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MARISA LAJOLO

DO MUNDO DA LEITURA PARA A LEITURA DO MUNDO
Prêmio Jabuti 1994

Conforme a nova ortografia da língua portuguesa

1 Tecnologia de Educação e Formação de Educadores Ana Teresa Ralston Gerência de Pesquisa e Desenvolvimento Roberta Campanini Coordenação geral Antonia Brandao Teixeira e Rachel Zaroni Coordenação do projeto Eduardo Araujo Ribeiro Estagiária Olivia Do Rego Monteiro Ferragutti Revisão Marina Lazaretti Ao comprar um livro.ed. gráficos. Literatura infantojuvenil . livreiros.5 1ª Edição . L194d | 1. Título. divulgadores. Crianças . 09-5109. . I. ilustradores.55 | CDU: 028. RJ.Arquivo criado em 21/07/2011 e-ISBN 9788508149070 . Mendes Rosa Editora assistente Tatiana Corrêa Pimenta Revisor Maurício Katayama Estagiária Monise Martinez Editor de artes Vinicius Rossignol Felipe Diagramadora Leslie Morais Paginação Megaart Design Capa Ary Normanha Versão ePUB 2.São Paulo : Ática. distribuidores. CIP-BRASIL.Livros e leitura.Do mundo da leitura para a leitura do mundo / Marisa Lajolo . | CDD: 028. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS.1.ed.0.© Marisa Lajolo Versão Impressa Editor-chefe Carlos S. 2. diagramadores. Ajude-nos a combater a cópia ilegal! Ela gera desemprego. 1944. prejudica a difusão da cultura e encarece os livros que você compra. revisores. II. Lajolo. Série.(Educação em ação) "Prêmio Jabuti 1994" 1. Marisa. você remunera e reconhece o trabalho do autor e de muitos outros profissionais envolvidos na produção e comercialização das obras: editores.História e crítica. 2011. entre outros.

.Cecília Canalle. Regina Zilberman e Pedro Bandeira. integral responsabilidade pela teimosia que impediu completo aproveitamento das sugestões feitas. leram generosamente os originais. assumindo. no entanto. Pela leitura e pelos palpites a autora agradece. em exercício de amizade.

SUMÁRIO Introdução 1. na escola e na leitura Lobato. LEITURAS DO MUNDO Machado de Assis: um mestre de leitura As aventuras de Ngunga. esses temíveis desconhecidos Poesia: uma frágil vítima da escola Livro didático e Língua Portuguesa: parceria antiga e mal resolvida Literatura infantil e escola: a escolarização do texto 2. um Dom Quixote no caminho da leitura Tecendo a leitura . NO MUNDO DA LEITURA A leitura literária na escola Literatura infantojuvenil: fada madrinha de um currículo em crise ou gênero descartável para um leitor em trânsito? I II Os leitores.

de livro didático. inclusive. fecha-se o círculo: lê-se para entender o mundo. de leitura dos clássicos. de literatura infantil e juvenil. por assim dizer. escola e literatura encontram em diferentes textos literários. de escola. o trajeto se cumpre sempre. Os textos comentados nos introduzem em mundos com os quais se tropeça tanto no silêncio da vida de cada um. Se ler livros geralmente se aprende nos bancos da escola. de guerra e de loucura.INTRODUÇÃO Ninguém nasce sabendo ler: aprende-se a ler à medida que se vive. mais intensamente se lê. de alunos e professores. Em seus textos afloram diferentes projetos de educação de leitores. quanto mais abrangente a concepção de mundo e de vida. a leitura do mundo entra mais ostensivamente em cena. que pode e deve começar na escola. Muito embora estreitamente entrelaçados na vida real. invocando a temporária suspensão do real que os livros patrocinam como forma de iluminar e fecundar o retorno ao real. refazendo-se.. Na segunda parte. mas não pode (nem costuma) encerrar-se nela. de alfabetização.. Currículo. mundo da leitura e leitura do mundo distinguem-se aqui. a leitura não esgota seu poder de sedução nos estreitos círculos da escola. práticas escolares de leitura (particularmente de leitura literária). leitura do mundo: onde acaba um e começa a outra? Talvez os limites sejam esgarçados. A primeira parte é constituída de ensaios mais direta e ostensivamente relacionados ao mundo de papel impresso. José Pepetela e Monteiro Lobato são. para viver melhor. trazida para a berlinda pela análise de algumas representações que leitura. outras leituras se aprendem por aí. formas de inserção de livros escolares e de leitura em diferentes momentos do sistema cultural brasileiro são as portas de ingresso para as questões e reflexões que incidem sobre diferentes aspectos do mundo da leitura. de cambulhada com histórias de amor. e constitui uma espécie de profissão de fé nessa aposta o que tenho discutido ao longo dos eventos que motivaram os textos aqui reunidos. em cada parte do livro predomina um deles. de modo positivo e legitimado pela história literária. Mundo da leitura. os ensaios propõem itinerários possíveis para o percurso indicado pelo . Como entre tais coisas e tais outros incluem-se também livros e leitores. formação de professores. Machado de Assis. numa espiral quase sem fim. por um vice-versa que transforma a leitura em prática circular e infinita. aquela terceira margem do rio de que fala Guimarães Rosa. o que se discutiu e problematizou nos textos da primeira parte. quanto no estardalhaço das situações e notícias que diariamente trazem o distante e o estranho para dentro de nós. Do mundo da leitura à leitura do mundo. No seu conjunto. casos que resolvem. Como fonte de prazer e de sabedoria. Em nossa cultura. Aposto nisso. na chamada escola da vida: a leitura do voo das arribações que indicam a seca — como sabe quem lê Vidas secas de Graciliano Ramos — independe da aprendizagem formal e se perfaz na interação cotidiana com o mundo das coisas e dos outros.

e seu vice-versa. . a abordagem histórica e a análise textual constituem trajetos seguros e paisagens sedutoras na tão necessária travessia do mundo da leitura à leitura do mundo.título: sugerem que a reflexão teórica.

1 NO MUNDO DA LEITURA .

se entregam (sic) à preguiça de ler. razão de ser do templo. Do contrário. A precariedade de tal situação costuma ser resumida nos clichês e preconceitos que afloram quando vêm à baila temas que relacionam jovem. em esferas mais baixas. é objeto de um nem sempre discreto. desinteresse e enfado dos fiéis — infidelíssimos. o mestre. Estas.) Só a leitura e o incentivo pelos bons autores (sic) poderá melhorar a redação dos alunos. objeto do zelo e do culto. como sugerem as falas abaixo3: (. professor. todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino. ou devia fundar-se. escola.. sendo que para assistir TV sempre dispõem de tempo (. Mesmo porque eles acham cansativo ter de ficar parados a ler. infelizmente a maioria..A LEITURA LITERÁRIA NA ESCOLA1 Se... de modo geral.. na porta. cá fora. Talvez venha desse desencontro de expectativas que a linguagem pela qual se costuma falar do ensino de literatura destile o amargor e o desencanto de . só leem se obrigados... O que parece faltar é inspiração e elegância que permitam passar da máxi à míni. O que surge nas linhas e entrelinhas dos quatro depoimentos é um professor que se crê investido da função sagrada de guardião do templo: lá dentro. Outros ainda.) outros alunos.) o nosso estudante só faz determinada atividade se exigida e bem estimulada. afastam os problemas teóricos como irrelevantes ou elitistas diante da situação precária que.. poderiam ser assinados por mestres do Oiapoque ao Chuí. mas sempre incômodo. examinando. mudam-se as vontades.) (.. é a disciplina literária que devia ser salva.) Os textos acima. E o mesmo constatamos nós. O problema é que os rituais de iniciação propostos aos neófitos não parecem agradar: o texto literário. ou se melhor mesmo é que a multidão se disperse. literatura e similares. leitura. meia dúzia de livros didáticos ou paradidáticos de literatura. Figurinos e modas não faltam. pela janela do século XVI. a minoria. diz-se. o texto literário. em uma concepção de literatura muitas vezes deixada de lado em discussões pedagógicas. ainda que sem o talento do poeta. os alunos. por não terem hábito ou gosto pela leitura. sem mostrar canelas escalavradas nem joelhos sujos.. saiba-se que a epígrafe de Barthes é salvoconduto para tomar do universo da moda as primeiras metáforas. sem saber se entra ou se sai. pois todas as ciências estão presentes no monumento literário. não leem nem obrigados (. exceto uma. sonetava Camões.2 Mudam-se os tempos. E antes que alguém pergunte se se fala da moda ou do texto literário em classe. cada vez mais pobre e restrita pela TV (. colhidos em diferentes escolas. ele.....) muitos não leem com a desculpa de que não têm tempo.) (sic) (.. por não sei que excesso de socialismo ou barbárie. O que fazer com ou do texto literário em sala de aula funda-se.. aliás — que não pediram para ali estar. muitas vezes histórias que estejam agradando (. espera o professor de literatura numa classe de jovens.

dicção oposta à de Pessoa é a que ressoa nas vozes ouvidas na pesquisa da editora Abril. O rio corre. cuja violência.. o hábito de leitura parece ter sido implantado..) poucos são os comentários de falta de interesse. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. ao menos em parte. A compreensão desse estado de coisas parece fundamental: ilumina o contexto escolar . mal fala. com a sabedoria de quem guarda rebanhos. corre o risco de perder. expressões cinzentas e duras. Para pasmo geral dos paroquianos menos informados.) Após um trabalho árduo e longo.. A função desse professor bem-sucedido confina-se ao papel de propagandista persuasivo de um produto (a leitura) que. curiosamente... bem ou mal Sem edição original. talvez porque repito sempre o slogan: quem não lê. E a brisa. amarga e curtida por políticas educacionais equivocadas.4 Como já se viu. Fernando Pessoa.. para que o aluno se interesse mais por leitura (. O poeta-pastor proclama seu tédio perante qualquer contexto que subtraia do texto sua carga máxima de mito e de ruptura: Ai que prazer Não cumprir um dever. atividade exigida. mal ouve. deveres. sua especificidade. solidariza-se com as ovelhas rebeldes. em harmonia com uma escola como a brasileira. Como tem tempo não tem pressa. leitura obrigatória. no entanto.. a ler sempre (. Leem porque eu incentivo muito e às vezes até dramatizo o assunto resumidamente.5 As falas acima revelam a consciência tranquila do dever cumprido. E. Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada. De tão naturalmente matinal. como as falas acima ilustram. é uma voz tão marcial quanto amarga a que reponta nos testemunhos dos mestres aparentemente satisfeitos com seu desempenho face aos papéis pintados com tinta: Motivamos a classe a ler. parece deixar cicatrizes até na voz do terapeuta: o vocabulário é repassado de obrigações e cobranças: trabalho longo e árduo. Estudar é nada O sol doira Sem literatura. mal vê. tarefas e obrigações. essa. proclamam o sucesso da terapêutica. sob a avalanche do marketing e do merchandising. no entanto..prestação de contas. Livros são papéis pintados com tinta.

Já faz alguns anos que decidir isso é da competência de editoras. sobrando a seção de queixas e reclamações para congressos. ao longo do território nacional. às vezes rebeldes. o imediatismo das soluções enlatadas: sugestões bem-intencionadas.) os livros deveriam ser mais dinamizados e arejados (. para cuja composição ele não foi chamado: leitura jogralizada. ao contato solitário e profundo que o texto literário pede. sua voz se faça ouvir com timidez no que respeita aos destinos do texto literário em classe. estrelam para plateias às vezes desatentas. ou ele não tem sentido nenhum. por exemplo. Trata-se. perguntas abertas ou semiabertas... têm sugestões a fazer. principalmente ao ensino de literatura. tarefa de amor. mantendo intato — quando já instalado — o desencontro entre leitor e texto. Talvez não se tenha refletido ainda o bastante sobre alguns traços que modernas pedagogias e certos modelos de escola renovada imprimiram à educação. mas lidam superficialmente com a questão. é geralmente objeto de técnicas de análise remotamente inspiradas . mestres. como dizia Bilac a propósito de estrelas.) (. livros didáticos e paradidáticos. em sala de aula. pois estabelecem uma harmonia só aparente. muitos dos quais se afirmaram como quase monopolizadores do mercado escolar. Técnicas milagrosas para convívio harmonioso com o texto não existem.. Ou o texto dá um sentido ao mundo.) (. para o professor. na razão direta em que tiraram dos ombros dos professores a tarefa de preparar as aulas. quase sempre desinteressadas. pois talvez o professor seja peça secundária na escola de hoje e. ou então pesquisas como a que aqui está sendo comentada. de propostas que somam. reescritura de textos. no qual discussões sobre e propostas para usos do texto literário em classe podem transformar-se em armadilha para o professor que. ao idealismo ingênuo. ouvidos na pesquisa da editora Abril. o conceito de motivação. seminários. resolvendo o problema pelo seu contorno.)6 Mas ouvir professores é tarefa de amor.brasileiro.. Não parece que o que fazer com o texto literário na sala de aula seja ainda de sua competência. cursos de atualização e congêneres. porque é em nome dele que a obra literária pode ser completamente desfigurada na prática escolar. sentindo-se fragilizado. Propor palavras cruzadas. passando ao largo das zonas profundas de conflito. testes de múltipla escolha..) seria preciso levar obras literárias até os alunos de uma maneira inteligente. interessante e proveitosa (... é um script de autoria alheia.. e as que assim se proclamam são mistificadoras.) seria importante ter um audiovisual de literatura (. dramatizar textos e similares atividades que manuais escolares propõem. sugerir identificação com uma ou outra personagem. menos ou mais treinados.. E o mesmo se pode dizer de nossas aulas. O que há.. resumos comentados são alguns dos números mais atuais do espetáculo que. O texto. Nesse sentido.. é periférico ao ato de leitura. geralmente.. então. As propostas transformam-se em armadilha quando patrocinam discussões das quais se sai com as técnicas debaixo do braço e confiante na terapêutica. (. busca respostas imediatas para seus problemas concretos. Vários professores. consequentemente. sem dúvida. urge discutir. que reduzem o atrito e aumentam a digestibilidade da aula.

a inscrição do e no texto. a vivência que tem de seus impasses e a forma como diferentes textos dialogam com tais impasses são suficientes para sugerir comentários. nem nós. 1986. Se o professor não conhece tais impasses — e provavelmente não os conhece nem precisa conhecê-los —.em teorias literárias de extração universitária. PUC-RS e Associação Internacional de Leitura — Conselho Brasil (Sul). n° 2/83. Os alunos não leem. E o bocejo que oferecem à nossa explicação sobre o realismo fantástico de Incidente em Antares ou sobre a metalinguagem de Memórias póstumas de Brás Cubas é incômodo e subversivo. 188. São Paulo. anula-se a ambiguidade.. à qual se cola a obra de arte à revelia ou não das intenções do autor. a inscrição do texto na época de sua produção. porque sinaliza nossos impasses. no e do cotidiano do aluno. ajuda a superá-los. na transposição das ditas teorias para o contexto didático esse sentido maior costuma adelgaçar-se e rarefazer-se. 3. Emília. 'O ensino de literatura no segundo grau'. p. consultar Saldiva & Associados Propaganda Ltda. 4 PESSOA. outro caminho. lançada nacionalmente em 1981. mimeo. 1988. 7 Cf. e com o título 'O texto literário na sala de aula' posteriormente publicado no Boletim da ALBS (Associação Internacional de Leitura — Conselho Brasil Sul). R. instaura-se pelo e no texto literário. os alunos não estão investidos de nada. perguntas e atividades que encaminhem nessa direção o trabalho com o texto. São Paulo. ed. organizada em Porto Alegre pelo Goethe Institute. 5 Ver nota 3. Aula. outro exemplo ainda. que nós — professores — também vivemos. Mas. Dissertação de mestrado. 'Liberdade'. Fernando. mas sim do conjunto destes mais todos os outros por estes inspirados. de vago e de amplo) até os impasses individuais vividos por cada um. Câmara Brasileira do Livro. o espaço de liberdade e subversão que. a conotação — sutis demais para uma pedagogia do texto que consome técnicas de interpretação como se consomem pipocas e refrigerantes. da melhor maneira possível. Cultrix. p. AMARAL. 2 BARTHES. como parte da promoção da Série Literatura Comentada. entendendo que este cotidiano abrange desde o mundo contemporâneo (no que essa expressão tem. fundamental para fazer o aluno vivenciar a complexidade da instituição literária que não se compõe exclusivamente de textos literários. uma vez que textos assim contextualizados nos dão acesso a uma historicidade muito concreta e encarnada. 1 Versão anterior deste texto foi apresentada em mesa-redonda sobre Literatura e Ensino. a ponto de ficar quase irreconhecível. Mas. Mas. Pois só superando-os é que em nossas aulas se pode cumprir. ao contrário de nós.7 Na escola. De modo geral. p. não se pode — e talvez nem se deva — fugir a alguns encaminhamentos mais tradicionais no ensino da literatura: por exemplo. . Rio de Janeiro. os alunos escrevem mal e nós também. o desencontro literatura-jovens que explode na escola parece mero sintoma de um desencontro maior. 18. 1980. IEL-Unicamp. se no âmbito universitário a teoria literária pode ainda preservar uma semântica geral do texto. o meio-tom. no texto. Nova Aguilar. In: __. intencionalmente. 3 Os textos de professores foram extraídos de pesquisa feita pela Abril Educação. em certas condições. nos arredores da leitura de cada texto. realizada em 1987 para a Câmara Brasileira do Livro e Associação Paulista de Fabricantes de Papel e Celulose. 'Estudo motivacional sobre hábitos de leitura'. Para contrastar os resultados desta pesquisa com outra. 6 Ver nota 3. a inscrição. Numa última perspectiva. 23-7. do conjunto dos principais juízos críticos que sobre ele se foram acumulando. Obra poética. sinalizandoos.

E. São Paulo. M. R. Theodoro da. 'Leitura e literatura: mais que uma rima e menos que uma solução'. & SILVA. In: ZILBERMAN. 1988. orgs.LAJOLO. . Leitura: perspectivas interdisciplinares. Ática.

com sucesso. ficam fora do lugar. por um lado. que a escola deve respeitar o dialeto do aluno. o assunto está embaralhadíssimo. Todas elas sabem mais do que nós outros.. E todas e cada uma delas. benza-as Deus. então. inadequadas para satisfazer as expectativas que a comunidade alimenta em face da escola. pobres ou ricas. O que se sugere é que a rapidez com que o ensino da Língua Portuguesa se desvencilhou de tais práticas e absorveu outras.LITERATURA INFANTOJUVENIL: FADA MADRINHA DE UM CURRÍCULO EM CRISE OU GÊNERO DESCARTÁVEL PARA UM LEITOR EM TRÂNSITO?1 I Hoje não há que fiar em moças. na colheita dos primeiros resultados e das primeiras perplexidades. era autêntica vontade democrática. Então as tais normalistas. Hoje os tempos são outros. por ter ocorrido no bojo de um movimento maior de projetos educacionais e políticos talvez parcialmente gorados. porque também não se tem claro a função da escola no que se refere à competência linguística que o aluno deve dominar ao abandonar os bancos escolares. por outro. que ele deve deixar o aluno escrever como fala. pode ter travestido de populismo o que. nem a volta às redações do tipo Uma lágrima ao cair da tarde. no novo percurso. insuficientes para romper o autoritarismo compacto do aparelho escolar. Leem Zola. crenças como a de que o professor não deve corrigir o texto dos alunos. Sei de uma que foi encontrada pelo professor de história natural a debuxar um grandíssimo falo com todos os seus petrechos. na origem. tentar corrigir os rumos. Imobilizam-se em crenças. estudam anatomia humana e tomam cerveja nos cafés. procurando resgatar. Podemos.. são verdadeiras doutoras de borla e capelo em negócio de namoros.3 Não se advoga aqui. Circulam. Neste tempo nosso. o já tantas vezes adiado projeto de democratização e .2 A importância da literatura infantojuvenil como disciplina a ser incluída no currículo de formação do professor é parte da questão da formação do professor de língua materna. que redação não deve ter nota e outras similares afirmações e negações. evidentemente. Pois o problema da literatura infantojuvenil — se é que é um problema — talvez seja mera representação contemporânea de uma crise muito maior e muito mais antiga: faz tempo que não se sabe qual é a formação necessária ao professor de língua materna. menos eufóricos e mais amadurecidos. o retorno às listas de verbos e plurais irregulares. e aplicadas a toque de caixa em atividades que variam de exercícios propostos por livros escolares a metodologias desenvolvidas em cursos relâmpago. tomadas fora do contexto em que foram formuladas. E. fértil em discussões várias.

jaz toda na mais completa ignorância. queremos cadeiras e mais cadeiras. e cometerá os maiores disparates..) quais são os homens que entre nós se ocupam do magistério? Ou antes.6 (. a nossa fazenda.. Menos ou mais desencontrados do nosso aqui e agora — muitos desses textos são inacreditavelmente atuais e podem conferir espessura histórica ao modo de ser da prática educacional brasileira que vivenciamos hoje. são muitos os textos que contribuem para o conhecimento da prática educacional brasileira mais antiga. (.. (.) O menino escreverá em português. aquela que constitui o Estado. Bolívar. e oferecendo-lhe um grande subsídio durante sua residência.. (... a classe mais interessante. familiarizem-se os alunos com o correto dizer dos que bem falaram e escreveram a língua e teremos removido uma grande dificuldade... e muitos mais aspirantes a lugares na magistratura.) Exija-se. nos livre que a nossa honra. e. A classe mais útil.) Digamos agora o que se tem feito no Brasil a este respeito? Temos muitos advogados... a um sacerdócio todo de abnegação. O primeiro desses documentos vem de 1835 e compara a política educacional brasileira com a dos países vizinhos da América: Os brasileiros começaram por onde deviam acabar. o pátrio idioma.)5 Trinta anos depois (1863-64). porque lhe disseram que a gramática portuguesa estuda-se na latina. outro documento sublinha o descaso pelo ensino da língua materna e da leitura e registra a baixa remuneração do magistério: Um pai ao levar seu filho ao colégio recomenda que não se gaste tempo com o estudo de Português que todos sabem... o primeiro passo é a inserção histórica das questões educacionais. a nossa vida. antes de reformar as universidades (..) Como exigir que o país se honre com larga cópia de brilhantes escritores se a matéria-prima de toda arte de escrever. sem embargo..) uma escola normal. sem cuidar da instrução primária.) Deix(ou) um viveiro em toda a república.qualificação da educação brasileira.. pois. é este entre nós uma profissão? Não! Nenhum homem que dispõe de um certo cabedal de conhecimento deixa ocupações muitíssimo mais vantajosas para se dar a uma vida inglória e penosa. sublinhando a inexistência de material didático adequado: . pelo contrário. prefácio de um livro escolar editado em 1870. concordará o verbo do singular com o sujeito do plural. cursos e mais cursos. prebendas e mais prebendas.) estabelecer (. que estude o Francês e o Latim. lhes foi negada pela própria sociedade que injustamente lhes reclama o fruto de uma semente que ela não lançou à terra? (. e divulgar o seu método de ensino mútuo. mas no português que aprendeu com sua ama... de muitos homens aptos a divulgar a instrução elementar (.) convidou ao célebre José Lancaster para (. e não temos uma escola normal (. muitíssimos cirurgiões.... passem por semelhantes mãos. fazendo-lhe presente de 20 mil pesos (24 contos de réis) do seu próprio pecúlio para gastos de viagem. Nesse sentido. o estudo da Língua Portuguesa. como o magistério. trataram das ciências maiores. sim. endossa as críticas ao ensino da leitura e da língua materna.7 Outro texto. e com esses objetivos. inclusive da que subjaz ao título desse texto: o que a história nos mostra a respeito do papel da literatura infantojuvenil na formação do professor? Qual é a história da formação do professor e da literatura infantojuvenil na tradição educacional brasileira? Em que ponto tais histórias se cruzam?4 Como a epígrafe que traz para este texto olhares que encaram maliciosamente as normalistas. todos os dias pedimos a Deus.

servindo-se principalmente nas localidades centrais ou pouco consideráveis. irá fazê-lo por opção consciente e não por desconhecimento de outras opções. Dói-te destas crianças atormentadas pela ignorância (. que inclua seus aspectos sociais. de bilhetes e cartas (às vezes. com a história da alfabetização. Mas precisa conhecê-los. pelo comum indecifráveis. O professor de Português deve estar familiarizado com uma leitura bastante extensa de literatura.. ser uma espécie de poliglota: precisa dominar competentemente várias modalidades de linguagem de forma que.8 Vem de 1878-79 e de além-mar um último testemunho aqui convocado: o fragmento de uma carta. que as despesas bem cabem nas forças da província. nesse sentido. na forma antipática de pré-requisitos. saem das escolas aos 13 e 14 anos de idade no mais lastimoso estado de ignorância.) e pelo caminho onde levaram a ti e a mim na leitura e na escrita.) a maior parte dos meninos aprendem a ler sem livros. sugerindo algumas práticas. devias-te lembrar de mim e de ti e desse público a quem tal Método tanto podia utilizar.) Fazes um bom serviço público. Faz tu o que eu faria no teu lugar e já te indiquei.. pelas crônicas curtas ou pelos textos infantis deve ser. ao contrário: os educadores que nos falam pelos textos transcritos contam que somos herdeiros de uma tradição educacional pobre e improvisada. oh Deus! com que letra e ortografia!) ou de gazetas que seus pais lhes fornecem. das cartilhas do Pe. e estou que em tu querendo.9 A viagem por esses textos mais antigos sugere que não estamos sozinhos. que na edição para o Brasil dedico ao chefe desse estado. Estabelecido esse chão histórico para a questão mais ampla da formação do professor. mera preferência. sem o hábito de pensarem. Daí também os milhões de analfabetos que lá há de haver. Deve. Frequentador assíduo dos clássicos. facilmente conseguirás a resolução de todos. Inácio.. entendê-los e ser capaz de explicá-los.(. da portuguesa e da africana de expressão portuguesa.. se disser nóis vai e se escrever paçarinho. particularmente da brasileira. o mestre é um demônio que nos inspira horror e a escola um verdadeiro inferno. geralmente falando. De modo que o amor dos homens e o amor do progresso te convida a este empenho. e nem somos poucos. que os próprios mestres alcançam dos tabeliães do lugar! E não é por al [sic] que os nossos meninos. quando for o caso. Em outras palavras: o professor de Português pode não gostar de Camões nem de Machado de Assis. e sem ligarem o mínimo valor ao que leem. Envia a um homem de letras ou reconhecidamente competente a tomar conhecimento deste processo de ensino.. Ora a isso acresce a singular reputação do Método e sendo tu o que és na repartição da Instrução Pública dessa província e meu amigo. ou de velhos autos. podem mapear o terreno. e depois verás que todos abençoarão a despesa e a missão (. psicológicos. como ainda cá. antropológicos e políticos. biológicos. sua opção pelos contemporâneos.. O professor de Português deve dispor de uma noção ampla de linguagem. valores e conteúdos essenciais à formação do professor. é tempo de se levantarem hipóteses que. a qual precisa ser o contexto de qualquer avaliação do que se tem feito ou dito até agora. O professor de Português deve estar familiarizado com a história do ensino da Língua Portuguesa no Brasil. Ele deve ser usuário competente da modalidade culta da Língua Portuguesa. da leitura e da literatura na escola . Já esta circunstância pedia da parte de teus compatriotas alguma atenção comigo. na qual o autor de uma cartilha portuguesa sugere que a adoção de sua obra poderia solucionar os problemas educacionais brasileiros (!): Eu tenho um Método como sabes.

uma solução: não há varinhas de condão. . produzir efeitos miraculosos. as imagens de criança que a literatura infantil brasileira assumiu e pôs em circulação ao longo de sua constituição enquanto modalidade cultural. a qual. não se confundia com a criança para a qual Monteiro Lobato criou o Sítio do Picapau Amarelo.. Como funcionaram. recentemente.) pareça querer atribuir-se a função de resolver os problemas de leitura da escola brasileira. como ainda sinalizar o caminho dos que o sucederão. e poderá. portanto. em que João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que etc. e que esta. e assim indefinidamente. compreender que a literatura infantojuvenil é um produto tardio da pedagogia escolar: que ela não existiu desde sempre. é importante: no dia a dia do currículo. No que respeita especificamente à literatura infantojuvenil. ao contrário. pelas mãos de Perrault. a qual também não se confunde com a criança que lê e se identifica com 0 gênio do crime.. como na 'Quadrilha' de Drummond. de João Carlos Marinho. Pois só assim poderá perceber-se num processo que não começa nem se encerra nele. embora sua inclusão como disciplina no currículo que forma professores de primeiro grau e no de Letras que forma os professores desses professores. É essencial. produzam os resultados esperados quando transformadas em premissas. cada uma a seu tempo. nas dobras da persuasão retórica e no cristal das sonoridades poéticas. de criança e de luz —funcionem. e nenhuma delas. É também fundamental que se entenda que a noção de criança altera-se com o tempo: que a criança da qual falava Rousseau não é a mesma para a qual escrevia Perrault. com a criança para a qual Francisco Marins escreveu a saga de Taquara-Poca. Mas para que a inclusão da literatura infantojuvenil em currículos escolares cumpra eficientemente tal papel.brasileira. por sua vez. por sua vez. iniciará o professor no estudo específico de um ramo da produção cultural que frequenta assiduamente suas classes. condições de emergir como gênero) no momento em que a sociedade (através da escola) necessitou dela para burilar e fazer cintilar. por si só. No entanto.. esta. que. outras providências se fazem igualmente necessárias. não vá. etc. as crianças do mundo moderno começaram a aprender. Assumir essa noção de infância como construção histórica sempre retomada implica perceber que a noção de criança que assumem os educadores de cada época tem tanto ou nada a ver com pimpolhos de carne e osso quanto os raios de sol têm a ver com as formulações dos físicos sobre a luz: importa que ambas as noções — no caso. muito embora. só se tornou possível e necessária (e teve. tanto dar sentido aos esforços dos educadores que o precederam. Traduzindo a historicidade dessa noção de criança para o panorama da infância brasileira e dos livros a ela destinados. cumpre ao professor de Língua Portuguesa entender que a criança em quem Jansen pensava ao traduzir clássicos infantis para a editora Laemmert era diferente da criança para a qual Olavo Bilac compôs suas Poesias infantis. a literatura infantil (talvez por falar tanto de fadas.. a seu turno. não parece que sua inclusão como disciplina no currículo de formação de professores de qualquer grau seja. é diferente do pimpolho para o qual Collodi escreveu Pinocchio. isoladamente.. isto é. no rodopio sem fim das cirandas. não é a criança para a qual Edmond de Amicis escreveu Cuore. as lições de moral e bons costumes que. no mesmo gesto. por exemplo. etc.

'Cartilhas. E. São Paulo. dentro dele. E. . p. 1985. Adolfo. 6 FRASÃO. DIETZSCH. Cartas do professor da roça. F. Por exemplo: o que separa a literatura infantil da juvenil? De novo. e com o título 'A formação do professor e a literatura infantojuvenil'. de forma a poder reconhecer quando uma ou outra se manifesta nas entrelinhas de propostas de alfabetização ou de projetos de leitura que lhe são oferecidos no meio de acervos de literatura infantil ou cursos de reciclagem. quanto o jovem ao qual se destina a literatura juvenil é outra construção. 72. 4 Cf. LAJOLO. orgs. 17-9. João de. entre os quais destacam-se disciplinas como a Pedagogia. literatura. Manuel José Pereira. T. França. sua maneira de ser. Tanto a criança à qual se destina a literatura infantil é uma construção. ver SOARES. 1988. 1991. dado que leitura. 1 Versão anterior deste texto foi apresentada no Encontro para Professores do Curso de Habilitação Específica de 2. Terceiro livro de leitura para uso da infância brasileira. p. R. Ática. São Paulo. de uma ou de outra disciplina. pode ser juvenil em outro e vice-versa. as premissas a partir das quais se pode discutir o papel da literatura infantil e juvenil na construção de um currículo para a formação de professores. 1991. ibidem. Magda B. In: MARTINS. educação e educadores são expressões que recobrem conceitos e noções assustadoramente provisórios. a Biologia e outras senhoras. Mulheres de ontem? (Rio de Janeiro-Séc. org. Maria Thereza Caiuby Crescenti. São Paulo. discuti-las sempre. 1870. São Paulo. sua natureza. na condição de satélites de construções sociais. aliás. se constrói sua estabilidade. Brasiliense. Typ. organizado pela Fundação para o Desenvolvimento da Educação. M.Assim inscritas na história. Maria Helena. De cuja provisoriedade. A. idem. p. 22. Ática. São Paulo. Questões de linguagem. 'As condições sociais da leitura: uma reflexão em contraponto'. Posteriormente. se é verdade que o educador não precisa assumir integralmente nenhuma dessas noções. 1835. A leitura rarefeita. E. 5 — Leitura: caminhos da aprendizagem. R. São Paulo. a negação do leitor'. 7 Idem. precisa conhecê-las todas para posicionar-se frente a elas. Historizada a criança — leitora virtual da literatura infantil —. que é o que se discute quando se discute currículo. & SLLVA. Discussão sempre recomeçada. Literatura infantil brasileira: história e histórias.º Grau para o Magistério. 1863-64. foi publicado no caderno Ideias. FDE. Mary Julia M. 1988. Rio de Janeiro. a Psicologia. São Paulo. Contexto. Queiroz. Abílio César. Niterói. 5 ABREU E LIMA. XIX). parece. a resposta aponta para construções. as formulações apressadas que fazem das crianças anjos ou demônios começam a mostrar os materiais e andaimes de sua construção. BERNARDES. Theodoro da. Ao conceito d e jovem cabem as mesmas considerações feitas em torno da noção de criança e mais algumas. A. p. voltado para o tema O desafio da leitura e a contribuição da literatura infantil. Ática. 55-6. São essas. 9 DEUS. político e literário do Brasil ou análise crítica do projeto do Dr. Bruxelas. Paula Brito. 2 CAMINHA. 1991. 3 Relativamente a tais expectativas. 1988. In: ZILBERMAN. A normalista. tanto o infantil de uma quanto o juvenil de outra são conceitos instáveis: o que é literatura infantil. e a importância. em determinado contexto. ambas sociais. falta ainda historizar o jovem — leitor virtual da chamada literatura juvenil. Bosquejo histórico. 2934. 8 BORGES. & ZILBERMAN. p. Leitura: perspectivas interdisciplinares.

consequentemente. entretanto. Em movimento de ajustes sutis e .2 O jovem. com seus coetâneos. eia avante. E possível. aloja-as num lugar social mais seguro. pois não sustentariam o delicado movimento de interiorização pelo qual tais categorias reforçam (determinam. leitora virtual da literatura infantil. responde. por exemplo. É principalmente nesse etecétera que atua a literatura. dando concretude e visibilidade tanto a faixas etárias anteriores à idade escolar.II1 Sois da Pátria esperança fagueira Branca nuvem de um róseo porvir Do futuro levais a bandeira Hasteada na frente a sorrir. por outro. coletivizando-lhes a identidade. atitudes. deflagram?) comportamentos. eia avante Que o Brasil sobre vós ergue a fé Esse imenso colosso gigante Trabalhai por erguê-lo de pé. quanto seccionando os anos finais da adolescência em novas categorias e subcategorias. etecétera. são construções da história. adolescência ou juventude como construções sociais não significa. destaca-se o de aprendiz. leitor virtual da literatura juvenil. Considerar infância. ao mesmo tempo. ao ente assim construído. Mocidade. Em face dessa historicidade. A construção da imagem do jovem ou do adolescente parece ter sido o passo seguinte. fruto do progressivo estudo do comportamento. prosseguindo a segmentação com especificações à esquerda e à direita. usando de suas diferenças biofisiopsicológicas para atribuir. desenvolveria aprendizagem mais indiferenciada do que aquela que adquiria com os antigos mestres ou com a família. O resultado é uma visão cada vez mais nítida dos indivíduos e dos segmentos populacionais que. tornam-se mais conhecidos e. de um lado. O reconhecimento de diferentes fases ao longo da vida e a distribuição das populações por tais faixas é. mais acessíveis. não funcionariam. não seriam convincentes e. outras segmentações se foram tornando necessárias no interior desse primeiro grande segmento dos não adultos. portanto. o de indivíduo que. não teriam credibilidade. isto é. recobertos por tais categorias. esperava dele. dez e quinze anos. modos de ser mais compatíveis com aquilo que a sociedade estava preparada para oferecerlhe e.3 Se a “construção” da infância ocorreu ainda no século XVIII — contemporânea da Revolução Industrial —. sentimentos. com o passar do tempo. não tem sentido atribuir-se universalidade/objetividade/imanência a tais categorias. bem como a criança. reconhecer o processo pelo qual se inventou a infância como categoria social. pelo agrupamento de pessoas em torno de certas características comuns que. manipuláveis. Não foi sempre que tais categorias existiram. controláveis. reunidos coletivamente em espaços sociais denominados escolas. Entre os novos papéis que ajudaram a atribuir identidade à infância. muito embora as pessoas tenham sempre tido sete. que tais construções não tenham sustentação objetiva: se não a tivessem.

Mas nem por serem mais rudimentares as daquele tempo. composto de comportamentos. porque inculcava comportamentos e atitudes de passividade nas crianças. para cuja distinção não bastam os decímetros a mais de altura e de busto. pois. a partir daí consentida e aceita como marca jovem. junto com os primeiros long-plays para as vitrolas que se chamavam hi-fis. mais do que isso. matiza-os. aqui desembarcaram essa noção de juventude. vinham também do irmão do Norte modelos de rebeldia. consolidar. Mas a partir de tais considerações sugerir que tal literatura seja perniciosa porque a criança não é. eis que ela se transforma em jovem. Por esse tempo. sentimentos. sentimentos e comportamentos de criança e de adulto. prevendoos. Cumprem todas a função para a qual existem: traçar. reforça-os. nem passiva. por objetos que substituíam a aura de durabilidade dos antigos bens pela modernidade frágil dos novos tempos. pelas madeiras claras. sentimentos e atitudes. por exemplo. hábitos. Os primeiros modelos de tais comportamentos vêm da Hollywood que então exportava o American way of life que recebiamos eufóricos. Nesse contexto. negros e índios. É. Pois ninguém. Eletrodomesticadas. nem nada. dos sentimentos e atitudes que definem esta ou aquela faixa etária. de criança e de jovem. utopias e rebeldias. sentimentos e problemas específicos. pelos plásticos e vidros coloridos. por natureza. Multiplicavam -se os carros. Não foi muito antes dos anos cinquenta que chegou ao Brasil a ideia de que a juventude (adolescência) constitui faixa etária determinada. as mulheres já usavam calças compridas e suéteres com muito mais desenvoltura. um imaginário comum. distintos dos problemas. dirige-os. pelo pé palito. dos comportamentos. Mas. vai muito além de sua circunstância. com comportamentos. e nem por se respaldarem as nossas nos prometidos rigores da Psicologia. enfim dos outros das definições binárias e simplistas. Nessa época o país trocava móveis pesados e escuros pelo compensado. as categorias dos que lidavam com a segmentação dos menores em diferentes faixas etárias eram muito menos sofisticadas do que as que hoje orquestramos. que a literatura torna-se fator importante na imagem que socialmente circula. pode revertê-los. quanto. . a literatura tanto gera comportamentos. com a cultura de massa dos anos cinquenta. hábitos. uma ou outra são menos ou mais eficientes. James Dean e Élvis Presley são a juventude sadiamente transviada. de representações e do imaginário coletivo. que o balanço das horas de Bill Halley e seus Cometas inaugura como marca de juventude. começa a distinguir-se a criança do jovem. A argamassa mais visível a cimentar tal identidade foram os hábitos de consumo que. alterá-los. criada a criança. é erro grave. pois supõe que as crianças sejam por natureza alguma coisa. O engano é o mesmo que ocorre em similares formulações relativas à “natureza” das mulheres. É preciso. matizar e redefinir o roteiro pelo qual se pauta a construção do imaginário dos valores. atenua-os. E possível considerar. por atuar na construção. preconizava obediência aos pais e submissão aos mestres. difusão e alteração de sensibilidades. nem submissa. que a literatura infantil mais antiga era conservadora. enfim. e chegava à televisão. nem obediente. nem os primeiros fios de barba e tampouco as primeiras derrapadas da voz que engrossa.constantes. por exemplo. No mesmo pacote. Pedagogia e Biologia.

ensinando.Naqueles idos. Por isso. as bibliografias. maquiar e marcar o produto que anuncia. estes eram. os livros estão apresentados com um resumo elucidativo quanto ao conteúdo. por exemplo. orelhas e similares. as resenhas. Ou seja. cujas fichas indicavam terem lido e apreciado determinado livro. Das pioneiríssimas atividades de Lenira Fraccarolli à frente das bibliotecas infantis paulistanas4. É o trânsito de um modo capitalista incipiente para um mais desenvolvido. destacam-se os catálogos das editoras. É na esteira dessa especialização progressiva de mercadorias e de mercados que adquire nitidez maior a noção de literatura juvenil. Assim. indicação das séries a partir das quais o livro pode ser lido. reforçando uma e otimizando outra: são essas providências que garantem a sobrevivência no mercado. a inclusão de um livro na lista dos recomendados para esta ou aquela faixa etária ocorria a posteriori: a faixa etária era obtida a partir da média de idade dos consulentes de bibliotecas. pode-se dizer que juvenil é toda obra que assim for considerada pelo seu editor. menos descartáveis do que hoje. faixa de idade a partir da qual o livro pode ser bem compreendido e apresentação dos principais temas que o texto aborda. criando uma em função da outra. no caso dos livros juvenis. quando o usuário do catálogo transforma-se em leitor do livro. sendo a previsão de comportamentos e expectativas fundamental na produção industrial de mercadorias — que é o modo contemporâneo de produção da literatura infantil e juvenil —. no caso dos livros. as coloridas e geralmente bem diagramadas páginas de um catálogo são documento muito importante para o estudo de livros. que juvenil é o texto que consta de catálogos de editoras voltados para o inventário da produção “juvenil” daquela editora. capas. A complexidade crescente da indústria editorial moderna exige compatibilização de demanda e produção. ao catálogo de publicações infantis e juvenis de uma editora contemporânea de sucesso. orientando uma pela outra. Se é verdade que na época havia menos livros. que informa: Nesse catálogo. as informações que o catálogo fornece a respeito das obras que nele constam transformam-se. sob todos os pontos de vista. Vê-se isso.5 . Ou seja. no catálogo de literatura juvenil da editora Moderna. com o mesmo direito que Mário de Andrade usou para dizer “conto é tudo aquilo que autor achar que é conto”. o catálogo acaba construindo uma das imagens pela qual seu produto fica conhecido. o percurso que se contempla é o modo de produção dos livros infantis e juvenis. um livro que aspira ao circuito escolar é circundado — no catálogo que deve promovêlo junto aos professores — de um conjunto de informações que só constam no catálogo por corresponderem à imagem que os editores fazem do que é e do que não é relevante para o professor que adotará o livro. Um bom catálogo vai muito além de divulgar os títulos que elenca: além de envolver. e que se entende a dimensão sobretudo mercadológica dos livros voltados para jovens: qual é a imagem de jovem em circulação nos meios que consomem literatura juvenil? Entre os espelhos que refletem essa imagem. nas categorias que prioritariamente o leitor procurará e (com grande chance) encontrará no livro. de novo o que se vê é a adequação de ambos os processos a cada um de seus momentos.

) instrumento prático para orientar e informar a todos aqueles que lidam com o livro e necessitam adequálo às faixas interessadas e ao nível de leitura de seu público. por exemplo. um catálogo da editora Melhoramentos é também bastante explícito relativamente às funções que pretende cumprir. e acaba transformando-se em categorias de leitura para os usuários do dito catálogo. Didática e Paradidáticos.7 Mas a aprendizagem que os catálogos patrocinam vai ainda além. em que no catálogo de obras juvenis pode repetir-se a folha de abertura do catálogo de infantis da mesma editora. a unificação de títulos em séries faz-se em torno e a pretexto de uma particularidade que. em relação às demais. poderíamos chamar de estrutural. que os livros só em casos raros são anunciados individualmente. e leitores transformam-se em consumidores compulsórios. especialmente escritos por autores consagrados da literatura juvenil. A qualidade de um título responde pela qualidade dos outros.. E. Os livros da série. é mais sofisticado do que o mero agrupamento de títulos aconselhados para esta ou aquela faixa de escolaridade. escolarização da noção de jovem. no entanto. Os efeitos de generalização que. Atividades. Para atingirmos este objetivo. apresentada pelo catálogo juvenil da editora Melhoramentos: A Série Alternativa parte para uma nova ideia em literatura: criar uma situação que permite ao leitor participar ativamente do desfecho da história. Em alguns casos.. em grande número de catálogos manifesta-se invejável (ainda que discutível) nitidez de fronteiras entre diferentes gêneros no interior do conjunto de modalidades que circulam pelo espaço escolar: a compartimentalização acaba sacramentando as subdivisões que propõe. sofre a categoria leitores parecem dispensar comentários: sua distribuição ao longo de determinados segmentos sugere que a escola é o grande entreposto dessa mercadoria e que seu imposto é a escolarização do leitor. entretanto. os pacotes são emblema da necessária racionalização do processo de produção. escrevendo ele mesmo o desfecho ou apresentando soluções segundo . nesse percurso. E superpõem-se exatamente no caminho de seus intermediários. e facilitar o manuseio. o interesse por um texto pode deflagrar o interesse por outros. Muitas vezes. Na medida. fica sugerido que os percursos da literatura infantil e da juvenil — pelo menos até certo ponto — superpõem-se. quais sejam. organizamos várias secções: Literatura Infantil. o elemento unificador de uma série. à falta de melhor termo. Em termos de investimentos. professores. a relevância de um tema contagia o tema dos outros livros. como ocorre. por contágio. por exemplo. com a série Alternativa. tais medidas delineiam um movimento de otimização: de chocolates a automóveis — passando pelo livro — a produção em série é a marca da produção industrializada. pedagogos e bibliotecários. unificados em último caso pela faixa de escolaridade a que se destinam. ou seja. o que gera escolarização da leitura e do texto. têm como principal característica oferecer a opção entre dois finais e ainda convidar o leitor a propor um terceiro. diferentes profissionais da leitura. Agrupados em séries e coleções.No mesmo sentido.6 Assim. Observa-se. define-se como: (. que estão na encruzilhada na qual crianças e jovens transformam-se em alunos.

numa aparente ruptura da hegemonia de quem escreve sobre quem lê. finalmente. . Reconhecerá um certo ar de família. Indigesta. E só. SP (Faculdade de Ciências e Letras Tereza Martin/ECA-USP/ Secretaria de Estado de Educação). 1 Com o título 'Expectativas em torno do texto literário infantil e juvenil'. parentesco distante. depois via professor e.. em 1989. sim e urgentemente. entre outras razões porque ela é já agora necessária. mas digerível. 2 Canção escolar A mocidade acadêmica (Hino) — música de A. Esta catadupa de modernidade apregoada proporciona ainda uma outra informação subsidiária: a de que os textos que integram tal série são todos escritos por autores consagrados da literatura juvenil. por tabela. que reivindicamos em prol da leitura e dos livros. Pois é. talvez filhos ilegítimos. avalizando. no texto com que o catálogo anuncia a coleção. semelhanças e parentescos. a partir do título da coleção. Carlos Gomes — letra de Bittencourt Sampaio. como a esfinge: “Ou me decifras. mas também para o respeito aos leitores: afinal. escaparmos. repercutem positivamente. A indústria nos espreita e nos desafia. Pois polifonia explícita e abertura frontal acabam configurando ingerência autoritária (primeiro via série. evidentemente. o texto que apresenta a série Alternativa sugere participação ativa.”. de entendê-la e de aprender a lidar com ela. em que nos envolvemos. via texto) no que era solidão de leitura. mas parentes. 3 A História social da criança e da família de Philippe Ariès é um dos textos que mapearam de forma convincente a historicidade da infância.suas próprias emoções despertadas pelo que acabou de ler. obrigatoriedade de pluralismo no que era liberdade do leitor.8 Algumas das expressões constantes do texto acima. Estudá-los e discuti-los não conduz. então. quem estiver familiarizado com discussões acadêmicas sobre arredores do texto literário encontrará. que parece gravitar na órbita de formulações de Teoria Literária contemporâneas: da polifonia de Bakhtin à obra aberta de Umberto Eco. a existência do gênero literatura juvenil: tão consistente que tem até autores consagrados. Esfinge de nossos dias. com o máximo de decoro e de dignidade possíveis. uma versão anterior deste texto constituiu palestra no I Simpósio Estadual sobre Literatura Infantojuvenil. a terçar armas com a indústria editorial. ela nos espreita em cada uma das muitas dobras e dos muitos avessos dos generosos projetos que engendramos.. é verdade.. do ritual de devoração que nos reserva papel de iguaria. Carecemos de pistas para a charada: para. o que garante a margem de segurança necessária à experimentação. decifrando-a. múltiplas e insubstituíveis as lições dos catálogos. ou te devoro. frisando o caráter inovador da coleção. oferecendo opções de leitura e instigando o leitor a escrever ele mesmo o desfecho. O texto é ainda pródigo em expressões que apontam não só para a modernidade da experiência.. Trata-se.. antropofagicamente. devorá-la. assim. Mas o parentesco não elide as diferenças. É preciso decifrar a esfinge.. São. sendo no ano seguinte publicada nos anais do referido evento.

4 5 6 7 . 1989.Conferir a Revista do Arquivo Municipal. 8 Catálogo da editora Melhoramentos. de 1940. Catálogo da editora Melhoramentos. 1989. Modos concretos do que se está aqui chamando de escolarização do texto são discutidos no ensaio homônimo neste volume. da prefeitura do município de São Paulo. 1989. Catálogo da editora Moderna.

se encontram menos. o trazer ou não a chave é senha para cativar leitores: tanto o professor que encomenda a redação quanto o público que deve consumir o romance. ou seja. Magros bolsos! Cidadãos sabidamente econômicos. Do aluno obrigado a escrever uma redação que lhe garanta nota mínima na prova. Da adequação ao tema à excitação das cenas eróticas. Quem quer que já tenha algum dia rabiscado maltraçadas. crer que há vida inteligente por detrás dos óculos. que pode ter perdido. pior para o autor. que os tenho de diferentes tipos. Eu. não obstante essa impalpabilidade. aqueles que efetivamente leem o que escrevo. no texto que leem.. com tal verba... creio firmemente na existência de tais seres. e..2 É na posição do leitor que se encontram as credenciais mais fortes para quem quer discutir o perfil do indivíduo que. pergunta ao escritor que não pode esquivar-se da resposta: trouxeste a chave? Com ou sem chave. no fim do ano. do suspense sobre quem matou Roger Ackroyd à perfeição das crases e concordâncias.. Assim sendo. Benditos leitores! . no desencanto do desencontro. ESSES TEMÍVEIS DESCONHECIDOS1 Se o autor real deve ser considerado como ambíguo e misterioso. parece igualmente verdade que o leitor real. leitores desfrutam de imenso poder. seu precioso leitor. no chope que a acompanha. perdido na história. leitor e escritor são faces da mesma moeda... o que nele foram buscar: se encontram mais do que esperavam. mas. brindando. Pois o leitor. coloca-se no papel de alguém que tem de cativar seus leitores. acredito que disponho de leitores. perdido na história contemporânea. a frustração das expectativas do leitor tem preço alto: a indiferença do público e a nota baixa se equivalem como gesto soberano de o leitor dizer ao escriba: não. como o freguês do botequim. a generosa fidelidade dos leitores que financiam tão frugal repasto. no silêncio de sua leitura. melhor para eles. livro aberto nas mãos.OS LEITORES. sendo a mais concreta de todas expressa em cifrõe$ e cifrinha$: torna-se indiscutível a existência de leitores quando se sabe que cerca de 10 por cento do que eles pagam quando compram livros vão para os bolsos dos escritores. parece que tem sempre razão.. os autores podem. A existência desses leitores de carne e osso manifesta-se de diferentes maneiras. ambos precisam encontrar. mais ainda. não trouxeste a chave. não obstante as quedas de braço em que às vezes ambos se confrontam. ainda que sejam extremamente voláteis. o autor precisa crer na existência desses evanescentes seres de óculos. Não crer nesse impalpável ser supralinguístico faz os escritores definharem e até morrerem. ao festejado autor de best-sellers milionários. e confesso que prefiro os mais visíveis. não é menos misterioso nem — às vezes — irrelevante. por exemplo. financiar uma pizza média para a família.

assim. são os preferidos. Desses leitores-interlocutores de carne e osso. num ato de leitura quase incestuoso: é de antemão conivente com o que disse escrevendo. texto para congresso. Como leitora assídua de tais textos ocupo posição muito mais confortável: posso. referindo. citando. fechar a caneta. confio aos gentis leitores a tarefa de se explicarem ou se demitirem. Dizendo. sobretudo. vão. escritores. como já disse. os que discordam são dignos do maior apreço. então.Tais leitores. extrair da fragilidade aparente dessa posição de quem usualmente não tem acesso à palavra e. livros infantis e juvenis. no entanto. Como autor. afinal. que os textos que . finalmente. feitas agora do ponto de vista de leitora. Pois desconfio. e da qualidade e da adequação do texto em que se diz o que se diz. por mais que através de gracinhas ou graçonas o autor tente tornar-se íntimo de seus leitores. tanto mais se respeita. Como autor. redação de escola. às vezes. tal esforço talvez não apague nem atenue a distância que separa autores de leitores: o leitor é irmão. literatura. com a música do vizinho e a televisão das crianças. com o prazo do editor e. É-lhe proscrito. Sobem na vida e ganham. com a falta delas. ingredientes fundamentais do pacto que escritores e leitores celebram desde que o mundo passou a circular em folhas impressas. em resumo. é-lhe vedado desligar o micro. e meus botões compartilham desta desconfiança. No entanto. como autor do texto que lê. palmadas e piscadelas de olhos. abandonar o lápis: tem de cumprir até o fim sua luta com as palavras. concordando. por mais que o narcisismo dos escribas possa comprazer-se em intermináveis considerações autogratificantes sobre eu & meus leitores (que podem nada mais ser do que projeções deles. reunidas em livros vendidos em lojas especializadas. além dessa existência grosseiramente econômica.. particularmente do ponto de vista de leitora cativa e profissional de textos que tematizam leitura. os pretendidos: escreve-se. com o leitor que sempre o ameaça com suas prerrogativas de abandono definitivo do texto. é-lhe vedado o gesto que sela a suprema liberdade do leitor: fechar o livro. no contexto da escola brasileira de hoje. Os que reclamam. com o calor. Solidão e silêncio. fechar o livro quando quiser.).. o diálogo. perguntando. o distanciamento. tentando transformá-los. consequentemente. e no espaço que resta emigro para considerações outras. em interlocutores e comparsas. fazendo-os crer que compartilham de sua intimidade. mas é hipócrita. Mesmo quando um autor se lê. que algum desafeto da laboriosa classe dos escritores poderia reduzir à categoria de compradores/consumidores de livros.. quanto mais se lhes dão piparotes.. empurrar a máquina. capítulo para livro ou até mesmo uma prova para alunos — tem-se a intenção de convencer os leitores do que se diz. talvez só aparentes. a imensa força do silêncio e da solidão. No entanto. necessariamente. Mas posso. o escritor faz a fineza e a justiça de expor aos leitores seus melhores argumentos. Ao escrever — não importa se resenha de jornal.. a surpresa. por assim dizer. o estatuto de leitores mais íntimos: são aqueles que numa aula. os quais. numa palestra ou numa carta abordam o escritor. que leram. muito embora não sejam.. parece não ter direito à voz. lê-se com olhos viciados. para que se concorde com o que se escreve. Com tal objetivo.

gostamos de pensar que somos. Nosso parentesco ultrapassa idiossincrasias como gostarmos de Machado de Assis e não gostarmos de Sidney Sheldon. falando sobre ele-texto. acidental e circunstancialmente sob nossa influência e responsabilidade. posto que anônimos. Somos. pelo texto que o vende. Como membro de um hipotético clube de leitores profissionais. apresenta-o. atingir-nos a nós. fica interessante conversar sobre seus estatutos. em uma espécie de atravessadores. em uma palavra. Em outras palavras: a imagem com que tais textos nos representam corre o risco de afivelar-se ao nosso rosto como máscara. quinta série ou segundo grau) supõe. promove-o: em uma palavra. Todos nós. não só pelo texto que indicamos para nossos pupilos.. Sinal que também aguardam crianças. constituindo uma espécie de corporação de leitores oficiais. que aguardam de nossas recomendações oficiais e conversas oficiosas o sinal verde. atingir esse leitorado (público consumidor?) infantil ou juvenil que a escola se incumbe de arregimentar. sagrem-se leitores. Aparentamo-nos pela força de nossos empregos. mais desejável. É essa responsabilidade que nos transforma. livros do professor. mais indicado para este ou aquele contingente de jovens.) avalistas. transformamo-nos em alvo dos que pretendem as mãos. confraria que dispõe de autoridade (!) e razoável poder (!!) em assuntos de leitura e de linguagem.. os olhos e os bolsos das crianças e jovens já igualmente desindividualizados na categoria leitores-de-livros-infantis-ou-juvenis. somos leitores muito especiais. mais adequado. a quem cabe a decisão sobre o que é melhor. A nós. Dizendo de outra forma. divulga-o. Assim. porque somos (ou. num mercado organizado em função de uma clientela que mantém relações enviesadas com a mercadoria que compra: é para legitimar e avalizar tal viés que precisamos ser seduzidos. E. Ou. E para tal compreensão precisamos contemplar. pois na condição de leitores profissionais somos só coletivo. apresentações de coleção e similares. pois. melhor dizendo... esta polêmica senhora que nos reúne em tão concorridos saraus... profissionais da leitura. pela aura da confiança e expectativa que a comunidade deposita em nós no que tange à leitura. de leitores. e temperando as palavras com dose generosa de otimismo: aparentamo-nos pela posição que ocupamos no sistema cultural. à luz clara do meio-dia. mas pelo texto que. mediadores e intermediários dos textos que almejam circular na escola e nos seus arredores. encostamos nossa solidão e nossa identidade na identidade e na solidão de milhares (centenas? milhões?) de criaturas que comigo e conosco integram o segmento de público para o qual escrevem os que escrevem sobre tais assuntos. o retrato de nós mesmos que esses textos apresentam. discutindo os direitos e os deveres dos associados e o regulamento da agremiação. arautos.tematizam leitura no contexto escolar não têm leitores individuais. deixando nossa face na . pressupostos e regulamentos. pelo prestígio de nosso compromisso com textos e livros. catálogos. isto é. fundamental que compreendamos o papel de leitor que tais textos nos reservam. lendo tais livros. reunir e homogeneizar em torno de uma categoria qualquer (préleitores ou pré-adolescentes. vá lá. em primeira instância. jovens e mestres de ambos para que. membros desse clube. É.

sombra. E. Pois o retrato acima apresentado é a nossa imagem tal como ela nos é apresentada por quem n o s vende os livros que devemos vender aos alunos. falamos de leitores. profundamente insatisfeitos com o autoritarismo de avaliações sistemáticas e rigorosas de atividades de leitura. Ou seja: o escritor interessado em seduzir o outro tem de construir hipóteses relativas ao leitor que deseja seduzir. tão despreparados. tão assoberbados de aulas? Reconhecemo-nos nessa eficientíssima. muito pouco metafóricas: certamente. quando. Dentre tais hipóteses. antecipando suas expectativas. não já do criminoso. levemente desconfiados do papel dos clássicos em tal empresa. sobretudo. honestamente comprometidos com um projeto de educação que conduz à leitura crítica do mundo.. com nosso apoio e aval.? Por que desconfiaríamos de tão belo retrato? Sorrimos de beatitude na contemplação de tão simpático retrato: somos nós mesmos. moderna e simpática figura? Sim e não. Vendas. já se vê.) quem o tirou. sobretudo. chegar aos consumidores escolares. salientam-se as que respondem a questões que quem almeja a sedução tem de responder-se: 1) que imagem este(a) outro(a) tem de si mesmo(a)? 2) que imagem este(a) outro(a) gostaria que eu tivesse dele(a)? Enquanto como leitores a história nos reserva o papel de seduzidos(as) e não de sedutores. professores e educadores envolvidos com a leitura — na imagem que de nós traça o material didático e paradidático que pretende.. acabou omitindo. Mas é difícil que nos reconheçamos como vítimas. comprometidos com o prazer (e não com o dever) da leitura. dentre as mais importantes. de que ponto de vista. por ser retocado. algumas são mais importantes do que outras. transformam em consumidores pagantes aqueles leitores tão inofensivamente virtuais de que falamos. elas também fazem aceitar com naturalidade as eventuais rugas e cabelos brancos que o retrato.. suas reações.. como detetives de um bom livro policial vamos em busca. informados e convencidos da importância da imaginação e da fantasia na formação do jovem e. com que finalidade e para que álbum. Para dialetizar esse hamletiano ser e não ser. tem-se de considerar que para seduzir o leitor há que pôr-se em seu lugar. E que imagem de leitor tais textos apresentam como nossa? Para responder à questão. mas da vítima: nós mesmos.. por que desconfiaríamos de uma fotografia que nos representa como professores modernos. Mas tal imagem lisonjeira — um pouco inverídica porque muito retocada — certamente se . Se as respostas a tais questões podem congelar um pouco o sorriso que brota da contemplação da foto. a partir de um ponto qualquer. suspenda-se por instantes a gratificante contemplação desse nosso generosíssimo retrato e pergunte-se (ou. Somos e não somos. com que tipo de máquina. responda-se. tão mal pagos. academicamente. sinceramente empenhados em motivar a leitura dos jovens..

E que. contagiando o produto com a qualidade do agente de vendas. competente. nos consideremos competentes. no solitário diálogo com nossos botões. 2 GIBSON. mais ainda. ofuscado e emudecido pela surpresa de ver-se retratado em cores e formas tão favoráveis. E. se são sedutores — e é inevitável que o sejam —. É exatamente para que a vendamos com eficiência que — comissão antecipadamente paga! — nosso retrato é traçado de forma tão lisonjeira. em forma de fantasma ou não’ nos anais do referido congresso. Jane.constrói com material cunhado em situações nas quais diferentes escalões de profissionais de leitura constroem e afinam a linguagem com a qual. falando de leitura. é o material que um educador com tais predicados elegeria para trabalhar? É claro que não se descarta a hipótese de que a resposta a todas essas questões seja afirmativa e que. transformam livros. que achemos este ou aquele livro muito bom e que o transformemos em instrumento de nossa proclamada competência. leituras e leitores em mercadorias como qualquer outra: tão mercadoria que cumpre vendê-la e comprá-la. não precisam.. ser verdadeiro em certos casos. Walter. é necessário que este livro venha me dizer isso? Este material que me declara interessado. construindo sua identidade de leitores-profissionais. em regra geral. apresentado como feição do rosto o que é perfil desejado do produto. responsável. 1980. tenhamos uma saudável desconfiança face a qualquer máscara de leitor. responsável. . realizado em Campinas em 1989. orelhas e apresentações de livros didáticos e paradidáticos são as galerias de onde nos contemplam esses incríveis retratos de nós mesmos. competente e interessado. Que. Em princípio tudo isso é possível. se muitas vezes nessa linguagem figura com destaque uma retórica salvacionista e apocalíptica. The John Hopkins University Press. speakers and mock readers'. Baltimore & London. face a cada material que recebemos para eventual adoção: Eu sou esse mesmo que está ai representado? Se eu sou assim tão bom. Catálogos de editoras. In: TOMPKINS. E é essa dúvida que torna oportuno que. fixando como expressão dos olhos o que é rótulo de embalagem. e posteriormente publicado com o título 'De autores e leitores. Ou seja: há que indagar-se. fechar-nos os olhos para eventuais discrepâncias entre o retrato e seu modelo. reconheçamos em uma ou outra peça publicitária o direito de proclamar essa nossa competência e. 'Authors. Mas não sempre nem em todos os casos. falam de si mesmos. evidentemente. como leitores. ideologicamente rearranjados. org. que nos queiram impingir.. quartas capas e contracapas de coleções infantis e juvenis. E. é nela que se encontram os elementos que. na esteira de Cecília Meireles. criativo. Reader — response criticism. pela força da sedução que exercem. a contemplação no espelho que nos põem na mão seja solitária. E deve. mesmo. criativo. assim ou assado. forma única de buscar resposta menos provisória à pergunta fundamental: em que espelho ficou perdida a minha face? 1 Este texto foi originalmente apresentado na mesa-redonda “De leitor para leitores: a produção do que se lê” durante o 7 Congresso de Leitura do Brasil.

pouquíssimos mesmo. fora desta especialidade. São desavenças tão antigas que. têm. uma sólida reputação nas letras. ressalta o calão popular e o termo chulo. o que seria pior. faz diagnóstico semelhante ao do poeta: (. fazendo-as ter medo de coisas que não existem (. apontando também o anacronismo estético da poesia destinada à infância: Não será novidade nenhuma dizer que é excessivamente escassa a nossa poesia infantil. como para o adulto.4 Mais tarde um pouco. Uma poesia infantil conheço eu. o que há é pouco e raramente bom. Contemplando o panorama da literatura infantil brasileira.. A maior parte deles são escritos em linguagem incorreta onde. por vezes.2 Parecem antigas as desavenças entre poetas e o uso que a escola costuma fazer da poesia.) autores ainda não saiu do Parnasianismo.POESIA: UMA FRAGIL VÍTIMA DA ESCOLA1 Para a criança.. Ao longo do tempo que nos separa da publicação dos versos bilaquianos. frisa o receio de que o seu fosse um: (. no gênero. cheio de histórias maravilhosas e tolas que desenvolvem a credulidade das crianças. Falando dos medos que o assaltavam a propósito de seu livro.. o editor de Alma infantil. falso. (. Verdade é que poucos de nossos escritores didáticos. o editor e o crítico. a eternidade é um sonho inconfessado mas vigilante.) Em certos livros de leitura que todos conhecemos. Olavo Bilac já alude à precariedade dos textos poéticos de que dispunha a infância de seu tempo. um livro como tantos há por aí. na apresentação de suas Poesias infantis.5 As citações acima revelam unanimidade de julgamento de três instâncias da instituição literária: o escritor. em 1904. Têm um atraso de vinte ou trinta anos em relação às correntes de poesia recente e hoje dominantes... bem como o gosto poético da maioria de professores. em vez de educar as crianças. Todos os professores se queixam disso. E basta percorrer um pouco a nossa paupérrima literatura de crianças para nos convencermos de que. fazem períodos sem sintaxe e versos sem metrificação. nos arredores de seu início. familiarizando-as com as formas dialetais mais plebeias.. no . que não tem um só verso certo!3 Na década seguinte. o panorama da poesia infantil brasileira parece ter sofrido consideráveis alterações.) é preciso dizer desde logo que toda a poesia dos nossos mais recentes livros escolares..) livro ingênuo demais. dispensam-lhe todos o mesmo veredito implacável. Esses livros. inspetores e (. a voz acatada de Alceu Amoroso Lima constata a baixa qualidade dos versos infantis. ou.. guiando-lhes o gosto pelas coisas belas e elevadas. querendo evitar o apuro do estilo.6 Tais alterações. longa. os autores. pois. de Francisca Júlia e Júlio da Silva..) as nossas escolas do estado estão invadidas de livros medíocres. viciam-nas desde cedo..

entre leitura e escola) são sutis e complexas e não se resolvem por uma melhor seleção de textos. as teorias que incluem. as formulações de Roman Jakobson7 relativas à função poética e que se encontram diluídas e simplificadas em vários manuais escolares contemporâneos. postulando a possibilidade de identificação e isolamento do ou dos elementos que dão conta da literariedade do texto em que se manifestam. fortalece-se a hipótese de que a solução do problema resida na exigência de qualidade do texto oferecido à criança. Algumas teorias da literatura tendem a considerar a especificidade literária de um texto como imanente. na noção de literariedade. se atualizam mediante a leitura. Para isso. Qualidade de texto é imprescindível. planejada. limitada no tempo e no espaço. são as mesmas teorias que permitem a identificação de elementos que. Não é. de outro. a prática de leitura em vigor nas escolas. consequentemente. entretanto. por exemplo. não é de estranhar que seja atribuída à baixa qualidade desses textos parcela grande da responsabilidade pelo perfil duplo da tão debatida crise de leitura: ela é. as condições institucionais nas quais ocorre a leitura dos textos de cuja literariedade elas se ocupam. latentes no texto. em suas reflexões. tão essencial para trabalhos coletivos e dirigidos como é o da leitura que a escola patrocina. solidão e gratuidade que caracterizam a leitura prevista pelas teorias da literatura que desconsideram. As relações entre literatura e escola (e. não podem ser inteiramente descartadas: elas viabilizam a sistematização da leitura. . literatura e escola. quantitativa (é pequeno o número de livros que circula entre os estudantes) e qualitativa (o modo de leitura que a escola patrocina parece inadequado).entanto. Sendo ainda hoje pobre o repertório disponível para a seleção dos textos que integram os livros escolares. no entanto. de um lado. Dentre estas. uma vez que a prática de leitura patrocinada pela escola é dirigida. Tais teorias. Fish. Tais atributos tornam a leitura escolar bastante afastada da individualidade. qualquer leitura nem qualquer leitor que atualiza essa virtualidade. as expectativas qualitativas e quantitativas que alimentam educadores em relação à leitura dos jovens e. talvez não sejam as que mais contribuam para a discussão sistemática e fundamentada das relações entre leitura. Postulado o desencontro entre. o leitor e a prática de leitura são mais adequadas. Ledo engano.8 que inscreve a literariedade de um texto na experiência de leitura. mas não é tudo. quaisquer que sejam os critérios dessa seleção e mesmo que ela (seleção) privilegie critérios estéticos. Levar em conta a interação leitor-texto para discutir literatura parece dar conta de forma mais adequada do modo de inserção da literatura na vida escolar. Tampouco a virtualidade do literário se atualiza da mesma forma em diferentes leitores ou em diferentes leituras de um mesmo leitor. É para onde apontam. Por outro lado. pode-se destacar a de S. ao mesmo tempo.9 As teorias da literariedade imanente. no entanto. parecem não ter sido suficientes para invalidar os desencontros e entreveros que marcam o relacionamento literatura e escola e em particular o relacionamento poesia e escola ao tempo dos depoimentos acima transcritos.

. pode-se incluir. postulamse — para viabilizar a hipótese de que o literário resulte de determinada forma de interação entre leitor e texto — pré-requisitos para que a leitura se configure como literária para o leitor. a mera inclusão de textos tidos como bons e superiores entre os textos escolares não soluciona nenhuma das faces da crise de leitura. o aumento progressivo e paulatino da familiaridade do aluno com textos que ampliem seu horizonte de expectativas.A atualização da literariedade em latência depende de certa interação do texto com cada um de seus leitores. sem concessões. qual seja. Assim. revelando-se diferente para diferentes leitores. Em outras palavras: leitor e texto precisam participar de uma mesma esfera de cultura. para que ocorra a interação entre o leitor e o texto. e para que essa interação constitua o que se costuma considerar uma experiência poética. a manifestação da função poética decorre de determinada manipulação dos elementos de linguagem. no correr do tempo. É fecunda. É assim que. finalmente. Retomando agora os motivos pelos quais teorias interacionistas contribuem mais significativamente para a discussão do relacionamento entre literatura e escola. que frequenta com certa assiduidade manuais escolares. O que estou chamando de esfera de cultura inclui a língua e privilegia os vários usos daquela língua que. tendo a sanção dos canais competentes. a discussão jakobsoniana da literariedade a partir de determinadas ocorrências de linguagem. Na medida em que os elementos de que se constitui a especificidade do poema estão na linguagem e na medida em que a linguagem é uma construção da cultura. No entanto. de forma diferente em diferentes momentos ou em diferentes leituras do mesmo poema. entre as funções da escola. da mesma forma que se reconhece certa especificidade do texto literário. Por isso. Pois a presença de um excelente texto num manual pode ficar sem a contrapartida. o mesmo gesto que postula a natureza linguística dos elementos que respondem pela função poética reconhece também que a manifestação da função poética realiza-se sempre de maneira histórica. é preciso que o leitor tenha possibilidade de percepção e reconhecimento — mesmo que inconscientes — dos elementos de linguagem que o texto manipula. numa perspectiva de familiaridade crescente com esferas de cultura cada vez mais complexas que incluem. configuram a literatura. o texto tido como bom pode ser diluído pela perspectiva de leitura que a escola patrocina através das atividades com que ela circunda a leitura. embora as teorias da imanência e da objetividade da literariedade não sejam suficientes. aqueles textos que. bem como para boa parte dos teóricos de linhagem estruturalista e formalista. vamos estudar o caso do poema de Cecília Meireles: 'O vestido de Laura'. Esse texto aparentemente satisfaz os requisitos de qualidade: é assinado por um dos poetas maiores da literatura brasileira. Para ilustrar esse ponto de vista. foram constituindo a tradição literária da comunidade (à qual o leitor pertence) falante daquela língua (na qual o poema foi escrito). no limite. é um texto que suporta. isto é. para Jakobson. nem por isso elas deixam de levantar elementos fundamentais para uma teoria que conceba a literatura como interação. por exemplo. é extraído de um livro infantil irrestritamente apontado pela crítica especializada como excelente e.

num fino bando. Além disso. III e IV. atribuindo ao vestido a propriedade de babados. borboletas. As quatro primeiras estrofes unificam-se pelo seu tom descritivo: o verbo da primeira estrofe é de ligação. no entanto. No segundo. as repetições de oclusivas na estrofe I. apenas borboletas voando. a mobilidade e a sugestividade que parecem constituir traço dominante na poesia de Cecília Meireles. acabou-se o vestido todo bordado e florido! 'O vestido de Laura' tem sete estrofes compostas de três versos cada uma que alternam. são progressiva e individualmente retomados e retrabalhados nas estrofes II. especificando-o a partir de detalhes de sua aparência: os babados. 0 primeiro. cujo derradeiro verso tem sete sílabas. seis.. todinho. a elipse do verbo. de maneira irregular.leituras e análises que tentem. Se não formos depressa. III e IV são apostas à estrofe I: cada uma delas retoma um dos babados.. dar conta de sua especificidade estética. o poema — mesmo nessas estrofes que detalham pormenores do vestido — guarda a imprecisão. que. flores perdem suas cores. As estrofes II. configura-se também no nível sintático do texto: não há nexo sintático explícito entre a estrofe I e as três que a seguem em relação apositiva. compõe um movimento . com os instrumentos específicos da teoria e da crítica literárias. 0 terceiro. apesar desse movimento de especificação progressiva. sem mais demora! Que as estrelas passam. 0 vestido de Laura vamos ver agora. a reiteração léxica na estrofe II e a nasalidade da estrofe III criam sensorialmente a imprecisão e magia do mundo de Cecília Meireles. cuja existência é declarada na estrofe I. cinco e quatro sílabas.10 Esse caráter sugestivo se constrói. As rimas são constantes entre os versos dois e três. nestas estrofes. que se entrega ao leitor sem mediação alguma. por exemplo. Essa sugestividade. estrelas. todinho de flores de muitas cores. estrelas de renda — talvez de lenda. todos bordados. com exceção da última estrofe. pela intensa sonoridade das estrofes desse bloco: as rimas. Eis o poema: 0 vestido de Laura é de três babados. Observa-se.

de atenuação. na organização da estrofe V. apenas/borboletas voando sugerem a dissipação do babado e o fortalecimento de seus desenhos. sendo a primeira explicativa e a segunda condicional. que se refaz na última estrofe do poema. nota-se também. dos elementos enumerados ao longo das estrofes II. diverge da prática linguística mais difundida. antepondo o objeto ao verbo. são de natureza técnica e assinalam alguns dos elementos através dos quais esse poema constitui um poema e não outra coisa. o poema muda de figurino e a voz do poeta fica explícita: a forma imperativa é clara e o comando vamos ver rompe o clima de descrição impressionista das estrofes anteriores e instaura outra atmosfera. Em poucas palavras: a racionalidade subjacente à atitude de comando que domina esse segundo momento do poema manifesta-se em todos os seus níveis. a retomada. Com isso. Como tal inversão não se justifica nem por métrica nem por rima. podendo ser considerados como pertinentes à natureza poética de 'O vestido de Laura'. com ela. Este segundo conjunto de estrofes destoa do anterior a partir de sua configuração sintática: as estrofes VI e VII iniciam-se por conjunções. em sequência invertida. No plano interno de cada estrofe poderíamos observar ainda que a relação sintática entre suas partes vai progressivamente se atenuando: os versos 0 primeiro. também ocorre interrupção brusca no clima inicial de sonho e deslumbramento em que o poema imergia seus leitores. extrema coerência entre esse procedimento e a ruptura da sugestividade e encantamento em que se embebiam as estrofes anteriores. embora com fortes traços de oralidade. Na estrofe V. Todas as observações acima. E. e praticamente desaparece (ou fica apenas implícita) no verso 0 terceiro. já manifestado em outros níveis: delineia-se. em que a ausência de qualquer nexo prepositivo (substituído pela vírgula) completa o esgarçamento das formas de predicação. respectivamente que e se. na estrofe III./todinho de flores. III e IV reforça a reversão de expectativas. no entanto. Se não bastasse a subordinação sintática para orquestrar a substituição do sonho pelo comando. Concomitantemente a esta alteração na estrutura sintática do texto. assim. outra etapa do poema. que constituem uma possível abordagem do texto. que é a posposição do objeto direto a seu verbo. o contexto do qual emerge um possível significado é o progressivo enrijecimento da estrutura do poema. como se a enunciação das qualidades de cada babado nascesse ao ritmo fugaz dos movimentos amplos de um vestido. esta coesão se enfraquece. a inversão da sequência verbo-objeto: 0 vestido de Laura/vamos ver agora. caso se desejasse apontar alguns dos elementos que manipulam linguística e imageticamente a sensibilidade de seus . todinho. Na estrofe VI. Elencam elementos que. é muito mais rígido do que a simples justaposição que unia as estrofes do primeiro segmento do poema. o relacionamento sintático delas com a estrofe V. poderiam ser trabalhados. em que os versos No segundo. consistem enunciado coeso do ponto de vista da gramática tradicional. da qual dependem. estrelas. A recuperação em sequência simetricamente inversa de elementos dispersos nas estrofes anteriores reinstaura a totalidade do vestido.

tende a cumprir.leitores. nem nada que se lhe assemelhe. que ocupa os exercícios propostos pelo manual escolar que transcreve o poema. Antes que se indague se alunos e/ou professores do primeiro grau têm condições de . em tudo homóloga às funções que a escola. Mas não é isso. Observa-se que o compromisso das atividades sugeridas é com elementos exteriores e secundários ao poema: não trabalham com estruturas internas e transformam a leitura numa atividade reprodutora e repetitiva. e cuja ilustração e exercícios transcrevem-se a seguir:11 VAMOS ENTENDER MELHOR A POESIA? EXPRESSÃO ARTÍSTICA Recite em coro falado a poesia 'O vestido de Laura'. como instituição social.

em particular.. no limite. a urgência do comando vamos agora. Cecília Meireles fala da efemeridade. de nomear o inomeável: vestidos. é bem provável que a escola esteja. borboletas que voam e flores que murcham para metaforizar o contínuo processo de perda que é a vida. ao menos do professor de literatura de segundo grau. torna-se sujeito de sua leitura. Se assim não fosse. sem limite de idade. O que não parece ser o caso dos exercícios transcritos. o tema da efemeridade toca no da morte. está virtualmente disponível para seus leitores. vamos depressa se vale de estrelas que passam. realiza o milagre de aproximar o inaproximável. É exatamente no exercício dessa reinterpretabilidade que cada leitor. espécie de reescrita significante daquilo que o autor. O objetivo é sugerir que as atividades de leitura propostas ao aluno. Assim. Recorrendo a um objeto tão prosaico quanto um vestido. vale dizer que não. Não é. babados. flores e borboletas unem-se no tecido do texto e sua união dá voz a uma das perplexidades humanas mais universais: o homem perante o tempo e perante a morte. assenhorando-se do texto. como uma espécie de subproduto da atividade ou do exercício. e como é frequente que os textos mesmo bons sejam seguidos de maus exercícios.. fique inspiração e caminho para o interrelacionamento daquele texto com todos os outros conhecidos daquele leitor e — lição maior! — a intuição da quase infinita interpretabilidade da linguagem de que os textos são constituídos. E como. O reconhecimento e a nomeação dos processos formais agenciados por um texto não são fundamentais para que o dito texto seja fruído pelo leitor. significado que não se confunde com o que o texto diz. têm sempre de ser centradas no significado mais amplo do texto. ao menos prestando um desserviço à poesia. mas reside no modo como o texto diz o que diz. Como os contatos mais sistemáticos que as crianças têm com a poesia são mediados pela escola (e não se tem como fugir a isso). se não do especialista. se não desensinando. esse texto. é necessário que os elementos do texto selecionado como gerador de atividades levem o aluno a observar mais de perto procedimentos realmente relevantes para o significado geral do texto. Efemeridade do quê? De tudo em geral e. por ser um poema. Só se lê um poema na verticalidade de seu significado que. pois. O quê? Desde o recreio que acabou até o amor que se foi. deixou como aquele silêncio ao qual Drummond sugere que . estrelas. Caso contrário é como se não se tivesse lido. fundamentando-se numa ou noutra teoria literária. mas que isso não tem importância alguma. ao escrever. diante da qual o que sobra e o que fica é efêmero como o rodopio vertiginoso da saia larga e cheia de babados.desenvolver uma análise como a esboçada. Nesse sentido. a fruição da poesia estaria proscrita a todos aqueles que nunca passaram por um curso de Letras. Familiaridade com processos formais é da competência. objetivo deste texto reivindicar que as questões propostas para trabalho de um poema em classe privilegiem este ou aquele elemento de sua constituição formal. das coisas efêmeras que tocam aquele leitor particular no momento específico da leitura do poema. É fundamental que exercícios e atividades trabalhem elementos do texto que contribuam para um relacionamento mais intenso dos alunos com aquele texto particular e que. quando este se debruça sobre um texto literário.

The uncommon reader. Maria Antonieta Antunes. 8 FlSH. Fragílima! 1 Este texto foi originalmente apresentado na 36 reunião da SBPC. Cambridge. 11 Cf. Por isso frágil vítima. mesmo que solicitados por professores e ainda que organizados por especialistas. São Paulo. Rio de janeiro. 1970. p.d. ed. 'Lingüística e poética'. São Paulo. 54-62. 2. Mercado Aberto. & SILVA. S. em São Paulo em 1984. Melhoramentos/ INL e Bibliografia analítica da literatura infantil e juvenil publicada no Brasil (1975-1978). Vital. 118-62. Cultrix. a partir do quadro Le philosophe lisant de Chardin.. Rio de janeiro. a poesia. In: Estudos. s. p. 1982. Lingüística e poética.p. 1912. analisa de forma belíssima diferentes condições do exercício da leitura em tempos antigos e modernos: STEINER. 1 grau.se pergunte: trouxeste a chave? Caso contrário. Summus. Ática. e. não obstante a virtualidade estética de que o texto seja dotado. M. M. Olavo. São Paulo. 6 Sobre a atual situação da poesia infantil brasileira. 33. Problemas da literatura infantil. s. Bennington Coll. In: MEIRELES. 17. Ática. 1984. Mundo mágico. M. Literatura infantil brasileira: história & histórias. Para um levantamento da poesia infantil mais recente. Globo. 4 JÚLIA. Cecília. 1978. Harvard University Press. 1984. da. 114. LAJOLO. Centro D. 5 LIMA. p. Nova Aguilar. Porto Alegre. 2 MEIRELES. Discubra.. 1949. ed. DAMASCENO. 1979. São Paulo/Brasília. consultar CUNHA. Usos e abusos da literatura na escola (Bilac e a literatura escolar na República Velha). s. Alma infantil. os exercícios acabam funcionando como uma espécie de filtro seletor em que o relacionamento do leitor com o texto fica distorcido e apequenado. São Paulo. & ZILBERMAN. R. 10 Cf. . Rio de Janeiro. 9 George Steiner. reformulado. ed. In: __. F. 1. 4 série. & ANDRADE. Rio de janeiro. 1972. São Paulo. livro 2. 1984. foi publicado na revista Leitura: teoria e prática . D. 3. Cecília. p. Obra poética. ano III. 1983. MORAIS.M. consultar Bibliografia analítica da literatura infantil e juvenil publicada no Brasil (1965-1974). Para uma reflexão sobre o significado de tais prefácios enquanto manifestação da nascente e já agressiva indústria do livro escolar. 'Poesia do sensível e do imaginário'. comunicação e expressão. Rio de Janeiro. ed. 1980. p. 3 BILAC. ed. Francisco Alves. IS there a text in this class? (The authority of interpretives communities). J . George. Ed. 3. consultar LAJOLO. 'Poesia infantil'. p. Alceu Amoroso. 7 JAKOBSON. L. 19-25. R. 1976. Poesia na escola. Poesias infantis.

mudaram as circunstâncias. virem que um sem-número de moços têm sido reprovados em idiomas estranhos. evitando. método e simplicidade. impuseram a língua francesa.LIVRO DIDÁTICO E LÍNGUA PORTUGUESA: PARCERIA ANTIGA E MAL RESOLVIDA1 A. de um lado. dabliú.E. ao discutirem leitura e livro didático. Entre os que protestavam. e havia mister de persuadir e seduzir os povos pelo dom da palavra. cresceu também a facilidade de espalhar rapidamente as ideias por meio da impressão.4 Na Constituinte de 1823. que dela se requerem. professores e leitura estrelavam momentosas polêmicas. de Noel Rosa e Lamartine Babo.. Depois da invenção da imprensa. e de outro a exageração ou o mau gosto. em que vem a constituir esta arte considerada como parte de um ensino público? Em escrever uma memória ou parecer com clareza. recorrendo às estatísticas da Instrução Pública.. livro didático. A vista disso. e encontrando a exigência da língua francesa com exclusão da portuguesa.) Em meados do século XIX. situação que desagradava alguns educadores. em projeto encaminhado aos constituintes de 1823: Quanto ao ensino da arte de exprimir e desenvolver as ideias. Há dez anos na cartilha A Juju já sabe ler A Juju sabe escrever Escreve sal com cê-cedilha IA. a negligência ou afetação. que suas regras se devem conformar com os efeitos. ao passo que uma só vez não consta que alguém deixasse de matricular-se por desconhecer o pátrio idioma. inscrevem a discussão no contexto geral da precariedade que. a disciplina Língua Portuguesa não fazia parte do currículo da escola brasileira. em desenvolver as razões com ordem e precisão.O.. que aliás. digo.2 Pretendendo imitar o regulamento francês. portanto. em pleno Segundo Reinado. herdada da Colônia. Na cartilha da Juju.I. a arte de escrever discursos é a verdadeira retórica dos modernos e a eloquência de um discurso é a de um livro feito para ser entendido por todos os espíritos.E. imprimiu-se nos negócios públicos e destarte decidiam-se as questões e à proporção que cresciam as luzes de uma nação. conheciam sofrivelmente. leitura e redação de texto em língua materna não desfrutavam ainda da importância curricular que para tais atividades insinuava o paulista Martim Francisco Ribeiro de Andrada.O. dabliú. escreveu-se nos negócios particulares.U. esta arte se reduzia meramente a ensinar o modo de bem falar (.U. Os legisladores. vai persistir por muito . tempo em que se desconhecia a imprensa.). estava Manuel Frasão: Vergonha terão nossos vindouros quando. Juju A Juju já sabe ler A Juju sabe escrever.I. Na antiguidade. excluíram a portuguesa!3 A crítica de Frasão sugere que. escola.

apontam tal despreparo como crônico e desalentadoramente irremediável: (.) o estado de atrasamento em que se acha..tempo: os requisitos que Ribeiro de Andrada inventaria para os professores descem a tais minúcias que o quadro resultante é de completo despreparo do magistério: (. como nos dois seguintes deste curso de instrução. designam objetos mais distintos e correspondem a ideias de mais fácil análise. etc. não tenhamos professores. pelo teor e calor das discussões que registram. sombria a infraestrutura em que o assunto livro didático cruza com leitura. analisar escrupulosamente as palavras insertas no compêndio. E parece permanecer insatisfatório por longos anos.8 enquanto Lino Coutinho pondera que (. mesmo transformada em disciplina. requisitos maiores. não se esquecendo de empregar as palavras técnicas que geralmente foram adotadas.) para leitura é preciso atender não só à escolha de doutrinas como à linguagem. o professor deve ter em vista amestrar-se no método de ensino.. se formos a exigir de um professor do primeiro ensino.. dois livros escritos com exatidão. Odorico Mendes: (. O ensino de conta deve ser mecânico. a fim de dar ao discípulo ideias precisas delas. não só porque a linguagem filosófica é mais exata do que a vulgar.7 É.5 As atas das sessões constituintes.. era insatisfatório o modo pelo qual se processava seu ensino. e fazer-se compreender. pois. e obras de Jacinto Freire de Andrade. como preocupação dos primeiros legisladores brasileiros que discutiam o sistema escolar a ser implantado no Brasil. Tem por melhor que os meninos leiam estes livros do que sentenças velhas e obras doutrinárias rançosas que nada valem. se os ordenados dos mestres são tão pequenos que a maior parte das escolas se acham fechadas? Dá-se 120$000 por ano a um homem que com menor trabalho pode fazer o duplo em qualquer ramo de comércio.) sugere para livros de leitura a Constituição e alguns clássicos da língua..9 Não obstante tais discussões datarem da década de vinte do século passado.) de que serve isso..) tanto no primeiro ano. e nela as questões de ensino/aprendizagem de língua materna virem pelo viés da questão do livro didático. A permanência da situação nos primeiros anos da República manifesta-se no rigoroso . Lembra a vida de Frei Bartolomeu dos Mártires. O de gramática deve se limitar às declinações dos nomes e conjugação dos verbos regulares e irregulares da oração... e que. conhecidos os agentes. o desabafo de Frasão nos anos sessenta sugere que só muito paulatinamente a Língua Portuguesa ganhou o espaço do currículo escolar. os verbos ou as ligações dos casos. mas também porque iguais vocábulos exprimem noções mais precisas.6 Outro legislador responsabiliza os baixos salários pela falta e despreparo dos professores: (.. desgraçadamente.. escolha e pureza de linguagem. escrita e Língua Portuguesa. do qual depende a felicidade dos cidadãos. em pescarias. instruir-se no modo de responder às pequenas dificuldades ou questões que o menino possa lhe propor. a educação no Brasil fará com que.

Deste enorme pecado contra a Pátria e contra a humanidade a responsabilidade cabe quase toda à péssima direção do ensino popular. a maioria dos livros de leitura.julgamento com que Rui Barbosa define como “calamitoso” o resultado do ensino do vernáculo na escola brasileira. se não são estrangeiros pela origem.10 Tendo por tribuna o Congresso Nacional e respaldado no que de mais moderno havia em Linguística e Pedagogia. o nome de língua nacional... das conjugações e. autores brasileiros tratando coisas brasileiras. os Lucenas. os Bernardes. e a autores cuja clássica e hoje obsoleta linguagem o nosso mal amanhado preparatoriano de português mal percebe.. aliás. ainda hoje.) os mestres são os menos culpados nesta imbecilização oficial da mocidade. inscrevendo a reflexão sobre a inadequação dos métodos na concretude da evocação do dia a dia escolar: Registra José Veríssimo: Os meus estudos. Isentando de culpa os professores.. distingue as várias espécies de palavras. não poderiam fornecer relevantes passagens?13 . objetivos e clientela da disciplina Língua Portuguesa. foram sempre em livros estrangeiros. de fato. no programa da instrução elementar. Rui Barbosa aponta a baixa qualidade do livro didático.12 No mesmo fim de século que assistiu à Abolição e à República. outras vozes confirmam o desencontro entre métodos. aos livros adotados — num sistema em que a adoção importa. por exemplo. Acanhadíssimas são as melhorias desse triste estado de coisas. aumentando o desconsolo da situação: José Veríssimo e Sílvio Romero. os Fernão Mendes e todo o classicismo português que lemos nas nossas classes de Língua que. nos programas. criticando também os métodos de ensino de língua materna. sem sentir. feitos de 1867 a 1876.11 Com admirável intuição linguística. como quando.) E assim foi sem dúvida para toda a minha geração.. intelectuais ativos na cultura do entresséculos. se classifica sob o nome de gramática. o uso dos géneros e dos números. começar o estudo da língua pelos clássicos. suplício inútil da infância na escola. refere-se particularmente ao (. Eram portugueses e absolutamente alheios ao Brasil os primeiros livros que li (. aliás. de outros pontos de vista. Rui Barbosa vincula a inadequação do ensino patrocinado pela escola brasileira do século passado ao fato de a escola lidar com língua materna como se esta estrangeira fosse: Todo o menino que vem sentar-se nos bancos de uma escola traz consigo. o conhecimento prático dos princípios da linguagem. Que o ensino da língua não se confunde com o ensino da gramática não é lícito contestar. Nestas críticas. Pois se pretende (sic). que. são-no pelo espírito. ao meu ver erradamente. sem consciência de tal. São os freis Luís de Sousas. absorve a mais larga parte no plano de estudos primários.) trabalho mecânico de memorização que. um verdadeiro privilégio. e.. Mas nem a qualificação mesma de gramática se pode estender a esta tecnologia de abstrações inúteis. aos métodos. atribui parcela grande da responsabilidade ao livro didático e à política educacional: (. Os nossos livros de excertos é aos autores portugueses que os vão buscar. o leitor de hoje pode reconstituir fragmentos dos conceitos de linguagem a que Rui Barbosa adere. começa a tomar. referendam Rui Barbosa.

tanto em Itamaracá quanto em Jaguaribe. todavia. talvez como decorrência do caráter problemático da presença da língua portuguesa e leitura no quadro da educação formal: Naquele tempo.. incolores. as obras literárias tinham menor circulação.. registra curiosas reações que o ato de ler provocava. próprios para ajudarem a destruição. sem estímulos nenhuns.) alguns de meus vizinhos. contaram-me que eu tinha granjeado a fama de um homem muito santo. porque estava sempre lendo. reações que apontam para a fragilidade e insuficiência das práticas de leitura aqui vigentes. viajantes ingleses retratam o Brasil dos arredores da Independência como uma sociedade onde as luzes não chegaram a acender-se ou. porém. e cujo uso entrava logo para a comunhão escolástica. Era o ler por ler. e da maior raridade de livrarias e gabinetes de leitura. se se acenderam. sugerindo que leitura e livros.. apesar de mais baratas. velhas sentenças fornecidas pelos cartórios dos escrivãos forenses. eram-nos ministradas nestes poeirentos cartapácios. levava consigo a modesta provisão que juntara durante as férias. artigo de luxo. não são menos desoladores os registros das práticas de leitura vigentes fora da escola: em trecho autobiográfico relativo aos anos quarenta do século passado.16 Descomprometidos com o modelo católico de colonização portuguesa e sem papas na língua.. foram clarão efêmero. Cada estudante.. do lado de fora das paredes escolares. . eram coisa rara. (. inglês que perambulou pelo Brasil logo depois da chegada de D. (. no Brasil de seu tempo. como ainda hoje. Eu me lembro de um homem que dizia: — O senhor não é um padre. José de Alencar relata dificuldade de acesso a livros. João VI. entravam às vezes enquanto eu estava lendo e achavam estranho que eu achasse prazer nesta atividade. embrutecer o raciocínio e estragar o caráter. que não ultrapassou a arcádia dos malogrados inconfidentes mineiros.15 Os testemunhos de educadores e intelectuais fazem coro a depoimentos de viajantes estrangeiros que confirmam a raridade dos livros e da leitura no país das jandaias nas frondes verdes da carnaúba. sem préstimo.. praticamente contemporâneo de José Veríssimo: Ainda alcancei o tempo em que nas aulas de primeiras letras aprendia-se a ler em velhos autos. portanto. quando frequentava a Academia de Direito de São Paulo. por que o senhor lê? 0 senhor está lendo um breviário? Em outra ocasião. Eram como clavas a nos esmagar o senso estético.14 Se é assim sombrio o panorama das práticas de leitura escolar no Brasil do século passado.) As sentenças manuscritas eram secundadas por impressos vulgares. o comércio dos livros era. sem incentivo. Provinha isso da escassez das comunicações com a Europa.Não é diferente o depoimento de Sílvio Romero. Henry Koster. Assim correspondia São Paulo às honras e sede de uma academia tornando-se o centro do movimento literário. Histórias detestáveis. e enfadonhas na sua impertinente banalidade.

sobretudo. pela boca do narrador Sérgio. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente. Eram boletins de propaganda pelas províncias. Aristarco Argolo de Ramos. queres tu brincar comigo? Forma de perguntar esquisita. como rastro de lesma ou catarro seco. fora da escola. com o esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos. ao relatar conversas com brasileiros ao longo de uma viagem pelo sertão mineiro. Examinei-Ihe o retrato e assaltaram-me presságios funestos. fabricados às pressas. Estes dois contos me intrigaram com o Barão de Macaúbas. da conhecida família do Visconde de Ramos. . de Raul Pompeia. as letras fervilhavam. opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques. amarelas. o Barão de Macaúbas. enchia o Império com o seu renome de pedagogo. o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria. desobedecendo às ordens maternas.18 O mesmo Barão de Macaúbas reaparece como personagem na autobiografia de Graciliano Ramos: nascido em 1892. dirigindo-se à escola. a questão se arrasta e se agrava. róseas. Principiei a leitura de má vontade. Entre as lembranças da vida escolar de Sérgio. inundando as escolas públicas de toda a parte com a sua invasão de capas azuis. espontânea. Havia a moscazinha. prática de leitura rarefeita e esgarçada. Em seguida vinham outros irracionais. conferências em diversos pontos da cidade. Graciliano retrata em Infância (obra editada em 1945) os percalços de uma meninice sofrida na qual os livros escolares — em particular os de Abílio César Borges. como as do mestre rural visto anos atrás. o Barão de Macaúbas! — são lembrança dolorida: Um grosso volume escuro. à sustância. caixões e mais caixões de livros cartonados em Leipzig. na terra. E engordavam as letras. outro inglês. Ave sabida e imodesta. oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da Pátria. e as ilustrações avultavam num papel brilhante.. em que o nome de Aristarco. miúdas. educador do Império). Um tipo de barbas espessas. relata modos pouco ortodoxos de produção do livro didático. pois. do Norte. nas secas e ensolaradas Alagoas.). Um benemérito. sublinha o isolamento cultural do Brasil: Nesta nossa terra. até recentemente. E logo emperrei na história de um menino vadio que. entremeando-se a amargas evocações da escola.17 Dão-se. além de portugueses e espanhóis. que têm pontos comuns com situações e práticas que vivemos hoje: 0 Dr. incontáveis. à força daquele pão. caixões. Nas folhas delgadas. nem se supunha.. Não admira que em dias de gala. Tanto voou que afinal caiu no fogo. festas do colégio ou recepções da coroa. à precariedade do sistema escolar. irresistível! E não havia senão aceitar farinha daquela marca para o pão do espírito. a pedidos. Em 1888. igualmente bem-intencionados e bem-falantes. Carrancudo. gratuita. nunca se ouviu. íntima ou nacional. exprimia-se de maneira ainda mais confusa. atochando a imprensa dos lugarejos. Raul Pompeia. aflora de passagem no romance O Ateneu. sobre guerras europeias. E o animalejo. que morava na parede de uma chaminé e voava à toa. atarefado na construção de um ninho. até agora. o assunto livro didático. que houvesse outros povos. além do Gentio (. que se confessava trabalhadora em excesso e orientava o pequeno vagabundo no caminho do dever. e ao espaço reservado à Língua Portuguesa correspondia. inteiro e sonoro.Luccock. cartonagem severa. legisladores e viajantes: ao longo do século XIX. as mãos educadores e escritores. — Passarinho. pensei. vivida sob a batuta de Aristarco Argolo de Ramos (nome ficcional de Abílio César Borges. Irresolvida. se retardava a conversar com os passarinhos e recebia deles opiniões sisudas e bons conselhos. de livros elementares.

Perverso com a mosca inocente e perverso com os leitores. mesmo para disciplinas aparentemente tão pouco polêmicas quanto o Grego. como dizia o Machado de D. por exemplo. vale notar que razões. E. esfaimada de alfabeto. o que esperar das relações que com a escrita e a leitura mantinham brasileiros pobres? Se encarada de frente. proibiu sua pedagogia. falam com o à vontade de quem pertence à classe que se apossa de livros. se o rosto é igual. e inundada pelos livros escolares do Barão de Macaúbas. de leitura e de escrita desde o berço. de leituras e de escolas.20 Se Manuel Frasão. para evitar identificações precipitadas. escola. registra que: Concomitantemente. Casmurro. Os professores que teimavam em ensinar pela Arte do Pe. estudando as reformas pombalinas na instrução pública. procurou o Diretor-Geral proibir o ensino pelos antigos métodos. o caráter seletivo da vontade ou do poder que adota certos livros e não outros configura movimento mais sofisticado do que aquele que. José de Alencar e seus pares parecem antecipar em suas críticas e queixas nossas queixas e críticas. quer o modelo fosse de língua. é a certeza de que. Laerte Ramos de Carvalho. Um dos aspectos que parece unificar os diferentes modelos e crises por que passou o ensino de língua materna na escola brasileira é que sua função foi sempre concebida como modelar. No entanto. eram recolhidos à . tênues e fugazes as chances de resgate da história da cultura escrita. E perverso. com o auxílio dos demais livros proibidos. escrita da perspectiva dos despossuídos dela. Só fala de livros quem tem a intimidade de ter nascido em meio a eles. a fisionomia é diferente. a reflexão sobre semelhanças e diferenças entre as situações vividas por professores de ontem e de hoje pode ser sugestiva.cabeludo. Se hoje a pedagogia oficial tende a envolver a censura a certos livros em razões de natureza técnica. Alvarez. expulsos os jesuítas. perdida nos confins da Pátria.19 Esta escola de Graciliano Ramos dá foros de veracidade à tão verossímil escola ficcionalmente criada por Raul Pompeia. portanto. leitura e escrita são experiências que só afloram em relatos de vidas vividas no polo hegemônico de cultura. como perversamente o registro da história passa pela escrita. objetivos e modos de realizar-se do ensino de língua materna na escola não foram sempre os mesmos e.. o que incluía os livros didáticos nela inspirados. E serve de magro consolo — no caso de Graciliano — a ideia de que uma tão dolorosa iniciação nas letras não matou em casulo o talento do futuro escritor. esta questão continua a aturdir educadores que nela tropeçam. O que levanta questão maior: se todos os depoimentos lamentam a precariedade da presença de livros e de leitura dentro e fora da escola na vida dos bem-nascidos. o Latim e a Retórica.. são poucas. Os que falam de livros. Sílvio Romero. na tradição brasileira. cuja produção O Ateneu relata tão desencantadamente. quer fosse de valores e comportamentos. por isso. Rui Barbosa. no século XVIII. mais desoladora do que a frequência com que depoimentos amargos como o do mestre Graça se repetem.

para a qual se vocacionava desde que nasceu. a passagem de um modo artesanal e amadorístico de produzir livros escolares para um mais planificado e regido pela eficiência manifesta. dissonantes. Fazendo conviver diferentes fases da modernização do modo de produção cultural (entre os quais se incluem os livros escolares e infantis). com a República. modernizam a inserção social da produção cultural assim engendrada. exatamente por vivermos tão plenamente os complexos caminhos por onde envereda a produção contemporânea do livro didático. Ao dedicar-se à tarefa de compor livros para a infância brasileira. que. por exemplo. a partir de meados do nosso século. eram recolhidos e. fossem pertencentes à biblioteca dos professores. No fim do século. as últimas décadas do século XIX são significativas. encontramos ouvidos para ouvir vozes que. No primeiro livro havia Belas figuras na capa. assume sem rebuços a dimensão de mercadoria.prisão e obrigados a assinar um termo no qual juravam que nunca mais se ocupariam do ensino do Latim no Reino e seus domínios. queimados. festejam o mesmo livro didático que outras vozes apupam e vaiam. E no começo se lia: . Eles assistiram à criação do gênero. regulando as relações do escritor com o capital e com o mercado. Neste meu pobre recato. Patativa do Assaré. No verdô de minha idade Só tive a felicidade De dó um pequeno ensaio In dois livro do iscritô. Os livros proibidos. a mesma transição. na vida cultural. explodem questões fulcrais da relação entre livros. envolve em róseo saudosismo a evocação de seus primeiros livros escolares: Eu nasci aqui no mato Vivi sempre a trabaiá. assumia o poder político correspondente ao poder econômico de que já dispunha. As campanhas de educação em curso nos anos 80/90 do século passado são parte do projeto de modernização capitalista que o regime republicano e o fim da escravatura pareciam afiançar. Olavo Bilac parece ter funcionado como anteparo ideológico da classe que. Eu não pude estudá. Assim como República e Abolição constituíram ajustes políticos e econômicos necessários às novas formas da vida brasileira. e que hoje vivemos plenamente. a prescrição dos livros escolares e infantis de Olavo Bilac ilustra o endosso aos modelos desejados.21 Se a proscrição dos livros jesuíticos ilustra os cuidados do sistema com os temidos contramodelos. fossem das livrarias. escola e produção cultural: a profissionalização do intelectual e a correspondente implantação e desenvolvimento de mecanismos. viveram a pré-história do livro didático brasileiro. E. Por isso o tempo de Olavo Bilac e seus parceiros é tão decisivo para a compreensão de nosso tempo. 0 famoso professo Filisberto de Carvaio. algumas vezes. praxes e acordos que.

Talvez por isso. que barateiam a noção de compreensão e de interpretação. Pua. Sónia Dantas Pinto Guimarães e Helena Maria Bousquet Bomény. que subestimam a inteligência de seu leitor/usuário. COLTED. pia. FENAME. como bem dizem os autores. Papa. os quais se relacionam diretamente com as condições de produção e consumo desse material. com professores capazes. a rejeição dos maus títulos seria espontânea. dentre o conjunto de trabalhos sobre livros escolares e cartilhas. que os escândalos no setor são a norma. Não tem sentido a denúncia simplória do recorte ideológico dominante. João Batista e seus coautores apontam que o didático representa fatia bastante considerável dos livros produzidos e consumidos no país. e que. Dá-me o dado. a fera é má E tantas coisas bonita Qui o meu coração parpita Quando eu pega a rescordá. privilegiando nela o binômio centralização/descentralização e salientando a necessidade de envolvimento dos professores em todas as instâncias. INL. O livro se encerra propondo uma pauta para o debate. Essa abordagem imprime à questão perfil mais complexo e. e sobre cuja adoção não . não há lei nem supervisão que obrigue um professor a usar material com o qual não esteja à vontade. CELD. que alienam o professor de sua tarefa docente.22 Mas a balança não pende para Patativa. A política do livro didático tenha tido carreira comercial menos espetaculosa do que outros trabalhos que caçam fantasmas com fogos de artifício. mais instigante. deste ou daquele autor. Ir. Chama a atenção na já vasta produção sobre o livro didático. conservador ou elitista deste ou daquele livro didático. e tantos outros quês e etecéteras que quem é freguês da matéria conhece bem. de vez que. por isso mesmo. as críticas superam os aplausos e fundamentam-se nas mais diferentes razões: apontam que muitos livros didáticos contêm erros graves de conteúdo. um trabalho que envereda por caminhos incomuns: A política do livro didático. na pista das diferentes políticas que desemboca(ra)m no rendoso filão dos livros escolares tornase cardápio indigesto para um público habituado a dietas mais leves. prevalecem os que privilegiam a análise dos conteúdos e dos pressupostos ideológicos. dado. de João Batista Araújo e Oliveira. o dedo do Papa. Bibliografias publicadas sobre o assunto23 mostram que. que direcionam a leitura. o pote de melado. vozes de bom-senso disseram que. acompanhando seus desdobramentos. Num balanço geral. afinal.24 Evitando os trilhadíssimos caminhos da crítica aos conteúdos. burguês.A pá. que datam de 1938 os primeiros esforços brasileiros de centralização das providências relativas ao livro de escola. acusações de parcialidade ideológica rimam e soam tão ingênuas quanto proclamações de neutralidade ideológica. esta obra se ocupa da política que envolve o livro didático. que inúmeras instâncias federais e estaduais já foram encarregadas dele (CNLD. em meio a tantas discussões sempre recomeçadas. que — no caso dos livros de Comunicação e Expressão — às vezes pirateiam textos. que reforçam ideologias conservadoras. dedo. FLE são algumas das siglas).

cheia de desacertos e desencontros. como as de Raul Pompeia e Graciliano Ramos. 1988. Curso de Pedagogia. Conferência. p.d. 14. Faculdade de Educação. Rio de Janeiro. Um Século de Educação Republicana. apud MOACIR. nem estamos sozinhos: vivemos um momento particular da história do livro didático brasileiro. 128. 1989. A política do livro didático retoma. Conferência. Biblioteca Nacional/Typ. 1936. irônicas ou iradas muitas. 'Institucionalização da Educação na República'. Como linguagem e como mercadoria. 1863-64. V Conferência Brasileira de Educação.) rio abaixo. 6 (35): 1-9. 1987. Plano de instrução pública de Martim Francisco Ribeiro de Andrada. nessa história (navegando avesso. essa água. mercado e intelectuais). Brasília. politiza-a. no âmbito mais amplo e complexo das políticas. para modificar. (Originalmente as cartas foram publicadas no jornal Constitucional. Ed. decretos. USP. Depoimentos. 'Na jovem República. 16. poderiam ser infinitamente retomados. 5 Idem. como as de Frasão. das práticas e das instituições culturais do país.tenha sido consultado: é a tal voz do bom-senso. multiplicando-se. Estes não são nem melhores nem piores do que ela. 1989. multiplicados. inscrevendo a análise dos conteúdos do livro didático em seu modo de produção e circulação e este. São Paulo. 127. Unicamp. rio a dentro — o rio. que singraremos no rumo que do século XIX se enlaça à antevéspera do século XXI. se fragmentariam em muitas vozes. nas linhas e nas entrelinhas. Ao retomá-la. refratadas nas evocações aqui transcritas: satisfeitas e nostálgicas algumas.) 3 Idem. ibidem. Manuel José Pereira. p. 4 Cf. Paula Brito. de qualquer lado da página. capital. às vezes perdidas. que. ibidem. pois. E a moral dessa história é que nem somos culpados. . ibidem. 6 Idem. no hoje que vivemos. p. propostas legislativas e similares macrocomponentes de uma narração que se crê maiusculizada em História. E. Brasília.. insatisfeitas. p. com livros didáticos. Rui Barbosa ou as de nós todos. de algumas apostas e esperanças.. 'Leitura e literatura: presenças frágeis na história da escola e da cultura brasileiras'. como a de Patativa do Assaré. de longas beiras: (. Em sua forma atual. é este que nos cabe compreender. Primitivo. direito e interstícios da malha que enlaça Estado. RJ. aquela terceira margem do rio de Guimarães Rosa. que é longa. de forma que se possa talvez encontrar.25 1 Parte deste texto foi publicada em Em aberto. tropeçaram sempre em livros didáticos. de língua e de literatura. apresentado em 1816 ao governo de São Paulo e em 1823 à Constituinte que o aprova (mas não o implementa). Faculdade de Educação. material didático tem refolhos e avessos. que não para. E é. que dão acesso a uma história que nem sempre coincide com a que se obtém quando se tenta construí-la a partir de leis. professores e escolas. UERJ. ele se compõe dos textos apresentados nos eventos a seguir mencionados: 'A perspectiva das áreas de conhecimento no currículo'. 2 FRASÃO. como se viu. p. perplexas.. Cartas do professor da roça. 137. Por centrar no professor a questão do livro didático. O conjunto delas escreve alguns capítulos da história que vivemos todos os que lidamos. rio afora. a préhistória do livro didático'. Seminário Literatura e História Repensam a República. como os aqui arrolados. Carta de 14/3/1863. Palestra. 1989. outras. silêncios e entrelinhas. s. Também como linguagem. obras didáticas identificam-se à fina malha social pela qual circulam e por via da qual se transformam em discurso e interagem socialmente. por sua vez. A instrução e o Império. Carta de 15/3/1863. reencaminha e arremata a discussão do ensino de escrita e de leitura. Nacional..

in the Strand. 1989. Ana Maria Araújo Freire discute a história da leitura da perspectiva dos despossuídos dela. p. As reformas pombalinas da instrução pública. Sílvio (1851-1914). 12 Idem.) 18 POMPEIA. Traveis in Brazil. 129.'O professor Carlos Jansen e as leituras das classes primárias'. R. 1981). São Paulo. FDE. Ministério de Educação e Saúde. José (1857-1916). Rui. A educação nacional. 17-8. 265. In: — Estudos de Literatura contemporânea. . José Juvêncio. 1963. Infância. Olympio. 1984 25 ROSA. 19 RAMOS. Global. 37. 22 ASSARÉ. v. 17. Biblioteca central da Unicamp. INEPE/Cortez. ed. In: — Cante lá que eu canto cá. ed. Escola. 23 Cf. J o ã o Batista Araújo e et alii. H. 1. ibidem. Apolônias e Gracias até os Severinos (Brasília/São Paulo. 1981. 13 VERÍSSIMO. Cortez/DF INEP. Apud ZILBERMAN. Francisco Alves. 3. Apud ZILBERMAN. ibidem. London.) 17 LUCCOCK. ibidem. p. 10 BARBOSA. ed. Madalenas. (Tradução minha. 271. & LAJOLO. São Paulo. Centro de pesquisas literárias PUC-RS. p. J . Summus/Edunicamp. Printed for Manuel Legh. p. p. ed São Paulo. Vozes. Vozes. O Ateneu. p. 3. 126-7. and lhe southern parts oj Brazil. p. (Biblioteca de educação. Carlos Artur et alii. Pontes. 128. 2. Páginas de crítica. Adaptação ortográfica de Carlos de Aquino Pereira. AGUERRA. Serviço de informações sobre o livro didático. Edunicamp. 1978. Anas. 1990. Record. Rio de Janeiro. 224. 'Reforma do ensino primário'. 38. & LAJOLO. 'Aos poetas clássicos'. p. 1989). 4-6. 'A terceira margem do rio'. ed. Genebras. R. 1817. 1990. Campinas. MEC/CPL PUC-RS. Em Cultura de massa e cultura popular (leituras operárias) (Petrópolis. (Tradução minha. Saraiva/Edusp. M. 9 Idem. Filipas. João Guimarães. 225. 4. 20 Em Analfabetismo no Brasil: da ideologia da interdição do corpo à ideologia nacionalista. Alfabetização: Catálogo da base de dados. org. 16 KOSTER. p. p. London. BARBOSA. 2. Raul. M. Catálogo analítico. José de. Petrópolis. 1988.) 24 OLIVEIRA. 1990. Patativa do. 6. 1906. In: — Primeiras histórias. 1988. 128. São Paulo/Brasília/Porto Alegre. In: — Obras completas. A política do livro didático. Graciliano. Guia de leitura para alunos de 1 e 2 graus. FDE.7 Idem.d. p. p. v. Série 1. Op. Alfabetização: Catálogo da base de dados. taken during a residence of ten years in that country. 1964. 382-3. s. 21 CARVALHO. p. 14 ROMERO. Como e por que sou romancista. Notes on Rio de Janeiro. 223 11 Idem. ibidem. from 1808 to 1818. São Paulo. Rio de Janeiro. p. 1978. John. p. Melhoramentos. Que sabemos sobre livro didático. Ecléa Bosi discute a questão da leitura literária de operárias paulistas. São Paulo/Campinas. Rio de Janeiro. ou de como deixar sem ler e escrever desde as Catarinas (Paraguaçu). 120-1.. 1820. Um Brasil para crianças. Rio de Janeiro. 15 ALENCAR. São Paulo. 8 Idem. ibidem. cit. Laerte Ramos de. p.

não perguntem ao poeta quando nasceu. amor aos estudos e respeito aos mais velhos. Na . quer como complemento de outras atividades pedagógicas. inalterada a relação de dependência entre literatura infantil e escola. Ele não nasceu. de outro. E os livros para crianças não deixaram nunca de encontrar na escola entreposto seguro. ou pela força encantatória dos versos — sentimentos. sentimentos e valores veiculados pela literatura. adotando seus livros. quer essa adoção ocorra no varejo da leitura daquele livro pelos vinte. quer como material de leitura obrigatória. nas tiragens dos livros infantis. trinta. tragamno vivo para fazer uma conferência. Assim. Não vai nascer mais. em seu escoamento mais rápido e seguro. sempre superiores às dos livros não infantis. quer como prêmio aos melhores alunos. A modernização econômica refez. É preciso que os livros sejam adotados. A escola conta com a literatura infantil para difundir — ataviados pelo envolvimento da narrativa. favorecendo a profissionalização do escritor voltado para esse público. Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho com professores na retaguarda comandando: cacem o urso polar. garantir um nada desprezível mercado para obras infantis3. quer ocorra no atacado da inclusão do dito livro nos acervos com os quais órgãos governamentais cumprem sua função de prover bibliotecas escolares. quarenta alunos daquele professor. onde se concentra a fatia maior de vendas do livro infantil e juvenil. a antiga aliança econômicoideológica sempre celebrada entre a sala de aula.2 tradição brasileira. Hoje em dia o sucesso da dobradinha manifesta-se. atitudes. em suas frequentes reedições. Mudaram também comportamentos. traduzindo em modos de produção sofisticados e em divulgação mais agressiva. se a escola mais antiga contava com as poesias de Bilac para estimular civismo. dado que se traduz na adoção que multiplica as vendas. todavia. O significativo aumento da população escolar alterou o modo de produção dessa rendosa mercadoria. de um lado.LITERATURA INFANTIL E ESCOLA: A ESCOLARIZAÇÃO DO TEXTO1 Vocês. literatura infantil e escola mantiveram sempre relação de dependência mútua. profissionalização esta muito mais viável que a do escriba não voltado para a clientela escolar. mantendo-se. garotos de colégio. o príncipe dos poetas e seus companheiros de ofício podiam contar (e realmente contaram) com a escola para. por exemplo. e histórias e poesias infantis.4 A divulgação dos atraentes e coloridos volumes é eficaz e diretamente dirigida para o professor: a adesão do mestre a um ou outro título é essencial. atitudes e comportamentos que lhe compete inculcar em sua clientela. De Bilac para nossos dias mudaram bastante os conteúdos educativos pelos quais a escola se responsabiliza. conceitos.

as crianças perguntadeiras e maluquinhas. incentivam seu consumo. a consciência ecológica. antes. peso e função dentro das instituições culturais e que. envolvem-se em várias etapas da transformação de seus originais em livros. . como em Através do Brasil (Olavo Bilac e Manuel Bonfim. na literatura infantil atual. Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. com o que se poderia chamar de compromisso pedagógico. muito frequentemente ameaçados pela inclusão gratuita e não autorizada de textos seus em antologias e livros didáticos. Fundação para o Livro Escolar. dada a importância do planejamento gráfico no gênero infantil. No entanto. articulação homóloga à que. Esta vocação pedagógica e inevitavelmente conservadora da literatura infantil não constitui opção consciente de seus autores: configura. a sociedade brasileira contemporânea encontra. o que se encontra é uma comunidade de escritores profissionalmente conscientes de sua importância. a rebeldia contra o arbítrio exagerado. seu ingresso no aparelho escolar. os livros para crianças parecem conservadores. 1918). metalinguagem dos impasses do gênero. a defesa das minorias — temas recorrentes nos livros infantis de hoje — mantêm. comparecendo maciçamente a congressos. Em tudo isso e. No interior das histórias e poesias mais antigas. mais ainda. Academia de Literatura Infantil e Juvenil. aprisionado entre uma tradição integrada e um desejo apocalíptico. em nível nacional. A aguda consciência que têm de seu trabalho como produto e como mercadoria manifesta-se ainda no zelo com que tentam preservar seus direitos. a linguagem do gênero. na sua articulação com instituições voltadas para a leitura infantil (no estado de São Paulo. visitando amiúde escolas onde. 1910) e Saudade (Thales de Andrade. profissionalizam a relação com os editores através de agentes literários e. com a escola contemporânea. Tomando por parâmetro a produção literária brasileira contemporânea não infantil. como ocorre em 0 livro de Berenice. modelos condizentes com os valores e comportamentos liberais e tolerantes incorporados pela escola brasileira de hoje. Fundação de Assistência ao Estudante) — e por menor e mais frágil que seja o poder decisório de tais instituições —. de João Carlos Marinho. discutindo seus livros. os mesmos fatores que entrelaçam literatura infantil e escola e que eventualmente respondem pela modernidade desse segmento da produção cultural brasileira são também responsáveis pelo descompasso — digamos estético — entre a literatura infantil e a não infantil. o protagonista era modelo acabado da criança que a escola se propunha formar. principalmente. em seu tempo. cuja força pode ser avaliada pela sua permanência ao longo de seu quase um século de história no Brasil5 e pela constatação de que o pragmatismo pedagógico é o traço que submerge primeiro nos momentos de ruptura. pagando. do ponto de vista de mobilização. articulam-se com o perfil econômico atual da sociedade brasileira de forma mais adequada que seus companheiros que não escrevem para o público infantil. simpósios e seminários e. Assim. Outro indício sugestivo da renovação da aliança literatura infantil-escola é a efetiva mobilização dos escritores para crianças: quase todos participam de campanhas e eventos comprometidos com a difusão da leitura.Também índice de modernização do gênero é a garra de boa parte dos escritores voltados para o público não adulto na consolidação do escrever livros como profissão: exigem contratos melhores. CELIJU.6 Da mesma forma.

o prosseguimento da história. como é uso em outros livros dados em classe. em cartazes ou desenhos. A frequência com que essas atividades são sugeridas em fichas de leitura. entrevista (real ou simulada) com autor ou personagens do livro. familiares a quem tem intimidade com a literatura infantil. suplementos e similares só se compara à sofreguidão com que. encontram-se a transformação do texto narrativo em roteiro teatral e subsequente encenação. sua reescritura com alteração do ponto de vista. e as histórias da conquista do Oeste que proliferaram contemporaneamente à construção de Brasília no Planalto Central. esse modelo persiste até hoje. identificação de tempo e espaço da narrativa. a pedido meu. Entre as atividades hoje mais frequentemente sugeridas para despertar e desenvolver o gosto (quase sempre chamado de hábito) pela leitura. Acho que tais fichas delimitam a apreciação do livro e a uniformizam. mas. a partir de sucata. desde 1969. na esteira do prestígio crescente da Linguística. são solicitadas pelos caros mestres. o mesmo sopro de modernização que sancionou a produção de textos críticos e contestadores. encartes. principalmente. Não é minha intenção impor um método de trabalho sobre O Gênio do Crime. na extensão. Nas visitas que tenho feito em classe. Surgiram em seu lugar atividades mais condizentes com o processo geral de modernização por que passavam sociedade e escola brasileiras. a criação.mantinham com a escola de antanho outros temas: o ama com fé e orgulho a terra em que nasceste bilaquiano. de tratamento didático semelhante ao dispensado aos textos incluídos em manuais de Comunicação e Expressão. Até os anos cinquenta/sessenta era prática corrente a utilização de textos literários como pretexto para exercícios gramaticais7. que as solicitam quando não as encontram no livro que escolhem para seus alunos: Até hoje a editora não preparou nenhuma “ficha de leitura” ou “ficha de interpretação” do Gênio do Crime. e tantas outras. encontrei ótimos professores que. varreu do horizonte a análise sintática de estrofes camonianas. às voltas com a árdua tarefa não só de fazer com que seus alunos leiam. muitos excelentes e originais. Além de refletir-se internamente na adesão do texto à ideologia escolar e externamente no apoio da escola à circulação do gênero. do tema. da história ou de personagens do livro. a reprodução. adotam este ou aquele tipo de trabalho. aos livros infantis e juvenis. de fazer alguma coisa com o que seus alunos efetivamente leram! A inclusão de sugestões de atividades em livros destinados ao público infantil já foi interiorizada como necessidade pelos professores. a partir daí. Com pequenas alterações. o projeto ruralista de Thales de Andrade. a inter-relação literatura infantil-escola manifesta-se ainda externamente ao texto — mas internamente ao livro —. convivendo agora com propostas de leitura que desembocam em desenfreado ativismo. quando ausentes. de objetos ou colagens de alguma forma relacionados à história. no entanto. jogral ou coro falado quando se trata de poemas. escrutínio estrutural do texto. as pesquisas que aprofundam algum tópico que o texto aborda. segundo seu critério e segundo o adiantamento da classe. O primeiro momento de liberação do texto literário da gramatiquice aguda coincidiu com a adesão a uma espécie de modelo simplificado de análise literária: questionários a propósito de personagens principais e secundários. Os professores que jó .

coisa personalíssima e que uma ficha de leitura não pode prever. más em si mesmas. pode passar despercebida. Tiramos as cadeiras da sala de aula (se possível) ou as afastamos para um canto. fazendo vista grossa à sua pouca familiaridade com livros. Atendendo a estes pedidos elaborei as seguintes alternativas de método de trabalho. o local da decolagem e aterrissagem. prejudiciais. O problema é que atividades sugeridas indiferenciadamente para muitos milhares de alunos. A nave espacial flutua (e o nosso corpo flutua junto) e nos leva a espaços desconhecidos e a mil aventuras. seu achatamento salarial. Para isso. desaconselháveis. empobrece a viagem ao cristalizá-la num itinerário prévio. Limpo o chão. necessariamente pobre ao confinar-se ao espaço (mesmo sem carteiras!) de uma sala de aula. podemos convidar o pessoal para embarcar numa nave imaginária e viver suas próprias peripécias. embarcao numa nave. imergindo a leitura em atividades que apenas simulam criação e fantasia: Ao lermos a história do Capitão Argo e sua nave prateada no planeta das árvores chamejantes que o Fausto Cunha inventou e que naturalmente vai interessar — e muito — aos pré-adolescentes. prejudiciais. é bom ou mau. de dizer que tais atividades são desaconselháveis. não questionando sua leitura quantitativa e qualitativamente muito pobre. essa proposta referencializa e banaliza o ato de ler. deixando intocada sua estranheza face a práticas mais significativas da linguagem. Essa uniformização. pois muitas vezes vem embrulhada em propostas que. há vários anos. em si mesmo. Aí sim. Se na origem dessa distorção está o despreparo do magistério. reconhecer tudo isso não diminui a gravidade do fato de que a leitura patrocinada pela escola de hoje parece sofrer de uniformização. os possíveis itinerários. a precariedade das condições de seu exercício profissional. evidentemente. gerenciam o envolvimento com o texto. Acontece que a editora. Na rotina de tais atividades camuflam-se riscos sérios de alienação da leitura. distribuídas em pacotes endereçados a anônimos e despreparados professores. embarcamos em nossas naves individuais ou em pequenos grupos (SIC) e nelas soltamos a nossa fantasia num voo realmente sem limites.8 O depoimento de João Carlos Marinho registra o momento em que os professores delegam a terceiros o planejamento das atividades de leitura que desenvolverão com seus alunos. ao encolhê-la a uma duração definida. Favorecem ainda a crença de que sua realização operará o milagre de transformar os professores em orientadores de leitura. tais atividades são más. Nada. a duração da viagem e assim por diante. Não se trata. O método ideal de exercício surge sempre da conjunção do modo de ser do professor com o modo de ser da classe.9 Sem atenção para níveis metafóricos do texto e da leitura. precisamos preparar o espaço da viagem.experimentaram seus métodos particulares devem continuar a fazê-lo. em nome de uma leitura lúdica e criativa. continua recebendo solicitações para que O Gênio do Crime venha acompanhado de uma ficha de leitura. no entanto. O espaço propriamente dito. . passam a representar a varinha mágica que transformará crianças mal alfabetizadas e sem livros disponíveis em bons leitores. Condena à pobreza da improvisação teatral sugerida a viagem de cada leitor.

de forma mais crítica. o professor pode. em diálogo com seus alunos e com suas leituras. e posteriormente publicado nos anais do referido congresso. o investimento em atividades de leitura desse tipo pode assegurar a fidelidade do professor a seus produtos. É nesse diálogo que as atividades de leitura adquirem sentido e podem. por mais vontade que se tenha e por mais rebeldia que se ponha na voz.. particularmente. E que também se entenda que não se proclama nem se decreta. o planejamento das atividades de leitura em que vai engajar-se com sua classe. pelo que entende por ensinar Português no Brasil de hoje. realizado em Campinas em 1987. é preciso que se entenda essa antiga inter-relação da literatura com a escola como histórica e social. por leitura e por escrita. treinamentos e publicações — de tais atividades (improvisadas sempre no nível da precariedade das condições materiais da educação brasileira. a independência de um segmento da produção cultural das estruturas nem das instituições pelas quais tal produção circula e em cujo código encontra seu significado. pelo que entende por ensino. fichas de leitura e seus congêneres promovem obliquamente o produto livro. reformular todas.. Da perspectiva dos professores. bastidores e arrabaldes da literatura infantil o caráter histórico da organicidade institucional dos livros infantis. assim. e que ninguém cumprirá por nós. e que os demais envolvidos — nós todos — discutamos nos circuitos. Tais são as premissas que precisam balizar projetos que objetivem efetiva democratização e qualificação das práticas — sobretudo escolares — de leitura no Brasil. cumprindo. através de uma estratégia que capitaliza a insegurança e o despreparo do professor. a instauração de uma política de leitura escorada na difusão apressada e superficial — pela via de cursos. que os autores se mobilizem no sentido de fazerem frente à escolarização de seus textos. balizandoas pelo que conhece de seus alunos e da leitura deles. Os projetos precisam abrir-se com a crítica da inevitável participação nos rituais de apropriação da literatura infantil pela escola e vice-versa: que os professores lutem por uma formação competente. 1 Este texto foi originalmente apresentado no 5 Congresso de Leitura. Para muito além das queixas e/ou bravatas que geralmente pontilham discussões sobre leitura e literatura infantil. voluntariamente. agora sim. uma vez que roteiros. . como reforça o caráter reprodutor da escola. o papel que nos cabe. descartar outras nas quais não aposta.Da perspectiva da indústria de livros. na medida em que tira da responsabilidade do professor.) não só descompromete o estado das responsabilidades pela qualidade do ensino. regular e supletiva. Libertado da imposição delas. tornar-se práticas significantes. atividades. Já da perspectiva estatal. que os liberte da tutela de cursos efêmeros e do paternalismo autoritário de receitas de leituras apostas a livros. e. retornar a elas para — senhor de sua disciplina e de seu curso — selecionar aquelas em que mais acredita. o endosso acrítico de tais atividades parece sugerir que a internalização da burocracia e tecnocracia da escola brasileira posterior a setenta é a manifestação contemporânea da velha aliança — sempre recelebrada — entre literatura e escola. refinando categorias para a compreensão dessa historicidade que também nos envolve. pelo que conhece de língua. linguagem e de literatura.

. Literatura infantojuvenil: um género polêmico. ver LAJOLO. São Paulo. In: KHEDE. 9 Guia de Leitura 4. . 4 Cf. 622. A. Mercado Aberto. 1984. João Carlos.p. p. Parma. 5 Cf. 1973. In: ZILBERMAN. 3 A propósito da relação econômica literatura infantilescola. 3-9. Sônia S. 1982. José Aguilar. s. Carlos. Marisa & ZILBERMAN. org. p. In: — Poesia completa e prosa (Viola de bolso). Vozes.. org. “feitas pelo próprio autor”. LAJOLO. p. Queiroz/Edusp. Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. R. USOS e abusos da literatura na escola (Bilac e a literatura escolar na República Velha). Literatura infantil brasileira: história &histórias. Lawrence. 1986. Globo. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. O escritor informa que as “sugestões” para um método de trabalho em classe. s. O gênio do crime. 0 livro no Brasil: sua história. M. Rio de Janeiro. Regina. Porto Alegre. 4 a Ciranda de Livros.d. São Paulo. ver LAJOLO. Rio de Janeiro. Petrópolis. cf.. 1985. ' O texto não é pretexto'. 'Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz'. São Paulo. 7 Relativamente a tal prática. Marisa. Folhetim de 15/9/85. 'Circulação e consumo do livro infantil brasileiro: um percurso marcado'. 1982. ed.2 DRUMMOND DE ANDRADE. ver LAJOLO. 24. 8 MARINHO. 26. M. Ática. HALLEWELL . 6 Sobre os compromissos ideológicos dessa produção. T. foram incluídas no livro entre 1975 e 1977.

2 LEITURAS DO MUNDO .

. Não existe correspondência particular de um artista que consideramos experimental (de Joyce a Montale) que não mostre como aquele autor. O conto de abertura do livro.) uma inglesa pálida e delgada. atribuindo a este a imagem de uma Miss Dollar: (.. a boa-fé de quem acreditar nessas promessas: ao contrário do que apregoara. o texto inventa um outro leitor.) robusta americana... mulher feita.) sem a apresentação de Miss Dollar. economia e racionalidade de recursos narrativos: (. olhos vivos e ardentes.) (p. apreciá-lo e amá-lo. 27) Engana-se. na boca do que se poderia chamar de um narrador cordial.) (p. formas arredondadas. refeita. no entanto.. cujas previsões sobre a identidade da personagem-título ele antecipa e desmente. que encheriam o papel sem adiantar a ação. vertendo sangue pelas faces. seria o autor obrigado a longas digressões. sinal de que estava orquestrando a sua obra como sistema de instruções para um Leitor Modelo que estivesse em condições de compreendê-lo. 'Miss Dollar'. Não há hesitação possível: vou apresentarlhes Miss Dollar: (. aspirava a formar um futuro leitor particular. seguem-se considerações sobre os deveres de um narrador.2 Em Contos fluminenses. capaz de entendê-lo e de saboreálo. escassa de carnes e de sangue (.. mesmo quando sabia que ia contra o horizonte de expectativas de seu próprio leitor comum e atual. obra com que Machado de Assis estreia em volume em 1870. 27) .) rapaz dado ao gênio melancólico (.. 27) Linhas abaixo. (p. valendo-se da autoridade narratorial.... 27) creditada à imaginação de um (.. 27)3 A essa benevolente alusão à conveniência narrativa..) (p. tratado sempre com deferência e educação.. que desembocam em elogio à objetividade. Começa refutando a imagem de Miss Dollar como (. traz o leitor para dentro do texto já na primeira linha: Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber quem era Miss Dollar..MACHADO DE ASSIS: UM MESTRE DE LEITURA1 Todo artista aspira a ser lido. o leitor comparece não poucas vezes. perfeita. o narrador entrega-se à volúpia de imaginar diferentes e variados tipos de leitores. (p.

realizasse um romance verdadeiro. a Miss Dollar do conto deve ser (. cuja interpretação o narrador desqualifica sem rebuços: 0 leitor superficial conclui daqui que o nosso Mendonça era um homem excêntrico. aportando ao Brasil em procura de assunto para escrever um romance. qualifica de mais esperto do que os outros (p. casando com o leitor aludido. o narrador cumpre finalmente sua promessa. ocupa o patamar mais baixo o leitor superficial. 36) . Provará com isso que tem pouca prática do mundo. tem à sua frente uma velhice sem recursos. 28) E só depois dessa célere multiplicação de leitores imaginários.. que. 32) Mais adiante. nem a velha literata. (p. (p. e desvela a identidade de Miss Dollar: A Miss Dollar do romance não é a menina romântica. o mesmo imaginoso narrador investiga as expectativas de um outro tipo de leitor: daquele que.. nem a brasileira rica (. tendo já passado a segunda mocidade.. os conspícuos: Algum leitor conspícuo desejaria antes que Mendonça não fosse assim tão assíduo na casa de uma senhora exposta às calúnias do mundo. a visita à galeria pode constituir lance sugestivo para o esboço de uma história social da leitura na segunda metade do século XIX brasileiro. 28) e cuja esperteza parece consistir na interpretação de Miss Dollar como brasileira de quatro costados (p. O narrador qualifica com frequência o leitor de quem e com quem fala. 28) Essa assídua convocação do leitor prossegue pelo resto do conto. mesmo quando o texto já navega desenvolto as águas desatadas da narração. incessantemente extraídos de sua algibeira. organizando hierarquicamente a galeria de leitores que constrói. o narrador arrasta para cena outra casta de leitores. então. para quem. (p. Não era. lisonjeiramente. (p. ele convoca uma outra imagem de leitor que.No parágrafo subsequente. o leitor grave: Algum leitor grave achará pueril esta circunstância dos olhos verdes e esta controvérsia sobre a qualidade provável deles. 27) Vê-se que o narrador de Miss Dollar dispõe de galeria inesgotável de leitores-personagens que faz desfilar pelo texto: ao antecipar uma vez mais interpretações para a personagem-título. Se a moldura escolhida para os quadros da galeria for o contexto sócio-histórico da literatura machadiana. (p.) boa inglesa de cinquenta anos. 28). para alívio dos leitores de carne e osso. dotada com algumas mil libras esterlinas. 28) A ele segue-se seu antípoda.. (p. e que. nem a mulher robusta. vindo seu nome à conta de sua riqueza: Miss Dollar quer dizer apenas que a rapariga é rica.4 Em tal galeria.) Miss Dollar é uma cadelinha galga.

pelos lábios de seus oráculos. a ironia implacável que. Não se trata aqui. nas páginas de A Marmota... Transplantar uma . mas já escrevia sobre teatro — e nessa época o teatro era o palco onde se definiam os rumos da cultura nacional —. seria ocioso discutir isso.) um tratado sobre direitos de representação reservados. mas sobretudo para eles. leitor apressado! O fato é que. A crítica de Machado enumera argumentos que justificam o imposto sugerido: As tentativas naufragam diante deste czarinato de bastidores. quando o necessário fortalecimento do sistema cultural era bandeira assumida por todos os intelectuais. A constância da metalinguagem através da qual Machado.. imoral e vergonhoso. Em 1858 Machado não tinha ainda publicado nenhuma peça e.). pois. o percurso se cumpre sempre. ou se este foi mudado naquele por efeito de algum caso incidente. de discutir se o Machado de Brás Cubas já estava dentro do de 'Miss Dollar'. nas suas entrelinhas.. A tradução é o elemento dominante. não advogava em causa própria. depois de tantas convocações para o interior de um texto que lhe discute as expectativas. fazendo ver a necessidade de: (. o leitor brasileiro do século passado que teve sob os olhos esta 'Miss Dollar' estava. assim sendo. na pele do colaborador da imprensa carioca. (p.. falasse às turbas entusiasmadas e delirantes. fazendo-se portavoz de reivindicações em prol da cultura brasileira. Na berlinda. Essa metalinguagem constante amplifica ao máximo o mise-en-abyme da obra e guarda. o que emprestava autoridade a sua voz. tradutor e crítico — ao longo dos anos sessenta. acuado pela cultura francesa de carregação. com um apêndice e um imposto sobre traduções dramáticas. também milita em prol das letras nacionais! Já em abril de 1858. educando-se na leitura literária. que não destoa do contexto brasileiro das últimas décadas do século passado. familiarizado com suas tretas e mutretas.. transformando leitores em personagens. mesmo estreante5.Como se vê. Machado já orquestra e embaralha os fios da ficção e da realidade. de palpites de um curioso. um Machado de dezenove anos pedia providências que defendessem o teatro brasileiro. Como no caso do romance-texto (que uma das presuntivas Miss Dollar pretendia escrever) em trânsito para o romance-vida (o envolvimento amoroso da mesma presuntiva Miss Dollar com o virtual leitor pobretão do texto de Machado. cairá com olímpica indiferença sobre a cabeça dos leitores de Brás Cubas. evidentemente. a pretexto de seus leitores. pelas mãos seguríssimas do narrador machadiano. É entre esses intelectuais que o em geral politicamente discreto Machado. 788) O artigo revela um Machado bastante atento à República das Letras. alguns anos e obras depois. ao qual Machado vai dedicar-se com empenho cada vez maior — como autor. tematizando e encenando os caminhos do envolvimento do leitor com a matéria narrada. neste caso que deveria ser a arca santa onde a arte. o teatro. pois que tende a obstruir os progressos da arte. tematiza o ato de leitura em curso inscreve no texto uma espécie de pedagogia da leitura. Não se trata.

no decênio de sessenta. Machado aponta. Machado atribui a pobreza da oferta literária à “falta de gosto formado no espírito público” e. e à parte meia dúzia de tentativas bem-sucedidas sem dúvida. atrasada e anacrônica: É mais fácil regenerar uma nação que uma literatura.. Para esta. lábios de oráculo e turbas delirantes. no Capitólio moderno. se os escritores conseguem encarregá-lo. Não dizemos que isso ocorra com todos os livros. assistia à migração para o teatro de expoentes das letras. Ainda em 1858. José de Alencar chamaria de país do monopólio. Analisando a questão. tempera seu desencanto com análise mais sofisticada dos elementos envolvidos na produção literária e que contribuem para seu desalento: (. de Franklin Távora — o panorama das letras brasileiras parece ter sido desolador nesse ano. da impressão de suas obras. Machado como que se penitencia dos arroubos retóricos do texto anterior.composição francesa para a nossa língua é tarefa de que se incumbe qualquer bípede que entende de letra redonda.) quando aparece entre nós essa planta exótica chamada editor. ao correr da crônica. (p. dar-lhe voga. saturado de boas intenções. por meio de um contrato. o impasse maior da produção cultural em uma sociedade como a brasileira. e não se chega em um só momento a um resultado. Neste artigo de 1866. como Macedo e Alencar 7. como os heróis de Tácito. (p. nesse texto de 1866. agora com sobriedade notável. no país que.. oito anos depois (em 1866). um pouco mais tarde (1874). a concorrência é quase nula. Machado reclama de uma “temperatura literária abaixo de zero”. o discurso machadiano sofre reajustes e incide sobre a literatura. essa. não há gritos do Ipiranga. aparentemente. 841) Reencontra-se. no calor de uma polêmica sobre direitos autorais. empenhados ambos. oito anos antes. 788-9) Não é essa a única ocasião em que Machado dedica-se a inventariar obstáculos à produção artística brasileira.6 Em formulação aguda e precisa. 787) Novo artigo de Machado. uma utopia. admitindo implicitamente o traço quixotesco de propostas fiscais como a sua. em substituir a raridade e esquivança do público de romances pelo calor dos aplausos de plateias lotadas. principalmente considerando as expectativas criadas pela publicação de Iracema no ano anterior (1865). insiste ainda uma vez no mesmo problema: na Semana Literária do muito mais popular Diário do Rio de Janeiro. mas a regra geral é esta. nem com todos os autores. A arte tornou-se uma indústria. A trajetória desses artigos de Machado — do teatro para a literatura — parece oposta à da cultura nacional que. o mesmo Machado que. o mesmo Machado reconhece o gigantismo e a complexidade da questão da cultura nacional. coroá-lo enfim. (p. queixa bastante compreensível tendo em conta que — afora Casamento no arrabalde. mas também inchado de arcas santas. e os livros aparecem e morrem nas livrarias. apontava a . brilha pela ausência. Há um círculo limitado de leitores. 0 que provém daí ? O que se está vendo. neste outro texto de 58. o nosso teatro é uma fábula. é claro que o editor não pode oferecer vantagens aos poetas. A opinião que deveria sustentar o livro. as modificações operam-se vagarosamente. pela simples razão de que a venda do livro é problemática e difícil.

desaparece o otimismo.) e que inscreve a questão da leitura no patamar mais amplo da dependência. de pronto acordo. As nossas grandes marcenarias estão cheias de móveis ricos. como o portebibelots: entra-se nos grandes depósitos. Em crônica de 1895 para A Semana.. deslocamento que se agrava mais ainda quando somado ao registro do sotaque francês da cultura em circulação: Que pouco se leia nesta terra é o que muita gente afirma. na Revista Brasileira. há longos anos.. não há só cadeiras. a velha precariedade da infraestrutura para a produção cultural que.. dá como uma das causas do desamor à leitura o ruim aspecto dos livros. Uma destas é a falta de estantes. um momento para pedir que entrasse na ordem do dia o projeto de Direitos autorais. mas toda sorte de trastes de adorno. metonimicamente apoiada no deslocamento de leitura na paisagem cultural brasileira. epilético. não obstante tudo isso (ou será que também por causa disso tudo?). já o preocupava desde 1858. é verdade. alguns com o nome original. retornando a 'Miss Dollar'.precariedade das condições de existência e desenvolvimento do teatro brasileiro. Agora. Reponta no texto um discreto otimismo e uma ainda mais discreta gratidão. contanto que esta causa entre com outras de igual força. porém. 0 senhor presidente do Senado. confirmando a observação. correspondendo à iniciativa de um e à boa vontade do outro. ele continua atento às condições necessárias para a produção cultural e documenta agora a pobreza da infraestrutura disponível para o desempenho das Letras no Segundo Império. vote e conclua a lei. mas são estantes de música para piano e canto. o mau gosto em suma. Resta que o Senado. sem presidentes do Senado no horizonte. Senador Ramiro Barcelos achou.) (p. que afloram quando Machado registra trâmites da legislação sobre direitos autorais: (. fica-se deslumbrado pela perfeição da obra. mesas. incluiu o projeto na ordem do dia. riqueza da matéria.. 668) Ainda em 1895. é o que acaba de dizer um bibliômano. mesmo do fabricado pela indústria nacional. beleza da forma. e nas páginas da mesma A Semana. o bijou de salon por exemplo. Creio que assim seja. Também se acham lá estantes.. o tema retorna quando Machado discute a falta de leitura no Brasil.).) o Sr. pobre e autodidata e que. . pela beleza da forma. fielmente copiados de modelos franceses. vários de gosto. Com tais e tantas credenciais de observador arguto das condições disponíveis para a produção de bens culturais nos brasis de seu tempo. pela riqueza da matéria. dominou o panorama letrado brasileiro na segunda metade do século XIX.. que fala de móveis através de predicados geralmente atribuídos a livros (perfeição da obra.. Ou seja: o mesmo Machado que pedia proteção de mercado para o teatro nacional reafirma. um agora já editadíssimo Machado de Assis. trazida para o texto nas alusões à francesice do mobiliário. (. (p. outros em língua híbrida. Este. em relação ao teatro. camas. 665-6) Ao leitor mais atento não escapa a leveza da ironia nem a eficiência da retórica que trata a leitura através de estantes. Em seu lugar ergue-se a ironia fina. entre os seus cuidados. observar se e como os modos de produção da escrita e da leitura literária se representam na ficção desse escriba mulato.. agora na voz de um intelectual desencantadamente maduro. e até sua morte em 1908. torna-se muito sugestivo. gago. continua acompanhando com atenção gestos e rituais que selam o destino das Letras no Brasil. mestre e patrono das letras brasileiras (também elas já às vésperas da institucionalização numa Academia que iria desfrutar do beneplácito do Estado. a forma desigual das edições.

na figura do leitor e da leitora. R. a necessária educação de leitores que deem conta de tal escrita. 1987. 4 Para uma história social da leitura no Brasil. 0 Escritor (Jornal da União Brasileira de Escritores). parece textualizar a questão.. posteriormente e com alterações. Rio de Janeiro. iluminando um pelo outro. 'O texto. As asas de um anjo (1860). 1962. FARIA. o prazer e o consumo'. Nova Fronteira. no GT de Leitura e Literatura Infantil durante o IV Encontro Nacional da ANPOLL.8 E entre ambos. Luxo e vaidade (1860). a propósito de reações de Machado em face de certas alterações sofridas pelo modo de produção de bens culturais no Brasil. A ostensiva presença desse leitor — quase tão intruso em 'Miss Dollar' como o Brás Cubas de Memórias póstumas nas próprias — reveste-se. José Aguilar. em diferentes obras. Galante de Souza registra não ter encontrado publicação deste texto anterior a Contos fluminenses. O primo da Califórnia (1858). desenrola-se numa paisagem que parece acumular contradições: em ritmo atropelado e dissonante. e semelhantemente às relações autor-público. coexistem formas pré-capitalistas e capitalistas de produção cultural. 6 Cf. A expiação (1867). é diferente o tratamento dispensado aos leitores pelos narradores machadianos. de outro. De um lado. 5 Em sua Bibliografia de Machado de . a cronologia é O cego (1849). & ZILBERMAN. O sacrifício de Isaac (1859). no final do Segundo Reinado e arredores da República. e composta de contos publicados no Jornal das Famílias entre 1864 e 1869. Cobé (1852). O jesuíta (1875). A torre em concurso (1863). se se levar em conta que. Sugere igualmente que tal percurso. num diálogo narrador-leitor em tudo semelhante ao que se derrama por toda a obra machadiana. mas também seu reverso e sua historicidade. O demônio familiar (1858). II e III. s. entretanto. Umberto. Verso e reverso (1857). o modo de produção dos bens da cultura que. o respeitável público. v. 'AS transações internacionais'. In: — Sobre os espelhos e outros ensaios. É como se a ficção de Machado textualizasse o que a crítica e a crônica tematizam. qual seja.d. no caso brasileiro. ela sugere que os distintos tratamentos que Machado. no Brasil. São Paulo. Lusbela (1863). para Macedo. O novo Otelo (1863). é frequentemente convocado para o texto. M. dispensa a seus leitores articulam-se bem com o longo processo sofrido pela obra literária em seu percurso de objeto concebido como destinado à fruição gratuita até seu estatuto de mercadoria. 2 Eco. obra saída à luz em fevereiro de 1870. J . p. como a literatura. João Roberto. Ambos os eventos ocorreram em 1989. as relações narrador-leitor vão sofrendo alterações não de todo independentes das alterações por que passava. Brasiliense. M. . 1 Este texto foi originalmente apresentado na mesaredonda “150 anos de Machado de Assis” no XXXVI Seminário do GEL e. Rio de Janeiro. José de Alencar e o teatro. São Paulo. valiam-se da escrita para sua circulação. Da cordialidade à impaciência dos piparotes. A leitura rarefeita. à medida que a obra de Machado amadurece literariamente. o texto literário de Machado que. Machado de. São Paulo. Afrânio Coutinho. LAJOLO. 8 Cf. ver LAJOLO. Org.Como se viu no conto. 7 É numerosa a produção teatral de Alencar e Macedo nos anos finais de 50 e nos primeiros anos da década seguinte. Se a hipótese é plausível. pela boca de seus narradores. Obra completa. historicamente inscrito nessa transição. O fantasma branco (1856). 1991. de outros significados. encenando-a literariamente pela via da metalinguagem que assim desvela não só o projeto de uma escrita literária. 2. É a seguinte a cronologia do teatro de Alencar no período em questão: A noite de São João (1857). ed. Mãe (1862). mecenato. Perspectiva/Edusp. imposto sobre traduções e reivindicações de direitos autorais. 3 O número entre parênteses indica a página da edição consultada: ASSIS. da solidariedade ao distanciamento irônico. 100.

5. .-fev. 1987.jan. p.

temores e amores que vive o protagonista Ngunga. literatura e todos os etcéteras de que . a partir do instrumento escrita. Sonhador. invocar em seu favor o precedente de Antero. pois o interesse que o livro de Pepetela desperta nasce exatamente dessa falta de originalidade do projeto que parece ter presidido à sua elaboração. ocidental e português: a cultura portuguesa inscreve-se na europeia. o pacto de solidariedade firmado. o mestre-escola e.5 Pepetela pode. que estará em excelente companhia. 3 escrita que foi nas manhãs de dez dias. e os amigos. entretanto. um texto escrito meu. Se esse modo de produção é incomum para um livro. soldado do Futuro. NA ESCOLA E NA LEITURA1 Não posso matar o meu texto com a arma do outro. em momentos de alteração social profunda. a história que ele conta é bem mais trivial: são os conflitos e experiências. os povos dos kimbos. um dia. As condições de produção do livro. seu público-alvo e a militância política de seu autor fazem com que essa obra. Invento outro texto. já se sabe. O texto produzido nessas condições foi divulgado pela primeira vez em 1973.2 As aventuras de Ngunga. entre o político e o literário. na tradição ocidental moderna. escolas. cujos pais “foram surpreendidos pelos inimigos. obra de Pepetela . faze a espada do combate. não se deve apenas ao fato de ele fazer parte de um projeto político que confia à escrita a pedagogia revolucionária: não é original nem necessariamente interessante a criação de um texto (literário) para difusão de um projeto político. E dos raios de luz do sonho puro. debaixo de uma árvore. também já se sabe. em vários momentos. abriu espaço para o cruzamento do estético com o político? Para não recuar muito aquém do século passado nem ir muito além da pátria-mãe. pois. O interesse que esse livro de Pepetela desperta. o precedente de Antero levanta uma questão interessante. na frente Leste. são os combatentes. Longe de constituir uma solução. Interfiro. no entanto. a partir dos 300 exemplares mimeografados pelo MPLA. Trata-se de um precedente branco. desescrevo para que conquiste. para tudo ser como deve. constitua projeto que estabelece. órfão de treze anos. são os tugas4. nas lavras”. numa carteira da mata.AS AVENTURAS DE NGUNGA. pois. de sua concepção a sua circulação. que circularam de forma sorrateira entre os combatentes pela libertação de Angola. fique-se com a belíssima exortação de Antero de Quental ao poeta: Ergue-te. na qual se inventaram livros. Quantos projetos similares ao de Pepetela não se encontram na tradição literária europeia que. Vou é minar a arma do outro. da minha identidade. leitura. Os inimigos. o próprio narrador. com todos os elementos possíveis do meu texto. tem o apelo das obras feitas no calor da hora.

percebe-se que.se ocupam letrados. então duplamente órfãs. a que preço? Logo à primeira vista. cultura letrada e contracultura? É exatamente o que se pergunta a esse Pepetela de Ngunga. os meninos já são crescidos. em comum com os projetos anteriores. recoloca a questão: será que um projeto cuja versão primeira serviu de consolidação da ideologia liberal burguesa. inclusive em seus desdobramentos colonialistas. e até mesmo como arma revolucionária.. então. . A simpatia de que tais projetos estético-pedagógicos gozam junto às elites letradas fin-du-siècle é grande. Curiosamente. nas tropicais florestas e cidades de uma Angola às vésperas da libertação? E se pode. abandonam a Alsácia-Lorena (zona de ocupação alemã) e fogem para a França. no mesmo saco. conciliar. liberalismo e liberação. e continuando a gozar de credibilidade.. aquém e além da Taprobana. livros — não obstante serem mídia privilegiada da cultura burguesa. pode ser impunemente reeditado cem anos depois. em busca dos remanescentes da família. de resistência cultural. fizeram circular com exemplar eficiência os textos de Cuore6e de Le tour de la France par deux garçons7. Pepetela e seu Ngunga sejam outros gatos de outríssimos sacos. lido e relido por muitas e muitas gerações patrícias. de certa forma. Surgiram ambas em momentos de crise de suas respectivas sociedades.8 Assim. fica por saber-se se o solitário Ngunga produz impacto similar na sensibilidade de seus leitores-alvo: a população de Angola envolvida na guerra de libertação. O livro de De Amicis engaja-se no projeto de unificação italiana e o de G. o livro de Pepetela tem um protagonista criança. seriamente abalado pela derrota militar diante da Alemanha. o projeto refaz a travessia atlântica na rota das caravelas. Não é preciso dizer que recuperam ao mesmo tempo ambas. versão africana contemporânea de antigos projetos gerados e executados na velha Europa do século XIX. Serão? A questão começa na observação de que As aventuras de Ngunga constitui. supondo-se que Angola. com Pepetela. Outro traço que aproxima o livro de Pepetela de seus modelos europeus é a orfandade do protagonista. e as crianças. não por acaso também europeia no nascimento — costumam ser concebidos como eficientíssimos agentes de contracultura. cimento precioso na argamassa patriótica dos projetos nacionais então em curso.. Bruno revigora o ânimo nacional francês. proprietários. Que pirueta dialética permite. Por exemplo. Quando o leitor termina o livro. pátria e família. gatos tão distintos como burguesia e revolução socialista. É tanta a simpatia que o projeto atravessa os mares já dantes navegados e aporta ao Brasil onde Olavo Bilac e Manuel Bonfim engajam-se na bem-sucedida empresa de produzirem um similar nacional: o famosíssimo Através do Brasil. no fim do século passado. no entanto. pais de família e — supõe-se — felizes para sempre. Se na cultura ocidental a infância é a fase da vida marcada por fragilidade e insegurança. na Itália e na França que. No livro francês a perda dos pais coincide com a perda da nacionalidade. traços que desde Perrault constituem prato cheio para a sensibilidade de leitores igualmente ocidentais. Tanto a obra italiana quanto a francesa são ao mesmo tempo romances de formação e obras de consolidação de unidade nacional..

prometia ele. que. com vontade de chorar. o percurso de institucionalização cumprido por literaturas europeias. certo e errado. Voltaria a visitá-los. Parece que Angola começa tudo de novo. que jamais se interpenetram. em cujo contexto começa a esgarçar-se a hegemonia dos já aludidos traços europeus e ocidentais de seus modelos literários. no entanto. a nuance. sobretudo.. e. fragmentos de outras ideologias. de subordinações encadeadas. Em vez disso.) com olhos e gosto educados nas produções culturais do Primeiro Mundo. ele também ostenta algumas feições autônomas. o primeiro filho de Kayondo e Maria. identificam-se. sua busca de sobrevivência solitária e autossuficiente coincide com a busca do povo angolano do estatuto novo de nação independente. No Pepetela de Ngunga. os capítulos são sempre muito curtos e frequentemente se fecham de forma lapidar.. com frases que evocam fórmulas rituais de encerramento de narrativas populares: Assim foi a festa do nascimento de Lumbongo.... o Natal ou ambos. Trata-se de uma linguagem que guarda marcas fortes da oralidade das narrativas populares. O quadro de valores que suas narrativas endossam e propagam tem a nitidez das ortodoxias acima de qualquer suspeita. Pois é. muitos diálogos e. Bruno e mesmo nosso Olavo Bilac não conhecem meios-tons. sugerindo uma recepção de texto que se afasta da recepção livresca.. Há que dizer-se. ao contrário.na melhor tradição do conto de fadas. o meio-tom e a .. refazendo. tendo o colonialismo como agente de sua orfandade. Mas talvez a semelhança resida mais nos óculos do que no objeto contemplado: pode tratarse de olhos e óculos treinados a reduzirem tudo a seu código de origem. a propósito desse Pepetela. que é simplíssima: nada de períodos longos. escolar.. (p. (p. adulto e criança são mundos estanques. Reforçando a oralidade. o registro dela não difere do de seus narrados. quando é necessária a intervenção do narrador. Pátria e Família. Ecoam. De Amicis. Mas como nem mesmo Machado sabia se o que tinha mudado era ele. 9) Foi assim que Ngunga deixou a Seção e seus amigos. no projeto de Pepetela. com maiúsculas. 21) É através dessa preservação da oralidade que o livro de Pepetela afasta-se dos modelos europeus e recupera seu horizonte de cultura terceiro-mundista. Riscos e tentações crescem e tropeçam na constatação. registre-se apenas a tentação e o risco de ler as literaturas do Terceiro Mundo (inclusive a verdeamarela. embora em seu horizonte não haja parentes a procurar. se Ngunga vem na esteira de vários romances educativos ocidentais. no projeto de sua literatura. G.. de que são os modelos do Primeiro Mundo os padrões aos quais recorre o escritor deste Mundo Número Três quando se debruça sobre sua folha em branco. O Ngunga de Pepetela sofre a mesma carência dupla de pais e de pátria. de outros tempos. A começar pela linguagem. bem e mal. de parágrafos maciços. de terras outras e.. pois. ocidental e que dá sentido emergencial e menos pitoresco àquele modo de produção sob as árvores e sob o sol. de origem igualmente europeia. Novamente.

prazer e brincadeiras sempre controlados. Ngunga ora é criança demais. Não devia mandá-lo embora.ambiguidade estão presentes o tempo todo. escolhido pelo Movimento para dirigir o povo. são tratadas diferentemente por Pepetela. Ngunga preserva a noção de liberdade individual e lhe dói sempre a injustiça de um mundo organizado e gerido por adultos autoritários. Mas também é mau. o trabalho. 54) A defesa da infância se faz explicitamente no elogio de Ngunga ao professor União: O camarada professor é capaz de ser ainda um bocado criança. nessa sua resistência — traço original do livro em face dos similares europeus e brasileiros —. Aqui já te disse que não podes ficar. Assim manipulada. Estou a aprender. mesmo quando esses adultos são pioneiros e/ou guerrilheiros: Todos os adultos eram assim egoístas? Ele. Era generoso. cabendo ao primogênito iniciar o caçula nas sucessivas (e dolorosas. tu és pequeno demais para ser guerrilheiro. Em conversa com o Comandante Mavinga. pois é rebelde às exigências do real social e histórico. trabalhando na lavra. Ngunga ficou a olhar o velho Chipoya. o ideal escolar (adulto e ocidental na origem. Andar só. Mas Ngunga resiste e. — Como? Estou a ver novas terras. por exemplo. e nomeados pelo Movimento para dirigir o povo. Na voz de seus vários interlocutores. para arranjar a comida dos guerrilheiros. o que sugere que em projetos pedagógicos bemsucedidos o abafamento da infância acaba incorporado pela própria criança. Em seu longo itinerário de conquista da maturidade — que nas circunstâncias específicas angolanas equivale a tornar-se militante na luta pela libertação do país —. a condição infantil torna-se presa de fácil dominação. como fazes. Ngunga. foi mau. Igual ao Kafuxi. fecundando o texto.. Por isso ainda é bom. não é bom. O fato de os irmãos serem dois. oferecia. era essa força dos bracitos. . Estava certo? (p. No livro de Bilac. E não estás a aprender nada. tanto no livro francês quanto no brasileiro. Idade e orfandade do protagonista. Até mesmo um chefe do povo. E essa força ele oferecia aos outros. ora demasiadamente crescido para ser dono de sua vontade. Com o Chivuala. Uns exploradores todos eles.. em nome de um valor mais alto que se alevanta: o dever. nada possuía. Mas os adultos? Só pensavam neles. Não. a condição infantil é sistematicamente reprimida. Oiço o que falam. o estudo. 15) Mavinga foi ter com os mais velhos. tinha uma coisa. está o traço maior de solidariedade a que esse livro convida seus leitores. 30) A desconfiança em face do mundo adulto transparece também no pouco entusiasmo com que Ngunga encara a escola. (p. não sei. Um dia vai acontecerte uma coisa má.. O que ele tinha. muito vaidoso ao lado do Comandante.) não parece seduzir muito o menino que defende o aprender-vivendoe-fazendo em lugar da aprendizagem institucionalizada da escola: — Ngunga. É nesse aspecto que o solitário Ngunga ganha muitos pontos em comparação a outros heróis juvenis ocidentais. que já se viu serem ponto comum entre o romance angolano e obras de outras tradições culturais. (p. comete o infanticídio: o irmão mais velho assume o papel repressor.. novas pessoas.) fases de maturidade. sendo jogo. como que facilita a escalonada e paulatina substituição do ser-criança pelo ser-gente-grande. em Através do Brasil. novos rios. Mais ainda: não é sempre o paternal narrador bilaquiano quem.

desenvolvimento das categorias críticas que deem conta de tal movimento. como solução narrativa. ressurge como mito. 1877. José. Mas pouco se interessara por aprender. é a lição de solidariedade e lealdade. (Nas citações. 2 RUI. ficando a alfabetização para mais tarde. a da libertação de Angola: (. favorecendo a elaboração de uma teoria e de uma história da leitura específica das regiões do planeta onde ela chegou na esteira de projetos coloniais. Marisa. Unicamp. o final do livro de Pepetela não coincide com nenhuma restauração universal de equilíbrio: Ngunga não recupera os pais (happy-end de Através do Brasil. União dos Escritores Angolanos. leitura. desaparece de cena e as falas finais do livro são do narrador que se dirige diretamente ao leitor. forma pejorativa de referir-se aos portugueses colonialistas. 3. no olho da palmeira: o menino desaparece na selva e. e a nós. 5 QUENTAL. 37) Também ao contrário dos romances de formação ocidentais. não sendo uma rima. A lição que ele lá aprende. São Paulo. As aventuras de Ngunga. 7 De G. 1968.. 6 De Edmond de Amicis. em que era falsa a notícia da morte do pai dos meninos) e tampouco seu país consolida-se como independente. IEL. entretanto. . O que. no número 1 de EPA (Estudos Portugueses e Africanos). 1983. exortando-o a descobrir e cultivar o Ngunga que cada um tem dentro de si. Globo. Porto Alegre. Ática. a partir de certo ponto. 1 Versão anterior deste texto foi publicada em 1983. podia meter um bilhete na cela de União e combinarem juntos a fuga. Já viste um professor? (p. 1896. 8 Sobre a literatura escolar de Bilac e seu débito a essas duas obras da tradição escolar europeia. Sá da Costa... ver LAJOLO. que lhe dizia que um homem só pode ser livre se deixar de ser ignorante. Antero de.— Não é a mesma coisa. Pela primeira vez Ngunga deu razão ao professor. Bruno. Usos e abusos da literatura na escola. O desaparecimento de Ngunga é voluntário e. 20) Para todos os efeitos. escrita e escola. e assim mesmo só tolerada como instrumento para a causa maior. Sonetos. ed. desaparecendo. E assim vais conhecer o professor. profissionais da leitura. Numa escola aprendes mais. Cinco vezes onze. aproxima-se muito do antológico desaparecimento de Ceci e Peri. (p. Poemas em novembro. 1982.) se soubesse escrever. pode bem ser uma solução.) 4 Corruptela de portuga ( = portugueses). Lisboa. 3 PEPETELA.. 1985. Manuel. os números entre parênteses indicam a página desta edição. Ngunga. Solução narrativa que textualiza. o ponto de vista do comandante (e do narrador?) leva a melhor e Ngunga vai efetivamente para a escola. Práticas e instituições impostas pelo colonizador. elas tornam-se essenciais para a libertação do jugo colonial. cabendo à literatura expressão simbólica a tal passagem. só gostava mesmo de passear. como protagonista. com os impasses vividos pela literatura angolana.

na qualidade de repórter do Grito do Picapau Amarelo. 4. em novembro de 1933.. desabafa com a irmã. declarando-se encalacrado em dívidas: Hás de crer que acabo de cometer um dos maiores erros de minha vida? Entrei no Stock Exchange com todos os recursos que pude reunir. que ele anda querendo publicar. um jornal que ela vai fundar no sítio. Errei o bote. Está estupendo. cada vez mais. que você não imagina. Em vez de ganhar. ou por desfrutar do prestígio dos clássicos — garante circulação ampla e recompensa financeira para um quase insolvente Lobato que.LOBATO. a Cleo. tenho de sair perdendo. Minha moeda sempre o livro (sic) e vamos ver agora se reduzo a moeda os livros em estado potencial que tenho na cabeça.000 . em carta a Viana. estarei habilitado a recobrar o perdido e talvez sair ganhando. Seria uma operação muito fácil meses atrás.. Dei também Alice no País das Maravilhas e Robinson.) Estou em arranjos com o Octales para vender o resto das ações que tenho na companhia e. receio que este passo falhe — falhando. já perdi metade do meu capital e estou ameaçado a perder o resto e ainda devendo alguma coisa.. em troca de ele me custear as despesas da doença do Edgar. Basta dizer que tirei uma edição inicial de 20. Anísio. Caso ele aceite. Dialogamos inventadamente sobre o que nos veio à cabeça e todos gostaram. Destacam-se aqui as obras cuja temática — por interessar à escola. anuncia a Anísio Teixeira Emília no país da gramática: Estou escrevendo Emília no país da gramática. e que se traduzem em proposta feita à editora Nacional: (.2 A década que se abre em 1930 é difícil para Lobato que.) escrevi ao Octales propondo uma série de novos livros infantis. e ainda de Nova York. com o Venerabilíssimo Verbo SER que ela trata respeitosamente de Vossa Serência! Está tão pernóstica.4 O envolvimento de Lobato (retornado ao Brasil em 1931) com a campanha do petróleo prolonga o tempo das vacas magras e faz com que sua sobrevivência dependa. se isso se der. UM DOM QUIXOTE NO CAMINHO DA LEITURA1 Já viste Reinações de Narizinho? Vou falar na editora que te mandem. (. de Nova York (em 9/1). mas com a escassez absoluta de dinheiro que anda em São Paulo. tudo na mesma semana. ele anuncia ao amigo Fontoura as providências relativas a suas precárias finanças. Inda agora fiz a entrevista de Emília.3 Em maio do mesmo ano. certo de fazer fortuna. E ontem falei no Rádio com a filhinha do Octales. Só aí no Rio. irá conversar com você para combinar o pagamento do que já forneceste a Teca.5 Em 15 de agosto do ano seguinte. Lobato alude ao sucesso do livro: A minha Emília está realmente um sucesso entre as crianças e os professores..000 e o Octales está com medo que não aguente o resto do ano. uma menina que é um encanto de desembaraço. dos livros infantis que escreve e das traduções que faz.

Lobato antecipa a carência de livros paradidáticos. de tradução e de adaptação. Vêm em 1937 os Serões de Dona Benta e 0 poço do Visconde.. E ele. no bojo de um de seus projetos previamente combinados com Octales. Mas a crítica de fato não percebeu a significação da obra.vendidas num mês. uma farra infantil. que já tinha temperado a mão em História do mundo para crianças (1933).8 Na carta. entre os quais o ser desadotado em escolas católicas. Esse pedido espontâneo. em vez de pegar milhões de dólares. em que tempo (ou texto) é dinheiro. O mais difícil era a gramática e é a aritmética. a partir de 35. Perrault. a criançada me rodeou com grandes festas e me pediram: “Faça a Emília do país da aritmética”. porque lidam com coisas concretas. da Companhia Editora Nacional. lança seu D. Só me volto para as letras quando o bolso se esvazia e agora. esse grito d'alma da criança não está indicando um caminho? O livro como o temos tortura as pobres crianças — e no entanto poderia diverti-las. Todos os livros podiam tornar-se uma pândega. E ainda fiz Emília no país da gramática. Quixote das crianças. a várias matérias do currículo escolar: a Aritmética de Emília é de 1935. provavelmente. A química. especificando a literatura infantil (ao lado do jornalismo) como gênero economicamente rentável. Resultado: literatura around the corner. O homem invisível de Wells e Polyana moça. O resto fica canja. boto literatura infantil! mas se sai a bolada. boto livro.. E foi. é também mencionado em carta a Rangel. com amiudadas visitas ao poço do Araquá. e num galope. a década de trinta que vê um empobrecido Lobato apontando lápis e planejando livros para sobreviver. então adeus Minerva!7 Sabe que concentrei um Robinson? Octales encomendoume e filo em cinco dias — um recorde: 183 páginas em cinco dias. perdi alguns milhares na bolsa. que. pois. obras em que o mesmo projeto informativo que norteia seus paradidáticos coexiste com o projeto político que custou não poucos dissabores a Lobato.) sabe que estou em véspera de ressuscitar literariamente? A famosa comichão vem vindo — e terei de coçar-me em livro ou jornal. encontra-se um projeto de leitura. É. além da sugestão de que certos gêneros literários são mais rentáveis. em 1936. Imagine só a batelada de janeiro até hoje: Grimm. Rangel. Petróleos do Brasil. desastre terrível para quem tem nos livros o ganhapão da família. a geografia prestam-se imensamente. como a gramática da Emília o está fazendo.9 Assim. E se não me sai logo uma tacada em que tenho grandes esperanças. Positivamente não sei explicar como produzi tanto sem atrapalhar meu trem normal de vida. na década de trinta. O livro da jungle. Nesse livro. Numa escola que visitei. dedica-se.6 Em carta anterior a Godofredo Rangel (26/6/30). E o leitor de hoje — em particular o educador preocupado com questões de leitura — pode . Lobato alude indiscretamente a um modo de produção pouco recomendável: livro feito entre duas partidas de xadrez e uns dedos de conversa. à tradução e à adaptação: (. de 16 de junho de 1934: Tenho empregado as manhãs a traduzir. Vale como significação de que há caminhos novos para o ensino das matérias abstratas. inclusive um domingo cheio de visitas e partidas de xadrez.. a biologia. Andersen. Fiz a primeira e vou tentar a segunda. mesmo ano da Geografia de Dona Benta e da História das invenções... Esse modo de produção atabalhoado. tal como os conhecemos hoje. rentabilidade ainda mais assegurada pela adesão ao gênero paradidático. boto jornalismo. Tudo isso sem faltar ao meu trabalho diário na Cia. Lobato já insistia na literatura como fonte de renda. Contos de Conan Doyle.. a física.

não obstante a propaganda de Dona Benta: (. proposta de leitura bastante similar: A moda de Dona Benta ler era boa.. E sempre que dava com um botou-o ou comeu-o. de cujo nome não quero lembrar-me.. passo primeiro para tornálo legível. onde estava. as Reinações de Narizinho. a propósito de Pinocchio. O texto relata que Dona Benta: (. não há muito. adarga antiga e galgo corredor. razão pela qual se tornou clássica. Como quase todos os livros de crianças que há no Brasil são muito sem graça. Se o livro inteiro é nessa perfeição de língua. Lança em cabido. aí do peso de uma arroba. — Ché! — exclamou Emília. comeu ele — e ficava o dobro mais interessante. cheios de termos do tempo do onça ou só usados em Portugal. Nós... vivia. castiço e castilho da linguagem assusta os ouvintes.11 . Com palavras suas e de tia Nastácia. Não entendo estas viscondadas. A inadequação dos clássicos no original para um público culturalmente imaturo já fica sugerida na engenharia necessária para tornar portátil o D. lia botou ele. com a criançada em redor. Pois Lobato encara e discute tudo isso. lia fogo.. por exemplo. 12) A ideia dessa leitura ao alcance de todos não é novidade na obra de Lobato. que não somos viscondes nem viscondessas. (p. que não dê trabalho para ser entendido. Lia “diferente” dos livros.. no sítio do Picapau Amarelo. Já em seu livro inaugural.. Dona Benta começou a arremedar a voz de um italiano galinheiro que às vezes aparecia no sítio em procura de frangos. 11) Ameaçada de perder seu público.) na noite deste mesmo dia começou a ler para os meninos a história do engenhoso fidalgo da Mancha. onde estava lareira lia varanda.) Dona Benta começou a ler: — Num lugar da Mancha.. e textualiza-se: o teor clássico. bem transparentinho. nesse Quixote. sentou-se Dona Benta..encontrar. em vez de ler.. vou contar a história com palavras minhas. Quixote. um verdadeiro trambolho.) esta obra está escrita em alto estilo.. e para o Pinocchio inventou uma vozinha de taquara rachada que era direitinho como o boneco devia falar. — Isso! — berrou Emília. (p. adarga antiga. até logo! Vou brincar de esconder com o Quindim. Pedrinho teve de fazer uma armação de tábuas que servisse de suporte. respostas para questões que permeiam seu dia a dia escolar e que abrangem desde a crucial pergunta que livro indicar? até a questão de os clássicos serem ou não adequados a tal ou qual faixa etária. não. e a inadequação entre obra e público ultrapassa as dimensões objetuais do livro em questão. Diante daquela imensidade. ele encenara.10 Tratava-se de um Cervantes em tradução portuguesa do século passado. Como naquele dia as personagens eram da Itália. Como fosse livro grande demais. Dona Benta recua e concilia: (. lume. a boa velha lia traduzindo aquele português de defunto em língua do Brasil de hoje. queremos estilo de clara de ovo. Mas como vocês ainda não têm a necessária cultura para compreender as belezas da forma literária. um fidalgo dos de lança em cabido. rico de todas as perfeições e sutilezas de forma.. Os viscondes que falem arrevezado lá entre eles. e minhas também — e de Narizinho — e de Pedrinho — e de Rabicó. galgo corredor.

como na passagem referente aos impasses de alimentação do herói: entalado em sua armadura. Relativamente a esse Quixote versão Lobato. leitora experiente. muitas vezes. a ironia de Cervantes ganha uma impensada dimensão: se a figura de um cavaleiro andante enlatado já representa considerável (e hilariante. Era-lhe absolutamente imprescindível e indispensável encontrar um cavaleiro que o armasse cavaleiro.Atender. 28) Assim. no entanto. Ao narrar. Dona Benta. dado por outro cavaleiro. Ser armado cavaleiro é receber o grau de cavaleiro andante. arma-os leitores. se reveste de ironia. Que vê lá? Um menino. (p. o sentido. assim um pouco maior do que Pedrinho. por exemplo. apontando uma das rotas pela qual pode perfazerse o trânsito dos clássicos de uma cultura para outra. sugestivo de que só a partir da evocação de experiências vividas pelos leitores o texto encontra seu sentido. 19) Dona Benta. torna-se necessário que lhe enfiem garfadas de comida boca adentro e se valham de um funil para o vinho. toma a si a tarefa de apontar à sua plateia os elementos necessários ao fortalecimento da verossimilhança. o leitor de Lobato assiste ao envolvimento progressivo da plateia pela leitura.. ela também os arma cavaleiros. Dona Benta favorece o envolvimento que amarra o leitor ao texto e o envolve. amarrado a um tronco de árvore e a receber uma tremenda sova de correia. Percurso da ida e volta entre texto e vida. E nisso ia pensando D. de um tempo para outro. — Ser armado cavaleiro é coisa diferente de um cavaleiro armar-se com armadura e armas. À medida que a história do cavaleiro da Mancha se desenrola por muitos serões noturnos. Ao fim do episódio. Quixote já não andava armado? observou Emília. sua comparação com o pinto doente. leitora madura e competente. ela sugere categorias pelas quais sua audiência pode reconhecer-se na personagem: — Num ápice estava no ponto de onde vinham os gritos.. aos apelos pela comunicabilidade não faz com que Dona Benta — e através dela Lobato — deixe de conceber a leitura do livro como oportunidade para ampliar o universo cultural de seus ouvintes: a passagem do livro que informa que “antes de serem armados cavaleiros. pelos expedientes de sua leitura. do envolvimento. isto é. (p. por assim dizer tropicaliza a ironia. de uma audiência para outra. 23) Com a intervenção de Emília. num prosaico terreiro. Mas esse pinto não era andante — não tinha viseira. da compreensão.) rebaixamento da imagem da cavalaria. quando Dona Benta relata a ironia com que o amo diz ao menino espancado: . Os resultados não se fazem esperar. faz-se a iniciadora de seus ouvintes na leitura: à sua maneira. não são cavaleiros” dá chance a uma pergunta de Emília: — D. (p. Emília carnavaliza: — Já vi tia Nastácia encher assim o papo dum pinto doente — observou Emília. o encontro de D. Quixote pelo caminho. Quixote com o jovem chicoteado pelo amo.

Vestidinho de cavaleira-andante. O viver vidas alheias — promessa sedutora e irresistível da leitura de ficção — é aqui encenado à maravilha. Não ficou um só! Que coisa gostosa. Fugia e saía pelo mundo até encontrar de novo D. fazendo a bicharada fugir num pavor. E botou um cinzeiro de latão na cabeça.. 45). que regalo! Corri ao milharal e não vi nenhum pé de milho na minha frente. a boneca chama a atenção de Pedrinho para o fato de que rachar brutamontes de alto a baixo. Só vi mouros! Ah! Caí em cima deles de espada que foi uma beleza. Convenci-me de que eu era o próprio Roldão.. 32) O episódio cala fundo em todos. correra a esconder-se dentro de um caixão.. até que não pude mais. (p. também nesse D. Até o galo. ah. (p.. 180-1) . que era um carijó valente. e começou a espetar todo o mundo. Minha cabeça virou — ficou assim como a de D. Quixote e trazê-lo para rachar o brutamontes de alto a baixo com a lança.. Destrocei-os completamente. Por fim montou no Visconde. só com a espada. Comecei a ler e fui me esquentando. Quixote a boneca não fica imune à loucura do protagonista: Emília continuava a dar vira-cambotas. 102-3) À semelhança do que sucedera por ocasião dos serões nos quais Dona Benta contava às crianças a história de Peter Pan (cuja tradução adaptada de Lobato é de 1930). inclusive em Emília. quando a sombra cortada de Peter Pan sugere a Emília picotar a sombra de tia Nastácia. na maior gritaria. (p. Venha ver quem nos escangalhou o milharal. (p. avançava contra as galinhas e pintos com a lança em riste. E quando a senhora saiu com tia Nastácia e Narizinho para visitar o compadre Teodorico. (p. o retorno ao real. que sonha que o malvado patrão do André apareceu no sitio (p. ou seja. Fui lá no quarto dos badulaques e tirei aquela espada que pertenceu ao velho tio Encerrabodes. dizendo que era o elmo de Mambrino. — Nastácia! — gritou Dona Benta. e amoleia no rebolo. dizendo que era Rocinante.. danada com a brutalidade do homem.. Depois foi buscar um cabinho de vassoura e disse que era lança.(. Dona Benta gritou-lhe várias vezes que parasse com aquilo. Ao fim do episódio. o projeto se encorpa ao longo do livro. Quixote. uma vez que lança é só para espetar. no caso patrocinado por Emília. não faltando sequer a ruptura do envolvimento. a partir de situações de leitura vividas pelas personagens-leitores. Ah! Ah! Ah!. 30) Narizinho não se contém: — E o menino foi? — indagou Narizinho. 31) dando a deixa para Pedrinho: — Pois eu ia — disse Pedrinho.) vai agora atrás do tal defensor dos inocentes e pede-lhe que te cure o lombo. reforçando-se em uma confissão de Pedrinho relativa a uma leitura aparentemente feita sem a interferência de adultos: (. Foi Pedrinho. (p. A boneca fora tomada dum verdadeiro delírio de heroísmo. Tudo inútil. me esquentando. Multiplicam-se assim passagens nas quais Lobato cifra questões de leitura.. e que podem contagiar os leitoresleitores. bem amoladinha.) na semana em que caiu em casa aquele livrinho da história de Carlos Magno e dos doze pares da França. 154) Dona Benta foi espiar pela janela e de fato viu as estripulias que Emília dei Rabicó estava fazendo no quintal. De leitores de papel-e-tinta a leitores-de-carne-e-osso. toda cheia de armaduras pelo corpo e de elmo na cabeça.

Tampouco falta ao livro a ideia de que ouvir a história de D. Quixote não é a mesma coisa que lê-la, e lê-la na íntegra, cabendo também a Dona Benta chamar a atenção das crianças para a diferença entre originais e suas adaptações:
— É uma lástima — disse Dona Benta — eu estar contando só a parte aventuresca da história do cavaleiro da Mancha. Um dia, quando vocês crescerem e tiverem a inteligência mais aberta pela cultura, havemos de ler a obra inteira nesta tradução dos dois viscondes, que é ótima. (p. 212)

A tradução em questão é a do visconde de Castilho e visconde de Azevedo, apresentados por Dona Benta no começo dos serões:
— O visconde de Castilho foi dos maiores escritores da língua portuguesa. É considerado um dos melhores clássicos, isto é, um dos que escreveram em estilo mais perfeito. Quem quiser saber o português a fundo, deve lê-lo — e também Herculano, Camilo e outros, (p. 11)

Para quem estranha essa adesão consentida aos clássicos, o prosseguimento da conversa sobre adaptação traz outros elementos de surpresa: prosseguindo a defesa da superioridade da leitura de obras integrais, Dona Benta discute o desencontro entre a tradução de Castilho e a recepção dela pelo pessoal do sítio:
— É que ela está escrita em português que já não é bem o nosso de agora. Hoje usamos a linguagem mais simplificada possível, como a de Machado de Assis, que é o nosso grande mestre. Os escritores portugueses, que chamamos clássicos, usavam uma forma menos singela, mais cheia de termos próprios, mais rica, mais interpolada... (p. 212)

Mais adiante um pouco, e face à geral condenação da norma culta pela audiência do sítio, que através da boca de Emília acusa o estilo clássico de dar dor de cabeça e constituir uma charada, Dona Benta explica:
— Para vocês, meus filhos, que estão começando a lidar com a língua. Já eu entendo o período perfeitamente, sem nenhuma dificuldade, (p. 213)

A relação de Dona Benta com a cultura é, assumidamente, uma relação mais complexa, mais aprofundada, mais antiga, e que assim se proclama sem falsos escrúpulos de um igualitarismo enganoso. O que parece sugerir que entre um iniciador de leitura e os iniciandos (ou entre um professor e seus alunos) não se deve estabelecer nenhum nivelamento por baixo. Dona Benta, como todo e qualquer leitor competente, aliás, como todo e qualquer usuário competente da língua escrita e oral, é poliglota, isto é, transita com facilidade do estilo clássico de Castilho para o estilo coloquial de sua plateia. Mas tem plena consciência de que ambas as modalidades são diferentes, e que sua responsabilidade, como iniciadora de jovens na prática de leitura, é levá-los até o classicismo de Castilho. Em outra passagem do livro, vêm à tona as expectativas da escola em face da leitura dos jovens. Conversando com Emília, que atribui sua crise de loucura à revolta contra tanta

besteira que há no mundo, Dona Benta retruca:
— Lá vem você com as palavras plebeias! Muitas professoras, Emília, criticam esse seu modo desbocado de falar. Besteira! Isso não é palavra que uma bonequinha educada pronuncie. Use expressão mais culta. Diga, por exemplo, tolice, (p. 195)

Como os anos trinta são o tempo em que Lobato usa da pena para sobreviver, o quanto essa sobrevivência depende da aprovação das senhoras professoras é fácil de imaginar a partir do que vivemos hoje, quando a escola decreta se a personagem do romance juvenil pode ou não fumar maconha, pode ou não ficar embriagada, se pode dizer merda ou deve dizer droga! A completa conversão de Emília, que ao fim do episódio adere a formas menos quixotescas de protesto, parece atestar, já ao tempo de Lobato, a forte dependência da literatura juvenil da escola. Assim, nesse D. Quixote das crianças, o leitor encontra material bastante rico para reflexão sobre questões de leitura, de leitura dos clássicos, da adequabilidade de certas linguagens a certos públicos, do papel a ser representado pelo adulto responsável pela iniciação dos jovens na leitura e mais miudezas. Naqueles pacatos anos trinta, ainda sem roteiros de leitura, fichas de atividades, sugestões de trabalhos, sem notas de rodapé nem glossários, Dona Benta patrocina a seus ouvintes as experiências e as discussões de leitura necessárias ao amadurecimento deles, fazendo a ponte entre algumas questões nossas contemporâneas diante de leitura, escrita e escola, e o encaminhamento que tais questões tiveram em outro momento de nossa história cultural.
1 Este texto foi originalmente apresentado na mesaredonda sobre Monteiro Lobato durante o XXXV Congresso do Grupo de Estudos Linguísticos realizado na Universidade de Taubaté em 1988. Com alterações, foi reapresentado no III Seminário Estadual sobre A Escola e o Texto em Lajeado (RS), no mesmo ano, e, em julho de 1991, na atual versão, foi apresentado como comunicação ao 8 COLE, em Campinas. 2 LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre. 7. ed. São Paulo, Brasiliense, 1956. t. 2., p. 325. 3 LOBATO, Monteiro. Cartas escolhidas. 6. ed. São Paulo, Brasiliense, 1970. p. 161. 4 NUNES, Cassiano. Monteiro Lobato vivo. Rio de Janeiro, MPM Propaganda/Record, 1986. p. 30-1. 5 Idem, ibidem, p. 95. 6 Idem, ibidem, p. 96. 7 LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre, cit. p. 320. 8 Idem, ibidem, p. 322-3. 9 Idem, ibidem, p. 327. 10 LOBATO, Monteiro. D. Quixote das crianças. 7. ed. São Paulo, Brasiliense, 1957. p. 10. (Nas próximas citações dessa obra, indica-se entre parênteses o número da página dessa edição.) 11 Reinações de Narizinho. 7. ed. São Paulo, Brasiliense, 1957. p. 199-200.

TECENDO A LEITURA1
Um galo sozinho não tece uma manhã; ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos.2

O poema de João Cabral sugere uma bela concepção de leitura: os galos que tecem a
manhã evocam os leitores que tecem o significado dos textos com que se deparam ao longo da vida. Tecendo a manhã conota artesanato, solidariedade e diálogo, construindo uma metáfora que sublinha aspectos relevantes para uma reflexão sobre o papel da leitura numa sociedade democrática. Fica, pois, a tecelagem, prática ancestral de fiar, de tingir e de urdir os fios, de entrelaçá-los em tecidos, matriz metafórica da leitura. Ao longo da história, a arte de tecer desemboca nas hoje barulhentas indústrias têxteis, onde o antigo tecelão, por participar apenas de uma das etapas da produção, perde o sentido da totalidade tanto do objeto que produz, como do processo pelo qual o objeto é produzido. À semelhança da história da tecelagem, a modernização ininterrupta do modo de produção do livro a partir de Gutenberg tornou possível (e mesmo necessária) a massificação da leitura, trazendo para o horizonte dela o risco de alienação, de fracionamento e esgarçamento do significado do texto e do ato de ler. A atividade de leitura, que, em suas origens, era individual e reflexiva (em oposição ao caráter coletivo, volátil e irrecuperável da oralidade de poetas e contadores de histórias), transformou-se hoje em consumo rápido do texto, em leitura dinâmica que, para ser lucrativa, tem de envelhecer depressa, gerando constantemente a necessidade de novos textos. O ato de ler foi de tal forma se afastando da prática individual que a tarefa que hoje se solicita de profissionais da leitura, como professores, bibliotecários e animadores culturais, é exorcizarem o risco da alienação, muito embora eles possam acabar constituindo elo a mais na longa e agora inevitável cadeia de mediadores que se interpõem entre o leitor e o significado do texto. Esse papel de intermediário pode afastar da prática docente o artesanato que a leitura exige. O que se reserva aos professores de hoje, a partir inclusive de sua formação profissional, é a divulgação de livros, a decifração de significados, a intermediação e o patrocínio do consumo de textos impressos. E só muito incidentalmente, e como que por acréscimo, a iniciação de jovens na leitura, talvez porque, em nossa tradição cultural, a leitura, como prática coletiva, só exista muito esgarçadamente. Tomar consciência das ambiguidades desse papel pode ser o primeiro passo para mudanças qualitativas nos projetos e práticas de leitura — particularmente as escolares — que ocorrem em diferentes circuitos da cultura brasileira, a começar da ruptura da cadeia de alienações em que se insere a prática escolar da leitura no Brasil de hoje.

solicitar documentos na polícia. suas utopias. mesmo que nunca vá escrever um livro: mas porque precisa ler muitos. É à literatura. simbolicamente. E. dos circuitos da sociedade moderna. de rendas e de lucros é tão desigual. Cada leitor tem a história de suas leituras. também a leitura. os rituais da leitura e o acesso a ela. Assim. no entanto. assinar contratos de trabalho. que fez da escrita seu código oficial. seus desejos. responsável pelo grau de cidadania de que desfruta o cidadão. faz convergir para o significado deste o significado de todos os textos que leu.A literatura constitui modalidade privilegiada de leitura. há também o risco de que o peso e a autoridade das leituras de que ele foi objeto ao longo da história silenciem as outras tantas leituras que ele virtualmente pôde e pode suscitar em outros leitores. se o texto literário — mais do que qualquer outro — oportuniza leituras divergentes. é livre para aceitá-las ou recusá-las. que se confiam os diferentes imaginários. no contexto de um projeto de educação democrática vem à frente a habilidade de leitura. Leitor maduro é aquele que. procurar emprego através de anúncios. conhecedor das interpretações que um texto já recebeu. e capaz de sobrepor a elas a interpretação que nasce de seu diálogo com o texto. A própria sociedade de consumo faz muitos de seus apelos através da linguagem escrita e chega por vezes a transformar em consumo o ato de ler. Mas a leitura literária também é fundamental. em contato com o texto novo. vai entrelaçando o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que. em que a liberdade e o prazer são virtualmente ilimitados. Cada leitor. Desse ponto de vista. a história das suas. Como a manhã. cumpre não esquecer que há outras. ao longo da história de um texto. da filosofia e da arte literária. valores e comportamentos através dos quais uma sociedade expressa e discute. e que essas outras desfrutam inclusive de maior trânsito social. afeta e redimensiona o significado de todos os outros. . já que a participação em boa parte destes últimos é mediada pela leitura. seus impasses. o significado de um novo texto afasta. Cumpre lembrar também que a competência nessas outras modalidades de leitura é anterior e condicionante da participação no que se poderia chamar de capital cultural de uma sociedade e. alfabetizar-se nela. Nesse sentido. para todos aqueles que participam. as diferentes sensibilidades. No entanto. Mas. tornar-se seu usuário competente. habilidade que não está ao alcance de todos. precisa apossar-se da linguagem literária. principalmente a literária. na individualidade de sua vida. se a leitura literária é uma modalidade de leitura. Numa sociedade como a nossa. em que a divisão de bens. a história da literatura de um povo é a história das leituras de que foram objeto os livros que integram o corpus dessa literatura. Por isso a literatura é importante no currículo escolar: o cidadão. cada texto. mesmo que à revelia. consequentemente. não se estranha que desigualdade similar presida também à distribuição de bens culturais. E não apenas para aqueles que almejam participar da produção cultural mais sofisticada. essencial para quem quer ou precisa ler jornais. dos requintes da ciência e da técnica. que no poema de João Cabral se perfazia pelo entrelaçamento do canto de muitos galos. é essencial. este foi acumulando. parece constituir um tecido ao mesmo tempo individual e coletivo. como linguagem e como instituição. nem mesmo de todos aqueles que foram à escola. Mas ler. enfim. para exercer plenamente sua cidadania. Em resumo.

para muito além do conhecimento mecânico de metodologias e técnicas de desenvolvimento da leitura. só para citar áreas nas quais o termo hábito é pertinente.história e teoria literárias. Atividades interessantes. A precariedade da situação que essa pobreza de repertório indica é grave. Se algumas metodologias e estratégias propostas para o desenvolvimento da leitura parecem enganosas por trilharem caminhos equivocados. em nome dela (leitura). Tanto o diagnóstico (ausência ou declínio do hábito de leitura) quanto a terapia (estratégias de motivação para a leitura) sugerem alienação do modo de leitura patrocinado numa sociedade como a nossa. quando transformadas em argumento de autoridade. treinamento. Entre a interpretação sancionada pela comunidade intelectual e a interpretação livre do leitor anônimo. a maior parte das vezes. começa dizendo que os profissionais mais diretamente responsáveis pela iniciação na leitura devem ser bons leitores. e do treinamento em atividades como fazer cartazes. Apostando. Um professor precisa gostar de ler. parece que se pode privilegiar a reflexão sobre a natureza e o percurso social da leitura. constituído. É preciso. infelizmente. E a gravidade aumenta quando se sabe que. A discussão sobre leitura. afinal. fazer jograis. Se afirmar isso soa redundante. a formação de um leitor exige familiaridade com grande número de textos. cumpre lembrar que. costumam ser incorretamente vistas como os elementos determinantes do famoso e reclamadamente ausente interesse dos jovens pela leitura. dramatizar textos. podem ser paralisantes. estratégias. mas que são inócuas quanto ao papel que representam na interação leitorlivro. o que também se revela no léxico de controle social e de automação com que se discute a formação do professor: reciclagem. precisa envolver-se com o que lê. precisa ler muito. semelhante a certos rituais de higiene e alimentação. quer como endosso de interpretação deste ou daquele texto. o engano instaura-se no começo do caminho. Pesquisa feita entre professores de primeiro grau e bibliotecários de Campinas e de Recife mostrou como o repertório de leitura desses profissionais é desolador. quer como justificativa para a inclusão de determinado texto ou autor no currículo escolar. que é. pois. aquilo em que a leitura consiste. hábitos. principalmente sobre a leitura numa sociedade que pretende democratizar-se. reside o equilíbrio difícil em que precisa mover-se o professor de leitura e de literatura. como A moreninha. E esse não é. Iracema e A escrava Isaura. O menino do dedo verde e O pequeno príncipe ou pelo que se poderia chamar de clássicos escolares. o perfil comum do professor. recortar figuras. assim. por best-sellers tão antigos quanto Fernão Capelo Gaivota. deixando em plano secundário discussões sobre metodologias e estratégias que. e que podem realmente tornar mais agradável o tempo de escola. de mecanização e automação. a partir do diagnóstico do declínio ou da inexistência do hábito de leitura entre os jovens. a ênfase fica geralmente por conta da prescrição de títulos. Espartilhada em hábito. em tais cursos. Os caminhos precisam ser outros. É importante frisar também que a prática de leitura patrocinada pela escola precisa ocorrer . que haja espaço para leitura nos cursos destinados a profissionais de leitura. numa concepção de leitura que a vê ao mesmo tempo como instituição e como prática coletiva. a leitura torna-se passível de rotina.

1975.. secundários e universitários parecem desculpar-se cada um de ser o que é e de não ser o outro. compreensão o u entendimento do texto costumam suceder-se à leitura são. nosso desgoverno e nossa imaturidade política parecem manifestarse.. e. 2. do canto de galo à luz da manhã. Mas descaminhos há muitos. A leitura só se torna livre quando se respeita. Recorrendo a elas. O mecenato do Estado através do provimento de bibliotecas. é preciso uma guinada radical nos rumos que norteiam as políticas de leitura atualmente em prática. interesses e habilidades de leitura é bem mais relativa do que fazem crer pedagogias e marketing. para que ocorra a ruptura. O que é absolutamente incorreto. O resultado é o descarte. ou que se trata de um tema que interessa àquele tipo de criança: a relação entre livros e faixas etárias. o patrocínio empresarial que esporadicamente doa livros a uma ou outra escola. Rio de Janeiro.. por ser atributo da cultura e do saber. o prazer ou a aversão de cada leitor em relação a cada livro. sido publicado na revista Leitura: Teoria e Prática. Olympio.. através delas. com a justificativa de que tal livro é apropriado para a faixa etária daqueles alunos. os exercícios que sob o nome de interpretação. como diz o samba. através de uma rivalidade de competências: bibliotecários. ao menos em momentos iniciais do aprendizado. permite a passagem do discurso à ação. ed. no ano de 1983. 19. para encerrar retornando ao texto de abertura.6 . O modelo capitalista de nossa sociedade e nossa condição de país dependente não deixam abertos outros caminhos. Poesias completas. tendo. mas é a realidade. p. numa equivocada condenação da competência. da leitura à vida. em Campinas. entre faixas etárias. J . E rigor e severidade de análise sugerem também que. 2 MELO NETO. 3 .num espaço de maior liberdade possível. Menos ou mais sofisticados. In:___. Sorry. a comunidade docente passe a ter voz e voto na política cultural e educacional brasileira. 3. . no entanto. escritores. 1 Versão anterior deste texto constituiu palestra no 4 COLE. às vezes. quando não se obriga toda uma classe à leitura de um mesmo livro. exatamente daquilo que. . é triste. é preciso que se aprenda a fazer frente ao paternalismo de que geralmente se reveste a atuação de tais instâncias. exercícios que sugerem ao aluno que interpretar. e apenas severidade e rigor permitem perceber que escola e professor são talvez os únicos pontos de ruptura da leitura alienada e consumista. 'Tecendo a manhã'. a ação do Estado na formação de professores constituem instâncias a que se deve (pode e tem de) recorrer. para o que é preciso que as associações profissionais conquistem espaço crítico e que. Ou seja. compreender ou entender um texto (atividades que podem muito bem definir o ato de leitura) é repetir o que o texto diz. Relativamente à leitura. n. 1984. ano 3. p. João Cabral de. professores primários. quase sempre. posteriormente.