You are on page 1of 19

Pg.

2

Uma Fanfic de Tiago Cabral

CASTELO
RÁ-TIM-BUM
"Epílogo"

2013

Pg. 3

CABRAL, Tiago. "Castelo Rá-Tim-Bum Epílogo". Edição do Autor: Barra Mansa, RJ 2013. Este texto não possui fins comerciais, qualquer forma de comercialização do mesmo é expressamente proibida! "Castelo Rá-Tim-Bum" criado por Cao Hamburger e Flávio de Souza. Todos os direitos reservados. Imagem de capa obtida em: http://catracalivre.com.br/sp/muito-mais-saopaulo/gratis/avenida-paulista-vai-ganhar-umafloresta-viva-na-quarta-feira/ Montagem de capa, edição e diagramação: Tiago Cabral Tiago Cabral é psicólogo e escritor, autor do premiado conto "Um Sonho de Três Noites" publicado pela Editora Draco, e do livro SARLACK: O Grande Dragão Verde, além de ser colunista no blog RPG Vale e co-fundador da KBgames. CONTATO: Tiagocabralkb@gmail.com TWITTER: @Wordmen http://tiagocabral.net/

Acesse o site http://tiagocabral.net para ler mais histórias!

Pg. 4

Epílogo (do grego epílogos - conclusão, pelo latim epilogus) é uma parte de um texto, no final de uma obra literária ou dramática, que constitui a sua conclusão ou remate.1 É geralmente usada para dar a conhecer o desfecho dos acontecimentos relatados, o destino final das personagens da história ou, em dissertações, as ilações finais de um conjunto de ideias apresentadas ou defendidas.2 É o oposto do prólogo no discurso, podendo assumir a forma de um apêndice. - WIKIPÉDIA.

Pg. 5

São Paulo - 12 de Outubro de 2013 Espero que esta carta chegue até vocês. Eu realmente espero. A vida nos levou por caminhos diferentes. As pessoas mudam, crescem, mas algumas coisas da infância continuam guardadas nesse velho baú eterno que carregamos no peito chamado coração. Coisas que nunca serão arrancadas de lá por mais que a rotina do dia a dia, que adormece nossas almas, tente cobrir tudo com aquela poeira da maturidade que nos obriga a esquecer desses momentos mágicos que passamos juntos. Eu confesso que havia me esquecido do nosso pequeno segredo. A quem estou querendo enganar? Nunca foi segredo, pois ele sempre esteve lá para todo mundo pudesse que quisesse ver. Mas as pessoas apressadas, atarefadas, com seus corações adormecidos não param pra perceber o que as cerca. Por mais que passem praticamente a vida inteira caminhando pelas mesmas calçadas, indo aos mesmos lugares nunca prestam atenção no caminho. É preciso esse espírito de criança pra fazer esse coração dormente despertar novamente a imaginação, e foi justamente uma criança que me fez reviver essas lembranças. Era um dia como qualquer outro. Eu não sei pra onde a vida levou vocês, mas hoje em dia me formei em química e trabalho num laboratório aqui em São Paulo e também dou aulas. Além disso, modéstia a parte, sou casado com a mulher mais linda do mundo. Temos um filho, o Júnior. Ele está naquela idade da exploração, na idade da descoberta, a mesma idade que tínhamos. Vocês se lembram? A gente passava tardes e tardes descobrindo aonde as ruas do nosso bairro terminavam, o que havia atrás dos muros e sobretudo conhecendo lugares que nossos pais nos proibiam de ir. Eu tinha me esquecido, como isso pode acontecer? O espírito da descoberta abandonou meu coração e eu me confortei com a rotina, mas parece que o destino sempre prepara surpresas para nossas vidas. Naquela tarde eu tinha que levar o carro para o conserto, a minha sorte era que o mecânico era relativamente próximo a escola do Júnior. Ele é um garotinho curioso, extremamente questionador. Ele fez questão de ir até a oficina comigo para saber como eram consertados os carros. Eu gosto de incentivar isso nele porque eu também era assim, vocês sabem. Decidi então que depois da oficina a gente ia caminhar até a escola. Foi quando eu senti que aquela rua era familiar. Nós adultos prestamos muita atenção no fluxo de pessoas, no trânsito. Parece ser uma coisa condicionada. Júnior prestava atenção

Pg. 6

nos pássaros, nos pombos. Na forma como os fios estavam dispostos no poste. Até que houve uma hora em que eu parei. Ele começou a puxar o meu braço, dizendo que iríamos chegar atrasados, mas eu estava parado ali diante daqueles portões gradeados e um pouco enferrujados. As árvores do terreno projetavam uma sombra fresca sobre o passeio cheio de folhas mortas que o vento varria. E então eu voltei a ser criança de novo quando eu vi, de longe apenas, aquela escadaria. Olhei para cima e podia ver saltar sobre as copas das árvores a torre. — O que foi, papai? — Júnior perguntou observando o lugar. — Isso é um parque? A gente podia vir passear aqui uma hora. O que tem aqui? Percebi que estava sorrindo, peguei ele no colo. — Aqui, Júnior, tem um castelo, um castelo mágico! — Respondi. — É mesmo? No meio da cidade? E quem mora nele? — Um velho amigo do papai. — Nossa, pai, que legal! Você tem um amigo que tem um castelo! A gente pode vir aqui um dia? — Claro, Júnior. Agora vamos pra escola. No entanto, quando dei o primeiro passo, ainda sem desviar o olhar, como que movidos por uma magia os portões se abriram.

Pg. 7

1. Cruzar os portões daquele castelo era como atravessar um portal para um mundo mágico. Não se ouviam os sons da cidade, o clima era mais ameno, e um vento fresco vindo das árvores cansadas tocava a nossa pele. Cada detalhe, cada mínimo detalhe da arquitetura daquele lugar não havia sofrido nenhuma mudança. Eu percebia que Júnior estava surpreso com o fato de termos entrado, mas sua curiosidade era maior do que a surpresa. Eu não conseguia contar quantas vezes já havia atravessado aquele caminho com meus amigos, sempre pronto para descobrir coisas novas dentro daquele castelo mágico. Meus pés sentiram vontade de subir a escada correndo em direção aquela porta, como eu fazia como era pequeno, mas meu espírito maduro os conteve. Porém meu filho, parecendo ler a minha mente, subiu a escadaria correndo até chegar ao portal multicolorido começando a tatear os relevos da construção com admiração. Por fim puxou uma pequena corrente, que fez um monte de barulhos estranhos dentro da parede. — Hei, moleque, tire a mão daí. Bop! — disse um porteiro metálico adiantando-se para fora de uma portinhola ao lado da grande porta. Júnior tomou um susto. — Você está atrasado — disse ele olhando com seus redondos e grandes olhos de marionete para mim. — Atrasado? — Perguntei surpreso. — Sim, a-tra-sado. Bip! Bop! — Respondeu o porteiro girando a cabeça sobre seu próprio pescoço. — Você conhece ele pai? — Perguntou Júnior. — Sim, conheço, filho — respondi com um sorriso. — Ele é o porteiro do castelo. — Então, porteiro, deixa a gente entrar — pediu Júnior. — Não sem cumprir um desafio! — Respondeu o porteiro animado. — Eu quase tinha me esquecido disso — confessei. — Então diga, porteiro, já que somos esperados, qual a senha de hoje? — Hum —, começou o porteiro. — Vocês vão ter que fazer uma careta! Biprim! — Essa é fácil — disse Júnior mostrando os dentes e apertando os olhos. A porta se abriu e ele passou, porém quando fui fazer o mesmo ela se fechou na minha cara. — Hei! — Eu disse.

Pg. 8

— ... A careta! — O Júnior já fez a careta, porteiro. Me deixe entrar. — Ne-ga-tivo. — Meu filho já está lá dentro. Além do mais quantas vezes eu já entrei nesse castelo? Hein? Você me conhece desde pequeno. Não vamos nos ater a essas formalidades. O porteiro me lançou um olhar metalicamente reprovador. — Você mudou. Mesmo depois de tudo que viveu, você cresceu! — Disse o porteiro. — Sim, é o curso natural da vida. A gente cresce, fica mais alto, mais inteligente e ... — Eu não estou falando disso — disse o porteiro. — Do que então? — Sabe, bip-bip, meu dever é deixar que apenas pessoas que estejam preparadas para viver a magia deste castelo possam entrar. Prim! Aliás, se você tiver um coração já endurecido de um adulto talvez não seja nem capaz de ver o castelo, como acontece com a maioria. Bip-bop. — E o que "fazer uma careta" tem a ver com isso? Por que é tão importante? — Essa é a questão, trim — respondeu o porteiro. — Não é importante. Bipbop. Isso é, se você conhece a magia, e as coisas innnn-críveis que podem acontecer quando você simplesmente acredita nela, fazer uma careta para um porteiro mecânico não é algo tão importante, bip-bip, porque pessoas que sabem o que é realmente importante não ligam de parecer bobas. Bop? Você é que está se mostrando intolerante demais ao não querer fazer esta careta. Tuin? E pessoas intolerantes, bip, são incapazes de compreender a magia que reside nesse castelo. Bop! E logo não po-dem en-trar! Dim? Quando dei por mim já estava de boca aberta, língua pra fora, olhos retorcidas e cabeça para o lado. — Agora sim! Pift-Ploft-Istil a porta se abriu... Seja bem vindo de volta, Zequinha! BIP!

Pg. 9

2. O hall circular do castelo não havia mudado nada. Todos os estranhos objetos estavam lá na mesma posição que eu havia visto da última vez. Júnior estava parado todo encolhido diante de uma árvore de caule grosso que possuía um grande buraco no meio. — O que foi, filho? — Perguntei. — Pai, tem uma cobra rosa ali! — É apenas a Celeste, Júnior. Então ao ouvir isso a cobra se arrastou colocando sua cabeça para fora timidamente. — Esssse garoto me assssustou! — Disse a cobra. — Olá celeste, é apenas o meu filho Júnior! — Expliquei. — Eu te "conheçççço" de algum lugar — ela começou. — Não era tão alto, nem tinha essssa barba, nem tanto cabelo... — Sou eu, celeste. O Zeca! — Zequinha? — Sim! — Como você cresceu! — Disse a cobra. — Júnior, diga oi para a celeste! — Pedi. — Oi Celeste... — Disse Júnior. — Como você aprendeu a falar? — Eu ssempre soube! Já nasci com esse dom. — Legal! Esse castelo é muito legal! — Você ainda não viu nada! — Eu disse. — Celeste, aonde está o Nino? — Ele não está aqui. Essta viajando junto com a Morgana. Mas já estão voltando hoje messsmo! — Puxa, que pena. Queria muito que ele conhecesse o meu filho! — Acho que você precisaria conversar com o doutor Vítor primeiro! — Explicou a Cobra. — Por quê? A gente pode simplesmente voltar um dia em que ele esteja aqui. — É uma história complicada... — Disse a cobra com uma voz preocupada. — Mass, mostre o castelo ao seu menino! Vítor disse que queria mesmo falar com você. Ele deve estar chegando por aí. — Está bem, Celeste. Obrigado! E começamos a caminhar em direção a cozinha .

Pg. 10

— Quem é Vítor? — Perguntou Júnior. — "Doutor" Vítor. Ele é o dono do castelo. Ele é mago, cientista, inventor... Foi ele quem fez todas as "traquitanas" desse castelo. Júnior riu. — "Traquitana", essa palavra é engraçada, pai. — Sim, é o mesmo que bugiganga! Vamos tomar um copo de leite — Eu disse me sentindo em casa, e logo abri a geladeira colorida, assim como o resto da mobília da cozinha, e dentro dela havia muita comida gostosa, assim como sempre foi. Mas retirei penas a jarra de leite e servi dois copos. Ouvimos um barulho estranho. — Que barulho foi esse, pai? — Nesse castelo vivem muitas criaturas mágicas. Esse barulho pode ser o "mau" correndo pelos encanamentos do castelo, ou mesmo o ratinho. Mas acho que nós veríamos ele passando por aqui pilotando seu carrinho de controle remoto, quem sabe Tíbio e Perônio aprontando algum experimento em algum lugar... — Quero conhecer todos eles! — Você vai ter tempo pra isso, filho. Agora tome o seu leite. Tem um lugar que eu quero te mostrar. — É mesmo? Que lugar? — O quarto do Nino. Pelo menos na minha época era o quarto dos sonhos de todo menino. Então terminamos de tomar o nosso leite e seguimos para a velha passagem secreta ao lado da árvore da celeste, bem sob as escadas. — Bem, é aqui! — Eu disse. — Mas não tem uma porta nem nada do tipo — disse Júnior. — É uma passagem secreta! O quarto do Nino fica debaixo da escada! — Olha! Como o Harry Potter! Ele deve ser muito fã — disse Júnior. — Hehe, eu nunca tinha parado pra pensar nisso filho. Mas eu vinha aqui muito antes de existir a história do Harry Potter. — Como nós entramos? — Perguntou Júnior. — É só se sentar nesse banquinho... Eu puxar o braço desse soldadinho de chumbo — Eu disse me dando conta de quê aquele banco parecia muito menor do que eu me lembrava, tive que praticamente me deitar para poder passar para o outro lado.

Pg. 11

— Uau! — Disse Júnior observando o lugar escuro cheio de traquitanas que se moviam a todo tempo. As paredes eram estampadas com páginas de revistas em quadrinhos. — Quanta coisa legal! — Sim, filho. — Nunca vi nenhum destes brinquedos na loja! Os pais do Nino devem ser muito ricos! — Na verdade, eu acho que ele mesmo fez a maioria desses brinquedos. — Expliquei. — Os que não foram ele, certamente foram feitos pelo tio Vítor. Ele faz muitas coisas legais também. Sabe, a primeira vez que eu vim aqui o tio Vítor chegou voando num Chapéu-Helicóptero! — Que legal! — Disse Júnior. — Mas os pais do Nino não compram brinquedos pra ele? — Sabe, agora que você falou, filho, eu acho que nunca vi os pais dele. — Nossa! Por quê? — Júnior perguntou. — Tá aí uma coisa que eu nunca pensei... Lembro de alguém falar alguma coisa sobre uma viagem estelar ou coisa do tipo. — Eles são astronautas? — Não júnior. Eles são bruxos. A família do Nino é toda de bruxos! — Como o Harry Potter? — Sim, como o Harry Potter. — O Nino mora aqui com o tio Vítor e a tia Morgana, que na verdade, é a tia-avó dele. — Mas, pai, se o Nino ainda mora aqui isso significa que os pais dele ainda não voltaram, certo? — É verdade, filho. Estranho, não? Talvez o tempo passe diferente para os bruxos, afinal de contas o Nino tem 300 anos. Se eles ficarem uns 100 anos fora isso pode ser pra eles, quem sabe, como são 3 meses pra gente. Ouvi dizer que o tio Vítor tem mais de 3 mil anos e eu me lembro da festa que fizeram quando a tia Morgana fez 6! — Eles são realmente velhos, hein pai! — Disse Júnior sorrindo. — Um bocado! — Concordei. — O tio Vítor vivia se gabando de como conheceu Leonardo Da Vince e outros caras importantes do passado. — Impressionante! Mas eu fiquei curioso pra saber onde os pais do Nino estão. — Disse Júnior. — Sabe, eu também.

Pg. 12

Então saímos do quarto. Logo me adiantei para falar com a Celeste. — Oi Zequinha — Disse a cobra. — Seu filho está gostando do casstelo? — Hoje em dia é Zeca, Celeste. Sou grande demais pra ser chamado de "Zequinha" — Eu disse. — Pra mim sempre vai ser Zequinha. — De onde vem essa música? — Perguntou Júnior. — Ah, são os passarinhos músicos! Ah, também tem umas fadas por aqui — expliquei. — Mas celeste, onde estão os pais do Nino? Sabe, eu nunca tinha parado pra perguntar sobre a família dele. — O pai, a mãe e os dois irmãos do Nino partiram para uma viagem galáctica! — Respondeu a Cobra. — E quando voltam? Foi então que o relógio começou a tocar sinos e falar: — Está na hora do doutor Vítor chegar! — Disse o relógio. — O doutor Vítor está chegando, o doutor Vítor Chegou! Então as portas se abriram sozinhas e um homem de meia idade com bigodes enrolados usando uma cartola e carregando um grande guarda-chuvas se adiantou para dentro. — Pequeno Zequinha! — Ele disse. — Temos muito o que conversar!

Pg. 13

3. Tomávamos chá eu e o doutor Vítor enquanto isso Júnior degustava um delicioso copo de chocolate quente enquanto conversava com o gato da biblioteca. Aquele lugar já foi palco de muitas aventuras da minha infância, mas como tudo naquele castelo, parecia um pouco diferente e menor. Antes um mundo de descobertas, hoje apenas uma biblioteca cheia de livros velhos e bugigangas. Doutor Vitor se recostou na grande poltrona de couro fazendo com que ela rangesse e erguendo seu ereto dedo mindinho saboreou o chá quentinho. Imitei o gesto percebendo o gosto da erva-mate e os detalhes na xícara de porcelana que parecia ser cara e antiga. — Então, doutor — comecei quebrando o silêncio. Ele me olhava com aquele sorriso bobo de gente velha que sempre teve. Apesar de ter pousado a xícara na mesinha que havia ao lado da poltrona ele continuou com o dedo mindinho ereto ao lado do recipiente, meio que ensaiando o próximo gole. — Sabia que hoje eu sou um doutor também? Um doutor em química! — Que formidável — ele disse, e apanhou a xícara novamente. — Estou precisando mesmo de um bom alquimista para fazer umas pedras filosofais, doutor Zequinha. — Não — eu disse. Fiquei constrangido, havia me esquecido que os habitantes daquele castelo viviam num mundo diferente do meu. — Eu não sei fazer essas coisas, doutor Vítor. — Ora, que estranho — disse ele erguendo aquelas sobrancelhas pontiagudas —, achei que alquimia era um conhecimento básico de qualquer cientista. — Infelizmente não ensinam essas coisas aonde eu estudei, doutor — respondi. — Pedra filosofal? — Disse Júnior erguendo as orelhas. — O senhor disse pedra filosofal? Como aquela do Harry Potter? — "Arri" quem? — Perguntou o doutor Vítor. — Meu pai disse que o senhor é um bruxo, o senhor conhece o Harry Potter? — Perguntou o meu filho. — Me desculpe — interrompi. — Harry Potter é um personagem de um livro de ficção. Volte a brincar com o gato falante, Júnior.

Pg. 14

— Pota? — Perguntou o doutor Vítor ignorando completamente o que eu havia dito. — Por acaso ele é parente do grande Merlin? Eu conheci Merlin, sabia? — Merlin? Acho que não — respondeu Júnior pensativo. — Mas o diretor da escola de magia onde ele estuda faz parte da ordem de Merlin. — Filho — tentei novamente. — Não perturbe o doutor Vitor com essas histórias. O Harry Potter não existe, ele é como a fada sininho, do Peter Pan, por exemplo. Lembra? Peter Pan é apenas um desenho animado. É uma lenda, como o saci-pererê, o lobisomem e... — Quem disse que Peter Pan não existe? — Disse tio Vítor me interrompendo. — Pois eu já estive na terra do nunca e digo que o capitão gancho foi muito injustiçado na versão da história que contam por essas bandas. — Por "essas bandas" o senhor quer dizer o mundo real, certo? — Perguntei ao doutor Vítor. — Mas por que a terra do nunca não faria parte do mundo real? É uma parte mágica do mundo real. E se o senhor, doutor Zequinha, fizesse uma visita ao Sítio do Pica-Pau Amarelo certamente veria um saci. Aliás, o que reside lá é bem simpático, apesar de serelepe. Sabia que ele esvaziou os pneus do meu Cadillac na última vez que estive lá? — Disse o doutor gargalhando. — O senhor conhece o Harry Potter então? — Perguntou Júnior. — Infelizmente não. De onde é este Harry Potter? — De Hogwarts! — E onde fica isso? Nunca ouvi falar. — Na Inglaterra, eu acredito — respondi. — Ah, sim. Inglaterra. Definitivamente uma terra com muitos bruxos e um bocado de mágica! — Disse doutor Vitor com um ar de empolgação. — Infelizmente eu não conheço esse tal de Potter, mas eu já ouvi falar nesta ordem de Merlin. — Perai, o senhor está dizendo que o Harry Potter pode ser real? — Perguntei. — Não vejo por que não seria. — Respondeu o doutor Vítor tomando mais um gole de chá como se essa afirmação fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Para alguém que cresceu frequentando este castelo, doutor Zequinha, o senhor parece muito descrente. Afinal de contas, você está falando diretamente com um bruxo e cientista. Eu tive que engolir essa seco, mas ainda tive que escutar mais ao dizer:

Pg. 15

— Pra falar a verdade eu nunca entendi como pode alguém ser mago e cientista. — Ora, pois faz todo sentido, Zequinha — respondeu o doutor Vitor dando uma suave gargalhada. — A magia nos ajuda a acreditar naquilo que é impossível. Como um cientista irá descobrir algo que nunca foi pensado sem antes considerar o impossível, o inimaginável... O mágico? Um cientista que desconsidera o impossível nunca fará grandes inventos! Respirei fundo e recostei na cadeira. — Seu chá vai esfriar — disse o doutor Vitor. Então eu tomei mais um gole e refleti sobre tudo aquilo que ele havia dito. E acreditei novamente que coisas mágicas podem acontecer, que a vida é muito mais do que esse mundinho feito de rotinas e repetições em que os adultos vivem. — O senhor poderia aceitar um aprendiz de alquimia — eu disse empolgado. — Então talvez eu entenda mais sobre o mundo da magia! — Esse é o espírito! — Disse doutor Vítor batendo palmas. — Você poderia vir aqui ao castelo uma vez por semana, e eu lhe ensino algumas coisas sobre esta arte antiga! Mas esse convite que te fiz me faz lembrar do assunto pelo qual você está aqui hoje. — Quando entrei aqui achei que estava neste castelo por puro acaso — confessei. — Mas você sabe que nem mesmo a primeira vez que veio aqui foi por acaso — explicou o doutor Vitor. — É verdade, agora me lembro — eu disse. — Foi o Nino, ele enfeitiçou a minha bola e trouxe a gente pra cá. — Boa memória a sua. — Disse ele. — De fato parece que é muito mais fácil lembrar das coisas de quando a gente é criança do que das coisas de, sei lá, semana passada. — Isso é porque a mágica da infância é algo inesquecível — Explicou o doutor. — Gato, porque você não leva o filho do Zequinha para conhecer o observatório? Então o gato da biblioteca e Júnior saíram saltitantes pela porta. Observei a expressão do doutor Vitor, ele parecia agora um homem severo, prestes a falar de algo importante. Eu me lembro dele fazer essa cara quando a gente aprontava alguma coisa. Então ele fez barulho ao praticamente chupar o resto do chá que ainda havia na xícara ainda com aquele dedo mindinho erguido a repousou

Pg. 16

sobre a mesinha ao lado da poltrona. Em seguida apoiou o cotovelo nos joelhos e me olhando no fundo dos olhos começou a falar: — Eu preciso lhe pedir um grande favor Zequinha. — Não me chamam mais de... — Eu comecei, mas decidi definitivamente abandonar o adulto chato, professor de química que havia dentro de mim para poder escutar o que ele tinha a dizer. — Mas diga, tio Vítor, o que eu posso fazer pra ajudar o senhor? — É uma coisa muito importante para mim e para minha família. Mas primeiro preciso dizer que vocês e seus amigos continuarão para sempre sendo bem-vindos nesse castelo! Nós temos muito apreço por vocês! Mas eu imploro para que nunca mais converse com o meu sobrinho Nino. — Como assim? — Eu disse, estava chocado com o pedido. — Ele é meu amigo! Como pode pedir uma coisa tão absurda dessas? Por que não me chuta pra fora de uma vez e manda que eu nunca mais volte? É assim que seremos bem-vindos aqui? Eu percebi que estava fazendo pirraça como uma criança. — Entendo — disse o tio Vitor apanhando novamente a xícara, mas percebendo com tristeza que já havia bebido todo o seu conteúdo. — Você tem todo o direito de ficar bravo, Zequinha. Mas eu vou lhe contar uma história para que você entenda a natureza do meu pedido.

Pg. 17

4. O doutor Vítor estalou os dedos e a biblioteca ficou enevoada. Eu conhecia aquela magia, era um "flashback". — Eu já vi isso antes — eu disse. — Sim, vou lhe contar uma história, Zequinha. — Manda ver, tio Vitor! O homem limpou a garganta e começou: — Era uma vez um grande bruxa e cientista assim como eu, mas sua área de especialidade era a astronomia. Seu nome era Ninotchka Astrobaldo Stradivarius. Ela era minha irmã. Podíamos ver uma bruxa de longos cabelos usando um vestido muito preto que fazia com que sua pele parecesse ainda mais pálida. Ela olhava por um grande telescópio retorcido. — O maior sonho de minha irmã era fazer uma viagem espacial. Ela queria catalogar todos os cometas do sistema solar. Então a biblioteca foi invadida por centenas de cometas. — Nossa, isso ia demorar bastante, hein! — Comentei. — Ah sim. A previsão era que demorasse dez anos. Eles partiram em 1990, tinham a ideia de voltar em 2000. — Dez anos no espaço! Que interessante! — Sim, Zequinha. Eles tinham três filhos pequenos quando partiram. Nós bruxos quando chegamos a uma certa idade aprendemos com nossos mestres ou por conta própria a magia "para-tempo". Essa magia permite que o tempo passe a nossa volta, mas nunca dentro de nós. Esse é o motivo pelo qual, como você bem sabe, eu estou vivo há três mil anos. Somente um bruxo muito poderoso pode matar outro bruxo que use essa magia. Além disso somente quem fez este feitiço pode desfazê-lo. Eu fiz o "para-tempo" em mim mesmo, por isso somente eu posso desfazer quando me sentir entediado ou quando achar que cumpri o meu papel nesta terra. Um grande corpo humano com desenhos e palavras mágicas a sua volta ocupava toda a sala nesse momento. — Então — ele continuou — para que seus filhos não vivessem sua infância inteira no espaço, minha irmã Ninotchka conjurou o para-tempo nos meus três sobrinhos, e partiram para sua viagem. No entanto, algo terrível aconteceu. Uma grande falha no foguete mágico que eles tinham construído fez com que fossem

Pg. 18

atingidos por um cometa que perseguiam. Nós procuramos por vários meses por eles, e ainda procuramos até hoje, mas apenas um dos meus sobrinhos foi encontrado... Agora podíamos ver o grande foguete que parecia ser feito de peças de ferro velho se desintegrando em câmera lenta e voando para longe no espaço. Porém eu pude ver que um pequeno menino de cabelo tigelinha com um único fio que ficava em pé flutuava pelo espaço. — Nós nunca encontramos a nave... Mas encontramos o meu sobrinho: Antonino Stradivarius Victorius II. — Nino — eu disse ao ver o tio Vitor usando um capacete que mais parecia um aquário ligado num tubo carregando seu sobrinho no colo. — Sim, Zequinha, foi então que o Nino veio morar com a gente. — Ele disse se recostando na cadeira novamente. A névoa sumiu e a biblioteca do castelo voltou ao normal. — Que história triste, tio Vítor — eu disse. — Mas por que o Nino nunca contou isso pra gente? — Isso é porque ele não se lembra. — Explicou. — O Nino não sabe que sua família está perdida no espaço, e nem imagina que eles talvez nunca mais possam voltar... Ele também não sabe que nunca vai crescer. — Não vai crescer? Como assim? — Assim como o Peter Pan, ou da mesma forma como eu nunca vou envelhecer (mais do que isso)... A magia "para-tempo" nunca vai deixar que Nino se desenvolva e cresça. Talvez ele seja criança por milhares de anos, até seus pais voltarem. — Mas o senhor parece ser um bruxo tão poderoso. Não pode fazer essa magia desaparecer? — Infelizmente não, Zequinha. Como eu te disse, somente o bruxo que fez essa magia pode desfazê-la! Já tentamos de tudo para reverter isso, pode acreditar. — Disse o tio Vítor com tristeza. — Que chato! — Eu disse. — Mas não entendo, por que não quer que eu fale mais com o Nino? Pra não contar isso pra ele? Se era isso seria melhor não ter me contado, e eu poderia re-ver o meu amigo. — Não é que você não possa vê-lo, Zeca — começou o doutor —, é que, se ele souber que você cresceu isso pode ser um sofrimento muito grande, pois como você sabe ele começará a fazer mais e mais perguntas sobre o que aconteceu... Você quer mesmo que seu amigo passe por isso?

Pg. 19

— Não. Agora entendo porque me pediu isso — eu disse com tristeza. — Não posso nem ao menos vê-lo uma última vez? — Claro que pode, eventualmente irá cruzar com ele durante suas aulas de alquimia, além do mais ele irá entrar por essa porta... Agora. — Pai! — Berrou Júnior. — Olha, encontrei um garoto no castelo! Ele disse que eu posso vir aqui todo dia. Então ele entrou: usava as mesmas roupas cheias de estampas coloridas, o mesmo corte de cabelo e tinha um sorriso bobo estampado no rosto. — Olá! — Disse Nino. — Tio Vítor! Esse é meu novo amigo Júnior, ele pode vir aqui em casa brincar de vez em quando? ... Quem é esse cara cabeludo? — Esse, Nino, é meu novo aprendiz de alquimia José Carlos — disse o doutor Vítor colocando a mão sobre o meu ombro. — Ele também é o pai do Júnior! — Pai, deixa, deixa! — Disse Júnior. — Claro que você pode vir brincar com o Nino, mas hoje você ainda tem que ir pra escola, estamos mais que atrasados se lembra? — Puxa vida! Estamos mesmo! Então Nino e o doutor Vítor nos acompanharam até a entrada do castelo. Aquela entrada que sempre irá ficar guardada na minha memória como o portal mágico que me levou ao início de muitas aventuras. Nino tinha aquela expressão feliz e empolgada no rosto. Apertei a mão do doutor Vítor e quando percebi Nino estava me abraçando. Abracei de volta, foi um abraço demorado, cheio de lembranças. Meus olhos ficaram úmidos. Em seguida ele também abraçou o Júnior e olhou para mim novamente. — Você está chorando? — Perguntou. — Não, que isso, Nino. — Respondi. — Acho que entrou um pouco de poeira nos meus olhos. Um silêncio se fez. — Bom... — recomecei. Doutor Vítor me olhava agora com ternura. Desenhou um sorriso sob aquele bigode pontiagudo que o fez ficar ainda mais parecido com o Salvador Dalí. — Acho que agora o que resta é só dizer "tchau", não é? Foi então que Nino respondeu: — Tchau, não. Até amanhã!

Related Interests