Cia de Foto

Sonia Sobral, gerente de Núcleo do Instituto

Itaú Cultural investe em pesquisa e mapeamento

PRÊMIO SHELL

Pags. 6 e 7

Pag. 16

Rio e São Paulo consagram os seus vencedores

Marco Issa / Argosfoto

Uma publicação da Aver Editora - Abril de 2009 - Ano I Nº 1 R$ 5,00

Sérgio Brito: premiado no Rio

Festivais: celeiro de oportunidades
Mesmo com dificuldades, companhias de teatro aproveitam visibilidade dos festivais Pags. 10 e 11 para buscar o reconhecimento no concorrido palco teatral brasileiro
Diego Pisante

Perucaria: uma arte fundamental
Pag. 4

Sated-SP busca recursos para abrir um retiro de artistas
Pag. 18

Grupo Dimenti transita entre dança e teatro
O grupo Luna Lunera até hoje participa dos principais festivais de teatro no Brasil e até no exterior.
Pag. 9

Bastidores: as notícias por detrás do palco
VIDA & OBRA
Pags. 4 e 5

Arquivo Pessoal

ENTREVISTA

Zezé Motta, uma incansável: no teatro, na política e na vida
Pags. 12 a 14

Ida Gomes, a estrela que não deixa de brilhar
Pag. 21

EAD terá livro para festejar seus 61 anos
Pag. 19

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Abril de 2009

Jornal de Teatro

Jornal de Teatro

Abril de 2009

Editorial
Uma estreia que tem a prossionalização da carreira como protagonista
Reportagem
Apesar das dificuldades, companhias de teatro apostam nesse tipo de evento em busca de mais visibilidade
O teatro brasileiro está tendo um reencontro com a sua história. No século passado, várias gerações viveram desta atividade. Criaram os seus lhos, construíram seu patrimônio. Nos anos 30, 40 e 50 o setor se prossionalizou a extremos. As grandes companhias chegavam a realizar dez sessões por semana. A bilheteria era a fonte maior de receita. O negócio teatro repetia nos trópicos as matrizes seculares que zeram fortunas na Europa e na América do Norte. A prossionalização teve o seu divisor de águas com a chegada do mecenato das verbas das leis de incentivo nos anos 90 e agora no novo século. Não se pode deixar de registrar o impacto da dramaturgia eletrônica, especialmente as telenovelas, que criaram astros capazes de encher as salas. Hoje, em um período de espetáculos que se realizam de sexta a domingo, em que teatros fecham e se transformam em igrejas, em que espetáculos são montados só para cumprir a temporada mínima para receber as verbas da lei de incentivo scal, sem preocupação com a bilheteria, e até em que o público ca assustado em sair tarde das sessões por causa da violência, encontramos alguns sinais que são animadores. O primeiro deles é uma nova geração de talentos. São atores, diretores, autores, técnicos e produtores empenhados em uma prossionalização ímpar. A renovação de talentos tem sido acompanhada de uma elevada capacidade de abraçar a carreira como prossão de vida. Um exemplo é o que ocorre no teatro musical. O Brasil é hoje referência internacional. Até os espetáculos que vêm de fora do País e são montados aqui recebem elogios dos produtores pelo elevado grau de prossionalismo dos brasileiros. O Jornal de Teatro surge para ajudar neste processo de capacitação prossional. É um jornal para quem vive do teatro e para o teatro. Abordaremos aspectos da prossão raramente enfocados em outras mídias. Não se trata de mais uma publicação de roteiro e para o público nal. Nem uma publicação para discussão acadêmica do setor. Trata-se de uma publicação especializada para prossionais, a exemplo de outras do portfólio da Aver Editora. Trata-se de ocupar uma lacuna que existe a partir da prossionalização. As pautas e editorias visarão sempre colocar em foco o teatro como prossão, carreira, negócio e arte que precisa ser respeitada por suas raízes milenares. Estaremos também democratizando a informação, hoje privilégio de quem vive no eixo Rio-São Paulo. Estaremos utilizando a estrutura jornalística da Aver Editora, com suas redações regionais em Brasília, Porto Alegre, Florianópolis e em breve Salvador, Curitiba e Belo Horizonte, além é claro do Rio de Janeiro e de São Paulo, que funcionam como matrizes. O nosso conteúdo estará disponível em site aberto, o www.jornaldeteatro.com.br, permitindo o acesso daqueles que, estando fora dos grandes centros, queiram fazer da atividade a sua prossão. Nascemos também com a missão de promover a integração regional com os nossos países vizinhos. Realidades muito próximas a nós. Ao mesmo tempo tão perto e tão longe! O primeiro passo foi dado com a troca de conteúdo com a argentina Multis x El Foro – Revista de Teatro, editada em Buenos Aires, com quem estabelecemos um convênio de troca de conteúdo que já poderá ser visto a partir da próxima edição. O Jornal de Teatro nasce com uma missão. Nasce com propósitos nobres e para ser um espaço da classe e para a classe. A partir de agora, este jornal é seu. Pertence àqueles que querem a prossionalização de um setor, que no século passado foi a razão de viver de várias gerações. O nosso setor, que sempre viveu de ciclos, tem agora uma retomada pela prossionalização e a nossa publicação fará a sua parte.

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Pág.: 10 e 11

Índice
PRÊMIO............................................................ 6 e 7
Shell
Troféu mais concorrido do teatro brasileiro consagra os melhores de 2008 no Rio e em São Paulo

DANÇA...................................................................... 9
Grupo Dimenti
Companhia baiana transita livremente entre teatro e dança, em produções como “Chuá”

ENTREVISTA..............................................12 a 14
Zezé Motta
Em conversa com o Jornal de Teatro, a atriz conta sua trajetória de vida e toda a sua luta em prol da arte no Brasil

TÉCNICA.................................................................18
Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral
Criado no final de 2008, o IBTT investe na pesquisa para formar novos profissionais

HISTÓRIA............................................................... 22
Liberdade, liberdade
O espetáculo teatral escrito por Millôr Fernandes e que abalou a estrutura do regime militar na década de 60

Cláudio Magnavita Presidente da Aver Editora
Email Redação: redacao@jornaldeteatro.com.br Arte: Ana Canto, Bruno Pacheco, Gabriela de Freitas e Keila Casarin. Marketing: Bruno Rangel (brunorangel@avereditora.com.br) Comercial: Diego Silva Costa (diego@avereditora.com.br) Administração: Elisângela Delabilia (elisangela@avereditora.com.br) Circulação: Davi Machado Lopes (davi@avereditora.com.br) Correspondência e Assinaturas: Redação São Paulo: Rua da Consolação, 1992 - 10º andar - CEP: 01302-000 - São Paulo (SP) Fone/FAX: (11) 3257.0577 Redação Rio de Janeiro: Rua General Padilha, 134 - São Cristóvão - Rio de Janeiro (RJ). CEP: 20920-390 - Fone/Fax: (21) 2509-1675 Redação Brasília: SCN QD 01 BL F America Office Tower - Sala: 1209 - Asa Norte Brasília (DF) - CEP: 70711-905. Tel.: (61) 3327-1449 Redação Porto Alegre: Rua José de Alencar, 386 - sala 802/803 - Menino Deus - Porto Alegre (RS). CEP: 90880-480. Tel.: (51) 3231-3745 / 3231-3734 Redação Florianópolis: Av. Osmar Cunha, 251 - sala 503, Ed. Pérola Negra, Centro Florianópolis (SC). CEP: 88015-200. Tel.: (48) 3224-2388
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Bastidores

Abril de 2009

Jornal de Teatro

Comédia “Os difamantes” ganha sala maior
A comédia “Os Difamantes”, estrelada por Maria Clara Gueiros e Emilio Orciollo Netto e dirigida por Ernesto Piccolo, estreou no início de novembro de 2008 no Teatro do Leblon – Sala Tônia Carrero, para uma temporada inicial de dois meses. Com o sucesso de crítica e público, a peça prorrogou sua temporada e migra para uma sala maior, a sala Fernanda Montenegro, no mesmo teatro. O texto é dos jornalistas Martha Mendonça e Nelito Fernandes e o texto brinca com o atual e insistente fenômeno do culto às celebridades, e o desejo, cada vez mais comum, de se tornar uma elas.
Divulgação

Alexandre Caetano / Divulgação

Projeto Vitrine Cultural apresenta 12 peças escolhidas entre as 400 propostas recebidas. À esquerda, Bartleby e à direita Eldorado: preços populares

Vitrine Cultural abre 2009 com quatro peças no Teatro Imprensa
Depois de selecionados os 12 espetáculos entre as mais de 400 propostas recebidas pelos curadores Valmir Santos e Kil Abreu, o projeto de formação de público que envolve, ainda, uma parcela signicativa da produção mais experimental do teatro brasileiro, entra em nova fase. O Projeto Vitrine Cultural 2009 do Centro Cultural Grupo Sílvio Santos apresenta os espetáculos que ocuparão a Sala Vitrine e a Sala Imprensa, de terça a domingo: Comunicação a uma Academia, Eldorado, Cachorro Morto e Bartleby. A curadoria do projeto selecionou oito peças inéditas e quatro reestreias para a temporada. Ao longo de 2009, serão subsidiadas nove produções teatrais para o Espaço Vitrine e três para a Sala Imprensa. O projeto tem como propostas incentivar grupos com pesquisas teatrais inovadoras, formar plateias por meio de ingressos oferecidos a preços populares (R$ 10,00 e R$ 5,00) e realizar ação social baseada na troca de ingressos por doações - sempre no primeiro mês das temporadas. Trata-se de um projeto de incentivo cultural que une ação social e oferece aos grupos e às produções estrutura de espaço e subsídio nanceiro. Os 12 espetáculos selecionados receberão apoio para apresentar suas produções, que carão três meses em cartaz, cada uma, a partir de 4 de março. O Vitrine Cultural funcionará com peças no Espaço Vitrine (48 lugares), às terças e quartas, outras às

PROJETOS SELECIONADOS
Espaço Vitrine 1º trimestre Comunicação a uma academia – Roberto Alvim Cachorro morto – Leonardo Faria Moreira Bartleby – Cácia Goulart 2º trimestre Quase nada – Alain Brum Frozen – Rachel Ripani Music-Hall – Gabriela Flores 3º trimestre Festa de separação – Janaina Leite Ensaio sobre Carolina – Gal Quaresma Henfil já! – Nena Inoue Sala Imprensa 1º trimestre Eldorado – Eduardo Okamoto 2º trimestre Amanhã é natal – Cinthia Maria Zaccariotto Ferreira 3º trimestre O livro dos monstros guardados – Zé Henrique de Paula

Peça de Hilda Hilst em São Paulo

quintas e sextas e ainda mais uma aos sábados e domingos; e também uma produção na Sala Imprensa (452 lugares),

às quartas e quintas-feiras. O Projeto Vitrine Cultural contempla quatro espetáculos em cartaz simultaneamente.

“Meu Caro Amigo” em temporada carioca
A atriz Kelzy Ecard, recente vencedora do Prêmio APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro) de Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em “Rasga Coração”, está em cartaz com o espetáculo solo musical “Meu Caro Amigo”, inspirado na obra de Chico Buarque de Hollanda. O texto é de Felipe Barenco; a direção de Joana Lebreiro (diretora dos bem sucedidos musicais sobre Antonio Maria, Mario Lago e Ary Barroso); e a direção musical de Marcelo Alonso Neves. A música ao vivo é executada pelo pianista João Bittencourt. A peça é apresentada no Centro Cultural dos Correios, no centro do Rio. A ideia deste musical surgiu da paixão dos criadores do espetáculo pela obra de Chico e sua onipresença nas vidas dos brasileiros, ora como trilha sonora de nossas histórias pessoais, ora como retrato da história recente do país. “Meu Caro Amigo” não é um espetáculo biográco sobre o compositor, mas uma cção que busca, através da história da fã Norma, estabelecer um diálogo entre memória individual e memória nacional. Entendendo a música como poderoso veículo de compartilhamento de memória, o objetivo é despertar no espectador a lembrança de sua própria história ao mergulhar na saga desta mulher embalada pelas canções de Chico. “O tema da memória me acompanha desde o meu espetáculo de formatura na UFRJ, principalmente este diálogo entre a memória coletiva e individual, a relação entre histórias de vida pessoais dentro da perspectiva histórica do Rio de Janeiro e do Brasil. Apesar de a peça ser inspirada no Chico Buarque, ela reconstrói a memória de um personagem de cção
Divulgação

Curso de iluminação cênica em Pernambuco
Turma completa no Curso de Formação de Técnicos em Iluminação Cênica, realizado pela 9 Produções Artísticas. O curso, com incentivo do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura Funcultura, é gratuito e conta com 25 vagas, sendo 20 para alunos regulares/integrais e 5 para ouvintes. As inscrições para a turma de março já estão encerradas, mas outra turma deve iniciar na segunda metade do ano. Acompanhe pelo site www.9producoes.com.br. O objetivo do curso é inserir prossionais no mercado da cena artística de Pernambuco. As 215 horas de aulas aliam teoria e prática. Para Dado Sodi, coordenador do projeto, “é nesse campo onde mais falta um aprofundamento na área técnica local. Por isso, elaboramos um curso que tem uma forte carga teórica e que propõe a discussão sobre o tema e a atual situação da classe em Pernambuco”.

Espelhos Partidos, espetáculo livremente inspirado na narrativa poética “O Unicórnio” de Hilda Hilst, apresenta a transmutação de uma mulher em um animal. Essa mulher vai se cansando de sua impossibilidade de compreensão nesse mundo como ser humano e aos poucos vai se transformando em um unicórnio para que possa alcançar a liberdade dos seus desejos. A dramaturgia é de Flávia Couto e a direção de Edú Reis. O espetáculo permanece em cartaz no Centro Cultural Rio Verde em São Paulo.

Mulher animal

Chico Buarque inspira musical

que é uma pessoa comum, ‘gente como a gente’. A gente quer que o público se identique com a Norma. A história da Norma é toda permeada com as nossas próprias memórias e histórias de pessoas da família e amigos”, diz Joana Lebreiro.

O projeto desenvolvido pela arquiteta Jacqueline Moura prevê a criação de um cenário propício para o desenvolvimento e a fomentação da cultura no Estado. A proposta é de que sejam reunidos no Centro de Belas Artes diversas atividades artísticas, como um museu, uma biblioteca, salas para balé, teatro, música, além de uma pinacoteca e da reforma do Teatro de Bolso Lima Filho. A obra deve ser entregue para a população alagoana no ano de 2010. O projeto ainda contempla uma reforma no Teatro de Bolso Lima Filho, que passa a ter uma capacidade para 161 pessoas, sendo nove cadeirantes.

Em breve: obras

Jornal de Teatro

Abril de 2009

Bastidores
Tuca Andrada protagoniza “O Processo” em São Paulo
Estreou no dia 21 de março, no Teatro do Sesc Santana, o espetáculo “O Processo”, baseado na tradução do original de Modesto Carone (Prêmio Jabuti) para o texto de Franz Kafka, com direção e adaptação de José Henrique e cenário de Hélio Eichbauer. Em cena, Tuca Andrada interpreta o protagonista Josef K. e contracena com mais oito atores - Sílvia Monte, Roberto Lobo, Mariana Oliveira, Alexandre Mofati, Antonio Alves, Paula Valente, Rogério Freitas, Thaís Tedesco. O Processo é a história de um cidadão comum, que ao acordar em seu trigésimo aniversário está detido sem motivo aparente. Durante um ano, Josef K. procura obsessivamente compreender os motivos de sua detenção, mas suas buscas não encontram respostas diante de um “tribunal” totalmente inacessível, irracional e absoluto. Tuca Andrada conta que construir o personagem Josef K. foi um desao e que, para o ator, ainda se trata de um personagem em construção. “Josef K. é um quebra-cabeças, um caminho com muitas vertentes, muito fácil de um ator se perder. Ele pode ser lido de inúmeras maneiras dependendo do que a direção propõe, e o José Henrique me deixou livre para escolher o meu caminho. Josef K. é um homem
Fotos: Divulgação

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“Doido” estreia em Curitiba
O espetáculo “Doido”, com Elias Andreato, estrou dia 23 de março durante o Festival de Curitiba. Segundo o próprio ator dene, “o espetáculo fala de amor, loucura e arte, mostrando ao espectador o que essa viagem apaixonante pode despertar no artista e no cidadão comum”. Na peça, um homem narra e vive personagens da dramaturgia universal. A montagem não utiliza um gestual teatral formal para que, através apenas da palavra, o público seja encantado e arrebatado pelo pensamento de grandes lósofos, pensadores, poetas e dramaturgos.

Doido: amor, loucura, arte mundial

“Tampinha Tira os Óculos” volta a SP
Depois de apresentações no interior do Estado de São Paulo pelo “Circuito SESC de Artes 2008”; na “Virada Cultural” da Prefeitura da Cidade de São Paulo; e no evento “Planeta Sustentável”, realizado no Parque Ibirapuera, reestreia no Teatro Ruth Escobar, São Paulo, a peça infantil “Tampinha Tira os Óculos” da Cia. Teatral Bangues e PinguePongues, fundada pelos atores Carlos Baldim, César Figueiredo e Camilo Brunelli. O texto escrito por Carlos Baldim e Camilo Brunelli traz ao palco dois palhaços responsáveis por contar a história de “Tampinha”,

Para o ator Tuca Andrada, construir o personagem Josef K. foi um desao

Realidade contada com bom humor

racional que se perde dentro dos labirintos daquele tribunal e vê sua racionalidade ser jogada no lixo. Desde o início um homem condenado, um animal pego numa arapuca e que luta inutilmente para sobrevi-

ver. Não aceita e não entende as regras daquele tribunal pois sempre cumpriu todas as regras a que foi submetido, mas agora está a dois passos do cadafalso e só lhe resta cumprir seu destino”, diz ele.

uma menina que se acha feia porque usa óculos. Com linguagem circense, músicas e humor, Chicabom e Tangerina, interpretados por César Figueiredo e Fábio Oliveira, revezam-se nos diversos personagens da história.

Nova montagem de Maria Stuart chega ao Rio
O Rio de Janeiro recebe a mais nova montagem do clássico de Schiller: “Maria Stuart”, com Julia Lemmertz no papeltítulo e Clarice Niskier como a Rainha Elizabeth, sob a direção de Antonio Gilberto, idealizador do projeto ao lado das duas atrizes. A tradução utilizada é a de Manuel Bandeira, e completam o elenco Mário Borges, André Correa, Henri Pagnoncelli, Clemente Viscaino, Amélia Bittencourt, Pedro Osório, Renato Linhares, Maurício Souza Lima, Silvio Kaviski, Thiago Hausen, Maurício Silveira, Guilherme Bernardy e Ednei Giovenazzi em participação especial. O espetáculo acontece no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro. A peça fala do histórico conito entre as rainhas, primas e rivais Elizabeth, da Inglaterra, e Mary Stuart, da Escócia. A motivação do diretor Antonio Gilberto para trazer ao público brasileiro deste início de século XXI a tragédia de Schiller escrita em 1800 à sua atualidade: “Por falar de sentimentos e conitos tão comuns a nós seres humanos, essa obra de Schiller é um clássico. Por

OPINIÃO
O TEATRO BRASILEIRO EXPLORA BEM OS RECURSOS DA INTERNET?
A internet vem se revelando como um instrumento muito forte para o teatro brasileiro, especialmente como veículo de divulgação de espetáculos, pois além de um grande alcance de público, é, entre as mídias, o meio mais barato de propagação das produções. No entanto, para além da propaganda, a internet oferece recursos que, acredito, o teatro brasileiro tem sabido aproveitar para outros fins: especialmente grupos e companhias se utilizam do meio virtual para “debater” sobre suas propostas artísticas e políticas, fortalecendo, a partir de seu público, discussões importantes para o avanço de suas obras. Existe aí uma democratização no sentido da possibilidade de exposição de ideias e pensamentos, que permite a “qualquer pessoa” (qualquer pessoa que tenha acesso ao meio e à obra) comentar sobre o trabalho de determinados grupos. E isso é bom! No caso do Grupo Clariô de Teatro, que desenvolve um trabalho específico na periferia de São Paulo, a internet se faz necessária e quase que imprescindível. Ela está à serviço, além da promoção, da criação de uma grande rede de coletivos artísticos que atuam também nos arrabaldes. Blogs, comunidades, sites, e-mails etc, se interagem num grande fórum que possibilita aos coletivos uma troca efetiva para o fortalecimento do movimento artístico voltado às margens das grandes metrópoles. Esse caminho ainda é muito tímido, mas aponta lugares interessantes de preservação, intercâmbio e discussão permanente sobre os rumos dos grupos e do teatro brasileiro. Naruna Costa Atriz do Grupo Clariô de Teatro e editora do blog: www.espacoclario.blogspot.com

História de Maria Stuart traz temas contemporâneos aos palcos cariocas

ser um clássico será sempre oportuna e interessante uma nova montagem de ‘Maria Stuart’”, arma o diretor. A encenação de Antonio Gilberto concentra seu foco na relação humana dessas duas rainhas e dos persona-

gens que giram em torno das mesmas. A montagem não pretende julgar essa “luta” entre essas duas mulheres, mas sim apresentar os conitos que zeram parte da relação das duas e que culminaram com a morte de Mary Stuart.

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Prêmio

Abril de 2009

Jornal de Teatro

Fotos: Marcos Issa / Agorsfoto

LISTA DE VENCEDORES DO 21º PRÊMIO SHELL DE TEATRO DO RIO DE JANEIRO
Iluminação: Beto Bruel, por “Não Sobre o Amor” Cenário: Daniela Thomas, por “Não Sobre o Amor” Figurino: Inês Salgado, por “O Jardim das Cerejeiras” Música: Delia Fisher e Jules Vandystadt, pelos arranjos (vocal e instrumental) de “Beatles num Céu de Diamantes” Fábio Nin, por “É Samba na Veia, é Candeia” Categoria especial: Charles Möeller e Claudio Botelho, pela expressiva contribuição ao gênero musical no cenário carioca Autor: Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, por “Inveja dos Anjos” Diretor: Ary Coslov, por “Traição” Ator: Sérgio Britto, por “A última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras I” Atriz: Patrícia Selonk, por “Inveja dos Anjos” Homenagem: Ida Gomes, pela contribuição ao teatro brasileiro

Patrícia Selonk e Sérgio Bri o ganham o prêmio por atuações

Felipe Wagner e Débora Olivieri recebem homenagem à Ida Gomes

Ary Coslov: prêmio por direção

Jandira, Sérgio Bri o e Eva Todor

Daniela Thomas é premiada

Inês Salgado leva por gurino

Prêmio Shell: dia de homenagens e reconhecimento ao teatro
Por Adoniran Peres A celebração dos melhores da temporada dos espetáculos teatrais de 2008 foi realizada no último dia 10 de março com a entrega do 21º Prêmio Shell de Teatro, no Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro (RJ). O evento contou com momentos de homenagem, consagração e confraternização. Com a casa lotada, foi apresentado pela atriz Beth Goulart, premiada em 2001 pela melhor interpretação. Um dos momentos mais marcantes cou por conta da homenagem especial a Ida Gomes. A atriz que morreu no dia 22 de fevereiro de 2009, aos 85 anos, recebeu um longo aplauso da plateia por sua grande contribuição ao teatro brasileiro. Seu irmão, o ator Felipe Wagner lembrou a alegria da atriz ao saber que receberia o Prêmio Shell. “Estou muito emocionado de estarmos dividindo o orgulho e a saudade que sentimos dela”. A atriz Débora Olivieri homenageou a tia com versos do soneto “Visita à casa paterna”, de Luiz Guimarães Jr., com o qual Ida ganhou seu primeiro prêmio em 1937 e um contrato com a Rádio Nacional: “Uma ilusão gemia em cada canto/Chorava em cada canto uma saudade”. PREMIADOS Concorrendo como melhor ator, ao lado de nomes como Marcelo Faria e Fernando Eiras, Sérgio Britto foi ovacionado de pé pela plateia ao receber o prêmio pelo trabalho na peça “A última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras I”. Aos 85 anos, com 63 deles voltados para o trabalho com teatro, ele dedicou a premiação à Isabel Cavalcanti, diretora de sua peça. Britto, quem em 2003 já foi também homenageado na 16ª edição, avalia que os prêmios de teatro ao longo do tempo estão diminuindo. “A Shell foi aquela que manteve, no decorrer dos anos, ligação contínua com o teatro brasileiro. Particularmente, quei muito feliz com a homenagem que recebi há alguns anos na premiação”, destaca. O prêmio de melhor atriz, concorrendo ao lado de Drica Moraes, cou com Patrícia Selonk, pela interpretação em “Inveja dos Anjos”. O mesmo espetáculo também ganhou o troféu no quesito autor, pelo texto de Maurício Arruda e Paulo de Moraes. Ary Coslov foi escolhido o melhor diretor por “Traição”. Nas categorias técnicas, destaque para a peça “Não Sobre o Amor”, premiada por melhor iluminação, de Beto Bruel, e cenário, de Daniela Thomas. No quesito música, excepcionalmente, os jurados optaram por dividir o prêmio entre Delia Fisher e Jules Vandystadt, pelos arranjos, vocal e instrumental, de “Beatles num Céu de Diamantes” e Fábio Nin, por “É Samba na Veia, é Candeia”. JÚRI Nesta edição, zeram parte do júri do Rio de Janeiro Sérgio Fonta, dramaturgo, diretor e ator; Tania Brandão, pesquisadora e professora de História do Teatro Brasileiro; Fabiana Valor, atriz e bailarina; além de Bernardo Jablonski, professor e roteirista; e Caique Botkay, instrumentista e compositor de músicas para teatro. Os dois últimos despedem-se do júri este ano, sendo substituídos pelo iluminador Jorginho de Carvalho e por João Madeira, que foi participante ativo na história do Prêmio Shell de Teatro e atualmente está na direção do grupo AfroReggae. As comissões julgadoras - uma para o Rio e outra para São Paulo – geralmente são compostas de cinco pessoas em cada cidade, convidadas pela Shell entre artistas, personalidades ligadas ao teatro e ao mundo cultural brasileiro, críticos etc. O PRÊMIO Criado em 1988, o Prêmio Shell de Teatro é ponto de referência nos palcos. A premiação é oferecida aos maiores destaques da temporada teatral, no Rio de Janeiro e em São Paulo, separadamente, em nove categorias: autor, diretor, ator, atriz, cenograa, iluminação, música, gurino e categoria especial. O prêmio é destinado aos prossionais do teatro brasileiro que tenham estreado espe-

táculos no Rio de Janeiro e em São Paulo entre 1º de janeiro e 31 de dezembro. As peças que estreiam entre 1º de janeiro e 30 de junho concorrem às indicações do primeiro semestre e as peças que estreiam entre 1º de julho e 31 de dezembro concorrem às indicações do segundo semestre. Os vencedores recebem premiação individual de R$ 8 mil e um troféu do escultor Domenico Calabroni. A festa de entrega dos prêmios acontece alternadamente em cada uma das cidades. O número mínimo de apresentações, não necessariamente consecutivas, para que o espetáculo concorra aos prêmios em São Paulo são 24, e o Rio de Janeiro 25. No caso de espetáculos em dias alternativos, o número mínimo é de 12 apresentações.

Jornal de Teatro

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Prêmio

Shell premia os melhores do teatro em São Paulo
A 21ª edição do Prêmio Shell de Teatro aconteceu no dia 17 de março no Estação São Paulo. Nenhum espetáculo levou mais de um troféu
Fotos: Marcos Issa/Argosfoto

Por Rodrigoh Bueno A chuva que caiu na noite da premiação e bloqueou o trânsito da cidade foi o motivo do atraso de mais de uma hora no início do evento. Sob a apresentação de Beth Goulart, a estatueta dourada em forma de concha e o cheque no valor de oito mil reais foram entregues aos destaques do teatro de 2008, escolhidos pela comissão julgadora formada por Kil Abreu, Marici Salomão, Mário Bolognese, Noemi Marinho e Valmir Santos. Grande parte dos presentes concordou com a escolha do júri nas principais categorias. A novidade cou por conta do prêmio dividido em Melhor Ator. Domingos Montagner e Fernando Sampaio, da companhia La Mínima, concorriam juntos na categoria, ambos pelo espetáculo “A noite dos palhaços mudos” (uma adaptação da história em quadrinhos do cartunista Laerte), mas os jurados consideraram que “a interpretação dos atores se completava, sendo assim, merecem juntos o troféu”. A melhor atriz foi Isabel Teixeira, pelo espetáculo “Rainha(s) - duas atrizes em busca de um coração”. A revelação foi uma das mais aplaudidas da noite e no discurso de agradecimento, Isabel disse que teatro é resistência e citou a recente alteração da lei que descaracteriza algumas produtoras e aumenta o valor dos impostos pagos pelos artistas. O espetáculo com maior número de indicações foi “A Alma Boa de Setsuan” que levou o prêmio de Melhor Direção para Marco Antonio Braz. Prêmio que o diretor ofereceu aos atores Maurício Marques e Denise Fraga, que estrelam a história de Bertolt Brecht. O Prêt-à-Porter, projeto do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), sob coordenação do encenador Antunes Filho, ganhou na Categoria Especial. O homenageado da noite foi Jacó Guinsburg, pela contribuição ao pensamento crítico do teatro no Brasil. Criado em 1988, o Prêmio Shell de Teatro é referência para os palcos brasileiros. Em cada edição são divulgadas duas listas de indicados A premiação é oferecida aos maiores destaques da temporada teatral, no Rio de Janeiro e em São Paulo, separadamente, em nove categorias: Autor, Diretor, Ator, Atriz, Cenograa, Iluminação, Música, Figurino e Categoria Especial.

O Centro de Pesquisa Teatral do Sesc levou o prêmio pelos 10 anos do projeto Prêt-à-Porter

Isabel Teixeira, melhor atriz por “Rainha[(s)]”

Marília Toledo por “Amor de Servidão”

Jacó Guinsberg: pensamento crítico do teatro

Bráz, melhor diretor: “A Alma Boa de Setsuan”

Melhor Iluminação Felipe Cosse e Juliano Coelho por “Aqueles Dois”

Beth Goulart entrega prêmio a Renato Bolelli por Melhor Cenário

CONFIRA A LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES DO 21º PRÊMIO SHELL DE TEATRO DE SÃO PAULO
Autor - Marçal Aquino e Marília Toledo, por “Amor de servidão” Cenário - Renato Bolelli Rebouças, por “Arrufos” Figurino - Silvana Marcondes, Fernando Sato e Júlio Dojcsar, por “O santo guerreiro e o herói desajustado” Iluminação - Felipe Cosse e Juliano Coelho, por “Aqueles dois” Música - Josimar Carneiro, pela direção musical de “Divina Elizeth” Categoria especial - Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, pelos 10 anos do projeto Prêt-à-Porter Diretor - Marco Antônio Braz, por “A alma boa de Setsuan” Ator - Domingos Montagner e Fernando Sampaio, por “A noite dos palhaços mudos” Atriz - Isabel Teixeira, por “Rainha[(s)] – duas atrizes em busca de um coração” Reconhecimento e tradição

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Editais
Por Dominique Belbenoit
Estão abertas as inscrições para os primeiros editais da Secretaria de Cultura da Bahia lançados em 2009 por intermédio da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb). São cinco editais nas áreas de Artes Visuais, Dança, Teatro e Música, que irão selecionar artistas para apresentações e exposições em espaços culturais da Funceb, na capital e no interior. Com o sucesso da estreia dos projetos “Segundas Musicais” e “Quintas do Teatro”, criados em 2008, este ano os respectivos editais ampliam signicativamente o número de projetos selecionados. Para os artistas visuais, o “Portas Abertas para as Artes Visuais” irá selecionar 24 propostas de exposições, individuais ou coletivas, para ocuparem galerias em Salvador e centros culturais dos municípios de Alagoinhas, Feira de Santana, Jequié, Juazeiro, Porto Seguro, Valença e Vitória da Conquista. Serão escolhidas duas propostas por espaço, com duração de trinta dias cada uma, a serem realizadas entre julho de 2009 a junho de 2010 com verba de apoio no valor líquido de R$ 1,5 mil. Já o edital “Salões Regionais de Artes Visuais da Bahia” abre inscrição para trabalhos de temática livre em diversas modalidades, entre elas arte e tecnologia, cerâmica, colagem, escultura, fotograa, grate, instalação e pintura. Os Salões 2009 terão três edições com exposições abertas à visitação pública nos centros de cultura de Valença, Juazeiro e Porto Seguro. Ao todo serão premiados nove artistas, três em cada salão, sendo dois prêmios de R$ 6 mil e um prêmio estímulo de R$ 3 mil, exclusivo para artistas do território de identidade onde o Salão será realizado, somando R$ 45 mil em premiação. Com seleção prevista de 17 propostas (sete a mais em relação ao ano passado) de shows de cantores, instrumentistas e grupos, o “Segundas Musicais” retorna em 2009 com premiação no valor de R$ 5 mil para cada apresentação, sendo o valor total do investimento de R$ 85 mil. No edital “Quarta que Dança”, serão eleitas 19 propostas entre espetáculos, intervenções urbanas, dança de rua e trabalhos em processo de criação de companhias ou artistas independentes. Todos concorrem a prêmios que variam de R$ 3 mil a R$ 5 mil.

Abril de 2009

Jornal de Teatro

Bahia abre inscrições para cinco editais de Cultura
Os selecionados de música e dança farão uma apresentação única, a preços populares, na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Os grupos e artistas teatrais, prossionais e amadores, por sua vez, podem participar da seleção para o “Quintas do Teatro”, que este ano seleciona 20 espetáculos, o dobro em relação à edição de estreia, totalizando R$ R$ 100 mil em premiação. Também a preços populares, o projeto prevê a realização de apresentações no Cine-Teatro Solar Boa Vista e no Espaço Xisto Bahia. Os interessados podem inscrever seus projetos gratuitamente até os dias 7 ou 8 de abril de 2009 (de acordo com o prazo estipulado em cada um dos editais), na sede da Funceb, pelo correio ou ainda pela internet, no formulário de inscrição online. Os editais completos, formulários e o manual de elaboração de projetos culturais encontram-se disponíveis no site www.funceb.ba.gov.br. PROJETO NO ACRE A Prefeitura de Rio Branco, no Acre, por meio da Fundação Garibaldi Brasil, lançou o edital 2009 da Lei de Incentivo à Cultura no dia 3 de março. Projetos das áreas de arte, patrimônio cultural e esporte poReprodução

A Funceb abriu cinco editais para artes visuais, dança, teatro e música

dem ser apresentados até o dia 3 de abril, na Fundação de Cultura Garibaldi Brasil (FGB). Serão disponibilizados R$ 780 mil para a realização de projetos, sendo R$15 mil para pessoa física, R$ 20 mil para pessoa jurídica e R$ 25 mil para entidades representativas de classe. Os projetos devem ser entregues até o dia 3 de abril, no período das 8h às 12 ho-

ras ou das 14h às 17 horas, na sede da Fundação Municipal de Cultura Garibaldi Brasil. O formulário pode ser acessado no site da prefeitura de Rio Branco www.pmrb.ac.gov. br. Para apresentar projetos é necessário ser inscrito no Cadastro Cultural do Município de Rio Branco, mecanismo do Sistema Municipal de Cultura.

Festivais

Eventos prometem animar amantes da arte teatral
No universo de atores e atrizes amadoras em todo o País, os festivais de teatro são ótimas chances de apresentarem seus trabalhos para plateias diversas de suas cidades natais e, principalmente, mostrar seus talentos para prossionais experientes que abarrotam eventos do tipo. Os amantes da arte, por sua vez, já podem se preparar para curtir, pelo menos, duas festas da interpretação que irão ocorrer no Brasil nos próximos meses. De 27 de março a 5 de abril, a cidade de Pirassununga, em São Paulo, dá início ao IX Festival Nacional de Teatro Cacilda Becker 2009. O evento, que faz homenagem no nome à atriz que nasceu no município, tem como objetivo incentivar cada vez mais as produções das artes cênicas, entre amadores e prossionais, além de promover intercâmbio de ideias, o pensamento crítico e o debate; estimular a formação de grupos e novas propostas de encenação; e oferecer arte à comunidade. É realizado nas dependências do Teatro Municipal CacilJornal de Teatro

Por Felipe Sil

A cidade paranaense organiza em julho o Festival Internacional de Londrina, um dos mais importantes do País

da Becker pela Prefeitura Municipal de Pirassununga, sob a responsabilidade da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. A coordenação geral é de Israel Foguel. Atualmente, o festival é nacional, com a participação grupos de outros estados, a exemplo do ano passado. Isso leva à procura de variados

grupos de diversas cidades pelas orientações de como se inscrever no evento, um dos mais esperados da cidade. Em julho, é a vez do famoso Filo (Festival Internacional de Londrina), um dos mais importantes do País. Lugar de encontro de diferentes escolas teatrais e de variadas linguagens, a festa,

que ocorre entre os dias 5 e 20, caracteriza-se por seu forte apelo pluralista. Apesar de pessoas e culturas tão diferentes, porém, todas parecem unidas pelo amor de estar no palco. É no evento que se reúnem alguns nomes não apenas do teatro nacional, mas também do internacional, apresentando espetáculos e dis-

cutindo questões que tocam a cultura e, também, a sociedade, já que esta não pode estar completamente dissociada de qualquer tipo de arte. As inscrições para o Filo ainda estão bertas. Existente já há 40 anos e organizado pela Amen (Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná) e pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), o festival é respeitado por, durante todo o período, ter valorizado princípios como a democratização da cultura, a valorização do artista e a construção da cidadania. Por tais motivos, e por ter conseguido se manter ativo durante quase meio século, é considerada uma festa visionária. Para se ter uma ideia da sua importância, a amplitude do Filo, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), com base na atuação do festival na construção de uma cidadania através da cultura, reconheceu o evento. No ano 2000, a festa ganhou a inclusão da chancela, sob a forma de apoio institucional. O festival também é considerado um patrimônio cultural de Londrina e do estado do Paraná.

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Dança

Polêmicas e outras mídias no palco
Impossibilidade de classificação imediata de sua produção faz do Dimenti, na Bahia, um grupo que transita livremente entre o teatro e a dança
Divulgação

Por Adriana Machado Imagem drag sinhá moça da pós-modernidade, enveredar por uma lombra catártica ou perversão fragmentada, não-linear e entupida de lacunas. Entendeu? Não se preocupe, pois poucas pessoas seriam capazes de decifrar o verdadeiro signicado das palavras ou a forma como elas são empregadas para denir a arte desenvolvida pelo Dimenti, da Bahia. Talvez venha daí a sensação de polêmica causada pelo grupo e a impossibilidade de classicação imediata de sua produção. “Existe uma ansiedade muito grande em localizar os nossos trabalhos como teatro ou dança e ainda como adulto ou infantojuvenil”, comenta Jorge Alencar, diretor-artístico do Dimenti. Outro argumento é o fato da formação dos integrantes ser bastante híbrida. “Isso causa desconfortos numa percepção mais fundamentalista”, diz. “Não acreditamos em delidade, origem ou essência de uma obra, somente em possíveis e amplíssimas relações criativas”. Desde a sua criação, em 1998, o Dimenti vem utilizando diversas linguagens cênicas e audiovisuais. A escolha pela mescla remonta ao surgimento do grupo, feito de prossionais de diferentes áreas (teatro, dança, música, letras, comunicação, psicologia) em nível de graduação e de pósgraduação. “Estabelecemos interfaces com outras mídias, a exemplo de traduções cênicas de obras literárias. Atualizamos discussões que instiguem questões contemporâneas”, revela Alencar.

Grupo Dimenti encena o espetáculo “Chuá”, uma releitura de “O Lago dos Cisnes”, um dos destaques segundo o diretor Jorge Alencar

EVOLUÇÃO Com o passar dos anos, o Dimenti rmou a sua atuação tanto como grupo de pesquisa artística quanto como produtora cultural, realizando circuitos de repertório, ocinas, debates, intercâmbios, publicações e audiovisuais (CDs, DVDs, videoclipes, documentários e curta-metragem). Hoje, reside num espaço em Salvador chamado Palco 4 – Atelier de Arte e Cultura e conta com oito integrantes permanentes e outros vários colaboradores que atuam nos espetáculos ou em

algum processo de criação em diferentes funções. Como as atividades artísticas e da produtora estão conectadas, todo o apoio recebido (das verbas obtidas em editais públicos à circulação dos espetáculos) vão para uma espécie de “fundo nanceiro” que procura garantir ao grupo a autossustentabilidade. Atualmente, o grupo mantém todos os espetáculos do repertório em atividade, entre eles “O Alienista”, “Chá de Cogumelo”, “A Novela do Murro”, “Tombé”, “Pool Ball”, “Chuá”, “O Poste”, “A

Mulher e o Bambu”, “Batata!” e “Sensações Contrárias”. Segundo o próprio diretor, dois deles podem ser destacados pelas diferentes, às vezes, controversas recepções que tiveram, tais como “Chuá”, uma releitura de “O Lago dos Cisnes” para crianças e “Batata!” – uma livre tradução de autores baianos contemporâneos do universo de Nelson Rodrigues. “Todos os nossos trabalhos já foram selecionados para projetos e festivais por todo o País e o “Sensações Contrárias” foi exibido no Brasil, na França e no Uruguai”,

acrescenta o diretor. Em abril de 2009, o Dimenti vai apresentar três diferentes trabalhos em Berlim, na Alemanha, e realizará a terceira edição de um encontro chamado “Interação e Conectividade”, que reúne artistas de diferentes partes do País com mostras, ocinas e debates. “Queremos cada vez mais nos estruturar para garantir uma maior autonomia do grupo e de seus integrantes em relação às suas demandas e projetos para assegurar nossa liberdade criativa, controversa, mas, para nós, sempre produtiva”, naliza.

ATOS & CENAS
Quem é: Companhia Dimenti Onde está situada: em Salvador, no espaço chamado Palco 4 – Atelier de Arte e Cultura Integrantes: Oito permanentes e outros colaboradores Espetáculos que fizeram história: “O Alienista” (1998), “Chá de Cogumelo” (1999), “A Novela do Murro” (2001), “Tombé” (2002) e “Batata!” (2008) Participação em festivais: II Fenateg (Paraíba), Enartci (Minas Gerais), Festival do Teatro Brasileiro VII Edição – Cena Baiana em Pernambuco (Pernambuco), Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga (Ceará), Mostra Sesc de Artes (Bahia), Festival Internacional de Artes Cênicas (Bahia), Panorama de Dança (Rio de Janeiro), Sensações Contrárias: Rio Cena Contemporânea (Rio de Janeiro), Play Rec - Festival Internacional de Videodança do Recife (Pernambuco), Mostra "Brazil Knows What Videoart Is" – Centro Cultural Le Cube (França) e Fivu (Festival Internacional de Videodança de Montevideo), além de ter sido premiado como “Melhor Vídeo Experimental do Festival de Gramado Cine-Vídeo”, em 2007, e prêmio Porta Curtas no XI Festival Nacional de Vídeo – imagem em cinco minutos (Bahia)

ACERVO
Trabalhos realizados por Jorge Alencar Como performer, o ator, atual diretor artístico do Dimenti, colaborou em trabalhos como “Casa de Nina”, “Prisão do Ventre” e “O Mistério do Chiclete Grudado”. Foi indicado ao The Rolex Mentor And Protégé Arts Initiative (Suíça). Como dançarino, atuou em peças do repertório clássico como “O Lago dos Cisnes” (2001) ao lado de Ana Botafogo e Cecíllia Kerche e em trabalhos de Dança Contemporânea como “Pele” (2002) de Ivani Santana e “O Carvalho” (2008) de Fátima Suarez. Como diretor, estrelou duas obras no Ateliê de Coreógrafos Brasileiros. Em 2005, compôs o espetáculo “A Lupa” e foi convidado para elaborar uma nova obra no Ateliê de Coreógrafos Brasileiros Ano V em sua edição comemorativa, criando “A Mulher-Gorila” (2006).

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Jornal de Teatro

Reportagem

Vale a pena participar de festivais?
Pela experiência de algumas companhias de teatro, a resposta é ‘sim’, mesmo com as dificuldades financeiras e de incentivo enfrentadas
Por Rodrigoh Bueno Um grupo de jovens atores pernambucanos cruza o país de ônibus para apresentar seu trabalho e, sem verba para voltar para casa, se vê em uma difícil questão: como retornar para sua cidade sem dinheiro, e como seguir com o sonho de divulgar o trabalho mesmo com tantas diculdades? O que parece um texto de algum espetáculo é parte da história da Cênicas Companhia de Repertório, e um momento considerado mágico para os membros da trupe. O episódio aconteceu no Festival de Teatro de Curitiba em 2002 e para Antônio Rodrigues, diretor do grupo, signicou “uma das histórias inesquecíveis da carreira”. “Fomos com dois espetáculos, “Um Gesto Por Outro” de Jean Tardieu e “Transe” de Ronald Radde. A empreitada foi bastante arriscada, fomos com a cara e a coragem numa produção coletiva, sem verbas sucientes pra a viagem. Tivemos uma boa recepção do público e dos poucos jornalistas que assistiram aos espetáculos, porém passamos por momentos muito difíceis e de superação, mas essas diculdades nos fortaleceram ainda mais e a viagem ajudou no nosso amadurecimento enquanto pessoas e artistas”, conta. O Cênicas já era um grupo apaixonado por festivais antes desta experiência em Curitiba e o episódio não abalou a paixão de cada um dos integrantes pelas viagens. O motivo que leva esses atores a se lançarem, mesmo quando as condições são adversas, é a possibilidade de mostrar o trabalho para o maior número de pessoas possível. “O mercado de trabalho é difícil e competitivo, mas temos que buscar soluções para que a peça seja vista por um número maior de pessoas, pois como teatro é efêmero, nenhum registro de vídeo ou fotograa reete o que acontece de fato entre artista e espectador. É um momento único e que por mais que seja tecnicamente impecável, acredito que uma apresentação nunca será igual a outra”, revela Rodrigues. A diculdade que um grupo formado fora do grande eixo teatral brasileiro encontra também pode ser resolvida com essas viagens. A visibilidade é um fato e uma maneira de trocar experiências com outros grupos e críticos. “Há no Brasil festivais muito importantes e, com certeza, Curitiba é um deles, pois os olhos do país se voltam para o que está acontecendo por lá. Os festivais em sua maioria aglutinam as pessoas que são formadoras de opinião e isso pode levar a uma projeção nacional. No caso de Curitiba diversos grupos começaram a sua projeção depois de participarem da mostra paralela, o Fringe. Dentre eles o Espanca (MG), Grupo XIX de Teatro (SP), Luna Lunera (MG) e Coletivo Angu de Teatro (PE)”. PERSEVERANÇA O Cênicas surgiu em 2001, como fruto da iniciativa de atores de Garanhuns, interior de Pernambuco, que viviam em Recife. Para marcar a estreia, escolheram (ou melhor, foram escolhidos para) participar de seu primeiro Festival, o FIG – Festival de Inverno de Garanhuns. ”Umas das coisas mais ricas que os festivais proporcionam aos grupos e companhias, são as possíveis trocas estéticas e de referências que possam vir a partir do contato desse coletivo de artistas. Assistir espetáculos de estéticas e regiões diferentes, conversar mesmo que informalmente com esses artistas e buscar fazer avaliação sistematizada das informações pode ser muito valioso na pesquisa dos grupos”, acredita Rodrigues. Em outros casos esta troca pode nem ser presencial, ou melhor, primeiro se dar em uma esfera virtual para depois acontecer pessoalmente. Este é caso de Antônio e Cláudio Dias, da companhia mineira Luna Lunera. Acompanhando o trabalho do grupo, que na época viajava o país com o espetáculo “Aqueles Dois”, de Caio Fernando Abreu, Antônio buscou o contato de Cláudio em comunidades virtuais e assim começou uma parceria Recife–Belo Horizonte. Parceria que surgiu a partir do interesse pelo autor e que se concretizou quando o Luna Lunera viajou para Recife, no nal de 2008. “Estávamos em cartaz com o espetáculo em São Paulo, no Sesc Paulista, e a apresentação de Recife precisava de um apoio por lá. Toni se pronticou e ajudou com detalhes de produção, mesmo sem conhecer pessoalmente o grupo” conta Cláudio, outro ator que tem uma história íntima com os festivais de teatro. “Minha formação de ator está bastante relacionada com os festivais, pois acompanhei de perto os espetáculos e as discussões que aconteciam na cidade, como o FIT – Festival Internacional de Teatro Palco e Rua, e o ECUM - Encontro Mundial de Artes Cênicas. Lá tive contato com referências mundiais e com pensadores de teatro que estimularam o meu trabalho e a minha pesquisa” conta. Naturalmente se deu a passagem de espectador para parte do FIT, já com a companhia. Em 2001 o Luna Lunera foi selecionado para apresentar “Perdoa-me por me traíres”, de Nelson Rodrigues com direção de Kalluh Araújo. O grupo voltou ao palco do festival com outros dois espetáculos, “Não desperdice sua única vida, ou..” e “Aqueles Dois” – premiado no 13º Prêmio Sesc-Sated MG nas categorias Melhor Espetáculo e Melhor Direção (Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati); no 5º Prêmio Usiminas-Sinparc nas categorias Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Ator (Rômulo Braga); e foi indicado ao Prêmio Shell São Paulo 2008 nas categorias de Melhor Direção, cenário e Melhor Iluminação (Felipe Cosse e Juliano Coelho) - levando para casa o troféu de melhor iluminação de espetáculo em São Paulo no ano de 2008. “Na primeira vez que participamos do FIT tivemos contato com a comissão que escolhia os espetáculos e com a curadoria de outros festivais, o que ajudou a fechar novas temporadas em outras cidades e, a partir daí, vieram convites para novos festivais. Foi uma ótima vitrine. Aproveitamos a repercussão”, garante Cláudio. Desde então, não pararam de surgir convites. O Luna Lunera já representou o Brasil no XII Temporales Internacionales de Teatro de Puerto Montt, Valdívia e Santiago, no Chile; e esteve presente no Riocenacontemporânea/RJ, Porto Alegre EnCena/RS, Mostra da Cena Teatral Mineira, Festival de Teatro de Curitiba/PR, Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto/SP, Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia; além dos já citados FIT e ECUM. NÚCLEO DE FESTIVAIS Alguns destes eventos estão relacionados. É o caso do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, Porto Alegre EnCena, Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, Riocenacontemporânea; e mais os Festival Internacional de Londrina/PR e Cena Contempoânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília/DF, pertencentes ao Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil. O grupo de festivais foi criado em 2003 com a proposta de fortalecer e estimular as artes cênicas no Brasil, além de ser uma importante ferramenta para difundir os espetáculos brasileiros no exterior. Segundo a divulgação do núcleo, “os festivais participantes do Núcleo têm algumas especicidades: além de serem internacionais e voltados às artes cênicas, todos têm caráter público (são realizados pelo poder público ou entidades sem ns lucrativos), praticam preços populares, realizam uma programação de atividades formativas e apresentam um painel da produção mundial das artes cênicas. O Núcleo dos Festivais objetiva contribuir com a política de acesso à criação e à produção artística nacional, além de incentivar a circulação de espetáculos pelas cidades brasileiras.”

Antônio e Cláudio Dias atuam em “Aqueles dois”, de Caio Fernando Abreu

Diego Pisante / Divulgação

Jornal de Teatro

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Reportagem
POR QUE PARTICIPAR? “Pela troca de informação, novas referências, intercâmbio de idéias, visibilidade e, claro, retorno nanceiro” diz Cláudio Dias. Segundo ele, o espetáculo “Aqueles Dois”, por exemplo, ainda sofre adaptações a partir das opiniões colhidas ao nal da peça em cada cidade. Quanto à referência de outras companhias, Dias cita a construção utilizada em algumas cenas da peça – fruto de uma ocina que o grupo fez com a Cia dos Atores, do Rio de Janeiro. “No FIT de 2002, ambos apresentávamos espetáculos de Nelson Rodrigues e a aproximação foi quase inevitável. Um dos atores participava da produção do Riocenacontemporânea e estivemos juntos por lá também. Depois veio o FIT em Belo Horizonte e passamos a manter um contato freqüente desde então”, conta. Além das verbas destinadas por alguns festivais para que as produções apresentem os espetáculos, as críticas e matérias publicadas na imprensa podem ajudar as companhias na captação de recursos para novas montagens. Para Luiz André Cherubini, do Grupo Sobrevento, participar é importante “porque os Festivais são a melhor e mais segura maneira de circular com um espetáculo. E porque navegar é preciso. Inclusive mais do que viver”. ESPAÇO PARA TODOS O Sobrevento é um grupo de teatro que se dedica desde 1986 à pesquisa da linguagem teatral, principalmente na arte dos bonecos e da animação. Além de ter participado de festivais em muitos países, o grupo realizou, dirigiu e foi curador de festivais em quase todos os estados do Brasil. “Ao nal de cada Festival que realizou, o grupo disse que seria o último e se arrependeu logo depois”, garante, mostrando logo que se trata de outra companhia que vive com as malas prontas. O que move o grupo para os eventos é novamente o intercâmbio, “a possibilidade de viver outras experiências, conhecer coisas novas acerca de nossa arte e nosso ofício”. Luiz destaca as diferenças que o grupo percebeu entre as apresentações xas, quando o espetáculo está em cartaz, e as de festivais: “A diferença de públicos e de estrutura cênica marca profundamente o desenrolar da apresentação e o estabelecimento da comunicação teatral. Determinados espetáculos sofrem mais do que outros com isto: montagens mais delicadas ou com características mais interativas, para dar apenas dois exemplos. Espetáculos mais fechados e mais técnicos tendem a dicultar a percepção, pelos artistas, do sucesso do jogo teatral no momento em que se dá. Porém, independentemente disto, diferenças culturais interferem diretamente na assimilação e na relação do público com a obra”. Segundo ele, um dos espetáculos do grupo, “Beckett”, foi convidado a uma turnê por Irlanda, Escócia e Espanha. “Receando que a ideia de um grupo brasileiro encenando um autor irlandês – com bonecos, ainda mais – fosse criar algum tipo de rejeição, surpreendemonos com um êxito muito grande – público eufórico, briga na porta por ingressos, espectadores nos pedindo convites. Ao chegar a Glasgow, na Escócia, a poucos quilômetros dali, o espetáculo simplesmente não funcionou: deparamo-nos com um público seco, que reagia de forma a completamente diferente e aos diferentes momentos s do espetáculo”. A lista de festivais e mostras em que o grupo po esteve presente é grande, de, algumas cidades são Nova va Friburgo/RJ, Campinas/ / SP, Santos/SP, Canela/ a/ RS, Ribeirão Preto/SP, P, Rio de Janeiro/RJ, São o Paulo/SP, Curitiba/PR, R, Porto Alegre/RS, Ouro o Preto/MG, São João Del l Rei/MG, São José do Rio o Preto/SP, Mariana/MG, , São Carlos/SP, Olinda/ / PE, Belo Horizonte/ te/ MG, Bonito/MS, Jaraguá do Sul/SC, São o Bernardo do Campo/ / SP, Santo André/SP, P, Garanhuns/PE, Forrataleza/CE, Nova IguaF, çu/RJ, Brasília/DF, aCampos de GoytacaC, zes/RJ, Rio do Sul/SC, o/ Corumbá/MS, Suzano/ te/ SP e Juazeiro do Norte/ los CE. Além de espetáculos no Chile, Espanha, Coócia lômbia, Irlanda, Escócia e Argentina. ana A pernambucana r Cênicas pode não ter se apresentado (ainda) na Europa, mas tem motivos de sobra para comemorar. No ano de 2003 o grupo voltou ao Festival de Curitiba com o patrocínio da cidade de Garanhuns. No retorno para Recife, novas referências, novos convites para participação em festivais e prêmios como Melhor Espetáculo, Melhor Ator (Jorge de Paula), Melhor Iluminação e Melhor Sonoplastia como espetáculo “As Criadas”, de Jean Genet, no Janeiro de Grandes Espetáculos. Uma prova de que, mesmo com as adversidades enfrentadas no início, valeu a pena perseverar.
Fotos: Divulgação Divulgação

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Festa do teatro atrai bom público e traz novidades para a 18ª edição

Festival de Curitiba alcança maioridade
Evento é considerado um dos mais respeitados do País
A estreia do Festival de Teatro de Curitiba aconteceu em 1992 e desde então coleciona números grandiosos. Foram cerca de 1,3 milhões de pessoas nas mais diferentes platéias, 1890 espetáculos que ocuparam ruas, praças, banheiros, bares e, enm, teatros. O número de 2009 é 18, a idade que marca a maioridade d evento que mesmo entre do c contradições ainda é um dos m mais respeitados pela crítica e pelas companhias de todo o Brasil. Para comemorar, a p produção apresenta uma lista d mais de 300 espetáculos à de d disposição do público – fora a cada vez mais variadas ativias d dades de cultura, talvez um reexo da mudança de nome que a aconteceu em 2008, de Festival d Teatro de Curitiba para Fesde t tival de Curitiba. O Risorama, espaço para h humor à stand-up comedy, já u dos eventos paralelos mais um a aguardados do ano na cidade, rmou-se ocialmente junto a programação ocial. O Mish Mash ainda é novidade e reúne artes circenses como a dança, mágica e malabarismo. A novidade de 2009 é o Gastronomix, um projeto que promete unir gastronomia à música. Chefs convidados preparam seus pratos embalados por música especialmente escolhida para a ocasião. Enquanto preparam os pratos explicam por que tal música combina com tal prato. “O Festival cresce em todos os aspectos. Eventos, espetáculos da Mostra, espetáculos do Fringe, além da quantidade de gente que podemos receber. Entendemos que ele se rma como uma grande vitrine das Artes Cênicas do Brasil. É uma festa na cidade! As pessoas saem de casa e vão para os bares, ruas, cinemas, restaurantes e se sentem diferentes. Muda a intensidade do local, melhora a estima e tem impacto direto na economia, no turismo etc.”,disse Leandro Knopfholz, diretor artístico do Festival de Curitiba e um dos idealizadores do evento. Os espetáculos mais comentados continuam na chamada Mostra Contemporânea, que na 18ª. edição traz 25 espetáculos, sendo um deles o chileno “Sin Sangre”. A curadoria para esta mostra é de Tânia Brandão, Celso Curi e Lúcia Camargo. A grande quantidade de espetáculos ainda se reúne no Fringe, espaço para as peças se lançarem nacionalmente e buscarem a atenção de curadores de outras mostras e festivais. HISTÓRIA A criação do Festival de Curitiba é uma história contada anualmente com muito orgulho por seus idealizadores. Em uma mesa de bar, um grupo de jovens amigos tinha acabado de ver uma peça no Teatro Guaíra, o maior da cidade na época, quando lamentaram o pequeno número de peças de teatro em cartaz na cidade. Surgiu então a idéia de , ao invés de apenas lamentar, organizar um festival na cidade. Em dezembro de 1991 acontecia a festa de lançamento do Festival, que iria estrear no dia 19 de março do ano seguinte. Logo na primeira edição, o Festival levou ao Paraná grandes nomes do teatro brasileiro, como Antunes Filho, José Celso Martinez Correia e Gabriel Vilella.

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Jornal de Teatro

Entrevista Zezé Motta atriz

“Quem desiste, não pode ser feliz”
Por Douglas de Barros Do seleto grupo de artistas brasileiros que se tornaram referência no cenário artístico nacional, Maria José Motta de Oliveira, se destaca como uma das poucas artistas negras que atuavam em papéis de destaque na dramaturgia nacional desde que se tornou Xica da Silva, no lme de mesmo nome do diretor Cacá Diegues. Mas antes mesmo do sucesso nas telonas ou na televisão, Zezé já havia marcado presença no teatro brasileiro na fervilhante década de 1960. A atriz estreou no espetáculo “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda, logo após se formar em teatro no tradicional Tablado, de Maria Clara Machado. Além disso, já gravou oito álbuns musicais e está prestes a lançar mais um. Mesmo tendo que se dividir em muitas para dar conta de suas atividades prossionais, Zezé também se notabiliza por sua luta pelos direitos dos artistas negros e sua militância frente aos direitos da classe artística no Brasil. Entre gravações, conferências, reuniões e vida familiar, a atriz ocupa ainda, a convite do governador Sérgio Cabral, um cargo na recém-criada Superintendência da Igualdade Racial do Governo do Estado do Rio de Janeiro, em que cuida dos interesses de negros, índios, ciganos e todo tipo de ser humano que se sente discriminado. Apesar da agenda corrida, a atriz, cantora e até mesmo diretora Zezé Motta conversou com o Jornal de Teatro por telefone em um hotel de Brasília, num dos poucos momentos que a atriz tem de descanso entre um trabalho e outro. Jornal de Teatro - Como foi difícil te encontrar. Anal, o que você está fazendo em Brasília? Zezé Motta - Minha vida é muito louca, muito corrida. Vou gravar um comercial amanhã (dia 17 de março), uma campanha incentivando as pessoas a pagarem o IPTU e que vai ao ar a partir de junho. Mas na semana passada estive aqui para participar da abertura de uma conferência sobre igualdade racial. Inclusive, antes de nossa conversa, recebi outra ligação para tratar de assuntos referentes ao meu trabalho na luta pela defesa dos direitos autorais, vou car mais um tempo aqui para tratar mais desse assunto. Eu não paro nunca. JT - Você está em cartaz com alguma peça no momento? ZM - Em abril vou estrear “7 – O Musical”, do Cláudio Botelho e Charles Möeller, com músicas de Ed Motta. Vamos estrear no teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, com duração de três meses. Faço papel de má em “7”. É a primeira vez que faço uma vilã e estou me divertindo muito. O nome dela é Carmem, uma cartomante muito má que, para proteger uma cliente, persegue outra pessoa. Estou adorando. JT - E fora dos palcos? ZM - Daqui a dois meses vou começar a gravar “Caras e

Bocas” pela Rede Globo, novela de Walcyr Carrasco e direção do Jorge Fernando. Vou entrar na segunda fase da novela, a partir do capítulo 60. Teve um boato sobre minha participação em “Paraíso”, mas foi só especulação. Ontem (dia 15) comecei a gravar o novo lme da Xuxa, chamado “O Fantástico Mistério de Feiurinha”. As lmagens começam em julho ou agosto, mas nós lmamos porque tínhamos que aproveitar o navio italiano que estava atracado no Rio de Janeiro. No lme, eu faço o papel da Gerusa, que conta a história da Feiurinha. Essa história na verdade é um livro do Pedro Bandeira que faz muito sucesso nas escolas e é muito interessante. O enredo é um encontro de várias princesas de contos infantis e as mostra já casadas com seus príncipes cheias de lhos e tal um barato. Parece que foi um achado da própria Sasha.

JT - Sua estreia no palco foi em “Roda Viva”, um clássico do teatro nacional. Como foi esse início? ZM - Vim muito pequena para o Rio (Zezé nasceu em Campos, no norte-uminense), sinto-me carioca. Eu estudava em um colégio na Cruzada São Sebastião, no bairro do Leblon, embora não tivesse direito porque não era moradora de lá, mas na época eu dei um jeitinho. Fiz o ginásio e ganhei uma bolsa para fazer o Tablado porque eu era muito

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Entrevista
dedicada, passava meus ns de semana estudando e não perdia nenhum passeio ao teatro, ópera ou qualquer outro programa cultural que a escola fazia. Gostava de teatro, mas não tinha pretensão, só depois descobri que queria isso. Quando terminei, a gente apresentou uma peça, o Flávio Santiago veio falar comigo, perguntou se eu queria seguir carreia e me falou do teste para o “Roda Viva”. Na semana seguinte z o teste e passei. Foi muito bacana. Em um mês já estava ensaiando. Depois de fazer muito teatro começaram a surgir as oportunidades. Primeiro para o cinema e em seguida televisão, quando a Marília Pêra me apresentou para o Bráulio Pereira, que me chamou para fazer a Zezé de Beto Rockfeller. JT - E a música? Você gravou vários discos, interpretou canções de grandes compositores e costuma dizer que é ‘cantriz’, não é verdade? Que espaço a música tem na sua vida? ZM - Já gravei oito álbuns e as pessoas sempre me perguntam se eu prero cantar ou representar. Eu respondo que me sinto em estado de graça dos dois jeitos. Quando tenho a oportunidade de juntar as duas coisas é perfeito. Canto muitas músicas nesse musical “7”. Levo minha experiência de atriz para a música, já que para cantar também é preciso interpretar. JT - Então ainda pretende lançar outros discos?
Fotos: divulgação

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ZM - Estou sem gravar há uns seis anos, mas nesse ano de 2009 eu também vou gravar um CD e um DVD. Viu só quanta coisa? Tenho esse projeto que estava na la da gravadora Biscoito Fino e quando vi que não ia rolar, resolvi mostrar para a Robby Digital e eles gostaram da ideia. Vão lançar no segundo semestre desse ano. O CD vai se chamar “O Samba Mandou Me Chamar” e vai ter muita coisa inédita. Tinha até pensado em fazer releituras, mas como recebi tanto material bom e muita gente boa, acabei me empolgando. JT - E os compositores? Já conhecidos ou pretende gravar canções de novos artistas? ZM - Tem Luiz Ayrão, Paulo César Pinheiro, Feital (Paulo César), Altay Veloso, Marquinho PQP, Serginho Procópio, entre outros. Um pessoal de primeira, além de compositores mais novos. JT - Você também dirige espetáculos, não é verdade? ZM - Como diretora já tinha experiência com cantores como Jamelão, Leci Brandão e Ana Carolina ainda em Juiz de Fora. Inclusive, dei muita força para ela vir para o Rio. Recentemente, participei da supervisão de uma peça que estreou no porão da (Casa de Cultura) Laura Alvim, “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” com Rogério Garcia e Felippo Leandro. Na verdade, eu dei alguns palpites. JT - Você é conhecida por

Sempre recebo cartas de jovens me pedindo opinião. Digo para terem perseverança e não desistir dos sonhos pois quem desiste não pode ser feliz
Zezé foi elogiada por sua atuação como Carmem no musical “7”. Sucesso de público e crítica no Rio de Janeiro, peça chega a São Paulo em abril

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Entrevista
uma postura combativa e engajada em projetos sociais e na luta por diversas causas. Como surgiu esse lado? ZM - Foi uma coisa espontânea. Recentemente, fui convidada para fazer parte da Superintendência da Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro, um trabalho muito amplo e que cuida dos ciganos, índios, quilombolas e da saúde da população negra. Quando fui convidada pelo governador Sérgio Cabral, achei até que era um exagero. Achava que saúde devia ser para todos, o que é verdade. Mas depois me explicaram que existem algumas doenças que são exclusivamente de negros como a Anemia Falciforme, uma doença que causa problemas nos glóbulos vermelhos e pode levar a óbito. Estamos conversando com o ministro (da Saúde) Temporão para realizarmos uma campanha explicativa. Hoje em dia, com o teste do pezinho, já se acusa, mas há pessoas adultas que podem ter e nem sabem. JT – Neste tempo, você percebeu alguma melhora? Sua luta tem valido a pena? ZM - Acho que sim. Se carmos só reclamando e não arregaçar as mangas não vamos avançar. Tive a iluminação de participar da criação do Cidan (Centro de Informação e Documentação do Artista Negro) e isso ajudou muito. Quando a gente cobrava essa quase invisibilidade na mídia e nas artes, cada um dava uma desculpa. Diziam que os negros eram inseguros, que conheciam poucos artistas de qualidade. Daí surgiu o Cidan, que tem a nalidade de divulgar. Já temos 21 anos e estamos muito felizes por termos feito a coisa certa. Hoje não se faz cinema, teatro ou televisão sem que sejamos consultados. Hoje esse contato se tornou mais fácil porque podemos dizer quem somos e onde estamos. JT - O que você está achando da atuação da Jandira Feghalli à frente da Secretaria de Cultura do Rio? ZM - Ainda é muito cedo. A nomeação dela assustou um pouco, mas acho que devagar as coisas vão se ajeitar. A Jandira tem se mostrado disposta a conversar com a classe artística. Vamos torcer para que ela faça um bom trabalho. JT - E sua vida hoje? É mesmo todo esse corre-corre ou você tem tido mais tempo para você e sua família? ZM - É muito corrida, mas tenho tempo para mim sim. O segredo é contar com

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Jornal de Teatro

Zezé Mo a admite que sua vida é corrida, mas garante arrumar tempo para os seus lhos e família. Acordar cedo é uma tática para fazer o dia render

uma boa equipe e ter disciplina. Acordo muito cedo, por isso o meu dia rende muito. Aos sábados faço pilates e, como moro na Lagoa (Rodrigo de Freitas), caminho na orla sempre que posso. Já minha família me visita mais do que eu a ela. Passei o Carnaval com a minha mãe e aos domingos faço uma reunião com minhas seis lhas de coração. A gente conversa, come pipoca e assiste a vários lmes. JT - Essa onda de paparazzo tem te atrapalhado? Como conviver com isso? ZM - Não tem me atrapalhado. Não estou em um momento diferente, não sou mais novidade e não desperto a atenção deles.

JT - E a nova geração? Você tem acompanhado os novos talentos? Quem você destaca? ZM - Tem muita gente jovem pintando e é difícil prever. Tento fugir do óbvio mas tenho acompanhando o amadurecimento da Taís (Araújo), Claudinha Abreu, que já está virando veterana, Wagner Moura e o Lázaro (Ramos). JT - E aqueles famosos conselhos para quem quer ingressar na carreira, você também tem para oferecer? ZM - Sempre recebo cartas de jovens me pedindo opinião. O que digo é para ter perseverança e termino as cartas dizendo que não desistam do sonho, pois quem desiste não pode ser feliz.

PRINCIPAIS TRABALHOS DE ZEZÉ MOTTA NO TEATRO
• Roda-viva, de Chico Buarque, direção de José Celso Martinez Corrêa – 1967 • Fígaro, Fígaro • Arena conta Zumbi • A vida escrachada de Joana Martine e Baby Stompanato – 1969 • Orfeu negro – 1972 • Godspell - 1974 • Abre Alas, de Maria Adelaide Amaral – 1999 • Atualmente estrela Sete, O musical, de Cláudio Botelho e Charles Möeller

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Política Cultural

MinC lança lei que reduz tributo de produtores culturais
O principal medo dos produtores culturais de perderem patrocínios já pode ser perdido. O MinC (Ministério da Cultura) lançou uma nova legislação de estímulo à cultura que estará disponível para consulta pública no site do ministério (www.cultura.gov.br). A legislação foi liberada esta semana pelo setor jurídico da Casa Civil, e promete acalmar os ânimos de quem achava que seria extinto o mecanismo de renúncia fiscal. A nova legislação é uma alteração da Lei Rouanet – lançada em 1991 e prevê incentivo a empresas e indivíduos que desejam financiar projetos culturais – que estabelece mais quatro faixas de renúncia fiscal. Atualmente existem apenas duas, de 30% e 100%, com a alteração serão acrescidas as de 60%, 70%, 80% e 90%. Segundo o MinC, essa mudança visa evitar que empresas continuem deduzindo do Imposto de Renda 100% do valor destinado a projetos culturais. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse que a abertura da consulta pública do texto da lei permitirá que entidades do setor, produtores culturais, empresas e artistas façam sugestões ao projeto durante um período de 45 dias. O ministro ainda irá viajar pelo Brasil para debater essas modificações. Quem irá decidir quais as microempresas e agência culturais que poderão ter direito às distintas faixas de renúncia será a Cnic (Comissão Nacional de Incentivo a Cultura). O conselho, formado por representações do
Jornal de Teatro

Por Ana Paula Bessa

governo e da sociedade, adotará critérios para o uso dos impostos. Ele será denido, anualmente, por meio de portaria, onde serão relacionados cada critério com cada faixa de renúncia. Projeto cultural que não tenha integrado em seu espaço um projeto de acessibilidade terá dificuldade de ser aprovado. Foi o que disse o ministro Juca Ferreira, em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”. “Toda vez que tiver dinheiro público, tem que ter benefício público, ou não se justifica”, informou o ministro ao jornal.

(IDH). A respeito disso o deputado Paulo Rubem Santiago (PDT-PE) encaminhou um requerimento pedindo acesso ao texto da nova lei para que, no âmbito da Comissão de Educação e Cultura (CEC) da Câmara dos Deputados, seja criada uma relatoria para debater o projeto. O deputado também defende a ideia de realizar-se um audiência pública a respeito das modificações, para que a população e a sociedade artística, cultural, possa compartilhar das mudanças e assim cooperar para que a atuação dela seja eficiente. Em dezembro do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei Complementar 128 que exclui as produtoras culturais do Simples Nacional. Segundo Lula, tal atitude foi uma “medida emergencial para conter os efeitos da crise econômica”, e como solução aumentou a carga tributária das produtoras culturais, que devem pagar entre 16% e 22% sobre o valor dos projetos. Com o Simples Nacional, ou Supersimples, a carga tributária era entre 4,5% e 16%, um aumento considerável. Como era de se esperar, houve uma forte manifestação dos produtores que chegaram a chamar a lei de “pacote bigorna”, e fez com que o presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes), Sérgio Mamberti tomasse um susto. “O impacto na nossa área não foi previsto e, para nós, foi mesmo uma surpresa”, disse o presidente à época. Em represália à atitude do

Uma das maiores novidades da recente legislação é a criação de cinco novos fundos de financiamento direto à cultura. São eles o fundo de audiovisual, de memória e patrimônio, de cidadania e diversidade, de arte e de equalização. Todos eles com o objetivo de ampliar o leque de áreas culturais para incentivo. Outro fato de extrema importância é a manutenção do Fundo Nacional de Cultura que contará com recurso do Tesouro Nacional e também do Ficart, um fundo de capitalização. Com a renúncia fiscal, esses outros mecanismos de incentivo ficaram debilitados. Segundo o ministério, a Lei Rouanet precisava de mecanismos que pudessem acabar com a concentração regional do financiamento e o baixo apoio à atividades culturais em áreas isoladas que, por exemplo, contenham baixos Índices de Desenvolvimento Humano

OUTRAS MODIFICAÇÕES

RELEMBRANDO

Para Juca Ferreira, projetos não serão aprovados sem ações de acessibilidade

Governo, os agentes culturais enviaram à Funarte um abaixo-assinado, este ano, com mais de 200 nomes, questionando a medida e chamando a atenção para um diálogo urgente. Outro abaixo-assinado endereçado ao Congresso e realizado pelo Instituto Pensarte, ainda está circulando na internet (http://www.petitionline.com/

ip9s1234/petition.html) com quase 4 mil assinaturas. A Funarte começou a agir nos bastidores do MinC na busca de uma solução que revertesse os efeitos negativos da lei complementar. A instituição também participou de algumas reuniões que cooperaram para a modificação na Lei Rouanet.

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Marketing Cultural
Fotos: Ive Andrade / JT

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Jornal de Teatro

Instituto Itaú Cultural investe em pesquisa e mapeamento
Foco da instituição é incentivar a cultura e a arte brasileira ajudando a desenvolver trabalhos de diversas áreas como música, dança e teatro
Por Ive Andrade
Criado há 22 anos, o Instituto Itaú Cultural busca encorajar ações ligadas à cultura brasileira. Com sede construída em São Paulo nos anos 90, mas ativo em programas distribuídos em todo País, os investimentos em pesquisa e mapeamento se destacam dentro da instituição que guarda espaço para diversas áreas como música, arte, cinema, dança e teatro. Os dois últimos fazem parte de um núcleo especíco chamado “Cênicas”, criado oito anos atrás. Diferentemente do que muitos possam pensar, o espaço dedicado às artes teatrais dentro da sede não pretende estrear peças para mantê-las em cartaz durante longos períodos de tempo. A gerente do núcleo “Cênicas”, Sônia Sobral, explica que a verba dos programas do instituto tem caráter nacional e por isso lançar peças não é a prioridade. “O que temos na sede da avenida Paulista é um teatro com capacidade para 250 pessoas, que dividimos com todas as outras áreas da instituição. Nossa missão é, na realidade, organizar e difundir informações sobre o teatro brasileiro, articulando relações nacionalmente”. As peças apresentadas não cam em cartaz por muito tempo, geralmente funcionam como uma forma de divulgação e incentivo para outros programas. “Não somos um teatro de pauta. Tudo que é apresentado precisa estar ligado a um projeto maior e isso nos faz diferente de qualquer outro espaço da cidade”, completa Sônia. São dois grandes programas que guiam o seguimento teatral do “Cênicas” na maioria de suas ações: a Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro e o Próximo Ato – Encontro Internacional de Teatro. Ambos abrangem a visão nacional do instituto e são trabalhos constantes para o núcleo de teatro e dança. VERBETES ON-LINE Uma das ações mais importantes do Instituto Itaú Cultural é a Enciclopédia. São cinco delas que reúnem verbetes de diversas formas de expressão artística, como artes visuais, literatura e teatro. Todas são obras on-line, disponíveis gratuitamente no site da instituição (www.itaucultural.com.br) e são constantemente atualizadas sobre artistas, conceitos e obras. Além do acesso às enciclopédias, o site da instituição guarda o maior acervo de artes visuais do Brasil, com quase 30 mil imagens na Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais e 3,3 mil verbetes entre todas as enciclopédias. A Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro é uma das mais antigas do instituto, lançada em 2004, com os conselheiros Johana Albuquerque, João Roberto Farias e Fatima Saadi. No início, apenas São Paulo e Rio de Janeiro estavam incluídos nos resultados. Hoje, as referências da enciclopédia se expandiram geogracamente e incluem obras, artistas, diretores, grupos, espetáculos, cenógrafos, autores e conceitos de Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul em seus quase 800 verbetes, imagens e maquetes. “É um trabalho contínuo, diário, com as atualizações no nosso acervo digital. Fazemos um lançamento dos novos verbetes por ano. Os dois últimos tiveram peças que caram em cartaz durante duas semanas, com grande sucesso”, explica Sônia Sobral. As últimas peças apresentadas na sede da instituição em São Paulo aconteceram justamente para lançar os novos verbetes da enciclopédia. Em 2008, a companhia Os Satyros encenaram “Vestido de Noiva”, do nordestino Nelson Rodrigues, com Norma Bengell. Em fevereiro desse ano, para promover a presença dos mineiros, pernambucanos e gaúchos na enciclopédia, peças que faziam referência a Nelson Rodrigues e Gilberto Freire e ao autor gaúcho Qorpo Santo foram apresentados pelos grupos Os Fofos Encenam e Giramundo, respectivamente. O processo de criação da peça “Memória da Cana”, baseado em textos de Rodrigues e Freire, e “As Relações Naturais”, texto de Qorpo Santo, montado em um espetáculo de bonecos dos mineiros do Giramundo, foram sucesso de público e deram visibilidade aos novos verbetes da enciclopédia, apesar de terem permanecido apenas duas semanas “em cartaz”. FOCO NACIONAL Buscando descentralizar a produção cultural no Brasil, o Instituto Itaú Cultural criou há 12 anos o programa Rumos. É uma iniciativa que pretende nanciar, desenvolver e identicar os trabalhos artísticos de diversas áreas como cinema, educação, jornalismo cultural, literatura, música e dança. Já são mais de 700 projetos apoiados e mais de 18 mil trabalhos inscritos. Todo o conteúdo produzido e nanciado pelo Rumos é distribuído gratuitamente para emissoras de televisão e outras instituições. Apesar do cenário teatral não ter ainda um programa particular no Rumos, Sônia Sobral arma que “o programa ‘Próximo Ato – Encontro Internacional de Teatro’ caminha para se tornar um Rumos em breve, já que começa a ser um encontro de caráter nacional, em todas as regiões do País”.

Logo na entrada o visitante se informa sobre as atrações. Peças teatrais são atrações constantes

“ Rumos Artes Visuais - Trilhas do Desejo”: 72 trabalhos expostos até o dia 10 de maio no Itaú Cultural

LONGE DO MAINSTREAM O “Próximo Ato – Encontro Internacional de Teatro” chega a sua sétima edição neste ano. As reuniões de três dias que incluem palestras, seminários e fóruns de discussão já foram registradas no Sul, Sudeste e Nordeste do País. São espaços para trocar experiências entre os prossionais da área, articulando o teatro de grupo no Brasil. “Já discutimos muito aqui o que seriam esses teatros de grupo brasileiros convidados a participar do programa. O que buscamos é articular relações com os grupos engajados, investigativos, teatros de pesquisa mesmo. Não são encontros direcionados para

o mainstream ou companhias grandes”, explica a gerente do núcleo “Cênicas”. Até o nal do ano, o “Próximo Ato” terá reunido grupos teatrais em todas as regiões do Brasil, com a ajuda de coordenadores em cada uma delas que pesquisam e mapeiam os possíveis participantes para depois fazer o convite e organizar o encontro, os conselheiros são Antônio Araújo, José Fernando Azevedo e Maria Tendlau. “Uma equipe grande trabalha conosco para que nenhuma região que sem representação”, garante Sobral. “Durante os encontros, como são muitas pessoas no mesmo espaço, usamos técni-

cas de comunicação para grupos grandes (open space)”. Os encontros de troca de experiências acontecem ainda em 2009 em três capitais brasileiras. Brasília, representante da região Centro-Oeste, e Belém, representando os Estados do Norte, recebem pela primeira vez a reunião de palestras e seminários em agosto e setembro, respectivamente. Em novembro, a capital paulista hospeda o encontro de todos os grupos convidados do País para um grande encontro nacional. “É uma oportunidade para trocar experiências entre grupos grandes que trabalham com o teatro”, naliza Sônia Sobral.

Jornal de Teatro

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Técnica
Bruno Pacheco

Perucas: saiba onde elas sempre são moda
Desconhecido por muitos, o setor de perucaria mostra-se um componente fundamental às produções teatrais, principalmente às líricas
Por Bruno Pacheco As perucas, apliques e acessórios para os cabelos estão presentes em quase toda produção teatral. Seja ela de grande ou pequeno porte, com orçamento limitado ou não, é praticamente indispensável a utilização desses objetos de indumentária no processo de caracterização dos personagens e na ambientação do espetáculo. No teatro lírico, por exemplo, existe um setor especialmente para cuidar deste importante item: a perucaria. E o prossional responsável por esta área, conhecido como peruqueiro, precisa estar atento às novidades para se adequar aos orçamentos sem prejudicar a qualidade da apresentação. Por conta disso, ele estuda o roteiro, faz pesquisas e, em parceria com o gurinista, confecciona as perucas de acordo com o que está sendo produzido. Um trabalho técnico e dispendioso, mas essencial a qualquer ópera, balé e musical de sucesso. O uso moderno de perucas começou na França de Luiz XIII, mas a origem do artefato se deu em civilizações mais antigas. No século IV a.C, mulheres gregas já usavam apliques de cabelos articiais. E no teatro? “Se consideramos as cerimônias religiosas como formas embrionárias da atividade teatral, encontramos a peruca na cabeça de reis e sacerdotes egípcios na execução de ritos sagrados e, na Grécia, em procissões ao Deus Dioniso (não confundir com os históricos Dionísios)”, explica Maria Sutter, professora e coordenadora da área de letras clássicas da PUC - Rio. No Brasil, as perucas chegaram à sociedade com a corte portuguesa e no teatro com as primeiras companhias europeias, que se apresentavam no País como a Comedy Francese. Na década de 1970, a peruca viveu o seu momento de maior popularidade. Era a moda do momento e a maioria das mulheres queria ter a sua. Nos anos 1980, caiu em declínio e, atualmente, passa por uma fase de revitalização. Seja de bras vegetais, crinas de cavalos, os de lã, cabelos naturais ou os sintéticos, elas sempre ressurgem como um recurso válido tanto na vida particular como no palco. A argentina Divina Lujan Soares é peruqueira do Teatro Municipal do Rio de Janeiro há 31 anos. Diz que perdeu as contas de quantas perucas
Claudia Meyer

Divina: 30 anos dedicados às perucas do Teatro Municipal do Rio

NO CURRÍCULO “LA TRAVIATA” COM ZEFIRELLI
Dos 100 anos que o Teatro Municipal do Rio de Janeiro completa agora em 2009, a peruqueira argentina Divina Lujan Soares participou ativamente deles nos últimos 30. Sem perder o sotaque portenho, nestas três décadas à frente do setor de perucaria no teatro carioca, Divina acumula muitas histórias. Nesta conversa com o Jornal de Teatro, ela fala da importância do teatro e das perucas em sua vida e da experiência única de ter trabalhado com o italiano Franco Zefirelli no Brasil. Quando o teatro entrou na sua vida? E as perucas? Eles entraram praticamente juntos. Eu trabalhava como cabeleireira na Argentina e sempre gostei muito de cabelos. Estudava e pesquisava sobre eles. Eu queria mais e decidi me preparar para entrar no Instituto do Teatro Colón, que é um teatro lírico muito conhecido. Fui aprovada e estudei história da arte e várias áreas dos bastidores como caracterização, iluminação, indumentária e, é claro, perucaria. Foi quando eu aprendi a diferenciar os tipos de peruca, as formas de costurar, pentear, arrumar. Também dei aulas e trabalhei em publicidade. Como chegou ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro? Eu tive a sorte de ficar trabalhando no Teatro Colón depois de formada. Foram dois anos adquirindo experiência e contatos. Em 78, surgiu o convite do Hugo de Ana, que na época era o diretor artístico do Teatro Municipal, para que eu e mais outros profissionais argentinos viéssemos para o Brasil fazer parte da chamada Central Técnica de Produção. O Municipal estava sendo reaberto depois de três anos em reformas de modernização. Vieram ótimos profissionais para cada setor do teatro e o objetivo era formar uma escola de teatro aqui. De acordo com o contrato, ficaríamos por seis meses apenas. Sou a única daquele grupo que está até hoje. Qual era a realidade do Municipal quando vocês chegaram? Não havia muita coisa. Até a nossa chegada existia muito pouco conhecimento nessas áreas. Começou conosco. O teatro ficou fechado pois estava degradado. Eram feitos apenas shows e bailes de carnaval. Iniciamos muitos profissionais aqui. Quantas perucas chega a fazer numa produção? Varia muito. Já fiz mais de 500. Já presenciou atores confundirem e trocarem de peruca em plena apresentação? Acontece muito deles colocarem de trás para frente. É muito difícil ter um solista que goste de usar peruca. Eles reclamam, dizem que esquentam demais. Eles preferem deixar o cabelo de acordo com o personagem. O bailarino até gosta de usar, mas por dançar muito ele perde a peruca. Já vi uma peruca voar em pleno balé e o ator era careca. Não teve jeito, a platéia disparou a rir. Com tantas produções e trabalhos no currículo, quais você classifica como inesquecíveis? Trabalhar com Franco Zefirelli foi um momento único. Por tudo que ele representa e me ensinou. Ele é uma pessoa ótima e simpática, porém muito severa. Conhece muito sobre cabelos. E ele nos ajudava pessoalmente e deu muitas dicas. Passamos 20 dias dentro do teatro montando o espetáculo “Traviata” e convivendo com ele.

Perucas de época: é preciso pesquisa e estudo para confeccioná-las

já produziu, mas não a paixão por confeccioná-las e a necessidade de estar envolvida no processo de evolução da indumentária. “Já z perucas até com botões”, garante. Formada pelo Instituto do famoso Teatro Cólon de Buenos Aires, fundado em 1908 e o primeiro do gênero na América do Sul, Divina “fez a cabeça” de célebres personagens das mais importantes óperas e balés apresentados no Municipal nas últimas três décadas como “Turando”, “Aida” e “La Traviata” (dirigido pelo cineasta e cenógrafo italiano Franco Zerelli). Ainda estão no currículo de Divina alguns trabalhos em produções importantes do cinema nacional como “Carlota Joaquina”, de Carla Camuratti, e da televisão, na minissérie “Os Maias”, da Rede Globo. Também integra a equipe da carnavalesca Rosa Magalhães, sendo responsável por inovações na maneira de produzir perucas para o carnaval carioca. Segundo Divina, quando ela chegou ao Brasil, a perucaria não existia no Teatro Municipal. “Eu montei o setor e ensinei durante esses anos vários assistentes. Muitos trabalham hoje em televisão, no carnaval e no teatro”, diz. Neste tempo também, houve uma evolução desta técnica no Brasil. “Quando cheguei ao Municipal já havia trazido muita coisa, mas tinha a diculdade para se achar boa matéria-prima. Hoje conseguimos cabelos de qualidade aqui no País. A troca de experiências com

produções de fora também contribuiu para aprendermos mais sobre o universo das perucas”, acredita. Divina explica que há uma grande diferença entre uma peruca para teatro e as chamadas perucas sociais, usadas fora dos palcos. “São completamente diferentes. As perucas sociais são feitas com elástico para se adequarem a qualquer pessoa e a peruca teatral é confeccionada sob medida, exclusivamente para determinado ator, considerando as suas características de acordo com a maquiagem e o gurino. Tudo tem que estar combinando”, ressalta. Com orçamentos muitas vezes apertados e em tempos de responsabilidade ambiental e econômica, é natural que o reaproveitamento dos materiais seja necessário. “Atualmente temos cerca de 30 dias para deixar tudo pronto. Tudo depende do material disponível, da matéria-prima que será usada, do orçamento. Gosto de inovar, usar materiais diferentes. Já z perucas com botões, borracha...”, diz. Segundo Divina, todas as perucas se reaproveitam. “Elas duram bastante, dependendo de como são guardadas e os cuidados que se tem na utilização. O suor, por exemplo, queima o brilho natural do cabelo. Eu preservo muito bem as perucas do Municipal. Lavo, embalo e guardo para outras produções. Mas é importante comprar cabelo de qualidade para as perucas. Isso ajuda muito”, naliza.

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Técnica
Por Felipe Prestes
Facilitar o acesso ao conhecimento especíco da área que envolve iluminação, sonoplastia, cenograa e gurino. Esse é o objetivo do IBTT (Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral), conhecido como tal a partir do nal de 2008. Fundador da instituição, Milton Bonfante conta que tudo começou há cerca de cinco anos, quando iluminadores criaram um grupo para debater e trocar ideias sobre a prossão. “Ao grupo foram se somando outros prossionais, como cenógrafos e gurinistas, até que chegamos ao Instituto”. Visando o aprimoramento, o IBTT criou um acervo de livros e teses sobre a área, que já serviu de suporte para pesquisadores de algumas localidades do País. Entretanto, o acervo ainda não pode ser digitalizado devido a questões burocráticas que dizem respeito à autorização dos autores ou editoSxc

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Jornal de Teatro

IBTT visa aprimorar conhecimento especíco
Criado no final de 2008, o Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral propõe o debate, a pesquisa e a formação em detalhes técnicos
capital paulista, será oferecido um seminário sobre iluminação e trilha sonora para espetáculos, com a participação de Beto Bruel e Guto Gevaerd. Os dois foram responsáveis, respectivamente, pela iluminação e trilha sonora dos espetáculos “Av. Dropsie” e “Não Sobre o Amor”, ambos da Sutil Companhia de Teatro, dirigida por Felipe Hirsch. Milton Bonfante começou a trabalhar com iluminação na década de 60 com um dos pioneiros no País, Giancarlo Bortolotti. Há 25 anos, com o mercado brasileiro já mais amadurecido, abriu empresa própria, tendo trabalhado em eventos como a Bienal de Dança de Santos e em espetáculos como “A Bela e a Fera” e “Fantasma da Ópera”. É docente há mais de 15 anos, tem dois títulos publicados e escreve regularmente para sites, blogs e periódicos que tratam de sua especialidade.

O Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral existe há cinco anos e foi idealizado por iluminadores

ras. “Já estamos trabalhando para digitalizar, mas há entraves e ainda deve demorar um pouco para ocorrer”, explica Bonfante. Além dessa atividade, o grupo conta com 800 pessoas cadastradas para discutir a área via internet. A busca por conhecimento não cará restrita a essas iniciativas. O instituto pretende agrupar a tecnologia teatral como um todo em um curso e levar a proposta inclusive até o Ministé-

rio da Educação. “Hoje, o que há são cursos técnicos de cada uma dessas áreas separadamente. Os cursos superiores de artes cênicas oferecem poucas opções também nesse tipo de conhecimento”, relata Bonfante, que atualmente dá aulas no Senac-SP. Para levar por todo o Brasil o aprimoramento é necessário vencer entraves que dizem respeito às diferenças regionais. Bonfante conta que o IBTT

busca mapear essas peculiaridades am de buscar um diálogo possível entre a classe em todo o País. “Em São Paulo, você pode oferecer um curso para utilização de equipamentos de última geração. Em Tocantins, você vai se deparar com outros desaos”, exemplica. No dia 6 de abril, às 19h, irá ocorrer o primeiro evento público do instituto. No Teatro do Ator (praça Roosvelt, 172), na

Sindicatos

Sated-SP apoia categoria artística e busca melhorias
Entidade tem sua história marcada por lutas e visa benefícios aos profissionais, como a criação de um retiro e promoção com a Copa de 2014
Divulgação

Por Fábio Luís de Paula
Toda categoria trabalhadora precisa de uma representação forte para lutar por seus direitos e criar um espaço de encontro comum entre os prossionais da mesma área. É por isso que existem os sindicatos. Eles são entidades sem ns lucrativos que defendem os seus associados. No mundo do teatro não é diferente. Há inúmeros preconceitos pela classe artística, que às vezes ainda é julgada como “à toa”, e é contra isso que o Sated-SP (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo) trabalha. Lígia de Paula Souza, presidente do Sated-SP desde 1986, explica que é uma organização de representação de todos os prossionais com base territorial no Estado de São Paulo somente. “O sindicato não serve apenas para direitos trabalhistas, como o piso salarial, mas também para cuidar da saúde, da mente e para ser um farol de atenção à evolução e progresso social. Nosso olhar está sempre em busca de novos mecanismos e melhorias à

nossa categoria”. O Sated foi criado em 18 de dezembro de 1934, numa época onde havia uma grande movimentação por conta do cenário político do Brasil. E o surgimento do sindicato foi uma proposta de atores, como Procópio Ferreira e outros, para que a prossão fosse ocializada. “Claro que houveram mudanças que acompanharam o tempo e a política ao longo desses anos. Temos a Lei 6.533, que regulamenta a atuação, e sempre buscamos atualizar e reformular nosso estatuto. A última vez que o zemos foi em 2004”, destacou Lígia.

CAMPANHAS E PROJETOS

A presidente comentou que o Sated possui em seu currículo uma série de projetos. Um deles foi a Campanha para a Prevenção da Aids, que começou em 1987 e perdura até hoje. Eles também lutaram contra o problema de tráco de pessoas, onde falsos recrutadores de artistas levavam prossionais para serem literalmente escravos fora do País. “Foram inúmeras batalhas que me orgulho de ter par-

ticipado e promovido. Esta luta nunca acaba”. Hoje dois pontos importantes encabeçam a lista de prioridades: ajudar associados com a questão da moradia e tocar o projeto da “Casa do Sated”, que vai ser uma espécie de retiro para abrigar aposentados sem condições de trabalho e sustento. Lígia pontuou que está tudo delimitado para esse plano. Será um condomínio em Mairiporã, com serviços médicos e atividades que pretendem manter a mente e o corpo saudáveis, tudo custeado pela entidade. “É nossa obrigação cuidar desses prossionais que contribuíram com nossa categoria e com o Sated. Eles cam idosos e as oportunidades de emprego cam mais raras. É uma área de instabilidade e temos de saber contornar isso com destreza”. O Sated-SP fica na região central da cidade, na avenida São João, 1086, no quarto andar, de fácil acesso por metrô e ônibus. Possui uma programação com cursos grátis e sessões

Lígia de Paula e Mário Vaz, presidente e diretor do Sadet respectivamente

COPA DE 2014

com palestras e apresentações. Pra se associar, basta ir até lá se inscrever, munido de documentação básica, registro profissional (DRT) e três fotos sorrindo. É obrigatório ser do Estado de São Paulo e tem que contribuir com a taxa de um salário mínimo por ano.

“Estamos agora nos preocupando com a Copa, porque no período dos jogos muitos turistas estarão no Estado e os espetáculos serão, com certeza, uma opção para eles. Hoje os teatros estão lotados graças ao turismo e a Copa vai ser uma vitrine importantíssima!”, concluiu.

Jornal de Teatro

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Cursos e Oficinas

Danilo Braga

A Escola de Arte Dramática , em São Paulo, ainda busca seu espaço na USP. Processo de seleção é rígido, em quatro partes e o número de candidatos por vaga pode chegar a 25
Arquivo A. Paschoal

Mais do que ensinar
A EAD, escola que revolucionou teatro brasileiro, faz 61 anos este mês e ganhará, em agosto, livro contando a sua história
Por Danilo Braga Em uma São Paulo que se movia pelo ânimo do modernismo de 1922, o teatro ainda era considerado uma “arte menor”. O que os paulistas não esperavam era que a sua terra da garoa se transformaria em um pólo teatral de proporções internacionais. Era maio de 1948, em uma sala alugada no Externato Elvira Brandão, na alameda Jaú. Lá, no segundo dia do mês, nascia a escola que em alguns anos formaria a primeira frente de atores brasileiros prontos para trazer para a terra do pau brasil o novo teatro, que não seria mais uma arte diminuta e vista com maus olhos. A EAD (Escola de Arte Dramática) surgiu com a necessidade e a demanda da burguesia paulista, que sentia falta do teatro no Brasil. Na Europa, principalmente em Paris, a arte dramática estava em ascensão, recebendo destaque mundial. A elite burguesa de São Paulo, ainda respirando a Semana de 22 e a Revolução de 30, tinha essa demanda e tinha também alguém para alimentar esse desejo: dr. Alfredo Mesquita, formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e fã de Eça de Queiroz. Mesquita já tinha envolvimento prossional com a dramaturgia. De 1933 até 1937 foi crítico teatral de “O Estado de S. Paulo”, escreveu e encenou peças, livros e contos, além de ter sido o fundador do GTE (Grupo de Teatro Experimental), que mais tarde origina o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). O grã-no queria elevar o nível da dramaturgia brasileira, como nos conta a professora e pesquisadora da EAD, Nanci Fernandes. Nanci, que foi formada pela EAD, contextualiza o nascimento da escola na esfera burguesa do nal dos anos 40, detentora da riqueza de valores culturais no País. Segundo a pesquisadora, o teatro sofreu um processo de estagnação até o nal da década de 30, não participando, inclusive, da Semana de Arte Moderna. Um de seus principais autores, Oswald de Andrade, só escreveria teatro em 1936. A tal “arte menor” não decolava nem mesmo no Rio de Janeiro dos anos 40, que era o Centro de Produção Cultural no Brasil. No m de 43, a encenação de “Vestido de Noiva”, de Nélson Rodrigues, foi alvo de críticas severas, que levou o cenário do teatro brasileiro ao desânimo. Mas não Alfredo Mesquita, que em 1942 passou a incorporar a gura do diretor, até então inédito no Brasil, na produção dramática do Grupo de Teatro Experimental. Alfredo Mesquita sabia que o modelo parisiense de se ensinar teatro não funcionaria no Brasil, mas muitas coisas foram aproveitadas do ensinar europeu. Ele acreditava que para mudar o teatro brasileiro era preciso mudar o ator. Esse não poderia exercer a função se não tivesse a cultura e a disciplina necessária para tal. É então que, na sala emprestada pelo Externato Elvira Brandão, Alfredo Mesquita plantou a semente do novo teatro em São Paulo. Outras personagens começam a surgir na história da EAD, que se confunde com a história da dramaturgia brasileira como um todo. Ainda em 1948, Franco Zampari fez uma aposta no teatro que é parte essencial da escola. Associado a um grupo da elite paulistana e usando um casarão velho na rua Major Diogo, bairro da Bela Vista, Zampari criou o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Equipado com 18 camarins, duas salas de ensaio, oficinas de montagem de cenário, almoxarifado, sala de leitura e equipamentos modernos de áudio e iluminação, o TBC era voltado especialmente para o teatro amador. dessa maneira, o segundo andar do prédio passava a ser a nova casa da EAD. É na EAD que alguns textos estrangeiros, principalmente europeus, foram encenados aqui no País. O alemão Bertolt Brecht, o francês Alfred Jarry, o norte-americano Sam Sheppard e o espanhol Ramón Maria del Valle-Inclán tiveram suas obras representadas no Brasil pelo palco e equipe da EAD. Em meados de 1950, o espaço que o TBC oferecia já era demasiado pequeno para as necessidades da escola, que foi obrigada a mudar-se para a sua primeira sede própria Foi Alfredo que por muito tempo custeou a existência da Escola de Arte Dramática. As aulas eram direcionadas não à burguesia, mas à classe média e baixa. Ministradas à noite, elas tinham o propósito exclusivo de que personagens, futuros atores da classe trabalhadora, pudessem investir em futuro como ator e, inconscientemente, investir na dramaturgia brasileira. Apesar de não ser gratuita, o valor que os alunos pagavam era muito pequeno. Tivemos acesso a um recibo, datado de 18 de junho de 1948, que vinha descrita a quantia de Cr$ 130. Nanci contou que muitas vezes os alunos chegavam com muita fome, pois não tinham tempo (e muitas vezes dinheiro) para jantar antes de chegar

Aula de Comédia ministrada por Cacilda Becker na EAD

à aula, às 19h. Logo, Mesquita fez um acordo com grandes empresas alimentícias que passaram a fornecer suprimentos para que fosse organizado um “sopão” para os alunos, sem custo algum. Em 1960, a escola brilhava. Agregava o uso da cenograa, também inédita no País, e em 61 incluiu em seu currículo os cursos de crítica e dramaturgia. A escola tinha o desejo e a capacidade para abraçar toda a revolução teatral que o País estava passando. Isso, porém, não se realizaria tão cedo. O golpe militar de 1964 chegou e afetou a escola, que começou a ter problemas nanceiros. Em 1966, Alfredo Mesquita não consegue mais manter a EAD e então a vende à USP (Universidade de São Paulo). Até então, a prossão de ator não era considerada válida, o que fazia com que a EAD fosse um curso de ensino médio, incluindo as matérias obrigatórias para tal. No nal, a carga horária disponível para as matérias especicas de dramaturgia não era suciente para a formação de um ator, o que de certa forma prejudicou o curso até 1982, quando foi regulamentado. ATUALIDADE Ainda hoje, a Escola de Arte Dramática não tem muito espaço na USP. Dividindo espaço com o curso de graduação em Artes Cênicas, o cur-

so tem 700 horas/aula, mais do que o necessário para um curso técnico segundo especicações do MEC. A professora Nanci acredita que, por não ser considerado um curso de graduação e não fazer parte da Fuvest (órgão que aplica o vestibular para ingresso na universidade), o processo seletivo próprio da EAD benecia o curso. “São alunos que entraram pelo talento”. O processo seletivo é dado em quatro partes. Em sua primeira fase, o aluno é submetido a um exame prático, onde deve escolher uma cena e apresentá-la a uma banca de professores. Na segunda, o aluno deve fazer um exame teórico sobre os textos que devem ser lidos previamente e elaborarem uma redação. No terceiro, o aluno deve apresentar uma cena dentro de uma lista de peças determinada. Na quarta fase, o candidato realiza um estágio de quatro dias onde são testadas a voz, corpo e interpretação. De cerca de 500 inscrições anuais, são selecionados 20 alunos para ingressar na escola. O candidato deve ser maior de idade. Em agosto de 2009, Silvana Garcia publicará um livro pela Edusp, ainda sem título, sobre a trajetória da EAD. A obra será composta por ensaios e imagens que nos farão voltar no tempo na história da escola que construiu o teatro no Brasil como tal o conhecemos.

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Jornal de Teatro

Oportunidades
Ocina Cultural Oswald de Andrade
Endereço: Rua Três Rios, 363 - Bom Retiro - São Paulo - SP Telefone: 11 3221 5558 | 3222 2662
FORMAÇÃO DE PÚBLICO - ENSAIO ABERTO DO ESPETÁCULO “SÓ” E PROCESSO DE CRIAÇÃO - 120 vagas Coordenação: Rachel Brumana 13/4 - segunda-feira Apresentação: 17h30 às 18h30 - 80 vagas Elenco: João Miguel Faixa etária: adultos Público alvo: interessados em geral Processo de Criação - 18h30 às 21h30 - 40 vagas Mediação: Alvise Camozzi Público alvo: interessados com conhecimento intermediário na área Faixa etária: adultos Seleção: carta de interesse Inscrições:1 a 12/4 OFICINA DE CLOWN “NÚMEROS TRADICIONAIS EUROPEUS” - 25 vagas Coordenação: Caco Mattos 16/4 a 25/6 - terças e quintas-feiras - 18h30 às 21h30 Público alvo: interessados com conhecimento intermediário na área Faixa etária: adultos Seleção: carta de interesse Inscrições:1 a 13/4 OFICINA DE DRAMATURGIA “INICIAÇÃO AO TEATRO DO ABSURDO” - 25 vagas Coordenação: Nicolás Monasterio 16/4 a 30/7 - quintas-feiras - 18h30 às 21h30 Público alvo: interessados com conhecimento intermediário na área Faixa etária: adultos Seleção: carta de interesse e currículo Inscrições:1 a 12/4 OFICINA DE DRAMATURGIA E ATUAÇÃO - 30 vagas Coordenação: Raquel Anastásia e Valderez Cardoso Gomes 16/4 a 25/6 - terças e quintas-feiras - 18h30 às 21h30 Público alvo: interessados com conhecimento intermediário na área Faixa etária: adultos Seleção: entrevista dia 14/4 - 18h30 às 21h30 Inscrições: 1 a 13/4 OFICINA “LABORATÓRIO INTERNACIONAL DE INTERPRETAÇÃO E DRAMATURGIA” - 15 vagas Coordenação: Alvise Camozzi e Letizia Russo 22 a 30/4 - quarta-feira a sexta-feira - 15h às 21h e sábado - 13h às 18h (primeira semana) e segunda a quinta-feira - 15h às 21h (segunda semana) Público alvo: interessados com conhecimento intermediário Faixa etária: adultos Seleção: carta de interesse e currículo e posterior entrevista com pré-selecionados (em data a ser definida) Inscrições: 1 a 17/4 OFICINA “O AIKIDÔ E O CORPO DO ATOR” - 30 vagas Coordenação: Renata Mazzei 22/4 a 24/6 - segundas e quartas-feiras - 14h às 17h Público-alvo: interessados com conhecimento intermediário na área / Faixa etária: adultos Seleção: carta de interesse e currículo Inscrições:1 a 14/4 OFICINA DE MAQUIAGEM E CARACTERIZAÇÃO TEATRAL - 25 vagas Coordenação: Atílio Beline Vaz 25/4 a 25/7 - sábados - 14h às 18h Público-alvo: iniciantes na área Faixa etária: adolescentes e adultos Seleção: carta de interesse Inscrições:1 a 17/4 OFICINA DE JOGOS, CANÇÕES E TEXTOS DE TEATRO - 30 vagas Coordenação: Cibele Troyano 27/4 a 27/7 - segundas-feiras - 14h às 18h Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: adolescentes Seleção: aula-teste dia 13/4 - 14h às 18h Inscrições:1 a 12/4 OFICINA DE DIREÇÃO TEATRAL - 25 vagas Coordenação: Marcelo Marcus Fonseca 27/4 a 30/6 - segundas e terças-feiras - 18h30 às 21h30 Público alvo: interessados com conhecimento intermediário na área / Faixa etária: adultos Seleção: currículo e carta de interesse Inscrições:1 a 22/4 OFICINA DE PREPARAÇÃO VOCAL PARA ATORES - 25 vagas Coordenação: Paula Carrara 7/5 a 18/6 - segundas e quintas-feiras - 10h às 13h Público-alvo: interessados com conhecimento intermediário e avançado na área / Faixa etária: adultos Seleção: currículo, carta de interesse e entrevista dia 4/5 - 10h às 13h Inscrições:1 a 30/4 FORMAÇÃO DE PÚBLICO - APRESENTAÇÃO DO ESPETÁCULO “BEM LONGE DA TRAÇALÂNDIA” E AULA-ABERTA DE JOGOS TEATRAIS - 100 vagas Coordenação: Aline Valencio Lemes (Cia. Pirilampo de Teatro) 8/5 - sexta-feira - 15h às 19h Apresentação do Espetáculo: 15h às 16h - 60 vagas Público alvo: interessados em geral Aula-aberta: 16h às 19h - 40 vagas Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: crianças Seleção: primeiros inscritos Inscrições:1/4 a 7/5

Oficina Cultural Amácio Mazzaropi
Avenida Rangel Pestana, 2401 - Brás - São Paulo/SP Tel: (11) 2692-5166 - 2796-2635
OFICINA DE INTERPRETAÇÃO TEATRAL “BACANTES: UMA ORGIA DO PODER” – 20 vagas Coordenação: Rui Madeira 13 a 28/4 – segunda a sexta-feira – 16h30 às 21h30 Público alvo: interessados com conhecimento intermediário Faixa etária: adultos Seleção: carta de interesse e currículo Inscrições: 1/4 a 10/4 OFICINA DE INTERPRETAÇÃO “A POESIA E A CENA” – 30 vagas Coordenação: Cia. Do Tijolo 27/4 a 17/6 – segundas e quartas-feiras – 18h30 às 21h30 Público alvo: interessados com conhecimento intermediário na área Faixa etária: a partir de 16 anos Seleção: currículo e carta de interesse Inscrições: 1/4 a 22/4 FORMAÇÃO DE PÚBLICO – APRESENTAÇÃO DO ESPETÁCULO “CONCERTO DE ISPINHO E FULÔ” E AULA ABERTA – 60 vagas Coordenação: Cia. Do Tijolo Apresentação 23 a 26/4 – quinta a sábado – 17h30 às 18h30 e domingo – 17h às 18h Público alvo: interessados em geral Seleção: primeiros inscritos Aula aberta 23 a 26/4 – quinta a sábado – 18h45 às 21h45 e domingo – 18h15 às 21h15 Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: adultos Seleção: primeiros inscritos Inscrições: 1/4 a 22/4 OFICINA DE TEATRO BASEADA NAS OBRAS DE MURILO RUBIÃO – 30 vagas Coordenação: Expedito Araújo 29/4 a 16/7 – quartas e quintas-feiras – 18h30 às 21h30 Público alvo: interessados com conhecimento intermediário Faixa etária: adolescentes e adultos Seleção: carta de interesse e currículo Inscrições: 1/4 a 24/4 OFICINA DE TEATRO “MAZZAROPIS” – 30 vagas Coordenação: Arnaldo D’Ávila e Jedsom Kárta 11/5 a 27/7 – segundas e terças-feiras – 18h30 às 21h30 Público alvo: interessados com conhecimento intermediário na área Faixa etária: adultos Seleção: aula teste – 5/5 - 18h30 às 21h30 Inscrições: 1/4 a 27/4 FORMAÇÃO DE PÚBLICO – APRESENTAÇÃO DO ESPETÁCULO “ESTÃO VOLTANDO AS FLORES” E AULA ABERTA – 40 vagas Coordenação: Cia. Pompa Cômica Apresentação 30/4 – quinta-feira – 17h30 às 18h30 Público alvo: interessados em geral Seleção: primeiros inscritos Aula aberta 30/4 – quinta-feira – 18h45 às 21h45 Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: adolescentes e adultos Seleção: primeiros inscritos Inscrições: 1/4 a 29/4 OFICINA DE TEATRO DE RUA –30 vagas Coordenação: Grupo Buraco D’Oráculo 6/5 a 26/6 – quartas e sextas-feiras – 19h às 21h Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: adolescentes e adultos Seleção: carta de interesse Inscrições: 1/4 a 30/4 OFICINA DE INICIAÇÃO TEATRAL – 30 vagas Coordenação: Gloriete Luz 5/5 a 28/7 – terças-feiras – 14h às 17h Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: adolescentes e adultos Seleção: primeiros inscritos Inscrições: 1/4 a 4/5 Local: Unidade Básica de Saúde Doutor Manoel Saldiva Rua Sampson, 61 – Brás OFICINA DE TEATRO PARA INICIANTES – 30 vagas Coordenação: Fabiana Vasconcelos Barbosa 5/5 a 28/7 – terças – 18h30 às 21h30 Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: adolescentes e adultos Seleção: primeiros inscritos Inscrições: 1/4 a 4/5 OFICINA DE INICIAÇÃO TEATRAL – 30 vagas Coordenação: Dione Leal Pettine 9/5 a 25/7 – sábados – 14h às 17h Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: adolescentes Seleção: primeiros inscritos Inscrições: 1/4 a 8/5 OFICINA DE TEATRO – 30 vagas Coordenação: Denise Maria Guilherme 9/5 a 25/7 – sábados – 14h às 17h Público alvo: iniciantes na área Faixa etária: crianças Seleção: primeiros inscritos Inscrições: 1/4 a 8/5

Classificados
CHAMA DA ARTE ESPAÇO CULTURAL ALUGO AMPLAS SALAS PARA ENSAIO DE DANÇA E TEATRO ÓTIMA LOCALIZAÇÃO E ESTACIONAMENTO FÁCIL SEGURANÇA E INFRAESTRUTURA FONES: (11) 3862-0231 7652-2578 (COM JUÇARA) RUA SALES GUERRA, 199 (ALTURA DO 1.450 DA RUA AURÉLIA - VILA ROMANA) FOTOGRAFIA FOTÓGRAFA ESPECIALIZADA EM BOOK DE ATORES E FOTOGRAFIA DE ESPETÁCULOS / ESTÚDIO PRÓPRIO PAOLA PRADO / FONE: 9115-2099 MAQUIAGEM MAQUIAGEM E CARACTERIZAÇÃO CRIAÇÃO E REALIZAÇÃO DE MAQUIAGEM PARA TEATRO, CINEMA, TELEVISÃO E FOTOGRAFIA JROSANTOS / FONES: 3129-7527 9162-7929 ESTUDIO DE GRAVAÇÃO CHARLES DALLA - COMPOSITOR, DIRETOR MUSICAL, SERVIÇOS DE ESTÚDIO -TRILHA SONORA E TRILHA SONORA ORIGINAL PARA TEATRO/TEATRO MUSICAL -ARRANJOS E ORQUESTRAÇÕES -DIREÇÃO VOCAL E DIREÇÃO DE CANTORES -ESTÚDIO DE GRAVAÇÃO E FINALIZAÇÃO COM PRO-TOOLS 7.3 CONTATOS- 99607312/ CHARLESDALLA@UOL.COM.BR FIGURINO JUDITE COSTUREIRA COSTURA E CONFECÇÃO DE FIGURINOS PARA TEATRO E TELEVISÃO FONE: 3207-1864

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Vida e Obra

Ida Gomes, uma estrela que sempre vai brilhar
Atriz, falecida no último dia 22 de fevereiro, deixa um legado de 65 anos dedicados à interpretação no teatro, na TV e no cinema
Fotos de arquivo de família

Acima, Ida Gomes em “O Avarento”, em parceria com Jorge Dória, e aos lados em outros momentos da carreira

Por Daniel Pinton
Pela arte viveu, com a arte se despediu. Assim pode-se resumir a vida de uma das atrizes mais atuantes do cenário artístico brasileiro. Ida Szafran, atriz que se tornou conhecida como Ida Gomes, deixou a vida e os palcos no último dia 22 fevereiro, aos 85 anos, mas certamente deixou um legado de talento e amor, fruto de 65 anos dedicados à interpretação, para todos aqueles que veem nas artes cênicas um caminho para se viver. Conhecida do grande público pela interpretação marcante da vereadora Dorotéia, uma das três irmãs Cajazeiras em “O Bem-Amado”, de Dias Gomes, Ida nasceu em Krasnik, na Polônia, e foi criada até os 13 anos na França. Depois de passar pela Inglaterra, veio para o Brasil onde começou sua carreira como atriz de rádio passando por diversas emissoras como as rádios Nacional, Tupi e Educadora. Sua estreia na televisão foi em 1951 atuando em telepeças de “O Grande Teatro Tupi”, na TV Tupi, onde também fez “Coração Delator”. Na TV Globo, onde ganhou fama, participou de um total de 44 produções a partir de 1967, entre elas “Véu de Noiva”, “Selva de Pedra”, “Estúpido Cupido”, “O Astro”, “Corpo a Corpo”, “Top Model”, “A Padroeira”, “Da Cor do Pecado”, “JK” e “Duas Caras”, sua última novela, em 2007. No cinema, Ida Gomes começou sua carreira em “Bonitinha, mas Ordinária”, em 1963, e ainda participou de mais nove lmes como “Amante Latino”, de 1979, “Copacabana”, de 2001, e “O Amigo Invisível”, seu último projeto, em 2006. Sua atividade na telona, porém, não cou restrita. Ida também foi dubladora de atrizes

consagradas como Joan Crawford, Bette Davis e Gladys Cooper. A estreia de Ida Gomes nos palcos foi como integrante do Teatro do Estudante, com Paschoal Carlos Magno. A atriz ainda se destacou nas peças “O Violinista no Telhado”; “No Natal a Gente vem te buscar”, pela qual ganhou o Prêmio Apetesp de melhor atriz coadjuvante; “O Avarento”; “Tio Vânia”; “Super Mãe”; “Lili”; “O Anjo Negro”; “Proibido Amar”, onde recebeu uma indicação como melhor atriz do Prêmio Sharp e “7 – O Musical”, com a qual Ida se despediu dos palcos e do público mostrando uma determinação e prossionalismo raros no meio artístico. Mesmo bastante debilitada, a atriz participou de apresentações e ensaios até não ter mais forças. “A gente vai sentir uma grande falta dela. Ela era uma excelente atriz, participativa em todos os momentos. Até na coxia, a Ida era uma pessoa divertidíssima. Por todos esses motivos vamos sentir muita falta dela. Ela era de uma força inacreditável. A gente tinha a impressão de que ela que tinha mais energia do que todos nós, queria ensaiar à toda hora”, relatou a atriz Alessandra Maestrini, colega no musical. Ida nunca se casou nem teve lhos. Como ela mesma dizia, não era feita para casar, nem café sabia fazer, mas nunca deixou de despertar grandes emoções por toda a sua vida. Apesar de judia, Ida era constantemente escalada para interpretar freiras, madres, mulheres rígidas com os “bons costumes” e se divertia com o fato: tinha uma independência intelectual completamente oposta às personagens que usualmente emprestava alma. Os mesmos “bons costumes” que defendia

TALENTO NOS PALCOS

sob holofotes diziam que atriz não era mulher “direita” na época em que começou sua carreira. Em sua família, deixa dois atores: o irmão Felipe Wagner e a sobrinha Débora Olivieri. “Começamos a trocar nossas anidades e experiências depois que me mudei para o Rio de Janeiro, em 1999, e, nesses 10 anos, convivemos como mãe e lha. Íamos produzir nosso primeiro espetáculo encomendado: “Idas e Vindas”. Ela era uma mulher extraordinária, inteligente, intelectual e moderna. Lia um livro ou dois por semana, sempre em inglês, falava mais de oito línguas, assistia a todas às peças teatrais e lmes”, contou Débora. Ida Gomes receberia no último dia 10 uma grande homenagem durante o 21º Prêmio Shell de Teatro. A atriz se mostrava bastante entusiasmada com a honraria e ansiosa pelo evento. “Pena ela não ter estado para agradecer a homenagem ao conjunto de trabalhos no Prêmio Shell. Ela só pensava na roupa e nos discurso que faria.”, falou a sobrinha. Felipe Wagner recebeu o prêmio em nome da irmã e aproveitou para contar aos presentes como surgiu a paixão de Ida pela dramaturgia. “Ida, quando jovem, ouviu na Rádio Nacional uma propaganda do programa “À procura de Talentos” e resolveu se candidatar. Estávamos há nove meses no Brasil, ela ainda não falava bem português. Mas foi, declamou um poema e foi contratada como radioatriz”, lembrou Wagner, referindo-se ao poema “Visita à casa paterna”, de Luís Guimarães Jr., que, em seguida, foi lido por Débora Olivieri. “Minha tia saiu de cena na hora certa. Seu coração parou, mas sua estrela vai brilhar para sempre”.

HOMENAGEM

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História

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Jornal de Teatro

Liberdade, liberdade:
um marco na dramaturgia brasileira
Em um abril de outros tempos, mais precisamente e não por acaso no dia 21, estreava no Rio de Janeiro o musical “Liberdade, liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. O ano era 1965 e a tensão causada pelo golpe militar do ano anterior assombrava a classe artística, que sentia o reexo da repressão. Para demonstrar a insatisfação, dois grupos que já exploravam o gênero chamado “teatro de protesto”, o paulista Teatro de Arena e o carioca Opinião, acabaram produzindo o espetáculo considerado a obra pioneira do teatro de resistência no Brasil. O texto de “Liberdade, liberdade” é atual em qualquer época, pois reúne a visão de pensadores de diferentes períodos e contextos, sobre o tal “direito inalienável”. O elenco que estreou a peça era composto por quatro atores, o já renomado na época Paulo Autran, Oduvaldo Vianna Filho, Nara Leão – que vinha do elogiado espetáculo “Opinião”, e Tereza Rachel, todos revezando os 56 papéis existentes na peça. A direção musical era de Oscar Castro Neves e contava com o violão de Roberto Nascimento, Ico Castro Neves no contrabaixo, Francisco Araújo na bateria e Carlos Guimarães na auta. Desde o momento em que o texto chegou à censura causou polêmica, pois apesar de conter um forte discurso político de oposição ao regime militar, possuía citações de Platão, Sócrates, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Shakespeare e até mesmo Jesus Cristo. Esse foi apenas o ponto de partida para a série de polêmicas que o grupo enfrentaria até o nal da temporada. Aliás, enfrentados com muito humor. No ensaio nal, o ranger das cadeiras da plateia incomodou os produtores e Millôr Fernandes encontrou uma forma de resolver a questão, inserindo no texto o trecho a seguir. “ E aqui, antes de continuar este espetáculo, é necessário que façamos uma advertência a todos e a cada um. Neste momento, achamos fundamental que cada
Reprodução

Por Rodrigoh Bueno

A peça, com o já consagrado ator Paulo Autran no elenco, estreou em 21 de abril de 1965 no Rio de Janeiro

um tome uma posição denida. Sem que cada um tome uma posição denida, não é possível continuarmos. É fundamental que cada um tome uma posição, seja para a esquerda, seja para a direita. Admitimos mesmo que alguns tomem uma posição neutra, quem de braços cruzados. Mas é preciso que cada um, uma vez tomada sua posição, que nela. Pois companheiros, as cadeiras do teatro rangem muito e ninguém ouve nada”. Quando os extremistas de direita souberam que o espetáculo estrearia no dia que representa a morte de um dos principais heróis nacionais, Tiradentes, trataram de preparar suas manifestações – a principal delas foi a pichação na fachada do teatro.

A ESTREIA

Aliás, durante todo o tempo em que o espetáculo esteve em cartaz, as manifestações também estiveram presentes, não sendo raro que manifestantes freqüentassem o teatro armados, e que a peça fosse interrompida com gritos de protesto. A situação quase chegou a um limite quando cerca de 50 pessoas pertencentes a um grupo radical de direita tentou depredar o teatro, conforme publicado no jornal Tribuna da Imprensa. Ao mesmo tempo em que aumentavam os protestos, aumentava a simpatia do público e crítica pelo espetáculo. Yan Michalski, do Jornal do Brasil, dedicou quase metade de sua crítica abordando a interpretação de Paulo Autran e diz que “a versatilidade demonstrada por

A CRÍTICA

Paulo Autran é impressionante: em duas horas de espetáculo ele esboça umas dez ou quinze composições diferentes, sempre adequadas e inteligentes, sempre livres de quaisquer recursos de gosto fácil”. Tereza Raquel também foi bastante elogiada, mas a jornalista considerou que “o charme e a musicalidade de Nara não deixam de estar presentes, mas a sua voz frágil e as marcações estéticas que lhe foram reservadas fazem com que a sua participação resulte bastante apagada” – informação contrariada pelos demais críticos da época. Sem dúvida a crítica que causou maior polêmica foi a do jornal New York Times, em 25 de abril de 1965. “Os espetáculos teatrais que elevam a voz com protestos políticos contra o regime semimilitar do Brasil estão

produzindo, no país, bom entretenimento e uma nova visão dramática (...) Paulo Autran, o astro principal entre os quatro intérpretes que representam no palco vazio, pronuncia, sob a luz de um único spotlight, a última palavra da peça: Resisto! A audiência de trezentas pessoas, que tinham pago o equivalente a um dólar e vinte e cinco centavos por pessoa para sentar amontoada, levantouse e aplaudiu vibrantemente. (...) Contudo, o que parecia conquistar a audiência era o fato da irada mensagem da peça vir temperada com humor, música e um otimismo ansioso com respeito ao futuro do Brasil..” Terminada a temporada carioca, apenas Paulo Autran seguiu no elenco principal, sendo aplaudido principalmente em teatros improvisados e universidades. No roteiro da turnê estavam cidades que dicilmente recebiam a visita de grandes produções, o que causava ansiedade e desconança na população. A cidade gaúcha de Pelotas, por exemplo, viu um jornalista ser proibido de publicar matérias de teatro após elogiar a peça. Em seguida, o mesmo jornal apresentou um editorial sob o título de “Palhaçada, palhaçada”. A repressão também não deu trégua durante a turnê. O sucesso em todo o Brasil chegou aos ouvidos do alto escalão governamental e, no dia 2 de junho de 1965, o presidente Castello Branco enviou uma nota a seu sucessor, Costa e Silva, armando que as ameaças de “Liberdade, liberdade” eram de aterrorizar a liberdade de opinião. A partir daí, carros de polícia passaram a intimidar o público que comparecia ao teatro e as ameaças de bomba se tornaram ainda maiores. Em 1966, a liberdade foi ocialmente (e nacionalmente) proibida pela Censura Federal. Já no m da apresentação, o trecho: “como detalhe pessoal e nal, os autores e todos os participantes do espetáculo declaram que raras vezes trabalharam com tanta alegria. Se com as vozes que levantaram do silêncio da História conseguiram gravar o som da Liberdade num só dos corações presentes, estão pagos e gratos”.

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Internacional

Releitura do musical criado nos anos 70 por Chico Buarque e Paulo Pontes apresenta abordagem contemporânea e novos arranjos para a estreia em Guimarães, Portugal, dia 1º de maio

Espetáculo “Gota D’Água” fará turnê em Portugal
Por Pablo Ribera O musical brasileiro “Gota D’Água”, criado pelo cantor e compositor Chico Buarque em parceria com o dramaturgo Paulo Pontes, fará uma turnê em Portugal durante o mês de maio, com espetáculos previstos para seis cidades do país europeu, sendo que o primeiro deles acontecerá em Guimarães. O “Gota D´Água” tem estreia prevista para o dia 1º de maio, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. Em seguida, o grupo segue para a capital portuguesa, Lisboa, onde se apresentará no Centro Cultural de Belém, de 6 a 9 de maio. O musical parte depois para o Cine-Teatro de Estarreja, no dia 15 de maio, depois para o CAE (Centro de Artes e Espetáculos) da Figueira da Foz, no dia 16; depois apresentará o espetáculo no Coliseu do Porto, em 20 de maio; e encerrará a turnê no Teatro das Figuras, em Faro, no dia 23. “Gota D’Água” é um espetáculo com direção-geral de João Fonseca, direção musical de Roberto Burguel, e com atuações da atriz Izabella Bicalho, que vive Joana, e dos atores Cláudio Lins e Armando Babaioff, que fazem os papéis de Creonte e Jasão, respectivamente. Babaioff entra nesta turnê no lugar de André Arteche. “Nossas perspectivas são as melhores. Estamos todos muito animados com esta turnê por Portugal. Esperamos que seja um grande sucesso”, disse Izabella Bicalho. “Meus amigos portugueses que viram o espetáculo no Brasil disseram que temos tudo pra dar certo lá”. HISTÓRIA O musical foi criado em 1975, quando Chico Buarque e Paulo Pontes adaptaram a tragédia “Medeia”, de Eurípedes, à realidade brasileira, dominada pela censura federal e repressão ideológica. A montagem original contou com coreograa de Luciano Luciani, cenograa e gurino de Walter Bacci e direção musical de Dori Caymmi, sendo que a direção geral foi de Gianni Ratto. Os atores principais, que viviam os personagens Joana e Jasão, foram interpretados por Bibi Ferreira e Oswaldo Loureiro. Com uma grande carga poética, o espetáculo emocionou a crítica e o público, tornandose um grande sucesso do teatro brasileiro, sendo assistido por milhares de pessoas. Após 30 anos, o musical apresentou, em nova turnê, uma abordagem contemporânea, com novos arranjos musicais, e assim, recebeu diversos prêmios no País, tendo estreado no Rio de Janeiro em 2007. Nesta nova versão, a personagem Joana é uma mulher batalhadora que vive nos subúrbios de uma grande cidade brasileira, a Vila do Meio-Dia, e que é abandonada pelo marido Jasão, que a troca por uma mulher muito mais jovem e rica, lha de Creonte. Enquanto a mulher ca destroçada pela dor da traição, Jasão, o ex-marido, vive dias de felicidade ao lado de Alma, desfrutando do sucesso do samba “Gota D’Água”, que não pára de passar nas rádios da cidade. A peça “O que Será (À Flor da Pele)”, “Partido Alto”, “Comadre Joana”, “Vila do Meio Dia”, “Paó”, “Virgem Matriaracarum” e o principal, “Gota D’Água”, são alguns dos temas interpretados ao vivo neste musical. O espetáculo “Gota D’Água” já tem nova turnê conrmada em Brasília (DF), em junho deste ano. Segundo Izabella, “provavelmente haverá novas turnês pelo Brasil”.

FICHA TÉCNICA
Texto: Chico Buarque e Paulo Pontes Música: Chico Buarque Direção Geral: João Fonseca Direção Musical: Roberto Bürguel Cenário: Nello Marrese Figurino: Natália Lana Coreografia: Édio Nunes

ELENCO
Joana: Izabella Bicalho Jasão: Armando Babaioff Creonte: Cláudio Lins Corina: Cláudia Ventura Egeu: Luca de Castro Alma: Maíra Kestenberg Zaíra: Sheila Mattos Xulé: Ronnie Marruda Cacetão: Lorenzo Martin

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Abril de 2009

Jornal de Teatro