XVI Congresso Brasileiro de Sociologia 10 a 13 de setembro de 2013, Salvador (BA) GT 08- Educação e Sociedade

O "Jogo Político" escolar: grêmio estudantil e novos caminhos participativos Camila Moura Pinto – PUC-Rio1

1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação.

desta forma.2 A pesquisa buscou compreender a a manifestação do político nas relações sociais estabelecidas entre a associação estudantil e membros da comunidade escolar. todas. Mais do que uma instituição social com a função de formar e educar os indivíduos. Isto significa reconhecer o cotidiano como espaço propício a participação. 1992. “(. Neste sentido. com três diferentes perfis de escola.. o coloca como inerente aos comportamentos humanos. todos os assuntos até então políticos. no ano de 2012.. visto que a escola.) (SCHMITT. no sentido de possibilitar a construção e troca de experiências políticas. nas mais variadas relações sociais. atuante em uma escola confessional católica da cidade do Rio de Janeiro. questiono-me sobre sua manifestação no interior das instituições de ensino. também é um espaço de socialização. de trocas culturais. optei por desenvolver a pesquisa na escola confessional. A investigação procurou. intercâmbio cultural e interações sociais. 2 A escolha da escola pesquisada teve como referência metodológica de estudo de caso.) a equivalência estatal = político mostra-se incorreta e enganosa. No caso desta pesquisa foram realizados três “miniestudos” de caso. ou seja.Apresentação O objetivo deste trabalho é apresentar parte dos resultados de minha pesquisa de mestrado. tornam-se sociais e vice-versa (. De acordo com o autor. indo além do sentido de politização tradicional. lugar do encontro. estou de acordo com Schmitt (1992) que ao conceituar o político. . podendo manifestar-se. 1999). assim como de formação ética e moral. na mesma medida em que o Estado e sociedade se interpenetram. Grupo de Pesquisa em Sociologia da Educação da PUC-Rio. previamente pesquisadas pelo SOCED. a unidade a ser investigada deve ser primeiramente confrontada com outras unidades possíveis de análise. Robert Yin (2010). a escola foi considerada como espaço sócio-cultural (DAYRELL. desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC-Rio. além de ser organizada com o fim de educar.. através de estudo de caso. A partir desta perspectiva ampliada do conceito de política. A partir da análise de informações contidas nesses três “miniestudos”. manifesto. trocas de experiências. reconhecer e analisar a dimensão política de algumas atividades e práticas sociais desenvolvidas por um grêmio de estudantes. propício à manifestação do político. inserido no leque de possibilidades de ação dos sujeitos na construção da realidade.. pp-47). por exemplo. logo. no pertencimento ao movimento estudantil ou à quaisquer instâncias políticas ou representativas dos estudantes. devido ao acolhimento e abertura frente ao objeto de pesquisa.

assembleias. 2010). Associação de Pais e Mestres. quanto da relação amigo-inimigo (BOBBIO. Foi observado também que a quase totalidade das ações do grêmio eram centralizadas no colégio.. No mesmo site há referência àquilo que a instituição de ensino denomina de apoio pedagógico. No entanto. 1986). Assim. são apenas alguns exemplos de eventos organizados por seus integrantes. cit. em folders de propaganda. marcava as interações dos alunos do grêmio com seus coordenadores. assim como a Associação de Pais e Mestres. as diversas situações de negociação. a burocracia e estrutura organizacional do colégio. a Direção entre outros setores da administração escolar. revelaram-se como aspectos centrais na compreensão do caso estudado. Esta situação configura. Associação de ex-alunos. professores. como mediador e interlocutor entre o grêmio e os demais segmentos da escola. pp-44). tais como Regimento Escolar. Deste modo. competições de música. Chegou-se a conclusão de que as práticas sociais do Spoleta 2. concursos literários. O setor ocupa a posição.Levando em consideração esta concepção de escola. apresentações de peças teatrais.P) da escola. Projeto Político Pedagógico da escola. Essas ações foram interpretadas como políticas.0 adquiriam dimensão política.) luta. que influenciava a organização das atividades do grêmio. representado pela Coordenação Pastoral (C. Este objetivo é expresso em diferentes documentos. deveriam ser negociadas e organizadas junto à C. “A essência da política consiste em (.. onde cada um possui papel decisivo na formação dos alunos. que ora pacífica e cooperativa. pois eram fruto. Palestras. Havia um “peso” burocrático e institucional. compõem a comunidade escolar. debates com candidatos à cargos públicos. por parte dos dois lados. em folhetos explicativos etc. que todas as ações do Spoleta 2.P. Biliotecas e cursos extraclasse. em sua estrutura organizacional.0. ora tensa e conflituosa. um território em disputa. a medida em que a entidade trilhava diferentes caminhos 3 De acordo com o site da instituição de ensino pesquisada o grêmio. Todas elas tiveram como palco sua escola e carregavam em si forte dimensão política. em suma. nome fictício dado ao grêmio. a instituição de ensino foi compreendida sob a metáfora de um tabuleiro. onde o grêmio compete por maior liberdade de ação e organização. a investigação teve como enfoque as trocas e interações sócio-culturais travadas no interior do espaço escolar. valorizando sua dimensão política. alianças e rupturas. recrutamento de aliados e de seguidores voluntários” (op. inspetores e demais membros da comunidade escolar3. formado pelos Grêmios. conflito. dos processos de negociação e conflito que envolviam tanto estratégias de convivência (PARO. . 2002. que envolviam a entidade estudantil e membros da organização da instituição de ensino foram compreendidas como manifestação do político no cotidiano escolar. O espaço é organizado administrativa e institucionalmente com a finalidade de educar para a transformação social. as Coordenações Pedagógicas do Ensino Fundamental e Médio.

Por buscarem mudanças em sua experiência escolar. deslocar ou perturbar as relações de domínio” (FREUND. acabavam por questionar a estutura organizacional e a burocracia escolar. o “Jogo Político” escolar ganha vida no conflito cotidiano e na construção de caminhos participativos no interior da escola. como assentada em relações amigo-inimigo (BOBBIO. as observações de campo e análises do material empírico da pesquisa focaram a relação da entidade estudantil com esta coordenação. os integrantes do grêmio foram considerados sujeitos políticos atuantes em sua realidade. 2010). tentando modificá-las.161). que seja na posição de conflito. na transformação de sua realidade escolar. seja nas situações de negociação e concessão. desenvolver.participativos no interior de sua escola. o que ditava a tônica da dimensão política das ações do Spoleta 2. os diferentes setores de seu colégio. era a procura por brechas de atuação no sentido de transformar sua realidade. o que foi entendido como possuindo forte dimensão política. Esta organização representava para os integrantes do Spoleta 2. referencial metodológico do estudo de caso. fruto da própria estrutura organizacional do colégio.0 uma situação latente de conflito. Devido a esta configuração particular. De acordo com Robert Yin (2010). Esta situação caracterizava a manifestação do político no cotidiano escolar. “burocratizando-as”. buscando reconhecer sua dimensão política. é possível dizer. 1980 pp. buscando compreender como eram negociados e construídos os espaços de atuação do grêmio. nesta organização. sua posição nesta hierarquia encontrava-se subjugada à Coordenação Pastoral. almejando atenuar a sensação de dominação que sentiam. no jogo que tenta incesantemente formar. hierarquicamente. De certa forma. Na visão dos estudantes. entravar. visto que. O que revelou a empiria: O “simpático controle” “A atividade política consiste. 1986) e nas estratégias de convivência (PARO. através da conquista de maiores espaços de atuação e autonomia na organização de suas atividades. 2002. em suma. que os caminhos participativos trilhados pelos jovens. Compreendi. assim como os caminhos percorridos pelos jovens na transformação de sua realidade escolar. por estarem dispostos. Neste sentido. influenciavam as ações do grêmio. a reunião de vasto material empírico é peça fundamental na construção de uma pesquisa .0. desta maneira.

características também flagrantes em sua página de internet e reforçadas na entrevista realizada junto à coordenação pesquisada. Os membros e setores da escola são apresentados. tais como Regimento Escolar. Em . o que sobressai aos olhos quando mergulhamos em sua realidade cotidiana é a existência de um “simpático controle”. Projeto Político Pedagógico da escola e Estatuto do Grêmio. Havia nos discursos institucionais um tom libertário. quanto mais diversificado forem os dados empíricos. estruturado horizontalmente. tendo como consequência o acúmulo de maiores informações sobre a unidade investigada. onde todos são iguais e possuem a mesma voz. a saber: a) um diário de campo criado a partir do registro de minhas impressões dos oito meses de observação na instituição de ensino. como uma grande família. sendo três delas realizadas com representantes do grêmio e a outra com um membro da Coordenação Pastoral da escola. claramente exposto nestes documentos. foram reunidos os seguintes materiais empíricos. nestes documentos. cuja tensão controle/liberdade aparece balizando a construção das relações e práticas sociais estabelecidas no interior da instituição de ensino. recebendo total apoio em suas atividades. a instituição de ensino tem como principal referência o Regimento Escolar e seu Projeto Político Pedagógico. a importância dada pelo colégio ao ensino humanista e a educação para a transformação social. sendo possível reunir informações interessantes sobre o grêmio.deste tipo. O conjunto de dados serviram de subsídio na construção interpretativa e analítica da pesquisa. Observe este trecho. alguns volumes dos jornais produzidos pela entidade. construída coletivamente. Primeiramente. cerca de 60 fotografias de três atividades protagonizadas pelos estudantes pesquisados. após impressões da primeira visita è escola: O dia de visita foi bastante produtivo. maiores serão as fontes de evidência. que seguiram roteiros amplos de perguntas. c) fontes complementares de pesquisa. buscando. além da análise de fontes documentais. Seguindo sua visão. Buscando construir este conjunto de fontes. Fica. um esquema organizacional. construir uma compreensão específica sobre a realidade pontual investigada. a fala da coordenadora pedagógica denunciava que ele era visto como um dos espaços pedagógicos da instituição. b) quatro entrevistas. que englobaram: visitas aos sitios de internet que continham informações sobre a organização do grêmio e de sua escola. No caso de sua organização estrutural e administrativa. retirado do diário de campo. uma clara intenção de expor a inclinação do colégio à uma gestão escolar democrática. No entanto. a partir de minhas impressões e observações sobre o objeto de estudo.

bermudas masculinas. fora os funcionários dedicados à limpeza. sendo o noturno dedicado ao EJA]. Era comum. anunciava uma organização pedagógico-administrativa. igualmente densa. Há também funcionários que trabalham na mecanografia (espaço para impressões. Surpreendi-me. o que de imediato chamara minha atenção. O peso desta infra-estrutura física. No térreo. havia ali certa liberdade de atuação dos alunos na escola. havia pinturas que representavam o comunismo e o socialismo. o sentimento de dominação que tal arranjo acarretava nas ações do grêmio. havia também aquelas que representavam a identidade de uma turma. uma liberdade vigiada. sendo pelo menos dois ou três circulando pelo térreo.). diversas salas de aulas e muitas portas fechadas. E em terceiro lugar havia uma certa facilidade de acesso à escola. significava que os estudantes gozavam de certa liberdade de intervenção no espaço escolar. essa liberdade era exercida sob os olhos atentos e “zelosos” de inspetores. haviam três grêmios atuantes no colégio. que no . O prédio tem cinco andares. apesar de possuírem muitos “adultos” vigiando suas ações. chinelos de dedo. neste sentido. cópias etc. O espaço escolar é bastante amplo. zeladoria. com o número de inspetores. vestidos. possui os três primeiros reservados as salas da Coordenação Pastoral [atualmente esta sala pertence ao grêmio] e as salas de aula [o colégio funciona em três períodos. o que favoreceria o desenvolvimento da pesquisa de campo. onde há duas quadras poliesportivas. em uma pequena papelaria. o que mais chamou minha atenção foi o número de funcionários. Os dois últimos são reservados as Coordenações Pedagógicas. também colocar. Simpático por haver um certo “clima” de liberdade nas relações sociais travadas no ambiente escolar. Chamou atenção como todos os funcionários da instituição se mostraram solícitos e pré-dispostos a contribuir com a pesquisa. Outro aspecto. de certa forma. que não a católica. camisetas com manga e sem manga. Continuando em direção ao pátio é possível ver mais uma secretaria e algumas salas fechadas. saias curtas e longas. são muitas salas fechadas e muitas secretarias. esta sensação era contrastada com uma notável liberdade concedida aos estudantes. a referência a um grupo de teatro etc. zeladores. Compreendi que as expressões deixadas pelos alunos no pátio interno da escola. roupas estilosas e rasgadas etc. assim como outras religiões. Reparei que eram muitos.segundo lugar. por exemplo. Todavia. Nos murais espalhados pelo pátio. Vale. ou seja. Era intensa a sensação de “simpático controle” que aquela organização transmitia. um ou dois para cada andar. banheiros. duas mesas de pingue-pongue. escadas que dão para outro pátio externo. que o namoro dos jovens e os casais andando de mãos dadas trocando carícias era igualmente tolerado. que revelaria. na cantina etc. secretárias. desta maneira. há o pátio central. porém. além de dois porteiros que se revezavam na abertura dos portões. uma cantina. alguns murais pintados pelos alunos. um estacionamento e um bicicletário. diversos tipos de tênis e calçados. o desfile de shorts jeans. No entanto. manutenção e serviços gerais. assenssoristas etc. características comuns à arquitetura da grande maioria das escolas. posteriormente. elevadores. secretaria administrativa e Direção. contendo vários ambientes. numerosos se comparado ao de outros colégios em que já estive. também. que merece ser ressaltado é a abolição do uso do uniforme por parte dos alunos do Ensino Médio e Ensino Fundamental II. Contudo.

relacionava-se à influência deste “peso” institucional nas ações do grêmio. detectado na unidade pesquisada. o grêmio é um espaço em que: “O aluno se percebe como sujeito de seu processo educativo. sendo capaz de uma atuação consciente. obrigatoriamente. que deveria ser próprio dos estudantes. uma semana em que o grêmio possa estar em ação. Ele tem que organizar. entretanto. ou para que o grêmio organize algum tipo de atividade esportiva. impelida por sua missão institucional. Essa iniciativas podem ser consideradas como pedagogigamente justificadas.0 uma invasão do espaço do grêmio. enriquecedora. particularmente. em parte do “apoio pedagógico”. que no entanto. Em entrevista. um dos membros da C. Outro exemplo é a insistência da coordenação em conduzir as eleições do grêmio como forma de incentivar a participação dos estudantes. para que o grêmio pudesse exercer alguma atividade. “ Então.P. Primeiramente. por exemplo. Um exemplo flagrante deste “simpático controle” é a Semana Política. Em segundo lugar. Quando é ano de eleição. a inserção de algumas atividades do grêmio no calendário escolar. no calendário escolar. pré-estabelecido no calendário escolar. não parecia importante.P também participou da construção do Estatuto do Grêmio. nós sabemos que haverá uma Semana Política. a ser “negociada”.caso do Spoleta 2. sinalizava que os estudantes deveriam preparar alguma ação. por exemplo. elucida a tentativa da C. o fato de que em ano eleitoral. igualmente atenção. De acordo com ele: O coordenador do Ensino Médio já sabe. Ao longo da pesquisa. No Projeto Político Pedagógico. Ou para que o grêmio promova a Semana Cultural. por exemplo.P colocou que havia a separação de uma semana do ano letivo para que o grêmio organizasse alguma atividade. utilizavam-se de certas estratégias. o “simpático controle” revelou-se como o próprio epicentro do Jogo Político escolar. Então já tá lá! O que o grêmio faz é negociar isso no final do ano letivo anterior ou no princípio do ano com o coordenador para que eles decidam o melhor momento. a própria situação de haver uma semana prescrita no calendário escolar. para ele e para o grupo e será capaz de uma ação . com o coordenador do Ensino Médio. diria. possui espaço garantido. mas qual. já tá lá!” Esta frase. Para chegarem a este fim. de transformar o grêmio em um segmento escolar.0. evidenciam o “simpático controle”. Alguns trechos. da arrumação de sua sala e da organização e planejamento da grande maioria de suas atividades. ou seja. ou promova uma Semana Política. evento organizado pelo grêmio. o grêmio deve organizar uma Semana Política. chama. incluindo. representavam para o Spoleta 2. Vale acrescentar que a C.

ainda em vigor. prepará-los para o futuro”. não foi observado. ano 2000. Em uma conversa informal. situando-se como centro de reintegração cultural. Ao consultar o Estatuto do Grêmio. percebi que sua divisão. s/d. tanto quanto o currículo formal. Vale dizer. incisos III e IV. quando indagada sobre a estrutura e organização do grêmio. A participação em associações e a disposição para atuar em representações de grupo têm papel significativo na construção da cidadania e na explicação da responsabilidade social de cada indivíduo.P. ao longo de toda a pesquisa. enfraquecendo sua mobilização. é de importância fundamental. e IV. porém. para a formação de um ambiente educativo. A ausência desta informação poderia sugerir a inexistência de um estatuto próprio que reja cada grêmio. uma funcionária da C. para a construção de uma nova cidadania”. qual seria a relação entre a existência de um grêmio dividido e a preparação para o futuro de seus integrantes. a preocupação de definir o caráter pedagógico da entidade. aumentando o controle da C. [Trecho retirado do Estatuto do Grêmio. ou por qualquer outro membro da coordenação. . III – Os membros diretores do grêmio deverão orientar sua ação no sentido de cooperar através do diálogo.transformadora. tal como concretizava-se no cotidiano escolar.] Vale acrescentar que era evidente. o (um) grêmio. Todas as regras de organização e funcionamento eram direcionadas à uma entidade estudantil. pp-1] Outro ponto marcante do “simpático controle” é a divisão do grêmio em três segmentos. quando perguntada acerca da separação dos estudantes em três grêmios. nenhum movimento na direção da reunião desses grêmios.O grêmio será sempre politicamente apartidário. Todavia. Não foi exposto mais claramente por ela. que sob a alegação pedagógica de incentivar a participação instaurava o “simpático controle”. Observe o trecho a seguir retirado do artigo segundo. visto que ao ser indagada sobre eles a funcionária disse existir apenas um estatuto para todos. integrando-se num todo com o Colégio. por parte deles. que embora os estudantes tenham declarado que esta partilha não era positiva. pp-23. em vigor. colocou que esta divisão servia para “plantar uma sementinha neles. não era sequer mencionada no documento. Era como se 4 Disponível no site da escola pesquisada.P. é possível pensar que esta divisão aponta para uma tentativa de diluição da representatividade dos estudantes na escola. não havendo menção a esta divisão no documento. Minigrêmio. A riqueza de experiências que a escola oferece. Esta foi a justificativa apresentada. inclusive no próprio Estatuto do Grêmio. Grege e Greco4. [Trecho retirado do Projeto Político Pedagógico da escola. entretanto. criativo e libertador.

quer dizer. Vidal & Paulilo. Então. a Coordenação Pastoral. realizada no auditório da instituição de ensino.. Estavam acontecendo milhares de coisas. . Em entrevista.Mas. trata-se de uma rede de grêmios que envolve cerca de treze grêmios atuantes na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. nem acesso à internet. Uma aluna explicou que a principal impulsão. não sei bem ao certo se é por culpa da Coordenação Pastoral.aquela divisão. ainda na gestão anterior (o grêmio estava em seu segundo mandato) era aproximar os estudantes dos debates políticos externos ao ambiente escolar. De acordo com a fala da estudante: É assim. a gente tá agora tentando conquistar o espaço que o grêmio tinha antes. o grêmio tem uma história na escola.Conversa. Já este ano estão surgindo novos projetos. a gente entrou com essa proposta que era a questão política mesmo. Os jovens relataram que uma dessas reuniões ocorreu na gestão da chapa Spoleta. outros projetos estavam surgindo. 6 A Frente dos Grêmio Livres já havia sido mencionada na roda de conversa desenvolvida na “instituição alternativa”. que na organização administrativa representava o setor mediador entre os estudantes e demais esferas pedagógicas do colégio.. perguntei aos integrantes do Spoleta 2.. que tinha uma história com a política carioca e do Brasil e que andava muito apagado. transitando de alunos a professores. Filho.0 sobre o que os havia motivado a formar uma chapa. que não sabem das coisas. Quem controla é a Coordenação Pastoral [fala de um dos alunos] . É que a a gente não tem espaço físico. ou por culpa dos alunos. Mas. a sala fica num cantinho no subsolo. O que vira é uma lavagem cerebral. 10 anos. [fala do mesmo aluno] Esta configuração de “simpático controle” representava para alguns estudantes uma realidade que precisava ser transformada. o Código Florestal. como por exemplo a questão do Código Florestal. O que acontece é que o grêmio do Ensino Fundamental I são crianças de quarto e quinto ano. mas que após sua reeleição. Na sua opinião. Com a pesquisa foi detectado que esses projetos relacionavam-se à reconquista de espaços de atuação pertencentes ao grêmio e que estavam sendo ocupados pela Coordenação Pastoral.Não funciona. 09. .[fala da pesquisadora] . mas nos últimos anos tem perdido bastante espaço. quando a gente entrou. englobava tudo o que acontecia no interior da escola. A banderia do ano passado era mais integração política dos alunos da escola. inserida no cotidiano deles. por mais liberdade nas nossas ações. um deles em específico. mesmo causando incômodo.. não temos a chave da sala.E a divisão em três grêmios? Como isso funciona? [fala da pesquisadora] . de normas a teorias. a frente dos Grêmios Livres6 e o nosso grêmio tava sem participar. o que eu ouvi é que essa divisão em três grêmios era para incentivar a participação dos estudantes. o que significava atenuar a sensação de dominação. não sei se tem culpado nisso. que tinha uma “cara” e um nome. Estamos batalhando para isso. 2004) “a cultura escolar recobre diferentes manifestações das práticas instauradas no interior das escolas. 5 Na visão de Viñao Del Frago (apud. já estivesse naturalizada. Esta frente procurou organizar reuniões e discutir os mais diversos temas. em sua cultura escolar5.

disputavam espaços de atuação no interior da instituição de ensino. pois buscava a construção de novos caminhos participativos no interior de sua escola. tal como concebida por Max Weber (KALBERG. indo de uma necessidade de politização do grêmio. O uso do termo jogo justificou-se pela percepção de que havia uma latente situação de confrontação entre dois lados opostos. Procurando reunir os estudantes em torno desta causa. que esta é uma luta política assentada em relações de poder e dominação. 2010). o grêmio está caracterizado como uma “Organização Política”. para além de sua relação com o movimento estudantil ou às tradicionais formas de participação política. à uma necessidade de politizar suas relações sociais. O fato de não possuírem uma cópia da chave da sala ou acesso à internet. havia outros espaços. o que enfraqueceria. deste modo. O material empírico produzido a partir das incursões e impressões do campo foi determinante na identificação e compreensão da interface entre juventude e política. Deste modo. que dita as regras de convivência e marca a interação entre a coordenação e os integrantes do grêmio como uma relação amigo-inimigo. deste modo. que para o Spoleta 2. que houve uma guinada nas ações da entidade estudantil. assim como o Spoleta (chapa anterior) era caracterizado. É possível dizer. ou confronto. traria de novo à tona a situação de “simpático controle”. revela um “simpático controle”. Deste modo. a partir de sua participação política externa à escola. no primeiro mandato havia a preocupação dos estudantes em “politizar” o grêmio. simbolicamente importantes que deveriam ser (re)conquistados. também a mobilização e integração dos estudantes reivindicando maiores espaços de atuação. que “emprestada” de Carl Schmitt. Este entendimento amplo de política acena para a 7 Embora a jovem tenha se referido à espaços físicos. em seu colégio. . no segundo mandato. Contudo. neste caso. que subjugados à determinadas regras de conduta e convivência. preferiu-se o uso do termo Jogo Político e não. no entanto. o grupo percebeu que havia transformações em seu próprio colégio que precisavam ser feitas. foi compreendido como luta política. Seria possível dizer. mais do que o domínio. que ronda e supervisiona as ações do Spoleta 2. quanto na cultura escolar.Em suma. a tensão observada na escola. disputa.0. visto que foi possível reconhecê-la em espaços cotidianos dos jovens. Interessante notar que na página do facebook do Spoleta 2. consequentemente o poder da Coordenação Pastoral 7. seus integrantes acreditavam que poderiam se fortalecer politicamente como grupo dentro da escola. perceptíveis tanto nas normas organizacionais. foi considerada por Bobbio (1986) como uma das mais conhecidas e difundidas definições de política. como a sala do grêmio que ficava num “cantinho no subsolo”.0.0 era de interesse comum aos alunos do colégio.

restrita à militância partidária ou disputas pelo poder institucionalizado. para além de sua condição institucional. incluindo tanto o papel e função social das instituições escolares. seguindo uma tendência epistemológica na sociologia. sua ação e dinamismo cotidiano. basicamente. a relação que estabelece com seu colégio. Esta concepção implica em resgatar o papel dos sujeitos na trama que a constrói enquanto instituição social (DAYRELL. Deste modo. cujas instituições de ensino eram. de alteridades e de sujeitos plurais. Este ponto de vista expressa uma visão de escola que ganhou corpo na década de 1980. que marcaram fortemente o pensamento de Bourdieu e Passeron. quanto a noção de política. em grande medida. Isto quer dizer que até aquele momento. Após os anos 80. ativamente. revelando a necessidade de ampliação destes conceitos. que sob um olhar mais denso. sendo lugar de encontro de “juventudes”. entretanto. que não necessariamente encontram-se institucionalizados. passa a ser compreendida. esta vertente perde força nos estudos sociais. 1999). tanto a noção de escola restrita à espaço pedagógico. passam a valorizar também os sujeitos. O Jogo Político Escolar: Novos caminhos participativos O estudo de caso. Estas abordagens privilegiavam. englobando. cujas dicotomias sujeito/objeto e estrutura/agência passaram a ser questionadas. as instituições de ensino. sendo igualmente reconhecida como espaço de trocas culturais. sobretudo. Neste novo olhar sobre a sociedade. o que possibilitaria compreendê-la sob diversos . quanto sua influência no comportamento dos indivíduos. por exemplo) ou calcada nas “teorias da reprodução”. dando lugar ao entendimento de que os indivíduos. os estudos sobre a escola acompanhavam os marcos analíticos estruturais. o peso atribuído às macro-estruturas na organização da vida em sociedade. formados participariam. culturalmente. ganhando corpo nas análises. partiu do pressuposto de que reconhecer e analisar a dimensão política de práticas sociais e eventos realizados por um grêmio de estudantes. de seu processo de socialização.possibilidade de construção de novos caminhos participativos. os estudos culturais. plural e atento à produção de significados. analisadas a partir de duas óticas estruturalistas: seguindo preceitos teóricos funcionalistas de um lado (Durkheim e Parsons. mas que manifestam e afloram o político presente nas mais diversas relações humanas. significa compreender a escola enquanto espaço sócio-cultural. mostraram-se insuficientes na compreensão do caso estudado.

1999. No caso estudado. apesar de muitos pais acharem. não apenas sua função administrativa. é uma coordenação de integração. tem a dimensão comunitária. quem representa a mediação das ações do grêmio é a Coordenação Pastoral. por uma complexa trama de relações sociais entre os sujeitos envolvidos. o conceito de administração é definido como a “utilização racional de recursos para a realização de fins determinados” (PARO. onde os sujeitos não são apenas agentes passivos diante da estrutura. não apenas o pedagógico. Para cumprir tal desígnio. não implica em rejeitá-la como instituição social ou negar que ela desempenha uma função. Um processo de apropriação constante de espaços. 2010) argumenta que a escola. Ao contrário. no cotidiano. enquanto instituição social formadora. como um espaço social próprio. das práticas e dos saberes que dão forma à vida escolar. mas sua intrínseca dimensão mediadora. pela apropriação. como tal. que considerar a escola como um espaço sócio-cultural. é heterogêneo. Tem a dimensão pastoral. o nosso papel enquanto Coordenação Pastoral é tentar manter a unidade da missão da instituição. [Trecho retirado a entrevista junto a um membro da Coordenação Pastoral] . “Apreender a escola como construção social implica. todos os segmentos da escola passam por aqui de alguma forma? [fala da pesquisadora] − Todos os segmentos da escola dialogam conosco. essa proposta. Cotidianamente.ângulos. Nós somos um grupo de três pessoas. Institucionalmente. tem a dimensão social. é essa equipe. imposição de normas e estratégias individuais. − E vocês são uma instituição à parte da escola? [fala da pesquisadora] − Não. de parceria. Contudo. 2002. como espaço sócio-cultural. definida em nossa sociedade. das normas. Não somos uma coordenação pedagógica. expressas pelos sujeitos sociais”. possui como finalidade central promover o ensino. assim. de transgressão e de acordos. (DAYRELL. Fruto da ação recíproca entre o sujeito e a instituição. pp-18). alerta que no caso da administração escolar. mas também não deixamos de ser. claramente. Nessa perspectiva. é entendida. − Então. que incluem alianças e conflitos. por um conjunto de normas e regras. Quem puxa um pouco esse carro. ou coletivas. esse processo. Na visão do autor. de construir coisas. vale esclarecer. reelaboração ou repulsa. a realidade escolar aparece mediada. Então. contudo. compreendê-la no seu fazer cotidiano. pp-2) Paro (2000. que buscam unificar e delimitar a ação de seus sujeitos. portanto. ordenado em dupla dimensão. sobretudo. trata-se de uma relação em contínua construção. deve ser enfatizado. organiza-se de modo a alcançar este objetivo. o que pressupõe carregar em sua organização preceitos administrativos. Mas. religiosa. de conflitos e negociações em função de circunstâncias determinadas. elaboração. (…) O nosso papel é exatamente dar essa unidade à perspectiva da missão da instituição. A escola. 1986.

eles serviriam para convergir esses dados [atividades desenvolvidas por diferentes setores da escola. incluindo. o que eles acabaram se tornando? Um órgão fiscalizador e cerceador das atividades do grêmio. afastava-se da concepção e opinião dos estudantes sobre a mesma. sugere. seria possível colocar.Contudo. quanto de recursos subjetivos são fundamentais nos estudos sobre administração escolar. Por sentirem-se em uma posição de subordinados é plausível que a opinião dos jovens integrantes do grêmio seja negativa em muitos pontos sobre a atuação da C. Mas. É um órgão. que na visão 8 É preciso colocar que as falas devem ser amplamente relativizadas. É uma coisa mecânica. 9 O evento a que o estudante se referiu foi o SISV – Simulações ONU-Junior realizadas na escola. os estudantes trilhavam caminhos participativos.P é colocada como um órgão regulador e cerceador das atividades do grêmio. é um órgão extremamente burocrático. feita no automático. . de certa forma. a culpa é nossa.P. que na teoria.P continha diferentes significados e revelavam a existência de um tensão em torno da relação amigo-inimigo que. levando-se em consideração as posições ocupadas por essas partes no Jogo Político sinalizado. no sentido de que todos os outros setores da escola devem convergir pra lá. o que acontece é que a C. então cometem-se falhas. que é um sistema altamente burocratizado. uma visão mais abrangente de organização administrativa. na medida que valoriza. pra ela fazer o alinhamento dos dados de tudo que acontece na escola. no interior de sua escola. já faço isso há tantos anos. inteiramente pelos estudantes. articulado. sob organização do grêmio. Teoricamente. E fora. vou continuar fazendo. Um deles relatou que a atuação da coordenação assemelhava-se à de um órgão regulador e fiscalizador das atividades do grêmio. algumas desenvolvidas pelo grêmio 8. Contudo. a afirmação: “tem várias coisas que a gente prefere passar diretamente por cima deles”. que ao buscarem brechas de atuação. A C. desde o grêmio. Então. o que foi considerado como possuindo forte dimensão política. tentando criar uma harmonia.9 A mediação exercida pela C. Chamou atenção para o aspecto excessivamente burocrático que ela assumia. é importante. Então. sobretudo. para não ficar cinco coisas marcadas no mesmo dia. Eles fazem algumas coisas sem uma reflexão do que se está fazendo. do ponto de vista dos jovens. tem várias coisas que a gente prefere passar diretamente por cima deles. As duas últimas frases deste trecho são muito interessantes e elucidam a existência do Jogo Político mencionado. enquanto esforço coletivo. . passando por festas etc] e tentar estabelecer um equilíbrio. o que acabava interferindo na execução de certas atividades. A administração enquanto mediação.P. pressupõe que tanto a utilização de recursos objetivos. Esta visão a concebe. norteava a relação entre o grêmio e a coordenação. era possível desenvolver estratégias e “passar por cima” da coordenação. só que quando essa falha diz respeito a gente. a visão integradora que o representante da coordenação colocou como sendo a função da C. à biblioteca.P. Tipo. marcando uma latente situação de dominação. que apesar de estarem inseridos em uma situação de controle.Eles são funcionários da escola. De acordo com este relato.

Então. havia um princípio. não é nada educado. com relação à organização de eventos etc. no trato com os estudantes: A gente partilha do princípio de que às vezes o não. desta forma. Por vivenciarem um conflito latente. 1986. maduros e merecedores de certas concessões 11. O Jogo Político escolar. 10 Conferir também “Estrutura da escola e prática educacional democrática”. Estas reivindicações eram somadas à outras. vai ficar vendo pornografia na escola.P e o grêmio caracterizando a escola como um território em disputa. mas a troca é fundamental para que haja o processo educativo (…) Então. por que a gente não pode ter a chave da nossa sala? A gente fez não sei o que sozinho.org. 10 Contudo. a mudança para uma sala maior. SCHMITT.anped. Na opinião deles. A gente fez o SISV sozinho. quanto simbólico. sobre uma das estratégias utilizadas pela C. Agora a gente tem isso. A coordenação.. verificado no estudo de caso. o acesso à internet.P. maior liberdade e autonomia na gestão e uso da verba destinada ao grêmio etc. bater de frente. No caso dos estudantes. que tinha até convidado. não existe entre aspas a palavra não. obrigatoriamente ao seu caráter político– como produção da convivência entre grupos e pessoas. 1992). como maior participação nas decisões do Conselho Pedagógico. . que já tava tudo pronto. mostrando a coordenação o quanto eram capazes. na hora que eles viram que a gente já tava com tudo pronto. A luta por espaços. maior liberdade de editar o jornal. agir mais livremente dentro da escola. Aí eles começaram a levar à sério e.Paro (2010). evento realizado na escola e organizado totalmente pelos estudantes. reunião realizada semanalmente e que abriga todos os setores da escola. A melhor maneira de transformar sua situação seria conquistando aos poucos espaços de atuação. na hora que eles viram. aí eu acho que o grêmio ganhou um espaço. remete. não adiantava confrontar-se. Falando sobre o sucesso do SISV – Simulações ONU-Junior. disponível em www. diretamente. Observe o discurso de um dos membros da Coordenação Pastoral. que deveria ser seguido. Sendo a escola um espaço de convívio entre diferentes indivíduos é natural que interesses em conflito apareçam. por atuação nas brechas e na construção de caminhos participativos no interior de seu colégio. a posse da chave da sala do grêmio.br/reunioes/30ra/trabalhos/GT05-2780--Int. entretando construída a partir de estratégias de convivência Paro (2002). configurava-se tanto do ponto de vista físico. uma jovem do grêmio colocou: Por que os professores. apesar de estarem em uma disputa.. mas existem as palavras vamos tentar. vamos construir. remetido às próprias ações dos estudantes. essa batalha não se desenrola em uma ambiente conflituoso. por que que a gente não pode ter acesso à internet? Por que vocês acham que a gente sei lá. a relação entre eles manifesta o político como próprio da relação amigo-inimigo (BOBBIO. No caso estudado esta situação era latente entre a C. que já estávamos com os guias certos. caracterizou-se pela via da negociação.pdf 11 Estas concessões referiam-se.

Considerações Finais Eu acho que esse nosso mandato foi muito bom. Outras ainda remetem à subordinação ao “simpático controle” como a organização das eleições e a organização de campeonatos esportivos.0] A declaração do estudante revela que. uma página intitulada “Assembleia Geral”.P. através da construção de caminhos participativos e brechas de atuação. incluindo reclamações e reivindicações sobre seu cotidiano escolar. Por que a gente conseguiu fazer coisas que nunca tinhamos feito antes. em que os alunos acabaram burlando os procedimentos padrões de organização de eventos na escola. A manifestação do político nesses diversos espaços chama atenção para outras formas de ação e atuação política. como a organização de grupos de debate em sua rede social. [fala de um dos integrantes do Spoleta 2. algumas ações caracterizaram-se por uma tentativa mais forte de negociação e concessão. Neste sentido. Dias das Mães. expressivas no cotidiano escolar pesquisado. Este entendimento justifica-se pelas diferentes posturas assumidas pelos estudantes e pela coordenação diante de diversas situações envolvendo a negociação de espaços de atuação no interior do colégio. como Dia dos Pais. o mandato do Spoleta 2. ao longo da pesquisa. no sentido de que a gente questionou bastante a forma da escola. como no caso da Festa Junina e da Semana Política. realizando todos os trâmites necessários à sua produção à revelia da C. a principal causa que os movia. outras pelas brechas. como no caso do SISV – Simulações ONU-Junior. buscando atenuar a sensação de controle que sofriam por parte de sua posição de submissão na hierarquia e .A luta por espaços de atuação foi detectada como a grande “bandeira política” dos estudantes. Cada um desses eventos e outras ações do grêmio. festa de fim-de-ano etc. que foram associados à diferentes estratégias de jogar o Jogo e alcançar seus fins. onde os estudantes eram convidados a deixar suas opiniões sobre os mais diversos temas. diferentes níveis de negociação. peças teatrais e festas comemorativas. Este questionamento foi fruto de uma posição assumida pelo grêmio de transformar sua realidade escolar. foi compreendido como possuindo forte dimensão política. é preciso marcar que foram detectados.0 foi positivo no sentido que questionou sua instituição de ensino. em sua opinião. Contudo. Foi bem questionável.

que a existência de uma ação transformadora. Desta maneira. De acordo com o pensamento de Carl Schmitt (BOBBIO. considerada por ela como estrita. possibilitam o reconhecimento da manifestação do político no cotidiano escolar. que buscou. oposição ou o próprio Estado) poderiam ser consideradas como as referências centrais à atividade política. no sentido de modificar determinados aspectos da cultura escolar. um espaço de atuação. deste modo. nela. Entretanto.burocracia escolar. deveria levar em consideração dois lados disputando uma posição. foi responsável pela redução do significado de política à luta de forças pelo poder. as diferentes estratégias. que a partir de uma visão ampliada de política. sofreu . Partindo deste ponto de vista. os integrantes do Spoleta 2. de certa forma. A base do Jogo Político. postos ora em posição de conflito. a configuração do Jogo Político escolar pode ser entendida como a busca/ realização/ experiência/ vivência de caminhos alternativos de ação. foi possível pensar que o grupo de jovens pesquisado estava inserido em uma certa forma de caracterizar. é possível colocar que a observação de Jogos Políticos e relações de poder devem concentrar-se nas ações humanas por moverem grupos distintos. no sentido. como relacionada a produção da convivência entre os grupos. De acordo com esta perspectiva. onde as instituições políticas (sejam partidos de situação. foi compreendida como ação política. a partir da construção de espaços de resistência. a autora chama atenção para o fato de que ao longo dos anos esta concepção. com a investigação. Na visão de Colliot-Thélène (1999). A bandeira de um transformação interna. Na pesquisa apresentada. há uma perda dos parâmetros de compreensão e vivência política tal como eram vistas no final da Segunda Guerra Mundial. Neste sentido. de que se serve aos conflitos humanos. 1986) a esfera da Política coincide com a da relação amigo-inimigo.0 construíram uma gestão marcadamente política. ora de alianças. negociações e espaços de atuação foram compreendidos como construção de vias políticas participativas no interior da escola. a partir de estratégias de convivência lutar pela abertura de caminhos participativos em sua escola foi o cerne da atividade política desses estudantes. marcado pela relação amigo-inimigo e que utilizou a via de negociação como sua regra básica. quando as disputas ideológicas que marcavam oposições entre esquerda e direita estruturavam o campo político. de confrontação e de concessão. assentada num Jogo Político. Esta concepção. experimentar e vivenciar a política que não se prendia às tradicionais formas de concebê-la. Foi possível perceber. manifestos.

que delega poderes a alguns. reivindicar mudanças e transformações que possuem como alvo sua escola poderiam ser compreendidos como estando inseridas em práticas políticas atuais. 12 O autor Boaventura de Sousa Santos (1997). a política foi apresentada de forma ampliada. de transformações pontuais. Dentro da nova teoria o campo político se prolongaria a todos os espaços estruturais da interação social. A concepção institucionalizada de política. mas tidas como possíveis. que incluiria. Neste ponto. que pode ter na escola espaço propício ao reconhecimento e manifestação do político no cotidiano escolar12. que fragmentada em ações pontuais pode emergir em/sob diferentes espaços de sociabilidade. Visto como problemático. sobretudo. que ousou olhar e questionar a sociedade como um todo. sendo maior a possibilidade de alcançar sua eficácia. tão presente nos atos revolucionários da “geração de 68”. ampliada aos espaços cotidianos. A consequência desta “crise” é a disseminação de uma visão negativa sobre a política estrita. pequenas. onde a ação política tornaria-se plausível. Esta perspectiva possibilita o alargamento também da compreensão sobre o que seja participação política. de certa forma. transformaramse em uma espécie de consciência local. como distanciada dos mecanismos formais de participação e aproximada do que poderia ser chamado de maneiras de viver no coletivo O ideal de transformação. que deveriam representar o coletivo dos cidadãos foi duramente criticada pelos estudantes. os sonhos e as utopias. a ineficiência do Estado como provedor e a corrupção relacionada à atuação dos políticos profissionais.modificações. A reinvenção deste conceito relacionou-se às possibilidades consideradas reais de ação política que tornariam o cotidiano e suas escolas como os verdadeiros espaços de atuação. Deste modo. . próxima dos cidadãos. em contraponto ao conceito de democracia liberal. Estas mudanças estariam relacionadas à perda de confiança e desmoralização da atividade política institucional. relacionadas à abertura do campo político. paupável e. considerada problemática e distante dos indivíduos (cidadãos). o conceito de política restrito às lutas pelo poder e às instituições políticas apareceu na pesquisa como ressignificado pelos jovens. encontrava-se na atual geração construído sob outra forma. refletindo sobre o social e o político na pós-modernidade propõe a formulação de uma nova teoria de democracia (em vista a uma nova teoria da emancipação). Desta situação adversa emergiria uma nova concepção de política. Os ideais.

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