O título do livro ganha, assim, uma rica ambiguidade.

O “corpo presente” não é apenas o corpo da morta, ou o relato da experiência, mas também o próprio livro, transfiguração da falta. O que leva o autor a escrever é a vontade de transformar a experiência ausente (passada ou perdida) em presença, a morte em vida. O motor da escrita é a ausência. O corpo ausente é motivo do desejo, o que não tem matéria nem fim (ao contrário da experiência), o que leva a escrever sem nunca se consumar (“O melhor que Alberto já escreveu é o que nunca conseguiu escrever”). O texto literário não é apenas o relato de uma experiência prévia; ele é a própria experiência. O Corpo presente, de João Paulo Cuenca, está dizendo isso o tempo todo. Para quem quiser ouvir.
Bernardo Carvalho,

J.P. CUENCA

“Li Corpo presente de uma vez só. Fiquei muito encantado com a maturidade do texto. Escrito de forma precisa, vigorosa e sempre com muita paixão. Fazia tempo que uma narrativa não me impressionava tanto. É um grande livro.”
Marçal Aquino

Marcelo Rubens Paiva João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro em 1978. É autor dos romances Corpo presente (2003), O dia Mastroianni (2007) e O único final feliz para uma história de amor é um acidente (2010). Entre 2003 e 2010 escreveu crônicas semanais para jornais como Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O Globo — algumas delas foram reunidas na antologia A última madrugada (2012). Em 2007, foi selecionado pelo Festival de Hay como um dos 39 jovens autores mais destacados da América Latina e em 2012 foi escolhido pela revista britânica Granta como um dos 20 melhores romancistas brasileiros com menos de 40 anos. Os direitos dos seus romances já foram comprados por Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, Finlândia, França e Estados Unidos.

“O autor marca sua diferença em relação a outros escritores de sua geração, impondo ao texto uma personalidade impressionante para um romance de estreia.”
Jornal do Brasil

“Há um autor novo que gosto muito, o João Paulo Cuenca.”
Chico Buarque

ISBN 978-85-359-2332-2 

CORPO PRESENTE

Folha de S.Paulo, 09.12.2003

“Corpo presente é um livro deslumbrante. João Paulo Cuenca é um autor jovem com uma semântica muito bem elaborada. Explora Copacabana e seus personagens no limite.”

CORPO PRESENTE

J.P. CUENCA

A experiência em Corpo presente é o confronto com um mundo físico em permanente fuga, num tempo marcado pelo narcisismo, pela imaterialidade e pela irrealidade dos encontros virtuais. O romance de Cuenca, em que não há propriamente uma progressão narrativa, é composto por capítulos designados por números primos (divisíveis apenas por si mesmos e por um). Há uma lógica intransitiva na progressão dos capítulos que anula a própria progressão: os números primos são todos iguais a um (quando divididos por eles mesmos) ou iguais a eles mesmos (quando divididos por um). Para dar um pouco mais de materialidade a esse princípio, os três protagonistas do romance (Carmen, o narrador e Alberto) são intercambiáveis, todos um e o mesmo. Formam uma espécie de triângulo em que o narrador pode ser filho ou amante de Carmen, amigo de Alberto ou o próprio Alberto (que também pode ser marido, amante ou filho de Carmen), ou pode ser Carmen, que às vezes é mãe, outras vezes é puta. Carmen encarna o real na cabeça do narrador, um sujeito em permanente estado amoroso, em permanente sentimento de perda. Ela é o seu objeto do desejo, em oposição à irrealidade ou à hipocrisia que o cerca: “Carmen não me dá vontade de escrever. Se o mundo fosse real como Carmen, não teria nada a dizer”. O que dá vontade de escrever é a falta dela. Só Carmen é real, “a única coisa que realmente existe”. Contrariando o que diz, entretanto, o narrador escreve por causa dela (o livro é dedicado a Carmen, seja ela quem for). O que dá a entender que Carmen é um corpo ausente (“Ao redor do corpo de Carmen, todos pensam que teria sido melhor terem morrido no seu lugar”). Se o narrador escreve, é para suprir, pela imaginação, a ausência que nenhuma presença pode suprir.