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DA HISTÓRIA ENSINADA AOS SEUS FUNDAMENTOS

TEÓRICOS: A CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA DE AUGUSTO


COMTE*

**
Simone da Silva Negri Carrosi
***
Maria Ap.Leopoldino T. Toledo

RESUMO: O reconhecimento de que o ensino da História se faz dominantemente


através da exposição de fatos históricos sustentados pela memorização conduziu-
nos ao objetivo deste trabalho que consiste em problematizar tal prática pedagógica,
através do estudo e da compreensão da concepção de história veiculada nas obras
de Augusto Comte (1798-1857). O interesse em estudar este autor decorre da
preocupação em investigar os fundamentos históricos que estão enraizados em sua
teoria que, como expressão do pensar na sociedade capitalista, cristalizou-se na
transmissão do saber histórico.
Palavras-chave: Augusto Comte, concepção de História, História ensinada.

HISTORY AS IT IS TAUGHT AND ITS THEORETICAL BASIS:


COMTE’S CONCEPT OF HISTORY

ABSTRACT: Since history is chiefly engaged in the exposition of historical facts


supported by memorization, the problematization of such a pedagogical practice is
provided. Research deals with an analysis and comprehension of the concept of
history in the works of August Comte (1798-1857). The author’s interest in studying
Comte is her concern in investigating the historical bases ingrained in the
philosopher’s theories. Since these bases express the way of thinking in capitalist
society, they form the substratum in the transmission of historical knowledge.
Key words: August Comte, concept of History, History as it is taught.

INTRODUÇÃO

Este artigo teve origem nas reflexões realizadas através do


programa de Iniciação Científica (PIBIC), que envolveu o estudo das
principais obras de Augusto Comte (1798-1857), na busca de vasculhar em
seus escritos a concepção que esse autor tem da história, entendida
enquanto movimento real vivido pelos homens.
A escolha desse autor não foi aleatória, mas com o propósito de
buscar as raízes históricas da história que se ensina nas séries iniciais do
ensino fundamental. Nossa relação com este objeto trava-se, assim, no
campo dos fundamentos teórico-metodológicos da ação do pedagogo.
Nossa preocupação, portanto, está voltada em indagar que conhecimento

*
Texto elaborado a partir do Projeto de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq) intitulado: “A
concepção de história de Augusto Comte”.
**
Aluna do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Maringá/UEM.
***
Professora doutoranda (PUC-SP) do Departamento de Teoria e Prática da Educação/UEM.
CARROSI e TOLEDO

histórico tem dominado a visão e a apropriação do passado nas aulas de


história das séries iniciais do Ensino Fundamental.
Nesta perspectiva, a partir do reconhecimento feito através das
atividades de estágio supervisionado realizadas no curso de Pedagogia, de
que a história apresentada se fazia por meio de exposições de fatos
desconectados de seu contexto, como também da memorização de nomes
e datas consideradas importantes, constatamos, preliminarmente, que a
presente ação pedagógica está sendo direcionada por uma explicação
naturalizada do processo vivido pelos homens em sociedade. Esta situação
nos indica que o professor, provavelmente, por não compreender a história
como movimento real, não reconhece as diferentes concepções de história
1
criadas para explicar a realidade social .
Compreendendo que as concepções teóricas nascem na prática dos
homens, e que são desenvolvidas na e pela produção material,
consideramos necessário buscar nas relações de produção da sociedade
capitalista as origens dessa concepção de história factual que se faz
presente não só nas salas de aulas, mas nas diferentes práticas sociais dos
homens.
Nessa busca, nos deparamos com os estudos de Marx (1818-1883)
e sua afirmação, na Ideologia Alemã de que “toda concepção histórica, até
o momento, ou tem omitido completamente esta base real da história, ou a
tem considerado como algo secundário, sem qualquer conexão com o curso
da história.[...]” (MARX, 1987, p.57). Ou seja, entendia o autor em questão
que: “[...] enquanto os franceses e os ingleses se atêm à ilusão política, que
está certamente mais próxima da realidade, os alemães se movem na
esfera do ‘espírito puro’ e fazem da ilusão religiosa a força motriz da história
[...]” (MARX, 1987, p.58).
A importância de Comte nesse período é incontestável, não só pela
quantidade de textos publicados, mas porque se atendo à “ilusão política”
seus escritos influenciaram vários pensadores, de tal forma que Reis (1996,
p.5) afirma: “[...] pós-kantiano e comteano, o século XIX possui um a priori:
a metafísica é uma impossibilidade, fora dos fatos apreendidos pela
sensação, nada se pode conhecer.”
As obras deste autor são, em grande parte, responsáveis pelo
“espírito positivo” que domina o século XIX e passa a predominar entre os
historiadores a partir da idéia de que não existiu “[...] até agora, verdadeira

1
Indicamos “provavelmente”, por reconhecermos que na sua formação, a relação estabelecida
com a história ocorreu de forma fragilizada, ou seja, nos cursos de magistério o acadêmico
fica restrito aos conteúdos da disciplina metodologia do ensino de história, que muitas vezes
deixa de proporcionar condições para tais reflexões.
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História, concebida com espírito científico, isto é, tendo por fim a pesquisa
das leis que presidem ao desenvolvimento social da espécie humana [...]”
(COMTE, 1989, p.165).
Comte, na tentativa de teorizar os assuntos públicos, como a
industrialização, tarefa necessária de seu tempo, “[...] perguntava-se a si
mesmo se a Política, a arte de governar as sociedades humanas, não
poderia, por seu turno, pedir algumas luzes à ciência. [...]” (LONCHAMPT,
1959, p.25).
Temas fundamentais como a política, a religião, a indústria, são
discutidos entre intelectuais na busca em organizar a sociedade capitalista
que havia destruído a forma feudal de os homens se relacionarem.
Intensificam-se os interesses para conhecer a ciência como fonte
necessária para direcionar o caminho da ordenação da sociedade pós-
revolução francesa. Diante desse debate, um problema central se colocava:
não tinha sido criado, ainda, um saber confiável (científico) da sociedade.
Em relação ao conhecimento histórico, Comte é tomado sob o impulso dos
seguintes pensamentos:

[...] Mas o estudo da história, tal como tinha sido estabelecido até então,
não apresentava nenhum dos caracteres do método científico; não seria,
pois, possível, seguir nesta ordem de pesquisas o mesmo caminho que nas
outras? E se isto fosse possível, a história assim estudada não poderia
oferecer aos estadistas conselhos semelhantes aos que as ciências físicas
dão aos manufatureiros e aos agricultores? (LONCHAMPT, 1959, p.25).

A análise desses excertos nos faz pensar que, para Comte e para a
classe que ele representava, o historiador ideal seria aquele que, despido
de valores e fiel aos documentos, se transforma num porta-voz do Estado.
Isso porque, se na compreensão de Comte, até então não houve uma
“verdadeira História” capaz de pesquisar as leis por vias científicas, logo
não se poderia oferecer aos estadistas um saber baseado nas ciências da
observação (ciências físicas) uma vez que se configurava como um saber
desprovido de julgamento, fiel ao observado, como no caso da história, aos
documentos.
No desdobramento dessa análise, indagamos: por que a busca pelo
saber histórico científico se deu fortemente nos moldes do positivismo? Que
elementos teórico-metodológicos o positivismo comporta que o faz
dominante na atualidade? Como este saber histórico articula-se ao ensino
de História?
Para melhor compreendermos como é estabelecida a relação entre
o ensino da História e a sociedade que o produziu, analisaremos o

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CARROSI e TOLEDO

pensamento de Augusto Comte, no interior do contexto histórico-social de


sua época, para conseguir suscitar respostas às questões acima
levantadas. Por isso passaremos, inicialmente, da análise da história
ensinada para seus fundamentos teóricos, ou seja, a concepção de história
de Augusto Comte e, no final, passaremos dos fundamentos teóricos à
história ensinada.
Importa salientarmos ainda que este texto não pretende se
reconhecer como a mais completa reflexão da relação dos fundamentos
teóricos e da história ensinada, mas tão somente ensaiar uma aproximação
teórica do autor com a prática pedagógica que vivenciamos nos estágios.

1 – DA HISTÓRIA ENSINADA AOS SEUS FUNDAMENTOS TEÓRICOS

A Revolução Francesa (1789-1799) foi um movimento que marcou o


advento da nova forma de ser e existir das relações sociais, a partir da crise
do sistema feudal no âmbito político da vida moderna. Referiu-se à tomada
do poder econômico pela burguesia européia numa sociedade que se
destruía em função da mercantilização, tendo por base a troca por dinheiro
e o lucro individual. Conforme indica Tocqueville (1805-1859), “[...] a
Revolução Francesa foi essencialmente uma revolução social e política que
não pretendeu nem a perpetuar a desordem e torná-la de certa maneira
estável, nem a metodizar a anarquia, mas antes a aumentar o poder e os
direitos da autoridade pública” (TOCQUEVILLE, 1989, p.67).
Como não se pode revolucionar uma sociedade sem destruir seus
princípios básicos, a Revolução Francesa estendeu-se pelo tempo que foi
necessário ao processo de transformação social. Para isso tornar-se
realidade, foi preciso que a sociedade francesa “passasse pela guilhotina
todos os pensamentos ultrapassados” e forjasse um novo espírito para os
homens. Este espírito do homem moderno enraizou-se nos princípios
políticos básicos da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e
fraternidade.
Fruto dos ideais do Iluminismo, há uma rejeição por parte da maioria
dos modernos, das velhas crenças e das antigas tradições oriundas do
período medieval, tendo, portanto, como características a renovação
intelectual e filosófica dos seres sociais. A crença inabalável na razão e a
idéia de que o progresso do homem pode ser infinito, desde que o espírito
humano, através do livre exercício de suas faculdades, se liberte das
superstições, misticismo e a ignorância do passado a que, até então, o
espírito humano estivera subordinado, foi o resultado da preocupação em
explicar o mundo racionalmente.
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Esses princípios tornavam-se aceitáveis na medida em que as


condições materiais já estavam consolidadas, ou seja, a Revolução
Industrial caminhava rapidamente entre os países industrializados. A
Inglaterra, à frente do comércio, estava preocupada em expandir a forma
capitalista de organização das relações comerciais. Nesse momento, os
homens estão cada vez mais empenhados na busca pelo lucro e no
acúmulo de capital com o fim de aumentar a produção e melhorar a
produtividade da mercadoria.
O período iluminista representou a busca dos homens em tornar a
natureza aliada das relações comerciais, que vieram sofrendo alterações a
partir do século XVI. Para isso, estavam convencidos de que era preciso
“conhecer para transformar”.
Os conhecimentos científicos desenvolvidos na modernidade
possibilitaram que a produção passasse a ser mecanizada, substituindo,
num processo crescente, o trabalho humano. Sobre essas transformações
sofridas, paulatinamente, pelas forças produtivas, Pereira e Gioia (1996,
p.258) indicam:

Uma forma de aumentar os ganhos do capitalista e que independe da


capacidade física do trabalhador seria a introdução de instrumentos que
aumentassem a quantidade de bens produzidos numa mesma quantidade
de tempo. E foi o que a Revolução Industrial fez: a especialização do
trabalho, reduzindo-o a um conjunto de tarefas simples, possibilitou a
introdução da máquina para realizar essas tarefas, em substituição ao
braço do operário, com a ferramenta. Com a introdução da máquina
(inicialmente a máquina a vapor), operou-se uma revolução no processo de
trabalho, que se viu liberado das limitações impostas pela capacidade física
do operário. A máquina possibilitou a substituição da força motriz humana
por outras (ar, água, vapor, etc). Agora é a máquina, e não o trabalhador,
com a ferramenta, que fabrica o produto, e o trabalho do operário limita-se
ao de vigiar a máquina. Agora o capitalismo pode se desenvolver
plenamente [...].

No entanto, se no século XVIII surge a indústria mecanizada e uma


nova forma dos homens viverem em sociedade, no século XIX, seus efeitos
já causavam grandes impactos: grande avanço na produção; crescimento
de novas cidades com um número enorme de assalariados; capital
acumulado nas mãos de poucos; miséria da maioria da população; crianças
fora da escola; avanço na jornada de trabalho de até dezesseis horas
diárias e em condições precárias, além disso a liberdade parecia não ser
um fim em si mesma, bem como a igualdade material.

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CARROSI e TOLEDO

Devido às condições sub-humanas de vida em que o proletário se


encontrava, como protesto à sua situação, quebram as suas supostas rivais:
as máquinas. Além disso, concentram-se nas grandes cidades e organizam-
se formando os sindicatos. Essas manifestações deixaram claro o
antagonismo entre os proletários e os capitalistas, marcando o quadro
2
conflituoso que seria a nova sociedade .
Os conflitos de classe se acirravam na medida em que o capital ia
se construindo como única forma de produção, conforme afirmam Pereira e
Gioia (1996, p.260):

[...] A indústria criou novos mercados para produtos agrícolas, forneceu


ferramentas e energia para a agricultura. O capitalismo estendeu-se ao
campo, desenvolvendo uma agricultura de mercado (em lugar de agricultura
de subsistência) preocupada em tornar a terra cada vez mais produtiva e
em tirar dela lucros cada vez maiores, determinando, assim, o fim do
regime feudal de exploração da terra.

É justamente nesse processo de consolidação das relações


capitalistas no século XIX, que faz sentido a obra de Augusto Comte. Este
pensador nasceu na cidade de Montpellier, na França, e viveu entre os anos
1798-1857, período pós-revolucionário. Conviveu com o universo teórico
advindo do Iluminismo e no processo final da Revolução Francesa.
Comte esteve na dianteira dos acontecimentos sociais de seu
século. Com relação ao crescimento do proletariado industrial, posicionou-
se como um típico conservador de sua época, por defender a propriedade
privada, a permanência dos capitalistas no poder e a necessidade da ordem
hierárquica das classes sociais para chegar ao progresso, conforme se
verifica nesta passagem de sua obra Reorganizar a Sociedade:

A única maneira de pôr termo a esta situação tempestuosa, de travar o


progresso da anarquia que invade diariamente a sociedade, enfim, e numa
só palavra, de reduzir a crise a um simples movimento moral, é a de
determinar as nações civilizadas a que deixem a direção crítica para
que tomem à direção orgânica, a que conduzam seus esforços para a
formação do novo sistema social [...]. (COMTE, 1993, p.30 – grifo nosso).

O pensamento comteano surge, portanto, da crise do antigo regime,


no advento da Revolução Industrial e no período pós-revolucionário.

2
O socialismo, enquanto teoria do operariado, revela a necessidade de transformações
econômicas e políticas. Ao despontar neste movimento de luta entre as classes, veio pregar
a igualdade social para os proletários.
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Seu país de origem, a França, juntamente com a Inglaterra,


constituem o centro desse processo revolucionário, por ser o palco dos
acontecimentos do século XVIII, cada um com suas características próprias.

Enquanto na Inglaterra se trata de legitimar o desenvolvimento material da


sociedade burguesa, que flui naturalmente, removendo, por si só, os
obstáculos que se interpõem no seu caminho e, por isso, o pensamento
liberal se preocupa apenas em adotar o homem egoísta de uma moral, no
sentido de afirmar a autonomia da sociedade civil, na França, a questão se
põe de forma diferente porque é o Estado, com todas as suas velhas
instituições feudais, que precisa ser removido para dar razão ao
desenvolvimento da natureza egoísta dos homens e das coisas. Foi preciso
uma unidade de espírito para o cumprimento dessa grande tarefa e o
espírito francês conseguiu, de um só golpe, realizar essa façanha que é
mudar a natureza das coisas (LEONEL, 1994, p.54).

Em relação à França do século XVIII, Leonel (1994) afirma que


coube a esta sociedade estabelecer uma nova organização política,
enquanto que aos “espíritos revolucionários” do século XIX coube
consolidar e conservar essas mesmas instituições. Dessa forma, a classe
burguesa de revolucionária no passado passa a ser conservadora, e a
classe operária, recolhendo a bandeira abandonada pela burguesia, surge
como a nova classe revolucionária. Temos, neste processo, a contradição,
que se encontra por toda parte e lugar:

Na verdade, depois do jacobinismo, o mundo já não era mais o mesmo; ou


seja, continuava o entusiasmo pela ciência que caracterizou o Iluminismo,
mas sem o seu entusiasmo político. O período da Restauração, que segue
após a queda de Napoleão até 1848, representa, com a volta dos antigos
poderes, uma reação à organização do Estado com base na soberania
popular. Existem agora duas formas de despotismo a serem combatidas: o
despotismo de um só e o despotismo da maioria, sendo o segundo mais
ameaçador que o primeiro. [...]. Se, na Revolução, a soberania popular
serviu para subverter a ordem, agora, o seu direito se restringe a manter a
ordem, submetendo a minoria revolucionária à vontade da maioria
conservadora (LEONEL, 1994, p.148-149).

Ou seja, no século XVIII o lema burguês de liberdade era indicativo


de que os homens nasciam naturalmente livres; a luta em nome da
igualdade revelava que as relações feudais impediam a igualdade entre os
homens; levantavam também o princípio da falta de tolerância, indicando
que o poder religioso e político impediam tal prática social. Assim, no século
XIX, o pensamento liberal é forçado a se rever exatamente pelo fato de que
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os princípios de liberdade e igualdade traziam novos problemas a serem


enfrentados pelo conjunto dos homens.
Em sintonia com este universo de preocupações, Comte colocou-se
na tarefa de auxiliar o conhecimento moderno, dando-lhe base científica.
Em sua formação intelectual, recebeu influências de pensadores que ainda
eram revolucionários no século XVIII, como Condorcet (1743-1784) e os
biólogos naturalistas Bichat (1771-1802) e Gall (1758-1828).
Além disso, foi discípulo de Saint-Simon, (1760-1825), do qual em
1817 Comte tornou-se secretário. A respeito de Saint-Simon, Comte declara
em carta de 1818:

Pela cooperação e amizade com um desses homens que vêem longe nos
domínios da filosofia política, aprendi uma multidão de coisas, que em vão
procuraria nos livros; e no meio ano durante o qual estive associado a ele
meu espírito fez maiores progressos do que faria em três anos, se eu
estivesse sozinho; o trabalho desses meses desenvolveu minha concepção
das ciências políticas e, indiretamente, tornou mais sólidas minhas idéias
sobre as demais ciências (COMTE, 1983, p.VIII).

Apesar da sublime participação de Saint-Simon na vida teórica de


Comte, houve um desentendimento entre ambos, devido ao conteúdo da
obra de Comte: Planos de Trabalhos Necessáriosà Reorganização da
Sociedade, da qual Saint-Simon discordava. O amor pela liberdade e o ódio
pelo velho regime era o que os unia.
Condorcet e Saint-Simon, preocupados em entender o
encaminhamento da sociedade, afirmavam que uma nova ordem social
surgia: “[...] que a indústria e a ciência substituiriam a guerra e a Teologia.
[...]”. Por isso, em breve “[...] não haveria mais padres, nobres ou soldados
dirigindo a sociedade [...]”; mas sim “[...] engenheiros, chefes industriais e
operários; associações para cultivar a terra, para fabricar, para estender ao
longe o comércio, para fazer surgir e manter os cientistas e artistas. Tudo
para a indústria, guiada pela ciência” (LONCHAMPT, 1959, p.24-25).
Dessas relações, Comte se apropriou do conhecimento científico
oferecido pela física e pela matemática para pensar o trajeto seguido para a
humanidade, pois a velha concepção de sociedade cedia lugar a outros
referenciais, entre as quais Comte advoga a favor das leis positivas.
No pensamento de Comte, a ciência vai desempenhar um papel
religioso e ordenador das questões sociais. Isso porque, para Comte a
ciência deveria assumir a autoridade religiosa que antes era assumida, de
fato, pela Igreja Católica. Para ele, só a Religião Positiva poderia por fim à
revolução. A ordem não é mais fruto do misticismo teológico mas da

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aplicação técnica das leis naturais, fundamentadas cientificamente, e que


governam a humanidade para a ordem e progresso das sociedades.
Na lógica da teoria de Comte, a filosofia positiva seria a estrutura
básica das diretrizes teóricas de onde se ergueriam os demais princípios
explicativos da sociedade. Seu pensamento desenvolve-se a partir da idéia
de ordem. Nas suas palavras: “O amor por princípio, a ordem por base e o
progresso por fim”, percebe-se que Comte associou uma teoria progressista
da história a um interesse prático pelos problemas de organização social e
política; e acalentou o ideal de aplicar o método científico ao estudo da
sociedade.
O resultado disso é a concepção de história que em suas obras
(Curso de filosofia positiva; Discurso preliminar sobre o conjunto do
positivismo e Catecismo positivista) transparece.
A teoria comteana restringe o conhecimento da sociedade aos
fenômenos e às relações comparativas entre fenômenos; enfim, não se
pode conhecer o que está para além do empírico, do experimental. Dessa
forma, o estudo histórico se restringe em descobrir as regras que governam
a sucessão e a coexistência dos fenômenos. Comte chamou de Física
Social a ciência que investigaria os fenômenos históricos e sociais.
Por meio do estudo fundamentado no método positivo, Comte,
preocupado em conhecer a evolução da sociedade, chega à “lei dos três
3
estados ”. Sua tese central é de que assim como o espírito humano passou
do estado teológico para o metafísico e desse para o científico, o
movimento progressivo da história vivida se deu na ordenação social, de
forma que a humanidade deveria passar invariavelmente de uma fase
histórica à outra. Ou seja, a marcha progressiva do espírito humano
consiste:

[...] na passagem necessária de toda concepção teórica por três estados


sucessivos: o primeiro, teológico, ou fictício; o segundo, metafísico, ou
abstrato; o terceiro, positivo, ou real. O primeiro é sempre provisório, o
segundo puramente transitório, e o terceiro o único definitivo. Este último

3
No Estado teológico ou fictício as explicações dos fenômenos da natureza são dadas através
das idéias, de deuses e divindades, desempenhando, assim, “um papel de coesão social,
fundamentando a vida moral”. No Estado metafísico ou abstrato os diferentes fenômenos são
observados através de um só princípio (Deus, Natureza etc.) cuja explicação consiste, então,
em determinar para cada um, uma entidade correspondente, algo superior ao controle do
homem. É função desse estado destruir a “idéia teológica de subordinação da natureza e do
homem ao sobrenatural”. E, por fim, no Estado positivo a filosofia positiva considera
impossível a redução dos fenômenos naturais a um só princípio. Este é o verdadeiro estado
definitivo da inteligência humana, a etapa mais correspondente ao século XIX onde a ciência
passa a dominar a vida industrial e determinar os comportamentos humanos.
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CARROSI e TOLEDO

difere, sobretudo, dos outros dois pela sua substituição característica do


relativo e absoluto, quando o estudo das leis toma, enfim, o lugar da
pesquisa das causas. Entre os dois primeiros não existe, no fundo, outra
diferença teórica a não ser a redução das divindades primitivas a simples
entidades. Mas semelhante transformação, tirando das ficções
sobrenaturais toda forte consciência, sobretudo social, e mesmo mental, a
metafísica permanece sempre puro dissolvente da teologia, sem nunca
poder organizar seu próprio domínio [...]. (COMTE, 1983, p.208).

Assim, para Comte (1989, p.145-146), o exame atento do passado


vai mostrar que na história da civilização a humanidade passou, como o
espírito humano, por três grandes épocas ou estados de civilização:

A primeira é a época teológica e militar. Nesse estado da sociedade, todas


as idéias teóricas, tanto gerais como particulares, são de ordem puramente
sobrenatural. [...]. Do mesmo modo, todas as relações sociais, quer
particulares, quer gerais, são franca e completamente militares. A
sociedade tem como objetivo de atividade, única e permanente, a
conquista. De indústria há apenas o indispensável para a existência da
espécie humana. A escravidão pura e simples dos produtores é a principal
instituição.

A segunda época, foi denominada de época metafísica e legista,


sendo caracterizada como um estado transitório, intermediário e bastardo.
Para ilustrar esta época, Comte (1989, p.146) analisa em que estágio a
sociedade se encontra:

[...] a sociedade não é mais francamente militar, nem é ainda francamente


industrial, quer nos seus elementos, quer no seu conjunto. A indústria é a
princípio cuidada e protegida como meio militar. Mais tarde, sua importância
aumenta, e a guerra acaba por ser concebida, por sua vez,
sistematicamente, como meio de favorecer a indústria, o que constitui o
último estado desse regime intermediário.

Após a segunda época, tem-se conseqüentemente a última época:


a científica e industrial. De acordo com a teoria positiva, as idéias teóricas
particulares quando chegarem neste estágio tornar-se-ão positivas, logo as
idéias gerais tendem também a se tornarem. É o que explica Comte (1989,
p.147):

No temporal, a indústria tornou-se preponderante. Todas as relações


particulares estabeleceram-se pouco a pouco em bases industriais. A
sociedade, tomada coletivamente, tende a organizar-se do mesmo modo,

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dando-se-lhe como objetivo de atividade, única e permanente, a produção.


Numa palavra. Esta última época já se realizou quanto aos elementos, e
está prestes a começar quanto ao conjunto. Seu ponto de partida direto
data da introdução das ciências positivas na Europa pelos árabes, e da
emancipação das comunas, isto é, por volta do século XI.

A mudança social processa-se dentro dessa ordem cronológica e


natural, condição indispensável para o progresso linear das sociedades.
Sendo assim, os acontecimentos ocorridos fora da ordem são uma
4
anomalia , podendo somente ser corrigida através da doutrina positiva. Idéia
esta, que colocou a teoria comteana em prática através da “Sociedade
Positiva de Paris” fundada em março de 1848.
O estudo da história só pode ser ciência porque tanto as ações
humanas individuais como as coletivas se subordinam às leis naturais
invariáveis. É preciso, então, para Comte, conceber os fenômenos sociais
como inevitavelmente submetidos a leis naturais que comportam,
regularmente, uma precisão racional que pode ser reconstruída com
objetividade pelo historiador.
Como a física social não tem o mesmo grau de perfeição dos ramos
da filosofia natural, é preciso estabelecer ao conjunto dos fenômenos
sociais uma coordenação sistemática de seus estados. Deve-se considerar
o estado estático e o estado dinâmico de cada fenômeno estudado, como a
teoria positiva da ordem e do progresso do organismo social. O estudo
desses estados seria de responsabilidade da Sociologia estática e da
Sociologia dinâmica, respectivamente.
Nessa perspectiva, entendemos que a história, na concepção
comteana, é importante para mostrar o processo evolutivo percorrido pela
humanidade e não estudar a sociedade em seus estados. No entanto, sem
negá-los, a história deve solicitar ajuda à sociologia, mas seus objetos não
se misturam; enfim, quem faz a anatomia social é a Sociologia e quem
explica a evolução cronológica é a História.
Dessa forma, na totalidade da obra de Comte existe a idéia de
harmonia científica, ou seja, todas as ciências criadas estão em sentido
único, qual seja: preservar a ordem e o progresso social, como se verifica
nesse excerto:

[...] A combinação dessas duas marchas é o único meio que permite reunir
as vantagens de ambas, neutralizando seus perigos. Subir do mundo ao
homem sem ter primeiro descido do homem ao mundo expõe a estender

4
Anomalidade social.
55
CARROSI e TOLEDO

demasiado os estudos inferiores, perdendo de vista o verdadeiro destino


teórico de tais estudos [...] (COMTE, 1983, p.212 – grifo nosso].

Sob estes princípios, o fundador do Positivismo acredita que o


progresso social é mero deslocamento, um mero aperfeiçoamento de
estruturas que são perenes e imutáveis. Neste quadro, a Sociologia foi
chamada para descobrir por quais leis a sociedade é governada, para assim
poder controlá-la. Para isso, é preciso que os homens fiquem à espera de
que a sociedade chegue ao estado positivo, pois nada podem fazer a não
ser aguardar seu desenvolvimento natural, respeitando sua ordem, seu
tempo, seus limites.
Nesse caminho, atribui à Moral, que para ele é considerada uma
ciência, a responsabilidade em se ocupar do conhecimento, do
amadurecimento e aperfeiçoamento da natureza humana para a aceitação
dos princípios naturais que a determinam.
Comte divide esta ciência em teórica e prática. A educação seria a
Moral política capaz de “adequar” o indivíduo à sociedade. Por isso, deve
ser universal, abrangendo todas as classes da sociedade e todos os ramos
do conhecimento humano.
Só a Moral, através da religião positiva, é que poderia superar a
anarquia moderna, fazendo sentir por toda parte que cada ação social,
individual, não comporta jamais outra recompensa senão a satisfação de
efetuá-la e o reconhecimento que proporciona diante do conjunto da
sociedade.
Uma vez alcançada esta unidade, o homem encontra-se com a
felicidade, pois estará passando por um verdadeiro aperfeiçoamento,
pessoal ou social. É certo que não existe uma única religião. Mas, segundo
Comte, somente o Positivismo poderia fugir a esta regra, tornando-se ao
mesmo tempo universal e definitiva.
De acordo com a teoria comteana, esta doutrina tornou-se positiva
graças ao conjunto de preparações espontâneas, ou seja, a união do
preparo físico com domínio da moral. Esta fusão da arte humana (corpo e
mente) com a ciência humana é de ordem natural e constitui-se como a
característica essencial do positivismo.
Nestes termos, a doutrina positiva é a única a conciliar radicalmente
a ordem com o progresso, estabelecendo, assim, a seguinte regra: O Amor
por princípio, a Ordem por base, e o Progresso por fim. Nessa máxima
positivista está clara a preponderância contínua do coração sobre o espírito.
Assim, para estabelecer o domínio natural da religião, para “[...] constituir
uma harmonia completa e duradoura, é preciso ligar o interior pelo amor e o
religar ao exterior pela fé [...]” (COMTE, 1983, p.141). E para executar tal
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ação, essas duas condições gerais da religião que são naturalmente


conexas: coração e o espírito, são primordiais.
Sob esses princípios emerge a lei moral do Positivismo: VIVER
PARA OUTREM, onde se condena a prática de caráter rígido e severo, uma
vez que estas ações diminuem as nossas forças, tornando-nos menos aptos
para o serviço de outrem. Nesse sentido, a verdadeira unidade moral, ou
seja, o progresso social, é uma dádiva apenas das raças sociáveis, pois é
característico principalmente da existência humana.
Considerando que toda doutrina religiosa repousa necessariamente
sobre uma explicação “qualquer” do mundo e do homem, a ordem universal
ao pretender dominar toda a existência humana se empenhou em descobrir
o “como” e nunca o “porquê” dos acontecimentos. Sobre esta questão,
Comte (1983, p.7) afirma que os acontecimentos apenas podem ser
constatados, e nunca explicados, afastando, assim, qualquer pesquisa
acerca das causas primeiras:

[...] Cada um sabe que, em nossas explicações positivas, até mesmo as


mais perfeitas, não temos de modo algum a pretensão de expor as causas
geradoras dos fenômenos, posto que nada mais faríamos então além de
recuar a dificuldade. Pretendemos somente analisar com exatidão as
circunstâncias de sua produção e vinculá-las umas às outras, mediante
relações normais de sucessão e similitude.

Assim, reafirma-se a idéia de que à história cabe apenas, no estudo


da evolução social, registrar a “sucessão” e a “similitude” dos fenômenos. E
auxiliar na conquista da harmonia social, reafirmando, juntamente com a
Sociologia, a importância da obediência civil para o desenvolvimento do
progresso social.
É desnecessário, portanto, indicar que a história ensinada,
principalmente nas séries iniciais do ensino fundamental, pauta-se
dominantemente, por esses pressupostos teórico-metológicos.

2 – DOS FUNDAMENTOS TEÓRICOS À HISTÓRIA ENSINADA: UMA


PRIMEIRA APROXIMAÇÃO

Considerando que uma reflexão que visa a superar o didatismo


(desvinculação da didática do conteúdo que é ensinado) ainda muito
presente nas discussões sobre o ensino de História e, mais do que isso,
superar a fragilidade analítica das relações sociais que se vive, não deve
jamais abrir mão do pensamento crítico, portanto histórico-dialético. Voltar à

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CARROSI e TOLEDO

unidade desse processo reflexivo é fundamental para explicitar porque o


positivismo ainda persiste nas práticas educativas e como se articula, clara
ou veladamente, com a história ensinada.
As teses de Comte nos permitem refletir sob dois aspectos a
influência de sua concepção de história no ensino. A primeira diz respeito
aos princípios teóricos da metodologia que a história, para Comte, deve
tomar para explicar os fatos. A segunda diz respeito aos fins histórico-
sociais a serem atingidos pela sua máxima: “o Amor por princípio, a Ordem
por base e o Progresso por fim”.
Quanto ao primeiro aspecto, pensamos ter sido significativa a
exposição das idéias de Comte feita anteriormente. Nas suas obras, o autor
restringe o domínio do conhecimento aos fenômenos e às comparações
entre fenômenos sociais; ou seja, não se pode conhecer o que está para
além da aparência, a tentativa desse exercício são pretensões sem
qualquer garantia de verdade. O método positivo de investigação da
realidade, em todas as esferas, deve ser o das ciências empíricas, cujo
único objetivo, na concepção de Comte, é descobrir as regras que
governam a evolução desses fenômenos.
Dessa tese inicial, conclui-se que a história vivida, que está
submetida às leis da natureza, se faz nesse contínuo progresso linear que a
evolução exige. Portanto, a história se confunde com a “marcha progressiva
do espírito humano”, ou seja, os atos humanos, individuais ou coletivos,
estão submetidos a uma lógica da natureza, invariável em seu destino, que
é previsível porque racional e certeiro. Isso significa que o que acontece e
vai acontecer na trajetória humana já está predeterminado. Assim, seguindo
a ordenação natural dos três estágios, o Brasil, por exemplo, passou da era
Colonial, para a Imperial e dessa para a era Republicana, num tempo
evolutivo e sem rupturas bruscas, de forma a obedecer à lei da natureza.
Para estudar a história vivida de forma científica, portanto, é
necessário reconhecer como radicalmente aplicável, pela sua natureza, a
quaisquer fenômenos, o estado estático e o estado dinâmico de cada objeto
de estudos positivos, considerando-os separadamente, mas sempre com
vista a uma exata coordenação sistemática.
Nessa perspectiva, o historiador busca os fenômenos responsáveis
pela ordem, entre as diversas condições de existência das sociedades
humanas; e vê, igualmente, que o estudo do progresso nada mais é que a
dinâmica (evolução) da vida coletiva. Sob esta perspectiva, chega-se ao
conhecimento da cronologia, que é provisoriamente destinada a ser
sucessiva.
Isso se traduz, por exemplo, em aulas nas quais o professor, junto
com o livro didático, apresenta a história como evolução da humanidade e,
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no desdobramento da temática, mostra o processo cronológico dos estágios


evolutivos (estado dinâmico) e sua ordenação natural (estado estático). É
isso que se verifica na História do Brasil, quando há uma explicação
naturalizada de que os primeiros habitantes deste país, bem como a
chegada dos portugueses em 1500, ocorreram pela força da natureza social
humana; ou seja, como estava na natureza da humanidade evoluir, do
estado teológico para o positivo, os europeus, por estarem na evolução para
o último estado, foram naturalmente impelidos a buscar os elementos que
pudessem dar continuidade ao desenvolvimento do comércio, como estava
previsto na natureza dessa prática social.
Explicada dessa forma, a história não se processa em movimento
contraditório e conflituoso pelo qual os homens em sociedade transformam
a natureza em condições que lhe são dadas, num tempo e espaço
determinados; mas subentende-se que a ocupação do Brasil estava traçada
5
no percurso da humanidade .
É, neste sentido que, desconectada do movimento histórico do qual
faz parte, a frase “certo dia” aparece com freqüência em textos didáticos,
como se os europeus aqui apareceram por um acaso, sem motivações
objetivadas pela necessidade que constrói. Simplesmente chegaram,
gostaram da flora e fauna e perceberam o quanto a terra era rica, e por isso
exploraram-na.
Essa história ensinada no ensino fundamental impulsiona uma
prática docente em que o objetivo maior deste ensino centra-se na
memorização de datas e nomes importantes. Assim, consta que em 22 de
abril de 1500 temos o “Descobrimento do Brasil” e devemos celebrar Pedro
Álvares Cabral porque foi ele quem “um dia” descobriu o Brasil para o
mundo, permitindo, assim, aos homens que aqui estavam, os índios,
“perdidos na mata”, sem tecnologia, sem contato como o mundo, conhecerem
a civilização, o estado superior da humanidade. É assim, que se atribui ao
personagem histórico a façanha, motivado pelo espírito positivo, de
impulsionar o desenvolvimento e o avanço natural da sociedade brasileira.
Nestes termos, as relações sociais não são abordadas como
objetivo produzido a partir da forma social de garantir a vida; as lutas que os
portugueses travaram com os índios ou não são mencionadas, e nesse
caso, a explicação é de que, de início, havia uma relação de amizade entre
os índios e os europeus, ou são vistas como um processo natural da
eliminação, pelo mais forte (civilizado) do mais fraco (nativo).

5
Para a explicação da origem do nativo brasileiro, o documento utilizado por este professor
citado foi a Revista Nova Escola, abr. 1999.
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CARROSI e TOLEDO

Nesta perspectiva positiva, no conjunto dos homens, eles são


abordados somente como peças da história, e mais, sua função é aguardar
as coisas acontecerem por si sós, pois nada podem fazer para mudar seu
“destino”. Ficando evidente, portanto, nos conteúdos escolares, a
necessidade de se elegerem heróis, atribuindo a essas divindades o mérito
do progresso da nação. Assim, é preciso expor os fatos em uma ordem
cronológica dos feitos históricos, que marcam o progresso, necessário para
a construção de uma memória nacional, capaz de cristalizar a história a
partir de figuras que, dominadas pelo espírito positivo, são incumbidas de
trazer melhorias para o povo, levando à ordem e a civilização.
Ao mesmo tempo, a história compreendida pela perspectiva
comteana, contém o princípio moral de um ensino voltado para “ordenar” a
sociedade que se faz em condições conflituosas. Cultivar e demonstrar o
amor à Pátria é objetivo central de um ensino sob esta perspectiva. Ensinar
a honrar a Pátria e a Humanidade, a importância do amor ao próximo, da
subordinação do espírito subjetivo e privado ao espírito objetivo e público,
do cumprimento do dever cívico, da ação cooperativa etc., é tarefa das
humanidades, principalmente da história, porque ela mostra que em
momentos de anomalia social nada mais é preciso para corrigir o caminho do
que a solidariedade e a submissão de todos aos sentimentos de altruísmo.
Ao atribuir ao ensino de história este caráter idílico, este ensino não
desenvolve a capacidade de raciocínio crítico, uma vez que não é abordado
o passado dos homens enquanto movimento histórico, mas como evolução,
ação esta que contribui para neutralizar a explicação das mudanças
ocorridas na forma de pensar, agir e viver que se processam a partir de
tendências e possibilidades de preservação, reformulação ou mudança
radical da estrutura organizativa das relações fundamentadas no trabalho. E
mais, essas possibilidades constituem um movimento que não é linear,
evolutivo ou progressivo, nem circular ou repetitivo, mas contraditório.

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