SEGUNDO CADERNO

QUARTA-FEIRA 9.10.2013 oglobo.com.br

OGLOBO
Gloria Perez vai escrever seriado de ação inspirado em serial killers de carne e osso
pág. 8 PATRÍCIA KOGUT

FRANKFURT RUFFATO
pág. 10

CRITICA BRASIL NA ABERTURA
MARCOS TRISTÃO/30-4-2009

ENTREVISTA Jon Lee Anderson

Jon Lee Anderson. Jornalista e escritor americano, que vem ao Rio em novembro, afirma que proibição de histórias não autorizadas por seus protagonistas também beneficiaria políticos

LIVROS NÃO ABERTOS
Quatro países sem restrição prévia
Contexto
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Biógrafo de Che Guevara diz que Brasil se aproxima de Rússia, China e Irã quando restringe biografias
ANDRÉ MIRANDA

andre.miranda@oglobo.com.br

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DEBATE EM FRANKFURT

ma resposta à cultura da celebridade ou um luta com motivação política? Repórter de uma das principais revistas do mundo, a “New Yorker” , o americano Jon Lee Anderson vê com preocupação a mobilização em defesa de restrições para que se publiquem biografias no Brasil, lembrando que não são apenas os artistas beneficiados, mas também políticos. Anderson é biógrafo de Che Guevara (“Che, uma biografia” , de 1997, lançado pela editora Objetiva) e vem ao Rio em novembro para ministrar uma oficina de reportagem promovida pela Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-Americano, em parceria com as revistas “piauí” e “Serrote” e o Instituto Moreira Salles. Em entrevista ao GLOBO, por e-mail, Anderson diz que, pela lei atual, o Brasil se aproxima de Rússia, China e Irã quanto à liberdade de expressão.
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LEI OPÕE MÚSICOS E ESCRITORES
O debate em torno da Lei 10.406, de 2002, pôs em lados opostos algumas estrelas da MPB e escritores. A polêmica está nos artigos 20 e 21 da lei, que afirmam que a “exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais” e que “a vida privada da pessoa natural é inviolável”. Em resumo, qualquer cidadão brasileiro, seja ele uma celebridade ou um traficante condenado pela Justiça, pode impedir a venda de uma biografia sobre si. Roberto Carlos é um marco dessa luta: em 2007, ele conseguiu na Justiça que se retirassem das livrarias os exemplares de “Roberto Carlos em detalhes”, de Paulo Cesar de Araújo. Agora, o cantor é uma das vozes que tentam influenciar o Congresso para que os artigos não sejam modificados, como defendem associações de escritores. Junto a Roberto Carlos, a organização Procure Saber, que reúne músicos como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan e Chico Buarque, vem se posicionando em defesa da privacidade. A discussão chegou, ontem pela manhã, à Feira do Livro de Frankfurt, quando a ministra da Cultura, Marta Suplicy, se reuniu com escritores e perguntou o que eles achavam da polêmica. — Assim como tinha ouvido os artistas que são a favor da lei, quis ouvir os escritores. Fiquei impressionada como os argumentos são radicalmente opostos aos dos cantores. Por enquanto, vou ouvir todos os lados para formar um entendimento — disse Marta ao GLOBO

Mas qual é a relevância de histórias privadas para um leitor? Por que jornalistas estão sempre tentando trazer a público aspectos privados de seus personagens? Figuras públicas têm enorme influência sobre as vidas das pessoas. Os “astros” não só habitam a imaginação das pessoas graças à cultura do cinema, mas também aparecem o tempo todo em campanhas para jeans, perfumes, brinquedos ou qualquer outro produto que lhe ofereça acordos de publicidade. Essa influência enorme e a opulência que a acompanha conduzem a um interesse generalizado do público. Muitos correspondem a esse interesse, inclusive aos aspectos mais lascivos, participando de reality shows na TV, em que suas vidas privadas são expostas em troca de dinheiro. Já em relação aos políticos, aí eu entendo que deve ser um direito público, em uma democracia, de se saber o máximo possível sobre as pessoas que representam o cidadão.
l l Hoje, a legislação brasileira protege o desejo do biografado ou de sua família. Mas alguns dizem que o governo deveria ter o poder de interferir em alguns casos em que não há justificativa para não se autorizar o lançamento da biografia. Outros já falam que apenas o leitor tem o direito de decidir o valor de um livro. Para você, é possível definir quem é responsável por autorizar ou não a publicação de uma biografia? No mundo ideal, o público teria o bom gosto para decidir o que deve ser considerado como decente ou não numa biografia. Em geral, desconfio de governos tentando intervir nesta área. Na Rússia de Putin, por exemplo, não é possível escrever uma biografia reveladora sobre ele, então os livros são publicados apenas fora do país. É uma pena que o povo russo não tenha acesso a um tipo de informação fundamental para ajudar a criar uma democracia mais madura em que franqueza e honestidade por parte de seus líderes deveriam ser uma obrigação. l Se a legislação brasileira se aplicasse a outros países, algumas histórias como “Frank Sinatra está resfriado”, de Gay Talese; “Shout!” , de Philip Norman, sobre os Beatles; e até o seu “Che” poderiam nunca ter sido publicadas. O quão ruim seria para o leitor? Seria muito ruim. Como se vivêssemos numa sociedade orwelliana ou, em comparação com o mundo real, seria algo equivalente em maior ou menor grau a situações comuns em países como Rússia, Irã, China, Cuba, Sudão, Zimbábue, Síria e Arábia Saudita, alguns dos países mais repressivos do mundo.l

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Estados Unidos, França, Espanha e Reino Unido recorrem à Justiça para dirimir possíveis polêmicas sobre biografias

Está em debate hoje, no Brasil, o direito de se lançar biografias: de um lado, há os que defendem a liberdade de expressão; do outro, os que dizem que privacidade não pode ser comercializada. Como o senhor enxerga essa discussão? Este debate me lembra um que aconteceu na França, alguns anos atrás, e que terminou com restrições severas às possibilidades de fotógrafos retratarem pessoas. Por exemplo, se você publicasse a imagem de uma pessoa numa manifestação de rua, tecnicamente ela poderia ir à Justiça porque você não lhe pediu permissão. O debate das biografias é similar. Num tempo em que a internet parece acabar com as fronteiras e em que a cultura do tabloide de celebridades conduziu a uma mídia fortemente invasiva, esses debates são reflexo de uma luta para se controlar as representações do indivíduo. Neste sentido, é compreensível que o debate seja travado, mas não estou certo se essas são as razões no Brasil. Trata-se de uma resposta a um fenômeno cultural ou há motivações políticas por trás?
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O senhor vê esses dois lados, da liberdade e da privacidade, como naturalmente excludentes? Eu não acho que sejam excludentes. Há muitos exemplos de biografias “não autorizadas” bem-intencionadas e de bom gosto. O “não autorizado” significa que o livro não foi feito em conjunto com o biografado, não necessariamente que ele é antagônico ou que se propõe a trazer casos escabrosos sobre uma celebridade. Há sempre alguma violação de privacidade em uma biografia, e se ela vai ultrapassar a linha tênue ou não depende da ética do biógrafo. A sociedade não pode controlar essa situação, especialmente quando ela tem relação com figuras políticas, as quais a população tem o direito de conhecer profundamente em troca do poder que lhes é concedido.

Na página 2, a análise de Francisco Bosco sobre o debate

m países como Estados Unidos, França, Reino Unido e Espanha, não há restrição prévia à publicação de biografias não autorizadas. Os americanos são muito objetivos nesse sentido — e chegam a se gabar disso. Repetem que a liberdade de expressão está garantida pela Primeira Emenda à Constituição e que, por isso, não pode ser violada. Caso o biografado se sinta a atingido pela obra em circulação, pode recorrer à Justiça. A legislação francesa também tira do escritor ou do editor a necessidade de ter uma autorização prévia de seu biografado ou de seus herdeiros para publicar um livro. Na França, os autores e editores devem, no entanto, respeitar as exigências da lei no que tange à difamação ou à violação da vida privada. Para dirimir possíveis questionamentos surgidos nesse sentido, o caminho é recorrer à Justiça — sempre após a edição da obra. Neste ano, vale lembrar, por exemplo, que o ex-diretor geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) Dominique StraussKahn solicitou por meio de uma ação judicial a interdição do livro em que Marcela Iacub evocou, em forma de romance, a polêmica relação que eles tiveram. A Justiça francesa, no entanto, não interditou o

livro. Determinou apenas que em cada exemplar fosse inserido um pequeno encarte dizendo que a obra atentava contra a vida privada do ex-chefão do FMI e condenou a editora do livro a pagar € 50 mil a Strauss-Kahn por danos e prejuízos. No Reino Unido, também não há restrição à publicação de biografias não autorizadas, desde que fique bem clara sua condição, informa o advogado especializado em direitos autorais Bernard Nyman. Portanto, é dever do autor e da editora deixarem em destaque a informação de que aquela obra não é a versão oficial autorizada pelo objeto do livro. Isso já bastaria. Na Espanha, o direito de expressar e difundir opiniões, ideias e pensamentos está protegido pelo artigo 20 da Constituição, que também não admite censura prévia. Mas isso não significa que não haja limites. As biografias não autorizadas são permitidas por lá e, de fato, existem, mas o autor, ao mesmo tempo que está livre para publicar seu livro, deve estar preparado para arcar com as consequências caso o biografado considere que ele passou dos limites. A questão é que este mesmo artigo constitucional deixa claro qual é a fronteira a ser respeitada: a da honra, a da intimidade e a do direito à própria imagem. Na Espanha, a decisão de retirar biografias já publicadas das estantes das livrarias só compete, no entanto, a um juiz. l Com reportagens de André Miranda, Fernando Eichenberg, Priscila Guilayn e Vivian Oswald.