IV JORNADAS DEBATES ACTUALES DE LA TEORÍA POLÍTICA CONTEMPORÁNEA Facultad de Ciencias Sociales, Universidade de Buenos Aires Eje Temático: Formas

Políticas CIÊNCIA, POLÍTICA E CULTURA: O CONCEITO DE PLANEJAMENTO DEMOCRÁTICO EM KARL MANNHEIM Thiago Pereira da Silva Mazucato1 Resumo: Através da análise de quatro obras fundamentais de Karl Mannheim (Ideologia e Utopia; Sociologia da Cultura; Liberdade, Poder e Planificação Democrática; Sociologia Sistemática) demonstramos como o conceito de planejamento democrático pode ser considerado como uma síntese dinâmica entre as forças conservadoras e as forças progressistas (núcleo duro da perspectiva política da Terceira Posição proposta por Mannheim), cujos valores principais são a liberdade, a democracia e a tolerância, e que perpassam por três esferas fundamentais da vida social e econômica: a cultural, a científica e a política. Apresento inicialmente um panorama da trajetória intelectual de Karl Mannheim, incluindo aspectos históricos e biográficos e também um quadro sintético de toda a sua obra, o que permitirá situar tanto seus temas fundamentais como o recorte das obras selecionadas para o presente trabalho. Aponto também que durante este percurso teórico Mannheim trabalhará temas ligados a epistemologia e à sociologia do conhecimento, chegando a temas eminentemente vinculados à política e ao poder, momento em que partirá para a construção de sua teoria da Terceira Posição, com a qual Mannheim teve que lidar com duas tensões fundamentais: (i) entre as tendências de mudança e as tendências de preservação (já presentes em sua teoria política e em sua ontologia social do final da década de 1920, principalmente na obra Ideologia e Utopia, mas também em outras obras que, sempre que possível, também apontaremos durante o trabalho), que se originam em forças sociais e projetos políticos diferentes, e que precisam ser mediadas pela síntese dinâmica para a construção da “mudança com estabilidade” e (ii) entre cultura, ciência e política como esferas da existência humana, ancoradas nas dimensões econômica e social, e que proporcionam uma pluralidade de sentidos para a vida que precisa ser mediada pelo exercício da tolerância para garantir a “democracia cultural”. Desta forma fica evidente que o planejamento de mocrático se faz pela atuação do Estado tendo como métodos fundamentais a democracia cultural e a síntese dinâmica. Levantamos também a questão sobre democracia cultural e valores sociais, trabalhadas principalmente em Sociologia da Cultura, mas que Mannheim traça um paralelo das mesmas enquanto processos simultaneamente sociais e psíquicos em Sociologia Sistemática (este paralelo é de grande importância para que se compreenda aspectos fundamentais da teoria social e política de Mannheim). Por fim apresento como conclusão o diagnóstico que Mannheim faz da situação ao término da Segunda Guerra Mundial no qual existe uma “lacuna da racionalidade” (tema lapidado principalmente em Liberdade, Poder e Planificação Democrática) que é fruto de uma trajetória de mais de quatro séculos, desde a passagem da Tradição para a Modernidade e que, na primeira metade do século XX seria a grande responsável por gerar uma crise de sentidos que somente poderia ser resolvida através do Planejamento Democrático, uma solução mediadora entre os conflitos dos indivíduos com a sociedade, constituindo-se, para Mannheim, na única saída possível que consiga ao mesmo tempo evitar o liberalismo e o totalitarismo (frutos da irracionalidade do início do século XX que teriam gerado duas guerras e uma crise econômica com dimensões mundiais), e caminhar para a construção de uma sociedade democrática. Apontamentos sobre a trajetória intelectual de Karl Mannheim

Tendo nascido na Hungria em 1893, vivido na Alemanha por alguns anos e vindo a falecer na Inglaterra em 1947, Karl Mannheim viveu 54 anos que podem ser compreendidos não apenas pelos países em

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Formado em Psicanálise Clínica pelo Instituto Böechat de Educação (Brasil), Licenciado em Sociologia pelo Centro Universitário de Araras “Dr. Edmundo Ulson” (Brasil) e atualmente graduando de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar – Brasil). E-mail: t.mazuca@gmail.com

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que viveu, mas também pelos contextos políticos que presenciou e pelas disputas teóricas que a sua própria trajetória intelectual teve que perpassar, dentre estas últimas o próprio Mannheim (1967) menciona o positivismo, o neokantismo, o historicismo e o marxismo. A literatura especializada costuma dividir a trajetória intelectual de Mannheim em dois ou três períodos, de acordo com as finalidades da análise2. Para a nossa análise, utilizaremos uma síntese de ambas. Ao mesmo tempo que compreendemos a produção teórica de Mannheim como tendo caracteristicamente uma fase húngara, outra alemã e outra inglesa, também compreendemos que o ano de 1933 representa não somente o ano de seu segundo exílio, em que é obrigado a sair da Alemanha e ir para a Inglaterra como refugiado político do regime nazista, mas também marca um ponto de inflexão na teoria social e política de Mannheim de tal magnitude, que sua obra posterior pode ser considerada uma consequência e um diálogo com o período pós-1933, na tentativa de estabelecer um diagnóstico e orientar uma forma de intervenção racional na realidade. Pensar a produção teórica de um autor que nasceu no final do século XIX, viveu durante a Primeira Guerra Mundial, presenciou a revolução socialista e a contra-revolução conservadora na Hungria, foi exilado pela primeira vez para a Alemanha, tendo presenciado a crise econômica mundial de 1929 e a ascensão de regimes totalitários3 como o nazismo, o fascismo e o stalinismo, tendo sido exilado uma segunda vez, agora para a Inglaterra, de onde foi espectador da Segunda Guerra Mundial, já não seria um empreendimento simples. Se acrescentarmos a este quadro o leque de influências de pensadores com os quais Mannheim conviveu, como Georg Lukács, Georg Simmel, Max Weber, Alfred Weber, Theodor Adorno, Max Horkheimer, e as influências teóricas de Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Wilhelm Dilthey, Max Scheler e Sigmund Freud, teremos então um panorama ainda mais complexo. Contudo, optamos por seguir Remmling (1982) na sua classificação histórico-temática da obra de Mannheim em quatro momentos: (i) de 1918 a 1932 com temas da Filosofia (epistemologia) e Sociologia do Conhecimento, (ii) de 1933 a 1938 com o tema da Planificação, (iii) de 1939 a 1944 versando sobre Valores, Religião e Educação e (iv) de 1945 a 1947 com temas sobre Política e Poder. Assim, elencamos a seguir alguns breves apontamentos sobre a produção teórica de Mannheim em cada um dos momentos citados acima. No seu período inicial contamos já em 1918 com sua dissertação Alma e Cultura, fortemente influenciada pelas ideias de Georg Lukács. Sua temática ainda é puramente filosófica, versando sobre “Ser” e “Significado”. Em 1922 é publicado, já em alemão A análise estrutural da epistemologia4 e que aprofunda a discussão epistemológica de seu texto anterior. No ano seguinte Mannheim escreve Ensaio Sobre a Interpretação da Weltanschauung, o qual, ainda que seja um texto eminentemente de Filosofia, já possui as raízes da transição que Mannheim fará para a Teoria Social (Sociologia). No ano de 1924 Mannheim escreve seu primeiro texto sociológico, A gênese e a natureza do Historicismo, em que trabalha principalmente com a delimitação de um objeto para a sociologia do conhecimento e também esboça um método (Weller, 2002). Em 1925 Mannheim escreve O Problema da Sociologia do Conhecimento em que não apenas firma mais claramente o objeto como também fundamenta o
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Remmling (1982), Foracchi (1982), Rodrigues (2005), Cepêda (2012) Conceito utilizado primeiramente por Hannah Arendt (1989) em 1945, e que Mannheim (1972b) também o menciona nos textos de sua última safra. 4 Há uma edição em inglês inserida em Mannheim (1953).

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método da Sociologia do Conhecimento. Em seguida são publicados três trabalhos em que Mannheim aprofunda a aplicação do método da Sociologia do Conhecimento: O Pensamento Conservador e O Problema das Gerações, ambos de 1927, e A Competição como um Problema Cultural de 1928. Em 1929, mesmo ano em que Mannheim é nomeado professor de Sociologia e de Economia na Universidade de Frankfurt (instituição em que trabalhavam Adorno e Horkheimer), é publicada sua obra capital Ideologia e Utopia que é por muitos considerada a obra fundadora da Sociologia do Conhecimento, uma vez que nela já estariam bem delimitados o objeto, o método e a teoria desta nova especialidade da sociologia. Nos seus últimos meses na Alemanha, antes de ser exilado para a Inglaterra, Mannheim escreve em 1932 alguns trabalhos fundamentais que serão publicados postumamente: Ensaios de Sociologia da Cultura e As Tarefas Atuais da Sociologia: moldar o seu ensino . Suas preocupações com o clima de irracionalidade como elemento predominante nas mentalidades políticas já começa a surgir, mas será desenvolvido em textos produzidos na Inglaterra, a partir de 1933. Desta nova safra constam as obras de Mannheim que Remmling (1982) classifica como sendo dos três últimos blocos. Em 1934 Mannheim produz um texto cujo título é bastante significativo: Elementos Racionais e Irracionais na Sociedade Contemporânea . Após um longo período dedicado a aulas na London School, Mannheim publica duas obras que podem ser consideradas como exímios diagnósticos de conjuntura e de época: em 1940 é lançado Homem e Sociedade numa Era de Reconstrução e em 1943 publica Diagnóstico de Nosso Tempo. Em 1947, ano de seu falecimento, deixa pronto para publicação o livro Liberdade, Poder e Planificação Democrática. Muitos de seus textos e obras foram publicados postumamente, como é o caso de Ensaios Sobre a Sociologia do Conhecimento (1952), Ensaios sobre Sociologia e Psicologia Social (1953), Sociologia Sistemática (1957), Introdução à Sociologia da Educação (1962), Estruturas de Pensamento (1980).

Ontologia Social: ideologia e utopia como categorias de pensamento e de ação

Para compreender o conceito de planejamento democrático de Karl Mannheim precisamos, portanto, resgatar alguns elementos de sua trajetória intelectual, a começar por sua ontologia social. As discussões epistemológicas sobre a constituição de um objeto próprio para as ciências históricas e culturais, que vinham desde o século XIX na tradição de Dilthey e chegam ao começo do século XX com Max Weber, serão retomadas por Mannheim, que incluirá também em sua ontologia social vários elementos trazidos da tradição de pensamento de Karl Marx. Se Dilthey vinha por um lado tentando delimitar a natureza específica de objetos históricos e culturais, principalmente em contraste com a natureza dos objetos naturais já estabelecidos pelo positivismo, por outro lado Max Weber havia formalizado um método bastante sólido para a compreensão e explicação de tais objetos. Mannheim, ao resgatar estas duas tradições, acrescentará também a dimensão marxiana de luta de classes e da natureza do social como sendo propriamente uma dimensão de conflitos e contradições. Mannheim propõe-se fazer uma síntese das diversas tradições de pensamento existentes até então, dentre estas quatro são as principais: o positivismo, a filosofia analítica, o historicismo e o marxismo. Em

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relação às duas primeiras a ontologia social de Mannheim vai basicamente opor-se, e em relação às duas últimas vai sugerir um avanço teórico, sendo a sua própria posição considerada uma síntese desta constelação teórica. Tendo estas considerações em vista, é possível compreender a formulação mannheimiana de social como sendo uma dimensão existencial da vida, ou seja, material e simbólica, em que os indivíduos tecem relações de aproximação e de afastamento, as quais são cristalizadas em grupos e orientadas por mentalidades. Estes são os principais elementos constitutivos da ontologia social de Mannheim. Em relação aos grupos sociais Mannheim os compreende como a unidade básica da vida social. Um grupo social pode ser considerado como a forma mais elementar de vida social em que os indivíduos convivem por interesses e/ou comprometimentos. Com isto o significado de grupos sociais pode ser considerado mais amplo do que o de classes sociais, uma vez que na estratificação social de Mannheim os grupos podem se formar por diversos tipos de afinidades entre os atores que os compõem e não somente por afinidades no processo produtivo (econômicas). Com este conceito de grupos sociais é possível analisar a sociedade (ou os atores sociais) de acordo com uma quantidade maior de variáveis (econômicas, políticas, religiosas, de identidade, profissionais) mais adequadas ao contexto social existencial em que Mannheim estava vivendo e analisando. A limitação da categoria classe social era visível para Mannheim, uma vez que indivíduos que pertenciam a uma mesma classe, por exemplo, ao proletariado, poderiam pertencer a grupos sociais distintos e mesmo antagônicos quando a análise fosse realizada com outras variáveis, como por exemplo a orientação ideológica (por um viés mais político) ou a concepção de tempo (por um viés da filosofia da história ou da história cultural). O que Mannheim estava verificando empiricamente era a existência de uma sociedade muito mais estratificada do que a análise pela categoria classe social possibilitava. Contudo, esta constatação não o impedia de verificar também que, embora estratificado em uma quantidade de grupos sociais muito maior do que a quantidade de classes sociais, ainda assim a característica essencial da sociedade era ter a sua existência orientada por conflitos e contradições. Desta maneira Mannheim recupera os conceitos de conflito e contradição da teoria marxiana, uma vez que na sua ontologia social, os próprios grupos, ao se formarem por interesses ou compromissos, não existem de maneira supra-histórica, mas constituem-se tão somente num determinado contexto existencial, cuja materialidade é fundamental, uma vez que é justamente por conta da condição material da existência que os interesses e compromissos dos grupos sociais são situados na História, condição esta que faz com que, ao se constituir, cada grupo o faz em relação aos demais grupos (numa perspectiva sincrônica e diacrônica simultaneamente), o que implica que na gênese dos grupos sociais está já dada a sua natureza relacional. Até este ponto de sua ontologia social é possível perceber a gênese dos grupos sociais e sua natureza, mas ainda não está claro como Mannheim avança sua teoria da explicação da ontologia social para os processos sociais nos quais os próprios grupos sociais constituem a categoria analítica básica. Para Mannheim o fato de que na própria gênese dos grupos sociais já esteja dada a sua natureza relacional, implica que nos processos sociais nos quais os grupos situam-se historicamente, o aspecto relacional dos referidos grupos irá cristalizar-se sob duas perspectivas complementares: uma interna (o processo de identidade do grupo social) e outra externa (o processo de interação dos grupos sociais entre si).

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A constituição de um grupo social dá-se, como já foi dito anteriormente, pela aproximação de indivíduos por afinidades de interesses ou compromissos. Com isto, Mannheim pressupõe que indivíduos com um mesmo interesse ou um mesmo compromisso aproximam-se e as relações de identidade que os mesmos mantém é o que fundamenta e constitui o próprio grupo social. A este conjunto de afinidades por interesse ou compromisso de um determinado grupo social Mannheim denomina weltanschauung5 (visão de mundo). As visões de mundo (weltanschauung) possuem uma dupla característica: constituem a identidade de um grupo social específico, sendo portanto um elemento simbólico, mas, por outro lado, tal elemento identitário pressupõe, por sua vez, dada a sua própria natureza relacional, que cada grupo constitui sua identidade de acordo com outros grupos sociais ou ainda contra estes outros grupos sociais. Neste sentido já estamos falando dos processos sociais (dinâmicas sociais) relativas aos grupos sociais. Ao se constituir, ou seja, ao cristalizar uma weltanschauun própria, o grupo social o faz em relação aos demais grupos sociais, portanto, a perspectiva externa do caráter relacional dos grupos diz respeito à maneira como os mesmos comportam-se uns em relação aos outros. Mannheim identifica (como dissemos acima) duas formas básicas: ou um determinado grupo social age com os outros grupos, ou então ele age contra os mesmos. Metodologicamente pode-se dizer que Mannheim está constituindo uma tipologia de grupos sociais à maneira dos tipos ideais de Max Weber. A estes dois tipos ideais de weltanschauung dos grupos sociais Mannheim atribui a denominação de ideologias e de utopias. Conceituar estes dois tipos não é tarefa muito simples, uma vez que é preciso situálos como categorias analíticas dinâmicas e relacionais. Relacionais porque cada uma delas só existe em função da outra, o que significa que um determinado grupo só constitui sua identidade em relação aos demais grupos. Dinâmicas porque são categorias que só existem dentro dos processos sociais, e são, portanto, historicizadas e materializadas6. Aqui já se encontra presente uma tensão fundamental da teoria social de Mannheim, entre as tendências de mudança e as tendências de preservação, que vão se cristalizar nas weltanschauung dos diferentes grupos sociais. Tanto as ideologias quanto as utopias, enquanto categorias analíticas para se compreender a weltanschauung dos grupos sociais, podem ser conceituadas (no sentido de tipos ideais), ressaltando-se as características puras7 de cada uma delas. Vale ressaltar que Mannheim parte do pressuposto de que os grupos sociais estão inseridos em contextos existenciais, o que implica que os mesmos estejam inter-relacionados econômica, política, social e culturalmente, nos eixos sincrônico e diacrônico. Portanto, as relações existenciais dos grupos sociais não são harmônicas, sendo geralmente antagônicas ou ainda antitéticas, ou seja, o conflito de interesses e de compromissos é a tônica das relações entre os grupos sociais. Contudo, as disputas que os grupos sociais empreendem entre si não são apenas disputas teóricas (pela verdade) mas são também disputas práticas (pela legitimidade e pelo poder). Para Mannheim, desde a

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O conceito de weltanschauung pode ser aplicado tanto a um grupo social específico, como a uma determinada época histórica. 6 Vale ressaltar que a materialidade das categorias, de acordo com Mannheim, não significa a materialidade no sentido positivista, mas sim uma materialidade em função de sua existência estar condicionada a fatores materiais (trabalho, relações sociais, etc.). 7 Por característica pura Mannheim entende, juntamente com Max Weber, que são características isoladas e ressaltadas teoricamente, dificilmente encontradas na realidade em conformidade total com o conceito analítico.

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sua ontologia social dos anos 1920 até a sua teoria social dos anos 1930 e 1940, a dimensão ética é subjacente a todas as disputas dos grupos sociais, tanto teóricas quanto práticas8. Observados de acordo com a sua natureza e funcionamento, os grupos sociais cristalizam, assim, determinadas weltanschauung, de acordo com a sua posição de poder e legitimidade em relação aos demais grupos. Em determinado momento um grupo social pode possuir mais poder e legitimidade do que os demais. Tanto a visão de mundo deste grupo quanto a dos demais constitui-se concomitantemente (gênese), sendo que à weltanschauung dos grupos sociais que possuem poder e legitimidade Mannheim denominou de ideologia (uma vez que a mentalidade destes grupos cristaliza conceitos no sentido da manutenção do seu próprio poder e legitimidade) e aos demais grupos, que não possuem tanto poder político ou legitimidade social, Mannheim denomina a weltanschauung de cada um deles como utopia (um tipo de mentalidade que deseja modificar a realidade existente, ou seja, deseja retirar o poder e a legitimidade dos grupos sociais dominantes).

Crise de Sentido: Ciência, Política e Cultura

O contexto de formação intelectual de Karl Mannheim é bastante característico por uma série de disputas teóricas e politicas. Dentre as primeiras temos, ainda como fruto do cientificismo do século anterior, uma forte disputa entre Filosofia e Ciência, em que áreas como a Psicologia e a Sociologia estão constituindo-se e mantém, ambas, uma preocupação em comum de fundamentar as suas identidades científicas em oposição e contraste com a Filosofia, sendo esta uma das preocupações de Dilthey (2010), Durkheim (2007) e de Weber (2004a). Uma vez delimitada a diferença entre Filosofia e Ciência, e já estabelecida a própria Sociologia enquanto uma ciência com objetos e métodos específicos, a disputa teórica agora trava-se dentro da própria Sociologia, diferenciando a atividade sociológica científica da atividade política (Weber, 2004b). A produção teórica de Mannheim posiciona-se a meio caminho entre as disputas mencionadas acima. Por uma lado seus textos iniciais, de natureza epistemológica (Mannheim, 1953) lidam com a fronteira entre Filosofia e Ciência. Por outro lado, seus textos fundantes da Sociologia do Conhecimento (Mannheim, 1967, 1972a) lidam com as fronteiras entre Ciência e Política. Ao lidar com as tradições de pensamento de Karl Marx (teoria da ideologia, conflito e luta de classes), de Dilthey (gênese e natureza dos objetos históricos e culturais) e de Max Weber (tipos ideais, racionalização, burocratização), somados aos pensamentos de Friedrich Nietzsche, Georg Simmel, Alfred Weber e Sigmund Freud, e partindo da sua própria ontologia social, Mannheim avança o conceito de esferas da vida de Max Weber e concebe a realidade social como sendo basicamente uma realidade de conflitos teóricos e práticos, e que, justamente por sua natureza dinâmica, não permite a estabilização (teórica) por um longo tempo (no eixo diacrônico) e nem completamente hegemônica (num eixo sincrônico). A realidade

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Neste momento inicial de sua ontologia social a dimensão ética subjacente às disputas dos grupos sociais diz respeito basicamente ao reconhecimento da existência dos grupos adversários (o que, na ontologia social de Mannheim, um determinado grupo busca deslegitimar ou aniquilar nos demais grupos são as suas estruturas cognitivas ou ainda as suas visões de mundo, mas não os próprios grupos adversários. A tática de aniquilar os grupos adversários propriamente ditos virá á tona com o advento do nazismo, do fascismo e do stalinismo, e entrará na filosofia política e na teoria política de Mannheim da segunda metade dos anos 1930 até seu falecimento em 1947).

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social de Karl Mannheim poderia ser descrita como sendo caracterizada por uma crise de sentidos (Berger & Luckmann, 2004). Nos anos 1920 a transição de Mannheim da Filosofia para a Sociologia insere um outro elemento em sua teoria social: a cultura. Durante muito tempo a cultura foi objeto da Filosofia. Karl Marx, alicerçado na e avançando a filosofia de Hegel, desloca a cultura para a sua Teoria da Ideologia e para a Economia Política. No final do século XIX a Antropologia a reivindica como seu objeto privilegiado de estudos. Todavia, o legado de Nietzsche, Simmel, Dilthey, Weber e Freud permitiram a Mannheim aprofundar a análise da cultura sob a perspectiva sociológica (e, posteriormente, política). No trajeto que Mannheim efetua para fundamentar o objeto e o método da Sociologia do Conhecimento9 a cultura surge como um conceito central. Fruto ainda de suas análises epistemológicas anteriores, Mannheim distingue duas categorias básicas de produtos culturais: o pensamento e o conhecimento. O primeiro está mais vinculado às atividades cognitivas do ser humano (ainda que historicizadas por Mannheim), enquanto que o segundo seriam os produtos coletivos culturais da atividade cognitiva compartilhados pelos membros dos grupos sociais. A teoria social de Mannheim concebe os grupos como suas unidades, e nestes, a existência de dois fenômenos: os estilos de pensamento (a maneira socialmente construída de operar a estrutura cognitiva) e a weltanschauung (os produtos culturais compartilhados coletivamente pelo grupo social e que orientam os sentidos da sua identidade e de suas ações). A cultura seria, portanto, uma dimensão da existência que perpassa todas as atividades sociais (incluindo a ciência e a política, mas também a filosofia, a religião, a arte, etc.). Como ficou evidente Mannheim não foi o primeiro a tratar da cultura como fenômeno social, contudo, a forma como Mannheim concebe a dupla relação da cultura, por um lado com a Filosofia Social e por outro com a Teoria Social, pode ser considerada inédita. Ao situar a cultura histórica e existencialmente, Mannheim a insere simultaneamente nos eixos da Ciência e da Política, ao concebê-la tanto como um objeto que pode ser estudado com métodos próprios, quanto como um processo que pode ser situado nas disputas políticas por poder e legitimidade entre os grupos sociais. Seja a cultura concebida como um objeto ou como um processo, ou seja, numa perspectiva epistemológica ou política, para que se compreenda a sua natureza e função social, é preciso ter em mente que toda a filosofia social e teoria social de Karl Mannheim é de natureza material, o que significa que os seus elementos constitutivos explicam-se por processos imanentes e históricos e não por processos transcendentes ou supra-históricos. Logo, para definir o conceito de cultura é preciso estabelecer a constelação de fatores com os quais a mesma está direta e indiretamente relacionada. Dentre tais fatores estão os já citados grupos sociais, estilos de pensamento, weltanschauung. Mannheim (1972a; 2008) ao tratar especificamente da cultura, concebe a existência de um grupo social (cujo fator de unidade é justamente a afinidade por compromisso) altamente especializado nos processos culturais, ao qual, à maneira de Alfred Weber, denomina como intelligentsia. Este grupo social é fundamental para Mannheim por ser considerado um grupo que transita entre os demais grupos, seja pelo

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Gênese e Natureza do Historicismo (1982), O Problema da Sociologia do Conhecimento (1967), O Pensamento Conservador (1986), O Problema das Gerações (1982), Ideologia e Utopia (1972a).

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viés da análise ou da participação, o que significa ser este um grupo situado mais especificamente na esfera da Cultura, mas que transita entre a Ciência e a Política. Se, por um lado, a concepção de cultura de Mannheim pode ser considerada como essencialista, por outro lado os elementos essenciais que ele aponta no seu conceito de cultura são a liberdade, a democracia e a tolerância, sendo os três por ele considerados produtos sociais. Logo, o conceito de cultura de Mannheim é essencial na perspectiva ética, contudo o mesmo é material na perspectiva econômica e social, servindo como argumento para a fundamentação da democracia enquanto democracia cultural. O conceito de cultura de Mannheim (1962) está localizado simultaneamente no indivíduo e na sociedade, o que lhe permite também transitar com conceitos da Psicanálise para a área da Sociologia e da Política. Tais movimentos podem ser verificados em sua obra Sociologia Sistemática, em que traça paralelos entre processos psíquicos e processos sociais e políticos, na tentativa de fundamentar o campo da Psicologia Social. Traçamos até aqui os principais pontos da ontologia social (perspectiva da Filosofia) de Mannheim, passando por sua Teoria Social (perspectiva da Sociologia, em especial da Sociologia do Conhecimento), e já temos o principal conceito que permitirá a transição da ontologia e da teoria social para a sua teoria política.

A síntese social: Planejamento Democrático

Com os principais conceitos da ontologia social e da teoria social de Karl Mannheim, podemos agora analisar a sua tese política do planejamento democrático. Em toda sua formulação política estarão presentes dois princípios daquelas concepções: o social como fator importante na formação individual (o que o afastava das teses liberais strictu senso) e a liberdade e a democracia como fundamentos éticos dos grupos sociais (que o afastava definitivamente das teses totalitárias que ele tanto repelia). Tomando então estes dois princípios como balizas, Mannheim compreende a realidade política como um grande espectro de possibilidades que vai de um ponto em que se encontra a liberdade total até outro ponto em que há ausência total de liberdade. Portanto há uma distinção ética a ser feita dentro de todo este espectro possível, que consiste justamente em separar as formas políticas justas das injustas. A Ciência Política, para Mannheim (1972a), consiste justamente em racionalizar a esfera das ações sociais irracionais, já exposta em 1929 em Ideologia e Utopia. Ali Mannheim concebe duas formas básicas de ação política: a burocracia (ações rotineiras e programadas) e a ciência política (esfera de decisões sobre ações imprevisíveis e in flux). O conceito de planejamento democrático de Mannheim (1972b), exposto em forma mais acabada em Liberdade, Poder e Planificação Democrática publicado originalmente em 1947, seria justamente uma maneira de juntar as forças de racionalização (burocracia e ciência política) para garantir a existência de um espectro político justo (excluindo-se portanto as formas injustas de liberalismo radical e de totalitarismos). Kecskemeti (1953) diz que a posição que a teoria política de Mannheim assume ao defender o conceito de planejamento democrático é ao mesmo tempo uma posição que pode ser enquadrada como filosofia política e como teoria política, enquanto diagnóstico e prognóstico perpassados por princípios éticos que para Mannheim são inegociáveis:

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As we see, Mannheim argues here on two fronts – both against liberalism and against totalitarianism. As against liberalism, he stresses, on the one hand, the erroneousness of the extravagant liberal conception of freedom understood as the individual’s absolute independence of the social environment; on the other hand, he points to the necessarily disastrous factual consequences of laissez-faire. But when all this is said, he still sees a valid core in liberalism as a value position – this is the freedom and self-realization of the individual understood not in an extravagant but in a legitimate sense. (Kecskemeti, 1953, pp. 7-8) Percebemos, portanto, que a transição de áreas realizada por Mannheim, que vai da Filosofia, passa pela Sociologia e chega à Ciência Política, foi acompanhada também por uma transição teórica em relação ao seu conceito de síntese e de portador da síntese. Em seus textos iniciais de Sociologia a síntese seria uma weltanschauung autalizada que ultrapassaria as contradições das visões de mundo anteriores, e seriam operacionalizadas principalmente por um grupo social altamente especializado em tal função, a intelligentsia. Já em seus textos finais, de cunho mais político, Mannheim concebe a síntese como uma Terceira Posição política, que seria na verdade o campo justo de possibilidades de existência das formas políticas, retiradas todas as possibilidades injustas do espectro possível total. O portador da síntese neste momento é, portanto, o Estado, considerado em sua forma mais desenvolvida. Mannheim concebe a História como algo dinâmico, e suas análises do historicismo, das gerações e do pensamento conservador permitem-nos deduzir que a sua concepção dinâmica de história tem como fundamento as constantes mudanças (sociais, culturais, políticas, econômicas, etc.). Contudo, Mannheim está preocupado em seus últimos textos com as possibilidades abertas pela democracia e pelo liberalismo no começo do século XX, que permitiram elas próprias o surgimento de regimes totalitários. Diante deste diagnóstico de época, Mannheim sugere que estes fatos maléficos para a democracia apenas surgiram porque o conceito de liberdade foi pensado de forma ilimitada e transcendental pelo liberalismo político radical. A aposta de Mannheim consiste em propor que alguns mecanismos de controle social legítimos existam como balizas éticas das formas políticas possíveis, evitando, quando necessário, que as mesmas degenerem em formas como o nazismo, o fascismo e o stalinismo. Para a concepção política de Mannheim dos anos 1940, portanto, a liberdade e a democracia apenas poderiam manifestar-se em formas políticas justas, denominadas por ele genericamente como Terceira Posição, e a ferramenta para a construção e manutenção desta Terceira Posição seria o planejamento democrático, enquanto junção da burocracia com a ciência política. Em seu conjunto teórico, o planejamento democrático seria uma ferramenta de síntese entre as tensões (i) de mudança e de preservação, cristalizadas nas weltanschauung dos grupos sociais em constante disputa na sociedade e (ii) entre ciência e política, ao juntar num mesmo processo, e sob o prisma ético, a burocracia e a ciência política.

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