
1



Quando estava me preparando para participar desta comunicação coordenada
fui procurar alguma bibliografia a respeito de biografias. Após alguma pesquisa, tenho
que concordar com Vavy Pacheco Borges, em seu artigo Desafios da memória e da
biografia: Gabrielle Sieler, uma vida,
2
ao afirmar que o tema vem sendo trabalhado
desde há bastante tempo, sendo controverso e constante e que a bibliografia sobre
biografia é antiga e volumosa.
Se autores já viram por diferentes razões e em diferentes momentos a biografia
em oposição à história ou como “uma tarefa impossível” ou, ainda, como um “gênero
menor”, atualmente a biografia é vista como parte da história, aliás como quase tudo o
mais, e tem despertado um grande interesse, por vários motivos, como o reforço do
individualismo, o debate sobre a liberdade do indivíduo e sua relação com sociedade.
Na França, o chamado “retorno” da biografia se deu a partir de 1970, com as
histórias de vida da sociologia e antropologia, demonstrando à evolução do
conhecimento histórico, a partir das influências interdisciplinares.
Foi possível encontrar alguns pontos comuns em alguns artigos e teses.
Há vários tipos de biografias, como a informal, a informativa, a crítica, a
padrão, a interpretativa, a ficção apresentada como biografia, constituindo-se,
portanto, a biografia em um gênero de discurso independente, entretanto, apesar
destas especificidades, e em função delas, a relação que se estabelece entre o
biógrafo e o seu objeto é de tal ordem subjetiva que o resultado que é dado a ler se
constitui num produto único: uma obra, uma arte.
3
História linear, contínua ou não, a biografia deve ser encarada na sua realidade
textual como algo construído arbitrariamente por uma pessoa, ainda que esta tenha
tomado cuidado, estivesse preocupada com a objetividade e em manter a
subjetividade sob controle.
Há, inclusive, manuais americanos que dão dicas de como escrever biografias,
enumerando pontos a serem observados, como que o biografado esteja de
preferência já morto; ter senso de equilíbrio para a escolha dos aspectos evidenciados
e demonstrar simpatia pelo biografado, mas não a ponto de distorcer a verdade do
fato.
Citando Philippe Lévillan, no seu livro Os protagonistas: sobre a biografia:
A biografia histórica hoje reabilitada não tem por vocação esgotar o
absoluto do “eu” de um personagem, como já se quis e ainda se quer fazer.
A biografia é o local por excelência da condição humana em sua
diversidade, se ela não isola o homem de seus dissemelhantes ou não o
exalta às custas de diminuir os mesmos dissemelhantes.
4
J ean Orieux, que fez biografia de Voltaire, Talleyrand e La Fontaine, escreveu
sobre esta arte de escrever biografias, no livro História e nova história. Ele comenta
que com um trabalho de formiga, tempo, solidão, um pouco de loucura e de sorte,
conseguimos fazer surgir da poeira dos velhos papéis um personagem até então
destruído.
Temos então a alegria de ver a múmia ganhar vida, de fazer saltar os
cadeados do esquecimento e as crostas dos preconceitos, sob os quais os
biografados jaziam desfigurados. E, se entre o biografado e o biógrafo tudo
correr pelo melhor, poderemos vê-lo caminhar, bem vivo, entre leitores
igualmente vivos que o recebem e que, por vezes, o compreendem e chegam
até a acarinhá-lo. É este o segredo da arte da biografia.
5

BIOGRAFIA DE ROMÁRIO MARTINS
Para a minha dissertação intitulada “O Museu Paranaense e Romário Martins:
a busca de uma identidade para o Paraná - 1902-1928”, antes de analisar a atuação
de Romário Martins como diretor do Museu Paranaense, julguei importante conhecer
alguns de seus dados biográficos, ainda que resumidamente, para entender seu
pensamento, suas atividades profissionais, sua vinculação com outras instituições
científicas e culturais e com a imprensa.
Para construir esta biografia de Romário Martins vali-me de documentação
como sua correspondência pessoal, encontrada nas caixas do Departamento Estadual
de Arquivo Público -DEAP e na Documentação do Museu Paranaense e de uma
biografia escrita por ele mesmo em duas de suas obras: Dados bio-bibliográficos até
1945
6
e em Eu; notas auto-biographicas de Romario Martins
7
, além de trabalhos
anteriores.
Alfredo Romário Martins nasceu em Curitiba, em 8 de dezembro de 1874 e aí
faleceu em 10 de setembro de 1948. Era filho do tenente coronel J osé Antônio
Martins, natural do Rio de J aneiro, e de Florência Severina Ferreira Martins, nascida
em São Paulo. Batizado na igreja de N. S. da Luz de Curitiba, em janeiro de 1875,
teve por padrinhos o Conselheiro Manoel Francisco Corrêa e seu meio-irmão Luiz
Ferreira França.
Pouco se sabe sobre sua infância, além de que tinha apenas dez anos quando
perdeu seu pai, administrador do Correio Geral do Paraná e pessoa interessada pelo
Museu Paranaense, ao qual doava livros, coleções de selos e pássaros empalhados.
Foi dificuldades que sua mãe conseguiu mantê-lo na escola, estudando no
Colégio Curitibano, tendo como colegas, entre outros, Ermelino Agostinho de Leão,
J úlia Wanderley, J oão Perneta, Artur Martins Franco, e cedo teve que deixar os
estudos para começar a trabalhar, não prosseguindo em cursos superiores em outros
estados brasileiros.
Em 1889, com 15 anos incompletos, iniciou seu trabalho como aprendiz de
tipógrafo nas oficinas do Dezenove de Dezembro e, no mesmo ano, auxiliou nas
oficinas do jornal A Republica, justamente no período da queda da monarquia e
Proclamação da República.
O início de sua formação pessoal e profissional ocorreu, portanto, no ambiente
dos jornais. Trabalhou no Quinze de Novembro, no Correio Official, no Diario do
Commercio, no Folha Nova, no A Federação e na Companhia Impressora
Paranaense. Das oficinas de tipografia passou à redação, como jornalista e, mais
tarde, ocupou por mais de 20 anos a chefia de redação do A Republica, difundindo
suas idéias e mostrando o pensamento cultural paranaense. Além de redator-chefe
deste jornal, colaborou em muitos outros e escreveu vários artigos, sendo que, em
alguns, costumava adotar diferentes pseudônimos.
Foi agraciado, na época, com o título de “Príncipe dos J ornalistas do Paraná”.
Escreveu a este respeito, no livro Eu: notas auto-biographicas de Romario
Martins: “Guardadas as devidas proporções e sem suas glórias, fiz na imprensa a
trajetória de Quintino Bocayuva e Alcindo Guanabara, que tambem sahiram das
typographias para o jornalismo.”
Romário é um caso de atuação profissional em diferentes frentes.
Além de estar sempre ligado ao jornalismo, outra atividade profissional
exercida por Romário Martins se deu no serviço público: em 1892, foi admitido como
colaborador na Superintendência do Ensino Público, repartição que tinha como
superintendente Vicente Machado, sendo responsável pela organização do arquivo
deste estabelecimento; em 1896, após ter prestado concurso, passou a ser funcionário
da Secretaria de Obras Públicas e Colonização e, em 1900, Superintendente do
Ensino Público.
Em 1902, por decreto de 25 de abril, Romário foi nomeado para o cargo de
Diretor do Museu Paranaense, pelo então presidente do estado do Paraná Francisco
Xavier da Silva.
Contava apenas 27 anos de idade quando assumiu a direção do museu, após
a breve gestão de Ermelino Agostinho de Leão, filho do desembargador Agostinho
Ermelino de Leão, este último um dos fundadores e primeiro diretor desta instituição.
Na direção do museu Romário permaneceu durante 26 anos, até 28 de
fevereiro de 1928, quando foi designado para Diretor do Departamento de Agricultura
do Estado.
Esta longa permanência de um conhecido intelectual e político neste cargo
público permite algumas considerações.
Inicialmente, demonstra o prestígio e a influência que tinha Romário Martins
junto a diferentes governantes, já que passou pelas administrações de diversos
presidentes de estado.
Ainda, neste aspecto, o Museu Paranaense se constituiu em um bom exemplo
para a análise das relações entre o poder executivo e as instituições culturais à época,
revelando que o museu cumpria seu papel como local de representação de memória e
como suporte necessário à construção de uma identidade regional.
Romário Martins foi o diretor que por mais tempo assumiu a tarefa de dirigir o
museu logo após os fundadores desta instituição.
Concomitante a este trabalho, assumiu a reorganização da Biblioteca Pública
do Paraná, que foi reaberta, em 1903, em uma das salas da frente do museu.
Ainda no ano de 1903, foi escolhido membro da comissão organizadora da
Exposição Comemorativa do Cinqüentário da Província do Paraná e preparatória da
Exposição de Saint Louis, nos Estados Unidos.
No início do governo do presidente do Estado Vicente Machado, Romário
Martins publicou o primeiro número do Boletim do Museu Paranaense, em junho de
1904, com o objetivo de ser este o marco de uma nova fase. Este boletim contou com
o apoio do governo do Estado, sendo que em novembro de 1905, a Câmara votou a
franquia para a expedição da publicação pelo Museu Paranaense.
Pode-se perceber, por suas primeiras ações frente ao museu, a influência do
pensamento positivista em Romário Martins, pela necessidade de se conhecer,
classificar, ordenar, enfim, organizar os objetos da natureza.
O interesse do diretor do museu, segundo ele próprio, estava voltado para a
aquisição de materiais arqueológicos e etnológicos, com fins de estudos de cunho
científico. Para tanto, como também era deputado estadual, apresentou um projeto, que
o presidente do estado sancionou na Lei nº 546, de 24 de março de 1904, obrigando os
comissários de medição de terras a remeterem ao Museu Paranaense artefatos
indígenas, objetos fósseis, bem como amostras de minerais encontrados em suas
explorações.
Os artigos desta publicação eram referentes ao Paraná: os sambaquis, as
missões, as baías e os minerais, o que denota o interesse em divulgar este estado, as
suas riquezas naturais e históricas, portanto, através deste primeiro boletim, Romário
já tratava de assuntos relacionados à busca de uma identidade paranaense.
No denominado Salão de Pintura ou Salão da Pinacoteca do Museu
Paranaense eram comumente feitas exposições de trabalhos do pintor Alfredo
Andersen e de seus alunos, sendo que os quadros expostos eram vendidos para os
visitantes, o que se sucedeu em diversos anos.
Foram sendo adquiridas algumas telas com verbas do museu, podendo-se
observar que as aquisições para a Pinacoteca privilegiavam destacados homens
paranaenses e paisagens da “grandiosa” natureza do Paraná.
Desta forma, o museu se constituía, através da sua coleção de quadros, que
se destinava a divulgar a natureza do Paraná e, sobretudo, a perpetuar a memória de
homens da elite paranaense, em um espaço para a promoção de políticos renomados,
numa espécie de panteão dos personagens importantes paranaenses.
Até os dias de hoje estão expostas nesta instituição estas obras, em pintura a
óleo, adquiridas no início do século XX, retratando políticos, “heróis” e alguns artistas.
Em 1906, Romário Martins apresentou seu primeiro relatório como diretor do
Museu Paranaense ao governo do Estado e através desta sua publicação Romário
teve, novamente, como em 1904, oportunidade de se corresponder com diretores de
outras instituições brasileiras similares.
Com menos de 30 anos de idade candidatou-se, indicado por Vicente
Machado, importante líder político do Paraná, a deputado ao Congresso Legislativo do
Estado.
Foi eleito e permaneceu como deputado estadual durante dez legislaturas,
entre os anos de 1904 e 1928 e, tendo sido também vereador e Presidente da Câmara
Municipal de Curitiba, chegou a ocupar interinamente o cargo de prefeito, em 1905.
Romário mesmo afirmava: “Até 1928, ninguém se excedeu em número de
legislaturas para as quais fui eleito”.
8
Como deputado, elaborou algumas leis, sendo de sua autoria, entre outras:
criação da bandeira e do brasão do estado do Paraná; criação do brasão e das armas
da cidade de Curitiba; leis para proteção da flora e da fauna paranaenses, tendo sido
o Paraná o primeiro estado a aprovar um código florestal no Brasil, em 1907,
seguindo-se a lei de 1919, referente ao reflorestamento, ao código de caça e pesca,
em 1924, e ao código de 1926, que reorganizava o código florestal e consolidava as
demais leis vigentes sobre a exploração de madeiras no Paraná; criação da Escola de
Agronomia do Paraná; proposta da data de 29 de março para aniversário da cidade de
Curitiba; criação do Boletim do Arquivo Municipal; obrigatoriedade de numeração dos
domicílios e proibição das brigas de galo.
Além de jornalista, servidor público e político, Romário Martins, foi historiador,
escrevendo a história regional do estado do Paraná.
Preocupado em criar uma identidade, ao mesmo tempo em que procura
reconhecer um ideal de capacidades civilizatórias, a obra de Romário Martins estuda o
homem do Paraná na sua formação histórica, composição étnica e perfil psicológico.
Durante o período de produção da obra romariana encontram-se livros, capítulos,
folhetos e artigos dedicados ao estudo do homem paranaense. Dos caiçaras do litoral
aos imigrantes europeus, do índio ao cabloco, do português ao negro, todos são
fontes de estudos e comentários do autor..
9
Foi sua a proposta de fundação do Instituto Histórico e Geográfico Paranaense,
criado em 1900, tendo sido membro e incentivador desta instituição por muitos anos.
Desde o início do século XX, entre os anos de 1901 a 1916, empenhou-se com
dedicação à pesquisa em documentos e publicações sobre a questão de limites entre
os estados do Paraná e Santa Catarina, inclusive com viagens para as buscas em
arquivos do Rio de J aneiro, de São Paulo e do Rio Grande do Sul.
Por decreto do Presidente da República foi nomeado, em 1912, para exercer o
cargo de Secretário Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Paraná,
recebendo a patente de coronel.
Considerado líder do paranismo, também partilhava de idéias socialistas e dos
movimentos do simbolismo, positivismo, nacionalismo e anticlericalismo.
Romário tinha o reconhecimento pela sociedade da época de sua
intelectualidade e o prestígio de um verdadeiro “plumitivo e homem das lettras”.
Apesar de não ter vivido exclusivamente da pena, já que exerceu outras
funções administrativas e políticas, deixou uma vasta produção literária e histórica.
Mesmo tendo várias ocupações, sempre se dedicou à pesquisa e a escrever obras
nas quais podia divulgar suas idéias e acabou lançando muitos trabalhos durante toda
a sua vida.
Casou-se em 1898 com Benedita Menezes Alves, sobrinha do escritor e poeta
Emílio de Menezes, com quem teve oito filhos.





1
Historiadora, mestre pela UFPR, pesquisadora do Museu Paranaense
2
BORGES, Vavy P. Desafios da memória e da biografia: Gabrielle Brune Sieler, uma vida (1874-1940) In
BRESCIANI, Stella e NAXARA, Márcia (orgs.) Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão
sensível. Campinas: EdUnicamp, 2001.
3
FILIZOLA, Anamaria. O circo e a ostra: Agustina Bessa Luís. Biógrafa. Campinas, 2000.Tese (Doutorado em
Teoria Literária), UNICAMP.
4
LÉVILLAIN, Philippe. Les protagonistes: de la biographie.In Pour une histoire politique. Paris: Seuil, 1988. (ed.
Brasileira: Rio de J aneiro: Fundação Getúlio Vargas).
5
ORIEUX, J ean. A arte do biógrafo. In DUBY,G., ARIÈS, Philippe et all.História e nova história. Lisboa:
Teorema, 1986. p.33-42.
6
MARTINS, Romário. Dados bio-bibliográficos até 1945.Curitiba: Editora Guaíra Limitada, s/d. .54 p.
7
MARTINS, Romário. Eu; notas auto-biographicas de Romario Martins. Curitiba:Plácido e Silva, s/d. 63 p.
8
Os mandatos eram de dois anos. Romário Martins foi eleito para os biênios de 1904-1905; 1908-1909; 1910-1911;
1912-1913; 1918-1919; 1920-1921; 1922-1923; 1924-1925; 1926-1927 e 1927-1928.
9
SZVARÇA, Décio. O forjador: ruínas de um mito. Romário Martins, 1893-1944. Curitiba: Aos Quatro Ventos,
1998.
Igreja Católica, Assistência Social e Caridade: Convergências e Divergências 1

Claudia Neves da Silva 2



O presente artigo visa apresentar as primeiras reflexões que emergiram com o
desenvolvimento da pesquisa Igreja Católica, assistência social e caridade:
convergências e divergências e que tem por objetivo investigar as implicações da
concepção de caridade na concepção de direito e o rebatimento decorrente nas ações
assistenciais, no período que vai de 1985, fim da ditadura militar, a 1996, quando se
efetiva uma nova política pública de assistência social em Londrina.

Um breve resgate da história

A presença da Igreja Católica em Londrina data de 1934, com a chegada do
primeiro padre, pertencente à Sociedade do Apostolado Católico - Palotinos, e o início
da construção da igreja matriz, no ano de 1934
1
. J á no ano seguinte, o bispo de
J acarezinho, diocese à qual a Igreja de Londrina estava subordinada, solicitou aos
superiores da Congregação dos Padres Palotinos, mais cinco padres para esta região,
no que foi prontamente atendido. Estes estimularam, assim que chegaram e seguindo
orientação da hierarquia, a fundação de associações religiosas para os leigos
participarem mais assiduamente no cotidiano dos rituais litúrgicos.
Londrina tornou-se, já na década de 50, uma cidade com elevado índice de
desenvolvimento econômico e alta taxa demográfica, com o conseqüente aumento do
número de católicos, havendo necessidade de uma maior atenção nos aspectos
espiritual, ético e social por parte dos padres. Todavia, o fato da sede administrativa
da Igreja ser distante, tornava difícil o acompanhamento do rápido crescimento da
cidade. Assim, o bispo de Curitiba e a Câmara Municipal de Londrina, em 1953,
iniciaram campanha junto à Nunciatura Apostólica com o fim de conseguir a criação da
diocese de Londrina, ação que logrou êxito em 1956, com a indicação do padre
Geraldo Fernandes para bispo de Londrina, assumindo a nova diocese em fevereiro
de 1957
2
.
A situação de pobreza e miséria em Londrina nas décadas de 40 e 50
preocupava o poder público
3
e a Igreja. Enquanto o primeiro respondia à questão
social através da repressão policial, seguindo o exemplo do poder executivo central, a
Igreja respondia a esta problemática através da distribuição de alimentos e divulgação
de sua doutrina entre a população carente. Com a chegada de D. Geraldo Fernandes
à Londrina, houve um incremento às atividades voltadas para a área social. Leigos,
institutos e associações religiosas foram chamados a participar, como podemos
observar no registro de PROBST “Já logo após sua posse D. Geraldo fundou também
da elite feminina da Cidade a Associação das Damas da Caridade cuja primeira
reunião ele mesmo presidiu. Além de certas obras particulares como a creche de
Santa Rita e Lar Santo Antônio a Associação se fez presente no futuro em quase
todas as obras de assistência social.” (1979: 59)
4
Seguindo nesta linha de estimular ações pautadas na caridade para minorar os
problemas sociais que emergiam, o bispo incentivou também a participação de fiéis na
Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), movimento leigo que congrega homens e
mulheres de diferentes segmentos sociais, que têm por objetivo prestar ajuda material
às famílias carentes, angariando, através de doações, roupas, alimentos e remédios. E
a resposta não tardou a vir, apresentando a SSVP um rápido crescimento em seus
quadros
5
.
Quanto a ação do Estado no trato da questão social esta caracterizou-se, e
ainda caracteriza-se, pela omissão. Sua ação limitou-se ao repasse de verbas às
entidades filantrópicas, demonstrando o reconhecimento da necessidade de não
prescindir de sua ação, ao mesmo tempo em que reforçava a hegemonia das
entidades filantrópicas na área da assistência social.

O discurso da caridade x assistência social

Com o desenvolvimento de nosso estudo, constatamos que, impelidos pela
concepção cristã de caridade, grupos de voluntários católicos praticam a assistência,
uma assistência baseada na idéia do amor fraterno aos pobres, mendigos, doentes,
órfãos, deficientes físicos e mentais, assistência que não visa interesses pessoais ou
recompensas materiais. Para exercê-la, segundo esta concepção, o critério exigido é a
vontade de servir ao próximo, por ser um dever cristão para com os desfavorecidos e
como possibilidade de demonstrar perante a sociedade um caráter nobre e bondoso,
em particular aqueles que detêm poder político e econômico, e não como possibilidade
de fortalecer os laços de solidariedade entre os membros da comunidade. Na maioria
das vezes, a solidariedade restringe-se à doação de alguns itens da cesta básica ou a
ajudas eventuais por ocasião de catástrofes naturais, como seca ou enchente
6
.
Esta concepção poucas alterações sofreu ao longo dos anos. Ao menos no
Brasil. Seja em 1940 seja em 1990, em nome da caridade foram, e ainda são,
construídas associações filantrópicas, como asilos, albergues, orfanatos que,
alegando fundamentarem-se em valores como o altruísmo e a devoção, prestam
assistência material àqueles que nada possuem. Como pudemos constatar, com a
difusão da idéia cristã de caridade no Brasil a assistência ao longo da história não
apresentou um caráter sistemático e contínuo para melhoria das condições de vida
daqueles que vivem na miséria, mas um caráter assistencialista, baseado em uma
ajuda emergencial, fragmentada, autoritária e paternalista, exercida por voluntários,
associações religiosas e, em momentos de grave crise econômica ou institucional,
também pelo Estado, principalmente a partir da década de 60, nas esferas federal,
estadual e municipal, haja vista que caberia aos pobres aceitar a ajuda emergencial e
procurar, por seus esforços, melhorar suas condições de vida.
Muitas dessas associações filantrópicas institucionalizaram-se, formulando
estatutos, adotando normas e critérios para o atendimento, em busca de recursos da
comunidade e do Estado, como doações e isenções de impostos, para ampliarem
seus serviços.
A década de 90, porém, trouxe uma nova perspectiva para a assistência social,
a qual passou a figurar como política pública, com o Estado sendo designado como
grande responsável pelo enfrentamento à pobreza e os usuários cidadãos de direito,
não sendo mais alvos da caridade de voluntários da sociedade civil. Porém, se no
âmbito legal e do discurso houve esta ruptura no cotidiano da política de assistência
social, as instituições filantrópicas continuaram a atuar em maior número, mantendo
uma certa hegemonia nas práticas e serviços nesta área, sob a perspectiva, em
alguns casos, da caridade e mesmo do clientelismo.
Foi a partir destas constatações que consideramos o fato de que a
consolidação de um novo modelo para a política de assistência social depende da
superação de antigas práticas e conceitos e conhecer como os prestadores de
serviços e seus usuários percebem a assistência na perspectiva do direito ou ainda,
mesclam a antiga doutrina cristã com o movimento da sociedade atual passa a ser, ao
nosso ver, questão importante para o estudo da assistência como um direito.

Resultados Parciais Obtidos

A partir do Concílio Ecumênico Vaticano II, mais particularmente após a
Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín (1968),
Colômbia, houve uma revitalização da concepção de caridade, quando a crise
econômica, política, social e ideológica pela qual passava a América Latina e o
crescimento dos movimentos populares provocou o engajamento de vários cristãos
nestes movimentos. Esta situação gerou uma crise no interior da Igreja Católica Latino
Americana, exigindo uma revisão de sua postura política diante do agravamento dos
problemas sociais. Como conseqüência, surgiram e fortaleceram-se as comunidades
cristãs de base e pastorais sociais que difundiram e aprofundaram a expressão e
celebração da fé e da esperança a partir de uma prática política.
As Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais se consolidaram por todo o
país ao longo da década de 70 graças aos incentivos de padres e religiosas das
paróquias localizadas nos bairros da periferia e cuja principal característica era discutir
os problemas sociais a partir da leitura do Evangelho, passando a exigir do poder
público, ao longo do tempo, respostas às questões que se apresentavam no cotidiano
dos cidadãos, como reforma agrária, através da Comissão Pastoral da Terra,
atendimento às crianças subnutridas, através da pastoral da criança, melhorias na
área da saúde, através da pastoral da saúde, o debate sobre a condição de trabalho,
através da pastoral operária ou do trabalhador.
De acordo com cartilha publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) “A Pastoral Social é essa solicitude da Igreja voltada especialmente
para a condição sócio-econômica da população. Hoje como ontem, ela se preocupa
com as questões relacionadas à saúde, à habitação, ao trabalho, à educação, enfim,
às condições reais da existência, à qualidade de vida...Ela expressa a compaixão de
Jesus e o amor da mãe, traduzindo-os numa ação social de promoção humana junto
aos setores mais pobres da sociedade.” (p. 18)
7
Com base neste novo redirecionamento da Igreja no Brasil, iniciamos a
primeira etapa da pesquisa, ou seja, a realização de entrevistas semi-estruturadas
com os padres, chamados de assessores espirituais das pastorais, procurando
verificar como estes compreendem o conceito de caridade, qual é o objetivo da
pastoral ao qual estão vinculados, bem como o motivo que leva a Igreja voltar-se para
os problemas sociais. Para tanto, elegemos a concepção de caridade e problemática
atendida, enquanto unidades de análises do discurso destes padres que atuam junto
às chamadas pastorais sociais.
No que se refere ao conceito de caridade, enquanto alguns padres
apresentam-na como um ato de amor ao próximo, que conduz a atos de bondade e
ajuda, outros a colocam como ponto de partida para ações que levam a mudança da
situação que se apresenta no cotidiano da população:

E Jesus falava claramente isto: dar a vara e mandar pescar e não dar o
peixe. Então o que Jesus queria dizer, vocês têm que partilhar, porque
partilhando, as pessoas vão se sentir amadas. Resgatar a dignidade da
pessoa. Ele não quer viver de esmolas. Ele quer ter também. ( 1 )

“Quem se compadece do sofrimento do outro, não pode ficar omisso diante
daquele sofrimento. Quem se compadece tem o direito e o dever de realizar
práticas que venham a libertar aquela pessoa daquele sofrimento...Uma
das formas de atuar a caridade, historicamente assistencialista, foi
mudando, com o advento das leis, com os movimentos a nível mundial que
aconteceram...movimentos de formação da cidadania, esses conceitos
foram se modificando.” ( 3 )

“Não há caridade se não há justiça. Nós articulamos justiça, política,
caridade e aprendemos a beleza da ação social... Nós não podemos
descuidar também da assistência...Nós temos 2 pulmões: o pulmão
evangelizador e o pulmão social. Evangelizador é a catequese e social é a
Cáritas.” ( 4 )

“A caridade é uma coisa passiva. A solidariedade é ativa. São valores
evangélicos. São desdobramentos da caridade. A solidariedade você
participa, oferece, você vê o sujeito não como um sujeito passivo, mas
transforma o sujeito em protagonista da história. A caridade só vê a
necessidade imediata: pão, a cesta básica, a coberta para o inverno. Quer
dizer, é uma coisa esporádica. A solidariedade é uma coisa permanente.” (
5 )

Acreditamos que ações diferenciadas acabam por levar a concepções
diferenciadas. Os padres que estão mais próximos de pastorais que mobilizam,
discutem e atuam nas questões relacionadas às políticas governamentais voltadas
para o trabalhador e ou para a área social, apresentam um discurso de busca de
respostas para a realidade social. Assim, aquele que entra em contato com esta
demanda se depara com uma situação na qual a concentração de riqueza e a
conseqüente falta de distribuição de renda geram a exclusão de grande parcela de
mulheres, homens, jovens e crianças dos bens e serviços da comunidade, revendo
seus valores e conceitos de caridade e, muitas vezes, sua linha de ação pastoral,
questionando o valor da caridade enquanto esta se apresenta como passiva e
reforçadora de uma situação de submissão. Certamente há aqueles que não se
deixam sensibilizar e reforçam uma atitude de suposta isenção diante da realidade
social.
Quando indagados a respeito do motivo de a Igreja voltar-se para os problemas
sociais, houve unanimidade:

“Porque é missão da igreja. Aonde foi Jesus na vida Dele? A missão de
Jesus foi aos excluídos, aos pequenos da sociedade. E ao fazer isto, Ele
denunciava o status quo que se aproveitava desta pobreza toda para se
sustentar no poder.” ( 5 )

“Porque no Vaticano II está claro: o homem é motivo de preocupação, para
nós da igreja, do berço ao túmulo. Desde o dia que a criança nasce, até o
dia que nós enterramos, é objeto de preocupação da igreja. O Evangelho é
justiça, nós temos que anunciar.” ( 1 )

“A igreja tem uma consciência muito lúcida no valor da pessoa humana.
Então, aquela parte do Evangelho que diz que o próximo se identifica com
o Cristo e que no dia do juízo final Ele vai perguntar: ‘tive fome, tive sede,
tive necessidades e você me atendeu, não me atendeu’. Porque ele se
identifica.” ( 4 )

“Porque acima de tudo, é uma forma de você viver dignamente...porque o
direito hoje significa que uma pessoa sem direitos, é uma pessoa excluída
socialmente. O que define hoje a cidadania é a vivência e a relação que
existe entre direitos e deveres. As pastorais hoje cunham muito o termo
‘princípios sociais.” ( 3 )

De acordo com LÖWY
8
, a Igreja Católica colocou-se, desde o início da
ascensão do modo de produção capitalista, contra a racionalização das relações
comerciais, ou seja, contra as relações impessoais, movidas por interesses financeiros
e econômicos, entre trabalhadores e patrões, não levando em consideração outros
interesses ou valores, a não ser o lucro. Segundo a perspectiva da hierarquia católica,
houve uma ruptura entre as exigências econômicas e o ideal de vida cristão. O
capitalismo não poderia ser regulado através de uma ética cristã, o qual era
considerado por esta instituição religiosa, ateu, usurpador e um dos principais
causadores das dificuldades dos mais pobres. Esta situação, alegavam, limitava o
espaço para orientações e ações caritativas. A aversão ao capitalista e ao lucro
proveniente desta relação, colocava em campos opostos Igreja Católica e capitalismo,
desde o surgimento deste.
Uma outra fonte de anticapitalismo católica seria a identificação de J esus Cristo
com o pobre, isto é, o Filho de Deus que veio ao mundo pobre, nascido em uma
família pobre e que se colocou contra o poder econômico e político de sua época. Esta
identificação levou a Igreja a adotar duas situações, a atenção caritativa para com o
desfavorecido economicamente e a movimentos e doutrinas que desafiaram e
combateram a injustiça social, denunciando o capitalismo como raiz do mal
9
.
A que se destacar, no entanto, que esta posição anticapitalista da Igreja
católica teve, desde sua origem, “uma tendência esmagadoramente conservadora,
restauradora, regressiva” (LÖWY, 98). Uma nostalgia por uma sociedade hierárquica
pré-capitalista, em que a Igreja detinha poderes excepcionais, cujas opiniões e
decisões eram encaradas como leis divinas, haja vista que esta era a representante do
Apóstolo Pedro na terra. No entanto, esta aversão foi superada quando diante de um
inimigo maior: o movimento trabalhista socialista, que com suas lutas, alcançaram
significativas vitórias na Europa diante da intensa exploração do capital.
Ainda segundo LÖWY (1998), no final do século XIX a Igreja viu-se obrigada a
aceitar, como irreversível, o advento do capitalismo e do estado burguês. Com o
agravamento da questão social e a desintegração dos laços sociais, esta buscou
respostas para superar ou ao menos minorar tal situação. Ao mesmo tempo, deu-se o
surgimento de uma esquerda católica, principalmente na França, o chamado
“catolicismo social”, que criticava o excesso de “capitalismo liberal”, nas não desafiava
a ordem social e econômica. Esta esquerda católica influenciou vários intelectuais da
Igreja Latino-Americana, culminando com o crescimento e fortalecimento da teologia
da libertação.
Atualmente, alguns bispos, considerados progressistas e muitos padres e
freiras da América Latina, buscam a construção de uma teologia e cultura católica
próprias para esta realidade marcada pela concentração de riquezas e desigualdades
sociais.
O clero, diante de uma realidade de total abandono por parte do poder público,
de uma intensa exploração do trabalhador pelo capital, e ainda influenciado pela
teologia francesa, caracterizada por uma tradição anticapitalista, fundamenta uma
nova teologia que analise e intervenha a partir de questões e respostas desta mesma
realidade.
Ainda seguindo esta linha de raciocínio, as ações voluntárias de membros da
Igreja Católica possibilitam que se estreitem os laços de solidariedade entre aqueles
que estão próximos dos que vivem em extrema pobreza. No entanto, esta
solidariedade fica, muitas vezes, no plano individual. E mais, a Igreja Católica, por sua
longa experiência e tradição na prática da assistência social, exerce, em algumas
ocasiões, através de seus membros, influência na execução da política de assistência
social.
Por este motivo, consideramos importante e necessário desmistificar a idéia,
largamente difundida em nossa sociedade, de que assistência à população carente de
bens e serviços deve pautar-se na concepção de caridade, a qual, inadvertidamente
ou deliberadamente, é utilizada por diferentes atores sociais, subordinados ou não a
uma instituição religiosa, obscurecendo desta forma, o princípio do direito, garantido
no artigo 4º da Lei Orgânica da Assistência Social (Lei nº 8.742 de 7 de dezembro de
1993).


1 - Resultados parciais da pesquisa desenvolvida no Departamento de Serviço Social da UEL entre 2000 e
2001. Essa pesquisa visa dar continuidade aos estudos iniciados no Mestrado em História Social, UNESP
/ Assis, 1999.

2 - Professora do Departamento de Serviço Social da UEL e coordenadora da pesquisa “Igreja Católica,
caridade e assistência social: convergências e divergências”.

1
Todas as informações a respeito da Igreja Católica em Londrina foram retiradas de: PROBST, C.
História da Província São Paulo Apóstolo. Londrina: Paróquia do Sagrado Coração, 1979.
2
Idem.
3
ARIAS NETO, J . M. O Eldorado: Londrina e o Norte do Paraná – 1930 – 1975. Dissertação (Mestrado
em História) – Universidade de São Paulo.
4
PROBST, C. História da Província São Paulo Apóstolo. Londrina: Paróquia do Sagrado Coração, 1979.
5
SILVA, C. N. O poder público municipal e a Sociedade de São Vicente de Paulo: dois modelos de
atuação na área da assistência social em Londrina (1964 – 1988). Assis, 1999. Dissertação (Mestrado em
História) – Faculdade de História, Universidade Estadual Paulista.
6
Idem.
7
CNBB. O que é Pastoral Social? Cartilhas de pastoral social nº 1. São Paulo: Ed. Loyola, 2001.
8
LÖWY, M. Ética católica e o espírito do capitalismo: o capítulo da sociologia da religião de Max Weber
que não foi escrito. Cultura Vozes. Petrópolis: Vozes, 1998, v. 92, nº 1, p. 86 – 100.
9
Idem.
Entre Tapas e Beijos: queixas e justificativas de práticas violentas entre homens
e mulheres na Delegacia da Mulher de Maringá (1987-1996)

CLAUDIA PRIORI

T



A década de 1980 foi de renovação das esperanças feministas, bem como da
população em geral, pois algumas das lutas traçadas nos anos 70 juntamente a outros
setores de esquerda como a anistia dos presos políticos, começam neste momento a
obter resultados.
A publicização das denúncias de violência cometida contra as mulheres e a
reivindicação de estruturas de apoio às vítimas eram os principais pontos das lutas
feministas. Em 1980, como obra pioneira no atendimento às vítimas, houve em Belo
Horizonte, a criação do Centro de Defesa dos Direitos da Mulher. Por outro lado,
temos as primeiras entidades criadas para a prestação de serviços às vítimas, os SOS
Mulher, instalados primeiramente em São Paulo no mesmo ano e, em seguida, no Rio
de J aneiro, Porto Alegre e Belo Horizonte.
Representantes do movimento feminista e mulheres, unidos em prol da
publicização, legalização e atendimento especializado às vítimas de violência,
interpelaram o Estado negociando a criação de políticas públicas, especialmente, de
órgãos especializados nos níveis federal, estadual e municipal, centros de apoio
jurídico à mulher, de delegacias especializadas e de alguns abrigos, bem como o
tratamento legal ao assunto.
1
Vários serviços de atendimento e proteção às vítimas foram criados em
diversas localidades e períodos. Um deles foi o Conselho da Condição Feminina do
Estado de São Paulo, em abril de 1983, amparado pelo poder estatal. Criaram-se
também os Conselhos dos Estados do Paraná e de Minas Gerais, sendo que neste
último o funcionamento se iniciou imediatamente, devido à agilidade do governo em
empossar as conselheiras.
Estas iniciativas colaboraram principalmente para a criação das delegacias
especializadas. Esse espaço institucional proporciona a ruptura do silêncio que por
longos anos circundou as mulheres vítimas de violência, visibilizando o fenômeno. O
fato da quebra do silêncio, ao publicizar o privado, o íntimo, em trazer à tona o cenário

atroz em que conviviam, é um largo passo para as mulheres vítimas. Elas rompem
com o fenômeno invisível e permitem que a violência seja considerada uma questão
pública, que o fato seja politizado
2
e que o Estado, a polícia e a justiça tomem as
medidas necessárias para contê-la e punir seus agressores.
A primeira delegacia a surgir em âmbito nacional foi em São Paulo, em 06 de
agosto de 1985, e recebeu a denominação de Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).
A criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em 29 de agosto do mesmo
ano, pela Lei N.º 7.353, um órgão vinculado ao Ministério da J ustiça
3
, contribuiu para o
desencadeamento de reivindicações em outras capitais e cidades do país, para que se
instalassem novas delegacias especializadas ao atendimento à mulher, vítima de
violência, para suprir a necessidade em nível nacional.
A institucionalização da violência contra a mulher abriu maior espaço para a
penalização de agressões outrora não consideradas como crimes, ampliando assim o
leque de atitudes comportamentais agressivas passíveis de denúncia e punição.
Portanto, nos órgãos especializados, as vítimas se sentem mais à vontade para
denunciar seus agressores e, conseqüentemente, ajudam na elucidação da violência
de gênero desmascarando um fenômeno invisível e trazendo à tona a gravidade e a
freqüência com que isso ocorre. Assim sendo, estas delegacias têm se tornado mais
uma via para o aumento da visibilidade da violência contra a mulher.
4

A denúncia é a iniciativa mais encorajada, pois oficializada a queixa, muitos
agressores, flagrados em seus comportamentos agressivos, se sentem constrangidos
ao serem expostos às autoridades femininas. O encorajamento público das
autoridades à prática de denúncia faz parte de uma proposta educativa que visa inibir
as mais variadas formas de violência contra a mulher e é guiado por um conceito de
cidadania que assegura a plena igualdade de direitos.
A necessidade de combater a violência contra a mulher, assumida pelos
movimentos feministas e de mulheres, despertou a iniciativa de implantar uma
delegacia especializada ao atendimento das mulheres vítimas de violência na cidade
de Maringá, haja vista o índice de crescimento da violência em todo o país.
Esta mobilização local é decorrente dos movimentos nacional e estadual em
prol da necessidade de criação de órgãos especializados à proteção e defesa das
mulheres vítimas de violência. O Conselho da Condição Feminina do Paraná foi criado
pelo Decreto 6.617 de 24 de Outubro de 1985, poucos meses depois da criação do
Conselho Nacional dos Direitos da Mulher(CNDM). Apenas em 28 de Abril de 1995, é

que a designação de Conselho da Condição Feminina do Paraná muda para Conselho
Estadual da Mulher do Paraná.
A criação dos Conselhos Estaduais e Municipais da Condição Feminina,
desempenhou importante papel na luta pela criação das delegacias especializadas
que em meados de 1986, já eram em número de 26 e estavam espalhadas em vários
Estados
5
. O ano de 1986, portanto, foi relevante no que tange à mobilização de
autoridades policiais locais e estaduais, bem como de várias entidades e participação
social feminina em prol da luta pela implantação da delegacia da mulher em Maringá.
A cidade experimentava considerável alto grau de desenvolvimento e servia de
atração para habitantes de outros municípios em busca de melhores condições de
vida.
Durante o ano de 1986, ocorreram na cidade vários debates reunindo mulheres
para discutir temas como a constituinte, a violência, a saúde, educação e tantos outros
que preocupavam a mulher brasileira e a sociedade de um modo geral. A instalação
da Delegacia Especializada na Defesa da Mulher, em Maringá, ocorreu em 24 de
outubro de 1986. Isso resultou do apoio e das reivindicações de entidades femininas
como a União da Mulher Maringaense, a Assistência J udiciária de Maringá,
representada por sua coordenadora Dra. Mara Catarina Mesquita Lopes, bem como
do delegado-chefe de polícia de Maringá, Dr. Fauze Salmen.
Outro ponto culminante dessa mobilização foi a manifestação de apoio da
delegada titular da primeira Delegacia da Mulher de Curitiba, Dra. Thereza Hermelindo
Santos, desde dezembro de 1985. Ela ressaltava a necessidade de uma delegacia da
Mulher em Maringá. argumentando que, com os altos índices de criminalidade que a
cidade atingia em 1986, seria importante uma instituição especializada, que revelasse
o fenômeno com a devida dimensão, demonstrando que o índice registrado nas
delegacias não expressa a complexidade do problema devido aos vários fatores
mencionados
6
.
Os dados estatísticos revelados em março de 1986, através da Delegacia de
Polícia de Maringá, demonstram que apenas 10 mulheres, em média, procuravam a
delegacia mensalmente para registrar queixas contra seus agressores o que expressa
claramente o sub-registro de denúncias das agressões. Além disso, Dra. Mara
Catarina Mesquita Lopes afirma que dos 198 casos atendidos no mês de fevereiro de
1986, 30% eram pedidos de separação ou de pensão alimentícia. Na maioria das
vezes, o que determinava o pedido de separação era a violência física, moral e
psicológica. Lopes afirma ainda que se na delegacia de Polícia o número registrado de

violência contra a mulher é de dez, mensalmente, a procura na Assistência J udiciária
por motivos de violência ultrapassa o número de trinta por mês.
7
Segundo o delegado-chefe de polícia, Dr. Fauze Salmen, a necessidade de se
implantar uma delegacia da mulher, em Maringá, era urgente na medida em que
incentivaria as vítimas à denúncia, pois por mais capacitado que seja, o homem ainda
inibe a mulher. Com a presença feminina, a mulher vai se sentir mais identificada,
principalmente quando se trata de crimes sexuais
8
. Percebe-se, portanto, o
reconhecimento e a luta de autoridades conscientes da falta de um órgão
especializado para atender as vítimas e deixá-las mais à vontade para denunciar seus
agressores, principalmente naqueles casos relacionados a uma violência tão íntima.
Com o atendimento feminino derivado da criação da delegacia da mulher,
mulheres aprisionadas no círculo violento e que por inúmeras razões não formularam
denúncia à delegacia de polícia tradicional passaram a ver revertido este quadro.
No momento da instalação da Delegacia da Mulher, Dr.Fauze Salmen já não
era o titular da delegacia de polícia. Porém, seu sucessor o delegado-chefe da 9ª
Subdivisão de Polícia, Dr. Leonil Cunha Pinto, deu prosseguimento ao projeto e
colaborou para que o intento se tornasse realidade.
A violência de gênero é um problema cultural, reconhecido inclusive em
bibliografia internacional. E vários são os elementos apresentados para sua prática.
Um deles são os ciúmes, pois as mulheres estão expostas socialmente e à mercê de
flertes e “cantadas”. Além disso, há o medo da competitividade uma vez que as
mulheres estão ocupando espaços antes exclusivos deles, bem como se sobressair na
vida profissional, receber melhores salários e ser chefes de família. O constrangimento
diante do sucesso feminino no trabalho aliado ao crescente desemprego masculino,
por não cumprir com o dever estabelecido socialmente de provedor. Esses aspectos
econômicos e sociais ao ferir a superioridade masculina, colocam-nos em uma
situação constrangedora, acarretando muitas vezes um comportamento agressivo, que
causa os mais diversos tipos de violência, uma vez que a força física e a dureza são
ainda armas de que os homens dispõem para provar sua virilidade e poder
Outro elemento que contribui para a prática violenta é o consumo exagerado
de bebidas alcoólicas, seja por vício, ou então, como forma de “anestesia” para os
problemas enfrentados cotidianamente. O agressor quando embriagado comete as
piores atrocidades contra as pessoas de seu convívio, e depois alega não saber o que
estava fazendo. Entretanto, o que não fica claro nesses casos é se as pessoas agem
de forma violenta porque estão bêbadas ou se embebedam a fim de conseguir uma

permissão social de caráter implícito para agir de maneira violenta
9
. Percebe-se que a
Embriaguez é um estágio do agressor que culmina em violência.
No recorte temporal abrangido pela pesquisa, o número de ocorrências
registradas perfaz um montante de 6.399 queixas englobando nesse total uma vasta
tipologia de crimes cometidos contra a pessoa, a liberdade individual, o patrimônio, os
costumes e a família. Há, ainda, as consideradas contravenções, nas quais se inclui a
embriaguez. Sendo assim, tomou-se como critério a maior incidência de dois tipos de
queixas registradas: a agressão física ou lesão corporal, classificada como crime
contra a pessoa; e a embriaguez, considerada uma contravenção pelo Código Penal.
No que se refere à ocorrência dos crimes, nota-se que a maior incidência recai sobre
os crimes contra a pessoa, uma vez que as formas de agressões dirigidas aos
indivíduos são freqüentes e atingem, principalmente, a integridade física e moral e,
além disso, atentam contra a própria vida. Do total das queixas registradas na
Delegacia da Mulher, em Maringá, no período em estudo, 53,30% se referem aos
crimes contra a pessoa. No cômputo dos crimes contra a pessoa, 26,25% são
referentes às lesões corporais (agressão física), o que demonstra a grande freqüência
com que isso ocorre.
Crimes contra o patrimônio e os costumes apresentam um percentual ínfimo de
incidência, sendo superados pelos crimes contra a família que representam 8,42% do
total de queixas, bem como pelos 10,11% contra a liberdade individual. J á das
contravenções, o percentual de 23,92% de incidência é bem representativo, uma vez
que não são considerados crimes, mas apenas contravenções, transgressões da lei.
Desse percentual referente às contravenções, a embriaguez se destaca com 17% dos
casos.
A apuração e análise das queixas registradas na Delegacia da Mulher, em
Maringá, entre os anos de 1987 a 1996, com intuito de compreender o universo
violento em que vítimas e agressores convivem, relacionou-se um número de 2.768
(43,25%) ocorrências registradas como agressão física e embriaguez. Portanto, esses
dois tipos de queixas perfazem quase metade do montante registrado e a freqüência
com que isso ocorre é reveladora. Não que os outros tipos de queixas não sejam
significantes, o que acontece é que 56,75% do total das ocorrências estão distribuídos
entre trinta (30) tipos de queixas distintas, representando uma média de 121 casos
para cada queixa no período em estudo. Se compararmos essa média com as
ocorrências de agressão física e embriaguez perceberemos seu significado, pois
43,25% estão distribuídos apenas entre esses dois tipos de queixas.

Estas queixas foram as mais freqüentes e ambas, muitas vezes, se completam,
pois as registradas como agressão física têm várias alegações para os episódios
violentos, enquanto que as registradas como embriaguez, na realidade, não é o estar
embriagado a causa do incômodo, mas o que resultou da embriaguez, ou seja, a
agressão física, moral, sexual, dano e perturbação da tranqüilidade.
Com os variados tipos de queixas registradas na delegacia da mulher, em
Maringá – entre 1987 e 1996 – percebe-se como o fenômeno da violência é complexo.
Além das agressões físicas, morais e sexuais, há ainda o cerceamento da liberdade
individual, ameaças, perseguição e cárcere privado. Há ainda os crimes contra a
família, como o abandono do lar e o abandono material, principalmente este, pois nos
dados levantados junto à Delegacia da Mulher representa 2,9% do total das queixas.
Se pensarmos esse percentual isolado, seu significado é mínimo. Contudo, se
considerado em um contexto violento, em que a maioria das denúncias é feita por
vítimas das classes menos favorecidas, onde a pobreza, o desemprego ou
subemprego e a violência constante imperam, esse baixo percentual adquire um
significado extremo.
A revelação de condições precárias que as famílias convivem, agravadas pelo
descaso, abandono material e maus-tratos por parte dos homens, que segundo os
padrões sociais deveriam ser os provedores da família, expressam o contexto em que
a violência se manifesta. Em contrapartida, há aqueles casos em que os agressores
não cuidam de sua família legítima, deixando-a abandonada, materialmente, para
sustentar uma outra família, uma relação extraconjugal.
Independente da face que a violência assume, o número de ocorrências
relativo a cada uma delas é surpreendente não apenas no aspecto quantitativo. É
notável, principalmente, o aspecto qualitativo, ou seja, a gravidade e os prejuízos
causados às vítimas, uma vez que a violência contra a mulher resulta em
comprometimentos físicos como fraturas, queimaduras, hematomas, aborto e morte.
J á no aspecto psíquico, causam frustração, fragilidade emocional, bloqueio sexual,
medo constante, depressão, bem como a falta de vontade de viver
10
.
A denúncia das agressões e o rompimento com o círculo violento, através da
iniciativa feminina, são essenciais para o vislumbramento das condutas violentas e o
contexto em que elas se inserem. Através dos Registros de Ocorrências, percebe-se
que a dominação masculina sobre as mulheres é intensa e impera em muitos lares
sob a forma mais cruel, a violenta. Não somente nos lares, mas em outros espaços
sociais divididos por homens mulheres, ambos com responsabilidades e funções.

Derivam daí resistências, o mau-relacionamento, a incompatibilidade de pensamentos,
as indiferenças, os conflitos, as agressões morais, as ameaças e, por fim, as
agressões físicas.
Portanto, a violência de gênero parece ser a mais adequada para tratar desse
impasse e dessa desigualdade que revestem os relacionamentos afetivos, pessoais,
profissionais e intelectuais quando se trata dos sexos opostos. A tradição machista de
superioridade, a luta pela manutenção e permanência do status quo é o que
impulsiona os homens no embate contra as mulheres. É a luta em mostrar às
mulheres que seus papéis e espaços predefinidos são limitados que gera uma reação
violenta, pois os homens utilizam-se de força física para impor seus desejos e
vontades, bem como seu poder
11
.
12


Mestranda em História, pelo Programa Associado de Pós-Graduação em História-UEM/UEL











1-Quanto à mobilização feminista, ver: Silva, Marlise V. Silva. “Violência contra a mulher quem mete a
colher?” São Paulo: Cortez, 1992.
2-Idem, Ibidem, p. 78, 1992.
3-O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), é um órgão com autonomia administrativa e
financeira, que tem como finalidade formular diretrizes para as políticas públicas, assessorar o Governo e
fiscalizar o cumprimento da legislação que garanta os direitos da mulher. Idem, Ibidem, 1992.
4-CAMARGO, Brígida V.; DAGOSTIM, Carla G.; COUTINHO, Mariza. “Violência denunciada contra a
mulher em Florianópolis”. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 78, ago. 1991, p. 52.
5- “Mulheres participam de Encontro”. O Diário do Norte do Paraná. Maringá, 29/07/1986.
6- “Delegada Tereza, dez anos de lutas”. O Diário do Norte do Paraná. Maringá, 30/03/1986.
7- “Número de violência contra a mulher é grande em Maringá”. O Diário do Norte do Paraná. Maringá,
13/04/1986.
8- “Mulher gosta de apanhar?”. O Diário do Norte do Paraná. Maringá, 23/03/1986.
9-CONRADO, Mônica Prates. “A fala de vítimas e indiciados em uma delegacia da mulher”. Diálogos. v.
4, n. 4, 2000, p 185-201. Ver também, LANGLEY, Roger e LEVY, Richard C. Mulheres espancadas:
fenômeno invisível. 2ª ed. São Paulo: Hucitec, 1980.
10- Cf. VELHO, Gi l berto. “Vi ol ênci a, reci proci dade e desi gual dade: uma perspecti va
antropol ógi ca”. I n: VELHO, Gi l berto e ALVI TO, Marcos (Org.). Ci dadani a e
vi ol ênci a. Ri o de J anei ro: UFRJ , 1996.

O ENSINO DE HISTÓRIA NO PARANÁ, NA DÉCADA DE SETENTA:
LEGISLAÇÕES E PRÁTICAS

Cláudia Regina Kawka Martins – CMC



O objetivo deste trabalho é apresentar as principais idéias da dissertação de
Mestrado em Educação, defendida em dezembro de 1999, na UFPR. Procurou-se
analisar como a reforma de ensino de 1971, conhecida como Lei 569271, atingiu o
ensino de História paranaense, mais precisamente na cidade de Curitiba e Região
Metropolitana, levando em conta, além das fontes escritas, tais como documentos
oficiais e currículo, os testemunhos orais de alguns professores de Estudos Sociais da
época. O problema a investigar foi a especificidade na implantação da reforma no
Paraná e principalmente a situação do ensino de História da 5
a
a 8
a
série do período,
pois após a reforma de 1971 o ensino de História passou por várias mudanças, dentre
as quais as modificações nos guias curriculares e o atrelamento à área de Estudos
Sociais, onde a História passou a dividir espaço com a Geografia, a Educação Moral e
Cívica e Organização Social e Política do Brasil. Portanto, a partir desse momento, a
História perdeu seu espaço como disciplina escolar de 5
a
a 8
a
série.
Para entender-se o porquê das mudanças no ensino de História na década de
setenta, foi preciso analisar o contexto da época, a ação do Estado sobre a educação,
o interesse do governo em promover as reformas e qual era o tipo de cidadão que
esse Estado pretendia formar. Essa pesquisa não se limitou a analisar a construção do
discurso do Estado e a sua transmissão através das reformas do ensino e das
mudanças curriculares. Foi preciso investigar e analisar a adesão ou a resistência dos
professores na aplicação das reformas em sala de aula, na sua prática diária.
Para tanto, a metodologia utilizada baseou-se tanto em fontes escritas –
currículo utilizado no período, legislação de ensino, discursos de governo, planos de
implantação da reforma e outras obras já publicadas sobre o assunto – como orais,
através do resgate da memória de algumas professoras que lecionaram nessa época.
A dissertação divide-se em três capítulos. O primeiro baseia-se
fundamentalmente nas fontes escritas sobre a reforma, incluindo a documentação
sobre a implantação da reforma no Paraná. Esse capítulo divide-se em duas partes:
uma sobre a Lei 5692/71 e a implantação dos Estudos Sociais em nível nacional e
outra sobre a idéia do pioneirismo paranaense na adoção da reforma. Esse
pioneirismo do Paraná nas reformas educacionais é algo que aparece nos discursos
dos governadores e Secretários de Educação desde 1964, quando Ney Braga, então
governador, criou o Conselho Estadual de Educação e inaugurava-se assim “nova
fase na história educacional do Paraná”. Em 1969 foi criado o I SENPAR (Simpósio de
Ensino do Paraná) que tinha como um dos objetivos fazer reformulações no ensino e
colocar o Estado na “vanguarda do panorama educacional” (palavras do governador).
J á nessa época o Estado criou o Ensino Fundamental, no lugar do ensino primário e
ginasial. Isso seria feito mais tarde a nível nacional com a Lei 5692/71, porém com o
nome de “Ensino de 1
o
grau”. Essa idéia da vanguarda do Paraná nas questões
referentes às reformas de ensino aparece num discurso feito em 1973 pelo então
Secretário da Educação, Cândido Manuel Martins de Oliveira:

Em 1969, através da realização do I SENPAR – promovemos uma tomada
de consciência coletiva da problemática e das implicações da reforma
educacional. Isso antes que o governo federal firmasse, por lei, as diretrizes
da reforma, em nível nacional. E constatou-se que os dispositivos
promulgados vieram coincidir nitidamente com as conclusões do conclave
educacional que o Paraná realizará em caráter pioneiro. Figuramos,
portanto, na vanguarda da idealização e concepção dos critérios da
reforma.

No segundo capítulo parte-se para a especificidade do ensino de História no
Paraná, levando em consideração as fontes escritas, como o currículo paranaense de
Estudos Sociais, e a reconstrução da memória de algumas professoras que
lecionaram nesse período. Esse é o mais extenso capítulo da dissertação, o corpo do
trabalho. Ali aparecem análises sobre o início da carreira das professoras
entrevistadas, sobre suas práticas em sala – o trabalho com Estudos Sociais, EMC e
OSPB, os livros didáticos, o novo currículo – e as impressões de final de carreira.
Foram entrevistadas sete professoras e o critério para a escolha foi: ter
lecionado Estudos Sociais de 5
a
a 8
a
série, nos anos setenta, na rede estadual de
ensino paranaense, em Curitiba ou Região Metropolitana. A formação acadêmica em
História não foi utilizada como critério, pois à medida que fomos entrando em contato
com as professoras, percebemos que muitas tinham uma formação diferente. Assim
temos duas professoras formadas em História, duas em Ciências Sociais, uma em
História e Geografia, uma em Geografia e uma em Estudos Sociais. Não trabalhamos
com a idéia de que elas sejam uma amostra do magistério do período, mas de que
cada uma tem sua própria história de vida e trabalhou com os Estudos Sociais a sua
maneira. Afinal, a prática em sala varia de professor para professor: “há muitos fatores
que influenciam o modo de pensar, de sentir e de atuar dos professores, ao longo do
processo de ensino, o que são como pessoas, os seus diferentes contextos biológicos
e experenciais, isto é, as suas histórias de vida e os contextos sociais em que
crescem, aprendem e ensinam.” (HOLLY, 1995, p. 82). Além disso existe também uma
forte influência de antigos professores, a qual aparece nas falas de algumas das
entrevistadas.
A memória dessas professoras não é só delas, insere-se no grupo que elas
vivem, é a memória coletiva de HALBAWCHS: “a memória individual não está
inteiramente isolada e fechada. Um homem, para evocar seu próprio passado, tem
frequentemente necessidade de fazer apelo às lembranças dos outros. Ele se reporta
a pontos de referência que existem fora dele, e que são fixados pela sociedade.”
(1990, p. 54).
A memória também é construída, pois a pessoa relembra seu passado com as
impressões que tem hoje do seu presente. BOSI (1983, p. 17) afirma que “lembrar é
refazer, reconstruir, repensar com idéias de hoje as experiências do passado”. A
memória também é uma seleção: “a memória é seletiva, nem tudo fica registrado”
(POLLAK, 1992, p. 204).
Por isso o uso da memória foi por muito tempo criticado, pois pensava-se que
ela não tinha a mesma objetividade da fonte escrita. Prevalecia aquela visão mais
tradicional de documento, onde apenas o que estava escrito poderia ser uma fonte
histórica. Com a Escola de Annales, começam as críticas a essa visão de documento
e à idéia de fato histórico enquanto uma realidade. Assim afirma LE GOFF, na obra
História e Memória:

Mas do mesmo modo que se fez no século XX a crítica da noção de fato
histórico, que não é um objeto dado e acabado, pois resulta da construção
do historiador, também se faz hoje a crítica da noção de documento, que
não é um material bruto, objetivo e inocente, mas que exprime o poder da
sociedade do passado sobre a memória e o futuro. Ao mesmo tempo
ampliou-se a área dos documentos, que a história tradicional reduzia aos
textos. Hoje os documentos chegam a abranger a palavra, o gesto. (1990,
p. 9-10).

Assim a memória passou a ser também objeto da Historia, hoje as fontes
históricas são múltiplas, não apenas aquilo que está escrito. Porém não se pode
esquecer que tanto as fontes escritas como as orais são socialmente construídas, daí
a importância de se fazer uma crítica às fontes utilizadas.
Assim como a memória foi por muito tempo negligenciada pelos historiadores,
o mesmo ocorreu com o estudo da vida dos professores. Hoje existem várias
pesquisas que buscam estudar a prática dos professores via fonte oral. Um dos
pressupostos teóricos dessas pesquisas é que a maneira do professor atuar não
depende apenas da disciplina e da metodologia, mas das suas vivências ao longo da
vida. O autor Ivor GOODSON afirma o seguinte: “ouvir a voz do professor devia
ensinar-nos que o autobiográfico, a vida, é de grande interesse quando os professores
falam do seu trabalho. O que considero surpreendente, se não francamente injusto, é
que durante tanto tempo os investigadores tenham considerado as narrativas dos
professores como dados irrelevantes.” (1995, p. 71). Essa citação contribui para
reiterar a importância do resgate da memória dos professores a fim de perceber como
os professores viram a reforma e o ensino de História no período estudado.
Existem algumas características comuns entre as professoras entrevistadas: a
maioria iniciou sua formação fazendo o curso normal e lecionando nas séries iniciais;
seu percurso de início de carreira é marcado por uma grande mobilidade; a maioria
veio de cidades do interior do Estado a fim de fazer faculdade em Curitiba. Mas apesar
dessa história próxima, os caminhos dentro da profissão acabaram sendo diferentes.
Algumas permaneceram apenas em sala de aula ao longo de sua carreira, outras
ocuparam cargos administrativos. Uma das professoras chegou a trabalhar na
Secretaria de Educação e foi Inspetora de Ensino em São J osé dos Pinhais. Ela teve
uma participação ativa em sala e devido a sua militância pelo fim dos Estudos Sociais
deixa transparecer nos seus relatos uma maior clareza a respeito do significado da
reforma.
A partir do resgate da memória dessas professoras, foi possível perceber uma
crítica à forma como se deu a implantação dos Estudos Sociais no Paraná, sem
discussões com os professores, pois de uma hora para outra eles se viram obrigados
a lecionar com disciplinas para as quais não estavam preparados teórica e
metodologicamente. Por exemplo, um professor formado em História teria que a partir
daquele momento trabalhar também com Geografia, EMC e OSPB. A única orientação
que esses professores tinham eram os cursos do CETEPAR (Centro de Treinamento
do Magistério do Paraná), os quais, porém, trabalhavam mais com questões referentes
à legislação de ensino e não com os conteúdos propriamente ditos.
Assim foram identificadas práticas variadas em relação ao ensino de Estudos
Sociais, por exemplo: algumas escolas continuaram trabalhando com História e
Geografia separadamente, outras adotaram os Estudos Sociais, porém repartindo a
carga horária em História, Geografia, EMC e OSPB, outros trabalhavam com os
Estudos Sociais conforme sua formação acadêmica (por exemplo, o professor formado
em História, acabava dando mais aula de História do que de Geografia). Portanto
muitas vezes os professores, dentro de suas salas de aula, trabalhavam com a
História e a Geografia de maneira autônoma, sem a interligação que a reforma
pretendia.
O novo currículo de Estudos Sociais foi publicado apenas em 1976. Até esse
momento cada escola trabalhava os conteúdos a sua maneira. Esse novo currículo
oficial foi imposto, pois não houve discussões com os professores, e mudou, sem
maiores explicações a ordenação dos conteúdos de História, pois colocou História
Geral na 5
a
e 6
a
série e História do Brasil na 7
a
e 8
a
série, diferentemente de como
ocorria anteriormente. Esse fato também gerou uma insatisfação entre os professores,
a qual aparece em muitos dos relatos das professoras entrevistadas. Muitos acabaram
não adotando esse currículo oficial, pois não concordavam com o fato de lecionar
História Antiga na 5
a
série e continuaram a trabalhar com História do Brasil na 5
a
e 6
a

série.
Então foi possível observar que havia uma resistência ao currículo de Estudos
Sociais, porém o ponto fundamental dessa resistência era o fato de se ter de trabalhar
com História Geral na 5
a
série. Não havia um questionamento em relação aos
conteúdos em si, mas apenas à inversão da ordem de como trabalhá-los em cada
série. Não há, por exemplo, nas falas das professoras, uma crítica ao porquê de a
reforma ter criado os Estudos Sociais e assim ter esvaziado os conteúdos de História.
Portanto tem-se uma resistência, porém que não atacava as questões de fundo da
reforma e das mudanças do ensino de História.
O que se conclui é que a maioria dos professores parece haver trabalhado
separadamente a História e a Geografia, embora oficialmente trabalhassem com
Estudos Sociais. Alguns professores utilizaram o novo currículo de Estudos Sociais, de
1976, já outros o ignoraram e continuaram a trabalhar com História do Brasil na 5
a
e 6
a

série. Alguns professores faziam avaliações conjuntas de História e Geografia, outros
aplicavam provas separadas para cada matéria. Alguns professores seguiam à risca
os livros didáticos adotados pelas escolas, outros procuraram buscar outras formas de
trabalho como o uso de textos diferentes, de diversos autores. Alguns faziam os
tradicionais questionários e provas objetivas, outros tentaram fazer outras formas de
avaliação, como trabalhos em grupo, questões dissertativas.
Cada professor trabalhou a seu modo, da maneira que achou que era a mais
correta, dentro das suas possibilidades e das escolas onde lecionou. Tentaram
superar a falta de orientação para o trabalho com disciplinas diferentes, para as quais
muitas vezes eles não estavam preparados, e a imposição de uma reforma e de um
currículo que foram feitos sem discussões com os próprios professores. Enfim, pelos
relatos das professoras entrevistadas, percebemos que as práticas em sala de aula
foram bastante variadas.
No terceiro capítulo falo da luta dos professores pelo fim dos Estudos Sociais, a
partir do final da década de setenta, e da volta da História como disciplina escolar.
Nessa época houve um crescimento das associações de professores que congregam
historiadores, como a APAH, no Paraná e a ANPUH nacional. Na década de oitenta,
com a redemocratização do país, passou a ocorrer uma redefinição dos
conhecimentos escolares através da elaboração de novas propostas curriculares.
Havia nessa época uma grande influência das novas tendências historiográficas, as
quais voltavam-se para novas problemáticas ligadas à história social, cultural e do
cotidiano.
A influência dos novos estudos sobre o processo de ensino e aprendizagem
também foi marcante nesse período. Voltou-se a dar ênfase ao aluno como sujeito
participante da História e os métodos tradicionais de ensino, como a memorização,
passaram a ser combatidos. Os livros didáticos passaram a ser criticados e iniciou-se
um processo de mudanças nos objetivos, conteúdos e métodos de ensino, as quais
ainda estão em processo de elaboração. Nesse período também ocorreram amplos
debates para a reformulação dos currículos nos Estados brasileiros. Em Minas Gerais,
por exemplo, o novo currículo, de 1986, passou a fundamentar-se na teoria marxista
de História, em São Paulo a reformulação curricular demorou anos devido a diversas
polêmicas em relação à proposta – que pretendia trabalhar com o eixo temático
Trabalho. No Paraná, o novo currículo foi publicado em 1990 e se propunha a
trabalhar com uma visão renovada de História. Isso, porém, não quer dizer que a partir
desse momento, na prática, todas as escolas passassem a adotá-lo. Afinal uma
mudança curricular, mesmo que ela traga diferenças significativas nos conteúdos
trabalhados ou na metodologia do ensino, não implica necessariamente uma
reformulação na maneira dos professores atuarem em sala de aula, na sua prática
diária.
Após encerrada a pesquisa, a questão que se coloca é: a reforma ocorreu de
acordo como os seus idealizadores pretenderam? O que podemos afirmar é que essa
resposta depende do nosso olhar sobre a questão, pois se o Estado pretendia que se
trabalhassem com os conteúdos de Estudos Sociais de forma integrada e que se
seguisse o currículo de 1976 da maneira como ele foi implantado, então a reforma de
ensino não ocorreu como se pretendeu. Porém se o objetivo era justamente provocar
uma diluição e uma descaracterização das disciplinas na área de Humanas e um
ensino de História isento de qualquer análise crítica, então a reforma conseguiu o que
pretendia. Essa é uma questão que merece ainda ser pesquisada, pois não é nosso
objetivo encerrá-la por aqui ou trazer respostas definitivas ao assunto que nos
propusemos a pesquisar, ao contrário, o importante é que essa pesquisa possa gerar
novas discussões sobre o tema e abrir caminhos para outras pesquisas.

1. BOSI, Eclea. Memória e sociedade. São Paulo: T. A Queiroz Editor, 1983.
2. GOODSON, Ivor F. Dar voz ao professor: as histórias de vida dos professores e o
seu desenvolvimento profissional. In: NÓVOA, Antônio. (Org.) Vidas de
professores. 2. ed. Lisboa: Porto, 1995. p. 63-78.
3. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
4. HOLLY, Mary Louise. Investigando a vida profissional dos professors: diários
biográficos. In: NÓVOA, , Antônio. (Org.) Vidas de professores. 2. ed. Lisboa:
Porto, 1995. p. 79-110.
5. LE GOFF, J acques. História e memória. Campinas: Unicamp, 1990.
6. POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de
J aneiro, v.5, n. 10, p. 200-212, 1992.


As ruínas do novo: cidade e modernidade na imprensa joinvilense (1960-1970)

Clóvis Gruner
Mestre em História (UFPR)
Professor de História Contemporânea (UTP)



Nenhum rosto é tão surrealista quanto
o rosto verdadeiro de uma cidade.
Walter Benjamin

No dia 9 de março de 1957, quando J oinville comemora seus 106 anos de
fundação, o jornalista Heráclito Lobato publica em sua coluna no jornal “A Notícia” um
artigo onde procura “diagnosticar” a nova paisagem urbana. Em resumo, J oinville é, de
acordo com o articulista, uma cidade de “duas faces”: provinciana ainda, mas
anunciando em suas “entranhas” laboriosas o germe do progresso. O fechamento do
artigo é especialmente significativo. Ouçamo-lo:

(..) E como tôda (sic) jovem de bôa (sic) reputação que ouve elogios, a
cidade vai se tornando vaidosa, e porque é feminina, quer se fazer garrida.
Seu maquillage está ainda em princípio mas nestes 16 anos já surgem aqui
e ali, os aspectos da faceirice. Cuidemos dela para que assim continue,
fazendo-o em homenagem aos longinquos antepassados que primeiro
pizaram (sic) seu solo generoso e hospitaleiro.
1

Nos interessa, nessa passagem, a descrição de J oinville como “cidade-menina”
e “jovem de bôa reputação”, de uma vaidade “feminina” que já não esconde
completamente, por detrás de sua “maquillage”, os “aspectos da faceirice”. A metáfora,
que sexualiza a cidade, tornando-a e tomando-a como objeto de um desejo, ganha
novos significados se lida retrospectivamente, em relação, por exemplo, aqueles
artigos que, alguns anos antes, quando da comemoração do centenário da cidade,
exaltavam a força indômita do imigrante que “plantou a semente” da civilização em
meio à “mata virgem”.
2
Plantada em ventre fértil, a semente germinou, deu frutos, e
J oinville se tornou menina. Dá agora seus primeiros sinais de maturidade: é hora de
conhecer seus segredos, de permitir que sua vaidade floresça. Mas há de se cuidar
dessa passagem, delicada, da puberdade à vida adulta. “J ovem de bôa reputação”,
J oinville há de se tornar mulher sem, no entanto, perder seus encantos e recatos de
menina.
É sobre isso que nos falam uma parte das crônicas e artigos publicados em “A
Notícia” no alvorecer da década que surpreende J oinville em pleno processo de

modernização. Num primeiro momento, as mudanças parecem encontrar eco positivo
nas páginas do principal jornal local. Em editorial publicado nos primeiros dias de
janeiro de 1960, “A Notícia” elogia “a boa aparência que a nossa cidade vem
apresentando de dia para dia”. E elenca algumas das razões:

São os grandes prédios que se estão erguendo nos mais variados pontos,
as bonitas construções residenciais, as modernas instalações de algumas
lojas e também, com justiça, o trabalho de remodelação dos passeios nas
principais ruas. (...) Para encerrar, vamos registrar os nossos votos de que
estes melhoramentos prossigam, a fim de que a nossa querida Joinville
possa dia a dia melhor aparência apresentar, para satisfação de todos nós
que aqui nascemos e desejamos ver a nossa terra num constante
progresso.
3


A fala dessa e de outras crônicas podem parecer, numa primeira leitura, um
simples exercício de descrição. Como um retratista, o jornalista parece querer passar
para o papel os caracteres que, do exterior, definem a “fisionomia” da cidade. Mas há
algo mais nessa escrita. Ao descrever a sua “boa aparência”, elogiando-lhe as novas
feições, há um voltar-se para dentro da cidade e, do seu interior, procurar esboçar algo
mais que um mero retrato. Trata-se de uma tentativa de, ao ler seus textos, interpretar
seus discursos e decifrar seus signos, traçar-lhe sua “fisiognomia”.
4
Uma tentativa que
não é gratuita, mas expressão e tradução de uma experiência singular vivida naqueles
anos: a da modernidade.
Experiência que, na imprensa, aparece representada de diferentes formas.
Para essa comunicação, nos interessa especialmente tentar apreender o impacto da
modernização nas sensibilidades e sociabilidades dos joinvilenses - ou, pelo menos,
de uma parte destes. Um desses sintomas aparece em um curioso artigo, publicado
em dezembro de 1967 e assinado por Paulo Herkenhoff. Nele, o autor discorre sobre o
que considera um saudável hábito dos joinvilenses: a fotografia. Nosso exercício, aqui,
consiste em tentar perceber a relação entre “o extraordinário movimento fotográfico” e
as mudanças ocorridas na sensibilidade dos joinvilenses com a experiência da
modernidade. E, para tanto, valemo-nos das reflexões de Walter Benjamin.
Em seu trabalho sobre a reprodutibilidade técnica da obra de arte, Benjamin
5

aponta algumas mudanças fundamentais na apreciação da obra de arte com o
advento da modernidade. O primeiro efeito: com a possibilidade de reprodução, a obra
perdeu aquilo que ele definiu como sua “aura”: “a aparição única de uma coisa
distante, por mais perto que ela esteja”.
6
Entre outras coisas ela permite, no caso da
fotografia, por exemplo, reproduzir o “real” em diferentes ângulos e perspectivas. Num
certo sentido, quanto mais se afasta e se desprende do original que lhe serve de

modelo, maior sua capacidade de captar passagens, expressões, cores e nuances
imperceptíveis ao olho humano, de expressar “a natureza daquilo que a natureza não
é”, como queria Picasso. Como um de seus desdobramentos – o segundo efeito –,
tem-se, pela mediação da técnica, a fragmentação do “real”, que perde sua integridade
e coesão “naturais”. Também com o tempo ocorre movimento semelhante: nos
apropriamos do instante vivido não no momento presente, mas no amanhã quando,
diante da imagem que o fixa, o revivemos pela lembrança. Mas aquele já não é mais o
instante vivido: é uma reprodução, mediatizada pela técnica; nem nossas sensações
são expressão da experiência, mas uma lembrança dela, representada pela imagem
que a eterniza.
Esse desejo de eternizar o tempo parece responder a uma necessidade própria
da modernidade. Em sua quase insana busca pelo novo, sua ânsia pelo progresso e o
futuro a qualquer preço, a modernidade imprimiu ao cotidiano das cidades,
especialmente, um ritmo lancinante de mudanças que, nas palavras de Sevcenko,
“dissiparam as bases de uma cultura de referências estáveis e contínuas”.
7
Essa
experiência, que é também a da vertigem, não apenas empobreceu a experiência do
passado. Ela apagou, do presente mesmo, as possibilidades de constituição de uma
experiência duradoura. Assim, se num primeiro momento a modernidade parece ter
alargado o tempo, ela na verdade o fragmentou. Porque já não se vive o presente,
cujo sentido é disperso e fugidio. A fotografia cumpre, assim, a função de,
ilusoriamente, fixar no tempo aquele instante que não pode ser plenamente vivido – ou
só o pode frágil e transitoriamente. Estranho paradoxo: pela técnica, a modernidade
quer preencher uma ausência de sentido em cujo tecido encontram-se as suas
próprias digitais. Quer tornar sólido aquilo que desmancha no ar.
8

Significativo nesse sentido é o texto-legenda publicado também em “A Notícia”.
São duas fotos: a primeira, a demolição de um antigo edifício na rua 9 de Março,
centro da cidade, construído em 1874 “por um sapateiro de sobrenome Stein”, e agora
pertencente a Raul Schmidlin. Na segunda, um “clichê” do projeto dos edifícios
Thereza Schmidlin e Verena Stock, cujas obras iniciariam assim que os trabalhos de
demolição fossem concluídos. A nota explica que os dois condomínios contarão com
11 lojas no piso térreo, e 12 apartamentos nos andares superiores. Ligando-os, “uma
vistosa galeria (...) interligando duas grandes artérias comerciais” (as ruas 9 de março
e XV de Novembro). E encerra: “São lances do progresso que modificam a feição da
cidade. E o que é mais importante, para melhor, com o antigo dando lugar ao
moderno”.
9

A imagem de “A Notícia”, onde em uma mesma página convivem a destruição
e a criação, “o antigo dando lugar ao moderno”, sugere ainda uma segunda

interpretação. Ela nos remete à fragilidade das pretensões duradouras da
modernidade. Ao acelerar o ritmo do tempo, celebrar o fluxo ininterrupto das
mudanças e a emergência do sempre novo, ela não apenas apaga os rastros do
passado, mas faz ruína de si mesma, num processo autofágico em que é preciso
destruir-se para dar lugar ao devir. Contraditória e paradoxalmente, o mesmo
movimento que afasta, também aproxima o antigo do novo por um traço que lhes é
comum. Nele, o que se revela é sempre o passado ou o futuro, “ruínas e obras se
confundem”. Não há lugar, em ambos, para o presente, cuja caducidade é uma das
características da modernidade – e também sua condição de permanência.
10

Transpostas para o cotidiano, essas “ruínas urbanas” se revelam não apenas
em sua materialidade: elas perpassam os hábitos e os costumes dos joinvilenses.
Alguns discursos publicados na imprensa, principalmente a partir da segunda metade
da década de 1960, parecem expressar a constatação, por parte dos “formadores de
opinião”, de que o preço a pagar pela modernidade pode ser mais alto do que eles
mesmos supunham. E de que, no limite, a ausência de um centro estável de
referências transformou em ruínas não apenas prédios e casas antigas, mas também
a sensação de segurança e estabilidade.
Nas páginas de “A Notícia”, cronistas e articulistas se debruçaram
especialmente sobre os problemas decorrentes do aumento no número de veículos na
cidade. De ícone da modernidade, o carro transformou-se rapidamente em uma
ameaça de proporções assustadoras, especialmente entre os jovens. Verdadeira
obsessão, o trânsito mereceu colunas e mais colunas, crônicas e editoriais, todos
denunciando o descalabro e a irresponsabilidade com que o tema era tratado. E os
números parecem justificar, em parte, as razões para tanta preocupação: no início dos
anos 50, a cidade possuía cerca de 400 automóveis e apenas 15 ônibus.
11
Na metade
da década seguinte, a frota é de 2.600 unidades
12
.
A freqüência com que o assunto é debatido nas páginas do jornal merece uma
reflexão, ainda que rápida. Num certo sentido, ele é a materialização daquelas
características de que falávamos há pouco: velocidade, fluxo constante, vertigem. A
aceleração do tempo, cuja representação moderna é a velocidade com que as coisas
e as pessoas transitam, é também uma forma de interagir com um espaço em
permanente mudança. Ela responde àquilo que Virilio definiu como “crise de
dimensão” – sem as referências de um espaço substancial e homogêneo, investe-se
na exploração dos espaços e formas fracionados e atomizados. É a “arquitetura do
improvável”: como criar um mundo de imagens estáveis, se os antigos referenciais e
padrões físicos e arquiteturais foram deformados ou destruídos? Como se fixar em um
lugar se a velocidade aboliu as noções de dimensão física, de tempo e de espaço?
13
A

“corrida para o abismo, corrida para a própria morte”, expressão utilizada para
encerrar um dos mais enfáticos editoriais dedicados ao assunto é, nesse sentido, uma
metáfora condizente com uma das representações da modernidade: o de que o sonho
de sua realização produz seus próprios monstros.

1
LOBATO, Heráclito. Página antiga para o dia de hoje. A Notícia, 9 de março de 1957, Ano 35, n.
7.085, p. 8.
2
Primeiro mata virgem; depois, colônia; e por fim, cidade grande e próspera. J ornal de J oinville, 9 de
março de 1951, Ano 33, n. 55, capa e pág. 2.
3
COMENTÁRIO DO DIA. Joinville com outra aparência. A Notícia, 10 de janeiro de 1960, Ano 37, n.
7924, pág. 8.
4
BENJ AMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo (Obras escolhidas, V. III).
Trad. de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1989, especialmente pp. 9-180. Ver também:
BOLLE, Willi. Fisiognomia da metrópole moderna: representação da história em Walter Benjamin. São
Paulo: Edusp, 2000, especialmente pp. 23-45 e 271-312.
5
BENJ AMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In.: Magia e técnica, arte
e política (Obras escolhidas, V. I); Trad. de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1993. pp. 165-
196.
6
BENJ AMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In.: Magia e técnica, arte
e política (Obras escolhidas, V. I)..., p. 170.
7
SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole - São Paulo sociedade e cultura nos frementes anos
20. São Paulo: Companhia das Letras, p. 32.
8
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar - A aventura da modernidade. Trad. de Carlos
Felipe Moisés e Ana Maria Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras, 1987., pp. 85-125. Sobre o
empobrecimento da experiência na modernidade ver: BENJ AMIN, Walter. Experiência e pobreza. In.:
Magia e técnica, arte e política (Obras escolhidas, V. I)..., pp. 114-119.
9
O progresso modifica a feição da cidade. A Notícia, 28 de setembro de 1967, Ano Ano XLV, n. 10214,
p. 8.
10
PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens urbanas. São Paulo: Editora SENAC/Marca D’Água, 1996, p.
232. A esse respeito ver ainda: GAGNEBIN, J eanne Marie. Baudelaire, Benjamin e o moderno. In.: Sete
aulas sobre linguagem, memória e história. Rio de J aneiro: Imago, 1997, pp. 139-154.
11
TERNES, Apolinário. A construção da cidade. São Bernardo do Campo: Bartira, p. 161.
12
PLANO BÁSICO DE URBANISMO DE J OINVILLE. Prefeitura Municipal de J oinville/Sociedade
Serete de Estudos e Projetos. Novembro/1965 (vol. II).
13
VIRILIO, Paul. O espaço crítico. Trad. de Paulo Roberto Pires. Rio de J aneiro: Editora 34, 1993, pp. 7-
19.

De que são feitos os delinqüentes?
Diagnósticos da cidade na imprensa curitibana

Clóvis Gruner
Mestre em História (UFPR)
Professor de História Contemporânea (UTP)



Comecemos por destacar os objetivos a longo prazo desta pesquisa: nossa
intenção é buscar compreender alguns dos discursos que nortearam, na imprensa
local, o debate acerca do melhor modelo penitenciário a ser implantado na cidade, nos
anos imediatamente anteriores a instalação da Penitenciária de Curitiba, em janeiro de
1909, no bairro Ahu. Esse objetivo, no entanto, desdobra-se e aponta outras direções
possíveis de investigação.
Primeiro, trata-se de perceber a presença de uma discussão que extrapola, de
longe, os limites da cidade. Pelo menos desde os anos 70 do oitocento, especialistas
discutiam a necessidade de mudanças nos regimes de encarceramento de criminosos.
Em parte, desse debate resulta a elaboração do primeiro Código Penal republicano,
decretado em outubro de 1890 - menos de um ano depois, portanto, da instituição do
novo regime, e antes mesmo de promulgada a Constituição
1
. O novo Código, embora
incorpore algumas das críticas ao antigo Código do Império, torna-se ele mesmo alvo
de censuras.
De maneira geral, aponta-se nele um certo “descompasso” em relação as
novas tendências do pensamento jurídico e criminológico que foram se formando e
disseminando no final do século XIX. Grosso modo, tratava-se da oposição entre o
“direito clássico”, base do antigo Código imperial, e o “direito positivo”, então em voga
na Europa e estimulado, principalmente, pelas pesquisas desenvolvidas por Lombroso
e seus discípulos, fundadores da antropologia criminal
2
. Em linhas gerais, esta
defendia o estatuto científico das pesquisas acerca da criminalidade, contra as
concepções “idealistas” e “abstratas” do direito clássico.
A cientifização e medicalização do crime implicam uma mudança de
perspectiva também para com o criminoso. No direito clássico, o crime era um
rompimento do “contrato social”, e o criminoso, um indivíduo que, dotado de seu “livre
arbítrio”, portanto, de sua capacidade racional de escolha, decide voluntariamente
romper com a sociedade e com as normas que regulam seu funcionamento. A prisão
exercia duas funções primordiais e complementares: isolar do convívio social e, ao

mesmo tempo, punir o indivíduo, privando-o daquilo que o homem possui de mais
caro: sua liberdade.
O discurso é outro no direito positivo. Se é possível, de acordo com Lombroso,
identificar a tendência ao crime por características físicas e psíquicas inatas ao
indivíduo, o Estado e as instituições responsáveis pelo encarceramento mudam
também sua perspectiva. Em tese, o caráter meramente punitivo das prisões é
insuficiente para dar conta do que deveria ser seu objetivo: preparar o indivíduo para
sua reintegração à sociedade. No limite, o isolamento e a ociosidade das prisões
contribuem para degenerar ainda mais aquele que já é, por sua própria natureza, um
degenerado. Não se trata, no entanto, de modificar a “natureza” do criminoso, mas de
educá-lo de acordo com os valores considerados moralmente sadios. Às instituições
penais caberiam, então, um papel pedagógico. Uma pedagogia toda ela construída
sob o signo da ordem e da disciplina e que tem, no trabalho, seu principal instrumento
de regeneração.
Uma curiosa dialética se instaura aí: trata-se de, num primeiro momento,
excluir - da sociedade e de seu convívio -, para incluir - pelas práticas de regeneração.
Num segundo, inclui-se - o indivíduo regenerado retorna ao seio da sociedade -,
excluindo-se - negando a diferença e procurando homogeneizar padrões de
comportamento e normas morais e de conduta. Em todo caso, a intenção é assegurar
a ordem pública pela instauração do que Foucault denominou “sociedade disciplinar”.
É esse o ambiente de onde emergem as reivindicações para a construção da
Penitenciária de Curitiba. Ou seja, o início de seu funcionamento, tanto quanto o
modelo adotado, o de Auburn
3
, não é um mero reflexo das mudanças advindas com o
Código Penal republicano, decretado dezenove anos antes. Ela se inscreve em um
momento de transformação do cenário urbano da capital, que desde o final do século
XIX vive uma fase de transformações que trazem, em seu bojo, uma idéia de cidade
moderna e civilizada.
4
Uma utopia urbana que, sabemos, não é original. As reformas
de Haussman em Paris e, ainda mais próximas no tempo, as de Pereira Passos na
capital federal, tocam fundo naquela Curitiba que aspira ser a “altiva cortesã (...) a
seductora princesa do Sul”, imagem fixada por um cronista da primeira década do
século XX e recolhida pela historiadora Elizabete Berberi
5
. Trocando em miúdos: por
mais paradoxal que possa parecer à primeira vista, a inauguração da primeira
penitenciária do Paraná é não apenas uma contingência, mas uma das expressões
desse projeto modernizador. O que estava em jogo, em linhas gerais, era a
delimitação de territórios que pudessem ser controlados pelo poder e suas múltiplas
engrenagens.

A concretização dessas intenções implicava a necessidade de controlar e vigiar
as “classes perigosas”, em especial os delinqüentes e criminosos. Se a idéia de uma
cidade moderna fundava-se, basicamente, na ordem, na disciplina e no trabalho,
transformados em norma, tratava-se de identificar, no interior da urbs, os grupos e
sociabilidades que, desajustados à norma, colocavam-se à margem da “cidade”. A
imprensa cumpre, então, um papel fundamental: ela “passeia” pela cidade e, nas
páginas dos jornais, seus repórteres e cronistas descortinam personagens e lugares
considerados deteriorados e perigosos.
Mas o objetivo não era tão e somente noticiar. Se entendermos que, num
primeiro momento, o policiamento do cotidiano não deve tanto reprimir, mas polir, a
imprensa desempenha, num certo sentido, um papel complementar ao da polícia: o de
tentar assegurar, pela produção de um discurso moral, que no espaço público os
comportamentos e normas de conduta não serão um agravo ao decoro público.
6
Além
disso, ela deve apresentar-se como um discurso preventivo, apontando aqueles
comportamentos que, perniciosos, poderiam levar a condutas criminosas.
Daí a presença, nas páginas da imprensa, daqueles personagens e situações
que exprimem esse risco de degeneração do social: os jogos, a prostituição e o
lenocínio, a vadiagem e a mendicidade, são alvos permanentes dessa “vigilância” da
imprensa. E como, no mais das vezes, o discurso dos jornais é coerente com aqueles
dos grupos e classes dominantes, eles reproduzem os padrões e normas de conduta
considerados “normais”. É o caso, entre outros, da crônica “Na esquina”, publicada em
maio de 1907 no “Olho da rua”, onde o cronista acompanha o andar trôpego de “um
retardatario da taverna que se recolhe mergulhado na inconsciencia bestial da
embriaguez”. Ouçamo-lo:

Talvez, pensei, elle nem tenha culpa desse destino horrivel; quem sabe lá,
exemplar de degenerescincia, ainda elle a carregar o pesadissimo fardo de
uma tara cruel. (...)”
7

O tom é muito parecido naquelas crônicas e editoriais que se reportam, por
exemplo, à mendicidade e ao jogo, esse último considerado por outro cronista um
“cancro que corrompe os bons costumes, depois de arruinar a fortuna.”
8
Mas é hora de
tentarmos analisar, ainda que rapidamente, essas notícias e crônicas que eram parte
da rotina dos leitores curitibanos.
Trata-se de construir uma gramática capaz de descrever aqueles cenários e
personagens urbanos considerados “degenerados”. É preciso, pela escrita, fazer com
que eles cheguem o mais próximo possível do leitor. Na linguagem jornalística, a
delinqüência urbana torna-se uma espécie de ficção - e lembremos que, na raiz latina

de ficção está fingere e fictum: fingir e inventar, mas também imaginar, formar e
modelar
9
. Na prática do texto, trata-se de atribuir a essas histórias características que
mantém com o “real” uma relação apenas analógica: muda-se a escala, aumenta-se
ou diminui-se proporções, faz-se aparecer, na trama, situações, lugares, nomes,
gestos e diálogos que imprimem aos acontecimentos uma unidade e uma coesão
existentes tão somente no universo textual.
10
Trocando em miúdos: no movimento que
os transforma de “coisas” em “palavras”, os “pequenos acontecimentos cotidianos” se
apresentam aos leitores revestidos de um sentido, de uma ordem, que são atributos
do discurso. Em si mesmas, as pequenas ou grandes tragédias cotidianas que
inspiram as crônicas e reportagens não têm nenhum sentido e nenhuma ordem. E,
principalmente, não acontecem para que se tire delas alguma “lição moral”.
A intenção é, pelas palavras, atribuir uma coesão e uma unidade aquelas
histórias que, pela forma com que são narradas, estão fora de qualquer sentido.
Paradoxalmente, é pela mesma narrativa que essas histórias inscrevem-se no
cotidiano dos leitores, tornam-se próximas e “reais”. Mas uma “realidade” que precisa
ser negada, porque sua existência é uma ameaça à ordem. Localizados para além das
fronteiras da norma e da normalidade, a delinqüência, e principalmente seus
protagonistas, são estigmatizados não por aquilo que são, mas pelo que não são. Os
nomes com os quais o “outro” é identificado nascem no interior de uma geografia
simbólica que delimita, a partir do centro, suas próprias margens. Porque é na fronteira
que se estabelecem as diferenças. O “outro” é sempre o estranho: os que se julgam
iguais não podem ver a si mesmos como diferentes.
Para entendermos melhor o papel político desempenhado pela imprensa, é
preciso deslocar um pouco nosso olhar e lermos também os editoriais, denominados
durante muito tempo de “artigos de fundo”. Lê-los implica pensar seus conteúdos e os
das crônicas e reportagens como discursos complementares que, embora se
apresentem cada qual com seu vocabulário, diferentes entre si, expressam
significados que são simétricos. Nos editoriais não há concessões a arranjos de
linguagem, como nas crônicas policiais, por exemplo. Se essas são, por efeito de
representação, o teatro das mazelas e misérias cotidianas, aqueles são seus
comentadores. Trocando em miúdos: se as matérias tornam presentes o crime e a
delinqüência, trazendo-os para dentro dos lares, ameaçando tudo e todos; os editoriais
extraem dos campos da violência a matéria-prima necessária para reafirmar, pelo
discurso, a necessidade da segurança e da ordem.
A estratégia é integrar a violência, em suas diferentes manifestações, a um
mecanismo moral e social fundado em uma norma da qual ela é, aparentemente, a
negação. Torná-la útil e produtiva, uma “auxiliar da ordem”, no dizer de Maffesoli.
11
É

preciso, enfim, disciplinar os corpos e seu trânsito pela cidade, ainda que para isso
seja necessário reforçar os dispositivos policiais repressivos ao ponto de torná-los uma
ameaça contínua, pela sua quase onipresença, ao cotidiano da urbs. Uma ameaça, no
entanto, necessária. E que se explica e sustenta na urgência do combate à
delinqüência e a criminalidade. É preciso pagar o preço pela manutenção da paz
social. Uma contradição, sem dúvida. E que revela uma segunda, de certa forma
inerente aquelas utopias, e às modernas utopias urbanas em especial, que aspiram a
segurança e a estabilidade: o medo do caos permeia todo desejo de ordem.


1
SALLA, Fernando. As prisões em São Paulo (1822-1940). São Paulo: Annablume/FAPESP, 1999, pp.
143-91.
2
DARMON, Pierre. Médicos e assassinos na Belle Époque. Rio de J aneiro: Paz e Terra, 1991, pp. 35-51.
3
DE BONI, Maria Ignês Mancini. O espetáculo visto do alto: vigilância e punição em Curitiba (1890-
1920). Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998, p. 74-5.
4
SÊGA, Rafael Augustus. A capital Belle Époque: a reestruturação do quadro urbano de Curitiba
durante a gestão do prefeito Cândido de Abreu (1913-1916). Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2001, p. 1-13.
5
BERBERI, Elizabete. Impressões - a modernidade através das crônicas no início do século em
Curitiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998, p. 5-42. Trata-se da crônica “Coritiba”, assinada por
Higino, no jornal “O Paraná”, cf.: Monumenta - Crônicas de revistas do início do século em Curitiba -
1907-1914. Curitiba: Aos Quatro Ventos, outono 1998.
6
STORCH, Robert D. O policiamento do cotidiano na cidade vitoriana. In.: Revista Brasileira de
História: Cultura & cidades. São Paulo: Anpuh/Marco Zero, vol. 5, nr. 8/9, setembro 1984/abril 1985, p.
7-34. Ver também: PECHMAN, Robert. Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o urbanista. Rio de
J aneiro: Casa da Palavra, 2002, p. 67-117.
7
Na esquina. O Olho da Rua, 11 de maio de 1907. Ano I, n. 3, p. 43. In.: Monumenta - Crônicas de
revistas do início do século em Curitiba - 1907-1914. Curitiba: Aos Quatro Ventos, outono 1998.
8
O jogo. O Paraná, 22 de outubro de 1910. Ano V, n. 40, p. 1. In.: Monumenta - Crônicas de revistas do
início do século em Curitiba - 1907-1914. Curitiba: Aos Quatro Ventos, outono 1998.
9
DAVIS, Natalie Zemon. Histórias de perdão e seus narradores na França do Século XVI. São Paulo:
Companhia das Letras, p. 17.
10
FOUCAULT, Michel. Os assassinatos que se conta. In.: Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe,
minha irmã e meu irmão. Rio de J aneiro: Graal, 1991.
11
MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da violência. Rio de J aneiro: Vértice, 1987, pp. 29-37.
IMAGENS DO DESFAVELAMENTO: DISCURSOS E OLHARES DA IMPRENSA MARINGAENSE

Crishna Mirella de Andrade Correa
Silvia Helena Zanirato
1



O estudo acerca da pobreza em Maringá nos remete a pensar elementos que
estiveram presentes ainda na colonização da cidade.
O projeto colonizador e urbanístico, a forma como se esquadrinhou o espaço
geográfico, e as estratégias de povoamento da região na qual Maringá está inserida
revelam o comprometimento dos colonizadores com os ideais de ordem, progresso e
valorização do trabalho. Sendo assim, a Companhia Melhoramentos do Norte do
Paraná, observando a possibilidade de utilizar-se do espaço e recursos naturais da
região para estabelecer aqui um núcleo urbano promissor, elaborou o projeto
colonizador, inclusive encomendando ao engenheiro paulista J orge de Macedo Vieira
o plano urbanístico definitivo da cidade. Paulo Fernando de Souza Campos
2
ressalta
que o engenheiro traçou o plano urbanístico da cidade sem nunca tê-la conhecido.
Para tanto, utilizou-se dos dados fornecidos pela Companhia acerca do território e das
orientações que indicavam para um princípio de zoneamento rígido dos usos e níveis
de habitação e construção. Assim, preocupou-se em planejar cada coisa no seu
devido lugar, separando os espaços de acordo com o uso do solo, ou seja, o bairro
residencial, o residencial popular, o industrial, o comercial, todos teriam sua
localização pré-definida no planejamento da cidade.
Segundo Campos, a orientação dada para a construção da cidade e seu plano
urbanístico encontrou inspiração em Le Corbusier, o qual privilegiava o conceito de
arquitetura disseminado pelo modelo progressista de urbanização.
A influência desse modelo se deu no sentido de que os espaços deveriam ser
ordenados de acordo com as necessidades básicas: habitar, trabalhar, andar e etc,
dando corpo a uma sociedade modelo. O autor explica ainda que a “visão da cidade
progressista” de Le Corbusier estabelecia a idéia de “homem-tipo”, que pauta suas
ações na racionalidade, que expressa a crença no progresso e na modernidade,
conjugados à noção de higiene e produtividade.
Assim, em Maringá, o objetivo principal dos colonizadores constituía-se em
fazer crescer a cidade mediante o esforço e o trabalho dos pioneiros, que atraídos
pelas propagandas e promessas de progresso promovidas pela Companhia
Melhoramentos, chegavam todos os dias à cidade.
No entanto, já nos primeiros anos de existência, acompanhando a dinâmica
social do sistema capitalista, a cidade passou a apresentar dicotomias e paradoxos
não previstos em seu planejamento inicial. Homens despossuídos, advindos do
campo, onde não havia mais trabalho, e outros imigrantes, que acabaram não se
adaptando ao ritmo e regras imprimidos pela Companhia para os que aqui vieram,
passaram a ocupar os espaços públicos da cidade, trazendo à tona as incongruências
do projeto colonizador.
Dentro desse contexto, a Prefeitura Municipal passou a elaborar políticas de
erradicação da pobreza voltadas à população marginalizada visando restabelecer a
“ordem” assim como foi pensada no projeto inicial da cidade.
A Favela Cemitério, cujo processo de desfavelamento, ocorrido oficialmente
entre os anos de 1974 a 1976, constitui-se em nosso objeto de estudo, foi alvo de
algumas políticas da Prefeitura; estabeleceu-se próximo ao Cemitério Municipal, na
zona 02, bairro residencial ocupado pela elite maringaense.
Pressionado pelos moradores do bairro que se sentiam incomodados com a
presença da favela naquele local e comprometido com o discurso paternalista-
assistencialista que se percebia no país àquela época, o Governo Municipal
empreendeu o desfavelamento da Favela Cemitério. Para tanto, contou com o auxílio
de vários setores da sociedade, dentre eles as autoridades policiais e os jornais locais.
Esses últimos desempenhando papel fundamental na formação da imagem que o
poder público queria consolidar acerca de sua atuação no combate à pobreza.

-o jornal como documento histórico
Por algum tempo, o jornal não foi considerado uma fonte histórica, sob a
alegação de que a informação produzida era essencialmente subjetiva, não atendendo
aos propósitos da cientificidade
3
.
Atualmente, parte dos historiadores vêm tentando demonstrar que a utilização
do jornal enquanto fonte é possível e necessária, levando em conta as implicações
ideológicas que o orientam e sua importância enquanto influenciador da formação de
opinião .
De fato, o jornal não narra os fatos de forma imparcial, portanto não pode ser
considerado uma fonte de veiculação da verdade, pelo contrário, o periódico manipula
os fatos de acordo com a ideologia que o orienta.
Visando passar sua ideologia para o leitor sem que ele perceba, o jornal prega
a objetividade daquilo que veicula.
Assim, a ideologia implícita no conteúdo do texto/imagem apresenta-se para o
leitor escondida pelo discurso da objetividade.
Essa orientação ideológica pode ser percebida, portanto, através da
decodificação do discurso apresentado no conjunto texto-imagem, partindo do
princípio de que esse discurso constitui uma leitura do mundo, que interpretam os
acontecimentos até que estejam suficientemente elaborados para serem passados ao
leitor.
Assim, os acontecimentos diários, cronologicamente fixados pela imprensa,
produzem sentidos do processo de organização política e cultural de determinada
sociedade. Ao serem interpretados e fixados pelo periódico, alguns acontecimentos
tornam-se “fatos”, ganham espaço e tornam-se públicos.
A partir daí, podemos dizer que, embora o jornal represente, através da notícia
o modo de organização de determinada sociedade, ele não está mostrando todo o
contexto da organização, mas apenas um pedaço dele, promovendo, assim, uma
seleção dos acontecimentos que ele acha que são interessantes de se tornarem
“fatos”.
Então, torna-se necessário, primeiramente, que se observe quais são os
acontecimentos veiculados pelo jornal, para identificar a produção de sentidos no
discurso.
No que se refere à leitura do discurso jornalístico, Bethania Sampaio Corrêa
Mariani
4
expõe que o entendimento do processo de construção dos sentidos não se
esgota na análise gramatical do discurso, pois não é a mera manipulação de frases e
palavras que escondem os sentidos nas entrelinhas do texto. Somente uma leitura
capaz de entrar na “teia de produção dos sentidos” pode trazer à tona as tendências
dominantes ali engendradas
5
.
Essa leitura crítica constitui-se em mais uma interpretação, dentre outras,
acerca do que está veiculado, não é a única, nem a detentora da verdade absoluta.
Isso porque uma leitura crítica não considera a linguagem como um código
transparente, manipulado a favor de alguns. Como expõe Mariani:

“Se as notícias publicadas trazem na sua constituição textual traços
históricos sociais, e isso faz parte dos processos de significação, é porque
linguagem e história se constituem mutuamente e os sentidos precisam ser
pensados na sua historicidade. Os sentidos não estão presos ao texto nem
emanam do sujeito que lê, ao contrário, eles resultam de um processo de
inter-ação texto/leitor”
6

O leitor, que através da inter-ação torna-se sujeito, tem seus próprios
processos sociais e históricos, que muitas vezes não são visíveis para ele, mas que
são decisivos para a leitura que fará da notícia. Da mesma forma, o leitor poderá
relacionar a notícia a si mesmo, e ao momento histórico em que vive, ou seja, o texto e
o leitor se integram à medida que a historicidade de cada um vai aparecendo no
processo de leitura
7
.
A notícia, no entanto, tem a intenção de esconder a historicidade que compõe a
construção do discurso, fazendo alusão à transparência dos sentidos, apresentando-
os como naturais e óbvios. Esse processo é ideológico e se revela, não na ocultação,
mas na interpretação dos sentidos em uma dada direção, previamente pensada pelo
jornal. O trabalho de análise do discurso consiste justamente em desnaturalizar esses
sentidos institucionalizados.
O discurso está presente no texto jornalístico porque este apresenta uma
relação língua-história, ou como se expressa Mariani, no processo discursivo “a
historicidade tem uma realidade material na língua”. Segundo a autora, os processos
de formação da opinião pública e de construção da memória social realizam-se
principalmente através dos dispositivos discursivos que são a contradição, a repetição,
a indeterminação, entre outros.
A língua e a história promovem então um duplo movimento de construção dos
sentidos, que vai das palavras para o momento histórico e deste para as palavras.
Assim, a discordância, a concordância e a repetição constituem-se em mecanismos
linguísticos na luta pela materialidade dos sentidos. Como resultado do movimento
histórico-linguístico teremos a exclusão de alguns sentidos, inclusão de outros e
cristalização daqueles que virão a constituir a memória oficial dos acontecimentos
8
.
Ora, o discurso jornalístico, assim como os demais discursos, são produzidos
em um contexto histórico de alianças, confrontos, adesões que orientam sua
interpretação, lembrando que esses elementos não são visíveis, pois o jornal trabalha
com a idéia de que a veiculação da notícia é imparcial e objetiva. O discurso
jornalístico quer tornar os sentidos hegemônicos em direção aos interesses das
instâncias que dominam.
Nesse caso, alguns estudiosos comumente tomam o discurso jornalístico como
um documento que retrata determinado período, muitas vezes utilizando-o como
ilustração de suas leituras. A realização da leitura crítica do periódico é essencial para
que se perceba que o discurso jornalístico já constitui em si uma interpretação.
A esse respeito, Silvia Helena Zanirato expõe que o jornal é mais um “agente a
olhar e registrar o cotidiano social a partir de valores definidos”
9
, num contexto em que
os fatos não constituem-se em verdades absolutas, mas em construções humanas.
Zanirato entende que a notícia veicula uma visão de mundo produzida (e
vigiada) pelos jornalísticas e proprietários do jornal, portanto torna-se necessário
entender como ela foi produzida e em quais condições, assim como o contexto
histórico em que aconteceu.
O exercício de pensar sobre o fato acontecido é direcionado pelo jornal, na
medida em que um único aspecto do acontecimento é apresentado ao público. O fato
já vem “pronto” para o leitor, com uma interpretação previamente elabora e carregada
das idéias que a Instituição/J ornal quer perpetuar.

-A imagem jornalística
A fotografia, como documento histórico, requer a utilização de metodologias
específicas de análise. Isso porque, a imagem, assim como o texto escrito, traz
implícitos signos e sentidos próprios da espécie de documento em que se constitui.
Com a ampliação do campo documental, a historiografia passou a incluir a
fotografia em suas análises, sentindo assim a necessidade de desenvolver
metodologias apropriadas para o trabalho com essa fonte.
Assim, sobre a metodologia de análise da fotografia ressalta-se que o estudo
da imagem fotográfica se dá em dois momentos distintos. Num primeiro momento, faz-
se a análise dos elementos que são visíveis na fotografia, ou seja, das informações
visuais, que podem ser percebidas apenas com o ato de olhar a imagem. Após, é
necessário avançar na análise do conteúdo da imagem. Essa etapa somente poderá
ser desenvolvida através da busca de informações acerca do momento histórico
retratado, mediante uma reflexão que vai além da fotografia, abrangendo elementos
que não encontram-se visíveis na imagem
10
. Essa fase esbarra muitas vezes na
credibilidade de antemão aferida à fotografia por aqueles que vêem na imagem
fotográfica uma objetividade inabalável e que fazem dela uma prova incontestável dos
acontecimentos. O que decorre daí é que o pensamento de que tudo o que a fotografia
registrou é verdadeiro.
No entanto, Arlindo Machado em estudo acerca da análise fotográfica, nos
mostra a variedade de elementos que interferem na produção da fotografia e que
concorrem para a desmistificação do “fetiche” da objetividade, fragilizando a afirmação
de que a fotografia é o retrato do real. Dentre esses elementos encontramos o arbítrio
do fotógrafo na escolha do campo visual, do enquadramento, do ângulo, do ajuste da
imagem à ideologia que a orienta, entre outros aspectos relacionados à época, ao
meio social e à cultura.
Na verdade, a orientação positivista para o estudo da fotografia simplesmente
aceita o dogma da fidelidade ao real e contenta-se com a análise do que está explícito
na imagem, desconsiderando os elementos ideológicos nela contidos que fazem com
que ela seja, não mais uma cópia do real, mas uma criação humana, que se inicia
desde a sua concepção pelo fotógrafo, até a sua observação pelo espectador.
A fotografia de jornal está inserida no contexto da produção de sentido que
permeia a notícia. Isso porque, a imagem jornalística não aparece por acaso na
notícia. Silvia Helena Zanirato, ao analisar as imagens da pobreza na imprensa
paulista expõe que a utilização da imagem na notícia jornalística é estratégica, assim
como sua diagramação, tamanho e tonalidade das cores são previamente pensadas
de acordo com o impacto que se quer causar através do conjunto texto-imagem. A
autora mostra que a fim de tornar-se um instrumento de persuasão, a fotografia
jornalística passa por um conjunto de operações que se constituem na manipulação
dos fatores que a compõem. Essa manipulação dá-se no sentido de tornar a fotografia
um elemento que ateste a veracidade do texto escrito, na intenção de tornar o
conjunto texto-imagem um discurso incontestável.
Utilizando-se dos fetiches da imparcialidade do discurso jornalístico e da
objetividade da fotografia, os jornais maringaenses estiveram inseridos no processo de
desfavelamento em questão, no sentido de legitimar o discurso oficial promovido pelo
Governo Municipal. As imagens que integram o discurso jornalístico analisado
demonstram a vigilância frequente que a imprensa, comprometida ideologicamente
com a classe dominante, promovia em torno do crescimento da favela.
Ao mesmo tempo que comentavam as precárias condições de vida dos
favelados, os jornais demonstravam as ações efetivadas pelo poder público visando
remediar a situação da favela que, segundo as inferências percebidas nas
reportagens, além de desfigurar o Planejamento Urbano da cidade, causava
constrangimentos a toda população maringaense.
Nesse sentido, as reportagens procuram enfatizar as boas intenções das
autoridades em relação à “gente sofrida” da favela, carente de uma política pública
que lhes garantisse melhores condições de vida, tirando de cena as verdadeiras
causas que motivaram o desfavelamento. No contexto, as fotografias aparecem como
um instrumento de comoção da comunidade, enfatizando as imagens das crianças em
meio às precárias condições de higiene do lugar. Esse entendimento se extrai da
reportagem veiculada pelo “Diário do Norte do Paraná” em 20 de dezembro de 1975,
na primeira página, onde o ângulo escolhido pelo fotógrafo permite uma visão total da
criança, permitindo ao leitor avaliar sua condições de vestuário e higiene.

FOTOGRAFIA 01
O texto que acompanha a fotografia 01 faz referência às “crianças pedintes”
que povoam a favela, remetendo o leitor a concepções já engendradas pelo jornal
acerca da mendicância.
A presença do animal também é outro elemento explorado pelo periódico na
tentativa de reforçar as precárias condições de higiene em que viviam os favelados.
Em outra reportagem, de 30 de novembro de 1975, o mesmo jornal já havia
explorado o aspecto da precariedade das moradias, enfatizando que as mesmas eram
construídas de papelão e entulhos, materiais incapazes de proporcionar o mínimo de
segurança ao morador. Nesse sentido, a fotografia que acompanha o texto vem para
reforçar o discurso de que as famílias precisavam ser transferidas daquele local, para
um outro que proporcionasse moradias mais adequadas.

FOTOGRAFIA 02
Nota-se que enquadramento frontal da fotografia 02 permite que os leitores
tenham uma visão total da casa, deixando bastante exposta a imagem da habitação
precária de que os moradores dispunham.
Portanto, os jornais analisados procuraram legitimar a política de
desfavelamento empreendida pela prefeitura, que significa, em outras palavras
perpetuar as imagens descriminadoras e estereotipadas do espaço da favela e de
seus moradores veiculando fotografias e textos contendo discursos que visavam
direcionar o olhar do leitor para esses entendimentos.
O apelo para as imagens das crianças sujas, despenteadas e comendo em
condições impróprias de higiene, a repetição das imagens que representavam as
condições precárias de moradia dos ocupantes da favela e a afirmação frequente da
presença dos animais convivendo em meio a essas pessoas, fizeram parte da
estratégia dos jornais para criar no imaginário do leitor a memória oficial das condições
de vida da favela e das melhores atitudes a serem tomadas em relação à melhoria de
suas condições de vida.
Esse entendimento permite concluir que o jornal não apresenta-se enquanto
um veículo imparcial de informações. Tampouco as imagens veiculadas aos textos são
anexadas sem intenção alguma. Pelo contrário, as imagens fortalecem a mensagem
que o jornal quer incutir do imaginário do leitor, num exercício de direcionar o olhar do
leitor em direção à consolidação dos interesses que quer proteger.

1
Professora Orientadora do Departamento de História da UEM.
2
CAMPOS, Paulo Fernando de Souza. Os enfermos da razão: insanos e dementes na cidade planejada
para ser bela e sem problemas. Maringá 1960-1970. Assis, dissertação de mestrado, 1997.
3
ALVES, Paulo. Experiência de Investigação, pressupostos e estratégias do historiador no trabalho
com as fontes. In: DI CREDDO, Maria do Carmo S. (et al). Fontes históricas, abordagens e métodos.
Assis: UNESP, 1996, p. 35.
4
MARIANI, Bethania Sampaio Correa. Sobre um percurso da análise do discurso jornalístico-
Revolução de 30. In: Ensaios. Os múltiplos territórios da análise do discurso. INDURSKI, Freda (et al).
Porto Alegre: Sagral, 1999.
5
Idem, p. 105.
6
Idem, p. 106.
7
Idem, p. 106
8
Idem, p. 109.
9
ZANIRATO, ZANIRATO, Silvia Helena. Imagens da Pobreza na Imprensa Paulista. O Estado de São
Paulo (1933-1942). In: Diálogos ,nº3, UEM, 1999. p. 327.
10
KOSSOI, Boris. Fotografia e História. São Paulo: Ática, 1979.

AS DESCENDENTES DE EVA
*

Débora Giselli Bernardo
**
Peter Johann Mainka
***
***



O presente texto visa apresentar uma análise da imagem feminina no interior
das representações mentais (imaginário) da Europa cristã medieval. Iniciemos com o
conceito de representação utilizado aqui. Segundo Bronislau Baczco

“Cada sociedade produz um sistema de representações que legitima tanto
a ordem estabelecida quanto as atividades contra esta dirigidas. Entre
essas representações ocupam um lugar à parte os símbolos e as imagens
(...). Podem-se encontrar imagens (...) nos vários tipos de representação
que as nações, os grupos e as classes sociais, os partidários de uma
religião ou de uma crença dão tanto de si quanto dos outros.”(BACZCO,
1985, p.332).

Trabalhando com este conceito — e com interpretações interessantes da
psicanálise, como a que afirma que as produções imaginárias são respostas que os
atores sociais dão às suas tensões interiores (KAPPLER, 1994) — encontramos no
Malleus Maleficarum uma fonte para o estudo das representações medievais no que
respeita à figura feminina.
O Malleus é um tratado sobre a heresia da bruxaria, escrito por dois
dominicanos, J acob Sprenger (1436-1495) e Heinrich Kramer (1430-1505), após a
promulgação da bula Summis Desiderantis Affectibus, de 1484, pelo papa Inocêncio
VIII. Esse documento, publicado pela primeira vez em 1487, teve ampla difusão pela
Europa até o século XVII, e serviu como manual para os inquisidores. Por ser um texto
redigido por homens religiosos do século XV, o Malleus contém as idéias desse grupo
específico, mas como o período em questão é o medieval, extremamente influenciado
pelo poder e pelas idéias dos homens da Igreja, essa fonte se torna mais
representativa das concepções que se difundiam acerca da mulher. Vejamos que
concepções eram estas.
Há um princípio básico que norteia o pensamento de Kramer e Sprenger
acerca das mulheres: a descendência de Eva. Esse seria o fator responsável por toda
a fraqueza moral e carnal desses seres. Os inquisidores afirmam:

“Embora o diabo haja tentado a Eva com o pecado, foi Eva quem seduziu
Adão. E como o pecado de Eva não teria trazido a morte para nossa alma e
para o nosso corpo se não tivesse sido também cometido por Adão, que foi

tentado por Eva e não pelo demônio, é ela mais amarga que a
morte”.(KRAMER; SPRENGER, 2000, p. 120).

Eva é pior que o próprio demônio. Por isso, suas descendentes carregam essa culpa,
seus gestos e suas palavras refletem essa fraqueza. Deve-se tomar cuidado, pois a
mulheres é mentirosa por natureza e seduz para levar à perdição. Esse caráter
inconstante e perverso faz dela o ser mais apropriado para ser ludibriado pelas
artimanhas do demônio. Mas não é só. Kramer e Sprenger defendiam também a idéia
de que as mulheres possuíam, naturalmente, uma falha, por terem sido criadas a partir
de uma costela recurva de Adão.
1
Sendo, portanto, contrárias à retidão, animais
imperfeitos, os autores concluem que a mulher teria menos convicção em sua fé,
podendo mais facilmente renegá-la — fenômeno que estaria na raiz da bruxaria.
Assim, a concepção propagada é de que há um defeito original na mulher, que
acarreta consequências em sua moral e seu corpo. Por isso a indisciplina, a luxúria e
a malícia eram algumas das características mais atribuídas ao ser feminino. Acerca da
indisciplina, Kramer e Sprenger afirmam que ela é um vício natural deste sexo. A
luxúria é vista dessa mesma forma, e os inquisidores chegam a dizer que o termo
mulher indica a lascívia carnal.
Assim, sendo o sexo feminino pecaminoso por natureza, ele é, em especial, o
responsável pela culpa que envolve o ato sexual. Os autores parecem crer que se
houvesse um modo de garantir a procriação sem que a mulher participasse do coito,
este ato seria menos pecaminoso, pois ficaria livre da perversidade feminina. Porém, a
fraqueza das mulheres não se encontraria somente em seu corpo tentador, mas
também em seus pensamentos. Elas eram tidas como mais fracas intelectualmente,
tendo menor entendimento das coisas espirituais em relação à capacidade masculina.
Levando em consideração o caráter malévolo atribuído às mulheres, Kramer e
Sprenger concluem que elas são propícias a, através de um pacto concreto com o
diabo, tornarem-se suas servas, podendo assim perpetrar suas maldades contra os
inimigos. O diabo teria apenas o poder de sugestionar o mal; as mulheres, maliciosas
e tentadoras, seriam seus agentes perfeitos, pois segundo os autores o demônio teria
maior poder sobre aqueles que estão submersos na luxúria. Essa “natureza” feminina
justificaria o domínio masculino sobre as mulheres, ou ao menos o desejo de controlá-
las. Quanto à condenação proposta pelo Malleus para as bruxas, eles afirmam ainda
na primeira parte do tratado: “as bruxas não só devem ser evitadas, mas também
condenadas à morte” (KRAMER; SPRENGER, p. 52). Essa é a ordem determinada
pela lei divina, no entendimento dos autores.

Através dos comentários dos dominicanos, podemos também perceber os
comportamentos femininos ideais, propostos pela Igreja: castidade, devoção,
obediência, modéstia, para citar os principais. As mulheres que seguissem essas
atitudes propostas pela Igreja alcançariam a virtude. Todavia, poucas eram as
possibilidades que tinham de alcançá-la, pois o modelo ideal de mulher para a Igreja
era o da Virgem Maria — modelo este impossível de ser seguido pelas mulheres em
sua realidade cotidiana.
Os autores, como vimos, partiram do princípio de que o sexo feminino estava
mais contaminado pelo pecado da bruxaria do que o sexo masculino, e em seus
argumentos visando demonstrar tal situação, vimos ser delineada uma imagem da
mulher. Se estavam existindo mais bruxas que bruxos era porque o diabo se
aproximava com maior êxito dos seres mais fracos, e as mulheres são fracas no corpo
e na mente. Elas são herdeiras de Eva — a pecadora maior, aquela que é mais
amarga que a morte — e dela receberam a capacidade de tentar aos homens. São,
por “natureza”, mentirosas, crédulas, infiéis, inconstantes. Sua carne é sinônimo de
pecado — corrompe o ato da procriação.
Esse é, basicamente, o conjunto de idéias sobre o ser feminino que podemos
apreender do Malleus. Na Idade Média e início dos Tempos Modernos, tal
representação se difundiu e foi alimentada pela sociedade. Vejamos alguns aspectos
desse imaginário e de que modo ele se concretizava no cotidiano das mulheres.
Temos que desde a cristianização do Ocidente foram difundidas idéias
negativas sobre o ser feminino, e sabemos que muitos daqueles que promoveram tal
difusão estavam se embasando em tradições mais antigas, em pensadores como
Aristóteles — que teve muitas de suas obras interpretadas pelo Cristianismo. Mas não
buscamos datar as origens desse imaginário, mas apenas observar como ele evoluiu
até fins da Idade Média.
Apesar de na Alta Idade Média (século V ao X), a mulher ter maior liberdade de
ação, dirigindo bens materiais e podendo escolher o marido após a maioridade
(WEMPLE, 1990) vimos que os clérigos continuaram a pregar sua inferioridade e o
dever de obediência aos homens — crenças legitimadas pela medicina, a partir do
século XI, que colocava o ser feminino como imperfeito, mutilado, inferior. Essas foram
idéias que também justificaram a maior difamação e vigília em torno da mulher quando
a Igreja tomou o monopólio do casamento, no século XII. Às mulheres, perigosas e
indisciplinadas (e aqui pesa a herança de Eva), recomendou-se o trabalho e a oração
no interior das casas, onde deveriam ficar encerradas e vigiadas. Nessa sociedade
patriarcal, às mulheres não era permitido o amor, visto que dele faziam mau uso, nem

era permitida a palavra em público ou na Igreja, pois seus pensamentos eram
transgressores.
Com o aumento populacional e o desenvolvimento das cidades nesse período,
elas foram importantes no trabalho rural e nos ofícios artesanais, em especial, sendo
nesse aspecto valorizadas no interior das famílias não pertencentes à nobreza
(OPITZ, 1990). Mas, os homens não demoraram a interromper essa evolução, fazendo
com que as mulheres se limitassem cada vez mais ao setor doméstico. E para aquelas
que recusavam o casamento e o convento, ou seja, a custódia masculina, não
restavam muitas opções — a prostituição era uma delas. Essas mulheres que não
queriam ou não podiam se encaixar no sistema patriarcal daquela sociedade sofreram
inúmeros tipos de acusações, inclusive de bruxaria, quando esse fenômeno foi
construído na Europa.
O campo do imaginário não se separa do domínio das ações e
comportamentos dos agentes sociais, pelo contrário, eles se interpenetram e se
determinam mutuamente. Da mesma forma que o imaginário medieval em relação à
mulher — que a expunha como símbolo do pecado e da tentação — se refletia em sua
realidade cotidiana, limitada e repressora, essa realidade, quanto mais extensamente
experimentada pelas mulheres, mais legitimava a permanência de imagens negativas
a seu respeito. Isso nos revela o quanto a vida, quer do indivíduo quer da coletividade,
está tão ligada a imagens — iconográficas e mentais — como a realidades mais
palpáveis. Por este motivo, é vital para um grupo que se encontra em posição de
poder numa sociedade — como os homens, religiosos ou não, da Idade Média —
manter o domínio sobre o campo do imaginário. Uma das formas de dominá-lo, é
possuir o controle dos meios de difusão das imagens e discursos (BACZCO, 1985)..
Tendo esse poder, um grupo pode fazer prevalecer sua visão sobre outro,
enaltecendo-o ou difamando-o.
Na Idade Média, sem dúvida, quem detinha a possibilidade concreta de
exprimir seus sentimentos e idéias, eram os homens, em especial os da Igreja — a
eles era permitido ler, escrever, falar em público. Isso se evidencia no fato de que
sabemos muito mais sobre o que esses indivíduos pensavam acerca das mulheres, e
o que exigiam delas, do que sobre a realidade e as idéias femininas. Sabe-se que o
domínio da iconografia medieval, por exemplo, pertencia à Igreja e, através dessas
imagens, esta Instituição perpetuava sua visão sobre as mulheres. Uma outra forma
de discurso, além dos sermões orais de padres e de diretores espirituais, encerrou
esse imaginário desfavorável à mulher: o discurso veiculado pela escrita. Pode-se
destacar o Malleus Maleficarum — que teve ampla difusão pela Europa do século XV
ao XVII — como um claro exemplo disso. Assim como os tratados médicos sobre a

inferioridade constitucional da mulher, como os textos dos teólogos acerca da malícia
e periculosidade femininas, esse manual de identificação e caça às bruxas expõe toda
a misoginia medieval. Por fim, devemos considerar o contexto inovador em que o
Malleus surgiu, bem como suas particularidades em relação ao feminino. Para
entendê-los melhor, voltemos um pouco no tempo.
O processo de cristianização do Ocidente se deu pela pedagogia do medo —
desde o início, a luta mítica entre o Bem e o Mal foi transportada para a vida cotidiana,
ditando suas regras e explicando suas glórias e tragédias. Este sistema simbólico
articulou realidade e imaginação, e possibilitou à Igreja o papel de guia da
coletividade, ensinando-a, por exemplo, a reconhecer os agentes malignos
(NOGUEIRA, 1995).
Na Antiguidade greco-latina, a magia era parte de um mundo harmônico de
deuses, seres humanos e natureza; era considerada enquanto um tipo especial de
relação com o sobrenatural. Os romanos condenaram legalmente a magia de intenção
maligna, mas aceitaram a de intenção benigna como sendo necessária. A “feiticeira do
bem” estava relacionada, geralmente, à magia erótica, em especial na Grécia, sendo
sua principal função resolver paixões amorosas. Com a tática de superposição, usada
para catequizar, o Cristianismo possibilitou a permanência de antigos costumes, só
que relacionados com o seu sistema de crenças. Entre essas permanências, a das
práticas mágicas foi combatida apenas no sentido da desmoralização de seus efeitos
pela Igreja. Na prática da vida cotidiana o homem medieval necessitava da feiticeira
como amenizadora de seus problemas físicos e sociais. É a partir do século XIII,
aproximadamente, quando a Igreja alcança uma influência e poder cada vez maiores,
que antigas tradições como a magia são definidas, indiscriminadamente, enquanto
campos de ação maligna (NOGUEIRA, 1995). Neste momento, o papel que a Igreja se
atribuía de identificar o Inimigo foi decisivo rumo à construção da doutrina da bruxaria.
Conforme vemos em Carlos Roberto F. Nogueira, o surgimento desse fenômeno se
deu por três fatores principais: a elaboração clerical da demonologia, a diabolização da
mulher e o pânico resultante do poder atribuído à Satã pela Igreja (NOGUEIRA, 1995).
Iniciou-se, assim, uma modificação do discurso, que transformou as ilusões em
possibilidades concretas da presença do Mal no cotidiano dos homens. Essa foi uma
das grandes criações da Igreja, em fins da Idade Média, no tocante ao imaginário dos
homens da época. Nesse imaginário, o Cristianismo preenchia apenas uma parte das
representações e, detectar, divulgar e dar soluções para as práticas mágicas
transformadas em bruxaria, era uma forma de tentar uniformizar as consciências de
acordo com seus dogmas. Em seu esforço de reconhecimento do Inimigo e de sua

horda, a Igreja comandou a construção da idéia de grande poder do diabo, sendo que
seus maiores agentes foram reconhecidos nas mulheres.
2
Esse é o momento em que se dá a maior diabolização do feminino — a mulher
enquanto ser que se aliou ao Mal desde o Gênesis é uma idéia tradicional do
Cristianismo, que foi enriquecida pelos tratados de teólogos, eruditos e inquisidores
medievais, dos quais Kramer e Sprenger são exemplos. Foi a partir dos séculos XIV e
XV que a doutrina da bruxaria foi melhor definida: o diabo, em seu eterno intento de
levar a humanidade à perdição, recruta agentes para perpetrar o Mal; as mulheres,
sendo seres fracos no corpo e na alma, são mais propícias a esse papel. Através de
um ritual, onde se entregam totalmente ao diabo e o adoram, elas se tornam bruxas —
seres capazes de cometer os piores crimes.
Para a cristandade medieval, não apenas o sistema de representações,
baseado na doutrina dualista do combate entre Deus e o diabo, permitiu a crença em
bruxas, mas também devemos levar em consideração suas condições materiais de
vida, afinal a Idade Média foi permeada por várias crises de fome, inúmeras pestes,
além de guerras e dos conflitos cotidianos; tal situação de tensão fazia com que as
pessoas se aliviassem dirigindo as culpas para seres sobrenaturais, conseguindo,
dessa forma, uma superação de sua realidade.
Vimos, assim, que a misoginia medieval adquiriu, no contexto de produção do
Malleus Maleficarum, um caráter inovador, pois a figura feminina é dotada de certa
monstruosidade através da bruxaria. Neste ponto, consideramos válida a interpretação
que Claude Kappler faz da bruxa enquanto um monstro criado, em fins da Idade
Média, para encarnar os medos coletivos em relação à sexualidade, à morte e às
desgraças cotidianas. Projetar esses temores na figura da bruxa equivaleria a
exteriorizá-los e julgá-los, podendo, assim, livrar-se deles parcial ou totalmente
(KAPPLER, 1994).
E por que Kramer e Sprenger caçaram especialmente bruxas e não bruxos?
Sabemos que na Idade Média a sexualidade era essencialmente ligada à mulher; a
umidade do corpo feminino, tão discutida pela medicina da época, era tida como causa
de sua afinidade com a luxúria, e o sangue menstrual era considerado sujo e vicioso.
Essas crenças imprimiram à mulher — por seu corpo, mas também por seu caráter —
uma determinada monstruosidade, da qual os homens se consideravam livres.
Projetando na figura feminina os seus medos, a sociedade medieval se organizou de
acordo com as necessidades de seus membros — indivíduos mergulhados em um
universo religioso e patriarcal, do qual o Malleus é ao mesmo tempo causa e efeito.



KRAMER, Heinrich; SPRENGER, J acob. Malleus Maleficarum – O Martelo das Feiticeiras. Trad.
Paulo Fróes. Rio de J aneiro: Rosa dos Tempos, 2000.

BÍBLIA SAGRADA. Trad. Ivo Storniolo e Euclides Balancin. 2º ed. São Paulo: Ed.Paulinas, 1990.

BACZCO, Bronislau. Imaginação Social, In: Enciclopédia Einaudi, vol. V. p. 296 – 332.

KAPPLER, Claude. As funções do monstro na psique humana, In: Monstros, Demônios e
Encantamentos no fim da Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1994, p. 235 – 415.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Nascimento da Bruxaria. São Paulo: Editora Imaginário, 1995.

OPITZ, C. O Cotidiano da Mulher no final da Idade Média, in: DUBY, Georges; PERROT, Michelle
(org.) História das Mulheres: a Idade Média. Porto: Editora Afrontamento, 1990. pp. 353-429.

WEMPLE, S.F. As Mulheres do séculos V ao X, in: DUBY, Georges; PERROT, Michelle (org.) História
das Mulheres: a Idade Média. Porto: Editora Afrontamento, 1990. pp. 227-265.


*
O trabalho completo encontra-se em: BERNARDO, D.G. A Bruxaria e as Mulheres, in: MAINKA, P. J .
(org.). Mulheres, Bruxas, Criminosas: aspectos da bruxaria nos Tempos Modernos. Maringá:
EDUEM. (no prelo).
**
Graduanda em História pela Universidade Estadual de Maringá - UEM; bolsista PIBIC/CNPq.
***
Professor visitante do Departamento de Fundamentos da Educação – DFE – UEM; Doutor em História
pela Universidade de Würburg – Alemanha.

1
A passagem original nada fala de uma costela “torta” de Adão, o que nos leva a crer que essa foi uma
teoria criada a partir de uma interpretação específica de Gênesis 2, 21-22.
2
Muitas representações do diabo, em fins da Idade Média, possuíam seios, ou seja, o simbolismo do
feminino e o do Mal estavam interligados. Cf. KAPPLER, 1994, p. 375.
O VALOR DA INTERAÇÃO COM A POPULAÇÃO LOCAL NA PESQUISA
ARQUEOLÓGICA: O CASO DO MUNICÍPIO DE ALTÔNIA, PARANÁ.
*
T

Éder S. Novak
1
Andreas L. Doeswijk
2
Francisco S. Noelli
3



Numa série de orientações ou conselhos destinados à pesquisa de campo, o
arqueólogo Frederick W. Lange menciona, em primeiro lugar, a interação entre o
arqueólogo e a população local. “La participación comunitaria es clave en la lucha para
la protección del patrimonio cultural”.
4
Isso, longe de ser uma questão banal, resulta de
primeiríssima importância para o trabalho de campo do etno-historiador, antropólogo
ou do arqueólogo por dois motivos diferentes. Primeiro, a população das áreas onde
existe a possibilidade de encontrar sítios arqueológicos pode indicar os lugares onde
se encontram vestígios de sociedades passadas, seja na superfície ou em camadas
mais profundas do terreno. Em geral, os agricultores conhecem bem tudo aquilo que
se encontra na sua propriedade (e na dos vizinhos), se bem que nem sempre
conhecem o valor cultural dos objetos que ocorrem no seu habitat. Nesse sentido, o
contato com a população visa à localização e, eventualmente, a preservação dos sítios
arqueológicos. Isto pode significar economia de tempo, esforços e dinheiro
consideráveis no início de uma pesquisa regional que deverá, necessariamente, ser
seguida por outros levantamentos sistemáticos para cumprir as etapas necessárias ao
reconhecimento minucioso da área, pois nem sempre os moradores têm notícias de
todos os tipos de vestígios materiais que ocorrem onde eles vivem.
Há um segundo motivo pelo qual consideramos necessário e relevante o
contato com os habitantes de uma região: é o trabalho de conscientização e troca de
experiências que os arqueólogos podem realizar em parceria com a população local.
Os moradores e suas famílias, mediante a interação com os pesquisadores, podem
chegar à compreensão que os “cacos” ou, no melhor dos casos, os restos materiais
diversos, constituem na realidade um legado precioso das sociedades humanas.
Eventualmente, os moradores podem descender dos antigos ocupantes dos sítios
arqueológicos.
Para estabelecer esse contato com a população local é recomendável – como
foi o caso da pesquisa em Altônia – estabelecer contatos com as lideranças locais,
sejam elas políticas, comunitárias ou tradicionais. É dizer, com as autoridades
oriundas das próprias comunidades da região onde estão os sítios ou, em alguns
casos, no raio da sua influência. Nosso trabalho estabeleceu contato com nada menos
que 35 comunidades religiosas, 26 delas localizadas nas “águas” da zona rural,
totalizando cerca de 19.000 habitantes. Assim o pesquisador não chega à região como
um extraterrestre, mas como um profissional, previamente aceito por parte da
população, que se encarregará de divulgar sua presença no local.
O caráter das entrevistas deve ser definido como uma relação dialógica onde o
“encontro entre pesquisadores e entrevistados resulta um trabalho conjunto, em que
aquele que ouve e aquele que relata têm o mesmo valor”.
5
Enquanto o morador pode
indicar os prováveis sítios arqueológicos o pesquisador explica a sua natureza,
significado e valor. Nem sempre será necessário gravar as entrevistas, ainda que seja
recomendável levar sempre a caderneta de campo como na velha tradição
antropológica. Câmeras fotográficas, mapas e outros equipamentos podem ficar para
outros momentos, na medida em que os entrevistados tenham familiaridade com o
pesquisador.
Na entrevista o protagonista principal será o habitante do lugar. Trata-se de um
“monólogo assistido” onde o morador é o ator principal e o entrevistador apenas o
roteirista, diretor e fotógrafo. O pesquisador não deve amedrontar o morador com o
seu conhecimento, apresentando-se com uma atitude modesta e fornecer apenas as
explicações que resultam do interesse da população local. Quer dizer, deve respeitar
os códigos culturais dos entrevistados, sem assumir ares de superioridade ou fazer
“visitas de médico”. Uma questão de extrema importância – e que forma parte também
do trabalho de conscientização que falamos – é a do “retorno” à comunidade dos
serviços prestados em forma de exposições do material coletado, em publicações
didáticas, no estabelecimento de instituições de ensino, museus e centros
comunitários; seminários ou mini-cursos sobre, por exemplo, tradições ceramistas
indígenas, etc.
A nosso ver, o trabalho de envolvimento da comunidade local no processo de
pesquisa, corresponde àquilo que o sociólogo francês Michel Thiollent definiu uma vez
– e com rara felicidade - como “pesquisa-ação”:

É um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e
realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um
problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes
representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo
cooperativo ou participativo.
6

A ênfase nesse tipo de método está em palavras como associação, ação,
coletivo e cooperativo. A “ação” pode-se referir à localização dos sítios e o “problema”,
à busca de uma solução satisfatória para a preservação dos mesmos, junto com a
conscientização da população durante a pesquisa. Na pesquisa-ação as questões são
formuladas não só para obter informações positivas sobre, por exemplo, os locais dos
sítios arqueológicos, mas também, para induzir aos entrevistados à reflexão sobre o
significado e importância dos mesmos.
7
O trabalho realizado em Altônia, noroeste paranaense, entre 2001 e 2002,
procurou começar a envolver a comunidade no processo de pesquisa. Com efeito, o
método das entrevistas orais com os agricultores, as autoridades locais e as
comunidades religiosas de base localizadas nas capelas das águas, começou a criar
na população uma nova compreensão sobre a existência e o valor dos sítios
arqueológicos. Por sua parte, os residentes das águas de Altônia mostraram um certo
conhecimento sobre a presença de vestígios arqueológicos, pois a maioria das
indicações foi positiva, acrescentando 14 novos sítios arqueológicos e 8 indicações a
serem confirmadas, aos 4 sítios registrados e pesquisados anteriormente (tabela 1).
Para ilustrar o impacto da pesquisa-ação, serve o fato que a arqueologia
começou a fazer parte da vida social de parte dos moradores: a constatação da
presença de evidências de povos indígenas na região começou a ser alvo de
comentários e opiniões numa clara demonstração que uma abordagem desse tipo
estreita os vínculos entre a comunidade científica e a sociedade regional.
Foram testadas duas estratégias. Na primeira etapa, a abordagem visava o
trabalho em localidades específicas, escolhidas aleatoriamente no mapa municipal,
para fazer visitas e entrevistas. Esta estratégia revelou-se muito lenta em relação aos
recursos disponíveis e ao tempo para gastá-los, pois a zona rural do município é muito
extensa. Na segunda, mudou-se a abordagem e a metodologia, visando abranger a
maior área possível em curto prazo. Foram distribuídos 330 questionários à
população, divididos em cada uma das capelas municipais. O zoneamento fundiário do
município resultou em distintas intensidades de contato. Nas áreas rurais com
pequenas propriedades, que predominam no município, o contato foi maior, mais fácil
e espontâneo, já que na maioria dos casos os moradores residem e/ou trabalham no
local. Nas grandes propriedades, não conseguimos acesso, obtendo algumas
informações após investigar alguns locais junto aos rios Paraná e Piquiri.
A metodologia de distribuição dos questionários, visando uma amostragem
preliminar do município, foi ordenada a partir da organização das comunidades
eclesiais de base, que congregam a maioria dos altonienses. Contamos uma paróquia
e 35 comunidades de base (CEBs), sendo 26 rurais, 6 urbanas e 3 distritais. Cada
comunidade recebeu 10 questionários, em média, destinados a apenas um membro
de cada família. Dessa forma, considerando a média de 5 membros por família, mais
de 1500 pessoas tiveram acesso direto às questões e aos propósitos da pesquisa. É
bastante provável que a rápida difusão das novidades tenham triplicado este número,
chegando a 25% da população total, cerca de 4.750 pessoas. Os questionários
receberam mais atenção, em razão da Campanha da Fraternidade de 2002 ter como
tema central os povos indígenas. Essa coincidência contribuiu positivamente para o
projeto, resultando em uma quantidade de respostas maior que a esperada, bem como
revelou um interesse significativo da população sobre as questões indígenas.
Dos 330 questionários distribuídos, 156 foram devolvidos. Destes, 91
forneciam algum tipo de informação, 35 não tinham informação nenhuma e 30
retornaram em branco. Dos 91, 23 indicavam as áreas das lagoas Xambrê e São J oão
como locais de maior ocorrência de sítios arqueológicos, com menos indicações para
outras localidades. Outros 21 indicaram objetivamente locais com sítios, dos quais 5
foram confirmados e 7 estão por confirmar (a maioria está próxima das lagoas
mencionadas). É provável que essa concentração resulte do conhecimento de
pesquisas anteriores realizadas junto da lagoa Xambrê em 1976 e 1996-97, por
equipes da UFPR e da UEM. A equipe da UEM realizou em 1996 e 1997 palestras e
uma exposição itinerante com os resultados da pesquisa, com grande presença do
público na Escola Estadual de 1º e 2º Graus Lúcia Alves de Oliveira Schoffen e no
saguão do Banco do Estado do Paraná. Outros 16 questionários indicam apenas que
os moradores ouviram falar de sítios arqueológicos em Altônia, enquanto que 23
ouviram falar e viram fragmentos pelo município, mas sem indicar onde (futuramente
tentaremos verificar essas informações). Por fim, 8 questionários responderam sobre
sítios localizados em outros municípios e estados brasileiros.
A metodologia utilizada nas pesquisas de campo – primeira etapa – revelou um
comportamento local que interagiu espontaneamente com a tarefa do pesquisador. Os
moradores conhecem grande parte dos territórios do município, pois não trabalham
apenas em sua propriedade – existe o arrendamento de terras e as diárias nas
lavouras vizinhas. Além disso, nos encontros de final de semana na capela ou no
campo de futebol, são partilhadas as novidades. A partir desses depoimentos, 9 sítios
arqueológicos foram indicados e confirmados na área das lagoas Xambrê e São J oão
(figura 1). Informações como a de Santa Campos Cruz; “ali naquela pedreirinha que
tinha um cemitério de índios“, ou de Djalma Bertechine; “lá naquele cafezinho, que tem
aquela terra plantada”; resultaram na descoberta de vestígios indígenas. Alguns
moradores conservavam vasilhas cerâmicas em suas casas, desenterradas durante o
cultivo da terra. Este foi o caso de Vera Dirce de Andrade e Luiz Carlos Farias. Os
sítios arqueológicos em suas propriedades foram facilmente localizados por meio de
suas informações. Outros habitantes levaram a equipe até o local onde havia
fragmentos de cerâmica, como o caso da Sra. Elizabete Mosconi Barboza. O sítio do
Sr. Farias já havia sido registrado e pesquisado por Igor Chmyz em 1976, que ainda
não publicou os resultados da pesquisa (CNSA 26506; sítio PR – XA – 01).
O questionário – segunda etapa – também trouxe bons resultados à pesquisa,
com a indicação de 12 sítios, dos quais 5 já foram confirmados em campo. As
respostas foram simples, mas objetivas; “já encontrei panela na margem do rio
Piquirí.” (J osé Moacyr Beltrame); “em um sítio na estrada Paineira nº 388
A
, no
município de Altônia. Ex: pedaços de cerâmica.” (Nivaldo Belanda). Informações como
estas, extraídas do questionário, possibilitaram a descoberta de novos sítios
arqueológicos, além de obter opiniões das pessoas dos mais diferentes locais do
município.
A pesquisa permitiu o contato direto com os moradores, resultando no
estabelecimento da relação dialógica mencionada acima. Foi o passo fundamental
para despertar a curiosidade e o interesse sobre as questões indígenas e
arqueológicas, sobretudo, porque já havia a motivação da Campanha da Fraternidade.
Essa relação simétrica resultou no início de um processo de valorização e
conscientização do patrimônio arqueológico. Na última visita ao município, vários
moradores afirmaram que assuntos como “índios e suas vasilhas” passaram a fazer
parte de suas conversas. Isto é um claro indicador das auspiciosas possibilidades para
desenvolver um projeto de Arqueologia Pública em Altônia. Os sítios registrados foram
classificados como Guarani, relativos aos povos que ocuparam a região a partir de 2
mil anos atrás, até meados do século XVII. A maioria é evidência de antigas aldeias
cujo diâmetro médio é de 300 metros, onde eram construídas suas habitações de
madeira e palha, cujo tamanho podia alcançar a extensão de 30 m de comprimento
por 12 de largura. Também encontramos evidências de sítios menores, que serviam
como áreas de atividades diversas, como locais onde eram lascadas pedras para
serem transformadas em ferramentas de trabalho. Seus últimos habitantes certamente
tiveram contato com os primeiros europeus que viveram na região, particularmente em
Ontiveros (ao lado da atual Guaíra), fundada em 1554 e logo transferida para Ciudad
Real, erigida na foz do rio Piquiri em 1557 (figura 1). Os espanhóis vinham atrás de
ouro e da mão de obra indígena Guarani que, segundo as fontes coloniais, eram mais
de 200 mil pessoas apenas nas imediações de Ciudad Real, incluindo a atual área
vizinha de Altônia. Isto significa que ainda existem inúmeros sítios a serem
localizados.
Tabela 1: Sítios Arqueológicos Guarani no município de Altônia
Sítio Nome do sítio Localidade Fonte/Ano
PR – XA – 01 Lagoa Xambrê 1 Estrada Paineira Pesquisa/1976
PR – AL – 01 Córrego Pipoca 1 Estrada Rancho
Velho
Pesquisa/1996
PR – AL – 02 Porto Yara Porto Yara Pesquisa/1996
PR – AL – 03 Fazenda Pontal 1 Fazenda Pontal Pesquisa/1996
PR – AL – 04 Córrego Suzana 1 Estrada Paineira Pesquisa/2001
PR – AL – 05 Córrego Suzana 2 Estrada Paineira Pesquisa/2001
PR – AL – 06 Córrego Suzana 3 Estrada Pontal Pesquisa/2001
PR – AL – 07 Córrego Suzana 4 Estrada São Tomé Pesquisa/2001
PR – AL – 08 Córrego da Lagoa
1
Estrada J acaré Pesquisa/2001
PR – AL – 09 Córrego da Lagoa
2
Estrada Moringa Pesquisa/2001
PR – AL – 10 Ribeirão São J oão
1
Estrada São Tomé Pesquisa/2001
PR – AL – 11 Ribeirão São J oão
2
Estrada São Tomé Pesquisa/2001
PR – AL – 12 Lagoa São J oão 1 Estrada São Tomé Pesquisa/2001
PR – AL – 13 Córrego Pontal 1 Estrada Pontal Questionário/2002
PR – AL – 14 Córrego Pontal 2 Estrada Paineira Questionário/2002
PR – AL – 15 Rancho Velho 1 Estrada Rancho
Velho
Questionário/2002
PR – AL – 16 Córrego Suzana 5 Estrada São Tomé Questionário/2002
PR – AL – 17 Piquirí 1 Estrada Vítor Questionário/2002
Indicação 01 Ribeirão São J oão
3
Estrada São Tomé Questionário/2002
Indicação 02 Córrego Suzana 6 Estrada Pontal Questionário/2002
Indicação 03 Córrego da Lagoa
3
Estrada Paineira Questionário/2002
Indicação 04 Lagoa Xambrê 2 Estrada da Lagoa Questionário/2002
Indicação 05 Ribeirão do Prado
1
Estrada Mestre Questionário/2002
Indicação 06 Piquirí 2 Estrada Terra Boa Questionário/2002
Indicação 07 Córrego Paineira 1 Estrada Tietê Questionário/2002
Indicação 08 Ribeirão Iporã 1 Fazenda Paineira Questionário/2002

Além dos sítios, constatou-se uma realidade de extrema importância para a
continuidade do projeto e para o desenvolvimento de uma pesquisa-ação eficiente na
informação e conscientização dos altonienses: em que pese o fato de os moradores
saberem indicar os locais arqueológicos, a grande maioria não tem o conhecimento do
significado e o valor dessas evidências. Também se verificou que muitos não sabem
qual é o papel do arqueólogo e qual o seu objeto de estudo. Dessa forma,
desinformados e sem referências, depredam ignorando as conseqüências dos seus
atos para a conservação e futuro do patrimônio arqueológico. Isso impõe o
estabelecimento de uma estratégia voltada para informar a comunidade e as
autoridades, visando a preservação do patrimônio e a formação de uma consciência
que adote os sítios arqueológicos como um bem público cheio de significados sobre a
história local.
A figura 1 mostra uma concentração de sítios em torno das lagoas, enquanto
que as demais áreas do município não apresentam informações. Isto é comum em
levantamentos baseados apenas em entrevistas. Ainda poderemos encontrar sítios em
outras áreas com novas entrevistas, bem como planejar pesquisas de campo nos
espaços que atualmente estão em branco no mapa arqueológico de Altônia.
Figura 1: Mapa Arqueológico do Município de Altônia
ESCALA GRÁFICA
2500 0 2500 5000 7500 10000m
SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS
MUNICÍPIO DE ALTÔNIA, PR
Execução: Marcos Rafael Nanni - Francisco Silva Noelli - Éder Novak
Universidade Estadual de Maringá - 2002
Laboratório de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto
Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História
PR-AL-10
PR-AL-11
PR-AL-12
PR-AL-16 PR-AL-07
PR-AL-04
PR-AL-05
PR-AL-06
P
R
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L-1
3
P
R
-A
L-1
5
P
R
-A
L-1
4
PR-XA-01
PR-AL-09
PR-AL-08
PR-AL-02
PR-AL-17
PR-AL-03
L
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Pérola
São Jorge do Patrocínio
Guaíra
Terra
Roxa
Iporã
ALTÔNIA
SítiosArqueológicos
Rios, CórregoseRibeirões
LimitesdeMunicípios
1
1
2
3
4
5
6
7
8
IndicaçõesdeSítios
não confirmados
* Ciudad Real



Notas:

*
Esta comunicação resume um artigo completo em fase de gestação, que deverá ser publicado
brevemente. Os autores agradecem aos moradores de Altônia pela atenção e prestativa colaboração
durante as entrevistas e visitas em suas propriedades. Também agradecem ao Prof. Dr. Marcos Rafael
Nanni, do Departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Maringá, pela confecção da figura 1.

1
Bolsista do Programa de Iniciação Científica/Graduando em História/Estagiário do Laboratório de
Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Maringá.
2
Professor de História da Universidade Nacional do COMAHUE, Neuquén, Argentina.
3
Professor e Pesquisador Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade
Estadual de Maringá.
4
Ver, F. W. LANGE e M. MOLINA (eds.) Cultura y Naturaleza Sin Fronteras. Manágua: Instituto
Nicaragüense de Cultura, USDA/Forest Service Southern Region y O E A, 1995.
5
Alessandro PORTELLI. História oral como gênero. In: Projeto História. (22) São Paulo, Edusc, jun.
2001, p. 9.
6
Michel THIOLLENT. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez Editora, 1998, p. 14.
7
Curiosamente, Thiollent cita a Karl Marx como um dos pioneiros desse método, através da sua Enquete
Operária de 1880! As 101 perguntas formuladas foram elaboradas tanto para obter uma informação
objetiva sobre a condição da classe operária na França, quanto (e em primeiro lugar) para fazer os
trabalhadores refletirem sobre o caráter da sua situação de explorados. Ver Michel THIOLLENT. Crítica
metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo: Polis, 1985.


HISTORIOGRAFIA PARANAENSE NA METADE DO SÉCULO XX
O “ PARANÁ TRADICIONAL” E O “ PARANÁ MODERNO”

Elzio dos Reis Marson
1



Há uma produção intelectual paranaense, a partir da metade do século XX, que
realizou uma dualidade entre o norte e o sul do estado, cuja denominação se dá ao sul
de “Paraná tradicional” ou “Paraná velho” e ao norte de “Paraná moderno” ou “Paraná
novo”. Os principais pesquisadores que redigiram esta distinção entre o norte e o sul
são: Cecília Maria Westphalen, Brasil Pinheiro Machado, Altiva Pilatti Balhana, Artur
Barthelmess, Ruy Wachowicz e outros. Diante desta questão, é oportuno indagar:
quais são os fatores que atribuem esta distinção entre o norte e o sul do Paraná?
Ao construírem uma história da primeira atividade econômica no Paraná, a da
mineração, o pesquisador Artur Barthelmess ressalta que o ouro explorado no litoral e
arredores do que hoje é a cidade de Curitiba, resultou na “condensação dos primeiros
núcleos populacionais estáveis”
2
. Cecília Maria Westphalen justifica o povoamento
“serra acima” face ao “achamento de ouro” nas proximidades de Curitiba. Tendo
aumentado o número de moradores foi necessário a “ereção do pelourinho” em 1668
surgindo a vila de Curitiba
3
.
Brasil Pinheiro Machado registra que nas duas últimas décadas do século XVII
a “cata de ouro de lavagem” já se encontrava em estado de “desagregação”
4
. A partir
do século XVIII, uma nova economia se desponta para assegurar a continuidade de
povoamento nos arredores de Curitiba. Nos séculos XVIII e XIX pesquisadores
paranaenses remontam ao tropeirismo, como a principal atividade que abria caminhos
e fazia povoar a quinta província de São Paulo: o Paraná. Cecília Westphalen relata
que os caminhos existentes nos Campos Gerais
5
eram naturais, feitos por índios “pré-
cabralinos”. Passando pelos caminhos naturais, as tropas que vinham do Rio Grande
do Sul seguiam para as feiras de Sorocaba, em São Paulo, ou vice-versa com
mercadorias. Para Westphalen, o povoamento efetivo nos Campos Gerais e nos
Campos de Curitiba resultou das tropas, dando origem a pousos com uma casa de
negócios pronta para fornecer alimentos e um cercado para os animais. Com este
pequeno comércio nascem os primeiros povoados na região
6
.
Nestes caminhos das tropas, em território paranaense, surgem as grandes
fazendas. Westphalen, Machado e Balhana observam que esta política agrária era
estabelecida com a “posse inicial” e posteriormente requeria a “concessão de


sesmarias”. Os historiadores explicam que para fundar uma fazenda o “empreendedor”
enviava o seu “preposto, com alguns escravos, tomando posse da terra, para onde
conduziam algumas cabeças de gado”. Depois, alegando essa posse, requeria a
sesmaria, emergindo os grandes latifundiários, tendo como principal via o caminho de
tropas
7
. Brasil Pinheiro Machado aponta que havia o comércio de muares e a criação
de gado nos Campos do Paraná
8
. Esta economia era estimulada pelo novo conjunto
de empresas dominantes do Brasil. Nos princípios do século XVIII a economia
açucareira arrefeceu em detrimento da economia de mineração cujo centro de
dominância se localizava em Minas Gerais. O Brasil se estruturou com a nova
economia, estimulando o comércio do gado muar vinda do Rio Grande do Sul para
suprir a necessidade de transporte nas minas de ouro que se fazia em lombo de burro,
surgindo o tropeirismo. Paralela ao tropeirismo, a atividade da mineração em
Minas Gerias favorecia a criação de gado. Para suprir a necessidade de alimentos,
principalmente de origem animal, para os núcleos mineradores, o governo de São
Paulo buscou o gado criado nos Campos do Paraná para o sustento dos mineiros.
Portanto, as duas economias, o tropeirismo para servir de transporte e o gado para
servir de alimentação, estavam intimamente ligadas. Brasil Pinheiro Machado nos
esclarece que “muitos grandes fazendeiros eram tropeiros” cujo trabalho reunia toda a
família, alguns escravos e peões de tropa
9
. Com destino em Sorocaba, tudo era
redistribuído para as minas de ouro e fazendas de café.
Brasil Pinheiro Machado também nos esclarece que havia uma política quanto
à criação de muares. Machado observa que no século XVIII, no Brasil, “era proibida a
criação de muares em qualquer de suas Capitanias, com exceção do Rio Grande do
Sul”. Era necessário dar à província mais meridional do país “um motivo forte pelo qual
essa região pudesse se integrar e se incorporar no Brasil”
10
. Como a concentração das
minas de ouro e das fazendas de café estavam na região sudeste do país, e os
muares no Rio Grande do Sul, o Paraná tornou-se a ponte entre o criatório e o
consumo do gado.
Arthur Barthelmess constata que a região dos Campos Gerais estava
assentada em um solo demasiadamente arenoso e o aproveitamento agrícola não foi
realizado. Sua atividade econômica se assentou na pastoril extensiva: o gado vacum e
o muar, cuja produção, durante séculos, só poderia ser escoada por trilhas ou picadas
nas matas face a ausência de rodovias ou ferrovias naquela região
11
. Barthelmess
salienta que os Campos Gerais se restringiu à pecuária porque era a “mentalidade
econômica da época do povoamento”. Esta tradição era acompanhada em todo o
Brasil. Não se pensava em aproveitar os campos naturais para a agricultura, mas com


a criação de gado. Do ponto de vista econômico era mais viável, face a ausência de
estradas
12
. Portanto a economia do gado não organizou uma rede de estradas
carroçáveis ao longo das quais poderia ser realizado um povoamento rural, mas se
prolongaram caminhos que asseguraram apenas o transportes de mercadorias em
lombo de animais, tida como um meio de transporte tradicional que era executado não
tão somente no “Paraná tradicional” mas em todo o Brasil.
Enquanto as cidades nasciam e cresciam em função de um pouso de tropas ao
longo de caminhos, as primeiras colônias agrícolas, em função da política de
imigração em povoar os Campos do Paraná e solucionar a escassez de alimentos,
não foram bem sucedidas. Altiva Pilatti Balhana observa que a imigração alimentava a
esperança das autoridades porque os imigrantes eram portadores de “outra tradição
rural” e poderiam substituir a criação de gado pelo sistema agrícola. As primeiras
colônias foram instaladas no final do século XIX em antigas fazendas “dispersas” e
“distantes uma da outra”
13
. Arthur Barthelmess salienta que no Paraná “nenhuma
colônia conseguiu manter-se fora da estrada carroçável”; nem o transporte em lombo
de animais, nem carro de boi asseguravam a sobrevivência destas colônias.
Assegurou os grandes latifúndios, ocupados por pouca mão-de-obra e ligado por uma
rede de caminhos. Com seu método tradicional e primitivo os fazendeiros não
dependiam de um núcleo urbano, decretando a “falência” de cidades
14
. Era a fazenda
que fazia a integração ao conjunto nacional, mantendo grandes famílias no contexto
social da província.
Diante desta historiografia, o sentido do “Paraná velho” e “Paraná tradicional”
definiu-se com os fluxos lentos, refletido com os efeitos da ausência de estradas. Foi
herdada no tempo do tropeirismo e das boiadas apenas caminhos e trilhas. Em outras
palavras temos uma construção histórica que o povoamento da região litorânea e sul
foi povoada lentamente, percorrendo um caminho de trezentos anos de ocupação.
É esclarecedor que a economia do tropeirismo e do criatório de gado nos
Campos do Paraná foi a principal atividade econômica durante os séculos XVIII e XIX.
Mas havia uma economia de subsistência cujo principal produto que cultivavam era o
trigo. Brasil Pinheiro Machado observa que nas fazendas “plantava-se, moía-se e
panificava-se o trigo”. Havia também o plantio de milho e arroz cujo método era um
dos mais rudimentares. Machado comparou dois documentos e percebeu que estas
“roças”, num espaço de tempo de “cento e quarenta e seis anos ainda se aplicava o
mesmo processo”
15
.
Foi com a economia da erva mate, primeira atividade econômica exportadora
do estado, que Curitiba transformou-se de fisionomia de vilarejo colonial português,


para outra feição urbana. Arthur Barthelmess observa que as tentativas frustadas de
colônias agrícolas favoreceu a vinda de imigrantes para o núcleo urbano de Curitiba.
Os alemães, sendo pedreiros, carpinteiros, empreiteiros de obras, foi o executor da
renovação urbana de Curitiba. Tendo o domínio do transporte da erva mate com seus
carroções, mais eficiente que as mulas e muares, e favorecidos com a abertura da
estrada da Graciosa, em 1873, tornou o alemão um grande empreendedor pertencente
a uma classe burguesa e tendo em suas mãos um comércio importador e algumas
indústrias. A nova feição urbana tornaram ao gosto europeu. Construíram uma
catedral em estilo gótico, o edifício da prefeitura em estilo renascentista, palacetes que
comportaram famílias de exportadores de mate e dezenas de clubes
16
. Balhana
observa que os russos-alemães por “desprezarem as atividades agrícolas” se
ocuparam nos “serviços de transporte” da erva mate ocasionando numa atividade
“rendosa” que alcançaram a “prosperidade”
17
. Mas esta expressão só resultou no final
do século XVIII.
Altiva Balhana, ao verificar as dificuldades das colônias agrícolas, salientou que
os Campos Gerais “foi considerado impróprio para qualquer atividade agrícola e
portanto para a colonização”, só comportava a “tradicional exploração pastoril”
18
.
Assim pesquisadores descrevem aquela região de “Paraná velho” ou “Paraná
tradicional” por manter uma estrutura quase que estagnada durante séculos, pois foi
somente no início do século XIX que o governo elabora e executa “um plano de
colonização agrícola” nos Campos do Paraná
19
.
É duvidosa a iniciativa da colonização na região norte do Paraná. Há várias
versões. O que se sabe é que a transação ocorreu na década de 20 e a colonização
teve início na década de 30. Westphalen, Machado e Balhana ressaltam que a
Companhia de Terras Norte do Paraná, “contando com técnica superior, organizou
modernamente a colonização da imensa área que alcançaria 515 mil alqueires
paulistas”. A área foi dotada de boas estradas, colocando todas as propriedades rurais
em comunicação fácil. Não havendo “servidões, nem propriedades encravadas”, os
núcleos urbanos não distavam mais que 15 quilômetros, prevendo a “integração entre
o meio rural e urbano”
20
. Nice Lecoq Müller também observou que esta “colonização
intensiva” que ocorreu no norte do Paraná, “em moldes modernos” empreendeu uma
das mais notáveis obras de colonização
21
. O espaço para lançar-se nesta região está
assentada em solo fértil, 20.000 Km2 de terras roxas legítimas, mais que o total
existente no estado de São Paulo. A ocupação processou-se após áreas produtoras
de café paulistas alcançaram a sua saturação. Homens com excedentes em recursos
puderam adquirir pequenos lotes de uma empresa imobiliária com facilidades de


pagamento e proporcional segurança no litígio das terras. Com grande sucesso, Arthur
Barthelmess denominou a região norte do “maior dinamismo na rapidez e na
capacidade de penetração que no Paraná pode sentir”
22
.
A primeira atividade econômica do norte do Paraná está inserida no
capitalismo, dinamizando sua extração: era a exploração industrial da madeira. A partir
de 1930 a economia madeireira no norte conquistou uma situação absoluta tornando
grande vulto com os mais novos e eficientes meios de transportes: o caminhão e a
locomotiva, cujas estradas, de rodagem e ferrovia, já chegavam em Londrina ainda na
década da própria fundação da cidade. A exploração da madeira foi tão intensa que na
década seguinte, anos 40, o café já estava substituindo a madeira, despontando como
a nova economia da região, tornando o norte ainda mais dinâmico.
Barthelmess observa que o norte do Paraná, invadido por uma população que
já trazia consigo o hábito da cultura do café, obteve um “progresso” de “poucos anos”.
O pesquisador redige que a ocupação do norte do Paraná foi favorecida pela
“evolução dos transportes rodoviários possibilitando um ritmo de penetração mais
rápido” do que havia ocorrido com o “Paraná velho”, cujo avanço se deu “lento e
custoso”
23
.
Uma companhia colonizadora abriu todos os caminhos para o migrante chegar
na região, e este tornou-se um empreendedor capaz de construir cidades com
catedrais, universidades, escolas, hospitais e centros decisórios da política local em
menos de trinta anos. Altiva Pilatti Balhana observa que as cidades da região norte do
Paraná surgiram e se formaram com uma “rápida maturação” cujo processo de
urbanização se realiza com um mundo rural recém formado
24
. Altiva Pilatti Balhana
observa que no norte do Paraná ocorreu um “aglomerado humano que a geografia
define como cidades cogumelos” face ao adensamento populacional proporcionado
pelo cultivo do café que exigia grande mão-de-obra
25
. É sugestivo o contraste que se
constrói entre o norte e o sul. O sul possui uma formação lenta, ocupada em três
séculos, constituída por características coloniais: pelourinho, escravos, caminhos e
sesmarias/latifúndios. Ocupado em três décadas, o norte é dinamismo constituído por
características contemporâneas: centro de decisórios dos três poderes, mão-de-obra
livre, estradas e pequenas/médias propriedades.
A história de Curitiba e Londrina também é construída com um grande
contraste. Barthelmess observa que Curitiba nasceu no século XVII de um “arraial de
faiscadores” de ouro. Foi “gradativamente” se firmando como núcleo urbano, em
função direta do desenvolvimento da pecuária nos Campos de Curitiba. O pesquisador
salienta que a cidade só foi reconhecida como “centro de cristalização regionalista” em


“sucessivas etapas”. Com a pecuária, economia da erva mate e da madeira, Curitiba
tornou-se sede do “Paraná velho”
26
. O núcleo urbano de Londrina foi configurada por
um topógrafo, esboçada por um engenheiro, explorada por indústrias madeireiras,
limpada por mateiros, medida por um agrimensor e ocupada por migrantes. Definida a
atividade da colonizadora em empreendimento imobiliário em 1930, inicia a venda dos
primeiros lotes de terras. Com a abertura do que seria Londrina em 1931, deu-se um
rápido crescimento que em 1934 tornou-se município. Nice Müller relata que Londrina
foi “destinada a lhe servir de sede e de capital” de uma “zona” adquirida do governo do
Estado
27
. Assim Londrina nasceu como centro irradiador do “Norte novo” por
comportar a sede administrativa da Companhia de Terras Norte do Paraná.
O contraste entre o norte com o sul não estão apenas na formação de suas
cidades pólos. Barthelmess observa que “as cidades e vilas do Paraná velho nascera
sob o impulso da economia pastoril”, sendo separadas da outra pela distância de um
dia de viagem à margens dos caminhos de tropeiros
28
. Na região norte, as cidades são
separadas da outra pela necessidade de apoio à pequena propriedade agrícola. Na
região sul os grandes latifundiários, com seus métodos “tradicionais” não dependeram
de cidades. Na região norte os núcleos urbanos recebem agroindústrias para
beneficiar e comercializar os excedentes do agricultor. Este, por sua vez, necessitava
do comércio para a aquisição de produtos, como arados e adubos para a sua lavoura,
onde só poderiam encontrar na cidade. Além de apoio à agricultura, as cidades da
região norte comportava uma estação ferroviária, e no pátio destas uma caixa d’água.
Era necessário abastecer com água as caldeiras da locomotiva, as denominadas
“Maria Fumaça”, que também necessitava deste precioso líquido. Não excedendo a 15
quilômetros de distância entre uma caixa d’água e outra, e era o tempo suficiente para
a locomotiva caminhar com água. Sua rota principal situa no espigão mestre, divisora
de águas entre as bacias dos rios Tibagi, Pirapó e Ivaí. Sob esta crista, onde o café
está protegido das geadas locais e as estradas sem grandes acentuações, foi traçada
e construída a estrada principal de rodagem e uma ferrovia.
Ao desenharmos o gérmen de cidades no norte e sul, produzimos o histórico
de cidades que nascem à beira de caminhos que passavam muares, cujo povoamento
dava assistência ao tropeiro e ao seu meio de transporte: o muar. Na região norte as
cidades surgem em pontos programados, para dar assistência ao agricultor e ao seu
meio de transporte: a locomotiva. Ao norte elas surgiram projetadas, com uma
economia voltada à exportação, sob o efeito da política de expansão rumo ao oeste.
No sul elas surgiram expontâneas, com uma economia interna, sob o efeito de uma
política em integrar o Rio Grande do Sul ao território brasileiro.


Percebemos que o “moderno” ou “novo” e o “tradicional” ou o “velho” está
associado ao povoamento do Paraná cuja ocupação se processou de modos
diferentes. A ocupação das terras no sul do Paraná ocorrem sob a forma de uma
ocupação espontânea, primeiramente com a mineração, posteriormente com a criação
de gado surgindo as grandes fazendas. Como a ocupação se cristalizou numa
estrutura agrária herdada do período colonial ao longo de séculos, pesquisadores
denominaram a região sul do Paraná de “Paraná tradicional”. Nos campos do Paraná,
em 1772, Westphalen, Machado e Balhana registraram 50 fazendas instaladas, sendo
cada unidade entre 4 mil a 8 mil alqueires paulista
29
. A outra ocupação é conseqüência
de colonizadoras que ocuparam a região norte, oeste e sudoeste do Paraná.
Westphalen, Machado e Balhana assinalam que, no ano de 1957, havia no oeste e
sudoeste do Paraná, “trinta companhias imobiliárias”, explorando com “métodos
modernos”
30
. Portanto a definição de “Paraná moderno” não se restringiu apenas à
região norte, colonizada pela Companhia de Terras Norte do Paraná, também às
regiões oeste e sudoeste do Estado que predominou a forma de ocupação por
companhias colonizadoras, ocorrido somente no século XX. Diante desta circunstância
Barthelmess ressalta que na região norte ocorreu uma “geração de cidades novas”
enquanto ao sul ficou constituído por “velhas cidades”, apresentando fenômenos
diferentes
31
.
Renato Ortiz em A Moderna Tradição Brasileira: Cultura Brasileira e Indústria
Cultural ao analisar a década de 50 e parte da 60, verifica que este período foi um
momento de efervescência cultural. A recorrente utilização do adjetivo “novo”, observa
Ortiz, “trai todo o espírito de uma época: bossa nova, cinema novo, teatro novo,
arquitetura nova, música nova” que contrastava na “oposição entre o velho e a nova
sociedade”
32
. Se Artur Barthelmess denominou o sul de “Paraná velho” e a outra
região de “Paraná novo”, o sufixo “novo” demonstra vida nova, algo que ressurgiu
recentemente. Assim o “novo” apontava a construção de uma sociedade moderna,
animados por uma ideologia de transformação ou pelo menos de esperança por
mudança. Para Barthelmess e demais historiadores que rotulam regiões de “Paraná
moderno”, que foram colonizadas recentemente, por empreendimentos imobiliários,
estão associadas a algo novo, apontando mudanças com a transformação da
paisagem urbana e rural.
Diante da questão política, a historiografia paranaense tem encontrado outra
resposta para a denominação do norte de “Paraná moderno” e sul de “Paraná
tradicional”. Brasil Pinheiro Machado observa que desde que surgiu o Paraná em
1853, os “chefes das grandes famílias de fazendeiros começaram a participar da vida


política do Paraná”. Machado salienta que esta nova liderança política se processa
sob a forma de oligarquia que dominou a política do Paraná por “tanto tempo”
33
. Esta
política oligárquica no Paraná praticamente se restringiu no litoral e sul do estado,
exercendo a hegemonia política, pois seu comando de poder não conseguiam se
expandir até o norte e oeste do Paraná.
Para o pesquisador Amilcar Vianna Martins Filho, o sistema Republicano foi
favorecido com a Constituição de 1892 que consagra autonomia aos Estados, sob os
moldes que desejavam paulistas e mineiros, transformando as regiões em centros
políticos. Estruturado por grupos oligárquicos o poder se transferiu, não para os
Estados, mas para os grupos oligárquicos que segundo Amilcar Martins Filho era um
“governo de poucas pessoas, pertencente ao mesmo partido, classe ou família” que
predominam na direção dos “negócios públicos” e passaram a dominar a política no
nível estadual, coroando a antiga aspiração de autonomia destes grupos
34
.
Fazendo uma rápida genealogia dos governantes do Paraná durante a primeira
metade do século XX, observamos que o poder executivo estadual pertencia a uma
mesma classe ou família. Neste cenário o governador Affonso Alves de Camargo
(1916/20) pertenceu à uma família de latifundiários dos Campos de Guarapuava; entre
1921/28 governa, por duas gestões, Caetano Munhoz da Rocha ligado ao grupo de
ervateiro; de 1928/31 retorna Affonso Alves de Camargo ao governo; natural dos
Campos Gerais, Manoel Ribas governou o Paraná entre 1932/45, por 13 anos
seguidos, pertencente à oligarquia daquela região; em 1947/50 governou Moysés
Lupion, filho de latifundiários ligado ao setor madeireiro nos Campos Gerais, próximo a
Castro e foi considerado herdeiro político de Manoel Ribas; entre 1951/55 governou o
Paraná, Bento Munhoz da Rocha Neto, filho de Caetano Munhoz da Rocha e genro de
Affonso Camargo; entre 1956/59 retorna ao governo Moysés Lupion; em 1961 Ney
Braga, genro de Bento Munhoz da Rocha Neto, se torna governador.
Portanto, numa historiografia mais recente se registra o sul de Paraná
tradicional face ao comando político estadual se concentrar nas mãos de grupos
oligárquicos dos Campos do Paraná
35
. Sob este poder, a população da região norte
não conseguiu encontrar espaço político nos cargos estaduais pois estavam ocupados
por uma oligarquia da região sul do Estado.
Em síntese o que caracteriza a denominação de “Paraná tradicional” é a
formação de seus latifúndios com métodos coloniais formado primeiramente com as
sesmarias e assentada numa economia pastoril. Com a República o poder do estado
se transferiu para os grupos oligárquicos ligados à extração da erva mate, da madeira
e latifundiários que dedicavam ao criatório de gado. Eles assumiram os mais



importantes cargos públicos, canalizando para si a vontade em atender suas
demandas. Com esta política a historiografia designa o sul de “Paraná tradicional”, por
exercerem a hegemonia política do estado.
O oeste, sudoeste e norte do Paraná são designados de “Paraná moderno”
explicado pela inexistência histórica de latifundiários, uma vez que a terra, nestas
regiões, foi transformada em mercadoria, via empresas privadas de colonização que
retalharam as regiões, na maioria em pequenas e médias propriedades, oferecendo
infra estrutura básica para o seu cliente. Em outras palavras, constitui o “Paraná
moderno” com a ação das colonizadoras experimentando “métodos modernos”
favorecido pela conjuntura capitalista, povoando densamente regiões.
Diante desta investigação entre o norte e o sul, pesquisadores perceberam
diferenças econômicas e políticas entre a região norte com o sul. Ao forjarem dois
Paranás, um “moderno” e outro “tradicional”, designam regiões distintas com
características próprias. Era um Estado que compreendia partes e não um todo do
território paranaense.



1
Aluno formado em História e especializado em História Social pela Universidade Estadual de Londrina.
2
BARTHELMESS, Artur. Estado do Paraná: Aspectos geo-econômicos. Boletim do Instituto Histórico,
Geográfico e Etnológico Paranaense. Fac. 3-4, Volume VII. Curitiba: julho-dez, 1957. pág. 33.
3
WESTPHALEN, Cecília Maria. Paraná: zona de trânsito. Boletim do Instituto Histórico, Geográfico e
Etnográfico Paranaense. Vol. VII, Fasc. 3-4, pág. 45-55, Curitiba: julho/dez, 1957. pág. 48.
4
MACHADO, Brasil Pinheiro. Formação da estrutura agrária tradicional dos Campos Gerais. Boletim da
Universidade do Paraná. Departamento de História. n.º 3, Curitiba: junho, 1963. pág. 08.
5
Campos Gerais é dada à região que predomina campos abertos. Pesquisadores dividiram os campos em
Campos Gerais de Curitiba, Campos Gerais de Guarapuava, Campos Gerais de Palmas e apenas
“Campos Gerais”. Os “Campos Gerais”, sem utilizarem a cidade de origem, situa onde se localiza
as cidades de Castro, Lapa, Palmeira e Ponta Grossa. Para definirmos todos os Campos
utilizaremos os Campos do Paraná, que se restringiram à região sul do Paraná.
6
WESTPHALEN, 1957 ... op. cit. pág. 50.
7
WESTPHALEN, Cecília Maria; MACHADO, Brasil Pinheiro & BALHANA, Altiva Pilatti. Nota prévia
ao estudo da ocupação da terra no Paraná moderno. Boletim da Universidade Federal do Paraná.
Departamento de História, n.º 7, Curitiba, 1968. pág. 08.
8
Segundo Brasil Pinheiro Machado era nos “Campos Gerais” que predominou o latifúndio tendo sua
base econômica a criação de gado, porém ressaltou que os latifúndios campeiros da criação de
gado vão desde Curitiba até os Campos de Guarapuava e Palmas chegando até na divisa de Santa
Catarina. Veja: MACHADO, 1963... op. cit. pág. 07; veja também: WESTPHALEN, et. al.,
1968... op. cit. pág. 09.
9
MACHADO, 1963... op. cit. pág. 17.
10
Ibidem., pág. 06.
11
BARTHELMESS, 1957... op. cit. pág. 37/38.
12
BARTHELMESS, 1962... op. cit. pág. 45/46.
13
BALHANA, 1963 ... op. cit. pág. 36.
14
BARTHELMESS, 1962... op. cit. pág. 55.
15
MACHADO, 1963... op. cit. pág. 13.
16
BARTHELMESS, 1962... op. cit. pág. 57/58.
17
BALHANA, 1963 ... op. cit. pág. 39/40.
18
Ibidem., pág. 41.
19
Ibidem., pág. 51.



20
WESTPHALEN, et al., 1968 ... op. cit. pág. 18.
21
MÜLLER, Nice Lecoq. Contribuição ao estudo do norte do Paraná. Boletim Paulista de Geografia. n.º
22. São Paulo, 1956. pág. 75.
22
BARTHELMESS, 1962... op. cit. pág. 60.
23
BARTHELMESS, 1957... op. cit. pág. 41.
24
BALHANA, 1958... op. cit. pág. 24.
25
Ibidem., pág. 24.
26
BARTHELMESS, 1962... op. cit. pág. 47.
27
MÜLLER, 1956 ... op. cit. pág. 77.
28
BARTHELMESS, 1962 ... op. cit. pág. 46.
29
WESTPHALEN, et. al., 1968... op. cit. pág. 08.
30
WESTPHALEN, et. al., 1968... op. cit. pág. 42.
31
BARTHELMESS, 1962... op. cit. pág. 60.
32
ORTIZ, Renato. A Moderna Tradição Brasileira: Cultura Brasileira e Indústria Cultura. 2ª ed. São
Paulo: Ed. Brasiliense, 1989. pág. 110.
33
MACHADO, 1963... op. cit. pág. 16/17.
34
MARTINS FILHO, Amilcar Vianna. A economia política do café com leite: 1900-1930. Belo
Horizonte: Ed. UFMG, 1981. pág. 118., veja também pág. 21.
35
Veja: CESÁRIO, Ana Cleide Chiarotti. Poder e partidos políticos em uma cidade média brasileira. Um
estudo de poder local: Londrina PR, 1934/79. Tese/USP, São Paulo, 1986. pág. 30. e
WACHOWICZ, Ruy Christovan. História do Paraná. 7ª edição. Curitiba: ed. gráfica Vicentina,
1995. págs. 270/271.











História e literatura: as possibilidades dos diálogos possíveis

Erivan Cassiano Karvat
( Universidade Tuiuti do Paraná )



É bem possível que a tarefa mais difícil que a atual geração de
historiadores é chamada a realizar seja expor o caráter historicamente
condicionado da disciplina histórica (...), que por estar fundada numa
percepção mais das semelhanças entre a arte e a ciência que das suas
diferenças, não pode ser adequadamente assinada nem por uma nem por
outra.
Hayden White, O Fardo da História, p.41.
1

I- algumas notas de leitura

Temos visto nos últimos anos, o aumento significativo das discussões acerca
dos desdobramentos entre a história e a literatura, seus limites, possibilidades e
intercruzamentos. Tal movimento, podemos dizer, decorre, em parte, dos próprios
processos de questionamentos da historiografia ocidental que, principalmente a partir
de fins dos anos 1980, diante da chamada “crise dos grandes modelos explicativos” se
acometem à reflexão do historiador, naquilo que diz respeito às orientações e
especificidade de sua aréa de conhecimento.
2
Se por um lado, a literatura sugere fontes de estudo de inegável alcance,
naquilo que se refere à história cultural (e seus desdobramentos: história das idéias e
história intelectual) e de sensibilidades, por outro, permite que a história pense outras
possibilidades de alianças, reinventando as, sempre necesssárias práticas inter ou
multidisciplinares.
3
Assim, em certo sentido, as articulações ou, antes, as possibilidades de
desdobramento entre a história e a literatura, decorre, parece-nos, de um movimento
de mudança nas orientações e perspectivas,- e que afetam as próprias elaborações
teórico-metodológicas- das construções do conhecimento histórico.
A historiografia brasileira segue, também, este deslinde da historiografia
ocidental. Vemos uma historiografia que se abre para novas temáticas, debruçando-se
sobre novos objetos, articulando-se a partir de diferentes problemáticas e que parece
convergir para este campo, convencionalmente, alcunhado como “história cultural”. A
partir de um presente que impõe novas questões, o passado brasileiro é avaliado a
partir de novos olhares, trazendo elementos até então não focalizados pela mira da
historiografia.
Em linhas muito gerais, é assim que vemos surgir no Brasil, também,- e
principalmente a partir da Segunda metade dos anos 1990-, um significativo número

de trabalhos que objetivam discutir as imbricações entre a história e a literatura e os
desdobramentos destas imbricações.
A História Contada: capítulos de História Social da Literatura no Brasil (1998);
Discurso Histórico e Narrativa Literária (1998); Literatura & História: perspectivas
e convergências (1999); Pelas Margens: outros caminhos da história e da literatura
(2000); De Sertões, Desertos e Espaços Incivilizados (2001); Civilização e
Exclusão: visões do Brasil em Érico Veríssimo, Euclides da Cunha, Claude Lévi-
Strauss e Darcy Ribeiro (2001); Érico Veríssimo: o romance da história (2001), são
apenas alguns títulos de coletâneas organizadas neste período e que se voltam à
problemática das possibilidades de interação da história com a literatura.
Contudo, de uma maneira em geral, chama-nos atenção, neste debate, a
recorrência à sugestão da idéia dos “diálogos” na imbricação entre História e
Literatura. Leituras Cruzadas: diálogos da história com a literatura; Fronteiras da
Ficção: diálogos da história com a literatura; Diálogo entre literatura e história são
títulos que supõem o próprio diálogo como o elemento fundante da imbricação. Neste
sentido, cabe lembrar que todo diálogo impõe limites, uma vez que, caracterizando-se
como “intercâmbio verbal entre duas ou mais personagens”
4
- neste caso específico,
duas ou mais áreas de conhecimento- necessita do(s) limite(s) para propiciar a própria
comunicação. Todo diálogo, construindo-se de questões, observações réplicas ou
tréplicas, exige, para que a comunicação seja encetada, pausas, atenção, intervalos
silenciosos. Em outras palavras, para que o diálogo faça-se possível é necessário
saber ouvir. Depreendem-se daí, talvez, os limites da interação da história com a
literatura e, porquê não, depreendem-se também daí, suas potencialidades.
Sandra J atahy Pesavento, autora do artigo acima citado, Fronteiras da
Ficção, publicado no periódico Estudos de História em 1999, caracteriza o texto
histórico como uma forma de texto ficcional pois, “comporta a ficção, desde que o
tomemos na sua acepção de escolha, seleção, recorte, montagem, atividades que se
articulam à capacidade da imaginação criadora de construir o passado e representá-
lo”. A autora observa que a contemporaneidade, mais do que nunca, tem
problematizado a veracidade e a ficcionalidade do texto histórico, “fazendo dialogar a
literatura e a história num processo que dilui fronteiras e abre as portas da
interdisciplinaridade”.
5
Assim, tanto o texto histórico quanto o texto literário produzem
diferenciadas possibilidades de representação da realidade, exigindo- sempre- a
presença de um narrador que, no caso do texto de história, produz inteligibilidades
acerca daquilo a que se propõe dar a conhecer, partindo de determinadas escolhas e
recortes. A figura do autor-narrador é, dessa forma, um elemento imprescindível no
processo de produção do conhecimento, pois é ele que mediatiza diferentes

temporalidades e as configura. Mais do que isso, a própria veracidade do texto
histórico perpassa pela autoridade autoral deste mesmo texto, (como bem
demonstram/exemplificam as origens da historiografia grega). Pesavento caracteriza a
história como uma “ficção controlada”, pois o trabalho do historiador-narrador é
limitado pelas fontes e pelos vestígios que, do passado, chegam ao presente. A tarefa
do historiador é controlada, ainda, através dos “rigores do método” e pela relação do
pesquisador com seu próprio objeto, relação fundada num “regime de verdade”.
Por fim, a autora objetiva, no seu texto, perceber o quanto a obra historiográfica
comporta de ficção “controlada”. Para tanto, intercruza os Capítulos de História
Colonial, de Capistrano de Abreu, com o romance Iracema, de J osé de Alencar.
Temos, assim, portanto, a sugestão do diálogo da história com a literatura
sustentando-se, justamente, na caracterização do texto histórico como texto portador,
também, de elementos ficcionais.
Ivânia Aquino em Literatura e História em Diálogo: um olhar sobre Canudos,
volta-se para a construção dos processos narrativos no texto literário e no texto
histórico. Tendo por objeto a Guerra de Canudos, Aquino estuda a narrativa em La
Guerra del Fin del Mundo, de Mário Vargas Llosa, bem como em Canudos: o Povo da
Terra, do historiador Marco Antonio Villa, tendo como preocupação- além de perceber
a autoria nestas/destas diferentes construções discursivas e como estes autores
informam seus textos- principalmente “verificar as evidências de aproximação dos
procedimentos técnico-narrativos na construção de discursos ficcionais e históricos”.
6
A possibilidade de diálogo para a autora, portanto, parece proceder de
experiência do movimento narrativo, que transforma, graças ao próprio trabalho do
narrador, imagens em movimento.
A coletânea Leituras Cruzadas: diálogos da história com a literatura,
organizado por Sandra Pesavento, é mais um resultado da profícua produção do
grupo interdisciplinar e interinstitucional Clíope, formado em 1994 e que se tem voltado
para as problemáticas das intersecções entre história e literatura. A coletânea
apresenta mais de uma dezena de artigos e tem como eixo principal os cruzamentos
das “leituras de Brasil”, produzidas a partir dos anos 1930, por ficcionistas e não
ficcionistas, ou seja, “leituras de Brasil” resultantes de textos literários e de textos
históricos e/ou críticos e que motivaram “novos olhares sobre a realidade brasileira”.
7

Cruza-se assim, por exemplo, Sérgio Buarque de Holanda e Cassiano Ricardo ou
Monteiro Lobato e Antônio Cândido. Enfim, se através da leitura recupera-se as
formas de pensar que atuavam em outro contexto histórico, através da historicização
da escrita, produz-se diferentes efeitos de verdade. É, portanto, o diálogo, neste caso,

resultado do próprio cruzamento de diferentes formas de escrituras, escrituras que se
empenham em re-apresentar aquilo que se entende por realidade.
Temos, assim, três diferentes textos, ou melhor, três diferentes títulos que, de
forma direta, apresentam a relação história e literatura a partir das possibilidades do
diálogo. O texto histórico tende a beneficiar-se, incorporando as possibilidades postas
pela aproximação com a literatura. Envolveria ou resultaria deste diálogo: I) o caráter
ficcional- pois produto de escolhas e enrredamento- do texto histórico; II) a observação
aos procedimentos técnico-narrativos que informam o discurso histórico e III) a
produção- através do cruzamento de leituras históricas e literárias- de diferentes
representações que informam e formam dado contexto histórico.

II- notas de outras leituras

Obviamente as possibilidades de diálogo entre a história e a literatura, como já
foi mencionado, fazem-se cada vez mais pertinentes. Conforme comenta Linda
Hutcheon, em sua Poética do Pós-Modernismo, é a “separação entre o literário e o
histórico que hoje se contesta(...) as recentes leituras críticas da história e da ficção
têm se concentrado mais naquilo que as duas formas de escrita têm em comum do
que em suas diferenças.”
8
Curiosamente a questão dos possíveis diálogos, posta
dessa forma, parece nos permitir voltar aos inícios da própria teorização da arte
ocidental.
Neste sentido, é bem conhecida a diferenciação efetuada por Aristóteles em
sua Poética:

(...) não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de
representar o que poderia acontecer, que dizer: o que é possível segundo a
verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o
poeta por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postos
em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história,
se fossem em verso o que eram em prosa)- diferem, sim, em que diz um as
coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia
é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela
principalmente o universal, e esta o particular. Por “referir-se ao universal”
entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e
ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convêm a tal
natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê
nomes às suas personagens; particular , pelo contrário, é o que fez
Alcebíades ou o que lhe aconteceu.
9


A história, tornada uma “tradição de escrita”, descende da própria literatura,
mais precisamente da poesia épica. Ainda que concordemos com Aristóteles, da
diferenciação que poderíamos denominar de diferenciação de olhares sobre o/um

objeto, entre a poesia e a história, é fundamental que lembremos da poesia épica,
como uma tradição de escrita que, na Grécia, inspirará o surgimento da própria prosa
histórica.
Assim, ainda que “o estilo da história grega [fosse] essencialmente regulado
por normas de escrita em prosa e por sua diferenciação de outros gêneros literários”
10
,
é justamente a partir dessa noção de gênero literário- e da sua descendência do estilo
epopeico- que a prosa histórica virá a traçar seus próprios limites.
Curiosamente, portanto, a relação entre a história e a literatura pode ser
analisada como parte fundante da(s) própria(s) definição(ões) acerca daquilo que se
entende por história.
Sugerem, por exemplo, essa “relação de origem”, a “ tentação de considerar
Homero um precursor dos historiadores e de acrescentar os poetas do ciclo e os
escritores de poemas sobre as fundações de cidades gregas(...)”
11
. Por outro lado, o
objeto, tornado objeto primeiro da investigação histórica, a guerra, ou as guerras -, é o
objeto de excelência, da poesia épica.
12
Faz-se necessário, ainda, lembrarmos que na fundação dessa tradição de
escrita, a história - assim como na épica a posição autoral, tem um destaque
fundamental, legitimando o próprio discurso da história. A reivindicação autoral – modo
de afirmação e dispositivo de produção de um discurso – atesta a própria autoridade.
O historiador é o “autor de seu lógos (ou de seus lógoi) – como ele designa sua obra –
e é desse lógos, da forma como o concebeu, escreveu e compôs, que tira sua
autoridade”
13
Nada mais distante disto do que as escritas cientificistas da história, que
buscam neutralizar os signos do sujeito enunciante, objetivando enredar uma história
que parece narrar a si mesma, gerando aquilo que Barthes denominou de ilusão
referencial.
14
Assim, ainda que a história, como diz Northrop Frye, possa ser chamada, em
sentido amplo, de “imitação verbal da ação, ou de acontecimentos colocados na forma
de palavras”, cabe ao historiador – que, de forma direta, imita a ação – formalizar num
enredo o acontecido, estabelecendo um efeito de verdade sobre este acontecido. É da
verdade do que ele, historiador, diz, que se julga o já acontecido. “ O que realmente
aconteceu é o modelo externo do seu padrão de palavras e ele é julgado pela
adequação com a qual suas palavras reproduzem aquele modelo.”
15
Como escrevia J osé Américo Motta Pessanha,

Porque de fato existiu, Napoleão se distingue de James Bond. Mas o
historiador que escreve sobre ele, organizando e relacionando informações,

interligando “instantâneos”, montando seqüências e elos causais,
inevitavelmente cria, imagina, fabula: é narrador. Não permanece iluminado
pelas Musas, filhas de Mnemosine? Não permanece irmão do poeta que
compõe “um belo canto”- não nas alturas divinas e inalcançaveis da
montanha, mas na humana planície, “ao pé de Heliconte”?
16

Parecemos, hoje, reinstituir o momento fundante – o mesmo e, ao mesmo
tempo, outro, da própria história, debatendo em torno dos próprios limites / clivagens
do nosso discurso. Se a história, numa Atenas derrotada, não conseguiu efetivar-se
em Ciência Política, como Tucídides almejava, não restaria mais nada ao historiador,
como aponta François Hartog, do que “convencer-se e convencer que a história é,
sem dúvida, útil, (...), agradável, mas também filosófica.”
17
Contemporaneamente,
direção próxima parece tomar Hayden White, quando nos chama atenção para o
caráter, concomitantemente, poético, científico e filosófico do fazer história.
18
Querer
renunciar ao discurso histórico os laços que o aproximam da(s) arte(s), talvez seja,
tristemente, querer romper com a própria radicalidade da história, radicalidade que
implica em escrita/escritura, discursividade e enredamento. Enfim, radicalidade que
implica na própria existência de uma autoria. Pensar hoje a história implica
necessariamente pensar sua própria poética, criadora de sentidos que é, forjadora de
modelos de realidade.
19
Se o metadiálogo da história peca por seu excesso de
formalismo, nem por isso pode ser dispensado. Daí deve emergir a viabilidade e
plausibilidade do discurso histórico. Buscar diálogos possíveis entre a história e a
literatura, é, parece-nos, buscar a própria radicalidade da história. É reinventar a sua
própria dimensão de artefato, de texto, de escrita, de produtora, dentre tantas outras
produtoras/ produtores, de sentido para o mundo.



1
Publicado em Trópicos do Discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: EDUSP, 1994. O
texto originalmente foi publicado em 1966.
2
Sobre estes questionamentos da historiografia ocidental, ver os seguintes textos: Em Que Pensam os
Historiadores ?, de J ean Boutier e Dominique J ulia e Certezas e Descaminhos da Razão Histórica, de
Philippe Boutry. Ambos os textos aparecem em BOUTIER, J ; J ULIA, D. (orgs.). Passados
recompostos; campos e canteiros da história. Rio de J aneiro: UFRJ /FGV,1998. P. p.21-61 e 65-77,
respectivamente.
3
Sobre a exigência das novas alianças e ainda sobre os questionamentos contemporâneos da
historiografia, ver: REIS, J osé Carlos. Escola dos Annales: a inovação em história. São Paulo: Paz e
Terra, 2000. p.126-146.
4
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. Saõ Paulo: Cultrix, 1974. p.143.
5
PESAVENTO, Sandra J . Fronteiras da ficção: diálogos da história com a literatura. Estudos de
História, Franca, v.6, n.1, 1999. p.70-71.
6
AQUINO, Ivânia Campigotto. Literatura e história em diálogo: um olhar sobre Canudos. Passo
Fundo: UPF Editora, 2000. p. 12
7
PESAVENTO, Sandra J . (org.). Leituras Cruzadas: diálogos da história com a literatura: Porto Alegre:
Ed. Universidade/UFRGS,2000. p.8.


8
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Rio de J aneiro: Imago.
p.141.
9
ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Ars Poetica, 1992. p. 55.
10
MOMIGLIANO, Arnaldo. In. FINLEY, M. I. (org.). O legado da Grécia: uma nova avaliação.
Brasília: EdUnB, 1998. p.189.
11
MOMIGLIANO, A. op. cit. p.182.
12
MASSAUD MOISÉS, op. cit. p. 184.
13
HARTOG, François. História de Homero a Santo Agostinho. Belo Horizonte: UFMG, 2001. p.17.
14
BARTHES, Roland. O efeito do real. In. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988. P. 164.
15
FRYE, N. Novas direções do passado. In. Fábulas da identidade: estudos de mitologia poética. São
Paulo: Nova Alexandria, 2000. p. 63.
16
PESSANHA, J . A. Motta. História e ficção: o sono e a vigília. In. RIEDEL, Dirce Côrtes (org.).
Narrativa: ficção & história. Rio de J aneiro: Imago, 1988. p. 298. Texto também publicado em
NOVAES, Adauto (org.). Tempo e história. São Paulo: Cia. das Letras / Secretaria Municipal de
Cultura, 1992. p. 33- 55.
17
HARTOG, F. op. cit. p. 19.
18
WHITE, H. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 1992.
Principalmente p. 17-56.
19
ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético, vol. 1. São Paulo: Ed. 34, 1996. P.
138.

SANEAMENTO EM CURITIBA: SATURNINO DE BRITO E OS MODELOS
FRANCESES

Etelvina Maria de Castro Trindade
Universidade Tuiuti do Paraná/
Universidade Federal do Paraná



Introdução

O final do oitocentos marcou, para a população européia, uma significativa
queda da mortalidade em relação às décadas anteriores, tanto em função do papel
exercido pelos serviços de saúde, quanto pela melhoria das condições de vida em
geral. Simultaneamente, o incremento à vida urbana e o crescimento populacional daí
decorrentes, acrescidos da entrada de contingentes de etnias diversas e grupos
sociais distintos, estimulou contatos mais próximos e maior propagação de moléstias.
O próprio aperfeiçoamento dos meios de transporte foi responsável por disseminar
doenças em locais ainda não contaminados.
Em contrapartida, a descoberta dos agentes de contágio responsáveis pelas
epidemias eliminou certas resistências às reformas sanitárias empreendidas em vários
países, e reforçou o poder coercitivo do Estado no sentido de impor à população
condutas destinadas à preservação ou recuperação da saúde pública. Tratava-se de
soluções que iam desde o saneamento do meio urbano até atividades de pesquisa e
ensino nas áreas médicas e biológicas.
Acompanhando o desenvolvimento do sanitarismo e do higienismo, em países
como a França, a Inglaterra e a Alemanha, a intervenção estatal de controle e
ordenamento do meio urbano, voltou-se especialmente para a adoção de políticas
voltadas ao abastecimento de água e à coleta e tratamento dos esgotos residenciais e
industriais. Foram criados institutos e surgiram publicações voltadas à discussão das
formações urbanas e às condições de vida de suas populações. Completava essa
nova noção de vida urbana, a valorização crescente da preservação e conservação da
natureza na Europa e nos Estados Unidos.
Na França, particularmente, as melhorias urbanas tomaram corpo desde
meados do século XIX, sobretudo no governo de Napoleão III com as reformas
conduzidas pelo Barão de Haussmann, e pelas tentativas de implantação de cidades-
jardins em Tergnier, Lens e Lille, sob influência dos modelos ingleses.
Nesse contexto, escritos de autores como Léonce Reynaud em seu Traité
d’Architecture ou J ean Claude Forrestier sobre a paisagem urbana tiveram aplicação

na gestão das cidades. E, se considerarmos a ascendência exercida pelo pensamento
sanitarista nas modernas políticas urbanas, é possível reconhecer a presença das
idéias de uma boa parte dos engenheiros formados pela Ecole des Ponts e Chaussés
que vieram a ocupar cargos públicos e a publicar trabalhos na área, como Bechmann,
Debauve, Imbeaux, Thierry, entre outros. No setor médico, a atuação e os escritos de
Calmette, Chantemesse, Macé e Mosny iriam estabelecer ligação com profissionais do
mundo todo, e com a Faculdades de Medicina, Institutos de Pesquisa e órgãos
governamentais afetos aos setores da saúde e saneamento.
Boa parte da produção da época era apresentada sob a forma de grandes
coleções e tratados, compreendendo vários volumes, cada um dedicado a
determinado tema. É o caso do Traité d’Hygiène organizado por Brouardel,
Chantemesse e Mosny, contando aproximadamente, vinte tomos que abordam
assuntos como a higiene nas cidades, na zona rural, nas indústrias, nos hospitais, na
alimentação, bem como o controle dos animais, depuração dos esgotos e
fornecimento de água potável. Além desse Tratado, outros são constantemente
mencionados à época sob os títulos de Technique Sanitaire, Biologie Médicale,
Histoire Naturelle – denominações genéricas que, considerando-se os nomes dos
organizadores, indicam obras de largo uso na França daquele período.
Por outro lado, uma extensa legislação procurava dar conta das reformas
necessárias, como a legislação municipal francesa de 1837, a 1897 e as do século XX,
como a lei sanitária de fevereiro de 1902, todas igualmente importantes nas
determinações emanadas dos relatórios oficiais feitos por técnicos ligados à então
Prefecture de la Seine, depois de Paris.
Muitos dos reformistas urbanos brasileiros passaram pelas academias
francesas leram os tratados de higiene e sanitarismo, estudaram a legislação francesa
e empenharam-se em aplicar esses conhecimentos à realidade local, mesmo que não
atingissem, in totum, os resultados desejados.

Políticas urbanas e sanitarismo no Brasil.

No que se refere às determinações gerais para todo o território nacional, as
práticas sanitaristas da Primeira República buscaram acompanhar, no Brasil, os
avanços mundiais da ciência e da técnica nos campos médico e sanitário. Certos
estudos foram realizados individualmente por alguns pesquisadores ou em Institutos
de Pesquisa fundados em São Paulo e Rio de J aneiro. Tudo isso contribuiu, como
ocorrera em outros países, para o estabelecimento e a consolidação dos saberes e
poderes dos médicos e dos engenheiros.

Eixo das transformações econômicas e sociais do período enquanto região da
cultura cafeeira, o centro-sul do país abrigava cidades que eram pólos de atração das
atividades econômicas e administrativas do país: Rio de J aneiro e São Paulo - centros
que se tornam exemplares numa discussão que trate das políticas públicas e de saúde
no período em questão.
Em virtude das novas preocupações sanitaristas, desenvolveram-se para essas
cidades, bem como para outras capitais do Brasil, projetos de vários profissionais,
geralmente formados no exterior, que visavam a solução de problemas técnicos e
planejavam o embelezamento dos espaços urbanos, utilizando modelos exógenos.
Em grande parte dos casos, a apropriação de modelos gerou distorções no
desenho urbano e causou grandes problemas no que se refere à organização e gestão
dos espaços comprometidos pelas reformas empreendidas, além de gerar protestos
por parte da população e críticas daqueles mais informados sobre a inadequação de
tais transposições.
Enquanto se implementavam essas reformas nos principais centros do país,
começava, na cidade de Campos, interior do Estado do Rio, a trajetória de um
personagem cujos conhecimentos influenciariam boa parte do país na área do
saneamento urbano. Engenheiro formado pela Escola Politécnica de Engenharia, o
campista Saturnino de Brito foi adepto das técnicas francesas e mantinha interlocução
com Edouard Imbeaux, doutor em medicina, engenheiro em chefe do Departamento
de Ponts et Chaussés na França, especializado em questões de abastecimento de
água e esgotos. Boa parte da obra escrita por Imbeaux versava sobre os alvos do
saneamento no meio urbano: solo, vias públicas, habitação, indivíduos, doenças
transmissíveis e sociais, dejetos. (MACE, et alii., 1910). Sua presença no corpo
técnico encarregado da gestão de Paris dava autoridade ao seu discurso sobre
assuntos urbanos.
A partir de sua atuação em Campos, Brito criou uma verdadeira escola de
seguidores e desenvolveu inúmeros projetos para várias cidades brasileiras, como
Santos, Recife, Santa Maria e Paraíba do Sul.
Embora ligado aos princípios do sanitarismo e do higienismo francês, o
engenheiro campista opunha-se à abertura de grandes avenidas à moda de
Haussmann, como preconizavam vários urbanistas brasileiros - e como fora realizado
no Rio de J aneiro. Seu caráter de reformista e disciplinador dava preferência à
abertura de “vielas sanitárias” para saneamento de quarteirões. Enfatizava também as
questões administrativas, legislativas e educacionais para o atingimento das reformas
planejadas.(CIDADES BRASILEIRAS, 1998 p. 198-119). Tecnicamente, Brito adotava
preceitos considerados os mais avançados para sua época, enquanto, em suas

análises do social, julgava a classe operária a principal responsável pela insalubridade
e desordens urbanas; o que dava a suas propostas um tom preconceituoso, desigual e
elitista.
Apesar disso, sua fama nacional e a admiração mútua que o ligava a Moreira
Garcez, o impulsionador de vários planos de tratamento de águas e esgotos em
Curitiba, trouxeram Saturnino a essa cidade no início do século XX, numa tentativa de
dar solução à insalubridade e às epidemias que ali grassavam.

Saturnino em Curitiba.

Em Curitiba, como em todo o Brasil, em meados do século XIX quase nada se
havia alterado em uma concepção de cidade que se desenvolvia nos moldes do que
se pensava na Europa até o século XVIII. Mas, a partir de sua instalação como capital,
em 1854, o governo e as autoridades municipais passaram a conceber medidas que
controlassem suas condições de higiene. Mas foi depois de 1912, quando assumiu o
governo do Estado Carlos Cavalcanti de Albuquerque, e nas gestões seguintes de
Affonso Alves de Camargo e Caetano Munhoz da Rocha, que a cidade, enquanto
espaço de beleza, saúde e higiene foi colocada em questão. Entre 1912 e 1916,
embora tenha recebido críticas no que se refere a um certo descaso pelas medidas
sanitárias, o engenheiro Cândido de Abreu, prefeito nomeado no governo de Carlos
Cavalcanti tomou várias iniciativas em direção ao embelezamento da cidade que
foram decisivas para seu desenvolvimento.

No arrolamento feito por Cavalcanti das obras conduzidas por Cândido de
Abreu não estão ausentes as preocupações com a higiene preventiva. O governo de
Caetano Munhoz da Rocha, que se seguiu, não descurou, igualmente, da questão da
higiene pública, planejando a construção do Laboratório de Análises Clínicas e
Microscópicas, do Laboratório São Roque, do Instituto Pasteur e de dispensários para
tuberculosos.
Foi também sob a direção de Munhoz da Rocha que ocorreu um dos
momentos mais marcantes dessas medidas. Trata-se do programa de remodelação
para o serviço de distribuição de água potável e de esgotos proposto por Saturnino de
Brito para Curitiba, em 1920, por solicitação do governo estadual.
Redigido claramente por alguém com bastante experiência no ramo, o plano de
Saneamento de Curityba. Estado do Paraná – por Francisco Saturnino de Brito –
Engenheiro Civil, é um texto alentado, dividido em duas partes. A primeira,

denominada Estudo Preliminar, traça o histórico e o panorama da situação sobre os
serviços existentes e fornece um parecer sobre eles, seguido da proposta de
remodelação. Nesse item, Brito menciona freqüentemente a incidência de moléstias
como febre tifóide, paratifo e gripe, como conseqüências funestas do mau
agenciamento do transporte hídrico na cidade. E descreve os debates ocorridos na
Assembléia Legislativa sobre as soluções possíveis a serem dadas à questão, e da
qual participaram médicos e engenheiros cujos nomes são conhecidos até hoje em
Curitiba. A segunda parte, chamada Estudos Definitivos, de caráter eminentemente
técnico, esmiúça os detalhes da nova proposta, tratando de temas como topografia
sanitária, salubridade e abastecimento de águas e esgotos.
Ao mencionar iniciativas historicamente ocorridas na cidade na organização da
rede de águas e esgotos, Saturnino refere-se à utilização de indicações do médico
francês Calmette e o uso das fórmulas de Darcy. E quando descreve as discussões
desenvolvidas na Assmbléia sobre o saneamento de Curitiba, dá destaque a Moreira
Garcez, citando literalmente passagens em este se refere aos mestres de Saturnino,
Debauve e Imbeaux:

O Sr. Dr. Moreira Garcez que, com esclarecido discernimento em
relatórios de anos anteriores à epidemia chama a atenção para a
necessidade de ser evitada esta (....) citando Debauve e Imbeaux, diz
que (...) a epidemia se tem desenvolvido em determinadas zonas.
Somente a análise das águas acrescenta o orador, poderá dizer
definitivamente a verdade.(BRITO, 1922-1923 P. 14).

Simultaneamente, o projeto de Brito, recheado de citações de seus outros
programas para Recife, Santos e Paraíba do Sul, contém ainda referências a uma
obra de sua autoria redigida em francês, Le Tracé Sanitaire des Villes, além de
citações de vários sanitaristas franceses
O Relatório do Governo do período seguinte (1923-1924) já faz menções a
obras executadas a partir do projeto de Saturnino de Brito, em relação à captação de
águas e abastecimento da zona alta da cidade. (RELATORIO DA SECRETARIA
GERAL DO ESTADO, 1923-1924).
Nos anos de 1926, 1927 e 1928, foram constantes as referências a uma
melhoria do abastecimento de água em Curitiba, com grande benefício da população,
através de captações realizadas nas serra, elevação mecânica das águas dos rios
Cayguava e Carvalho e remodelação da rede de água para abastecimento da zona
alta da cidade, bem como ampliação da rede de esgotos.

Progressos a que certamente não estava alheia a proposta de Saturnino .

Reconsiderando as apropriações.

O quadro que se tentou esboçar até aqui, conduz, a uma inquietação sobre as
dificuldades de analisar-se a pertinência dos modelos adotados. Pois em um estudo
que relacione sanitarismo no Brasil com a noção de apropriação de modelos, é
sempre pertinente relembrar o que Marc Bloc considera condições indispensáveis a
um estudo comparativo: “uma certa analogia entre os fatos observados e uma certa
dissemelhança entre os lugares onde eles se produzem”.(SALGUEIRO .....).
Tal observação, é extremamente pertinente no caso da disseminação das
propostas de reformas urbanas no Brasil, se levarmos em conta a impossibilidade de
generalizar-se categorias e procedimentos que são específicos a uma sociedade, em
determinado tempo. Não é demais ainda recordar que os modelos estrangeiros
transpostos para o Brasil foram gestados nas condições de desordem urbana e
insalubridade geradas pela industrialização na Europa (TELAROLLI, 1996, 16-20).
J á no caso brasileiro pode-se destacar que, ao final do século XIX e começo do
XX, o país passava por um momento totalmente diverso, de transformação da
economia escravocrata do período imperial para um regime que se pretendia liberal no
pensamento e nas práticas econômicas - o que não caracterizava, porém, uma
transição capitalista na sua forma clássica.
Cabe, igualmente, questionar aqui, em que medida os modelos importados
pelo Brasil, na Primeira República, nas áreas de higiene e saneamento, configuraram-
se como uma verdadeira política pública ou foram mera aplicação de medidas
apropriadas, um tanto a esmo, em função de modelos exógenos, como ocorria no
conjunto das reformas urbanas. Seja como for, é verdadeiro que o discurso médico e
sanitário, em conformidade com as ações do governo, acabou por impor a implantação
de práticas que superaram o ideário republicano e positivista e a precariedade do
conhecimento científico disponível no país.
Assim, na questão específica do sanitarismo brasileiro, sem abandonar as
referidas cautelas, talvez seja possível adotar uma posição de meio termo. Pois é
válido que muitos autores levantem a tese das “ídéias fora do lugar” em suas análises
sobre a transferência das idéias iluministas ou do liberalismo para o Brasil (Schwraz,
1981); ou que outros julguem inadequadas as apropriações de formas e políticas
urbanas que são conjunturais e efêmeras, sem levar-se em conta tanto as diretrizes de
sua concepção, quanto às condições de sua realização (SALGUEIRO, 1995).
Na verdade, no que tange à apropriação dos modelos sanitaristas no Brasil, é

inegável o descompasso da sociedade brasileira em relação aos países em estágio de
capitalismo avançado no momento da implantação maciça dos procedimentos na
Europa e Estados Unidos. Tal constatação foi um dos resultados desse estudo.
No entanto, é igualmente inegável, que o outro resultado foi perceber que o
esforço realizado pelo saneamento no Brasil incentivou a regularização da profissão
médica e de engenheiros cujos representantes ajudaram a legitimar a presença do
Estado nas questões de saúde e higiene públicas. Nesse sentido, a apropriação no
Brasil, e em Curitiba, das idéias do sanitarismo europeu, especialmente o francês -
mesmo tendo-se em conta os obstáculos e as inadequações que acompanharam o
processo - apresentou menos distorções em relação ao modelo original do que
transferências verificadas em outras áreas e circunstâncias – caso das reformas
urbanas empreendidas em território nacional, no período estudado.

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A VOZ INSTITUIDA: poder e instituição no olhar do bispo do Paraná D. José
Camargo de Barros.

Euclides Marchi
UFPR/UNICENP



Este texto tem como objetivo aplicar alguns dos conceitos propostos pela
análise do discurso utilizando-se para isso a primeira Carta Pastoral de Dom J osé
Camargo de Barros, escrita no dia de sua sagração, após ser indicado para ocupar a
diocese de Curitiba, uma das quatro criadas no início da República.
Ao separar-se do Estado, a Igreja iniciava uma trajetória de liberdade e
precisava constituir-se e construir-se como instituição. De imediato, o episcopado
brasileiro solicitou ao papa a criação de dioceses e a sagração de novos bispos. Em
atendimento a esse pedido, no dia 7 de abril de 1892, pela bula “Ad universas orbis
ecclesias”, Leão XIII dividiu o território brasileiro em duas grandes regiões,
denominadas Província Eclesiástica do Norte e Província Eclesiástica do Sul com
Sedes na Bahia e no Rio de J aneiro, respectivamente. A primeira incorporava os
bispados de Belém, Maranhão, Fortaleza, Olinda e Goiás e os recém-criados do
Amazonas e da Paraíba, enquanto a segunda ficava com o Rio Grande do Sul, São
Paulo, Mariana, Diamantina e Cuiabá e os novos de Niterói e Curitiba.
Por esta mesma bula o bispado de Curitiba ocuparia os estados de Santa
Catarina e do Paraná, desmembrados da diocese de São Paulo. Aos 19 de março de
1908, Santa Catarina passava a ter sua própria diocese com sede em Florianópolis e
em 07 de junho de 1908 a diocese de Curitiba era incorporada à nova Província
Eclesiástica de S. Paulo. Finalmente, pela constituição apostólica "Quum in dies", de
16 de maio de 1926, Pio XI elevou Curitiba a dignidade de Sede Arquiepiscopal, tendo
como sufragâneas as dioceses de Ponta Grossa e J acarezinho e a Prelazia de Foz do
Iguaçú .
Um olhar sobre as dioceses brasileiras daquele período revela, de imediato,
suas enormes extensões geográficas e as dificuldades de transporte e de
comunicação. Tudo leva a crer que os contatos entre os sacerdotes e o povo católico
para o atendimento das demandas religiosas eram raros e precários. Essa situação
teve um reverso marcante: a população brasileira, religiosa por tradição, ressentindo-
se da ausência do clero afastou-se do culto tradicional e aderiu aos rituais caseiros,
passando a cultuar santos e a realizar festas que nem sempre agradavam a hierarquia
católica.
A laicização dos rituais foi registrada tanto pelos textos do clero, quanto pelos
relatórios dos governantes. O Dr. J osé Pedrosa em 1881, quando Presidente da
Província, declarava:

Muito descurado, senhores, vai o culto público. Uns atribuem o mal, feitas
as devidas e raras exceções, ao pouco zelo dos párocos pelo interesse da
Igreja; outros explicam com o indiferentismo do povo pela causa da religião.
Os templos, outrora enchiam de fiéis, aos domingos, para ouvirem a missa
conventual. Hoje rareiam os assistentes, e nesta capital, são os
estrangeiros que se mostram devotos
1


No relatório de 1882, a descrição é ainda mais contundente:

(...) o estado religioso da província não é satisfatório, e ao ver-se o
abandono, em que por aqui anda o culto, que se pode acreditar que a
religião irá desaparecer, a menos que se repita a encarnação do Verbo
Divino. As igrejas com obras que nunca se acabam, estão em estado
vizinho da indecência. E o povo como que para furtar-se de tão triste
espetáculo, deixa de freqüentá-las, e assim se vai aos poucos a crença dos
nossos maiores
2


Mas, apesar dessa precariedade, o povo continuava fiel à sua religiosidade,
porém um tanto afastado do culto proposto pela hierarquia católica. J osé Molinari,
missionário escalabriniano no Paraná, em carta enviada a seu irmão em 1889, assim
descrevia o espírito religioso do povo:

Diversas vezes estive na casa de brasileiros, e a primeira coisa que fazem
é se apresentar ao padre com as mãos juntas, cabeça inclinada, pedindo a
bênção. Logo em seguida oferecem alguma coisa para comer e beber.
Para assentar-se, não tem senão algum caixote ou tronco de madeira. Mas
se na casa houver uma imagem de um santo, avisam logo que não se pode
sentar por aí pela presença do santo. Todos trazem um rosário no pescoço,
que fazem eles próprios com aquelas sementes que chamamos de
lágrimas de Nossa Senhora, encontradas facilmente nas matas. O
brasileiro é muito sóbrio no comer e no beber. Pode-se dizer que não
conhece a blasfêmia. Se não fosse o sexto mandamento, poder-se- ia dizer
que seria um povo modelo
3
.

A esse registro, acrescentava os comentários sobre o comportamento do clero.
Assim escrevia: “Mas que fazer, se os próprios párocos tem mulheres em casa, tem
filhos e filhas que não se envergonham de manter em casa, e de apresentá-los como
tais!" O padre Colbachini, colega de Molinari, narrava outro episódio representativo:

Um certo Revmo. Pe. José do Prado (filho sacrílego de sacerdote) era
pároco de Curitiba, e dava tantos escândalos que a fé do povo padeceu
gravíssimo dano. Não ouvia confissões, e aos nossos italianos que
solicitavam, respondia: não seja louco, não precisa de confissão! Em oito
minutos celebrava a missa (...), tomava café antes da missa; tinha mulheres
em casa, sob o título de afilhadas
4
.

Sobre o pároco de S. J osé dos Pinhais afirmou: "O falecido vigário de S. J osé
dos Pinhais tinha mulher e filhos em casa conhecidos por todos (também pelo bispo),
tendo já dado antes outros escândalos. A última mulher era uma esposa com marido
vivo. A igreja caindo aos pedaços, os paramentos dilacerados e imundos: tudo em
péssimo estado”. Acrescentava que os párocos: “Dizem a missa quando lhes agrada
ou quando tem encomenda, e quase todos livram-se dessa obrigação em dez
minutos ou pouco mais. Não se prestam para confessar sequer os moribundos. Sobre
100 pessoas, morrem 99 sem sacramentos seja na cidade seja na zona rural"
5
.
As referências tanto aos católicos quanto ao clero constituíam a realidade da
nova diocese e davam os indicativos para o trabalho do primeiro bispo.
Embora criada em 1892, Dom J osé Camargo de Barros assumiu o governo da
diocese somente em 1894. Era ele um paulista de Indaiatuba, formado nos mais
legítimos princípios do catolicismo romanizado. Um prelado zeloso e cônscio dos seus
deveres e decidido a cumprir o que determinava a Sé Romana.
Ao ser sagrado bispo D. J osé enviou uma Carta Pastoral aos seus diocesanos,
escrita em 24 de junho de 1894, dia de sua sagração. Nela estabelecia os conceitos
fundamentais de sua concepção sobre diversos aspectos da vida religiosa e definia os
parâmetros do discurso que passaria a vigorar a partir daquele momento.
O texto da carta suscita uma série de pontos que permitem analisá-la como um
importante discurso da hierarquia católica ou da autoridade máxima que assumia uma
nova diocese. É uma carta de saudação aos diocesanos no dia da sagração de seu
bispo. Portanto, é um documento especial, anunciado num dia especial.
A carta começa com uma saudação do enunciador aos enunciatários. A eles
refere-se assim: “Veneráveis Irmãos e Dilectíssimos Filhos”. Expressão que repete por
cinco vezes. Empenha-se em estabelecer uma condição de irmandade entre os
sacerdotes e o bispo e de filiação e irmandade entre ele e os católicos; e para que
esta relação seja melhor compreendida, assim descreve sua figura:

Surgindo do pó em que jazíamos, porém já collocado entre os príncipes da
casa de Deus (...); com a fronte ainda rorejada pelo óleo santo (...) o nosso
primeiro pensamento voa para vós, ó veneráveis Irmãos e Filhos
diletectíssimos, e o primeiro desejo de nosso coração é ver-vos, afim de
communicar-vos algumas das celestes graças que a plenitude de Espírito
Santo acaba de depositar em nossas mãos
6
.

O texto revela que o enunciador coloca-se humildemente perante seus
colaboradores. Irmão e pai, está ao lado de seus pares, porém acima dos demais fiéis.
Observe-se que somente ele está colocado entre os príncipes da casa de Deus. O
enunciador foi sublimado às alturas do episcopado, enquanto os enunciatários serão
atendidas por Deus por intermédio do enunciador. Eis o que declara: “(...) fechando os
olhos à nossa indignidade, nos sublimou às alturas do Episcopado e tocado pelas
vossas necessidades vos abre pelas mãos de seu enviado os thesouros de sua
graça”
7
.
O ser nomeado bispo não depende do enunciador e nem estava nos seus
planos. Todavia, sem que nunca tivesse ambicionado tal cargo, foi elevado à
superiminente dignidade de Príncipe da Casa de Deus, de sucessor dos apóstolos no
santíssimo ministério da salvação das almas. E reiteradamente repete: “somos vosso
Bispo”.
O enunciador insiste na idéia do “ser chamado” e do “ser enviado”: “Quando
assim vivíamos tranqüilo em nossa obscuridade, como um relâmpago, das alturas do
Vaticano ouvimos uma voz, que apontando-nos para a nova Diocese de Curitiba,
disse-nos: Levanta-te, toma teu cajado e vai, aquele é teu novo rebanho”
8
. Está posta
neste texto a figura do pastor, tão difundida e tão conhecida de toda a catolicidade.
Todavia, na carta descreve também o momento da angústia, do medo; não
porque desconfiasse de seus enunciatários, mas porque a dignidade episcopal era
algo muito sério. E porque deveria ser ele o bispo? Aí está um dos aspecto relevantes
do discurso: ele não vinha em nome dele, nem mesmo por decisão de seus fiéis.
Havia algo que era comum a enunciador e enunciatários e que definia a condição de
ambos: a Igreja e o Papa. Vinha por indicação do Papa, representante supremo da
Igreja. Por isso, se ele aceitou a missão com profunda humildade, os fiéis deveriam
aceitá-lo não por ser ele D. J osé Camargo de Barros, mas porque ele era o BISPO.
Portanto, se foi Deus que o chamara, já não lhe restavam dúvidas: deveria
responder positivamente à voz do “Santo Padre”. Sua decisão foi ancorada no
exemplo de Cristo no J ardim das Oliveiras: “seja feita a santa vontade de Deus e não
a nossa”
9
.
Dada esta resposta, o discurso muda de tonalidade: do temor passa à
fortaleza. O Bispo tornava-se apóstolo, iluminado pelo fogo sagrado. E destacava:
“Não é em nosso nome, não é arrimado no frágil bordão da nossa pouca experiência,
não é escudado pela insuficiência de nossas virtudes, que vamos vos dirigir; é em
nome de Deus onipotente, d’aquele que pode converter as pedras em filhos de Abraão
(...)”
10
. E reiterava: “lembrai-vos que fomos enviado pelo Espírito Santo para reger
essa nobilíssima Diocese em nome de Deus. E isto é quanto nos basta”
11
.
Havia portanto uma disposição do enunciador de pregar a mensagem e
certamente esperava que o mesmo ocorresse com os enunciatários para recebê-la.
Para isso, o discurso assumia um caráter didático: definia o cargo de bispo
perguntando: O que é pois um Bispo? usando os dizeres de São Paulo respondia: é
um servo de Deus, eleito apóstolo por vocação divina e enviado para semear a palavra
da salvação, pela prédica do evangelho, que Deus prometeu por seus profetas nas
Sagradas Escrituras. O bispo era o continuador da missão de J esus com poder para
santificar e salvar: “todo o poder me foi dado no céu e sobre a terra, ide, e com os
mesmos poderes que recebi de meu Pai eu vos envio; ide, pois, ensinai a todos os
povos”
12
.
As duas principais virtudes do bispo eram: ser a Luz do mundo e o Sal da terra.
Assim: “o que sanciona o poder do Bispo perante os povos é a sua enviatura divina”, e
acrescenta: “o verdadeiro pontífice não é aquele que por si mesmo usurpa esta honra,
mas aquele que é chamado por Deus, como Arão”
13
. Portanto, o bispo é constituído
apóstolo pela vontade de Deus, por ordem de Deus, por J esus Cristo e não pelos
homens.
Cabe ressaltar que o reconhecimento da autoridade necessitava de um ritual
de nomeação. O enunciador assim se manifestava: “A primeira credencial pois, a
reclamar daquele que vem vos anunciar a palavra divina é que ele comprove a
legitimidade de sua missão, que mostre que foi enviado por Deus. Sem esta primeira e
essencial condição, ninguém pode apresentar-se no meio de um povo, como pregador
do Santo Evangelho”
14
. Mas esta nomeação para ser autêntica deve ser tornada
pública tanto pelo ritual de nomeação, quanto pelo ritual de instituição (ato de instituir
alguém). E ele dizia: “Quanto a nós, ficai tranqüilos, temos recebido essa divina
missão e para prová-la, se não basta a nossa nomeação, se não basta o decreto
pontifício de nossa confirmação, temos o fato soleníssimo e público de nossa
sagração”
15
.
O ritual de sagração conferia eficácia simbólica à autoridade do bispo
especialmente porque ele seria a garantia da fidedignidade da nomeação e do poder
legal conferido ao enunciador em ato público e solene. Por isso, o bispo vinha para a
sua nova diocese instituído do poder daquele que o enviou, sagrado e consagrado
pelo ritual presidido por aquele que o representa aqui na terra: o papa. Era ele
portador de um título oficial que lhe outorgava o poder de representar uma autoridade
e como tal constituía-se em porta-voz dotado do direito e do poder de falar, de agir e
de mandar em nome do grupo e para o grupo (ou até mesmo sobre o grupo).
Portanto, passa a ser uma voz instituída, que fará uso de uma linguagem
autorizada, portador das condições sociais e legais de uso do discurso e da ação.
Bourdieu diz que “o poder das palavras é apenas o poder delegado do porta-voz cujas
palavras constituem no máximo um testemunho, um testemunho entre outros da
garantia da delegação de que está investido”
16
. Um exemplo dessa afirmação poderá
ser encontrado na carta episcopal quando D. J osé afirmava: “Desta investidura divina,
como de sua verdadeira fonte, dimanam muito naturalmente as grande prerrogativas
do Bispo, os seus santíssimos intuitos e seus gravíssimos deveres”
17
.
Respaldado nesta investidura, o discurso assume um caráter institucional,
representa uma autoridade maior e por isso é importante que se exprima em situações
solenes. Sua autoridade não lhe era intrínseca, ao contrário, vinha de fora, pois foi:
“J esus que o fez participante dos divinos poderes que ele legou a sua Igreja. (...)
formada de fiéis que estão subordinados a seus legítimos pastores em união com o
Papa, Vigário de J esus Cristo na terra, que professam a mesma fé e que participam
dos mesmos sacramentos”
18
.
Bourdieu ressalta ainda que: “todos os esforços para encontrar na lógica
propriamente lingüística das diferentes formas de argumentação, de retórica e de
estilística, o princípio de sua eficácia simbólica, estão condenados ao fracasso quando
não logram estabelecer uma relação entre as propriedades do discurso, as
propriedades daquele que as pronuncia e as propriedades da instituição que o
autoriza a pronunciá-lo”
19
.
Por essa autoridade conferida ao bispo ele se considerava investido de três
grandes prerrogativas: “o poder de governar, de ensinar e santificar”
20
. A partir da
investidura ele fora transformado em pastor, mestre e pontífice.
Todavia, o poder, para que seja representado e para que os enunciatários o
visualizem, necessita de alguns componentes simbólicos. Uma autoridade consegue
governar se tiver a colaboração daqueles a quem governa, ou seja, precisa da
cumplicidade dos governados. Por isso o Bispo não poderia abrir mão dos atributos
simbólicos do seu magistério ou de sua autoridade, dos objetos sagrados, dos ritos e
dos símbolos. D. J osé deixava explícito essa representação simbólica ao dizer que
como: “Pastor, ele empunha o báculo do governo das almas (...). Mestre, ele tem em
suas mãos o santo Evangelho (...). Pontífice, tem sua fronte ornada pelo brilho da
mitra e santifica os fiéis pelo sangue da vítima divina com que asperge o seu povo”
21
.
Seu poder de governar ficava ainda mais explícito quando afirmava que: “O
Bispo, investido do poder de governar, recebeu de Deus o poder não só de dirigir pelo
conselho e pela persuasão, mais ainda de mandar por leis e de forçar por um juízo
exterior e penas salutares a obediência às suas leis”
22
. Nele se concentrava o poder
legislativo, judiciário e coercitivo. Poder de definir leis, julgar, proibir, permitir, condenar
e absolver.
Cabe acrescentar que o discurso necessita das condições institucionais para
que seja reconhecido, isto é, recebido e aceito como tal. Assim, o enunciador
destacava que o mesmo poder que o papa tem em toda a Igreja, ele (bispo) o teria em
sua diocese. Estabelecia, portanto, os parâmetros e os limites de sua ação e de seu
poder, bem como redefinia os procedimentos dos párocos e dos fiéis.
Essa ação ganharia eficácia simbólica se os diocesanos reconhecessem que
quem a estava definindo era o bispo e que ele poderia fazê-lo. Sobre isso a carta era
explícita: “Este vasto poder, porém, foi confiado ao Bispo para a edificação e não para
a destruição do templo místico de Deus; pelo que não deve exercê-lo de modo duro e
cruel a guisa dos tiranos, que se comprazem em humilhações e sofrimentos dos
súditos”
23
. Ressaltava que os bispos eram pastores e não algozes e deveriam presidir
os súditos como a quem amam, como irmãos e filhos.
A consolidação dessas diferenças entre quem detém o poder de mando e
quem deve obedecer passa pelo ritual de instituição. Trata-se de um rito de passagem,
de consagração e de legitimação. O bispo falava como alguém instituído e
consagrado; alguém que passou pela cerimônia de sagração episcopal, na qual a
instituição o fazia lembrar que ele deveria ser pastor e pai. Por isso, além do báculo
que representava o regime pastoral, também colocava-lhe no dedo da mão direita um
anel. O anel representava o selo das núpcias místicas que o bispo contraiu com sua
diocese e lhe recordava o dever de residência e de fidelidade para com a Igreja, sua
mística esposa, fazendo nascer em suas entranhas o amor paterno, ou melhor, a
solicitude materna para com os seus diocesanos.
Assim, se no dizer de Bourdieu, “A investidura consiste em sancionar e em
santificar uma diferença, fazendo-a conhecer e reconhecer, fazendo-a existir enquanto
diferença social e portanto capaz de agir sobre o real e sobre a representação do
real”
24
, D. J osé, investido e sagrado, estabeleceu tanto os parâmetros de seu poder,
quanto os símbolos institucionais que lhe garantissem a representação desse poder
como por exemplo as roupas, o anel, o barrete e as vestes cujo papel fundamental era
o de serem portadores de signos distintivos que confirmavam a passagem do Bispo
pelos rituais de instituição e de delegação de poderes. No entanto, se para garantir a
eficácia simbólica era necessário produzir representações sociais, a pergunta sobre
“Quem é o bispo” (?) tornava-se fundamental não pela sua resposta, mas pelo
referencial que ela estabelecia. Ele era um religioso investido da mais alta autoridade
na sua diocese, incumbido de reger as coisas sagradas sob orientação maior do papa,
falava com autoridade da e pela Igreja. Tinha a autoritas, dentro das fronteiras de sua
diocesis.
Para descaracterizar o estigma do poder pelo poder, a Carta ressaltava que, de
acordo com o que fez o “divino mestre”, o bispo também tinha o poder de ensinar e
esta era a sua grande missão. Seguindo os passos de J esus, a Igreja era a escola por
Ele fundada e, portanto, coluna e firmamento da verdade. Por isso, o Bispo, em sua
diocese, não trabalhava com conjecturas, mas sim com verdades.
Como nos ensina Bourdieu, o bispo tornava-se o especialista maior em
assuntos da religião e, em princípio, ele ou aqueles por ele indicados, deveriam deter
o monopólio das explicações e do sentido dos bens sagrados. A missa, os
sacramentos e os demais bens sagrados da fé e da liturgia recebiam interpretação e
análise institucional, exarada pelos que foram consagrados e instituídos para fazê-lo.
Para que o conjunto de rituais e poderes tivessem eficácia era preciso que
ocorresse um desapossamento e uma fides implícita. Os enunciatários deveriam
passar por um processo de conversão e de aceitação de que aquilo que estava sendo
dito era realmente verdade possível e passível de crença. E destacava que eram
“santíssimos os intuitos do bispo” e se Deus acumulara tantos tesouros em suas
mãos, não eram para ele, mas para o povo. Por isso, “Desde sua sagração, o Bispo
não se pertencia mais: com sua vida, sua saúde, suas forças, suas faculdades, seus
pensamentos, seus afetos, seus bens, com tudo quanto é e quanto tem, ele pertence
ao seu rebanho e torna-se devedor a todos, aos ricos e aos pobres, aos grandes e aos
pequenos, aos sábios e aos ignorantes”
25
.
Era o desapossamento pessoal e o mesmo deveria ocorrer com os seus fiéis.
Por ele, o bispo deveria corrigir os erros, estimular as virtudes, opor-se ao mal,
proteger o bem, combater a iniqüidade, propagar a santidade, enfim, salvar e
santificar. Portanto, “receber um Bispo é receber o mais eficaz elemento de concórdia
entre as famílias, a mais sólida garantia da paz e o mais enérgico fator do bem
entendido progresso de um povo”
26
.
Ele seria um vigiador e como pastor deveria proteger seu rebanho contra todos
os adversários e inimigos. Era um evangelista, pregador não somente pela palavra,
mas pelo exemplo. Vigiar e Ensinar, cabendo-lhe o dever de definir o que ensinar e
como vigiar.
Se o enunciador tinha deveres, o enunciatário também teria os seus e o Bispo
os definia dizendo: “ao receberdes esta nossa carta pastoral, mensageira de nossas
cordiais saudações e das primícias de nossa mais alta estima e santa afeição para
convosco, o primeiro dever que a vós incumbe é o de orardes e orardes muito pelo
vosso Bispo”
27
. O segundo dever era a docilidade; submissão a tudo o que emanasse
da autoridade episcopal. Finalmente, o terceiro dever era a dedicação e coadjuvação.
Com isso o discurso passava a integrar o enunciador e os enunciatários no mesmo
processo de trabalho e nos mesmos compromissos. Todos se tornam co-responsáveis
pelo sucesso do governo da diocese.
Na saudação final o enunciador destacava a importância do clero, chamando-o
de “venerando clero” e “reverendos párocos”. Envolvia-os na tarefa de salvar almas e
administrar a diocese. Sua prestabilidade não se limitava ao bispo, mas a Deus e à
Igreja. O bispo não se colocava no lugar de Deus ou da Igreja, nem os substituía. Ele
era apenas mais um representante. Por isso, os seus deveres deveriam ser
partilhados. A ele caberia ensinar, pregar, administrar os sacramentos e conduzir a
cerimônias religiosas.
O enunciador não esquecia das autoridades constituídas: governantes e
cidadãos. Assumindo um discurso apoteótico, a carta no seu final destacava:
“Queremos apenas dizer que no meio de vós tereis um bispo disposto a sacrificar tudo
e a própria vida, se preciso for, pela prosperidade de sua Diocese. Avante, pois,
Avante! Prossigamos em paz em nome do Senhor, porque nossa é a vitória”
28
.

1
AZZI, Riolando. A Igreja e os Migrantes. São Paulo: Paulinas, 1987, p.208.
2
Idem, p. 209.
3
Idem, ibidem.
4
Idem, p. 210.
5
Idem, p.211
6
IGREJ A CATÓLICA. BISPO. BARROS, D. J osé C. de Carta Pastoral (saudando aos seus Diocesanos
no dia de sua sagração). Collecção das pastoraes, circulares e mandamentos etc. Corytiba: Imp.
Paranaense, 1900, p. 17.
7
Idem, ibidem
8
Idem, p. 18
9
idem, p. 19.
10
idem, ibidem.
11
idem, ibidem.
12
idem, ibidem.
13
idem, p.20
14
idem, p.20.
15
idem, ibidem.
16
BOURDIEU, P. A economia das trocas lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1996, p.87
17
IGREJ A CATÓLICA. BISPO. BARROS, D. J osé C. de Carta Pastoral (saudando aos seus Diocesanos
no dia de sua sagração). Collecção das pastoraes, circulares e mandamentos etc. Corytiba: Imp.
Paranaense, 1900, p.20.
18
idem, p. 20/21.
19
BOURDIEU, P. A economia das trocas lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1996, p.89.
20
IGREJ A CATÓLICA. BISPO. BARROS, D. J osé C. de Carta Pastoral (saudando aos seus Diocesanos
no dia de sua sagração). Collecção das pastoraes, circulares e mandamentos etc. Corytiba: Imp.
Paranaense, 1900, p.21.
21
idem, ibidem.
22
idem, ibidem.
23
idem, p. 22.
24
BOURDIEU, P. A economia das trocas lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1996, p. 99.

25
IGREJ A CATÓLICA. BISPO. BARROS, D. J osé C. de Carta Pastoral (saudando aos seus Diocesanos
no dia de sua sagração). Collecção das pastoraes, circulares e mandamentos etc. Corytiba: Imp.
Paranaense, 1900, p. 26.
26
idem, ibidem.
27
idem, p. 27.
28
idem, p. 32.
POLÍTICA PÚBLICA AMBIENTAL: UMA GESTÃO LOCAL DE ORGANIZAÇÃO
(TOLEDO-PR).

Eugênia Aparecida Cesconeto
1



O lixo tem uma vinculação direta com o que não serve mais, com o insalubre,
com o sujo, com as epidemias e com a contaminação, aspectos que ultrapassam os
limites espaciais e atingem toda a sociedade. A higienização avança com a
organização das cidades, como uma estratégia dos poderes constituídos no Estado
Moderno, principalmente, por ter como pano de fundo a questão sanitária. Os hábitos
e as condutas familiares e sociais estabelecem socialmente o lugar de cada um. As
diferenças vão aos poucos sendo demarcadas pelo ideário de higiene, expressa sob a
forma de limpeza, ordenação e classificação dos sujeitos e do espaço no qual estão
inseridos, apartando, especialmente o limpo e o sujo.
O medo social inclui-se também na noção de exclusão social. Pela vigilância
constante da demarcação da diferenciação da classe superior e inferior; esse medo
esta “não somente no status, mas também na fala, nos gestos, nas distrações e nas
maneiras”. [...] Os receios mergulham em parte, embora nunca inteiramente, nas
zonas inconscientes da personalidade, delas reemergindo apenas em forma
modificada, como automatismos específicos de autocontrole”
2
.
A legitimação do lugar de cada um é marcada pelo controle social, tanto interno
como externo. Nessa legitimação, a prepotência, a exploração selvagem das relações
de trabalho, o autoritarismo das relações de mando, a violência, o desrespeito aos
direitos civis e políticos que acabam por demarcar espaços segundo um imaginário
que fixa a pobreza como sinal de inferioridade e de risco social. As representações
formam um código normativo de condutas que guardam muitas tensões e auto-
exclusão, mas também semeiam muitas de outros significados.
O raciocínio econômico leva a uma transformação da higiene dos grupos e
comunidades, caracterizando o gesto de uma organização sanitária
3
. A prevenção
começa a depender de práticas políticas, integrando aos poucos a limpeza, a ponto
de atribuir-lhe um papel de salubridade pública, que até então ela não tinha. A
exclusão social se constrói com a imagem dos corpos limpos e sujos.



O mundo muda, mesmo quando para algumas pessoas parece ter parado. Se
as novas regras sociais conferem novos sentidos às práticas e representações
sociais, os comportamentos vão sendo transformados em ritmos e em tempos
históricos diferentes; nem sempre mudam velhos valores e atitudes e nem sempre
novos são incorporados, daí tanta estranheza na distância de que nos fala Ginzburg
4
.
A vida urbana torna-se cada vez mais complexa na medida em que concentra
espacialmente as pessoas, com o agravamento das condições de higiene; em
algumas situações, o ambiente torna-se insuportável.
A palavra higiene
5
, passa a ocupar um lugar inédito: “os manuais que tratam de
saúde mudam de título. Todos, até então, concentravam-se no cuidado ou na
conservação da saúde. Todos definem seu terreno através dessa denominação antes
pouco usual”. Um campo se especializou, a medicina contando com os vínculos
estabelecidos com a fisiologia, a química, a história natural, insistindo em suas
pertinências científicas, propiciaram um novo status a esse saber.
Enquanto não foi associada à desordem , a sujeira não incomodava já que, não
representava um perigo. Logo que associado às epidemias, o lixo, automaticamente,
passou a ser encarado como impuro e vinculado à morte. Nesse sentido, transgredir
as normas de higiene passa a representar uma ameaça ao padrão de ordem social
estabelecido.
Portanto, os hábitos populares em relação ao lixo, desde muito tempo, têm
representado uma ameaça à nova ordem; é necessário, pois, eliminar as impurezas
para organizar o ambiente. Esta organização supõe, segundo os administradores e
médicos, limpeza, ordenação, classificação.
Quanto ao saneamento, esgoto e limpeza pública, pode-se dizer que o
município de Toledo não teve uma preocupação inicial com os “usos sujos” da cidade:
os esgotos domésticos, os dejetos humanos, as galerias pluviais, o lixo (recolhimento
e armazenamento), etc.
O lixo, até final da década de sessenta, era responsabilidade individual; os
moradores queimavam, enterravam ou jogavam em monturos nos terrenos baldios.
Com a institucionalização do Serviço de Limpeza Pública do Município
6
, a área central
da cidade passou a ser atendida por caminhões caçamba comuns. Em 1976, foi
adquirido um caminhão compactador, ampliando lentamente o serviço público. O
armazenamento era feito de forma rudimentar; o lixo era despejado na orla da
Avenida Parigot de Souza, próximo ao, hoje denominado, Parque Ecológico Diva Paim
Barth e próximo ao Recanto Municipal, sem nenhum tipo de tratamento.
Em 1988, ampliou-se o número de equipamentos para limpeza de ruas
(varredora e coletora), e demarcou-se o local destinado ao processo de decomposição
do lixo – lixão a céu aberto, nas proximidades do Recanto Municipal, área destinada
às indústrias poluentes do município.
O aterro a céu aberto permite a catação marginal, normalmente às pessoas
moram no próprio local do aterro ou regiões próximas em condições precárias, estão
em contato direto com o lixo e, conseqüentemente susceptíveis à toda sorte de
endemias. Muitas vezes, se vêem até mulheres grávidas no local do aterro, e também
crianças se alimentando de restos de laranjas, salsichas, pães e manipulando
materiais como – seringas, ampolas de sangue etc
7
.
A produção diária de lixo domiciliar totaliza, em 1990, 40 toneladas, com a
seguinte composição
8
: papel e papelão 14,45%, vidro 4,46%, plástico 10,12%, trapo
3,96%,metais ferrosos 2,21%, metais não ferrosos 0,35%, latas 12,83%, madeira
3,89%, borracha 4,55%, matéria orgânica 37,13%, ossos e outros materiais 6,05%. O
lixo tóxico vem causando sérios prejuízos ao meio ambiente, os agricultores têm sido
informados ao longo dos anos dos cuidados que devem ter com esse material.
Em 1992, a Secretaria da Agricultura e Meio Ambiente redimensionaram o
sistema de recolhimento do lixo, a definição de novas rotas e horários de passagem
dos caminhões coletores, visando a racionalização dos custos e adequação do serviço
às reais necessidades da população. Contando com seguintes equipamentos: “4
novas prensas, 2 novos caminhões, 1 furgão, 20 containers e 100 carrinhos”
9
.
Esta preocupação com o meio ambiente não é uma posição isolada, pois a
nível internacional já vinha sendo discutida durante a década de sessenta, sob a
responsabilidade de instituições como ONU, BIRD, e das ONGs ambientalistas. A
decisão de realizar a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, ficou conhecida popularmente como ECO-92. Discutiram-se os
tratados sobre as alterações climáticas e sobre a biodiversidade, firmou-se a
declaração sobre a proteção às florestas, a Carta da Terra e a Agenda 21, a partir daí
deflagram-se as discussões em vários países
10
.
O problema ambiental urbano passa a ter centralidade nas administrações
governamentais, sobretudo dos países, pobres, uma vez que a pobreza associada à
urbanização acelerada e desordenada gera condições ambientais locais graves para
os pobres urbanos
11
.
Percebe-se que a preocupação central recai sobre a necessidade de um meio
ambiente urbano ecologicamente saudável. A questão urbana apareceu como um
desequilíbrio gerado pela insuficiência do crescimento econômico, daí estabeleceu-se
a necessidade de se desenvolver políticas compensatórias, aumentando a eficiência
dos sistemas econômicos e corrigindo desequilíbrios sociais.
No Paraná o governo J aime Lerner, implantou o Programa Paraná Ambiental, e
assinou convênios com 200 prefeituras
12
. O município de Toledo incorporou alguns
dos programas propostos pelo governo do Estado, entre eles o: Projeto Plantar,
Recuperação do Rio Toledo, Toledo Rural (readequação e cascalhamento das
estradas do interior, construção de bueiros, construção de pontes), habitação popular,
e lixo útil.
A preocupação com o meio ambiente mobiliza não só o poder público, mas
também empresas privadas que procuram conjuntamente equacionar o problema. As
ações marcham a passos lentos frente ao desenvolvimento sustentável que se almeja.
Em 1994, o Aterro Municipal
13
adotou o sistema de aterro sanitário controlado,
juntamente com o Programa Caminhão de Coleta Lixo Útil e de Troca o Câmbio
Verde, que baseado em experiência de outros municípios brasileiros, objetivava a
troca de material reciclável por hortifrutigranjeiros.
A deposição final dos resíduos sólidos domésticos é feita através de aterro
controlado com recobrimento do lixo feito semanalmente. Entende-se que esta não é a
melhor maneira, ou melhor tratamento final para o lixo. O aterro, além de ocasionar
perdas de área acarreta problemas de poluição ou de contaminação do lençol
freático
14
.
Em Toledo o Programa Câmbio Verde, incorporou as diretrizes propostas pelo
programa estadual
15
. Coordenado pela Secretaria Municipal de Ação Social e
Cidadania, em 1994, teve por objetivo incentivar e promover a troca de lixo reciclável
por alimentos (hortifrutigranjeiros). Um ônibus da Prefeitura foi adaptado para carregar
os produtos, deslocando-se até os bairros; 16 são beneficiados, geralmente, chega às
sedes das associações de moradores, onde aguarda os moradores para proceder à
pesagem e a troca, duas vezes por semana: “para cada quatro quilos de lixo, os
moradores tinham direito a uma sacola com meia dúzia de ovos e cerca de 800
gramas de batata. A média chegou a quase cinco sacolas por família”
16
.
Os objetivos do Programa Câmbio Verde definiram-se como: conscientizar a
população sobre a importância da reciclagem do lixo como meio de preservação do
meio ambiente; promover a separação dos lixos recicláveis nos locais de troca,
evitando o recebimento de materiais indesejáveis; propiciar a melhoria das condições
ambientais e sanitárias; induzir a população às mudanças de hábitos alimentares
proporcionando enriquecimento nutricional; integrar o cidadão na solução dos
problemas ambientais da comunidade”
17
.
Em março de 1996, o “Programa já contava com 3.700 famílias castradas”; um
funcionário da prefeitura anotava as informações sobre a quantidade de lixo numa
carteirinha
18
de identificação individual, juntamente com o número de sacolas de
alimentos a que cada uma tinha direito. Os moradores da Vila Paulista e bairros
próximos “recolheram mais de sete toneladas de lixo reciclável”, motivo pelo qual
divulgou-se matéria na imprensa como feito da administração pública. Consta ainda o
depoimento de alguns moradores elogiando o programa, “cerca de 400 famílias
participaram desse dia de troca”. [...] “apesar do tempo de espera na fila, os
moradores (homens, mulheres e crianças) aguardavam com expectativa”
19
.
Para muitas das famílias cadastradas no Programa Câmbio Verde, este
funciona como garantia de alimento em casa. Algumas recolhem uma quantidade
grande de lixo e depois, nas mercearias do bairro, trocam parte dos alimentos que
conseguem, por outros alimentos da cesta básica. Outra forma de solidariedade
existente entre as famílias é a utilização da carteirinha dos vizinhos, como declara a
secretária da Ação Social e Cidadania, Cerenita Corazza: “o número atendido não é
maior, porque muitos não se cadastram e acabam utilizando a carteirinha dos
vizinhos”
20
.
Paralelamente, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, implantou como
projeto-piloto
21
o Programa Lixo Útil em dois bairros: J ardim Porto Alegre e conjunto
habitacional BNH Atílio Fontana, distribuindo cestas de plástico para a população que
passou a separar o lixo reciclável em suas residências, e a coleta realizada uma vez
por semana, pelo caminhão da prefeitura - equipado para esta atividade – possui
divisórias para alocar papel, vidro, plástico e metais.
A empresa responsável pela coleta era a Co-serviços
22
, juntamente com a
União Toledense das Associações de Moradores (UTAM). O material arrecadado
estava sendo reunido num depósito junto à estrada Toledo – Ouro Verde do Oeste,
onde o material é embalado e estocado para formar as cargas para a venda a
empresas de reciclagem. Segundo os gerentes J uvenal Roque (Co-serviços) e J uarez
Klaus (UTAM), uma parte do material arrecadado foi comercializado pela empresa,
representando um lucro adicional de R$ 254,00 reais, que será dividido em duas
partes iguais”
23
; a prefeitura mobilizou a Guarda Municipal para vigiar o local.
Provavelmente, as pessoas que realizavam os furtos trocavam esse material junto ao
Programa Câmbio Verde ou revendiam aos sucateiros.
Em 1997, com nova administração, houve alterações nas secretarias e
trabalhos desenvolvidos. Conseqüentemente, reestruturou-se o Programa, agora
denominado Lixo Útil/Câmbio Verde, coordenado pela Secretaria de Meio Ambiente
em conjunto com a Secretaria Municipal de Assistência Social, que tem como objetivo
trocar materiais recicláveis por alimentos (cesta básica), nos postos fixos
24
existentes
nos bairros: J ardim Porto Alegre, Vila Boa Esperança, J ardim Coopagro, São
Francisco e J ardim Europa.
A média de arrecadação permite acesso a duas cestas básicas mensais. Para
isso, uma cesta equivale a seguinte medida: vidro 220Kg, papelão 100Kg, papel misto
180 Kg, plástico 100Kg, ferro 300 Kg, alumínio 30 Kg. O programa autoriza somente o
cadastramento de um membro da família e apenas o titular retira a cesta. O valor da
mesma gira em torno de R$ 14,00 reais.
Não é permitido o pagamento em dinheiro no Programa. Isso ocorre, porém,
quando os catadores vendem diretamente para os sucateiros, que estabelecem
acordos com o poder público de manter valores próximos daqueles pagos pelos
produtos arrecadados. A impossibilidade do catador em vender sua mercadoria por um
preço justo, pode colocar a catação do lixo no rol de atividades consideradas como
não-livres.
A atividade de catar é uma forma contemporânea de relações de trabalho que
pode estar traduzindo processos sociais recriados e atualizados o “trabalho
compulsório”
25
, uma forma de exclusão social. Ou talvez seja bem a ilustração do
processo desigual e combinado do desenvolvimento capitalista ainda pouco estudado,
nele, co-existem duas faces opostas que se amalgamam na mesma atividade, o
trabalho não-livre e a modernidade tecnológica da maquinaria utilizada na reciclagem.
J unto ao Aterro, organizou-se o Centro de Separação de Material Reciclável,
onde ocorre a licitação para os compradores do material reciclável arrecadado no
município,
mantido no local durante o prazo estabelecido pelo contrato, geralmente, por um ano,
sendo permitida a renovação.
Fora do controle do Poder Público, existem os sucateiros que compram o
material dos catadores, ou pagam por dia de trabalho, porém negociam diretamente
com as indústrias. Na situação atual proliferam as pessoas – catadores – que
procuram na coleta de lixo reciclável a forma de sobreviver. Tornam a cidade mais
limpa e criam alternativas e estratégias de trabalho no mercado informal.
Os sucateiros, ou proprietários de depósitos de compra de material reciclável,
estabelecem suas próprias regras, compram ou contratam catadores para lhes prestar
serviços. Há sempre conflitos por falta de pagamento dos materiais ou trabalho
prestado.
A relação entre os sucateiros e os catadores e ou revendedores de lixo é
tensa
26
. Pode se dizer que existe um código normativo de condutas entre eles, porém,
este não aparece claramente. Sabe-se, por exemplo, da homogeneização dos preços
em relação ao peso e ao material. Assim, o que esta presente não são as relações de
confiança, mas a lei do levar vantagens. Os catadores encontram-se subordinados aos
sucateiros e ao programa.
1
Professora da UNIOESTE - Campus de Toledo. O texto desta comunicação faz parte da dissertação de
mestrado do Programa Interinstitucional UFF/UNIOESTE, sob a orientação da Professora Suely Gomes
Costa.
2
VIGARELLO, Georges. O Limpo e o sujo: uma história da higiene corporal. Tradução Mônica Stahel.
São Paulo: Martins Fontes, 1996.
3
Ibidem, p.162
4
ELIAS, Norbert. A civilização como transformação do comportamento humano. In: O processo
civilizador. Rio de J aneiro: Zahar, 1990, p. 65-213. Sobre estranhamento: GINZBURG, Carlo. Olhos de
Madeira. Nove reflexões sobre a distância. Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das
Letras, 2001.
5
VIGARELLO,Georges. Op.Cit., passim. A palavra higiene “já não é o adjetivo que qualifica a saúde
(hygeinos, em grego, significa “o que é são”), mas o conjunto de dispositivos e saberes que favorecem
sua manutenção. É uma disciplina específica dentro da medicina. É um corpo de conhecimentos e não
mais um qualitativo físico”.
6
O Serviço de Limpeza Pública do Município foi instituído “pela Lei nº 517, de 19 de setembro de
1969”. Prefeitura Municipal de Toledo, Assessoria J urídica, 2001.
7
GIACHINI, Marilene B. de O. Uma análise sócio- econômica do lixo urbano – sugestões para o
município de Toledo – PR. Monografia (Bacharel em Ciências Econômicas).Toledo: UNIOESTE, 1990,
p. 107.
8
Fonte: Prefeitura Municipal de Toledo – Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SDU), 1990.
9
Revista Toledo (Publicação Especial do 40º Aniversário), 1992, p. 17.
10
A Agenda 21, abril de 1992, capítulo 7 (p.65 – 66).
11
CARVALHO, Dayse Silva de. A favela, o lixo e a questão ambiental: um estudo do projeto favela-
limpa. Rio de J aneiro: Dissertação de Mestrado, PUC/RJ ,1999.
12
PARANÁ Ambiental será modelo ao país / PARANÁ ambiental: Estado pode virar modelo para o
país. Jornal Diário Popular, 4/6/1996, p.9.
13
Segundo a engenheira química Cláudia Ribeiro dos Santos, existem três modalidades para depósito de
lixo: “lixão a céu aberto, onde desempregados catam restos; aterro sanitário controlado e aterro sanitário
com cobertura diária do lixo”. Cf. SEM crianças, lixão de Cascavel é modelo. Jornal o Paraná, Cascavel,
10/10/1999, p.9.
14
GIACHINI, Marilene. Op. Cit., 1990, p. 104.
15
PREFEITURA reinicia ação do Câmbio Verde. Jornal Estado do Paraná, Curitiba, 6/4/1995.
16
CÂMBIO Verde – em Toledo lixo vale comida. Moradores trocam sete toneladas de lixo reciclável por
alimentos. Revista A Imprensa, Cascavel, nº 42, Ano IV, p. 29, mar./ 1996.
17
Estes objetivos constam no projeto “Implantação – gestão de qualidade participativa. Prefeitura
Municipal de Toledo”, Secretaria de Assistência Social, 1995.
18
A carteirinha é uma forma burocrática de controle dos usuários do programa, bem como, para o seu
melhor funcionamento. Contém os seguintes dados: nome do participante, endereço, associação (hoje
postos de troca), data da troca, quantidade de lixo entregue, quantidade de retorno de alimento (sacola). E
também um apelo à participação ao programa, e um informativo sobre os benefícios da iniciativa.
19
LIXO Útil começa a virar dinheiro. Jornal Gazeta de Toledo, Toledo, nº29, Ano I, p.5, 7/1/1995.
20
Revista A Imprensa, nº 42. Op. Cit., 1996, p. 29.
21
O projeto-piloto foi iniciado em dezembro de 1994, “com visitas às casas para entrega das cestas
plásticas, explicação sobre seus objetivos e entrega de um panfleto sobre o programa Lixo Útil”.
Realizaram –se também reuniões nas Associações de Moradores, “propondo um mutirão de limpeza dos
terrenos – pela UTAM e os moradores dos bairros – que consistia na retirada do lixo para separação do
material reciclável pelos moradores e remoção do restante pela Co- serviços mediante uma taxa”. Cf.
Jornal Gazeta de Toledo, nº 29. Op. Cit., 1995, p. 5.
22
Co-serviços, “empresa cooperativa formada por ex-funcionários públicos e que faz prestação de
serviços a terceiros na área de limpeza”. Cf. BARNABÉS integram-se à campanha lixo útil. Jornal
Gazeta de Toledo. nº 19, Ano I, manchete de capa , 24/12/1994.
23
Jornal Gazeta de Toledo, Nº 29. Op. Cit., 1994, p. 5
24
Os câmbios móveis foram substituídos por pontos fixos, segundo a diretora da Secretaria do Meio
Ambiente, Gerte Filipeto: “...Nós achamos que era mais produtivo, substituir os câmbios móveis por
fixos, onde a gente consegue trabalhar mais diretamente com a pessoa que participa do programa...” Cf.
Entrevista realizada em 19/03/1999, na Prefeitura Municipal de Toledo.
25
CARDOSO, Ciro Flamarion; BRIGNOLI, Héctor Pérez. O mundo colonial (séculos XVI a XVIII). In:
História econômica da América Latina: sistemas agrários e história colonial economias de exportação e
desenvolvimento capitalista. Tradução Fernando Antonio Faria. 2ª ed. Rio de J aneiro: Edições Graal,
1984, p. 63 a 122.

26
BOURDIEU, Pierre. O poder Simbólico. Tradução Fernando Tomaz. 3 ed. Rio de J aneiro: Bertrand
Brasil, 2000. AZEVEDO,Cecília. Identidades compartilhadas. Niterói, Programa de Pós-Graduação em
História/NUPHEC, 2002 (no prelo).

























CATADORES DE LIXO: UMA EXPERIÊNCIA DA MODERNIDADE NO OESTE
PARANAENSE (TOLEDO, 1980/1999).

Eugênia Aparecida Cesconeto
1
T



O interesse pelo tema partiu da indignação cotidiana de ver nas ruas da cidade
Toledo – Paraná, o aumento do número de pessoas desenvolvendo a atividade de
catar lixo. A partir de 1998, no trajeto percorrido de casa para o trabalho, encontrava
catadores das mais variadas idades e condições físicas (homens, mulheres e
crianças). Passei a observá-los e a registrar minhas impressões sobre o que via.
A definição das fontes deu-se concomitantemente através da disciplina de
Questão Social e Serviço Social. Realizou-se, então um trabalho com as acadêmicas
2
.
Foram entrevistados em Toledo, alguns sujeitos sociais: vereadores, padres,
advogados, estudantes, técnico eletrônico, vigia, entre outros , no sentido de pensar
as representações usuais sobre os catadores
3
.
As aproximações com o tema se fizeram também através de leituras de
reportagens em jornais e revistas. Nelas, obtivemos uma visão preliminar do discurso
proferido pela imprensa, mesmo que parcial, sobre os problemas enfrentados no dia-a-
dia pelas camadas pobres e as ações desenvolvidas. As visitas ao Museu Histórico
Willy Barth, foi outra tentativa de exame de matéria documental sobre a questão. Com
o aprofundamento dos meus estudos, fomos desvendando nos jornais e revistas não
só a construção dos silêncios, mas também a dos discursos sobre os pobres,
geralmente, de divulgação das realizações da administração pública e da elite local, de
reconhecível uso político.
Dentre os jornais locais em circulação no período, destacaram-se: “A Gazeta
de Toledo”, o “J ornal do Oeste” e o “J ornal O Estado do Paraná”, e as revistas:
“Comunidade no Poder, “A Imprensa”, “Revista Oeste”, “Revista de Porco a Suíno: a
história da suinocultura de Toledo e Região”e “Estado a Revista do Paraná”. Todos
esses tentam, de alguma maneira, retratar a cidade, sua população e suas
transformações. Suas informações nos fornecerão a possibilidade de analisar as
transformações ocorridas entre os anos de 1980 a 1999, período de grandes
mutações na região trazidas pela modernização agrária, ocasionando as migrações
multialternadas na própria região, no Estado e no País, e do mesmo modo, colocando
em foco o cotidiano das pessoas pobres do município.
No contato direto com os catadores de material reciclável, através de
entrevistas individuais, antecedidas de consultas prévias quanto ao interesse em
conceder a entrevista, obtivemos mais informes. Priorizamos os catadores de lixo,
moradores dos bairros próximos ao Posto de Troca do J ardim Coopagro, último posto
instalado e por ser um local de loteamentos recentes, com várias construções
irregulares e um conjunto habitacional denominado BNH – Mutirão destinado a
pessoas de baixa renda, sua ocupação está em franco processo de expansão.
A crítica preliminar à documentação consultada e a essas entrevistas tornaram
possível recolhermos e observarmos falas perdidas ou até mesmo silenciadas nos
diversos tipos de fontes; aos poucos mais organizadas em seus marcos teóricos, as
leituras dos documentos os tornaram vivos. Por esses caminhos, passamos a estudar
algumas idéias, práticas e estratégias de sobrevivência dos catadores de lixo da
cidade de Toledo.
A bibliografia sobre o assunto é escassa. Inicialmente, a leitura da tese de
doutoramento em sociologia, de Vera da Silva Telles, “A cidadania inexistente:
incivilidade e pobreza um estudo sobre trabalho e família na Grande São Paulo”, de
1992, possibilitou-nos uma maior aproximação ao debate sobre o trabalho, a justiça e
a igualdade, pondo em foco as iniqüidades inscritas na trama das relações sociais.
A dissertação de mestrado em Serviço Social, de Fátima Valéria Ferreira de
Souza, “Sobrevivendo das sobras: as novas formas de miséria urbana”, de 1995,
coloca-nos frente à discussão do lixo vinculado ao processo de trabalho, e tam’bem a
relação do lixo com a pobreza.
No artigo publicado na Revista Serviço Social e Sociedade nº 63, de Denise
Chrysóstomo de Moura J unca, “Da cana para o lixo: um percurso de desfiliaçao?”, de
1997, o recorte prioritário é o mundo do trabalho e o percurso da cana para o lixo, as
condições de seu exercício, o valor que assume na preservação da identidade de
trabalhador.
Na mesma revista consultamos o artigo de Suely Gomes Costa, “Sociedade
salarial: contribuições de Robert Castel e o caso brasileiro”, de 2000, que procura
mostrar os desafios intelectuais, ao formular uma avaliação, ainda que preliminar, dos
recortes teóricos em que se inscrevem os problemas do assalariamento, da
reprodução, e da noção de proteção social.
O livro de Robert Castel, “As metamorfoses da questão social: uma crônica do
salário”, de 1998, possibilitou trazer à tona a história do processo de exclusão social,
conceito polêmico, confundido com desfeliação. Auxiliou na discussão das diferenças
entre as sociedades salariais e não-salariais em relação a reprodução e proteção
social.
Ao mesmo tempo, ao dar continuidade e pretender o preenchimento de lacunas
existentes quanto à discussão sobre os catadores, chamou-nos a atenção o grande
interesse que essas pessoas têm despertado junto ao poder público, às empresas, às
entidades governamentais e não-governamentais, e mais a constatação de que essa
atividade torna-se extremamente funcional ao desenvolvimento dos grandes centros
urbanos. As questões que nos inquietavam, porém ainda não estavam respondidas:
quem são e como se sentem essas pessoas? Que estratégias de resistência e
sobrevivência são construídas no cotidiano? Que relações o poder público, indústrias,
catadores e intermediários estabelecem no processo de organização social a partir da
catação do lixo? Como se deu a construção do imaginário social sobre o catador de
lixo?
Aproximando-nos, cada vez mais, desse universo através das leituras, visitas
aos postos de troca entrevistas com catadores e técnicos responsáveis pelo programa
Lixo Útil/Câmbio Verde, parece-nos que as ações desenvolvidas para o atendimento
dos catadores mais reforçam do que eliminam os obstáculos na garantia dos direitos
sociais, acirrando o processo de exclusão. São os próprios catadores que descobrem
e renovam a cada dia, formas inéditas de trabalho e luta pela sobrevivência.
As questões inicialmente levantadas levaram-nos ao objetivo do projeto de
pesquisa: examinar, em um enfoque histórico-cultural, algumas idéias, práticas e
estratégias de sobrevivência dos catadores de lixo da cidade de Toledo – Paraná, na
história do tempo presente, abrangidos pelo Programa Lixo Útil/Câmbio Verde.
A experiência em curso do Programa Câmbio Verde, implantado em 1994,
coordenado pela Secretaria Municipal de Ação Social e Cidadania, tendo por objetivo
trocar lixo reciclável por alimentos (hortifrutigranjeiros), revela que os muitos caminhos
pelos quais se tem feito a modernização do campo incluem também a constituição do
espaço da exclusão social.
Pretende-se assim, desvendar processos sociais pouco conhecidos, revelando
um pouco que seja sobre os modos pelos quais essas pessoas têm sobrevivido, as
hierarquias sociais, o funcionamento das trocas comerciais, o que é produzido na
esfera privada, os valores que organizam a sociedade local e a naturalização da
pobreza. São todas elas questões relevantes.
Esta pesquisa se ocupa da exclusão social. Muitas das situações descritas no
caso em foco, como de exclusão, representam porém, as mais variadas formas e
sentidos advindos da relação inclusão/exclusão. Sob esse rótulo estão contidos
inúmeros processos e categorias, uma série de manifestações que aparecem como
fraturas e rupturas
4
do vinculo social (pessoas idosas, deficientes, desadaptados,
minorias étnicas ou de cor, desempregados de longa duração, jovens impossibilitados
de acender ao mercado de trabalho, etc.).
A fundamentação teórica toma como ponto de partida os anos de 1980 e 1990
que, sob o impacto do avanço das prescrições neoliberais, constituem um marco no
tocante à abordagem sobre o tema marginalização social
5
, ou seja, quanto aos
excluídos.
O agravamento da crise econômica e dos problemas sociais, tais como o
crescimento da pobreza, das favelas nos grandes centros urbanos, da violência, da
criminalidade e do desemprego, associados ao processo de democratização do país,
revelaram aos estudiosos a necessidade de (re)pensar o papel histórico dos
marginalizados e excluídos na sociedade brasileira ao longo dos séculos . os
catadores de lixo das grandes cidades mostram um tanto dessa face pouco conhecida
da história brasileira.
No caso dos catadores de lixo, estabeleceu-se uma vinculação direta com o
próprio lixo, com o que não serve mais, com o insalubre, com o sujo, com as
epidemias e com a contaminação, aspectos que ultrapassam os limites espaciais e
atingem toda a sociedade. As diferenças entre pessoas e grupos sociais vão aos
poucos sendo demarcadas pelo ideário de higiene. Estão expressas nos códigos
normativos da limpeza, da ordenação e da classificação dos sujeitos e do espaço no
qual estão inseridos.
A pobreza e miséria, se confundem com transvio e marginalidade, flagelos
contra os quais desenvolveu-se um sistema de defesa contra os pobres, gente à-toa,
ociosos e ladrões, todos misturados numa mesma penumbra. É a existência de
desvios múltiplos com relação à regra que permite a história trabalhar sobre os
deslocamentos, sintomas privilegiados dos movimentos profundos da sociedade.
Parte dos estudos sobre a escravidão e o trabalho livre no Brasil (com
merecido destaque pela rica produção historiográfica) passou a suscitar novas
questões e a reconstituir as relações sociais estabelecidas no cotidiano entre as
classes dominantes e as camadas menos favorecidas – das minorias como as
mulheres e homossexuais, os escravos, os alforriados, os loucos, os índios, os
despossuídos de terra, de teto - enfim dos excluídos, numa nítida tendência rumo à
História Social e Cultural, expondo muito das singularidades concernentes ao
desenvolvimento das relações capitalistas no Brasil. Sob a influência da História Nova,
História das Mentalidades e Marxismo Revisionista, nessa orientação, tem sido
marcante a influência de autores como: E.P.Thompson, Carlo Ginzburg, Robert
Darnton, Natalie Zemon Davis, Roger Chartier e Peter Burke.
O interesse pelos catadores de lixo alinha essa dissertação à tendência da
ciência histórica que tem se dedicado aos estudos dos marginalizados, tendência que
conheceu seu ponto alto nos anos 60, ainda que a Escola dos Annales, já tivesse
aberto espaço através da história econômica e social para os excluídos da história.
Este trabalho trata de um conjunto de pessoas habitualmente silenciadas por não
serem consideradas atores do acontecimento histórico, reconhecendo que são as que
podem esclarecer grande parte do funcionamento das normas coletivas desta
sociedade.
Ao dar prioridade aos catadores de lixo, pretende a pesquisa seguir a trajetória
dos que se ocuparam com pessoas anônimas: pobres, transviados, criminosos,
loucos, etc., daqueles que a ordem procurava constranger, reprimir ou corrigir,
buscando caminhos que a historiografia seguiu para responder à questão tão difícil
das relações complexas e evolutivas que uma sociedade mantém com aqueles que
ficam fora, voluntariamente ou não, momentaneamente ou não, dos códigos e regras
que a fundamentam.
Recolhemos em nossos estudos uma outra fértil contribuição: a da História
Oral. Pudemos reconhecer no andamento dos trabalhos, o quanto a experiência dos
historiadores nos anos 70, sob a influência da antropologia, auxiliaria a divulgação
das experiências vividas por indivíduos e grupos quase sempre excluídos ou
marginalizados em narrativas históricas anteriores, lembrando aqui sua importância
para a história das mulheres, da memória, dos trabalhadores, dos fenômenos
migratórios e das comunidades minoritárias
6
.

Também os estudos sobre a História Cultural
7
levaram-nos a sentir e a
qualificar as aproximações da história com a antropologia e também com a longa
duração. Do mesmo modo, a relevância da não recusa às expressões culturais das
elites ou “classes letradas”, mas também da aproximação com as manifestações das
massas anônimas, afeição pelo informal e, sobretudo pelo popular. Preocupamo-nos
em resgatar o papel das classes sociais, da estratificação, e mesmo do conflito social,
presente na história dos catadores de lixo, sem perder de vista a possibilidade de
escolher caminhos novos de investigação histórica, na qual a abordagem do
cotidiano, da micro–história e da macro-história se completam.
Ao tratar do limpo e do sujo, vimo-nos às voltas com processos culturais das
classes subalternas próprias, ou de modo mais amplo, com a cultura, termo
emprestado da antropologia, entendida como “o conjunto de atitudes, crenças, códigos
de comportamentos...”
8
. Nesse enfoque, uma aproximação com o problema da
cultura
9
, principalmente a relação entre a cultura sobre o lixo, levou-nos a explicar, um
pouco melhor, o processo de marginalização e de exclusão social dos trabalhadores.
Também conseguimos entender, como Ginzburg (1ª edição 1976), no estudo de caso
- Menocchio, que as idéias não são produzidas apenas pelas classes dominantes e
impostas, sem mediações, de cima para baixo. As idéias longe de serem impostas por
um grupo a toda a sociedade, elas circulam.
Nesta análise, nem classes dominantes têm o monopólio exclusivo da
produção de idéias, nem as pessoas comuns também deixam de ser capazes de
produzir suas próprias idéias, crenças, valores e códigos comportamentais, que se
convencionou chamar de cultura popular. Ao recuperar o conflito de classe numa
dimensão sociocultural, e pelas relações que mantêm entre popular e erudito, o
conceito de circularidade ajudou-me muito a pensar as relações entre os dois níveis
de cultura: tanto a classe subalterna como a dominante filtra a sua moda os elementos
culturais. Nessa noção de cultura, é possível entender os meios pelos quais alteram-
se as relações sociais, ou seja, reconhece-se nas pessoas comuns (catadores de
lixo) o seu potencial de criação e transformação dos condicionantes impostos pela
sociedade.
As reportagens produzidas pelos meios de comunicação, apresentam os
catadores de lixo, como: párias, pessoas que ocupam um mercado divido com os
urubus, numa associação aos porcos e aos ratos que vivem no lixo, procriam
velozmente, produzem repugnância e mostram o lado sujo do ambiente.
Pode-se dizer, nas condições empíricas, mas também imaginárias da
modernidade, que a exclusão torna-se um escândalo, e os excluídos, um estorvo e um
mal-estar para quem os olha, e o desejo inconfesso de que eles desapareçam.
Os catadores , porém lutam pelo reconhecimento. Nesse sentido, pode-se citar:
o encontro nacional realizado no início de junho de 2001, durante três dias, em Brasília
pelo reconhecimento da profissão e melhores condições de trabalho, as várias
Associações criadas no Brasil como: ASMARE em Belo Horizonte, CEMPRE em São
Paulo, Associação de Mulheres Papeleiras e Trabalhadoras em Geral em Porto
Alegre, são alguns exemplos da auto-representação.
Ao se discutir a pobreza e a luta pela sobrevivência que impõe a cada dia
formas- limites de submissão às condições mais sórdidas de obtenção de renda,
negação do direito à dignidade de seres humanos, as ações e práticas cotidianas de
resistências, dos diversos sujeitos históricos, que a vivenciam, aqui em específico, os
catadores de lixo , não são tão destacadas. Ou seja, as opções, abordagens, os
silêncios sobre os catadores não podem ser encarados como algo natural, mas sim
como o resultado de um jogo de disputas, cujos desdobramentos informam o
significado social da sua presença na sociedade.
Uma forma é utilizar e entender as fontes diversas. Nas orais, o conceito de
memórias será útil ao analisar as construções históricas, mediadas por ideologias e
pela linguagem. A memória assim é transformada em objeto de interpretação: “a
memória do indivíduo depende do seu relacionamento com a família, com a classe
social, com a escola, com a Igreja, com a profissão, enfim, com os grupos de convívio
e os grupos de referencia peculiares a esse indivíduo”
10
.
A construção da memória sobre a exclusão e a pobreza sta ligada às formas
como nossa cultura tende a valorizar as diferenças de conduta social, sinais externos
de status quo. Percebe-se uma clara tendência para igualar padrões de vida e conduta
e nivelar contrastes, gerando tensões nas relações sociais, definindo identidades e
buscando alternativas que levem ao consenso social ou resistências.
A legitimação do lugar de cada um é marcada pela dominação e controle
social, tanto interno como externo. As relações entre ricos e pobres não são unívocas:
cada qual à sua maneira têm ganhos e perdas nas situações de que fazem parte,
sempre correm em mão dupla. No caso específico do processo de reciclagem do lixo,
a universalização expressa-se no conjunto economia, ecologia, política, cultura, etc.,
ou seja, na relação entre catadores , poder público, empresas e sociedade.
Nessa relação, o catador passa a ser uma solução barata e definitiva para o
problema do lixo; ele desenvolve uma atividade que é necessária para o mundo
consumista de hoje, onde se evidencia a relação consumo/descarte e o
aproveitamento coletivo: de um lado, o poder público, as empresas e a sociedade, são
beneficiados pela limpeza, pelo material disponível para reaproveitamento e redução
de custos destas atividades; e do outro, o catador que extraí a sua subsistência; todos,
todos independentemente da posição que ocupam, têm seu valor.


1
Professora da UNIOESTE - Campus de Toledo. O texto desta comunicação faz parte da dissertação de
mestrado do Programa Interinstitucional UFF/UNIOESTE.
2
Disciplina do 1º Ano, Curso de Serviço Social, total de 42 acadêmicas, 2000.
3
Como forma de fugirmos um pouco das metodologias tradicionais de pesquisa; utilizamos uma técnica
de opinião, não se estabeleceu a priori quais seriam os sujeitos entrevistados, por isso denominamos
metodologia do flagrante.
4
Para examinar a crítica à noção de exclusão social, ver CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão
social: uma crônica do salário . Tradução Iraci D. Poleti. Petrópolis, RJ : Vozes, 1998. WANDERLEY,
Mariângela Belfiori. Refletindo sobre a noção de exclusão. In: Revista Serviço Social e Sociedade, nº 55,
ano XVIII, p. 74-83. São Paulo: Cortez, nov.1997.
5
Marginal, segundo o dicionário Aurélio, “aquele que vive à margem da sociedade, ou da lei”. A
identificação do marginal procede do centro dominante, irradiador de uma visão de mundo e de uma
ideologia, as quais se baseiam na noção de trabalho.
Na historiografia o tema será indicado pela primeira vez em 1964, na obra La Civilisation de l’Occident
Medieval, de J acques Le Goff, ainda não se falava muito em marginais, ele tratou como excluídos. Em
1975, foi editada, no Canadá, uma obra coletiva intitulada Aspects de la marginalité au Moyen Age. Em
1976, consagra-se o tema, pelo trabalho d Bronislaw Geremek, em Les marginaux parisiens aux XIV et
XV siècles. Pode-se disser que os medievalistas estabeleceram os que seriam os homens “das margens”.
Cf. DUARTE, Luís Miguel. De que falamos nós quando falamos de marginais? Portugal na baixa Idade
Média. In: Revista de Ciências Históricas, vol.XI. Universidade Portucalense, Porto, 1996, p. 55-68.
6
FERREIRA, Marieta de M. e AMADO,J anaína (Orgs.). Usos e abusos da História Oral. 2ª ed. Rio de
J aneiro: Editora da Fundação Getulio Vargas,1998.
7
CHARTIER, Roger. A história Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Defil, 1990
(Introdução).

8
GINZBURG, Carlo. O queijo e os Vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela
inquisição. Trad. Maria Betânia Amoroso. 8ª ed. São Paulo: Schwarcz, 1996, p. 15 – 34.
9
THOMPSON, E.P. Introdução: Costume e cultura. In: Costumes em comum- estudos sobre cultura
popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 13-24.
10
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T.A Queiroz, 1979. FERREIRA,
Marieta de M. e AMADO, J anaína (Orgs.). Usos e abusos da História oral. 2ª ed. Rio de J aneiro: Editora
da Fundação Getúlio Vragas, 1998. LE GOF, J aques. História e memória. Campinas. Editora da
UNICAMP, 1992.

Esboço de um Mapa Sócio-demográfico da Intendência de Córdoba a
partir da Análise do Censo de 1778

Eurico da Silva Fernandes



Seguindo as ordens do Ministro da Coroa espanhola J oseph de Gálvez (1776),
efetuou-se em todos domínios espanhóis, inclusive nas Filipinas, um censo com dados
para o conhecimento quantitativo e de algumas das características sociais dos súditos
do reino.
No Rio da Prata esta necessidade de conhecimento da população respondia ao
contexto de reformas ilustradas espanholas que tentava, de um lado, barrar as
incursões comercias de sua principal inimiga, a Inglaterra; e, de outro, barrar a
constante tentativa de avanço territorial do império português
1
T. Assim, o
conhecimento da população tornou-se imprescindível para um melhor ordenamento
produtivo da mesma e, caso fosse necessário, para a mobilização militar, como viria
acontecer no começo do século XIX.
Na Intendência de Córdoba o censo foi efetuado com duas estruturas básicas:
listando pessoa por pessoa e família por família. Desta forma, tornou-se possível
elaborar um banco de dados no qual se pôde considerar as características trazidas
pelo censo para cada pessoa de forma isolada; e também considerar as
características da constituição familiar do período. A família foi considerada como
parte de um modelo explicativo da sociedade colonial tardia em questão
2
.
Para um esboço sócio-demográfico da Intendência cordobesa foi escolhido três
dos onzes curatos existentes
3
: Río Tercero, Río Seco e Traslasierra. Uma primeira
característica é notar que a maior parte da população dos curatos de Río Seco e
Traslasierra era de etnia não branca. Em Río Seco, apenas 19.07% da população
eram de pessoas brancas. Em Traslasierra a população branca era de 40.75%. De
forma contraria, Río Tercero possuía a maioria de sua população branca, 55.03% do
total era desta etnia
4
.
O censo de 1778 era, para a elite cordobesa, a comprovação empírica daquilo
que observavam no cotidiano da vida. Observou-se, por um lado, a retomada do
crescimento demográfico da população, já que desde fins do século XVII a Intendência
se encontrava estagnada
5
. Porém, de outro lado, voltava crescer da maneira não
desejada, ou seja, voltava crescer através de mesclagens étnicas.
O problema do crescimento demográfico pelas mesclas passava então cada
vez mais a ser considerado e “tratado” pelos representantes da elite local,
principalmente a partir da nomeação do primeiro Intendente cordobês, o marquês de
Sobremonte (1782). Este dispôs de vários mecanismos legais para coação e,
principalmente, para utilização compulsiva destas pessoas não brancas como mão-de-
obra da elite local em serviços públicos, em serviços militares de fronteira e outros. A
partir de então qualquer pessoa não branca deveria portar um documento
comprovando estar empregada e conchavada a um branco, para assim livrar-se de
tais serviços e de uma gama de preconceitos
6
.
Foi considerado para a elaboração do banco de dados a possibilidade de três
tipos de famílias existente no censo de 1778: a família nuclear, formada por pais e
filhos; a ampliada, formada pela família nuclear mais membros com laços sangüíneos
(ex: netos, sobrinhos); e a família composta, formada pela família nuclear e/ou
ampliada, mais os membros unidos a esta família por uma relação de dependência ou
conchavo, através do agregamento ou do escravismo
7
.
Río Tercero, dos três curatos em questão, era o que mais possuía famílias
compostas, com 50.44% delas. Em Río Seco esta porcentagem caia para 29.74%; em
Traslasierra 35.39% das famílias eram compostas. Quanto as famílias nucleares elas
eram mais presentes em Río Seco e Traslasierra, do que em Río Tercero. Río Seco
possuía 60.87% e Traslasierra possuía 56.60%. As famílias ampliadas não
representavam um percentual muito elevado e chegavam a 9.38% apenas no curato
de Río Seco.
Da mesma forma que os percentuais de famílias compostas de Río Tercero
eram maiores que os dos outros dois curatos, também era maior seu percentual de
pessoas em relação de dependência, ou seja, pessoas nas condições jurídicas de
agregados e escravos
8
. Este curato possuía 36.48% de sua população numa destas
duas condições de dependência. J á os curatos de Río Seco e Traslasierra possuíam
percentuais bastante aproximados, 20.08% e 21.24% respectivamente.
Estas diferenças que colocavam de um lado Río Tercero e de outro Río Seco e
Traslasierra, são reflexos (como também refletem) das diferenças de condições sócio-
econômicas dos curatos em questão. Río Tercero se caracterizava por participar da
principal atividade econômica da Intendência, a cria e invernada do gado mular para
prover as minas de Potosi
9
. Sendo assim, era imprescindível possuir uma maior
população submetida, e que pudesse ser disciplinada para o trabalho.
J á Traslasierra e Río Seco, curatos ligados a atividades econômicas
secundárias, se caracterizavam por uma economia artesã e de serviços. Traslasierra
possuía agricultura, produção de farinha, de telha, de móveis, de carreta, de vinho e
outros, que provia tanto os viajantes rumo as minas de potosi como a cidade de
Córdoba. Río Seco, por sua vez, tinha uma economia eminentemente de subsistência
apesar de também prover necessidades alimentares e de mão-de-obra dos viajantes
rumo a região de mineração
10
. Isto ajuda a entender o porquê deste dois curatos
possuírem uma menor porcentagem de população submetida a relação de
dependência, através da escravidão ou do agregamento; bem como uma maior
população de pessoas juridicamente na condição de livres, mesmo com suas maiores
porcentagens de população não branca.
A análise do banco de dados do censo de 1778 permitiu ainda observar que as
maiores concentrações de pessoas com condição jurídica de agregado ou escravo por
família, estava justamente em Río Tercero. Foi tido como pressuposto que uma família
com grande número de membros numa destas duas relações de dependência possuía
atividade econômica voltada ao mercado colonial; de forma contrária, famílias com
número reduzido de escravos ou agregados – um ou dois – ou sem estes membros,
foi considerada que tinham uma economia de simples subsistência.
Em Río Tercero 11.33% de suas famílias possuía mais de 7 membros
agregados ou escravos. No curato de Río Seco esta porcentagem caia para 4.79%
das famílias. Traslasierra, por sua vez, tinha apenas 5.01% de famílias com mais de 7
destes membros.
Este baixo número de concentração de gente de trabalho, mesmo para Río
Tercero, denota que parte considerável do trabalho despendido nestes três curatos era
para simples subsistência. O lema para grande parte da população não branca
espalhada nestas áreas rurais era “la pampa y la baca para todos”
11
. Daí a grande
preocupação da elite cordobesa, representada pelo marques de Sobremonte, em
disciplinar esta população em crescimento pela mesclagem étnica, agora expressada
no censo de 1778, em trabalhos públicos e militares não remunerado.
Em suma, para a construção deste esboço sócio-demográfico da Intendência
de Córdoba, tentou-se estabelecer algumas possíveis relações entre os dados étnicos,
jurídicos e familiares fornecidos pelo censo cordobês de 1778, com o apoio da
historiografia sócio-econômico desta mesma região.


1
Para um melhor entendimento das reformas ilustradas empreendidas no Río da Prata, a historiografia
argentina possui bons escritores (Ver: CHIARAMONTE, J osé C. La Etapa Ilustrada. 1750-1806.
Editorial Paidós. Buenos Aires 1992).
2
Foi considerado o pressuposto de Marx e Engels de que a família pode ser entendida a partir da análise
da sociedade em questão. Nas sociedades de capitalismo industrial, por exemplo, previram o fim da
própria família, quando a filha do operário se transforma em prostituta ou quando as relações sócio-
familiares se mercatilizam (Cf. MARX; ENGELS: Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin
Claret, 2002).
3
Os curatos eram sub-divisões da Intendência; em Córdoba havia 10 na campaña, área rural, mais o da
cidade de Córdoba. No noroeste da Intendência de Córdoba encontrava-se os curatos de Traslasierra,
Punilla, Rio Seco, Tulumba e Ischilín. No centro da Intendência se encontrava a própria cidade de
Córdoba e o curato de Anejos. Ao sudeste se encontrava os curatos de Rio Segundo, Rio Tercero,

Calamuchita e Rio Cuarto (Cf. CELTON, Estela Dora: Ciudad y Campaña en la Cordoba Colonial.
Córdoba: J unta Provincal de Historia de Córdoba, 1996).
4
Fonte: banco de dados elaborado para esta pesquisa. Toda a base de dados numéricos utilizada no texto
advém deste mesmo banco de dados.
5
Este aumento populacional a partir de meados do século XVIII, advindo principalmente através da
mestiçagem, é consenso na historiografia cordobesa. Tal fenômeno deve-se a vários fatores interligados.
Recuo da mortalidade causada pelas epidemias, que foram comuns na primeira metade deste mesmo
século. Neste período, várias epidemias faziam que as taxas de natalidade, constatadas nos livros de
batismos das Igrejas, fossem menores que as taxas de mortalidade. Os ataques indígenas na fronteira sul
da Intendência – Río Cuarto e Río Tercero – que dizimavam as populações destas localidades,
empurrando-as para o litoral ou para Cuyo, também retrocederam. A economia cordobesa e de todo Rio
da Prata, em geral, melhorou com a paulatina liberalização comercial e com o aumento da demanda de
gado muar para as minas do Alto Peru. Mas, um fato interessante que também contribuiu para o aumento
populacional foi que “... la presión de los colonizadores (sobretudo na população indígena) disminuyó,
fenómeno coincidente con la desmembración de las encomiendas, (assim) la recuperación demográfica
vino acompañada de una mayor liberdad en las relaciones interétnicas que favoreció su
entrecruzamiento”. (Cf. ARCONDO, Aníbal: El ocaso de una sociedad estamental. Córdoba entre 1700
y 1760. Córdoba. Universidad Nacional de Córdoba, 1992).
6
Respondendo aos anseios da elite local, o Intendente da província de Córdoba, marquês de Sobremonte,
realizou diversas ações no sentido de nuclear as pessoas não brancas consideradas “bagamundas” em
fortes fronteiriço, em trabalhos públicos na cidade de Córdoba e nas vilas recém fundadas das áreas
rurais. Para escapar destas obrigações todas pessoas não brancas deveriam trabalhar para um branco ou
conchavar-se com ele. Foi criado uma categoria de juiz, chamado de pedáneo, para agir nas extensas
áreas rurais da província, combatendo supostos crimes de ociosidade, roubo de gado, sexuais e crimes
contra a religião (Cf. PUNTA, Ana Ines: Córdoba Borbónica. Persistencias coloniales en tiempo de
reformas (1750-1800). Córdoba: UNC, 1997).
7
Esta classificação familiar para fins do período colonial é seguida pela historiografia argentina (Cf.
CARBONARI, María Rosa. População, fronteira e família. A região de Río Cuarto no período
colonial tardio. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2001. (Tese de doutorado)).
8
Em sociedades do Antigo Regime as relações de dominação e dependência pessoal, fundada no poder da
propriedade da terra, substituem o podem impessoal do dinheiro (Cf. MARX, Karl: Formações
econômicas pré-capitalistas. Editora Paz e Terra. Rio de J aneiro, 1975. p. 96).
9
A região mineira devido sua característica geográficas montanhosa, não era capaz de produzir mulas
para o transporte. Desta forma, Córdoba se aproveita para ajudar prover esta necessidade da região
mineira criando mulas e exportando-as à ela; ou preparando mulas de outras regiões mais do litoral, como
Buenos Aires ou Corrientes, por exemplo. O preparo consistia no endurecimento de seus cascos em
terrenos pedregosos para a posterior longínqua viagem à região mineira, e também para que o animal
suportasse os grandes declives dos acidentes geográficos, a isto dá-se o nome de invernada (Cf.
CONCOLORCORVO: El lazarillo de ciegos caminantes. Buenos Aires. Emecé Editores, 1997). A
economia cordobesa, desde meados do século XVII, seguiu dependente de suas vendas de mulas para o
norte mineiro. Desta forma, sempre que a demanda do gado mular decaía na região mineira devido a
baixa produção de prata das minas, a economia cordobesa entrava em crise. Mesmo quando houve maior
liberalização do comércio a partir de 1778 com o Reglamiento del Libre Comercio, Córdoba prosseguiu,
ainda em grande parte, dependente das demandas do gado mular do norte mineiro (Cf. PUNTA, Ana Inés.
Córdoba Borbónica. Persistencias coloniales en tiempo de reformas (1750-1800). Córdoba: UNC, 1997).
10
Cf. CELTON, Estela Dora: Ciudad y Campaña en la Cordoba Colonial. Córdoba: J unta Provincal de
Historia de Córdoba, 1996.
11
Cf. FERRERO, Roberto A. Breve Historia de Córdoba (1528-1995). Córdoba: Alción, 1999.

Memória universitária: o Sistema de Arquivos da UEM.

Evandir Codato




Tendo em vista a manutenção do padrão de eficiência e qualidade das
diferentes ações da comunidade universitária, torna-se necessário estabelecer
Programa Interdisciplinar de Implantação do Sistema de Arquivos que tenha como
objetivo a adoção de: princípios, diretrizes, normas e métodos de organização e
funcionamento dos arquivos; mecanismos que imprimam racionalidade à recuperação
de informações nas diferentes fases do ciclo vital dos documentos e uma política de
preservação do patrimônio arquivístico.
É consenso que o ponto de partida para a organização do arquivo universitário
deve ser o entendimento do contexto nos quais os documentos foram criados. Bottino
observa que, o estudo das funções desempenhadas pela universidade leva ao
conhecimento, não só da instituição, como, também, do acervo acumulado, com todos
os problemas advindos dessa acumulação. A partir daí, ter-se-á condições de
estabelecer metas e "a análise institucional funcional, por conseguinte, é o primeiro e
apropriado passo para todos os arquivistas de instituições", tese defendida por
Samuels (1992). O conceito de arquivo universitário traz, em seu bojo, duas
categorias de acervos, aqueles gerados e acumulados na própria instituição, no curso
da administração, denominados "arquivos universitários por origem", ou "arquivos
institucionais" e aqueles formados por fundos privados provenientes de pessoas ou
organismos externos à universidade, que suscitam interesse para o ensino e a
pesquisa e que se agregam aos já existentes; são denominados "arquivos
universitários por adoção" ou "arquivos privados". Entende-se, pois, por arquivo
universitário, “o conjunto de documentos, tanto institucionais quanto privados,
produzidos, recebidos e acumulados por estabelecimento de ensino superior, no curso
da gestão jurídica-acadêmica-administrativa, que servem de suporte informacional e
de prova de evidência no exercício de suas funções, constituindo a memória
institucional”. A autora diz que,

O arquivo pode prover a universidade de recursos informacionais,
possibilitando "repensar" a instituição. A guarda de documentos
estratégicos, por parte do arquivo universitário, é fundamental para a
sobrevivência da instituição e, por conseguinte, para a preservação de sua
identidade. A base de sustentação do arquivo universitário encontra-se nas
funções por ele desempenhadas e conseqüentes serviços prestados à
comunidade por ele atendida". (Bottino,1998: cd-rom)

Assim sendo, para a autora, há três funções básicas: administrativa,
pedagógica e cultural.
Na sua função administrativa, o arquivo universitário constitui um meio eficaz
de conhecer e gerenciar as fontes de informação da instituição. Como armazena
categorias de documentos institucionais, ele "ocupa posição privilegiada de como
alcançar-se a eficiência administrativa, passando o arquivo a constituir-se num
instrumento através do qual a instituição pode justificar, para si e para o público, sua
capacidade administrativa de execução e gerenciamento e de como atingir metas
propostas" (Bottino,1998: cd-rom).
Enquanto "instrumento das atividades administrativas, atua na melhoria da
comunicação interna e propicia maior fluxo e rapidez da informação, trazendo a
excelência dos vários setores. Organizado e capaz de dar respostas, evita que a
universidade recrie coisas, refaça caminhos antes percorridos" (Bottino,1998: cd-rom).
Na sua função pedagógica fundamental atua junto ao ensino, à pesquisa e à
extensão.
No que se refere ao ensino, o arquivo contribui na elaboração de trabalhos,
informações sobre origem de cursos e estudos curriculares. "No que diz respeito à
pesquisa, o acervo custodiado pelo arquivo universitário é uma fonte de informação
para seu desenvolvimento, pois acumula documentos oriundos de pesquisas
efetuadas na universidade, constituindo-se, pois, num referencial de informações".
(Bottino, 1998)
Na função cultural o "arquivo universitário identifica-se como sendo um "locus"
facilitador na reconstituição histórica da instituição, face a existência do acervo
acumulado e preservado ao longo do processo administrativo, assim como dos outros
acervos a ele integrados. Através de todo um trabalho de divulgação, exposições,
publicações, atendimento ao usuário, o arquivo universitário promove cultura e
dissemina conhecimento para fora da universidade". Ele "deve ser encarado sob um
ponto de vista mais amplo, com o delineamento de um programa abrangente,
integrando sua missão e suas funções às da universidade". (Bottino,1998)
A contribuição da Professora também é no sentido da implantação desse tipo
de arquivo:

1. definir sua missão, esfera de atuação e poder, com a elaboração de um
documento com a devida aprovação institucional, assegurando sua existência e
conferindo-lhe poder para desempenhar sua missão;
2. estudar a localização do arquivo na estrutura organizacional da universidade,
cuja posição no organograma determinará os rumos das atividades
arquivísticas a serem desenvolvidas;
3. caracterização do acervo institucional;
4. recursos humanos qualificados e em quantidade suficiente para o bom
desempenho do serviço;
5. instalações adequadas, levando-se em consideração as necessidades
básicas;
6. prover os usuários com serviços que satisfaçam suas necessidades,
justificando, pois, a razão de existência do arquivo.

O desenvolvimento do arquivo universitário está relacionado à implantação
de atividades de natureza técnica, como: o estabelecimento de um
programa de gestão de documentos; cuidados quanto à conservação e à
preservação dos acervos; política de avaliação de documentos, com
elaboração de tabela de temporalidade; política de aquisição de acervos;
processamento do acervo, no que diz respeito à classificação, arranjo,
descrição, recuperação da informação, enfim, atividades que visem a
organização e manutenção do arquivo". (Bottino, 1998)

A autora chama a atenção para a qualificação profissional, na pessoa do
arquivista:

Finalmente, a qualidade de produtos e serviços que podem ser sentidos: no
apoio que o arquivo universitário pode fornecer à administração na tomada
de decisões; na fixação de diretrizes do planejamento institucional; no apoio
ao ensino e à pesquisa; no planejamento pedagógico, orientando na
elaboração de currículos e programas de curso; na formação de discentes,
orientando na elaboração de trabalhos e atuando como laboratório prático
de ensino e pesquisa, servindo de campo de estágio; contribuindo na
produção do conhecimento científico e na formação de novos
pesquisadores; apoiando a comunidade, facilitando o acesso aos
documentos, prestando assistência técnica e, no que tange à difusão
cultural, contribuindo com publicações, organizando exposições, palestras,
cursos, etc. (Bottino,1998: cd-rom)

Para ela é ainda relevante que aconteçam iniciativas como as abaixo descritas:

1. palestras de sensibilização, com vistas à conscientização das
administrações superiores para a importância e necessidade dos arquivos
universitários;
2. a necessidade de uma postura dinâmica e doutrinária por parte de
profissionais que atuam no arquivo universitário, objetivando informar sobre a
razão de sua existência, apelando para todas as formas de divulgação;
3. os documentos produzidos pela administração universitária, no curso de
suas atividades, são propriedade da instituição e o arquivo universitário é o
local oficial de sua preservação;
4. os documentos não podem ser eliminados sem a aprovação do responsável
pelo setor que retém os documentos bem como do arquivista da universidade;
5. a responsabilidade do arquivista da universidade nas atividades de
identificação e recolhimento sistemático dos arquivos permanentes da
administração para o arquivo;
6. aproximação do arquivista junto aos institutos e departamentos, a fim de
inteirar-se sobre as pesquisas em andamento e novos cursos a serem
ministrados, oferecendo, através do arquivo, apoio para pesquisa junto ao
acervo custodiado;
7. contribuição nos programas de cursos de graduação e pós-graduação,
mostrando como o material arquivado pode ser utilizado em sala de aula;
8. orientação do usuário no que diz respeito a que documentos usar e como
pesquisar;
9. estimular o uso dos documentos do arquivo, por parte dos discentes;
10. elaboração, por parte do arquivista, de artigos, panfletos e publicações, não
só sobre o acervo, como, também, sobre a história da instituição;
11. participação do arquivista em "comissões" da universidade, seja para
organização e celebração de festas de aniversários, história da instituição,
cooperando com departamentos, alunos, administradores, etc.;
12. não limitar-se, somente, aos recolhimentos da documentação
administrativa, devendo incentivar a doação de arquivos privados pessoais dos
membros da universidade, bem como da comunidade externa que sejam
significativos para a instituição;
13. incentivar o recolhimento, ao arquivo, dos documentos dos diretórios
acadêmicos, publicações estudantis, etc.;
14. estar atento aos eventos culturais estabelecidos no calendário e
promovidos pela universidade (exposições, recitais, comemorações, etc.), com
vistas a documentar os fatos, preservando a informação;
15. utilizar a história oral (entrevistas) como método de documentar a educação
superior. (Bottino,1998: cd-rom)

Enfim, para a autora, Universidade, Arquivologia e Arquivo Universitário são
complementares e interdependentes. A organização e a manutenção do arquivo
universitário é uma tarefa árdua, que requer a adoção de medidas que levem à
otimização dos serviços e que haja muito empenho e dedicação. Porém, todos os
esforços serão recompensados se a universidade entender que a preservação e a
manutenção de seus arquivos faz-se necessária para atender às demandas internas e
externas. (Bottino, 1998)
A experiência que Rose Marie Inojosa adquiriu com arquivos universitários
destaca como relevante: a responsabilidade do arquivista, a gestão de fundos, a
avaliação dos registros e a influência da tecnologia para os suportes da informação.
Isto porque enquanto campo de formação profissional e de pesquisa científica a
universidade é por excelência o local de geração e apropriação de informação. Ela é
um ambiente,

onde a informação existe, por produção própria ou por captação, e onde pode
ser apropriada e submetida à crítica no processo de transformação que
caracteriza a construção de novos conhecimentos. A informação na
universidade é ao mesmo tempo, um insumo estratégico e um produto. (...) e
sua disponibilidade, mediante acesso direto ou referencial cria a qualidade do
ambiente informativo para responder perguntas; orientar para outros ambientes
informativos; e, sobretudo, instigar perguntas. (Inojosa, 1998)

Tais responsabilidades, para ela, são dirigidas aos "clientes da informação –
corpo docente, discente, administração, comunidade -, que constituem o motivo da
existência da organização e o foco principal da qualidade". A responsabilidade dos
arquivistas em relação à qualidade da informação do ambiente em que atuam não
deve ser somente dos documentos sob sua guarda. Atuam em dois ambientes:
primeiro, de acervos documentais e de outros arquivos que estão na universidade, e,
noutro ambiente, mais específico, o arquivo gerado pela própria instituição. O fundo
arquivístico da universidade informa como ela realiza seus serviços, quais suas
relações com a sociedade, quais resultados obtém segundo seus objetivos e quais
alcança ao longo de sua existência. Quais informações detêm o arquivo da
universidade? Segundo seus objetivos e atribuições, as atividades básicas são:

Ensino: projetos, programas de curso e de disciplina; cronogramas, apostilas,
avaliações, etc.
Pesquisa: projetos e propostas, cronogramas, relatórios, avaliações, etc.
Prestação de serviço à comunidade: correspondências, projetos e propostas,
relatórios, avaliações, etc.
Administração do corpo docente: processos de contratação, de afastamentos e
disciplinas, registros, dossiês, avaliações, etc.
Administração geral: documentos de gerenciamento de meios e recursos.
(Inojosa, 1998)

Em decorrência dessas atividades, o fundo da universidade é aberto, dinâmico
e em permanente alimentação. Constantemente novos registros de informação
circulam entre seus agentes e parceiros. A sua potencialidade perdura para os clientes
internos da instituição durante toda sua existência. Isto significa que, os gerentes e
profissionais da informação e de arquivo na universidade têm responsabilidades
singulares em relação à preservação e à qualidade dos registros. Trata-se do
processo de avaliação dos registros. As responsabilidades referem-se: "à qualidade
intrínseca do registro da informação e em relação ao processo de avaliação". No caso
do registro da informação,

É tarefa da gestão da informação contribuir e orientar os agentes produtores da
organização para que os registros tenham as características de:
. clareza – no sentido do código comum entre as partes em relação;
. precisão – que diz respeito ao que o registro conta em relação ao fato de que
trata;
. confiabilidade – na medida que permite considerar de que ponto de vista está
sendo narrado ou apreciado o fato, pois identifica o autor e o momento da
produção.

A segunda responsabilidade na gestão do fundo arquivístico é “a orientação e a
coordenação do processo de avaliação. Esse processo deve ser realizado no
momento da produção e com a participação dos agentes, de modo a identificar e
preservar os documentos capazes de, na sua inter-relação, permitir a compreensão do
processo de produção das atividades da organização e de seus resultados, ao longo
de sua existência". (Inojosa, 1998)
Ainda no processo de produção e qualidade dos documentos de arquivo, a
autora considera importante destacar a influência dos novos suportes da informação e
da dinâmica que essa tecnologia determina para a gestão nos arquivos. Nos
dias de hoje, num estágio de superação da fase de postura passiva, o arquivo é
submetido a um novo processo de avaliação dos documentos, ainda na fase corrente.
"Os arquivos passaram a assumir uma postura mais ativa, estabelecendo relações
mais freqüentes e próximas com os agentes produtores da documentação". Com o
aparecimento da informatização há ainda outra dinâmica: o ciclo de vida dos
documentos via de regra é alterado ocorrendo a superação de fases e liames.
(Inojosa, 1998)
Iniciativa semelhante, em outros momentos foi tomada pela Unicamp, Unesp,
UFPB, UFS porém com estratégias diferentes. Na Universidade Estadual de Maringá
a decisão pelo projeto toma corpo a partir de uma visita autorizada pela Reitoria – em
28 janeiro 2000 - ao SAUSP, para conhecimento do sistema e reunião com o grupo
responsável pela implantação. O compromisso que a partir daquele momento ficou
selado entre as partes teve como resultado este projeto. Segundo a orientação
recebida qualquer experiência com projeto piloto deve ser descartada quando o prazo
da gestão da Reitoria, em curso, é de dois anos, em vista de que este prazo é
equivalente à implantação do projeto. Com dois anos de atividade, uma equipe de
trabalho tem condição de instalar simultaneamente, o arquivo corrente e o
intermediário, em todas as unidades e setores da instituição, oferecendo, portanto
condição para a gestão documental. A instalação do arquivo permanente deverá ser
um desdobramento desta primeira etapa, o que implicará em estratégias, com política
e duração diferenciada, inclusive de construção de prédio com padrões técnicos
especiais e com outros custos. Considera-se relevante a definição da estratégia de
implantação de um sistema de arquivos, no sentido da otimização de recursos:
estabelecimento de políticas de curto e médio prazo.
Orientando-se nessa direção e seguindo o modelo da Universidade de São
Paulo, propõe-se a formação de atividade específica - um Programa - para iniciar
etapas de discussão, com a formação de Comissão Técnica, que estará autorizada
para o início do tratamento documental nos diferentes setores. Para isto é conveniente
destacar a importância de um trabalho integrado entre três grupos: a Comissão
Técnica, o Grupo Executivo e as Comissões Setoriais. A Comissão Técnica compõe-
se de: Presidente, Vice-Presidente, Membros e Suplentes, com atribuições de
planejamento, coordenação e controle do Sistema a ser implantado. Com exceção dos
Membros, (os especialistas) os cargos são administrativos. O Grupo Executivo terá
sob sua responsabilidade a execução dos objetivos segundo o cronograma proposto.
São 4 grupos de especialistas que atuam de forma integrada.
1º Compõe-se de especialistas em arquivística e biblioteconomia. São tecnicamente
preparados para a ministrar cursos e oficinas da área arquivística. Têm
responsabilidade de orientar e acompanhar as Comissões Setoriais. São
assessorados por um consultor externo.
2º Compõe-se de um representante jurídico e dois membros da administração.
Responsabilizam-se com as competências jurídico-administrativas.
3º Os especialistas da área financeira, da informática e dos recursos humanos
assistem aos respectivos suportes.
4º Essencial neste Grupo será a valiosa contribuição de estagiários para as atividades
de auxiliar de digitação, de analista de sistema e de expediente de secretaria.
As Comissões Setoriais compõem-se de funcionários, titulares e suplentes que
atuam nos órgãos centrais de direção e serviços, e, nas unidades de ensino, pesquisa
e extensão. Serão responsáveis na aplicação do gerenciamento dos documentos, num
primeiro momento, sobretudo os de uso corrente. Etapas das estratégias de ação.
1ª Formação técnica: Grupo Técnico orientará e acompanhará os Grupos
Setoriais:
2ª Levantamento de rotinas administrativas geradoras de documentos: O
Grupo Técnico orientará os Grupos Setoriais a partir do conhecimento da estrutura,
competências e funções de cada unidade (formal ou informal); serão identificadas as
séries documentais geradas e acumuladas, os dispositivos legais que determinam sua
guarda e a freqüência com que são utilizadas. Utilizar-se-á como estratégia a coleta e
sistematização de dados em áreas representativas de atividade-fim e atividade-meio,
de acordo com o re-escalonamento dos integrantes dos Grupos Setoriais.
3ª Elaboração de instrumentos formais de gestão de documentos: Uma vez
identificadas as séries documentais resultantes das rotinas administrativas, o Grupo
Técnico, em conjunto com os Grupos Setoriais (remanejados de acordo com as
respectivas especificidades), deverá elaborar dois instrumentos básicos e
indissociáveis de gestão:
1º. plano de classificação, a ser adotado nos sistemas informatizados de
recuperação e aplicado nas diferentes fases do ciclo vital dos documentos;
2º. plano de destinação.
A estratégia para a classificação segue a seguinte ordem:
1ª - coleta e sistematização de dados.
2ª - formação de comissão multi profissional de avaliação.
3ª - aprovação e divulgação de tabelas de temporalidade.
4ª - institucionalização do Sistema de Arquivos da Universidade Estadual de Maringá.
(a partir do segundo ano)
A incorporação de determinadas práticas e a existência de instrumentos
formais de gestão de documentos sinalizarão o exercício de uma verdadeira política
de arquivos, coerente com o objetivo traçado.
A estratégia para a destinação do acervo poderá ser no sentido da:
1º - criação de arquivos centrais (como órgãos setoriais do Sistema de Arquivos) nas
unidades que cumpriam as diversas etapas do processo.
2º - valorização do profissional de arquivos no Plano de Carreira.
No cronograma físico, os períodos referem-se à realização da atividade por
setor. Por exemplo: Órgãos Centrais de Direção e Serviços, Ensino e Pesquisa, etc. A
definição do quadro da aplicação dos cursos segundo o setor ficará definido nos dois
primeiros meses de atividade do projeto e poderá ocorrer em até três turnos de curso.


BOTTINO, Mariza. Os arquivos universitários no Brasil. Estudos & Pesquisas. A
informação: questões e problemas. Niterói: Ed. Universidade Federal Fluminense.
1995. p. 61-67.
___. Reflexões sobre a realidade arquivística no contexto universitário. CONGRESSO
BRASILEIRO DE ARQUIVOLOGIA, 10º, 1994, São Paulo. Anais do 10º Congresso
Brasileiro de Arquivologia: rumos e consolidação da arquivologia. São Paulo:
Associação dos Arquivistas Brasileiros – Núcleo Regional de São Paulo, 1998. (CD-
ROM).
CAMARGO, Ana Maria de Almeida. coord. Diagnóstico dos Arquivos da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo:
Centro de Apoio à Pesquisa em História "Sergio Buarque de Holanda" CAPH/
Departamento de História – FFLCH – USP. 1996.
CONGRESSO BRASILEIRO DE ARQUIVOLOGIA, 10º, 1994, São Paulo. Anais do 10º
Congresso Brasileiro de Arquivologia: rumos e consolidação da arquivologia. São
Paulo: Associação dos Arquivistas Brasileiros – Núcleo Regional de São Paulo, 1998.
(CD-ROM).
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE ARQUIVO PÚBLICO. Manual de gestão de
documentos do Estado do Paraná. 2. ed. Curitiba: O Arquivo, 1998.
DICIONÁRIO DE TERMINOLOGIA ARQUIVÍSTICA. Coordenação Ana Maria de
Almeida Camargo, Heloísa Liberalli Bellotto; colaboração Aparecida Sales Linares
Botani et al. São Paulo: Associação dos Arquivistas Brasileiros – Núcleo Regional de
São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1996.
INOJ OSA, Rose Marie. Qualidade da informação e da documentação na universidade.
CONGRESSO BRASILEIRO DE ARQUIVOLOGIA, 10º, 1994, São Paulo. Anais do
10º Congresso Brasileiro de Arquivologia: rumos e consolidação da arquivologia. São
Paulo: Associação dos Arquivistas Brasileiros – Núcleo Regional de São Paulo, 1998.
(CD-ROM).
SISTEMA DE ARQUIVOS USP - SAUSP. Tabelas de temporalidade dos documentos da
Universidade de São Paulo. Manual de aplicação. Outubro 1997.
SISTEMA DE ARQUIVOS USP - SAUSP. Portaria GR nº 3083/97. Anexo II. Outubro
1997.
SISTEMA DE ARQUIVOS USP - SAUSP. Portaria GR nº 3083/97. Anexo III. Outubro
1997.
PESQUISAS ARQUEOLÓGICAS NA REGIÃO NOROESTE DO PARANÁ, ENTRE
OS RIOS PARANAPANEMA E IVAÍ
1

Francisco Silva Noelli

; Lúcio Tadeu Mota*; Marcos R. Nanni
+
; Margarida C. Lavado*;
Eurides R. de Oliveira*; Carlos Panek Jr*.; Ana P. Simão*; Américo J. Marques

; João
B. da Silva




Aproximadamente 2.500 anos atrás (A.P.), agrupamentos maiores de 300
pessoas passaram a ocupar a área dos atuais municípios de Diamante do Norte,
Marilena, Nova Londrina, Porto Rico, São Pedro do Paraná, Querência do Norte e
Santa Cruz do Monte Castelo, noroeste do estado do Paraná (Figura 1).













Figura 1: Localização da área da pesquisa
Tratava-se de uma das frentes da ampla expansão dos povos falantes da
língua Guarani, que vinha ocupando sistematicamente o território do Mato Grosso do
Sul e dos canais dos rios Paraguai e Paraná, a partir da bacia dos rios Madeira e
Guaporé, em Rondônia. Esses agrupamentos possuíam uma matriz cultural em
comum, que assegurava a reprodução e a manutenção de uma estrutura similar em
termos lingüísticos, sócio-econômicos, políticos, religiosos e materiais. Os elementos
derivados dessa matriz cultural também foram notados, com maior ou menor grau de
diferenciação, em outras partes do Brasil, entre as populações genericamente
conhecidas pelo rótulo “Tupi”, englobando cerca de 41 línguas distintas
2
. A unidade
básica dos agrupamentos Guarani era definida como tekohá, o território onde
instalavam a aldeia, as áreas de roça, pesca, caça e coleta, bem como, nas palavras
de Melià
3
, continha a inter-relação entre os espaços culturais, econômicos, sociais,
religiosos e políticos. O tekohá era autônomo em termos político-sociais, com uma
organização do tipo kindred, composta por famílias extensas reunidas em torno de
uma liderança política e/ou religiosa, definida por laços políticos. O fator de agregação
dos grupos Guarani era a o prestígio de uma pessoa que reunia as qualidades de

10º
20º
30º
50º
60º 70º
30º
20º

70º

60º

50º
MS

SP
PR


MS
SP

Capricórnio
de

PR

Trópico


Equador

BRASIL
PARAGUAI
PARAGUAI
50º


20º
10º
50º
liderança, de articulação política, de organizar trabalhos coletivos, de bom orador, de
bom guerreiro, assim como de bom agricultor, caçador/pescador e de provedor de
grandes festas. Eventualmente poderia ser uma pessoa eleita por seus atributos
genealógicos, por herdar as características prestigiosas mencionadas. Os tekohá
formavam redes de alianças regionais, em agrupamentos unificados em torno de uma
personagem superlativa das qualidades arroladas acima. As alianças propiciavam a
circulação de pessoas, através de casamentos inter-aldeãos, como meio de firmar as
alianças políticas. Essas alianças continham graus distintos de etnicidade, que
distinguiam sócio-politicamente os grupos, em que pese o referido conjunto de
aspectos comuns da mesma matriz cultural. Cada tekohá era autônomo em termos de
subsistência, principalmente através da agricultura de coivara, baseada no plantio de
uma larga lista de plantas, muitas com vários cultivares. Os Guarani cultivavam em
suas roças a média de 39 gêneros vegetais, subdivididos em pelo menos 159
cultivares
4
.
Além das alianças políticas, existiam redes de comércio entre os tekohá, nas
quais circulavam desde matérias-primas até bens manufaturados, alimentos e outros
itens materiais. O intercâmbio assegurava contínua troca de informações e
conhecimentos, contribuindo para a reprodução de vários aspectos culturais e
garantindo a perpetuação do ñande reko - o “modo de ser” Guarani. Em linguagem
antropológica, era a manutenção do ethos, que, nas palavras de Geertz
5
, significa o
“tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético e sua disposição,
é a atitude subjacente em relação a ele mesmo... A visão de mundo que esse povo
tem é o quadro que elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu
conceito de natureza, de si mesmo, da sociedade”. O ñande reko foi observado desde
o período colonial até o presente e a sua manifestação material pode ser encontrada
nos registros arqueológicos, através de uma série de objetos e contextos diagnósticos,
caracterizados pela uniformidade morfológica e por indicadores constantes de padrões
funcionais que indicam a reprodução de uma série de atividades sócio-
econômicas.Essa uniformidade material, cuja explicação desafia os paradigmas da
noção antropológica de mudança, era garantida pelas características apresentadas
acima, graças a continuidade dos intercâmbios locais e regionais, assim como pela
manutenção do ñande reko. Nas fronteiras estabilizadas, a convivência com
populações não-Guarani pode ter sido elemento influenciador de mudanças, através
de trocas simbólicas e materiais, alcançando inclusive trocas matrimoniais para formar
alianças políticas ou comerciais.
O processo de ocupação do espaço ocorria com o desdobramento dos tekohá,
tanto por crescimento demográfico quanto por fissões sociais devidas a causas
políticas, através da emergência de novas lideranças. Eventualmente ocorria
mudanças territoriais devidas à catástrofes naturais ou por derrotas em guerras. É
importante considerar que o desdobramento não resultava no abandono do antigo
assentamento, mas apenas na formação de uma nova aldeia na periferia do tekohá
“mater”, em uma área previamente preparada com a instalação de roças ou com a
reativação de antigas áreas de cultivo que estivessem em pousio. Esse processo
garantia uma contínua expansão territorial, embalada pelo ritmo do crescimento
demográfico e das fissões sociais através da ocupação de novas áreas a cada
geração. Conforme registros coloniais de 1590, ao redor de Vila Rica do Espírito Santo
(município de Fênix), existiam aldeias com até 1.600 Guarani e densidades médias de
550 pessoas por aldeia
6
. A complexidade da organização social Guarani, associada à
poligamia e à escravização, garantia alta taxa de crescimento demográfico e a
existência de uma conduta expansionista. Além dos impactos sociais e políticos, esse
crescimento causava alterações ambientais, uma vez que na formação de cada tekohá
os Guarani inseriam um pacote de plantas úteis, em roças que podiam ter mais de 100
hectares. Cada família extensa manejava várias roças simultaneamente, de diferentes
idades e com finalidades distintas, pois quanto mais antiga a roça, mudavam as
plantas cultivadas. As mais novas eram destinadas às plantas alimentícias de rápido
crescimento (mandioca, milho, batata, amendoim, cará, feijão etc.), enquanto que as
mais velhas eram destinadas ao cultivo de plantas medicinais, frutíferas e outras
espécies alimentares que vegetam por longo tempo (como certas variedades de
feijões e de tubérculos). Espécies produtoras de madeiras e palhas, úteis na
confecção da cultura material eram largamente manejadas, sendo inseridas junto com
as espécies alimentícias e medicinais, para serem utilizadas mais tarde, garantindo a
oferta futura de matérias-primas. Muitas dessas plantas foram transportadas ao longo
do processo expansivo para o sul do Brasil e dos países vizinhos, num amplo
processo de interações e trocas fitogeográficas. Ao se expandirem para fora do
sudoeste amazônico e outras áreas do leste da América do Sul, os Guarani e outros
povos populações Tupi contribuíram para o aumento da biodiversidade com a
dispersão de várias espécies amazônicas, andinas e caribenhas, como, certamente
levaram, no sentido contrário, espécies adventícias do Chaco, do Pampa e do sul do
Brasil para a região amazônica, dentro do sistema de comunicação entre as áreas
Guarani.

A pesquisa arqueológica no noroeste do Paraná
O texto acima resume um modelo que vem sendo desenvolvido há dez anos
por um dos autores deste trabalho, a partir de dados arqueológicos, históricos,
etnográficos e lingüísticos
7
. O teste e a operacionalização deste modelo depende das
pesquisas arqueológicas regionais, que mostram como ocorreram os processos de
ocupação e manutenção nas áreas do imenso território Guarani. O mapeamento de
sítios arqueológicos é a base para iniciar a pesquisa sobre a vida cotidiana e também
possibilita constatar padrões de continuidade ou de mudança cultural, através de
escavações arqueológicas desenvolvidas por um projeto duradouro em nível local e
regional. Desde 1997 o Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História (LAEE) –
Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações, na Universidade Estadual de
Maringá (UEM), desenvolve pesquisas no noroeste do Paraná e iniciou um programa
de formação de novos arqueólogos. Através do LAEE elaboramos um programa de
pesquisa arqueológica regional nos municípios mencionados acima, por ocasião dos
estudos preliminares para a formação da Área de Proteção Ambiental Federal do
Noroeste do Paraná (APA). Esta área também nos interessa por ser a provável “porta
de entrada” dos Guarani no sul do Brasil e por apresentar uma seqüência contínua de
ocupação entre 200 a.C. e 1630 d.C. Isso implica em uma série de problemas a serem
levantados e investigados, com destaque para o estudo sobre a morfologia, a duração
e a idade dos assentamentos; a formação dos registros arqueológicos; a tecnologia; o
padrão de assentamento; a exploração dos recursos naturais; a relação entre os
assentamentos; as dimensões das alterações vegetais causadas pelo sistema de
manejo agroflorestal Guarani. O último tema é importante, pois, as pesquisas
botânicas em andamento na região de Porto Rico, desenvolvidas por pesquisadores
associados ao Nupélia - UEM, vêm revelando um padrão de fitogeográfico que abre a
perspectiva para a constatação dos antigos manejos realizados pelos Guarani na
região
8
. Como o levantamento botânico está em curso e a lista de plantas conhecidas
e utilizadas pelos Guarani é lacunar, é provável que os Guarani tivessem um
conhecimento de toda (ou quase toda) a flora da área em questão, a exemplo do que
foi constatado por botânicos em outros povos da mesma tradição cultural dos
Guarani
9
. Com base nos estudos quaternários desenvolvidos por geólogos
10
da UEM,
o início da ocupação Guarani coincide com as mudanças climáticas e fitogeográficas
que ocorriam no noroeste paranaense. Os Guarani estariam entrando na região nos
últimos séculos de um período de aridez que perdurou cerca de 3.000 anos, entre
3.500 a.C. - 500 d.C. A aridez teria contribuído para a formação de áreas de cerrado,
com predomínio de campos e capões de espécies arbustivas, com a retração do
tamanho das áreas florestais. O aumento da umidade a partir de 500 a.C. causou uma
inversão na fisionomia vegetal, contribuindo para aumentar as áreas de floresta e
tornando o ambiente favorável à ocupação Guarani, que instalavam suas aldeias e
roças no interior da floresta. Este processo de ocupação também foi verificado em
áreas próximas, no trecho a montante da hidrelétrica de Porto Primavera, no médio
Paranapanema e no rio Paraná
11
.

Resultados preliminares da pesquisa arqueológica
Os primeiros resultados são promissores, considerando que a pesquisa iniciou
em abril de 2000. J á percorremos a pé, para mapear ocorrências arqueológicas de
superfície (OAS), à beira do rio Paraná, uma extensão de 120 km de comprimento por
3 km de largura, desde a represa de Rosana, em Diamante do Norte, até a foz do rio
Ivaí, em Querência do Norte, bem como a maior parte do litoral do município de Santa
Cruz do Monte Castelo (Figura 2). No futuro examinaremos as microbacias e áreas
potenciais para a instalação dos assentamentos mais afastados do rio Paraná,
considerando o relevo, abastecimento de água, tipos de solos e outros elementos da
natureza (a meta é percorrer toda superfície dos sete municípios). Essa estratégia de
caminhamentos sistemáticos, planejados em função das cartas geográficas, fotos
aéreas e imagens de satélite, é o meio mais preciso para localizar os sítios
arqueológicos, prescindindo de informações de terceiros (estas foram procuradas para
valorizar o saber local e para estreitar relações com os moradores e autoridades
municipais da APA; também recebemos informações de pesquisadores da UEM).
Localizamos 68 ocorrências, totalizando um número mínimo de 28 e um máximo de 33
sítios arqueológicos, caso algumas OAS sejam mais de um sítio (Tabela 2). A figura 2
mostra a área de pesquisa e a localização das OAS. Também consideramos as
descobertas de outros pesquisadores que estiveram na área, nos anos 60 e 80
12
. Eles
localizaram cerca de 11 ocorrências, mas, contudo, não desenvolveram nenhum tipo
de pesquisa além da localização e do estabelecimento da filiação cultural. Como não
realizamos nenhum tipo de escavação ou coleta de superfície, pois limitamo-nos
apenas ao mapeamento e registro das OAS, há alguns casos que poderão
corresponder a mais de um sítio arqueológico. Essas ocorrências representam antigas
aldeias Guarani, suas casas e áreas de múltiplas atividades, como a cozinha, oficinas
e depósitos, áreas de lazer e de rituais. Ainda temos poucas informações sobre o
tamanho real dos sítios arqueológicos, mas alguns revelaram dimensões maiores que
1,5 km de comprimento, como um que está parcialmente soterrado/destruído pelo
núcleo urbano de Porto Rico (Figura 2). A maioria ainda depende da continuidade das
pesquisas para definir efetivamente suas dimensões. Isto depende das futuras
escavações e de um processo lento de pesquisas (leva-se em média 8 horas para a
escavação arqueológica de 1 metro quadrado com 8 cm de espessura). As evidências
encontradas possuem o mesmo padrão dos registros arqueológicos localizados no
Brasil meridional, apresentando concentrações de fragmentos cerâmicos e líticos de
superfície com dimensões variando entre 25 e 1.000 m
2
, relativos aos pisos das casas
e das áreas de atividade. As OAS possuem forma elipsoidal, com o eixo maior paralelo
ao leito do Paraná.

Conclusão
Encerramos a primeira etapa de um projeto de longa duração, concluindo o
reconhecimento arqueológico inicial da APA Federal do Noroeste do Paraná. De certa
forma, encontramos o que procurávamos, na quantidade esperada. A seguir, na
segunda etapa, começaremos a refinar nossas informações com o aprofundamento
das pesquisas de campo, por meio de estudos estratigráficos e contextuais de cada
unidade, visando definir como eram as aldeias, quando e como os Guarani ocuparam
a região. Também esperamos encontrar no registro arqueológico uma série de
evidências que revelem aspectos de sua vida social e econômica. Nas fontes escritas
procuraremos elementos que nos ajudem a compreender aspectos estruturais de sua
organização social e política, bem como diversos temas de interesse para a História
da ocupação e da desocupação Guarani no noroeste paranaense.
Tabela 2: Lista de sítios e ocorrências arqueológicas localizadas na APA
Município Nome do
Sítio
Código
do Sítio
Fonte Categori
a
Altitu
de
(m)
Água
+
próxi
ma
Comparti
mento
topográfic
o
Diamante do Norte Diamante do
Norte
PR - NL –
08
CNSA
25369
Lítico 250 40 Encosta
Diamante do Norte Pesqueiro
Bar. Rosana
PR - NL –
07
CNSA
25368
Guarani 252 30 Encosta
Diamante do Norte Tigre 1 PR – NL
– 09
LAEE Guarani 265 3 Encosta
Diamante do Norte Paranapane
ma 1
PR – NL
– 10
LAEE Guarani 258 1 Encosta
Diamante do Norte PR – NL
– 11
LAEE Guarani 262 200 Topo
Diamante do Norte Maracanã 1 PR – NL
– 12
LAEE Lítico 255 2 Encosta
Marilena Paranapane
ma 4
PR – ML
– 01
LAEE Lítico 237 10 Terraço
Marilena Paranapane
ma 5
PR – ML
– 02
LAEE Lítico 244 31 Terraço
Marilena Paranapane
ma 6
PR – ML
– 03
LAEE Lítico 243 28 Terraço
Marilena Paranapane
ma 7
PR – ML
– 04
LAEE Lítico 278 21 Terraço
Nova Londrina PR – NL
– 13
LAEE Guarani 262
Porto Rico Caracu 2 PR – PP
– 05
LAEE Guarani 287 5 Encosta
Porto Rico Paraná 3 PR – PP
– 06
LAEE Guarani 332 9 Encosta
Porto Rico Água Dois 1 PR – PP
– 07
LAEE Guarani 267 15 Encosta
Porto Rico Água Dois 2 PR – PP
– 08
LAEE Guarani 281 39 Encosta
Querência do Norte Porto Brasílio PR – QN
– 04
Blasi
1961-
LAEE
Guarani 258 100 Encosta
Querência do Norte Paraná 4 PR – QN
– 01
LAEE Guarani 300 100 Encosta
Querência do Norte Patrão 2 PR – QN
– 02
LAEE Guarani 253 62 Terraço
Querência do Norte Patrão 1 PR – QN
– 03
LAEE Guarani 289 52 Encosta
Querência do Norte Porto
Pinheirinho
PR – QN
– 05
LAEE Guarani 274 20 Encosta
Querência do Norte Porto 18 PR – QN
– 06
LAEE Lítico 274 47 Encosta
Querência do Norte Porto Natal PR – QN
– 07
LAEE Guarani 267 15 Topo
Querência do Norte Bom Fim PR – QN
– 08
LAEE Lítico 236 23 Encosta
S. Pedro do Fazenda São PR - NL – CNSA Guarani 270 150 Encosta
Paraná Pedro 01 26116
S. Pedro do
Paraná
Sítio das
Lanchas 1
PR - NL –
02
CNSA
26117
Lítico 257 2 Encosta
S. Pedro do
Paraná
Sítio das
Lanchas 2
PR - NL –
03
CNSA
26118
Guarani 270 20 Encosta
S. Pedro do
Paraná
Arara
Vermelha
PR - NL –
04
CNSA
26119
Lítico 260 2 Encosta
S. Pedro do
Paraná
Arara
Vermelha 2
PR - NL –
05
CNSA
26120
Lítico 254 2 Encosta
S. Pedro do
Paraná
Sítio das
Lanchas 3
PR - NL –
06
CNSA
26121
Neobrasil
eira
260 30 Encosta
S. Pedro do
Paraná
Paraná 1 PR – PP
– 01
LAEE Guarani 256 150 Encosta
S. Pedro do
Paraná
Paraná 2 PR – PP
– 02
LAEE Lítico 262 9 Encosta
S. Pedro do
Paraná
São Pedro 1 PR – PP -
03
LAEE Guarani 250 50 Encosta
S. Pedro do
Paraná
Caracu 1 PR – PP -
04
LAEE Guarani 264 15 Encosta
S. Cruz do Monte
Castelo
Prata 1 PR – MC
– 01
LAEE Guarani 233 5 Encosta
S. Cruz do Monte
Castelo
Prata 2 PR – MC
– 02
LAEE Guarani 284 25 Encosta
S. Cruz do Monte
Castelo
Ivaí 1 PR – MC
– 03
LAEE Lítico 272 80 Terraço
S. Cruz do Monte
Castelo
Ivaí 2 PR – MC
– 04
LAEE Lítico 233 30 Terraço

Diamante do Norte
Marilena
Nova Londrina
São Pedro do Paraná
Porto Rico
Pt. S. José
Loanda
Querência do Norte
ZONEAMENTO ECOLÓGICO-ECONÔMICO (ZEE)
DA APA DAS ILHAS E VÁRZEAS DO RIO PARANÁ
LEVANTAMENTO
DE CAMPO
ARQUEOLOGIA
LEGENDA
SÍ TI OS E OCORRÊNCI AS
ARQUEOLÓGI CAS
Muni cí pi os
Lagos e l agoas
Ri os, cór r egos e r i bei r ões
1:130.000
BASE CARTOGRÁFI CA:
I BGE FOLHAS SF- 22- Y- A- I V a VI ; SF- 22- Y- C- I a I I I
EXÉRCI TO MI - 2694 a 2696
I magemTM- Landsat bandas 5, 4, 7 emR, G, B
Conf ecção: Eng. Agr . Dr . Mar cos Raf ael Nanni
Pr of . MS. Fr anci sco Si l va Noel l i
ESCALA GRÁFI CA
0 5 10 15 20 Km
PRNL10
PRNL13
PRNL09
PRNL11
PRML1
PRML2
PRML3
PRML4
PRPP1
PRPP3
PRPP2
PRPP4
PRPP5
PRPP6
PRPP7
PRPP8
PRQN8
PRQN9
PRQN10
PRQN11
PRQN12
PRQN013
PRMC01
PRMC03
PRMC02
PRNL2
PRNL3
PRNL6
PRNL4
PRNL5
PRQN6

Figura 2: Sítios arqueológicos da APA federal das ilhas e várzeas do Rio Paraná.


1
Este projeto foi financiado pelo Consórcio Municipal da APA Federal do Noroeste do Paraná, em convênio
com a Universidade Estadual de Maringá (Processo 524-00/Zoneamento Ecológico/Econômico da APA
Federal das ilhas e das várzeas do rio Paraná). Agradecimento: Aos professores da UEM, Issa C. J abur;
Sérgio L. Thomaz; J osé C. Stevaux; Edvar E. Sousa Fº; Margarida P. Fachini; Maria Conceição de Sousa. A
Iriana Tanaka. A responsabilidade pelo conteúdo, evidentemente, restringe-se exclusivamente aos autores
dessa publicação.

Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História – Universidade Estadual de Maringá.
+
Departamento de Agronomia – Universidade Estadual de Maringá.

Museu da Bacia do Paraná


2
RODRIGUES, Aryon. Línguas brasileiras. São Paulo: Loyola, 1986.
3
MELIÀ, B. El Guarani conquistado y reducido. Asunción: CEADUC, 1986.
4
NOELLI, F. S. El Guaraní agricultor. Acción, 177:17-23. 1994.
5
GEERTZ, C. A Interpretação das culturas. Rio de J aneiro: Zahar, 1978.
6
LOZANO, Pedro. História de la compañia de Jesus en la Província del Paraguay, 2 v. Ridgewood:
Gregg Press, 1970.

7
NOELLI, F. S. 1996a. As hipóteses sobre o centro de origem e as rotas de expansão dos Tupi. Revista de
Antropologia, 39(2):7-53. NOELLI, F. S. 1996b; NOELLI, F. S. 1998. The Tupi: explaining origin and
expansion in terms of Archaeology and Historical Linguistics. Antiquity, 72(277):648-63. NOELLI, F. S.
1999. Aportes históricos e etnológicos para o reconhecimento da classificação Guarani de comunidades
vegetais no século XVII. Fronteiras, 4:275-296; NOELLI, F. S. 2000a. A presença Guarani desde 2.000 anos
atrás: contribuição para a História da ocupação humana do Paraná. In: Rivail C. Rolim; Sandra A Pellegrini e
Reginaldo B. Dias (orgs.). História, espaço e meio ambiente (VI Encontro Regional de História, ANPUH
– PR). Maringá: ANPUH. p. 403-414; NOELLI, F. S. 2000b. A ocupação humana na região sul do Brasil:
Arqueologia, debates e perspectivas – 1872 – 2000; Revista USP, n. 44:218-269. NOELLI, F. S. et al. 2000.
Primeiras análises sobre a funcionalidade e a freqüência da cerâmica de um sítio arqueológico Guarani da
lagoa Xambrê - Paraná. Anais do IX Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira.
8
CAMPOS, J . B. 1997. Análise dos desflorestamentos, estrutura dos fragmentos de florestas e avaliação
do banco de sementes do solo da ilha Porto Rico na planície de inundação do alto rio Paraná, Brasil.
Maringá: UEM (Tese de doutorado); ROMAGNOLO, M. B. & SOUZA, M. C. 2000. Análise florística e
estrutural de florestas ripárias do alto rio Paraná. Acta Botânica Brasileira, v. 14, n. 2, p. 163-174; SOUZA,
M. C.; CISLINSKI, J . & ROMAGNOLO, M. B. 1997. Levantamento florístico. In A. E. A. M. Vazzoler; A.
A. Agostinho & N. S. Hahn (Eds.). A Planície de inundação do alto rio Paraná: aspectos físicos,
biológicos e socioeconômicos. Maringá: Eduem. p. 345-370.
8
NOELLI, F. S. 1993. Sem Tekohá não há Tekó (em busca de um modelo etnoarqueológico da
subsistência e da aldeia Guarani aplicado a uma área de domínio no delta do Jacuí-RS). Porto Alegre:
PUCRS (Dissertação de mestrado)
9
CHMYZ, I. Relatório de atividades do Projeto Arqueológico Rosana-Taquaruçu. Curitiba:
CESP/FUNPAR, 1992; FACCIO, N. 1998. Arqueologia do cenário das ocupações horticultoras da Capivara,
Baixo Paranapanema – SP. São Paulo: USP (Tese de doutorado); KASHIMOTO, E. M. 1997. Variáveis
ambientais e arqueológicas no alto Paraná. São Paulo: USP (Tese de doutorado).
9
BLASI, O. 1961. Algumas notas sobre a jazida arqueológica de 3 Morrinhos - Querência do Norte - Rio
Paraná. Boletim Paranaense de Geografia, v.2-3, p. 49-78; CHMYZ, I. Ibid.



HISTÓRIA DAS ROTAS E AÇÕES DAS EXPEDIÇÕES BANDEIRANTES NOS
TERRITÓRIOS INDÍGENAS DO SUL DO BRASIL, SÉCULOS XVI E XVII
i

Francisco Silva Noelli
ii
;
Maria Simone Jacomini
iii
;
Lúcio Tadeu Mota
iv



As primeiras análises sobre as rotas e as ações dos bandeirantes no sul do
Brasil durante os séculos XVI e XVII foram apresentadas nas obras clássicas de
Afonso de Taunay e Alfredo Ellis J r, que estabeleceram as bases interpretativas que
foram reproduzidas até o presente pela maioria dos historiadores. Em que pese a
importância do trabalho de ambos como historiadores pioneiros das bandeiras, a
recente crítica historiográfica sugere mudanças e revisões necessárias, pois “Taunay,
cuja vastíssima obra constituía uma desordenada crônica de fatos, eventos e
personagens pitorescos” e “Ellis Jr. ambientou o bandeirante, e sobretudo a
mestiçagem, num contexto cientificista tão emaranhado quanto a densa mata
penetrada pelos mesmos sertanistas”
v
. Outras tendências interpretativas também
estão superadas diante das revisões mais recentes, principalmente sobre a dimensão
geopolítica desses empreendimentos, tal como procurou construir J aime Cortesão
vi
,
com a intenção de mostrar que os paulistas foram os responsáveis pela expansão
territorial brasileira. Por outro lado, a maior parte da produção acadêmica de língua
espanhola
vii
, sobretudo a publicada no Paraguai, Argentina e Espanha, herdou e
reproduziu dos historiadores jesuítas do período colonial outra interpretação
mistificadora, que tratava os bandeirantes como verdadeiros vândalos e genocidas
brutais.
A historiografia tradicional deixou um caminho iniciado, no qual definiu uma
seqüência de expedições de apresamento a partir de 1585, ano da primeira grande
expedição bandeirante, liderada por J erônimo Leitão, à título de “guerra justa” contra
os Carijó dos litorais paranaense e catarinense e terras contíguas do interior.
Entretanto, foram deixadas de lado uma série de expedições anteriores, cuja mais
antiga remonta a 1528, quando as expedições de Caboto e Diego Garcia haviam
contratado a compra de escravos indígenas com o famoso “bacharel” da Cananéia.
Entre 1528 e 1585 ocorreram várias expedições de reconhecimento e apresamento
praticamente desconhecidas pela historiografia tradicional, mas que causaram
impactos consideráveis sobre as populações indígenas. Entre 1585 e 1650 ocorreram
várias expedições, parcialmente retratadas pela historiografia tradicional e que estão
necessitando de revisão e de novas perspectivas interpretativas
viii
.
Nossa proposta de pesquisa enfoca exatamente os eventos e processos
ocorridos nos núcleos indígenas nos séculos XVI e XVII, deslocando o eixo tradicional
e dominante de interesse historiográfico. Visamos principalmente o estudo dos
“núcleos indígenas”. Pesquisaremos a presença das expedições de apresamento nos
territórios indígenas, bem como o impacto dessas expedições sobre as populações e
sua organização sócio-econômica, sobre as suas redes de relações locais, regionais e
supra-regionais. Tal como Monteiro
ix
, acreditamos na “importância da perspectiva da
história indígena para uma revisão tão necessária da história colonial”. Entendemos
que a historiografia tradicional estudou a ação das bandeiras ignorando as populações
indígenas e os espaços trilhados pelos colonos paulistas, como se os bandeirantes
estivessem soltos no espaço. Sobre essa tradição, outra vez, citamos Monteiro
x
: “de
modo geral a historiografia - sobretudo a brasileira – tem reservado ao índio um papel
de figurante mudo ou de vítima passiva dos processos coloniais que o envolviam”.
Nosso objetivo é a revisão das rotas e das ações das expedições bandeirantes
realizadas no sul do Brasil, buscando uma compreensão mais ampla da sua presença
nos núcleos e territórios indígenas, mapeando e analisando as ações dos colonos,
basicamente dos paulistas. O estudo desses contextos está inteiramente aberto à
pesquisa, havendo um rol imenso de temas a serem conhecidos, iniciando pelo
alcance geográfico de cada uma das expedições, fator só analisado com alguma
profundidade por poucos estudiosos
xi
.
Outro desafio a ser enfrentado é a visão estática, sem noção de continuidades
e mudanças, legadas pela historiografia tradicional a respeito das populações
indígenas. Há quase meio século, o influente estudioso das atividades políticas e
econômicas dos jesuítas da Província do Paraguai, Magnus Mörner
xii
, fazia críticas
que ainda estão atuais, dizendo que uma historiografia alternativa devia partir do
pressuposto que o “conhecimento das condições etnográficas é... um pré-requisito
essencial para o estudo sociológico das reduções”. Essa sugestão aos pesquisadores
das missões jesuíticas também é importante para os estudos sobre as populações
indígenas que não foram reduzidas, pois pouco se avançou no estudo sobre os
núcleos e as populações indígenas, a tal ponto que Melià e Nagel (1995:77)
xiii
,
profundos conhecedores das populações Guarani, alvo predileto dos colonos
paulistas, declararem recentemente que a historiografia “só oferece dos índios Guarani
figuras muito estereotipadas”.
A principal sugestão ressaltada por Monteiro
xiv
, simultânea com a necessária
revisão de “conceitos e preconceitos”, é que se busque de vez a história da formação
da sociedade colonial, visando:
“recuperar os múltiplos processos de interação entre essas sociedades
[indígenas] e as populações que surgiram a partir da colonização européia,
processos esses que vão muito além do contato inicial e dizimação
subseqüente dos índios, apresenta-se como tarefa essencial para uma
historiografia que busca desvencilhar-se de esquemas excessivamente
deterministas”.

Nosso propósito também passa pela pesquisa de aspectos demográficos, uma
vez que consideramos obrigatório conhecer a dimensão populacional dos núcleos
indígenas. É importante tentar responder e refletir a respeito do real impacto que as
expedições de apresamento tiveram sobre a população indígena e suas redes de
organização econômica, social e política. Ao mesmo tempo é preciso investigar o
papel das epidemias sobre a demografia, pois é muito provável que as doenças foram
mais importantes que o apresamento e as guerras no colapso demográfico ocorrido no
século XVII, sobretudo entre os povos Guarani.
Os estudos demográficos ainda estão por serem realizados, pois a idéia de que
as fontes coloniais são de uma “fase pré-estatística”
xv
levou influentes pesquisadores a
deixar de lado os estudos de demografia histórica sobre as populações indígenas dos
séculos XVI e XVII. Sobre a demografia das missões jesuíticas (1610-1640) existem
posições distintas. Para Maeder
xvi
, que realizou a mais completa pesquisa sobre a
demografia histórica missioneira da Província do Paraguai no período 1641-1809, “o
primeiro momento da história das missões, sem dúvida o mais interessante e
dramático desde o ponto de vista da evangelização, não é igualmente aproveitável no
que diz respeito à história demográfica”. Para Melià
xvii
, que realizou a mais completa
investigação até o presente sobre o período 1609-1640 e forneceu diversas pistas
para dar continuidade aos estudos demográficos, as fontes jesuíticas informam
diretamente que haveria uma população maior de 1 milhão de pessoas. Essa
perspectiva populacional, sem considerar as inúmeras epidemias e guerras ocorridas
no sul do Brasil durante o século XVI, impõe obrigatoriamente uma nova reflexão
sobre a dimensão dos núcleos indígenas por onde trilharam as expedições de
apresamento dos bandeirantes.
A base de dados dessa pesquisa, necessariamente, deve ser formada por
fontes escritas e arqueológicas. Dividimos o projeto em três etapas principais. A
primeira trata da revisão historiográfica, a fim de verificar o que ficou estabelecido
sobre as expedições, quais as problemáticas de pesquisa e quais as idéias e temas
analisados desde o século XVII. A segunda trata da definição dos contextos indígenas
com base em dados arqueológicos e fontes coloniais já publicadas. A terceira trata da
análise individualizada de cada uma das expedições de apresamento, desde sua
formação até o seu retorno. Será formado um banco de dados com a ordenação
exaustiva e sistemática das informações úteis para descrever e analisar a atuação dos
povos indígenas e dos colonos paulistas. Também será formado um banco de dados
sobre a produção historiográfica, com objetivo de refletir e analisar a história das
pesquisas e idéias dos pesquisadores. Com isso queremos alcançar uma perspectiva
que enfoque aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos que consiga sustentar
uma abordagem dinâmica do impacto das várias expedições de apresamento em cada
uma das subáreas do sul do Brasil e que permita abandonar os quadros estáticos
demográficos e sociais criados pela historiografia tradicional.


i
Este trabalho integra um projeto de pesquisa mais amplo, sobre os processos de ocupação humana no sul
do Brasil, realizado pela equipe do Programa Insterdisciplinar de Estudos de Populações e do Laboratório
de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Maringá. Agradecemos
especialmente a J ohn Monteiro, personagem central na atual fase de revisão e renovação historiográfica
da ação dos colonos paulistas no século XVII, cujas idéias e sugestões publicadas foram muito
importantes na elaboração desse projeto.
ii
Professor do Departamento de Fundamentos da Educação/Pesquisador do Programa Insterdisciplinar de
Estudos de Populações e do Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade
Estadual de Maringá.
iii
Bolsista do Programa de Iniciação Científica/Estagiária do Programa Insterdisciplinar de Estudos de
Populações e do Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de
Maringá.
iv
Professor do Departamento de História/ Programa Insterdisciplinar de Estudos de Populações e do
Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Maringá
v
J ohn Monteiro. Caçando com gato. Raça, mestiçagem e identidade paulista na obra de Alfredo Ellis J r.
Novo Estudos Cebrap, n. 38, p. 79-80. 1994.
vi
J ohn Monteiro. Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Cia das
Letras, 1994. p. 7; Bartomeu Melià e Liane Nagel. Guaraníes y jesuítas em tiempo de las Misiones.
Uma bibliografía didáctica. Asunción/Santo Ângelo: CEPAG/URI, 1995. p.114.
vii
Bartomeu Melià e Liane M. Nagel, Ibid. p. 114.
viii
Afonso E. Taunay. História geral das bandeiras paulistas, 10 vol. São Paulo: H. L. Canton, 1924-
1950; Alfredo Ellis J r. O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano. 2 ed. São Paulo: Nacional,
1936; Alfredo Ellis J r. Meio século de bandeirismo. São Paulo: Nacional, 1949; Luiz G. J aeger. As
invasões bandeirantes no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ginásio Anchieta, 1940; Ramon I.
Cardozo. La antigua província del Guairá y la Villa Rica del Espíritu Santo. Buenos Aires: J .
Menéndez, 1938; Serafim Leite. História da Companhia de Jesus no Brasil, 10 vol. Lisboa/Rio de
J aneiro: Portugália/Civilização Brasileira, 1938-1950; Olyntho Sanmartin. Bandeiras no sul do Brasil.
Porto Alegre: A Nação, 1949; Aurélio Porto. História das misssões orientais do Uruguai, 2 vol. 2 ed.
Porto Alegre: Selbach, 1954; J aime Cortesão. Raposo Tavares e a formação territorial do Brasil. Rio
de J aneiro: Imprensa Nacional, 1958; Edmundo Zenha. Mamelucos. Revista dos Tribunais, 1970; Victor
M. de Azevedo. Manoel Preto, o “herói” do Guairá. São Paulo:Coleção Paulística, 1983; Francisco Assis
de Carvalho Franco. Dicionário de bandeirantes e sertanistas do Brasil. São Paulo/Belo Horizonte:
EDUSP/Itatiaia, 1989.
ix
J ohn Monteiro. Os Guarani e a história do Brasil meridional, séculos XVI e XVII. In. Manuela Carneiro
da Cunha (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1992. p. 476.
x
J ohn Monteiro. Ibid. p. 476.
xi
Alfredo Ellis J r. O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano. 2 ed. São Paulo: Nacional 1936, p.
194.
xii
Magnus Mörner. The political and economic activities of the jesuits in the La Plata region: the
Habsburgs era. Estocolm: Institute of Ibero-American Studies, 1953, p. 198.
xiii
Bartomeu Melià e Liane M. Nagel, Ibid. p. 77.
xiv
J ohn Monteiro. O desafio da História Indígena no Brasil. In. Aracy L. as Silva e Luís D. B. Grupioni
(orgs.) A temática indígena na escola. Brasília: MEC/MARI/UNESCO, 1995. p.227-228.
xv
Maria Luiza Marcílio. A população do Brasil colonial. In. Leslie Bethell (org.) História da América
Latina, vol. 2. São Paulo: EDUSP/FUNAG, 1999. p. 311.

xvi
Ernesto Maeder. Las misiones de Guaraníes: história demográfica y conflictos com la sociedad
colonial, 1641-1807. In. Sérgio O. Nadalin; Maria Luiza Marcílio e Altiva P. Balhana (orgs.). História e
população. Estudos sobre a América Latina. São Paulo: ABEP/IUSSP/CELADE/SEADE, 1990. p. 42.
xvii
Bartomeu Melià. El Guarani conquistado y reducido. 2 ed. Asunción: CEPAG, 1988.
Reconhecimento arqueológico do médio/baixo vale do rio Pirapó, no município de
Lobato, Paraná
1

Francisco S. Noelli

; Lúcio T. Mota*; Marcos R. Nanni
+
; Margarida C. Lavado

; Carlos
Panek J r.*; Eurides R. Oliveira*; Ana P. Simão*; Eder Novak*, Washington C. Castilho*



Introdução
A região noroeste do Estado do Paraná possui imenso potencial arqueológico,
segundo informação das fontes coloniais
2
e de vários projetos de levantamento já
realizados
3
. As evidências humanas mais antigas conhecidas até agora são datadas em
oito mil anos antes do presente (A.P.)
4
. Elas estão vinculadas a um amplo horizonte
cultural relacionado à Tradição Umbu, que perdurou até cerca de dois mil anos (A.P),
quando a região começou a ser ocupada por populações Guarani provenientes das
bacias dos rios Paraguai e Paraná
5
. Os Guarani do Guairá, antiga denominação colonial
da região, conforme as projeções de Melià
6
, poderiam alcançar até um milhão de pessoas
no início do século XVII, aproximadamente ¼ da população atual
7
.
Pesquisando sobre a ocupação pré-histórica do noroeste paranaense, desde
1996, realizamos trabalhos de reconhecimento limitados ao registro de ocorrências de
superfície, sem qualquer forma de intervenção arqueológica. O noroeste do Paraná foi até
o momento nossa área de pesquisa permanente, onde vamos desenvolver atividades de
arqueologia científica e pública de longa duração em nível regional
8
. Temos realizado
levantamentos sistemáticos no rio Tibagi, municípios de Londrina, Tamarana e São
J erônimo da Serra (1996-1997); rio Paraná, municípios de Guaíra, Altônia, Vila Alta
(1996-1999); na APA Federal do Noroeste do Paraná (2000)
9
, municípios de Santa Cruz
do Monte Castelo, Querência do Norte, Porto Rico, São Pedro do Paraná, Marilena, Nova
Londrina e Diamante do Norte (2000); na bacia do Pirapó nos municípios de Lobato,
Colorado, Cruzeiro do Sul, Uniflor, Paranacity, Atalaia e Flórida; além de registrar sítios
arqueológicos isolados em outros municípios atendendo notificações feitas à Universidade
Estadual de Maringá. Também realizamos um trabalho de conscientização sobre a
necessidade de preservar os sítios e evidências materiais e disseminação de
conhecimento arqueológico junto às populações das Vilas Rurais do vale do rio Ivaí.
Dessa forma já localizamos um total de cento e oitenta (180) sítios, além de várias
ocorrências isoladas.
A pesquisa arqueológica no vale do Pirapó.
Esta nota de pesquisa divulga os resultados de campo obtidos no baixo/médio vale
do rio Pirapó, entre julho e dezembro de 2000. É a primeira de duas etapas de
reconhecimento arqueológico de todo o município de Lobato. O município foi dividido em
faixas de survey: 1) perímetro do município; 2) interior do município. Investigamos todo o
perímetro, numa faixa média de 1 km de largura, subdividida em linhas para orientar
caminhamentos sistemáticos. Também percorremos trechos fora do perímetro de Lobato,
ao longo dos rios Pirapó e Bandeirantes, nos municípios de Colorado, Paranacity,
Cruzeiro do Sul, Uniflor, Atalaia e Flórida. Percorremos porções do interior de Lobato,
subindo alguns cursos d’água até as nascentes. As demais equipes do convênio
Prefeitura de Lobato–ITCA/UEM fizeram os inventários geológicos, pedológicos, hídricos,
botânicos e zoológicos, que serão incorporados e analisados na continuidade da pesquisa
arqueológica. Como não realizamos nenhuma modalidade de escavação ou de coleta de
evidências, ainda não dispomos de dados que permitam especificar a área efetiva e a
estratigrafia dos sítios localizados. A realização destas e de outras atividades
arqueológicas iniciarão em 2004, após obtermos autorização do IPHAN e dispormos dos
recursos, previstos pelo ITCA/UEM. Localizamos quarenta e quatro (44) sítios e três
ocorrências cerâmicas isoladas (figura 1) na área pesquisada – rios Pirapó, Bandeirantes
e afluentes no município de Lobato. A observação in situ permitiu classificar as evidências
cerâmicas como pertencentes às populações Guarani, enquanto que os sítios que
apresentaram apenas evidências líticas não foram classificados, fato que ocorrerá na
continuidade das pesquisas. As evidências cerâmicas estão em trinta e nove (39) sítios e
três ocorrências isoladas, enquanto que os sítios apenas com evidências líticas somam
cinco unidades. Levantamos as referências mais elementares para identificar os sítios,
identificando apenas o município, a localidade, a altitude, a distância da água mais
próxima e o compartimento topográfico, bem como batizamos os sítios com nomes e
códigos (tabela 1). A maioria dos sítios apresentou mais de quinhentos fragmentos por
concentração, sendo que alguns possuem várias concentrações e milhares de fragmentos
sobre a superfície dos terrenos perturbados superficialmente pelo plantio de cana de
açúcar.




Conclusões
O levantamento arqueológico realizado numa pequena extensão da bacia do
Pirapó, de aproximadamente trinta quilômetros, demonstra a presença de populações
humanas na área, tanto das filiadas à Tradição Umbu, como as populações Guarani. As
evidências da cerâmica Guarani foram encontradas nas duas margens dos rios Pirapó e
Bandeirantes, bem como em alguns de seus afluentes menores como os ribeirões
Colorado, Potiguara e Sarandi, apontando para existência de assentamentos Guarani não
somente nos rios maiores como também nos pequenos ribeirões próximos dos
interflúvios. Em alguns sítios, como o localizado ao lado do Salto do Pirapó, apesar de
não termos feito medições detalhas sobre sua extensão, as evidências mostram a
ocupação de uma grande área, apontando para a existência de um grande Tekohá
Guarani no local, com destaque para a ocupação de locais próximos a saltos e
corredeiras. Os estudos também apontam para um complexo sistema de ocupação com
grandes assentamentos, como o do Salto Pirapó, ligados a uma rede de pequenas
ocupações e locais de roças permanentes e sazonais bem como locais de coletas. Por
fim, a pesquisa arqueológica realizada nesse pequeno trecho do rio Pirapó, junto com os
resultados de estudos realizados em outras áreas, confirmam as fontes dos séculos XVI e
XVII, que mostram uma densa ocupação das populações Guarani da antiga província do
Guairá, como eram conhecidos os territórios envolvidos pelos vales dos rios Paraná,
Paranapanema, Pirapó Tibagi.
Tabela 1: Sítios e ocorrências arqueológicas
Município Nome do Sítio Código CategoriaCoordenadas UTMAltitude (m)
Água +
próxima(m)
Compartimento
Topográfico
Colorado
Bandeirantes
1
PR –
BD –
01 Guarani
7461219 405897 344
50 Encosta
Colorado Bandeirantes
3
PR –
BD –
03
Lítico
30 Encosta
Colorado
Bandeirantes
8
PR –
BD –
08 Guarani
7462401 403330 361
10 Encosta
Cruzeiro
do Sul Pirapó 15
PR -
CZ –
01 Guarani
7461089 391620 346
18 Encosta
Cruzeiro
do Sul Pirapó 17
PR -
CZ –
02 Guarani
7460779 393435 342
12 Encosta
Cruzeiro
do Sul
Pirapó 18 PR -
CZ –
Lítico 7459298 393151 354
2 Encosta
03
Cruzeiro
do Sul
Pirapó 23 PR -
CZ –
04
Lítico 7458774 393718 351
10 Terraço
Cruzeiro
do Sul
Pirapó 24 PR -
CZ –
06
OCI
10
7457955 393744 357
35 Encosta
Cruzeiro
do Sul
Pirapó 25 PR -
CZ -
07
OCI 7457588 394422 368
30 Encosta
Cruzeiro
do Sul
Pirapó 27 PR -
CZ -
05
Lítico 7455040 394782 333
25 Encosta
Lobato Araçá 1
PR -
LB -
22 Guarani
7460953 404998 356
12 Encosta
Lobato
Bandeirantes
2
PR -
LB -
01 Guarani
7462012 404331 345
42 Encosta
Lobato
Bandeirantes
4
PR -
LB -
02 Guarani
7462810 402496 362
20 Encosta
Lobato
Bandeirantes
5
PR -
LB -
05 Guarani
7466701 396237 334
18 Encosta
Lobato
Bandeirantes
6
PR -
LB -
19 Guarani

18 Encosta
Lobato
Bandeirantes
7
PR -
LB -
20 Guarani
7462351 403884 368
15 Encosta
Lobato Colorado 1
PR -
LB -
23 Guarani
7448675 401970 366
15 Encosta
Lobato Pirapó 12
PR -
LB -
09 Guarani
7464868 390286 351
32 Encosta
Lobato Pirapó 13
PR -
LB -
10 Guarani
7465329 389991 347
20 Encosta
Lobato Pirapó 14
PR -
LB -
11 Guarani
7465475 389709 356
30 Encosta
Lobato Pirapó 19
PR -
LB -
12 Guarani
7469450 390353 346
18 Encosta
Lobato Pirapó 20
PR -
LB -
13 Guarani
7459721 394306 342
15 Encosta
Lobato Pirapó 21 PR - Guarani 7458203 393822 351 15 Topo
LB -
14
Lobato Pirapó 22
PR -
LB -
15 Guarani
7458280 394329 350
15 Topo
Lobato Pirapó 28
PR -
LB -
16 Guarani
7455344 394972 376
18 Topo
Lobato Pirapó 29 PR -
LB -
25
OCI 7454574 394768 373
2 Encosta
Lobato Pirapó 3
PR -
LB -
07 Guarani
7461376 391521 338
32 Encosta
Lobato Pirapó 30
PR -
LB -
17 Guarani
7453119 393832 373
12 Encosta
Lobato Pirapó 32
PR -
LB -
18 Guarani
7468471 388888 337
30 Encosta
Lobato Pirapó 35
PR -
LB -
06 Guarani
7459669 393726 326
15 Encosta
Lobato Pirapó 36 PR -
LB -
24
Lítico 7461474 392432 341
35 Encosta
Lobato Pirapó 4
PR -
LB -
08 Guarani
7462144 391402 328
33 Encosta
Lobato Potiguara 1
PR -
LB -
21 Guarani
7458662 394870 362
30 Encosta
Lobato Sarandi 1
PR -
LB -
03 Guarani
7464943 397881 338
5 Topo
Lobato Sarandi 2
PR -
LB -
04 Guarani
7465307 396631 351
10 Encosta
Paranacity Pirapó 10
PR -
PT -
06 Guarani
7467269 387650 327
20 Encosta
Paranacity Pirapó 11
PR -
PT -
07 Guarani
7467895 388211 348
18 Encosta
Paranacity Pirapó 16
PR -
PT -
12 Guarani
7461449 391431 350
15 Encosta
Paranacity Pirapó 31
PR -
PT -
08 Guarani
7452894 395430 361
22 Encosta
Paranacity Pirapó 33
PR -
PT -
09 Guarani
7468708 389128 350
30 Encosta
Paranacity Pirapó 34
PR -
PT -
10 Guarani
7468414 389660 344
20 Encosta
Paranacity Pirapó 5
PR -
PT -
01 Guarani
7461853 391469 327
20 Encosta
Paranacity Pirapó 6
PR -
PT -
02 Guarani
7462206 391322 329
18 Encosta
Paranacity Pirapó 7
PR -
PT -
03 Guarani
7462294 390796 352
15 Encosta
Paranacity Pirapó 8
PR -
PT -
04 Guarani
7463296 390216 358
200 Encosta
Paranacity Pirapó 9
PR –
PT -
05 Guarani
7465551 388609 348
33 Encosta
Uniflor Pirapó 26
PR –
UN -
01 Guarani
7452762 395422 367
40 Encosta




Rios, córregos e ribeirões
Arqueológicos Sítios
ARTICULAÇÃO DA FOLHA
ESCALA 1:150.000
SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS
MUNICÍPIO DE LOBATO
Execução: Marcos Rafael Nanni - Francisco Silva Noelli
Universidade Estadual de Maringá - 2002
Laboratório de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto
Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História
1250 0 1250 2500 3750 5000m
m


1
Convênio Prefeitura de Lobato e Universidade Estadual de Maringá, financiado pelo Fundo Nacional do
Meio Ambiente (Projeto 012/2000 – CPC, Processo Plano de Manejo das RPPN de Lobato).


Pesquisadores no Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações - Laboratório de
Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Maringá.
+
Departamento de Agronomia/Universidade Estadual de Maringá.

Mestrado em Arqueologia/MAE – USP.
2
Cf. L.T. MOTA, e F. S. NOELLI. Exploração e guerra de conquista dos territórios indígenas nos vales
dos rios Tibagi, Ivaí e Piquiri. In: R. B. DIAS e J .H.R. GONÇALVES (Org.) Maringá e o Norte do
Paraná: estudos de história regional. Maringá, Eduem, 1999, p. 21-50.
3
Para maiores detalhes sobre os projetos de pesquisas arqueológicas realizadas no Paraná, ver a
dissertação de Mestrado de J osilene Aparecida de OLIVEIRA, História da arqueologia paranaense:
um balanço da produção arqueológica no estado do Paraná no período de 1876 – 2001. Maringá:
UEM, 2002.
4
CHMYZ, I. Relatório de atividades do Projeto Arqueológico Rosana-Taquaruçu. Curitiba:
CESP/FUNPAR, 1992.
5
Cf. BROCHADO, J . P. An ecological model of the spread of pottery and agriculture into Eastern
South America. Urbana-Champaign, University of Illinois at Urbana-Champaign, 1984. Tese
(Doutorado); NOELLI, F. S. A ocupação humana na região sul do Brasil: Arqueologia, debates e
perspectivas 1872 – 2000. Revista USP, São Paulo, 44, 2000.
6
Cf. MELIÀ, B. El Guarani conquistado y reducido. Asunción: CEADUC. 1988.
7
Relativa aos dados do Censo-IBGE 2000.
8
NOELLI, F. S.; SILVA, F. A. e MOTA, L. T. Projeto de pesquisa arqueológica no noroeste do Paraná
(1996-1997). CD-ROM. Org: Sheila Mendonça de Souza. Anais da IX Reunião Científica da
Sociedade Arqueologia Brasileira. Rio de J aneiro, 2000.
9
Cf. L.T. MOTA, et al. Agricultores Guarani na Pré-história da região Noroeste do Paraná. In: Consórcio
intermunicipal da APA Federal do Noroeste do Paraná – COMAFEN. Relatório: Zoneamento
arqueológico econômico da APA das Ilhas e várzeas do rio Paraná. Maringá: UEM, 2000.
10
OCI =Ocorrência cerâmica isolada
CAIPIRAS NO AR: programas populares no rádio paulistano nos anos 30 e 40.
*
T

Geni Rosa Duarte
**


O objetivo desta comunicação é discutir o aparecimento, na programação
radiofônica das emissoras paulistanas de programas mais populares – populares na
sua concepção e na abrangência com relação à sua audiência. Esse processo vai se
dar principalmente a partir de meados dos anos 30, quando o número de aparelhos
radiofônicos conhece um aumento bastante significativo (sem chegar perto,
naturalmente, do crescimento nos chamados “anos dourados”, ou seja, na década de
50) e aumenta o número de emissoras na cidade.
Quando se deu a instalação, em São Paulo, das primeiras emissoras, a
programação veiculada era essencialmente erudita, com uma ênfase significativa na
música lírica. Aos poucos, a música popular foi ganhando alguns espaços. A
programação era feita quase que inteiramente ao vivo, o que propiciava que pequenos
conjuntos ou cantores se apresentassem. Além disso, havia uma programação
vinculada às diversas colônias da cidade, quando se executava música italiana,
portuguesa, alemã, espanhola, russa, Argentina, cubana, americana, etc.
Um espaço nessa programação era ocupado pela chamada música brasileira
de raízes folclóricas. Eventualmente, alguns artistas se apresentavam cantando
modas de viola, cateretês, batuques, etc. Aparecia também a música popular de
influência nordestina, especialmente a embolada, gênero muito popular na época.
Além disso, alguns cantores apresentavam-se cantando samba.
Aos poucos, foram se firmando enquanto programas mais definidos,
principalmente em torno de alguns nomes, que agregavam em torno de si outros
artistas: Cornélio Pires, Raul Torres, Ariovaldo Pires e outros, misturando às vezes
música e humorismo. Nem sempre os horários desses programas eram constantes.
Podiam ser apresentados à noite, ou à tarde. Freqüentemente, apareciam na
programação veiculada nos jornais apenas como “programa caipira”, ou “programa
sertanejo”, ou então a cargo de um artista conhecido, ou de uma dupla.
Tal programação era evidentemente endereçada a um público urbano. O
programa “Caipira”, apresentado na Rádio Tupi por Mariano e Luizinho, e por
Laureano e Arnaldo Meirelles, era, na verdade, um “programa de variedades”, dirigidos
aos que se interessavam por “cousas nossas”. Portanto, era recebido como programa
regional, folclórico. Sobre ele escrevia o jornal “Diário de São Paulo”: “Serão
apresentados esplêndidos números de música nossa, entremeados de anedotas e
ditos caboclos”
1
.
Um dos primeiros a apresentar programas “sertanejos” foi Raul Torres, que se
destacou primeiramente como cantor de emboladas e ritmos nordestinos, tendo
formado, dentre outros, os conjuntos “Turunas Paulistas”, “Chorões Sertanejos” e
“Bando dos Baitacas”. Foi como representante do filão nordestino que participou das
gravações pioneiras de Cornélio Pires. Apresentando-se em programas radiofônicos,
era presença constante e esperada na Rádio Educadora, depois na Record, e
finalmente na Cruzeiro do Sul, onde organizou o conjunto “Embaixada”, composto de
dois violões, flauta, cavaquinho e pandeiro. A partir de diversas parcerias, como
compositor e intérprete, diversificou seu repertório, gravando modas de viola, toadas,
marchas de carnaval, valsas, etc.
Em 1937, formou dupla com seu sobrinho Serrinha (Antenor Serra), e isso lhe
abriu o filão da música caipira, ligada às coisas e pessoas do interior do estado.
Gravou muitos discos, e dessa fase são os clássicos Chico Mulato, Cabocla Teresa e
outros, frutos da parceria com J oão Pacífico. Em 1942, Serrinha foi preso pelo DOPS,
e Raul Torres passou a se apresentar em dupla com o violeiro Florêncio (J oão Batista
Pinto), com quem já havia gravado antes. Com esse parceiro e o acordeonista Rielli,
formou o trio “Três batutas do sertão”, passando a se dedicar principalmente aos
programas radiofônicos. O programa do mesmo nome foi grande sucesso da Record.
Riellinho (Osvaldo Rielli), filho do italiano J osé Rielli, destacou-se como
apresentador, ao lado do Capitão Barduíno, do programa Brasil Caboclo, que fez
muito sucesso pela Rádio Bandeirantes a partir de 1939. Participou do quarteto
sertanejo das Emissoras Associadas (Tupi e Difusora), juntamente com Nhô Pai,
Laureano e Mariano. Formou depois o Trio Sertanejo, com Serrinha e Mariano, que
posteriormente passou a ter outros componentes. A partir de 1947, substituiu o pai na
apresentação de Três Batutas no Sertão, pela Record, com Florêncio e Raul Torres.
O Capitão Barduíno (Pedro Astenori Marigliani), também filho de italianos,
destacou-se como apresentador de rádio, humorista e compositor. Foi responsável
posteriormente pelo programa satírico Câmara dos Despeitados, que marcou época.
Mariano, por volta de 1940, formou dupla com Luizinho (Luiz Raimundo),
apresentando-se, três vezes por semana, em programa às 21:00 horas pela Tupi de
São Paulo; no mesmo programa, apresentava-se também Laureano (que comandava
pela mesma emissora um programa pela manhã), e o sanfonista Arnaldo Meirelles.
Um dos grandes nomes do período foi Ariovaldo Pires (que em 1932 adotou o
pseudônimo de Capitão Prudêncio Pombo Furtado, depois abreviado simplesmente
para Capitão Furtado), sobrinho de Cornélio Pires. Iniciou sua carreira na Rádio
Cruzeiro do Sul, em programas humorísticos. Foi responsável pelo lançamento de
inúmeros artistas no rádio – Alvarenga e Ranchinho, por exemplo. Na Cruzeiro do Sul,
junto com Celso Guimarães, criou o primeiro Programa de Calouros, referindo-se aos
concorrentes com o mesmo termo atribuído àqueles que ingressavam na faculdade
2
.
Embora responsável por inúmeros programas onde se apresentavam duplas
caipiras, transitou pelos mais diversos espaços radiofônicos, no humor e na música.
Foi compositor, de músicas de carnaval, inclusive, vencendo um concurso em São
Paulo em 1936.
3
Depois de um período no Rio, voltou a São Paulo em 1939,
apresentando na Rádio Difusora o programa Arraial da Curva Torta, aos domingos,
das 17:30 às 18:30. Era um programa de auditório muito bem cuidado, com
distribuição de prêmios, que lançou muitos artistas : Tonico e Tinoco, Hebe Camargo
que fazia dupla com sua irmã Estela, como Rosalinda e Florisbela, além de Mário Zan,
Xandica e Xandoca e outros. Segundo o próprio apresentador, era “um programa
montado no palco, com microfones camuflados, coqueirinhos, palmeiras ali, roseiras,
etc., e marcação no palco como se fosse uma verdadeira peça de teatro.”
4
Na
verdade, mais um programa de variedades.
Outros programas apoiados na música caipira passaram a ter sucesso, como
Manhãs na roça, apresentado por Chico Carretel, ou o Festa na Roça, que substituiu
na Difusora o Arraial quando da mudança do Capitão Furtado para outra emissora.
Essa mescla de artistas nos programas “roceiros” ou “sertanejos” não era
exclusiva de São Paulo. Muitas duplas paulistas transferiram para o Rio, e formaram-
se também outras com artistas que trabalhavam em outros espaços além do rádio -
circos, teatros, etc. É importante lembrar, ainda, que as emissoras cariocas, se não
podiam ser sintonizadas na capital paulista, podiam ser ouvidas no interior do estado,
em especial as mais potentes - Mayrink Veiga, Tupi, Nacional.
As duplas não ficavam restritas a um só tipo de programa: no caso do Rio de
J aneiro, por exemplo, Xerém e Bentinho participaram também do programa de César
Ladeira na Mayrink Veiga, onde lançaram vários sucessos (de modas de viola a
valsas, fox, marchas, etc.). Xerém era cearense, e cantava também ritmos
nordestinos. Foi presença constante no programa Alma do Sertão, apresentado por
Renato Murce desde a década de 30 primeiramente na Rádio Transmissora (com o
nome de Hora Sertaneja), depois na Rádio Clube e posteriormente na Nacional. Esse
programa não apresentava apenas música caipira ou sertaneja; também um programa
de variedades, onde a dupla aparecia cantando e atuando ao lado de artistas como
Zezé Macedo, de Eliana, que destacara-se como atriz do cinema nacional, de
conjuntos como Trio Nagô, Trio Irakitan, cantores como Albertinho Fortuna, Luiz
Gonzaga e muitos outros.
O objetivo de programas como esse era veicular elementos do universo rural,
visto como mais “autêntico” em comparação com a vida urbana, e mostrar as raízes
da nacionalidade fincadas no campo, com o objetivo de firmar uma noção de
identidade. Dentre os muitos programas que realizou, Renato Murce confessou que
seu predileto era Alma do Sertão, explicando:

“ Nele sentia eu a verdadeira alma do nosso caboclo, quase sempre
ignorante, analfabeto mesmo, mas cheio de qualidades que eu desejava
ressaltar: argúcia, malícia, sua pertinácia lutando contra tudo e contra
todos. Enfim, via no homem do interior o verdadeiro cerne da nossa
nacionalidade.”
5

As diferentes emissoras passaram a ter. entre seus contratados, diversas
duplas caipiras. Estas eram escaladas para atuar nos mais diversos programas,
inclusive nas novelas roceiras, também bastante populares .
Percebe-se, portanto, que o aparecimento de programas caipiras no rádio
paulistano não pode ser apontado exclusivamente como resultado direto da ampliação
da audiência e da abertura de mercado a músicos populares. Há, a meu ver, um
movimento contrário, em que a veiculação desses programas expande o rádio para
outros espaços físicos e sociais. As gravações pioneiras de Cornélio Pires e sua
turma, bem como da concorrente Turma Caipira da gravadora Victor tem um papel
importante nesse processo, possibilitando que as músicas tradicionalmente cantadas
nos espaços das festas populares, por exemplo, passassem a ser reproduzidas.
6
Assim, isso possibilitou que outras duplas caipiras formadas no interior
passassem a se apresentar na capital, abrindo caminho para gravações
7
. E trazendo
outras influências, uma vez que muitos desses artistas tinham sucesso nas diferentes
regiões do Estado como cantadores das festas tradicionais, catireiros, etc.
Nhô Gonçalo e Nhá Maria (Arlindo Marques dos Santos e Maria Francisca
Marques), por exemplo, gravaram primeiramente músicas de fundo religioso: Nhô
Gonçalo era cantador de congadas e folia-de-reis, e por isso adotou o pseudônimo em
homenagem ao santo de sua devoção. Liu e Léo (os irmãos Lincoln e Walter Paulino
da Costa) provinham de uma família de catireiros e violeiros, assim como Vieira e
Vieirinha (Rubens Vieira Marques e Rubião Vieira) - os quatro de Itajobi, SP.
Mas havia restrições com relação a essa “entrada” no mercado fonográfico (e
radiofônico) dos músicos caipiras. Mário de Andrade, numa de suas crônicas
publicadas no Diário Nacional, criticou especificamente uma das gravações da série
regional de Cornélio Pires (“Escoiendo Noiva”, com a Caipirada Barretense). Procurou
delimitar as fronteiras em que se poderia realizar uma "documentação rigidamente
etnográfica" ou uma gravação mais cuidadosa da música popular de caráter folclórico;
nesta, escreve,

"A intromissão da voz tem de ser dosada para evitar o excesso de
repetição estrófica. Os acompanhamentos tem de variar mais na sua
polifonia, já que não é possível na sua harmonização, o que os tornaria
pedantes e extra-populares. E variar também na instrumentação."
8


J á a Zico Dias, que passou a gravar pela Victor, Mário de Andrade tece elogios:

"Especialmente nas cantigas e danças com viola, só ultimamente, ao
cantar do delicioso piracicabano Zico Dias, é que a fábrica Victor
conseguiu algum equilíbrio e discos bons. Nestes agora a gravação já é
perfeita."
9


Alguns programas caipiras passaram a ser apresentados diretamente por
duplas ou artistas com profissionalização mais recente, que não tinham o traquejo
radiofônico de outros mais antigos. Isso, naturalmente, não era visto com bons olhos.
O radialista Arnaldo Câmara Leitão, em depoimento, resumiu a maneira como tais
programas passaram a ser vistos pelas camadas que antes não sentiam pejo em ouvir
os programas tidos como de “cousas nossas”:

“Bom, a música caipira em si mesma é muito agradável, né? Tem um
fundo folclórico, dizem bem as raízes nacionais e dizem bem qualquer
situação brasileira. Então logicamente a dupla caipira deveria interessar ao
ouvinte e inclusive à crônica, aos jornalistas e intelectuais, se veiculassem
exclusivamente a música caipira, a música sertaneja, a nossa música de
raiz. Mas não, essas duplas, trios sertanejos, eles eram autorizados a falar,
e falando eles pronunciavam muita tolice, muita obscenidade, contavam
“piadas de sal grosso”, porque o público deles era um público assim de C e
D, né? E que só compreendiam o “sal grosso”. Então não era justo que
todo mundo ficasse sujeito a esse “sal grosso” inadvertidamente, não é?
(...) Mas alguns artistas sertanejos eram muito bons. O Raul Torres, por
exemplo, é um clássico no gênero. É um dos melhores. Ele tinha um trio e
o Raul Torres não falava muito mas outros falavam e diziam tolices e todo
mundo se zangava na ocasião por isso, e também um pouco de
preconceito, né? Era vontade de malhar porque eles eram pobres e de
certa maneira indefesos. Mas na malhação existia uma justificativa. Era...
pornofonia, como se poderia dizer, pornofonia da parte deles.”
10

Arnaldo Câmara Leitão estabelece uma distância bastante clara entre música e
fala. Ou seja, na música, as oralidades e os erros gramaticais e de prosódia eram
aceitos, relevados como componentes do folclore; na fala, mesmo o padrão mais
coloquial deveria seguir a norma culta.
Falar na emergência de programas caipiras no rádio, portanto, não significa
assinalar a emergência de um único modelo; pelo contrário, a diversidade era a
característica deles.
Outros espaços foram, aos poucos, se abrindo para os artistas caipiras, a partir
dos programas radiofònicos. Fixando-se nos mais diferentes lugares, percorrendo até
mesmo as pequenas cidades do interior, o circo, por exemplo, passava a apresentar
espetáculos musicais complementares a suas outras atividades.
Mas não foi deste o início um espaço aberto a todas as duplas caipiras. Em
depoimento Tonico e Tinoco contaram que o mercado de trabalho para os artistas
caipiras, além daquele do rádio, ainda era pequeno, exceto para artistas já
reconhecidos e consagrados, como Raul Torres e Florêncio: No caso deles,
entretanto, conforme iam conseguindo visibilidade através do rádio e dos shows que
passaram a fazer, começaram a se abrir chances de trabalho nos circos.
O tom melodramático presente nas letras das modas de viola divulgadas
através do rádio abriu caminho também para o circo-teatro.
“Nas nossas várias peças nós procuramos mostrar a teatralidade da vida”,
declarou Tonico em entrevista ao MIS-SP. A primeira peça que apresentaram foi Chico
Mineiro, escrita por um amigo. As demais foram escritas por Tonico a partir dos
sucessos no rádio: Mão criminosa, A marca da ferradura, A madrasta, Cabocla, entre
outras (num total de vinte e duas). Em certo sentido, as peças repetiam fórmulas
utilizadas pelas radionovelas, bem como pelo radioteatro mais popular. O conteúdo
folhetinesco e melodramático era o mesmo: as mesmas histórias de filhos perdidos,
vilões castigados e amantes reunidos após muito sofrimento.
Como as músicas muitas vezes eram compostas baseadas em histórias
tradicionais contadas de pais para filhos há gerações, o sucesso radiofônico
simplesmente solidificava situações e personagens, que então , com novos nomes e
roupagens, eram trazidos de volta ao palco dos circos. Em outras palavras, os contos
e histórias tradicionais, antes de serem apresentados de forma teatral, tinham um
entreato musical através do rádio e do disco.


*
Reflexões desenvolvidas a partir da tese de doutoramento “Múltiplas vozes no ar: o rádio paulistano nos
anos 30 e 40”, sob a orientação da Profa. Dra. Maria Odila L. da Silva Dias,. defendida em 2000 na
PUCSP.

**
Professora adjunta do Colegiado de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná –
UNIOESTE – campus de Marechal Cândido Rondon.
1
Diário de São Paulo, 16/5/40
2
Disputa com Ari Barroso, do Rio, a precedência no uso do termo e do tipo de programa.
3
Da mesma forma, J oão Pacífico, parceiro de Raul Torres, também se destacou em outros gêneros,
compondo também sambas, marchas, música de carnaval, etc.
4
Depoimento no programa "São Paulo Agora", setembro de 1976, pela Rádio J ovem Pan.
5
MURCE, R. Bastidores do Rádio. Rio de J aneiro: Imago, 1976.pag. 89
6
Cornélio Pires patrocinou, às próprias custas, a gravação de discos com artistas já consagrados mas
também com outros “recolhidos” em suas andanças pelo interior do estado. Formou com eles uma
“troupe” para se apresentar em diversos locais. A gravadora Victor formou um grupo semelhante,
contratando inclusive alguns membros da turma de Cornélio Pires.
7
Em depoimento ao MIS-SP, Sorocabinha, catireiro que fez parte da turma de Cornélio Pires e depois
gravou pela Victor, comentou seu desconforto quando as modas de viola que cantava (e que continham
uma dose de improvisação) eram perpetuadas através do disco, e divulgadas através do rádio.
8
ANDRADE, M. (1976b) pag. 236/7
9
Idem, ibidem, pag. 322
10
Depoimento de Arnaldo Câmara Leitão. Acervo de Multimeios do CCSP, fita no. 1581.
O poder de uma instituição
A Inquisição Portuguesa e os cristãos-novos degredados para o Brasil

Geraldo Pieroni
Universidade Tuiuti do Paraná



O puro e o impuro: parâmetro da normatização social

A expulsão dos cristãos-novos - judeus sefardim em sua origem, ou seja, naturais de
Safarad, que, em hebraico, é o nome geográfico da península Ibérica - funcionava como uma
espécie de linha de demarcação da pureza religiosa.
A ortodoxia da religião católica à época da Inquisição não podia ser preservada senão
pela rejeição dos membros considerados indesejáveis que, por uma escolha seletiva
determinada pelas ordenações, atuou em comum acordo com a opinião pública constituída,
naturalmente, pela maioria cristã velha. O corpo social, assim instituído, decidiu marginalizar a
minoria cristã nova que incorporou o papel de bode expiatório.
René Girard ressalta, com propriedade, a simbologia sócio-religiosa do bode expiatório
da antiga tradição hebraica o qual representando todos os pecados do povo, é enviado para o
deserto: terra maldita onde Deus não exerce sua ação fecundante, terra de relegação para os
inimigos de Yahvé. Os degredados cristãos novos da época Moderna simbolizavam, ambos, a
rejeição e a condenação do pecado: o mal era banido com eles. Os degredados eram bodes
expiatórios na medida em que eram depositários das iniqüidades de todos. Exclusão social que
representa a tendência profunda do homem em projetar a sua própria culpabilidade sobre um
outro e em satisfazer assim a sua própria consciência que tem sempre necessidade de um
responsável, de um castigo, de uma vítima.
1
A conivência da população encontra sua legitimidade nas leis que extraditava para fora
dos muros da cidade os heterodoxos da doutrina católica.
A perseguição dos cristãos-novos pode ter intensidades variadas, dependendo do
período, no entanto em Portugal, durante toda a época inquisitorial, o funcionamento do corpo
social permaneceu alicerçado na exclusão.
Toda a reflexão sobre a prática do degredo deve levar em consideração o conceito de
exclusão. Seu funcionamento mantém equilibrada a oscilação entre o puro e o impuro. Manter a
harmonia social preservando a pureza religiosa determinada pela tradição e pelas leis, garantia
ao Estado o seu mais precioso bem: a paz social.
Seguindo a dicotomia puro/impuro, o restabelecimento da ordem supõe o isolamento do
culpado, conseqüência dolosa de uma interdição. A mácula deixada pelo “crime” exige uma
reparação e para inverter o prejuízo causado torna-se necessário apagar a mancha, afastar o
incriminado.
A Inquisição, seguindo a tradição original da Igreja desde o início de sua história
institucional, estava vigilante à separação dos pecadores dos demais fiéis.
A dimensão social do pecado é suficientemente pesada ao ponto de determinar regras
disciplinares no seio da comunidade cristã. A consciência dos inquisidores e dos juízes reais
rejeitam de seu grupo dominante todos aqueles que não respeitam os princípios de conduta
reconhecidos pelo Estado e pela Igreja. Uma vez excluídos existem possibilidades de
reintegração no seio da comunidade, no entanto, é necessário seguir certas condições precisas
de reabilitação: a penitência dos pecados e reparação dos crimes através de uma pena são
aquelas mais evidentes.
Para os inquisidores a penitência estava associada ao conceito bíblico de purificação. O
tempo de penitência é o tempo de lágrimas, de sofrimento, de privação. A prisão, a multa, o
confisco dos bens, a admoestação, a tortura e o banimento são formas de punição como meios
de expiação dos pecados cometidos. Os cristãos-novos são batizados, portanto, uma primeira
vez, já purificados. São eles novos adeptos da fé em Cristo e da sua Igreja. O pecado maculava
a pureza do batismo e conseqüentemente uma nova purgação lhes era imposta.
J acques Le Goff na sua obra “La naissance du purgatoire”
2
salienta que o Purgatório, de
forma concreta ou abstrata, torna-se um lugar, e com a sua instituição passa a existir a
possibilidade de um mundo intermediário entre o Paraíso e o Inferno. Mundo temporário,
efêmero e purificador; o “terceiro lugar” segundo Lutero. Com a doutrina do Purgatório,
arquitetada entre o século XIII com o Concílio de Lião-Florença e o XVI, com o Concílio de
Trento, nascia uma nova esperança de salvação para os pecadores. Neste recorte imaginário, a
vinda dos cristãos-novos degredados erigiu a colônia brasileira como “locus” de purificação dos
desvios e improbidades existentes no Reino. Mundo quimérico tornado verdadeiro, ocupando
tempo e espaço bem precisos.
Purgatório deriva do latim purgare: limpar, desobstruir, purificar e portanto o banimento
entendido como tempo de provação permitia a purificação daqueles que cometiam faltas contra
as verdades da fé. Purgatório e degredo foram, portanto, associados na lide salvífica
empunhada por Portugal contra toda sorte de desvios morais e religiosos.
O cristão-novo banido purga sua pena no Brasil-Purgatório. O exílio era-lhe a penitência
purificatória que permitia a “limpeza do Reino” e ao mesmo tempo contribuía para o povoamento
desta terra longínqua, desprovida de colonizadores. Depois de cumprirem suas penas, alguns
voltaram ao Reino como bons católicos, outros como criptojudaizantes, outros permaneceram no
Brasil inserindo-se no viver quotidiano do mundo produtivo e doméstico. Tornaram-se bons católicos
ou continuaram a judaizar?

Harmonização religiosa e social

A manutenção da ordem religiosa através da correção dos heterodoxos foi uma das grandes
preocupações dos juizes do Tribunal da fé. No dia 23 de maio de 1536, a Inquisição recebeu
autorização para funcionar em Portugal e em 1540 realizou-se a primeira cerimônia pública do auto-
da-fé em Lisboa. No entanto, por razões de divergências diplomáticas entre a monarquia portuguesa
e a cúria romana, foi somente no dia 16 de junho de 1547, através da bula do papa Paulo III -
Meditatio Cordis - que o Tribunal foi definitivamente estabelecido. A caça aos judaizantes estava
aberta. Qual objetivo desta ação repressiva legal?
Nessa época o motivo essencial que justificava a punição daqueles que infringiam a lei divina,
era a salvação de suas almas, mesmo se para isso, fosse necessário excluí-los do corpo social da
mesma maneira que se separa a erva daninha do bom grão de trigo. Para reintegrar uma minoria
dissidente na sociedade católica, o Santo Ofício, com extrema vigilância, recorreu ao castigo e à
catequização: meios pedagógicos da reintegração social e religiosa. O primeiro motivo que legitima o
estabelecimento de um tribunal da fé nas terras portuguesas foi a luta contra a apostasia dos
cristãos-novos que, segundo a Coroa e a Igreja, continuavam a praticar as crenças hebraicas depois
de sua “conversão”, através do batismo forçado de 1496.
Desde então, os judeus não eram mais os “judeus das sinagogas” que viviam nas suas
aljamas ou judiarias, comunas privativas onde praticavam livremente sua religião. Tais comunidades,
antes da expulsão de 1496, existiam em toda parte de Portugal: Lisboa, Santarém, Évora, Porto,
Faro, Setúbal e Portalegre. Com o batismo forçado e com a instituição do Santo Ofício, a nova
minoria não possuía mais a realidade jurídica, étnica e religiosa que as Ordenações Afonsinas de
1446 lhe conferia. Doravante esta minoria passa a ser “cristã”, porém “cristã-nova”, estigmatizada e
ferozmente perseguida.

O degredo: exclusão social
Múltiplas foram as formas de punições aplicadas aos cristãos-novos e o degredo foi um dos
castigos preferidos do Santo Ofício. Esta punição se inseria num amplo processo penal difundido em
Portugal desde a Baixa Idade Média. Nos coutos e homizios os delinqüentes podiam se refugiar
legalmente, fugindo da ação da justiça. Explorando o mundo jurídico português, podemos verificar
que a prática do degredo era um procedimento utilizado pelos juízes leigos ou eclesiásticos. Os
tribunais seculares e os tribunais inquisitoriais organizaram, portanto, um tipo similar de
procedimento corretivo cujo mecanismo funcionava paralelamente. Evidentemente que as
jurisdições, as prisões e os juizes eram diferentes, no entanto, uma vez decidida a aplicação da pena
de degredo para as terras de além-mar, todos os condenados, provenientes dos tribunais leigos ou
dos tribunais inquisitoriais, convergiam então para Lisboa, para um lugar comum: a prisão do
Limoeiro onde criminosos e pecadores, esperavam com temor o dia do embarque.
Com a expansão marítima dos séculos XV e XVI, os indesejáveis do Reino puderam ser
banidos para as terras ultramarinas. Assim aconteceu no Brasil cujos primeiros habitantes
portugueses foram dois condenados abandonados nas praias por Pedro Álvares Cabral. Estes
degredados tornaram-se futuros símbolos fortemente arraigados no imaginário do povo brasileiro.
Seria então o Brasil terra de degredo?
Os cristãos-novos, os quais são acusados de criptojudaísmo, são aqueles que figuram com
maior freqüência nas listas dos auto-da-fé. Em número bem inferior são aqueles que delinqüiram
contra a moral católica, também eles punidos com o degredo: bígamos, sodomitas, padres
sedutores. Causa de desordem são também os feiticeiros, os visionários, os blasfemadores. Todos
eles representam uma preocupação para o fortalecimento da unidade social, política e religiosa do
Reino, defensor do seu catolicismo romano.
A vida cotidiana dos cristãos-novos era rigorosamente vigiada. Todos eram suspeitos de
judaísmo. “Em terras pequenas donde não se abre hua porta, nem se diz hua palavra que o não
saiba toda a terra”
3
, nada podia escapar aos olhos dos delatores. Do berço ao túmulo, tudo da vida
doméstica e íntima, como da vida social era denunciado. Eram suspeitos de “heresia” todos aqueles
que não se confessassem na época do Natal, da Páscoa e de Pentecostes. Os católicos leigos só
podiam ter em suas casas a Bíblia, os salmos com o Breviário e o livro das Horas de Nossa Senhora,
mas jamais em língua vulgar
4
. Os cristãos-novos foram acusados de se mostrarem exteriormente
como “bons católicos de missa”, mas de continuarem em suas casas, as escondidas, a “sabatizar e
observar os jejuns prescritos pelo judaísmo”. Numerosos cristãos-novos, sobretudo os das gerações
posteriores ao batismo forçado, absorveram o catolicismo assimilando os preceitos e as práticas da
Igreja católica deixando diluir aos seus descendentes a “Lei de Moisés”. Outros, no entanto,
preservaram os ritos hebraicos transmitindo-os aos seus filhos. Tanto os cristãos-novos
criptojudaizantes quanto os cristãos-novos fiéis ao catolicismo foram presos pelo Santo Ofício e
muitos deles foram condenados ao degredo para as terras brasileiras. O menor gesto que podia
evocar um comportamento suspeito era motivo para os jogar nos cárceres das Inquisições de Lisboa,
Coimbra e Évora. Encontrar em toda parte e durante um longo tempo os cristãos-novos que
judaizavam foi um “estilo” típico do Santo Ofício português - afirma Francisco Bethencourt - que não
se encontra nenhum equivalente nem com relação a Inquisição romana onde o judaísmo era um
“delito” residual, nem com os tribunais espanhóis, onde a perseguição em massa dos judaizantes
terminou no início do século XVI, mantido depois como um “crime” minoritário
5
.
Para eliminar os judaizantes do solo português os inquisidores estabeleceram como regra
geral a denúncia. A doutrina condenada era então classificada segundo a quantidade de sangue
“judeu” que cada um trazia nas suas veias. Freqüentemente nos processos inquisitoriais se encontra
muita meticulosidade na classificação da pureza do sangue, como ilustram os exemplos seguintes:
Brites Maria, “XN inteira”; Maria Gomes, “parte de XN”; Diogo Dias, “3/4 XN”; Alexandre Tavares, ½
XN”; Simão Roiz, “1/3 XN”; Margarida de Souza, “1/4 XN”; J oão Fernandes, “1/8 XN”
6
.
O jesuíta António Vieira, com muita perplexidade para entender os abusos cometidos em
relação a perseguição em bloco dos cristãos-novos, criticou severamente o procedimento das
inquisições portuguesas. Ele acusou o Santo Ofício de prender “muitas pessoas que não tinham do
que lá chamam da Nação, mais que hum oitavo, ou décimo sexto... he certo sutileza nunca vista no
mundo, oitavar os homens, e achar-lhes décimos sextos, e trigésimos e trigésimos segundos”. Padre
Vieira perguntava aos inquisidores: “o ar de Portugal faz os judeus?”
7
.
Nas centenas de cerimônias dos autos-da-fé do Santo Ofício passaram milhares de homens e
mulheres acusados de judaísmo. Como já evidenciamos, vários cristãos-novos foram degredados
para o Brasil. Os acusados de judaísmo representam mais da metade de todos os réus punidos com
o banimento para o território brasileiro, ou seja, 52,7%. Entre eles, as mulheres constituem a maioria
(65%). Nestas listas os cristãos-novos do sexo masculino banidos para o Brasil representam uma
porcentagem inferior porque muito deles foram condenados à cumprirem trabalhos forçados nas
galés, uma punição exclusivamente para os homens.

Criptojudaizantes ou católicos?
Analisando os processos inquisitoriais, podemos, na primeira leitura, afirmar que eles eram
predominantemente católicos tanto na prática como na fé. No entanto, devemos estar atentos e não
generalizar esta afirmação pois é muito difícil saber até que ponto todas estas confissões foram
sinceras. É evidente que nestes interrogatórios massacrantes, o entendimento dos prisioneiros era
completamente perturbado pela pedagogia inquisitorial. Após as inúmeras sessões de inquéritos e
torturas eles não compreendiam mais nada. A consciência de ter traído sua religião, o desejo de
salvar sua vida e a de seus familiares, o remorso de ter denunciado parentes e amigos, o
desconforto das prisões, a fatiga... tudo confundia suas mentes. Eram eles católicos ou
criptojudaizantes? “As várias gerações passadas no catolicismo - afirma Anita Novinsky - se não
tornou os cristãos-novos bons católicos, também não conseguiu fazer deles, na maior parte das
vezes, bons judeus (...) é considerado judeu pelos cristãos e cristão pelos judeus (...) o cristão-novo
cria suas próprias defesas contra um mundo onde ele não se encontra. É antes de tudo um cristão-
novo”
8
.

A guisa de conclusão
Estudar um processo inquisitorial significa deparar-se com a possibilidade de trazer aos
nossos dias a vida doméstica e social dos cristãos-novos e demais réus do século XVII. É como
estar diante de um cofre aberto que revela os segredos e as angustias dos penitentes do Santo
Ofício. Se uma primeira leitura destes documentos permite descobrir os pensamentos que animaram
as autoridades inquisitoriais que os produziram, uma leitura mais aprofundada faz aparecer o
sentimento escondido dos condenados. Toda essa documentação nos permite compreender os
comportamentos dos homens e das mulheres desta época; nos autoriza a penetrar na rotina da vida
familiar fragmentada dos nossos cristãos-novos. Dominados pelo medo, eles foram todos submetidos
a uma profunda degradação de suas vidas pessoais cujo termo, para muitos, foi o degredo para uma
terra distante, punição que visava a exclusão social e a purificação de suas almas.
Finalmente, à guisa de epílogo, devo confessar que muito li nos arquivos da Inquisição e
que todo este magnífico acervo esclareceu, entre outras coisas, os motivos e os métodos da
reeducação da fé dos acusados. Foram poucos, no entanto, os processos dos réus que me
permitiram acompanhar os passos dos nossos cristãos-novos depois do desembarque no
Brasil. Na sua maioria, os processos culminam com o veredicto e se calam quase
completamente a respeito da trajetória destes penitentes banidos. Depois de definida a
sentença, em geral, eles simplesmente desaparecem dos arquivos. Infelizmente a
documentação analisada não permitiu aprofundar estas questões. É no Brasil que agora
devemos segui-los. Nesta ordem de idéias, pode-se abrir perspectivas para melhor
compreender as adaptações ou inadaptações dos banidos que chegaram às terras brasileiras.
O que aconteceu com os cristãos-novos depois de terem finalizado o tempo de seus
degredos ? Muitos seguramente não voltaram para Portugal e criaram vínculos de amizade na
terra a eles impostas. Fundaram famílias e deixaram descendências. É esta a problemática de
minhas novas pesquisas : O retorno ao lar português ou a inserção mais ou menos definitiva do
degredado no mundo do trabalho colonial ?

1
Ver o livros do Levítico 16, 1-34: O dia do Grande Perdão, in A Bíblia. Também René Girard, Le bouc émissaire,
Editions Grasset et Fasquelle, 1982. Ainda em René Girard, A violência e o sagrado, 1972, o autor enxerga no
sacrifício a reconstituição da coesão social através da individualização e da distribuição (expulsão) de uma vítima
sobre a qual se descarrega as tensões e a vilência que poderia destruir a comunidade.
2
J acques Le Goff. La naissance du purgatoire. Gallimard, Paris: 1981.
3
AN/TT (Arquivos Nacionais/Torre do Tombo), Inquisição, Conselho Geral, Papéis Avulsos, maço 2645, p. 114.
4
BNL (Biblioteca Nacional de Lisboa), Sala dos periódicos, cota J . 5543 B: “Monitório de D. Diogo da Silva”, apud
Mendes dos Remédios, “Os judeus portugueses perante a legislação inquisitorial”, in Biblos - Boletim da Biblioteca
da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, vol. I, out.-nov., nos 10 e 11, 1925.
5
Francisco Bethencourt, “A Inquisição”, in Yvette Kace Centeno (org.), Portugal: Mitos Revisitados, Edições
Salamandra, Lisboa, 1993, p. 104.
6
“XN” é a abreviação para Cristão-Novo, fórmula utilizada pelos notários do Santo Ofício.
7
AN/TT, Inquisição, Conselho Geral, Papéis Avulsos, maço 2645, p. 114.
8Anita Novinsky, cristãos-novos na Bahia, Editora Perspectiva, São Paulo, 1972, pp. 160-161.









O Trono e o Altar
Discursos normativos; Discursos imaginários: a legislação sobre degredo nos
tempos da Inquisição (1536-1821)

Geraldo Pieroni
Universidade Tuiuti do Paraná



Discursos normativos: Direito e intolerância:
Cabe também ao historiador a compreensão do Direito, seu discurso, sua
intencionalidade como forma de codificação das normas e harmonização do corpo
social. A apreensão dos códigos legislativos como preceitos elementares da vida em
sociedade objetivando a defesa da ordem oferece ao historiador a possibilidade de
melhor compreender os rigores das interdições e obrigações de uma determinada
sociedade. Quebrar uma proibição, menosprezar sua sacralidade, transgredir seus
princípios implica sanções severas. A infração, não importa sua qualidade, é
exemplarmente punida a fim premunir o harmonioso funcionamento da comunidade
contra heterodoxias perturbadoras.
Entre todas as normas ditadas pelas legislações portuguesas, seja as
ordenações do Reino ou os regimentos inquisitoriais, a exclusão do culpado é, pelo
menos teoricamente, o meio mais utilizado como instrumento punitivo.
Os infratores das normas não fugiram desta regra e suas formas de exclusão
foram significativas: encarceramentos, degredo para as terras distantes e galés.
O banimento aplicado aos culpados implica o afastamento físico e exclui o culpado
da convivência dos seus compatriotas privando-o de seus direitos, sobretudo a
prerrogativa da sua participação à vida religiosa, corporativa e familiar.
Nas sociedades fortemente tendentes à integração, como a portuguesa dos
séculos XVI e XVII, manifestam uma poderosa necessidade de uniformidade dos
comportamentos dos vários grupos constituídos e, conseqüentemente, uma frágil
tolerância com relação ao outro, o diferente. Rejeita-se aquele que perturba a ordem
natural. Tentar compreender a sociedade portuguesa da época inquisitorial exclui,
determinantemente, a aplicabilidade da tolerância.
Na modernidade, o uso originário deste conceito está vinculado ao discurso
sobre a repressão religiosa na Europa da Reforma protestante. Até à Reforma, a
reivindicação da tolerância religiosa não ousou, quase, a manifestar-se. Com a
Reforma houve a proliferação religiosa criando uma situação na qual o problema da
tolerância e da intolerância se revelava como problema político e ético.
Os países católicos, como Portugal e Espanha, estabeleceram seus tribunais
inquisitoriais justamente para combater a propagação, por menor que fosse, dos ideais
e práticas religiosas dissidentes ou originárias fora da Mater Ecclesia. Diferentemente
de muitos outros reis e príncipes da Europa Moderna, os soberanos portugueses não
sofreram pressões de comunidades protestantes e as poucas manifestações e
simpatias pelas idéias da Reforma foram facilmente reprimidas.
Estado e Igreja, juntos, combateram a heterodoxia e a Inquisição nunca se
preocupou em acompanhar a modernidade dos pensamentos liberais fortemente
imbuídos de concepções condescendentes. Basta olhar Locke, sobretudo na sua
Primeira Carta sobre a Tolerância, 1689, para saber que o continente Europeu não
ibérico, clamava pela tolerância como corolário do dever fraterno; a perseguição é
violência e, portanto, se opõe diretamente à caridade cristã.
1
As leis do Estado, as normas dos regimentos da Inquisição, a sociabilidade
lusitana, longe ainda estavam, como corpo social e jurídico, de acompanhar as
exigências da Europa que se capitalizava para o triunfo liberal.
Michel Foucault
2
chama a atenção sobre as exclusões, as proibições, os muros
e limites através dos quais a cultura dominante se constitui historicamente. Para
Foucault, mais importante que os excluídos em si, são os gestos e os critérios da
exclusão. O marginal, o excluído, o banido, é rejeitado e estigmatizado; sua exclusão
do corpo social ao qual pertence torna-se necessária para salvaguardar a ordem
vigente. Neste sentido, enfatiza Carlo Ginsburg, as vítimas da exclusão tornam-se
depositárias do único discurso que representa uma alternativa radical às mentiras da
sociedade constituída
3
.

O degredo nas Ordenações Filipinas de 1603
Nas Ordenações Afonsinas (1446), Manuelinas (1521) e Filipinas (1603), o
célebre Livro V é dedicado ao direito penal. É lá que estão enumeradas as penas a
serem aplicadas aos condenados segundo o grau de seus delitos. Normalmente as
penalidades previstas são severas. A expressão que designa a pena de morte - morra
por ello - é freqüente. Mas a sentença morra por ello, bem como a morra por isso, não
significa unicamente a morte física, mas pode às vezes significar a morte civil, a qual
excluía o condenado de seu meio social por uma condenação ao degredo
4
.





As causas dos degredos eram múltiplas. Os crimes que não são punidos com a
pena de morte, são susceptíveis de castigos corporais determinados segundo “a
condição social das pessoas, a qualidade do crime e as prescrições do Direito”
5
. Estes
crimes são numerosos. Cito apenas alguns passíveis do degredo : “quebrar ou violar
de qualquer modo a segurança real”; “matar, ferir ou ofender reféns em poder do rei,
sabendo que o eram, e sem justa razão, ou ajudá-los a fugir desse poder” ; “ajudar
preso acusado de traição ou dar-lhe fuga” ; tirar do cárcere algum preso condenado ou
confesso, para evitar que se fizesse justiça” ; “matar ou ferir, por vingança, inimigo que
já esteja preso em prisão régia para se dele fazer cumprimento de justiça” ; “matar ou
ferir juiz ou oficial de justiça por fato relativo ao exercício das suas funções” ; “falsificar
ou mandar falsificar o sinal de algum desembargador, ouvidor, corregedor ou qualquer
outro julgador, ou algum selo autêntico que faça fé, com propósito e intenção de
causar dano ou de colher proveito”. Todos esses delitos eram punidos com o degredo
em Ceuta
6
ou na ilha de São Thomé
7
ou no Brasil
8
. O degredo destinado ao território
brasileiro é também o castigo daqueles que “resistem ou desobedecem aos oficiais da
justiça ou lhes dirige palavras injuriosas”
9
.
As Ordenações Filipinas, na realidade, apresentam cerca de 90 tipos de crimes
punidos com o degredo no Brasil, punição escolhida pela justiça portuguesa para os
crimes mais graves. Efetivamente, centenas de pessoas foram enviadas ao Brasil
durante os três séculos do período colonial, isto é, desde a chegada dos portugueses
em 1500 até a independência em 1822. De fato, todas essas pessoas estando nas
prisões acarretariam enormes despesas à administração real. Por que não aproveitar
deste contingente, transformando-o em agente da colonização e do povoamento das
imensas terras de além-mar? Esta constatação vale para o Brasil, bem como para as
outras colônias do império português, e até mesmo para as regiões despovoadas de
Portugal.

O Regimento dos degredados
Além do aprisionamento, das sórdidas prisões, da tortura, do auto-da-fé, do
confisco dos bens e dos açoites, o degredado ainda passava por um processo de
transferência da prisão para o porto de embarque. Dois documentos descrevem esta
conduta. O primeiro trata-se de um minucioso regimento datado dos primeiros anos da






dominação espanhola, precisamente do dia 27 de julho de 1582: “O regimento dos
degredados”
10
. O segundo é o Livro V das Ordenações Filipinas de 1603,
precisamente o título CXLII: “per que maneira se trarão os degredados das cadeias do
Reino à cadeia de Lisboa”
11
. Este título reúne as ordens de um edito sobre os
degredados datado de 3 de outubro de 1575, ordenado pelo rei D. Sebastião.
Ambos os documentos pertencem à legislação secular; seu conteúdo é o
mesmo, se bem que o regimento dos degredados apresenta-se em, vários aspectos,
muito mais detalhado. Os condenados ao degredo eram distribuídos nas várias prisões
do Reino. No entanto, regra geral, eles eram transportados para Lisboa e de lá,
enviados para seus lugares de degredo. Os corregedores, ouvidores, mestrados e
senhores de terras, deviam a cada três meses, levar aos juízes das comarcas e as
ouvidorias de suas jurisdições, a lista de “todos os degredados que hão de ir presos
em ferros”. As autoridades registravam seus “nomes e idades, e sinais que tem, e para
que lugar, e por quanto tempo são degredados, e quem deu as sentenças”
12
.
Uma vez conduzidos para a prisão de Lisboa, “os carcereiros da Corte, e da
cidade de Lisboa, entreguem logo os ferros em que os ditos degredados vieram, às
pessoas que os trouxesse, para serem levados às cadeias donde os trouxeram”
13
. O
escrivão dos degredados da cidade de Lisboa registrava todos os banidos num livro
numerado e assinado pelo magistrado que naquele período fosse também o juiz dos
degredados
14
.
Este magistrado, nomeado juiz dos degredados, devia ir, todos os meses, na
prisão para ordenar o embarque dos condenados os que seriam levados aos navios
pelo meirinho e pelo escrivão. O escrivão dos degredados, antes da partida dos réus,
registrava, um à um, especificando o lugar do degredo num “Livro em que fará títulos
apartados, hum das Galés, outro do Brazil, outro de África”
15
. O escrivão anotava
neste livro, o nome do navio, do capitão, do mestre ou do piloto os quais assinavam a
guia de transporte.
Os condenados eram entregues aos “capitães, mestres e pilotos”
acompanhados por uma guia, espécie de passaporte escrito pelo escrivão e assinado
pelo magistrado. Este documento era endereçado às autoridades dos lugares onde os
réus seriam banidos.







Uma vez que desembarcados nos portos de destino, os capitães eram
obrigados a pedir às autoridades locais, um recibo explicando “como lhes entregaram
a carta de guia, e os degredados”
16
. Depois da viagem, os mesmos capitães deveriam
trazer estes recibos ao magistrado que pedia ao notário que registrasse no “Livro em
que se fez o acto da entrega”. Os capitães que não obedecessem todas estas regras
eram presos e condenados. Em cada seis meses, o juiz dos degredados controlava o
livro dos embarques e da entrega para verificar se os banidos tinham sido
transportados para seus destinos de degredo
17
. Os degredados da Inquisição eram
submetidos, geralmente, a um procedimento semelhante àquele utilizado pelo
regimento dos degredados e pelas Ordenações Filipinas.

O degredo no Regimento Inquisitorial de 1640
O Regimento de 1640 é aquele que melhor aprofundou as penas para cada
tipo de crime, de acordo com o delito, as circunstâncias nas quais eles foram
cometidos, bem como o grau social do culpado e de sua vítima.
O Livro III especifica, detalhadamente, as « penas que hão de haver os
culpados nos crimes de que se conhece no Santo Ofício »
18
. Todos os crimes de
interesse dos juízes inquisitoriais e suas respectivas punições são bem explicados
inclusive os numerosos delitos punidos com o degredo para o Brasil. As faltas
cometidas contra a religião e contra a moral sobressaem. O Santo Ofício possuía uma
jurisdição minuciosa sobre os crimes relacionados à heresia. De fato, a Inquisição foi
introduzida em Portugal com a finalidade de fiscalizar e de punir os judeus
forçadamente convertidos ao catolicismo, ou seus descendentes, acusados de
continuarem à praticar as crenças judaicas. As perseguições aos cristãos-novos
estenderam-se também ao protestantismo e ao islamismo, no entanto de uma maneira
menos feroz do que aquela empregada contra os judaizantes. Sendo assim, é raro
encontrar um condenado ao degredo no Brasil acusado de seguir a doutrina de
Maomé. Mas eles também existem nas listas dos autos-da-fé. Do judaísmo, passa-se
rapidamente para as práticas consideradas menores: blasfêmias, feitiçaria, sodomia,
bigamia e outros pecados-crimes que apresentavam algum aspecto heterodoxo com
relação aos princípios religiosos da Igreja católica. A vocação especifica do Santo
Ofício era a conservação da ortodoxia da Mater Ecclesia.





Leis draconianas ou pedagogia do medo?
Afirmei, acima, que a legislação da época era muito rígida; porém, na verdade,
seria grave estudar as estruturas jurídicas dos séculos XVI e XVII com as categorias
mentais de hoje. Não podemos estabelecer comparações e declarar, simplesmente,
que “as leis criminais portuguesas eram tão draconianas e absurdas que quase
ninguém lhes escapava”
19
. Não podemos, também, construir hipóteses do tipo
determinista, fundadas muito mais nas idéias que no estudo aprofundado. O aspecto
assustador das ordenações pode ser uma armadilha para os leitores desatentos.
Certamente, a noção de crime era na época bem diferente do que os códigos
penais que hoje compilam. Todas as legislações do Antigo Regime Português, quer as
ordenações reais quer os regimentos inquisitoriais, códigos dos dois mais importantes
tribunais da época, consideravam os pecados como crimes muito graves porque
opunham-se à ordem estabelecida por Deus e pelo rei.
Numa época em que a religião estava profundamente consolidada em Portugal
e, em toda a Península Ibérica, os delitos contra o catolicismo não podiam ser
impunes. A Igreja associou-se ao trono na luta contra as ameaças sociais, políticas e
religiosas do tempo.

As Constituições Primeiras da Bahia de 1707
Um importante corpo legislativo eclesiástico foi redigido no Brasil em 1707.
Trata-se das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, ordenado por D.
Sebastião Monteiro da Vide, arcebispo da Bahia e membro do « Conselho de Sua
Majestade ». Pela primeira vez um sínodo foi reunido no Brasil para discutir e elaborar
uma constituição capaz de regulamentar o comportamento dos eclesiásticos e,
também dos leigos, que viviam nas terras brasileiras. As Constituições Primeiras estão
perfeitamente em conformidade com as ordenações e regimentos portugueses,
principalmente com as Ordenações Filipinas e o Regimento de 1640. O Livro 5 é
consagrado aos « crimes » e seus respectivos castigos, o que corresponde ao Livro V
das Ordenações Filipinas e o Livro III do Regimento do Santo Ofício de 1640. Este
Livro das Constituições contém 74 títulos: Heresia e judaísmo, blasfêmia, feitiçaria,
pacto com o demônio, simonia, sacrilégio, perjúrio, falso testemunho, sodomia,
adultério, concubinagem e muitos outros.
Nesta obra a pena de degredo está presente em toda parte. Do Brasil, os
condenados eram enviados para a África (principalmente em São Tomé e Angola) ou


para uma das regiões do Brasil quando os réus conseguiam evitar as galés. A intenção
das Constituições Primeiras da Bahia manifesta-se muito claramente na sua
introdução: « Fazemos saber, que reconhecendo nós o quanto importam as leis
Diocesanas para o bom governo do Arcebispado, direção dos costumes, extirpação
dos vícios, e abusos, moderação dos crimes e recta administração da justiça »
20
.
Os bispos presentes estavam bem conscientes que as leis da Metrópole não
estavam completamente adaptadas para serem aplicadas nos vários campos da vida
social e religiosa do Brasil. Enfim, mais de 200 ano