Diocese de Campina Grande – PB Paróquia do Sagrado Coração de Jesus Comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

II Parte do Curso de Cura e Libertação

Fé Cristã e a Demonologia

Vitória de Jesus Cristo sobre o Demônio e a Morte!

2013

2 Fé Cristã e a Demonologia A Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, encomendou um especialista na preparação deste estudo, que é altamente recomendado como uma base segura para reafirmar o ensinamento do Magistério sobre o tema “Fé cristã e demonologia”.[*]. Ao longo dos séculos, a Igreja tem rejeitado as diversas formas de superstição, preocupação excessiva sobre Satanás e seus demônios, os diferentes tipos de culto e mórbido apego a esses espíritos[1], Seria muito injusto dizer que o cristianismo fez de Satanás, o argumento favorito de sua pregação, esquecendo-se o senhorio universal de Cristo e transformando a Boa Nova do Senhor ressuscitado em uma mensagem de terror. Como São João Crisóstomo declarou aos cristãos de Antioquia: “Não é para mim nenhum prazer de falar do diabo, mas a doutrina sugere que esta questão será para vós
* Ecclesia II (1975) 1057 (13) – 1065 (21) seitas satânicas e a fé cristã, Ediciones Palabra, Madrid (cf. L'Osservatore Romano, Edizione quotidiana, 26/06/1975, p 6-7. L'Osservatore Romano, hebdomadaire Édition en langue française, 04/07/1975). [1] A atitude firme da Igreja contra a superstição já tem uma explicação na severidade da lei de Moisés, embora isso não foi formalmente motivada por superstição conexão com os demônios. Assim, Ex 22, 17, condenado à morte, sem qualquer explicação, que praticava magia, Lv 19,26. 31, proibiu a magia, astrologia, necromancia e adivinhação, Lv 20,27, acrescentou a invocação do espíritos. Dt 8,10, condenou ambos os adivinhos, astrólogos, magos, feiticeiros, encantadores, invocadores de fantasmas e espíritos e que consultou os mortos. Na Europa durante a Alta Idade Média, ainda havia muitas superstições pagãs, como fica claro a partir dos discursos de S. Cesário de Arles e Santo Eloy, o “De correctione rusticorum” Martin de Braga, das superstições moldes contemporâneos (cf. PL 89,810-818) e os livros penitenciais. O Primeiro Concílio de Toledo (Denz-Sch., 205), e, em seguida de Braga (Denz-Sch., 459) astrologia condenado, assim como também o Papa São Leão Magno, em sua carta aos Toribio de Astorga (Denz-Sch ., 483). Regra IX do Concílio de Trento proíbe quiromancia, necromancia, etc. (Denz-Sch., 1859). A magia e feitiçaria sozinhas causaram muitas Bulas papais (de Inocêncio VIII, Leão X, Adriano VI, Gregório XV, Urbano VIII) e muitas decisões de Sínodos regionais. Sobre o magnetismo e o espiritismo tratara, acima de tudo, a carta do Santo Ofício da 04 de agosto de 1856 (Denz-Sch., 283-285).

3 muito útil”[2]. Na verdade, seria um erro fatal de se comportar como se não tivessem nada a ensinar as lições da história e consideram que o resgate teve e todos os seus efeitos sem a necessidade de se engajar na luta que se fala do Novo Testamento e os Mestres da vida espiritual. Um mal-estar atual Neste erro também pode-se cair hoje. De fato, são muitos que se perguntam se não seria o caso de reconsiderar a doutrina católica acerca deste ponto, começando pelas Escrituras. Alguns creem impossível tomar qualquer posição – como se pudesse deixar em suspenso este problema! – Notamos que os Livros Sagrados não permitem descartar a favor ou contra a existência de Satanás e seus demônios, com maior frequência tal existência é colocado abertamente em duvidas. Certos críticos, creem poder distinguir própria posição de Jesus, insinuam que nenhuma das suas palavras garantam a realidade do mundo dos demônios, mas a afirmação da existência dos mesmos, quando tal afirmação aparece, em vez reflete as ideias dos escritos judaicos ou dependem das tradições neotestamentárias e não de Cristo; e dado que esta afirmação não seria parte do centro de mensagens do Evangelho, não comprometeria hoje nossa fé e estaria livre para abandoná-las. Outros, mais objetivos, e ás vezes mais radicais, aceitar as afirmações da Sagrada Escritura em seu sentido mais óbvio, mas acrescentou que, no mundo atual não são aceitáveis, nem sequer para os cristãos. Por isto, também eles as eliminam. Para alguns, finalmente, a ideia de Satanás, seja qual for sua origem, não é mais importante e a tentativa de justificá-la não lograria senão perder crédito para nossos ensinamentos ou fazer sombra ao discurso acerca de Deus, que é o único que merece a nossa interesse. Note-se que para uns e outro os nomes de Satanás e do demônio são apenas personificações míticas e funcionais, cujo único significado é o de enfatizar dramaticamente o influxo do mal e do pecado sobre a humanidade. Um linguajar simples, portanto, que nossa época
[2] “De diabolo Tentatore”, Homil. II, 1; PG 49,257-258.

4 deveria decifrar com o fim de encontrar uma maneira diferente de inculcar nos cristãos o dever de lutar contra todas as forças do mal existente no mundo. Estas posturas, repetidas com grande alarde de erudição e difundidas por revistas e por certos dicionários de teologia, não pode perturbar os espíritos. Os fiéis estão acostumados a levar a sério as advertências de Cristo e os escritos apostólicos, têm a impressão de que essa forma de falar tende a mudar radicalmente, neste ponto, a opinião pública também aqueles que conhecem as ciências Bíblias e religiosas se pergunto o quão longe eles podem levar o processo desmitificação empreendido em nome de uma certa hermenêutica. Frente a tais postulados, e, a fim de responder aos mesmos, temos de nos deter, brevemente, antes de tudo, no Novo Testamento, para destacar o seu testemunho e autoridade. O Novo Testamento e seu contexto Antes de recordarmos a independência de espírito com que Jesus se comportou em todos os momentos a respeito das opiniões de seu tempo, é importante notar que nem todos os seus contemporâneos tinham, com relação dos anjos e demônios, a crença comum de que muitos parecem atribuir hoje e da qual o próprio Jesus dependeria. Uma indicação, com os Atos dos Apóstolos descreve a controvérsia provocada entre os membros do Sinédrio por uma declaração de São Paulo, nos fez saber, de fato, que os saduceus não admitir, contra a opinião dos fariseus, “nem ressurreição, nem anjo, nem espírito”, isto é, tal como interpretado pelos bons exegetas, não acreditava na ressurreição e, tão pouco nos anjos ou nos demônios [3]. Assim, no que se refere a Satanás, os demônios e anjos, a opinião dos
[3] Atos 23,8. No contexto da crença judaica em anjos e espíritos malignos, não há necessidade de recortar o termo “espírito”, sem especificação, o único significado dos espíritos dos mortos, isso também se aplica aos espíritos malignos, isto é, os demônios: esta é a opinião dos dois autores hebraico (GF Moore, “Judaísmo nos primeiros séculos da era cristã”, vol I, 1927, p 68, M. Simon, “Les sectes juives au temps de Jésus”, Paris, 1960, p, 25) e de um protestante (R. Meyer," TWNT "VII, página 54).

5 contemporâneos de Jesus parece dividida em duas concepções diametralmente opostas. Como pode então sustentar que, ao exercer e dar aos outros o poder de expulsar os demônios, Jesus – e a exemplo suja nos escritores do Novo Testamento – não fez outra coisa que adotar, sem qualquer esforço crítico, as ideias e práticas de seu tempo? Certamente, Cristo e como maior razão os apóstolos, pertenciam a sua época e compartilhavam a mesma cultura, mas Jesus, em virtude de sua natureza divina e da revelação de que tinha vindo para comunicar, transcendia seu ambiente e de seu tempo, escapava a sua pressão. A leitura do Sermão da Montanha basta para nos convencer de sua liberdade de espírito, enquanto o seu respeito pela tradição[4]. Portanto, quando Ele revelou o significado de sua redenção, era, evidentemente que ter em conta aos fariseus, aos quais, como ele e mesmo, acreditavam no mundo futuro, na alma, nos espíritos, na ressurreição, e não poderia esquecer os saduceus, que não suportam tais crenças. Assim, pois, quando os fariseus o acusaram de expulsar demônios com a ajuda do príncipe dos mesmos, ele poderia ter superado a dificuldade alinhando-se com os saduceus, mas fazendo isso haveria desmentido o que era a sua missão. Portanto, sem negar a crença nos espíritos e na ressurreição – que ele tinha em comum com os fariseus – devia tomar distância a respeito deles, opondo-se não menos oposição aos saduceus. Espera, pois, hoje que o dito por Jesus sobre Satanás simplesmente expressar a doutrina tirada do meio ambiente e que não tem importância para a fé universal, aparece em seguida como uma opinião embasada em uma informação incompletas sobre a época e a personalidade do Mestre. Se Jesus usou esta linguagem, e sobre tudo, se há pois em prática durante seu ministério, é porque expressa uma
[4] Quando Jesus diz: “Não penseis que vim destruir a lei e os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5,17), expressou claramente o seu respeito pelo passado, e os seguintes versos (19-20) confirmam esta impressão, mas a sua condenação do divórcio (Mt 5,31) da lei de talião (Mt 5,38), etc., sublinhar a sua independência total, mais do que o desejo de assumir o passado e completa. O mesmo, mais ainda, deve ser dito em sua condenação do apego exagerado fariseus a tradição da velha (Mt 7,1-22).

6 doutrina necessária – pelo menos em parte – para a noção e a realidade da salvação que Ele trouxe. O testemunho pessoal de Jesus Também as principais curas de possessos foram feitas por Cristo em momentos que são decisivos na narração do seu ministério. Seus exorcismos colocar e direcionar a questão de sua missão e de sua pessoa, como provam suficientemente as reações suscitadas[5].
[5] Mt. 8,28Ao chegar ao outro lado, ao país dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois endemoninhados, saindo dos túmulos. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. 29E eis que se puseram a gritar: “Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” 30Ora, a certa distância deles havia uma manada de porcos que estava pastando. 31Os demônios lhe imploravam, dizendo: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”. 32Jesus lhes disse: “Ide”. Eles, saindo, foram para os porcos e logo toda a manada se precipitou no mar, do alto de um precipício, e pereceu nas águas. 33Os que os apascentavam fugiram e, dirigindo-se à cidade, contaram tudo o que acontecera, inclusive o caso dos endemoninhados. 34 Diante disso, a cidade inteira saiu ao encontro de Jesus. Ao vê-lo, rogaramlhe que se retirasse do seu território. Mt 12, 22Então trouxeram-lhe um endemoninhado cego e mudo. E ele o curou, de modo que o mudo podia falar e ver. 23Toda a multidão ficou espantada e pôs-se a dizer: “Não será este o Filho de Davi?” 24Mas os fariseus, ouvindo isso, disseram: “Ele não expulsa demônios, senão por Beelzebu, príncipe dos demônios”. 25Conhecendo os seus pensamentos, Jesus lhes disse: “Todo reino dividido contra si mesmo acaba em ruína e nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma poderá subsistir. 26Ora, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, então, poderá subsistir seu reinado? 27Se eu expulso os demônios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes. 28 Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós. 29Ou como pode alguém entrar na casa de um homem forte e roubar os seus pertences, se primeiro não o amarrar? Só então poderá roubar a sua casa. 30 Quem não está a meu favor, está contra mim, e quem não ajunta comigo, dispersa. 31Por isso vos digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. 32Se alguém disser uma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado, mas se disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro.

7 Não se pode nunca colocar a Satanás no centro do seu Evangelho, Jesus falou que só em momentos evidentemente cruciais, e com declarações importantes. Em primeiro lugar começou seu ministério público, aceitando ser tentado pelo diabo no deserto: a narração de Marcos, precisamente por causa da sua sobriedade, é tão decisiva como a de Mateus e a de Lucas [6]. Ele advertiu no Sermão da Montanha e na oração os ensinou, o Pai Nosso, como admite hoje
As palavras manifestam o coração 33Ou declarais que a árvore é boa e o seu fruto é bom, ou declarais que a árvore é má e o seu fruto é mau. É pelo fruto que se conhece a árvore. 34Raça de víboras, como podeis falar coisas boas, se sois maus? Porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio. 35O homem bom, do seu bom tesouro tira coisas boas, mas o homem mau, do seu mau tesouro tira coisas más. 36Eu vos digo que de toda palavra inútil, que os homens disserem, darão contas no Dia do Julgamento. 37Pois por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado”. O sinal de Jonas 38Nisso, alguns escribas e fariseus tomaram a palavra dizendo: “Mestre, queremos ver um sinal feito por ti”. 39Ele replicou: “Uma geração má e adúltera” busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal do profeta Jonas. 40Pois, como Jonas esteve no ventre do monstro marinho três dias e três noites, assim ficará o Filho do Homem três dias e três noites no seio da terra. 41Os habitantes de Nínive se levantarão no Julgamento, juntamente com esta geração, e a condenarão, porque eles se converteram pela pregação de Jonas. Mas aqui está algo mais do que Jonas! 42A Rainha do Sul se levantará no Julgamento juntamente com esta geração e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Mas aqui está algo mais do que Salomão! Retorno ofensivo do espírito impuro 43Quando o espírito impuro sai do homem, perambula por lugares áridos, procurando repouso, mas não o encontra. 44Então diz: 'Voltarei para a minha casa, de onde saí'. Chegando lá, encontra-a desocupada, varrida e arrumada. 45Diante disso, vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, e vêm habitar aí. E, com isso, a condição final daquele homem torna-se pior do que antes. Eis o que vai acontecer a esta geração má”. Embora admitindo variações no significado atribuído por cada um dos Sinópticos aos exorcismos, reconhecer a sua ampla convergência. [6] Mc 1,12E logo o Espírito o impeliu para o deserto. 13E Ele esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás; e vivia entre as feras, e os anjos o serviam..

8 muitos exegetas[7], com base no testemunho de diversas liturgias[8]. Nas parábolas, Jesus atribuiu a Satanás os obstáculos que encontrava a sua pregação[9], como no caso do joio (cizania) semeado no campo do pai de família[10]. A Simão Pedro anunciou que “as portas do inferno” não prevaleceriam sobre a Igreja[11], que Satanás iria passar polo crivo como aos demais apóstolos [12]. Na hora de sair do Cenáculo, Cristo declarou como iminente a vinda do “príncipe deste mundo”[13]. No Getsêmani, quando foi preso pelos soldados, disse que havia chegado a hora do “poder das trevas” [14], mas Ele sabia e tinha declarado no Cenáculo, que “o príncipe deste mundo agora julgado”[15]. Esses fatos e as declarações – bem enquadrados, repetidos e concordantes – não são casuais nem podem ser tratados como dados fabuloso que há que desmitificar. Em caso contrário teria que admitir que naquelas horas crítica a consciência de Jesus, cuja lucidez e domínio de si mesmo são evidentes ante os juízes, foi uma presa de
[7] Mt. 5,37, 6,13, cf. Jean Carmignac, Recherches sur le “Notre Père”, Paris, 1969, páginas 305-319. Além disso, esta é a interpretação dos Padres gregos e de muitos ocidentais (Tertuliano, Santo Ambrósio, Casiano), mas S. Agostinho e o “Libera nos” da missa em latim voltada para interpretação impessoal. [8] E. Renaudot, “Liturgiarum Orientalium collectio”', 2 vols., “Ad locum Missae”, H. Denzinger, “Ritus Orientalium”, de 1961, 2 t. II, página 436. Esta interpretação parece ser também seguido por Paulo VI no discurso da audiência geral de 15 de Novembro de 1972, porque fala do mal como um princípio vivo e pessoal (L'Osservatore Romano, 16 de novembro de 1972). [9] Mt 13,19 [10] Mt 13,39. [11] Mt 16,19 assim compreendido por P. Joun, M. Lagrange, A. Médebielle, D. Buzy, M. Meinertz, W. Trillinng, J. Jeremias, etc. Não, se entende pois, por que hoje em dia alguns descuidam Mt 16,19, parar deter-se em 16,23. [12] Lc 22,31 Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; 32 eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos“.. [13] Jo 14,30. [14] Lc 22,53, cf. Lc 22,3; sugere, como tem sido reconhecido, que o evangelista impessoalmente entende esse “poder das trevas”. [15] Jo 16,11.

9 fantasmas ilusórios e que suas palavras carecia de toda firmeza; o qual em contraste com impressão dos primeiros que a ouviram e os dos leitores dos Evangelhos. É imperativo, portanto, uma conclusão: Satanás, a quem Jesus havia afrontado com seus exorcismos, que havia encontrado no deserto e paixão, não pode ser o mero produto da capacidade humana de inventar fábulas ou de personificar as ideias, nem tampouco um vestígio aberrante da linguagem cultural primitiva. É verdade que São Paulo, resumindo em grandes linhas, na Carta aos Romanos, a situação da humanidade antes de Cristo, personifica o pecado e a morte, mostrando seu temível poder, porém se trata, no conjunto de sua doutrina, de um momento que não é o efeito de uma pro recurso literário, mas de sua aguda consciência da importância da cruz de Jesus e da necessidade da opção de fé que Ele pede. Os escritos paulinos Além disso, Paulo não identifica o pecado com Satanás. Na verdade, ele vê o pecado, acima de tudo, de modo que o último é essencialmente: um ato pessoal dos homens, e também o estado de culpabilidade e de cegueira na qual Satanás trata efetivamente de colocá-los e mantê-los[16]. Desta maneira, Paulo distingue bem a Satanás do pecado. O Apóstolo, que enfrentam a “lei do pecado que sentem nos seus membros” confessa sua impotência sem a ajuda da graça[17], é o mesmo que, com grande determinação, convida resistir a Satanás[18], e não se deixar dominar por ele, e não lhe dar entrada [19], para esmagá-lo debaixo dos pés[20]. Porque Satanás é para ele uma entidade pessoal, “o deus deste mundo”[21], um adversário astuto, distinto por tanto de nós como do pecado que ele nos leva. Como no Evangelho, o apóstolo vê a Satanás ativo na história do
[16] Ef 2,1-2; 2Ts 2,11, 2Cor 4,4. [17] Gl 5,17; Rm 7,23-24. [18] Ef 6,11-16. [19] Ef 4,27; 1Cor 7,5. [20] Rm 16,20. [21] 2Cor 4,4.

10 mundo, isto é, no que ele chama de “o mistério da iniquidade” [22], na incredulidade que se recusa a reconhecer a glória de Cristo [23], na aberração da idolatria[24], na sedução que ameaça a fidelidade da Igreja a Cristo seu Esposo[25] e, finalmente, na prevaricação escatológica que conduz ao culto do homem, colocando-lhe no lugar de Deus[26]. Certamente, Satanás induz ao pecado, mas distingue-se do mal que fez cometer O Apocalipse e o Evangelho de São João O Apocalipse é, acima de tudo, o grande quadro em que o poder de Cristo ressuscitado resplandece nas testemunhas do seu Evangelho: proclamar o triunfo do Cordeiro imaculado, porém nós nos enganaríamos completamente a cerca da natureza desta vitória, se não se vir nela o final de uma longa luta na qual intervem, mediante os poderes humanos que se opõem a Jesus, Satanás e seus anjos, distintos uns dos outros, ademais dos agentes históricos. Na verdade, é o que Apocalipse, enfatizando o enigma dos vários nomes e símbolos de Satanás na Sagrada Escritura, revela definitivamente sua identidade[27]. Sua ação se desenrola ao longo todos os séculos da história humana sob os olhos de Deus. Não surpreende, portanto, que no Evangelho de João, Jesus fala do diabo e que o define “príncipe deste mundo”[28]: certamente, a sua ação sobre o homem é interior, porém é impossível ver em sua figura unicamente uma personificação do pecado e da tentação. Jesus reconhece que pecar significa ser “escravo”[29], porém não por ele
[22] 2Ts 2,6. [23] 2Cor 4,4, evocada por Paulo VI em seu discurso mencionado acima. [24] 1Cor 10,19-20; Rm 1,21-22. Esta é certamente a interpretação seguida pela Lumen Gentium, n. 16: “Mas, mais frequentemente os homens, enganados pelo Maligno, é difamado suas fantasias e trocaram a verdade de Deus em mentira, servindo a criatura em lugar do Criador”. [25] 2Cor 11,3. [26] 2Tes 2,3-4.9-11. [27] Ap 12, 9. [28] Jo 12,31; 14,30; 16,11. [29] Jo 8,34.

11 identifica com Satanás nem esta escravidão nem o pecado em que nela se manifesta. O diabo exerce sobre os pecadores somente um influxo moral, na medida em que cada um segue sua inspiração[30]: eles, livremente executar seus “desejos”[31] e fazer “sua abra”[32]. Somente neste sentido e, nessa medida Satanás é seu “pai” [33], porque entre ele e a consciência da pessoa humana é sempre a distância espiritual que separa a “mentira” diabólica do consentimento que ela pode dar ou negar[34], da mesma forma que entre Cristo e nós, existe sempre uma distancia entre a “verdade”, ele revela e propõe, e a fé que é acolhida. A Doutrina Geral dos Padres Por este motivo, os Padres da Igreja[*], convencidos através das Escrituras de que Satanás e seus demônios são os inimigos da Redenção, continuou a lembrar os fiéis da existência e ação desses. Desde o século II dC, Melito de Sardes tinha escrito uma obra “Sobre o demônio”[35] e seria difícil citar um único Padre que não falou sobre o assunto. Obviamente, quanto mais diligente para tornar clara a ação do diabo eram aqueles que ilustrou a divina na história,
[30] Jo 8,38.44. [31] Jo 8,44. [32] Jo 8,41. [33] Idem. [34] Jo 8,38.44. * Chamamos de “Padres da Igreja” ou (Patrística) aqueles grandes homens da Igreja, aproximadamente do século II ao século VII, que foram no Oriente e no Ocidente como que “Pais” da Igreja, no sentido de que foram eles que firmaram os conceitos da nossa fé, enfrentaram muitas heresias e, de certa forma foram responsáveis pelo que chamamos hoje de Tradição da Igreja; sem dúvida, são a sua fonte mais rica. Certa vez disse o Cardeal Henri de Lubac: “Todas as vezes que, no Ocidente tem florescido alguma renovação, tanto na ordem do pensamento como na ordem da vida – ambas estão sempre ligadas uma à outra – tal renovação tem surgido sob o signo dos Padres.” Fonte: <<http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/os_santos_padres.htm l>> [35] J. Quasten, “Initiation aux Peres de l'Églice” I, Paris, 1955, p. 279 (“Patrologia”, Volume I, p. 246).

12 especialmente Santo Irineu e Tertuliano, que enfrentaram sucessivamente o dualismo gnóstico, e Marcião, logo depois são Victorino de Pettau e, finalmente Santo Agostinho. Santo Irineu ensinou que o diabo é um “anjo apóstata” [36], que Cristo, recapitulando em si mesmo a guerra que este inimigo move contra nós, ele teve que enfrentar no início de seu ministério[37]. Com maior amplitude e vigor Santo Agostinho demostrou sua atividade na luta das “duas cidades”[*], que tem origem no céu, quando as primeiras criaturas de Deus, os anjos, se declaram fiéis ou infiéis ao seu Senhor[38], na sociedade dos pecadores que viu um “corpo” místico do diabo[39], do qual falou também mais tarde, em sua Obra Moralia in Job, São Gregório Magno[40]. Evidentemente, a maioria dos Padres, abandonando com Orígenes a ideia de pecado carnal dos anjos caídos, viram em seu orgulho – ou seja, no desejo de elevar-se acima de sua condição, de afirmar a sua independência, de fazer-se passar por Deus – o princípio de sua queda, mas, junto a esse orgulho, muitos sobressaíram também sua malícia a respeito dos homens. Segundo Santo Irineu, a apostasia do diabo começou quando ele ficou com ciúmes da criação do homem e tratou de fazê-los se rebelar contra o seu Criador[41]. Tertuliano julga
[36] S. Ireneo. Adversus (Contra) Hæreses libri V, Cap. XXIV – De diaboli perpetuo mendacio, potestatibus quibus nos parere oportet, atque imperiis terrenis, quatenus a Deo, nom autem a diabolo constituantur. 3, PG 7,1188A. [37] S. Ireneo. Adversus (Contra) Hæreses libri V, Cap. XXI – Caput omnium quæ pædicta sunt, Christus est; quem hominem assumere, a Patre universorum creatore mitti, et a Satana tentari oportuit, ut promissiones adimpleret, et gloriosum consummataque victoriam reportaret. 2, PG 7, 1179C, 1180A. * Santo Agostinho. De Civitate Dei contra Paganos libri XXII, PL 41. [38] Santo Agostinho. De Civitate Dei contra Paganos , Lib. XI, IX, PL 41, 323325. [39] Santo Agostinho. De Genesi ad Litteram Libri XII. Liber XI, caput XXIV – De corpore mystico diaboli intelligendum esse illud, Quomodo cecidit, etc., 31, PL 34, 441-442. [40] Gregório Magno. Moralium Libri, sive Expositio in Librum B. Job. PL 75 e 76, 694, 705, 722. [41] S. Ireneo. Adversus (Contra) Hæreses libre IV, prefácio. 3, PG 7, 975A. e libre IV, 3 PG 7, 1113B-1114.

13 que Satanás, para contrapor os planos do Senhor, plagiou nos mistérios pagãos os sacramentos instituídos por Cristo [42]. Vemos, então, que os ensinamentos patrísticos foram um eco substancialmente fiel da doutrina e orientação do Novo Testamento. O Magistério da Igreja O IV Concílio de Latrão (1215) e seu conteúdo demonológico É certo que nos vinte séculos de história o Magistério dedicou à demonologia só poucas declarações propriamente dogmáticas. A razão disso é que a oportunidade se apresentou raramente, em concreto, unicamente em duas circunstâncias a mais importante das quais se deu no início do século XIII, quando se manifesta um reavivamento do dualismo maniqueísta e priscilianistas com o aparecimento dos cátaros e albigenses, mas, em seguida, a declaração dogmática, formulada em um quadro doutrinária familiar, corresponde muito de perto à nossa sensibilidade, porque implica uma certa visão do universo e de sua criação por Deus: “Firmemente Cremos e simplesmente confessamos … um só princípio de todas as coisas, visíveis e invisíveis, espirituais e corporais, que por seu poder onipotente, que as fez desde o início dos tempos, criou do nada a umas e outras criaturas, as espirituais e as corporais isto é, as angélicas e as terrestres, e depois as humanas, como comum, composta de espírito e corpo. Porque o diabo e outros demônios, por Deus, certamente, foram criados bons por natureza; mas eles, por si mesmos se tornaram maus. O homem, porém, pecou por sugestão do diabo”[43].
[42] Tertuliano. De Præscriptionibus Adversus Hæreticos. Cap. XL – Fieri hæc autem diaboli instinctu, qui ipsa quoque res sacramentorum divinorum in idolorum mysteriis æmulatur; exempli gratia, qui quosdam tinguit, explanationem delictorum de lavacro repromittit, signat in frentibus, celebrat et panis oblationem. [54]. PL 2,65B, Libre De JeJuniis" cap. XVI.[977] PL 2, 1028B. [43] “credimur et simpliciter Firmiter confitemur ... universorum unum principium, et visibilium invisibilium criador omnium, spiritualium et corporalium, SUA qui simul virtute omnipotenti ab initio temporis condidit Utramque creaturam nihilo, spiritualem et corporalem, Angelicam, videlicet et mundanam, ac

14 O essencial desta exposição é sóbrio. Sobre o diabo e os demônios o Concílio se limita a afirmar que, sendo criaturas do único Deus, eles não são substancialmente maus, mas que se tornaram em tal seguindo o seu livre arbítrio. No se precisa nem o número, nem a culpa, nem a extensão de seu poder: estas questões que não tocam o problema teológico foi deixada para a livre discussão escolástica. No entanto, a declaração do Concílio, por breve que seja, é de suma importância porque é a emanação maior Concílio do século XIII, e é posta em evidencia na profissão de fé preparada por ele (o Concílio), a qual, vindo pouco depois das profissões de fé imposta ao cátaros e valdenses[44], as convicções evocadas contra priscilianistas alguns séculos antes[45]. O primeiro tema do Concílio: Deus, criador dos “seres visíveis e invisíveis” Esta profissão de fé merece, por conseguinte, ser tida em atenta consideração. Ela adota estrutura comum dos Símbolos dogmáticos e se encaixa perfeitamente na série deles, a partir do Concílio de Niceia. Segundo o texto citado, pode ser compreendida, deste ponto de vista, em dois temas unidos entre si e igualmente importantes para a fé: o enunciado que faz referencia ao diabo e no que devemos fixarmos mais de perto vem depois de uma declaração sobre Deus, o Criador de todas as coisas “visíveis e invisíveis”, ou seja, seres corpóreo e angelicais. Esta afirmação sobre o Criador e a mesma fórmula que expressa
Deinde communem humanam quasi ex Spiritu et corpore constitutam. Diabolus enim et alii Daemones a Deo quidem natura creatinina sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali. Suggestione diaboli Homo peccavit vero ... ” (C.OeD. = Conciliorum Oecumenicorum Decretos, editora ISR Bolonha, 1973, 3, p 230;.. Denz-Sch".. Symbolorum Enchiridion ", n 800). [44] A primeira, em ordem cronológica, é a profissão de fé do Concílio de Lyon (1179-1181), promunciadada por Valdes (ed. A. Dondaine", Arch Pe. Pr', 16 (1946), em seguida, Huesca Durando imposta antes do bispo de Tarragona em 1208 (PL 215, 1510-1513) e finalmente, Bernardo Primo em 1210 (PL 216, 289-292). Denz-Sch., 790-797 coleta desses documentos. [45] No Concílio de Braga (560-563), Portugal (Denz-Sch., 451-464).

15 tem singular importância para o nosso tema, já que ambas vêm da doutrina de São Paulo. Na verdade, para exaltar Jesus Cristo, o Apóstolo diz daquele que governa de todos os seres “celestes, terrestres e infernais”[46], tanto “no mundo atual como no futuro”[47]; falando em outra parte de sua preexistência, ensina que “nele foram criadas todas as coisas, as coisas no céu e na terra: tudo o visível e o invisível”[48]. Esta doutrina da Criação, logo adquiriu uma grande importância para a fé cristã, devido a que o Gnosticismo e Marcionismo, já antes do Maniqueísmo, trataram largamente de fazer vacilar. Os primeiros símbolos da fé especificam ordinariamente que os “seres visíveis e invisíveis”, todos eles “foram criados por Deus.” Esta doutrina afirmado pelo Concílio de nicenoconstantinopolitano[49] e mais tarde pelo Conselho de Toledo[50], foi utilizado para as profissões de fé eram lidos nas grandes Igrejas durante a celebração do batismo[51], veio a fazer parte da grande oração eucarística de São Tiago, em Jerusalém[52], de São Basílio, na Ásia Menor, em Alexandria[53] e em outras Igrejas Orientais[54]. Entre os Padres gregos aparece já em Santo Irineu[55] e a Exposição da fé de Atanásio[56]. No Ocidente, a encontramos em Gregório de Elvira[57],
[46] Fl 2,10 [47] Ef 1,21. [48] Cl 1,16. [49] “C. Oe. D.”, p. 5 e 24. Denz-Sch, 125-150. [50] Denz-Sch., 188. [51] Em Jerusalém (Denz-Sch., 41), Chipre (referido por Epifânio de Salamina:. Denz-Sch, 44), Alexandria (Denz-Sch., 46), Antioquia (ibid., 50) na Armênia (ibid., 48), etc. [52] “PE” (“Prex Eucharistica”, ed. Hänggl-Pahl, Fribourg, 1968), p. 244. [53] “PE”, p. 232 e 348. [54] “PE”, p. 327, 332 e 382. [55] S. Ireneo. Adversus (Contra) Hæreses libre II, XXX – Vesanam hæreticorum impietatem castigat, qui se spiritales, Demiurgum vero animalem esse dicebant. 6, PG 7, 818B. [56] S.P.N. Athanasii Archiepiscopi Alexandriæ. Expositio Fidei.[79-81] 1-4. PG 25, 199-207. [57] Santi Ambrósio. De Fide Orthodoxa contra Arianos Alias De Filii Divinitate ete Consubstantialitate Tractatus.[345] (PL 17, 579).

16 em Santo Agostinho[58], em São Fulgêncio[59], e assim por diante. Quando os cátaros, no Ocidente, como os bogomilos na Europa Oriental, restabeleceu o dualismo maniqueísta, a profissão de fé do IV Concílio de Latrão não poderia fazer melhor do que pegar essa declaração e sua fórmula, as quais adquiriu desde então importância definitiva. Foram repetidos de imediato nas profissões de fé do II Concílio de Lyon[60], Florença[61] e de Trento[62], para reaparecer finalmente na Constituição Dei Filius do Concílio Vaticano I[63], nos mesmos termos do IV Concílio de Latrão de 1215. Se trata, por conseguinte, de uma declaração primordial e consistente de fé, providencialmente sublinhada pelo IV Concílio de Latrão para ligar com ela o enunciado relativo a Satanás e aos demônios. Indicou assim que o caso destes, são importante por si só, se inserida no contexto mais amplo da doutrina sobre a criação universal e de fé nos seres angelicais. Segunda Tema do Concílio: o diabo 1. O texto Pelo que se refere a este enunciado demonológico, está muito longe de ser apresentado como algo novo ou adicionado circunstancialmente, como consequência doutrinal ou de uma
Febadio. De Fide Orthodoxa Contra Arianos, Alias De Filii Divinitate et Consubstantialitate, Tractatus. (PL, 20, 31A). e Libellus Fide (PL 20,49C) [58] S. Aurelii Augustini Hipponensis Episcopi. De Genesi ad iluminado imperfectus liber, Caput I, 1-2; PL 34, 221. [59] Santi Fulgentii Episcopi Ruspensis. De Fide, Seu de Regula Veræ Fidei, Ad Petrum, liber Unus, Cap. III[511] 25, PL 65,683A. [60] Esta profissão de fé, feita pelo imperador Miguel Paleólogo, preservado por Hardouini e Mansi nos Anais do Concílio, pode ser visto em Denz-Sch., 851. O C.Oe.D. “omitido Bologna sem indicar o motivo (do relator Concílio Vaticano Primeiro de Deputatio fidei”, no entanto, deu a entender oficialmente, Mansi, t. 52. 1113 B). [61] Sess. IX: «Bulla unionis Coptorum, C. Oe. D.», p. 571; Denz-Sch., 1333. [62] Denz-Sch., 1862 (faltando em 'C.Oe.D.). [63] Sess. III: 'Constitutio "Dei Filius", capítulo I: "C. Oe. D. ', p. 805-806; DenzSch, 3002.

17 dedução teológicas, pelo contrário, aparece como um ponto firme, adquirido desde muito tempo. Ele está a indicar a mesma formulação do texto. De fato, depois de haver afirmado a criação universal, o documento não passa aos diabos e demônios como conclusão logicamente deduzido: não escreve “Consequentemente Satanás e seus demônios são criados naturalmente bons” …, tal como tinha sido necessária se a declaração fosse nova e deduzido da anterior, pelo contrário, apresenta o caso de Satanás, como uma prova da afirmação acima como um argumento contra o dualismo. Escreve, com efeito: “Porque Satanás e os demônios foram de fato criados naturalmente bons ...”. Em resumo, o enunciado de que eles se refere e se apresenta como uma afirmação incontestável da consciência cristã: este é um ponto importante do documento e não poderia deixar de sê-lo, se se tem em conta as circunstâncias históricas. 2. A Preparação: as formulações positivas e negativas (séculos IV – V) Na verdade, já no século IV, a Igreja tinha tomado uma posição contra a tese maniqueísta dois princípios igualmente eternos e opostos[64], tanto no Oriente como no Ocidente, ensinou firmemente que Satanás e seus demônios foram criados e feitos naturalmente bons. “Deves crer, dizia São Gregório Nazianzeno ao neófito, que não existe uma essência do mal, nem um reino (do mal), sem princípio ou subsistente por si mesmo, ou criado por Deus”[65]. O diabo era considerado uma criatura de Deus, bom e luminosa num primeiro momento, que por desgraça não se manteve na
[64] Mani, fundador da seita, viveu no século III dC. A partir do século seguinte, se afirmou a resistência dos Padres ao maniqueísmo. Epifânio consagrou a esta heresia uma longa exposição, seguida de uma refutação ("Adv. Haer.", 66, PG 42, 29-172). Santo Atanásio fala dela ocasionalmente (“Oratório contra gentes”, 2, PG 25, 6C). São Basílio compôs um pequeno tratado “Quod Deus non sit auctor malorum”, PG 31, 330-354). Dídimo de Alexandria é o autor de “Contra Manicheos” (PG 39, 1085-1110). No Ocidente, Santo Agostinho, que em sua juventude tinha aceitado o maniqueísmo, após a conversão a combateu sistematicamente (cf. PL 42). [65] Sancti Patris Nostri Gregorii Nazianzeni. Oratio XL. In santum Baptisma.

18 verdade, em que havia sido feito (Jo 8,44), mas haviam se rebelado contra o Senhor[66]. O mal, portanto, não estava em sua natureza, mas em um ato livre e contingente [*] de sua vontade[67]. As declarações deste tipo – que podem ser lidas de forma equivalente em São Basílio[68], São Gregório de Nissa[69], São João Crisóstomo[70], Dídimo de Alexandria[71], no Oriente, e em Tertuliano[72], Eusébio de Vercelli[73],

XLV. PG 36, 423A. Texto: Crede, nullam mali essentiam esse, nec regnum, aut principii expers, aut a se ipso subsistens, aute a Deo creatum, sed nostrum opus hoc esse, et Pravi illius, malum ex incuria et socordia as nos irrepsissem, non autem a Creatore. [66] Os Padres interpretados nesse sentido Isaías 14,14Subirei acima das nuvens, tornar-me-ei semelhante ao Altíssimo.' 15E, contudo, foste precipitado ao Xeol, nas profundezas do abismo”., e Ezequiel 28,2Pois que o teu coração se exalta orgulhosamente e dizes: “Eu sou deus, ocupo um trono divino no coração do mar”. Apesar de seres homem e não Deus, alimentas, em teu coração, pretensões divinas., onde os profetas tentam desacreditar o orgulho dos reis pagãos da Babilônia e Tiro. * Contingente: [adjetivo de dois gêneros] que pode ocorrer ou não ocorrer; incerto; [Rubrica: filosofia. na escolástica], diz-se de qualquer ocorrência fortuita e casual quando considerada isoladamente, mas necessária e inevitável ao ser relacionada às causas que lhe deram origem; [67] “Não me diga que o mal sempre existiu no diabo, e no começo não era, é um acidente de seu ser, que veio depois” (São João Crisóstomo, Ad eos qui objiciunt, cur e medio siblatus non sit Diabolus, et quos hujus malitia nihil nos lædat, si attendamus, et de Poenitentia. Homilia. II – De diabolo Tentatore. 3, PG 49, 260). [68] São Basílio Magno. Quod Deus non sit autor malorum. 8, PG 31, 346CD. [69] São Gregório de Nissa. Oratio XXXVIII. In Theophania, sive Natalitia Salvatoris. IX. PG 36, 319C-322A; Oratio XLV. In sanctum Pascha, V. PG 36, 6230B. [70] São João Crisóstomo, Homiliæ XXI de Statui ad Populum Antiochenum Habitæ. Homilia. V. 5. (final do §) [67], PG 49, 76-77. [71] Didymi Contra Manichæos Liber. Cap. XVI. Genimina viperarum facti, qui posteri Abrahæ: interpretado neste sentido Jo 8,39-44 (“In veritate non stetit”), PG 39, 1105C, Didymi Alexandrini in Epistolam Beati Judæ Apostoli Enarratio (98). Vers 9. PG 39, 1814C-1815B. [72] Tertuliano. Quintus Septimus Florens Tertullianus. De Præscriptionibus

19 Santo Ambrósio[74], Santo Agostinho[75], no Ocidente – poderia assumir eventualmente uma firme formulação dogmática. Se encontram inclusas sob forma de condenação doutrinária ou também de profissão de fé. O De Trinitate, atribuída a Eusébio de Vercelli, o expressava firmemente em termos de anátemas sucessivos: “Se alguém crer que o anjo apóstata, na natureza em que tenha sido feito, não é obra de Deus, senão que existe por si mesmo, chagando inclusive a atribuir-lhe ele tem em si mesmo o próprio princípio, seja anátema[*]. Se alguém crer que o anjo de apóstata havia sido feito por Deus com uma natureza má e não disser que ele concebeu o mal, por sua própria vontade, seja anátema. Se alguém crer que o anjo de Satanás fez o mundo – longe de nós tal crença! – e não declara que todo pecado é sua invenção (de
Adversus Hæreticos. Adversus Marcionem Libri Quinque. Liber Secundus. Cap. X – Neque etiamsi in diabolum transcriberetur culpa, ut instinctorem delicti, propterea in Creatorem dirigendam, ut in autorem diaboli, utpote qui angelus a Deo et bonus factus sit, non diabolis, id est delator. [296] – [298]. PL 2,322D – 324B. [73] Ver o primeiro parágrafo seguindo os cânones da "Sobre a Trindade". Eusébio de Vercelli foi o primeiro bispo da antiga diocese de Vercelli e foi um dos principais expoentes da luta contra a difusão da heresia ariana, é venerado como santo pela Igreja Católica. [74] Santi Ambrósio. Apologia prophetæ David, ad Theodosium Augustum, Caput I, 4; PL, 14,894A. Santi Ambrósio. In Psalmum David CXVIII Expositio. Sermo Duodecimus Lamed. §10; [1117] PL 15,1363D. Edição 1845. [75] S. Aurelii Augustini Hipponensis Episcopi. De Genesi ad iluminado imperfectus liber, Liber Unidecimus. Caput XX – Opinio de diabolo creato in malitia. 27. Caput XXI – Refellitur hæc opinio. 28, PL 34, 439-440. * Anátema: [substantivo masculino] 1. Rubrica: religião. sentença de maldição que expulsa da igreja; excomunhão ; 2. reprovação enérgica; condenação, repreensão, maldição, execração ; [adjetivo e substantivo de dois gêneros] 3. que ou aquele que foi atingido por anátema; excomungado ; 4. que ou aquele que está à margem da sociedade; maldito, execrado.

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20 Satanás), seja anátema.”[76] Tal redação em forma de anátema não era então um caso único: se encontra já no Commonitorium, atribuído a Santo Agostinho e escrito com vistas à abjuração dos maniqueístas. Esta instrução considerado com anátema (maldito) a “aquele que crer que existem duas naturezas, que tem origens em dois princípios diferentes, o Bom que é Deus, o outro é Mal, não criados por Ele”[77]. Este ensinamento se expressa melhor, não obstante, sob a fórmula direta e positiva de uma declaração que há de crer. Santo Agostinho, no início de seu “De Genesi ad litteram”, dizia assim: “A doutrina católica obriga a crer que a Trindade é um só Deus que fez e criou todos os seres existentes em quanto existentes, de modo que toda criatura, seja intelectual, seja corporal, ou, para dizelo brevemente, nas palavras das divinas Escrituras, visíveis ou invisíveis, não pertence à natureza divina, mas que tem sido feito a partir do nada por Deus”[78].
[76] “Si quis confitetur angelum apostaticum in natura, qua factus est, non a Deo factum fuisse, sed ab se esse, ut de se illi principium habere adsignet, anathema sit. Si quis confitetur angelum apostaticum in mala natura a Deo factum fuisse et non dixerit eum per voluntatem suam malum concepisse, anathema illi. Si quis confitetur angelum Satanae mundum fecisse, quod absit, et non indicaverit (judicaverit) omne peccatum per ipsum adinventum fuisse”. De Trinitate, VI 17, 1-3, ed. V. Bulhart, “CC, SI.”, 9, pp. 89-90; Vigilii Tapsensis. De Trinitate. Libri Duodecim, Quos edidit sub nomine S. Athanasii, episcopi Alexandrini. Liber Sextus. De Beatitudine fidei, et de Proscriptione sectæ pessimæ. Identidem hic contra mortifera venea draconum et aspidum est nostra congressio. [259] PL 62, 280D-281A). [77] CSEL – Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum, VOL. XXV (SECT. VI PARS II) S. AVRELI AVGVSTINI CONTRA FELICEM. DE NATVRA BONI. EPISTVLA SECVNDINI. CONTRA SECVNDINVM., pp 977-982. Commonitorium vulgo Sancti Augustini Episcopi Ecclesiæ Catholicæ, Quomodo sit agendum cum Manichæis qui Convertuntur. PL 42, 1153-1156. [78] S. Aurelii Augustini Hipponensis Episcopi. De Genesi ad iluminado imperfectus liber, Liber Unidecimus. Tractatur initium Geneseos usque ad huncce versiculum 26: Faciamus hominem ad imagnem, etc. Caput Primum. 12, PL 34,221

21 Na Espanha, o primeiro Concílio de Toledo professava igualmente que Deus é o criador de “todos (os seres) visíveis e invisíveis” e que fora dEle “não existe natureza divina, anjo, espírito ou qualquer potência alguma que possa ser considerada por (como) Deus”[79]. Assim, a partir do século IV, a expressão da fé cristã – tinha ensinado e vivido – preservado neste ponto as duas formulações dogmáticas, positiva e negativa, que vamos encontrar oito séculos mais tarde, no tempo de Inocêncio III e do IV Concílio de Latrão. São Leão Magno Entretanto, estas expressões dogmático não caiu em desuso. De fato, no século V a Carta do Papa São Leão Magno a Toribio Bispo de Astorga, cuja autenticidade não deixa margem para dúvidas, fala no mesmo tom e com a mesma clareza. Entre os erros priscilianistas condenados por ele se encontra, com efeito, os seguintes: “A sexta anotação[80] aponta sua afirmação de que o diabo nunca foi bom e que sua natureza não é obra de Deus, senão que havia saído do Caos e das trevas: porque de fato não tem um autor para seu ser, senão que ele mesmo é o princípio e a substância de todo o mal, enquanto que a verdadeira fé, a fé católica professa que a substância de todas as criaturas espirituais e corporais, é boa e que o mal não é una natureza, desde o momento em que Deus, criador do universo, só fez o que é bom. Por isto mesmo o diabo seria bom se ele tivesse permanecido no estado em que havia sido feito. Por desgraça (infelizmente), como fez mal uso de sua natural excelência e não se manteve na verdade (Jo 8,44), não se tinha transformada (sem dúvida) em uma substância contrário, senão que se havia separado do Sumo Bem (Deus), ao que se teria de ter aderido ...”[81].
[79] Denz-Sch., 188. Compêndio dos Símbolos, Definições e Declarações de Fé e Moral. Heinrich Denzinger e Peter Hünermann [80] Ou seja, o sexto anotação do memorial dirigido ao papa pelo bispo de Astorga, seu interlocutor. [81] “Sexta annotatio indicat eos dicere quod diabolus numquam fuerit bonus, nee natura eius opificium Dei sit, sed eum. ex chao et tenebris emersisse: quia scilicet nullum sui habet auctorem sed omnis mali ipse sit principium atque

22 Esta declaração doutrinária (começando com as palavras “a verdadeira fé, a fé católica professada ...” até o final) foi considerado tão importante como para ser recolhido, nos mesmos termos, entre as adições feitas no século IV ao “Livro dos dogmas eclesiásticos”, atribuído a Genádio de Marselha[82]. Em fim, a mesma doutrina será sustentada, com tom magistral na “Regra de fé a Pedro”, obra de São Fulgêncio, donde se encontrará afirmada a necessidade de “manter principalmente”, de “manter firmemente” que tudo o que não é Deus é uma criatura de Deus, e este é o caso para todos os “seres visíveis e invisíveis”: “Que uma parte dos anjos se havia desviado e distanciado voluntariamente de seu Criador” e “que o mal não é uma natureza”[83]. Não é de admirar, então, que nesse contexto histórico, o
substantia: cum fides vera, quae est catholica, omnium creaturarum sive spiritualium, sive corporalium bonam confiteatur substantiam, et mali nullam esse naturam: quia Deus, qui universitatis est conditor nihil non bonum fecit. Unde et diabolus bonus esset, si in eo quod factus est permaneret. Sed quia naturali excellentia male usus est, et in veritate non stetit (Joan VII, 44), non in contrariam transit substantiam, sed a summo bono, qui debuit adhaerere, descivit...” (Epistola XV. Ad Turribium Asturicesem Episcopum. De Priscillianistarum erroribus. , cap. VI. Quod aiunt diabolum numquem suisse bonum, nec Dei opus esse, sed ex chao et tenebris emersisse . [700]. PL 54, 683B; cfr. Denz-Sch., 286; o texto crítico editado por V. Vollmann, O. S. B., tem somente variantes de pontuação). [82] Cap. IX: “Fides vera, quae est catholica, omnium creaturarum sive spiritualium, sive corporalium bonam confitetur substantiam, et mali nullam esse naturam: quia Deus, qui universitatis est conditor, nihil non bonum fecit. Unde et diabolus bonus esset, si in eo quod factus est permaneret. Sed quia natural excellentia male usus est, et in veritate non stetit, non in contrariam substantiam transiit, sed a summo bono, cui debuit adhaerere, discessit» («De ecclesiasticis dogmatibus», PL 58, 995C-D). Mas a recessão no início deste trabalho publicado como um apêndice para as obras de Santo Agostinho não tem esse capítulo (PL 42, 1213-1222). [83] Santi Fulgentii Episcopi Ruspensis. De Fide, Seu de Regula Veræ Fidei, Ad Petrum, liber Unus, PL 65, 671-706. “Principaliter tene” (III, 25, col. 683 A); “Firmissime tene...” (IV, 45, col. 694C). “Pars itaque angelorum quae a suo Creatore Deo, quo solo bono beata fuit, voluntaria prorsus aversione discessi...” (III, 31, col. 687A); “nullamque esse mali naturam” (XXI, 62, col. 699D-700A).

23 “Statuta Ecclesiae Antiqua” – uma coleção canônica do século V – Seja Introduzido no interrogatório destinado para examinar a fé dos candidatos ao episcopado, a seguinte pergunta: “Se o diabo é mau para a condição ou se foi feito como tal por livre arbítrio”[84], fórmula que voltará a ser encontrada nas profissões de fé impostas por Inocêncio III para os valdenses[85]. O primeiro Concílio de Braga (século VI) A doutrina era, portanto, comum e firme. Os numerosos documentos que a expressam, dos quais mencionamos os principais, constitui o fundo doutrinário dentro do qual sobrasai o primeiro Concílio de Braga, em meados do século VI. Nesta perspectiva, o capítulo 7 deste Sínodo não aparece como um texto isolado, mas como uma síntese dos ensinamentos dos séculos IV e V nesta matéria e, especialmente, a doutrina do Papa São Leão Magno: “Se alguém pretende que o diabo não havia sido antes um anjo (bom) feito por Deus e que sua natureza tem sido obra de Deus, mas que havia saído do caos e das trevas e que não existe um autor do seu ser, senão que ele mesmo é o princípio e a substância do mal, como dizem Mani e Prisciliano seja anátema”[86]. 3. O surgimento dos cátaros (XII e XIII) Também fazem parte da fé explícita da Igreja, desde muito tempo, a condição de criatura e o ato livre com que o diabo se havia pervertido. No IV Concílio de Latrão bastou introduzir estas declarações no Simbolo (Credo) sem necessidade de documentá-las, porque
[84] Conciliação Gallica (314-506), (CC, SL ', 148, ed Ch Munier, p 165, 25-26, também no apêndice do “Ordo”, XXXIV, in: M. Andrieu “Ordines Rommani”'t. III, Lovanii de 1951, página 616. [85] Innocentii III Romani Pontificis. Regestorum sive Epistolarum. Liber Sextus. CXCVI – Archrepiscopo et Suffraganeis Terragonesis Ecclesiæ. De negotio Durandi de Osca sociorum ejus. (Laterani, XV Kal. Januarrii). PL 215, 1512D, A. Dondaine, “Arch. Fr. Pr.”, 16 (1946), 232; Denz-Sch., 797. [86] Denz-Sch., 457. Compêndio dos Símbolos, Definições e Declarações de Fé e Moral. Heinrich Denzinger e Peter Hünermann

24 se tratava de fé claramente professadas. Tal inserção, que, do ponto de vista dogmático era possível já anteriormente, no qual então tornou-se necessária por causa da heresia dos cátaros que haviam adotado alguns dos antigos erros maniqueístas. Entre os séculos XII e XIII muitas profissões de fé rapidamente tiveram de insistir que Deus é criador de seres “visíveis e invisíveis”, que é o autor de ambos os Testamentos, e especificar que o diabo não era mau por natureza, mas como consequência uma eleição (escolha)[87]. As antigas posições dualistas, enquadradas em vasto movimentos doutrinais e espirituais, constituem então, no sul da França e norte da Itália, um dano real à fé. Na França, Ermengaudo de Béziers teve que escrever um tratado contra os hereges “que dizem e crer que o mundo presente e todos os seres visíveis não foram criados por Deus, mas pelo diabo” e que havia um Deus bom e onipotente um deus do mal, isto é, o diabo[88]. No norte da Itália, um dos cátaros convertidos Bonacursus, tinha dado o alarme, e também havia indicado com precisão as várias escolas da seita[89]. Pouco depois de sua intervenção, a Suma contra heréticos, atribuída por muito tempo a Prepostino de Cremona, escrever de forma mais clara o impacto da heresia dualista sobre o ensino da época, quando começa assim o tratado sobre os cátaros: “Deus Todo-Poderoso só criou os (seres) invisível e incorpóreo. No que se refere ao diabo, a quem este herege chamado deus das trevas, ele criou os (seres) visível e corporal. Depois de dizer isso o herege acrescenta que há dois princípios das coisas: o princípio do
[87] Cf. acima, n. 44. [88] Incipit Opusculum Ermengaudi Contra Hæreticos. Qui dicunt e credunt mundum istum et omnia visibilia non esse a Deo facta, sed a diabolo . Ermengaudus contra Waldenses. PL 204,1235-1272. Cf. E. Delaruelle, “Dict. Hist. et Geogr. Eclesiastes”, Vol. XV, 754-757 coleção. [89] PL 204, 775-792. O contexto histórico do norte da Itália, assim descreve o Pe. Ilarino da Milano, “Le eresie medioevali” (ss. XI-XV), no “Grande Antologia Filosófica” vol. IV, Milão, 1954, p. De 1599-1689. O trabalho de Bonacursus é estudado pelo mesmo Pe. Ilarino da Milano: “A heresis Catarum quam fecit manifestatio Bonacursus” “secondo il cod. Ottob. lat.” 136 della Biblioteca Vaticana, Aevum. 12 (1938), 281-333.

25 bem, ou seja, Deus Todo-Poderoso, e o princípio do mal, isto é, o diabo; acrescenta que existem duas naturezas: uma boa, dos (seres) incorpóreo, criado por Deus Todo-Poderoso, outra má, a dos (seres) corpóreos, criado pelo diabo. O herege que assim se expressa se chamava antigamente de maniqueísta, hoje Cátaros”[90]. Não obstante de sua brevidade, este resumo é significativo por sua densidade. Hoje, podemos concluir que, referindo-se a “O Livro dos dois princípios”, escrito por um dos teólogos cátaros pouco depois do IV Concílio de Latrão[91]. Adentrando-se nos particulares da argumentação e embasando-se nas Sagradas Escrituras, esta pequena suma dos militantes da seita que pretendia impugnar a doutrina do único Criador e fundamentar sobre os textos bíblicos a existência de dois princípios opostos[92]. Junto ao Deus bom – dizia – “devemos reconhecer necessariamente, a existência de um outro princípio, o do mal, que atua perniciosa contra o verdadeiro Deus e contra a criatura”[93]. Valor da decisão do Concílio de Latrão No início do século XIII estas declarações, longe de ser apenas teorias de intelectuais expert, correspondiam a um conjunto de crenças errôneas, vividas e difundidas por uma multidão de conventículos ramificados, organizado e ativo. A Igreja tinha o dever (a
[90] “Sed primo de fide. Contra quam proponit sententiam falsitatis et iniquitatis, dicens Deum omnipotentem sola invisibilia et incorporalia creasse; diabolum vero, quem deum tenebrarum appellat, dicit visibilia et corporalia creasse. Quibus predictis addit hereticus duo esse principia rerum: unum boni, scilicet Deum omnipotentem: alterum mali, scilicet diabolum. Addit etiam duas esse naturas: unam bonam, incorporalium, a Deo omnipotente creatam; alteram malam, corporalium, a diabolo creatam. Hereticus autem qui hoc dicit antiquus Manicheus, nunc vero Carharus appellatur” (Summa contra haereticos, cap. I, EDC. Josephi N. Garvin y James A. Corbett, University of Notre-Dame, 1958, p. 4). [91] Este tratado, que foi descoberto e editado pela primeira vez por Antoine Dondaine, OP, foi recentemente publicado em sua segunda edição: "Livre des deux principes. Introdução. Crítica Texte, traduction, notas et índice, por Christine Thouzallier, S. Chr, 198, Paris, 1973. [92] Loc. cit. n. 1, pp. 160-161. [93] Ib., n. 12, pp.190-191.

26 obrigação) de intervir repetindo energicamente declarações doutrinárias dos séculos anteriores. O que o papa Inocêncio III introduziu as duas afirmações dogmáticas, listados acima, na confissão de fé do IV Concílio Ecumênico de Latrão. Foi lida oficialmente aos bispos aprovada por eles: perguntados em voz alta: Crês nestas (verdades) ponto por ponto? Eles responderam com uma aclamação unânime: “Cremos!”[94]. Em seu conjunto, o documento conciliar é um documento de fé e, dada a sua natureza e formação, que é um Símbolo, cada ponto principal tem igualmente valor dogmático. Eles caem em um erro manifesto, se pretendesse cada parágrafo um símbolo de fé deva conter uma única declaração dogmática: isto significaria aplica a uma interpretação hermenêutica válida, por exemplo, no caso de um decreto do Concílio de Trento, onde cada capítulo normalmente ensinado dogmática uma questão: a necessidade de preparar uma justificação[95], a verdade da presença real de Cristo na Eucaristia[96], etc. O primeiro parágrafo do Latrão IV, no entanto, condensa em um número igual de linhas ao capítulo de Trento sobre o “dom da perseverança”[97], uma quantidade de declarações de fé, em grande parte já definidas, sobre a unidade de Deus, a Trindade e a igualdade das Pessoas (da Trindade), a
[94] “Dominus papa, summo mane missa celebrata et omnibus episcopis per sedes suas dispositis, in eminentiorem locum cum suis kardinalibus et ministris ascendens, santae Trinitatis fidem et singulis fidei artículos recitari facit. Quibus recitatis quesitum est ab universis alta voce: Creditis haec per omnia?' Responderunt omnes: ‘Credimus’. Postmodum damnati sunt omnes heretici et reprobate quorumdam sententiae, Joachim videlicet et Emelrici Parisiensis. Quibus recitantis iterum quasitum est: 'An reprobatis sententias Joachim et Emelrici?' At illi magis inalescebant clamando: 'Reprobamus' ('A new eyewitnes Account of the the Fourth Lateran Council, publicado por St. Kuttner y Antonio García y García, en «Traditio», 20 [1964], 115-128, especialmente páginas 127-128). [95] Sess. VI: “Decretum iustificatione, capítulo V”, C.Oe.D.', p. 672; Denz-Sch, 1525. [96] Sess. XIII, cap. I. C.Oe.D., p. 693; Denz-Sch, 1636-1637. [97] Sess. VI, cap. XIII, C. Oe.D., p. 676; Denz-Sch., 1541.

27 simplicidade de sua natureza, as “procedências”[*] do Filho e do Espírito Santo. O mesmo ocorre com a criação, especialmente nas duas passagens que se referem ao conjunto dos seres espirituais e corporais criados por Deus e com a criação do diabo e o seu pecado. Se tratava, como já vimos, outros tantos pontos que a partir dos séculos IV e V pertenciam a doutrina da Igreja, introduzido-os no próprio Símbolo (Credo), o Concílio não fez outra coisa que consagrar sua pertinência na norma universal da fé. Também a existência da realidade demoníaca e a afirmação de seu poder tem fundamento não só sobre estes documentos mas específicos, não obstante, adquirir uma outra expressão, mais geral e menos rígida, nos enunciados conciliares, quando descrevem a condição do homem sem Cristo. O ensino comum dos Papas e dos Concílios Em meados do século V, na véspera do Concílio de Calcedônia, o “Tomo” do Papa São Leão Magno a Flaviano precisou um dos efeitos da economia da salvação, evocando a vitória sobre a morte e sobre o diabo, que, segundo a Carta os Hebreus, a tinha sob seu domínio[98]. Mais tarde, quando o Concílio de Florença falou da Redenção a apresentou biblicamente como uma libertação do domínio do diabo[99]. O Concílio de Trento, resumindo a doutrina de São Paulo, declara que o homem pecador “está sob o poder do diabo e da morte”[100], salvando-nos: “Deus nos libertou do poder das trevas e nos transportou para reino do seu Filho amado, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados”[101]. Cometer pecado depois do
* Procede: Teologia. A emanação do Espírito Santo do Pai e, mais tarde, na Igreja do Ocidente, a partir do Filho: distinguida da geração do Filho e do esplendor do Pai. [98] Denz-Sch., 291, a fórmula será novamente tomada pelo sess. V, cap.I. Concílio de Trento (C. Oe.D., P 666; Denz-Sch, de 1511). [99] Sess. XI: “Sindicalismo Coptorum Bulla” (C.Oe.D. pp. 675-676.; Denz-Sch, 1347-1349. [100] Sess. VI, capítulo. I: C.Oe.D. p. 671; Denz-Sch, 1541. [101] Cl 1,13-14, citado no mesmo decreto, cap. III: C.Oe.D. p. 671; Denz-Sch, 1523.

28 batismo é “abandonar-se ao poder do diabo”[102]. Isto é, com efeito, a fé primitiva e universal da Igreja, atestada desde os primeiros séculos na liturgia da iniciação cristã, quando os catecúmenos, que se dispuseram para ser batizados, renunciavam a Satanás, professavam sua fé na Santíssima Trindade e se aderiam a Cristo, seu Salvador.[103] Por isso mesmo, o Concílio Vaticano II, que se interessou mais pelo presente da Igreja que na doutrina da criação, não deixou de alertar contra a atividade de Satanás e seus demônios. Como tinham feito os Concílios de Florença e de Trento, recordou novamente com o Apóstolo que Cristo nos “liberta do poder das trevas” [104], e resumindo as Escrituras, à maneira de São Paulo e do Apocalipse, da Constituição Gaudium et Spes, disse que a nossa história, a história universal, “é uma dura batalha contra o poder das trevas, que, iniciada nas origens do mundo e durará, como disse o Senhor, até o fim”[105]. Em outra parte, o Vaticano II renova a exortação da Carta aos Efésios para “vestir a armadura de Deus para permanecer firmes contra as astutas ciladas do diabo”[106]. Porque, como a Constituição Lumen Gentium recorda aos leigos, “devemos lutar contra os príncipes do deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos” [107]. Finalmente, não causam nenhuma surpresa comprovar que o mesmo Concílio, querendo apresentar a Igreja como o reino de Deus já começado, invoca os milagres de Jesus que, a este respeito, apela precisamente os seus exorcismos[108]. Efetivamente, nesta ocasião foi pronunciada por Jesus a famosa frase: “Sem dúvida, o reino de Deus
[102] Sess. XIV: “De poenitentia” cap. I. C.Oe.D. p. 703; Denz-Sch, 1668. [103] Este rito aparece já no século III na “Tradição Apostólica” (ed. B. Botte, cap. 21, páginas 46-51) e no século IV, na liturgia das “Constituições Apostolorum”, VII , 41, editada pelo F.X. Funk, “Didascalia et Constitutiones Apostolorum” t. I, 1905, p. 444-447). [104] Ad Gentes, nn. 3 e 14 (note a citação de Cl 1, 13 (e o conjunto da nota 19 do número 14). [105] Gaudium et Spes , n. 37, b. [106] Ef 6,11-12, citado pela Lumen Gentium, 43, d. [107] Ef., 6,12, citado também pela Lumen gentium, 35, um. [108] Lumen Gentium, 5, a.

29 é chegado a vós”[109]. O argumento litúrgico Quanto à liturgia, já evocada por sinal, traz um testemunho particular, é a expressão concreta da fé vivida, mas não devemos obrigá-la a responder a nossa curiosidade sobre a natureza dos demônios, suas categorias e os seus nomes. A liturgia é o conteúdo de insistir, de acordo com seu papel na existência dos demônios e na ameaça que representam para os cristãos, com base nos ensinamentos do Novo Testamento, a liturgia se faz diretamente eco deles, recordando que a vida dos batizados é um combate empreendido com a graça de Cristo e o poder do seu Espírito, contra o mundo, a carne e os seres demoníacos[110]. O significado dos novos rituais. No entanto, hoje em dia este argumento litúrgica deve ser utilizado com cautela. Por um lado, os rituais e Sacramentários Oriental, tendo-se reunido ao longo dos séculos menos exclusões que integrações, tem perigo de desviarmos, suas demonologias são exuberantes, por outro lado, os documentos litúrgicos latinos, apresentados muitas vezes ao lado da história, convidar, justamente por causa dessas mudanças, as conclusões igualmente cautelosas. Nosso antigo ritual de penitência pública expressa fortemente ação demoníaca sobre os pecadores: infelizmente, estes textos que sobreviveram até hoje no Pontifical Romano[111], há muito tempo que já não são utilizados. Antes de 1972, se podia citar também as
[109] Lc 11,20, cf. Mt 12,28. [110] C. Vagaggini, O.S.B., “Il senso teologico della liturgia. Saggio di teologia liturgica generale”, Roma, 1965, 4, cap. XIII, “Le due città, la liturgia e la lotta contro Satana”, páginas 346-427; Egon von Petersdorff, “De daemonibus in liturgia memoratis. Angelicum”, (1942), pp. 324-339; “Daemonologie”, I. “Daemonen in Weltlan”, II. “Daemonen am Werk”, Munich, 1956-1957. [111] Leia o “Ordo excomunicandi et absolvendi” e especialmente a longo admoestação “Quia N. diabolo suadente...”', “Pontificale Romanum”, segundo ed. Ratisbona, 1008, p. 392-398.

30 orações da recomendação da alma, que se recordava o horror do inferno e os últimos assalto do demônio[112], mas esses textos significativos desapareceram. Acima de tudo, em nossos dias, o característico ministério do exorcista, sem ser abolido radicalmente está reduzido a um serviço eventual, e na verdade só subsistem se o necessitam os bispos[113], sem que seja previsto nenhum rito para conferi-lo. Uma decisão deste tipo não significa, evidentemente, que o sacerdote já não tem o poder de exorcizar, ou não deve exercê-lo, mas isso requer uma constatação de que a Igreja, para não tornar este ministério uma função específica, não reconhece aos exorcismos a importância que teve nos primeiros séculos. Sem dúvida, este desenvolvimento deve ser considerada. No entanto, não devemos concluir de que houve um retrocesso ou uma revisão de fé no campo litúrgico. O Missal Romano de 1970 continua a refletir a crença existente na Igreja sobre a intervenção demoníaca. Hoje, como antes, a liturgia do primeiro domingo da Quaresma recorda aos fiéis como Jesus Cristo, nosso Senhor venceu o demônio: as três relatos sinóticas de sua tentação são dedicados a três ciclos A, B, C, leituras da Quaresma. O Proto-evangelho, com o anúncio da vitória da descendencia da mulher sobre a serpente (Gn 3,15) se lê no 10º Domingo do ano B e no sábado da 5º semana. A festa da Assunção de Nossa Senhora e o comum da Virgem apresenta
[112] Citamos a oração “Commendote” “Ignores omne, quod horret in tenebris, quod stridet in flammis, quod cruciat in tormentis, cedat tibi teterrimus satanás cum satellitibus suis...” [113] Ele é definido no n. IV do “motu proprio Ministeria quaedam”: “insteria in tota Ecclesia latina servanda, hodiernis necessitatibus accomodata, duo sunt, 'Lectoris' nempe et 'Acolythi'. Partes quae hucusque Subdiacono commissae erant, Lectori et Acolythae concreduntur, ac proinde in Ecclesia Latina ordo maior Subdiaconatus non amplius habetur. Nihil tamen obstat, quominus ex Conferentiae iudicio, Acolythu alicubi etiam Subdiaconus vocari possi” (AAS, 64[1972], página 532). Deste modo se suprime o exorcista e não está previsto que os relativos poderes podem ser exercidos pelo leitor ou pelo acólito. O “motu proprio”, declara somente (p. 531) que as Conferências Episcopais que podem solicitar para sua região os ministérios do “ostiário” do “Exorcista” e do “catequista”.

31 a leitura Apocalipse, 12,1-6, isto é, a ameaça do Dragão contra a Mulher dá à luz, (Mc 3,20-35), que descreve a discussão de Jesus com os fariseus sobre Belzebu, faz parte das leituras do 10º Domingo do ano B, já mencionado. A parábola do trigo e do joio (Mt 13, 23-43) aparece no 16º Domingo do ano A, e sua explicação (Mt 13, 36-43) se lê na terça-feira da 13ª semana. O anúncio da derrota do príncipe deste mundo (Jo 12,20-23) se lê no 5º Domingo da Quaresma do ano B e (Jo 14,30) é lido durante a semana. Entre os textos dos Apóstolos (Ef 2, 110 ) está designado para segunda-feira da 29ª semana (Ef 6, 10-20) aos comuns dos santos e santas e as quinta-feira da 13ª semana (Jo 3,7-10) se lê em 4 de janeiro, e a festa de São Marcos propõe na primeira leitura de São Pedro, que apresenta o diabo rondando em torno de sua presa para devorar. Estas citações, que para ser completas devem multiplicar-se, demostram que os textos bíblicos mais importantes sobre o diabo seguem fazendo parte da leitura oficial da Igreja. É verdade que o ritual da iniciação cristã dos adultos foi alterado neste ponto e não mais desafia (interpela) o diabo com apóstrofes imperativas, mas no mesmo sentido se dirige a Deus em forma de oração[114]. O tom é menos espetacular, porém não menos expressivo e eficaz. Portanto, é falso pretender afirmar que os exorcismos foram removidos do novo ritual do batismo. O erro é tão claro que o novo ritual do catecumenato é instruído, antes dos exorcismos, chamado de “Maiores” exorcismos “menores” são distribuídos ao longo de todo o catecumenato e que desconhecidos no passado[115]. Os exorcismos pois permanecem. Hoje, como antes, chamando a vitória sobre o “Satanás”, “o diabo”, “o príncipe deste mundo” e “o poder das trevas”, e os três “escrutínios” habituais, nos que, como antes, tem lugar exorcismos, possuem a mesma finalidade negativo e positivo de sempre: “A liberdade do pecado e do diabo” e, ao mesmo
[114] Ao passo a forma deprecativa (invocação) só foi realizado depois de “experiências”, seguidas por sua vez pela reflexão e discussão sobre o “Consilium”. [115] “Ordo Iniciação Cristã de Adultos”, ed. tip., Roma, 1972, nn. 101, 109-118, pp. 36-41.

32 tempo, “fortalecer em Cristo”[116]. A celebração do batismo infantil também mantém em última análise, um exorcismo [117], o qual não quer dizer que a Igreja considere essas crianças como outros tantos endemoninhado, mas que crer que também elas necessitam de todos os efeitos da Redenção de Cristo. De fato, antes do batismo, cada homem, criança ou adulto, tem o sinal do pecado e da ação de Satanás. Em quanto a liturgia da Penitência privada (auricular), fala hoje do diabo é menos do que antes, mas as celebrações penitenciais comunitária tem restaurado uma antiga oração, que lembra a influência de Satanás sobre os pecadores[118]. No Ritual da Unção dos Enfermos – como já foi referido – a oração da recomendação da alma não sublinha a presença de Satanás, porém no decorrer do rito da unção, o celebrante suplica que o doente “seja liberado do pecado e de tudo tentação”[119]. O santo óleo é considerado uma “proteção” de corpo e a alma e do espírito[120], e a oração Commendote, sem mencionar o inferno e o demônio, evoca, no entanto, indiretamente, a sua existência e ação, ao pedir a Cristo para salvar o moribundo e o contar no número de “suas” ovelhas e de “seus” escolhidos: evidentemente, esta linguagem quer evitar trauma para o enfermo e sua família, mas não se esqueça da fé no mistério do mal.

[116] Ibid. , n. 25, p. 13 e nn. 154-157, página 54. [117] Foi assim desde a primeira edição: “Ordo Baptismi parvolorum”, ed. tip. Roma, 1969, página 27, n. 49 e p. 85, n. 221, a única novidade consiste que este exorcismo é depreciativo, “Oratio exorcismi” e que a este se segue imediatamente o “unctio praebaptismalis” (ibid., n. 50), mas os dois ritos, exorcismo e unção, cada um tem a própria conclusão. [118] No novo “Ordo Paemtentiae”, ed. tip. Roma, 1974, nota, no Anexo II da oração “Deus conditor benignissime humani generis” (pp. 85-86), que, apesar de pequenos ajustes, é idêntico ao “Oratio reconciliationis poenitentium” da Quinta-feira Santa (“Pontificale Romanum”, Ratisbona, 1908, p. 350). [119] “Ordo unctionis pastoralis eorumque infirmorum curiae”, ed. tip. Roma, 1972, p. 33, número 73. [120] Ib., p. 34, n. 75.

33 Conclusão Em uma palavra, a atitude da Igreja em todo o referente à demonologia é clara e firme. É verdade que ao longo dos séculos a existência de Satanás e seus demônios nunca foi objeto de uma afirmação explícita de seu Magistério. A razão está em que a questão nunca foi levantada nestes termos: tanto os hereges e como os fiéis, baseou-se na Sagrada Escritura, estavam de concordo em reconhecer a sua existência e as suas principais perversidades. Por isso, hoje, quando se põe em duvidas a realidade demoníaca, é necessário fazer referencia – como tínhamos recordado há pouco – à fé constante e universal da Igreja e a sua fonte maior: o ensino de Cristo. Com efeito, a existência do mundo demoníaco se revela como um dado dogmático na doutrina do Evangelho e no coração da fé vivida. O mal-estar contemporâneo, que tínhamos denunciado o começo não põe, pois, em discussão um elemento secundário do pensamento cristão, senão que compromete a fé constante da Igreja, seu modo de conceber a Redenção e, no ponto de partida, a própria consciência de Jesus. Por isso Sua Santidade o Papa Paulo VI, falando recentemente desta terrível realidade misteriosa e terrível do mal, pode dizer com autoridade: “Se sai do quadro do ensino bíblico e eclesiástico quem se nega a reconhecer a sua existência; ou quem o torna um princípio que existe por si mesmo e não é como qualquer outra criatura, a sua origem em Deus, ou a explica como uma pseudo-realidade, una personificação conceitual e fantástica das causas desconhecidas das nossas desgraças”[121]. Nem os exegetas e teólogos deveriam esquecer esta advertência. Por isso repetimos que, também enfatizam hoje a existência da realidade demoníaca, a Igreja não se propõe nem retrocede às especulação dualista e maniqueísta de outros tempos, nem propõe um substituto aceitável para a razão. Só quer seguir sendo fiel ao
[121] “Pai nosso ... liberta do mal” Alocução na Audiência Geral de 15 de Novembro 1972 (Paulo VI, “Lições para o povo de Deus”, – 1972, p. 183188). O Santo Padre expressou a mesma preocupação), em sua homilia, que precede 29 de junho: “Sede fortes na fé” (L'Osservatore Romano, edição de 9 de Julho de 1972 páginas 1-2).

34 Evangelho e suas exigências. Está claro que jamais tem permitido ao homem descarregar-se de suas responsabilidades e atribuir as suas próprias culpas aos demônios. A Igreja não hesita em agir contra uma escapatória semelhante quando se manifestava, dizendo com São João Crisóstomo: “Não é o diabo, mas a própria negligência dos homens que causa todas as suas quedas e todos os males dos quais se lamentam”[122]. A este respeito, os ensinamentos cristãos, a sua coragem na defesa da liberdade e da grandeza do homem e em trazer ressaltar plenamente a onipotência e a bondade do Criador, não mostram nenhum afrouxamento. Esses ensinamentos foram condenados no passado e sempre condenam facilmente argumentar como pretexto incitação demoníaca; tem proscrito tanto a superstição com a magia; tem rechaçado toda capitulação doutrinária frente ao fatalismo e toda qualquer renúncia a liberdade frente ao esforço. E mais, quando se fala sobre uma possível intervenção diabólica, a Igreja deixa sempre espaço, como acontece com o milagre, uma exigência crítica. Nesta dita matéria exige reserva e prudência. Na verdade, é fácil de ser vítima da imaginação, deixar-se desviar por narrações inexatas, torpemente transmitidas ou abusivamente interpretadas. Nestes, como em outros casos, é necessário exercitar o discernimento e deixar espaço para a investigação e seus resultados. Não obstante isso, a Igreja, fiel ao exemplo de Cristo, crer que a exortação do apóstolo Pedro à “sobriedade” e à vigilância é sempre atual[123]. Certamente, em nossos dias convém defender de uma nova “embriaguez”. Porem o saber e a potência técnica também pode embriagar. Hoje em dia o homem se sente orgulhoso de suas descobertas, e, muitas vezes, de forma justa. Porem no nosso caso, está seguro de que suas análises tenha esclarecido todos os fenômenos característicos e reveladores da presença do demônio? Não há nada mais problemático neste ponto? A Análise hermenêutica e estudo dos Padres, teriam sanados as dificuldades de
[122] “De diabolo Tentatore” homilia. II, PG 49, 259. [123] 1Pd 5,8.

35 todos os textos? Nada é menos certo. Certamente, em outros tempos, havia alguma ingenuidade ao temer encontrar algum demônio em cada encruzilhada de nossos pensamentos. Porém, hoje seria igualmente ingênuo fingir que nossos métodos digam de imediato a última palavra sobre a profundidade da consciência, donde se interferem as relações misteriosas da alma e do corpo, do sobrenatural, do preternatural e do humano, da razão e da revelação? Porque estas questões têm sido sempre consideradas vastas e complexas. Em quanto a nossos métodos modernos, estes, como os dos antigos, tem limites que não podem traspassar. A modéstia, que se também uma qualidade da inteligência, deve conservar seus foros e manter-se na verdade. Porque esta virtude – mesmo tendo em conta o futuro, permite desde agora ao cristianismo deixar lugar para a aportação da Revelação, ou mais brevemente, a Fé. E a esta fé, na realidade, nos conduz de novo ao apóstolo São Pedro, quando nos convida a resistir, “fortes na fé”, ao demônio. A fé nos ensina, com efeito, que a realidade do mal “é um ser vivo, espiritual, pervertido e pervertedor”[124], e sabe também dar-nos confiança, fazendo-nos saber que o poder de Satanás não pode ultrapassar os limites que Deus lhe tem marcado, nos assegura igualmente que, embora o diabo ser capaz de tentar-nos, não pode arrancar o nosso consentimento. Sobre tudo, a fé abre o coração para a oração, na qual encontra sua vitória e sua coroação, fazendo triunfar sobre o mal através do poder de Deus. É certo que a realidade demoníaca, testificada concretamente por aquilo a que chamamos o mistério do mal, permanece todavia hoje como um enigma que envolve a vida cristã. Nós não sabemos muito melhor do que os apóstolos que o Senhor permite que ele, ou como ele a usa para seus desígnios, porém poderia suceder que, em nossa sociedade, cativa pelo horizontalismo secular as explosões inesperadas deste mistério oferecer um sentido menos refratário à competição. Estes obrigam ao homem a olhar mais longe, que impedem nosso caminhar, nos permite discernir a existência de uma
[124] Paulo VI, ibid.

36 vida após a morte para ser decifrada, e voltar-se para Cristo, para dele ouvir a Boa Nova da salvação oferecida como graça. Roma, 26 de junho de 1976

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