EXPLICAR E COMPREENDER: POR UMA TEORIA LITERÁRIA TEOLÓGICA-RELIGIOSA1

Adna Candido de Paula

RESUMO: Este artigo tem por objetivo problematizar e ampliar a discussão a propósito da relação interdisciplinar entre teologia/religião e literatura. A partir de um ponto de vista hermenêutico e do lugar de enunciação literário, este trabalho se propõe a apresentar elementos para a identificação e configuração de uma metodologia dinâmica, não rígida, mas objetiva para o exercício dessa relação interdisciplinar. PALAVRAS-CHAVE: Literatura; Religião; Hermenêutica; Explicar; Compreender.

ABSTRACT: This article aims to discuss and expand the discussion concerning the interdisciplinary relationship between theology/religion and literature. From a hermeneutic point of view and the place of literary enunciation, this paper aims to provide evidence for the identification and configuration of a dynamic methodology, not rigid, but aims for exercise of this interdisciplinary relationship. KEYWORDS: Literature; Religion; Hermeneutics; Explaing; Comprehending.

Introdução: A interdisciplinaridade, uma questão de diálogo.

A interdisciplinaridade supõe um diálogo e uma troca de conhecimento, de análises, de métodos entre duas ou mais disciplinas. Ela implica que haja interações e um enriquecimento mútuo entre vários especialistas. Já a pluridisciplinaridade, ou

multidisciplinaridade, é o encontro de pesquisadores e professores de disciplinas diferentes em torno de um tema comum, onde cada um conserva a especificidade de seus conceitos e métodos. Trata-se de aproximações paralelas que tendem a um objetivo comum através de contribuições específicas. A transdisciplinaridade marca uma distinção forte em relação às duas primeiras, trata-se de uma prática que não respeita as especificidades disciplinares, que vai além das fronteiras. Jean Piaget a entendeu como uma etapa superior, “que não se contentaria em esperar pelas interações ou reciprocidades entre pesquisas especializadas, mas situaria essas ligações no interior de um sistema total sem fronteiras estáveis entre as disciplinas2” (PIAGET, 1972: 144). A pluridisciplinaridade não pressupõe diálogo e,

Professora Doutora em Teoria e História Literária, pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Professora Adjunta II da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri (UFVJM). 2 Todas as traduções das citações dos textos originais, cuja bibliografia sem encontra em língua estrangeira, são de inteira responsabilidade da autora do artigo.

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modificações nos métodos das disciplinas envolvidas. da obrigatoriedade de transformar moralmente a ação social. O discurso literário preserva e transforma. para produzir um saber autônomo de onde resultariam novos objetos e novos métodos. para que a interdisciplinaridade seja produtiva é preciso se considerar alguns pressupostos: (i) as duas. Como disse François Taddai. é a pressuposição da verdade. disciplinares. sem proposta de reciprocidade. por pressupor um diálogo entre as disciplinas. o ensinamento moral da verdade. pressuposições. reorganiza os campos teóricos em jogo.consequentemente. Há entre elas uma similaridade discursiva que tanto autoriza a interdisciplinaridade quanto o “canibalismo”. busca. desde o início do século XX. A metáfora. apesar de trabalhar com níveis de sentido. “nenhuma disciplina sabe mais que todas as outras disciplinas” (TADDAI apud NOWOTNY. O que parece. Paul Ricoeur. A religião opera com o discurso figurado. suas próprias sub-culturas e as diferenças são antes exacerbadas que atenuadas pela existência de semelhanças superficiais. sentido figurado dado à apropriação indébita do discurso alheio como objeto. A interdisciplinaridade. ela se perdeu ao longo dos tempos. O modo transdisciplinar é a idealização de um sonho. dos textos místicos e religiosos. Se havia diferença entre a metáfora. disciplinas envolvidas têm vocabulários. mas. imbuída da injunção. por isso. distinguir essas duas formas de linguagem. e a alegoria. Ela não está mais. sem se colocar na posição de quem oferece uma lição. procedendo com uma tradução de linguagens. o que ocorre é uma coexistência de línguas diferentes. que se estendia ao nível da frase e dos discursos. de quem vai acrescentar um ensinamento à outra. onde os sujeitos abandonam seus pontos de vista particulares. não tem comprometimento com a verdade. que a diferença entre os discursos literário e religioso não está no nível de ambiguidade dos sentidos que eles apresentam. muito próximo do discurso metafórico da literatura. (iii) é preciso que as disciplinas envolvidas estejam preparadas para aprender umas com as outras. prioridades. metafórica ou alegórica. referências e critérios diferentes. termos idênticos utilizados com sentidos bem diferentes. A metáfora não pode mais ser vista como a unidade mínima (palavra) da alegoria (frase). no domínio das escrituras sagradas. A religião. (ii) disciplinas diferentes têm. Pode-se dizer. Já a metáfora literária. no . sem negar as dificuldades e os limites inerentes a esse exercício. então. A alegoria. ou mais. sim. ampliando os sentidos da linguagem cotidiana. as dos saberes envolvidos. a religiosidade e a literatura. cada uma. frequentemente. 2010: 1). por isso. se aproximam. como já dizia o filósofo francês. que se restringia ao nível da palavra. alegórico. como por exemplo. de fato. é um processo retórico que tem o poder de redescrever a realidade ficcionalmente. que funciona da mesma forma que o discurso alegórico.

por um lado. religiosidade e literatura. 1. insuficientemente refletidos) nos sermões. nem tampouco as escrituras sagradas e os demais textos místicos serem objeto ou servirem de teoria para as análises literárias. Mas se. discutem-se inúmeras . crônicas. refletidos (mais exatamente. a configuração dos dois discursos legitima a aproximação entre eles. alguns elementos que determinam a especificidade do objeto literário. em seus estudos sobre a história literária da Idade Média. no domínio da ética. e “vidas”. sobre a relação religião-teologia-literatura. infelizmente. mas. Troubetzkoy lembra. por outro. nas considerações que se seguem. de Tzvetan Todorov.campo de ação de cada um: o religioso e místico. considerando que a fonte desta enunciação é o discurso literário. principalmente em algumas práticas interdisciplinares. A literatura vem sendo abordada. Raramente tratam da literatura enquanto tal. não é. o discurso alheio para saber operar seus elementos sem desrespeitar sua especificidade. princípio básico da interdisciplinaridade. de maneira epistemológica. A única possibilidade de se efetivar uma interdisciplinaridade rica e produtiva é a produção de um saber comum que respeite as especificidades desses discursos e que contribua para a auto-reflexão desses processos de interpretação. e não em superfície. O objetivo dessa reflexão é participar com uma fala neste diálogo. O diálogo entre as disciplinas. pois é preciso conhecer em profundidade. Tratam da instrução (mais exatamente da falta de instrução) dos aspectos da vida social. Este slogan parece tautológico. a relação entre religião. apresentar-se-á. traz a seguinte frase “A literatura tem de ser tratada como literatura” (2003: 165). O duplo regime do objeto literário A primeira linha do capítulo “A busca da narrativa” do livro A poética da prosa. no domínio da moral. ela não justifica a literatura ser um objeto de exemplificação do discurso religioso. como um objeto outro que aquele determinado por sua natureza. em suma. que basta voltar-se para determinados textos críticos daquela época para observar a literatura sendo desconsiderada em sua natureza artística: Dêem uma olhada nos manuais ou nos cursos universitários relacionados com essa ciência. com o intuito de abrir novos flancos de conversação. exige paciência e dedicação. e o literário. da correção dos textos eclesiásticos. No caso específico que este artigo problematiza. sua natureza e sua abertura para o diálogo com as interpretações religiosas e/ou místicas.

Humanismo. a de Dionísio: ambos os impulsos.) (NIETZSCHE. Arcadismo. segundo Nietzsche. na virada do século XIX. representados por dois impulsos artísticos que. 2007: 78). forças da natureza que prescindiam da mediação do artista. 2007: 79). na maioria das vezes em discórdia aberta e incitando-se mutuamente a produções sempre novas para perpetuar nelas a luta daquela contraposição sobre a qual a palavra comum “arte” lançava apenas aparentemente a ponte (. representam dois deuses gregos – Dionísio e Apolo. Barroco. Neoclassicismo. aqui. por sua vez. De fato. Este objeto tem dupla constituição e seus elementos se articulam entre si dialeticamente: fundo e forma.questões. de que no mundo helênico havia uma contraposição entre a arte do figurador plástico.. Identifica-se. 2003: 166). Classicismo. a apolínea. 2007: 24). e a arte não figurada da música. mas isso se perdeu por conta da intervenção humana que separou uma força da outra. na história da literatura. A esses dois deuses vinculam-se ao entendimento. o sonho. A negação do dionisíaco era uma forma de aniquilar o lúdico. e que naturalmente floresciam nas obras de arte.. do pathos que o direcionaria para o Bem. o devaneio e trazer o homem para mais perto da razão. para obter determinado efeito sobre o receptor. “essa nobre mestria artística” (NIETZSCHE. Decadentismo e Simbolismo. Para Nietzsche. segundo Nietzsche. Maneirismo. ela é um objeto estético e possui uma função estética. Mas raramente se fala de literatura (TROUBETZKOY apud TODOROV. enquanto a pulsão criadora é atribuída a Dionísio. Romantismo. pode ser observada ao longo da periodização literária onde temos escolas mais voltadas para a racionalidade artística – Renascimento. A ação racional que objetiva aniquilar a pulsão dionisíaca. A literatura é arte e deve ser abordada como tal. Rococó. A forma plástica da obra literária é atribuída a Apolo. Naturalismo. escolas mais voltadas para a sensibilidade artística – Medievalismo. Nietzsche atribui essa dissidência ao que chamou de “socratismo estético” que tem por lei suprema o slogan – “Tudo deve ser inteligível para ser belo” (NIETZSCHE. tão diversos. Estes dois elementos são seguidamente. caminham lado a lado. principalmente . o artificialismo da técnica buscando a “forma”. Os impulsos dionisíaco e apolíneo eram. ou vice-versa. e de outro. Realismo e Parnasianismo – de um lado. a grande arte é aquela que mantém coexistentes essas duas forças opostas como acontecia na tragédia ática.

Outra denominação bastante utilizada é a que divide as teorias críticas em imanentes. de abordagens das obras literárias. Inicia-se. As teorias literárias oferecem suporte para as análises críticas das obras. a da relação obra-leitor. as que se interessam pelos elementos externos. com sujeitos agindo e sofrendo ações. a da relação entre autormundo. antes de tudo. Uma obra literária é composta por quatro elementos fundantes: uma (i) intencionalidade.com o surgimento das teorias literárias imanentistas. já as teorias que se voltam para os elementos externos à obra. que são metodologias. a configuração das teorias literárias. a linguagem. onde assunto e estrutura. e a terceira. ganhou destaque nos meios acadêmicos. visto que sua unidade mínima. a percepção do trabalho técnico. É por se configurar como um objeto complexo que o literário exige um suporte de análise que seja tão plural quanto ele e que respeite. um (ii) assunto. a segunda. A dupla estrutura do objeto literário configura um sistema. As teorias que dão conta do “sistema de referência interno” são aquelas que se voltam para os elementos dispostos na obra e não fora dela. de fundo e de forma. como a Semiótica e a Linguística. da elaboração formal da obra literária. a da relação entre autor-obra. O objeto literário se compõe em três fases: a primeira. configurado em uma (iii) estrutura e uma potencial (iv) recepção. a relação dialética entre a dupla natureza do objeto literário – fundo e forma – e as teorias literárias. As linhas imanentes estão para a forma assim como as linhas transcendentes estão para o fundo. também está em contínua evolução. também. a sua complexidade dual está sendo cindida de acordo com os interesses dos grupos que professam essa ou aquela linha teórica. sua natureza binária. portanto. onde aquele elege neste os elementos que deseja configurar esteticamente. que se voltam para os elementos internos da obra. Ricoeur denomina esta composição de “síntese do heterogêneo”. não rígidas. É necessário. onde aquele configura nesta um mundo habitável (Ricoeur). pensar em um tipo de abordagem que respeite a natureza complexa do objeto literário. determinam. para os quais os próprios elementos internos direcionam o olhar. então. A ausência de um desses elementos invalida a obra literária considerada como tal. que a manifeste em toda a sua heterogeneidade. dentro de uma espacialidade e temporalidade configuradas na obra. dividindo-as em dois grandes blocos. outros dois nomes dados ao par fundo e forma. uma construção. em que este irá ressignificar os sentidos da imanência da obra a cada novo ato de leitura. Essas abordagens não podem ser rígidas porque não respeitariam a natureza do objeto literário que está em constante transformação. O que se depreende dessa divisão entre as teorias literárias é que a natureza do objeto literário não está sendo respeitada. . e em transcendentes. pertencem ao “sistema de referência externo”.

e seu desígnio profundo é “superar uma distância. que estão sendo aproximadas neste estudo. sem. que traduz a prática filosófica de Paul Ricoeur e. com Martin Heidegger. inspirado numa concepção moderna de hermenêutica. que é o primeiro a associar a hermenêutica à fenomenologia. que se oferece ao olhar. Para Ricoeur. e entrando na Idade Moderna. representa seu tema de estudo. é necessário configurar um suporte teórico de análise desse objeto. assim. incorporar seu sentido à compreensão presente que o homem pode ter dele mesmo” (RICOEUR. com a especificidade da interpretação da linguagem transformada esteticamente e o condicionamento histórico de toda interpretação. a hermenêutica implica uma teoria do signo e da significação. 1969: 08). surge com mais destaque a produção de uma crítica literária teológico-religiosa. Nesse sentido. há. assim como se os estudos literários respeitarem a especificidade do objeto teológico-religioso. que este trabalho propõe. Ainda está faltando. predeterminado. com Wilhelm Dilthey e a divisão entre os procedimentos de explicação e compreensão. Os pontos de contato entre os discursos religioso. de forma dinâmica. Esta teoria será mais produtiva na medida em que respeitar a natureza do objeto literário. e chegando a Hans-Georg Gadamer. nesse sentido. 2. contudo. É. Este objeto é a linguagem: verbal e não-verbal. um afastamento cultural. passando pela exegese da Idade Média. Ricoeur parte da consideração de que o plano da linguagem é o plano de compreensão da ação humana para promover uma . as abordagens interdisciplinares entre essas duas áreas de conhecimento. onde ainda há uma verdade do texto a ser desvelada. Explicar mais é compreender melhor Tudo comunica e tudo é linguagem. Ricoeur percorre toda a tradição da hermenêutica. e a interpretação de textos seculares. também. um objeto de análise comum às duas áreas de conhecimento. Portanto.A partir da década de 70. desrespeitar a natureza deste. ao mesmo tempo. uma teoria teológico-religiosa que oriente. um esboço de uma teoria literária teológica-religiosa. ou três respeitando a diferença entre a teologia e a religiosidade. mas que ainda carece de espaço e de oportunidades de publicação para ganhar mais destaque para este campo legítimo de investigação. com a interpretação dos oráculos e das mensagens cifradas dos deuses. místico e literário só podem ser observados naquilo que se manifesta. A proposta deste esboço está baseada na hermenêutica ricoeuriana. com Friedrich Schleiermacher. o de equiparar o leitor a um texto que se tornou estranho e. desde a Idade Clássica. enquanto técnica de interpretação. com a interpretação da mensagem divina das sagradas escrituras.

como um enfoque reflexivo” (RICOEUR. A linguagem metafórica literária. Compreender não é mais um modo de conhecimento. mas a possibilidade de. que se configura como símbolo. que se volta para a forma. ele mesmo. para fazer manifestar seus plurais sentidos. Essa decodificação tem a ver com as etapas da tarefa hermenêutica. conhecer novos paradigmas de ações e de experiências. a interpretação é reflexiva no que diz respeito à cultura – interpretamos para manter viva a própria tradição na qual nos encontramos. o processo investigativo. de explicar mais para compreender melhor (Cf. e complementado com a compreensão. da linguagem e da experiência vivida. o procedimento deverá ser o mesmo. que articula a forma com o conteúdo e com o contexto no qual essa linguagem será interpretada. Trata-se. ela também é simbólica. Para se interpretar a linguagem religiosa. Ricoeur postula uma terceira temporalidade – o tempo do sentido – onde se entrecruzam as duas temporalidades: o tempo da tradição e o tempo da interpretação. Em um texto de 1829. visto que ela fala e faz falar indefinidamente. visto que o “símbolo leva a pensar. O ciclo não se fecha porque o ato de leitura tem o poder de descontextualizar uma obra literária e recontextualizá-la em diferentes momentos. iniciado pela explicação. Para conhecer este mundo é preciso decifrá-lo. O tempo do sentido está intimamente ligado à constituição semântica do símbolo.ontologia da compreensão: “uma compreensão simples permanece no “ar” enquanto não mostrarmos que a compreensão das expressões multívocas ou simbólicas é um momento da compreensão de si. 1969: 28). RICOEUR. ou seja. os mais perfeitos e . assim como fazem os críticos literários. Na hermenêutica. mas um modo de ser. através do primeiro momento do ato de leitura. Friedrich Schleiermacher já sinalizava para essa aproximação e pela possibilidade de se pensar em um suporte teórico interpretativo: As obras da Antiguidade clássica são. que Ricoeur denomina como um “mundo passível de ser habitado”. exige. o primeiro transmite e o segundo renova. certamente. 1986). o da decodificação dos símbolos. é o modo desse “ser” que existe compreendendo. O que o leitor recebe não é somente o sentido da obra. O que a ficção cria é um novo mundo. 1969: 13). Sob essa ótica. o leitor identifica as referências e estabelece. o enfoque semântico se encadeará. na sua capacidade de ressignificar sempre. não há enclausuramento dos signos: a interpretação concentra-se na articulação do linguístico e do não-linguístico. através desse mundo desvelado. enquanto obrasprimas do discurso humano. faz apelo a uma interpretação porque ele diz mais do que diz e jamais termina de o dizer” (RICOEUR. portanto. de um suporte teórico que contemple o círculo hermenêutico. dessa experiência traduzida em linguagem. dentre os objetos. assim.

Esses sistemas propõem as seguintes condições: (i) que a literatura não deve ser manipulada e utilizada teologicamente. apoiado na dupla “correspondências e distanciamentos”. Tendo em vista que ela é o centro de contato entre as áreas. de símbolos. que deve ser aceito de forma incondicional. não são especialmente fecundas. Para Karl-Josef Kuschel. lá também. de um sistema interpretativo que dê conta de sua natureza.. 1997: 151) A linguagem teológica-religiosa fornece. que. promovendo enfim o diálogo. criativa e como um processo. nas múltiplas dimensões da realidade. gastas que podem ser intocáveis e imutáveis. para o filólogo. identificou que novos sistemas hermenêuticos têm surgido para dar conta dessa relação interdisciplinar. teólogo alemão. busca formular um método de analogia estrutural: “Buscar correspondências significa um não apoderar-se. que era teóloga e teórica da literatura. Pensar em analogias estruturais implica justamente no apoderar-se [. O foco na linguagem pode evitar esse equívoco de não se distinguir o próprio do alheio. Este modelo dialógico foi inspirado em Dorothee Sölle (1929-2003).. assim como a linguagem literária. aqueles cuja arte da interpretação tem mais carinho. (SCHLEIERMACHER apud REY. ligada a vários outros estudos propedêuticos. outro teólogo alemão analisado por Georg Langenhorst. É somente incontestável que muitos são aqueles que praticaram esta arte com muito sucesso vindos principalmente das Escrituras sagradas dos cristãos. de signos e representações que não cessam de significar e ressignificar e que.] quem pensa em forma estrutural-analógica pode perceber correspondências do próprio no alheio” (KUSCHEL apud LANGENHORST: 14). um conjunto de palavras. a pergunta. George Langenhorst. exatamente por suas . Kuschel. (ii) que a relação com a literatura deve ser realmente realizada de forma dialógica. um organon análogo ao da teologia cristã. pois. então nossa arte formaria sem contestar. pelo todo do homem e do mundo no tempo e no espaço.os mais veneráveis. teologia e literatura um desafio mútuo onde os âmbitos se coincidem e podem se converter em uma correção crítica. A literatura como correção crítica frente a uma linguagem teológica que obscurece a realidade do homem mediante fórmulas vazias. igualmente. há nessa relação de proximidade entre religião. senão em sua autonomia e em seu inquestionável valor próprio. Mas se existisse igualmente uma enciclopédia para esses estudos. portanto. a pergunta pelo estado do mundo como é. a teologia como correção crítica porque desafia a literatura a manter aberta a pergunta pelo homem. onde se ouvem vozes dissonantes. necessitam.

há respeito. seria então possível localizar a explicação e a compreensão em dois estágios diferentes de um arco hermenêutico único” (RICOEUR. entre literatura. a compreensão é uma conjectura. apresente-se como uma metodologia ampla. é apenas uma simples abstração. há troca. Em um processo dialógico como este. pois. aqui. para o discurso. a compreensão será uma captação ingênua do sentido do texto enquanto todo. satisfaz o conceito de apropriação que se descreveu no terceiro ensaio como a resposta a uma espécie de distanciação associada à plena objetivação do texto. No fim. Para que os sentidos sejam manifestos. 2000: 86). As universidades brasileiras e os órgãos de fomento parecem estar atentos a esse movimento crescente de legitimar academicamente o que é realizado por muitos . 2000: 98). teologia e religião.respectivas característica. é preciso entender a “análise estrutural como um estágio – necessário – entre uma interpretação de superfície e uma interpretação de profundidade. um artefato da metodologia (RICOEUR. A explicação surgirá. enquanto signo. as vozes em questão são ouvidas. que permita essa articulação entre os objetos. será um modo sofisticado de compreensão apoiada em procedimentos explicativos. têm dupla função: apresentar um possível procedimento metodológico que oriente a prática interdisciplinar. porém objetiva. Considerações finais As considerações feitas. acredita-se que o procedimento hermenêutico. e chamar a atenção para a legitimidade das práticas interdisciplinares e da necessidade de se refletir epistemologicamente esses procedimentos. que parte da linguagem. Observa-se que é do interesse das áreas envolvidas e dos agentes que promovem a relação interdisciplinar estabelecerem os limites e as pontes entre esses saberes. No princípio. Observa-se que essa hermenêutica reconhece todos os elementos formais que determinam a natureza e a função dos objetos de análise dessa relação interdisciplinar. Da segunda. como a mediação entre dois estágios da compreensão. Se se isolar deste processo concreto. há solidariedade e ética. literário e religiosos: Da primeira vez. enquanto evento. respeitando a natureza dos objetos a serem analisados.

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