Disciplina de: Psicol ogia V – Docente: Dra.

Ce l e st e Duque
Curso de Licenciatura em Enf e rmage m – 3º Ano – 2º Semestre – 2004- 2005

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Colectânea de “Trabalhos”
de Psicologia V (Setembro/Outubro)
(organização da responsabilidade de Celeste Duque, com base nos ficheiros Word – Janeiro 2006)







Índice

GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Trabalho realizado por: Ana Rita Afonso; Ana Rita Lopes; Andreia Cabrita; Filipa Pereira; Sónia Brígida ...................... 2
GRAVIDEZ E DIABETES
Trabalho elaborado por: Paula Franco; Sónia Costa; Viviana Matos................................................................................... 14
GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Trabalho elaborado por: André Santos; Dinis Loja; Michael Neto; Ricardo Costa ............................................................. 31
GRAVIDEZ DESEJADA VS. INDESEJADA
Trabalho elaborado por: Ana Luísa Rodrigues; Ana Rita Góis; Ana Sofia Rodrigues, Helena Pinguinha;
Hugo Lopes .................................................................................................................................................................................... 44
ALCOOLISMO E GRAVIDEZ
Trabalho elaborado por: Ana Ruas; Igor Glória; Maria Inácio ............................................................................................. 60
GRAVIDEZ E TOXICODEPENDÊNCIA
Trabalho elaborado por: Carina Correia; Cármen Santos; Cecília Cavaco; Inês Oliveira; Orlanda Michão ..................... 79
GRAVIDEZ & VIH/SIDA
Trabalho elaborado por: Ana Laura Nascimento; Ângelo Miguel Gomes; Leocádio Dinarte Alves;
Rita Leirias Palma....................................................................................................................................................................... 102

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Gravidez na Adolescência
Trabalho realizado por:
Ana Rita Afonso; Ana Rita Lopes; Andreia Cabrita; Filipa Pereira; Sónia Brígida

“É que a natureza não olha a preconceitos nem a idades legais (....)”Ana
Esteves
Gostaríamos de agradecer à professora Celeste Duque o apoio e a
disponibilidade que sempre demonstrou e que contribuiu para que
muitas das nossas dúvidas fossem prontamente esclarecidas.
Dedicamos este trabalho a todos os adolescentes que enfrentam esta
nova etapa das suas vidas
1. Introdução
Do ponto de vista psicológico, a adolescência define-se como um período de mudanças
físicas, emocionais e sociais que individualizam o jovem. A adolescência pode ser vista
também como um momento conflituoso ou de crise, na qual se dá a passagem da
infância para a fase adulta. (Bobak, Lowdermilk, Jensen et al., 1999)
Segundo Miguel e Gomes (1991), a adolescência não implica só uma adaptação às
profundas transformações corporais, como também exige uma adaptação a um
importante período do ciclo existencial da pessoa, uma tomada de posição social,
familiar, sexual e entre o grupo.
Ainda segundo os mesmos autores, a adolescência começa com a puberdade, que marca
o início da vida reprodutiva dos jovens e é caracterizada pelas mudanças fisiológicas
corporais e psicológicas da adolescência.
Com a identificação do papel sexual dos jovens, a afectividade, até aqui direccionada
para a família, ganha mais importância no grupo de amigos e amigas da mesma idade,
e ainda com outros adultos. É nesta fase que os jovens se sentem preparados para
assumir compromissos sexuais, relações afectivas especiais, ou seja, o que é
vulgarmente conhecido por “estar apaixonado”. (Miguel & Gomes, 1991)
Para Bobak, Lowdermilk, Jensen et al. (1999), a sexualidade assume um papel
importante na vida dos jovens, não como sinónimo de sexo, mas sim a interacção de
factores biológicos, psicológicos e ambientais traduzida pela capacidade individual de
dar e receber prazer e de se reproduzir.
A gravidez na adolescência provoca mudanças maiores na transformação que já vinha
ocorrendo de forma natural, interrompendo a formação da identidade e das tarefas de
desenvolvimento. Neste caso, muitas vezes a adolescente precisa de um importante
apoio do mundo adulto para saber lidar com esta nova situação. Os profissionais de
saúde que trabalham com adolescentes têm um papel preponderante sobre os apoios,
ensinos e soluções encontradas por estes, procurando melhorar a saúde das grávidas
adolescentes. (Bobak, Lowdermilk, Jensen et al., 1999)
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No âmbito da disciplina de “Psicologia” no decurso do presente 3ºano/1ºsemestre, foi
iniciado o trabalho sobre “A gravidez na adolescência”.
A metodologia utilizada para a realização do trabalho foi a pesquisa bibliográfica, em
livros e revistas, e a pesquisa cibernética referente ao tema principal abordado, “ A
gravidez na adolescência”.
O nosso trabalho está dividido em três capítulos. O primeiro, “ Adolescência, afecto e
sexualidade”, aborda as principais mudanças que ocorrem nesta fase relacionadas com
a puberdade, a importância da afectividade na adolescência e como é vivida a
sexualidade pelos jovens. O segundo capítulo designa-se “A gravidez na adolescência”
e enumera as principais dificuldades encaradas pelos jovens adolescentes que vivem
esta situação e ainda as soluções encontradas pelos jovens para enfrentar a gravidez.
Por fim, no terceiro capítulo, apresentamos não só a conclusão a que chegámos, mas
também as sugestões que nos parecem úteis para melhor encarar uma gravidez no
período da adolescência, e o papel fundamental dos profissionais de saúde no
acompanhamento destas situações.
Assim, propomo-nos atingir os seguintes objectivos específicos:
! Definir o conceito de adolescência, puberdade, afectividade e sexualidade;
! Verificar a importância da afectividade na adolescência;
! Analisar a dinâmica da sexualidade na adolescência;
! Identificar as principais dificuldades vividas pelo casal adolescente em situação de
gravidez;
! Referir o papel do enfermeiro no acompanhamento dos adolescentes;
! Enunciar as possíveis soluções encontradas pelos adolescentes, face a uma gravidez
precoce.
2. Adolescência, Afecto e Sexualidade
Segundo Miguel e Gomes (1991), a adolescência é caracterizada pelo conjunto de
transformações corporais e consciência de si próprio, das relações interpessoais e pelo
desenvolvimento físico e intelectual que criam o adulto.
As tarefas básicas que se consideram na adolescência, fundamentais para o
desenvolvimento, são: a afirmação da identidade sexual e a chegada à autonomia social.
Existem determinados obstáculos que dificultam ou impedem a concretização destas
tarefas, no entanto o período da adolescência pode considerar-se concluído quando
uma pessoa atinge a independência tanto biológica como psicologicamente.
Nos dias de hoje, por razões diversas, a puberdade acontece cada vez mais cedo e a
independência é mais tardia, devido ao prolongamento dos estudos, dificuldade de
obtenção de um estatuto social de independência (emprego, casa própria).
A afectividade na adolescência toma um significado diferente, pois estava restringida à
família e nesta fase orienta-se noutro sentido, nomeadamente para os amigos e amigas
da mesma idade e para outros adultos. É também nesta fase que surge o desejo de
estabelecer relações especiais com outra pessoa, o desejo de estar apaixonado, de
namorar.
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A sexualidade surge também na adolescência como um factor importante, visto que, é
influenciada por múltiplos factores e tem como papel fundamental: a identificação
biopsicossocial, a reprodução através das relações sexuais, a relação amorosa como
expressão física do amor, o desejo e o prazer que acompanham os pensamentos e
actividades sexuais. (Miguel e Gomes, 1991)
2.1. Adolescência e puberdade
A adolescência implica um período de mudanças físicas e emocionais considerados, por
alguns, um momento de conflito ou de crise. Não podemos descrever a adolescência
como simples adaptação às transformações corporais, mas como um importante
período no ciclo existencial da pessoa, uma tomada de posição social, familiar, sexual e
entre o grupo.
Alguns autores avaliam a adolescência como uma situação de crise onde coexistem
oportunidades e riscos. As emoções são vividas com muita intensidade, por vezes com
desejos contraditórios. Trata-se de uma etapa muito vulnerável. É comum nesta fase
sentir sentimentos contraditórios, dependendo da aceitação ou não das mudanças que
estão a ocorrer no corpo do adolescente. O jovem adolescente vai tomando consciência
de si como ser sexual e sexuado que se relaciona consigo próprio e com as outras
pessoas, de forma característica e pessoal.
À medida que se vão desenvolvendo, os seus órgãos vão amadurecendo até ficarem
prontos para, se o quiserem, poderem ser pais e mães, quando forem adultos.
Na puberdade, uma pequena glândula situada na base do cérebro, chamada pituitária
ou hipófise, liberta substâncias químicas na corrente sanguínea, chamadas hormonas.
Estas substâncias chegam às glândulas sexuais e fazem-nas começar a funcionar. Nas
raparigas, estas glândulas chamam-se ovários e nos rapazes chamam-se testículos.
Estas alterações fisiológicas não acontecem a todos os rapazes e a todas as raparigas ao
mesmo tempo. Cada pessoa tem o seu próprio ritmo e não podemos fazer nada para
acelerar ou atrasar a puberdade. Contudo, sabemos que a puberdade começa
geralmente por volta dos 8 – 12 anos e está completa quando termina o processo de
desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários (masculinos e femininos) e quando
se adquire a capacidade reprodutiva. De acordo com a Organização Mundial de Saúde
pode coincidir com o final da adolescência, por volta dos 18, 19 anos.
Na rapariga a puberdade começa com o aparecimento da menarca (primeira
menstruação), no rapaz inicia-se com a possibilidade de ejaculação e com os primeiros
sonhos “molhados”.
Nas raparigas observa-se um aumento na altura e no peso, as ancas alargam e tornam-
se mais redondas, os seios desenvolvem-se e começam a crescer os pêlos púbicos (pêlos
debaixo dos braços e nas pernas), a pele fica mais oleosa e as glândulas sudoríparas
tornam-se activas. Os ciclos menstruais marcam um importante marco na vida das
jovens.
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Os rapazes são habitualmente mais altos, mais fortes e com mais massa muscular. Os
ombros e o peito alargam e os músculos começam a desenvolver-se. O pénis e os
testículos crescem e surgem os pêlos púbicos (pêlos debaixo dos braços, nas pernas e no
rosto). Os testículos começam a produzir esperma. À medida que o tempo passa, as
cordas vocais aumentam, o que torna a voz mais grossa. Podem ainda surgir alguns
pêlos no peito. Os pêlos dos braços ficam mais grossos e os pêlos púbicos tornam-se
mais espessos. As glândulas sudoríparas (que produzem suor) começam a funcionar.
O despertar para a sexualidade é um processo que acompanha as transformações
corporais iniciadas na puberdade e a maturação psicológica, para que o crescimento se
dê de uma forma harmoniosa, satisfatória e completa. Tudo se passa num tempo de
descobertas e expectativas, em que o desejo e o prazer são novas sensações que podem
despertar dúvidas, medos e angústias, por ser desconhecido o que acontece. (in
http://www.sexualidadejuvenil.pt)
2.2. Porquê que a afectividade é importante na adolescência?
É na adolescência que a afectividade, até aí quase restringida à família, toma cor, sendo
vivida mais intensamente com amigos e amigas da mesma idade e mesmo com outros
adultos.
Os adolescentes vêm, também nesta fase, despoletar o desejo intenso de estabelecer com
outra pessoa uma relação afectiva especial. Quando este desejo é recíproco há a
formação de um par, situação tradicionalmente designada namoro.
Tal como Miguel e Gomes (1991) afirmam este namoro é, normalmente, vivido com
grande intensidade e convicção na sua duração e é bastante importante no
desenvolvimento afectivo do adolescente visto contribuir para:
! Um maior reforço de identificação
! Uma maior segurança que obtém pelo facto de se sentir desejado e amado
! Uma experiência de diálogo mais intenso e verdadeiro
! Uma vivência da satisfação em tornar o outro mais feliz
No entanto, também o rompimento do namoro, especialmente se não é de comum
acordo, pode causar no adolescente diversos problemas. A pessoa que se sente
abandonada desenvolve um sofrimento pela perda da relação afectiva, sentimentos de
inferioridade e dificuldade em estabelecer futuras relações amorosas, prevalecendo
assim o medo da desilusão e da dor. Por outro lado, o adolescente que termina o
namoro experimenta, em alguns casos, sentimentos de culpa e de angústia.
Muitos adolescentes vivem com angústia o facto de nunca terem namorado e têm medo
de não encontrarem alguém que goste suficientemente deles, que compreenda os seus
sentimentos e os respeite. Muitas das vezes acabam não por se envolver com a pessoa,
mas sim com o seu físico, que os atrai à primeira vista, acabando depois por perceber
que a relação é impossível.
Assim, para que uma relação seja equilibrada e afectiva, considera-se que, o mais
importante, são os sentimentos positivos, tendo a aparência física um papel
insignificante no amor.
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2.3. A sexualidade na adolescência
Existe uma relação entre a afectividade e a sexualidade, porque tal como Miguel e
Gomes (1991) referem o amor é geralmente acompanhado de desejos sexuais, sendo as
relações sexuais consideradas mais satisfatórias quando integradas numa ligação
afectiva.
A sexualidade, para os autores acima referidos, é um aspecto complexo, que pode
perturbar, degradar, dignificar, desenvolver e agradar, dependendo do modo como
cada um a encara.
A sexualidade pode ser vivida integrada numa relação afectiva duma forma
responsável e partilhada em igualdade, pode consolidar uma relação estável e
permanente, institucionalizada como no casamento, pode conduzir à constituição de
uma família e ao nascimento de filhos (aspecto reprodutivo) e pode também contribuir
para o bem-estar e amadurecimento psico-afectivo.
No entanto, também pode ser vivida apenas como uma procura de prazer à custa do
outro (na violação, na prostituição, na pedofilia e nas relações egoístas que esquecem o
outro) ou pode ser utilizada na exploração comercial do desejo e prazer (na publicidade
e na pornografia).
Para Miguel e Gomes (1991) existem manifestações de sexualidade na infância, próprias
da idade. As crianças, normalmente, gostam de acariciar os seus órgãos sexuais, têm
curiosidade em descobrir os órgãos sexuais dos outros e mostrar o próprio corpo. Estas
brincadeiras infantis não são perigosas e são apenas o começo da sexualidade, que está
presente, embora de diferentes formas, ao longo de toda a nossa vida.
Na adolescência, há o despoletar de uma sexualidade mais intensa e clara,
manifestando-se ela através de:
! Sonhos sexuais: são sonhos involuntários, de frequência muito variável de pessoa para
pessoa e acompanhados de excitação sexual e, por vezes, de orgasmo, que representam
uma situação sexual, mesmo que não seja uma actividade sexual inteiramente clara.
Normalmente, as raparigas adolescentes ficam preocupadas e com medo que isso
signifique uma demasiada tendência para o sexo e os rapazes têm medo que ejacular a
dormir seja anormal, que faça mal à saúde ou têm vergonha que as outras pessoas
percebam que eles ejacularam. (Miguel & Gomes, 1991)
! Desejos e excitações sexuais
! Fantasias sexuais
! Masturbação: é o processo que o adolescente ou a pessoa adulta utiliza para se excitar e
atingir o clímax. É feito, na maior parte das vezes, através da estimulação manual e
ritmada das zonas mais sensíveis dos órgãos sexuais. Era considerada uma prática
anormal, uma actividade que causava prejuízos físicos e psicológicos, mas tal como
Miguel e Gomes (1991) esclarecem que a masturbação é apenas uma forma possível de
satisfação do desejo sexual pelo prazer da excitação e do orgasmo. Os autores referidos
também referem que a masturbação no rapaz é também uma forma de compensar a
insegurança, a frustração e a ansiedade, confirmando assim a sua virilidade.
! Relações sexuais: é a forma de expressão sexual entre um homem e uma mulher, com
introdução do pénis na vagina e realização de movimentos ritmados que ampliam a
excitação e conduzem até ao orgasmo.
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Normalmente, os adolescentes iniciam a sua vida sexual não através das relações
sexuais propriamente ditas, mas sim através das carícias, da exploração dos corpos e da
masturbação mútua.
Algumas adolescentes sentem, inicialmente, medo de se entregarem pois não querem
parecer levianas nem desejam que os rapazes apenas se interessem sexualmente por
elas (como mostra o Anexo 1), já outras iniciam, normalmente, a sua vida sexual activa
porque os namorados insistem, não querendo de forma alguma ser consideradas
“antiquadas”.
Já os rapazes querem ter relações sexuais, não só pelo dinamismo dos seus desejos, mas
também para provarem a si próprios que são capazes de satisfazerem uma rapariga, e
para se certificarem que a rapariga gosta mesmo deles, acabando assim com todas as
suas inseguranças. (ver Anexo 2)
Assim, tal como Miguel e Gomes (1991) constatam as raparigas têm, normalmente uma
actividade sexual (masturbação, relações sexuais) menor que a dos rapazes, visto haver
uma maior culpabilidade dentro delas em relação ao assunto, inibindo-se assim no
relacionamento com os rapazes com o medo de parecer “ fácil” e com medo de caírem
nas teias das “segundas intenções” dos rapazes.
Os rapazes procuram uma actividade sexual que é influenciada pela procura de
segurança e desejo de afirmação, recorrendo à masturbação em momentos de maior
ansiedade, ambicionando relações sexuais, o mais cedo e com a maior frequência
possível, para provarem a sua masculinidade e habilidade.
No entanto, a diferença de atitudes sexuais nos rapazes e raparigas na adolescência é
cada vez menor, tudo porque as raparigas começam a enfrentar a sexualidade de uma
forma positiva e os rapazes começam a dar muita importância à qualidade afectiva das
suas relações. (Miguel & Gomes, 1991)
3. Gravidez na Adolescência
Segundo Campos, Costa e Faria (2003) a OMS aconselha que as mulheres sejam mães
entre os 20 e 35 anos, visto ser nesta faixa etária que existem menos risco para a saúde,
tanto da mãe como do filho. Contudo nem sempre é esta a realidade, como se pode
verificar pelos dados do INE, dos 114383 bebés nascidos em Portugal, em 2002, 92 eram
filhos de mães com idade inferior a 15 anos, e 6638 eram filhos de mães com idades
compreendidas entre os 15 e os 19 anos, ou seja uma percentagem relativa dos bebés são
filhos de mães adolescentes (ver Anexo 3).
Na perspectiva dos autores atrás referidos, tais números podem estar relacionados com
a presença de factores sociais, étnicos, económicos, familiares, ambientais e
psicológicos. A gravidez nesta fase da vida parece ser mais prevalente em classes sócio
económicas desfavorecidas; em determinadas etnias; em famílias disfuncionais e em
alguns ambientes de risco. Existem ainda estudos que referem algumas características
da personalidade da adolescente (baixa auto-estima; introversão; dificuldades de
expressão e comunicação) como factor determinante.
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Segundo informação disponível no site, http://www.psicologia.com.pt, são vários os
problemas que podem advir da gravidez e maternidade neste período, visto as
adolescentes não estarem preparadas, nem física, nem psicologicamente. Esses
problemas podem ser materno-fetais; sociais; económicos e educacionais, ou seja, a
adolescente vai ver o seu quotidiano alterado, numa altura em que já se encontrava
num período de reestruturação, vai ter agora que se adaptar a todas as alterações que
advêm de uma gravidez. Tal situação implica superar várias dificuldades e encontrar
uma solução, contudo ultrapassar essas dificuldades não é de todo fácil e nem sempre o
desenlace é o esperado, ou o desejável.
3.1. As dificuldades vividas pelos adolescentes
Segundo informação disponível no site http://sites.uol.com.br, a gravidez durante a
adolescência pode trazer complicações tanto para a jovem mãe como para o bebé. Essas
complicações devem-se, na maioria dos casos, a problemas de crescimento e
desenvolvimento, emocionais e comportamentais, educacionais e de aprendizagem,
além de complicações durante a gravidez e problemas durante o parto. Contudo, o
grande problema surge quando a família da adolescente não é capaz de acolher o novo
facto com harmonia, respeito e colaboração acabando por rejeitar e por não
compreender este acontecimento originando um clima de conflito que faz com que a
jovem se sinta só e culpada, num momento da sua vida onde precisava de todo o apoio,
principalmente daqueles que lhe são mais chegados. Nesta situação a adolescente acaba
por tentar por si só resolver o problema e muitas vezes as soluções que encontra não são
as melhores nem para si, nem para o seu bebé. Essas soluções podem ser o suicídio, o
aborto ou a saída de casa dos pais.
Para Alves (1993), a gravidez na adolescência é um problema que não pode ser
subestimado A grávida é ainda adolescente e não está completamente desenvolvida
quer em termos físicos que em termos psíquicos. A gravidez na adolescência é assim
uma gravidez de risco e a adolescente pode desenvolver diversas complicações porque
os cuidados pré-natais iniciam-se tardiamente, muitas gravidezes nem são vigiadas e a
alimentação é deficiente. Tudo isto, pode levar a um atraso de crescimento do bebé,
hipertensão na gravidez ou tendência para um parto “com ferros” (fórceps) ou por
cesariana
Segundo informação disponível no site http://juventude.gov.pt, as principais
dificuldades vividas pelos adolescentes quando vivem uma situação de gravidez
inesperada são:
! Dificuldades na relação com os pais, já que estes na maioria dos casos não aceitarem esta
situação demonstrando sentimentos de decepção e desilusão;
! Aparecem também dificuldades em estabelecer relações com o seu grupo de amigos que
a pode levar a abandonar a escola abdicando, assim, dos seus estudos;
! Dificuldade na relação “consigo própria” pela dificuldade em “encaixar” a gravidez nos
seus projectos e interesses de adolescente;
! Receio de que o relacionamento com o namorado fique alterado;
! Dificuldade em encontrar um espaço onde se sinta confortável para falar sobre os seus
medos e dúvidas face à situação vivida.
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3.2. Soluções encontradas pelo casal adolescente em situação de gravidez
Actualmente assiste-se a um aumento do número de adolescentes grávidas, daí que seja
cada vez mais importante prevenir uma gravidez indesejada nesta fase da vida dos
jovens. Os pais adolescentes, confrontam-se com uma enorme transição que engloba o
finalizar das tarefas de desenvolvimento da adolescência e a adaptação às futuras
situações de maternidade e paternidade que podem causar ansiedade (Bobak, Jensen, &
Lowdermilk, 1995).
Segundo Esteves (1996), para os adolescentes a gravidez é uma hipótese tão nula e
estranha, que inicialmente não conseguem acreditar que é esse o seu presente estado,
aliás a maioria dos jovens não associa directamente o acto sexual com o risco de uma
possível gravidez.
Algumas das soluções encontradas pelos adolescentes face à gravidez não desejada é a
saída de casa dos pais, o suicídio ou o aborto. Nem sempre é fácil os adolescentes se
decidirem por estes caminhos, mas se forem consideradas as únicas soluções possíveis,
acabam por segui-las, por vários motivos, entre os quais podemos realçar: o facto da
adolescente ou do seu parceiro não desejarem aquele filho agora, o medo da reacção
dos familiares, o receio de encarar todas as responsabilidades e transições que uma
gravidez comporta (Miguel & Gomes, 1991).
Para Esteves (1996), a gravidez, quase inevitavelmente, irá perturbar o quotidiano dos
jovens e o conflito familiar pode produzir sentimentos de culpa, decepção e acusações
de ambas as partes, sendo portanto necessário que os pais e filhos reajustem os seus
papéis e as relações. Caso contrário, muitas vezes, as adolescentes acabam por enfrentar
e assumir todas as responsabilidades sozinhas. É-lhes exigido bruscamente que passem
do papel de filhas para o papel de mães, e que passem de adolescentes a mulheres. Esta
perspectiva refere que o apoio da família, nomeadamente dos pais, é fundamental para
que a jovem mãe possa fazer as suas próprias escolhas e ultrapassar de uma forma
saudável os obstáculos que surgem ao longo desta problemática fase.
É essencial criar condições para promover a expressão de sentimentos em relação a si
própria e à gravidez. A adolescente sente necessidade de exprimir e partilhar
sentimento e emoções, sem se sentir julgada. Se os familiares e as pessoas mais
significativas para a adolescente que engravida, acolherem esta nova situação com
compreensão, harmonia e respeito, a gravidez tem maior possibilidade de ser levada
em frente sem grandes transtornos (Informação disponível no site http://juventude.gov.pt).
Na perspectiva de Esteves (1996), os adolescentes tentam a todo o custo adiar o
conflituoso desequilíbrio familiar e social e problemas a outros níveis que a gravidez
acarreta. Enfrentar os pais é de facto das tarefas mais difíceis para a adolescente.
Também neste contexto a os profissionais de saúde devem orientar os membros da
família na tomada da decisão.
Segundo Bobak, Jensen e Lowdermilk (1995), os profissionais de saúde que interagem
com os adolescentes, nomeadamente os que estão a viver uma situação de gravidez
planeada ou não, devem tentar desde logo compreender os seus níveis de
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desenvolvimento cognitivo, o ambiente cultural, os seus valores e o seu funcionamento
biológico.
Daí que, desde logo, os profissionais de saúde devem mostrar-se disponíveis e
interessados, oferecendo todo o seu apoio para que estes jovens encontrem por eles
mesmos o caminho a seguir face à situação de gravidez. É portanto, fundamental
comunicar abertamente com estes jovens num ambiente de confiança, de respeito e
empatia, sem nunca fazer qualquer tipo de juízos de valor (Bobak, Jensen, &
Lowdermilk, 1995).
Ainda segundo a perspectiva de Bobak, Jensen e Lowdermilk (1995), cabe também aos
profissionais de saúde esclarecer o pai quanto ao seu papel referindo a sua extrema
importância. Por outro lado devem ainda encorajá-los a aderir futuramente a métodos
contraceptivos e práticas sexuais seguras para evitar possíveis gravidezes indesejadas e
doenças sexualmente transmissíveis.
A prevenção divide-se em três níveis: a prevenção primária, a prevenção secundária e a
prevenção terciária. A prevenção primária actua, entre outras formas, através de
educações para a saúde para fornecer informações aos adolescentes sobre a sexualidade,
gravidez e possibilitar o esclarecimento de dúvidas. A prevenção secundária inclui os
serviços de acesso aos métodos contraceptivos para os jovens que já iniciaram a sua
vida sexual. Por fim a prevenção terciária oferece os cuidados pré-natais, consulta da
grávida e outros programas que sejam pertinentes que a adolescente frequente (Bobak,
Jensen, & Lowdermilk, 1995).
Assim, torna-se pertinente realçar, desde cedo, a importância que a Educação Sexual
tem na “luta contra as gravidezes indesejadas”. Esta pretende que os jovens sejam
educados no âmbito da sexualidade, ensinando-os a adoptarem comportamentos
adequados face às relações sexuais, de modo a prevenirem uma possível gravidez
indesejada ou o contágio de doenças sexualmente transmissíveis, ou seja, a educação
sexual procurar fornecer informações aos adolescentes de modo a orientá-los nas
tomadas das decisões práticas. Sabe-se que o esclarecimento dos adolescentes só
beneficia a vivência das situações afectivas e sexuais.
O objectivo a alcançar é que sejam encarados os aspectos positivos da gravidez,
aproveitando para o crescimento e desenvolvimento das jovens, para que a sua auto-
estima saia fortificada (Alves, 1996).
Ainda segundo o mesmo autor, a gravidez na adolescência existirá sempre na nossa
sociedade, por vários motivos, logo o que se deseja é que seja resultado de uma escolha
ponderada e responsável.
Segundo Esteves (1996), engravidar e ser mãe cada vez mais tarde é uma tendência da
presente sociedade, contudo isto não significa que as mães adolescentes, não se revelem
boas mães no futuro. Assim depreende-se que nem sempre as adolescentes enveredam
pelos caminhos mais negativos, podendo desenvolver um projecto de maternidade
capaz de levá-las a amar e desejar o filho que outrora não foi planeado.
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É possível continuar a fazer parte de um círculo de amigos e a namorar, mas de forma
diferente. A gravidez não nos transforma em adultos de uma hora para a outra, e pode
ser prevenida, planeada, ou mesmo encarada de uma forma positiva. Uma criança exige
disponibilidade afectiva e muitos outros cuidados para crescer saudável (Informação
disponível no site http://juventude.gov.pt).
4. Factores Psicológicos da Gravidez na Adolescência
A actividade sexual na adolescência inicia-se cada vez mais precocemente, com
consequências indesejáveis imediatas, como o aumento da frequência de doenças
sexualmente transmissíveis (DST) nessa faixa etária; e gravidez, muitas vezes também
indesejável, que poderá gerar consequências graves, tanto para a adolescente quanto
para o recém-nascido. Se a única solução encontrada for o aborto, este trará
consequências psicológicas desastrosas para a jovem, que acaba por se culpabilizar e
arrepender da decisão tomada. Carregará para toda a vida, um inevitável peso na
consciência e um sofrimento indescritível e atroz dentro de si. Existe uma perda
associada ao bebé, que apesar de não desejado e não planeado, existia dentro de si e
como tal terá de ser feito um luto. Um luto que não poderá ser patológico, que não
obrigue a adolescente a se fixar num estádio de raiva, angústia e depressão, mas sim um
luto necessário, mas saudável, que a faça aceitar a perda sofrida.
Se a jovem optar pela continuidade da gravidez, ainda que não planeada, poderão
surgir complicações obstétricas que ocorrem em maior proporção nas adolescentes,
principalmente nas de faixa etária mais baixa. Há constatações que vão desde anemia,
ganho de peso insuficiente, hipertensão, infecção urinária, incompatibilidade feto-
pélvica e até complicações puerperais.
Durante a adolescência, a jovem idealiza uma vida despreocupada e descomprometida,
onde os sonhos e os projectos futuros preenchem os seus pensamentos, lutando por
eles, dando tudo para os tornar reais.
Com a gravidez, o mundo desaba em cima delas, acabando por afastar tudo o que lhes
parecia tão próximo e real. A aceitação desta nova realidade é difícil e dada a sua
imaturidade e labilidade emocional podem ocorrer importantes alterações psicológicas,
gerando extrema dificuldade em adaptar-se à sua nova condição, exacerbando
sentimentos que já estavam presentes antes da gravidez, como ansiedade, depressão,
hostilidade ou até mesmo agressividade (contra si e contra os outros).
A escola é, normalmente, abandonada e os estudos postos em segundo plano, dando
prioridade a um emprego que lhes assegure um suporte económico mínimo para a sua
sobrevivência e do bebé. Também o relacionamento social, as saídas com os amigos ou a
própria relação com o namorado sai afectada, afastando-se a adolescente, com vergonha
e medo das críticas apontadas e dos juízos de valor elaborados. Acreditando que
ninguém a poderá ajudar e que está sozinha, a adolescente acaba por refugiar-se na
solidão, deixando que todas as responsabilidades lhe sejam atribuídas.
A utilização de métodos contraceptivos não ocorre de modo eficaz na adolescência, e
isso está vinculado aos factores psicológicos inerentes a este período pois a adolescente
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nega a possibilidade de engravidar e essa negação é tanto maior quanto menor a faixa
etária. As jovens acreditam que na primeira relação sexual não poderão ficar grávidas,
justificando isso a falta do uso de contraceptivos.
As atitudes individuais são condicionadas tanto pela família quanto pela sociedade.
Esta última tem passado por profundas mudanças na sua estrutura, aceitando cada vez
melhor a sexualidade na adolescência, o sexo antes do casamento e também a gravidez
na adolescência. Os tabus, inibições e estigmas têm vindo a diminuir e a actividade
sexual e gravidez aumentado.
Por outro lado, dependendo do contexto social em que está inserida a adolescente, a
gravidez pode ser encarada como uma situação normal, não problemática, aceitável
dentro das suas normas, costumes e religião adoptada.
A falta de apoio e afecto da família, numa adolescente cuja auto-estima é baixa, com
mau rendimento escolar, grande liberdade e permissão familiar e com grande
disponibilidade inadequada do seu tempo livre, poderiam induzir a adolescente a
encontrar na maternidade precoce o meio para conseguir um afecto incondicional,
talvez uma família própria, reafirmando assim o seu papel de mulher, sentindo-se
indispensável, amada e respeitada.
Existem riscos, tanto físicos, imediatos, quanto psicossociais, que se manifestam a longo
prazo, nos filhos de adolescentes. Devido à dificuldade em adaptar-se à sua nova
condição a mãe adolescente pode vir a abandonar o filho, dando-o para adopção, e
quando o recém-nascido não é abandonado, está mais sujeito, em relação à população
geral, a maus-tratos.
5. Conclusões
Através da realização deste trabalho podemos constatar que a gravidez na adolescência
continua a ser uma realidade, sendo por isso importante reflectir sobre as suas
repercussões.
Percebemos que o elevado índice de actividade sexual na juventude aliado ao fraco uso
de anticoncepcionais e à falta de informação dos aspectos biológicos do sexo e da
gravidez são as causas chave da gravidez na adolescência.
É também de salientar as potenciais consequências que uma maternidade na
adolescência pode trazer aos pais de tenra idade e à própria criança. As jovens mães
vêem-se, frequentemente, obrigadas, a adoptarem novos hábitos de vida, porque
percebem que um bebé não é apenas uma boneca de trapos que podem manejar e deitar
fora quando não lhes apetece mais brincar. Muitas das vezes e em especial, nas
situações em que as adolescentes não são apoiadas nem pelos seus familiares nem pelos
pais das crianças, os estudos são colocados em segundo plano tal como as saídas com os
amigos, sendo assim adiados ou mesmo suprimidos os acontecimentos, emoções e
vivências próprios desta idade.
Parece-nos útil sugerir, aos profissionais de saúde, uma maior aposta na relação de
ajuda para com os pais adolescentes. Torna-se importante que o impacto a que estes
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últimos estão submetidos durante, e mesmo após, todo o processo da gravidez seja
minimizado. Achamos também indispensável que os enfermeiros sensibilizem a
população mais jovem para a prevenção da gravidez indesejada, através de educações,
claras e dinâmicas, acerca do planeamento familiar.
Ao longo deste trabalho deparamo-nos com alguma dificuldade a nível da informação
encontrada; sendo necessário fazer uma selecção adequada do conteúdo. No entanto,
tentamos clarificar os conceitos e dar uma perspectiva global dos conhecimentos para
esclarecer o tão problemático tema da gravidez na adolescência.
6. Bibliografia
Alves, M. J. (1993). Gravidezes na adolescência. Pais & Filhos, 29, 61-62.
Bobak, I. M., Lowdermilk, D. L. & Jensen, M. D. e tal. (1999). Sexualidade, Gravidez e
Paternidade na Adolescência. Enfermagem na Maternidade. Loures: Lusociência.
Esteves, A. (1996). A gravidez na adolescência desencadeia quase sempre grandes tempestades
familiares e duras recriminações sociais (…) Pais & Filhos, 71, 35-38.
Miguel, N. & Gomes, A. M. A (1991). Só para jovens! Juventude, afecto e sexualidade. Lisboa: Texto
Editora.
s.a (s.d.). URL: http://juventude.gov.pt
s.a. (s.d.).URL: http://sites.vol.com.br/gballone/infantil/adoelesc3.html
s.a. (s.d.). URL: http://www.sexualidadejuvenil.pt

Anexo 1
“Já tínhamos falado várias vezes um com o outro. Começámos a encontrar coisas em comum. Eu sentia-me bem
perto dele. Naquele dia, saímos das aulas e ele disse que me acompanhava a casa.
Não sei explicar bem o que sentia, mas algo muito agradável nos levava a tocarmo-nos ao de leve, como que por
acaso, mas de uma forma especial. A certa altura demos a mão e quase em seguida parámos e beijámo-nos. Senti uma
onda quente e agradável percorrer-me todo o corpo, assim como se fosse rebentar de emoção.
O meu coração batia muito depressa e tive o pressentimento de que estava a fazer algo de errado e podia, desta
maneira, perder o controlo da situação. Disse-lhe que não podíamos voltar a fazer aquilo, que tínhamos de deixar de
nos ver. Disse-lhe também que tinha receio do que estava a sentir e medo que ele me considerasse leviana. Acho que
muitos rapazes dizem que gostam das suas raparigas só porque querem servir-se delas para satisfazer os seus desejos
sexuais. Não queria que isso viesse a acontecer comigo. Fico num dilema entre o medo e a vontade de o voltar a ver”
Anexo 2
“Eu e a F. andamos há quatro meses. Damo-nos bem, é fixe, mas eu quero ter relações. Acho que já é altura disso.
Ela não quer, diz que tem medo, porque é uma coisa muito importante para ela e que só pode fazer isso com a pessoa
certa. Eu acho é que ela não gosta muito de mim, porque se gostasse também quereria! Não percebo as raparigas,
gostam de se divertir, tudo bem, mas quando é para ter relações, recusam sempre Estão sempre a dizer que não. Já
estou farto!”
FIM
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Gravidez e Diabetes

Trabalho elaborado por:
Paula Franco; Sónia Costa; Viviana Matos

Agradecemos à orientadora deste trabalho, a professora Celeste Duque,
pela sua disponibilidade e apoio prestado.

“A gravidez é um facto que marca a vida da mulher e da sua família, onde se
determina a opção de se agregar uma nova pessoa, com todas as responsabilidades
que disto irá advir…” (autor desconhecido)
1. Introdução
A gravidez é, para muitas mulheres, a entrada numa nova etapa da sua vida. É um
momento de responsabilidades, de maturidade, de consciência, de aprendizagens…
Este tanto pode ser um momento desejado pela mulher, casal e família, como ser um
momento pouco ou nada desejado, devido, por exemplo, ao facto da gravidez não ter
sido planeada.
Contudo, não deixa de ser irremediavelmente um facto que marca a vida da mulher e a
vida dos que a rodeiam, onde é determinada a opção de receber um novo ser, uma nova
pessoa, com todas as responsabilidades inerentes a esta escolha, e que implica
adaptações por parte da mulher grávida e sua família.
Para que a gravidez resulte em bem-estar e prazer tanto para a mulher grávida como
para o feto, é fundamental uma fase de preparação e de planeamento. Tal implica estar
disponível e predisposta para desempenhar o papel de grávida e de futura mãe. Acima
de tudo, estar preparada física e psicologicamente, bem como ter um companheiro/
marido e família que estejam aptos a participar neste período tão importante e a
fornecer todo o apoio e atenção necessários.
Todas estas condições são fundamentais para uma mulher saudável engravidar, e
tornam-se em condições imprescindíveis para uma mulher diabética que decide
engravidar, pois esta é considerada uma gravidez de risco.
Sendo assim, a condição de saúde de uma mulher grávida com diabetes deve ser
avaliada cuidadosamente, para que seja compatível com uma gestação saudável e sem
complicações para a mãe e bebé.
No âmbito da disciplina Psicologia V, leccionada pela professora Celeste Duque, foi-nos
proposto a realização de um trabalho, cujo tema é a gravidez e a diabetes. O objectivo
deste trabalho centra-se, essencialmente, em desvendar todo um mundo que rodeia a
mulher grávida com diabetes, bem como o da mulher grávida que se depara com uma
situação de diabetes gestacional.
Assim, com a realização deste trabalho definimos como objectivos específicos:
! Definir diabetes e tipos de diabetes;
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! Enumerar alguns sintomas característicos da diabetes;
! Enunciar a classificação da diabetes durante a gravidez;
! Distinguir diabetes pré-gestacional e diabetes gestacional;
! Identificar factores de risco para a diabetes na gravidez;
! Expor quais os riscos para a mãe e o feto numa gravidez associada a diabetes;
! Evidenciar a importância da gravidez vigiada;
! Abordar o controlo e tratamento da diabetes na gravidez;
! Desenvolver aspectos psicológicos de uma mulher grávida com diabetes.
! Para tal, a metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica.
Este trabalho encontra-se dividido em vários capítulos. No primeiro capítulo, define-se
diabetes e quais os tipos de diabetes que existem, assim como os seus sintomas mais
frequentes. No capítulo dois, distingue-se diabetes pré-gestacional e diabetes
gestacional, quais os riscos associados a esta patologia para a mãe e feto, que factores
predispõem para a diabetes que surge durante a gravidez e a importância da mulher
grávida com diabetes realizar uma vigilância cuidada da sua gravidez. No capítulo
seguinte aborda-se o controlo e o tratamento da diabetes e quais os cuidados a ter
durante e após o parto. Os aspectos psicológicos das gestantes com diabetes são
desenvolvidos no quarto capítulo. No capítulo cinco está descrita a conclusão deste
trabalho e, por fim, no sexto capítulo, faz-se referência à pesquisa bibliográfica
realizada.
2. Diabetes Mellitus
2.1. Definição e Tipos de Diabetes
Segundo Bobak, Lowdermilk e Jensen (1999, p. 645), a diabetes é uma alteração
sistémica do metabolismo dos glícidos, lípidos e proteínas, que se caracteriza pela
elevação da glicose sanguínea – hiperglicémia. Como tal, a diabetes é uma doença da
transformação dos açúcares, que se manifesta, inicialmente, por uma taxa anormal de
açúcar no sangue e pela presença de açúcar nas urinas (Pernoud, 1999, p. 261).
Normalmente, o açúcar dos alimentos é utilizado pelas células do corpo na obtenção de
energia que o organismo necessita para realizar as suas diferentes funções. Durante
todo este processo, a existência de uma hormona produzida pelo pâncreas, a insulina, é
indispensável (Silva & Martins, 2004, p. 16). A insulina actua a nível do sangue, com o
intuito de equilibrar os níveis de glicose derivados dos alimentos que foram ingeridos
acaba por alcançar níveis excessivos para o organismo. Esta hormona transporta o
excesso de glicose para as células, onde a maior parte dessa glicose é utilizada como
energia pelas células musculares (McNamara, 2002, p. 3).
De acordo com os autores acima mencionados, a diabetes pode ser do tipo I ou tipo II.
A diabetes do tipo I (ou insulino-dependente) pode surgir devido a uma insuficiência
na produção de insulina pelo pâncreas, enquanto que na diabetes tipo II (não insulino-
dependente) pode haver um aumento da resistência periférica à acção da insulina ou a
sua acção deixa de ser adequada nos diferentes tecidos do organismo.
No entanto, segundo o National Institute of Health (ADA, 1990; op. cit. Bobak,
Lowdermilk & Jensen, 1999, p. 646), a diabetes poderá ser classificada em três grandes
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tipos: a diabetes tipo I, a diabetes tipo II e, o terceiro tipo, a diabetes gestacional. A
diabetes gestacional caracteriza-se por uma intolerância aos glícidos que se desenvolve
durante a gravidez. Na perspectiva de Pignatelli e Carvalho (1986, p. 193), o
funcionamento de um novo órgão endócrino, a placenta, durante a gravidez
(essencialmente na segunda metade da gravidez), desencadeia alterações que podem
condicionar um efeito diabetogénico, isto é, que potencia o aparecimento da diabetes.
No que diz respeito à mulher grávida, podemos ter duas situações diferentes: a diabetes
pré-gestacional (tipo I ou tipo II) que já era conhecida antes da gravidez, ou a diabetes
gestacional, quando esta é diagnosticada pela primeira vez no decurso da gestação
(Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, p. 646; Silva & Martins, 2004, p. 16).
2.3. Vigilância dos Níveis de Glicemia
A Diabetes Mellitus é considerada uma doença crónica, o que significa que,
actualmente, só é possível controlar a doença e que esta não tem cura.
Como tal, para um diabético é muito importante controlar a glicemia, pois o nível de
glicose elevado no sangue não significa que a pessoa se sinta mal fisicamente. O melhor
controlo da glicemia faz-se obtendo pequenas amostras de sangue ao longo do dia, por
exemplo, através de uma gota de sangue de um dedo, que é analisada por aparelhos
próprios para o efeito. As medições feitas pelo aparelho indicam a quantidade de
glicose que existe no sangue no momento do teste. Quando existe um bom controlo da
diabetes, estas medições antes das refeições situam-se entre os 72 e 126 mg/dl e após as
refeições são inferiores a 180 mg/dl (McNamara, 2002, p. 18).
2.4. Sintomas
Os primeiros sintomas da diabetes podem ser graduais ou repentinos. Geralmente estes
sintomas incluem vontade frequente de urinar (sobretudo de noite), aumento da sede,
fome e cansaço extremo ou fadiga. Isto acontece porque os rins tentam eliminar a
glicose que está em excesso no sangue, e ao urinar mais terá também mais sede pois o
seu corpo precisa de repor os líquidos eliminados. A fadiga surge porque o organismo
não consegue utilizar a glicose como energia (McNamara, 2002, p. 7).
De acordo com Bobak, Lowdermilk, e Jensen (1999, p. 661), algumas mulheres com
diabetes gestacional podem manifestar os sintomas clássicos da diabetes. Contudo, o
aparecimento de diabetes durante a gravidez poderá ser completamente assintomático
(Silva & Martins, 2004, p. 16).
3. Diabetes e gravidez
3.1. Classificação da Diabetes na Gravidez
De acordo com Mendes (1993, p. 165) e Bobak, Lowdermilk, e Jensen (1999, p. 646), com
o objectivo de determinar um possível prognóstico do desenvolvimento materno e fetal
durante a gestação, a diabetes na gravidez foi categorizada através do sistema de
classificação de Priscilla White (1980). Este sistema fundamenta-se na idade do começo
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da patologia e sua duração, assim como nas complicações da diabetes e na gravidade
das alterações vasculares que aparecem.
A classificação de Priscilla White não se relaciona com o tipo de diabetes apresentada
(tipo I ou tipo II), se bem que, por exemplo, na classe A só se insiram mulheres com
diabetes do tipo II, isto é, não insulino-dependentes. As classes desta classificação vão
de A a T (por ordem alfabética) e, principalmente a partir da classe F, as complicações
durante a gravidez e a morbilidade perinatal são mais acentuadas, aumentando
proporcionalmente. A diabetes gestacional deve ser ponderada separadamente, não só
pelas implicações fetais e neo-natais que envolve, como também pela sua
particularidade. Na diabetes gestacional destacam-se dois grupos, o das mulheres que
conseguem controlar as suas glicemias, só com dieta e exercício; e as que necessitam de
insulina para o fazer (Mendes, 1993, pp. 165-166).
Os profissionais de saúde através desta classificação podem reconhecer quais as
mulheres em alto risco durante a gravidez (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, p. 646).
Actualmente a classificação mais usada é a denominada classificação clássica, a que
divide a diabetes em Diabetes tipo I, Diabetes tipo II e Diabetes gestacional.



Quadro 1
Classificação da diabetes na gravidez, segundo Priscilla White (1980) (adaptado de Mendes, 1993, p.
163)
PTGO anormal, mas euglicemia mantida só com a dieta. Diabetes
Gestacional Dieta insuficiente – necessidade de insulina
Classe A
Tratamento só com a dieta, independentemente da duração da doença
ou idade de início.
Classe B Idade de início ! 20 anos (em adulto), duração < a 10 anos.
Classe C
Idade de início entre os 10 e os 19 anos (em jovem), duração da doença
de 10 a 19 anos.
Classe D
Idade de início < 10 anos (em criança), duração > 20 anos, com
retinopatia ou hipertensão (exclusão de pré-eclâmpsia).
Classe F Nefropatia com proteinúria > 500 mg/dia.
Classe R Retinopatia proliferativa/hemorragia do vítreo.
Classe RF
Critérios das classes F e R associados
(Nefropatia com proteinúria > 500 mg/dia e retinopatia proliferativa/
hemorragia do vítreo).
Classe H
Doença cardíaca aterosclerótica clinicamente evidente (doença
coronária).
Diabetes
diagnosticada antes
da gravidez
Classe T Transplantada renal prévia.
3.2. Diabetes Pré-Gestacional
A diabetes pré-gestacional ou diagnosticada antes da gravidez pode ser do tipo I
(insulino-dependente) ou do tipo II (não insulino-dependente), e ser ou não complicada
por nefropatia, retinopatia e doença vascular, entre outros. Porém, durante a gravidez,
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tanto as diabéticas do tipo I como do tipo II são consideradas insulino-dependentes,
porque os anti-diabéticos orais que as diabéticas tipo II pudessem eventualmente tomar
estão contra-indicados numa gravidez, devido a potenciais efeitos nefastos no feto.
O facto de serem diabéticas antes de engravidarem associado ao estado diabetogénico
que uma gravidez pode implicar, quando estas mulheres engravidam poderão ter mais
problemas no que diz respeito ao controlo glicémico e ao aparecimento de complicações
secundárias à diabetes (por exemplo, alterações vasculares) (Bobak, Lowdermilk, &
Jensen, 1999, p. 648).
Na perspectiva dos autores anteriormente mencionados, é recomendado a todas as
mulheres com diabetes que desejem engravidar e em idade reprodutiva que façam um
aconselhamento pré-concepcional. Este aconselhamento antes da concepção visa o
planeamento da altura ideal para engravidar, a execução de um controlo glicémico
antes da concepção e a avaliação da mulher para detectar possíveis complicações
vasculares inerentes à diabetes. Tanto a mulher como o seu companheiro devem ser
informados sobre os efeitos e possíveis complicações causadas pela diabetes na
gravidez, assim como reagir a essas alterações. Tal como já foi referido, os anti-
diabéticos orais devem ser suprimidos antes e durante a gravidez, uma vez que
exercem efeitos teratogénicos sobre o feto. Todo este planeamento e aconselhamento
encontram-se associados à melhoria dos resultados da gravidez nas mulheres que
padecem desta patologia.
3.2.1. Riscos e Complicações Maternas
Segundo Bobak, Lowdermilk, & Jensen (1999, pp. 648-650), a diabetes pré-gestacional
pode implicar o desenvolvimento de complicações durante a gravidez e por em risco a
mulher. Estas complicações podem ser:
! O aborto espontâneo, que ocorre geralmente devido ao um controlo da glicemia
deficiente na altura da concepção e primeiras semanas da gravidez;
! A hipertensão induzida pela gravidez ou pré-eclâmpsia, resultado do aparecimento de
alterações vasculares pré-existentes;
! O hidrâmnios (ou poli-hidrâmnios), que pode provocar a distensão excessiva do útero e
aumentar o risco de ruptura prematura de membranas, ou seja, trabalho de parto
prematuro e possivelmente, hemorragia pós-parto;
! Infecções, que podem ser frequentemente vaginais (candidíase) ou urinárias (devido à
glicosúria). Estas infecções causam aumento da resistência à insulina, podendo levar a
uma cetoacidose (consequência de hiperglicémia não tratada) e podem também induzir
o parto prematuro;
! Cetoacidose, que é frequentemente originada por doses inadequadas de insulina,
infecções ou doenças maternas. A cetoacidose coloca não só a mãe, como a vida do feto e
risco, ocorrendo mais frequentemente no segundo e terceiro trimestre pois o efeito
diabetogénico da gravidez é maior. Dependendo da altura da gravidez em que surja,
pode conduzir à morte fetal intra-uterina;
! Hipoglicémia, que se ocorrer durante o primeiro trimestre da gravidez poderá causar
malformações congénitas no feto.
Na perspectiva de Mendes (1993, p. 166) a retinopatia é uma das complicações da
diabetes que mais se pode agravar com a gravidez e pode inclusive surgir em diabéticas
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que não apresentavam este tipo sintomatologia. Por outro lado, a nefropatia e a
hipertensão são os problemas que poderão provocar com mais frequência a morbilidade
neo-natal e a mortalidade perinatal. De referir que as diabéticas com doença coronária,
durante a gravidez, poderão desenvolver quadros clínicos graves do ponto de vista
cardíaco, provocando até angina de peito e enfarte do miocárdio.
3.2.2. Riscos e Complicações Fetais/Neonatais
Existe um grande risco de complicações para a criança e para mãe desde que esta
engravida, que podem ser ligeiras ou transitórias, mas que geralmente se apresentam
como uma ameaça à vida, resultando na morte da criança em casos extremos. Um
rigoroso controlo glicémico antes e durante a gravidez é fundamental na diminuição
dos valores de morbilidade e mortalidade do recém-nascido. Contudo, nem sempre este
controlo é possível e as complicações acabam por surgir. Um dos problemas
relacionados com o controlo deficiente da glicemia antes da concepção e nas primeiras
semanas da gravidez (durante o período de formação dos órgãos) são as anomalias
congénitas, que assumem cerca de 50% de todas as mortes perinatais de crianças de
mães diabéticas (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, p. 650).
De acordo com Bobak, Lowdermilk, e Jensen (1999, p. 650) e Mendes (1993, p. 167) a
macrossomia fetal é uma das complicações fetais que pode ocorrer. A macrossomia
ocorre em recém-nascidos com peso igual ou superior a 4 kg, havendo, no feto
macrossómico, um aumento do corpo em relação à cabeça, o que poderá provocar
dificuldades no parto tais como risco de dificuldade respiratória (asfixia), traumatismos
de parto (fractura da clavícula, laceração esplénica e do fígado, lesão do plexo braquial,
paralisia facial, hemorragia subdural, entre outras), sendo talvez necessário recorrer a
cesariana ou fórceps para ajudar o parto. As crianças de mães diabéticas passam por
anomalias metabólicas aquando da transição para a vida extra-uterina, podendo ocorrer
hipoglicemia neo-natal pois há uma quebra do fornecimento de glicose ao recém-
nascido e o pâncreas deste continua a produzir insulina em níveis elevados para
combater a hiperglicémia materna in útero. Podem ocorrer também icterícia neo-natal,
que embora seja mais frequente em recém-nascidos de mães diabéticas, não é exclusivo
(Silva & Martins, 2004, p. 18). Surge, igualmente, um ligeiro aumento da incidência de
malformações do rim, coração e coluna do feto na diabetes pré-gestacional.
3.2.3. Avaliação da Grávida e Vigilância da Gravidez
A avaliação completa do estado de saúde da mulher com diabetes pré-gestacional é
muito importante no pré-natal, para se evitarem problemas posteriores e para se
realizar uma boa gestão dos cuidados à grávida.
Assim, deve-se iniciar a avaliação pela história da mulher diabética. Na consulta pré-
natal a enfermeira deve obter uma história detalhada no que diz respeito ao início e
desenvolvimento da diabetes na grávida em causa, assim como era realizada a gestão e
controlo da glicemia antes da gravidez. A enfermeira deverá apreciar também quais os
conhecimentos da grávida em relação à diabetes e gravidez, eventuais consequências e
complicações materno-fetais que possam surgir e dos cuidados a ter. Torna-se muito
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importante avaliar igualmente qual o estado emocional da mulher diabética que
engravida, pois é natural que a futura mãe esteja preocupada e receosa em relação a
possíveis complicações e que revele ansiedade e stress em relação à sua gravidez por
esta ser de alto risco. Outra fonte de stress poderá advir das alterações que terá que
fazer no seu dia a dia para poder cumprir os planos de cuidados. Avaliar o sistema de
suporte da grávida (familiares, pessoas significativas, …) e os seus conhecimentos, pois
estes poderão prestar apoio à mulher e ajudá-la nos cuidados (Bobak, Lowdermilk, &
Jensen, 1999, p. 651).
Não só na primeira consulta, como nas restantes, é imperioso realizar um exame físico
com o objectivo de avaliar o estado de saúde e os efeitos da gravidez na mulher
diabética. Este exame físico inclui electrocardiograma, avaliação de retinopatia
realizada pelo oftalmologista, avaliação da tensão arterial (devido ao risco de
hipertensão induzida pela gravidez), aumento de peso, medida da altura uterina
(valores grandes poderão indicar hidrâmnios ou macrossomia fetal) e manobras de
Leopold. Devem ser também realizados testes laboratoriais de rotina que incluem a
avaliação da função renal da grávida através da análise de uma colheita de urina das 24
horas, testes laboratoriais para avaliar o controlo da glicemia e, em todas as consultas,
realização de testes à urina para despiste de infecções urinárias, glicosúria, cetonúria e
proteinúria.
A vigilância fetal é essencial na gravidez complicada por diabetes porque permite
apreciar o bem-estar e crescimento fetal. São realizadas várias ecografias, não só para
avaliar a eventual presença de malformações ou anomalias cardíacas fetais como para
observar o crescimento e desenvolvimento fetal e estabelecer a idade gestacional do feto
(que permitirá determinar a data provável de parto). A avaliação da alfafetoproteína
sérica materna (entre as 16-18 semanas) permite despistar problemas neurológicos como
a espinha bífida, anencefalia ou microencefalia, com maior incidência nas grávidas
diabéticas, e poderá ser realizada uma amniocentese para diagnóstico de anomalias
congénitas. Os movimentos fetais deverão ser determinados diariamente a partir das 24
semanas, através da contagem dos “pontapés”. O bem-estar fetal poderá ser avaliado
através de uma cardiotocografia (CTG) ou ainda através do perfil biofísico fetal que
permite igualmente avaliar a adequação uteroplacentária (Bobak, Lowdermilk, &
Jensen, 1999, pp. 651-652).
Hoje em dia, se a grávida diabética conseguir manter um bom controlo glicémico,
provavelmente a sua gravidez vai até ao fim, ao invés do que acontecia antigamente,
pois era frequente realizar partos prematuros em diabéticas para evitar a morte intra-
uterina. No entanto, em grávidas com deficiente controlo da glicemia ou que
desenvolvem complicações poderá ser necessário realizar o parto antes do termo. Outra
indicação para parto imediato é quando o feto já tem maturidade pulmonar mas no que
diz respeito aos testes de vigilância fetal, tem fracos resultados (Bobak, Lowdermilk, &
Jensen, 1999, p. 652).
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3.3. Diabetes Gestacional
A diabetes gestacional, tal como o próprio nome indica, é diagnosticada durante a
gravidez. Segundo Menezes, et al. (s.d., p. 2), desenvolver diabetes durante a gravidez
não é invulgar e, normalmente, após o parto tende a desaparecer, pois os valores da
glicemia normalizam. Contudo, é provável que em futuras gravidezes volte a ocorrer e
é um factor de risco para o aparecimento posterior da diabetes tipo II.
Segundo Bobak, Lowdermilk & Jensen (1999, p. 661), embora a maioria das mulheres
grávidas não apresente qualquer sintomatologia relacionada com o aparecimento da
diabetes, alguns dos sintomas que podem surgir são a fome, sede, aumento da
frequência urinária e cansaço excessivo. O controlo rigoroso da glicemia revela-se
fundamental para que a gravidez seja levada a bom termo, tanto para a mãe como para
o feto.
3.3.1. Factores de risco
Existem vários factores de risco que condicionam a diabetes gestacional. Segundo Silva
e Martins (2004) e Menezes et al. (s.d.), os factores de risco para a diabetes gestacional
são a obesidade (peso superior a 90 kg), Índice de Massa Corporal superior a 30 (este
índice correlaciona o peso com a altura da pessoa, sendo por isso, mais completo do que
avaliar somente o peso, por exemplo, para a detecção precoce de obesidade), idade da
grávida superior a 35 anos, antecedentes familiares com diabetes, diabetes gestacional
em gravidez anterior, morte fetal ou neonatal inexplicada na gestação anterior, filho
anterior com peso ao nascer igual ou superior a 4 kg e mulheres com 3 ou mais filhos.
Para além dos factores de risco já mencionados, na perspectiva da equipa ABC da
Saúde (2004), baixa estatura, presença de hipertensão arterial, gordura de localização
abdominal, gestações anteriores com bebés muito grandes ou com malformações, atraso
no crescimento do feto, aumento excessivo de peso na gravidez actual, altura uterina
maior do que a esperada para a idade da gestação, crescimento acentuado do feto e
presença de grande quantidade de liquido amniótico (hidrâmnios – líquido amniótico
que excede os 2000 ml), são também factores de risco importantes.
Para além destes factores de risco, Bobak, Lowdermilk & Jensen (1999, p. 661)
consideram que o stress, tanto físico como emocional, pode ser um factor precipitante
para o aparecimento da diabetes em mulheres consideradas de risco. Outras causas
associadas aos factores de risco para o aparecimento da diabetes gestacional
relacionam-se com o excessivo ganho de peso, comer alimentos doces em demasia, a
falta de actividade e o fumar (s.a., 2000).
3.3.2. Diagnóstico da Diabetes Gestacional
A diabetes gestacional ou “intolerância à glicose induzida pela gravidez”, pode surgir
em qualquer grávida, mesmo sem factores de risco. Ocorre em cerca de 4-5% das
mulheres grávidas e o seu aparecimento geralmente é assintomático. Sendo assim,
todas as grávidas deverão realizar um teste de rastreio (Silva & Martins, 2004).
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De acordo com os autores acima mencionados, o teste de rastreio, denominado teste
O’Sullivan, avalia a glicemia (valor de açúcar no sangue) em jejum e uma hora depois
da ingestão de uma bebida açucarada (uma bebida que contém 50 gramas de glicose),
através de análises ao sangue. Este teste pode ser realizado entre as 24 e 28 semanas de
gravidez, e caso seja negativo, é repetido às 32 semanas. No caso de grávidas em que se
conhecem factores de risco, este teste deverá ser realizado logo no primeiro trimestre da
gravidez.
Segundo Silva & Martins (2004), um resultado positivo no teste de rastreio O’Sullivan
não é sinónimo de diabetes gestacional para a mulher. Tal como o nome indica, é
apenas um teste de rastreio, que, se der positivo, selecciona a grávida para uma prova
de diagnóstico. Esta prova de diagnóstico, mais completa, denomina-se Prova de
Tolerância à Glucose Oral (PTGO) e também deve ser realizada entre as 24 e 28 semanas
(Menezes, et al., s.d.). Na PTGO realizam-se quatro análises ao sangue. Inicialmente,
avalia-se a glicemia no sangue em jejum e ingere-se uma bebida açucarada (que desta
vez contém 100 gramas de glicose). Posteriormente, e em intervalos de uma hora, são
realizadas mais três colheitas (uma aos 60, outra aos 120 e por fim aos 180 minutos).
Considera-se que a grávida tem diabetes gestacional se dois ou mais dos quatro valores
analisados forem positivos (Mendes, 1993).
Quadro 2
Prova de Tolerância à Glucose Oral (PTGO) (adaptado de Mendes, 1993, p. 164)
- Primeiro analisar glicemia em jejum
- A seguir, ingerir 100 gramas de glicose dissolvidas em 400 cc. de água, determinando seguidamente as
glicemias aos 60, 120 e 180 minutos.
- O diagnóstico da diabetes gestacional faz-se quando dois ou mais dos seguintes valores são atingidos
ou excedidos:
Jejum 105 mg/dl (5,8 mmol/l)
1ª Hora 190 mg/dl (10,6 mmol/l)
2ª Hora 165 mg/dl (9,2 mmol/l)
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3ª Hora 145 mg/dl (8,1 mmol/l)

Considerando Mendes (1993, p. 164), os principais objectivos do diagnóstico da diabetes
gestacional, tanto do ponto de vista materno como do ponto de vista fetal e neo-natal,
são apresentados no quadro seguinte (Quadro 3).

Quadro 3
Importância do diagnóstico da diabetes gestacional (adaptado Mendes, 1993, pp. 164-165)
- Evitar a descompensação da diabetes durante a gravidez (devido à dieta ou
insulinoterapia);
- Impor medidas de contracepção futuras, evitando a prescrição de contraceptivos
considerados diabetogénicos;
Sob o ponto de
vista materno
- Estabelecer normas de vigilância de uma futura diabetes.
- Diminuir a mortalidade perinatal;
- Vigiar a morbilidade neo-natal (hipoglicémia,
hipocalcémia, hiperbilirrubinémia…);
Sob o ponto de
vista fetal e neo-
natal
- Evitar o traumatismo obstétrico (macrossomia).
A curto prazo
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- Considerar a possibilidade do risco aumentado de diabetes
e obesidade.
A longo prazo
3.2.3. Consequências da Diabetes Gestacional para a Mãe e Feto
De acordo com Silva & Martins (2004, p. 18), ao desenvolver diabetes durante a
gravidez, tanto a futura mãe como o feto podem sofrer o desenvolvimento de algumas
complicações. Estas complicações na grávida podem incluir: infecções urinárias e
vaginais; hidrâmnios (que pode causar desconforto materno); parto pré-termo; e
descontrole da tensão arterial, que por vezes poderá ser pré-eclâmpsia. No feto e recém-
nascido, as complicações poderão ser: macrossomia (que é a complicação mais
frequente na diabetes gestacional, podendo induzir a um parto por cesariana ou
fórceps, ou seja, não natural), traumatismos de parto, risco de dificuldade respiratória
(principalmente se o parto ocorrer antes do tempo), hipoglicemia e icterícia neo-natal.
Poderão ainda apresentar hipocalcemia, policitemia e hiperbilirrubinémia (Bobak,
Lowdermilk, & Jensen, 1999, p. 661).
4. Avaliação da Grávida e Vigilância da Gravidez
Segundo Bobak, Lowdermilk, e Jensen (1999, pp. 661-662), a avaliação da grávida inclui
o despiste de factores de risco que possam provocar a diabetes gestacional na mulher
grávida, e informá-la acerca dos sintomas que eventualmente poderá sentir se a
patologia ocorrer; contudo é também necessário alertá-la para o facto da diabetes
gestacional ser, muitas vezes, assintomática. O aparecimento de diabetes durante a
gravidez poderá constituir uma crise, não só para a mulher, como para a sua família,
pois estes têm a conotação de que esta é uma gravidez de risco. Sendo assim a família
poderá viver momentos de medo e ansiedade em relação ao bem-estar da mãe e feto. É
imperativo que sejam realizados ensinos à grávida no sentido de esta aprender
rapidamente como conviver e tratar a sua diabetes para evitar futuras complicações.
A vigilância da gravidez será feita da mesma forma como na mulher com diabetes pré-
gestacional, já mencionada anteriormente.
4.1. Tratamento e controlo da diabetes na gravidez
Sob o ponto de vista de Silva & Martins (2004, p. 1 8) e Menezes, et al. (s.d., p. 2), no
tratamento e controlo de uma diabetes gestacional torna-se indispensável o trabalho de
uma equipa multidisciplinar que pode incluir:
! Obstreta responsável pela vigilância da gravidez e sua evolução;
! Endocrinologista, técnico que lida directamente com os distúrbios hormonais, dos quais
a diabetes faz parte (ou diabetologista);
! Dietista/Nutricionista, que prepara uma dieta personalizada e poli fraccionada, com
restrição de açucares;
! Enfermeira educadora, responsável pelo ensino da dieta e correcção de erros durante a
alimentação;
! Neonatologista;
! Assistente social e psicólogo, se possível.
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Para que o trabalho desta equipa multidisciplinar seja proveitoso, a grávida deverá
colaborar e participar activamente no seu tratamento.
Após o diagnóstico da diabetes gestacional torna-se necessário a implementação de um
programa de dieta e exercício físico, que, na maioria das vezes, são suficientes para o
controlo dos níveis de açúcar. Quando, porém, isto não acontece, é necessário recorrer-
se à administração de insulina, de acordo com as necessidades e valores de glicemia da
grávida (Silva & Martins, 2004, p. 18).
4.1.2. Controlo e Vigilância dos Níveis de Glicemia
Tal como já foi referido anteriormente, o controlo da glicemia durante a gravidez é
fundamental para evitar complicações e problemas, tanto para a grávida como para o
feto. De acordo com McNamara (2002, p. 18) e Silva e Martins (2004, p. 19), o melhor
controlo da glicemia faz-se obtendo pequenas amostras de sangue (picando o dedo) ao
longo do dia que são analisadas por aparelhos próprios para o efeito, indicando a
quantidade de glicose que existe no sangue no momento do teste. A necessidade de
medir a glicemia várias vezes ao dia prende-se com o facto destes valores variarem ao
longo do dia e conforme a alimentação. Para além de ser necessário avaliar a glicemia
várias vezes ao dia é também importante fazer um registo de todos os valores para
mostrá-los posteriormente ao médico, pois só assim é possível avaliar se o controlo da
glicemia é ou não eficaz.
Segundo Bobak, Lowdermilk e Jensen (1999, p. 654), os níveis de glicemia são
normalmente avaliados antes das refeições e 2 horas após estas, e antes de se deitar. Os
níveis normais de glicemia numa mulher grávida estão descritos no quadro 4.

Quadro 4
Níveis de glicemia normais para uma grávida (adaptado de Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, p.
654)
Momentos de avaliação Níveis de Glicemia (mg/dl)
- Antes do pequeno-almoço 60 a 90
- Antes do lanche, jantar e antes de deitar 60 a 105
- Duas horas após as refeições 60 a 120

4.3. Tratamento da Diabetes
Tal como já foi referido anteriormente, o tratamento da diabetes poderá ser realizado
através de um programa de dieta, exercício físico ou insulinoterapia.
4.3.1. Dieta
A alteração dietética é o aspecto mais importante na gravidez gestacional, que tem
como principais objectivos manter a glicose num nível normal e manter ou readquirir
um peso adequado durante a gravidez. A grávida deverá fazer uma dieta variada e
bastante completa, consumindo diariamente três refeições principais e três ou quatro
refeições ligeiras e ingerir cerca de 2 a 3 litros de líquidos, de preferência água. Nestas
refeições deverá excluir os açúcares de cadeia simples, diminuir a ingestão de gorduras
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e aumentar a ingestão de alimentos ricos em fibras (por exemplo, legumes e hortaliças)
e glícidos de cadeia complexa. No final da gravidez, e para que a mulher tenha um peso
ideal deverá ter aumentado de peso entre 10 a 13,5 kg (cerca de 400 gramas por semana)
(Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, pp. 662-663; Silva & Martins, 2004, p. 18).
4.3.2. Exercício físico
O exercício físico diário é uma parte integral do tratamento, pois vai ajudar a baixar os
níveis de glicemia ao gastar energia do organismo – logo as necessidades de insulina
serão diminuídas (diabetes tipo II e gestacional). Os exercícios mais recomendados são
caminhar após as refeições (entre 20 a 30 minutos), exercícios com os braços, natação e
todos os outros que podem preparar a mãe para o esforço do parto (Silva & Martins,
2004, p. 19). Segundo Bobak, Lowdermilk e Jensen (1999, p. 655) quando existe diabetes
pré-gestacional tipo I, o plano de exercícios físicos deve ser prescrito cuidadosamente e
a grávida deve ser vigiada pelos técnicos de saúde.
4.3.3. Insulinoterapia
Quando a dieta e o exercício físico não são suficientes é necessário recorrer-se à
administração de insulina. A grávida deverá ter a intenção que a dose de insulina
poderá variar ao longo da gravidez, pois tende a aumentar conforme a sua evolução. A
administração de insulina faz-se através de uma injecção subcutânea e não causa
dependência deixando de ser necessária normalmente após o parto. É necessário ter em
atenção que uma diabética que engravida, se tomava comprimidos para controlar a sua
diabetes, deverá contactar o médico para iniciar insulina (Silva & Martins, 2004, p. 19).
4.4. Cuidados Especiais
Durante a gravidez é necessário alertar a mulher diabética para as alterações que
podem ocorrer e informá-la acerca do regime de tratamento. A mulher com diabetes
pré-gestacional já tem conhecimentos acerca da doença, dieta, insulina, exercício e
controlo da glicemia. Mesmo assim é necessário acompanhá-la durante a gravidez e no
planeamento de cuidados, informando-a de alterações e complicações que podem
ocorrer e como reagir face a estas. É neste aspecto que o papel do enfermeiro é
preponderante (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, p. 653).
A vigilância pré-natal e os cuidados à grávida diabética são mais frequentes do que
para as restantes grávidas. Caso a grávida tenha dificuldades em controlar a sua
glicemia terá que cumprir com as consultas agendadas até ao parto, pois são muito
importantes para o despiste de complicações. Em algumas situações as grávidas
poderão ser hospitalizadas para estabilizar os níveis de glicemia e regular a dosagem de
insulina. A hospitalização permite educar a grávida no que diz respeito à, auto
administração de insulina, e regulação da glicose sanguínea (Bobak, Lowdermilk, &
Jensen, 1999, pp. 655-656).
Alertar a mulher para as complicações que possam surgir durante a gravidez é muito
importante. A grávida deverá saber que necessita de contactar o médico quando
surgem náuseas, vómitos ou infecções. Informar a grávida acerca da hipoglicemia e
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hiperglicémia é igualmente importante. Não deve fazer viagens e sempre que estiver
fora de casa deve ter açúcar, seringas e insulina “à mão” (Bobak, Lowdermilk, & Jensen,
1999, p. 656).
4.4.1. Durante o parto
A mulher com diabetes pré-gestacional tem que ser vigiada para evitar problemas como
a desidratação, hipoglicemia e hiperglicémia, durante o parto. É necessário ter em
atenção que estes são partos de alto risco, pelo que é fundamental que os níveis de
glicose estejam controlados, pois no caso de haver hiperglicémia materna há perigo de
asfixia perinatal e o recém-nascido poderá também ficar hipoglicémico. Outras
complicações durante o parto podem ser devidas à presença de uma criança
macrossómica e/ou incompatibilidade feto-pélvica que implica a realização de uma
cesariana (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, p. 657).
4.4.2. Após o parto e amamentação
As necessidades de insulina na mulher com diabetes tipo I são menores, pois a placenta
(resistente à insulina) foi retirada. E a mulher diabética tipo II no período pós-parto,
normalmente não necessita de insulina, conseguindo manter a normoglicemia apenas
com dieta ou com anti-diabéticos orais (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, p. 657).
As principais complicações que ocorrem no puerpério são pré-eclâmpsia, infecções ou
hemorragia (principalmente se houve hidrâmnios ou feto macrossómico).
A grávida deve ser incentivada a amamentar o filho, uma vez que a amamentação tem
um efeito anti-diabetogénico, para além da satisfação materna que a amamentação pode
oferecer. A amamentação faz com que as necessidades insulínicas da mãe diminuam,
pelo que as doses de insulina devem ser reduzidas (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999,
p. 657). No caso de ser uma mãe diabética tipo II ao amamentar não deve fazer
terapêutica com anti-diabéticos orais (Silva & Martins, 2004, p. 20).
As mulheres com diabetes gestacional, no período pós-parto, geralmente voltam a ficar
normoglicémicas. É importante que a mulher esteja informada acerca do planeamento
de futuras gravidezes, pois tem um maior risco de desenvolver diabetes. Deve estar
também desperta para o possível aparecimento de diabetes (tipo II) no futuro, mesmo
que não engravide (Bobak, Lowdermilk, & Jensen, 1999, p. 663).
5. Aspectos Psicológicos da grávida com diabetes
A gravidez é um acontecimento único na vida da mulher. É um fenómeno que desperta
sentimentos que pareciam não existir, mas que apenas estavam esquecidos desde o
nascimento. Estes sentimentos revelam-se como uma resposta perante as
transformações biológicas, sociais e pessoais inerentes ao processo de gravidez.
De acordo com Colman e Colman (1994), cada mulher reage de uma forma única a esta
fase da sua vida. Contudo, parece existir uma dinâmica psicológica presente na maior
parte das mulheres. É esta dinâmica psicológica, desencadeada pelas transformações
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fisiológicas e por estar a desenvolver um ser dentro de si, que faz com que a gravidez
seja um momento diferente de qualquer outro na sua vida.
De uma forma geral, as mulheres vivem a gravidez como um acontecimento tanto físico
como psicológico. As mudanças que ocorrem no seu corpo, devido a alterações
hormonais, bem como o próprio ambiente social e familiar à sua volta e expectativas
culturais condicionam a forma como se adapta a esta nova circunstância da sua vida.
Os sentimentos vividos nesta altura podem ser ambíguos e confusos. A mulher pode
sentir-se realizada, feliz, mas por outro lado pode sentir-se confusa, receosa e assustada.
Para poder ultrapassar tais transformações psicológicas, deve saber encontrar um
equilíbrio e harmonizar todo o processo complexo que se desenvolve à sua volta.
As mulheres grávidas podem ficar propensas a rápidos acessos de ansiedade e
deprimidas, mudar rapidamente de sentimentos de raiva para perdão. Esta “labilidade
emocional” será tanto ou mais acentuada em mulheres que sofrem de uma patologia
que poderá colocar em risco a sua vida e a do seu bebé.
Como tal, se uma grávida saudável experimenta várias alterações, não só a nível físico
mas principalmente a nível psicológico, é de esperar que uma mulher grávida que
encontre à mercê de uma patologia, como a diabetes, sofra ainda mais alterações e mais
intensamente.
Uma mulher com diabetes pré-existente à gravidez, encontra-se, em princípio, mais
desperta para o facto de ter que planear a sua gravidez e já conhece as rotinas do
controlo e tratamento da diabetes, pelo que, possivelmente, poderá adaptar-se mais
facilmente à sua nova condição; mesmo que a gravidez não tenha sido planeada, o facto
de já conhecer a patologia e tudo o que a ela está inerente, por si só já a ajuda a adaptar-
se melhor à situação. Todavia, uma mulher que sempre foi saudável e que ao
engravidar depara-se com uma patologia desta natureza poderá sentir muitas
dificuldades em se adaptar e aceitar a sua nova condição, não só de estar grávida, como
também receber o diagnóstico de diabetes, que é genuinamente assustador.
Assim, estas grávidas (com diabetes) poderão ser invadidas por sentimentos de
ansiedade, receio e medo, não só relacionados com a sua saúde como com a saúde do
seu filho e com as complicações que podem surgir durante a gravidez, originando
desequilíbrios emocionais. Inicialmente, a mulher poderá até rejeitar o diagnóstico e pôr
em causa tudo o que lhe foi comunicando, afirmando que se sente bem e que se
enganaram na pessoa. Sentimentos como a raiva e irritação poderão surgir em algumas
grávidas com diabetes, pois não querem acreditar e recusam o que lhes está a acontecer.
As grávidas diabéticas, principalmente nos casos em que a diabetes surge durante a
gravidez, poderão ainda verem-se confrontadas com o “medo do desconhecido”. Como
na maioria das vezes a pessoa já tem representações acerca da doença diabetes,
frequentemente vista como um grande problema, o medo, a insegurança e a angústia
poderão surgir. Nesta altura o papel do profissional de saúde revela-se indispensável,
porquanto é este que a vai apoiar emocionalmente e que vai desmistificar os conceitos e
ideias erradas que a senhora tem acerca da doença, minimizando os seus receios. Isto
porque, tal como o desconhecimento acerca de algo despoleta sentimentos de medo,
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insegurança e angústia, o conhecimento poderá minimizar estas emoções e trazer
confiança, motivação e auto-estima.
Para mais, quando a mulher grávida é informada do seu diagnóstico, fica também a
saber que a sua gravidez é de alto risco, o que poderá despertar sentimentos como a
ansiedade, medo, baixa de auto-estima ou até desgosto pela sua situação e, em vez de
desfrutar da sua gravidez e de tirar prazer da sua condição, a mulher sente que a
gravidez se transformou num fardo pesado, difícil de carregar. Por outro lado, o facto
de saber que tem uma gravidez de alto risco poderá ter um efeito contrário – a mulher
poderá ficar motivada e decidir ter todos os cuidados necessários (e mais alguns) para
seguir em frente e enfrentar todos os problemas.
Numa mulher que nunca teve contacto com as rotinas de controlo da diabetes e
administração de insulina, a diabetes gestacional poderá revelar um grande problema.
Esta senhora poderá sentir-se mais ansiosa com as oscilações da glicemia e ter medo de
se enganar na dosagem de insulina ou de dar injecções em si própria. Os enfermeiros
têm nestes casos, um papel fundamental. Fornecer informação acerca da diabetes e da
administração de insulina, explicar e demonstrar como e onde se faz a auto
administração de insulina, fazer uma “cábula” juntamente com a mulher grávida pela
qual esta se possa orientar quando tiver que administrar insulina, poderá tornar esta
situação menos “negativa” e a mulher não se sentirá sozinha, não se sentirá assolada
pelas dúvidas, estará mais confiante e calma, e andará mais feliz no seu dia-a-dia.
Assim, em vez de ser invadida por sentimentos “negativos”, a grávida poderá ficar
motivada e consciente de que o seu auto-cuidado e vigilância da gravidez são
fundamentais para si e para o pequeno ser que cresce dentro dela. Desta forma a
gravidez poderá ser um incentivo para a mulher se tratar e dar tudo por tudo para
cuidar de si e do seu filho.
Em suma, a mulher grávida com diabetes tem uma gravidez de risco, pelo que deverá
ser feito um acompanhamento mais frequente e próximo. É importante não esquecer
que o internamento pode ser uma realidade e causar um agravamento de todos os
sintomas físicos, psicológicos e sociais.
Contudo este estado será tanto mais problemático consoante a própria estrutura da
personalidade da mulher grávida com diabetes, consoante o stress a que está sujeita,
que tipo de informação é que teve acesso e ao tipo de apoio afectivo recebido. A
presença do pai nesta altura é uma forma de ambos (mulher e homem) reflectirem sobre
a realidade que estão a viver e procurar ultrapassá-la da forma mais harmoniosa
possível. O pai, por seu lado, deverá considerar-se tão grávido quanto a mãe, pois ao
acompanhar a mulher, também vai experimentar mudanças relacionadas com o
desenvolvimento e a chegada do seu filho, e a patologia de que esta sofre vai alterar
também o seu modo de vida. Uma forma do pai ajudar a mulher com diabetes
gestacional, por exemplo, é adoptar a nova dieta que esta agora terá que realizar; ao
acompanhar a mulher comendo o que esta come, está a ajudá-la e a mostrar-lhe que este
se preocupa com ela.
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Não só a presença do pai, mas o apoio dos seus familiares e pessoas significativas
também se vai revelar fundamental, pois através da sua presença, apoio e carinho
poderão ajudar a futura mãe a ultrapassar toda esta fase e acabarão por contribuir para
o aumento da sua segurança e auto-estima. Desta forma, esta não se sentirá
desamparada nem sozinha.
Tal como já foi mencionado anteriormente, o papel dos profissionais de saúde é
extremamente importante nestes casos. Quando se refere profissionais de saúde quer-se
dizer uma equipa multidisciplinar que, em conjunto com a mulher e sua família,
conseguirá levar avante uma gravidez controlada. Não só o médico ou o enfermeiro
têm papéis fundamentais, mas destacam-se também a presença do obstetra,
nutricionista, diabetologista e, como não podia deixar de ser, do psicólogo que detém
um papel importantíssimo, já que a nível psicológico ocorrem muitas alterações e por
muito que o enfermeiro ou outro profissional de saúde apoie a mulher grávida
emocionalmente, é o psicólogo que detém os conhecimentos necessários para ajudar a
grávida a compreender e a ultrapassar tudo o que se passa com ela psicologicamente.
6. Conclusão
Abordar o tema Diabetes e Gravidez permitiu-nos olhar para a gravidez de uma forma
diferente, ao apercebermo-nos das alterações que decorrem dela, ainda por cima
quando está associada uma patologia, como seja a diabetes, e de todo o mundo que
rodeia a mulher grávida e feto, o seu companheiro ou até os seus familiares.
Actualmente, com os avanços na medicina, a vigilância da gravidez e a evolução dos
cuidados prestados à grávida, a maioria das gravidezes associadas a diabetes
desenvolvem-se bem e sem grandes complicações, embora estas gestações sejam
consideradas de alto risco. Se a grávida diabética conseguir manter um bom controlo da
glicemia e se a sua gravidez for bem vigiada, provavelmente esta vai até ao fim, ao
contrário do que acontecia antigamente (os partos prematuros em diabéticas eram
frequentes para evitar a morte do feto).
Desta forma, sensibilizar a grávida para comparecer a todas as consultas durante a
gravidez de saúde torna-se muito importante. É necessário que esta entenda o quão
importante é cumprir as recomendações dos profissionais de saúde, pois estas vão
permitir que a futura mãe e a criança tenham uma gravidez com menos riscos e um
parto com menos complicações, culminando no nascimento de um bebé saudável. Para
que isto aconteça a grávida deverá conseguir aceitar a sua doença, tentar lidar com ela
de forma positiva e participar activamente no controlo e tratamento da diabetes, o que
por vezes se torna difícil, pois implica um esforço suplementar e a mudança de
comportamentos. Nesta fase, a presença do companheiro da grávida e dos seus
familiares vai revelar-se fundamental. Através da sua presença, apoio e carinho
poderão ajudar a futura mãe a ultrapassar toda esta fase e acabarão por contribuir para
o aumento da sua segurança, confiança e auto-estima.
No que diz respeito aos aspectos psicológicos, muitas vezes a grávida poderá sentir-se
ansiosa, sozinha, desamparada, receosa, insegura e poderá haver uma diminuição da
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auto-estima, devido ao aparecimento da diabetes gestacional. Por outro lado, ao ter
conhecimento de toda a sua situação e ao conseguir lidar com a situação, ao estar
informada e esclarecida, a grávida poderá ficar confiante, a sua auto-estima aumentará
e estará motivada para continuar em frente.
O papel dos profissionais de saúde, através da actuação de uma equipa
multidisciplinar, é muito importante nestes casos, pois em conjunto conseguirão
orientar e ajudar a grávida e os seus familiares a ultrapassarem este período da melhor
forma.
A realização deste trabalho revelou-se extremamente importante pois permitiu-nos
adquirir novos conhecimentos, actualizar conhecimentos que já possuíamos e,
sobretudo, despertou-nos para a complexidade das alterações, não só físicas como
psicológicas, por que uma grávida diabética pode passar.
7. Bibliografia
Bobak, I. M., Lowdermilk, D. L., & Jensen, M. D. (1999). Enfermagem na Maternidade (pp. 645-
663). Loures: Lusociência.
Colman, L. L., & Colman, A. C. (1994). Gravidez – a expressão psicológica. Colecção “CLINE”.
Lisboa: Edições Colibri.
McNamara, C. (2002). A Insulina na sua Mão – Informação sobre diabetes. Paço de Arcos: Novo
Nordisk, Lda.
Mendes, L. M. (1993). Curso de Obstetrícia (pp. 162-174). Coimbra: Livraria Almedina.
Menezes, I., et al. (s.d.). A diabetes que surge durante a gravidez. Amadora: MediSense.
Pernoud, L. (1999). Vou ter um bebé (pp. 261-263). Lisboa: Contexto.
Pignatelli, D., & Carvalho, D. (1986). ABC da Diabetes (pp. 193-199). Lisboa: EuroPress.
Silva, C., & Martins, L. (2004). Diabetes e gravidez (pp. 16-20). Revista Pais & Filhos, Abril de
2004, n.º166. Lisboa: Motorpress Lisboa, SA.
Stright, B. R., & Harrison, L. O. (1998). Série de Estudos em Enfermagem – Enfermagem Materna e
Neonatal (pp. 57-59). 2ªed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
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artigo.php?209. Acedido dia 02/10/2004 às 0:31h.
Leite, H. P. S., & Moraes, W. L. (2000). Diabetes e Gravidez. http://boasaude.uol.com.br/lib/
ShowDoc.cfm?LibDocID=3875&ReturnCatID=1764. Acedido dia 02/10/2004 às 0:17h.

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Anexos

Anexo 1
“ Já tínhamos falado várias vezes um com o outro. Começámos a encontrar coisas em comum. Eu sentia-me bem
perto dele. Naquele dia, saímos das aulas e ele disse que me acompanhava a casa.
Não sei explicar bem o que sentia, mas algo muito agradável nos levava a tocarmo-nos ao de leve, como que por
acaso, mas de uma forma especial. A certa altura demos a mão e quase em seguida parámos e beijámo-nos. Senti uma
onda quente e agradável percorrer-me todo o corpo, assim como se fosse rebentar de emoção.
O meu coração batia muito depressa e tive o pressentimento de que estava a fazer algo de errado e podia, desta
maneira, perder o controlo da situação. Disse-lhe que não podíamos voltar a fazer aquilo, que tínhamos de deixar de
nos ver. Disse-lhe também que tinha receio do que estava a sentir e medo que ele me considerasse leviana. Acho que
muitos rapazes dizem que gostam das suas raparigas só porque querem servir-se delas para satisfazer os seus desejos
sexuais. Não queria que isso viesse a acontecer comigo. Fico num dilema entre o medo e a vontade de o voltar a ver”

Anexo 2
“ Eu e a F. andamos há quatro meses. Damo-nos bem, é fixe, mas eu quero ter relações. Acho que já é altura disso.
Ela não quer, diz que tem medo, porque é uma coisa muito importante para ela e que só pode fazer isso com a pessoa
certa. Eu acho é que ela não gosta muito de mim, porque se gostasse também quereria! Não percebo as raparigas,
gostam de se divertir, tudo bem, mas quando é para ter relações, recusam sempre Estão sempre a dizer que não. Já
estou farto!”

FIM
Gravidez na Adolescência

Trabalho elaborado por:
André Santos; Dinis Loja; Michael Neto; Ricardo Costa
Adolescência é...
É uma maneira de estar,
Uma maneira de ser.
É nestas alturas que apetece morrer.
Pomos a culpa nos outros,
Pomos as culpas em nós.
Aconteceu o mesmo aos meus pais e avós.
Posso sair e ir à discoteca, ou fico em casa e apanho grande seca.
Apanho borbulhas e pontos negros,
Deixei de brincar com os meus legos.
Estou meio criança e pessoa,
Estou numa alhada bem boa.
Sinto-me capaz, mas não consigo fazer nada,
A minha vida, agora está bem tramada!
Faço tudo o que posso, mas fico sempre a perder;
Faço tudo o que posso para poder viver.
Apetece beber e pegar num cigarro,
Apetece andar de moto e de carro...
Olho para as meninas que quero namorar
Mas quando percebo, puseram-se todas a andar!
Eu sou um jovem adolescente.
Sou um miúdo, inconsciente.
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Eu sou um jovem adolescente...
(Autor desconhecido)
Agradecemos toda a orientação dada pela docente Celeste Duque
para a realização deste trabalho.
Agradecemos também à Associação para o Planeamento da Família
(APF) pela colaboração que nos deu para a elaboração do trabalho
1. Introdução
No âmbito da disciplina Psicologia V, foi-nos proposta a realização deste trabalho, cujo
tema é “A gravidez na adolescência” e que visa abordar a problemática deste fenómeno
cada vez mais comum na nossa sociedade.
No passar dos últimos anos, tem-se verificado um aumento, de modo significativo, da
preocupação referente ao fenómeno da gravidez na adolescência. Este problema não
afecta só o nosso país, mas sim todo o mundo, tendo sido considerado pelos órgãos de
saúde pública mundiais como um problema de grande importância.
Nesta etapa reprodutiva (adolescência), a gravidez representa um grande desafio, pois
surge como um evento precoce e inoportuno pondo em causa a perspectiva de se
alcançar a promoção da saúde integral da saúde dos adolescentes e do seu
desenvolvimento.
Assim, a realização deste trabalho visa a compreensão de toda esta problemática. Para
isso, achamos importante desenvolver os seguintes aspectos, em primeiro lugar é feita
uma pequena abordagem a esta fase do ciclo vital, isto é, a adolescência. De seguida,
serão desenvolvidos os principais factores de risco que podem favorecer o
aparecimento de uma gravidez na adolescência. Após isso serão descritas as principais
consequências que estão inerentes a toda esta problemática. Por fim, na última parte é
descrita qual a prevenção aos três níveis, primário, secundário e terciário.
Para a realização do presente trabalho, recorremos a pesquisas bibliográficas na
biblioteca da escola e noutras bibliotecas e também alguns fornecidos pela docente da
disciplina. Recorremos também a pesquisas na Internet. Contamos também como apoio
da Associação para o Planeamento da Família que nos forneceu alguma informação
referente à temática do presente trabalho (APF).
2. Adolescência
Como foi referido na introdução, vamos começar por fazer uma pequena abordagem ao
período a que se destina o nosso trabalho, a adolescência.
Assim sendo, a palavra adolescência tem origem do latim “adolescere”, que tem como
significado “fazer-se homem/mulher” ou “crescer na maturidade”.
A adolescência pode ser definida como:
“período durante o qual, sob o efeito da maturação sexual, nos seus aspectos biológicos, psicológicos
e sociais o individuo reformula imagem de si próprio e dos outros e do sistema de relação do seu Eu
com o meio até à organização definitiva da personalidade…”(Haim, s/d; op. cit. Dias Cordeiro,
1975)
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Em termos cronológicos surge alguma dificuldade em se definir, isto porque apesar de
ser fácil verificar quando esta se inicia, torna-se muito difícil saber quando termina.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 1985), considerou a adolescência
como o período situado entre os 10 e os 19 anos de idade.
Ao longo do tempo, a adolescência tem sido encarada de diversas formas. Actualmente
caracteriza-se, como uma fase que se situa entre a infância e a idade adulta, na qual
ocorrem transformações múltiplas, rápidas e profundas mudanças bio-fisiológicas,
psicológicas e sociais as quais exigem por parte dos adolescentes adaptações rápidas e
contínuas. A facilidade ou não de adaptação está dependente de cada indivíduo e das
condições do seu contexto.
2.1. Adolescência e sexualidade
A sexualidade é uma parte inerente à condição do ser humano pois todo o ser humano
é biológica, psicológica e socialmente sexuado. Assim sendo, a sexualidade é um factor
que está presente ao longo de toda a vida, embora a forma como esta se manifesta
variar de acordo com as fases do ciclo vital. Relativamente ao adolescente, a sua
sexualidade infantil começa a passar para uma sexualidade adulta, em que o desejo e as
fantasias sexuais aumentam, havendo então a possibilidade de se apaixonarem,
estabelecerem vínculos afectivos e ainda procurarem formas relacionais para satisfação
do seu desejo sexual.
3. Factores de risco para a gravidez na adolescência
A ocorrência de uma gravidez durante a adolescência, é uma situação que tem alguma
complexidade, isto é, não é fácil encontrar qual a sua etiologia, pois há uma grande
diversidade de factores responsáveis pelo aparecimento das gravidezes. Segundo
Lourenço (1998), os principais factores, são: de natureza biológica, familiar, socio-
económica e psicológica. Para além destes factores, são também abordadas as
gravidezes desencadeadas por situações de violação e abuso sexual.
3.1. Biológicos
Estes factores relacionam-se com o facto de a idade em que ocorre a menarca ser cada
vez mais precoce, ou seja por volta do séc. XIX, a idade média da menarca rondava os
16 anos em contrapartida com os dias de hoje que ocorre muito mais cedo, por volta dos
12, 13 anos.
Sendo a menarca um conjunto de alterações hormonais do organismo feminino, as
quais determinam a passagem da não reprodutividade para a reprodutividade, quanto
mais precocemente esta ocorrer, mais cedo poderá a adolescente ficar grávida havendo
então um maior risco de ocorrência de uma gravidez na adolescência.
3.2. Factores Familiares
A família tem um importante papel na formação psicossocial do adolescente, por
exemplo na transmissão dos valores morais. O adolescente tende a adoptar
comportamentos semelhantes aos que os seus progenitores tiveram, um pai ou uma
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mãe que tenha iniciado a sua vida sexual cedo, influenciará o adolescente no início da
sua vida sexual e isso verifica-se ainda de forma mais acentuada no caso da mãe ter
ficado grávida durante a sua adolescência.
Também a própria disponibilidade ou não por parte dos pais, para falarem com os
filhos(as) acerca dos problemas associados à adolescência, mais especificamente da
sexualidade, terá influência sobre a forma como o adolescente irá adquirir os
conhecimentos referentes à sexualidade. Na maioria das vezes, o que se verifica é que
os pais mantêm um certo distanciamento para falar com os filhos sobre o assunto, o
qual vai ter influência sobre as atitudes do adolescente e na sua sexualidade.
3.3. Factores Sociais e económicos
A forma como uma gravidez na adolescência é vista, depende do contexto social em
que o adolescente está inserido, nalguns esta é vista com normalidade ao contrário de
outros que a consideram como um problema. Como exemplo disto, temos a cultura
cigana em que a maternidade precoce é algo bem aceite e muito desejado.
Ao longo do tempo, a sociedade tem vindo a sofrer constantes mutações estruturais, o
qual tem permitido uma melhor aceitação da sexualidade na adolescência. Ao se
verificar esta aceitação por parte da sociedade, maior é a probabilidade de ocorrerem
gravidezes na adolescência.
As influências dos amigos, também constituem um factor que interfere no
comportamento do adolescente.
Por outro lado, também as condições económicas têm influência, pois verifica-se uma
maior incidência de gravidezes em adolescentes pertencentes a grupos sociais mais
desfavorecidos.
3.4. Factores Psicológicos
Durante a adolescência, são poucos os adolescentes que pensam na possibilidade de
ocorrer uma gravidez, eles chegam mesmo a negar essa possibilidade, negação essa que
é maior quanto menor a faixa etária. Esta despreocupação demonstrada pelos
adolescentes reflecte-se no baixo conhecimento dos métodos contraceptivos e da
própria educação sexual, no geral. Sentimentos como, auto-estima diminuída estão
associados à gravidez e ao risco de engravidar, os quais podem ser originados por um
baixo rendimento escolar, uma baixa permissividade da família e também por uma
disponibilidade não adequada do tempo livre.
3.5. Violação e Abuso Sexual
Por vezes, a adolescente é obrigada a lidar não só com a gravidez indesejada, mas
também, com algo capaz de a traumatizar muito mais.
Infelizmente, é bastante preocupante o número de adolescentes que são violadas no
mundo. Por diversas vezes, deste episódio atemorizante e monstruoso surge algo de
inocente, uma criança. Para a jovem violada este acontecimento tem um valor muito
mais negativo do que para a rapariga que engravidou através de um acto sexual
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consentido, uma vez que se depara de uma só vez com duas situações difíceis de
enfrentar.
Perante esta nova e dramática realidade a adolescente opta muitas vezes por um aborto
(que em Portugal não é punível até às 12 semanas se a gravidez resulta de uma
violação, Artigo 142º do Código Penal Português).
Não obstante, existem jovens nesta situação que, por medo ou convicção, excluem a
hipótese do aborto. Em muitos destes casos, quando o bebé nasce a jovem desenvolve
uma rejeição para com o filho por ver nele uma eterna lembrança do terrível
acontecimento. As crianças chegam, muitas vezes a ser entregues para adopção, embora
algumas mães adolescentes decidam ficar com o filho, apesar de saberem que este é
fruto de uma violação. Estas jovens possuem talvez uma maior capacidade de
abstracção, encarando a criança não como filho da violação mas, apenas, como seu filho.
(Lourenço, 1998).
4. Abordagem Etápica da gravidez na adolescência
O esquema a seguir, representa as atitudes e comportamentos que irão conduzir à
gravidez na adolescência ou à interrupção dessa mesma gravidez. Em cada passo deste
esquema é apresentado dois comportamentos ambíguos que vão influenciar todo o
processo da instalação da gravidez.
De acordo com Coley e Chase-Lansdale, 1998 ; Furstenberg, 1976 ; Shamess , 1993:
Comportamento sexual Utilização de contraceptivos
Decisão de (man)ter vs. Decisão de não utilizar vs. Utilizar contraceptivos
Não (man)ter relações sexuais (utilizar incorrectamente vs. Utilizar correctamente)


Cuidar e educar o bebé Prosseguimento da gravidez
Decisão de cuidar vs. Abandonar Prosseguir com a gravidez vs. Interromper a gravidez

1ª Etapa: Comportamento Sexual
Hoje em dia existe uma tendência para iniciar a actividade sexual (que se entende aqui pela
realização da cópula) precocemente, o que, indiscutivelmente, levou a um aumento número
do número de mães adolescentes. Interessa-nos entender que factores influenciam esta
antecipação do contacto sexual.
De acordo com Hardy e Zabin (1991), os factores devem ser classificados como biológicos,
culturais e relacionais.
Em relação aos factores de ordem biológica, não existem ainda provas suficientes para
afirmar se a idade da menarca se encontra directamente relacionada com a actividade sexual.
Os padrões culturais influenciam a percepção que se tem em relação à adequação de um
dado comportamento em função da idade e também o entendimento do significado de
diversas expressões de intimidade sexual. Um ajustamento pobre e comportamentos
desviantes aparecem igualmente à actividade sexual precoce. Numa abordagem mais
cognitiva, o comportamento sexual é associado às crenças sobre a sexualidade que, na
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adolescência, surgem normalmente pela influência da família e do grupo de pares. Uma boa
relação mãe/filha é apontada pela literatura como antevisão de um comportamento sexual
saudável da jovem, pelo que, uma comunicação pouco receptiva com a mãe poderá facilitar a
ocorrência de comportamentos de risco. Os grupos de pares influenciam o adolescente pelas
normas que transmitem e pelo tipo de comportamento que apresentam. Adolescentes que
iniciaram precocemente a sua vida sexual reportam comportamentos similares entre os pares,
o que o faz antever ganhos sociais.
É, no entanto, necessário distinguir diferentes tipos de padrões dentro do grupo de jovens
que inicia precocemente a vida sexual. Assim, existem adolescentes que, depois da primeira
experiência sexual continuam a manter, mesmo que irregularmente, relações sexuais
desprotegidas, outras apenas voltam a ter uma segunda relação sexual anos mais tarde.
2ª Etapa: Utilização de contraceptivos
A crescente informação acerca da utilização de métodos contraceptivos (em especial, do
preservativo) não parece surtir grande efeito na prevenção da gravidez precoce.
Para justificar este facto, são utilizadas algumas explicações:
1. A gravidez adolescente surge devido à falta de informação correcta acerca de
contracepção, que dá, normalmente, origem a crenças erróneas.
2. Tendo em conta que a maior parte das adolescentes grávidas conhecia os métodos
contraceptivos, outra explicação pode ser o facto de, no início, a actividade sexual ser
esporádica, o que pode equivocar a jovem quanto à utilização de contraceptivos.
3. Outra justificação para a não utilização de contracepção são as crenças acerca das
consequências. Por exemplo, o medo de a relação sexual parecer planeada ou dos pais
descobrirem.
3ª Etapa: Prosseguimento da gravidez
Perante a nova realidade de uma gravidez, é necessário decidir continuar a gravidez ou
interrompê-la. Para a resolução deste problema vários factores entram em jogo: éticos,
morais, religiosos, políticos.
De todos os factores, aquele que parece ser o mais significativo é o apoio social que a jovem
tem ou não. O apoio mais importante surge, normalmente, da mãe da adolescente e do pai da
criança. Quando a jovem grávida se sente apoiada, é natural que a sua decisão seja a de
continuar com a gravidez; se, pelo contrário, a adolescente sentir uma ausência desse apoio,
será maior a probabilidade de se decidir pelo aborto.
4ª Etapa: Cuidar e educar a criança
A última decisão nesta sequência é a de assumir a maternidade e cuidar do novo bebé ou
decidir entregá-lo para a adopção. Esta decisão depende dos sentimentos positivos ou
negativos que a adolescente possui acerca da ideia da maternidade. As fontes de apoio têm
mais uma vez um papel preponderante na decisão da jovem.
5. Consequências da gravidez na adolescência
Ao longo do tempo, vários autores têm tratado o tema da gravidez na adolescência e
suas consequências apenas em relação à rapariga, o que faz transparecer que o rapaz é
um elemento aparte desta situação, mas tal não é verdade. O rapaz, tal como a rapariga,
também está implicado neste problema e para ele também advêm várias consequências
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negativas. Na verdade até o próprio relacionamento rapaz (pai)/rapariga (mãe) pode
ser gravemente influenciado. Para além disto, convém também não esquecer, as
consequências para o filho ou filha fruto dessa gravidez. (Associação para o
Planeamento da Família – APF, 2003).
5.1. Consequências para a rapariga
Segundo a APF (2003) até há algum tempo atrás pensava-se que a gravidez apenas
tinha consequências orgânicas para a rapariga adolescente, mas hoje em dia sabe-se que
dai também advêm consequências psicológicas, sociais, económicas, educativas e
laborais, tome a rapariga a decisão que tome (ter o filho ou abortar).
Ao descobrir que está grávida a jovem adolescente sofre um forte impacto psicológico.
Tudo é novo para ela, ameaçador, invasivo. A rapariga sente-se sozinha, sem apoio,
sente medo, stress e ansiedade. A rapariga não sabe como dizer aos pais, ao pai da
criança e não sabe como ambos vão aceitar a nova realidade. È portanto óbvio que a
rapariga sofre bastante durante este período.
A curto e a médio prazo existem consequências associadas com a decisão de ter o filho
ou abortar. No caso da rapariga optar por ter o filho surgem várias consequências
orgânicas. Assim sendo, a OMS considera as gravidezes na adolescência como
gravidezes de alto risco, pois no período de gestação, parto e pós-parto ocorrem várias
alterações orgânicas que podem comprometer gravemente a saúde dos indivíduos (mãe
e filho). (APF, 2003)
Durante a gestação são frequentes: as anemias, alterações no peso, crescimento uterino
inferior ao normal e os abortos espontâneos.
Durante o parto e o pós-parto também surgem consequências importantes. A taxa de
mortalidade das jovens adolescentes grávidas é muito superior à taxa de mortalidade
em mulheres grávidas não adolescentes.
Ainda segundo o autor anterior, hoje em dia sabe-se que a inviabilidade da gravidez
relacionada com a inviabilidade biológica, apenas é relevante em raparigas com idade
inferior a 15 ou 16 anos. A partir desta idade são mais relevantes factores como os
psicológicos e os sociais. Entre os factores psicológicos destacam-se o nulo ou escasso
cuidado pré-natal relacionado com o facto da gravidez ser quase sempre indesejada,
cerca de 80 %, o que leva a um distanciamento e ocultação de tudo o que esteja
relacionado com a gravidez.
No que diz respeito às consequências psicológicas, a jovem adolescente é bastante
afectada. Segundo Sanz de Miguel et al. (1985) “A mãe adolescente é em certo sentido uma
criança, que de repente se vê lançado no mundo adulto sem estar preparada para ele”. Para a
adolescente a decisão de aceitar ser mãe ou não, de casar são passos demasiado grandes
para uma pessoa que não está preparada. O facto de encarar este problema faz com que
a adolescente se sinta frustrada e por vezes começa a viver o chamado “síndrome do
fracasso”, ou seja, a gravidez é vista como algo que irá “destruir” a vida da jovem. A
gravidez é vista como algo que vai por um ponto final nos estudos da rapariga e que lhe
vai comprometer definitivamente o futuro. É algo que vai comprometer tudo aquilo que
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a adolescente estava predestinada a conquistar. Na generalidade das culturas a
gravidez deve ser precedida por uma série de ganhos, tais como: formação, conseguir
um trabalho e dispor de um parceiro estável. É obvio que a gravidez vai dificultar tudo
isto. Assim, podemos dizer que da gravidez também advêm consequências educativas,
sócio-económicas e relacionais. A gravidez na adolescência pode desencadear
problemas como: baixa auto-estima, stress, depressão e pode levar mesmo ao suicídio.
Estes problemas são vistos como consequências, mas também podem ser vistos como
causas para a gravidez ocorrer. (APF, 2003)
Também a forma como os familiares abordam o caso, o apoio que demonstram, vão
influenciar psicologicamente a rapariga. Uma vez que esta se sinta desapoiada por parte
da sua família, agrava ainda mais toda a situação.
Por seu turno as consequências associadas à decisão de abortar também são bastante
importantes para a vida da jovem e podem mesmo comprometer a sua boa saúde.
Os abortos na adolescência são geralmente tardios, clandestinos e vividos numa
profunda solidão. Por tudo isto ocorrem, por vezes, situações de hemorragia,
perfurações uterinas, infecções e até a morte da adolescente, uma vez que os abortos são
normalmente realizados clandestinamente. A longo prazo podem ocorrer problemas
relacionados com a fertilidade da mulher.
A nível psicológico, é de referir que a decisão de abortar é tomada sob pressão,
geralmente para evitar a rejeição social. As adolescentes sentem muitas vezes
sentimentos de tristeza, arrependimento, culpa e de perca. (APF, 2003)
5.2. Consequências para o rapaz
Segundo a APF (2003), até meados dos anos 80 o rapaz era quase totalmente ignorado
no que toca às gravidezes na adolescência, assim como as consequências que esta
gravidez pode ter para ele. Nos nossos dias embora os estudos e investigações
continuem a centrar este problema na rapariga, notamos que cada vez mais o rapaz vai
assumindo o seu papel neste problema.
As consequências que se reflectem no rapaz parecem ser directamente proporcionais ao
grau de responsabilidade que o rapaz sente na gravidez. Estas consequências podem
ser as mais variadas: psicológicas, sociais, económicas e educativas, semelhante ao que
acontece com a rapariga. O rapaz sente, também ele, baixa auto-eficácia pessoal,
ansiedade e sentimento de culpa.
Num trabalho realizado por Buchanan e Robbins (1990), verificou-se que num grupo de
2500 rapazes, aqueles cujas namoradas tinham ficado grávidas na adolescência, ou
tinham abortado, exibiam um maior grau de stress psicológico que os restantes. (APF,
2003)
Segundo o instituto Alan Guttmacher, num outro estudo realizado, cerca de 70% dos
rapazes que tinham tido um filho na adolescência tinham conseguido acabar os estudos
até aos 24 anos, os outros rapazes concluíram os estudos académicos com uma eficácia
de 97% até aos 24 anos.
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Como o rapaz também fica “grávido” tem de ser implicado necessariamente neste
problema, e também a ele deve ser prestado apoio numa situação de gravidez na
adolescência. (APF, 2003).
5.3. Consequências para o casal de adolescentes
Segundo o APF (2003), quando surge uma situação de gravidez entre adolescentes a
relação entre eles fica obviamente afectada. Ambos têm de decidir se irão manter aquela
relação e em que condições e se vão ou não aceitar a gravidez. Têm de decidir em
conjunto se vão formar uma família independente ou se são viver em casa dos pais, ou
seja, são tomadas várias decisões importantes que podem gerar atrito ente eles. Num
estudo feito comprovou-se que na nossa cultura cerca de 76% das raparigas
adolescentes (14 aos 19 anos) casam antes do parto ou antes do aborto espontâneo. O
casamento geralmente acontece devido a pressões sociais ou familiares e como tal, este
casamento é também ele geralmente indesejado, acabando por vir a fracassar mais
tarde.
Os casais de adolescentes que optam viver independentemente normalmente vivem
com problemas económicos, abaixo do limiar de pobreza. Por seu turno quando os
adolescentes optam por viver com os pais conseguem suportar melhor todos os
encargos e o abandono escolar é menos evidente.
5.4. Consequências para o filho ou para a filha
De acordo com o APF (2003), uma criança filha de pais adolescentes, fruto de uma
gravidez indesejada, pode ser seriamente afectada durante toda a sua vida.
As consequências iniciais podem passar por: imaturidade fetal, baixo peso para a idade
gestacional e até pela morte da criança nos dias próximos do parto ou até ao primeiro
ano de vida. Segundo Alan Guttmacher Institute (1981), uma criança filha de mãe
adolescente tem três vezes mais probabilidade de morrer até ao primeiro ano de idade
do que uma criança filha de uma mãe não adolescente. Vários estudos demonstraram
que estas crianças são mais propensas a sofrer de problemas neurológicos, epilepsia,
paralisia cerebral, surdez e cegueira.
Já durante a infância, devido à fraca habilidade parental dos adolescentes e devido ao
elevado nível de stress e ansiedade ao qual os adolescentes estão submetidos, a criança
pode carecer de atenção por parte dos pais, tanto físicas como psicológicas. Podem
surgir na criança problemas de comportamento, de insucesso escolar e baixo
rendimento intelectual. (APF, 2003)
Ao passar por toda esta panóplia de situações a criança mais tarde, já durante a
adolescência, pode vir a ter problemas com a lei e alguns comportamentos anti-sociais.
Vários autores defendem a tese que os filhos de pais adolescentes, durante a sua
adolescência podem ser envolvidos, também eles, numa gravidez na adolescência, pois
a primeira relação coital destes indivíduos tende a ser bastante cedo. (APF, 2003)
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6. Prevenção da gravidez na adolescência
As mães adolescentes e seus filhos são um dos aspectos preocupantes que merece uma
atenção especial e exige uma urgente tomada de medidas preventivas, pois a realidade
portuguesa é que no que toca às relações sexuais, e apesar de todas as campanhas, os
jovens portugueses ainda se protegem pouco, segundo concluiu um estudo da
Associação para o Planeamento Familiar divulgado recentemente. (Lourenço, 1998)
6.1. Níveis e tipos de prevenção
Existem dois tipos de prevenção: comportamento e contexto.
Tomar medidas preventivas torna indispensável tratar do planeamento, implementação
e avaliação de programas destinados aos indivíduos e à comunidade em geral.
Segundo (Keating, 1986; Caplan, 1980), a acção preventiva exige não só conhecimentos
teóricos, práticos e profissionais aprofundados do desenvolvimento dos adolescentes,
mas também dos problemas das pessoas envolvidas no desencadear das circunstâncias.
Por isso, é preciso compreender a maneira de se comportar dos adolescentes, mas
também os problemas sociais, económicos, políticos e administrativos. É na
comunidade que os adolescentes encontram alguém em quem confiem e que respeitem
para os ajudar a superar o momento difícil de decidir quando e como deve ser dado o
passo de uma primeira relação sexual ou a tomar decisões sobre os actos dela
decorrentes. Ou tão só esclarecer dúvidas sobre sexualidade, os seus mecanismos, a sua
relação com o amor, as suas consequências e riscos. Os pais, deverão estar na primeira
linha dessa ajuda. É certo que, por inibição, por se recusarem a aceitar que os filhos já
cresceram ou por preconceito, muitas vezes não são eles a tomar a iniciativa de falar de
sexo. Mas é provável que estejam receptivos e vale a pena correr o risco de uma
conversa. Mas existem outros ouvidos disponíveis além da família, tais como colegas,
professores, médicos e psicólogos nos centros de saúde, nas consultas de planeamento
familiar; e assistentes sociais nos centros de Atendimento a Adolescentes, todos têm um
papel a desempenhar para dar resposta e encaminhar os adolescentes para os serviços
competentes que os ajudem a enfrentar as crises. (Lourenço, 1998)
Segundo Lourenço (1998), os conhecidos três tipos de prevenção (primária, secundária,
terciária) devem envolver todos os elementos do triângulo relacional: adolescente –
família – escola. A acção preventiva sobre a gravidez na adolescência deve ser encarada
numa perspectiva global de prevenção de contextos: familiar e escolar.
1. A prevenção primária, visa registar a difusão das doenças (epidemiologia) e a limitar a
sua extensão;
2. A prevenção secundária, consiste em impedir ou em controlar as complicações dessas
doenças;
3. A prevenção terciária é relativa às formas crónicas, os handicaps que elas criam e as
respostas necessárias, em particular para manter os pacientes na vida social.
A gravidez na adolescência é uma realidade extremamente complexa associada a
múltiplos e variados factores (bio-fisiológicos, psicológicos, psicossociais e culturais.
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6.1.1. Prevenção Primária
De acordo com Lourenço (2004), em relação à prevenção primária a um nível mais
geral, não há uma política coerente para proteger e manter a saúde dos adolescentes em
matéria de reprodução, e a política em vigor é insuficiente para responder às
necessidades presentes e futuras. Aos jovens falta informação e orientação, tanto na
escola como em casa. Muitas vezes, tanto os jovens como os adultos ignoram os riscos
que a gravidez de uma adolescente acarreta, nomeadamente sobre a sua saúde e a do
futuro bebé. Por isso estas organizações apelaram a todos os que influenciam o
comportamento dos adolescentes, de forma a melhorar a sua saúde em matéria de
reprodução. Entre os métodos que consideram mais eficazes, apontam os seguintes:
1. Coordenar as campanhas de informação do público, colocando todos os membros da
comunidade que se ocupam dos jovens, ao corrente das necessidades fundamentais dos
adolescentes no que respeita aos aspectos médico-sanitários da reprodução.
2. Intervir junto das entidades responsáveis, para que preconizem uma legislação e
programas apropriados para reforçar e desenvolver a educação, os serviços de
contracepção, os cuidados durante a gravidez e o parto, e a educação demográfica.
3. Aplicar métodos de investigação apropriados para estudar e descrever o
desenvolvimento e maturação físicas e psicossociais na adolescência, o comportamento e
os valores sexuais, a situação demográfica, o esquema dos acontecimentos para a
procriação (gravidez, aborto, doenças sexualmente transmissíveis, etc.), as atitudes e o
comportamento dos principais grupos que agem colectivamente com os jovens e que
influenciam a sua saúde.
4. Promover relações mais sãs e uma utilização mais vasta e eficaz dos apoios e dos meios
de consulta existentes.
5. Fazer participar o maior número de jovens na apreciação das suas necessidades, e na
avaliação de como são acauteladas, no recenseamento, planificação e aplicação e de
outros meios de acção julgados convenientes.
6. Evitar gravidezes precoces.
7. Prestar serviços mais acessíveis aos adolescentes graças a uma avaliação apropriada e
ensinando os agentes de cuidados primários de saúde a comunicar melhor acerca da
sexualidade e do planeamento familiar.
8. Mobilizar os recursos humanos ao nível da comunidade reforçando e desenvolvendo as
actividades noutros sectores da saúde e do desenvolvimento.
A prioridade da prevenção primária deverá ser a promoção da saúde física e mental da
adolescente, do seu bem-estar, da sua capacidade de amar e de criar. Tal só será
possível actuando a dois níveis que se interpenetram: o da acção social (por exemplo,
prevenindo a pobreza) e o da acção inter-individual (entre o técnico e os jovens que
podem ser membros chave da comunidade mais expostos aos factores de risco da
comunidade) (Lourenço, 1998).
6.1.2. Prevenção Secundária
Segundo o autor anterior, a prevenção secundária é uma perspectiva maior das terapias
familiares sistémicas e uma acção colectiva terá pelo menos tantas hipóteses, se não
mais, de melhores rápidas que uma acção centrada no paciente.
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A grávida adolescente caracteriza-se por uma importante vulnerabilidade orgânica e
psicológica, tendo necessidade de comunicar as suas ansiedades, medos e desejos.
Segundo (Abel, 1994) “quando a adolescente procura alguém com quem falar, abre-se-lhe uma
porta de esperança e para a solução”. Existem dois tipos de situação em que podemos
encontrar a adolescente que engravidou:
1. Ela é capaz de assumir responsabilidades e, neste caso, deve ser-lhe proporcionado
aconselhamento psicológico, social e espiritual, de tal modo que possa assumir as suas
decisões sem se render ou ser passiva perante os outros, pois é fundamental que tenha
capacidade de enfrentar o futuro possuindo uma auto-imagem positiva. Todo o tipo de
coação deve ser anulado, pois será sempre destrutivo. Todos os meios possíveis devem
ser postos à disposição da adolescente para que possa descobrir a sua própria verdade,
explorar-se a si própria, encontrando uma solução de acordo com a sua escala de
valores. A decisão final é sempre deixada à consciência pessoal. É um direito da
condição liberdade.
2. Ela é ainda uma rapariga imatura e tem dificuldades em assumir uma decisão. Devemos
ter em mente o que é melhor para a grávida e para o feto, contudo o paternalismo
benevolente não se justifica e caso se consiga esclarecer uma relação terapêutica, a
confidencialidade deve predominar, questão sempre polémica face ao poder dos pais até
à maior idade da rapariga.
É comum que a grávida adolescente não procure, ou procure tardiamente, assistência
pré natal. Neste, como em muitos outros aspectos físicos e médicos, a idade da jovem e
importantes variáveis sócio económicas e culturais estão em jogo. (Lourenço, 1998)
6.1.3. Prevenção Terciária
De acordo com Lourenço (1998), nos últimos anos realizou-se algum avanço,
nomeadamente a institucionalização em alguns serviços de obstetrícia de uma “consulta
de adolescentes” em dias diferentes, sugerindo “burocracias reduzidas ao mínimo” e “pessoal
médico e de enfermagem sensibilizado para este tipo de utentes”. O apoio psicológico deveria
ser uma prioridade, e é um facto que ainda está muito por fazer na área da intervenção
psicoterapêutica (individual e familiar) e de rede. O interesse desta e de outras práticas
ultrapassa a dimensão interventiva durante a gravidez, para atingir a designada
“Prevenção Terciária”.
Assim é preciso não esquecer que devido à idade existe um risco maior de problemas
durante a gravidez, pois o corpo não está preparado. Risco de perturbação da relação e,
mesmo da saúde física e mental do filho.
Subsiste um risco acrescido de problemas no parto e depois do parto. Os bebés nascidos
de mães adolescentes costumam ter peso inferior ao normal, requerendo bastantes
cuidados.
Cuidados que a mãe nem sempre consegue proporcionar, pois não dispõe nem dos
conhecimentos técnicos adequados nem da maturidade psicológica.
A nível familiar e social o cenário nem sempre é cor-de-rosa: muitas vezes a família
rejeita o acontecimento como uma vergonha, não apoiando a jovem mãe e chegando
mesmo a expulsá-la de casa. As probabilidades de deixar os estudos são três vezes
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maiores para a adolescente, o que é agravado ainda pelo facto de os amigos e colegas se
poderem afastar, talvez até assustados com a nova realidade.
Quem se afasta muitas vezes é o próprio pai da criança, sendo poucos os que assumem
as suas responsabilidades, também eles muitos novos, confrontados com a mudança
radical nas suas vidas.
Quando a notícia desaba sobre a adolescente (e a família) como uma avalancha, ter ou
não ter bebé é a grande prioridade. Se a decisão for não ter o bebé, coloca igualmente
problemas muito graves, desde logo porque o aborto, em Portugal, não está
despenalizado. Fazê-lo fora da lei pode implicar riscos para a saúde, quer durante a
interrupção da gravidez quer depois. Sentimentos de culpa podem emergir depois e,
em vez do alívio esperado, pode desenvolver-se um quadro de tristeza e stress, que
torna a recuperação psicológica complicada. Se a criança foi entregue para adopção, a
culpa, a vergonha e as frequentes pressões familiares podem-se tornar insuportáveis.
Portanto, relações sexuais pelas razões erradas podem custar um preço que se paga pela
vida toda: o preço a pagar de uma doença sexualmente transmissível ou de uma
gravidez precoce e como se sabe, os valores pessoais, sociais e religiosos influenciam o
desfecho, mas, independentemente disso, nos dois pratos da balança pesam-se
consequências que não se podem descartar levianamente.
Qualquer que tenha sido a opção tomada, quer seja abortar, quer seja levar a gravidez
avante, deve ser sempre da responsabilidade de duas pessoas. Porque foram duas
pessoas envolvidas no acto sexual, uma não pode isenta-se de responsabilidades. É no
corpo da mulher que a gravidez se desenrole, mas o homem deve igualmente
preocupar-se. E, na adolescência, preocupar-se deve ser sinónimo de evitar a gravidez.
Sendo que o único método seguro é a abstinência, a partir do momento em que se
decide iniciar a vida sexual activa Há que escolher um método contraceptivo, que, além
de evitar a gravidez, proteja do contágio por doença sexualmente transmissível,
sobretudo a sida. Por isso, o preservativo é a companhia ideal de dois adolescentes que
se iniciam nas “lides do amor”.
Um longo caminho está por percorrer, tanto em relação aos níveis como aos tipos de
prevenção.
Uma prevenção terciária, verdadeiramente promotora de mudança, deve visar
fundamentalmente o retomar de um crescimento em suspenso, não só da adolescente,
não só do seu filho, mas dos sistemas em interacção, permitindo-se assim que
funcionem adequadamente (escola, família ou outros).
Sempre e em qualquer caso, o auxílio de outros adolescentes é regra de ouro.
7. Conclusão
Após a realização do presente trabalho, podemos constatar que a gravidez na
adolescência contínua, nos dias de hoje, a ser uma temática que preocupa as entidades
de saúde a nível mundial.
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A adolescência é o período crise, na qual o adolescente vive grandes alterações quer a
nível individual, como as alterações a nível físico, psicológico e social, quer ao nível do
seu grupo de referência, isto é, a sua família. Este período de crise, pode ser ainda
intensificado devido à possibilidade da presença de vários factores de risco, os quais
poderão conduzir a uma gravidez, que ao nível da adolescência, segundo a
Organização Mundial de Saúde, é uma gravidez de risco. Como principais factores
temos os biológicos, familiares, sócio-económicos, psicológicos e ainda o abuso sexual e
violação.
Sendo a adolescência um período de crise, uma gravidez nesta fase, é sem dúvida, um
acréscimo a essa crise, ou se nos permitem, uma crise sobre outra crise. As
consequências desta crise reflectem-se tanto ao nível da jovem e do seu filho(a), como
também ao nível do jovem, pai do filho(a) e até ao nível do relacionamento do casal.
Para se evitar todos estes problemas, a prevenção aos três níveis tornam-se essenciais. A
prevenção ao nível primário, secundário e terciário tentam evitar, solucionar e
reencaminhar as partes lesadas, respectivamente.
Nós, como futuros enfermeiros, temos que estar sensibilizados para estas questões,
questões estas que implicam a resolução de problemas graves que influenciam
gravemente a vida das pessoas. Cabe então a cada um de nós ter um papel
preponderante e activo enquanto educadores para a saúde, uma vez que é mais
importante a prevenção desta problemática bem actual do que a tentativa de resolução
das dificuldades associadas à gravidez na adolescência.
8. Bibliografia
Associação para o Planeamento da Família (APF) (2003). Mamãs de palmo e meio: Gravidez e
Maternidade na adolescência. Lisboa: Mil Ideias.
Lourenço, M. M. C. (1998). Textos e contextos da Gravidez na Adolescência. Lisboa: Edições Fim de
Século.
Dias Cordeiro, J.C. (1986). Manual de Psiquiatria Clínica. Lisboa: Calouste Gulbenkian.
Saito, M. I. & Silva, L. E. V. (2001). Adolescência – Prevenção e risco. São Paulo: Athneu.

FIM
Gravidez Desejada vs. Indesejada

Trabalho elaborado por:
Ana Luísa Rodrigues; Ana Rita Góis; Ana Sofia Rodrigues, Helena Pinguinha; Hugo Lopes

“vou ser mãe...vou ser mãe
será que quero...será que sou capaz
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será...será...será...
são mil coisas as que me passam pela mente
e tão poucas as que compreendo e que posso controlar...
será...será...será...” (s.a, s.d)
1. Introdução
No âmbito da unidade curricular Psicologia V, leccionada pela psicóloga Celeste
Duque, foi-nos proposto como método complementar de avaliação a elaboração de um
trabalho subordinado ao tema Gravidez desejada/indesejada.
Este trabalho tem como objectivos elucidar os factores que levam uma gravidez a ser
desejada ou indesejada, conhecer como é vivenciada a infertilidade, compreender a
importância que a gravidez assume quando muito desejada, entender a carga
psicológica associada à ocorrência de uma gravidez indesejada, dando ênfase a
gravidez na adolescência.
Para cumprirmos estes objectivos recorremos à pesquisa bibliográfica e à impressão da
nossa opinião pessoal que foi formada quer pelas nossas vivências e experiências quer
por aquilo que nos foi transmitido nas aulas desta unidade curricular referente à
psicologia da gravidez e da maternidade.
Durante a elaboração deste trabalho sentimos necessidade de nos referir aos diversos
motivos que podem tornar uma gravidez desejada ou indesejada. Sendo que esta
classificação se baseia na forma como a mulher ou o casal vivenciam a gravidez e a
posição que adoptam face a esta nova realidade, que já de si é classificada como uma
crise de desenvolvimento.
Como sabemos, sendo a gravidez uma crise no desenvolvimento da mulher, esta vai
implicar constante adaptação face às alterações que em si ocorrem, quer fisiológicas
quer psicológicas e à adaptação dos que a rodeiam face a si e a este novo ser que carrega
no seu ventre. A forma como vai viver a gravidez e se vai adaptar a ela vai fazer toda a
diferença. Esta diferença pode-se manifestar pela afluência ou não às consultas de
seguimento pré-natal, no estabelecimento da relação precoce e na prestação de cuidados
ao recém-chegado (isto se a gravidez chegar ao fim com o nascimento de um nado-
vivo). Assim justificamos a escolha deste tema visto ser muito importante para nós
enquanto futuros enfermeiros saber como reagir face às duas realidades.
Quanto à estrutura sentimos necessidade de antes de focar estas duas realidades,
abordar de forma geral a gravidez em si com todas as alterações que ela implica. De
seguida prosseguimos com a explicação da gravidez desejada dando especial atenção à
questão da infertilidade ao que se seguiu a gravidez indesejada, particularmente em
relação à gravidez na adolescência.
Esperamos assim dar resposta à nossa vontade de saber, atingindo os nossos objectivos.
2. O significado da gravidez
Cada gravidez, como afirma Colman e Colman (1994), é uma experiência única e
irrepetível. Cada mulher tem a sua própria maneira de reagir perante os acontecimentos
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desencadeados pela mesma, e pode ainda reagir de forma diferente de gravidez para
gravidez.
A gravidez, ainda segundo o mesmo autor (1994) provoca mudanças na mulher tanto a
nível físico como psicológico. Verificam-se mudanças corporais, a nível hormonal e até
mudanças na relação com os outros e dos outros para com ela. Tudo isso se vai reflectir
a nível psicológico, na vida mental da mulher grávida. Juntamente com as mudanças
físicas também ocorrem as mudanças de identidade e nos papéis sociais. Pode-se então
afirmar que a gravidez é um período no qual existem transformações tão profundas,
sendo assim considerada uma “crise”.
A gravidez, ainda como afirma (1994) é, e sempre foi, um processo indispensável à
perpetuação da vida humana. Secretamente, todos temos um sentimento especial pela
gravidez e o parto. Este facto ocorre, não só por constatarmos que somos produto de
um processo idêntico, como também pelo facto desta ser a única forma de assegurarmos
o futuro da nossa espécie.
No entanto, se para a mulher, a gravidez e o projecto de maternidade podem significar
o ponto alto das suas vidas, a sociedade não atribui à mulher grávida a devida
valorização. Isto é, a sociedade não venera o poder feminino que a mulher tem aquando
da sua gravidez. Existe o conceito social de que as reservas emocionais e económicas,
dos homens e das mulheres, se esgotam pela distracção que a gravidez, a maternidade e
a paternidade impõem.
Para se aprender mais sobre a gravidez, como indicam Colman e Colman (1994) os
profissionais estudam-na de estádio a estádio, afim de se aperceberem da progressão de
certos temas e preocupações inerentes à mesma. Para que tal aconteça o período da
gravidez é frequentemente dividido em meses, e pode-se concluir que se as alterações
físicas são muitas, as alterações psicológicas também são bastante significativas.
Algumas das reacções emocionais comuns no primeiro trimestre, como indicam
Harrison e Stright (1998), são o sentimento de ambivalência, o medo, as fantasias e
principalmente a ansiedade. Já no segundo trimestre, devido a um maior período de
adaptação à nova situação, vai surgir um bem-estar e uma maior necessidade de
aquisição de conhecimentos sobre o crescimento e desenvolvimento fetal, assim como
um maior narcisismo e introversão. No terceiro trimestre, e com a aproximação da
altura do parto, a mulher sente-se desajeitada, gorda, sem atractivos, e se por um lado o
momento do parto é um desejo, por outro significa também um medo.
Ao longo da gravidez, e para que a adaptação da mulher à mesma decorra da melhor
forma possível, segundo afirmam Colman e Colman (1994), a presença e participação
do companheiro é algo de essencial. Se antigamente o homem se mantinha à parte de
todo o processo da gravidez, hoje em dia ele encontra-se presente e é bastante afectado
pela gravidez da mulher (Síndrome de Couvade). Os homens chegam mesmo a sofrer
alterações emocionais e físicas. O acompanhamento destes às consultas de rotina e às
aulas de preparação para o parto também aumentaram, e todo este suporte por parte do
homem revela-se fundamental para a mulher.
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Pode-se assim concluir, segundo Falkner e Macy (1981) que, a forma como o casal
encara a gravidez em conjunto depende das ideias pré-concebidas sobre a gravidez, o
parto e do significado desse bebé. Dependendo da forma como estas são consideradas, a
gravidez pode vir a representar uma grande alegria ou uma pesada obrigação, podendo
assim levar ao fortalecimento ou à destruição do casal.
3. Gravidez desejada
A chegada de um filho, como indica Mann (1991), significou, desde sempre, o
prolongamento de um desejo, de uma necessidade, qualquer que fosse a forma como
era demonstrado. O desejo de ter um filho ocorre em cada um, em geral, num período
entre os 25 e os 35 anos, e surge como uma necessidade de transmitir a vida. No
entanto, por mais comum que este desejo seja, não ocorre na mesma altura e
circunstâncias em todas as pessoas.
Actualmente, o desejo de engravidar e ter um filho, ainda continua a ser um dos
mistérios mais complexos. A projecção de uma gravidez, não é experenciada da mesma
forma por um homem e uma mulher de 18 e por um casal de 40 anos.
Noutros tempos, como afirma Mann (1991), o crescimento da espécie representava uma
prioridade absoluta, um dever religioso, social e moral. No entanto, com o controlo da
contracepção, a planificação da chegada dos filhos e o projecto de maternidade na vida
da mulher mudou substancialmente. Actualmente, a média de dois filhos por casal é a
realidade desejada, tendo em conta os parâmetros práticos que a vinda de uma criança,
ao mundo, implica.
3.1. A gravidez como instinto e amadurecimento
A gravidez e o seu desejo, segundo Falkner e Macy (1981), é bastante forte na maioria
dos casais. Para muita gente, ainda na actualidade, a vida resume-se a casar e a ter
filhos. Consideram que um casamento sem filhos não está completo, que não se
constitui uma verdadeira família. Grande parte dos casais chega mesmo a considerar
que a sua vida seria bem pior sem filhos, mais aborrecida, menos prazerosa e que não
teria o mesmo significado. Os pais procuram dar aos filhos o que não puderam ter,
tanto material como emocionalmente.
Os mesmos autores (1981), referem ainda que as mulheres desde sempre, ou seja, desde
a infância são incentivadas a ser mães quando crescerem. Desde muito cedo a sociedade
lhes indica que a maternidade é algo de natural e instintivo que surge na mulher, ou
seja, é algo de inato.
A extensão do tempo da gravidez como afirmam Falkner e Macy (1981), pode
representar um choque, para aquelas mulheres que se encontram ansiosas com o seu
futuro papel de mãe, o nascimento do filho e com a constituição da família. Para estas
mulheres o período de gravidez é visto como algo interminável e representa um
impedimento ao seu desenvolvimento.
A gravidez marca um período fundamental no processo de amadurecimento da mulher
desde a infância até à idade adulta. Como indicam Falkner e Macy (1981) “ A gravidez é
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o meio pelo qual a natureza “pretende” completar a vida da mulher”, ou seja, quando a
mulher engravida está respondendo a uma tendência biológica. Existe uma necessidade
biológica do seu corpo pela maternidade.
Os processos biológicos que estão implicados na gravidez/parto e até na amamentação,
produzem alterações na mulher quanto à forma de pensar e agir. Segundo os mesmos
autores (1981), existem psicanalistas que chegam a afirmar que as mulheres que
permanecem sem filhos não amadurecem.
A gravidez, com referem Falkner e Macy (1981) é algo de muito bom pois completa a
mulher. No entanto, e visto que esta é considerada como um período de crise, por todas
as alterações que implica, para haver uma transição para a vida adulta (maturação),
através da constituição de uma família, é necessário que exista por parte da mulher uma
correcta adaptação às suas novas tarefas e papéis.
3.2. Velhas jovens mães
Nos dias que correm, segundo Mann (1991), a realização pessoal e profissional das
mulheres e a necessidade que sentem de viver novas experiências, tem vindo a levar a
um adiamento do desejo de ter filhos. Cada vez mais, as mulheres decidem ter filhos
numa idade que noutros tempos seriam considerados tarde de mais para fundar uma
família.
Estas mulheres que decidem ser mães mais tarde são pessoas que, tal como é referido
por Mann (1991), têm uma experiência considerável no mundo do trabalho, do qual
obtêm bons rendimentos e que não estão dispostas a largá-los. No entanto, estas
mulheres dão por si por volta dos 40 anos, sem terem reparado no passar dos anos, e
constatam que lhes falta algo de essencial: a maternidade.
O desejo de ter um filho, como indica Mann (1991), que surge nesta altura, em que na
mulher a menopausa é algo iminente, trata-se de algo muito particular. Significa uma
vontade de travar a marcha do tempo, a velhice e a morte, opondo-lhe a vida deste
novo ser. Numa altura em que a maioria das mulheres se tornam avós, elas permitem-
se esquecer que o tempo passa por elas e vivem esta nova fase como se fossem jovens e
com muito prazer.
3.3. Mães ideais – o mito da perfeição
Todas as pessoas, segundo Colman e Colman (1994) têm um conceito formado sobre o
que significa ser boa mãe. Alguém que cuida de nós, nos protege, nos faz feliz e, acima
de tudo, alguém que não nos traumatizará mas, pelo contrário, sempre nos curará.
Esta imagem de boa mãe, pode, por vezes, suscitar na mulher grávida a noção de que
será uma tarefa impossível, ou pelo menos bastante difícil, pois apresenta-se como algo
muito bom para ser verdadeiro. No entanto, este ideal de mãe perfeita está
ultrapassado, visto que os pais também são seres imperfeitos e como tal apenas devem
dar o seu melhor, ou seja, devem ser “suficientemente bons”.
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Ser ou não ser uma boa mãe, como sugere Mann (1991), não esta relacionado com uma
questão de posição social ou de ocupação. Mesmo uma mulher que deseja alcançar
sucesso profissional mantém em si a ideia de que uma mãe devem proteger o seu filho
de todo e qualquer sofrimento e cuidar sempre dele.
3.4. Infertilidade – O desepero de um casal
Segundo Taylor e Kredentser (1983) citando Tietze (1956), infertilidade é “a incapacidade
de conceber uma criança após 12 meses de relações sexuais não protegidas”. Esta situação
afecta por ano cerca de 10% dos casais, cujo o maior desejo é ficarem grávidos. Coloca-
se então aqui uma questão bastante válida e que deve ser tida em conta, as necessidades
profundas sentidas por este casal, capaz muitas vezes de gastar o que tem e o que não
tem, para ver o seu maior desejo realizado – ter um filho.
Deste modo e ainda segundo os mesmos autores (1983) questões do tipo “Porquê que não
ficamos grávidos?”, “O que podemos fazer ou não para alterar essa situação?” são bastante
frequentes, podendo trazer sentimentos de ansiedade e frustração que deverão ser
percebidos pelo profissional de saúde de forma a dar o melhor apoio possível ao casal.
Pois, não podemos nunca nos esquecer de que o Homem não um mera máquina,
constituída por órgãos, mas sim uma tríade de corpo, mente e alma. Tendo isto em
conta, importa referir que de acordo com Collucci (2000), muitas vezes o desejo é tal que
o “próprio casal se esquece de que não é meramente composto por um conjunto de útero, ovários,
trompas, testículos, mas uma engrenagem mais complexa que necessita de ser oleada para que
tudo funcione em perfeição”. É importante que o casal envolvido saiba olhar para dentro
de si e ver/compreender que à algo que também deve ser muito bem preservado, o seu
bem-estar emocional.
De acordo com Reis (s.d.) um casal que está tentando engravidar pode passar por uma
tormenta de emoções inerentes à grande vontade de ter um filho e não conseguir, e ao
tratamento stressante e doloroso pelo qual irá ter, inevitavelmente, de passar. Essas
reacções e sentimentos são: a negação, em que o casal não acredita que isso lhes possa
estar a acontecer, sendo marcada por questões do tipo “se toda a gente consegue porquê
que eu não?”; a inveja que o casal sente ao ver outras famílias crescendo e sua
permanecendo igual, pondo de parte o seu sonho de ver a casa cheia de crianças; a
tristeza que se pode vir a abater por não conseguir gerar e criar um filho; e por fim a
culpa que alguns casais sentem por não serem capazes de dar um filho ao seu
companheiro.
De todas as formas, chegamos a uma frase importante da autoria de Ramos (2004) que
nos diz que “mais do que um filho querido deve, acima de tudo haver amor entre o casal”.
Amor, capaz de suportar todos os medos e inseguranças, sem nunca desistir de realizar
um sonho.
A infertilidade conforme Taylor e Kredentser (1983), pode ser originada por diversas
causas ou factores que nem sempre estão acessíveis à investigação e que são pouco
compreendidos. Tendo isto em consideração é necessário recorrer a uma observação
atenta e detalhada acerca das possíveis causas que estão impedindo a mulher de
engravidar. Antes de falamos acerca da observação a que os profissionais deverão
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recorrer, torna-se pertinente falarmos quais os acontecimentos indispensáveis para que
uma ocorra uma gravidez.
Assim, os mesmos autores (1983), afirmam que para alcançar uma gravidez é necessário
quatro acontecimentos indispensáveis, são eles: a gametogénese (ovulação e
espermatogénese); transporte do gâmeta no homem e na mulher; fertilização e
transporte do embrião; e implante no útero. Baseando-se nisto, podemos então tentar
compreender qual destes eventos não está a ser efectuado e a partir daí obtermos uma
possível solução para a infertilidade.
Como já foi falado atrás Taylor e Kredentser (1983) afirmam que para que se obtenham
respostas acerca da infertilidade é necessário proceder a uma investigação acerca do
casal, denominada anamnese e a um exame físico, onde será avaliado o bem-estar geral
e a pesquisa de qualquer indício que esteja a causar esterilidade. Deste modo, será
importante referir o que é a anamnese. A anamnese consiste numa entrevista que deve
ser feita ao casal em conjunto e depois separadamente, em que se pretende obter
conhecimentos acerca do estado geral da saúde do casal, informação demográfica com
relevância para a fertilidade (idade, entre outros), uma pesquisa de indícios que possam
apontar para uma possível causa (exemplo disfunção sexual e ausência de ovulação) e
identificar as necessidades do casal. Esta entrevista torna-se bastante importante por
motivos óbvios, pois a partir daqui poderão ser logo diagnosticados possíveis causas
para a infertilidade. Para além disso, segundo Burroughs (1995) uma parte importante
dos cuidados de enfermagem para casais inférteis é fazer o ensino ao auto-cuidado, tais
como o aconselhamento de técnicas bastante úteis na redução do stress, ensino de
exercícios de relaxamento, bem como a consciencialização para manter ou melhorar a
sua saúde em geral. O enfermeiro torna-se também importante no processo de escuta e
compressão de que os casais irão necessitar ao longo desta fase.
Realizada a investigação, poderemos passar para a fase seguinte, o tratamento. Este
poderá ser feito de diversas formas consoante a situação particular de cada casal.
Contudo segundo Gaspar (2004) os mais comuns são:
• Inseminação intra-uterina
• Esta técnica consiste na injecção de espermatozóides vivos na cavidade uterina, com o
auxílio de um cateter especial, geralmente 36 horas após a ovulação. Este método
conforme Ramos (2004) é muito utilizado no caso de distúrbios da ovulação e de
endometriose, mas principalmente em casos de infertilidade indeterminada. Na maioria
das vezes é eficaz.
• Fertilização in vitro
• De acordo com Ramos (2004) a fertilização in vitro, também denominada F.I.V. foi uma
das “grandes conquistas no ramo do tratamento da infertilidade”. Esta técnica consiste na
retirada de óvulos dos ovários através de estimulação e seguidamente óvulos e
espermatozóides são colocados num recipiente específico, no qual se irá dar a
fecundação. Mais tarde, não mais de três embriões são transferidos para o útero da
mulher. Ficando os restantes embriões de reserva congelados.
• Micro-injecção – Segundo Ramos (2004) esta técnica é das melhores atingindo 50% de
êxito entre as mulheres com menos de 35 anos de idade. Baseia-se na injecção de um
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espermatozóide dentro de um óvulo, também produzido através de estimulação, por
meio de micromanipulação. Por outras palavras, cada óvulo obtido só será penetrado
por um único espermatozóide, injectado com a ajuda de um microscópio.
• Hatching assistido – Conforme Gaspar (2004) está técnica apenas se executa quando o
embrião tem dificuldade em “sair da casca” devido a grande espessura dessa camada.
Assim, o Hatching através de um laser irá perfurar essa camada que envolve o embrião,
aumentando a probabilidade de sucesso da gestação.
• Diagnóstico pré-implantatório – Ainda segundo o mesmo autor (2004), este processo
tem como objectivo saber se existe algum problema com o embrião, através da recolha
de uma das células deste, tal como se faz para se detectar o sexo do bebé. No caso de não
serem encontradas nenhumas anomalias, ao nível dos cromossomas, ele poderá ser
transferido novamente para o útero materno.
• Em todos estes processos ou técnicas de acordo com Ramos (2004) “os resultados são quase
tão bons quanto os naturais, senão talvez melhores”. Contudo, não são infalíveis e por isso o
casal deve estar sensibilizado logo desde do início de que as expectativas e frustrações
poderão ser muitas e que em alguns casos os resultados não são obtidos de forma como
se previa. Nesses casos apenas uma coisa creio que se poderá dizer aquele casal, é que
um sonho é capaz de mover montanhas e se por acaso não conseguiram engravidar
através do método tradicional, existe outros métodos, talvez até mais nobres para se ter
um filho, que é a adopção. Gerar como se pode ver nem sempre é tarefa fácil, mas é no
criar que se reconhecem uns verdadeiros pais.
3. GRAVIDEZ INDESEJADA
Pelo nosso senso comum podemos inferir que ao longo dos tempos as sociedades têm-
se tornado mais materialistas, como tal a vida dos indivíduos destas sociedades é cada
vez mais planeada. Logo é fácil de compreender que tudo o que fuja a este
milimetricamente calculado plano é indesejado. Um bom exemplo destes imprevistos é
a gravidez.
Mas não é só a questão económica que dita o facto de uma gravidez ser indesejada, mas
também casos como a gravidez por violação, na adolescência, mães solteiras e mesmo
por questões de imagem e independência da futura mãe.
Como é fácil de perceber muitas destas gravidezes são terminadas de forma abrupta
recorrendo as mulheres ao aborto. Sendo que este é apenas legalmente permitido em
algumas situações, como clarificam Bobak, Lowdermilk e Jensen (1995). Estas autoras
(1995) referem duas categorias de aborto, o aborto terapêutico (AT) e o aborto electivo.
Esclarecendo as diferenças entre cada um deles Bobak, Lowdermilk e Jensen (1995)
referem que o AT é a interrupção de uma gravidez que coloca em risco a saúde ou a
vida da mãe, procedendo-se ao aborto para as salvaguardar. Já o aborto electivo
consiste na interrupção de uma gravidez viável.
As indicações que Bobak, Lowdermilk e Jensen (1995) referem para o aborto terapêutico
são:
- Preservação da vida ou saúde da mãe (exemplo: insuficiência cardíaca de grau
III ou IV);
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- Evitar o nascimento de um descendente com patologia grave de
desenvolvimento ou hereditária (exemplo: doença de Tay-Sach)
- Gravidez provocada por violação ou incesto.
3.1. Alterações da imagem
Quando falamos em gravidez podemos descrevê-la como um período de profundas
alterações quer psicológicas quer físicas, como referem Bobak, Lowdermilk e Jensen
(1995).
Acerca deste tema sobre alterações da imagem na mulher grávida pode-se dizer que
tem um componente físico – facilmente identificável, mas também uma componente
psicológica, relacionada com a forma como a mulher assimila as alterações que vão
ocorrendo como exemplificam Colman e Colman (1994) ao dizerem que a mulher pode
sentir-se gorda e feia, ou extremamente orgulhosa das mudanças operadas no seu
corpo.
As autoras Bobak, Lowdermilk e Jensen (1995) referem algumas alterações que podem
ocorrer na imagem devido a factores intrínsecos, como as hormonas e factores
mecânicos, como sejam o crescimento do feto, alertando para o facto de que é difícil
dizer que algo se deve a apenas um factor.
Segundas as mesmas autoras (1995) ocorrem no corpo da mulher uma série de
alterações, mas as mais significativas para a imagem são o aumento do volume do útero
e consequente proeminência do abdómen, o aumento do tamanho das mamas, as
manchas faciais denominadas de cloasma, as estrias gravídicas, as talangiectasias, o
eritema palmar, o épulido e o hirsutismo e o ptialismo, entre outras que não sendo
visíveis perturbam o sentido de imagem da mulher.
Dizendo isto é fácil perceber porque é que muitas mulheres demasiado zelosas da sua
imagem vêem a gravidez como algo que vai deformar o seu corpo, e por isso algo que
elas não desejam, tentando adiar o momento da concepção o mais que podem e mesmo
recorrer à interrupção voluntária da gravidez quando esta ocorre.
3.2. Carreira e factor monetário
Cada vez mais na nossa sociedade a prioridade não é a formação da família, o ter filhos,
mas sim alcançar um patamar mais elevado na carreira ou um nível de vida superior.
Dai que quando uma mulher ou um casal engravida vê o novo ser como um obstáculo à
sua realização pessoal, tornando-se por isso uma gravidez indesejada.
Sendo a gravidez um obstáculo a mulher/casal tendem a recorrer a métodos
anticoncepcionais e por vezes mesmo ao aborto, sem fins terapêuticos.
São vários os motivos que podem levar o casal à rejeição de uma gravidez, por motivos
profissionais. Se por um lado um filho implica gastos de tempo na prestação de
cuidados, na criação de uma relação afectiva, tempo esse que será subtraído ao tempo
dedicado à carreira profissional. Por outro lado, se até ao meio do século XX mais filhos
significava mais rendimento, actualmente implicam mais gastos até muito tarde na sua
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vida, gastos esses que podem afectar todo o sistema familiar, que por vezes se mostra
incapaz de satisfazer essas necessidades.
3.3. Sentimentos de dependência da mulher grávida
À medida que no corpo da mulher vão ocorrendo alterações (como já foi referido
anteriormente), esta vai sentindo mais dificuldade em realizar tarefas que
anteriormente executaria sem qualquer problema.
Como referem Colman e Colman (1994) a mulher grávida começa a sentir que é cada
vez mais depende dos outros para satisfazer as suas necessidades ou cumprir as suas
tarefas, para além de depender dos outros para obter informações sobre si e a vida que
está dentro de si.
Para além destas questões existe também uma outra frequentemente esquecida, mas
cuja importância é salientada pelos mesmos autores (1994) que é a questão do afecto,
carinho e amor que todo o indivíduo precisa. E se durante a gravidez a mulher é
rodeada de todo o amor e carinho por parte do companheiro e da família, após o parto a
realidade muda de figura, tornando-se o recém-chegado o alvo de todas as atenções
relegando a mulher para segundo plano. A mulher tem medo que esta sua necessidade
de amor e carinho deixe de ser suprida com a chegada de um filho. Muitas mulheres em
consequência desta alteração do centro das atenções sentem-se pouco importantes,
sentindo-se quase como um objecto.
Esta alteração de dependência da mulher pode assustá-la temendo por isso a gravidez,
levando-a a não a desejar.
3.4. Sexualidade / relação com o companheiro
Como referem Bobak, Lowdermilk e Jensen (1995) a expressão sexual durante a
gravidez é algo que tem que ser ponderado apenas pelo casal, tendo em conta a sua
situação clínica. É diferente de casal para casal e mesmo de gravidez para gravidez.
Com as alterações normais que ocorrem no corpo da mulher durante a gravidez e à
medida que esta vai avançando, o desejo sexual dos dois parceiros vai-se alterando –
devido aos desconfortos da gravidez e às alterações físicas e psicológicas, tal como
referem as autoras Bobak, Lowdermilk e Jensen (1995).
Esta autoras (1995) exemplificam referindo que durante o primeiro trimestre é normal
que o desejo sexual da mulher diminua, em grande parte devido aos enjoos constantes,
e à sensação de fadiga que a acompanha durante todo o dia. No entanto, acrescentam
que durante o segundo trimestre, os enjoos começam a ser menos frequentes, dando
lugar a uma sensação de relativo bem estar, o que conjugado com aumento da
vascularização vaginal e de outras vísceras pélvicas dão origem a um aumento da
sensibilidade, que conduzem a níveis elevados de interesse sexual e que tornam a
relação sexual mais prazerosa.
Segundo um ditado da Enfermagem Materno-Fetal, que diz que “uma grávida feliz é
um feto feliz”, por isso se a relação sexual for prazerosa para a mulher, o feto
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beneficiará com isso. No entanto, nem todos os casais têm esta atitude face ao sexo e
sem necessidade entram em abstinência. O medo de perder a sua sexualidade faz a
mulher repensar a possibilidade de engravidar.
3.5. A Gravidez decorrente de uma violação
No dia a dia somos constantemente “invadidos” pelo mundo dos adolescentes, seus
desejos, afectos, vivências e conflitos característicos. A violação é um crime cometido
por homens e rapazes contra mulheres e raparigas. A mulher perante a violação é
obrigada a lidar não só com a gravidez indesejada, mas também, com algo muito mais
traumatizante.
É de grande preocupação, o número de adolescentes que são violadas no mundo. No
entanto, este facto pode ocorrer com mulheres fora desta faixa etária. Se bem que em
ambas as situações poderá ser traumatizante, no caso da adolescente este sentimento
poderá ser muito mais negativo.
Pode acontecer uma adolescente recorrer a um profissional de saúde e confidenciar-lhe
que está a ser vítima de abuso sexual, ou o próprio profissional pode desconfiar que
isso está a acontecer. Nesta situação poderá ser importante que este se mostre
compreensivo, dando-lhe a entender que se preocupa e que acredita nela. Falar com o
profissional pode ser o primeiro grande passo para ajudar esta rapariga a desabafar, e
uma forma de demonstrar que se está a fazer o possível para ajudar.
Para a jovem violada, o filho proveniente da violação tem um valor muito mais
negativo do que um filho que surge de um acto sexual consentido, uma vez que se
depara de uma só vez com duas situações difíceis de enfrentar. Uma corresponde a um
acto que não desejava e outro a conceber um filho que não é fruto de uma relação
desejada.
Perante esta dramática realidade, a adolescente por vezes opta pelo aborto. Segundo o
artigo 142º do código penal português, em caso de violação, “este acto não é punível desde
que seja efectuado até às 12 semanas de gravidez”.
Em alguns países é possível a interrupção da gravidez sem haver interrupção cirúrgica
até à sétima semana usando um medicamento. Este método tem sido muito utilizado
em França e é altamente seguro. No entanto, este método só pode ser aplicado no início
da gravidez. Outro método que pode ser utilizado nesta altura consiste numa pequena
operação feita com anestesia local ou geral. No caso da gravidez ter ultrapassado as 10-
12 semanas, já não é possível essa pequena operação e talvez seja necessário uma
combinação entre medicamentos e cirurgia.
Outras mulheres nesta situação devido a crenças religiosas, por pressão dos familiares
ou por convicção excluem a hipótese de aborto. Em muitos casos, quando o bebé nasce
a mulher desenvolve uma rejeição para com o filho, por observar nele uma eterna
lembrança do terrível acontecimento. Muitas vezes o futuro destas crianças passa pela
entrega para adopção, embora algumas mães decidam ficar com o filho. Estas
demonstram uma maior capacidade de abstracção, observando a criança não como o
fruto da violação mas, apenas, como seu filho.
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3.6. A gravidez na adolescência
Segundo o gabinete de apoio à sexualidade juvenil (2001), a gravidez na adolescência,
em 50 % dos casos é normalmente o fruto de relações sexuais desprotegidas, de falta de
conhecimento e de acesso aos métodos contraceptivos, da falha dos mesmos, do
desconforto na sua utilização e dos medos com o seu uso.
Quando as jovens “descobrem” que estão grávidas, sentem um turbilhão de
sentimentos, tais como o medo, angústia e incerteza, as jovens temem dizer aos pais,
receiam a humilhação e hostilidade. Muitas são as adolescentes que recorrem aos
abortos clandestinos, aumentando o número de complicações graves na sua saúde,
desde infecções ginecológicas, que podem comprometer a fertilidade futura da jovem, a
cirurgias de urgências por ruptura uterina até à morte. Porém, quando atingem
estabilidade emocional e familiar, decidem prosseguir com a gravidez.

A liberdade sexual, a falta de uma orientação no ambiente familiar, o desejo sexual, na
perspectiva de Figueiredo (2001) conduzem a maior parte dos jovens à prática sexual,
sem nenhum conhecimento das repercussões, que pode causar nas suas vidas.
Para Lourenço (1998) a adolescente grávida é confrontada com a realização de tarefas
adultas, para as quais não se sente preparada psicológica e socialmente. Fica mais
dependente dos pais/família num estádio do ciclo vital em que a norma é lutar pela
independência.
Ao engravidar a rapariga pode perder a prematura condição da adolescente, o que vai
implicar a um ajustamento repentino à ideia de ser mãe, conduzindo a um possível
desequilíbrio psicossomático.
Numa perspectiva bio-fisiológica, psicológica e sócio-cultural, Canavarro (2001)
descreve as várias situações que podem conduzir a uma gravidez indesejada numa
jovem adolescente.
3.6.1. Factores individuais
A autora Canavarro (2001) referenciando Dull e Blythe (1998); Harris (1998) e Males
(1993) refere que estas jovens evidenciam que a pobreza é um factor que pode conduzir
a uma gravidez na adolescência. Como a pobreza não possibilita um ambiente familiar
de harmonia e nem permite cuidados parentais adequados, pode conduzir
paralelamente a um ambiente educativo com menos recursos e uma menor
disponibilidade por parte dos adultos.
Por outro lado Canavarro (2001) enuncia também a questão do abuso sexual, estando
este intimamente relacionado com a pobreza. Kellogg et al. (1999) mencionados por
Canavarro (2001) observaram que 53% das grávidas/mães adolescentes teve pelo
menos uma experiência sexual não desejada.
Tendo em conta todo este conjunto de aspectos há ainda a referir que a gravidez na
adolescência está em associação com comportamentos problemáticos como o abuso de
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álcool e drogas. Por outro lado, o percurso escolar das jovens é normalmente com pouco
sucesso e menor aspiração académica, não possuindo um projecto de vida definido, em
comparação com as adolescentes não grávidas.
3.6.2. Factores familiares
A forma de relacionamento com o sexo oposto e em particular a escolha do parceiro
amoroso, para Canavarro (2001) parecem ser factores importantes para a ocorrência de
gravidez na adolescência. Segundo as opiniões de Bomba, Sousa Fernandes, Rolim e
Entrezede (2000) e Males (1993) referenciados por Canavarro (2001), os pais dos filhos
das adolescentes são, na sua maioria, mais velhos dois a quatro anos do que estas, tendo
baixa educação e profissões pouco qualificadas.
Através de uma investigação realizada por Garrett e Tidwell (1999) verificou-se que as
jovens que engravidam precocemente têm uma percepção mais negativa sobre os
homens em geral.
De uma forma generalizada, pode-se dizer que as mães adolescentes tendem a
considerar a relação com a família mais importante do que as relações com os pares,
tendo menos amigos e dentro dos quais a maior parte não frequenta a escola.

3.7. A gravidez como uma cadeia de acontecimentos e Decisões
A gravidez na adolescência pode ser analisada como uma cadeia de acontecimentos e
decisões:
-” Comportamento sexual (decisão de manter/ter relações sexuais)
- Utilização de contraceptivos (decisão de não utilizar vs utilizar contraceptivos)
- Prosseguimento da gravidez (decisão de prosseguir a gravidez vs abortar)
- Cuidar e educar do bebé (decisão de cuidar vs abandonar)”
Neste contexto, a maternidade na adolescência será então “o produto final de uma série
de comportamentos que se iniciam com o estabelecimento da actividade sexual e
continuam através das relações coitais, contracepção, gravidez e nascimento, de uma
série de decisões conscientes e inconscientes acerca destes comportamentos” (Hardy e
Zabin, 1991, pp. 357) citados por Canavarro (2001).
Segundo Canavarro (2001) cada vez mais cedo se inicia a actividade sexual e
consequentemente o risco de maternidade na adolescência. Pode-se dizer que existem
vários factores que vão influenciar uma adolescente a tornar-se sexualmente activa:
- do ponto de vista biológico – a idade da menarca
- do ponto de vista cultural – a percepção do significado de diferentes expressões de
intimidade sexual
- do ponto de vista relacional – “peso” da família e grupo de pares.
- do ponto de vista psicológico – associado a um ajustamento pobre e existência de
comportamentos desviantes.
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Segundo Lourenço (1998), referenciando Cobliner et al. (1973; in Almeida, 1987), uma
adolescente que não consegue proceder com êxito o seu desenvolvimento da
personalidade, vê a sua gravidez como algo de extrínseco ao seu corpo, como a uma
doença.
De uma forma sucinta, pode-se dizer que a gravidez e maternidade na adolescência
comportam uma dupla crise de desenvolvimento. A jovem passa por um processo de
múltiplas mudanças, relacionadas com as tarefas de desenvolvimento da adolescência,
às quais acrescem as que caracterizam os períodos de gravidez e maternidade.
Não se pode esquecer que ao mesmo tempo que a jovem lida com a formação da sua
identidade sexual, tem que enfrentar as mudanças corporais e sexuais inerentes à
gravidez.
Normalmente o apoio prestado pela mãe da adolescente contribui positivamente para o
ajustamento da jovem e do seu filho, a curto e a longo prazo. No entanto, segundo as
estatísticas gerais, verifica-se que a gravidez na adolescência está associada a índices
mais elevados da morbilidade e mortalidade materna e infantil (Lourenço, 1996;
Simkins, 1984) – referenciados por Canavarro (2001).
Estes factos devem-se a algumas condições obstétricas e factores ambientais (falta de
cuidados pré-natais, défices nutricionais e higiénicos), relacionados com o nível sócio-
económico. Um outro motivo corresponde ao facto de a adolescente ter receio de revelar
aos pais, sendo esta tarefa adiada até que já não consegue esconder mais. Isto deve-se
mesmo às reacções dos pais que são geralmente de choque, fúria, vergonha, culpa e
pena, reacções que são temidas pela adolescente.
Este encobrimento da gravidez é o principal motivo pelo qual as grávidas adolescentes
não procuram os cuidados pré-natais antes do 3º trimestre, sendo por isso classificada
como gravidez não vigiada.
Esta diminuição ou ausência de cuidados pré-natais tornam impossível a detecção
precoce de alguns problemas relacionadas com a gravidez e o bem estar fetal.
Geralmente para encobrir a sua gravidez, a adolescente adopta dietas radicais, utiliza
roupas muito apertadas ou extremamente largas. Verifica-se que apresentam um fraco
aumento de peso gestacional, estando estes comportamentos alimentares associados ao
parto de pré-termo e um baixo peso ao nascer.
Após a abordagem dos diversos tipos de gravidez desejada e indesejada, bem como
todas as modificação que a grávida está sujeita neste período gravídico, tornou-se
pertinente fazer referência a situações particulares que se encaixam num e noutro
simultaneamente. Assim, podemos dizer que a grávida passa por diferentes fases que
modificam a sua forma de encarar a gravidez. O que antes poderia ser um factor de
alegria, torna-se agora perante esta realidade uma possível perda de amor e de atenção
por parte dos que ama (marido e família de origem).A grávida deixa temporariamente
de ser uma mulher para ser uma mulher grávida, em que a sua barriga é o principal
centro de atenções e de amor. Esta sente-se desprezada, como se o que apenas
importasse neste momento fosse aquele ser que ela desconhece e que por fim deixa de
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ser uma alegria para passar a ser um terrível pesadelo, algo que ela não deseja. Por
outro lado, a situação inversa também pode ser comum, ou seja, em que uma mulher
mostra-se completamente descontente com o seu novo estado, por as mais diversas
razões (já referidas atrás) e que após um contacto mais evidente com o seu filho através
por exemplo de uma ecografia, ou simplesmente alguém que lhe diz que a apoia nesta
fase tão delicada (o companheiro preferencialmente), leva a que esta deixe de sentir a
gravidez como um fardo. Assim, a gravidez deixa de ser uma situação incomoda e que
causa dor e sofrimento à mulher e consequentemente ao feto, para se tornar em algo
extremamente agradável, em que este ultimo sente-se completamente desejado, que é
um dos seus principais direitos enquanto ser humano, que não pediu para nascer.
4. CONCLUSÃO
Após a elaboração deste trabalho reforçámos a ideia de que a gravidez para além de
uma vivência física é também uma vivência psicológica. È neste âmbito que falamos da
gravidez desejada ou indesejada.
A realização deste trabalho permitiu-nos concluir que o facto de a mulher desejar uma
gravidez vai facilitar a sua aceitação e consecutivamente ajuda-la na adaptação a toda
uma panóplia de transformações que ocorrem neste período de crise existencial na
mulher.
Para alem disso, pudemos ainda concluir que quando o novo ser é desejado os nove
meses de gestação são vividos de forma menos traumática e expectante. Por outro lado,
quando o fruto da gravidez não é minimamente desejado, a mulher passa por uma
verdadeira tortura, tentando a todo o custo negar a si mesma essa realidade enquanto
pode.
Por vezes o desejo de uma gravidez é de tal modo intensa que se torna uma verdadeira
obsessão como é o caso dos casais inférteis em busca de uma oportunidade de serem
pais, vivenciando a gravidez e a parentalidade como uma forma de auto-realização.
No caso oposto, isto é quando a gravidez é indesejada como é a gestação na
adolescência, há uma tentativa obsessiva de a negar podendo mesmo recorrer ao
encobrimento ou em casos mais graves à interrupção voluntária da gravidez. Tanto um
comportamento como o outro acarretam riscos físicos e psicológicos à mulher/casal.
Os riscos associados à interrupção voluntária da gravidez (IVG) são vários. Por um lado
pode haver o desenvolvimento de um sentimento de culpa, remorsos podendo mesmo
chegar a se desenvolver uma depressão. Por outro lado existe também o risco de
morbimortalidade da futura mãe devido à IVG ser praticada muitas vezes sem
condições de higiene. Esta falta de condições deve-se ao facto de serem efectuadas de
forma ilegal visto que no nosso país a legislação ainda não o permite. Já se por exemplo
for devido a uma violação (muitas vezes associada à gravidez na adolescência, esta é
permitida desde que efectuada até ás doze semanas de gestação) a par de outras
situações que também permitem que uma gestação seja interrompida.
Consideramos que os objectivos a que nos propusemos foram cumpridos, no entanto
sentimos que ainda muito ficou por dizer acerca deste tema tão vasto.
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5. BIBLIOGRAFIA
Canavarro, M. C. (2001). Psicologia da gravidez e da maternidade. Coimbra: Quarteto Editora.
Colman, L. L., & Colman, A. D. (1994). Gravidez: a experiência psicológica. Lisboa: Edições Colibri.
Falkner, F., & Macy, C. (1981). Gravidez e Parto – Prazeres e Problemas (pp. 4- 60). Colecção “A
Psicologia e Você “. Lisboa : Casa do Livro Editora.
Harrison, L.-O., & Stright, B. (1998). Série de Estudos em Enfermagem – Enfermagem Materna e
Neonatal, 2 (pp. 20-21). Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan.
Lourenço, M. M, (1998) Textos e contextos da gravidez na adolescência – a adolescente, a família
e a escola – colecção 3. Lisboa: Fim de Século edições.
Mann, C. (1991). O indesejável Desejado (pp. 71- 93). Lisboa: Horizontes Pedagógicos.

Sitios na internet (acedidos entre as 18h e as 23h do dia15 de Outubro de 2004)
Figueiredo, S. (2001). URL: http://www.portaldaginecologia-gravidezindesejada.htm-2001
Gabinete de apoio à sexualidade (2001). URL: http://www.edições-teia-suplemento
educaçãosexual.htm
Ramos, S. (2004). URL: http://www.gineco.com.br
Filho, C. (s.d). URL: http://www.isaia.com.br
Collucci, C. (2002). URL: http:// www1.folha.vol.com.br
Reis, C (2002). URL: http://www.e-familynet.com


FIM
Alcoolismo e Gravidez

Trabalho elaborado por:
Ana Ruas; Igor Glória; Maria Inácio
1. Introdução
O tema deste trabalho, o alcoolismo e a gravidez, é um tema bastante actual e, que cada
vez mais suscita enorme atenção, principalmente por parte dos profissionais de saúde,
já que cada vez mais, numa sociedade em que o álcool dita muitas regras e é tido como
uma forma de convívio social, a taxa de mulheres a consumi-lo disparou
substancialmente nos últimos anos. Assim, mesmo aquando de uma gravidez, muitas
mulheres continuam com os seus hábitos sociais, nos quais se insere o consumo de
muitas substâncias maléficas para o seu futuro bebé, nas quais o álcool se inclui.
Este trabalho, tem como principal objectivo sublinhar a importância deste problema,
que se tem vindo a agravar, ao longo do tempo, assim como oferecer uma visão geral
sobre os aspectos mais relevantes.
Para a síntese do trabalho, fez-se uma pesquisa a nível bibliográfico, bem como a nível
da Internet, para além disso foram utilizados conhecimentos adquiridos
profissionalmente. Elaborou-se o trabalho de maneira a abordar o tema de uma forma
detalhada e organizada, de modo a dar ao leitor uma visão global desta realidade.
Primeiramente, far-se-á uma breve síntese sobre o alcoolismo, nomeadamente a sua
definição e causas, efeitos corporais e os problemas psiquiátricos a ele associados, visto
que é importante ter a noção deste problema que, antes de abordá-lo no tema da
gestação, ele acarreta inúmeras consequências para a população em geral e, só por si já é
um grande problema social de inúmeras repercussões.
Seguidamente, inserir-se-á a relação e consequências do alcoolismo durante a gestação.
Para tal abordar-se-á os efeitos do álcool durante a gestação, os problemas médicos da
gestante alcoólica e as consequências do álcool para o feto. Neste último parâmetro
visou-se a necessidade de abordar mais profundamente um dos problemas que
normalmente surgem no feto, que é o Síndrome Alcoólico Fetal (SAF), já que este é o
problema de maior relevância que surge no bebé, devido ao consumo de álcool por
parte da mãe.
A gestante alcoólica, para além de ter os seus transtornos psíquicos associados ao
consumo de álcool, tem a agravante dos problemas psicológicos comuns da gravidez e
ainda os que surgem da conjunção entre alcoolismo e gravidez, sendo que se fará uma
referência a estes acontecimentos. Em último lugar, mas não menos importante, fazer-
se-á referência à importância da colaboração do Enfermeiro junto destas doentes, visto
que elas são bastante vulneráveis e acarretam problemas específicos que requerem uma
actuação bastante cuidada e atenciosa, por parte destes profissionais de saúde.
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2. Aspectos Gerais do Alcoolismo
A OMS, definiu alcoolismo como uma “doença e o alcoólico como um doente”, sendo
assim, “o alcoolismo não constitui uma entidade nosológica definida, mas a totalidade dos
problemas motivados pelo álcool, no indivíduo, estendendo-se em vários planos e causando
perturbações orgânicas e psíquicas, perturbações da vida familiar, profissional e social, com as
suas repercussões económicas, legais e morais”.
Por outro lado, um alcoólico “é um bebedor excessivo, cuja dependência em relação ao álcool
se acompanha de perturbações mentais, da saúde física, da relação com os outros e do seu
comportamento social, com as suas repercussões legais, económicas e morais” sendo assim
considerado como um problema de saúde pública (Barrias, Breda, & Mello, 2001, p. 15).
Como afirmou Liliane Castelões (1991) “o álcool é considerado uma droga psicotrópica, já
que actua no Sistema Nervoso Central, provocando uma mudança de comportamentos aos seus
consumidores, para além de ser um potencial provocador de dependência”.
Esta droga é aceite pela sociedade. No entanto, o seu consumo, quando exagerado pode
gerar inúmeros problemas, como o são os acidentes e viação, episódios de violência,
entre outros aspectos que fazem com que os consumidores desta substância fiquem mal
vistos socialmente.
Os efeitos do álcool variam de intensidade de acordo com as características pessoais.
Por exemplo, uma pessoa acostumada a consumir bebidas alcoólicas sentirá os efeitos
do álcool com menor intensidade, quando comparada com uma outra pessoa que não
está acostumada a beber. No entanto, isso não significa dizer que quem estiver mais
acostumado a beber possa dirigir um automóvel ou operar uma máquina com mais
segurança do que aquela pessoa não habituada a beber. Neste caso o prejuízo motor dos
dois bebedores é semelhante. Um outro exemplo está relacionado a estrutura física:
uma pessoa com uma estrutura física de grande porte terá maior resistência aos efeitos
do álcool.
2.1. Causas do Alcoolismo
Segundo Almeida (2004), “Vários factores contribuem para o seu desenvolvimento, mas cada
caso é um caso à parte. Na família, se um dos pais é alcoólico, por exemplo, a probabilidade de um
filho se tornar alcoólico é muito maior. A razão para isso não é conhecida, mas anormalidades
genéticas ou bioquímicas podem estar presentes, bem como factores psicológicos, baixa auto-
estima, conflitos amorosos, etc.”
Existem outros factores, como citaram Barrias, Breda e Mello (2001), nomeadamente,
“factores sociais, como a facilidade de acesso ao álcool, aceitação social do vício, stress, problemas
económicos, espirituais, políticos e jurídicos também incentivam o alcoolismo” (p. 22).
2.2. ConSequências Corporais do Alcoolismo
Segundo Almeida (2004), o álcool acarreta inúmeras repercussões sobre o organismo,
que são:
-Tremores;
- Prurido;
- Enrubescimento da face;
- Cefaleias e mal-estar geral;
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- Descoordenação motora;
- Amnésia;
- Dores musculares;
- Diarreia;
- Impotência sexual;
- Infertilidade;
- Diminuição do nível de hormonas sexuais, levando à infertilidade;
- Interrupção do ciclo menstrual (na mulher);
- Alterações cerebrais e neurológicas;
- Problemas cardíacos;
- Pancreatite;
- Cirrose hepática (…)
À medida que o alcoolismo avança, as repercussões sobre o corpo agravam-se. Os
órgãos mais atingidos são: o cérebro, tracto digestivo, coração, músculos, sangue,
glândulas hormonais.
2.3. Problemas Psiquiátricos do Alcoolismo
Dentro do alcoolismo existe a dependência; a abstinência; o abuso (uso excessivo;
porém não continuado); intoxicação por álcool (embriaguez); amnésia (perdas restritas
de memória) demencial, alucinatória, delirante, e de humor; distúrbios de ansiedade,
sexuais, do sono e distúrbios inespecíficos. Por fim o delirium tremens, que pode ser fatal.
2.3.1. Abuso de Álcool
O critério de abuso existe para caracterizar as pessoas que eventualmente, mas
recorrentemente têm problemas por causa dos exagerados consumos de álcool em
curtos períodos de tempo. Para se fazer esse diagnóstico é preciso que o paciente esteja
tendo problemas com álcool durante pelo menos 12 meses e ter pelo menos uma das
seguintes situações:
- Prejuízos significativos no trabalho, escola ou família como faltas ou negligências nos
cuidados com os filhos.
- Exposição a situações potencialmente perigosas como dirigir ou manipular máquinas
perigosas embriagado.
- Problemas legais como desacato a autoridades ou superiores.
- Persistência no uso de álcool apesar do apelo das pessoas próximas em que se
interrompa o uso. (Psicosite.htm, 2004)
2.3.2. Dependência de Álcool
Para se fazer o diagnóstico de dependência alcoólica é necessário que o usuário venha
tendo problemas decorrentes do uso de álcool durante 12 meses seguidos e preencher
pelo menos 3 dos seguintes critérios:
Apresentar tolerância ao álcool – marcante aumento da quantidade ingerida para
produção do mesmo efeito obtido no início ou marcante diminuição dos sintomas de
embriaguez ou outros resultantes do consumo de álcool apesar da contínua ingestão de
álcool.
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Sinais de abstinência – após a interrupção do consumo de álcool a pessoa passa a
apresentar os seguintes sinais: sudorese excessiva, aceleração do pulso (acima de 100),
tremores nas mãos, insónia, náuseas e vómitos, agitação psicomotora, ansiedade,
convulsões, alucinações tácteis. A reversão desses sinais com a reintrodução do álcool
comprova a abstinência.
- O dependente de álcool geralmente bebe mais do que planeava beber.
- Persistente desejo de voltar a beber ou incapacidade de interromper o uso.
- Emprego de muito tempo para obtenção de bebida ou recuperando-se do efeito.
- Persistência na bebida apesar dos problemas e prejuízos gerados como perda do
emprego e das relações familiares (Psicosite.htm, 2004).
2.3.3. Abstinência alcoólica
A síndrome de abstinência constitui-se no conjunto de sinais e sintomas observado nas
pessoas que interrompem o uso de álcool após longo e intenso uso. As formas mais
leves de abstinência apresentam-se com tremores, aumento da sudorese, aceleração do
pulso, insónia, náuseas e vómitos, ansiedade depois de 6 a 48 horas desde a última
bebida.
A síndrome de abstinência leve não precisa necessariamente surgir com todos esses
sintomas, na maioria das vezes, inclusive, limita-se aos tremores, insónia e
irritabilidade.
A síndrome de abstinência torna-se mais perigosa com o surgimento do delirium tremens
(Psicosite.htm, 2004).
2.3.4. Delirium Tremens
O Delirium Tremens é uma forma mais intensa e complicada da abstinência. Delirium é
um diagnóstico inespecífico em psiquiatria que designa estado de confusão mental: a
pessoa não sabe onde está, em que dia está, não consegue prestar atenção em nada, tem
um comportamento desorganizado, sua fala é desorganizada ou ininteligível, à noite
pode ficar mais agitado do que de dia.
A abstinência e várias outras condições médicas não relacionadas ao alcoolismo podem
causar esse problema. Como dentro do estado de delirium da abstinência alcoólica são
comuns os tremores intensos ou mesmo convulsão, o nome ficou como Delirium
Tremens.
Um traço comum no delirium tremens, mas nem sempre presente são as alucinações
tácteis e visuais. Esse tipo de alucinação pode levar o paciente a um estado de agitação
violenta. Pode ocorrer também uma forma de alucinação induzida.
O Delirum Tremens é uma condição potencialmente fatal, principalmente nos dias
quentes e nos pacientes debilitados. A fatalidade quando ocorre é devida ao
desequilíbrio hidroeletrolítico do corpo (Psicosite.htm, 2004).
2.3.5. Intoxicação pelo Álcool
O estado de intoxicação é simplesmente a conhecida embriaguez, que normalmente é
obtida voluntariamente.
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No estado de intoxicação a pessoa tem alteração da fala (fala arrastada),
descoordenação motora, instabilidade no andar, nistagmo (ficar com olhos oscilando no
plano horizontal como se estivesse a ler muito rápido), prejuízos na memória e na
atenção, estupor ou coma nos casos mais extremos. Normalmente conjuntamente com
as referidas alterações neurológicas, apresenta-se associado um comportamento
inadequado ou impróprio da pessoa que está intoxicada.
2.3.6. Wernicke-Korsakoff (síndrome amnésia)
Os alcoólicos “pesados” em parte desenvolvem algum problema grave de memória.
Há dois desses tipos: a primeira é a chamada Síndrome Wernicke-Korsakoff (SWK) e a
outra a demência alcoólica. A SWK é caracterizada por descoordenação motora,
movimentos oculares rítmicos como se estivesse lendo (nistagmo) e paralisia de certos
músculos oculares, provocando algo parecido ao estrabismo para quem antes não tinha
nada. Além desses sinais neurológicos o paciente pode estar em confusão mental, ou se
com a consciência clara, pode apresentar prejuízos evidentes na memória recente (não
consegue gravar o que o examinador falou 5 minutos antes) e muitas vezes para
preencher as lacunas da memória o paciente inventa histórias, a isto chamamos
fabulação.
Muitos autores referem-se a SWK como uma forma de demência, o que não é
incorrecto, no entanto, a demência é considerada um quadro mais abrangente, por isso
preferimos o modelo americano que diferencia a SWK da demência alcoólica
(Psicosite.htm, 2004).
2.3.7. Síndrome Demencial Alcoólica
Esta é semelhante a demência propriamente dita como a de Alzheimer. No uso pesado e
prolongado do álcool, mesmo sem a síndrome de Wernick-Korsakoff, o álcool pode
provocar lesões difusas no cérebro prejudicando além da memória a capacidade de
julgamento, de abstracção de conceitos; a personalidade pode sofrer alterações, o
comportamento como um todo fica prejudicado. A pessoa torna-se incapaz de se
sustentar.
Assim o alcoolismo é um termo genérico que indica algum problema, mas medicamente
para maior precisão, é necessário apontar qual ou quais distúrbios estão presentes, pois
geralmente há mais de um (Psicosite.htm, 2004).
3. O Alcoolismo e a Gravidez
Gual (1989) afirma que “o consumo de álcool tem aumentado em praticamente todo o mundo.
Na mesma corrente, a taxa de alcoolismo nas mulheres também tem aumentado, sendo que é
durante a idade reprodutiva que a taxa de máximo consumo se situa” (op. cit. Gonzales-Merlo
& del Sol, 1992, p. 445).
Gual, (1989) referiu que “o quadro sintomático pode ser o mesmo nas gestantes do que
nas não gestantes, que se baseia, principalmente em intoxicações agudas, pancreatite,
hepatite alcoólica e quadros convulsivos associados ao síndrome de abstinência e
delirium tremens “(op. cit. Gonzales-Merlo & del Sol, 1992, p. 445).
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3.1. Efeitos do Álcool na Gestação
Como foi referenciado por Harichiaux e Hubert (1978), “na gestação de uma mulher
alcoólica ocorrem muitas vezes abortos e partos prematuros pois, a gestação pede um maior
esforço ao organismo, nomeadamente: o coração, os rins, o fígado e os pulmões” (p. 91).
O consumo de bebidas alcoólicas durante a gestação pode trazer consequências para o
recém-nascido, sendo que, quanto maior o consumo, maior a hipótese de prejudicar o
feto.
É recomendável que toda a gestante evite o consumo de bebidas alcoólicas, não só ao
longo da gestação como também durante todo o período de amamentação, pois o álcool
também pode passar para o bebé através do leite materno.
3.2. Problemas Médicos na Gestante Alcoólica
O metabolismo do álcool nas mulheres não é igual ao dos homens. Se administrarmos
para dois indivíduos de sexos opostos a mesma dose ajustada de acordo com o peso
corpóreo, a mulher apresentará níveis alcoólicos mais elevados no sangue.
Segundo Drauzio Varella (2004), “a fragilidade aos efeitos embriagadores do álcool no sexo
feminino é explicada pela maior proporção de tecido gorduroso no corpo das mulheres, por
variações na absorção de álcool no decorrer do ciclo menstrual e por diferenças entre os dois sexos
na concentração gástrica de desidrogenase alcoólica (enzima crucial para o metabolismo do
álcool)”.
Por essas razões, as mulheres ficam embriagadas com doses mais baixas e progridem
mais rapidamente para o alcoolismo crónico e suas complicações médicas.
Gual, 1989, é de opinião que “estas pacientes recebem a maior parte do seu aporte calórico
através do álcool, sofrendo muitas vezes de anorexia e náuseas, associada a pancreatite e
gastrite”(op. cit. Gonzales-Merlo & del Sol, 1992, p. 445).
Quando a alcoólica encara uma gravidez, a deficiência de ácido fólico, devido ao álcool
ainda se acentua mais.
O álcool também é mielotóxico, aumentando o volume corpuscular médio e
produzindo trombocitopénia.
Varella (2004), chama a atenção para o facto de “as doenças de fígado e cardiovasculares
(tensão alta, ataques cardíacos, derrames cerebrais, danos aos músculos cardíacos) nas alcoólicas
são muito frequentes”.
Os alcoólicos apresentam uma diminuição neuronal por causa da destruição de células,
o que afecta o desempenho intelectual do indivíduo, provoca perda de memória,
demência e depressão.
Como afirmou Gual (1989), “a alcoólica tem um deficit de tiamina, que pode produzir
alterações neurológicas. A síndrome de abstinência ocorre sob a forma de convulsões, podendo
produzir-se às 24 horas de inibição do consumo. Os sintomas são muito parecidos a uma pré-
enclampsia. Assim o tratamento deve ser idêntico ao de uma não gestante já que a taxa de
mortalidade no delirium tremens é elevada” (op. cit. Gonzales-Merlo & del Sol, 1992, p. 446).
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3.3. Efeitos do Álcool Sobre o Feto
Seguindo o pensamento de Barrias, Breda, e Mello, (2001), “as bebidas alcoólicas, quando
consumidas em altas doses pela gestante, passam directamente para a placenta através da
corrente sanguínea e, dependendo da quantidade ingerida e da fase da gravidez, podem provocar
para além do aborto espontâneo ou do parto prematuro, a chamada síndrome alcoólica fetal, que
causa alterações no desenvolvimento neurológico do bebé e malformações em suas pernas, braços,
coração, rins e principalmente na face” (p. 62).
Além disso, o excesso de álcool tem uma acção tóxica durante a gravidez e, ainda de
acordo com Barrias, Breda, e Mello, (2001), pode causar “atraso de crescimento intra-
uterino e diminuição dos movimentos respiratórios fetais; após o nascimento pode fazer com que
o bebé apresente irritabilidade e dificuldades para o sono e mais tarde, durante sua infância,
podem ocorrer retardo mental e de desenvolvimento, o que causa um baixo aproveitamento
escolar e dificuldades para comunicação (fala e escuta)” (p. 63).
Por outro lado os problemas associados ao álcool na gravidez seguem-se no
desenvolvimento pós-natal. Como afirmaram Barrias, Breda, e Mello, (2001), “na
adolescência, podem surgir problemas de atenção, memória e julgamento” (p. 67). Infelizmente
não existe tratamento para as crianças que nascem com problemas causados pelo álcool
e os defeitos adquiridos são definitivos.
Segundo Ernst (1991):
“o síndroma ocorre mais com bebidas frequentes durante o primeiro trimestre. Contudo, o
desenvolvimento do cérebro regista-se ao longo de toda a gravidez e o álcool pode interferir nesse
desenvolvimento em qualquer altura. Estes bebés nascem subdesenvolvidos e com peso abaixo do
normal e nos casos mais graves sofrem de problemas físicos e orgânicos tais como malformações do
coração, olhos, dedos ou dos órgãos genitais externos. Apresentam perturbações de comportamento,
como hiperactividade, dificuldades de linguagem e de aprendizagem, descoordenação de movimentos,
desenvolvimento emocional retardado e atraso mental”.
À medida que as crianças crescem, a maior parte das anomalias externas desaparecem,
mas as deficiências mentais subsistem na maioria dos casos.
Ernst (1991), considera que “a quantidade de álcool consumida pela mãe não é o único factor
decisivo que determina o efeito do álcool na criança; a tolerância individual da mãe e da criança
também têm um papel importante e por isso não é possível estipular qual a quantidade que a mãe
pode beber sem provocar danos ao bebé. Muitos especialistas recomendam pura e simplesmente a
abstinência total”.
Este autor é de opinião que, “o tempo e a regularidade de ingestão de álcool, aumentam os
danos provocados no fígado. O feto demora cada vez mais para digerir o álcool. Como o álcool
passa rapidamente para o sangue, o “copo de álcool” da mãe já actua sobre o bebé após 10
minutos”.
Mesmo pequenas quantidades de álcool prejudicam o embrião. Por esse motivo, os
filhos de mães que bebem moderadamente sofrem de problemas de concentração e
dificuldades comportamentais.
Ernst (1991), refere que “o fígado imaturo do feto produz menos enzimas que decompõem o
álcool do que o fígado da mulher adulta”. Durante a ingestão regular de álcool pela mãe, o
órgão ainda imperfeito do feto é completamente sobrecarregado e o efeito devastador
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do veneno é mais prolongado, continuando ainda quando a gestante voltou a estar
sóbria.
As consequências desse abuso alastram-se até o cérebro. Sob a influência do álcool, o
desenvolvimento do cérebro em formação fica prejudicado: as circunvoluções cerebrais
são menos pronunciadas e numerosas células nervosas ficam atrofiadas,
consequentemente, essas células dispõem de uma quantidade menor de sinapses. O
tecido adiposo do feto não é bem desenvolvido e, apesar de muitos cuidados e carinho,
baixo peso e altura são a regra.
Segundo Ernst (1991), “o nervosismo inexplicado em relação a determinados ruídos,
irritabilidade excessiva e receio de qualquer contacto físico, hiperactividade, sensação de náusea
em relação a cheiros comuns, bem como dificuldades na fala são problemas frequentes”.
3.3.1. Síndrome Alcoólico Fetal
Segundo Shirley de Campos, 2003, “o termo síndrome alcoólica fetal (SAF) foi alcunhado no
início dos anos setenta para descrever um padrão observado em filhos de mães dependentes de
álcool. A SAF pertence a um conjunto de síndromes caracterizadas pela presença de defeitos
congénitos ocasionados pelo consumo materno de álcool em grandes quantidades durante a
gravidez” (ver Anexo 1).
A síndrome alcoólica fetal é considerada a causa mais comum de atraso mental infantil
de natureza não hereditária.
A síndrome alcoólica fetal advém da combinação do beber materno excessivo com
diversas modalidades de factores de risco (ver Anexo 2). Como Campos (2003) afirmou
“não há, marcadores capazes de determinar a acção exacta do álcool sobre o feto, assim como a
influência da dose sobre o processo de desenvolvimento da síndrome”.
Problemas relacionados à saúde materna são os factores de risco mais associados à
ocorrência da SAF. Assim como Campos (2003) declarou, “a idade materna avançada, a
presença de outras gestações, a ocorrência de partos prematuros ou mortalidade à nascença
relacionados ao consumo de álcool e o uso adicionado de tabaco e/ou outras drogas estão
fortemente relacionados ao aparecimento da SAF em mulheres consumidoras habituais de álcool
durante a gestação”.
A acção directa e indirecta do álcool sobre o sistema nervoso embrionário, apesar de
não ser o único factor patogénico responsável pelo aparecimento da SAF, parece estar
relacionada aos defeitos encontrados com mais frequência entre os portadores desta
síndrome (ver Anexo 3). Por consequência ao referido por Campos (2003) “tal acção
relaciona algumas regiões centrais com mais intensidade (Anexo 4), enquanto outras parecem
possuir alguma resistência aos mesmos efeitos”.
Semelhante ao que Campos (2003) disse “a agnesia do corpo caloso (Anexo 5) é uma das
anomalias mais frequentemente associadas à SAF”. Estudos recentes têm mostrado que a
presença do álcool (mesmo em baixas concentrações) no sistema nervoso fetal inibe o
gene responsável pela síntese molécula L1. Tal molécula, presente nas membranas
neuronais, é responsável pela adesão dos neurónios aos fibroblastos (células do tecido
conectivo) e a outros neurónios. Desse modo são fundamentais para a formação da
arquitectura dos tecidos nervosos. Nos neurónios diferenciados (maduros) parecem
exercer um importante papel nas alterações sinápticas que influenciam a memória e o
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aprendizado. Assim, alterações sobre a síntese destas moléculas são capazes de levar a
malformações cerebrais e atrasos mentais, tais como os observados na SAF (ver Anexo
6).
Os critérios diagnósticos da SAF foram estabelecidos e padronizados pela Research
Society on Alcoholism Fetal Alcohol Study Group, em 1980 e sofreram algumas
modificações no final da mesma década (ver Anexo 7).
Segundo Campos (2003) “três critérios essenciais devem ser encontrados: retardo do
crescimento pré ou pós-natal, acometimento do sistema nervoso central e a presença de fácies
característica”.
É importante salientar que a presença das alterações faciais (ver Anexo 8) praticamente
fecha o diagnóstico de SAF. Apesar de tais alterações serem encontradas isoladamente
em outras síndromes, a combinação destas é característica da SAF.
Apesar da necessidade da presença de critérios essenciais para o estabelecimento do
diagnóstico da SAF, muitas outras alterações podem fazer parte do quadro clínico (ver
Anexo 9). No tocante aos transtornos mentais associados à SAF, Campos (2003),
afirmou que “o atraso mental é o mais frequente”. Ele pode aparecer em níveis de
gravidade distintos. Acomete não só as crianças com diagnóstico de SAF estabelecido,
mas também aquelas que tiveram alguma exposição ao álcool durante a gestação (ver
Anexo 10). Não há, no entanto, opiniões acerca da intensidade de exposição necessária
para ocasionar tais complicações. Outras evidências apontam para deficits de
linguagem, aprendizado, memória, esquemas visuais, coordenação e aprendizagem
não-verbal. Relativamente ao comportamento, é elevada e progressiva a prevalência de
problemas entre esses indivíduos nos mais variados campos. Além dos problemas
mentais, que acometem quase a totalidade destes, pelo menos a metade ultrapassa os
vintes anos já tendo apresentado problemas no convívio escolar, com a justiça ou com
seu comportamento sexual. Quase a metade tem problemas com álcool ou drogas (ver
Anexo 11). Os distúrbios neuro-desenvolvimentais e os defeitos congénitos
relacionados ao álcool ocupariam posição intermediária.
4. Aspectos Psicológicos na Gestante Alcoólica
Apesar de não ser encarada como droga por grande parte da sociedade, o álcool
também é considerado uma substância psicotrópica, pois provoca, sobretudo,
mudanças no comportamento e tem potencial para desenvolver dependência.
O Álcool é uma droga que atinge, inicialmente, o centro cerebral da censura, deixando a
pessoa desinibida, falante e galanteadora.
É uma das poucas drogas psicotrópicas que tem seu consumo admitido e até
incentivado pela sociedade. Esse é um dos motivos pelo qual ele é encarado de forma
diferenciada, quando comparado com as demais drogas.
Gual (1989) diz que “a maioria das consumidoras de álcool são mulheres jovens que se
encontram em estados iniciais da sua dependência, logo, não admitem o facto em questão”
(Gonzales-Merlo & del Sol, 1992, p. 446).
A alcoólica de “primeira viagem” sempre tem a impressão de que pode parar quando
quiser e afirma: “quando eu quiser, eu paro”. Essa frase geralmente encobre o alcoolismo
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incipiente e resistente; resistente porque o paciente nega qualquer problema
relacionado ao álcool, mesmo que os outros não acreditem, ele próprio acredita na
ilusão que criou.
A negação do próprio alcoolismo, quando ele não é evidente ou está começando, é uma
forma de defesa da auto-imagem (aquilo que a pessoa pensa de si mesma).
O alcoolismo, como qualquer diagnóstico psiquiátrico, é estigmatizante. Fazer com que
uma pessoa reconheça o próprio estado de dependência alcoólica, é exigir dela uma
forte quebra da auto-imagem e consequentemente da auto-estima.
Com a auto-estima enfraquecida a pessoa já não tem a mesma disposição para viver e,
portanto, lutar contra a própria doença. É uma situação paradoxal para a qual não se
obteve uma solução satisfatória. Dependerá da arte de conduzir cada caso
particularmente, dependerá da habilidade de cada psiquiatra.
Campos (2003) relatou que “uma gestante Alcoólica, para além de um quadro psíquico de uma
alcoólica, como o são a baixa auto-estima, a depressão, o fraco desempenho sexual mantém
sentimentos de culpabilização perante a situação que vivência”.
Segundo foi relatado por Kaup e Tsunechiro (2001) “uma quantidade significativa de
mulheres consumiu bebida alcoólica em algum período da gestação, mesmo tendo conhecimento
dos danos para o conceito” (p. 14). Assim surgem sentimentos de complexidade e
culpabilidade pois, estas pacientes sabem que não é correcto manter o comportamento
de dependência pelo álcool devido à presença de um bebé, no entanto não consegue
separar-se deste dilema.
Segundo Varella (2004), “em grande parte dos casos, o companheiro da gestante também é
alcoólico, sendo que este é um aspecto a ter em conta, devido ao grande influencia que este gera
sobre a gestante, bem como, também é o caso do impacto que a nossa sociedade exerce sobre esta,
isto devido ao álcool ser uma droga aceite no nosso meio, logo em qualquer ambiente notamos a
presença de um típico convívio em que o álcool tem o seu papel social”.
Para além dos típicos problemas psicológicos de uma alcoólica não gestante, estas
pacientes ainda enfrentam os problemas psicológicos que surgem durante a gravidez
que, segundo Gual (1989) “são irritabilidade, mudanças de personalidade, tendência à tristeza
e melancolia, ou por contrário, euforia” (Gonzales-Merlo & del Sol, 1992, p. 152). Assim,
esta soma de valores traz inúmeras consequências para uma alcoólica, que tornam a sua
situação ainda mais significativa.
5. O Papel do Enfermeiro Perante uma Gestante alcoólica
Como já foi referenciado anteriormente, o álcool é um “mal” da nossa sociedade, visto
que acarreta inúmeros problemas de ordem económica, social, psicológica e,
principalmente consequências a nível da saúde.
Esta droga tem efeitos nefastos sobre a gestação e, em consequência de um maior
aumento do consumo desta substância por parte da população feminina, tem sido alvo
de grande preocupação dos profissionais de saúde, principalmente dos enfermeiros, já
que estes têm um papel importante na Educação para a Saúde da grávida.
Segundo Ernst (1991) “os principais motivos da incidência deste problema são:
- Poucos médicos decidem conversar com suas clientes sobre o hábito de beber.
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- Muitas mulheres não sabem, ou reprimem o conhecimento, que as crianças, vítimas do álcool,
são prejudicadas pela vida toda.
- Nas garrafas e latas de bebidas alcoólicas faltam advertências, que são obrigatórias, por exemplo,
nos Estados Unidos.
- São raros os locais adequados para o tratamento de gestantes dependentes do álcool. Quando
existe, o tratamento ocorre, muitas vezes, somente depois do parto.
- Não é raro a mulher dependente de álcool deixar temporariamente de ter a menstruação. Ela só
percebe que está grávida quando sente os movimentos da criança.”
Segundo Campos (2003), “é necessário que os profissionais da saúde investiguem o consumo
de álcool entre as gestantes que frequentam os serviços de atendimento primário”.
Gestantes que utilizam álcool durante a gestação tendem a omitir tal informação.
Perguntar sobre o padrão anterior de consumo de álcool, ao contrário do actual, pode
deixar a gestante mais à vontade para falar sobre o assunto.
Quanto mais precoce o diagnóstico, menor a possibilidade de complicação fetal. Mas
isso implica também na prontidão terapêutica para essas mulheres. Algumas estratégias
são essenciais.
Assim como referiu Campos (2003) “um trabalho multidisciplinar é o ideal: a paciente deve
receber um tratamento mais intensivo, com abordagens que a motivem para a mudança, as
visitas domiciliares são bem-vindas, apoios comunitários aumentam a adesão ao tratamento e as
possibilidades de redução ou abandono do álcool durante o período da gestação. Os recém-
nascidos devem receber seguimento profissional constante, pelo menos durante três anos. Isso
aumenta a possibilidade de detecção precoce de problemas”. Por outro lado, quando o
problema já está instaurado, deve-se tratar a alcoólica. Sendo uma das formas de
tratamento:
- Fazê-la compreender que está doente e que precisa de ajuda;
- Convencê-la a aceitar, voluntariamente, tratamento médico para desintoxicação;
- Levá-la a entender que o álcool é um inimigo destruidor;
- Afastá-la dos amigos de bar;
- Convidando-a a participar em associações de ex-viciados, tais como AAA – Associação
dos Alcoólicos Anónimos;
- É indispensável o apoio da família e manter o seu trabalho.
Sabe-se que este problema afecta, por conseguinte, a sua família e grupos de convívio.
Cabe aos profissionais de saúde arranjar soluções para a diminuição da percentagem de
incidência deste problema, sendo que a primeira actuação deve ser ao nível da
prevenção.
6. Conclusão
O alcoolismo é uma doença crónica, caracterizada pelo consumo incontrolado de bebida
alcoólica, que interfere na saúde física e mental da pessoa, com drásticas consequências
em sua vida social, familiar e profissional.
Inicialmente, a pessoa vai-se tornando mais tolerante ao álcool, adquirindo uma
capacidade cada vez maior de consumo, sem sentir seus efeitos prejudiciais. Com o
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tempo, ela começa a sofrer de falta de memória e consequente perda do controle sobre a
bebida. Quando menos espera, já não consegue mais parar de beber, aumentando sua
necessidade incontrolável de se manter alcoolizada. O álcool afecta também o sistema
nervoso central, deixando a pessoa menos produtiva, ansiosa, irritada e tensa,
comprometendo a sua capacidade de concentração, julgamento e o seu desempenho
profissional. Consumido em grande quantidade, provoca intoxicação e até
envenenamento, podendo levar ao coma alcoólico e à morte.
Na nossa sociedade, o consumo de álcool por parte da população feminina tem
aumentado, e consequentemente, o mesmo acontece com o consumo de álcool durante a
gravidez.
O uso e o abuso do álcool durante a gravidez devem ser motivo de grande preocupação
e acurada investigação por parte dos profissionais de saúde que assistem as mulheres
no pré-natal. O abuso do álcool está associado à restrição do crescimento fetal, às
deficiências cognitivas, ao aumento da morbilidade e a outros distúrbios mais leves
chamados de efeitos do álcool sobre o feto, uma forma incompleta da síndrome
alcoólica fetal.
Todo o álcool ingerido atravessa a barreira placentária e o feto fica exposto à mesma
concentração que a mãe. No entanto, a exposição é maior para o feto porque o
metabolismo e a eliminação são mais lentos; o líquido amniótico fica impregnado de
álcool não modificado e de acetaldeído, pois não possui a quantidade necessária de
enzimas para a sua biodegradação. Os danos fetais são diferentes, conforme o período
gestacional: no primeiro trimestre da gestação, o risco é de anomalias físicas e
dismorfismo; no segundo há risco de aborto, e no terceiro pode ocorrer diminuição do
crescimento fetal, em especial o perímetro cefálico e o cérebro.
A prevenção dos riscos relacionados ao uso e abuso do álcool na população feminina
em idade fértil pode ser feita, sobretudo, pela informação sobre os males que acarretam
tanto à mãe como ao feto.
O primeiro trimestre da gestação é o melhor momento para incentivar a interrupção,
quando as náuseas se tornam mais frequentes, surge o medo de ocorrerem
malformações e a cobrança por parte dos familiares costuma ser insistente.
Verificou-se que a confirmação do consumo de álcool na gestação nem sempre é fácil,
provavelmente, pelo constrangimento da mulher em informar o uso e pelo despreparo
do profissional para investigar adequadamente ou valorizar as queixas compatíveis
com o hábito de beber. Assim, visto que os problemas que o álcool acarreta para a
gravidez são imensos, este deve ser impedido, de forma a evitar as graves
consequências a nível do feto em formação.
7. Bibliografia
Barrias, J., Breda, J., & Mello, M. (2001). Álcool e problemas ligados ao álcool em Portugal. Lisboa:
Direcção Geral da Saúde.
Gitlow, S., & Peyser, H. (1991). Alcoolismo: Um Guia Prático de Tratamento. Porto Alegre: Artes
Médicas.
Harrichaux, P. , & Hubert, J. (1978). O Alcoolismo. Coimbra: Livraria Almedina.
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Kraup, Z., & Tsunechiro, M. (2001). Avaliação do Consumo de Bebida Alcoólica Durante a
Gravidez. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 23. Rio de Janeiro.
Merlo, J., & Sol, J. (1992). Obstetrícia. Barcelona: Massan.

Sites consultados:
Almeida, E. (s. d.). Serviços de Saúde: Alcoolismo. URL: http://www.alcoolismo.htm
Campos, S. (2003). Síndrome de Alcoolismo Fetal. URL: http://shirleydecampos.com.br
Castelões, L. (s. d.). Com Ciência – Drogas. URL: http://www.comciencia.br/
Ernst, M. (1991). Tomando um trago já no ventre materno. URL: http://www.alcoolismo.com.br
Guimarães, D. (2003). Alcoolismo na Gravidez. URL: http://www.alcoolismo.htm
(s. a.). (2004). Alcoolismo: Transtornos relacionados por semelhança ou classificação. URL:
http://www.psicosite.com.br
(s. a.). (2000). Guia da Gravidez: Síndroma do Alcoolismo Fetal. URL: http://www.abcdobebe.com
Varella, D. (s. d.). Alcoolismo em Mulheres. URL: http://www.drauziovarella.com.br
ANEXOS
Anexo 1

Anexo 2
Factores de risco relacionados à ocorrência da síndrome alcoólica fetal
Modalidade Factores de risco identificados
Saúde materna
Idade acima de 25 anos ao nascimento da criança
Presença de 3 ou mais gravidezes anteriores
Ocorrência de parto prematuro ou natimorto anterior
Uso concomitante de tabaco e/ou outras drogas
Desnutrição ou subnutrição
Gestação Consumo durante o primeiro trimestre da gravidez
Síndromes relacionadas ao consumo materno de álcool na gravidez
Síndrome alcoólica fetal
(SAF)
Caracterizada por retardo do crescimento e alterações dos traços faciais,
que se tornam menos evidentes com o passar do tempo. Somam-se a estes,
alterações globais do funcionamento intelectual, em especial deficits de
aprendizado, memória, atenção, além de dificuldades para a resolução de
problemas e socialização.
Distúrbios
neurodesenvolvimentais
relacionados ao álcool
Apresenta os mesmos distúrbios mentais observados na SAF. Não há, no
entanto, retardo no processo de crescimento, tampouco alterações faciais.
Defeitos congénitos
relacionados ao álcool
Abrange as alterações da constituição esquelética e de outros órgãos
decorrentes da exposição do feto ao álcool durante a gravidez.
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Sócio-económicos
Baixo nível sócio-económico
Desemprego ou sub-emprego
Padrão de consumo
materno
Início precoce do consumo de álcool
Padrão compulsivo de uso (5 copos ou mais por ocasião)
Padrão frequente de uso (ao menos 2 ocasiões semanais)
Ausência de redução do consumo na gravidez
Factores psicológicos
Baixa auto-estima
Depressão
Distúrbios sexuais
Factores familiares
História de dependência de álcool na família
Dependência de álcool compartilhada pelo marido
Relações maritais ténues
Factores sócio-culturais Ambientes tolerantes ao beber pesado da gestante

Anexo 3

Principais mecanismos fisiopatológicos do álcool sobre o sistema nervoso fetal
- Interferência do processo de maturação neuronal
- Interferência na migração das células e na mielinização
- Interferência na adesão celular
- Alteração das membranas celulares
- Alteração da produção ou da resposta aos factores que regulam o crescimento e
divisão celular
- Interferência na regulação do cálcio intracelular
- Produção de radicais livres

Anexo 4


Anexo 5
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Agnesia do corpo caloso. A primeira imagem (à esquerda) mostra um indivíduo sem alterações anatómicas centrais.
Seu corpo caloso encontra-se intacto em toda a sua extensão. Ele é a estrutura responsável pela conexão entre os dois
hemisférios cerebrais. Nas outras duas imagens (ao centro e à direita) o corpo caloso não pode ser detectado. FONTE:
Riley E. Fetal Alcohol Syndrome and Fetal Alcohol Effects4 (online).
Agnesia do corpo caloso
Trata-se da ausência do corpo caloso, uma estrutura do cérebro responsável pela ligação entre os seus
dois hemisférios cerebrais. A síndrome possui graus variados de severidade. Desse modo, podem variar
da ausência de sintomatologia até quadros de deficiência mental de moderada a grave, convulsões
generalizadas e deficits motores. A agnesia de corpo caloso não representa um perigo de vida, mas é
capaz de causar grandes debilidades ao indivíduo.

Anexo 6

A molécula L1 e a arquitectura cerebral. Na linha de figuras do topo6, o primeiro grupo de neurónios
(primeiro da esquerda para a direita] é desprovido de moléculas L1 em suas membranas. Não foram
capazes, desse modo, de se aderirem para a formação dos núcleos e estruturas fundamentais para a
arquitectura e o funcionamento cerebral. Os três outros grupos de neurónios possuem moléculas L1. O
primeiro (segundo da esquerda para a direita] não recebeu álcool e realizou normalmente o processo de
adesão celular. Já os outros dois (terceiro e quarto da esquerda para a direita] apresentaram prejuízos
progressivos no processo de adesão celular, conforme as concentrações de álcool aumentavam. Esse
efeito desorganizador do álcool sobre o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso central parece
estar relacionado às malformações observadas na SAF. Tal efeito pode ser observado na figura inferior7: a
arquitectura de um cérebro mal formado (criança portadora de SAF) é comparada com um cérebro de
arquitectura preservada.

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Anexo 7
Critérios diagnósticos da Research Society on Alcoholism SAF
Retardo do crescimento pré ou pós-natal
- Abaixo do décimo percentil
Prejuízos no sistema nervoso central
- Anormalidades neurológicas
- Atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor
- Distúrbios do comportamento
- Prejuízos intelectuais
- Malformações cerebrais
Fácies característica
- Fissuras palpebrais curtas (olhos abertos)
- Lábio superior fino
- Philtrum indefinido
- Fácies plana


Anexo 8

Alterações faciais características da SAF. FONTE: Alcohol Health & Research World 1994 18(1). National
Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism - NIAAA.

Anexo 9
Sinais e sintomas observados na SAF
Crescimento
- Deficit de crescimento pré ou pós-natal
- Redução do tecido adiposo

Desenvolvimento
- Retardo mental
- Atraso no desenvolvimento neuropsicomotor
- Disfunção motora fina
- Deficit de atenção e/ou hiperactividade
- Problemas de fala
Tecido esquelético
- Alterações articulares (luxações)
- Defeitos de postura dos pés
- Anormalidades da espinha cervical
- Pectus excavatum

Aparelho cardíaco
- Defeitos do septo ventricular
- Defeitos do septo atrial
- Tetralogia de Fallot
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- Hipotonia
- Distúrbios cognitivos e comportamentais

Região craniofacial
- Microcefalia
- Fissuras palpebrais curtas
- Ptose palpebral
- Pregas epicânticas
- Micro ou retrognatia
- Hipoplasia maxilar
- Philtrum indefinido
- Nariz curto com nasio rebaixado

Miscelânea
- Estrabismo
- Má oclusão dentária
- Perdas auditivas
- Escavação torácica anormal
- Dentes pequenos
- Hipospádia
- Hidronefrose
- Hirsutismo infantil
- Hérnias umbilicais ou diafragmáticas
FONTE: Ellenhorn et al. Alcohols and Glycols. 1997 9.

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Anexo 10

SAF e retardo mental. O estudo realizado por Mattson et al (1997) demonstra que o desempenho intelectual entre
crianças portadoras de SAF ou com alguma exposição ao álcool durante a gestação apresentam níveis inferiores de
QI, quando comparadas a controles desprovidos desses acometimentos. FONTE: Riley E. Fetal alcohol syndrome and
fetal alcohol efects (online)

Anexo 11

SAF e distúrbios do comportamento. Problemas sociais fazem parte da rotina destes indivíduos. FONTE: Riley E.
Fetal alcohol syndrome and fetal alcohol efects (online)

Anexo 12
Quadro 7: Factores protectores contra complicações sociais e psicológicos relacionados à SAF
- Relacionamentos familiares estáveis
- Diagnóstico da síndrome antes dos 6 anos de idade
- Ausência de abuso sexual ou violência física
- Rotina estável e imune a mudanças periódicas de residência ou cidade
- Ausência de privações sociais
- Presença de acompanhamento especializado

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FIM
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Gravidez e Toxicodependência

Trabalho elaborado por:
Carina Correia; Cármen Santos; Cecília Cavaco; Inês Oliveira; Orlanda Michão

1. Introdução
No âmbito da disciplina de Psicologia V foi-nos solicitado pela docente da mesma a
elaboração de um trabalho cujo tema a abordar é “Gravidez e Toxicodependência”.
O nosso trabalho tem como objectivo geral aprofundar e aprimorar os nossos
conhecimentos acerca da forma como esta problemática da toxicodependência
influencia a gravidez.
Ainda temos como objectivos:
- Compreender a problemática da toxicodependência;
- Compreender o fenómeno da gravidez;
- Identificar o perfil psicológico da mulher toxicodependente;
- Enumerar os factores de risco para a gravidez da mulher toxicodependente;
- Descrever os factores que podem influenciar o desempenho maternal na mulher
toxicodependente;
- Enumerar os efeitos do consumo de droga no organismo humano;
- Identificar os efeitos que as drogas podem causar na grávida, feto e recém-nascido;
- Compreender a importância da interacção mãe/bebé.
O consumo de drogas traduz-se numa grave problemática que tem vindo a evoluir
drasticamente ao longo dos tempos a nível mundial.
Uma vez que o tema do nosso trabalho é a gravidez e toxicodependência torna-se
fundamental definir alguns conceitos, tais como gravidez, toxicodependência, drogas e
toxicodependente.
A gravidez, segundo Justo (1990) refere-se ao “período de alguns meses que medeia entre a
concepção e o parto e que, como já foi exaustivamente demonstrado na literatura, implica, do
ponto de vista psicológico, ajustamentos e recurso a mecanismos adaptativos à própria situação.”
Sousa (1998) define a toxicodependência como a dependência de uma grande
quantidade de químicos, tais como a cocaína, heroína, ecstasy, entre outros. Aragão e
Sacadura (2002) acrescentam que a toxicodependência é “um fenómeno multideterminado
por factores de natureza diversa que se conjugam e criam condições para o seu aparecimento e
manutenção”, sendo o toxicodependente “o produto mais bem acabado de uma
sociedade onde progressivamente o valor dos laços e das relações afectivas se vai
perdendo e que elegeu o químico e o consumo como valores de felicidade”.
Não fazia qualquer tipo de sentido falar de toxicodependência e toxicodependente, sem
enunciar o conceito de droga. Desta forma, segundo a OMS, “droga é uma substância
natural ou sintética que modifica o funcionamento do organismo no qual é introduzida”.
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A metodologia utilizada para a elaboração deste trabalho foi a pesquisa bibliográfica,
cibernáutica e a pesquisa em campo.
2. A problemática da Toxicodependência
2.1. O passado e o presente
Segundo Frazão (2003), o consumo de substâncias capazes de alterar o estado de
consciência e “exaltar o espírito” não são situações actuais, remontando à Antiguidade
o conhecimento das propriedades de determinadas plantas, que funcionavam como
“apaziguadoras de todos os males”.
Na sociedade contemporânea o fenómeno da toxicodependência assume uma dimensão
preocupante e uma ameaça ao equilíbrio social, cultural e político.
2.2. A personalidade do toxicodependente
2.2.1. Aspectos psicológicos
Segundo Pinto-Coelho (1993), e de modo geral, pode-se dizer que o toxicodependente é
imaturo e desequilibrado, justificado pelo número de toxicodependentes solteiros,
separados e sem residência fixa. Com um passado inconsistente e sem sinais de
satisfação.
O toxicodependente é, normalmente uma pessoa passiva, com poucos amigos e com
uma ideia desvalorizante de si próprio, vendo o futuro com pessimismo, sem
esperança, totalmente vazio de qualquer esperança ou projecto. De humor lábil e
impulsivo, tornando-se cada aspecto da sua personalidade poder ser seduzida pela
droga.
2.2.2. Aspectos sócio-culturais
Pinto-Coelho (1993) é de opinião que as condições sociológicas do nosso tempo
favorecem o desenvolvimento de um enorme grupo marginal, os jovens. Este grupo é
fundamental e biologicamente agressivo. Os jovens têm tendência a investir a sua
agressividade na formação de grupos, no seio dos quais eles procuram restabelecer
lugares sociais, ou seja, uma sociedade privada, algo só do grupo, vedada ao exterior.
O corte entre as duas gerações provoca na juventude o Síndrome de carência de autoridade.
Esta consiste na fraqueza e inconsciência da personalidade, isolamento afectivo e
insegurança e angústia dos jovens.
2.3. A dependência de drogas
2.3.1. Tipos de dependência
As drogas podem provocar dependência física e psicológica ou apenas psicológica, não
sendo por isso menos inofensiva, de acordo com Hapetian (1997).
Uma vez introduzida no organismo, a droga altera de forma considerável a
comunicação das células cerebrais que se torna mais lenta, no caso de drogas
depressoras, e mais rápida se se tratarem de drogas estimulantes e variável e
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imprevisível no caso de drogas perturbadoras ou alucinogéneas, tal como refere
Hapetian (1997).
Na noção de dependência está sempre presente uma perda de controlo no consumo do
produto, isto é, a pessoa sente que não pode nem consegue viver sem a sua dose de
droga habitual, segundo o Gabinete de Planeamento e de Coordenação do Combate à
Droga (1990). Ainda segundo este, existem dois tipos de dependência:
- Física – manifesta-se através de um conjunto de sintomas físicos, tais como
transpiração abundante, taquicardia, queda de tensão arterial, entre outros, que
ocorrem se um indivíduo interrompe abruptamente o consumo de determinada
substância. Estas perturbações neurovegetativas, denominadas por Síndrome de
Abstinência, traduzem uma habituação do organismo ao produto e a necessidade
imperiosa de poder dispor de droga para funcionar sem este tipo de sintomas.
- Psicológica – traduz-se por um sentimento de falta, de desconforto e de vazio que
ocorre quando o produto a que o indivíduo está habituado, não está disponível
de imediato.
Segundo Hapetian (1997) o Síndrome de Abstinência é também conhecida como “ressaca”,
sendo a ressaca física caracterizada pelos toxicodependentes como “um mau bocado”.
Caracteriza-se por um estado de agitação muito grande, ansiedade, cãibras abdominais,
dores musculares, suores, tremuras e, por vezes, delírios.
Hapetian (1997) descreve como a pior “ressaca” a psicológica, sendo esta caracterizada
por uma sensação de perda, de vazio e um total incapacidade de enfrentar as realidades
que constituem o quotidiano de uma pessoa “normal”.
Tratar a dependência física acontece em relativamente pouco tempo, cinco a dez dias de
abstinência, sendo um período bastante doloroso para o tóxico (Hapetian, 1997).
A dependência psicológica relativamente a um produto pode, por seu lado, levar anos.
Não existem curas milagrosas (Hapetian, 1997).
2.3.2. O ciclo de dependência
O Ciclo de Dependência quando se instala é difícil de quebrar uma vez instalado, tal
como indica Hapetian (1997).
A primeira etapa é o problema, o momento em que este se instala. Este pode ser um
desgosto amoroso, uma sucessão de insucessos escolares, stress ou fadiga, podendo ser
também uma experiência fortuita para “experimentar”. Todos estes problemas podem
desencadear num grande nível de ansiedade física e psicológica, podendo-se manifestar
a nível psicológico e físico. E é a procura de uma solução para esses problemas que leva
muitas vezes ao consumo de drogas, mas o problema contínua na pessoa.
Depois destas fases, o organismo recupera da introdução da substância estranha,
provocando mal-estar físico e psicológico crescente, voltando a pessoa a se confrontar
com o problema que havia sido atenuado com o consumo de drogas, adicionando-se a
este o sentimento de culpa pelo consumo ilícito.
De acordo com Hapetian (1997) podem então desenhar-se dois caminhos. O indivíduo:
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- Sente-se capaz de procurar soluções para o problema inicial e opta por outras
alternativas ao consumo de drogas;
- Confrontado novamente com o problema inicial é incapaz de o solucionar,
continuando a consumir com o objectivo de não se confrontar novamente com o seu
estado inicial.
Este autor considera igualmente que com o recurso quotidiano e sistemático ao
consumo de droga o organismo vai gradualmente habituar-se ao produto – tolerância – o
que origina a necessidade de se consumir drogas mais fortes e a aumentar a dose e,
posteriormente, a frequência dos consumos.
Este aumento do consumo implica um dispêndio de recursos que acabam por ser
insustentáveis, acabando por surgir, como denomina Hapetian (1997), os problemas
“satélites” da toxicodependência: ruptura familiar; roubos; assaltos; problemas com a
polícia; prisão.
A droga deixa de ser uma fonte de prazer, passando a ser uma fonte de sofrimento caso
a substância ilícita não seja consumida.
2.4. tipos de consumidores de drogas
De acordo com o tipo de consumo que é realizado, podem-se classificar os
consumidores em diferentes categorias. Assim, a SPTT (1999) distingue os consumos:
experimentais, ocasionais, habituais e compulsivos ou toxicodependências.
2.4.1. Consumos experimentais
Correspondem segundo a SPTT (1999), a situações de um contacto inicial com um ou
mais tipos de substâncias. Estes consumos podem passar a uma situação de abandono
ou podem ser continuados, evoluindo para um dos outros tipos de consumo atrás
referenciados. Este tipo de consumo inicia-se como: uma situação de curiosidade; uma
pressão do grupo em que o indivíduo se encontra inserido; uma atracção pelo risco e
pelo proibido; ou ainda, uma procura de prazer e do desconhecido.
Por vezes, tudo começa com a procura do desconhecido, o conhecer os efeitos que estas
substâncias podem causar no organismo, o comparar as sensações descritas por colegas
do grupo em que o indivíduo se encontra inserido. Não nos podemos esquecer, que este
tipo de consumo apresenta uma grande incidência na adolescência, onde se procura
descobrir o desconhecido e enveredar por caminhos que são proibidos, ou situações que
não são bem aceites pela sociedade em que se vive (SPTT, 1999).
2.4.2. Consumos ocasionais
São definidos pelo SPTT (1999), como correspondendo ao uso intermitente de uma(s)
substância(s) sem qualquer periodicidade fixa e, normalmente, com intervalos bastante
amplos de abstinência.
Neste tipo de consumo, o indivíduo já conhece os efeitos e reacções que a substância
causa no seu organismo. Consome, mas não de uma forma continuada, registam-se
períodos de abstinência. Estas substâncias são utilizadas como um meio de facilitar a
comunicação, uma procura de prazer, e um transgredir a lei (SPTT, 1999).
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2.4.3. Consumos habituais
Já é frequente a utilização de uma substância. Neste caso, o consumo pode ser realizado
em grupo ou individualmente, conhecendo o indivíduo os efeitos da substância no seu
organismo. O indivíduo consome como uma forma de obter esses mesmos efeitos, tem a
noção que ainda exerce algum controlo sobre o seu organismo, acreditando que não se
encontra ainda dependente da droga e que consegue parar quando quiser (SPTT, 1999).
São diversas as motivações que levam a este tipo de consumo, segundo SPTT (1999):
aumentar sensações de prazer; sentimentos de pertença a um grupo, e necessidade de
reconhecimento no interior deste; reduzir a solidão, o aborrecimento, a ansiedade;
reafirmar a sua independência ou a sua rejeição à sociedade; reduzir a fome, o frio, a
fraqueza ou o cansaço.
2.4.5. Consumos compulsivos ou Toxicodependência
De acordo com o autor anteriormente referido, nos consumos compulsivos ou
toxicodependentes, o indivíduo necessita da substância, desenvolvendo-se toda a sua
vida em volta desta mesmo com todas as complicações que esta situação pode provocar.
Todas as suas energias se encontram canalizadas para o consumo desta substância.
Segundo o SPTT (1999), alguns indicadores de avaliação podem definir esta forma de
consumo: utilização da substância em maior quantidade ou por um período de tempo
mais amplo do que o consumidor pretende; consciencialização de que é cada vez mais
difícil controlar o uso das substâncias; consumir a maior parte do tempo em actividades
relacionadas com a obtenção da(s) substância(s) e o consumo da(s) mesmas(s);
considerável redução ou abandono de actividades sociais, laborais ou recreativas; uso
continuado da(s) substância(s) apesar de ter consciência dos problemas que esta(s) estão
a provocar em si próprio e no meio envolvente; presença do fenómeno da tolerância;
frequentemente o consumo já não é pelo prazer mas para aliviar o desprazer provocado
pela falta da(s) substância(s).
2.5. Fases de consumo
1ª Fase – Designada por “Lua de Mel”. Caracteriza-se pela percepção dos efeitos
positivos da droga, ignorando quase totalmente os seus efeitos negativos.
O mecanismo de reforço positivo domina esta fase, o consumo de drogas é ocasional e
pouco regular, atenuando significativamente os efeitos negativos do seu consumo.
A grande maioria dos consumidores encontra-se nesta fase em que não se verifica
qualquer dependência física ou psicológica, apesar da existência do reforço positivo.
Nesta fase nada indica evolução para as fases seguintes.
2ª Fase – Apesar do predomínio dos mecanismos de reforço positivo, pode considerar-
se que esta fase está já associada à dependência psicológica.
No caso de dependência de drogas duras, como a heroína, começam a ter importância os
mecanismos de reforço negativo.
O consumo das substâncias torna-se cada vez mais regular e imperativo, de modo a
combater os seus efeitos negativos, pois além de proporcionarem ainda algum prazer, os
consumos começam a ser também uma necessidade para reduzir o sofrimento.
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3ª Fase – Os mecanismos de reforço positivo são praticamente anulados, dando lugar a
uma predominância quase total dos mecanismos de reforço negativo.
A transição para esta fase, associada à dependência física, é muito reduzida ou até
mesmo inexistente no caso do consumo de drogas leves, mas muito mais frequentes nos
consumidores de drogas duras, devido à severidade dos sintomas de abstinência que
estas substâncias produzem.
Nesta derradeira fase, os consumidores (que atingem uma grande visibilidade social
devido ao seu aspecto e comportamento) procuram, acima de tudo, o restabelecimento
da sua normalidade. A angústia provocada pela abstinência exige ser aliviada de
imediato.
2.6. tipos de prevenção
A prevenção é uma atitude pró-activa, que não só se antecipa mas também reconhece a
ocorrência de uma situação específica e procura, através de algumas acções, evitar a sua
verificação presente ou futura.
As estratégias de prevenção evoluem à medida que as novas descobertas científicas
fornecem informações sobre as abordagens experimentadas.
O modelo de prevenção geralmente adoptado é constituído por três níveis:
1. Prevenção Primária – refere-se à totalidade das intervenções, cujo objectivo é agir sobre as
causas do consumo de drogas e das toxicodependências de modo a que estas situações
não se venham a verificar. Este nível constitui a prevenção propriamente dita.
2. Prevenção Secundária – refere-se ao diagnóstico precoce, assim como o tratamento
imediato da toxicodependência, através da aplicação de uma terapêutica eficaz com o
objectivo de extinguir a toxicodependência do indivíduo. Este nível de prevenção é
também designado por tratamento.
3. Prevenção terciária – Refere-se à interrupção da toxicodependência, tendo o cuidado de
evitar a perda total ou parcial de capacidades, que possam impedir a reinserção social.
Este nível de prevenção é também responsável pelas intervenções orientadas para essa
mesma reinserção social, que é essencial para minimizar as possibilidades de
reinstalação da toxicodependência nos indivíduos. A prevenção terciária pode também
ser designada por reabilitação ou reinserção.
3. A gravidez
3.1. O significado da gravidez
Colman (1994), acredita que o significado da gravidez muda com o tempo no interior de
uma cultura contudo, afirma que a gravidez sempre foi indispensável à vida humana.
Apesar de muitas mulheres viverem a gravidez como algo magnífico nas suas vidas, a
sociedade em que vivemos não condecora a mulher grávida como o máximo em termos
de feminilidade, pois apresentamos uma ambivalência relativamente ao acto
reprodutivo. Acredita-se que o mundo em que vivemos poderá não responder às
necessidades do novo ser, ou ser extremamente violento e instável para as crianças.
(Colman, 1994)
O mesmo autor defende que a ambivalência se faz sentir na mulher moderna, em que
quando esta se torna fértil e procria, não fica apenas relatado como uma experiência
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pessoal, mas sim algo que diz respeito ao colectivo. Desta forma, a mulher sente-se mal
pois acredita que apenas tem como função a procriação, estando portanto,
exclusivamente, ao serviço da sociedade. Desta forma, só faz sentido afirmar que a
gravidez simboliza fecundidade, alimentação condicional e criatividade quando diz
respeito a uma outra pessoa. A mulher acaba mesmo por se sentir um instrumento/
acessório que é utilizado como forma de alcançar objectivos, a continuidade da vida.
Colman (1994) admite que “a gravidez dimensiona os papéis e as relações da mulher num
novo contexto, tornando-a mais dependente da ajuda de um sistema social de apoio, e cria-lhe
necessidades intensas de apoio amoroso, atenção e aceitação por parte dos outros”. Desta forma,
o modo como a grávida é vista pela sociedade pode afectar a sua experiência pessoal
3.2. Adaptação psicossocial da família em procriação
Granley e Ziegel (1985) consideram que não faria qualquer tipo de sentido falar deste
grande tema sem atribuir ênfase à definição de família. Apesar da maioria das pessoas
estar esclarecida acerca dos constituintes da família, é difícil chegar a uma definição
universal, devido existência de uma diversidade de composição e função no seio da
mesma. Desta forma, todas as famílias podem ser definidas como “ duas ou mais pessoas
unidas por algum tipo de laços e que têm algumas finalidades comuns.”
O mesmo autor acrescenta que os “laços” podem ser legais, como o casamento, afectivos
ou de relações sanguíneas. O mesmo acontece com os objectivos que ao determinar a
função familiar podem ser económicos, reprodutores, afectivos, protectores, fonte
primária de socialização para a criança, entre outros.
Ao efectuar toda esta abordagem, Granley e Ziegel (1985) acreditam que é
indispensável abordar as variadas formas de família (nuclear, ampliada, casais não
casados, famílias de progenitor único, casais lésbicos...) na medida em que estas
apresentam diferenças significativas dos seus valores em relação à vida familiar.
3.2.1. Adaptação materna
Rubin, Affonso e Sheptak (1989) citados por Bobak, Jensen e Lowdermilk, (1999)
afirmam que todas as mulheres desde as adolescentes ás de 40 anos, utilizam os nove
meses de gravidez para se adaptarem ao seu papel de mãe. Este é um processo social e
cognitivo complexo que não é intuitivo mas sim aprendido.
Colman (1994), afirma que cada gravidez é única pois cada mulher reage à sua própria
maneira ao encadeamento perfeito dos acontecimentos fisiológicos que ocorrem
durante esta fase, podendo a mesma mulher reagir de diferente forma de gravidez para
gravidez.
O mesmo autor acrescenta que de uma maneira geral todas as mulheres vivem a
gravidez como um acontecimento tanto psicológico como físico. A gravidez é pois uma
crise de maturação em que ocorrem mudanças na imagem do corpo, mudanças na
identidade, nos papéis sociais, podendo este processo ser suave ou violento, fonte de
confiança ou assustador, feliz ou triste.
Segundo Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999), o primeiro passo para a adaptação ao
papel de mãe é aceitar a ideia da gravidez, que dependerá da sua preparação para a
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gravidez e respostas emocionais. Enquanto que para umas esta será sinónimo de alegria
e entusiasmo, para outras poderá representar um choque e um desespero avassalador.
De acordo com as ideias dos mesmos autores, as mulheres que aceitam a sua gravidez
apresentam uma auto-estima elevada, são optimistas, predomina o bem-estar, a
satisfação, o conforto. Contudo, Colman (1994) acrescenta que a mulher grávida pode
sofrer desvios nas suas reacções emocionais que se caracteriza por uma grande
labilidade emocional, uma condição psicológica caracterizada por uma série de estados
de espírito que variam rapidamente e que, em situação anteriores, não levariam a tais
reacções. Esta labilidade emocional pode ser mais acentuada em algumas mulheres que
em outras, dependendo da estrutura da sua personalidade, o stress a que estão sujeitas,
e a qualidade do apoio afectivo que recebem.
Ainda abordando o mesmo assunto, Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999), afirmam que
essa labilidade emocional é expressa através de alterações rápidas de humor que
juntamente com o aumento da sensibilidade e ansiedade são estranhas quer para a
grávida quer para os que a rodeiam. Estas alterações podem ser o resultado das
profundas alterações hormonais, das questões relativas à sexualidade ou medo de
possível dor durante o parto.
Com o decorrer da gravidez, a grávida torna-se mais aberta aos seus sentimentos
pessoais e em relação aos outros, surge uma maior vontade de aprender, e tal como
acontece com outras crises existenciais, a gravidez cria um equilíbrio entre as
experiências positivas e negativas. (Colman, 1994)
Além das respostas emocionais Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999), retratam as
alterações fisiológicas da gravidez que provocam rápidas e profundas alterações do
contorno corporal (aumento do abdómen, das mamas...), em que surge por parte da
mulher a perda gradual do sentido de limite corporal. Esta atitude é fortemente
influenciada pelos valores e personalidade da grávida, surgindo sentimentos positivos
durante o primeiro trimestre, que se tornam negativos à medida que a gravidez avança.
Os mesmos autores acrescentam que surge na grávida todo um conflito de sentimentos
simultâneos por uma pessoa, objecto ou maneira de ser – a ambivalência. Sensações
corporais, sentimentos de dependência, comentários por parte de outras pessoas podem
provocar tais sentimentos.
Um outro factor que se demonstra de extrema importância na adaptação à gravidez e à
maternidade é a relação da grávida com a sua mãe e com o seu companheiro.
Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999) enumeram quatro componentes fundamentais na
relação mãe-filha:
- Disponibilidade da mãe: esta disponibilidade para com a sua filha desde a sua infância,
significa para a grávida a disponibilidade e apoio permanentes durante a sua
gravidez;
- Reacções durante a gravidez da filha: significa a aceitação do neto como da filha; a sua
mãe proporciona-lhe o suporte, o aconselhamento, a ajuda; é ela que escuta e
entende a sua ambivalência;
- Respeito pela autonomia da filha: quando a mãe acredita na autonomia da sua filha,
incute desde logo sentimentos de auto-confiança;
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- Revivência do passado: ouvir falar de si própria enquanto criança, ajuda a grávida a
sentir-se amada e querida. A partilha da mãe da sua experiência de parto, ajuda a
grávida na sua preparação para o trabalho de parto e para o nascimento do bebé.
Relativamente à relação com o companheiro, Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999),
consideram que a pessoa que assume maior importância para a grávida é o pai do seu
filho. A grávida considera que a primeira necessidade que precisa é a de receber sinais
de que são amadas e valorizadas e a segunda é a de ter a certeza que o seu companheiro
aceita a criança e a integração da mesma na família.
Grossman, Eicheler, Winckoff (1980) citados por Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999),
acrescentam que estudos demonstram que a mulher que é acarinhada pelo seu
companheiro, durante a gravidez, apresenta menos sintomas físicos e emocionais,
menos complicações no trabalho de parto e parto, e um ajustamento mais fácil num
período pós-parto. Lederman (1984) citado por Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999),
acrescenta que durante a gravidez mulher e marido se tornam mais unidos,
constituindo a gravidez uma função fomentadora da maturidade de ambos.
Para uma boa adaptação materna é fundamental que a ligação emocional com a criança
comece no período pré-natal. Esta relação mãe/filho progride com a gravidez
comparada a um processo de desenvolvimento, que Rubin, 1975, citado por Bobak,
Jensen e Lowdermilk (1999) divide em três fases:
- Fase 1: a mulher aceita a gravidez como facto biológico; no início da gravidez os seus
sentimentos centram-se sobre si mesmo e na realidade imediata da gravidez.
- Fase 2: a mulher aceita o feto em crescimento como algo distinto de si própria e como
pessoa a cuidar; durante o segundo trimestre, existe uma maior consciencialização da
criança como ser independente, o que permite iniciar a relação mãe/filho; nesta fase a
mulher torna-se mais calma e adquire bem-estar;
- Fase 3: a mulher prepara-se verdadeiramente para o parto e para ser mãe;
A adaptação materna processa-se de maneira diferente, dependendo de se tratar de um
nulípara ou multípara.
3.2.2. Adaptação paterna
De acordo com Granley e Ziegel (1985), a experiência do homem com a gravidez é
intrinsecamente diferente daquela da mulher; contudo existem muitas semelhanças
quando o casal compartilha a gravidez e planeia em conjunto a paternidade.
A gravidez pode ser vista pelo pai de diferentes formas: para alguns é prova da sua
masculinidade e do seu papel dominante e para outros não tem qualquer significado.
Contudo, para Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999), para a maioria dos homens, a
gravidez pode ser vista como um tempo de intensa preparação para o futuro papel de
pai.
Os autores anteriormente enunciados descrevem as três fases que caracterizam as três
tarefas de desenvolvimento experimentadas pelo pai: a fase de tomada de consciência
da gravidez, a fase moratória e a fase de concentração. A primeira fase consiste na
aceitação da gravidez como facto biológico, podendo ser de alegria ou desânimo
dependendo se a gravidez foi desejada, planeada ou não planeada. A fase moratória
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caracteriza-se por um período de ajustamento à realidade da gravidez. Na última fase
que começa no terceiro trimestre é caracterizada pelo envolvimento activo do pai tanto
na gravidez como na sua relação com o seu filho; assiste-se à partilha com a sua
companheira do papel que ele irá desempenhar durante o parto, bem como na
preparação para a paternidade.
Tal como acontece na mulher grávida, também os homens apresentam respostas
emocionais variadas face à primeira gravidez das suas companheiras, que retratam a
forma como encaram e vivenciam a gravidez. Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999)
enumeram três estilos característicos: o estilo observador em que surge por parte do pai, a
falta de envolvimento na gravidez, dividindo-se em dois grandes grupos, os que
desejam a gravidez (devido a factores culturais ou timidez distanciam-se de todo o tipo
de actividades relacionadas com a gravidez) e os que não desejam a gravidez
(precisavam de tempo para se adaptarem à ideia de ser pais); o estilo expressivo
caracteriza-se pelo desejo profundo de participar totalmente no projecto, constituindo
uma resposta emocional intensa à gravidez, ou seja, sentem a mesma labilidade
emocional e ambivalência que caracteriza a mulher grávida, podendo mesmo a sentir os
desconfortos da mulher grávida como náuseas, vómitos... e o estilo instrumental
representa os homens que dão ênfase às tarefas a desenvolver e que se consideram
“tutores ou gestores da gravidez”. Sentem-se responsáveis pelo resultado da gravidez e
apoiam e protegem as suas mulheres.
Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999) consideram que todo o pai assume atitudes durante
a gravidez que interferem com a forma como se adapta à mesma e ao papel de pai.
Alguns sentem-se muito motivados para amar e cuidar de uma criança, ficam excitados
e felizes com a antecipação do papel de pai. Tal conclusão torna-se mais evidente
quando o mesmo apresenta razoável auto-estima, controlo financeiro e boas condições
laborais. Contudo tal como acontece com a grávida este necessita de apoio na
preparação para o novo papel que vão assumir.
House (1981) citado por Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999) refere o suporte emocional
(o pai precisa de encontrar apoio na família e nos amigos), instrumental (o pai precisa
de saber que pode contar com a família e amigos se necessitar de ajuda), informativo (o
pai necessita saber quem está disponível para fornecer conselhos sobre como resolver os
problemas) e avaliativo (o pai precisa de se encontrar com outros para obter critérios
que lhe permitam avaliar o seu desempenho) como os apoios necessários à preparação
para a paternidade.
Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999) consideram que a relação pai-filho pode ser tão
forte como a relação entre mãe/filho, podendo o mesmo ser tão competente como a
mãe no cuidar do filho. Acrescentam que o homem se prepara para a paternidade
recorrendo aos mesmos métodos da grávida – lendo, imaginando,... Contudo estes não
são capazes de contar os seus sonhos com receio de não serem entendidos pelos outros
ou considerados como normais.
Antecipação e ansiedade caracterizam a forma como o pai vive os dias que antecedem o
parto. As suas maiores preocupações são conseguir fazer chegar a tempo a mulher ao
local onde ocorrerá o parto, o equipamento disponível para a realização do mesmo, a
responsabilidade dos técnicos, entre outros.
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As tensões, ansiedade e apreensões do pai que não está preparado são transmitidas à
companheira, aumentando os seus receios. (Boback, Jensen & Lowdermilk, 1999)
3.2.3. Efeito da gravidez sobre a família
Segundo Bobak, Jensen e Lowdermilk (1999), a gravidez envolve todos os membros da
família, na medida em que a concepção é o início não só de um feto em crescimento
mas, também, de um novo formato familiar em que cada elemento da família tem de se
adaptar à gravidez e interpretar o seu sentido de acordo com as suas próprias
necessidades.
Granley e Ziegel (1985) acrescentam que a transição e mudança são elementos centrais
na experiência familiar, em que esta se modifica à medida que os seus membros
amadurecem, juntam-se novos elementos ou quando existem membros que abandonam
o núcleo. O mesmo acontece ao nível das interacções com a comunidade, tendo em
conta a idade, fase de desenvolvimento ou mesmo com situações de saúde, emprego ou
necessidades e interesses familiares.
A gravidez produz uma mudança significativa a nível familiar em consequência da
previsão e posterior nascimento de um novo membro. Os mesmos autores defendem
que apesar de cada família ser afectada de forma diversificada, na maioria delas assiste-
se a um aumento de relações, realinhamento das funções, modificações na estrutura
familiar, o receio das relações sexuais, alteração na forma como o tempo é gasto, as
despesas, entre outras.
- Aumento das relações - O nascimento de um novo membro aumenta o número de
relações intra-familiares. Dando como exemplo o caso de uma família nuclear em que
antes do nascimento do feto a relação existente era entre homem e mulher e vice-versa.
Após nascimento do feto a relação anterior mantém-se acrescentando ao mesmo a
relação de cada membro com o seu filho e do seu filho com cada progenitor.
- Realinhamento das funções - Durante a gravidez o casal adquire conhecimentos acerca da
necessidade de se prepararem para o seu novo papel como pais. Contudo este facto
não implica que se abandone a função de parceiro(a), devendo portanto reordenar a
percepção da mesma para eficazmente desempenhar o seu novo papel.
- Estrutura familiar - Podem surgir modificações nesta estrutura durante a gravidez e
criação dos filhos. Parte-se em busca de novos amigos e relações que compartilham a
mesma experiência. A família procura auxílio nos grupos de educação para o parto,
grupos de apoio psicológico para enfrentar a transição que os espera.
- Relações sexuais - O acto sexual pode ser encarado de forma diferente. Enquanto par uns
a gravidez proporciona um período de prazer sexual aumentado, para outros a libido
encontra-se diminuída pelo desconforto e receio de magoar o feto.
- Tempo - Durante a gravidez ocorre uma alteração no modo como o tempo é gasto. As
visitas de supervisão, as aulas de preparação para o parto, o fazer compras e preparar o
berçário exige mais tempo ocupado. Por outro lado, no final da gravidez, a grávida
necessita de mais repouso, pelo que o uso de tempo fica também alterado.
- Finanças - Além do custo dos cuidados pré-natais e da hospitalização para o parto,
surge as roupas para o feto e para a mãe, as vitaminas aconselhadas, as fraldas... Por
outro lado, a grávida pode sentir necessidade de abandonar o seu emprego, sendo este
facto um sinal de privação económica.
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Para finalizar, Granley e Ziegel (1985) explicam de que forma é que a família se adapta a
esta nova etapa que para uns é encarada como uma forma apreciável de equilíbrio e
para outras como uma crise. De acordo com os mesmos, esta não adaptação à nova
mudança depende de algumas características familiares tais como:
- Vulnerabilidade ao stress;
- Definição que a família faz do acontecimento;
- Recursos familiares para o tratamento:
- Características interpessoais;
- Condutas compensadoras;
- Apoio social;
- Recursos financeiros.
4. A gravidez na mulher toxicodependente
4.1. perfil psicológico da mulher toxicodependente
De acordo com Palminha (1993), os comportamentos toxicodependentes são
manifestações exteriores de conflitos intra-psíquicos, de interacção relacional, em que as
drogas correspondem a uma possível maneira de estar na vida.
A dependência de heroína faz desaparecer afectos, emoções dolorosas, ou seja, os
aspectos negativos da vida. Sendo estes manifestações de raiva narcísica resultantes do
desfasamento do ideal do «eu», a vergonha resultante da decepção da apreciação do
próprio em relação a um self grandioso, e a renúncia e o abandono das figuras parentais
idealizadas.
As drogas vão proteger esta vulnerabilidade narcísica, da raiva e da frustração,
restabelecendo e harmonizando um «eu» debilitado e/ou recreando a relação
simbiótica com a mãe, correspondendo a necessidades vitais diferentes.
As drogas vão ser como “mães externas suficientemente boas” que protegem desses
sentimentos internos demolidores, normalmente quando virados para as figuras
parentais.
As perturbações específicas das dependências têm origem numa fase precoce do
desenvolvimento infantil, determinando uma falha de internalização de certas funções
psicológicas vitais, que passavam a ser experimentadas como exteriores ou estranhas ao
próprio. A frustração excessiva ou a permissividade exagerada na infância, prejudicam
os processos de internalização, dificultando o desenvolvimento da identidade do
próprio, com a sua individualidade separada e distinta dos outros.
Segundo o mesmo autor, existem três grupos de “personalidade tipo” com níveis de
organização diferente: narcísico (borderline) em que o consumo de drogas equivale a uma
tentativa de controlar afectos esmagadores, ou a uma defesa contra a psicose; simbiótico
na qual a heroína preencheria uma relação materno-infantil deficitária, numa
omnipotência narcísica ilusória de invulnerabilidade e segurança; neurótico em que a
toxicodependência representa uma defesa profunda contra sentimentos dolorosos de
culpa, vergonha, desespero e inadequação.
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Blatt e Berman citados por Palminha (1993), fazem referencia a outros três subtipos de
personalidade, manifestados nas dimensões e relações interpessoais/habilidade
emocional e percepção da realidade/fantasias.
Na depressão da mulher dependente de heroína são referenciados sentimentos de
vazio, de futilidade, de desespero e de falta de auto-estima, que juntamente com a
culpabilidade e a inadequação estão na base das vivências depressivas.
A procura na heroína do prazer e da satisfação é realizada de uma forma isolada, ou
seja, existe como que uma saída das relações com os outros com vista a encontrar o
prazer consigo mesma. Isto leva a mudanças significativas nas relações pessoais, mais
propriamente na família.
É de esperar que a problemática da toxicodependência desenvolva dimensões mais
preocupantes nas situações de gestação e de maternidade. Os conflitos internos e as
dificuldades relacionais nestas mães fazem-nos reflectir acerca da disponibilidade
emocional e afectiva destas para com os seus filhos.
4.2. A surpresa da gravidez
Numa mulher toxicodependente em fase de consumo, a gravidez é quase sempre não
planeada, e de tardia identificação. Existe uma má definição da cronologia da
concepção, assim como uma baixa percepção da mulher relativamente ao seu corpo e
aos condicionalismos que o consumo de droga exige. O reconhecimento tardio da
gravidez pode dever-se ao uso crónico de opiácios, manifestado por longos períodos de
amenorreia. Contudo, estes condicionantes não significam que a mulher rejeite a
gravidez.
Segundo Frazão (2001), existe na mulher toxicodependente o desejo e a ternura de ser
mãe, mas estes sentimentos estão como que perturbados e impedidos de ser vividos
totalmente e em plenitude, isto devido à ideia de que a gravidez não surgiu na melhor
altura devido aos consumos, devido à ansiedade provocada pelo efeito das drogas no
feto, e pelo medo das malformações fetais e do síndroma de abstinência neo-natal.
Os factores que limitam o desempenho materno das mulheres toxicodependentes são as
dificuldades económicas e o estilo de vida, devido à necessidade do consumo. São
também problemáticas na vida destas mulheres as relações familiares, pois ou vivem
em rotura com os familiares, ou têm um apoio que “as deixa de lado”. Normalmente, é a
mãe da grávida que assume o papel de mãe do bebé. Neste sentido, e de acordo com o
autor, raras são as vezes que a mulher toxicodependente consegue ocupar o seu lugar
de mãe.
4.3. Os riscos da gravidez
Numa mulher toxicodependente à gravidez estão associados riscos,riscos estes ligados
ao estilo de vida, às modalidades do consumo e à consequência das drogas no
desenvolvimento do feto. Há maior probabilidade de ocorrer um parto pré-termo, e o
crescimento fetal é restrito, não atingindo o seu potencial genético de crescimento intra-
uterino, devendo-se isto a múltiplos factores (tabagismo, opiáceos, cocaína, entre
outros).
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Um risco particularmente grave e temível é o facto de ocorrer infecção pelo VIH
durante a gravidez, visto que existe elevada probabilidade de transmissão ao feto.
É também frequente em mulheres toxicodependentes que utilizem drogas injectáveis, a
infecção pelo vírus da hepatite C; pela via sexual é muito raro que ocorra, e pelo leite
materno é raro também.
Segundo Frazão (2001), o maior “fantasma” para a grávida toxicodependente e
população pouco informada, são as malformações fetais (ex: ao consumo de cocaína
estão associadas malformações cardíacas, génito-urinárias e do sistema nervoso central,
visto que esta é um forte vasoconstritor e condiciona hipoperfusão útero-placentar e
fetal. Neste caso há o risco aumentado de atraso de crescimento intra-uterino,
hipoplasia do nervo óptico e hemorragias retinianas).
Em suma, a gravidez numa mulher toxicodependente é de alto risco, logo, a
necessidade de um acompanhamento multidisciplinar.
4.4. Posturas e comportamentos
É comum avaliar-se a grávida toxicodependente como irresponsável, mentirosa, que
falta às consultas, entre outros aspectos. Até mesmo nos profissionais de saúde é hábito
observar “um abanar de cabeça”, “um encolher de ombros”. Certamente, que certos
gestos e comentário têm consequências graves numa grávida toxicodependente, visto
que esta transporta em si o peso da culpabilidade de uma vida sem estrutura e
angustiante, logo dispensa a estigmatização e o preconceito.
O perfil comportamental da grávida toxicodependente:
4.4.1. Adesão à vigilância pré-natal
A gravidez é uma fase da vida da mulher em que esta se encontra vulnerável e passível
de intervenção terapêutica, em que existe motivação por parte desta para recorrer aos
serviços de saúde e iniciar a sua reabilitação.
A intervenção junto das mulheres toxicodependentes não deve ser num ambiente
inquisitivo e punitivo, mas deve gerar-se uma relação humana, onde cabe ao técnico,
escutar, compreender, motivar e responsabilizar. De acordo com Frazão (2001), tem sido
possível verificar que as grávidas toxicodependentes têm capacidade de assumir
compromissos e que, as pequenas ou grandes vitórias reforçam a sua auto-estima.
4.4.2. A expressão afectiva da mãe toxicodependente
Certas grávidas toxicodependentes investem na sua gravidez, especialmente no enxoval
do bebé, sendo algumas roupas feitas por ela próprias.
4.5. Factores de risco para a gravidez da mulher toxicodependente
Segundo Nabais e Ribeiro (1993) citados por Frazão (2001) : “A gravidez implica mudanças
complexas a nível biológico, psicológico e social, caracterizadas por alguma instabilidade
temporária, que exige da mulher um esforço maior de adaptação e de equilíbrio, levando a um
aumento de vulnerabilidade.” (p. 115)
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Na actualidade é concedida grande importância aos aspectos psicológicos da gravidez,
e que existem seis facetas que estão interligadas: adaptação ao corpo transformado,
devido à presença de um ser em gestação e à preparação para as funções de mãe;
alterações das relações familiares (com a mãe, com o marido, entre outros); aumento da
vulnerabilidade psicoafectiva; expectativa ansiosa em relação ao parto e ao filho;
relação precoce com o «filho imaginário» e expectativa relativamente ao futuro do filho
e da família.
Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde): “factores de risco são as características
ou as condições de vida de uma pessoa ou de um grupo, que se expõe a um risco acrescido de
contrair ou desenvolver um processo mórbido ou de sofrer os seus efeitos.” (Frazão, 2001, pp.
115-116)
A mulher grávida consumidora de drogas corre riscos, e estes varia consoante o tipo de
droga consumida (características específicas), assim como a dosagem; a atitude perante
a gravidez; a relação com o companheiro e a nível familiar; o ambiente social (ex.:
habitação); o estado de saúde da mulher, entre outros.
Na maioria dos casos, a gravidez das mulheres toxicodependentes não é planeada, e é
reconhecida tardiamente, logo o aborto é arriscado.
A gravidez das mulheres toxicodependentes pode inicialmente revelar-se pela negação
da presença do bebé dentro de si, sendo a relação que estas estabelecem com a gravidez
paradoxal, ou seja, desejam a gravidez quando não estão grávidas, e quando a gravidez
está presente ignoram-na.
Alguns autores referem que a gravidez nas mulheres toxicodependentes poucas vezes é
desejada, e outros afirmam que na maior parte dos casos a gravidez é desejada.
Neste sentido, Frazão (2001) cita Filomena Nabais (1993), e acrescenta que na gravidez
está presente uma oscilação entre o desejar e o não desejar o filho, visto que a situação
nunca é totalmente aceite ou totalmente rejeitada. Segundo a autora, mesmo quando há
predominância de uma das condições (desejar ou não desejar o filho), o sentimento
contrário numa está ausente totalmente.
Frazão (2001) enuncia o resultado de um estudo, relativamente às respostas dadas pelas
mulheres toxicodependentes sobre o que pensaram quando descobriram que estavam
grávidas: o medo foi o sentimento mais referido (o medo por causa do consumo, e o
medo relativamente à sua saúde e à saúde do feto; medo de não conseguir deixar de
consumir; em alguns casos, o medo por estar infectada com o VIH; o medo do parto; o
medo de não estar preparada para ser mãe; medo do bebé nascer com alguma
deficiência); aceitar/desejar a gravidez; aborto; ambivalência entre a
realização/satisfação e o medo que advém da gravidez; deixar de consumir
drogas/fazer desintoxicação; não sabem o que fazer.
Este autor refere ainda que as mulheres inquiridas apontaram como influências
negativas na gravidez: em primeiro lugar, o consumo e drogas; a alimentação; gravidez
não planeada; irresponsabilidade; instabilidade económica; não ter horários
estabelecidos; sair à noite; prostituição; o facto de estar infectada pelo VIH; a atitude do
companheiro/família.
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4.6. Processo de transferência das drogas através da placenta
O feto está exposto ao meio ambiente através das trocas efectuadas com a mãe.
4.6.1. Efeitos das drogas no feto
Segundo Aragão e Sacadura (2002), no início da gestação, há períodos de importância
crítica no desenvolvimento que podem ser interrompidos ou alterados pela exposição
às drogas. Algumas vezes, estes efeitos podem ser dramáticos, como por exemplo os
que ocorreram com a administração da talidomida, provocando focomelia e o ácido
retinóico que causam malformações faciais. O dimorfismo facial encontra-se associado
ao síndrome alcoólico fetal devido ao efeito teratogénico directo do álcool durante o
período embrionário. Quando fora do período embrionário os efeitos teratogénicos não
são bem definidos, visto que o desenvolvimento estrutural está concluído, contudo o
maior prejuízo evidenciado está associado ao crescimento visto que a exposição ao
álcool pode levar à diminuição do ritmo de crescimento intra-uterino e pode causar
micro-cefalia. A exposição aos corticosteróides fora do período embrionário pode levar
a um aumento de maturação mais acentuado do pulmão. Existem ainda outros efeitos
que só são reconhecidos mais tarde.
Durante o período fetal apesar da maior parte das estruturas cerebrais estar completa as
conexões neuronais estão em desenvolvimento e esse é um motivo que torna a
organização cerebral muito importante neste período. (Aragão & Sacadura, 2002)
Os autores referem ainda que tanto o álcool como os opiáceos e cocaína são susceptíveis
de interferir no processo de organização cerebral, apesar de ser difícil estabelecer uma
relação directa, com excepção do álcool.
Segundo os mesmos, as drogas podem afectar o feto por acção directa ou indirecta,
através da mãe. Grande parte dos efeitos indirectos resulta da alteração na chegada ao
feto do oxigénio, glucose, aminoácidos e coenzimas específicas, o que é evidente através
da insuficiência placentar.
As drogas actuam por mecanismos diversos; assim o álcool tem efeitos específicos
teratogénicos não só no período embrionário mas também no período fetal, podendo
ainda alterar os elementos nutricionais e provocar distúrbios no equilíbrio ácido-base.
(Aragão & Sacadura, 2002)
Segundo os autores, quer a exposição aguda quer a crónica podem levar a efeitos
adversos. A exposição aguda é susceptível de ser mais nociva à saúde em períodos
críticos durante o desenvolvimento embrionário. A exposição é prejudicial nos períodos
fetais tardios caso os efeitos sejam muito severos, tal como altas doses administradas.
Aragão e Sacadura (2002) referem ainda que a maior parte dos efeitos adversos
reconhecidos no período fetal são resultado da exposição crónica a situações críticas
mas repetidas, tais como hipoglicemia e síndroma de privação repetida por narcóticos,
ou a outras situações, tais como tabaco, hiperglicemia , tratamento com metadona e
exposição à fenitoína. A exposição crónica pode deixar alterações subtis no
desenvolvimento do feto que são difíceis de detectar.
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4.6.2. Como lidar com um recém-nascido exposto a drogas
Segundo Aragão e Sacadura (2002), a forma de lidar com um recém-nascido exposto a
drogas passa pela recolha e análise da urina. A forma inicial de lidar com bebés
nascidos sob o abuso de estimulantes, narcóticos e álcool é mais genérica que específica.
É muitas vezes útil a estimulação psíquica e física, um ambiente em penumbra, poucos
ruídos e muita tranquilidade.
Os autores afirmam que os sintomas de privação nos bebés expostos a opiáceos
determinam vigilância permanente, com entubação se necessário devido à depressão
respiratória.
Dizem ainda que os sintomas de privação devido à metadona são mais violentos do que
aqueles causados pela heróina, ocorrendo com maior frequência as convulsões. A
amamentação ao peito está contra-indicada em mães com abuso continuado de
estimulantes, heroína ou metadona para doses superiores a 20mg/dia, e normalmente
só é autorizada com prescrição apropriada de narcóticos como a codeína, a morfina e a
metadona em doses inferiores a 20mg/dia.
Os autores defendem ainda que as crianças que foram submetidas no útero ao abuso de
drogas tendem a ter um aumento de susceptibilidade e resultados desfavoráveis no seu
desenvolvimento, mas podem melhorar muito com a alteração das condições na família
e no seu meio ambiente. Pode-se considerar que a melhor terapia para a criança é a
resultante da alteração das condições ambientais, por iniciativa dos pais.
4.7. Efeitos das drogas na grávida e no recém-nascido
O uso excessivo de drogas nos últimos anos segundo Palminha (1993), atingiu grandes
proporções, fez entrar a grávida toxicodependente e o seu feto em contacto com novos
produtos.
O autor refere que agravando o problema da grávida toxicodependente com as drogas é
o facto de uma grande maioria destas consumidoras serem fumadoras de forma
significativa. Produtos tais como a heroína, cocaína, marijuana e o álcool quando utilizados
na gravidez, atravessam a placenta, surgem na circulação fetal, afectam o crescimento
fetal e induzem ainda alterações neurocomportamentais no período perinatal podendo
mesmo os seus efeitos prolongarem-se muito para além dos primeiros meses de vida.
4.7.1. Efeitos da heroína
Segundo o mesmo autor, hoje em dia o conceito largamente difundido acerca da menor
fertilidade da mulher heroinodependente está mais que ultrapassado. Existe a
probabilidade de curtos períodos de paragem no consumo voltem a desencadear os
mecanismos hormonais de ovulação, levando a gravidezes em plena amenorreia. Há
uma pouca percentagem acerca do uso de métodos anticoncepcionais atribuídas a uma
qualidade de vida desregrada. Há uma grande frequência de abortos espontâneos e no
que respeita a anomalias congénitas há uma maior incidência no grupo de mulheres
consumidoras de drogas. A gravidez decorre em princípio sob uma má progressão
ponderal com défice alimentar visto que os narcóticos diminuem o apetite, a acrescer a
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tudo isto, verifica-se uma grande probabilidade que devido ao facto do custo da heroína
ser elevado no mercado leva a que a mulher relegue a alimentação para segundo plano.
O autor refere ainda que há um elevado número de partos que ocorrem
prematuramente, relacionados talvez com o aumento da irritabilidade uterina durante
períodos de suspensão temporária do consumo da droga.
Palminha (1993) afirma que a heroína quando administrada a uma grávida passa
rapidamente para a placenta, e aos 30 minutos após a toma as contracções materno-
fetais são da ordem de 4 para 1.
O autor enuncia ainda na sua teoria, que na fase de pré-injecção, o feto executa
violentos movimentos, cessando os mesmos cerca de 30 minutos após a administração,
admitindo-se assim que seja sensível ao gradiente de concentrações materno-fetais.
Nestas circunstâncias, e do ponto de vista neurocomportamental, o achado clínico de
maior importância é o da Síndrome de Abstinência ou Privação que segundo alguns
autores atinge cerca de 50 a 75% do recém-nascidos heroinodependentes, iniciando-se
até cerca das 48 horas após o parto. A sua incidência está na dependência de vários
factores, tais como a dose e tempo de consumo antes do parto.
Aliás, já foram feitos ou levados a cabo estudos que comprovam que dada a grande
dependência da grávida face à droga todas as consumidoras com mais de um ano de
consumo dão à luz crianças das quais 75% têm sinais típicos da Síndrome de Privação,
tais como:
- a nível do SNC: irritabilidade, tremores acentuados, choro em grito agudo;
- mioclonias e movimentos convulsivos tónicos ou tónico-clónicos;
- hipertonia e hiper-reflexia osteotendinosa;
- a nível do aparelho respiratório: taquipneia e aumento das secreções brônquicas;
- a nível do aparelho digestivo: diarreia e vómitos;
- a nível do SNV: sudação e hipertermia.
Do ponto de vista comportamental há fome voraz, por vezes mesmo sucção frequente
do punho ou do polegar e alterações do padrão de sono, que frequentemente se podem
prolongar até vários meses após o nascimento. Ocorrem ainda com relativa
regularidade as escoriações dos pés provocadas pela agitação dos membros esfregando
um contra o outro.
4.7.2. Efeitos da cocaína
Franck (1988) citado por Palminha (1993) refere que 17% de mulheres americanas
tiveram contacto com a cocaína durante as suas gravidezes e, nos últimos anos, um
derivado da cocaína atingiu cifras elevadas de consumo naquele país. Tendo a
actividade da colinesterase plasmática (um dos enzimas responsáveis pela degradação
da cocaína) valores mais baixos nas mulheres grávidas e nos seus fetos, pelo que fez
com que este grupo seja mais susceptível de risco.
Existe uma maior taxa de natimortalidade e de malformações da placenta entre os
consumidores de cocaína. Estima-se que 8 a 10% dos recém-nascidos expostos à cocaína
têm malformações, as quais englobam defeitos da calote craniana e mal formações
urinárias. (Palminha, 1993)
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O autor considera que tal como para a heroína, também a cocaína se associa a alterações
do crescimento fetal, no âmbito de uma verdadeira embriofetopatia cocaínica. Isto é, à
semelhança do que sucede com a heroína, também diminui o apetite e dado tratar-se de
uma droga estimulante tal como sucede com as anfetaminas, que interferem no uptake
pré-sináptico das catecolaminas, origina a uma acumulação pós-sináptica de adrenalina,
com aumento imediato da frequência cardíaca e pressão arterial na grávida, e efeito
indirecto secundário no feto por redução do fluxo placentar, com a consequente hipoxia
crónica e condições de aparecimento de um atraso de crescimento intra-uterino.
4.7.3. Efeitos da marijuana
Palminha (1993) afirma que esta droga, devido à sua alta solubilidade lipídica, atravessa
rapidamente a placenta, admitindo-se que possa exercer um efeito directo nas células
fetais já que a sua eliminação é longa (pode levar até 30 dias) verifica-se igualmente o
facto de ter uma semi-vida de 7 dias. Para além disto existe ainda a possibilidade de
exercer o seu efeito indirectamente ao elevar significativamente os seus níveis de
monóxido de carbono conduzindo assim à hipoxia fetal.
Palminha salienta ainda que, à semelhança do que sucede com a cocaína, a marijuana
aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial da grávida, a par de uma redução do
leito vascular placentar.
4.7.4. Efeitos do álcool
Em 1973 Jones e seus colaboradores associaram a ingestão de álcool a uma embriopatia
a que deram o nome de Síndrome Alcoólico Fetal. Essencialmente, esta síndrome
engloba anomalias crânio-faciais tais como fendas palpebrais pequenas, hipoplasia
mandibular, apagamento do sulco naso-labial, epicanto; anomalias cardíacas; anomalias
articulares e ainda microcefalia e alterações do desenvolvimento psicomotor. Todas as
mães estudadas por estes autores eram alcoólicas crónicas, consumindo grandes
quantidades de álcool absoluto por dia e que expõem as suas crianças a elevadas taxas
de atraso de crescimento intra-uterino e de natimortalidade, das consumidoras
moderadas ou ocasionais em que as referidas taxas são mais baixas. (Palminha, 1993)







Fonte: STEINMETZ, George – Síndrome do alcoolismo fetal, http://www.taps.org.br/minfantil06.htm,
07/11/03, 1p, 22:55
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4.8. Factores que podem influenciar o desempenho maternal da mulher
toxicodependente
De acordo com Frazão (2001), vários autores defendem que problemas na função
parental e na interacção precoce, são frequentes nos toxicodependentes originando:
- Insuficiente vinculação, sobretudo de raiz parental, acontece com crianças não
desejadas, ou mal desejadas; ou pelo facto dos pais serem muito novos e imaturos;
pela mãe estar gravemente deprimida; por os pais serem psiquicamente perturbados
e destituídos de qualidades parentais.
- Problemas da parentalidade, ou seja, dificuldades em desempenhar o papel de mãe
ou de pai.
- Filhos de pais toxicodependentes, que têm em muitos casos um desenvolvimento
lento, assim como danos fisiológicos, cognitivos e psicológicos, resultantes de uma
parentalidade deficiente.
O autor apresenta também a opinião das mulheres toxicodependentes relativamente
aos factores que influenciam positiva ou negativamente a função maternal: o factor
mais indicado pelas mulheres, foi o consumo de drogas; saídas à noite; vida
desorganizada e sem horários; o facto de não trabalhar; instabilidade emocional e
familiar; irresponsabilidade; trabalhar; ter experiências com crianças; não sabem
explicar.
4.9. Interacção mãe/filho
O nascimento de um filho é um acontecimento importante na vida de quase todas as
mulheres, incluindo as mulheres toxicodependentes. O crescimento do bebé é
acompanhado por um desenvolvimento progressivo da imagem do bebé na mente da
mãe. E, por sua vez, o nascimento conduz a um encontro; uma criança obriga os pais a
um reajustamento da imagem da criança ideal que tinham idealizado.
Frazão (2001), faz referência aos pensamentos/sentimentos que ocorreram nas
mulheres toxicodependentes aquando do nascimento do filho: o que mais mães
enunciaram foi a preocupação com o estado de saúde do bebé; o alívio e a consequente
diminuição das dores sentidas na altura do parto; alegria/amor; ambivalência entre
felicidade e tristeza, felicidade por ter o filho e tristeza por não ter possibilidade para o
criar; tristeza/sensação de vazio, por não ter visitas; o sonhado/idealizado não
corresponde ao real.
Na mulher toxicodependente, o consumo, o estilo de vida e as circunstâncias
envolvidas na administração do consumo, influenciam as capacidades de adaptação
precoces do recém-nascido, que são essenciais no estabelecimento da relação mãe/filho.
E segundo Lief (1985): “A mãe consumidora de drogas pode ter dificuldade em estabelecer um
contacto directo «olho no olho» com o seu bebé, evitando um contacto próximo com a pele, e
poderá ter dificuldades em estimular vocalmente o seu recém-nascido.” (Frazão, 2001, p. 165).
Mas as dificuldades na relação precoce mãe/bebé, podem derivar da própria mãe:
sentimentos de culpa; ansiedade relativamente ao prognóstico do filho; ao seu
síndroma de abstinência; fraca auto-estima; dificuldades nas relações pessoais;
problemas sociais; ambivalência e separação física do bebé no hospital (contribui para
atrasar/dificultar o processo de vinculação mãe/filho).
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As principais necessidades dos filhos, apontadas por mulheres toxicodependentes
grávidas ou no puerpério, referidas pelo autor: necessidades afectivas,
saúde/vigilância, segurança e bem-estar, necessidades físicas, necessidades sócio-
familiares. E quanto aos sentimentos das mulheres toxicodependentes no papel de mãe:
a maior parte das mulheres responderam que se sentem realizadas; cansada; o papel de
mãe já não é novidade; responsável; sente dificuldade em ser mãe; sente-se
preocupada/ansiosa; sente-se mais protectora.
Segundo Taylor (1993): “ muitas das mulheres esperavam que o papel de mãe fosse agradável e
que preenchesse as suas necessidades, ficando aborrecidas quando tal não acontecia. E também
muitas consideravam que o cuidado constante dum bebé pequeno era «stressante» e cansativo.”
(op. cit. Frazão, 2001, p. 180).
É de salientar, segundo esta autora, que estes sentimentos não são somente aplicáveis a
mulheres toxicodependentes, ou seja, eles podem surgir como consequência do «mito
da maternidade» em que a mulher foi socializada.
Ao longo da realização deste trabalho consideramos relevante a pesquisa em campo.
Desta forma, tivemos oportunidade de contactar com o CAT de Olhão, e neste dialogar
com mulheres grávidas toxicodependentes, cujo diálogo efectuado, sob a forma de
entrevista. (Anexo 1)
5. Conclusão
Após a realização deste trabalho verificámos que a toxicodependência é actualmente
uma problemática de grande impacto, visto que é um fenómeno incómodo, avassalador
e, até agora sem resposta minimamente eficaz, em que a maioria dos jovens são atraídos
pelo prazer que esta proporciona, assim como o mesmo se faz sentir ao nível da mulher
grávida.
A gravidez é um período de crise de maturação onde se processa um conjunto de
alterações fisiológicas e psicológicas, mudanças de identidade e mudança nos papéis
sociais, que exige à mulher uma adaptação constante à nova fase em que se encontra.
Esta é uma experiência única em que cada mulher reage de forma subjectiva às
alterações decorrentes, podendo esta reacção ser diversificada de gravidez para
gravidez. O primeiro passo de adaptação ao novo papel é a aceitação da gravidez que
depende da preparação para a mesmas e das respostas emocionais. Esta adaptação
materna é fortemente influenciada pela relação da grávida com a mãe e respectivo
companheiro.
À medida que a gravidez avança, vai-se desenvolvendo a relação mãe/filho comparada
a um processo de desenvolvimento.
A experiência do homem com a gravidez é diferente da mulher, contudo existem
muitas semelhanças quando o casal compartilha a gravidez e a partilha em conjunto.
Tal como acontece com a grávida, também o futuro pai necessita de apoio para o novo
papel que vai assumir.
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A gravidez envolve todos os membros da família, o que requer uma transição e
mudança. A nível da família assiste-se a um aumento das relações, a um realinhamento
das funções, modificações da estrutura, entre outros.
Numa mulher toxicodependente em fase de consumo a gravidez é quase sempre não
planeada, e é tardiamente identificada, o que não significa que esta não tenha o desejo
de ser mãe. Pois nesta, tal como em quase todas as mulheres, existe o desejo e a ternura
de ser mãe. A gravidez é aceite mas não é vivida em plenitude.
A gravidez, numa mulher toxicodependente, é considerada de risco, devido ao seu
estilo de vida, aos consumos, e à consequência das drogas no feto. O que origina uma
maior probabilidade de ocorrer um parto pré-termo, e o crescimento fetal ser restrito.
Outros dos riscos subjacentes são infecção por VIH, pelo vírus da hepatite C, entre
outros. O que exige um acompanhamento multidisciplinar.
Tal como a mãe, também o feto está exposto ao meio ambiente através das trocas
efectuadas com mesma. No início da gestação, há períodos de importância crítica no
desenvolvimento que podem ser interrompidos ou alterados pela exposição às drogas,
em que os efeitos teratogénicos das mesmas podem provocar a morte embrionária.
A heroína, a cocaína, a marijuana e o álcool quando utilizados na gravidez atravessam a
placenta afectando o crescimento fetal e induzindo alterações neurocomportamentais
prolongando-se os seus efeitos ao longo dos primeiros meses.
A nível da grávida toxicodependente podem surgir défices a nível do seu desempenho
maternal frequentemente associados a insuficiente vinculação, problemas da
parentalidade e filhos de pais toxicodependentes. Este défice arrasta-se ao nível da
interacção mãe/bebé em que surge por parte da mãe consumidora uma dificuldade em
estabelecer um contacto entre a mãe e o bebé, relacionados com os sentimentos de
culpa, problemas sociais, entre outros.
Apercebemo-nos que o enfermeiro assume papel fundamental na problemática da
grávida toxicodependente pois, devido à sua multiplicidade de papéis, é um agente
importante de actuação em vários contextos: escolar, hospitalar, laboral, familiar ou
social. É ele que, na maioria dos casos, efectua a recolha e detecção de problemas
ligados a esta problemática.
Antes de finalizar consideramos importante salientar que foi essencial o contacto que
tivemos com as instituições de apoio à problemática da grávida toxicodependente, pois
permitiram que tivéssemos um contacto mais próximo com essa realidade. Constatámos
que foi essencial o facto de termos tido a possibilidade de dialogar com mães
toxicodependentes, pois estas transmitiram-nos o seu testemunho de vida tendo sido
para nós mais fácil entender esta problemática. Assim sendo, apercebemo-nos também
o quanto é importante para estas situações, uma actuação contínua de toda uma equipa
multidisciplinar.
Em suma, este trabalho proporcionou-nos um enriquecedor crescimento pessoal, pois
mostrou-nos uma perspectiva diferente do mundo em que vivemos, exigindo de nós
um despertar para uma realidade que não é só de hoje, mas que advém de há muito, e
que infelizmente se continuará a propagar.
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6. Referências bibliográficas
Aragão, M. J. ; Sacadura, R. (2002). Guia geral das drogas: explicar o seu mecanismo e suas
consequências. Lisboa: Terramar.
Sousa, I. (1998). Toxicodependência – A peste do século XX. Leiria: Edições Magno.
Marques, A., & Fugas, C. (1990). Consumo ilícito de drogas. [S.l.]: Gabinete de Planeamento e de
Coordenação do Combate à Droga.
Justo, J. (1990). XXI (3). Gravidez e mecanismos de defesa: um estudo introdutório. [S.l.]: Análise
Psicológica.
Palminha, J. (1993). Os filhos dos toxicodepedentes. Porto: Asa Gráfica.
Colman, L. (1994). Gravidez: a experiência psicológica. New York: Edições Colibri – Colecção Cline.
Bobak, I., Jensen, M., & Lowdermilk, D. (1999). Enfermagem na maternidade. Loures: Lusociência.
Sptt (1999). A informação geral para a prevenção das toxicodependências. Algarve: Direcção Regional
do Algarve do SPTT.
Frazão, C. (1999). A mulher toxicodependente e o planeamento familiar, a gravidez na maternidade.
Lisboa: Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso.
Hapetian, I. (1997). Famílias- entender a toxicodependência. Lisboa: Editorial Verbo.
Granley, M., & Ziegel, E. (1985). Enfermagem obstétrica. Rio de Janeiro: Editora Guanabara.
Pinto-Coelho, M. (1993). Toxicodependência – a liberdade começa no corpo. Lisboa: Fim de Século.

FIM
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Gravidez & VIH/SIDA

Trabalho elaborado por:
Ana Laura Nascimento; Ângelo Miguel Gomes; Leocádio Dinarte Alves; Rita Leirias Palma
Agradecimentos
Agradecemos à Prof. Celeste Duque, que se revelou incansável, o
apoio prestado. Sem ela decerto tudo se tornaria mais difícil!
Gostaríamos de agradecer também à equipa do MAPS e do CAD
pela disponibilidade e tempo dispensado!
1. Introdução
Os primeiros casos de Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA), doença
provocada pelo Vírus da Imunodeficiência humana, foram reconhecidos em 1981 pelos
Centros de Controlo de Doenças da Califórnia, nos Estados unidos da América e
relatavam 5 casos de homossexuais masculinos afectados pela até então rara pneumonia
Pneumocystis carinii. Simultaneamente em New York eram referidos 26 casos dessa
infecção pulmonar e sarcoma de Kaposi, forma rara de cancro da pele também em
homossexuais masculinos (Teixeira, 1993).
Em apenas dez anos, o SIDA transformou-se numa epidemia verdadeiramente
devastadora que não afecta somente os homossexuais, como anteriormente se pensava,
mas que afecta todos aqueles que adoptem comportamentos de risco, ou que pelos
menos tomem contacto com eles através do seu parceiro sexual; e actualmente é mesmo
nos heterossexuais que a incidência do VIH/SIDA é maior.
A verdade é que esta doença não diferencia homem nem mulher, não escolhe opções
sexuais, não tem preferência por idades, qualquer um, independentemente do sexo,
opção sexual, idade, crenças religiosas, é passível de contrai-la da forma mais fugaz. E
por isso se trata de uma epidemia que desafia a capacidade dos serviços de saúde, que
mobiliza cada vez mais amplos esforços de investigação e que cria uma atmosfera de
autêntico terror psicológico. (Teixeira, 1993)
E é de facto, a nível psicológico que se somam “brechas”. O SIDA, tratando-se de um
fenómeno social, exerce uma pressão esmagadora perante os indivíduos. Condena-os à
morte e à solidão, estereotipa-os como praticantes de comportamentos de risco,
desviantes e imorais, que contagiam os bons costumes da sociedade.
As mulheres, são encaradas como “mulheres-de-rua” e são rejeitadas, sendo
consubstanciado o principal factor da identidade feminina – a maternidade. Engravidar
ou não engravidar? Essa parece constituir a questão primordial que estas mulheres
vivem. Será correcto? Deverão fazê-lo? Ficarão também os filhos infectados? Como
poderão fazer para evitá-lo se de facto decidirem engravidar? Conseguirão acompanhar
o crescimento dos seus filhos?
É no sentido de perceber a vivência psicológica da mulher grávida portadora do
VIH/SIDA que elaboramos este trabalho, com o tema “Gravidez & VIH/SIDA” no 5º
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curso de licenciatura em enfermagem, no âmbito da unidade curricular de Psicologia
VI, orientado pela Prof. Celeste Duque.
Definimos como objectivos específicos.
- Definir o conceito de VIH/SIDA;
- Enunciar as manifestações clínicas;
- Referenciar os métodos de diagnóstico;
- Compreender o mecanismo de transmissão vertical do VIH;
- Conhecer os aspectos psicológicos vivenciados pela mulher que recebe a notícia da
seropositividade no período gestacional;
- Conhecer os aspectos psicológicos vividos pela mulher que decide engravidar com
conhecimento do diagnóstico;
- Reflectir sobre a intervenção do enfermeiro;
- Enunciar os recursos disponíveis na comunidade.
O trabalho encontra-se estruturado em seis capítulos. No primeiro capítulo abordamos
o conceito de VIH/SIDA, as manifestações clínicas, métodos de diagnóstico e a
transmissão vertical do VIH. Os aspectos psicológicos da gravidez na mulher
seropositiva para o VIH são abordados no segundo capitulo. Aqui existe uma clara
tentativa de compreensão da vivência psicológica que a mulher experimenta quando
recebe a notícia da seropositividade no período gestacional, e quando decide
engravidar com conhecimento do diagnóstico da doença No terceiro damos a conhecer
o papel do enfermeiro. Os recursos disponíveis na comunidade, nomeadamente locais
de apoio e diagnóstico do VIH/SIDA, linha SIDA, campanhas de solidariedade,
informativas e de prevenção, e sites disponíveis na Internet são abordados no quarto
capítulo. No quinto capitulo, a conclusão, são apresentadas as principais ideias do
trabalho, a forma como as atingimos bem como as dificuldades com que nos
defrontamos durante a elaboração do mesmo. Por fim no sexto capítulo, indicamos a
bibliografia que norteou e tornou possível a concretização deste trabalho.
2. VIH/SIDA
2.1. Conceito
O Vírus de Imunodeficiência Humana (VIH) é uma forma de retrovirus que graças à
sua variabilidade genética, ocasionada pelos seus erros originadores de mutações no
ADN celular, consegue iludir o sistema imunitário do indivíduo infectado e persistir
nele durante muito tempo (Montagnier, s.d).
O VIH penetra então nos linfócitos-T “helpers” (células que desempenham um papel
crucial na capacidade do organismo para combater as infecções), conduzindo à perda
de defesas imunológicas e permitindo a infecção por bactérias, vírus ou fungos que
habitualmente não provocam doenças e o aparecimento de certas doenças cancerosas
(Teixeira, 1993).
Segundo o autor anteriormente citado, conduz progressivamente ao Sindroma da
Imunodeficiência Adquirida (SIDA), estado de falência do sistema imunológico,
caracterizado por três tipos fundamentais de complicações, nomeadamente:
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- Infecções oportunistas, que são infecções provocadas por microorganismos (bactérias,
vírus, fungos ou protozoários) que habitualmente não causam doenças em indivíduos
imunologicamente competentes;
- Tumores que beneficiando da redução da capacidade do sistema imunológico para
eliminar células neoplásicas, podem ser também resultado de infecções virais (Sarcoma
de Kaposi – tumor da pele excepcionalmente raro em indivíduos sem infecção VIH):
- Encefalopatia-VIH que resulta da infecção do Sistema Nervoso Central pelo VIH e que
causa um quadro de demência progressivo.
2.1. Manifestações clínicas
O indivíduo depois de ser transmitido com o VIH, passa por diversas fases da doença
que costumam ser divididas em quatro: fase aguda; fase assintomática; quadro clínico
ARC e SIDA.
A fase aguda costuma ocorrer entre a 6ª e a 12ªsemana após a transmissão do vírus e
corresponde ao momento da seroconversão, isto é, a partir da altura o indivíduo se
realizar análises é considerado seropositivo. O conceito seropositivo, significa que tem
anticorpos anti-VIH em circulação no sangue.
A seguinte fase é considerada assintomática, pois o paciente não tem quaisquer
sintomas. Surge apenas linfoadenopatia generalizada, ou seja, o aumento de gânglios
linfáticos em pelo menos 2 cadeias ganglionares.
Sucessivamente, surge o quadro clínico designado de ARC que consiste na persistência
da seguinte sintomatologia: febre, diarreia, emagrecimento, linfoadenopatia e outros.
Por fim, o último estádio da doença é o SIDA (Síndrome de Imunodeficiência
Adquirida). Pode aparecer entre os 6 meses após a transmissão do vírus e 7 anos ou
mais. O SIDA costuma manifestar-se através de frequentes infecções oportunistas, as
infecções que as pessoas têm variam consoante os agentes patogénicos a que estão
expostos. (s.a., 1991)
2.1.1. Métodos de diagnóstico
Existem, no mercado vários testes de diagnóstico do VIH, cada um é usado consoante o
tipo de situação.
O teste ELISA é o mais usado, tem como principal objectivo detectar a presença de
anticorpos no organismo.
Entre o momento da infecção e a produção de anticorpos decorre um período, chamado
de período de janela, durante o qual não é possível determinar a existência de
anticorpos. Quando é feita uma análise durante este período existe um risco elevado de
obter falsos negativos. O período de janela costuma durar cerca de seis a oito semanas.
Existem três resultados possíveis do teste ELISA: se não tem anticorpos e a pessoa
admite que não teve nenhum comportamento de risco nos últimos dois meses é
seronegativa; se não tem anticorpos e teve pelo menos um comportamento de risco nos
últimos dois meses, é recomendada a repetição do teste; se são detectados anticorpos é
realizado o teste de Western Blot que confirmará o resultado. Este teste é mais
específico e também mais caro. Quando negativo, significa que o indivíduo é
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seronegativo; mas se for positivo, é realizada nova colheita de sangue para confirmação
do resultado.
O teste ELISA tem grandes limitações pois quando ocorrem falsos positivos, até que o
Western Blot confirme o resultado, o indivíduo atravessa por período de grande
ansiedade perante a possibilidade de estar infectado
Em algumas situações é dada preferência ao teste PCR, que é ainda mais sensível e
sofisticado que o Western Blot. Neste teste não é feita uma pesquisa aos anticorpos, mas
sim ao ácido nucleico do vírus, sendo possível detectar a sua presença. Ao fim de 15
dias é possível saber se a pessoa está ou não infectada. Este teste costuma ser usado no
caso de recém-nascidos de mães infectadas pois sem ele, seria necessário aguardar
algum tempo até que os anticorpos da mãe em circulação no RN fossem eliminados
para poder determinar se estes também estão infectados (s.a., 2001).
2.1.2. Modos de transmissão
Apesar do carácter epidémico do Vírus da Imunodeficiência Humana, apenas existem
quatro formas de contágio (Teixeira, 1993):
- Contacto sexual; o vírus é transmitido bidireccionalmente em relações vaginais e anais
pois está presente no esperma e secreções vaginais na mulher. O risco de transmissão
relaciona-se com a eventualidade do parceiro estar infectado, o tipo de contacto sexual
(maior risco para o anal receptivo), a quantidade de vírus presente nas secreções e a
existência de outras doenças sexualmente transmissíveis;
- Sangue; a transmissão sanguínea refere-se a entrada do sangue infectado no sangue do
outro indivíduo. O exemplo clássico é a troca de seringas entre toxicodependentes:
- Mãe/feto; refere-se à transmissão vertical do VIH, da mãe infectada para o feto “in útero”
devido à capacidade deste em atravessar a placenta;
- Leite materno; constitui uma forma de contágio ainda discutida pois se foi comprovada a
existência de antigénios virais no leite materno de mulheres portadoras do VIH, o
mesmo não acontece com a capacidade deles atravessarem a mucosa gastrointestinal e
infectarem a criança.
2.2. Transmissão vertical do VIH
Ainda que não tenham sido determinados os mecanismos temporais e pato-psicológicos
associados à transmissão do VIH da mãe para a criança (Paz et al.) é conhecido que o
vírus da imunodeficiência humana pode ser transmitido in útero, durante o trabalho de
parto ou no período pós natal (Miotti et al., 1999).
Segundo este último autor, o VIH pode logo no primeiro trimestre da gravidez
atravessar a placenta e infectar o feto. Diversos estudos demonstram a presença de
antigénios virais em tecidos de fetos abortados com menos de 8 semanas.
Nas crianças cuja infecção pelo VIH for transmitida pela mãe nesta fase, a doença tende
a progredir mais rapidamente “ (…) o que pode ser atribuído a uma infecção in útero
contraída cedo, com lesão do timo e, portanto com um desenvolvimento anómalo de toda a estirpe
de linfócitos T” (Paz et al., s.d., p. 156).
Para Miotti et al. (1999) nesta fase pode reduzir-se substancialmente a transmissão do
VIH da mãe para o feto através de medicação antiretrovírica.
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No período intrapartum a transmissão do vírus pode-se processar mercê do contacto do
bebé com o sangue e outros fluidos maternos (Paz et al., s.d.). A adopção de um parto
por cesariana electiva sem derramamento de sangue parece constituir uma boa opção.
Quando associada a um cuidado acrescido para diminuir ainda mais o risco de infecção,
nomeadamente controlo da hemorragia da incisão abdominal, limpeza e cobertura do
campo cirúrgico, lavagem das luvas cirúrgicas antes de entrar no útero e utilização de
um dispositivo de agrafos facilitador do processo de homeostase, a percentagem de
risco de contaminação do feto diminui ainda mais significativamente (Miotti et al.,
1999). Este método quando acompanhado da terapêutica antiretrovírica reduz a taxa de
transmissão vertical do VIH a 1-2% (Dinis & Rocha, s.d.)
Segundo Paz et al. (s.d.,), postpartum o risco de contaminação prende-se com o
aleitamento materno, pois foram detectados antigénios virais em suspensões de leite
materno de mulheres portadoras do VIH. Porém se comprovado está a presença desses
mesmos antigénios virais, o mesmo não acontece com a capacidade deles atravessarem
a mucosa gastrointestinal e infectarem a criança.
O risco não está portanto ainda definido, mas as informações existentes levam a crer
que “(…) se efectivamente, se verificar este modo de transmissão, a sua contribuição relativa
para a infecção é, sem dúvida, menor relativamente à transmissão in útero e intrapartum” (s.a.,
1991, p. 62).
Segundo este mesmo autor não se podem descurar as vantagens do aleitamento
materno na prevenção de infecções intercorrentes que podem causar a progressão da
doença. Essas existem e constituem um facto. O risco, esse, é discutível ainda que
presente em muitos casos.
Cabe única e exclusivamente à mulher portadora do VIH a decisão de amamentar ou
não. Em muitos casos se as mulheres o tivessem feito ter-se-iam evitado em muitos
bebés infecções pré-natais, noutros ter-se-ia provocado ainda mais a morbilidade e a
mortalidade (Miotti et al, 1999).
De um modo genérico para evitar a transmissão vertical do VIH é crucial a identificação
precoce, ainda no período antenatal, da infecção materna. Assim poder-se-ão tomar as
devidas precauções:
- Iniciar a terapêutica antiretrovírica e de profilaxia das infecções oportunistas;
- Profilaxia antiretrovírica durante o parto e administração à criança nas primeiras 6
semanas de vida;
- Optar pela amamentação artificial ao invés da materna por questões de segurança;
- Detectar a infecção na criança, para que a terapêutica antiretrovírica seja iniciada
precocemente. (Dinis & Rocha, s.d.)
4. Aspectos psicológicos da gravidez na mulher seropositiva para o VIH
A alteração do padrão biológico, promotor da construção de estereótipos negativos, é o
principal responsável pelas vivências psicológicas que a mulher seropositiva para o
VIH experimenta durante este período (Canavarro, 2001).
Para a autora acima mencionada, todas elas, quer conheçam o diagnóstico antes do
período gestacional, quer durante o mesmo, são submetidas generalizadamente a uma
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“categorização” e “rotulagem social” que levam as pessoas a formar estereótipos e a
comportar-se com mais ou menos preconceito em relação a elas. Consequentemente
resulta uma descriminação deveras acentuada passível de afectar consideravelmente a
sua auto-estima e fomentadora de uma estigmatização social que, por seu turno, origina
uma auto-estigmatização, geradora de dúvidas acerca do valor próprio.
Acresce-se um endossamento diário à sua condição de ser mortal e uma
responsabilização cruel que marginaliza e vaticina estas pessoas doentes uma vez
diagnosticadas ( Tunala et al., 2001; op. cit. Dias, Duque & Silva, s.d.).
Surge também a pressão social e a ” ditadura do corpo perfeito” exercidos nas
sociedades de hoje e que tanto as afectam A longo prazo a sua imagem corporal é
modificada mercê da acção da terapêutica antiretrovírica (TARV) a que são submetidas.
A barriga torna-se mais proeminente, a síndrome de redistribuição adiposa ou
lipodistrofia surge (Dias, Duque & Silva, s.d.). Como resultado desta síndrome, a face,
as nádegas, os membros perdem gordura subcutânea – lipoatrofia –, o abdómen, a zona
dorsocervical e mamas ao invés, acumulam gordura subcutânea – lipoacumulação.
(Casquilho et al., 2001; op. cit. Dias, Duque & Silva, s.d.).
Fife & Wright (2001) referenciados por Duque & Silva (s.d.), consideram que com a
perda da sua auto-imagem é também arrastado o seu auto-conceito, auto-estima e
“status” social. A mulher vê-se não só confrontada com uma «(…) “tragédia” de vírus e
imuno-supressores, mas também por uma avalanche de invariantes psicológicos como a
ansiedade, solidão e depressão, que têm graves repercussões na qualidade de vida (,,,), na
evolução da doença e provavelmente, no próprio sistema imunitário.» (Perez, Húsler, & Ewert,
1994; op. cit. Dias, Duque & Silva, s.d., p. 26).
Somam-se os vários aspectos médicos com implicações psicológicas, desde logo
relacionadas com o seu carácter epidémico, inexistência de vacina, incurabilidade,
características particulares dos seus modos de transmissão e evolução rápida do estado
de saúde para a debilitação O SIDA, afinal de contas, é uma doença que ameaça a vida,
e está associada a comportamentos de risco e a um enorme impacto social (Teixeira,
1993).
Falaremos agora especificamente das reacções vividas pela mulher que recebe a notícia
da seropositividade já durante o período gestacional e posteriormente daquela que a
priori já conhece o diagnóstico e que com pleno conhecimento de causa decide
engravidar.
De referir que cada mulher é um ser único e inigualável, pelo que vive per si as suas
vivências, colocando na forma como as vive reflexos da sua cultura, sociedade,
educação, enfim, do seu próprio “eu”.
4.1. A notícia da seropositividade no período gestacional
“O mundo ruiu. Tudo aquilo em que acreditou, que dava um sentido à sua vida, aos seus projectos,
tudo parece, subitamente, posto em causa pela simples palavra lida nos resultados da sua análise ou
pronunciada por um médico “positivo”. Os pontos de referência desvanecem-se, a angústia invade-o
“Porquê eu? Quando se passou isto? Quem me contaminou? O que vou fazer?” Com um ar calmo,
um pouco incomodado, o médico explica-lhe que deve advertir os seus parceiros e incitá-los a fazerem
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testes, que não deve desesperar, porque a investigação progride, que terá de ser acompanhado…Mas
não o ouve. Para quê? Nesse estado de confusão, como evitar pensar que a sua vida está ameaçada.
“Quero ficar só, quero partir … Ninguém me pode compreender. Ninguém me pode ajudar…” (…).
E dá consigo fora da sala, na rua, e percebe que a palavra “SIDA” mal chegou a ser pronunciada. No
entanto invade o seu espírito “Tenho SIDA…Tenho SIDA...” E tem vontade de o gritar, de o lançar à
cara dos transeuntes. E sente-se mais só do que nunca…” (Montagnier, 1994, p. 131)
Saber que se é seropositivo é de facto entrar num novo mundo, num outro mundo. Não
se está doente mas sente-se como um doente. Sente as mesmas descriminações, as
mesmas ameaças, os mesmos medos que sentem aqueles cuja doença atingiu o estádio
de declaração propriamente dita (Montagnier, 1994).
O choque instala-se. A grávida seropositiva acaba por viver uma confusão de ideias que
culminam com dúvidas, desespero, raiva pelos médicos e familiares mais próximos,
medo da dor e da morte (Miller, 1988; cit. in Guerra,1998).
Comportamentalmente, os episódios de choro são frequentes bem como o
distanciamento das pessoas com quem mantinha uma relação afectiva próxima. A raiva,
irritabilidade e agressão quer física, quer verbal dirigida a qualquer pessoa passa
também a ser uma constante (Guerra, 1998).
Segundo Miller (1988) referido por Guerra (1998) a negação acaba por surgir como o
primeiro mecanismo de coping. A grávida portadora do VIH/SIDA acaba então por
ignorar os conselhos dos médicos e mantém o seu estilo de vida. Para ela o diagnóstico
não pode estar correcto, não é possível estar contaminada.
Ao choque inicial segue-se depois os verdadeiros problemas psicológicos, reforçados
pela consciencialização do que representa o seu estado de seropositividade. São eles as
manifestações de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas (Guerra, 1998).
Segundo a autora, estas reacções são o resultado da influência de factores médicos,
psicológicos e socioculturais. Os factores médicos dizem respeito à situação clínica do
indivíduo, ou seja, ao estádio em que a doença se encontra quando é diagnosticado o
VIH. Os factores psicológicos relacionam-se com a personalidade do indivíduo, o seu
equilíbrio mental e a sua capacidade de resolução de crises, e os factores socioculturais
referem-se ao apoio afectivo e ao suporte social oferecido pelos familiares, amigos e
comunidade.
Para Montagnier (1994) a ansiedade é reforçada pela consciencialização de que o
VIH/SIDA é uma doença crónica altamente ameaçadora para a sua vida, e do seu
descendente e que por isso mesmo se constitui um equivalente simbólico de uma
“morte anunciada.
O medo da estigmatização social que a impele para fechar-se num modo só seu, actua
também como um agente fortemente ansiogénico (Couto, s.d.).
Segundo este último autor (p. 212) este complexo de emoções que define a ansiedade,
pode então associar-se ao medo de outras emoções como a cólera, culpabilidade,
amargura, vergonha e gerar diversos comportamentos manifestados por:
“ - Tensão motora
- Hiperactividade autónoma
- Expectativa apreensiva
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- Hiper-atenção a todos os estímulos e dificuldades de concentração.”
Couto (s.d., p. 213) considera que a depressão e os pensamentos suicidas surgem por
acréscimo. Para a grávida que recebeu a notícia da seropositividade, o mundo “desabou
sobre os seus próprios pés” e agora a capacidade de se percepcionar a si própria nas
mais variadas facetas, sejam elas de natureza social, emocional ou física pura e
simplesmente não existe. Sem esta perspectiva de auto-conceito “(….) não faz sentido a
noção de auto-controle, factor fundamental, a partir do qual se é capaz de inibir ou facilitar
determinados comportamentos essenciais na manutenção, tanto quanto possível do seu bem
estar”.
O isolamento, resultado desta ausência de auto-conceito e do renascer de um
sentimento de egocentrismo torna cada vez mais difícil o estabelecimento de relações
com os outros.
A consequente rejeição social, incrementa o agravamento da auto-imagem e auto-estima
destas mulheres que passam agora a ser consideradas seres de “alto risco” aos olhos da
sociedade em que se inserem. Por outro lado são ainda consideradas culpadas e
responsáveis pela contracção do vírus “ (…) e percepcionadas pela sociedade como portadores
de comportamentos de riscos, desviantes e imorais, que contagiam os bons costumes da
comunidade” (Herek&Glunt, 1998; Fife&Wright, 2000; cit. in Dias, Duque & Silva, s.d., p.
29)
A depressão surge, mercê desta atitude esmagadora que a sociedade toma,
culpabilizando-as por uma imoralidade que na maior parte das vezes não existe nem
nunca existiu e pelo cometer de um acto pecaminoso, a procriação, que na verdade
nunca fora planeado com o devido conhecimento de causa.
A rejeição por parte dos outros, os julgamentos, a auto-imagem negativista e derrotista,
a imagem social da doença, são todas condições que concorrem para o surgimento de
pensamentos suicidas. (Guerra, 1998)
Segundo Cillian (1997) referido por Dias, Duque & Silva (s.d.) esta forma de pensar
impele para uma aprendizagem intrapsíquica desta sua nova condição, na vivência do
quotidiano intra e inter-relacional.
A notícia da seropositividade na grávida implica portanto, como refere Montagnier
(1994, p. 132), um rearranjo tanto material como simbólico da existência. É no fundo,
“(…) a vida quotidiana que tem de ser concebida e organizada de outra forma, o trabalho e as
relações com os outros têm que ser reconsideradas. E, no íntimo, o medo da doença e de ser
rejeitado”.
4.2. A decisão de engravidar com conhecimento do diagnóstico
Na mulher seropositiva para o VIH que a priori reconhece o seu diagnóstico e que com
pleno conhecimento de causa toma a decisão de engravidar, a envolvência psicológica
intra e inter-relacional processa-se de modo diferente, ainda que muitos dos
sentimentos vividos sejam semelhantes aos daquelas que somente durante o período
gestacional recebem a notícia da seropositividade.
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Os principais receios, causadores de uma ansiedade intensa e exacerbada, prendem-se
com a possibilidade de transmissão do VIH ao feto e aos condicionalismos impostos por
essa mesma transmissão. A progenitora teme efectivamente pelas alterações que
entretanto se possam processar nas diversas áreas da vida psicológica, familiar e social e
receia as repercussões desta sua opção (Canavarro, 2001).
Segundo a mesma autora (p. 214) o “espectro” de gerar uma criança com uma anomalia
é verdadeiramente assustador e é vivido com ansiedade e tensão. Acresce-se “(…) um
profundo sentimento de culpa e/ou punição, originado na auto-responsabilização” pela possível
afecção, bem como “(…) sentimentos de desamparo e desespero, perda de gratificação (…)
ruptura de continuidade entre o passado, presente e futuro a que não são alheios sentimentos de
desgraça, vergonha e humilhação profundas”.
A questão de procriar ou não coloca-se e a mulher portadora do VIH sente-se dividida.
Por um lado a moldura social que a envolve considera que a decisão de procriar, nestes
casos, constitui um acto criminoso e inconsequente “(…) como se a maternalidade dos seus
descendentes se despenhasse no vazio do futuro” (Tunala et al., 2001; cit. in Dias, Duque, &
Silva, s.d., p. 29). Por outro, a mulher seropositiva sente, que só tendo um filho
concretizará o seu papel como mulher reconhecido pela sociedade (Papiernick, 2001; cit.
in Cabrita, Carneiro & Menaia, s.d.).
A sociedade acaba então por exercer um papel esmagador. Exige por um lado que ela
tome a opção de não procriar mas por outro condena o seu papel de mulher quando
não o faz.
Para além disso, aos olhos da sociedade ou se é “mulher de casa” ou “mulher da rua”, e
a mulher seropositiva, no plano da maternidade, acaba por ser relegada para o mundo
da rua sejam quais forem as suas vivências e desejos afectivos. (Morokoff, Harlow, &
Quina, 1995; cit. in Dias, Duque, & Silva, s.d.).
Porém, segundo Bennets et al. (1949) referenciado por Dias, Duque e Silva, (s.d.), apesar
de todos os medos e duvidas que possam persistir, o desejo de procriar parece
perpetuar. Afinal a maternidade, trata-se para muitas destas mulheres uma forma de
reparar e corrigir as feridas narcísicas no domínio intrapsíquico e do desejo, legítimo e
humano, de perpetuar a vida (Rose&Clark-Alexander, 1997; cit. in Dias, Duque, & Silva,
s.d.).
Mas ainda que com plena consciência do seu acto e tomando as devidas precauções
para evitar a transmissão do VIH ao feto, esta vivência que é a gravidez toma
especificidades acrescidas, uma vez que um sem número de factores acrescem à
dificuldade habitual existente para ultrapassar esta crise de desenvolvimento (Cabrita,
Carneiro & Menaia, s.d.).
Para Harrison (1995) e Papiernik (2001) referidos por Cabrita, Carneiro e Menaia (s.d.),
o receio e o temor de não poder acompanhar futuramente a criança numa das fases
decisivas de formação da personalidade (infância ou adolescência), é frequente e
legítimo, tendo em conta que o tempo de vida desde a afecção assintomática até ao
aparecimento das infecções oportunistas é limitado.
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Esta reacção aterradora, geradora de medo, ansiedade e tensão é colmatada com a
certeza da mulher grávida seropositiva de que a maternidade é uma condição
indispensável promotora da “continuidade” de uma vida que à priori tem uma morte
anunciada. (Canavarro, 2001)
Para esta autora, os filhos são e serão, de facto, a possibilidade de dar continuidade e de
transmitir heranças genéticas, de costumes, valores e significados. Constituirão de igual
modo, a forte possibilidade de continuar, projectar, reparar, de transcender a dimensão
temporal e enganar a morte encarada como o triste fim.
Porém serão também sempre a possibilidade de transmissão de uma herança tenebrosa,
o VIH. E esse é e será sempre o grande receio. Engravidar pode para a mulher
seropositiva para o VIH constituir um constante relembrar da sua condição e do receio
de receber um filho doente (Cabrita, Carneiro & Menaia, s.d.)
5. Papel do enfermeiro
“No reino do indizível, da desertificação relacional e do silêncio e isolamento mortíferos a tarefa
clínica é cuidar humanamente do homem, escutar e compreender o seu sofrimento e abrir um espaço
onde caibam, apesar de tudo, o desejo e as trocas profundas consigo mesmo e com os outros,
devolvendo-o à comunicação, à coragem de ser e a uma existência responsável e comprometida com o
devir” (Teixeira, 1993, p. 183)
O enfermeiro desempenha um papel fundamental no suporte e aconselhamento
psicológico, nas intervenções comportamentais para modificação de hábitos de alto
risco, transmissão de informação correcta e atempada, combate à estigmatização e
descriminação e identificação das variáveis e da dinâmica que regem o comportamento
(Costa & Fernandes, 1991).
Para isso é crucial que o enfermeiro desenvolva consciência dos seus próprios valores,
convicções, atitudes e sentimentos em relação à infecção pelo VIH e indivíduos
atingidos, de modo a resolver eventuais conflitos que afectem a qualidade da prestação
dos seus cuidados. É também importante que adquiram os conhecimentos necessários
que os dotem de capacidades qualificadas; que procurem continuar a sua formação a
fim de manter sempre actualizados os seus conhecimentos e que utilizam medidas de
controlo recomendadas não só para a sua protecção mas também dos restantes doentes
e da própria mulher seropositiva para o VIH (Reisman, s.d.).
Segundo Costa e Fernandes (1991) é fundamental também que se encarem de frente
algumas questões suscitadoras de problemas emocionais. Devem ser ultrapassadas
dificuldades e frustrações que se prendam com a juventude da mulher portadora do
VIH, múltiplas mortes, deterioração física e mental e necessidades psíquicas mais
intensas. Devem também ser ultrapassadas dificuldades que dizem respeito à equipa
como seja o medo excessivo de contágio, a identificação exagerada com as doentes, a
aceitação de valores morais e comportamentos marginais e desviantes.
Namir (1986), citado por Costa e Fernandes (1991) considera que são objectivos da
intervenção psicológica dirigida à mulher seropositiva:
“ - Compreender e ajudar a compreender a sua atitude para com a doença
- Aumentar a qualidade de vida da doente ajudando-a a adaptar-se à nova situação
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- Ajudar o doente a vivenciar com melhor controlo evitando sentir-se uma vítima desesperada
e impotente da doença”.
O estádio da doença deve sempre ser tomado em conta, pois para além dos factores
individuais e sócio-culturais este exerce também um importante papel no
escalonamento da intervenção do enfermeiro. Na fase subsequente ao diagnóstico, a
atitude terapêutica deverá ser de escuta, empatia, confiança, confidencialidade, sem
julgamentos ou censura (Costa & Fernandes, 1991).
Segundo Canavarro (2001, p. 220), o enfermeiro deverá tomar o papel de conselheiro e
procurar ajudar os consulentes a compreender o significado que o diagnóstico tem para
si, explicando realisticamente a doença, não pelo fatalismo mas sim pela biologia. “ Esta
explicação pode desfazer ideias misteriosas e equívocas sobre os problemas (…), corrigindo
concepções erróneas e consequentemente, ajudando algumas pessoas a lidar com o medo do
desconhecido”.
Este aconselhamento deverá ser orientado sempre no sentido de evitar a perda de auto-
estima, modificar distorções cognitivas, apoiar os mecanismos de defesa mais
adaptativos, estimular mudanças de estilo de vida, promover a expressão emocional e
reformular comportamentos de risco (Costa & Fernandes, 1991).
Para Brinca, (2002) a fim de promover todos os aspectos acima referidos, é de vital
importância que o enfermeiro desmistifique que a gravidez de uma mulher seropositiva
será como qualquer outra. Os cuidados serão os mesmos, somente serão de forma mais
orientada para consigo própria, para o futuro do filho e para o relacionamento com o
companheiro. A higiene de todo o corpo deverá ser realizada de forma cuidada e
diariamente a fim de evitar infecções, os períodos de repouso relativamente frequentes
e a alimentação variada como acontece com as restantes grávidas. Somente a medicação
antiretrovírica não deverá ser descurada.
Numa segunda fase em que a mulher portadora do VIH está internada com infecções
oportunistas resultantes do SIDA, agravam-se os sentimentos de ansiedade, depressão e
pensamentos suicidas (Costa & Fernandes, 1991).
Como refere Couto (s.d., p. 214) citando Marks (1978) “o tratamento dos transtornos
mediados pela ansiedade tem de ser compreendido num aspecto global, numa estrutura em que há
um duplo processo. Primeiro, o doente necessita de estar motivado para procurar e completar o
tratamento. Em segundo lugar precisa de ser capaz de cumprir com um certo número de acções
terapêuticas.”
O recurso a técnicas de relaxamento constitui, regra geral, uma boa opção para diminuir
a ansiedade, assim como o ensino da forma de controlo dos estímulos ansiogénicos
promotores de pensamentos suicidas.
Como resultado da violência psicologia que agora vive, a mulher pode sentir também
necessidade de expressar sentimentos, dúvidas, receios e emoções acerca do “luto” face
à morte. Muitas vezes esses sentimentos são difíceis de ventilar aos parentes e amigos e
é aqui que o enfermeiro desempenha um papel preponderante. Para além de a escutar e
apoiar, deverá promover a sua ligação com a família e pessoas próximas, apoiando
também estas e esclarecendo-as acerca dos processos físicos e psicológicos que o seu
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parente agora vive (Costa & Fernandes, 1991). Assim evitar-se-á um isolamento que
tantas vezes é vivido, promovendo simultaneamente o convívio social tão importante
neste processo ao qual teima estar associado o estigma da contaminação.
De referir que o enfermeiro deverá ter perfeita consciência de que existem outros
profissionais de saúde a quem pode recorrer e direccionar o caso se sentir que é incapaz
de responder adequadamente. Os psicólogos são a alternativa mais viável, pois são eles
que possuem conhecimentos específicos de actuação directa nestas áreas De notar que
as terapias de modelo cognitivo/comportamental parecem ser aquelas com maior
sucesso, sendo as mais usadas: reestruturação cognitiva, técnicas de relaxamento,
procura de mecanismos de coping alternativos, resolução de problemas, biofeedback,
auto-afirmação, etc. (Costa & Fernandes, 1991).
Os psicólogos, sobretudo os clínicos, podem dar uma resposta adequada a problemas
complexos e variados que a infecção VIH coloca nas mulheres grávidas, quer no campo
da prevenção, quer na avaliação, tratamento e reabilitação psicossocial (Teixeira, 1993).
Para a comunidade o enfermeiro assume um papel de relevância sobretudo ao nível da
prevenção. Desenvolvendo acções de educação para a saúde e campanhas de prevenção
e informando acerca dos modos de transmissão, o enfermeiro simultaneamente encoraja
a modificação de comportamentos de risco e promove a diminuição do medo, através
da compreensão clara da natureza da doença e de como pode ser prevenida.
Consequentemente contribui para a mudança de atitudes individuais, combatendo a
estigmatização social (Teixeira, 1993).
Segundo o mesmo autor, aconselhando o enfermeiro está simultaneamente também a
prevenir e a controlar a infecção do VIH e a apoiar as mulheres infectadas e as suas
famílias. É assim que a essência do aconselhamento pode ser vista como ajudando os
sujeitos a tomarem decisões que conduzem à redução do risco de infecção pelo VIH e
mobilizando o tipo e qualidade do suporte social necessário para implementá-las.
Em suma, cabe ao enfermeiro tomar um papel activo neste palco de confrontações
ferozes a que a mulher seropositiva é submetida. É sua função defendê-la da
estigmatização social, combater a ignorância, providenciar serviços amistosos que
respondam às suas necessidades, apoiá-las e encorajá-las a não desistir, a nunca desistir.
A sua vulnerabilidade quer biológica, quer psíquica tem de ser atenuada e o enfermeiro
pode ajuda-la nesse sentido. Nesse e em muitos outros. Agora só resta usar a sua
sensibilidade e lutar para que o conceito “contaminação” dê lugar a “cooperação”.
5. Recursos disponíveis na comunidade
5.1. Locais de diagnóstico e de apoio aos portadores do VIH/SIDA
Na sub-região de Faro estão disponíveis as seguintes instituições de apoio e diagnóstico
do VIH/SIDA:
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5.1.1. Centro de Apoio e Detecção da infecção pelo VIH (CAD)
O Centro de Apoio e Detecção da infecção pelo VIH trata-se de um projecto da
Comissão Distrital da Luta Contra a SIDA de Faro e da sub-região do distrito. (Graça,
2002)
Segundo a autora acima citada tem como objectivo principal a prevenção e diagnóstico
precoce do VIH/SIDA e foi aberto devido ao número de casos de SIDA notificados nas
urgências dos hospitais do Algarve.
Este centro permite o acesso voluntário, confidencial e gratuito ao teste da SIDA,
condições atractivas para quem quiser realizar o teste com discrição. O funcionamento
pode ser dividido em três fases:
- acolhimento pelo funcionário administrativo;
- aconselhamento pré-teste com o psicólogo ou enfermeiro, colheita de sangue pelo
enfermeiro;
- entrega de resultados e aconselhamento pós-teste.
As duas primeiras fases desenrolam-se no dia em que o indivíduo se dirige ao Centro e
pede para fazer o teste de diagnóstico do VIH e a terceira no dia em que vai ao Centro
receber o resultado.
A confidencialidade é garantida desde o início; quando o utente se dirige ao
administrativo, este não lhe pede nenhum elemento de identificação, abre um processo
que é identificado apenas através de um código escolhido ao acaso pelo computador.
Durante o aconselhamento pré-teste, que é passível de ser recusado, o profissional de
saúde conversa com o utente e procura saber quais os conhecimentos que este tem sobre
o VIH, vias de transmissão e prepara-o para a possibilidade de obter um resultado
positivo.
A realização da análise é voluntária e como tal o utente é livre de recusar em qualquer
altura deste processo a realização da mesma. Depois do aconselhamento é entregue um
cartão com a data da colheita, data da previsão de entrega e o número de telefone para
onde pode ligar para saber se o resultado já chegou. Este cartão tem impresso o código
que corresponde ao seu processo e só com esse código é que pode receber o resultado.
Depois de realizada a colheita são enviados os tubos para o laboratório da Sub-região
de Saúde, onde é feito o despiste do VIH através do método ELISA.
Quando o utente se dirige ao centro para receber o resultado, apresenta o código e com
este procura-se uma folha de resultados com esse código. Mostra-se o resultado ao
indivíduo e depois é realizado mais um aconselhamento, que será diferente consoante o
resultado.
Caso o resultado do ELISA seja positivo, é pedido ao doente nova colheita de sangue e é
explicado que pode ser um falso positivo e que a análise seguinte confirmará o
diagnóstico. Depois de feita nova colheita de sangue, esta é enviada para o Hospital
Curry-Cabral onde será analisada. Se o resultado da segunda análise for positivo,
significa que o indivíduo é seropositivo e na altura do aconselhamento, o enfermeiro ou
psicólogo ajuda-o a lidar com o resultado e encaminha-o para os serviços de saúde
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especializados. Se o resultado for negativo e o utente estiver no período de janela, este é
aconselhado a repetir o teste quando já não estiver nesse mesmo período.
5.1.2. Movimento de Apoio à Problemática da SIDA
O Movimento de Apoio à Problemática da SIDA, é uma organização não
governamental com sede em Faro, constituída a 13 de Maio de 1992 com estatuto de
Instituição Particular de Solidariedade Social, sem fins lucrativos que se dispõe fazer
prestações de serviços à comunidade no âmbito da problemática da SIDA,
toxicodependência e outras questões relacionadas com a sexualidade, na região do
Algarve.
Tem como objectivos gerais:
- Apoiar a comunidade promovendo a informação, prevenção e inserção psicossocial dos
indivíduos afectados com a SIDA e suas famílias;
- Formar os seus associados no âmbito da problemática da SIDA, toxicodependência e
outras questões relacionadas com a sexualidade;
- Dinamizar os pais, encarregados de educação, Instituições públicas e privadas e
comunidade em geral no âmbito da educação, saúde e outros, através de acções de
informação, sensibilização e formação:
• Apoiar as famílias no contexto sócio-familiar e relacionamento com a comunidade,
tendo em vista a aceitação e integração;
• Promover reuniões, debates e outras actividades com a participação de todos os
grupos sócio-profissionais.
Esta instituição promove um projecto de redução de risco (projecto equipas de apoio
social directo), um projecto de residências protegidas de estadia prolongada para
pessoas com SIDA, um sistema de transporte de pessoas carenciadas para os locais de
tratamento, o funcionamento de um grupo de ajuda a pessoas com SIDA, o
funcionamento de um Centro de Dia com ateliers ocupacionais e de formação, entre
outros. Disponibiliza também apoio social, psicológico. jurídico, nutricional e
domiciliário.
A área de intervenção do MAPS abrange toda a região algarvia, tendo a sua sede em
Faro, uma Delegação em Portimão, uma Delegação em Olhão, um espaço informativo
na Fuzeta e um Centro de Formação em Quarteira.
Disponibiliza uma linha de atendimento permanente (24h/dia) com o número 917 279
015 que visa informar, esclarecer e encaminhar.
5.2. Campanhas
As campanhas publicitarias relativas ao SIDA surgiram com os primeiros casos
detectados e desde sempre “(…) tiveram um papel fundamental na influência da percepção e
na informação da doença, primeiro por se tratar de uma doença nova e desconhecida para a
ciência e para a sociedade em geral; segundo, por não haver uma vacina que impedisse a
propagação da mesma” (Lopes, s.d., p. 169).
Nestas circunstâncias as campanhas publicitárias constituíram sempre o melhor modo
de impedir a propagação, informando adequadamente o público a respeito das formas
de transmissão do vírus e persuadindo-o para que evitasse certos comportamentos de
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risco. Só em 1993 foi difundida uma primeira campanha destinada aos heterossexuais
adultos e somente em 1999 foi dirigida uma campanha exclusivamente para as
mulheres, advertindo-as para o uso do preservativo. Mais tardiamente surgiram então
as campanhas relativas ao risco de transmissão fetal numa mulher seropositivas para o
VIH (Lopes, s.d.).
5.2.1. Campanhas de Solidariedade
Para Lopes (s.d.) estas campanhas destinam-se a sensibilizar as pessoas para a
estigmatização social a que os portadores de VIH/SIDA são diariamente submetidos.
Visam igualmente chamar à atenção para a necessidade da comunidade ser solidária,
evitando comportamentos que não fazem qualquer sentido: repulsa, afastamento e
rejeição social, entre outros.
As mulheres seropositivas grávidas estão contempladas neste tipo de campanhas pois
também elas sofrem uma descriminação social acentuada mercê do seu estado de
gravidez e do estereotipo negativo que recai sobre elas.
5.2.2. Campanhas Informativas
As campanhas informativas destinam-se ao público em geral. As mensagens informam
sobre o número de grávidas infectadas em Portugal, vias de transmissão da SIDA,
formas positivas e alternativas para evitar a infecção, etc. Como o próprio nome indica,
estas campanhas têm um carácter meramente informativo. Apelam para a importância
de estar bem informado, promovem a saúde como um valor social e referem
consequências da doença para o futuro. (Lopes, s.d.)
5.2.3. Campanhas de Prevenção
As campanhas de prevenção alertam essencialmente para a importância de fazer os
testes de SIDA antes de engravidar e para o uso do preservativo. Usam o medo como
estratégia persuasiva a fim de despoletar a emoção e a reflexão. Vulgarmente este tipo
de campanhas, quando bem estruturadas e devidamente dirigidas, conseguem atingir o
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público, evitando comportamentos de risco (Lopes, s.d.).
5.3. Linha SIDA
Fig. 1 – Publicidade à linha SIDA (in Testemunhos)

A linha SIDA é uma linha telefónica financiada pela CNLCS gratuita, anónima e
confidencial; o número é o 800266666; funciona de segunda-feira a sábado, das 10:00 às
20:00. Caso a ligação se processar fora deste horário surge um gravador com uma
mensagem a informar o horário.
O atendimento das chamadas telefónicas é realizado por profissionais de saúde, que
esclarecem dúvidas relativamente às vias de transmissão do vírus, sintomas do SIDA,
locais de diagnóstico e se necessário apoio emocional.
Nos casos em que se verifique necessidade, é também prestado encaminhamento para
instituições competentes na área que possa resolver a situação apresentada.
A. SITES DISPONIVEIS NA INTERNET
i. Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA
Fig. 2 – Site da Comissão Nacional de Luta contra a SIDA (in Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA;
http://www.sida.pt; 16-10-2004; 23:39)

O site da Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA, disponibiliza informação sobre
prevenção, diagnóstico e tratamento. Fornece informações sobre locais de diagnóstico
do VIH, e outros locais onde os seropositivos podem receber ajuda médica, social, extra-
hospitalar, psicológica e jurídica. Este site oferece ainda um fórum onde poderão ser
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discutidos pontos de vista. Disponibiliza igualmente o seu contacto para eventual
procura e esclarecimento de dúvidas.
5.3.1. Abraço










Fig. 3 – Site da Abraço (in Associação abraço; http: //www.abraço.org; 16-10-2004; 23:45)
O site da Abraço disponibiliza informação sobre a associação e as actividades que
periodicamente são desenvolvidas. Informações sobre o VIH/SIDA estão também
presentes. De referir que a gravidez e o risco de transmissão do VIH são abordados no
site, alertando este, para que as mulheres realizem o teste de detecção do vírus antes de
engravidarem. No site está ainda presente um novo espaço inter-activo de discussão
onde se pode trocar ideias, colocar questões e fazer ouvir a voz sobre temas da
actualidade relacionados com o VIH/SIDA.
5.3.2. AIDS-Portugal










Fig. 4 – Site da AIDS-Portugal (in AidsPortugal; http: //www.AIDSPortugal.com; 16-10-2004; 23:57)

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Este site é talvez um dos mais completos da actualidade. Muito rico a nível informativo
apresenta os inúmeros artigos dos 5 congressos sobre o VIH/SIDA que até hoje se
realizaram. Toda esta problemática está assim compilada neste site sob a forma de
diversos temas que abordam diferentes pontos de vista. O espaço sobre o rastreio e os
recursos disponíveis não poderia faltar e também ele têm aqui lugar marcado
6. CONCLUSÃO
O SIDA representa actualmente uma ameaça global em relação à qual a magnitude do
seu carácter epidémico envolve, para além da infecção, implicações psicológicas e sócias
confrontando a humanidade com um dos mais complexos problemas até hoje
conhecidos, quer a nível científico, quer aos níveis social e cultural. O SIDA constitui, de
resto, um exemplo excelente de como as atitudes, crenças e comportamentos
individuais, bem como o suporte social, estão implicados na saúde e na doença,
materializando-se num desafio sem precedentes,
.Os indivíduos infectados sofrem com os vários aspectos médicos: incurabilidade,
inexistência de vacina, evolução rápida da doença mas é a estigmatização social que
torna mais penosa esta vivência. Afinal para a sociedade o SIDA está associado a
comportamentos de risco, entre os quais toxicodependência, prostituição.
Em especial as mulheres grávidas são confrontadas com pressão social e a ” ditadura do
corpo perfeito” exercidos nas sociedades de hoje. Vivem a exigência de ter um filho
para se constituírem como uma “verdadeira mulher”, mas simultaneamente com a
recusa por parte desta. Aos seus olhos não é correcto sequer tentar, é demasiado
arriscado uma mulher seropositiva tentar ter um filho, é um acto criminoso e
inconsequente.
Medo, ansiedade, tensão, sentimento de perda de controlo, infelicidade, indefesa,
impotência, culpa e depressão, constituem-se como alguns dos sentimentos
experienciados pela mulher grávida portadora do VIH/SIDA,
O enfermeiro, assim como os restantes técnicos de saúde (médicos, psicólogos, etc.)
assumem um papel importante na resposta às necessidades emocionais e de apoio
manifestadas pela mulher grávida, contribuição para a redução de consequências
familiares e sociais da doença, combate a estigmatização das mulheres infectadas,
valorização significativa e eficaz do seu bem-estar psicológico e qualidade de vida e,
ainda, na passagem da mensagem que conduza à construção da solidariedade
necessária para com os que sofrem com a violência do SIDA.
Na prevenção da disseminação do VIH assumem particular importância na educação
acerca dos modos de transmissão. Desenvolvendo acções na comunidade nos cuidados
primários de saúde, contribuem fazendo passar uma mensagem preventiva eficaz, sem
dramatizar nem estigmatizar, veiculadora da solidariedade para os que os sofrem e
estimuladora da preservação do prazer amoroso sem risco.
Na sub-região de Faro estão implementadas algumas instituições que visam a
prevenção e controlo da doença. Prestam o apoio indispensável e urgente para quebrar
a cadeia de transmissão do VIH, respondem às necessidades psicológicas e psicossociais
das mulheres infectadas e, ainda,, procuram modificar as reacções sociais à doença,
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desafios que transcendem largamente as implicações médicas, biológicas e
epidemiológicas do SIDA.
Assim, é reconhecida a necessidade imperiosa de desenvolver esforços mundiais de
prevenção e de mobilização de todos os recursos necessários à resolução de problemas
que afectam as mulheres infectadas, as doentes, as famílias e os técnicos de saúde.
Este foi um trabalho que gostámos particularmente de elaborar pelo seu tema cada vez
mais actual. Também a oportunidade de entrar em contacto com informação que
desconhecíamos revelou-se bastante interessante pois permitiu-nos alargar horizontes.
Ao sermos confrontados com a realidade dos dados pesquisados, ficamos de certo
modo sensibilizados com a relevância que esta doença assume não só no nosso pais
como no mundo inteiro.
Uma das maiores dificuldades que sentimos durante a elaboração do trabalho prendeu-
se com a escassez de documentação direccionada para os aspectos psicológicos
vivenciados pela grávida.
Uma sugestão que consideramos ser importante colocar em prática com alguma
urgência, é uma intervenção mais activa e mais direccionada para às grávidas com
VIH/SIDA, pois os apoios a que estas podem recorrer parecem ainda limitados
principalmente na região do Algarve. A aposta na sensibilização da comunidade para a
importância da compreensão desta temática parece-nos também de vital importância,
pois só assim poder-se-á lutar no sentido de atenuar a descriminação e estigmatização
que tanto afecta aqueles que desta doença sofrem.

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23:57 h.

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