"O ESPAÇO PÚBLICO", 30 ANOS DEPOIS

*

Jürgen Habermas Este texto constitui o prefácio, redigido por Jürgen Habermas em 1990, da 17a edição alemã de "O Espaço Público" (cuja primeira edição data de 1962). Sua publicação foi autorizada pelo autor e sua editora Suhrkamp Verlag. A tradução foi feita por Felipe Chanial, em colaboração com Tobias Straumarn. Nós agradecemos a Werner Ackerman, que de boa vontade releu o conjunto, assim como a Dany Trom e Laurence Allard por seus conselhos.

A questão desta reedição se colocou por ocasião de circunstâncias exteriores. A venda da editora Luchtrhand, que encorajou minhas primeiras obras, tomou necessária a troca de editor. Por mais que eu tentasse, quando relia este livro 30 anos depois, fazer modificações, apagar, reajuntar, mais eu percebia a impossibilidade de tal procedimento: a primeira intervenção obrigaria-me a explicar porque eu não havia remanejado totalmente o conjunto da obra. Isto teria ultrapassado em muito as forças desse autor que, neste meio tempo, dirigiu-se para outras coisas e que não continuou no pico da literatura de pesquisa da qual derivou a obra. Desde o principio de sua elaboração, meu trabalho repousava sobre a síntese de uma fusão, sofridamente dominada, de contribuições provenientes de numerosas disciplinas. Duas razões podem justificar a decisão de publicar uma versão inalterada da 1a edição, hoje em dia esgotada. Por um lado, a demanda constante de um livro que se introduziu em diversos ciclos de estudo como um tipo de manual; de outro, a atualidade das transformações estruturais da esfera pública oferecida aos nossos olhos, pelas “revoluções de reciclagem” na Europa Central e do Leste(1). Em favor da atualidade deste tema –e de um tratamento do mesmo, rico em múltiplas perspectivas– testemunha a recepção recente da obra nos EUA, que, somente no ano passado, foi objeto de uma tradução inglesa (2-3). Eu adoraria aproveitar a ocasião desta reedição para oferecer comentários que deverão menos ultrapassar o afastamento de uma geração, do que clareá-lo. Depois do seu período de elaboração, nos anos 50 e inicio dos anos 60, pesquisas e questões teóricas foram evidentemente modificadas; modificou-se depois do fim do regime de Adenauer o contexto extracientifico do horizonte da experiência contemporânea, a partir do qual as ciências sociais estabelecem sua perspectiva; modificou-se, finalmente, minha própria teoria, no entanto, menos nos seus traços principais que no seu grau de complexidade. Após me submeter à primeira impressão, seguramente superficial, sobre os domínios pertinentes da pesquisa, eu desejaria lembrar das modificações de uma maneira pelo menos ilustrativa – e para estimular as pesquisas ulteriores. Eu seguiria desta forma, a estrutura da obra: eu me demoraria, a principio, sobre a formação histórica e sobre o conceito de esfera pública burguesa ( I a III), depois sobre a transformação da esfera pública sob o duplo aspecto da transformação do Estado do Bem Estar Social e da mutação das estruturas comunicacionais produzidas pelas mídias (V e VI). Eu discutiria em seguida a perspectiva teórica da análise e de suas implicações normativas (IV e VII); Eu me interessaria, neste sentido, pela contribuição que o presente estudo pudesse trazer às questões atuais novamente pertinentes, abordadas pela

teoria da Democracia. É sob este aspecto que a obra foi antes de tudo recebida, menos quando da sua primeira aparição, que no contexto da revolta estudantil e da reação neo-conservadora que ela provocou. Esta questão foi tratada, na ocasião, de maneira polêmica tanto pela esquerda quanto pela direita.

I – A FORMAÇÃO HISTÓRICA E O CONCEITO DE ESFERA PÚBLICA BURGUESA 1 — Como se pode perceber no prefácio da primeira edição, eu me fixei como primeiro objetivo entender o tipo ideal da esfera pública burguesa a partir dos contextos históricos próprios ao desenvolvimento inglês, francês e alemão no sec. XVIII e início do XIX. A elaboração de um conceito inscrito em um período histórico especifico exige sublinhar, estilizando-os, certos traços característicos de uma realidade social muito mais complexa. Como em toda generalização sociológica, a seleção, a pertinência estatística e a avaliação das tendências e dos exemplos históricos constituem um problema que comporta riscos importantes, sobretudo quando não se tem recursos às fontes como o historiador, e que se apoia muito sobre uma literatura de segunda mão. Pelo lado dos historiadores, reprovaram-me e com razão, as "lacunas empíricas". O julgamento amigável de G. Eley me oferece um ligeiro apaziguamento. Ele constata em sua contribuição, detalhada e precisamente documentada, na conferência mencionada: "relendo a obra... é flagrante ver a que ponto, sob uma forma muito sólida e mesmo imaginativa, o argumento é historicamente fundado, dando a dimensão do pouco valor da literatura então disponível". A síntese de H. U. Wehler, que se apoia sobre uma importante literatura, confirma as teses centrais de minha análise. Na Alemanha, se formou "uma esfera pública crítica de discussão de dimensão restrita" (6) até o fim do séc. XVIII. Com um público generalizado de leitores, composto sobretudo por cidadãos burgueses, que ultrapassaram o círculo de eruditos, e que de tanto ler e reler intensivamente somente algumas obras clássicas, adapta doravante seus hábitos de leitura às novas publicações que aparecem forma-se quase que unicamente no seio da esfera privada uma rede relativamente densa de comunicação pública. Ao crescimento súbito do número de leitores corresponde uma produção consideravelmente ampliada de obras, de revistas e jornais, um aumento do número de autores, de editoras e de livrarias, a criação de bibliotecas de empréstimo e de cabines de leitura, sobretudo de sociedades de leitura, como tanto outros pontos de junção social de uma nova cultura da leitura. Desde a publicação da obra , aceita-se também a importância das associações que nascem na época das Luzes tardias alemãs; elas recebem uma significação indicativa do futuro mais através de suas formas de organização do que pelas suas funções manifestas(7). As sociedades das Luzes, os círculos de educação, as sociedades secretas dos franco-maçons e as ordens dos iluminados eram associações que se constituíam por decisões livres, quer dizer, privadas, de seus fundadores e que somente recrutavam seus membros sob a base do voluntariado e praticavam em seu seio formas de comunicação igualitárias, a liberdade de discussão, as decisões majoritárias, etc... Nessas sociedades, que se compunham com certeza, exclusivamente de burgueses, podiam se exercer os princípios de igualdade política de uma sociedade futura (8).

A revolução francesa tornou-se então catalisadora de um movimento de politização de uma esfera pública antes de tudo impregnada de literatura e de crítica da arte. Isto não é verdadeiro somente para a França, mas igualmente para a Alemanha (9). Uma politização da vida social, a emergência da imprensa de opinião, a luta contra a censura e pela liberdade de opinião caracterizam a transformação da função da rede de comunicação pública em plena expansão até meados do séc. XIX (10). A política de censura, pela qual a Confederação dos Estados Alemães se defende contra a institucionalização, retardada até 1848, de uma esfera pública política, não faz senão entusiasmar ainda mais a literatura e a crítica de arte na contracorrente da politização. Peter U. Hohendahl utiliza meu conceito de esfera pública para seguir este processo em detalhes; no entanto, ele já percebia no insucesso da revolução de 1848 uma cisão na mutação estrutural de uma esfera pública pré-liberal que começava a se instaurar (11). G. Eley volta sua atenção para as novas pesquisas sobre história social inglesa que se integra bem no quadro teórico proposto na análise da esfera pública. Na verdade, estas estudam o processo de formação de classes, de urbanização, de mobilização cultural e de emergência de novas estruturas de comunicação pública na linha das "voluntary associations" que se constituem no sec. XVIII (12) e do "popular liberalismo" na Inglaterra do séc. XIX (13). No que concerne às transformações de uma esfera pública inicialmente influenciada pela instrução burguesa e a literatura, exercendo sua razão sobre a cultura, em uma esfera dominada pelas mídias e a cultura de massa, as pesquisas em sociologia da comunicação de R. Williams são particularmente esclarecedoras (14). Eley reitera, e ao mesmo tempo justifica, a objeção segundo a qual minha sistematização da noção de esfera pública burguesa conduziam a uma idealização injustificada e, não somente, a acentuar fortemente as características racionais de uma comunicação pública mediatizada pela leitura e orientada para a discussão. Mesmo se partimos do ponto de vista de uma certa homogeneidade do público burguês que poderia ver no interesse de classe comum – tão fracionado ele estava – o fundamento de um consenso acessível, pelo menos em princípio, para as lutas entre partidos, é errôneo empregar o termo público no singular. Abstração feita por diferenciações internas ao público burguês que podem ser operadas no seio mesmo do meu modelo modificando os centros de observação, se levarmos em consideração desde o início uma pluralidade de esferas públicas concorrentes e se, além disso, levarmos em conta a dinâmica do processo de comunicação que são exclusivos da esfera pública dominante, toda uma outra imagem se forma. 2 — Pode-se falar em exclusão no sentido de Foucault, uma vez que se trata de grupos cujo papel é constitutivo na formação de uma esfera pública específica. Exclusão recebe um sentido diferente, menos radical, quando várias arenas se formam ao mesmo tempo no seio das mesmas estruturas de comunicação, nas quais, ao lado da esfera pública burguesa hegemônica, se apresentam outras esferas públicas subculturais ou particulares às classes, sob premissas próprias e que não são imediatamente suscetíveis de compromisso. Eu não considerei em minha obra o primeiro caso e ainda que eu tenha mencionado o segundo em meu prefácio, eu não o tratei. Em referência à fase jacobina da Revolução Francesa e do movimento cartista, eu falei de um esboço de esfera pública plebéia, e acreditei poder negligenciar esta variante da esfera pública que foi reprimida no curso do processo histórico. Mas, no decorrer da obra de E. P. Thompson "A Formação da Classe Operária Inglesa" (15),

que soube traçar novas pistas, apareceu um conjunto de pesquisas sobre os jacobinos franceses e ingleses, sobre Robert Owen, sobre a praxis dos primeiros socialistas, sobre os cartistas, mas igualmente sobre o populismo de esquerda na França no início do séc. XIX que substituíram, em uma outra perspectiva, a análise da mobilização política das classes inferiores rurais e da população operária urbana. No quadro de uma confrontação direta com meu conceito de esfera pública, Günther Lottes analisou a teoria e a prática do radicalismo inglês no fim do XVIII através do exemplo dos jacobinos londrinos. Ele mostra como, a partir da cultura popular tradicional, se desenvolveu, sob a influência dos intelectuais radicais e sob as condições da comunicação moderna, uma nova cultura política com suas próprias formas de organização e suas próprias práticas: "A afirmação de uma esfera pública plebéia marca, então, uma fase específica no desenvolvimento histórico de um modo de vida comum às classes pequeno-burguesa e populares. De um lado, trata-se de uma variante da esfera pública burguesa uma vez que ela se orienta de acordo com este modelo. De outro, ela avança para além disso, uma vez que alarga o potencial emancipador da esfera pública burguesa em um novo contexto social. A esfera pública plebéia é, por assim dizer, uma esfera pública burguesa cujas pressuposições sociais foram suspensas". (16) A exclusão das classes inferiores, mobilizadas culturalmente e politicamente, provoca uma pluralização da esfera pública em sua fase de formação. Ao lado da esfera pública hegemônica e, entrelaçada a ela, uma esfera pública plebéia se forma. A exclusão do povo se opera de uma outra maneira nas formas tradicionais da esfera pública representativa. Aí o povo se forma no bastidor diante do qual os detentores do poder, os nobres , os dignatários eclesiásticos, os monarcas, etc..., se dão em representação, eles mesmos e seus status. Por sua exclusão do poder representativo, o povo é desta maneira inscrito nas condições mesmas de constituição desta esfera pública representativa. Eu penso como antes que esse tipo de esfera pública (somente esboçado no cap. 2) constitui o segundo plano histórico das formas modernas da comunicação pública. Essa distinção poderia ter evitado a R. Sennet de orientar seu diagnóstico sobre o declínio da esfera pública para um modelo errôneo. Na verdade, Sennet transpõe os traços da esfera pública representativa para a esfera pública burguesa clássica; ele desconhece a dialética especificamente burguesa da interioridade e da publicidade que se impôs, sob uma forma literária , com o domínio privado, correlativo de um público, característico da esfera íntima burguesa no séc. XVII. É porque ele não distingue suficientemente os dois tipos de esfera pública, que ele acredita poder sustentar o diagnóstico do fim da "cultura pública", referindo-se ao declínio da forma dos jogos de papéis estéticos próprios a uma apresentação de si distanciada, impessoal e cerimonial. Mas a entrada em cena sob máscaras, que subtrai aos olhares os sentimentos privados, a subjetividade em geral, pertence ao quadro altamente estilizado de uma esfera pública representativa cujas convenções se quebram já no sec. XVIII, quando pessoas privadas se constituem em público, tornando-se os portadores de um nova forma de esfera pública (17). Foi a grande obra de M. Bakthine, "Rabelais e seu mundo", que me abriu os olhos sobre a dinâmica interna de uma cultura popular. Esta não constitui evidentemente, mais um simples bastidor, portanto um meio passivo para uma cultura dominante, mas muito mais a revolta periodicamente recorrente, sob uma forma violenta ou moderada, de um contra-projeto face ao mundo hierárquico do poder, de suas cerimônias e sua disciplina

cotidiana (18). Esta visão simultânea permite justamente perceber como um mecanismo de exclusão, que rechaça e reprime, provoca ao mesmo tempo efeitos contrários que não podemos neutralizar. Quando direcionamos o mesmo olhar sobre a esfera pública burguesa, a exclusão das mulheres deste mundo dominado pelos homens se apresenta de uma maneira diferente daquela que eu havia percebido antes.

3 — O caracter patriarcal da família restrita que formou por sua vez o núcleo da esfera privada da sociedade burguesa e o lugar de formação das novas experiências psicológicas de uma subjetividade centrada sobre ela mesma, não deixa dúvida. Desde então, a literatura feminista emergente agudizou nossa percepção do caráter patriarcal da própria esfera pública – de uma esfera pública que emergiu deste público de leitores, que as mulheres ajudaram a forjar, logo o ultrapassando para responsabilizar-se por funções políticas (19). Pode-se assim se colocar a questão de saber se as mulheres foram excluídas da esfera pública da mesma maneira que os operários, os camponeses e o ~' baixo povo", enfim, os "homens dependentes". A participação ativa e igual na formação da opinião e da vontade política eram recusadas a essas duas categorias. Dessa forma, nas condições de uma sociedade de classes, a democracia burguesa entrou desde o início em contradição com as premissas essenciais de sua própria compreensão dela mesma. Esta dialética se deixava então dominar nos termos da crítica marxista do poder e da ideologia. Nesta perspectiva eu analisei como a relação entre esfera pública e esfera privada se modificou com a extensão de direitos democráticos de participação, e a compensação oferecida pelo Estado Social pelos prejuízos sofridos por cada classe. No entanto, esta transformação estrutural da esfera pública política operou-se sem tocar na característica de uma sociedade marcada, em seu conjunto, pelo patriarcado. Certamente, a emancipação cívica, finalmente adquirida no do sec. XX , abriu às mulheres, até às desfavorecidas, a possibilidade de obter a duras penas, uma melhora de seu estatuto social. Mas, para as mulheres que desejassem se beneficiar, mais do que da sua emancipação política, de melhorias da parte do Estado Social, sua situação desfavorecida sustentada pela marca de uma diferença sexual, não mudou – literalmente. O movimento de emancipação que, nesse meio tempo, se expandiu de maneira vigorosa e pelo qual luta o feminismo há dois séculos, se inscreve como a emancipação social de trabalhadores assalariados, na perspectiva de universalização dos direitos civis. No entanto, diferentemente da institucionalização do conflito de classes as modificações da relação entre os sexos não intervêm somente no sistema econômico, mas também no núcleo privado da esfera íntima da família restrita. Desta forma se revela claramente o fato de a exclusão das mulheres ter sido um elemento constitutivo da esfera pública política, no sentido de que esta não estava somente dominada pelos homens de maneira contigente, mas determinada, na sua estrutura e sua relação com a esfera privada, segundo um critério sexual. De maneira distinta da exclusão dos homens desfavorecidos, a exclusão das mulheres representa um papel constitutivo na formação das estruturas da esfera pública. Carol Pateman ilustra esta tese em um artigo marcante, publicado em primeiro lugar em 1983. Ela desconstrói as justificativas do Estado de Direito Democrático saídos da teoria do contrato para demonstrar que o direito racional critica somente o exercício paternalista do poder a fim de modernizar o patriarcado sob a forma de um

poder fraternal: " O patriarcado tem duas dimensões: a fraternal (pai/filho) e a masculina (marido/mulher). Os teóricos políticos podem analisar o começo desta batalha teórica como uma vitória da teoria do contrato porque eles permanecem silenciosos sobre o aspecto sexual e conjugal do regime patriarcal, que parece não político ou natural"(20) . C. Pateman permanece cética diante da consideração de uma integração igualitária no direito das mulheres na esfera pública política que até hoje ficou, em suas estruturas, atada às características patriarcais de uma esfera privada subtraída à tematização pública: "Agora que a luta feminista atingiu seu estado no qual as mulheres beneficiam-se quase de uma igualdade civil formal, se impõe a oposição entre igualdade formada a partir de uma imagem masculina e a verdadeira posição social das mulheres enquanto mulheres. Seguramente, esta análise incontestável não desmente os direitos à integração e à igualdade ilimitada incorporadas na compreensão que a esfera pública liberal tem dela mesma – ao contrário ela os exige. Foucault compreende as regras de formação dos discursos de poder como mecanismos de exclusão que constituem a cada vez seu outro. Em tais casos não pode haver aí comunicação entre o de fora e o de dentro. Não existe linguagem comum entre os que possuem o discurso e os que o contestam. Pode-se desta maneira compreender a relação d~ esfera pública representativa do poder tradicional com a contracultura rechaçada do povo: o povo devia se manifestar e se exprimir em um outra cultura. Por esta razão , a cultura e a contracultura eram aqui, todas duas, absolutamente ligadas uma à outra de maneira que uma obscureceu a outra. Contrariamente, a esfera pública burguesa se articula sobre discursos aos quais não somente o movimento operário, mas também seu outro excluído – o movimento feminista – poderia aderir para transformá-lo do interior – mas também para transformar as estruturas da própria esfera pública. Os discursos universalistas da esfera pública burguesa eram situados, desde a origem, sob premissas auto-referenciais; eles não podiam ficar imunizados contra uma crítica interna uma vez que eles se distinguem dos tipos de discursos de Foucault pelo seu potencial de autotransformação. 4 — As duas lacunas lembradas por G. Eley têm conseqüências sobre a versão ideal-típica do modelo de esfera pública burguesa. Se a esfera pública moderna compreende uma pluralidade de espaços para conflitos de opinião mediatizados pelos produtos da imprensa, (mas também pela educação, a informação e o divertimento, mais ou menos regrados discursivamente, espaços nos quais não somente vários partidos, compostos de pessoas privadas debilmente associados, concorrem uns com os outros , mas nos quais um público burguês dominante reencontra desde a origem um público plebeu) e se no mais, considerarmos seriamente a dinâmica feminista do outro excluído, então o modelo da institucionalização contraditória da esfera pública no Estado de Direito (desenvolvido no cap.1l) é colocado de maneira muito rígida. As tensões que explodem, no seio da esfera pública liberal devem sobressair mais claramente como potenciais de auto transformação. O contraste entre a primeira forma da esfera pública política até meados do sec. XIX e aquelas de democracia de massa do Estado Social pode então desta maneira atenuar esta oposição entre um passado valorizado de maneira idealista e um presente deformado pela crítica da cultura. Esta clivagem normativa implícita desconcertou numerosos críticos. Isto não resulta somente de uma perspectiva de crítica da ideologia, sobre a qual eu voltaria enquanto tal, mas da omissão dos aspectos que eu mencionei, e cuja importância eu subestimei. Certamente, uma avaliação errônea não altera as grandes linhas do processo de transformação que eu descrevi.

II – AS TRANSFORMAÇÕES ESTRUTURAIS DA ESFERA PÚBLICA: 3 REVISÕES

As mutações estruturais da esfera pública se inscrevem no processo de transformação do Estado e da economia. Eu conceituei, nesta época, este processo num quadro teórico esboçado na filosofa do direito de Hegel, depois aprimorado pelo jovem Marx, e do qual Lorenz von Stein, na tradição do direito público alemão, fixou a forma específica. Esta construção constitucional da relação entre uma pulsão pública garantindo as liberdades a uma sociedade, como esfera de trocas econômicas, organizada segundo o direito privado é devedora, de uma parte, à teoria liberal dos direitos fundamentais do período de Vormarz (anterior à revolução de 1848), que, com uma intenção claramente política, sustentou uma separação regicida entre direito público e direito privado; e, de outra parte, às conseqüências do fracasso da dupla revolução alemã de 1848/49" (Wehler), quer dizer, ao desenvolvimento de um estado constitucional sem democracia. E. W. Böckenförde sublinhou este atraso especificamente alemão na formação progressiva da igualdade cívica da seguinte maneira: "Com a aparição e a consolidação da confrontação entre o Estado e a Sociedade, coloca-se o problema da parte à qual pode – pretender a sociedade no poder de decisão do Estado e seu exercício... O Estado situava os indivíduos e a sociedade sob o regime da liberdade civil e aí os mantinha graças à criação e à garantia de uma nova ordem judicial geral, mas os indivíduos e a sociedade não recebiam nenhuma liberdade política, quer dizer, nenhuma parte do poder de decisão política monopolizada pelo Estado, nem nenhuma possibilidade institucional de influenciar de maneira ativa. O Estado como organização da dominação repousava por assim dizer nele mesmo, quer dizer, sociologicamente trazido pela realeza, pela burocracia e o exército, em parte também pela nobreza, enquanto tal, ele estava separado, sobre o plano organizacional e institucional, da sociedade representada pela burguesia" (21). Este segundo plano histórico forma igualmente o contexto do interesse particular levado a uma esfera pública que somente adquire uma função política efetiva a partir do momento onde ela transforma os burgueses, como agentes econômicos, em cidadãos, a fim de que eles acordem seus interesses respectivos, quer dizer, os generalizem e os façam valer eficazmente diante do poder, de tal maneira que o poder do Estado se transforme em meio de auto-organização da sociedade. E o que o jovem Marx queria dizer com esta idéia de um retrato do Estado em um sociedade tornada política nela mesma. A idéia de uma ~ canalizada pela comunicação pública entre os membros livremente associados da sociedade, exige (em um primeiro sentido) que seja ultrapassada esta divisão entre Estado e Sociedade esboçada por Böckenförde. A esta divisão construída na perspectiva do direito público, se liga uma outra significação mais geral, a saber, a diferenciação de uma economia regulada pelo mercado a partir dos ordenamentos pré-modernos do poder político que acompanhou, desde do início dos tempos modernos, a imposição gradual do modo de produção capitalista e a formação das burocracias estatais modernas. Na visão retrospectiva do liberalismo, esses desenvolvimentos encontram seu termo na autonomia de uma sociedade civil no sentido de Hegel e Marx, quer

dizer, na auto regulação do mercado de uma esfera das trocas econômicas organizada pelo direito privado e garantido pelo Estado constitucional. Este modelo de diferenciação progressiva do Estado e da Sociedade como esfera de trocas econômicas que não constitui mais uma reação aos desenvolvimentos específicos próprios aos Estados alemães do sec. XIX, mas sobretudo uma reprodução do modelo de desenvolvimento inglês, me ofereceu a possibilidade de analisar, por contraste, a reversão da tendência que se opera no fim do sec. XIX. Na verdade, esta interpenetração do Estado e da economia priva o modelo social do direito privado burguês e a compreensão liberal dos direitos do homem de seu fundamento (22). Eu conceituei a passagem efetiva da diferenciação tendencial entre o Estado e a sociedade sob um ângulo jurídico, como uma "socialização neocorporativista do Estado" de uma parte, e como uma "estatização da sociedade" de outra parte, que se opera em seguida às políticas intervencionistas de um Estado doravante ativo. No entanto, tudo isso foi analisado de maneira bastante precisa. Aqui, não se trata simplesmente de lembrar a perspectiva teórica que se forma quando se reconsidera o sentido normativo da auto-organização de uma sociedade na qual está ultrapassada a diferenciação entre Estado e Sociedade como esfera de trocas econômicas, em nome de uma conceituação radical da democracia, apoiando-se sobre a constatação de uma interpenetraçâo funcional efetiva dos dois. sistemas. Eu me deixei guiar pelo ponto de vista de um potencial de auto organização social inscrito na esfera pública política e eu me interessava pelas repercussões que estes processo complexos, conduzindo ao Estado social e ao capitalismo organizado, haviam produzido nas sociedades ocidentais no que concerne:     à esfera privada e às base sociais da autonomia privada(2), à estrutura da esfera pública, assim como da composição e do comportamento do público (3), e enfim, o processo de legitimação da democracia de massa ela mesma(4).

Sob estes três aspectos, fragilidade em minha análise se manifestam nos capítulos V a VII. 2 — Nas concepções modernas do direito natural, mas também nas teorias sociais da filosofia moral escocesa, a sociedade civil (civil society) sempre se opôs a um domínio público ou a um governo( government) enquanto esfera estritamente privada(23). Segundo a compreensão da sociedade civil própria do início da modernidade, como um sociedade estratificada em diferentes profissões, a esfera das trocas e do trabalho social, como também o foyer, desincumbido de suas funções produtivas, e a família poderiam ser adjudicados, indistintamente, à esfera privada da sociedade civil. Todos dois estavam estruturados de maneira paralela; a posição e a margem de liberdade dos proprietários privados no processo de produção constituíam a base de uma autonomia privada que tinha sua pendência quase psicológica na esfera intima da família restrita. Uma relação estrutural tão estreita não existiu nunca para as classes economicamente dependentes. Mas é somente no início da emancipação social dos nichos inferiores e de uma politização de massa das contradições de classe no século XIX, que esta estruturação invertida dos dois domínios, a esfera íntima da família e a esfera do trabalho, foi levada igualmente à consciência no mundo vivido dos nichos sociais burgueses. O que foi compreendido mais tarde como uma tendência de conduzir à sociedade de organização,

como autonomização do nível organizacional frente aos entrelaces das interações cotidianas, eu descrevi, no parágrafo 17, como uma "polarização progressiva da esfera social e da esfera íntima". O domínio da vida privada, caracterizado pela família, as relações de vizinhança, a sociabilidade, em geral por formas de relação informais, simplesmente não se diferencia; ao mesmo tempo, ele se modifica de modo específico por diferentes nichos sociais sob a influência das tendências de longo prazo que constituem a urbanização, a burocratização, a concentração industrial, e enfim, a transformação do consumo de massa ligado ao desenvolvimento do tempo livre. Mas não são os aspectos empíricos desta reestruturação dos modos de experiências e seus necessários complementos que me interessam aqui, mas o ponto de vista teórico sob o qual eu apresentei naquele tempo, a mudança do estatuto da esfera privada. Após a universalização da igualdade de direitos cívicos, a autonomia privada das massas não podia mais, como a dessas pessoas privadas que se mantinham unidas ao público de cidadãos nas associações da esfera pública burguesa, encontrar sua base social na detenção da propriedade privada. É verdade que se o potencial de autoorganização social virtualmente contido numa esfera pública extensa houvesse sido liberado, as massas mobilizadas no plano cultural e político teriam devido aí reivindicar de fato seus direitos de comunicação e de participação. Mas, mesmo sob condições de comunicação ideais, é somente na medida em que as massas economicamente desfavorecidas podiam adquirir um equivalente da autonomia social proporcionada pela propriedade privada, que se teria podido esperar deles uma contribuição à formação espontânea de opiniões e de vontades. Sem dúvida, as massas desfavorecidas não podiam mais tomar em suas mãos as condições sociais de sua existência privada por sua participação nas trocas, reguladas pelo direito privado, das mercadorias e dos capitais. A consolidação de sua autonomia privada dependia de garantias estatutárias oferecidas pelo EstadoSocial. Mas essa autonomia privada derivada não teria podido constituir o equivalente da autonomia privada original fundada sobre a propriedade privada, a não ser na medida em que os cidadãos, enquanto clientes do Estado-Social, haviam se beneficiado de suas garantias estatutárias como garantias que eles próprios teriam acordado enquanto cidadãos de um Estado democrático. Ora, isto não parecia então possível senão com a condição de que o controle democrático pudesse se estender ao processo econômico no seu conjunto. Esta reflexão se inscrevia no contexto de uma larga controvérsia nos anos 1950 a respeito do direito público cujos protagonistas eram Ernst Porsthoff e Wolfang Abendroth. Do ponto de vista da dogmatização jurídica, esta controvérsia concernia à incorporação do princípio do Estado-Social na arquitetura tradicional do Estado constitucional (24). Ao mesmo tempo que a escola de Carl Schmitt (25) considerava que era preciso preservar a estrutura do Estado constitucional afirmando a primazia incondicional da proteção de direitos e liberdades clássicas contra as pretensões do Estado-Social, Abrendoth compreendia o principio do Estado ao mesmo tempo como um máximo de explicação prioritária para a interpretação da constituição e como um máximo de ação para o legislador. Este pensamento do Estado-Social deveria servir de alavanca para um reformismo democrático radical que deixava pelo menos aberta a perspectiva de uma transição para um socialismo democrático. A constituição da República Federal da Alemanha, como o pensava Abendroth, visa, assim, "a estender o conteúdo da concepção da democracia desenvolvida pelo Estado constitucional, isto é, em primeiro

lugar, a estender, no espírito de uma autodeterminação, o princípio de igualdade e a articulação desse princípio à idéia de participação na ordem econômica e social" (O Espaço Público, Payot, 4978: 236, tradução modificada, citada logo após E.P.). Nesta perspectiva, a esfera pública se reduziu, é verdade, à ante-sala de um legislador que se estima, de um ponto de vista tanto teórico quanto jurídico, capaz de saber, em primeira mão, de qual maneira o Estado democrático deve preencher sua vocação consistente em "determinar o conteúdo da ordem social" pela "intervenção do Estado neste regime de propriedade... que permite ao poder dispor, a título privado, de importantes meios de produção e assim exercer uma dominação sobre posições de pode r econômicas ou sociais que não é legitimada democraticamente"(26). Tanto a obstinação da dogmática liberal do Estado constitucional levava em conta as modificações das condições sociais, como o projeto fascinante de Abendroth revelava do mesmo modo as fragilidades do pensamento hegeliano-marxista no seu conceito de totalidade. Se eu nesse meio tempo tomei distância frente a essa concepção, isto não poderia me conduzir a recolocar em causa minha dívida intelectual e pessoal a respeito de Wolfang Abendroth, tal como ela era exprimida na dedicatória. Eu devo simplesmente \ constatar que uma sociedade diferenciada funcionalmente escapa aos conceitos sociais holistas. A falência do socialismo de Estado que nós observamos hoje confirmou de novo que um sistema econômico moderno regulado pelo mercado não pode ser à vontade transferido do polo do dinheiro ao do poder administrativo e da formação democrática da vontade sem que sua eficácia seja posta em perigo. Além disso, as experiências de um Estado social levado ao seu limite nos tornaram sensíveis aos fenômenos de burocratização e de juridicização. Esses efeitos patológicos se apresentam como conseqüências de intervenção do Estado nas esferas de ação estruturadas de tal maneira que eles se opõem ao modo de regulamentação jurídico-admínistrativa (27). 3 — O tema central da segunda metade da obra é consagrado às transformações estruturais da própria esfera pública, ao fato da interpenetração do Estado e da sociedade. A infra-estrutura da esfera pública se transformou com as formas de organização, de distribuição e de consumo de uma produção de livros que cresceu, se profissionalizou e se adaptou às novas categorias de leitores e pela publicação de jornais e revistas que mudaram igualmente em seus conteúdos. Ela de novo se transformou com o desenvolvimento dos meios eletrônicos de massa, com a importância recente da publicidade, a assimilação crescente da informação, a centralização reforçada em todos os domínios, o declínio da vida associativa liberal, dos espaços públicos locais, etc... Estas tendências foram compreendidas corretamente, mesmo que tenha havido nesse meio tempo, pesquisas mais detalhadas (28). Com a comercialização e a condensação da rede comunicacional, o crescimento dos investimentos e do grau de organização das instituições mediáticas, as vias de comunicação foram mais fortemente canalizadas e as chances de acesso à comunicação pública foram submetidas a constrangimentos de seleção sempre mais poderosos. Disso resultou uma nova categoria de influência, o poder mediático, que, utilizado de maneira manipuladora, roubou a inocência do princípio de publicidade. O espaço público, que é ao mesmo tempo pré-estruturado e dominado pelos média de massa, tornou-se uma verdadeira arena vassalizada pelo poder, no seio da qual se luta por temas, por contribuições, não somente para a influência mas também para um controle (tão dissimulado quanto possível) dos fluxos de comunicação eficazes.

É verdade que uma descrição e uma análise realista desse espaço público vassalizado pelo poder interdita a introdução de julgamentos de valor incontrolados; mas ela deve se operar não mais ao preço de uma redução de diferenças empíricas importantes. E por essa razão que eu distingui entre, de uma parte, as funções críticas dos processos comunicacionais auto regulados, sustentados por instituições lassas, interdependentes

horizontalmente, de natureza mais inclusiva e de forma mais ou menos discursiva; e de outra parte, aquelas funções de influência sobre as decisões dos consumidores, dos eleitores e dos clientes das administrações, saídos de organizações que intervêm em um espaço público dominado pelas média de massa a fim de mobilizar o poder de compra, a lealdade ou a boa conduta. Esses mecanismos de extorsão exercidos sobre um espaço público percebido como simples ambiente de sistemas particulares encontra uma comunicação pública que se regenera espontaneamente às custas do mundo vivido (29). É o que significava a tese segundo a qual "a esfera pública não pode se constituir no quadro do estado social a não ser obedecendo a um processo de autocriação: é somente passo a passo que ela se restabelecerá, e em concorrência obrigatória com aquela outra tendência que, no seio de um espaço público desmesuradamente alargado e retornando contra si próprio o princípio de publicidade, procura desmobilizar seu potencial crítico" (EP:242). Mesmo que eu mantenha em suas linhas gerais a descrição das transformações da infra-estrutura de um espaço público vassalizado pelo poder, algumas revisões devem ser trazidas à minha análise e sobretudo à minha avaliação da mudança de comportamento do público. Retrospectivamente, eu vejo muitas razões para isso. A sociologia eleitoral estava, ainda, na Alemanha, apenas em seu começo. Nesta época, eu confrontei minhas primeiras experiências pessoais com as primeiras campanhas eleitorais conduzidas à base de sondagens, segundo estratégias de marketing. A população da RDA acaba sem dúvida de conhecer experiências desagradáveis semelhantes à campanha eleitoral dos partidos políticos do oeste que invadiram seu território. Da mesma forma, a televisão tinha apenas tomado pé na República Federal. Eu aprendi a conhecê-la pela primeira vez apenas vários anos mais tarde nos Estados Unidos. Eu não podia então confrontar minhas leituras a experiências de primeira mão. Além disso, não é difícil de reconhecer a forte influência exercida pela teoria de massa de Adorno. Ademais, os resultados deprimentes de minha pesquisas empíricas sobre "os estudantes e a política"(30), que acabavam de ser concluídos naquele momento, poderiam constituir uma razão suplementar para subestimar a influência do desenvolvimento da formação escolar, primária e sobretudo secundária, sobre a mobilização cultural e o desenvolvimento da crítica. A bem dizer, na República Federal, o processo que Parsons nomeou mais tarde a "revolução da educação" não tinha ainda se colocado em marcha. Finalmente, é surpreendente que falte a tudo isso uma dimensão, aquela que nesse meio tempo reteve a atenção sobre o termo "cultura cívica". Ainda em 1963, G. A. Almond e S. Verba não quiseram apreender a cultura cívica, a não ser se apoiando sobre um número limitado de variáveis de atitudes (31). Mesmo as pesquisas mais amplas sobre a transformação de valores, que inspiravam as análises de Ronald lnglehart em A revolução silenciosa (Princeton, 1977), não se estendiam ainda em toda sua amplitude às mentalidades políticas, ligadas a evidências culturais, nas quais o potencial de reação de um público de massa está enraizado historicamente (32). Numa palavra, meu diagnóstico de uma evolução linear de um público politicamente ativo a um público "privatista", de uma "racionalização da cultura a um consumo da cultura", é muito reducionista. Eu avaliei de

maneira muito pessimista a capacidade de resistência, e sobretudo o potencial crítico de um público de massa pluralista e largamente diferenciado, que transborda as fronteiras de classe em seus hábitos culturais. A partir do fato da permeabilidade crescente de fronteiras entre cultura ordinária e alta cultura, e da nova intimidade entre política e cultura", ela própria ambivalente e não assimilando a informação simplesmente para distração, os próprios critérios de julgamento mudaram. Eu não saberia dar referências sobre a literatura, muito abundante, consagrada à sociologia do comportamento político, pois eu a segui apenas esporadicamente (33). A pesquisa sobre as médias, e sobretudo as análises da sociologia da comunicação sobre os efeitos sociais da televisão são também importantes para o estudo das transformações estruturais do espaço público (34). À época, eu estava sob a influência das conclusões da tradição da pesquisa fundada por Lazarsfeld (35), tradição que era criticada violentamente nos anos 70, em razão da sua concepção individualista e behaviorista, reduzida à psicologia dos pequenos grupos (36). No outro campo, a abordagem crítica se desenvolveu numa perspectiva mais fortemente empírica (37) e a pesquisa em comunicação transportou sua atenção, de um lado, sobre o contexto institucional das médias (38), e de outro lado, sobre o contexto cultural da recepção (39). A distinção de S. Hall entre três diferentes estratégias de interpretação de receptores, seja se submetendo à sua estrutura de oferta, seja lhe opondo suas próprias interpretações, seja articulando uma à outra, ilustra bem a mudança de perspectiva em relação aos modelos mais antigos de explicação, que se baseavam ainda sobre um encadeamento linear de efeitos. 4 — No último capítulo do livro, eu havia tentado reunir os dois aspectos: o diagnóstico empírico do declínio da esfera pública liberal e o ponto de vista normativo de uma reciclagem democrática radical e de uma reconversão da interpenetração funcional do Estado e da sociedade, que se desenrola objetivamente quase abaixo das cabeças dos participantes. Estes dois aspectos se refletem respectivamente nas conceituações opostas de opinião pública. Na teoria normativa da democracia, a opinião pública, como ficção do Estado constitucional, conserva seu aspecto de unicidade na sua dimensão contrafactual. Pelo contrário, nas análises empíricas da pesquisa sobre as médias e da sociologia da comunicação, esta entidade se dissolveu desde muito tempo. Mas se se quer compreender o modo de legitimação efetivamente estabelecido nas democracias de massa do Estado Social, é preciso ter em conta esses dois aspectos sem sacrificar a distinção entre processos de comunicação pública autônomos e aqueles que são vassalizados pelo poder. É nessa perspectiva que se explica o modelo, provisoriamente esboçado no fim do livro, de uma arena dominada pelos mass- média, na qual se chocam tendências contraditórias. O nível de vassalização do poder devia se medir em função do grau segundo o qual as opiniões informais, não públicas (e, pois, essas evidências culturais, que constituem o contexto do mundo vivido e o fundamento da comunicação pública), são curtocircuitadas pelo fluxo de opiniões formais, quase públicas, produzidas para as mass-medias, sobre as quais a economia e o Estado tendem a agir como sobre elementos do ambiente do sistema, ou melhor, na medida em que esses dois domínios são mediatizados por uma publicidade crítica. Eu considerava então que essa publicidade crítica não podia ser levada senão pelos partidos e pelas associações democratizadas do interior. Os espaços públicos constituídos no seio dos partidos e das associações me pareciam representar o ponto de junção virtual para uma

comunicação pública ainda suscetível de ser regenerada. Esta conseqüência resultava da passagem a uma sociedade de organização, na qual não são mais os indivíduos livremente associados, mas os membros de grupos coletivos organizados no seio de um espaço público policêntrico que entram em concorrência para obtenção do consentimento de massas passivas, que lutam tanto entre si como sobretudo contra o complexo massivo das burocracias estatais com vistas a estabelecer compromissos de interesses e de poder. É sob premissas semelhantes que Norberto Bobbio, nos anos 80, concebeu sua teoria da democracia. Bem entendido, nesse modelo, se reflete esse pluralismo de interesses irreconciliáveis que já tinha sido objeto da objeção dos teóricos liberais contra a tirania da maioria. Tocqueville e J. St. Mill talvez não tivessem culpa inteiramente quando eles acreditavam reconhecer nessa noção primeira do liberalismo uma formação discursiva da opinião e da vontade, nada mais que poder disfarçado da maioria. De um ponto de vista normativo, a opinião pública era tolerada, por eles, quando muito, como uma instância de limitação do poder, mas de nenhuma maneira como um meio de uma racionalização possível do poder em geral. Se se verificava efetivamente "que um antagonismo de interesses, se ele permanece fundamentalmente irredutível,... impõe limites estreitos a uma esfera pública cuja função crítica se transformou" (EP: 243), não era, de forma nenhuma, suficiente levar em conta simplesmente, como eu o fiz no parágrafo 15, o caráter ambivalente da concepção liberal da esfera pública.

III – UM QUADRO TEÓRICO MODIFICADO Eu conservo, agora como antes, a intenção que guiou o conjunto da pesquisa. As democracias de massa do Estado Social não podem ser apreendidas, segundo uma compreensão normativa delas mesmas, numa continuidade com os princípios do Estado constitucional liberal tanto tempo quanto elas levem a sério as exigências de um espaço público exercendo uma função política. Mas, neste caso, é preciso demonstrar como é possível, em sociedades como as nossas, que " o público, através dessas organizações que o vassalizam, deflagre um processo crítico de comunicação pública". (E.P.: 241). Foi só no fim da obra que me confrontei com esse problema, que eu apenas fiz aflorar, é verdade, sem o tratar de forma satisfatória. A contribuição de O Espaço Público a uma teoria contemporânea da democracia deve ter parecido ambígua, "se a multiplicidade não reduzida de interesses em conflito... faz realmente duvidar que dela pudesse algum dia surgir o interesse geral ao qual a opinião pública poderia se referir como um critério" (EP.: 243). Com os instrumentos teóricos que estavam então à minha disposição, eu não podia resolver o problema. A constituição do quadro teórico no qual eu posso hoje reformular a questão e ao menos esboçar uma resposta, necessita de avanços suplementares. Eu gostaria de lembrar brevemente as etapas desse percurso. 1. Uma primeira impressão pode fazer crer que O Espaço Público foi escrito num estilo de história social descritiva, na perspectiva de Max Weber; mas a dialética da esfera pública burguesa, que determina a estrutura da obra, trai imediatamente uma perspectiva própria à crítica das ideologias. Os ideais do humanismo burguês – que marcam como a esfera íntima e a esfera pública estão compreendidas nelas mesmas e se articulam com os conceitos chave de subjetividade, de realização de si, de formação racional da vontade e de opinião assim como

de autodeterminação individual e política – impregnaram de tal maneira as instituições do estado constitucional que eles foram remetidos para além da realidade constitucional que os contradizem, ao mesmo tempo, como potencial utópico. A dinâmica do desenvolvimento histórico deveria igualmente se nutrir dessa tensão entre idéia e Realidade. Essa forma de pensamento não conduziu, no entanto, somente de maneira enganosa, a uma idealização da esfera pública burguesa, que ultrapassa o senso metodológico de idealização inscrito na formação idealtípica desses termos; ela se apoia, ao menos implicitamente, sobre pressuposições fundamentais da filosofia da história que foram desmentidas pelas barbáries civilizadas do século XX. Quando os ideais burgueses são suprimidos, quando a consciência se torna cínica, essas normas e essas orientações normativas, sobre as quais a crítica ideológica deve supor a concordância, se se quer a elas fazer referência, desabam (41). Por esta razão, eu propus colocar os fundamentos normativos de uma teoria crítica da sociedade a um nível mais profundo (42). A teoria do agir comunicativo deve soltar um potencial de racionalidade inscrito na própria prática comunicativa cotidiana. De certa maneira, esta teoria aplaina o terreno para uma ciência social que procede de maneira reconstrutiva, identificando processos gerais de racionalização cultural e social e refletindo sobre os que se desdobram do lado de cá das sociedades modernas. Assim, não se trata mais de pesquisar potenciais normativos exclusivamente na formação da esfera pública que se manifesta no quadro de uma época específica. O constrangimento de estilização dos traços típicos específicos de uma racionalidade comunicacional encarnada nas instituições é descartada em proveito de uma preocupação empírica que dilui a tensão instaurada no contraste abstrato entre norma e realidade. Além disso, de uma maneira distinta das suposições clássicas do materialismo histórico, a significação estrutural especifica e a história interna dos sistemas culturais de interpretação e de tradições, podem assim, ser postas em dia (44). A perspectiva de uma teoria da democracia, a partir da qual eu analisei a transformação estrutural da esfera pública, devia muito à concepção proposta por Abendroth de uma evolução do Estado constitucional democrático e social para uma democracia socialista. Ela permanece atracada, de maneira geral, a uma concepção totalizante da sociedade e da auto organização social, concepção tornada, entretanto, bem duvidosa. Administrando-se a si mesma, programando todos os domínios da vida, aí compreendida sua reprodução econômica, graças a uma legislação planificada, a sociedade devia ser integrada pela vontade política do povo soberano. Mas a suposição segundo a qual a sociedade poderia ser concebida por atacado, na sua totalidade, como uma associação que age sobre ela mesma por meio do direito e do poder político, perdeu toda plausibilidade em vista do grau de complexidade atingida pelas sociedades funcionalmente diferenciadas. Em particular, a noção holística de uma totalidade social à qual pertenceriam indivíduos socializados como membros de uma organização que os englobaria, se choca com as realidades de um sistema econômico regulado pelo mercado e de um sistema administrativo regulado pelo poder. Em A Técnica e a Ciência como Ideologia (1968, trad. francesa, Gallimard, 1973), eu ainda tentei distinguir os sistemas de ação do Estado e da Economia no seio de uma teoria da ação, através da oposição entre, de uma parte, o agir com finalidade ou orientado para o sucesso, e de outra parte, o agir comunicacional. Este paralelo simplista dos sistemas de ação e dos tipos de ação conduzia a duas inépcias (45). Estas já me haviam conduzido, em Raison et Legitimité (1973, trad. francesa,

Payot, 1978), a reunir o conceito de mundo vivido, introduzido em "Logique des Sciences Sociales" (1967, trad. francesa, PUF, 1987), com aquele que mantém suas fronteiras. Daí surgiu a dupla conceituação da sociedade como mundo vivido e sistema na Theorie de l'agir communicationnel (1981, trad. francesa, Fayard, 1987), (46). Isto comporta finalmente conseqüências decisivas para o conceito de Democracia. Eu considero, desde então, a economia e o aparelho de Estado como domínios de ação integrados sistemicamente e que não podem ser transformados do interior, isto é, transpostos de um modo político de integração, sem que sua significação sistêmica própria não seja danificada e sua capacidade funcional contrariada. A falência o socialismo de Estado a confirmou. O horizonte de uma democratização radical se caracteriza doravante também na perspectiva de um deslocamento de forças no seio de uma divisão dos poderes mantida por princípio. Assim, não é mais entre os poderes de Estado, mas entre diferentes recursos de integração social, que um novo equilíbrio deve ser estabelecido. O objetivo não é mais simplesmente a abolição de um sistema econômico tornado autônomo sob sua forma capitalista e um sistema de dominação tornado autônomo sob sua forma burocrática, mas antes, a domesticação democrática do processo de colonização dos domínios do mundo vivido pelos imperativos do sistema. Desta maneira, a representação, própria à filosofia da praxis, da alienação e da apropriação de forças objetivadas podem ser dispensadas. Uma mudança democrática radical do processo de legitimação visa um novo equilíbrio entre diferentes poderes e o princípio de integração da sociedade, a fim de que a força de integração social da solidariedade – “a força produtiva de comunicação"(47) – possa se impor contra os poderes de dois outros recursos reguladores, o dinheiro e o poder administrativo, e assim fazer valer as pretensões do mundo vivido orientadas pelo valor de uso. 3. A força de integração social do agir comunicativo tem como lugar antes de tudo essas formas de vida e mundos vividos particulares entrelaçados a tradições e interesses sempre concretos – o que Hegel chama a esfera Sittlichkeit. Mas, o poder de ação que funda a solidariedade desses modos de vida não se transmite imediatamente ao nível político do comportamento democrático de regulação do poder e de interesses. É ainda menos o caso nas sociedades pós-tradicionais, onde nenhuma homogeneidade de convicções de pano de fundo pode ser suposta, e onde a presunção de um interesse de classe comum cede lugar ao pluralismo não totalizável de formas de vida concorrentes e iguais em direito. Certamente, na formulação intersubjetiva do conceito de solidariedade – que religa a compreensão a pretensões de validade criticável e à possibilidade, para sujeitos responsáveis e autônomos por seus atos, de responder negativamente – as conotações usuais de unidade e de totalidade desaparecem. Entretanto, nessa versão abstrata, o termo “solidariedade" não teria condições de sugerir o modelo errôneo da formação da vontade de Rousseau, segundo o qual deviam ser determinadas as condições sob as quais a vontade empírica dos cidadãos singulares poderia se transformar imediatamente em vontade racional de cidadãos morais orientados para o bem público. Rousseau fundava esta exigência de virtude (sempre ilusória) sobre uma divisão de papéis de "bourgeois" (em francês no texto) e de "citoyen" (idem), que fazia da independência econômica e da' igualdade de oportunidades as condições de um estatuto de cidadão autônomo. O Estado-Social põe em questão essa divisão de papéis: "

Nas democracias ocidentais modernas, essa relação se inverteu: a formação democrática da vontade tornou- se um instrumento de desenvolvimento da igualdade social no sentido de uma repartição a mais homogênea possível dos bens sociais aos indivíduos" (48). U. Preuss sublinha com razão que hoje, no processo político, o papel público do cidadão e o papel privado do cliente das burocracias do Estado-Providência se sobrepõem: "A democracia de massa do Estado -Providência produziu a categoria paradoxal de pessoa privada socializada, que nós designamos comumente como cliente e que se universaliza socialmente na medida em que se funde com o papel de cidadão" (ibid:48). O universalismo democrático se tornou um "particularismo generalizado". No parágrafo 12, eu já critiquei a "Democracia de opinião não pública" de Rousseau, pela razão de que ele concebia a vontade geral antes como um consenso de corações que como consenso argumentos". No lugar disso, a moral, que Rousseau exige dos cidadãos e que ele faz repousar sobre as motivações e as virtudes dos indivíduos, deve ser ancorada no processo mesmo de comunicação pública. Este ponto capital foi conceituado por B. Manin: “É necessário modificar radicalmente a perspectiva ao mesmo tempo comum às teorias liberais e ao pensamento democrático: a fonte de legitimidade não é a vontade pré-determinada dos indivíduos, mas antes o processo de sua formação, isto é, a própria deliberação... Uma decisão legitima não representa a vontade de todos, mas constitui o resultado de uma deliberação de todos. É o processo pelo qual se constitui a vontade de cada um que confere sua legitimidade ao resultado antes que a soma das vontades já determinadas. O princípio deliberativo é ao mesmo tempo individualista e democrático. ..Nós devemos afirmar, com o risco de contradizer uma longa tradição, que a lei legitima é o resultado da deliberação geral e não a expressão da vontade geral" (49). Desta maneira, o ônus da prova se desloca da moral dos cidadãos para os comportamentos de formação da moral democrática da vontade e da opinião, que devem justificar a presunção de obtenção possível de resultados racionais. 4. Por esta razão, o espaço público político, exprimindo a própria quintessência dessas condições de comunicação pelas quais uma formação discursiva da opinião e da vontade de um público de cidadãos pode ser realizada, constitui o conceito fundamental de uma teoria normativa da democracia. Neste sentido, J. Cohen define o conceito de "democracia deliberativa" da seguinte maneira: "a noção de democracia deliberativa se enraíza no ideal intuitivo de uma associação democrática, no seio da qual a justificação dos termos e das condições de associação procede de uma argumentação e de uma racionalização pública de cidadãos iguais. Os cidadãos, numa tal ordem, partilham um engajamento comum frente à resolução de problemas de escolha coletiva através de uma racionalização pública, e consideram suas instituições de base legitimas na medida em que elas estabelecem um quadro favorável a uma deliberação pública livre"(50). Esta concepção discursiva da democracia repousa sobre a mobilização coletiva e a utilização da força produtiva que constitui a comunicação. Neste caso, é preciso entretanto demonstrar de um lado que as questões sociais controversas podem ser reguladas geralmente de maneira racional, isto é, no interesse comum das pessoas a elas concernidas; de outro lado é preciso explicar porque o meio da argumentação e da negociação públicas se presta a uma tal forma racional de formação da vontade. Senão, seria preciso dar razão ao modelo liberal, na sua premissa segundo a qual o compromisso entre interesses irredutivelmente em conflito não é outro que o resultado de uma luta conduzida numa perspectiva estratégica.

Ora, depois de vinte anos, J. Rawls e R. Dworkin, B. Ackermann, P. Lorenzen e K. O. Apel apresentaram a esse respeito argumentos segundo os quais as questões prático políticas, enquanto de natureza moral, podem ser resolvidas de maneira racional. Esses autores explicitaram o "ponto de vista moral", em função do qual pode ser avaliada de maneira imparcial o que constitui a cada vez o interesse geral. Como esse último é igualmente constantemente formulado e fundado racionalmente, as máximas de universalização e os princípios morais, tornou-se claro nessas importantes discussões que uma generalização dos interesses – e uma aplicação adequada das normas que representam tais interesses gerais (51) – pode se apoiar em boas razões. Eu também desenvolvi com O. Apel (52) uma concepção de ética de discussão(53) que caracteriza a argumentação como o comportamento de regulamentação dos questões morais-práticas. Assim, uma resposta é oferecida à segunda das duas questões mencionadas. A ética da discussão não visa somente obter de maneira geral, a partir do conteúdo normativo das pressuposições pragmáticas da argumentação, um princípio moral universal. Este próprio princípio se relaciona antes com a elucidação das pretensões normativas à validade, pois liga a validade das normas à possibilidade de um acordo justificado das pessoas concernidas, enquanto pessoas que assumem o papel de participantes na argumentação. Nesta variante, a clarificação de questões políticas, enquanto concernente ao seu núcleo ético, depende do estabelecimento de uma prática pública de argumentação. Mesmo que as questões políticas de princípio concernam quase sempre a aspectos morais, é verdade que todas as questões que exigem, segundo as regras institucionais, uma decisão por parte das instâncias políticas, não são de modo algum de natureza moral. Certas controvérsias políticas de relacionam freqüentemente a questões empíricas, à interpretação de fatos materiais, a explicações, a prognósticos, etc... De outro lado, problemas de grande alcance, aqueles que se nomeiam como questões existenciais, não relevam freqüentemente questões de justiça, mas dizem respeito a questões da "boa vida", de autocompreensão ética e política, tanto a sociedade em seu conjunto quanto as subculturas particulares. A maior parte dos conflitos, enfim, provêm da colisão de interesses de grupos e dizem respeito a problemas de partilha que não podem ser regulados a não ser em meio à formação de compromisso. Entretanto, essa diferenciação no seio do domínio de questões relevantes da decisão política não se opõe nem à primazia das considerações morais, nem à forma argumentativa da comunicação política no seu conjunto. questões empíricas não são o mais freqüentemente separáveis de questões avaliativas e exigem naturalmente um trabalho argumentativo.(54). Além disso, a compreensão ética e política da maneira pela qual nós, enquanto membros de uma coletividade particular, queremos viver, deve ao menos ser compatível com essas normas morais. Os debates devem se apoiar sobre a troca de argumentos: e que eles possam conduzir a compromissos legais, isto depende essencialmente das condições comportamentais que devem ser apreciadas de um ponto de vista moral. A perspectiva da ética da discussão tem a vantagem de poder especificar os pressupostos da comunicação que devem ser satisfatórios nas diferentes formas de argumentação e de negociação, a fim de que os resultados de tais discussões possam se valer por si mesmos da presunção de racionalidade. Assim, ela abre possibilidades de reatamentos empíricos e sociológicos com as considerações normativas.

5. Que se deva primeiro, na perspectiva de uma teoria normativa, clarificar o conceito discursivo de democracia e torná-lo plausível, isto deixa aberta ainda a questão de saber como a formação discursiva da opinião e da vontade pode ser organizada nas condições próprias às democracias sociais de massa, de tal maneira que a clivagem entre o interesse particular e a orientação na direção do bem público, entre papel de cliente e o de cidadão seja superposto. Nas pressuposições comunicacionais de toda a prática argumentativa, se integram já a exigência de imparcialidade e a expectativa de que os participantes ponham em questão e ultrapassem suas preferências particulares; a realização dessas duas pressuposições deve se tornar rotineira. A resposta do direito natural moderno a esse problema consistiu em introduzir a contradição legal e legitima. E o problema consecutivo, o do domínio em nome da moral desse poder político necessário a essa contradição legal, foi resolvido por Kant pela sua noção de Estado de Direito. O desdobramento, na perspectiva da teoria da discussão, dessa idéia aponta agora à noção de um direito que deve de relacionar uma vez mais a ele mesmo: ele deve assim garantir a modalidade discursiva segundo a qual a elaboração e aplicação dos programas jurídicos devem se realizar sob as condições de argumentação. Isso significa a institucionalização dos procedimentos jurídicos que asseguram uma realização aproximativa das pressuposições que exigem a comunicação para debates eqüitativos e argumentações sem constrangimentos. Essas pressuposições ideais exigem a participação de todas as pessoas concernidas, a igualdade de direito dos participantes, uma interação desprovida de contradições, uma boa ~ quanto aos temas e às contribuições propostas, o caráter revisável dos resultados, etc. Nesse contexto os procedimentos jurídicos servem para fazer valer os constrangimentos espaciais, temporais e materiais de seleções que se manifestam na sociedade real no seio de uma comunidade de comunicação ideal (55). Assim, o principio majoritário deve ser compreendido como um dispositivo que permite tornar compatível tanto quanto possível uma formação discursiva da opinião, orientada em última instância para a verdade com uma formação da vontade à qual é preciso pôr um termo. Na concepção própria à ética da discussão, a decisão majoritária deve manter uma relação interna à prática argumentativa, do que resultam outras medidas institucionais (por exemplo as contradições de justificação, os princípios de distribuição de encargos da prova, das leituras repetidas de projetos de lei, etc.). Uma decisão majoritária não pode ser tomada senão se seu conteúdo puder valer como o resultado motivado racionalmente, mesmo que falível, de uma discussão provisoriamente fechada sob a pressão de uma decisão sobre a justa solução de um problema. É nesta mesma perspectiva de uma institucionalização jurídica das condições comunicacionais gerais de uma formação discursiva da vontade, que podem ser compreendidas outras instituições, como por exemplo a regulamentação da composição e o método de trabalho das assembléias legislativas, as responsabilidades e as imunidade dos representantes eleitos, mas também o pluralismo político dos sistemas multipartidários, o constrangimento para os partidos de massa de reunir nos seus programas, posições e interesses diferentes, etc. A elucidação, no modelo da teoria da discussão, do sentido normativo das instituições existentes abre mais a perspectiva de uma introdução e de uma experimentação de novos dispositivos institucionais apropriados para se opor à clientelização do cidadão. Estes devem administrar os intervalos entre esses dois pólos interrompendo o curto-circuito entre as preferências particulares imediatas e o particularismo generalizado dos interesses

organizados no seio das associações. A isto pertence igualmente a idéia de uma ligação das "ordens de preferências múltiplas" (56) com o voto dos eleitores. Tais sugestões devem se apoiar sobre uma análise dos obstáculos inscritos nos mecanismos existentes que condicionam os cidadãos em uma disposição não política e que os impedem de adotar um ponto de vista reflexivo, para além de seus interesses pessoais imediatos. Em outros termos: a elucidação, na perspectiva da teoria discursiva, da significação democrática das instituições do Estado constitucional deve ser completada pela análise crítica dos mecanismos de alienação dos cidadãos do processo político que se desenrola no seio das democracias de massa do Estado Social.

6. O valor normativo de uma concepção da democracia, relacionada aos processos discursivos de formação de valores e de normas no quadro de comunicações públicas, não se esgota, no entanto, nos dispositivos institucionais adaptados ao nível do Estado constitucional democrático. Ele remete antes para além dos processos de comunicação e de decisão constituídos' formalmente. A formação da opinião organizada no seio das assembléias legislativas, conduzindo a decisões responsáveis, não é adequada aos objetivos de uma pesquisa cooperativa da verdade a não ser na medida em que ela permaneça permeável aos valores, aos temas, às contribuições e aos argumentos que circulam livremente no seio da comunicação política que a cerca. Esta deve ser tornada possível a título de direito fundamental, mas ela não pode ser totalmente organizada. A expectativa, fundada sobre a teoria de resultados racionais se baseia mais sobre a conjunção entre a formação política da vontade estabelecida institucionalmente e os fluxos de comunicação espontâneos não penetrados pelo poder, próprios de um espaço público, que não é programado para a decisão, mas para a exploração e a resolução de problemas, e que é então, nesse sentido, não organizado. Se a idéia de soberania popular deve ainda encontrar, de maneira realista, uma aplicação nas sociedades muito complexas, ela deve ser destacada de toda interpretação concreta, segundo à qual a soberania popular estaria encarnada nos membros de uma coletividade, fisicamente presentes, participantes e cooperativos. Em certas circunstâncias, um alargamento direto dos direitos formais de participação e de cogestão conduz à intensificação de um "particularismo generalizado", isto é, a essa realização privilegiada de interesses locais particulares e específicos a grupos que forneceram, de Burke a Weber, Shumpeter e os neoconservadores contemporâneos, argumentos em favor de um elitismo democrático. Uma concepção comportamental da soberania popular como quintessência das condições de realização de um processo discursivo de comunicação pública pode opor-se isso. A soberania popular totalmente dispersa não pode se encarnar senão nessas formas de comunicação sem sujeito, mas no entanto exigentes, que regulam o fluxo de formação da opinião e da vontade de tal maneira que seus resultados, sempre falíveis, satisfaçam a essa presunção de racionalidade prática por si mesmos (58). A soberania liquidificada comunicacionalmente se faz valer no poder das discussões públicas que descobrem temas pertinentes para o conjunto da sociedade, interpretam valores, contribuem para a resolução de problemas, produzem boas razões e descartam as ruins. Essas opiniões devem, no entanto, tomar forma nas resoluções que emanam das assembléias constituídas democraticamente, porque a responsabilidade por resoluções entranhadas de conseqüências práticas exige uma imputação institucional. As discussões não

"governam". Elas geram um poder comunicativo que não pode substituir, mas simplesmente influenciar o poder administrativo. Essa influência se limita ao reconhecimento ou à privação de legitimidade. Esse poder comunicativo não pode substituir a obstinação sistemática própria às burocracias públicas, sobre as quais ele' age "como um cerco" Se a soberania popular se dissolve assim nos procedimentos, o lugar simbólico do poder que forma um lugar vazio desde 1789, desde a abolição das formas paternalistas de dominação, não pode mais ser ocupado, como afirma U. Ródel, em seguida a Claude Lefort, por novas simbolizações identitárias como o Povo ou a Nação(59).

IV. SOCIEDADE CIVIL OU ESPAÇO PÚBLICO POLITICO Sob premissas assim precisas e modificadas, nós podemos finalmente retomar à descrição de um espaço público político, no qual se cruzam pelo menos dois processos: a generalização comunicativa do poder legítimo de uma parte, e de outra, a utilização manipuladora da mídia na criação de uma lealdade das massas, de uma demanda e de uma submissão em face dos imperativos do sistema. A questão que permanece aberta, aquela do fundamento e das fontes de uma formação informal de opiniões no seio dos espaços públicos autônomos, não saberia mais ser resolvida por um remetimento a garantias estatutárias do Estado Social e pela reivindicação holística de uma auto organização política da sociedade. Nesse ponto se fecha antes o circulo entre as transformações da esfera pública política e essas tendências de longo prazo que a teoria do agir comunicativo analisa como racionalização do mundo vivido. Um espaço público funcionando politicamente não tem necessidade de garantias oferecidas pelas instituições do Estado de Direito, ele depende também da sustentação de tradições culturais, modelos de socialização, de uma cultura política própria a uma população habituada a à liberdade. Hoje, a questão central do livro está reformulada sob o título de uma "redescoberta da sociedade civil". Não é suficiente remeter simplesmente ao "encontro" de mundos vividos diferenciados e a seu potencial de reflexão. Não é preciso somente proceder a uma concretização frente aos modelos de socialização e de tradições culturais. Uma cultura poli-tica liberal nutrida de motivações e de orientações normativas constitui seguramente um terreno favorável para comunicações públicas espontâneas. Mas, mais importantes ainda são as formas de difusão e de organização, os modos de institucionalização dos suportes de um espaço público não investido pelo poder.

É

sobre esse ponto que conduzem as mais recentes análises de C. Offe, que utilizam o conceito de

"relações de associação" (Assoziationsverhältnisse) a fim de confrontar "as categorias globais de forma de vida e de mundo vivido que devem assegurar no social um suporte à ética da discussão com as categorias mais sociológicas". (60) Esse conceito vago de “relações de associação" não se liga por sorte a essas "práticas associativas" que formaram outrora o substrato social e a esfera pública burguesa. Ele lembra igualmente a significação, tornada corrente desde então, do termo sociedade civil, que à diferença da tradução moderna, desde Hegel e Marx, de societas civilis por sociedade burguesa, não compreende mais a esfera de uma economia regulada pelos mercados do trabalho, do capital e de bens. Procura-se no entanto, em vão definições claras nas publicações que se reportam ao assunto. Em todos os casos, o núcleo institucional da sociedade civil é constituído por esses agrupamentos voluntários fora da esfera do Estado e da economia, que vão, para citar

apenas alguns exemplos, das igrejas, das associações e dos círculos culturais, passando pelas mídias independentes, associações esportivas e de lazer, clubes de debate, fóruns e iniciativas cívicas, até organizações profissionais, partidos políticos, sindicatos e instituições alternativas. J. Keane atribui a essas associações a tarefa, até mesmo a função, de "manter e redefinir' as fronteiras entre a sociedade civil e o Estado através de dois processos interdependentes e simultâneos: a extensão da igualdade social e da liberdade, e a reestruturação e a democratizaçõa do Estado"(61). Trata-se, então, de associações que contribuem à formação de opiniões. Elas não pertencem, então, ao sistema administrativo como os partidos politicos fortemente estatizados, mas elas visam entretanto efeitos políticos graças a uma influência pública, seja porque elas participam diretamente da comunicação pública, seja porque elas levam uma contribuição implícita ao debate público, como, por exemplo, pelos projetos alternativos, em razão do aspecto programático de suas atividades. Da mesma maneira, Offe atribui às relações de associação a função de fornecer contextos específicos para uma comunicação pública oferecendo aos cidadãos argumentos suficientemente sólidos para um "agir responsável": "Agir de maneira responsável significa que aquele que age adota metódicamente, frente a suas próprias ações, a perspectiva de exame ao mesmo tempo do expert, do outro generalizado e de si próprio no futuro próximo, e desta maneira, valida os critérios factuais, sociais e temporais do agir" (62). A conjuntura própria ao desenvolvimento desse conceito de sociedade civil deve muito à crítica da destruição totalitária do espaço público político (53) que fizeram sobretudo os dissidentes do socialismo de Estado. O conceito de totalitarismo – desenvolvido por Hanna Are~t – na prespectiva de uma teoria da comunicação joga aí um papel muito importante. Em face de uma tal repulsa, pode-se compreender porque as associações, na origem da formação de opiniões, em torno das quais podem se cristalizar os espaços públicos autônomos, se beneficiam de uma posição eminente na sociedade civil. A dominação totalitária submete essa prática comunicativa dos cidadãos ao controle dos aparelhos da polícia secreta. As subversões revolucionárias na Europa do Leste e na Europa central confirmaram essas análises. Elas não se deflagaram por sorte em razão de uma politica de reforma que anunciava a Gíasnost em suas bandeiras. Como em uma experimenteção sociológica em dimensão natural, o aparelho de dominação foi quebrado, de maneira exemplar na RDA, pela pressão crescente de movimentos cívicos agindo de maneira não violenta. E a partir desses se formou em primeiro lugar a infraestrutura de uma nova ordem que se desenhava já sobre as ruínas do socialismo de Estado. Os pioneiros dessa revolução foram essas associações de voluntários nas igrejas, os comitês de direitos humanos, os círculos de oposição de ecologistas e feministas, contra cuja influência latente o espaço público totalitário deveria sempre se defender pela violência. Isto se passa de outro modo nas sociedades de tipo ocidental. Aqui as associações voluntárias se formam no interior do quadro institucional democrático. E aqui se põe uma outra questão à qual não se saberia responder sem um trabalho empírico: é possível, e em que medida, que um espaço público dominado pelos mass-medias possa conceder oportunidades aos atores da sociedade civil de pôr em cheque, com alguma esperança, o poder invasor das medias políticas e econômicas, e então de mudar, de reconstituir de maneira inovadora e de filtrar de maneira critica o espectro de valores, de temas e de razões canalizadas por uma influência exercida do exterior?

Parece-me que o conceito de um espaço público exercendo uma função política, desenvolvido em "O Espaço Público", oferece sempre, para a resolução desse problema, a perspectiva analítica adequada. Por esta razão, A.Arato e J. Cohen, na sua tentativa de tornar fecundo o conceito de sociedade civil para uma teoria contemporânea da democracia, se submetem à arquitetura conceitual de Sistema/Mundo vivido esboçado na Teoria do Agir Comunicativo. Eu gostaria de concluir indicando um estudo original que tem por tema a influência das medias eletrônicas sobre a reestruração das interações ordinárias. Seu título No Sense Of Place avança a proposição segundo a qual se dissolveriam essas estruturas graças às quais os indivíduos socializados percebiam suas posições sociais e se situavam a si mesmos. Desta vez, são mesmo as fronteiras sociais que constituiram as coordenadas elementares do espaço e do tempo histórico do mundo vivido que foram abaladas: "Numerosas características de nossa 'era da informação' nos fazem reunir às formas sociais e políticas as mais primitivas: A sociedade de caça e de coleta. Como os povos nômades, os caçadores e os coletores não têm nenhuma relação legal com o território. Eles têm apenas um frágil 'senso de espaço'; nenhuma atividade especifica é solidamente ligada a um arranjo físico dado. A ausência de fronteiras ao mesmo tempo nas sociedades 'de caça e de coleta e nas sociedades eletrônicas conduz a comparações surpreendentes. De todas as formas de sociedade conhecidas antes da nossa, as sociedades de caça e coleta tiveram tendência a ser as mais igualitárias do ponto de vista dos papéis respectivos dos homens e das mulheres, das crianças e dos adultos, dos dirigentes e seus subordinados. A dificuldade de manter diversos lugares separados ou esferas sociais distintas teni a tendência de misturar todos nos negócios de todos os outros". (65). Uma comprovação imprevista desta tese provocadora é oferecida de novo pelos acontecimentos revolucionários do ano de 1989. A subversão na RDA, na Tchecoslováquia e na ROmênia constituíram uma reação em cadeia que não foi simplesmente apresentada como uni acontecimento histórico transmitido pela televisão, mas que se realizou ela própria ao modo de retransmissão televisada. As medias de massa não foram somente decisivas para os efeitos de propagação dessa difusão através do mundo. Com efeito, a presença física das massas se manifestando nas praças e nas ruas, à diferença do século XIX e conieço do século XX, pôde desencadear uma violência revolucionária apenas na medida em que ela era transformada, pela televisão, numa presença ubíqua. Considerando a normalidade das sociedades ocidentais, a tese sustentada por J. Meyrowitz de uma desestruturação pelas media de massa das fronteiras sociais é no entanto, muito linear. Algumas objeções vêm logo em seguida à mente. Essa des-diferenciação e esta desestruturação das quais seria vítima o nosso mundo vivido, o fato da onipresença generalizada de acontecimentos de temporalidades heterogêneas têm consequências consideráveis para a percepção social de si. Mas essa desestruturação se acompanha de uma multiplicação de papéis mais específicos, de uma pluralização de formas de vida e de uma individualização de projetos de vida. O desenraizamento anda a par com a construção de pertencimentos e de laços comunitários próprios, o processo de equalização a par da impotência em face da complexidade e da opacidade dos sistemas. São, então, mais os desenvolvimentos complementares que se imbricam. Assim, as medias de massa têm também, em outros níveis, efeitos opostos. Muitos deles levam a crer que o potencial democrático do espaço público, cuja infraestrutura é marcada por esses constrangimentos de seleção crescentes produzidos pela

comunicação eletrônica de massa, é repleto de ambiguidades. Eu quero dizer deste modo que se eu empreendesse hoje, de novo, a análise da transformação estrutural do espaço público, eu não saberia determinar suas consequências para uma teoria da democracia. Pode ser que

esta análise oferecesse uma avaliação menos pessimista que antes e apresentasse uma perspectiva menos triste e simplesmente hipotética.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful