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Nº 12 | II SÉRIE | ANO XIV | 5€

As belas artes
de Joana
Vasconcelos
em Versalhes
Habemus novo
barca velHa
aveleda vence
em prova cega
Peixe português porquê?
«É vivinho da costa!»
RESERVA 2008 DA ROMEO
PARA FUMAR SEM DELONGAS
SUMÁRIO
(
12
O peixe não puxa carroça, como diz o povo. Mas
foi a base dos pobres ao longo da História. E os mais
abastados também lhe reconheceram os méritos.
Hoje, é o que se sabe. E o nosso, o português, foi
alcandorado a melhor do mundo.
24
A ala nascente do Terreiro do Paço
animou-se com a implantação de uma área
de restauração, divertimento e cultura.
Condicionado o trânsito, arranjado o piso,
as esplanadas avançaram e o a praça tornou-
se um terraço sobre o Tejo.
32
Um hotel vínico em Vila
Nova de Gaia, o Yeatman,
albergou uma etapa da
Rota das Estrelas. Lá
compareceram laureados
portugueses com o
Michelin e fzeram pratos
que fcaram na memória.
Como o pôr-do-sol,
que juntou os chefes no
terraço, a beber um copo,
e a gozar a paisagem
sobre o Porto.
26
Muitas das receitas consagradas incluem
natas nos ingredientes. Mas as mais recentes
aboliram-nas, sem aparente diminuição de
qualidade. O vencedor de 2012 no concurso
do melhor pastel de nata de Lisboa foi
atribuído à Pastelaria Aloma, em Campo
de Ourique. Sem segredos guardados a sete
chaves, para contrariar os de Belém.
8
Olga Roriz foi a primeira contemplada com o Prémio União Latina. Aos
57 anos faz o balanço de uma vida de dança e coreógrafa e das exigências
do trabalho, que a remetem para uma alimentação cuidada. «Nunca se diz
que não a um Pêra Manca branco», admite a propósito de vinhos.
SUMÁRIO
(
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Editorial
Fama e Proveito - Olga premiada
Zambujal e os Portugregos
O nosso cantado peixe
Um livro pedagógico
O peixe em Tavira
O peixe em Catânia
O peixe transmontano
Terreiro do Paço chega-se ao rio
Os natas premiados e os outros
Comme à Lisbonne, natas
Um céu cheio de estrelas
Nuno Diniz ácido
Harmonia em Churchill’s maior
Fialho fanático do que é nosso
Barcelona à mesa
Barca Velha de regresso
Aveleda ganha em prova cega
Saramago, 50 anos de carreira
Vinhomania
Há novidades no fumo
A arte de enrolar charutos
Glenfddich e os portugueses
Automóveis para todos
Tavira e a sua ria
A Casa da Calçada…
… e a Casa Redonda do Pinhão
Nuno Ferreira foi à pesca
O livro vai de carrinho
Vila Real e os seus mistérios
Joana em casa de Antonieta
Estrangeiros na Gralheira
Avis Rara nascida
Música, nossa
Música, escolhas
Morisson, o actor de Lopes
Oliveira em Veneza
A poesia é para comer
Puro & Duro
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Fialho deixou uma receita de arroz de perdizes
que «modestamente» o espantavam. Isso por
causa «da concepção genial que uma simples
perdizes chisparam do meu estro». Uma espécie
de reacção à desnacionalização da cozinha,
«o primeiro avanço da derrocada dos povos».
52
Eram 14 as garrafas de rótulo
previamente ocultado dadas à prova
dos membros de um júri escolhido
pela EPICUR, em que pontuava uma
especialista – Vera Moreira. O preço
unitário de cada uma das seleccionadas
rondava os dez euros. O ganhador foi
o Aveleda Reserva da Família 2011
120
Rui Morisson é um dos actores que Fernando
Lopes preferia. Homem da rádio, recusa
falar disso. É o realizador que mobiliza as
recordações, os comentários, as saudades.
«Penso no Fernando quase todos os dias, quase
todos os dias penso em cinema», sintetiza.
84
Nuno Ferreira, quase a terminar o seu
«Açores a pé», apanhou o barco. A tripulação
do Ponta dos Mosteiros acolheu-o a bordo
e foi mostrar-lhe como a tripulação se lança
na faina, com o atum como alvo muito
interessante. É uma espécie muito rentável.
6
A revista, está bem de ver – por muito gozo
que dê na germinação, forescência e amadu�
recimento – não nos é destinada: são os seus
leitores que lhe dão utilidade e razão de ser.
Ao seu encontro partimos, procurando sedi�
mentar relação e diálogo, enquanto busca� e diálogo, enquanto busca� , enquanto busca�
mos atingir novos públicos. Sem desvirtuar
matrizes ou trair espectativas que são base
de fdelidade e de saudável cumplicidade.
Como apenas dependemos de nós, não
estamos obrigados a seguidismos ou vassa�
lagens serôdias, redutoras e castrantes de
imaginação ou iniciativa. Recusando de�
pendências e “capelinhas” ou submissões a
centros de interesses. Cada vez mais mergu�
lhando no que de bom e de diferente se faz
no campo da gastronomia e dando especial
atenção aos fenómenos de mutação e evo�
lução da produção (e comercialização) dos
produtos portugueses. Num caso e no outro,
terá de existir especial cuidado em separar
o que de qualidade real se faz daquilo que é
“ruído” gerado em torno de alguns segmen�
tos que, sendo importantes, não esgotam a
riqueza de um universo mais amplo que se
afrma e ganha terreno.
Já aqui o dissemos e reafrmamos, que, das
crises, o único benefício que poderá advir
será o destaque dos que se afrmam contra
dificuldades e intempéries, deixando para
trás alguns ditos “intocáveis” que só manifes�
tam notoriedade em tempo de vacas gordas.
Claro que, quando escrevemos coisas des�
tas, não podemos passar em claro o drama
de centenas de pequenos empresários da
restauração, alguns deles bons intérpretes
nas suas regiões da genuinidade das nos�
sas tradições gastronómicas, ameaçados de
encerramento e falência com a inevitável
queda no desemprego dos seus trabalhado�
res – imolados no combate ao défce e nau�
fragados na maré crescente do IVA e demais
imposições legais.
Mas agora estávamos apenas a olhar,
numa perspectiva egoística, a EPICUR e
o seu relacionamento com actores e par�
ceiros de áreas que são nosso terreno de
actuação privilegiado. Pretendendo ape�
nas significar que, do mesmo modo que
investimos no alargamento da nossa área
de infuência a públicos de que andávamos
distraídos, também o queremos fazer em
relação a segmentos produtivos que me�
recem e justificam uma abordagem mais
constante e cuidadosa.
Tínhamos prometido uma maior aten�
ção aos lazeres de fruição de paisagens e
patrimónios, cumprimos� E fazemos afrma� umprimos� E fazemos afrma�
ção de fé de continuar a passear e a saborear.
Sem perder o pé em relação àquilo de que
gostamos: entre um bom uísque e um cha�
ruto de eleição, cultivar o prazer da conversa
e a elegância da palavra.
Sabemos que esta Revista apenas se jus�
tifica com o toque do papel e o cheiro das
tintas. Por isso não parámos de melhorar a
qualidade de impressão e de arranjo gráfco.
Mas não desprezaremos novas plataformas
de comunicação que permitem encurtar dis�
tâncias e encetar diálogo com leitores de lín�
gua portuguesa em qualquer outra margem
de mar…
Não é impunemente que é nossa a maior
revista digital que conta o país interior
e o desenvolvimento regional: o “Café
Portugal”� Também não se deve ao acaso que
tenhamos sido nós a criar a maior página do
Facebook que conta Portugal – o Descobrir
PORTUGAL”, que ultrapassou o meio mi�
lhão de membros e agora aposta no reforço
da sua posição no Brasil.
Mas, este ano de redobradas apostas, fca
também marcado pela edição do “Portugal
a Pé” de Nuno Ferreira. Em poucos meses
apresenta já um signifcativo desempenho
no quadro de vendas das livrarias portugue�
sas. E, por estes dias, é também com o nosso
apoio que aquele jornalista peregrina, a pé,
paisagens e rostos de todas as ilhas do arqui�
pélago açoriano.
Em relação à EPICUR propriamente dita,
a uma maior abrangência de temas quere�
mos juntar o aprofundamento das suas va�
lências mais técnicas. Regressamos às provas
Editorial
ruidiasjose@epicur.pt
HÁ ALDEIAS QUE SÓ VIVEM DO VINHO
E OUTRAS QUE PRECISAM DOS AVIÕES…
O tempo escoou-se num
repente. Já dois anos?
Já 12 números desta nova
vida da Epicur?
E aí está ela feita aposta
e vontade de contar prazeres
e seduções. Mesmo em
tempos de crise… Apostando
na imaginação que falta
aos responsáveis políticos,
irrequieta nas interrogações
e nos desejos, senhora de si
nas afrmações de excelência
dos produtos que experimenta
e conta, atenta ao país
que a explica mas sempre
pronta a alargar vistas e desejos.
7
de vinhos e passaremos a promover três por
ano: uma para os brancos, outra para os vi�
nhos do Porto e a terceira para os tintos.
Tudo isto a signifcar que os compromissos
que anunciámos há dois anos permanecem
intocados. A contraciclo! Com as crescentes
difculdades da conjuntura! Mas, também,
com a energia, o empenho e a paixão de
acreditar no que fazemos, na sua utilidade e
capacidade de êxito.
A CULPA NÃO É DO VINHO…
Das imposições da Troika de redução do
défce e das premências governamentais de
crescimento (a qualquer preço) das expor�
tações, o vinho não fca de fora. � excelên� � excelên� excelên�
cia dos néctares prometem�se capacidades
(e disponibilidades) de marketing externo.
Todos os caminhos parecem ser bons se de�
saguarem em vendas ao estrangeiro!
Mas, nos últimos anos, assistimos a um
proliferar de marcas que irá constituir dif�
culdade acrescida à penetração em mercados
e à rendibilidade do negócio. Afrmar a ima�
gem de tantas designações junto de poten�
ciais compradores externos é complicado e
exponencialmente oneroso. A algumas pro�
duções de reduzida dimensão só restará a
aposta em mercados de nicho. Outros (pou�
cos) poderão aspirar a uma presença regular
e a uma visibilidade mais signifcativa.
Garanto que nada percebo de marketing
de vinhos, nem sou profundo conhece�
dor dos circuitos externos da sua comer�
cialização. Mas, como leigo na matéria,
interrogo�me em relação ao modo como
conseguirão a quadratura do círculo de
aumentar significativamente os volumes
de vendas ao estrangeiro com tão dispersa
oferta. Reconheço que deverão caber às en�
tidades ofciais da área do comércio externo
as campanhas�âncora de promoção dos vi�
nhos portugueses. Mas mesmo assim… Já
agora, entre custos de rotulagem, de afr�
mação de marca, de acompanhamento
dos mercados, etc. – quanto custará a co�
locação à venda de uma garrafa? Das tais
de produção reduzida e de comércio quase
seleccionado…
Face à capacidade de exportação de chi�
lenos, sul�africanos e outros, muitos dos
nossos vinhos de melhor qualidade irão
quedar�se por algumas lojas “gourmet”
de umas quantas capitais. Enquanto isto,
aquilo que na sua maioria está a chegar às
grandes superfícies de muitos países são
produtos vínicos portugueses de baixa qua�
lidade, destinados a serem vendidos baratos
e de forma nada prestigiante para a vinicul�
tura portuguesa.
Pode até acontecer que eu dê de caras
com marcas de que nunca tinha ouvido
falar antes de me deparar com elas nas pra�
teleiras de um supermercado da estranja.
Esmiuçados os rótulos, posso até descobrir
que são da responsabilidade de conceituados
produtores e apenas engarrafadas para ex� apenas engarrafadas para ex�
portação. Não acredito que, na generali�
dade, deixem uma imagem favorável a um
reconhecimento crescente da qualidade dos
vinhos portugueses. Mas, eles é que sabem,
eles é que têm de vender e de sobreviver à
custa do negócio…!
Eu fico apenas com as minhas interro�
gações: de que modo a política da mul�
tiplicação de marcas e de rótulos (para
mercados mais exigentes) se conjuga depois
com aquela estratégia de presença nos seg�
mentos mais baixos do consumo? Não per�
cebo… mas deve ser problema meu. Pelo sim
pelo não… prometo nunca arriscar debicar
alguns daqueles líquidos que nunca pres�
senti entre nós.
O vinho não tem culpa nenhuma. Até por�
que, face ao gradual abandono dos campos e
à crescente desertifcação do Interior, a cul�
tura da vinha – a par da oliveira, de algumas
frutícolas e da carne – afirmou�se como o
principal argumento de fxação do que resta
de mão�de�obra activa nas nossas aldeias.
Qualquer problema nesta área terá conse�
quências desastrosas. Como já se está a per�
ceber no Douro…!
Restará um voto de confança a tanta gente
que dedicou vida e saberes ao vinho. Que
nele investe o que tem e o que não tem. Que
dele quer fazer futuro e herança!
A VER OS AVIÕES PASSAR…
Este vai ser um ano de férias baratas,
quem puder aproveitar… que aproveite!
Apanhadas nas malhas da crise, as unida�
des hoteleiras estão a vender ao desbarato.
“Compre 5 noites, durma 7”, “descontos
de 35%” e muitas outras frases como estas
constam dos anúncios que por aí circu�
lam. Nunca se viram hotéis de 5 estrelas a
fazer publicidade tão agressiva e saldos de
tão grande dimensão. Já me vi obrigado a
bloquear o acesso à minha caixa de correio
electrónico a muita desta gente, recusando
sequer visualizar tão “aliciantes” propos�
tas. Ou então não faria mais nada senão ler
publicidade hoteleira.
Se na perspectiva do consumidor a baixa de
preços é uma hipótese sedutora, o reverso da
medalha não é muito agradável: vamos ter
falências em série e encerramentos de uni�
dades. Com os subsequentes despedimentos
colectivos.
A não ser… que os estrangeiros caiam do
céu! Mesmo com a crise que também os be�
lisca. Até os que estão melhor viajam menos.
Que o digam britânicos e franceses. Este ano
muitas das expectativas voltam�se para os
alemães e os russos. Mas o que vinha mesmo
a calhar eram os nórdicos. Como seria inte�
ressante o regresso aos tempos do mito do
macho latino e o Algarve carregadinho de
suecas…
A complicar tudo, os mercados interna�
cionais estão cada vez mais fluidos. Com
os grandes operadores a reagirem casuis�
ticamente a qualquer crise nos mercados
receptores. A situação grega e os últimos
desenvolvimentos no Egipto poderiam –
em última análise – beneficiar o Algarve.
Veremos o que as escolhas de última hora
vão ditar. Porque, da forma como as coisas
evoluem, já não há centros de estudos turís�
ticos em cujas previsões se possa confar.
Valerá a pena reforçar as apostas em rela�
ção aos fluxos provenientes do Brasil afir�
mando Portugal como porta de entrada dos
brasileiros na Europa e aproveitando o pres�
tígio que a TAP detém do outro lado do mar.
Pelo menos enquanto a companhia de ban�
deira não for alienada a capitais estrangei�
ros. O que, sendo uma forma de arrecadar
dinheiro e minorar o défce, constituirá uma
bomba�relógio para o nosso sector turístico:
quem comprar passa a deter as licenças de
voo e voará para onde quiser, poderá até –
se essa for a opção estratégica dos futuros
donos – deslocalizar o centro das operações
de tráfego para onde muito bem entender e
abandonar Lisboa. Passaria a ser maior o nú�
mero de brasileiros que chegam à Europa via
Madrid. E que, muito dificilmente, passa�
riam por Portugal.
Ou seja, muito do dinheiro arrecadado
com a venda da TAP teria sumiço imediato,
consumido pelas previsíveis quebras de re�
ceitas que adviriam da perda do emergente
mercado turístico brasileiro.
APROVEITEM, SABOREIEM…
E, por falar em férias, este é o número da
EPICUR que irá acompanhar muitos dos
nossos leitores nos seus tempos de veraneio.
Desejamos que a aproveitem bem e que
sejam retemperadores os vossos dias de fé�
rias (activas, passivas, assim…!). Se algumas
das pistas e sugestões que preenchem a re�
vista � dos vinhos aos passeios � vos parece�
rem úteis… usufruam delas! E depois, digam
qualquer coisa!
Cá nos encontraremos para a EPICUR de
Setembro.
Até lá…
8
A entrevista decorre no espaço da companhia que tem o seu nome,
na Rua da Prata, em Lisboa. Aparece como dança: descalça. A saia é
comprida e esvoaça. Porque Olga Roriz não caminha. Dança sempre.
Foi surpreendida por um galardão inesperado: o Prémio União
Latina que, pela primeira vez, distinguiu uma personalidade da
área da dança e da coreografia. «Tem uma dimensão e prestígio
muito importantes, mas ao mesmo tempo faz sentido. São dez
anos de prémios e, pelas pessoas já galardoadas, tem a ver com uma
longa carreira.» A verdade é que a música também ainda não foi
representada e não há tantos core�grafos, como arquitectos ou escri� tantos core�grafos, como arquitectos ou escri�
tores. «Não somos assim tantos e, sobretudo com essa característica
que tem a ver com um nome de uma pessoa», explica. Num gesto que
se percebe ser característico, passa as mãos pelo cabelo, afastando�o
do rosto. «Mas é sempre bom o reconhecimento. É muito importante
e, neste caso, é dividido por todos os artistas que trabalham comigo.»
Olga Roriz tem 57 anos e uma carreira praticamente da sua idade.
«Embora tenha começado aos 20, aos três anos já andava a dançar.
Por isso, sim, acho que a minha carreira tem a minha idade. Tem a
minha idade com vários percursos.»
A conversa regressa ao prémio com a core�grafa a explicar que
«uma carreira não se faz sozinha e a minha ainda menos. O escritor
pode fazer tudo sozinho, é um solitário. Um pintor também. Mas o
core�grafo não existe sem os bailarinos, a produção, etc., e todas as
pessoas que me infuenciaram.» Fala de Jorge Salavisa, «que foi meu
padrinho, a pessoa que acreditou em mim e me fez estar no lugar
certo no momento certo. Se tivesse outro director naquela compa�
nhia que não acreditasse em mim tudo teria sido diferente. No Ballet
Gulbenkian estava tudo preparado para me acarinhar. A pessoa do
Jorge Salavisa foi muito importante na minha carreira.»
É core�grafa ou bailarina? «Sou as duas coisas. São indissociáveis
uma da outra. Já quando era pequenina e ainda nem sabia dizer a
palavra, explicava o que queria fazer. Eu pensava que cada bailarino
fazia as suas danças e a minha mãe disse: ‘Isso são os core�grafos’. E
eu respondi: ‘Eu quero ser isso’. Mas achei que um bailarino é não s�
um intérprete mas também um criador. Ou deveria ser.»
Considera que esta sua actividade é alguma coisa que não está nela,
«não cresceu ao longo da minha formação como bailarina. Pelo con� não cresceu ao longo da minha formação como bailarina. Pelo con�
trário, já existia e a minha formação como bailarina veio completar a
parte artística e técnica, sem conseguir tirar de mim a esselado criativo.
Às vezes, quando se passa na adolescência por esse período muito rí�
gido de aprendizagem técnica, vai�se perdendo…»
Sempre teve que ter muito cuidado com a linha, porque a família tem
tendência a ser mais forte. «Tenho de ser muito rigorosa. Não acho que
eu seja magra. Sou normal.» Contudo, gosta de comer. «Gosto muito
e gosto de tudo. É mesmo assim. Mas não como de tudo. Sou muito ri�
gorosa com a minha alimentação. Há praticamente dez anos que sou
macrobi�tica. Sou fanática por uma alimentação saudável. Não como
carne, nem fritos, nem doces e quase todos os alimentos com que co�
zinho são integrais.»
Todavia, quando diz gostar de «tudo», envolve doces e salgados.
Aprecia os mais variados tipos de cozinha, desde o chinês, ao japonês,
francês, ao cozido à portuguesa. «De tudo, desde que esteja bem feito.
Assim como me delicio s� com uma salada e um iogurte.»
Também cozinha bem, mas tudo de improviso. «Actualmente a
minha especialidade é o tofu e legumes, com várias coisasespeciarias.
E invento.»
Quanto a vinhos, «os brancos, desde que sejam bons, ainda que tal
não seja muito bom para os músculos». Mas, verdadeiramente, os seus
preferidos são os tintos alentejanos, em detrimento dos do Douro.
«Nunca se diz que não a uma Pêra Manca branco, já que o tinto nunca
provei. É muito caro. Nunca daria esse dinheiro por um vinho.»
O verde tinto, mais da zona onde nasceu (Viana do Castelo) provoca�
�lhe acidez no estômago e «qualquer coisa que me faz mal, eu digo
logo que não gosto. Há alguma coisa que o meu corpo deixa de gos�
tar. É maravilhoso, o meu corpo é super�inteligente e diz que não. Até
agora , tem reagido assim, felizmente».
Começou a fumar aos 33 anos, depois de ter a segunda flha e de
decidir que não queria ter mais crianças. «E já estava num ponto da
minha carreira… O meu marido fumava e eu achei que podia fazê�lo,
porque já não estava a fazer tanto es�
forço físico.» Hoje, fuma, em média,
cinco a oito cigarros por dia, «por
puro prazer».
Regressa ao seu corpo. «Sou à por�
tuguesa, tenho anquinhas (e di�lo,
entre risos, com acentuada pronun�
cia do Norte)». Reconhece que não
é o prot�tipo de bailarina clássica.
Mas defende que esse, hoje, «já co�
meça a estar um bocadinho longe da
realidade porque, felizmente, já se
olha para o corpo de uma bailarina
do ponto de vista da sua linguagem,
da sua qualidade de movimento, da
sua dinâmica, e não das suas for�
mas». Ressalva: «Obviamente que
Nunca diz que não a um Pêra Manca branco, não tem corpo de bailarina, não sabia dizer
coreógrafa quando descobriu ser essa a sua vocação. Olga Roriz recebeu, aos 57 anos, o
Prémio União Latina 2012. Atente-se à sua estatura física e perceba-se que não estamos diante
de uma mulher baixa, mas antes de alguém muito «concentrado» e, sobretudo, completo.
Olga Roriz, a coreógrafa antes de dançar
Uma dádiva por inteiro
TEXTO MARGARIDA MARIA
FAMA E PROVEITO
(
9
depende das companhias em
que uma pessoa está e dos
coreógrafos.»
Embora já tenha feito três fl-
mes – estreou o primeiro em 2006,
Felicitações Madame, seguindo-se A
Sesta, em 2007, e Interiores em 2010 – es-
pera a oportunidade de fazer A Floresta.
«Trata-se de um orçamento muito ele-
vado. Tem argumento e é para ser feito no
Buçaco, na mata e no hotel, e no jardim. É
uma mulher e dois homens. E pronto!»
Afrma que não faz «a mínima ideia» de quem
é Olga Roriz. E reitera: «Não faço a mínima ideia!»
Atira a cabeça para trás numa imensa gargalhada.
«Claro que faço!»
Define-se como uma mulher «apaixonada» que
entra «nas coisas a �00 por cento. �s vezes traz dissa- nas coisas a �00 por cento. �s vezes traz dissa-
bores, o que é normal, mas, no meu caso, no cômputo
geral, trouxe benefícios. O que é que me acontece?
Dou-me toda e ao dar-me assim não faço distinções.
Como a dança e tudo o que está à sua volta, como a
escrita, a fotografia, a minha visão e o meu olhar, a
vida, o céu, sei lá, está em tudo, está em todo o lado».
Por isso, o amor foi muitas vezes sacrificado, por
este outro amor. «Não se passa assim de um lado para o
outro. A minha profssão é muito absorvente. Uma vida
muito absorvente, sem momentos mortos. E quando tem, sento-
-me no canto do sofá a pensar e a criar. Estou sempre em criação. É
o que eu faço: não é uma coisa do saber, do querer ou estar.»
Pára, como se se perdesse nas palavras. E depois: «Acordo assim
e adormeço assim, e ainda sonho assim. Não há volta a dar-lhe, e
também não quero dar-lhe volta nenhuma. Está tudo bem. Está
tudo no seu lugar.»
Com veemência declara que é feliz: «Sou, sou!» E fala mais das
suas características «deste dar-me, desta paixão do ser». Uma
melancolia ensombra-lhe o olhar. «Sim, por vezes fico triste e
melancólica, mas é do meu semblante, é normal.»
«Sou uma mulher muito séria, talvez pela minha própria profssão
em que tenho de ser muito, muitíssimo disciplinada e organizada.
Sou uma pessoa que faz anteontem o que era para fazer ontem.
Portanto já está feito. Quando me pedem, já fz.» Uma verdadeira
workaholic, «porque trabalho, trabalho, trabalho, e o trabalho, para
mim, é um prazer. Daí que tenha a capacidade de dar «gargalhadas
imensas e, se não as der todos os dias, então não é dia.»
Reconhece que as flhas, hoje adultas, se ressentiram da sua dedi-
cação ao trabalho. «As duas sim, sim, sim. Só que têm um orgulho
muito grande na mãe.»
UMA FAMÍLIA PRESENTE
Nascida em Viana do Castelo, sobrinha-neta do Padre Cruz – «sou
muito parecida com ele no rosto» – vem de uma família já dife-
rente à época, mas sempre muito presente. Os pais casaram, qual-
quer deles em segundas núpcias, o que então não era vulgar. Ele,
engenheiro naval, era muito criativo, e a mãe, jornalista, dedicou-se
por inteiro à carreira da flha, deslocando-se para Lisboa, quando,
em 1959, Olga iniciou os seus estudos de dança na capital, com
Margarida de Abreu.
Aliás, no dia em que decorreu esta entrevista e em que Olga Roriz
partia para o Brasil, lá estava a irmã para lhe dar os últimos afectos
antes da viagem.
Em 1975 iniciou a colaboração como bailarina no Ballet
Gulbenkian, mas foi no ano seguinte que integrou o elenco dirigido
por Jorge Salavisa. Criou a sua primeira coreografa Que loucos que
somos! Tu não és? para o Atelier Coreográfco do Ballet Gulbenkian,
em 1978.
Segue-se um longo percurso artístico que mereceu diversos pré-
mios e galardões, tendo, pelo meio, em 1995, fundado a sua própria
companhia – Companhia Olga Roriz.
Agora, tem A Floresta em lista de espera…
10
11
Nunca tanto como agora se justificou que
um cronista do quotidiano inicie a prosa
com a frase cautelar: «No momento em que
escrevo estas linhas...» O momento. Os mo-
mentos sucedem-se, vertiginosos, e os factos
acotovelam-se para desfrutarem do seu mo-
mento. Um pobre consumidor de informa-
ção ainda não teve tempo para avaliar uma
novidade, já ela deixou de ser a novidade.
Há outra. E logo outra que contraria a ante-
rior. As certezas tornam-se incertas porque
amanhã, ou ainda hoje, logo mais, muito
pode ser diferente. Os noticiários galopam
tentando perceber os desenfreados acon-
tecimentos, mas tropeçam em inesperáveis
desvios. Saltita-se entre o desânimo e as pa-
lavras de confiança. Nas bolsas. Nos sinai-
zinhos das estatísticas. Nas declarações dos
políticos. Nos inquéritos de rua.
Entretanto, estamos de olho na Grécia.
Respira-se o medo, mais ou menos disfarçado,
de que os gregos vão apenas um ano à nossa
frente mas o caminho e o destino são os mes-
mos. No ponto em que nos encontramos esta-
ríamos como portugregos.
«No momento em que escrevo estas
linhas...» - precata-se o cronista. Pobre
dele, não sabe o que virá próximo. Trágico
e hilariante é que ninguém sabe. Desfilam
políticos e economistas pelos ecrãs das
televisões, pelos microfones das rádios, palas
páginas dos jornais. Sabiamente nos falam
do que se passou, não nos dizem o que se
vai passar. Cada dia tornou-se embalagem
fechada com conteúdo mistério. Ena, olha o
trambolhão que deram hoje as bolsas!
- O que diz esse estudo? Mau, e o outro?
Enfm, sempre é um pouco melhorzinho.
- Que desgraça, tantas empresas a fechar,
não tarda os desempregados chegam ao
milhão!
- A Auto-Europa, hã?, vendo bem, temos em-
presas muito boas..
- Ainda aumentarão mais os impostos?
- O problema é europeu, a Europa e que tem
de resolver.
- Isso é o que dizem os gregos.
No momento em que escrevo estas linhas
brilha, grátis, o nosso estupendo sol, muitos
portugueses trabalham e outros gostariam de
fazer o mesmo, na esplanada discute-se fute-
bol, aparece um homem de meia-idade a pedir
«uma moedinha», um autocarro despejou
crianças com mochilas às costas e tento adi-
vinhar como será o país deles quando forem
crescidos. De súbito não tenho dúvidas, nada
os forçará a deixar Portugal. Com ou sem
euro, isso é que não sei.
MÁRIO ZAMBUJAL
Cronicamente
Portugregos
12
O mais provável é que o leitor já se tenha deli-
ciado com um almoço de peixe grelhado, nestes
dois primeiros meses de tempo quente. Em al-
ternativa, uma fritada de peixe, uma caldeirada,
quem sabe, mesmo uma cabeça de cherne cozida,
ou coisa que nos valha – com as batatas de regra,
os legumes. E o azeite, está feito. Um assado no
forno, pargo, a cebola, tomate, umas fatias de
toucinho a olear com a salmoura inerente.
A bondade do produto, a sua popularidade,
é frequentemente motivo para juntar família
numa sardinhada, mesmo só amigos, que fcam
à conversa. «Mais uma sardinha para acabar
o pão, mais pão para acabar a sardinha», vem
no adagiário. E um tinto que corte a gordura,
mesmo um branco, por que não um jarro de
sangria…
Há-de ser português, o peixinho. É coisa apa-
rentemente descoberta agora, quando um
especialista como José Bento dos Santos apadri-
nha uma obra, de Fátima Moura, feita «estado
da arte»: pós de história, breviário científico,
incursão pela moderna culinária, receitas várias
dos chefes que dão cartas, incluindo estrangeiros
rendidos à evidência da matéria-prima.
Há quanto tempo se juntam os portugueses à
volta desta mesa, construída com base nas pesca-
rias secularmente abundantes? Já Raul Brandão,
em Os Pescadores, registava «a piscosa Sesimbra»,
até os historiadores dão a abundância de peixe
como uma das boas razões para a demanda da
Península Ibérica pelos fenícios, cartagineses, ro-
manos. Mas, será por acaso, apenas por razões
comerciais, que a peixeira no mercado lhe expli-
cará: «É caro, mas é do nosso mar»?
Claro que a fartura de produtos agrícolas, mais
a caça e o gado criados nos matos, consolidaram
essa garantia histórica de um mar fértil. Alfredo
Saramago considera, na sua obra, por exemplo,
que, na Idade Média, «a variedade da alimentação
era garantida no conjunto com um peso signif-
cativo da presença de carne à mesa das classes po-
pulares». Um «facto insólito e fora do comum na
História da Alimentação», regista o gastrónomo
e antropólogo.
O tempo não parou nos fenícios, cartagine- não parou nos fenícios, cartagine- fenícios, cartagine-
ses e romanos. Não, já Olisepona navegava em
«tempos de grandes perturbações, desde o de-
saparecimento do Império Romano até aos su-
cessivos domínios dos povos bárbaros», que
incluíam os germânicos. Ainda assim, o porto ex-
portava garum e peixe salgado, uma herança dos
pioneiros.
Comida de rico, o peixe, no tempo dos roma-
nos. Saramago atribui aos pobres uma alimen-
tação assente na trilogia pão-vinho-legumes,
enquanto a «de pão-vinho-carne (ou peixe) foi
refeição de ricos». «Consideradas comidas de
rico eram as ostras (…) o peixe (…) e o garum que
Olisipo tanto exportava».
UM BANQUETE DE D. SEBASTIÃO
Vem dos fundos da História o princípio de que
«o peixe não puxa carroça» e tal terá favorecido a
consolidação do prazer da carne, que se impôs ao
longo dos tempos, apesar das limitações religio-
sas que remetiam sempre que possível para jejuns
e contenções à base de peixe.
A discussão sobre o que era peixe em cada reli-
gião cruzou, assim, séculos – com escama ou sem
escama, no confronto judaico-cristão. Ou, até, se
a lagosta estaria no domínio do peixe, ou o polvo,
ou a lampreia…Apesar disso, lembre-se o milagre
da multiplicação dos peixes (e do pão…), como o
faz gastrónomo Virgílio Gomes.
Uma pirâmide alimentar citada por José Pedro
Lima-Reis, referente aos progenitores de D.
Afonso Henriques, tinha na base, como prefe-
rências das classes dominantes do condado, os
produtos cárneos, a gordura animal para a con-
feccionar, e o pão. «Nos patamares seguintes, o
peixe, aqui mais por imposição da Igreja do que
pelas paixões que pudesse suscitar, e a fruta»,
regista.
O mesmo autor anota que, em 1125, Dona
Teresa consentiu ao arcebispo de Tui o direito de
pescar lampreia (e há quem lhe recuse a nomen-
clatura de peixe…) no rio Minho, da Lapela para
montante. «Começava cedo o envolvimento do
clero e da nobreza com o saboroso ciclóstomo,
que se vai manter ao longo da nossa história»,
ironiza Lima-Reis. «E explica porque na ucha-
ria de D. Afonso III existiam (…), nada mais nada
menos, do que 1656 lampreias convenientemente
secas para consumo fora de época», acrescenta.
A lampreia «sempre foi tida como manjar de
nobres e, por isso, tem, desde a fundação da na-
cionalidade, lugar certo na mesa das classes abas-
tadas que chegavam a disputar o privilégio de a
incluir na sua dieta». Como prova disso, conta o
autor, Bartolomeu dos Mártires soube, depois de
ocupar a cadeira pontifícia da diocese de Braga
em 1559, que os seus antecessores recebiam, em
fns de Janeiro, as primeiras lampreias pescadas
nos rios da diocese (Minho, Lima e Cávado) e de
imediato as mandavam entregar aos despensei-
ros da corte «para que as pudessem servir frescas
a suas altezas».
Mas o arcebispo não teve dúvidas e decidiu aca-
bar com essa prática, «isto é, pô-las à venda pela
melhor oferta e distribuir generosamente pelos
pobres da diocese o chorudo provento arreca-
dado com o negócio.»
A lampreia é, como sublinha o autor, «a única
TEXTO ROGÉRIO VIDIGAL
Viva o peixe, abaixo as espinhas!
13
BALTAZAR GOMES FIGUEIRA, NATUREZA-MORTA COM PEIXES, CRUSTÁCEOS, CEBOLAS LARANJAS E GATO,VENDIDO PELA CABRAL MONCADA LEILÕES, EM NOVEMBRO DE 2006
14
espécie aquática de que a Infanta [D. Maria]
‘cozinheira’ nos dá receita».
A centralidade do peixe nobre, das espé-
cies que as classes mais altas apreciavam,
assume grandes proporções considerando
um procedimento de D. Sebastião, em via-
gem por terras de Espanha, governada pelo
seu tio D. Filipe II (futuro primeiro Filipe de
Portugal), quando resolveu dar um banquete
em Guadalupe.
E o que compareceu à mesa, relata Lima-
Reis, foi uma rapsódia de frutos do mar que
ia das lagostas às ostras, passando por «amêi-
joas, empadas de cherne, congro e salmone-
tes, bem como azevias, besugos e linguados
fritos». O tio, senhor de poderosa esquadra,
reconheceu: «O certo é que o Rei meu sobri-
nho é o Senhor dos mares», como consta na
crónica de Diogo Barbosa Macedo e Virgílio
Gomes cita.
UMA SARDINHA TEM O MAR TODO
«Uma avaliação de magro», conclui o autor,
considerando os alimentos descritos. «No
entanto, a utilização da lagosta nesses dias
não deveria ser consensual entre os mem-
bros do clero porque frei Bartolomeu dos
Mártires (1514-1590) se recusou a comê-la
no refeitório do Convento de S. Domingos
de Benfica na véspera de S. João porque
era considerado dia de jejum», esclarece o
autor de Algumas notas para a História da
alimentação em Portugal.
Desde sempre, as conservas de peixe fze-
ram o seu caminho, algumas delas, como o
garum, sob a forma de produtos de luxo – o
gourmet actual.
Mas teremos de dar papel central ao baca-
lhau, ainda hoje vedeta. Se caíram as antigas
salmouras de atum, resistem prestigiadas as
moxamas, os carapaus secos da Nazaré, o
litão olhanense, as cãs sesimbrenses… A ca-
neja de infundice.
Lá vai o tempo da sardinha de barrica, mé-
todo de conservação de uma das espécies
que garantiam o aporte de proteína animal
ao povo – as espécies nobres iam a outras
mesas. O peixe escuro, reimoso, era de rodas
baixas e ainda no século XX os médicos o es-
conjuravam pelo perigo para a saúde nas do-
enças circulatórias. Havia de chegar o dia de
todos os ómegas, com o 3 à cabeça. A ser ver-
dade, o povo era só saúde.
As sardinhas, essas, pela popularidade, che-
garam a moeda de troca, pois «a maioria das
vezes constituíam parte do pagamento em
géneros aos servidores do rei». E eram abun- ». E eram abun- . E eram abun-
dantes, confando em escrito de Frei Nicolau
Oliveira, citado por Lima-Reis, garantindo
que em 1620, «com frequência saíam 112
barcos a pescá-la e que, além das que se ven-
diam frescas, havia a possibilidade de recor-
rer às conservadas, uma vez que, pelo menos
na capital, existiam já verdadeiras ofcinas de
salga».
José Quitério homenageia a pobre senhora
enobrecida pela tradição, no seu Livro de
Bem comer. Cita estrangeirada embasbacada
pela prodigalidade da espécie e sublinha
o desdém que lhe votam as classes possi-
dentes, «clerezia e fidalgagem». «Embora
apreciando-lhe o paladar, não deixam de
franzir narizes à fumarada gorda e grossa
que se desprendia dos 'lugares de frigideiros',
poisos ambulantes que se encontravam em
todas as ruas, onde se frigiam e assavam sar-
dinhas para uma multidão afreguesada que,
com pão autotransportado e uns quartilhos
na taberna da esquina, assim refeiçoavam
por reduzidos réis».
«Uma sardinha, uma só, é o mar todo»,
sintetiza Quitério com uma citação de Julio
Camba. Mas acrescenta a recomendação do
hispano-galego de que «mesmo assim, não
deve nunca deixar de se comer pelo menos
uma dúzia». Assim seja.
A MÃO E O SABER AO COMANDO
Peixe há muito, dir-se-á. Tantos são os ocea-
nos, as espécies, os tratamentos culinários…
Os viajantes levam e trazem, trocam expe-
riências, inovam. Mas há dados adquiridos.
Há misturas que não resultam, há condi-
mentos essenciais e outros repugnantes. Há
especiarias adequadas a situações, há pre-
parações em que as especiarias devem fcar
longe.
Dado adquirido será a qualidade do peixe
que se pesca na costa portuguesa, ainda
que sem nacionalismos exacerbados. Outra
certeza irrefutável é a do modus faciendi, o
conjunto de práticas culinárias que a ex-
periência de séculos sedimentou, com
que moldou o nosso gosto, nos propiciou
culinária própria – e em matéria de peixe
tal é uma evidência. Outros, cada um, nou-
tras longitudes e latitudes, com matérias-
-primas diferentes, hão-de chegar aos seus
próprios resultados. Sushi, sashimi, fshfn-
gers, caris de mariscos, molho de peixe. Os
típicos africanos, sul-americanos, mais ou
menos molho, mais ou menos picante, mais
ou menos ceviche.
Peixe assim, como o nosso, é o nosso. «Não
basta, para que o desfrutemos em toda a sua
sapidez e volúpia, que o peixe seja fresco e
de grande qualidade», defende José Bento
dos Santos, gastrónomo das sete parti-
das e presidente da Academia Portuguesa
de Gastronomia (APG), na apresentação
de Portugal, O Melhor Peixe do Mundo, de
Fátima Moura.
«É bem verdade que essas características
proporcionaram, desde sempre, a este país,
uma técnica única de grelhar peixe sobre
brasas de carvão, reflectida numa cozinha
simples mas nunca redutora, pois que ao seu
profundo gosto a mar basta acrescentar um
pouco de calor das brasas», explica.
Hoje, o problema extravasou. Talvez deva
dizer-se que sempre o problema esteve além
das brasas ou das frituras básicas. Tudo in-
dica que o refinamento é uma prática su-
cessiva da culinária, que mediante o êxito
gastronómico foi ganhando direitos de re-
gisto nos receituários. E os tempos correm
de feição à introdução de novos processa-
mentos, saberes, e gostos. A fusão soprada
pela globalização, favorecida pelas auto-
-estradas da comunicação, que são as redes
sociais.
«É absolutamente necessária a presença
dos nossos chefes, daqueles que nos prepa- chefes, daqueles que nos prepa-
ram pratos da nossa riquíssima cozinha po-
pular e de tradição, e dos que foram capazes
15
de se formar nas escolas de cozinha mais
moderna e actual», salvaguarda o presidente
da APG.
HÁ UM MAR, SENHORES…
A história dá-nos conta desse prestígio
piscícola, a ciência procura e dá explica-
ções para os inquestionáveis altos padrões
de qualidade. Facto é que somos «um dos
povos do mundo que desde sempre mais
peixe consumiram», segundo Ricardo
Serrão Santos, presidente do Instituto do
Mar (IMAR) e director do Departamento
de Oceanograf ia e Pescas (DOP) da
Universidade dos Açores, e Filipe Porteiro,
investigador do mesmo departamento.
«Porquê o melhor peixe do mundo?»,
interroga uma das notas inseridas na obra.
A Lusitânia, esclarecem os dois cientistas,
é uma província biogeográfica constitu-
ída por Portugal Continental e os dois ar-
quipélagos dos Açores e da Madeira que
«encerra uma imensa diversidade entre as
suas fronteiras oceânicas: diferentes tipos
de habitats costeiros, recifes rochosos, baías
abrigadas, rias e estuários, e também uma
imensidão de mar aberto». As profundezas
estão semeadas de montanhas submarinas,
constituindo uma zona de transição e con-
fuência de uma enorme diversidade de fau-
nas, desde as boreais às subtropicais.
Já os arquipélagos açoriano e madeirense
assentam numa «complexa teia de monta-
nhas submarinas de origem vulcânica» com
efeitos oceanográficos que conduzem ao
aumento da produtividade local «que ajuda
a manter uma rica diversidade de peixes re-
sidentes, mas que também atrai numerosos
visitantes». Somando as espécies das zonas
baixas dos declives das ilhas, obtém-se
«uma biodiversidade única que só na região
dos Açores atinge cerca de 600 espécies de
peixes – 600 variedades de sabores».
Acresce que à diversidade biológica
corresponde interesse gastronómico, ao
contrário das águas mais a Norte e a Sul.
«A confuência de elementos tropicais, vin-
dos do Sul, com as infuências temperadas
e frias, dos mares do Norte, faz com que,
às nossas latitudes, a diversidade ecológica
das espécies comerciais seja imensa», escla-
recem os cientistas. E há peixes demersais
e pelágicos, litorais e oceânicos, residentes
e migradores, herbívoros, zooplanctívoros,
ou mesmo predadores de topo, que se re-
produzem a todas as estações do ano.
Bastava tanto, mas os nutrientes jogam a
favor, são quase constantes, com ftoplânc-
ton e zooplâncton abundantes, o que vai
reflectir-se na qualidade nutritiva e orga-
noléptica do peixe e marisco portugueses.
Para colocar o produto no topo mundial, há
a qualidade das pescarias de pequena escala,
de linha e anzol e pequenas redes tradicio-
nais – afnal uma actividade sustentável.
Está explicado, sejamos servidos.
Há que não ser exaustivo, por falta de espaço. O problema é que a
alta consideração dos consumidores portugueses pelos produtos
do mar multiplicou o receituário, os aproveitamentos, as soluções.
À beira-mar, como no interior, em fresco ou salgado, seco ou fumado,
grelhado ou guisado, o peixe ganhou um lugar fundamental na
alimentação de um povo amante de carne, mediterrânico no uso dos
vegetais.
O bacalhau sempre, claro, sobretudo na costa Norte e no interior.
No Minho, as lampreias em várias apresentações e preparações, o
sável, salmão, polvo, solha seca frita ou assada, como recorda José
Quitério no Livro de Bem Comer. Ainda a santola no carro e o arroz
de lagosta. O Douro Litoral a alinhar com pescada à poveira, arroz de
sardinha, caldeirada dos poveiros, entre outros. Mas o Porto, e aquele
mundo de sabores que o envolve, com os fletes de pescada, o
congro estufado, e, memória!, a cabeça de pescada à Rosa do Adro,
no desaparecido restaurante Montenegro, em que o nome da
senhora aparecia transfgurado e se tornou verdadeira referência da
casa – A Mamuda.
Registemos a Beira Litoral na ligação às celebradas enguias à moda
de Aveiro, a canja correspondente, as de escabeche, mais o ensopa-
do, a sopa de peixe à pescadora, as espetadas de mexilhão… As
especialidades de peixe da Estremadura fguram neste levantamento
com as caldeiradas da Nazaré, mais as sardinhas fritas e a santola
recheada. E a lista é longa para o Algarve, em que o mar vem à mesa
como petisco, das ovas secas ao biqueirão envinagrado, mais a
caneja alhada. Mas não se fca por aqui, Quitério: a sopa de amêijoas
ou de langueirão, o xerém, a sardinha em tudo o que pode dar, o
polvo igualmente, as caldeiradas, as cataplanas. Mais, José Quitério
sobreleva o atum no seu exaustivo aproveitamento.
Não é só o litoral. O país profundo dos tempos sem estradas
propiciou a criação de pratos seus, as suas janelas de oportunidades
conforme a abundância nos mares mais próximos. A sardinha, na
magnífca bola transmontana, o polvo ou o congro com ervilhas,
também aqui com receituário específco; as trutas e lampreias das
beiras interiores; o cação na sopa perfumada pelo Alentejo.
A Madeira do espada, do atum e lapas, de Quitério deve, ao mar uma
sopa de peixe, as lapas, grelhadas ou de escabeche, ventrechas e
fletes de espada, e variações sobre o atum, com destaque para o raro
bucho de atum guisado. E nos Açores o caldo de peixe, os chicharros
de agraço com molho verde, vários bifes de atum em que a sua parte
de oceano abunda, as garoupas e as abróteas, as lapas de molho
Afonso e de arroz, o polvo guisado que frequentemente aparece na
ementa dos mariscos – pois, aí estão as cracas, por direito natural.
O peixe não pode queixar-se. É bom, mas os portugueses têm dado
oportunidade a que brilhe. E o princípio vai em frente com os novos
cozinheiros, como aqui se vê.
O MAR SEMPRE, EM PETISCOS E PRATOS DO MINHO AOS AÇORES
16
Rodízio de vento em popa
Fomos bem avisados na escolha do Vela 2 como o melhor restaurante para
degustar, mais e melhor, peixe na grelha, em Tavira. Com pequenas alterações
de preço (que a vida não está fácil para ninguém), o conceito de rodízio
mantem-se: comer até querer, muito bem, e pagar pouco.
Numa comunidade representativa da candidatura portuguesa a
património cultural e material da humanidade, a dieta mediter-
rânica faz todo o sentido. Em Tavira o peixe é a vida, é a tradição.
Um dos expoentes, desde há muito, chama-se Vela 2. A ponto de
a casa ser considerada uma das 18 atracções da cidade. É sentar e
esperar, os peixes vão chegando, é comer até querer.
Marido e mulher, donos do restaurante, o senhor Arlindo e a
dona Celeste, esperam-nos sentados ar livre, no espaço aberto
onde descansam das lides ou conversam com amigos. Teve de ser
ao jantar e cedo, a outras horas «seria cá uma confusão...»
Por onde quer começar? E ele: «Olhe, aos vinte anos trabalhei
num bar com um amigo, depois foram seis amigos, durou um mês,
as amizades é que fcaram. Depois noutro bar, o Clube de Vela de
Tavira; daí este nome, Vela 2.»
Na Rua dos Mártires da República conquistou fama e algum pro-
veito. «Levo 30 anos disto, quis ter um espaço próprio. Cá estou,
em Santa Margarida.» Os clientes vêm ter com eles e «alguns tu- » Os clientes vêm ter com eles e «alguns tu- s e «alguns tu- «alguns tu- guns tu-
ristas sabem colher informações».
O peixe vem todo da lota, «é o melhor». Dantes, o senhor
Arlindo ia para lá, às seis da manhã. Agora, tem um amigo que
lhe faz esse favor, «sabe escolher o que vem dentro dos barcos».
Atalha Celeste Guerreiro: «Às cinco da manhã já o meu marido
está ao telefone, a ver que peixe há-de comprar.»
O segredo também passa pela grelha… Sem curso nenhum, con-
sidera-se, meio a sério meio a brincar, o melhor das redondezas.
«É a experiência, é a mão, é o prazer, um dom que nasce com a
gente. Se a mão se descuida, queimou, vai para o lixo, põe novo.»
Pois, a grelha não a confa a ninguém. Desde logo nos desvenda
TEXTO CARVALHO SANTOS FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES
17
que o carvão tem de ser de azinho, que o derivado da for de sal
utilizado na casa é apanhado à mão, nas salinas. «Isto é tudo
muito popular, cada um come o que tem na vontade, a humildade
faz as pessoas grandes.» Uma dose do dia custa nove euros. Os
verdes, tintos e brancos e o Mateus Rosé, para os ingleses, são à
parte. Sem sombra de especulação.
A Celeste, sócia gerente, quase não sobra tempo para fazer festas à
netinha. «Não me sinto escrava, gosto disto, gosto de conversar com
os clientes.» E «isto» está aberto todo o ano, só a segunda há tempo
para a família. Na cozinha estão duas senhoras de confança, «a Inês,
está cá há 20 anos, é o nosso braço direito, a Daniela é boa rapariga».
Arlindo escolhe-nos um cantinho, confdencia que tinha guarda-
das, para nós, umas barriguinhas de atum. Mas que nome vemos
à entrada? Estadium Restaurante! Lá dentro, duas salas enormes,
vivas, bem decoradas e uma esplanada ao fundo albergam 220
pessoas. E há um pequeno horto, uns temperos enquanto duram…
No balcão identifica-se uma representação do Estádio da Luz,
também se vêem, penduradas, camisolas de jogadores. Se é defeito
ou é feitio, Arlindo Guerreiro não se importa, faz gala do seu ben-
fquismo. Assume-o, porém, com simpatia, diz e acreditamos, que
até os portuenses se riem e gostam de ver. «As pessoas vêm aqui
para ser bem servidas e eu sirvo bem.»
E fomos à peixada que já tarde se fazia. Que nos iria caber? Vêm
chocos, sargos, ferreiras, besugos. Juntamos o apetite ao bom
que estava tudo, regado por um fresco Muralhas. E as barrigas
de atum, que delícia! Dessas, repetimos. Por fm, só para tomar o
gosto, provámos as doçarias: de alfarroba, de fgo e de amêndoas.
Prometemos voltar e, claro, recomendamos vivamente.
Vela 2
Campo Mártires da República, nº1 –Santa Margarida,
Tavira 8800-218, tel. 281323661
Descanso: Domingo
UM ROBALINHO NO TRÊS PALMEIRAS
O restaurante Três Palmeiras tem boa tradição em Tavira. Segue
um conceito semelhante ao do celebrado Vela 2: três/quatro peças
por pessoa. Bom peixe, batata, salada, pão torrado barrado com
massa de pimentos, alho e piripiri, embebidos em óleo. Só servem
mesmo peixe grelhado. Vítor André herdou a casa do pai Adelino,
nem tempo tem para um minuto de conversa. O velhinho que es-
tava ao grelhador, esse, então, nem pensar…
Calharam-nos besugos e bicas. E enquanto nos pergunta se fca-
mos «bem assim», simpática, Lucinda já vai trazendo o melhor do
almoço, dois robalinhos de estalar na boca. Um sítio recomendá-
vel, capacidade até 140 pessoas – popular, mas bom e barato.
Três Palmeiras
Vale Caranguejo, Tavira Tel: 281 325840
Descanso: (Verão: encerra ao domingo; inverno: aberto todos
os dias e encerra ao jantar)
LINGUEIRÃO NO PAVILHÃO DA ILHA
Mal se sai do barco, uma série de pavilhões, à partida todos iguais.
Queríamos o Pavilhão da Ilha, lá estava, no meio de tantos, é o
mais afamado. O típico, segundo Eduardo Reis, é o arroz de lin-
gueirão, bife de atum de cebolada, as cataplanas e os joaquin-
zinhos fritos com arroz de tomate. Aconselham-nos dourada
escalada. Devemos ter torcido o nariz, já que Fernando, ao sair do
grelhador comenta: «Nós, algarvios, sabendo dessas coisas, tam-
bém pescamos e só servimos peixe do dia. Robalo e dourada, de
esteiro ou do mar, é quase a mesma coisa… Se o robalo é de viveiro
é cinzento, mais redondo. O que nos dá publicidade é não enga-
narmos as pessoas.»
Ficamos elucidados, não saímos nada mal servidos com a dou-
rada, «do mar», insiste. Bem, mesmo bem, soube-nos a rabujada
de conquilhas, amêijoas e berbigão, oferta da casa. «Esta ilha dá
tudo - amêijoas de várias espécies, a ostra, o búzio, o choco, o
polvo, a canilha.»
O custo de uma refeição é mediano, 30 euros por pessoa.
Pavilhão da Ilha
Ilha de Tavira
Época de abertura: Março à Outubro, não encerra
RESTAURANTE TRÊS PALMEIRAS
RESTAURANTE PAVILHÃO DA ILHA
18
Os caminhos institucionais são peri-
gosos, as ratoeiras da oportunidade e
do oportunismo políticos andam por
aí muito à espreita. Acontece grandes
ideias terem de procurar abrigo apare-
lhístico, ou caírem nesse saco, que ao
caso até pode ser interesse nosso, de
Portugal. E, se não for mais do que isso,
de que queixarmo-nos?
Uma frase de José Bento dos Santos,
nome grande e confiável dos saberes
gastronómicos portugueses, e não só,
irrompeu numa síntese perfeita, frase
publicitária se quisermos, e até agora in-
contestavelmente, perfeita: «Portugal, o
melhor peixe do mundo.»
As grandes ideias podem ficar no li-
mite de um desabafo, num circunló-
quio, numa ironia. Se não surgir o braço
executor, nunca romperá o limbo do
esquecimento. No caso da «venda»
deste peixe, lá está o interesse de uma
estrutura governamental, o Turismo
de Portugal, já manifestado num ante-
rior «Cataplana experience», e agora no
livro dedicado aos nossos «frutos do mar».
Vamos a este, que nos justifica a convic-
ção de que temos mesmo um privilégio de
pescado e de privilegiados. José Bento dos
Santos, presidente da Academia Portuguesa
de Gastronomia e presidente-delegado da
Academia Internacional de Gastronomia,
não está pelos ajustes: «Durante a minha vida
de viajante pelas cinco partidas do mundo,
devo ter provado o peixe e o marisco de todos
os oceanos, de todas as costas, de muitos
lagos e muitos rios», justifca, como coorde-
nador, numa nota introdutória da obra de
Fátima Moura.
Essa condição de «papa-léguas» dá-lhe o
à-vontade bastante para garantir: «Tenho,
para mim, a convicção íntima e segura de que
jamais, em lado algum, encontrei a qualidade,
o sabor e a frescura que rivalizam com o meu
peixe de Portugal.»
«Temos uma pesca que as regras da Europa
ainda não estragaram», completa Fátima
Moura, à EPICUR. «Temos pesca artesanal,
o peixe é bem tratado, chega rapidamente à
lota. Não há aquele efeito destruidor de cer- . Não há aquele efeito destruidor de cer-
tas artes de arrasto, que implicam mau estado
do produto.»
De peixe sabemos nós, portugueses, a
História está aí a testemunhá-lo. O saber e
o gosto dos nossos primevos fxaram-se na
prática quotidiana, nas mãos do povo e dos
entendidos, dos práticos e dos teóricos. Foi
dando frutos diversos, da simplicidade inicial
ao elaborado. A matéria-prima disponível
permite a receita de sempre, correspondendo
a parâmetros consensuais, mas também a
elaborações e sofsticações que se traduzem
em novas texturas e novos modos de cozi-
nhar (e não cozinhar…).
UM LEGADO APRECIÁVEL
«Acho que há lugar para tudo, dos
grelhados aos preparados palacianos»,
admite e elogia Fátima Moura. Lembra o
peixe assado à portuguesa, à lisboeta, e
outras receitas específicas, as cataplanas,
pois então, que ela ajudou a divulgar e a
implantar. Mas ressalva: «O problema é
que surgem as adulterações. A cataplana
não tem nada a ver com o afogueamento do
preparado.»
Tem a ver connosco este raciocínio, pois, lá
está, o peixe está na onda do interesse econó-
mico, as exportações traduzem-se em cifrões
abençoados pela «nossa senhora dos afitos».
Tem a ver connosco, porque consumimos,
sabemos as receitas de sempre, mas vamos
no arrasto das modas, das novidades, novas
ervas e especiarias na preparação, texturas
Peixe português um mundo fsh
UM MANUAL TEÓRICO-PRÁTICO
Portugal o melhor peixe do mundo apresenta,
dir-se-ia que inevitavelmente, um conjunto de
receitas da responsabilidade de cada um dos
oito chefes que exemplificaram as razões do
seu elogio ao peixe português e o que com ele
é possível maravilhar.
Mas vai mais longe, ao explicar «métodos e
técnicas de cozedura», das bases da cozedura
à fumagem do peixe, acessível a nível
doméstico, passando pelo conft, o estufado, o
assado no forno, o papelote (papillote), a
selagem, a fritura, noções básicas que muito
podem ajudar para triunfar em casa.
Fátima Moura e
TEXTO ROGÉRIO VIDIGAL
FOTOS JOÃO FRANCISCO VILHENA
FÁTIMA MOURA E A DEDICAÇÃO AO PEIXE
19
desconhecidas, guarnições surpreendentes
com outros resultados.
O que sabemos, está à vista, salienta José
Bento dos Santos. «Os turistas vêm cá,
comem peixe grelhado acabado de pescar
e vão daqui a dizer que é muito bom… Mas
temos de desenvolver isto nas escolas de ho-
telaria, ter garantia de que o preparado cor-
responde… Têm de ir daqui a dizer que é
único.»
O gastrónomo refere-se explicitamente à
vulgata feita displicência, grelhas que servem
indiscriminadamente todos os produtos, o
convívio lado a lado com os odores que cir-
culam e acabam por contaminar o cozinhado
vizinho. Um facilitismo fatal para peixes de
grande finura, peixes de carne sensível aos
odores vizinhos.
PITECANTROPO DA CULINÁRIA
«O grelhado é o pitecantropo da culinária»,
ataca José Bento dos Santos. «Não basta
cozer o peixe em água e sal, temos de usar
o court-bouilon, o papelote, a cataplana,
são diferentes formas de cozinhar peixe.»
E, no entanto, o grelhado é um produto
único, quando bem feito, o carvão de azi-
nho acrescenta um fumado natural. «É
maravilhoso…», mas «o processo tem duas
fases importantes, tem de passar por calor
mas não pode secar ao ponto de fcar como
cartão».
Fátima Moura emerge aqui, na sua casa de
Sintra, onde a licenciada em Filosofa curte
agora refexões sobre os preparados de peixe.
«Grelhar o peixe tem que se lhe diga. O es-
calamento tão em moda só por si não é um
crime, mas não é para toda gente fazê-lo bem
feito», explica.
Minudências, dir-se-á. Mas este olhar é de
bem servir o cliente, acima de tudo, e tam-
bém é de atender à imagem que vendemos,
ao bom gosto e à memória que acompanhará
o turista de bom gosto – afinal aquele que
pode deixar euros e levá-lo a recomen-
dar a terceiros.
«O nosso turismo tem de ser gastro-
nómico, o peixe é o melhor do mundo,
reconhecidamente. Mas temos de cui-
dar dos legumes, das batatas, do modo
de prepará-los. Não podemos ficar-
nos na salda de tomate com alface e
cebola…», previne Bento dos Santos.
«Exportamos mais legumes do
que vinho», segundo o gastrónomo.
«Temos potencialidades e temos de
desenvolvê-las. Há quem viaje para o
Peru para comer as batatas em toda a
sua diversidade, noutros casos as ervas
e o que cada um com elas sabe fazer. O
Brasil tem um restaurante em 4º lugar
na lista dos 50 melhores do mundo…»
UMA FILEIRA DE PREOCUPAÇÃO
O peixe, de novo, como preocupa-
ção, a par dos campos reduzidos por
políticas de circunstância. Afinal, do
mar ao prato há todo um circuito
que precisa de ser garantido, na qua-
lidade, na quantidade: é aí que aparecem os
pescadores. Uma actividade, a pesca, que
reconhecidamente foi muito afectada por al- a por al-
terações político-económicas talvez inevitá-
veis mas não devidamente acauteladas.
«Sinto alguma preocupação na fileira
do peixe, em que os pescadores são os
que menos lucram com o produto do seu
trabalho e aí é muito justo que as coisas
sejam diferentes», alerta Bento dos Santos.
Mas perspectiva dias melhores, «há quem já
venda directamente do mar, pelo telemóvel».
O problema (será lucro?) é que, por exemplo,
«os espanhóis vêm cá buscar percebes por
preços altíssimos…»
Uma das áreas de negócio é, afinal, o da
exportação directa e imediata, para diver-
sos destinos do «melhor peixe do mundo».
Bento dos Santos não se cansa do elogio que
para nós representa o facto de laureados res-
taurantes dos EUA fazerem gala do peixe
recebido na hora a partir dos mares portu-
gueses. Como fazem no Japão, e em França…
Fátima Moura reuniu um conjunto de pre-
parações assinadas por chefes reconhecidos,
portugueses, Bertílio Gomes, José Avilez,
Paulo Morais, Vítor Sobral e Leonel Pereira. E
também dois espanhóis, Ferran Adriá e Joan
Roca, e um francês, Jean-Michel Lorain.
Peixe português um mundo fsh
Receitas-base é um outro passo no
conhecimento dos procedimentos
essenciais para chegar a operações mais
complexas. É o caso, a título de exemplo, do
court-bouillon, preparação prévia essencial a
uma cozedura que vá além do básico que é
a cozedura em água e sal – no caso
português mantido como inquestionável.
Depois há os fundos, os molhos, os polmes,
e um guia de peixes portugueses. Uma
interessante súmula, nesta área específca,
que permite uma bordagem séria e rápida
do mundo piscícola.
Seja bem servido.
José Bento dos Santos
JOSÉ BENTO DOS SANTOS, A ENOLOGIA E A GASTRONOMIA DE MÃOS DADAS
20
Aquele peixe
de Catânia
21
Vou directo ao assunto,
porque revelação é fu-
turo neste relato. Para
trás, resumidamente,
fcam dias desiludi-
dos em Malta, então
longe do euro, com
dezenas de moedas em
trocos dos autocarros.
Milhares de europeus,
sobretudo alemães e
ingleses, com esperança de vida
prolongada, acotovelavam-se nos
elevadores dos hotéis, atravanca-
vam as ruas, invalidavam as pers-
pectivas de encontrar o estilo de
vida próprio da ilha mediterrânica.
A verdade é que tudo ali estava
feito à medida deles, os circuitos
turísticos, as ementas dos restau-
rantes, os lazeres.
Um dia, em desespero, um cartaz
de uma agência turística no hotel
levou à compra imediata de uma
viagem em hovercraft para a Sicília,
logo ali à mão de navegar no
Mediterrâneo. Não era caro, bas-
tava levantar cedo e deitar tarde
para um dia diferente. E lá estaria
Catânia, que cidade era essa?
Largada pela madrugada ainda
escura, levámos a sova de um
mar reguila que atirou ao tapete
boa parte dos passageiros. Foram
mais horas do que o imaginado,
e o desembarque, nessa altura
em que Malta ainda só sonhava
com a entrada no espaço euro-
peu, atribulado por um controlo
fronteiriço que nos fez suspeitar
de nós próprios – estaríamos a
soldo de grupo mafoso siciliano?
(Estranho, porque esses nunca são
incomodados…)
Desembarcados, lá fomos à vida,
e encurtando razões literalmente
cilindrados pela vida e beleza da
cidade. O Duomo, os cafés, o �ar- Duomo, os cafés, o �ar-
dim Belini, mais o Etna ao fundo,
inútil, surdo, mudo, só promessa
turística – que poucos dias mais
tarde desataria em torrente de
lava. Digo-vos, que a vida também
tem disto, da surpresa quando um
carabinieri solícito nos levou a vi-
sitar um mosteiro que, dizia, tinha
seguido a linha arquitectónica
dos nossos Jerónimos. E
elogiava o nosso nível de
vida…
Por fm, a busca de
local para a amesenda-
ção. Assim, a olho, em
lo�a de souvenirs, por
baixo da porta Uzeda. Já
ali, esclareceu o comer-
ciante, é virar à direita e
seguir o cheiro do peixe.
Sim, um caminho entre a antiga
frente de casas e uma linha de ca-
minho-de-ferro lá nos levou a um
centro comercial digno dos povos
do Sul. Aqueles que os do Norte
vituperam… Ao ar livre, abun-
dante de espécies, dos polvinhos
e lulinhas aos atuns corpulentos,
manuseamento expedito, turistas
e locais a tropeçarem.
E um restaurante anunciado,
agora quase sob a porta dei
Canalli. Cheio que nem um ovo,
a dizer: «Vai-te embora, vai bater
a outra porta.» Mas a afuência e
os exemplares expostos, mais uns
pratinhos que ainda ornamenta-
vam as mesas, levaram a aceitar a
espera: «Meia hora…», promete-
ram. E foi, gente de primeira.
Depois foi o deslumbramento,
até onde a memória alcança.
Peixinhos, e só peixinhos, em vá-
rios molhos, fritos e não assim, um
vinho fresquíssimo desocultado
de rótulo, mineral, se me lembro,
talvez passado pela lava fria do
Etna, naquelas encostas ásperas
que mesmo não vistas se adivinha-
vam lá ao fundo da tele-ob�ectiva
da máquina fotográfca.
E a grappa, meus senhores?! E a
conta, de tão ínfma que foi para
tanto deleite. Um dia volto lá, ha�a
Berlusconi ou um Monti qual-
quer. Estamos condenados a estes
pequenos crimes – o de comer
aqueles peixinhos que Bruxelas
�á excomungou. Mas o Inferno,
esbraseado castigo que os tem-
pos apagaram da religião católica,
não vem da cúpula da Europa.
Espere-se que o Paraíso ainda
more naquele restaurante. Ou ta-
berna, se�a como for que se diz em
italiano…
ROGÉRIO VIDIGAL
De gOstando
22
Os transmontanos costumam dizer que «peixe não puxa carroça»,
querendo dizer que a carne dá mais energia para o trabalho e por isso
alimenta melhor quem labuta manualmente, sobretudo no campo.
Não admira que digam isto, na medida em que Trás-os-Montes tem
excelente carne, sendo de destacar, entre outras, a mirandesa e a bar-
rosã, para não falar da carne de borrego, cabrito e «sua excelência»
o porco, como o rei da carne, dos presuntos e dos enchidos. O Abade
de Baçal, nas suas Memórias Arqueológico - Históricas do Distrito de
Bragança, citou o seguinte rifão popular: «Das carnes o carneiro, das
aves a perdiz e, sobretudo a codorniz; mas se o porco voara, não havia
carne que lhe chegara?!»
Concordamos que a carne é, aqui, a rainha, mas Trás-os-Montes,
tem excelentes peixes de rio, bem como o lagostim de água doce (so-
bretudo no rio Angueira). Os transmontanos sabem amanhá-lo ad-
miravelmente, com ingredientes e ervas da região como a célebre
«erva peixeira». Aqui, no Nordeste Transmontano, penso que é unâ-
nime, que os peixes mais saborosos são os do Rio Sabor e que, embora
se comam bem em muitas outras localidades ao longo deste rio, ver-
dadeiramente límpido, a capital da sua degustação é na Foz do Sabor.
Na verdade, há nesta localidade (e outras vizinhas), muitos restau-
rantes especializados na sua confecção. É, além disso, um local idí-
lico (Vale da Vilariça), onde o Sabor se junta ao Douro e onde existem
várias quintas com excelente e afamado vinho, entre muitas outras, a
Quinta de Vale Meão e a Quinta da Palmeira.
Elegemos para esta nossa reportagem, o peixe do rio Sabor, como
rei da gastronomia desta região. Não o fomos degustar na Foz do
Sabor, uma vez que é local sobejamente conhecido. Antes, procu-
ramos um local típico, com uma excelente cozinheira, onde, como
escreveu Esculápio (pseudónimo de Eduardo Fernandes), ainda se
fazem «os ágapes do povo» e onde se revigora o corpo e a alma, de-
pois de um dia de intenso trabalho.
Escolhemos a Taberna do 'Reta'. É uma casa com mais de 50 anos,
neste momento a única taberna genuína (ou tasca) de Torre de
Moncorvo. Aqui se preparam os vários petiscos do povo transmon-
tano. É uma taberna verdadeiramente mítica para as gentes de
Moncorvo e um consolo para os seus, muitos, visitantes. Foi a única
que «escapou» a transformar-se, seguindo a moda, em snack-bar, ou
mesmo a fechar, como muitas outras da terra.
Actualmente é explorada pela excelente cozinheira Celeste Mota
e pelo seu marido o José Alberto, animador dos arraiais da região, e
não só… Como se vai para lá? Partindo da Praça Francisco António
Meireles, que é o centro da vila, qual ágora onde passeavam os ilus-
tres da terra, que tem um chafariz flipino no centro. Este chafariz
foi colocado na Praça em 1636, durante a dinastia flipina, mas foi
derrubado nos fnais do séc. XIX. Em 1999, foi restaurado e reposto
no centro da Praça; daí, desce-se até à Corredoura (por várias ruas
alternativas) - sobre este nome há duas teorias: poderá ter origem no
local onde «corriam» os animais, como cavalos e outras bestas para
trabalho (burros, mulas, etc.) sobretudo nos dias de feira, ou de uma
fábrica de cordas, já que estava ali instalada a Real Feitoria do linho
cânhamo, pois as pessoas mais antigas ainda pronunciam Cordoira,
(esta última informação foi-me fornecida pelo meu amigo Nelson
Rebanda).
Chegados ao fm da Corredoura, contornamos pela direita a ca-
pela do Mártir S. Sebastião e entramos no Largo do Ferreiro; é aí, nos
Sabores
do Sabor
TEXTO ANTÓNIO PIMENTA DE CASTRO
FOTOS ANTERO NETO
ENGUIAS NO TACHO, LEVADAS À MESA
CELESTA MOTA, COZINHEIRA DA TABERNA DO RETA, À MESA COM AS ENGUIAS QUE PREPAROU
23
números 27 e 29, que se encontra a Taberna Reta – que serve almo-
ços, petiscos e jantares. Aí serão magnifcamente recebidos pelos anf-
triões Celeste Mota (cozinheira) e José Alberto (o homem do bar). Esta
taberna tem dois andares, o rés-do-chão (onde fca o bar) e o primeiro
andar (onde se situa a sala de refeições).
Para a reportagem da EPICUR, foram servidas enguias de escabe-
che (outrora muito abundantes no rio Sabor). Receita: limpam-se as
enguias (foi-nos dito por pessoas com muita experiência que, antiga-
mente se limpavam com folhas de fgueira, para lhes retirar a gordura
exterior. Hoje há, evidentemente, outros processos para as limpar);
partem-se aos bocados; temperam-se com sal grosso; fritam-se numa
frigideira; põem-se num recipiente e, no molho de fritar coloca-se ce-
bola às rodelas, alho, louro e malagueta quanto baste; deixa-se alou-
rar a cebola e coloca-se uma pitada de colorau; por fm põem-se o
vinagre caseiro tinto; deixa-se ferver mais um bocadinho (dois ou três
minutos) e deixa-se arrefecer o molho que se coloca no recipiente
por cima das enguias. Convém aguardar um ou dois dias até o servir.
(Foi-nos referido que, antigamente também se arranja-
vam com outras ervas aromáticas, como por exemplo o
tomilho). Também nos serviram enguias fritas. Receita
para duas pessoas: cerca de 400 gramas de enguias, de
preferência fnas e pequenas; limão; sal grosso e azeite.
Modo de preparar: limpam-se e lavam-se bem as en-
guias, enxugam-se bem e temperam-se com sumo de
limão e sal grosso (deixe-as repousar uma a duas horas);
fritam-se bem no azeite muito quente. Depois de as
retirar da frigideira, coloque-as sobre um papel absor-
vente para enxugar a gordura que as enguias largam, re-
sultante da fritura.
Outro prato que nos foi servido: peixes do rio fritos.
Amanha-se o peixe (todo o tipo de peixe que foi pescado
no rio), tempera-se com sal grosso e leva-se a fritar em
azeite bem quente. Serve-se na mesa com o molho de
alho partido muito pequenino, azeite, malagueta q. b.,
uma pitada de colorau, uma folha de louro, vinagre ca-
seiro e erva peixeira. Também há quem lhes adicione
hortelã e a chamada erva sardinheira.
E agora vamos às famosas migas de peixe. Como diz
o povo, «cada roca tem seu fuso e cada terra seu uso»,
assim, como em quase toda a culinária regional ou tra-
dicional, ainda que na mesma terra um prato pode ter
várias receitas. Assim, vamos dar-vos três receitas das
migas de peixe à moda do Sabor. Para a primeira, migas
de peixe, coze-se o peixe (não se deixa cozer demais) com
água e sal, alho, cebola, azeite, louro e coentros; corta-
-se o pão em migas (o pão não deve ser muito fresco,
deve ter pelo menos um ou dois dias); amolecer as migas
com esta água, abafam-se (para amolecer para fcarem
um bocadinho mais secas), quando estiverem bem amo-
lecidas, estrugir com azeite, bastante alho, louro e erva
peixeira; por cima põe-se um pouquinho de colorau (a
erva peixeira e o colorau só devem ser adicionadas antes
de juntar o azeite ao pão) e deita-se bastante quente em
cima das migas, juntamente com o peixe. Uma segunda receita de
migas de peixe: coze-se o peixe grande com erva peixeira, alho, cebola,
malaguetas e sal (a gosto). Quando estiver cozido retira-se o peixe e
côa-se a água. Num tacho, faz-se um refogado com bastante cebola,
azeite, deita-se colorau e batata partida aos quadradinhos muito pe-
queninos; vai-se juntando água de cozer o peixe, até as batatas estarem
bem cozidas, praticamente desfeitas; junta-se bastante água, deixa-se
ferver e miga-se o pão (de preferência parte-se com a mão). Pode en-
feitar com a cabeça do peixe. Finalmente a terceira receita das migas:
amanha-se o peixe (deve ser grande, de preferência barbos) e leva-se a
cozer em água temperada (com sal, alho e uma folha de louro), deixa-
-se ferver. Retira-se do peixe as espinhas (à parte já deve estar o pão
fatiado, recorde-se com um ou dois dias, muito fno). Deita-se a água
por cima do pão (para amolecer) e o peixe é desfado por cima do pão.
Há quem faça um refogadinho de azeite, cebola, alho e uma pitada de
colorau, deixa-se alourar e coloca-se por cima das migas. Sobremesas,
no Reta foram-nos postas à disposição as seguintes sobremesas: queijo
Terrincho com marmelada; bolo de bolacha caseiro; semifrios de vá-
rios sabores; salada de fruta e fruta da época. Estava tudo delicioso.
O vinho que acompanhou este verdadeiro banquete foi um vinho
branco da região (Peredo dos Castelhanos), do meu amigo Hélder
Ferreira, que é, diga-se, digno dos deuses.
Taberna Reta
922 176 867 / 936 955 800.
ELEGEMOS O PEIXE DO RIO SABOR COMO
REI DA GASTRONOMIA DESTA REGIÃO.
PROCURÁMOS UM LOCAL TÍPICO, COM
UMA EXCELENTE COZINHEIRA
24
TEXTO ROGÉRIO VIDIGAL
O Terreiro do Paço já não é o que era. A an-
tiga sede do poder esvaziou-se, as ministe-
riais cadeiras estão semeadas pela cidade, o
espaço tornou-se apetecível para outras ac-
tividades. E a velha praça cresce para o Tejo,
faz-se varanda apetecível aberta à Outra
Banda, largueza de esplanadas, áreas de res-
tauração, cada vez mais diversas, propostas
na área cultural.
Não t�m escasseado alternativas e suges- ão t�m escasseado alternativas e suges- alternativas e suges-
tões. A ala poente foi a primeira no caminho
do fm das funções tradicionais, viraram-na
ao turismo, ensaiaram-se restaurantes com
pretensões – nem sempre com sucesso. O
Páteo da Galé encontrou uma vocação maior
em eventos, de que é exemplo o repetido
Aqui Há Peixe!
No alforge dos interventores (Turismo de
Lisboa, sobretudo, actualmente…) há de tudo
um pouco, e ali cabe um mundo. Há hotéis
anunciados, na esperança de que a sofstica-
ção assente bem no ambiente arquitectónico
de uma das mais belas praças da Europa. E,
acima de tudo, seja âncora de um turismo de
qualidade que nos renda os maravedis sal-
vífcos. Os lisboetas, os portugueses, esses,
podem passar o Arco da Rua Augusta, que a
cidade já não acaba aqui.
A ala nascente deu agora, em Junho, os
primeiros passos no caminho da moderni-
zação: de uma assentada foi corrido todo o
edifício com a instalação de um conjunto de
restaurantes, cafés, discoteca, um Museu da
Cerveja (que dá nome à respectiva cerveja-
ria), um espaço polivalente para iniciativas
públicas (na antiga Bolsa de Lisboa), «um
conceito inovador de casas-de-banho públi-
cas», que os ingleses entenderão mais facil-
mente – the sexiest WC on earth, by Renova.
Entre outros comércios e um Lisboa Story
Center – Memórias da Cidade, «em total res-
peito pelo valor histórico e arquitectónico»
do edifcado, segundo o promotor.
A operação é cara, dir-se-á, mobiliza fun-
dos comunitários que chegam sob o nome
de Jessica, mais os dos privados. No total, dez
milhões de euros, saídos da conta do Estado
portugu�s (QREN – Quadro Refer�ncia
Estratégico Nacional), do Banco Europeu
de Investimento, e os tr�s milhões dos in-
vestidores. Por trás de tudo, a Associação do
Turismo de Lisboa.
Um espaço de fruição da cidade, enfim.
Cidade, para que te quero? Só nas esplanadas,
foram instalados 1.280 lugares.
O que há (e será instalado) na ala nascente
do Terreiro do Paço:
Museu da Cerveja (mais de 1300 m2) –
museu e ementa de cervejaria, dos mariscos,
aos bifes de tradição em Lisboa, com pro-
messa de petiscos típicos;
Nosolo Italia (mais de 750 m2) – restau-
rante, pizaria, geladaria, virado ao moderno
comfort food, com toques da gastronomia
portuguesa e mediterrânica (tem espaço
infantil);
Can the Can (cerca de 255 m2) – dedicado à
indústria alimentar nacional, em que as con-
servas gourmet fazem jus ao nome, com fado
em fundo;
Populi (mais de 280 m2) – que se diz ur-
bano, descontraído e convidativo, abrigado
na fórmula food with friends, que se apresenta
com «uma ementa de fusão, entre os produ-
tos tradicionais portugueses e as diferentes
infu�ncias de culturas e povos»;
Ministerium (mais de 960 m2) – espaço
polivalente de cultura e restauração, com
programação musical e artística diária, que
integra os já conhecidos doutros pontos de
Lisboa Hot Dog Lovers e Banana Café;
Ginginha do Carmo (6,6 m2) – quiosque,
dedicado ao conhecido licor, mas também
aos refrescos;
Lust Lisbon (600 m2) – com promessa de
«glamour, charme e elegância»;
Torreão Nascente (430 m2) – para eventos
institucionais e privados;
Florista – uma espécie de altar, inspirado
nos tronos de Santo António;
WC Públicos – temos dito;
Lisboa Story Center – Memórias da Cidade
(2083 m2), «plataforma de conhecimento,
interactividade e tecnologia», em que a uti-
lização do 4D levará o visitante à experi�ncia
do terramoto de 1755.
Terreiro do Paço de pés no Tejo
O TÁRTARO COM GEMA TRUFADA DO POPULI: o segredo está no corte do bife do lombo, na altura, à mão; o chefe Luís Rodrigues acrescenta-lhe
um tártaro de tomate, com uma erva (cebolinho, no caso). Mistura-se, com um toque de azeite, sal e pimenta. A gema é escalfada a 65º, 45 minutos,
e a gema misturada com azeite trufado, temperado com sal e pimenta. Por fm, o empratamento, ervas e uma tosta.
25
Um dos espaços de restauração que se instalaram no food court (tem
de ser à moderna) da ala oriental do Terreiro do Paço é o Populi, um
nome com ressonâncias… Declaração de interesses, a começar: um
dos accionistas do estabelecimento é um jornalista conhecido do
autor destas linhas, mas foi o projecto, em si, que motivou a visita –
a partir da carta de vinhos do restaurante. Não muito extensa, mas
com uma selecção interessante e o objectivo declarado de não infa-
cionar os preços.
Food with friends, o lema escolhido, chegaria depois, e foi-nos es-
clarecido que, sim, a ideia do nome do restaurante saiu da expressão
vox populi (voz do povo), com «o objectivo claro de nos tornarmos
conhecidos e falados�. �uanto ao princ�pio, dizem os donos e auto- �. �uanto ao princ�pio, dizem os donos e auto- . �uanto ao princ�pio, dizem os donos e auto-
res da ideia, «decorre do facto de acreditarmos que à mesa se fazem
boas amizades e se permutam as melhores, e, porventura, as piores
também, experiências da vida�.
Amigos, amigos, restaurantes à parte. Ou seja, uma das piores ex-
periências da vida, ainda que com friends, à mesa, poderá ser a co-
mida. O que está na ementa e o que chega à mesa. �uem desenhou
a ementa e porquê, quem a executa e com que méritos.
Promessas, de dossiê de imprensa, por exemplo, de ostras e viei-
ras, olhos postos em turistas com carteira à altura. Mas, nos pri-
meiros dias a mariscada não compareceu à convocatória. Sinais dos
tempos, dir-se-á, e o chefe Lu�s Rodrigues, lá nos explicou que, ao
disponibilizá-las querem dar ao cliente a total garantia de frescura.
Sem evidência de escoamento rápido…
Mas lá estão as tábuas de presunto, enchidos e queijos� das «cro- tábuas de presunto, enchidos e queijos� das «cro- cro-
quetas� de rabo de boi aos espargos marinados e à sa- � de rabo de boi aos espargos marinados e à sa- de rabo de boi aos espargos marinados e à sa-
lada de folhas verdes com nozes, requeijão e vinagreta
de mel, são outras tantas propostas (todas postas?)� das
«brus�etas� (o que será, escrito assim?) de pato cara- brus�etas� (o que será, escrito assim?) de pato cara- � (o que será, escrito assim?) de pato cara- (o que será, escrito assim?) de pato cara-
melizado e pastéis de bacalhau aos peixinhos da horta
e cogumelos salteados com alecrim e nozes. Os res-
ponsáveis do Populi dizem ter elevado «a fasquia da
oferta porque, conscientes da necessidade de oferecer
uma proposta diferente e ousada, o objectivo norteado
é fazer comer e chorar por mais�.
O «MELHOR GELADO DE CHOCOLATE DO MUNDO»
Uma visita, não para provar mas para ver o que por ali se faz, teve o
resultado curioso, até contraditório, de encontrar um jovem chefe,
Lu�s Rodrigues, de 37 anos, traquejado em cozinhas comandadas
por nomes sonantes (de José Avillez a Sergi Arola, passando por Lu�s
Baena e Giorgio Damasio), que faz um discurso da simplicidade. E
exemplifcou, para a fotografa – e o repórter elogiou o tártaro com
gema trufada. Sim, também reconfrmei a bondade da ideia na sua
pureza. E hei-de repetir um dia. Venha também, que o rio é logo ali.
Por fm, e a mostrar o que nos espera nestas novas tendências, foi-
-nos apresentado o «melhor gelado de chocolate do mundo�, como
o designam os do restaurante, com os olhos postos num franchising,
que tinha de ser em inglês, claro.
A ideia chispou do chamado «melhor bolo de chocolate do
mundo� criação de um português, Carlos Braz Lopes, de Campo
de Ourique. «Eu e o meu sócio somos amigos dele e desafámo-lo
a criar um novo produto�, conta António Sousa Duarte, sócio do
Populi, à EPICUR. Pensaram, evidentemente, no facto de o «me-
lhor bolo� já ter chegado ao Brasil, EUA, Austrália e Espanha, e nas
possibilidades de acontecer o mesmo com o gelado, tendo-os a eles
como parceiros e o exclusivo em Portugal.
A ideia está a�. Ao lado, em toda a frente do edif�cio pombalino,
ao longo das arcadas, outros restauradores tentarão a sua sorte. Lá
voltaremos, se se proporcionar – a ver o que «lavam� no rio (não é
só o Populi), para recordar o poema de Pedro Homem de Mello que
Amália imortalizou. R.V.
Populi, que lavas no rio?
26
Um pastel de nata que não leva natas, resul-
tado da receita consagrada no concurso deste
ano para apurar o melhor de Lisboa – dos
apresentados à prova. Uma aparente contra-
dição, pois nata é, necessariamente, um lac-
ticínio – e assim está defnida. Ao gosto, na
verdade, a textura oferecida ao consumidor é
a de nata.
O debate sobre a verdadeira origem deste
pastel é longo e as opiniões contraditórias su-
cedem-se. Ao ponto, por exemplo, de procu-
rar saber qual o conteúdo das caixinhas dos
pastéis de Belém – veja-se que já não lhes cha-
mam «de nata», os pasteleiros-autores. No
fundo, a grande curiosidade, além de saber se
tem mais ou menos farinha, mais ou menos
ovos, é desvendar essa questão das natas ou
leite para o recheio. Claro que tem valia acres-
cida a grande habilidade que é fazer aquela
massa folhada verdadeiramente estaladiça,
no forno certo e à temperatura defnida, mas
o creme, esse…
O gastrónomo Virgílio Gomes, que já fez
júri neste certame anual de Lisboa para eleger
o melhor pastel de nata, assinala no seu blo-
gue
*
que é difícil estabelecer a origem do doce
e também a questão do recheio. Neste levan-
tamento, refere vários livros que incluem re- vários livros que incluem re- s livros que incluem re-
ceitas, muitas delas atribuídas aos antigos
conventos.
«Apesar de aparecer em vários registos, es- Apesar de aparecer em vários registos, es-
pecialmente do começo do século XIX, não
consegui, ainda, documentar-me para poder
afrmar, de forma categórica, onde começa-
ram, em que data, e como se expandiram»,
assinala. Evidente se torna, contudo, que a
sua confecção não se limitou, ao longo dos
tempos, aos pasteleiros da capital.
Alfredo Saramago regista em diversas
obras suas sobre a história da doçaria, a re-
ceita do pastel de nata e/ou seus similares.
Fá-lo, por exemplo, na Doçaria Conventual
do Alentejo, quando refere os pastelinhos de
nata do Convento de Santa Clara, de Évora.
O preceituário desta casa monástica estabe-
lece: «Misture meio litro de natas com açúcar
e junte depois 112 gemas de ovo. Engrosse a
mistura ao lume. Faça uma massa folhada, e
forre as formas com a massa, metendo den-
tro recheio. Leve ao forno até dourar.» Numa
outra instituição religiosa da mesma cidade, o
Convento de Santa Catarina de Sena, as natas
integram o recheio, menos quantidade com
100 gramas de açúcar, misturadas, que após
passagem pelo lume recebem menos (seis)
gemas de ovo.
Lá estão as natas, como igualmente fguram
em O Cozinheiro dos Cozinheiros, de Paulo
Plantier, publicado em 1905, sob a mesma de-
signação de Pastelinhos de nata: «Desfaça-se
em assucar fno seis tigelas de nata e quinze
gemmas de ovos; engrosse-se ao lume.
Guarneçam-se depois umas fôrmas de massa
folhada, mettendo-se a nata dentro, vão co-
zer-se ao forno. Sirvam-se quentes.»
Virgílio Gomes cita A Tradição Conventual
na Doçaria de Lisboa, de Carlos Consiglieri e
Marília Abel, com uma listagem de conven-
tos femininos de Lisboa, em 1833, nos quais
supostamente se produziria doçaria. A re-
ceita apresentada, sem identifcação de con-
vento, revela uma parte para a massa folhada,
que leva açúcar e canela, e o «creme feito com
gemas de ovo, açúcar, natas, leite, um pouco
de farinha de trigo, sal e pau de canela».
Alfredo Saramago, em parceria com
Manuel Fialho, refere em Doçaria dos
Conventos de Portugal duas receitas, uma
delas do Convento de Arouca, com massa fo-
lhada muito fna recomendada. A outra co-
munga o recheio do já mencionado eborense
Convento de Santa Clara.
O périplo da investigação chega às ver-
sões brasileiras. Virgílio Gomes reaviva um
Dicionário do Doceiro Brasileiro, de 1892, com
três receitas de pastéis de nata e outros tan-
tos recheios. Um claramente espúrio; os ou-
tros semelhantes entre si: recheio de gemas,
açúcar, natas e raspa de limão, num caso,
leite guardado de um dia para o outro para
lhe extrair as natas, açúcar em calda, uma co-
lher de manteiga… «até chegar ao ponto de
ovos-moles».
E há mais autores, de Emanuel Ribeiro (que
não explica o creme) a Maria de Lourdes
Modesto (em que há natas e casca de limão),
passando por Olleboma (com dois recheios)
e João Ribeiro, o famoso chefe do Hotel Avis,
que inclui as natas e calda de açúcar. Há mais
natas, recorda o gastrónomo, noutras refe-
rências bibliográficas, que nomeiam casas
conventuais como Odivelas e Mafra (neste
caso de frades, não de freiras).
Tudo somado, o autor não arrisca a elabora-
ção de uma árvore genealógica. «Arrisco, no
entanto, a pensar que uns dos seus antepassa-
dos sejam os ‘Pastéis de leite’, receita número
XXV do caderno de receitas da Infanta Dona
Maria, muito embora a massa exterior dos
pastéis ainda não seja folhada.»
Já Alexandra Prado Coelho, que nos últimos
tempos se tem dedicado à causa gastronó-
mica (com bom gosto…), no Público, reporta
o que lhe disseram na Antiga Confeitaria de
Belém: «Segundo se conta, a receita foi inven-
tada no Mosteiro dos Jerónimos. 'Havia uma
feira diante dos Jerónimos e era muito típico
os monges comercializarem doces'. Como em
tantas outras histórias de doces conventuais
em Portugal, com o encerramento do con-
vento em 1834 o segredo do doce sai para o
exterior, e o que se sabe ao certo é que a re-
ceita terá ido parar às mãos de um empresá-
rio chamado Domingos Rafael Alves que, em
1837, inaugurou ali a Refnação de Açúcar e
Confeitaria de Belém Lda..»
Um passo dado em favor de Belém como
marca dos pastéis que comemos como sendo
de nata – ou serão mesmo beneficiários de
um segredo fechado a sete chaves?
Virgílio Gomes, voltemos à sua condição
de júri em Lisboa, no ano passado, descreve
assim a prova: «Primeiro observamos o seu
aspeto. O olhar é o primeiro sentimento.
Depois os dedos tocam a massa exterior e
sente-se o estaladiço da massa folhada. É o
primeiro reflexo para o gosto. Depois uma
ligeira trincadela para perceber na boca a
massa. E agora a dentada mais avançada para
o creme… e depois apetece mais.»
Se apetece!…
*http://www.virgiliogomes.com/cronicas/451-
-melhor-pastel-de-nata-2012-em-lisboa
TEXTO ROGÉRIO VIDIGAL
A nata se fez nada
27
João Castanheira, dono da Aloma há três
anos, acabava de chegar: «Fui levar o meu
flho mais velho à camioneta que o vai levar
à praia. Quis que eu fcasse na rua a dizer-
-lhe ‘adeus’. E eu fiquei. Quando era pe-
queno também gostava que os meus pais
fzessem isso.»
Os pastéis de nata vêm para a mesa. O
creme sente-se na boca. Engole-se de uma
vez só. João Castanheira afrma que «bom
mesmo é acompanhado com Moscatel
Roxo da Quinta da Bacalhoa colheita de
2000, ou com abafado da quinta de Alorna
com cinco anos». Mas, claro, todos o
pedem com café.
A pastelaria e confeitaria Aloma existe
há 70 anos. Na origem do seu nome está
o filme que em 24 de Dezembro de 1943
era exibido, ali ao lado, no cinema Europa.
Aloma of the South Seas tinha como pro-
tagonista a actriz Dorothy Lamour. A sua
beleza impressionou os proprietários do es-
tabelecimento que, de imediato, decidiram
chamar-lhe Aloma.
Agora, João Castanheira, de 33 anos e com
um grande palmarés de investimentos, que
vão desde farmácias a um ginásio e até uma
oficina de automóveis, dá continuidade
à fama, «com matéria-prima de excelên-
cia». Admite que é um «fura-vidas», mas
adianta que o seu bisavô teve padarias na-
quela zona. «Luís Filipe, um dos pasteleiros,
ainda trabalhou com ele.»
«Tenho coragem e arrisco, mas sei que
aquilo que faço, quando faço, tem de sair
bem», acentua para explicar que «quando
soube deste negócio assumi a gerência,
reestruturei, fz mudanças e atentei a uma
excelente equipa». Daí que o prémio seja
«de todos». «Não só de quem cá está, mas
de todos quantos, ao longo de 70 anos, fze-
ram esta casa», explica.
«Todos deram um bocadinho de si. A
não ser assim, não se facturava e agora não
haveria negócio», faz questão de frisar.
Quanto ao segredo, «é toda a feitura com
matéria-prima de grande qualidade: o ovo é
físico, que não pó ou pasta e derivados. São
todos partidos à mão como antigamente».
E, a atestá-lo, lá estava o sr. Carlos, obreiro
há uma dúzia de anos, que se ri: «Partir
ovos é sempre uma aventura, quando se
TEXTO MARGARIDA MARIA FOTOS MIGUEL SILVA
Um por dentada
Tem o «Melhor Pastel de Nata de Lisboa». Aloma, com 70 anos a
servir o público, é um investimento de João Castanheira. Pastelaria e
confeitaria, no bairro típico de Campo de Ourique, recebeu o galardão
na IV Edição do concurso promovido pelo Festival Gastronómico do
Peixe em Lisboa. A clientela enche o pequeno espaço. E ninguém sai
desiludido. O problema é que um só sabe sempre a pouco!
LUÍS FILIPE DEMORA SEGUNDOS A FORMATAR A MASSA
JOÃO CASTANHEIRA, UMA APOSTA NOS NATAS
28
espera que, um dia, saia de lá um pinto.
Continuo à espera…»
Luís Filipe está por ali desde 1974. Faz as
coisas «a olho ou mais ou menos». Num
ambiente em que os fornos trabalham a 350
graus, «não conseguimos comer pastéis de
nata, nem qualquer outra coisa».
Porque ali, toda a pastelaria e não só as
natas são um labor integralmente manual.
Não há máquinas. Tudo é batido à mão.
Os homens chegam ali pelas quatro da ma-
drugada e só saem, às vezes, 12 horas de-
pois. Entrementes, os bolos e salgados vão
saindo e os clientes consolam-se com as
delícias.
É Luís Filipe quem explica que a massa é
feita, enrolada, cortada tapada. «Qualquer
golpe de ar cria crostas.» Depois, é tendida
à mão (cinco segundos por pastelinho) nas
formas que vão receber o creme, entretanto
cozinhado e mexido permanentemente.
«Não se pode parar.» Os ovos, já com as
gemas separadas (leva poucas claras) são
misturados com cuidado. Pelo meio há
períodos de repouso da massa e do creme
(de nata mas sem natas!), que
também é vertido com um funil.
Na medida exacta, uma vez que
se caírem gotas no tabuleiro é o
suficiente para que a cozedura
dos pastéis não seja bem feita.
Cinco minutos depois, o forno
abre-se. Os pastéis ainda vêm en-
funados. Baixam ao arrefecer e
estão prontos: entre 80 e 90 calo-
rias por cada dose. Doses delicio-
sas, diga-se!
João Castanheira reconhece
que o galardão lhe trouxe mais e
novos clientes. Até tem encomen-
das para o estrangeiro. Mas, rea-
lista e perfeccionista, não hesita
em considerar que «também
trouxe mais responsabilidades».
A mulher, com quem «namora
desde os 15 anos» acompanha-o
em tudo e, não raro, é vê-la atrás
do balcão a servir pastéis de nata.
Sempre iguais? «Não, não po-
diam ser porque há diferenças
pequenas como nas tempera-
turas, nos ovos, no leite... Mas
há uniformização e a receita é
sempre a mesma.» Além disso, é
intransigente: «A qualidade está
sempre presente.» E pode-se dar
a receita, sendo certo que há coi-
sas que nunca são iguais, «são
mais a olho».
João Castanheira fala também
de si, do seu sucesso: «Chumbei
cinco anos em engenharia mecânica. Não
estava no rumo certo.» E conta que o curso
mais caro que pagou «foram os negócios
furados. Perdi muito, mas aprendi muito e
nem paguei propinas».
Os pais sempre o apoiaram e sente a falta
da mãe, falecida no ano passado: «Não me
davam dinheiro, eram avalistas porque
sempre acreditavam mim. É por isso que
sou um homem de família».
Ao balcão, o Sr. Jorge é incansável a ser-
vir. Está há mais de 40 anos na pastelaria e
«nisto desde que nasci». Se sabe fazer pas-
téis de nata? Sabe servi-los, mas se necessá-
rio fosse, aprenderia também.
Se a bela Dorothy Lamour encarnou a
doce Aloma do filme, não restam dúvi-
das de que a Aloma de Campo de Ourique
está para fcar e tornar a vida de todos mais
doce.
Pastelaria Confeitaria Aloma
Rua Francisco Metrass, 67, Lisboa
www.omelhorpasteldenatadelisboa.com
UM RESULTADO MUITO ESPECIAL
C
M
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CM
MY
CY
CMY
K
CVRA_epicur_jul012_AF.pdf 1 7/6/12 4:42 PM
30
É sem vaidade ou pretensão que cos-
tumo dizer que da minha porta de entrada
Victoriana Londrina aos portais de ferro
da parisiense Gare du Nord vão cerca de
duas horas e meia. Uma viagem rápida e
confortável sem os excessos e as horas
mortas, embora necessárias, nos aeropor-
tos e que se resume a quatro estações de
metro e uma viagem no meu predilecto
meio de transporte, o Eurostar. Um com-
boio ultra-rápido que vai desbastando os
subúrbios de Londres e o countryside in-
gles até alcançar a entrada do canal da
Mancha. E pelo trabalho exímio da en-
genharia percorre debaixo da terra e do
mar, como se de uma gigante toupeira
mecânica se tratasse, as cerca de 25 mi-
lhas que separam o Reino Unido da velha
Europa até chegar ao outro lado, a França.
Esta facilidade de viagem permite-me
saltitar entre o «cá» britânico e o «lá»
continental sem muitas perdas de tempo.
Paris fca assim tão perto e digno de regu-
lares visitas de fim-de-semana. Quando
Mais um fm-de-semana alcançado, mais uma viagem a
concretizar. Miguel de Almeida segue desta vez para Paris e
relata que nesta cidade nem tudo é tarte tatin ou crème brûlée…
TEXTO MIGUEL DE ALMEIDA IMAGENS COMME À LISBONNE
Comme à Lisbonne
VICTOR SILVEIRA SINGRA COM OS PASTÉIS DE NATA, QUE FIZERAM ÊXITO
31
vou à «cidade-luz» fco sempre hospedado
num apartamento situado na Boulevard
du Temple, edifício marcado pela arqui-
tectura neoclássica, situado no central
bairro, o Marais. Um apartamento de ami-
gos de longa data, com duas assoalhadas
e divididas por paredes angulares e tec-
tos muito altos onde peças de Calder le-
vemente se suspendem. E ao sábado de
manhã, enquanto tudo dorme, saio à des-
coberta de pequeno-almoço.
Foi recentemente, numa destas escapa-
delas, que numa rua transversal à que nor-
malmente pernoito encontrei o Comme à
Lisbonne. A tradução mental e automática
fez com que me apercebesse que este esta-
blecimento boutique teria algo a ver com
Portugal. O Comme à Lisbonne é uma pe-
quena pastelaria que se dedica sobretudo
à venda de um dos ícones da nossa gastro-
nomia: o pastel de nata.
Estive à conversa com o dono deste es-
paço único em Paris, Victor Silveira, que
entre um café e mais do que um pastel,
me apresentou o conceito deste espaço
dedicado à degustação dos mais refina-
dos pastéis de nata. Com uma apresenta-
ção cuidada, pretendem homenagear este
nosso doce secular mantendo assim todo o
processo artesanal da sua produção. 
A receita da sua mãe é seguida religiosa-
mente e foi-lhe transmitida ao longo da
infância. Além dos deliciosos pastéis de
nata, a Comme à Lisbonne tem o intuito
de representar Portugal e a sua cultura em
pleno coração de Paris, algo até então ine-
xistente na terceira cidade do mundo com
mais portugueses. Há também para venda
o café de uma conhecida e excelente marca
tratado em Portugal, vinhos, licores, azei-
tes compotas e chá, tudo proveniente de
terras lusas e de extrema qualidade.
Numa cidade e cultura em que o histo-
rial de doçaria é tão marcado, questionei-
-me inicialmente acerca da aceitação deste
doce por parte dos parisienses, que por
norma torcem um pouco o nariz às inves-
tidas culinárias por parte de outros. Mas as
minhas dúvidas desvaneceram-se porque
ao longo desta nossa conversa uma fla for-
mou-se uma fla desde o balcão até ao pas-
seio da rua, demonstrando que este nosso
doce bem casado com um atractivo es-
paço, é receita de sucesso. A clientela é so-
bretudo parisiense, gente que procura algo
diferente e de boa qualidade e Victor asse-
gura-me que só fecha as portas quando o
último pastel de nata é vendido.
Também os turistas que vão deambu-
lando entre ruas, boutiques e pracetas
deste tão relaxado bairro parisiense en-
tram no Comme à Lisbonne. Para estes,
o pastel de nata e o café são ideais como
pausa entre novas descobertas. Conversa
terminada, não resisto e compro meia
dúzia. E sigo de volta a casa, passando pela
Place des Vosges, o Musée Picasso até abrir
a porta e subir as escadarias de ferro for-
jado deste apartamento. Pastéis num prato
e café-au-lait na mão vou acordando gen-
tes, que interessadas me perguntam o que
levo na mão:
Breakfast, petit-dejeuner!
É um pouco a moeda de troca pela hospe-
daria de mais um fm-de-semana bem pas-
sado em Paris. A caixa vazia, as migalhas
no chão e as caras besuntadas pelo creme
que, inevitavelmente escorrega por qual-
quer bom pastel de nata depois de mor-
dido, levam-me a concluir que transação
foi bem sucedida.
NUMA DESTAS ESCAPADELAS,
ENCONTREI NUMA RUA
TRANSVERSAL ÀQUELA
EM QUE NORMALMENTE
PERNOITO O COMME À
LISBONNE. UMA PEQUENA
LOJA DE PASTÉIS DE NATA
UMA PEQUENA PASTELARIA EM PARIS COM A MARCA DE PORTUGAL
32
A festa, porque de uma verdadeira festa gastronómica se tratou,
durou dois dias e reuniu no hotel vínico de Vila Nova de Gaia um
total de oito distinguidos chefes de cozinha. Sete deles ostentam
Estrelas Michelin no currículo. O oitavo, Jerónimo Ferreira, do
Sheraton Porto, conta outras distinções e averba a amizade e reco-
nhecimento do anftrião, o chefe Ricardo Costa, que com ele traba-
lhou e, certamente, aprendeu antes de liderar a sua própria equipa.
Dois jantares que vão fcar na memória de quem neles participou e
que fcam a marcar o regresso da área metropolitana do Porto às geo-
grafas das estrelas gastronómicas.
Não que o Porto não tivesse, antes, sufcientes atributos na arte
das comedorias. Que as tinha e em bom número, mesmo sem serem
estreladas. Mas a verdade é que, desde 1974, quando o Portucale, pri-
meiro e único restaurante da cidade que até agora havia merecido a
escolha dos críticos Michelin, recebeu o galardão, nunca mais nesta
área metropolitana o mérito gastronómico havia sido reconhe-
cido com estrelas. Até agora. Por mérito do The Yeatman e do chefe
Ricardo Costa.
Estamos a meio de Junho, a 14 para ser mais exato. Ao fnal da tarde,
no The Yeatman, a azáfama na cozinha não era demasiada. Boa parte
do trabalho estava feito e o que ainda faltava fazer aconteceria um
pouco mais tarde, quando as cinco dezenas de comensais esperados
para esse dia estivessem já à mesa. Talvez por isso, alguns dos che-
fes aproveitavam o sol que, subitamente e já ao fnal do dia, decidiu
TEXTO ARTUR MIRANDA FOTOS HERNÂNI PEREIRA
Do outro lado do rio, esplendorosa, a paisagem inigualável de um Porto Sentido que, ao fnal
da tarde, os terraços do The Yeatman Hotel convidavam a desfrutar. À noite, ninguém se fxou
em estrelas do céu. Era então tempo de brilharem as iguaria preparadas pelos chefes
que ali se reuniram para mais uma etapa da Rota das Estrelas.
Em Gaia, a ver estrelas
A EQUIPA DE COZINHA DO THE YEATMAN PREPARA AS "SAUDAÇÕES DOS CHEFES", A ENTRADA QUE DEU INÍCIO AO JANTAR
33
marcar presença para beberricarem algo e desfrutarem da paisagem
num terraço contíguo à sala do restaurante. Estivemos alguns minu-
tos à conversa com eles, falamos de peixe e de mercados, de hortas e
produtos biológicos, da necessidade de garantir bons fornecedores,
da qualidade dos produtos indispensável para se obter resultados. E
até de pequenas hortas que alguns hotéis de luxo vão cultivando para
terem as ervas ali à mão. E fomos até à cozinha, onde divididos por
grupos, chefes e ajudantes iam continuando a preparar o menu que,
daí a pouco, faria vibrar alguns palatos.
Depois de alguns minutos a observar a mestria dos chefes e da
equipa que os apoiava, deixamos a cozinha. Ali bem perto, Beatriz
Machado, a diretora de vinhos do Yeatman, colaborava na tarefa de
enfar cada ementa na sua garrafa, transformando-a, assim, numa
verdadeira message in a bottle para cada um dos participantes. «Este
é um hotel vínico. Por isso faz todo o sentido esta apresentação»,
adianta. E aproveita para dizer que os vinhos que nos iriam ser servi-
dos ao jantar não eram, por ventura, escolhas óbvias, mas que todos
proporcionariam boas harmonizações com cada um dos pratos con-
feccionados pelos chefes.
O sol brilhava no seu caminho para poente. A vista sobre o Porto,
da Ribeira até à Foz, estava ainda mais esplendo-
rosa. A hora do jantar ia-se aproximando. Num dos
terraços serviam-se os «cocktails de assinatura do
The Yeatman», todos eles tendo o vinho do Porto
como base. Era o momento de juntar todos os che-
fes para um brinde e uma saudação a todos quantos
iam participar no repasto. Foi então que confron-
támos Ricardo Costa, o anftrião, com a sensação
de ter sucedido ao emblemático Portucale como
representante portuense na galeria das estrelas
Michelin quase quatro décadas depois. O chefe,
que tinha ido dias antes, a convite do jornal Público,
conhecer o mítico restaurante localizado no 13.º
piso da Cooperativa dos Pedreiros, não esconde a
sua satisfação. Lembra-se, então, de que daquele
restaurante havia avistado o seu hotel e busca no
horizonte a torre que continua a marcar a paisagem
da Invicta. Lá está ela, na parte alta da cidade, desta-
cando-se entre outras mais recentes, mas erguidas
em zonas menos elevadas.
Era tempo de seguir para a mesa e começar a de-
gustar as propostas dos chefes que entraram em
acção naquela primeira noite da “Rota das Estrelas”,
no The Yeatman. E começamos com uma entrada a
que chamaram Saudações dos Chefes, na qual coube-
ram pedacinhos crocantes de choco, panceta e crus-
táceos, uma esfera de rabo de boi, um creme brullé
de crustáceos e um desafante creme de ouriço-do-mar. Tudo isto
acompanhado de um espumante Soalheiro Alvarinho Bruto 2010,
que se mostrou à altura deste desafo e acompanhou igualmente com
distinção o prato que se seguiu, uma deliciosa combinação de foie
gras com cereja, presunto pata negra e ginja da Madeira, criação do
chefe Benoit Sinthon, do Il Gallo D’Oro, restaurante do Hotel The
Clif Bay, da Madeira, onde a folha de ouro que salpicava o foie gras
combinava com o vermelho da surpreendente ginja num verdadeiro
deleite para os olhos, primeiro, e, assim que a pintura começava a ser
desfeita, para o paladar.
Depois foi a vez de entrar em cena a salada de lavagante pre-
parada pelo chefe Miguel Vieira, o português que brilha no
Restaurante Costes, em Budapeste, ele que ostenta a única estrela
Michelin de todo o frmamento culinário húngaro. Tínhamos tido a
oportunidade de o ver na cozinha, um pouco antes, enrolando meti-
culosamente os pequenos canudinhos com o crustáceo que no prato
nos chegaram acompanhados de nabo Daikon marinado, rabanetes e
vinagrete de yuzu. Uma combinação de sabores elegante num prato
bem colorido que teve um parceiro fantástico no Casa Ermelinda
Freitas Sauvignon Blanc/Verdelho 2010, um surpreendente vinho da
Península de Setúbal.
Prosseguindo neste desafo de sabores, o chefe Albano Lourenço, do
Restaurante Arcadas, da Quinta das Lágrimas, em Coimbra, brindou-
-nos com umas vieiras acompanhadas de pimento vermelho, funcho,
morcela e molho de vitela. Poderia causar alguma estranheza a asso-
ciação do sabor forte e ativo da morcela e até do molho de vitela com
a vieira, mas o resultado eliminou qualquer sombra de suspeita. Uma
delícia que o Quinta do Ameal Escolha 2009 ajudou a valorizar.
E eis-nos chegado ao peixe propriamente dito com uma proposta
incomum. Um rascasso dos Açores, peixe com uma boa consistência
(talvez semelhante à do cherne), assado com beringela, gratinado de
legumes e molho de fígados. Aqui, a assinatura não foi de nenhum
dos chefes estrelados mas antes de João Oliveira, um dos subchefes
de Ricardo Costa no Yeatman, que desta forma quis valorizar a im-
portância da equipa que com ele trabalha e permitir a um dos seus
mais directos colaboradores um momento de destaque. Para realçar
o rascasso foi servido um Ravasqueira Flavours Viognier 2010, um
alentejano de aroma intenso, encorpado mas fresco que, diga-se, se
mostrou à altura do acontecimento.
Nesta altura, o chefe anftrião resolveu surpreender-nos com uma
iguaria que não constava da ementa. Um ovo biológico cozido a baixa
temperatura (60 graus) durante 45 minutos, com creme de ervilhas e
wasabi e panceta estaladiça. Acompanhado de um Duorum Colheita
2010 que trouxe pela primeira vez à cena a Região do Douro, esta
surpresa do chefe Ricardo Costa revelou-se um bom prelúdio para o
prato de substância que nos apresentou em seguida, um rabo de boi
cozinhado muito lentamente e lacado (24 horas a confecionar, de-
pois de idêntico período numa marinada), com cogumelos chantarelle
ALGUNS DOS CHEFES APROVEITARAM O SOL
PARA BEBERRICAREM ALGO E DESFRUTAREM
A PAISAGEM NUM TERRAÇO
34
e molho de wasabi. Um sabor forte a pedir um vinho encorpado,
capaz de encher a boca, como foi o caso do Quinta do Crasto Reserva
Vinhas Velhas 2007, em garrafas jeroboam (três litros).
Para um fecho digno de estrelas, o chefe pasteleiro do Yeatman,
José Bastos, apresentou uma criação que denominou de cerejas e
que constava de diferentes texturas e combinações: «Lasagne doce,
parfait, sorvete e merengue de cerejas». Para acompanhar, Vinho do
Porto, obviamente, não estivéssemos nós em pleno bairro das caves
de Porto e num hotel que integra o grupo The Fladgate Partnership,
detentor das marcas Taylor’s, Croft e Fonseca. Mas não um Porto
qualquer. Aliás, o que nos foi proposto foi uma vasta seleção de
Vintage 2005, de diferentes marcas, cabendo a cada um dos presentes
escolher entre mais de uma dúzia de hipóteses. E dada a companhia
de Adrian Bridge, CEO do hotel e diretor-geral do grupo da Taylor’s,
e sua mulher Natasha Bridge, diretora da sala de provas, optamos por
saborear dois vinhos desta marca, o Quinta de Vargellas e o Quinta
de Terra Feita, diferentes mas igualmente capazes de um bom fecho
de noite, que não acabou sem um aplauso aos chefes e a toda a equipa
de cozinha que os acompanhou para a elaboração deste verdadeiro
manjar de deuses.
A noite ia longa mas ainda houve tempo para um último brinde no
terraço adjacente ao restaurante. Estava uma temperatura amena e,
então, ao contrário do que canta Rui Veloso, havia estrelas no céu a
dourar o caminho de regresso a casa...
A ROTA NO THE YEATMAN (PARTE II)
A ideia inicial era que no primeiro dos dois dias desta
Rota das Estrelas no The Yeatman brilhassem apenas
os chefes mais jovens para que, no segundo dia, o
protagonismo fosse dado aos que há mais tempo se
movimentam entre tachos, frigideiras e panelas. Um
percalço que atrasou Hans Neuner, o jovem chefe
com duas estrelas Michelin do Restaurante Ocean,
do Vila Vita Parc Hotel, no Algarve, obrigou a uma
ligeira alteração, passando este para o grupo do
segundo dia e entrando em acção no primeiro
Albano Lourenço, da Quinta das Lágrimas.
Não estivemos presentes nesta Rota das Estrelas –
Parte II mas, para que conste, aqui fca a respetiva
ementa: Saudação dos Chefes do The Yeatman;
Sardinhas e Atum servidos sobre pedras de sal
aquecidas (chefe Aimé Barroyer, Restaurante
Tavares, Lisboa); Ceviche de Atum, uma proposta da
subchefe Carla Patrícia, do The Yeatman, mais uma
das colaboradoras que Ricardo Costa entendeu
destacar; Vieiras na cataplana, acompanhadas por
lulas e percebes (chefe Hans Neuner, Vila Vita Parc);
Carabineiro do Algarve com risotto de cevadinha,
percebes e micro-verdes (chefe Jerónimo Ferreira,
do Sheraton Porto); Cherne com lula recheada,
polenta cremosa e molho de crustáceos e caril (uma
proposta do anftrião Ricardo Costa); Vitela
Mirandesa com dome de batata e queijo terrincho,
esparregado de salsa, foie gras e trufa de verão
(chefe José Cordeiro, Restaurante Feitoria do Hotel
Altis Belém); sorvete de nectarinas e granizado, uma
pré-sobremesa do chefe pasteleiro José Bastos, do
The Yeatman); para fechar, o chefe Miguel Vieira (do
Restaurante Costes, de Budapeste) preparou uma
pera envolta numa esfera de chocolate a que
adicionou chocolate quente.
AS ESCOLHAS DE BEATRIZ
As escolhas de Beatriz Machado, Mestre em
Viticultura e Enologia pela Universidade da Califór-
nia, em Davis, EUA, revelaram-se adequadas aos
diferentes sabores com que foram confrontadas,
proporcionando-nos gratifcantes experiências
sensoriais. A especialista de vinhos do The Yeatman
garantiu-nos que teve «a preocupação de eleger
vinhos que estão disponíveis no mercado e que não
têm preços demasiado elevados».
Tendo, também, revelado uma aposta na diversidade
geográfca que se traduziu numa viagem por
diferentes regiões vitivinícolas de norte a sul do país,
do Minho a Setúbal, passando pelo Alentejo e
concluindo no Douro, Beatriz Machado explicou a
seleção de vários Porto Vintage 2005 como uma
forma de marcar uma data que, disse, «fca na
história deste hotel e da região do Porto. Quando
Obama foi eleito, foram guardados numa espécie de
nave do tempo vários objetos entre os quais um
Vintage de 2005. Era um momento histórico e
alguém entendeu que esse ano deveria ser assim
assinalado para memória futura. Foi o facto de
também aqui se estar a fazer História que, salvaguar-
dando a devida distância, pretendi assinalar com a
selecção de Vintage 2005».
É importante assinalar que o The Yeatman é um hotel
vínico que tem os seus 82 quartos e suites decorados
com motivos vínicos pelas diferentes marcas com as
quais estabeleceu parceria, muitas delas concorren-
tes directas das que integram o portfólio do grupo
proprietário do hotel. Nas suas caves repousam mais
de 25.000 garrafas de um extenso rol com mais de
1.000 referências, algumas delas muito raras. E que,
no âmbito desta aposta nas parcerias com produto-
res nacionais, organiza todas as quintas-feiras
jantares vínicos.
RICARDO COSTA, O CHEFE ANFITRIÃO, ORIENTANDO OS TRABALHOS NA COZINHA
O "RASCASSO DOS AÇORES" JÁ PREPARADO PARA SEGUIR PARA A MESA
36
Às vezes, ser velho e azedo, é excelente.
E não comecem a imaginar coisas pois,
no relembrar da minha última crónica,
estou (apenas) a falar do fermento, ca-
seiro, feito da alquimia entre água, ar
e farinha, combinada com o passar do
tempo e alguns cuidados básicos de
saúde, como ter a preocupação de o ali-
mentar uma vez por semana. Este fer-
mento, velho e ácido, melhorará com a
idade e permitirá que o que quer que fa-
çamos com ele, tenha outro sabor, outra
complexidade, outra vida.
Porque a acidez é fundamental , como o
é a diversidade, a autenticidade, o radical e
o modernismo, a doçura do conhecimento
dos mais velhos, a recusa da pasteurização
do sabor, da massifcação do intelecto, do
dogmatismo intolerante que ciclicamente
nos ataca.
Entre os meus produtos de eleição, já
passarampor estas páginas, entre outros,
o pão e a batata. Hoje continuamos na
senda da simplicidade, com o destaque
dado a algo tão simples, acessível e tan-
tas vezes grátis: o limão.
Talvez o alimento mais utilizado na
minha cozinha, a sua polpa, sumo e
casca, aparecem com intensidade e fre-
quência nos meus pratos. Salgados,
doces, amargos, gordos, magros, quase
tudo fca melhor quando tem um toque
de acidez. Coloco a casca em sopas, o
sumo em purés e em arroz, a polpa em
estufados. Componente fundamental dos
meus caldos, equilibrador dos molhos,
acentuador dos aromas. As fores fazem
grandes infusões e temperam orientali-
ces de anciã transmutação lusa. Mágico,
delicado, belo desde o momento em que
aparecem as primeiras fores na árvore.
Na quinta dos meus avós maternos
havia muitos limoeiros. Havia também
um cruzamento mal sucedido entre um
limoeiro e uma laranjeira (experiência
frankensteiniana de um avô que não era
agricultor mas que achava que era!), e
lembro-me de um primeiro fascínio com
o extraordinário aroma das folhas quando
esmagadas na mão. Como um perfume
que persistia durante horas, fresco e ins-
pirador de viagens e sons, lendas e mis-
térios que acompanhavam uma infância
pré-televisão.
Oriundo do Sudoeste Asiático, apura-se
no Médio-Oriente, para entrar na Europa
via Itália e daí, graças ao império ro-
mano, atingir grande parte do continente
e tambémo norte de África.
A sua contribuição nos meus pra-
tos é imparável, a frescura dos sabo-
res cítricos, luminosos e carregados de
personalidade, marcam com leveza e
personalidade os preparados em que
são combinados, relembrando-me ou-
tros tempos, despreocupados e riso-
nhos, tardes de Verão com a família,
onde aparecia sempre, uma limonada, ou
um mazagrã (café, água, gelo, açúcar e
limão; o refresco predilecto do meu pai),
nesse misto de técnica, memória, saber-
-fazer e alguma emoção, que caracte-
riza um estilo culinário e que para mim
é actualmente defnido como “tradição
tolerante”.
Fica assim assumida, sem tergiversa-
ções a importância primordial que eu dou
à acidez, que é tão diferente do... aze-
dume, uma característica de tantos, que
por vezes parece prevalecer e dominar o
nosso dia a dia.
A acrimónia dominante no comentário
político, mas também demasiadamente
O limão e a azia
NUNO DINIZ
Emoções
37
frequente na crítica em geral, seja gas-
tronómica, musical, cinematográfca ou
outra, parece indicar um permanente
estado de azia, que se suaviza episodi-
camente para passar a mão pelo pêlo a
alguns amigalhaços, para rapidamente
voltar a resvalar para a maledicência,
ignorante e preconceituosa, que enche o
pequenito mundo de alguns tristes.
Falemos, só porque temmais a ver com
o cronista, dos combinadores de letras,
pontos e vírgulas, que se entretêm com
as cozinhas. Há demasiados que sabem
pouco. Mas têm muitas, defnitivas e toni-
truantes opiniões. Maralhamemconceitos
baralhados que confundem com a ver-
dade. Assumemrumores e sussurros como
o píncaro da perfeição. Deslumbram-se
com técnicas que consideram de van-
guarda (e que na maior parte dos casos
têmdécadas), e quase sempre desprezam
a singeleza coerente da simplicidade.
Tal como o outro que queria malhar na
direita, ou o que hoje quer malhar nos jor-
nalistas, ou o que há-de chegar a querer
malhar em todos, também alguns escre-
vinhadores achamque para exibir o seus
auto-proclamados conhecimentos, não há
nada melhor do que malhar nos que ten-
tam fazer qualquer coisa. Porque, fique
claro, todos nós somos críticos, todos nós
damos opiniões, todos nós gostamos e não
gostamos, mas há uma grande diferença
entre fazer e falar de quem faz. A liber-
dade para dar opiniões não pode ser maior
do que a liberdade do criador, do intér-
prete, ou mesmo a do executor que cum-
pre regras rígidas e imutáveis. Eu tenho
direito de não gostar, mas não tenho o di-
reito de dizer que está mal feito, sempelo
menos tentar perceber porquê.
Quando se diz que uma carne está muito
passada, isto não passa de uma opinião
de uma pessoa que, emtantos casos, não
corresponde à opinião de outra. Quando
se escreve, então existe a obrigação de
tentar saber porque é que a carne, ou o
peixe, ou a cenoura estão como estão.
Foi engano? É propositado? E se é para
ser mesmo assim então o autor deverá
saber explicar porquê.
Eu não gosto de pimentos, logo tenho a
liberdade de não os utilizar na minha co-
zinha. Não tenho o direito de dizer que
umprato é mau só porque leva pimentos;
posso dizer que assimnão gosto, mas nada
mais. E o problema é meu.
Para mim o bacalhau não dever ser co-
zinhado a mais de 70º, logo se alguém
escrever que um bacalhau feito por mim
estava mal passado, está enganado, não
tem razão! Pode dizer que para o gosto
dele o bacalhau estava pouco passado, não
pode dizer que está mal feito. E, claro, tem
sempre o direito fnal e absoluto de pedir
para que o cozinhemmais.
É nesta mixórdia frequente entre os gos-
tos pessoais, preconceitos, e falta de ta-
rimba e conhecimentos que, infelizmente,
se banha alguma da crítica mais caloira.
E no entanto existem em Portugal, vá-
rios grandes exemplos de notáveis crí-
ticos, que procuram a informação e o
conhecimento e que exercema sua função
com elegância e delicadeza, não despre-
zando o sempre fundamental didactismo
quando a lidar comos mais novos. É por
isso que não posso deixar de homenagear
os sérios e bons relembrando o exem-
plo fulgurante de David Lopes Ramos,
que exibiua crítica como um acto de
paixão e que sem a necessidade de se
esconder por baixo do capuz de ridícu-
los anonimatos, tentava sempre perceber
qual tinha sido a intenção do cozinheiro,
e conversava, opinava, perguntava, escla-
recia e aprendia... E como ele dizia, sem
azedumes, para quê gastar tempo e es-
paço a dizer mal, quando há tanta coisa no
mundo para apreciar e dizer bem.
38
«Venha para o pé de nós beber um Porto»,
é o convite de Maria Emília Campos, di�
rectora da Churchill’s. Por isso, os vinhos
da Churchill’s «serviram» a �astrono� «serviram» a �astrono� a �astrono�
mia: entradas de robalo marinado em
limão e laranja tiveram Dry White Porto,
camarão com puré de couve�flor para o
Churchill’s�branco de ���� e bacalhau co� branco de ���� e bacalhau co� e bacalhau co�
zido em toucinho com arroz de favas para
o Quinta da Gricha ���5 e ���9. A sobre�
mesa, pudim Abade Priscos e
musse de maracujá, teve a acom�
panhar o Vinho do Porto Vinta�e,
por ventura o único a merecer
reparo já que al�uns dos convi�
vas consideram ser «doce em de�
masia». Mas Sobral explicou que
o fito do maracujá era, exacta�
mente, quebrar o doce. Ainda que
«o vinho do Porto seja, por si só,
uma sobremesa», como opinou
Maria Emília Campos.
O centro de visitas Churchill›s
promete «privile�iar as provas
de vinho do Porto vintage desta�
cando as características sin�ula�
res e únicas de um produto que é
considerado um dos �randes vi�
nhos do mundo».
Os pratos foram cozinhados
pelo chefe diante dos convidados,
com John Graham, o fundador da
empresa e enólo�o, a apresentar
os vinhos, todos criteriosamente
escolhidos para o evento, com a
competente explicação da opção.
Os elo�ios a Vítor Sobral não
foram re�ateados, sendo o chefe
chamado de «embaixador» do
Vinho do Porto e talvez «o �rande
representante da �astronomia
portu�uesa no estran�eiro». Até
porque, além de chefe, é pro� , além de chefe, é pro�
prietário de um restaurante de
sucesso em São Paulo, onde co�
mercializa o vinho do Porto da
Churchill’s e os vinhos do Douro, e de um
outro em An�ola, além da conhecida Tasca
da Esquina e Cervejaria da Esquina, ambas
em Lisboa. Também por isso, Maria Emília
Campos fez questão de homena�ear os seu
«ami�o de lon�a data».
Num ambiente informal, em que o chefe
protestava pela bancada em que desenvol�
via os petiscos, Maria Emília Campos apro�
veitou a deixa para o desafar a deslocar�se
ao Porto, pelo menos uma vez por mês, para
efectuar cursos de cozinha. Vítor Sobral
aceitou o convite, comprometendo�se a
estar presente de três em três meses. E, em
tom jocoso, voltou a referir a bancada que
não foi feita a seu �osto, ainda que a sua es�
trutura se enquadre na perfeição no �énero
de decoração do espaço.
Enquanto cozinhava, Sobral aproveitou
para adiantar que já não tem necessidade
TEXTO MARGARIDA MARIA
Vinho do Porto com todos os privilégios
A Churchill’s tem um novo centro de visitas. É na Rua da Fonte Nova, em Gaia, sobranceiro ao Douro,
com uma vista de excepção, e recebeu, na inauguração, um show cooking do chefe de cozinha Vítor
Sobral. A presidir, um lema: o vinho tem sempre de estar «casado» com a gastronomia. Trata-se de
um investimento que ronda os 400 mil euros, com cerca de 350 metros quadrados, onde se pode
apreciar um cálice de Porto, tendo o rio e a cidade como pano de fundo. Um luxo, enfm!
39
de provar que é um grande cozinheiro, pelo
que a sua intenção «é fazer coisas que se
podem repetir em casa». E acentuou: «uma
cozinha rápida e simples, tendo por base os
tradicionais sabores portugueses».
O chefe aconselhou que se provasse sem-
pre o vinho, antes de começar a cozinhar
(«é necessário saber bem o sabor que se
pretende e adequar o vinho aos alimentos»)
e deu uma lição de história: «O refogado
português está na base de todas as cozi-
nhas. Ninguém inventa nada. Nós criámos,
de facto, uma miscelânea porque acrescen-
támos sempre na medida da nossa História
– ingredientes, especiarias – e isso torna a
nossa cozinha rica e em evolução».
A não perder, a receita de bacalhau: as pos-
tas, pequenas, são cozidas embrulhadas em
toucinho, com um fo de azeite para facilitar
a libertação da gordura, e o arroz
de favas tem um toque muito es-
pecial com hortelã fresca.
No final, a visita obrigató-
ria ao novo centro de visitas
da Churchill’s, onde se podem
agora efectuar provas de vinhos
mediante marcação, jantares
de grupo até 40 pessoas, reuni-
ões, workshops, e outro tipo de
iniciativas.
A recuperação do espaço, de-
senvolvida pela CRERE/Museu
do Estuque, foi, naturalmente,
inspirada no vinho e é curiosa
a sensação que se tem na área
dos quatro tonéis, com capaci-
dade para 45 mil litros, cada um,
destinados ao vinho do Porto
da categoria especial LBV (Late
Bottled Vintage), onde o vermelho nos re-
mete para o interior do próprio vinho.
Com um horário de visitas entre as 10 e
as 19 horas, o Centro de Visitas Churchill’s
apresenta diversas opções de provas a todos
os que visitam aquele espaço. Deste modo,
quem pretende aprofundar os conhecimen-
tos sobre Vinhos do Porto, tem à disposição
as provas verticais diárias, realizadas me-
diante marcação, para um mínimo de cinco
pessoas.
Estas provas técnicas, acompanhadas por
um profssional da equipa Churchill’s, vão
dar ao visitante a possibilidade de mergu-
lhar no fabuloso mundo do Vinho do Porto
e aprender a avaliar os seus diferentes esti-
los e sabores.
As provas turísticas destacam-se, tam-
bém, por darem aos visitantes a possibi-
lidade de escolha de uma prova de vinhos
personalizada, tendo em conta as novas
tecnologias e utilizando um conjunto de
Ipads preparados especifcamente para esta
aplicação. Contudo, é sempre bom ouvir os
especialistas e quem serve, dado o seu ele-
vado grau de profssionalismo.
Ainda no que respeita à recuperação do es-
paço, na sala superior, onde a vista do Douro
é emoldurada pelas janelas, vivem-se as
cores claras, quebradas por quadros e mobi-
liário do espólio da Churchill’s. Fica-se, pois,
com os olhos lavados e a alma cheia daquele
rio que banha a Invicta Cidade.
E, claro, imprescindível sempre, um cálice
de Vinho do Porto!
Rua da Fonte Nova 5
Vila Nova de Gaia
Telef.: 223703641
www.churchills-port.com
JOHN GRAHAM E MARIA EMÍLIA CAMPOS
NÃO POUPARAM ELOGIOS A VÍTOR SOBRAL,
«EMBAIXADOR» DO VINHO DO PORTO
Vinho do Porto com todos os privilégios
40
Na esteira dos sentimentos nacionalistas que varrem a elite in-
telectual portuguesa dos últimos anos do século XIX, o escritor
Fialho de Almeida (1857-1911) não deixa – tal como outros seus
confrades – de transportar para a gastronomia, para a cozinha
portuguesa, o mesmo tipo de atitude. Pondo-a nomeadamente
em confronto com a cozinha francesa, então dominante.
«A desnacionalização da cozinha é para mim, talvez primeiro
que a dos sentimentos e das ideias revelada pela vida pública, o
primeiro avanço da derrocada dos povos.» A frase, veemente,
afrmativa, é de Fialho de Almeida e há de ter sido redigida lá
pelo ano de 1891, que a este ano diz respeito o artigo que autor
incluiu em Os Gatos, folhetos de anunciada publicação perió-
dica mensal, em que Fialho ia comentando – com seriedade,
com algum humor e ainda com alguma forte verrina – o dia a
dia da vida política, social e cultural portuguesa.
Editada naquele ano de 1891, a crónica – de onde extraímos
esta frase e outras ideias e trechos que se seguirão – foi recom-
pilada numa série de volumes que conservaram o nome ori-
ginal que Fialho lhes tinha dado: Os Gatos. Isto é: bichos de
letras que, quando saíam à rua, se punham naturalmente de
garras de fora, prontos a arranhar, a irritar, a fazer mossa na so-
ciedade portuguesa de então. Aguerridos e acrimoniosos estes
Gatos tinham sido modelados na sequência de umas Farpas,
que a dupla J. M. de Eça de Queirós e J. D. Ramalho Ortigão
tinha começado a dar à estampa vinte anos antes, já em 1871,
e a que, com a partida de Eça em funções diplomáticas para
Cuba, Ramalho haveria, agora só, de dar continuidade, ainda
durante uma boa dezena de anos.
Ainda quanto a Os Gatos e à personalidade literária (e não
só…) de José Valentim Fialho de Almeida vale decerto a pena
transcrever aqui a justeza com que, em artigo não assinado,
se carateriza a pena e o pendor falhianos: «Como panfetário,
nos Gatos, Fialho tem páginas que são um misto de notável e
de mau gosto, de belo e de desequilibrado, de justiceiro e de
horrorosamente injusto.» Magister dixit. E, com isto, volta-
mos ao nacionalismo gastronómico-culinário do senhor José
Valentim.
Claro está, como o leitor muito bem sabe e vê, que a atitude
nacionalista de Fialho acaba por integrar-se nesta linha rei-
vindicativa, nesta veia de reabilitação daquilo que é nacional e
tradicional, linha que congrega personagens como alguns da-
queles cuja expressão, neste domínio, já, na EPICUR, temos
Dotado de uma prosa generosa e virulenta, afrmando-se no seu patriotismo, na altura
em que Portugal se achava imerso em profunda crise, Fialho de Almeida não hesita também
em elevar a culinária portuguesa aos mais alto grau da civilização. Escutemo-lo, pois.
FERNANDO-ANTÓNIO ALMEIDA
Passado gastronómico
«A mais sápida cozinha do mundo»
FIALHO DE ALMEIDA E O ELOGIO DA COZINHA PORTUGUESA
41
trazido à baila: um Camilo, um Ramalho, um Júlio Dinis. Estes
e ainda um super cosmopolita (Cuba, Inglaterra, França…) José
Maria Eça de Queirós que, na pessoa de um certo Jacinto, rejei-
tando Paris, acaba por render-se a um humilde e sublime arroz
de favas, que lhe é servido num desterrado e serrano Douro, pri-
mitivo mas autêntico, uma pura emanação da terra-mãe.
Pois Fialho – voltemos a Fialho – antes de mais, acusa os por-
tugueses de, por pura imitação, cometerem um verdadeiro aten-
tado de lesa-pátria, ao desnacionalizarem a culinária local: «A
desnacionalização da cozinha é, para mim, talvez primeiro que
a dos sentimentos e das ideias, revelada pela vida pública, o pri-
meiro avanço indicativo da derrocada dos povos.»
Considerando indiscutível que «Portugal é o país onde se
come menos e pior», Fialho considera que, acima de tudo, tal
se deve àquilo que chama «a monomania do estrangeirismo»:
«O estrangeirismo, ou monomania de adaptação do (que é) es-
trangeiro à vida nacional, enxertado sem critério nem precisão
imediata…» E, daqui, a acusar os seus contemporâneos – a elite
(ou uma certa elite) de então, claro está – de cairem no «eston- «eston- eston-
teio de civilizações superfciais, como a francesa», de cederem
perante «a torrente de preparados desenxaibidos com que Paris
inunda as mesas do mundo».
E, prosa adiante, logo lhe surge estabelecer o paralelo entre a
cozinha portuguesa e aquela que é praticada pelas então duas
maiores potências mundiais em confitual presença no palco da
História, a Inglaterra e a França (os Estados Unidos da América
do Norte ainda seguiam na via da matança das populações ín-
dias aborígenes, a Alemanha preparava-se para prosseguir na
sua triunfal e bélica carreira europeia…). E Fialho, de língua
afada, não hesita em contrapor-nos, na matéria, a ingleses e a
franceses: «sob o ponto de vista da alimentação, nós estávamos,
há dois séculos já na idade dos guisados, enquanto o grosseiro
inglês permanece ainda nas carnes sangrentas, reminiscência
dos períodos antropófagos, e o ardiloso francês nas massas e pi-
cados, isto é, nos jantares em pílulas, cujo último resultado é,
nada menos, que a supressão do paladar».
Chamando a si os «mestres excelentes» que nós, portugueses,
tivemos na matéria, cita o folhetinista o termos herdado «do
árabe a caçarola e a arte de fritar e refogar»; ao que acrescenta
a herança que, através das viagens de descobertas, fomos rece-
bendo pelo mundo: «as especiarias do Oriente, os picantes do
Brasil, a arte de doçar (sic.) dos países gulosos, a Turquia, a Índia,
e os sultanatos mouros da orla de África, subsídios culinários,
condutos, mimos, receitas, que muito cedo nos fzeram tomar a
dianteira dos povos gastrónomos».
E será assim, contestando acirradamente os «patetinhas» por- «patetinhas» por- patetinhas» por- » por- por-
tugueses (estrangeirados, é bem de ver…), que qualifcavam a
cozinha portuguesa como «a mais estúpida e gentílica», que
Fialho, patrioticamente, considera, sem mais rodeios, a nossa
cozinha ser «a mais requintada, a mais voluptuosa e a mais sá-
pida cozinha do mundo».
OS GATOS. BICHOS DE LETRAS QUE, QUANDO
SAÍAM À RUA, SE PUNHAM NATURALMENTE
DE GARRAS DE FORA, PRONTOS A ARRANHAR,
A IRRITAR, A FAZER MOSSA NA SOCIEDADE
PORTUGUESA DE ENTÃO
O ARROZ DE PERDIZES DE JOSÉ VALENTIM
Não era só conversa, da parte de Fialho. Ele punha as
mãos na massa, isto é, refnava-se na preparação de
especialidades ao gosto português e, particularmente, ao
seu – assinadas por José Valentim, de seu nome pró-
prio. É o caso de um arroz de perdizes que pelo menos
cativou Júlio Dantas, que assim se expressou a propósito
da prova: «Um verdadeiro puxativo celestial que deixou
fogo em todas as línguas, lágrimas em todos os olhos,
gratidão em todos os corações e um “bravo!” em todas
as gargantas», como reproduz José Quitério, em Histórias
e Curiosidades Gastronómicas.
Ele, o cozinheiro, não se encolheu, pelo contrário: «O meu
arroz já por várias vezes mereceu as honras da Imprensa,
e não me admiro, porque ele é obra íntegra e cientif-
camente criada para lisonja dos mais subtis requintes
gustativos.»
Magnânimo para com ele próprio, Fialho espantava-se,
como escreveu a Dantas, «da concepção genial que umas
simples perdizes chisparam do meu estro, e felicito o
Senhor que houve por bem fazer deste arroz - v. permite
– a minha Ceia dos Cardeais»
Segue-se a lista de ingredientes, a preparação, o apu-
ramento. E desperta (ou sustenta) o apetite de Dantas:
«Em meus lazeres trastaganos, enquanto as uvas madu-
ram, novos pitéus geniais saco ao bestunto.» Modéstia
não era coisa abundante naquela cabeça.
42
Boa entrada de férias, rumo a Barcelona, e a correr desde logo para
uma exposição imperdível, patenteada no Palau Robert, Passeig de
Gràcia, 107. É um festival gastronómico cuidado ao pormenor e o
retrato do percurso de vida de Ferran Adrià e do seu elBulli, tudo
encimado pelo título Riesgo, Libertad y Creatividad. Uma exposição
que vai ajudar a animar a cidade até Fevereiro do próximo ano…
Uma espécie de curso gastronómico virtual. É um momento raro,
uma mostra de construção soberba! Assim tivéssemos cá…
Em boa verdade, a visita à exposição faz-nos abrir apetites. Mas
não sabemos como começar, se pela clássica gastronomia catalã
ou pelas novas e modernas interpretações da dita. Atacámos a
primeira, aconchego na Ca l´Isidre (www.calisidre.com), quartel-
-general na rua Les Flors, 12, uma parte antiga da cidade. Por este
poiso está em prática a gastronomia catalã tradicional, assim tudo
desferido desde há 43 anos, porto seguro e bem escorado, cliente-
las féis, até da realeza, como aparece nalgumas das fotografas que
TEXTO EDUARDO MIRAGAIA FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES
Mesas de Barça
Para um mini roteiro de férias à mesa, Barça está a dar. Primeiro visitar o encanto da exposição
dedicada a Ferran Adrià, é o aperitivo, depois siga os passos para dois restaurantes de charneira.
Um cheio de pergaminhos, gastronomia catalã pura e dura, outro de cozinha de autor onde se
faz malabarismo com cozinhas de várias paragens. Só por isto vale dar uma saltada a Barcelona.
UMA EXPOSIÇÃO IMPERDÍVEL A VER ATÉ FEVEREIRO DO PRÓXIMO ANO
43
embandeiram as paredes de uma das salas de refeição. No turno
dos entrantes, manjares a que piscámos o olho: carpaccio de atum,
moluscos da Ligúria, camarão ravioli aromatizado com gengibre e
limão. De pedir bis, salada de vieiras com ovas de truta e romesco.
Saltada para os peixes, arrelagar o sobrolho para diversas iguarias,
alguns exemplos: risoto com frutos do mar; flé de atum Balfego
com coulis de tomate. Baixa o pano com um creme de ervilhas
a acolher um pregado híper-fresco e bacalhau com feijão Llauna
Morro de Santa Pau. Venham carnes, basta explicar duas transcen-
dências: uma só para espíritos não impressionáveis… ou os cére-
bros de cordeiro, a outra proposta mais «civilizada» dá-nos porco
trotters recheado com cogumelos e trufas com fígado de pato. E
fechar o círculo com uma sobremesa que muito bem cai no goto,
o Gin Tonic Texturas.
Restaurante que já chegou a ter duas Estrelas Michelin, de re-
alçar a carta de vinhos, onde se consagram grandes referên-
cias mundiais e onde os portugueses dão uma perninha bem
congeminada.
Mas o espanto, para nós neóftos na matéria, foi quando saltou
para a mesa um animalejo de seu nome espardenya… Há quem lhe
chame pepino do mar, dada a sua forma alongada. Na boca há lai-
vos do sabor das lulas, mas o espardenya ganha-lhes aos pontos
pela intensidade de cheirinho a mar. Bichinho caro e raro cons-
titui uma especialidade catalã e é apanhado apenas na costa me-
diterrânica. E é um cabo dos trabalhos para o catar, vivendo em
solos arenosos e em profundidades entre os 20 e os 40 metros.
Um animalejo de que se come uma ínfma parte, situada no seu
interior, parcos cinco centímetros de «carne». No Isidre são con-
fecionados com arroz, com refogados com alho ou simplesmente
grelhados.
MOO HARMONIZAÇÕES
Outro espirro de barça é o Moo (www.hotelomm.es), 1 Estrela
Michelin atribuída em 2006, dois sóis no Guia Campsa, alojado
no gabarito e frenesim do Paseo de Gracia. Da ideia do seu staf
implicado nos fogões – supervisão de Joan Roca, Josep e Jordi, ad-
ministração do chefe Felip Llufriu – está acima de tudo a harmo-
nização da gastronomia com os vinhos. Escolhe um determinado
prato e o sommelier apresenta-lhe um vinho que, quanto a ele, casa
às mil-maravilhas… Para todos os efeitos, o escanção Xavier Ayala
é um rapaz bem cotado, eleição de melhor da Europa e segundo
a nível mundial. Um homem que já geriu na casa mais de 600 vi-
nhos, actualmente, adega mais branda, ainda assim estão por lá
216 referências. De portugueses registámos Portos e dos melho-
res: Symington Down´s Vintage 2000 (109,15€), Taylors Vintage
85 (200,10€) e Niepoort Vintage 2000 (65€).
Para a mesa saltaram benesses encantatórias, exemplo de entra-
das de carpaccio de pies de cerdo y cigalas e nueces de foie gras com
su sopa. Vem o essencial e fca na retina uma dorada com trufa e al-
cachofras, mais cordero com menta y cous-cous vegetal, remate com
liebre a la royal. Nas sobremesas, categóricas sopa de coco com
yema de piña e bombones de castañas. Enfm, tudo assente na ma-
triz da gastronomia catalã mas a dar cheirinhos de muitas outras
paragens, onde o extremo Oriente exerce uma infuência consi-
derável.
ESPARDENYA
É BICHINHO CARO
E RARO E CONSTITUI
UMA ESPECIALIDADE
CATALÃ, APANHADO
APENAS NA COSTA
MEDITERRÂNICA
OS MATERIAIS DE ADRIÀ NUMA GRANDIOSA EXPOSIÇÃO
CLÁSSICO ISIDRE MOO ESTRELA MICHELIN
Barca velha,
barca nova
No tempo em que não havia grandes vinhos havia um
grande e poderoso vinho. Barca Velha, claro! Tudo começou
com um artífce imorredoiro, Fernando Nicolau de Almeida.
Ido de 1952, é iniciada a saga da Barca. Até hoje 17 colheitas, e
mais uma saída da forja, emblema de 2004. Trabalho leonino
para apenas pouco mais de 20 mil garrafas. Mas trabalho
lindo e glorioso!
44
FERNANDO NICOLAU DE ALMEIDA,TUDO COMEÇOU COM ELE
TEXTO EDUARDO MIRAGAIA
O convite anunciava-se misterioso… Uma nova edição de Barca
Velha, mas de que ano? Não era referido… Segredo de estado.
Para todos os efeitos o convite era prazenteiro, rezava: propomos-
-lhe uma viagem ao berço deste expoente máximo da região do
Douro, para um evento que já não se repete desde 28 de Maio de
2008, quando foi publicamente apresentado o Barca Velha 2000.
E lá fomos embarcados do Pocinho até à Quinta da Leda. É ali,
(já na embarcação se palpitava que o próximo Barca era e é o de
2004) para os apaniguados enólogos da Leda, «chanceler» Luís
Sottomayor, que calor como neste Douro Superior só no Alentejo.
Nesta paisagem lunar, monte Callabriga pela frente, onde viveram
os romanos, as graças da microzonagem puseram a descoberto oito
tipos de xisto, foi um mês inteiro a fazer perfurações. Dos almana-
ques extrai-se que a Leda, embora a braços com o inóspito Douro
Superior, dá para todos os casos uma nova dimensão para os vinhos
durienses. Produtos de enorme complexidade e estrutura, porten-
tosos mas plenos de frescura e vigor. O enóflo mais avisado por
certo conhece a excelência de dois case study, Quinta da Leda e
Callabriga. Nos dizeres de Sottomayor, a Leda confgura todo um
novo desafo enológico para a região, possuindo os mais modernos
sistemas de plantação e vinifcação do Douro. Os seus 160 hectares
de vinha estão separados por castas, sendo a Touriga Nacional a sua
plantação mais recente.
E vem a prova dos nove… Foi preciso esperar pelo jantar para en-
trar à fala com o Barca 2004, escoltado por uma perdiz estufada na
cocotte com puré tosco de batata e esparregado de favas, um man-
jar precioso servido pelo turismo rural das Casas do Coro, aldeia de
Marialva. Bebido assim à queima-roupa, este 2004, para todos os
efeitos um jovenzinho, atingiu as alturas, quanto a nós ainda melhor
do que a edição de 2000. Lá se confere uma intensa cor ruby, aroma
de alta harmonia e complexidade. O fnal é soberanamente longo e
complexo, estrutura pujante. E pensar que esta última cotada só deve
atingir o apogeu muito provavelmente 15 a 20 anos após a colheita!
Mas da casa, à nossa mesa o patriarca Fernando Guedes soletra mais:
prevendo-se, contudo, que se mantenha vivo por um período até hoje
indeterminado. Para lhe tratar devidamente da saúde, em prol da ve-
lhice, apesar de pronto a consumir desde já, tem um largo potencial
de guarda e evolui positivamente em garrafa, mas alerta: desde que
45
esta seja mantida deitada, em poiso seco e fresco, ao abrigo da luz. E
outro alerta: para preservar a sua mais alta qualidade, foi engarrafado
sem tratamento, sendo portanto natural a formação de depósitos.
Nascido apenas de vindimas excepcionais, só narizes apurados
podem determinar quando é ou não Barca Velha. Um desses narizes
confere com Luís Sottomayor, «adivinhava» ele há tempos: «Há al-
guma coisa que nos diz, e que a experiência estimula, que aquele ano
vitícola tem as características para Barca Velha». Mas há sempre con-
dições… Este néctar não se compadece com pressas, pressões, nem
efeitos de moda ou tendências! E foi sempre assim, a começar nos
idos de 1952, estando-se na 17ª colheita. E pensar que o seu criador,
Fernando Nicolau de Almeida, um visionário, já sonhava com a sua
concretização na década de 40…
Em abono deste 2004 é por bem explicar os meandros. É que
a grande difculdade, enquanto vindima de grande qualidade e
quantidade, foi separar as uvas que iam fazer história daquelas
que estavam apenas destinadas à produção clássica. Aduzindo
Sottomayor: e assim, em plena vinha, começava a confança num
ano Barca Velha. «Ainda me lembro da cuba, 3.4., que tinha 90 por
cento de uvas da Quinta da Leda e dez por cento de zonas mais
altas no Douro Superior». No total apenas deram à vida umas pre-
cisas 26.068 garrafas numeradas, cada a valer PVP 100 euros. No
entanto é preciso esperar… A distribuição só se inicia no próximo
mês de Setembro. Bafejados pela sorte estão apenas, de imediato,
os sócios do Clube Reserva 1500, a estrutura que é obra criativa da
Sogrape.
ACHADOS
É de ontem e de hoje que o Barca Velha está pejado de curiosidades.
Para alinhar apenas algumas…
É de mestre – �rrojado e�erc�cio de enologia� dada a ino�a��o dos m�� �rrojado e�erc�cio de enologia� dada a ino�a��o dos m��
todos utilizados por mestre Fernando Nicolau de �lmeida e sua equipa�
que lograram ultrapassar as difculdades t�cnicas que diziam respeito
ao equil�brio da matura��o/acidez natural e o controlo da fermenta��o�
particularmente da temperatura. O problema da matura��o foi solucio�
nado com a selec��o de u�as a diferentes altitudes no Douro Superior�
que �aria�a consoante os anos para conseguir a acidez desejada. Em re�
la��o à quest�o bicuda do controlo de fermenta��o� a solu��o passou
por adaptar uma tecnologia importada de Fran�a� utilizando a remonta�
gem por bomba em balseiros� obtendo deste modo a e�trac��o preten�
dida. Já o dom�nio da temperatura foi almejado pela utiliza��o de gelo�
que era transportado de Matosinhos para o Pocinho� em camiões� de
forma a garantir a fermenta��o alcoólica entre os 28 e os 30 graus cent��
grados.
Como contar Leda – � história da Quinta da Leda come�a por um aca�
so� em 1979… O antigo proprietário do terreno foi a Vila No�a de Gaia
apresentar a sua proposta de �enda. Sabendo que ha�ia no sector em�
presas interessadas em produzir no Douro Superior� dirigiu�se à Ferreira
pensando que contacta�a outro produtor que� entretanto� já tinha fe�
chado um negócio naquela sub�regi�o� dei�ando assim o caminho li�re…
��aliadas as condi�ões� a Ferreira decidiu a�an�ar e plantou �inha em
terras que at� ali esta�am destinadas à produ��o de centeio. No in�cio
eram apenas 20 hectares e toda a produ��o ia para Vinho do Porto� Bar�
ca Velha e Vinha Grande. �s �inhas mais antigas têm cerca de 30 anos�
mas actualmente a Leda dispõe de 160 hectares.
Clones milagre – Numa altura em que a Touriga Nacional esta�a em ris�
co� dada a sua bai�a rentabilidade� nos idos de 1987 foram plantados na
Quinta da Leda 197 clones� utilizando a raiz 1103�P� para estudar a �ariabi�
lidade gen�tica desta casta. � labuta ali desen�ol�ida� num �inhedo �ira�
do a sul� a 181 metros de altitude� foi crucial para descobrir os clones com
maior rentabilidade� relan�ando assim aquela que � hoje a casta mais
badalada de Portugal.
Brinquinho de adega – � adega da Leda� que recebeu a primeira �indi�
ma em 2001� � e�emplar� na medida em que utiliza uma abordagem que
permite ao enólogo o contacto ideal e fácil com o �inho. É composta por
�árias sec�ões que se desen�ol�em na �ertical� dando prioridade à rece�
��o das u�as no plano superior e utilizando a for�a da gra�idade para a
mo�imenta��o das massas ��nicas� o que garante um fu�o muito mais
natural com ganhos de qualidade para o �inho.
Sonho de enólogo – � pensar nos �inhos de topo de gama� e inspirada
num balseiro de duas toneladas que desde 2007 ocupa�a um canto da
adega da Leda� em 2009 foi criada uma linha especial� com um teg�o
que lhe dá acesso e�clusi�o� totalmente imaginada pela equipa de eno�
logia. «É o sonho de qualquer enólogo»� afrma Lu�s Sottomayor� a pro�
pósito das seis cubas de cinco toneladas em forma troncocónica com
controlo de temperatura. � �antagem� deslinda �ntónio Braga� � que «o
seu formato pequeno permite uma separa��o minuciosa� um �erdadeiro
trabalho de precis�o� fazendo um melhor apro�eitamento do trabalho
que se faz at� à entrada das u�as na adega». Para Sottomayor� «� uma
zona e�perimental� onde podemos me�er� �er e sentir o �inho». Com um
robot pisador adaptado às cubas� remontagens manuais ou delestage�
aqui a tecnologia n�o dá desculpas para que n�o se produzam �inhos
soberbos.
46
NASCIDO DE VINDIMAS EXCEPCIONAIS,
SÓ NARIZES APURADOS PODEM
DETERMINAR QUANDO É OU
NÃO BARCA VELHA
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(RISCAR OQUE NÃOINTERESSA) À ORDEMDE JMTOSCANOLDA.
PAGAMENTOPOR NIB– 0045 4060 4010 2972 0731 9
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TELEFONE 21 414 29 O9 FAX 21 414 29 51 ASSINATURAS@JMTOSCANO.COM
RECORTAR OU FOTOCOPIAR E ENVIAR PARA:
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*Preços para Portugal
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PREÇODE CAPA(SEMPORTES) 30€ 60€
PORTUGAL 25€ 48€
EUROPA 42€ 81€
RESTODOMUNDO 59€ 119€
48
Trabalho apaixonado, não pode ser de outra forma a centelha que
implica construção de vinho. Nesta precisa medida está o enólogo
Luís Sottomayor, que desde 2007 dirige a equipa de enologia de
todas as marcas de vinho do Porto e Douro da Sogrape Vinhos. Aos
ombros, Luís transporta ainda uma herança inolvidável… A de ter
partilhado sonhos e trabalho com Fernando Nicolau de Almeida.
Vamos escutá-lo.
A sua afrmação de que o Barca Velha «é 90 por cento uvas e 10
por cento de enologia» não é válida para todos os grandes vinhos?
Na realidade sim! Se é verdade que todos os vinhos precisam de
boas uvas, os grandes vinhos vivem fundamentalmente da uma vi-
ticultura de alta qualidade. Claro que um bom trabalho na adega
é igualmente essencial, com a tecnologia e a paixão do enólogo a
preservarem e temperarem aquilo que a natureza naquele ano ofe-
receu. E se há vindimas em que a intervenção é mínima, eu diria que
também há casos de grande surpresa!
Há sempre uma aposta em algumas vinhas…
Sem dúvida. A experiência e o conhecimento que temos das quin-
tas incentivam-nos a olharmos para as diferentes parcelas de uma
vinha de maneira diferente. São vários flhos do mesmo pai, cada
um com a sua personalidade e comportamento! Na Quinta da
Leda, de onde provém a grande parte do lote que é usado para Casa
Ferreirinha Barca Velha, fazemos uma viticultura de precisão. Isto
signifca que há determinadas vinhas que foram identifcadas por
terem consequentemente demonstrado uma qualidade acima da
média, e nas quais fazemos uma forte aposta. Portanto, a estes 30
hectares, está alocada uma equipa da 18 pessoas cuja única função é
acompanhar o ciclo vegetativo daquelas videiras, proporcionando-
-lhes as condições essenciais ao seu desenvolvimento.
O potencial de guarda do BV, em exagero, pode descaracterizar
o vinho… E o que é um exagero?
Não diria que o potencial de guarda descaracteriza o vinho, mas se
o encararmos como um produto vivo e natural, é normal que haja
uma evolução.
Não obstante, e falando especifcamente de Barca Velha, quando
o vinho nasce, a sua robustez e estrutura são tão intensas e eviden-
tes, que podem difcultar a sua compreensão enquanto jovem. Daí
a Sogrape Vinhos assumir a responsabilidade de o preservar, e nós,
enólogos, termos a paciência para aguardar a sua evolução até ao
ponto em que temos prazer em prová-lo.
Mas o Luís já experimentou alguns «exageros» e fcou espan� á experimentou alguns «exageros» e fcou espan� e fcou espan�
tado, não é?
Na realidade não devia ser novidade para mim, mas fico sem-
pre surpreendido quando vejo Barca Velha antigos, porque a sua
A mandar no Barca Velha
e não só, é o Luís
LUÍS SOTTOMAYOR: «QUANDO O BARCA VELHA NASCE, A SUA
ROBUSTEZ E ESTRUTURA SÃO TÃO INTENSAS E EVIDENTES, QUE PODEM
DIFICULTAR A SUA COMPREENSÃO ENQUANTO JOVEM»
49
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capacidade de evolução é sem dúvida espantosa. Barca Velha 1957,
por exemplo, que provei há três anos, estava ainda cheio de cor.
Portanto exagero não será a palavra certa, porque ele aguentou, e
bem, e mais aguentará!
Li que neste momento se acha um pouco só para as decisões, de-
signadamente do BV. Estar só pode ser bom ou tem que ser mau?
Não me sinto só. A equipa de enologia Douro inclui seis provado�
res que me acompanham nas provas, de quem recolho opiniões que
são muito importantes na tomada de decisão fnal, que sendo exclu� sendo exclu�
sivamente minha, é�o numa posição confortável.
O que pode expressar sobre Fernando Nicolau de Almeida? Teve
«estórias» curiosas com ele?
As histórias com Fernando Nicolau de Almeida são muitas!
Realmente tive a sorte de o conhecer e aprender com ele. Era uma
pessoa com uma personalidade forte e com uma flosofa de vida
muito particular, mas encantadora. Lembro�me das suas conver�
sas sobre o nascimento de Barca Velha, das suas visitas aos forne�
cedores de vinhos e histórias com eles. Recordo�me especialmente
que gostava dos vinhos quentes e nas provas preferia os vinhos de
prensa, mais robustos e estruturados.
Há muita «discussão» na altura de se pensar em lançar uma co-
lheita de BV?
Não. Se houver muita discussão, se houver dúvidas ou hesitações,
então o vinho não é declarado Barca Velha. Para merecer este nome,
o vinho não pode provocar qualquer tipo de desconfança. Portanto,
e falando especifcamente de 2004, é uma decisão que começa na
vindima e amadurece com o tempo.
O BV de 1999 foi o mais complexo da década? Sei que o consi-
dera um vinho moderno… Como caracteriza um vinho moderno?
Se os diferentes anos e vindimas marcam o perfl do vinho, o estilo
de Barca Velha, a sua identidade, permanecem intocáveis. É verdade
que ao longo dos anos o vinho conseguiu modernizar�se, deixando
de usar as madeiras de carvalho português que lhe davam caracte�
rísticas mais rústicas. Com novas vinhas, novas tecnologias, novas
abordagens, é inegável que o vinho evoluiu, mas mantendo�se sem�
pre fel à sua personalidade.
A percentagem de Touriga Nacional tem aumentado. Razões?
A Touriga Nacional representa cerca de 30 por cento do encepa�
mento da Quinta da Leda, que é desde os anos 80 a principal ori�
gem das uvas com destino a Barca Velha.
Aliás, numa altura em que a Touriga Nacional estava em risco
dada a sua baixa rentabilidade, no fnal dos anos 80, foram planta�
dos aqui 197 clones, utilizando a raiz 1103�P, para estudar a variabi�
lidade genética desta casta. Este trabalho foi crucial para descobrir
A COLHEITA DE 2004 CONTEMPLA
TOURIGA NACIONAL (40 POR CENTO),
TOURIGA FRANCA (30),
TINTA RORIZ (20), O RESTANTE
É COMPOSTO POR TINTO CÃO
A EQUIPA DE ENOLOGIA DA QUINTA DA LEDA
50
os clones com maior rentabilidade, relançando assim aquela que é
hoje a casta mais conhecida de Portugal.
Na Vinha do Grilo, que ocupa uma área de 1,12 hectares, durante
mais de dez anos, todos os clones eram pesados por forma a ava-
liar a produção em termos de rentabilidade e, simultaneamente, fa-
ziam-se na adega micro vinifcações para analisar a qualidade dos
vinhos resultantes.
Este trabalho deu-nos portanto um grande conhecimento da
Touriga Nacional, que nos permite hoje em dia tirar cada vez mais
partido desta casta.
Já a quantidade em que entra no lote, tem necessariamente a ver
com as condições do ano.
Já Fernando Nicolau de Almeida ia buscar uvas aos terrenos
mais altos… É uma questão decisiva?
A acidez é uma condição essencial a um vinho de guarda. As uvas
da Quinta da Leda estão a uma altitude entre os 200 e os 300 me-
tros, e conferem grande estrutura ao lote, que sai benefciado com
uvas de zonas mais altas para reforçar a acidez. No entanto, esta é
novamente uma variável que depende das características do ano.
O Douro Superior é adorável. O que tem esta região que os «ou-
tros Douros» não possuem?
No Douro Superior o terreno não é tão acidentado, há mais calor,
é mais desértico, menos povoado, mais longe e mais misterioso. E
portanto aqui nascem necessariamente vinhos com características
diferentes. São vinhos mais robustos, mais estruturados, com maior
incidência de aromas a fruta vermelha muito madura, cacau e notas
minerais.
DE FIO A PAVIO
Castas – Barca Velha é, desde a sua criação, elaborado com uvas se-
leccionadas no Douro Superior, a diferentes altitudes. A colheita de
2004 contempla Touriga Nacional (40%), Touriga Franca (30%), Tin-
ta Roriz (20%), o restante é composto por Tinto Cão. Todas estas
castas provêm maioritariamente da Quinta da Leda (a bela, obriga-
tório visitar!). Apenas uma pequena percentagem são oriundas de
outros vinhedos situados a altitudes mais elevadas.
Ano vitícola – 2004 foi um ano quente e seco. Apesar de no Inverno
e Primavera ter chovido pouco, reduzindo a incidência de doenças.
O início de Setembro ameaçava uma situação sanitária desfavorável
devido à precipitação anormalmente elevada em Agosto (segundo
mês mais chuvoso do ano). Contudo, as condições inverteram-se
com uma vindima muito quente e seca, iniciada em meados de Se-
tembro e que durou até ao fnal de Outubro, registando-se nesta fase
fnal já fortes chuvadas, mas que acabaram por não afectar a quali-
dade das uvas mais sensíveis, entretanto colhidas.
Vindima e vinifcação – As uvas colhidas à mão para Barca Velha
2004 foram vinifcadas por castas separadas ou em lotes escolhidos
na vinha e/ou à recepção na adega. Após desengace total e suave
esmagamento, a fermentação alcoólica decorreu em cubas de aço
inoxidável e lagares. Durante este período, procedeu-se a remonta-
gens por bomba e pigeages com robots, com temperatura controla-
da por sistema automático. Realizou-se uma adequada maceração,
obtendo-se assim a extracção aromática e polifenólica desejada. No
fnal, e no momento exigido por casta/lote, o vinho foi encubado e as
suas massas prensadas, sendo o resultante da prensagem conserva-
do à parte do de lágrima.
Maturação e estágio – Os vinhos foram transportados para Vila
Nova de Gaia logo após o fnal da maceração, onde depois das fer-
mentações de acabamento foram submetidos a um estágio em bar-
ricas de carvalho francês de 225 litros, 75 por cento de madeira nova
e 25 por cento de madeira usada, durante aproximadamente 16 me-
ses. O lote fnal foi elaborado com base na selecção continuada dos
melhores vinhos, resultante das inúmeras provas e análises efectua-
das durante este período aos diferentes lotes e barricas existentes.
Nesta selecção organoléptica rigorosa, norteada pelos tradicionais
princípios da Casa Ferreirinha, reside o verdadeiro «segredo» do Bar-
ca Velha. Finalmente para os mais bem empertigados: Álcool: 13,5º;
Acidez Total: 5,49; Açúcar: 3 gr/litro; pH: 3,57.
A LEDA CONFIGURA TODO UM NOVO
DESAFIO ENOLÓGICO PARA A REGIÃO
CLÃ GUEDES
51
52
Para margens de sonho ou em ligação a atributos reais, diz-se que os
vinhos brancos podem enumerar uma mão cheia de seduções… ele-
gância, amizade, alegria, descontracção, prazer, fresco, leve, macio
e suave. Para a Associação Wine Lovers, «os vinhos brancos, verde,
rosé e espumante são ricos em sensações. O verde e o rosé são tam-
bém jovialidade e o tinto e o Porto são complexos».
Mais ou menos prédica, verdade é que os vinhos tintos ganham
todas as batalhas, pelo menos no nosso território. Na observação
das vendas, os tintos concitam 56 por cento do consumo, contra
os 30,2 dos brancos, e veja-se o texto em detalhe nestas páginas.
Irritação é aquele tipo de consumidores que amiúde lançam torpe-
dos aos brancos, ao género de vinhos é tinto… Facto é que segundo
uma caterva enorme de especialistas, hoje em dia os brancos passa-
ram a ser consumidos durante todo o ano. Se abordarmos mercados
externos, como os países nórdicos, é essa a grande realidade.
Era uma vez… Não há muitos anos a produção de brancos entre
TEXTO EDUARDO MIRAGAIA FOTOS JOÃO FRANCISCO VILHENA
A causa é branca!
Não é só pelos odores do Verão que se alinha esta prosa. Contas feitas, o hábito pelos
vinhos brancos já não é exclusivo do tempo estival. São produtos em que a leveza e o álcool
moderado concitam as preferências de milhentos consumidores, entre nós e além-fronteiras.
Como diz o outro… Deus fez o tinto, o branco é invenção do homem.
53
nós era falha… Pela pequena produção,
pela fraca qualidade da generalidade. O
mercado não conseguia instigar os consu-
midores para esse conceito vínico, mesmo
que os preços fossem muito inferiores aos
tintos, de resto, caso que ocorre ainda. São
outros contos… Ainda assim, os enólogos
de renome afirmam que é praticamente
sempre mais caro fazer um bom branco do
que um bom tinto…
Até que, num salto de gigante, a maio-
ria esmagadora dos produtores decidiram
construir brancos bem estruturados, que
«já não provocavam dores de cabeça»… Foi
o tempo em que as exportações dispara-
ram e, entendemos, era preciso satisfazer
inúmeros mercados externos que pediam
branco, mais branco.
Hoje, entre nós, a construção de vinhos
brancos é absolutamente notável. Nenhum
vinhateiro lhe foge, contando-se por mui-
tas centenas as marcas. Com um reparo
muito importante: brancos gastronómicos
cavaram também o caminho. Deixaram de
ser apenas vinhos de «intervalo» entre re-
feições, mero aperitivo ou só bom para o
veraneio. De tal maneira que conseguem
ombrear com tintos para fazer vocação à
mesa. Vinho é tinto? Qual quê!
Auscultando um conhecedor de vinhos,
como Raul Riba D’Ave, proprietário da
Directwine, uma causa está relacionada
com a expansão dos brancos: «O mercado
está a pedir vinhos mais leves e menos al-
coólicos, havendo uma tendência do con-
sumidor para pensar que os brancos são
mais leves que os tintos – o que em mui-
tos nem sequer é verdade – pode ser uma
boa razão para justifcar o tal aumento de
vendas». Por este diapasão alinha também
Luís Sottomayor, esse mesmo, o enólogo
do Barca Velha: «Como em todos os secto-
res, no vinho eu diria que também há ten-
dências. E os vinhos leves, com níveis de
álcool mais baixos, estão sem dúvida a captar a atenção dos consu-
midores. Hoje em dia produzem-se vinhos melhores, não só bran-
cos, mas tintos também». No mourejo da causa, outra condição a
extrair por Raul: «A crença de que só o vinho tinto é que faz bem
à saúde… Deve-se esclarecer que os brancos, em cuja produção se
utiliza o removimento de borras [vulgo bâtonnage] e ou se apliquem
macerações peliculares longas, também vão buscar à pele das uvas,
da mesma forma que os tintos, os polifenóis e outras substâncias que
tão bem fazem à saúde, acabando estes vinhos por ter característi-
cas, se bem que em menor proporção, pelo menos similares aos seus
congéneres tintos».
Na senda das crenças está a questão da «impossibilidade» dos
brancos não envelhecerem… Raul lança do seu alforge: «Destaco
três exemplos de vinhos feitos em Portugal que já deram provas ex-
traordinárias no que respeita à sua passagem pelo tempo. Quem
é que ainda não provou um bom Alvarinho de Monção/Melgaço
com 10 ou mais anos de garrafa?». Conclusivo: «Não é vergonha
nenhuma dizer-se que os melhores exemplos destes vinhos se asse-
melham à nobreza dos grandes brancos da Borgonha, tal o gabarito!
E quem ainda não ouviu falar dos vinhos da casta Encruzado na re-
gião do Dão? Vejam o testemunho daqueles que provaram os bran-
cos do Centro de Estudos de Nelas, alguns deles com mais de 40
anos e a mostrarem-se absolutamente fantásticos! E como último
exemplo, o fabuloso vinho de Bucelas, tão cativante quando jovem e
tão absolutamente extraordinário quando envelhecido na garrafa, a
fazer lembrar os grandes Riesling do vale do Mosela, na Alemanha».
No jogo desta condição esbranquiçada, Domingos Soares Franco
é, incontornavelmente, um defensor da causa, como ele soletra,
«após o french paradox, eu nunca acreditei que o branco desapare-
cesse, inclusive em novas plantações púnhamos castas brancas em
vez de tintas. Sempre aconselhei a plantar também uvas brancas,
pois mais tarde o consumo iria aumentar. Acho que a melhor saída
para branco continua no nosso país, porque, por muito que nos
custe a admitir, a qualidade em geral é inferior à maioria do vinho
produzido lá fora». Facto é que a José Maria da Fonseca continua a
apostar em branco, consolidando marcas e plantando castas.
Para esta espécie de távola redonda vem também à liça António
Saramago, a cumprir agora 50 anos de enologia: «Estou contra
aqueles que dizem que branco não é bom. Os brancos têm ascen-
dido bastante junto das pessoas de camadas mais jovens, de resto,
nas práticas iniciáticas eles são uma porta de entrada». É Saramago,
um dos grandes defensores de uma casta prodígio, como o Castelão.
Do lado do comércio pousa a Garrafeira de Campo de Ourique,
trabalho denotado de Arlindo Santos, garboso enófilo. De há
cinco há seis anos que o consumo aumentou naquela loja. Para
Santos, «em parte porque os tintos são muito iguais, acho que há
uma certa saturação devido a isso. Depois, o consumidor mais co-
nhecedor acede aos brancos, até pelo caso dos seus preços serem
mais baixos. Acresce o facto dos vinhos brancos já envelhecerem
muito bem».
Importa ainda, segundo o nosso interlocutor, «que hoje os bran-
cos deixaram de ser sazonais, eu pelo menos vendo-os durante todo
o ano». E o negócio vai de vento-em-popa, «até porque o branco
mais caro custa 30 euros». Já no apimentado de Arlindo, «Deus fez
o tinto, o branco é invenção do homem».
Socorrendo-nos ainda de Raul Riba D’Ave, ele bem deixa à ma-
neira de conclusão, citamos: «Temos que assinalar a contribuição
que os vinhos brancos estrangeiros deram quando começaram a
entrar no mercado nacional há cerca de dez anos. Estamos a falar
essencialmente de vinhos que vieram do Novo Mundo (Argentina,
Chile, Nova Zelândia, Austrália e África do Sul), com o seu perfl
limpo e aromático, alguns com excelente madeira, outros apenas
fruta, abrindo as mentalidades dos nossos consumidores e sendo
seguidos de perto pelos produtores portugueses que logo percebe- s de perto pelos produtores portugueses que logo percebe-
ram que tipos de vinho branco tinham que produzir: aqueles que
agradassem ao consumidor».
OS VINHOS LEVES, COM NÍVEIS
DE ÁLCOOL MAIS BAIXOS, ESTÃO
SEM DÚVIDA A CAPTAR A ATENÇÃO
DOS CONSUMIDORES
54
Juntámos, cabo de trabalhos para reunir em
dia conveniente, um painel de provadores
para o repto que lançámos – prova cega de
vinhos brancos. Outro cabo de trabalhos foi
escolher os 14 brancos que faríamos alinhar.
A EPICUR procedeu a uma primeira esco-
lha, depois confrontámo-la com a opinião
de diversos especialistas e assim fcou para
a mesa: Quinta da Casa Amarela Selection
2011, Aveleda Reserva da Família 2011,
Soalheiro Alvarinho 2011, Redoma Niepoort
2010, Quinta dos Carvalhais Encruzado
2010, Luís Pato Maria Gomes 2010, Quinta
da Murta Clássico Bucelas 2007, Domingos
Soares Franco Colecção Privada Verdelho
2011, Dolium Escolha 2010, Crasto 2011,
Alves de Sousa Branco da Gaivosa 2011,
Ribbonwood 2011 (Nova Zelândia), Michel
Lynch 2010 (Bordéus) e Crios Torrontes
2010 (Argentina).
Quanto ao douto painel, alinhámos:
Manuel Moreira, o nosso mais cotado som-
melier, o chefe José Cordeiro, os enólo-
gos António Ventura e Vera Moreira, Gil
Regueiro, produtor duriense, Óscar Correia,
director de Food e Beverage, Arlindo Santos,
proprietário da Garrafeira de Campo de
Ourique, e Mário Zambujal, digamos a re-
presentar os consumidores, com um de-
sempenho a dar valores que deixou os
A nossa selecção
ÓSCAR CORREIA, MÁRIO ZAMBUJAL, ANTÓNIO VENTURA,VERA MOREIRA, JOSÉ CORDEIRO, GIL REGUEIRO, MANUEL MOREIRA E ARLINDO SANTOS
55
especialistas espantados. Como é norma,
embora nada o imponha, prova que se quer
cega decorre no silêncio dos deuses, todos
os intervenientes concentrados, ora es-
preitando a cor e a limpidez, descobrindo
aromas que envolvem narizes, bocas por
fm que vão deslindar néctares. Mas ainda
assim saltaram alguns comentários deste
género, para a geral pensar… «Faz-me lem-
brar um produtor; Ele engana no nariz;
Estou meio constipado (aqui Cordeiro a
queixar-se); Agressivo; Acidez agressiva;
Madeira que tem alguma apara» (cientista
Moreira, só podia ser ele).
Conclusa a tarefa, a descontracção,
essa sim, passava inteirinha para o al- inteirinha para o al-
moço, servido a contento no restaurante/
charcutaria Aromas e Sabores, onde pon-
tifca Arlindo Santos. Para os vinhos apre-
sentados ao almoço, escolha nossa, ainda
pensámos sujeitar o painel a mais uma
prova cega… mas era castigo maior. Agora
assim, procedendo-se a um casamento
de brancos com tintos. Lá fcaram espoja-
dos Les Carisannes Sauvignon Blanc, Vin
de Pays du Val de Loire, França, 2010, um
dos presentes de Raul Riba D’Ave e da sua
empresa Directwine, ele; de resto, que apre-
sentou todos os produtos estrangeiros, e
ainda os portugueses que comercializa cá:
Casa do Valle Grande Escolha Branco 2010 e
Rubrica Branco 2010. Para além destes bran-
cos, aposta também no PL (Paulo Laureano/
Laura Regueiro) Velho Mundo IX.
RIBBONWOOD (16,62),
O ESTRANGEIRO
DA NOVA ZELÂNDIA
A FAZER DAS SUAS ENTRE
A PORTUGUESADA; MICHEL
LYNCH (16,43) FRANCÊS
A PUXAR PELOS GALÕES
56
DESPIQUE NAS PRATELEIRAS
De acordo com a análise efectuada pelo Instituto da Vinha e do Vinho, mais de
metade dos vinhos vendidos em Portugal (56,5 por cento em 2011) são tintos e a
tendência tem-se mantido estável nos últimos três anos.
O vinho branco está na segunda linha de escolha e representa 32 por cento das
vendas efectuadas em 2011, registando um aumento de dois pontos desde 2009. O
vinho rosé tem vindo a crescer nas vendas (mais 110 mil litros em 2011), mas é uma
opção que só preenche 1,8 por cento do total do volume comercializado. As lojas
de distribuição (hipers, supers e lojas tradicionais – canal Of-trade) representaram
73,7 por cento das quantidades de vinho vendido em 2011. Também aqui, os tintos
são os mais escolhidos (55 por cento), seguindo-se os vinhos brancos (30 por
cento) e, por último, os rosés (2 por cento). Para uma parte dos vinhos vendidos (13
por cento) não estão disponíveis dados relativos à cor. A restauração (canal On-
trade) representou 26,3 por cento das vendas de vinho em 2011, com os vinhos
brancos a serem mais requisitados (37 por cento) do que nas lojas de distribuição.
Todavia, à hora da refeição os tintos continuam a ser os mais escolhidos (62 por
cento), sendo o rosé aquele que é menos selecionado (1 por cento).
(Fonte: Instituto da Vinha e do Vinho)
Da banda dos tintos, as seguintes feras:
sublime Quinta de La Rosa Reserva 1997,
Quinta da Gaivosa 2008, Fiuza Reserva
1996 e Aequinoctium Autumnus 2009
Grande Reserva, José Carvalheira Wines
Creator. Mas guardado estava o bocado…
Arlindo Santos abriu uma das poucas gar-
rafas que guarda a sete chaves, da anti-
quíssima Noval: Da Silvas, um Porto Seco
(muito pálido, como está inserido no ró-
tulo), obra e graça de António José da Silva.
Apetece o atrevimento de dizer que já não
há coisas assim.
Até que a tarde se fez solene… E quem
ganha, numa pontuação de 0 a 20? Aveleda
no primeiro posto (17,43); e a eito os se-
guintes, por ordem de melhores notas:
Ribbonwood (16,62), o estrangeiro da Nova
Zelândia a fazer das suas entre a portugue-
sada; Michel Lynch (16,43) francês a puxar
pelos galões, aroma sublime; para fcar em
quarto lugar, outro forasteiro, o argentino
Crios Torrontes (16,37). Mais nenhum es-
trangeiro pelo caminho, ordem ganhadora
que resta: 5º Crasto (16,18), Alves de Sousa
(16), Casa Amarela (15,87), Soalheiro (15,50),
ex aequo Luís Pato e Carvalhais (15,31),
Dolium (15,12), Redoma (14,87), Murta
(12,75) e Soares Franco (12).
Como diria o outro… Não se aceitam re-
clamações, só aclamações. Com uma certeza
- ganhou especialmente a causa dos vinhos
brancos.
Quadro de mérito
Branco em prova cega, com 14 em compita renhida. Onde
os estrangeiros fzeram mossa, apelando para os primeiros
lugares da classifcação. Salvou a honra portuguesa o excelente
Aveleda. A esta escolha presidiu o critério de produtos com
um custo médio de dez euros. De 0 a 20, ei-los…
1º Aveleda Reserva da Família 2011 (17,43)
2º Ribbonwood 2011 Nova Zelândia (16,62)
3º Michel Lynch 2010 Bordéus (16,43)
4º Crios Torrontes 2010 Argentina (16,37)
5º Crasto 2011 (16,18)
6º Alves de Sousa Branco da Gaivosa 2011 (16)
7º Quinta da Casa Amarela Selection 2011 (15,87)
8º Soalheiro Alvarinho 2011 (15,50)
9º Quinta dos Carvalhais Encruzado 2010 e Luís
Pato Maria Gomes 2010 (15,31)
10º Dolium Escolha 2010 (15,12)
11º Redoma Niepoort 2010 (14,87)
12º Quinta da Murta Clássico Bucelas 2007 (12,75)
13º Domingos Soares Franco Colecção Privada
Verdelho 2011 (12)
57
Paulo Laureano Vinus brinda-nos com a vertigem de quatro vinhos
brancos, produtos da colheita de 2011. Não contente com a enorme
empreitada, traz ainda um exemplar espumante. No cerne conti-
nua a saga de só castas portuguesas, refrão de que faz muita questão
este enólogo alentejano. Mas desta feita a fazer uma perninha na re-
gião de Bucelas, alvitre para o Paulo Laureano Bucelas Vinho Branco
2011. Emblemas de composição, Arinto e Esgana Cão. Como nos re-
fere, «é um branco que traduz tudo aquilo que distinguiu, distingue
e distinguirá Bucelas do resto do mundo vitivinícola».
Na linha de «um branco para todos os dias», outro produto é o
Paulo Laureano Clássico Branco 2011. Com o Antão Vaz a fazer as
graças deste clássico, pede ainda ajuda ao Roupeiro e uma reduzida
percentagem de Fernão Pires. Como nos explica Paulo, «o Antão
Vaz confere fruta tropical, o Roupeiro dá-lhe notas de citrinos e o
Fernão Pires subtis notas forais».
A bem do clima, 2011 foi uma vindima marcada por uma produção
mais reduzida, resultante de um período de clima muito instável na
Primavera, que agudizou alguns problemas sanitários. No entanto,
uma maturação suave, marcada por dias
quentes e noites frescas à beira da escarpa
da Vidigueira, da Serra de Portel, permiti-
ram um enorme equilíbrio nas uvas das cas-
tas brancas de Antão Vaz, Roupeiro, Arinto e
Fernão Pires.
O senhor que se segue é o Paulo Laureano
Premium Branco 2011, Antão Vaz todo-po-
deroso, escoltado em percentagens peque-
nas pelo Arinto e uma pitada de Fernão Pires.
Branco claramente gastronómico transporta
a enorme vantagem de estar particularmente
preparado para guarda, longevidade é o tim-
bre. O Antão Vaz foi fermentado em barricas
novas de carvalho francês, enquanto o Arinto
e o Fernão Pires, após uma pequena macera-
ção pelicular, fermentaram em inox.
E vem o último moicano… Antão Vaz a
solo, Paulo Laureano Reserve Branco 2011.
Segundo a cábula do enólogo, «Antão Vaz
é uma casta rara, cujo habitat preferencial
são as terras xistosas da Vidigueira e Vila
de Frades. Este é marcado claramente pelo
terroir da Vinea Julieta na Vidigueira, que o
distingue». Uma fermentação cuidada, em
barricas de carvalho francês, acentua a sua
enorme personalidade, sem que a madeira esconda algum dos seus
excelsos caracteres varietais.
O último da fleira fca estabelecido como Paulo Laureano Bucelas
Vinho Espumante de Qualidade Bruto 2006. Produto de uma par-
ceria com António Pinto, que representa a actual geração vinícola
da família Camilo Alves, trata-se de um espumante cujo vinho base
foi vinifcado em 2006, em barricas de carvalho francês de segundo
uso. Tendo como castas base o Esgana Cão e o Arinto, a espuman-
tização foi operada pelo método clássico, ocorrendo em Janeiro de
2007. Abracadabra, o vinho precisou depois de uma autólise (está-
gio na garrafa em contacto com a borra da levedura) de mais de 50
meses! Após este longo estágio, o dégorgement começou a ser feito
em Janeiro deste ano. E aí está ele!
Entronizado em absoluto no efeito branco, Paulo exclama que
«as pessoas começaram a perceber a sua identidade própria». Algo,
porém, rejeita à partida… «Não aos brancos só assentes em levedu-
ras». Por fm, lança o que por vezes se esquece: «Em termos gas-
tronómicos, 50 por cento dela está vocacionada para os brancos».
Paulo muito branco
J
O
R
G
E
S
I
M
Ã
O
58
António Saramago é o caso acabado de um vetusto enólogo, nos tem-
pos em que a designação era pouco representada. E veja-se… São 50
anos a meter a mão na massa. Mas, no fundo, a trabalhar para outros,
o António não tem sequer um pedaço de chão para plantar vinhas
próprias. A sua tarefa especial nos vinhos é a de consultor. Neste afã
já chegou a consultorias em 14 poisos, de Norte a Sul. Hoje são bem
menos, assim quer.
Num dia passado em Azeitão, onde cantámos os parabéns, exibiu as
suas melhores chancelas e como anunciou aos convidados, «não vêm
só para almoçar, mas também para trabalhar». Toma que é democrá-
tico. De uma caterva de vinhos assinados pelo António, fcaram na
retina e no céu-da-boca: Aldeias de Juromenha Garrafeira, um tinto
cheio de alma, de 2005; um clássico Tapada de Coelheiros, tinto de
2007, uma casa onde Saramago trabalha há um ror de anos e o Risco
2010, um branco de alto coturno, nascido numa coutada das terras
setubalenses.
Onde a festa clamou mais beleza foi quando, à maneira de melhor
aniversário, escorreram uma saraivada de vinhos em que o enólogo se
empertigou em particular: António Saramago Reserva 2009, António
Saramago Moscatel de Setúbal Reserva 2007 e o Cinquenta A.S.,
2009. Todos os seus vinhos da região são vinifcados na Quinta de
Catralvos, uvas também compradas e em abono da melhor selecção.
Lá diz ele: «É um grande risco ter uma vinha. Os custos são sempre os
mesmos, mas se um ano é ruinoso…»
Espreitando a saga antonina, começa a trabalhar aos 14 anos de
idade na José Maria da Fonseca, mais tarde corre por conta e risco, já
feita especialização em Enologia, dedicando-se à actividade de con-
sultor, a Tapada de Coelheiros foi a primeira empresa que lhe deu
trabalho, depois vieram muitas outras. Graça é o seu dote para o cla-
rinete… O instrumento deu-lhe para integrar a banda da Força Área,
cumprindo assim a tropa durante quatro anos, acomodado ao con-
forto lisboeta da base militar do aeroporto. Nos intervalos da música,
que eram muitos, continuava a trabalhar a vinha. Há gente com sorte,
dizemos nós.
Apaniguado em força da região de Setúbal, de onde é oriundo, de-
fende-a com unhas e dentes: «Aqui temos uma enorme identidade e
o que pode acontecer a uma zona é perdê-la. Depois é fazer todos os
dias melhor. E falo por mim, que tenho o privilégio da idade». Uma
coisa é segura: o seu flho António, um rapagão jovem, está preparado
para assegurar a terceira geração da família e já mete bem a cara nas
vinhaças.
Dedicado actualmente a prestar consultoria a cinco casa vínicas, re-
partido entre o Alentejo e a Bairrada, a quinta é grande empreitada…
Não provámos o vinho, mas é oriundo do Brasil, estado de Santa
Catarina e saravá. O António, afnal, achou o Brasil e ameaça sur-
preender. Esperamos estar cá para provar, promessa que fcou com-
binada para um próximo encontro, quiçá quando Saramago quiser
comemorar mais parabéns.
TEXTO EDUARDO MIRAGAIA
Que bom ter 50 anos
Nunca teve terrunho seu. Trabalha para outros e já aconselhou 14 quintas, hoje
menos, assim quer, em abono de estar mais concentrado em fazer todos os dias
melhor. É António Saramago, enólogo de respeito a comemorar 50 anos de carreira.
Mas como Portugal já não lhe chegava, ataca o Brasil e lá vem vinho com sotaque.
António Saramago
ANTÓNIO SARAMAGO RESERVA 2009,
ANTÓNIO SARAMAGO MOSCATEL
DE SETÚBAL RESERVA 2007 E O
CINQUENTA A.S., 2009
C
M
Y
CM
MY
CY
CMY
K
cp_net_230x280.pdf 22/08/10 21:08:45
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60
Venha o Sri Lanka
E esta… A Quinta do Quetzal acaba de receber
uma encomenda muito especial, vinda do Sri
Lanka. Instalar uma vinha, recheada de tecno-
logia de vinifcação de timbre lusitano. O ideó-
logo dos vinhedos será Rui Reguinga que pro-
cederá à plantação de dois campos experimen-
tais, incorporando Syrah, Alicante Bouschet,
Merlot e hossanas para a Touriga Nacional. Do
lado dos asiáticos entram com um casta autóc-
tone com nuances do nosso Moscatel. Segundo
«adivinha» Reguinga, «vai ser possível elaborar
um vinho frutado, aromático, equilibrado e
com um estilo que se aproxima ao Novo Mun-
do». O projecto, que já foi apresentado no ga-
binete do presidente daquele país, estende-se
a uma adega com capacidade para 150.000
garrafas. Quanto à produção estimada é de 75
por cento de vinho tinto e 25 de rosé. O target
que se pretende alcançar são os hotéis e restau-
rantes da capital Colombo, os resorts turísticos
situados junto às praias do Índico e os milhares
de emigrantes da Europa, Austrália e Canadá.
Presentemente, o consumo de vinho naquelas
paragens está nas 450 mil garrafas/ano. Um
negócio, certamente, para forescer.
FAVAIOS
HARD TRICK
À maneira do ludopédico,
hard trick para os genero-
sos de Favaios, passando
no difícil crivo dos con-
cursos made in England.
Tudo aconteceu no De-
canter World Wine Awards
e lá foram três condeco-
rações – Moscatel Favaios
1980, ouro; prata para o
Reserva e bronze no caso
do Favaios 10 anos. Os Fa-
vaios inventariados são
fruto de colheitas de gran-
de qualidade, envelhecidas
em tonéis de madeira de
castanho.
UVA É ESPUMANTE
Sorvemos um espumante
de belo recorte, o Min-
gorra bruto rosé 2010.
Mais uma nova cartada
dos produtos Henrique
Uva, como ele soletra
sempre, «um apelo forte
à partilha». E com o con-
tributo de um enólogo
que não se distrai quando
se fala de qualidade, caso
de Pedro Hipólito. Tecido
a partir de Aragonez e
trabalhado por método
clássico, aqui fca este M,
que deu à vida lá para os
lados de Beja.
SAEM TALHAS
Fica um «guia» para orientar a navegação dos
consumidores… A distinção das melhores co-
lheitas de 2011 na produção, atribuídas pela
Confraria dos Enóflos do Alentejo. Nos tintos,
em primeiro, Talha de Ouro para a Fundação
Eugénio de Almeida, na prata a adega Coope-
rativa de Borba e bronze para a Herdade da
Malhadinha Nova. Quanto aos brancos, os três
do pódio: Adega Mayor, Serrano Mira e, por
último, Ervideira. No capítulo dos rosés: Ervi-
deira, Fundação Eugénio de Almeida e Coope-
rativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz.
ARROCHELLA COLHEITA E RESERVA
Douro Superior marche… Daí saídos, dois novos vinhos da Casa d´Arrochella.
Destaque particular para o Grandes Quintas Colheita Tinto 2009, alcandora-
do ao pódio com uma medalha de prata na Vinalies Internationales de Paris.
Assinado pelo enólogo Luís Soares, estagiou dez meses em barricas de carvalho
francês, tendo sido produzidas 50 mil garrafas, PVP de 7,5 €. O senhor que se
segue é o Grandes Quintas Reserva Tinto 2009, concebido a partir de mais de
80 por cento de vinhas velhas, predominando Touriga Nacional, Touriga Fran-
ca, Tinta Roriz e Tinta Barroca.
EDUARDO MIRAGAIA
VINHOMANIA
(
61
ADEGA NA RIBALTA
O projecto muito catita da nova adega da duriense Quinta do Vallado vai disputar a fnal dos
meritórios prémios FAD, um dos mais relevantes galardões da Arquitectura Ibérica. Há um ano
atrás, refra-se que o Vallado já embandeirava em arco com a referência que lhe tinha sido feita
pela emblemática revista Wallpaper, salientando o estilo contemporâneo-histórico da ampliação
e modernização da adega. Vai ganhar? Daqui a poucos dias se verá.
ELE É NEIVA CORREIA
O enólogo José Neiva Correia, e a sua DFJ Vinhos,
que gere, (há pouco tempo alvo de uma entrevista
na EPICUR), não pára de ganhar. Desta feita foi
considerada a Companhia Portuguesa de Vinhos
do ano de 2012 e em relação ao mercado norte-
-americano. A distinção foi atribuída no concurso
New York International Wine Competition. A empre-
sa não se quedou por aí, vendo ainda consagrados
quatro dos seus vinhos com medalhas de prata:
Portada Branco 2011, DFJ Alvarinho, Chardonnay
2011 e DFJ Pinot Noir & Alfrocheiro. Refra-se que
o NYWC caracteriza-se por ser o único concurso
cujos juízes são compradores de vinhos. Neiva Cor-
reia é um dos mais antigos enólogos portugueses,
e com a sua DFJ a exportar cerca de 90 por cento
dos vinhos para o estrangeiro, estando presente em
força nos Estados Unidos. E dá-se ao luxo de, numa
linha de garrafas, «bordar» em banho de ouro as
gaivotas que se destacam no rótulo…
PORTUGALIDADE
Boas novas vêm de Azeitão, oráculo
onde debuta a José Maria da Fonseca.
Assinalando-se a nova colheita do tinto
alentejano José de Sousa 2010. Um gran-
de vinho, palavra de escuteiro! A bem
da tradição, este vinho tem história, ora
atente: mantendo viva uma tradição
iniciada pelos Romanos, há mais de
2.000 anos, a adega José de Sousa está
equipada com 114 ânforas de barro, um
método de fermentação ancestral e raro.
Para além da adega tradicional, abaixo
do nível do solo, com as ânforas e dois
lagares para a pisa, também a adega mo-
derna com 44 tanques de inox e a tec-
nologia indispensável para a fermenta-
ção de tintos e brancos. Chegado ao
mercado, José de Sousa alinha as castas
Grand Noir (45 por cento), Trincadeira
(35) e Aragonês (20). O envelhecimento
foi obtido 30 por cento em carvalho
novo americano e francês. PVP reco-
mendado de 7,49 €. Outra nova é a al-
teração do rótulo Periquita. Segundo
António Soares Franco, «este projecto
é fundamental para o futuro da marca
e da nossa empresa, reforçando o posi-
cionamento como símbolo da Portuga-
lidade».
GRANDE DÉCADA!
Numa mesma década, serem declarados quatro Porto vintages, é feito de
monta. O que aconteceu com a Taylor´s! Puxando pelos galões, a companhia
decidiu comemorar a façanha lançando uma caixa onde constam em berço
de ouro os vintages 2000, 2003, 2007 e 2009. Mas trata-se de uma edição
exclusiva de 100 exemplares numerados a um custo de 400 €. Facto é que
a primeira década deste século foi invulgarmente abundante em grandes
anos para o Porto Vintage clássico, ao contrário das últimas décadas do
século XX, em que cada uma produziu três vintages. Para concluir, e o que
deve ser bem sabido: a declaração de vintage apenas acontece em anos de
excepcional qualidade, numa combinação entre a dádiva da natureza e a
mestria de David Guimaraens, o poderoso enólogo da casa.
62
VINHOMANIA
(
DOIS VINHOS, SEIS MEDALHAS
A Quinta do Couquinho, ali em pleno Dou-
ro Superior, já nos habituou a excelentes
vinhos. E vem mais uma consagração in-
ternacional da parte do Decanter World
Wine Awards na The London International
Wine Fair. Ao todo, estiveram presentes a
concurso mais de 12 mil vinhos de várias
partidas do mundo, analisados pela cater-
va de 400 especialistas de prova, oriundos
de 25 países. A empresa colocou a concur-
so apenas duas referências, o Encostas do
Gavião 2009 e o Grande Reserva 2009.
Ambos foram distinguidos nos três con-
cursos, tendo sido premiados com um to-
tal de seis medalhas que incluem uma
Outstanding Silver Medal, três medalhas de
Prata, uma de Bronze e uma Commenda-
tion. Refra-se que o Encostas do Gavião é
o lançamento mais recente da quinta.
DITO E FEITO
Mais um pleito para engrande-
cer um néctar nacional, Cortes
de Cima Homenagem a Hans
Christian Andersen 2009. Pas-
sagem directa para o livro Top
Ten World´s Best Syrah, concur-
so francês Syrah du Monde 2012.
Quer dizer, inscrito entre os dez
melhores Syrah de todo o mun-
do. Mais categórico quando esta
alforria é desferida no confron-
to entre mais de 445 vinhos da
casta Syrah de 24 países. O feito
valeu uma medalha de ouro.
ALVARINHO SEMPRE!
O único vinhateiro do Douro a
apostar num monovarietal de Al-
varinho é questão de honra para a
Real Companhia Velha. E acaba de
dar à luz o Quinta de Cidrô Alva-
rinho 2011. Palavra para Pedro
Silva Reis: «O Alvarinho tem de-
monstrado um excelente compor-
tamento no Douro, dando origem
a vinhos de enorme complexidade
e persistência. O Quinta do Cidrô
Alvarinho é um vinho expressivo e
cheio de personalidade, que com-
bina de forma perfeita a frescura e
exuberância aromática tão carac-
terísticas desta casta com a con-
centração e complexidade do Dou-
ro». Mais palavras, para quê?!
Disse bem o administrador da casa.
PARA A PRAIA E NÃO SÓ
Não escondem a condição de vi-
nho de aperitivo – esquecemos por
vezes que isso existe e que é agra-
dável – e é o Fiuza 3 Castas Nature.
Um vinho frisante branco, claro,
de baixa graduação alcoólica (10%),
atinente às castas Vital, Arinto e
Sauvignon. Para Fiuza a prédica:
«vai ao encontro de uma nova
geração de apreciadores jovens».
Para nós, é para sorver a meio da
tarde na praia ou no campo, amor- ou no campo, amor-
tecendo um sol fustigante.
GUARDA VALENTE
Casa da Ínsua é desde logo uma edifcação de res-
peito, solar barroco, antigamente palácio da Casa
Real. Mas outros ventos acrescentam-lhe notorie-
dade, no avatar de produtor de vinho. Para confe-
rir recentemente a distinção de medalha de prata
no exigente Concurso Mundial de Vinhos de Bru-
xelas. Apresentou a pleito o Casa da Ínsua Tinto
Reserva 2006, vestido com as castas Touriga Na-
cional, cruzado Cabernet Sauvignon e Tinta Roriz.
Longos 18 meses a estagiar em barricas de carva-
lho francês. Da casa proclamam a possibilidade
de ser guardado por mais de 20 anos.
63
BEBÉ CRESCE A OLHOS VISTOS
Pé-ante-pé a Herdade do Rocim cumpre agora cinco anos de existência. Trata-se
de um projecto notável, que tem à frente uma jovem de garra, Catarina Vieira. E
quando em curtos anos conseguiu um vinho alentejano de grande estaleca. Ca-
tarina estudou a preceito, a eito, os enigmas da vinha e num ápice chegou a con-
clusões inabaláveis de como apresentar vinhos de timbre marcante. E ainda…
desenvolveu categoricamente uma estratégia de divulgação dos seus produtos que
é absolutamente exemplar. Contornou à melhor a horrenda crise, avançou, está
aí para vencer.
NÃO TORCER O NARIZ
Outra vinhaça à qual muitos torcem o nariz, não acreditando que é feito de uvas, enfm…
Para nós tem a ver minimamente com o esplendor do Sol. É o Gazela Sparkling Dry
White. Um espumante concebido pelo grande Miguel Pessanha, um esteio do quadro
enológico da Sogrape. É arrancado às castas Maria Gomes, Arinto, Cerceal e Bical, mis-
tura fna. Como Miguel dá a táctica, «as uvas da Bairrada foram colhidas cedo para ga-
rantir uma boa frescura e acidez, sendo prensadas com grande suavidade. O mosto obti-
do após uma cuidadosa clarifcação foi lentamente fermentado a baixa temperatura. O
vinho assim obtido sofreu uma segunda fermentação lenta, em cuba fechada (método
Charmat), a cerca de 16º C, sendo depois estabilizado, clarifcado e engarrafado».
COMPANHIA
PEJADA DE BRANCOS
Há cada vez mais produtores em- á cada vez mais produtores em- cada vez mais produtores em-
pertigados na construção de
brancos. Se muita boa gente con-
sidera que vinho é tinto, desen-
ganem-se. Um bom branco, e
temos entre nós excelentes notas
dessas, pode valer muito mais
que um tinto. Facto é que já não
há hoje em dia produtor que se
furte a apresentar brancos. Veja-
-se o caso concreto da Compa-
nhia das Quintas, entre muitos
inúmeros produtores, que expla-
na de uma assentada vários bran-
cos. Corridinho para o Prova
Régia Premium 2011, Arinto,
contorno inexcedível da zona de
Bucelas, mais Quinta do Cardo
Síria 2011, resultante de uma se-
lecção cuidada de uvas desta cas-
ta, proveniente de vinhas de alti-
tude, plantadas a 700 metros,
para fechar o círculo com o Pan-
cas Branco 2011, blend de Arinto,
Chardonnay e Vital.
SEXY APPEAL
A nota é sexy, como o vinho, obra
do enólogo António Maçanita,
viticultura de David Booth: Sexy
Sparkling Rosé Brut. E mais uma
vinho, neste caso na dimensão de
um rosé brut, feito de uvas… sem
qualquer tipo de escape grossei-
ro… Dizem-nos que foi inspirado
nos métodos de produção dos
champagne rosé. Uma mistura
de quatro colheitas diferentes,
fermentado e envelhecido em
garrafa. Compõem-no Tou-
riga Nacional e Castelão,
casta virtuosa, cinquenta
por cento de cada uma
delas. Estão à mão de se-
mear 13 mil garrafas.
PVP puxado: 12,99 €.
64
Dois regalos em particular vão chegar até nós quando Outubro
bata no calendário. Referência expressa ao Romeo y Julieta Petit
Churchills e ao Cohiba Piramides Extra. Do lado do Romeo é ofere-
cido um puro para fumar sem delongas, um havano de cepo grosso e
de longitude reduzida, basta ver: 20 milímetros. Predicados, liga aro-
mática e equilibrada, excelente combustão. A seu favor concorre o
facto de usar tabaco de Vuelta Abajo DOP, a região categórica do ta-
baco produzido na ilha. É apresentado em caixas de 25 unidades, po-
dendo também ser adquirido em tubo de alumínio.
A outra pérola, Cohiba Piramides Extra, apresenta-se com um cepo
54 por 160 milímetros de largura e é o primeiro fgurado que perma-
necerá na gama Cohiba, quanto ao mais, é uma vitola de galera única
e em relação a todas as marcas dos puros cubanos. Especifcando, o
Extra insere-se na linha clássica da Cohiba, com uma fermentação
adicional, elaborada com tabacos de San Juan y Martínez (DOP) e de
San Luis (DOP), em Vuelta Abajo. Um predicado importante cen-
tra-se na nova cinta, de múltiplos holográfcos visíveis e invisíveis,
a tanto obriga a segurança contra a tentação de contrafação. Sobre
a sua comercialização apresenta-se em caixas de dez unidades e em
tubos de alumínio.
Outro galante cavaleiro é o Romeo y Julieta Churchills Reserva
Cosecha 2008, cepo 47x178 mm de largo. Para os anais dos puros,
é a primeira reserva da marca em 137 anos de história. E precio-
sismo: a liga é elaborada com uma selecção dos melhores tabacos
de Vuelta Abajo, especialmente envelhecidos durante três anos; foi
supervisionada por um painel composto pelos melhores 50 mestres
tabaqueiros.
TEXTO EDUARDO MIRAGAIA
Três mosqueteiros
Estão a chegar até nós três puros de respeito.
Por um lado, um Petit Robusto a pensar nos
fumadores que não abdicam de um charuto,
mas que não dispõem de muito tempo para lhe
ligar. De outro lado, está um fgurado da Cohiba,
este sim exigindo mais calma e próprio para os
momentos de repouso. Nesta calha, olhos bem
abertos para o Reserva 2008 da Romeo.
Romeo Cosecha e Petit, Cohiba Extra
65
NOSSO DIA
Não é o pomposo Festival dos Habanos, que decorre todos os anos
em Cuba, este é o nosso, que vai na terceira jornada. Por ali é dar azo
a testar uma panóplia imensa de puros. Não só, há provas de con-
fronto entre charutos e bebidas, para conferir aquela que melhor con-
diz com os sinais de fumo. É ainda uma mostra onde pode aprender a
construir o seu puro. O III Habanos Day vai ocorrer no próximo mês
de Outubro. Coordenadas para melhor informação: www.facebook.
com/pages/habanos-day-portugal/25206288759.
LIVRO A NÃO PERDER
Para quem quer dar brilho a uma estante, há um livro que convém
possuir: The Illustrated History of Cigars, obra maior de Le Roy e
Szafran. Para além dos puros, designadamente a sua história, também
são aconselhados os vinhos que podem estabelecer a melhor ligação.
E para quem estiver disposto a inteirar-se dos meandros da planta do
tabaco, fca a saber tudinho. Notas sobre gastronomia são ainda de
ter em conta. E para remate, informação detalhada sobre avaliações
de marcas e vitolas.
RUMO A PARIS
Para quem acede a Paris, há um lugar de culto bonito de se ver: trata-
-se do emblemático estabelecimento de charutos Tabac George V.
São mais de 30 anos de existência, sublinhando o excelente atendi-
mento. Ao leme está Maurice Sermet, que nos propõe puros cubanos,
dominicanos e hondurenhos. A George V é justamente tida como
o melhor local para adquirir charutos em Paris. E há praticamente
de tudo, desde o sublime Montecristo A, passando pelo magnífco
Partagas Lusitanias. Coordenada: Av. Gorge V, 22.
HAVANEZA NO PORTO
No ano em que se comemoram os 148 aniversários da fundação da
Casa Havaneza do lisboeta Chiado, outra casa está destinada aos fu-
madores de puros, no Porto. Era uma velha ambição do importador
Empor/Casa Havaneza. A nova loja fca perto da zona do Bessa, na
Rua Arquitecto Cassiano Barbosa, loja nº 40 (telefone 226174171).
Na linha das suas congéneres de Lisboa, está presente toda a linha
de puros cubanos e ainda mais, no que toca aos acessórios: Porsche
Design, ST. Dupont, Peterson, Big Ben e Humidif.
66
No topo da pirâmide, são as mãos das
mulheres e homens que enrolam as folhas
de tabaco, os enroladores, ou se preferirmos
o nome mais tradicional, os torcedores, que
com a sua empolgante arte conseguem criar
essa maravilha que é um charuto Premium. E
não, como conta essa pequena estória algo
desgastada, que os melhores charutos cuba-
nos seriam enrolados entre as coxas de jo-
vens virgens…
A confecção de charutos feitos totalmente
à mão reside numa arte centenária que
pouco se tem alterado nos últimos 150 anos
e que vai sendo transmitida de geração para
geração. Para se ser reconhecido como tor-
cedor deverá exigir-se em média uma prá-
tica de seis anos, e na ordem de uma dezena
para adquirir a necessária destreza que lhe
permita enrolar com perfeição qualquer for-
mato. Um charuto deficientemente enro-
lado vai afectar o tiro, a combustão, o aroma
e o sabor.
A GALERA
O centro de uma fábrica de charutos é a
galera. É uma grande sala preenchida com
mesas corridas onde os torcedores se sen-
tam, lado a lado, para confeccionar os cha-
rutos. Nas fábricas mais tradicionais, faz
lembrar uma sala de aula, já que vamos en-
contrar o chefe da galera sentado numa
grande secretária que está sobre um estrado,
virado para os torcedores.
Em regra uma galera é formada por de-
zenas de torcedores, havendo fábricas que
têm duas a três centenas destes especialis-
tas. Cada �construtor� disp�e de um es- �construtor� disp�e de um es- disp�e de um es-
casso número de ferramentas: uma pequena
prancheta de madeira; uma lâmina bem
afiada, chamada chaveta; uma guilhotina;
um frasco com cola vegetal e, acima de tudo,
os seus dedos. Em média um torcedor pode
produzir 100 a 120 charutos por dia depen-
dendo dos respectivos formatos.
No século XIX era tradição cada galera ter
o seu leitor, o lector de tabaqueria, que lia em
voz alta romances enquanto os torcedo-
res enrolavam os charutos. Os livros eram
escolhidos através da votação dos interessa-
dos e, entre os autores, contavam-se nomes
como Cervantes, bem como traduç�es de
Shakespeare e Dickens. Hoje, em algumas
fábricas, para além de serem lidas as notícias
do jornal do dia ouve-se essencialmente mú-
sica transmitida pela rádio.
LEQUE OU ACORDEÃO
O processo começa pela sabedoria de reu-
nir a quantidade exacta de tabaco, das três
qualidades, para compor a tripa. É impor-
tante a forma como as folhas são dobradas
em leque ou acordeão, no sentido do com-
primento, de modo a deixar pequenos canais
para passar o ar, garantia de uma combustão
uniforme. Segue-se a colocação do capote,
que não é mais que uma primeira folha que
envolve toda a tripa, que a segura e lhe dá
consistência.
Este conjunto da tripa com capote chama-
-se bunche ou tirulo e tem já um aspecto de
charuto, mas despido, sem roupa, e ainda
sem a sua forma completamente cilíndrica.
Para adquirir essa forma o bunche é colocado
num molde. Para cada formato o seu molde.
Estes moldes são prensados entre 15 e 60 mi-
nutos para obrigar o tabaco a atingir a forma
desejada.
O torcedor vai rodando o bunche den-
tro do molde, para que a forma cilíndrica
se estenda a todo corpo do futuro charuto.
Segue-se a delicada colocação da folha da
capa, que exige uma grande habilidade e
em que só a experiência é capaz de garantir
a perfeição, especialmente a parte final da
operação, que consiste no remate da folha na
cabeça do charuto, isto é, na ponta que leva-
mos aos lábios. Esta operação de fechar a ca-
beça através de uma tampa, a perilla, consiste
em recortar uma pequena porção de tabaco,
que é depois colada com a cola vegetal na ca-
beça do charuto.
Há, todavia, uma forma de enrolar a capa
de forma diferente, conhecida como de rabo
de porco, cujo remate da cabeça dispensa a
colocação posterior de um bocado de folha
de tabaco. O remate final é feito com a
TEXTO MARTIM SANTIAGO
Enrola, enrola
Vamos sondar uma mão cheia de palavras… No cruzamento do que signifca galera, enrolar
ou secagem e envelhecimento. Para ir ainda mais longe: cores dos tabacos, a utilidade das cintas
e aconselhamentos práticos para degustar um puro.
67
própria folha da capa, mas esta técnica tam-
bém designada como flag exige destreza e
grande experiência.
Finalmente, segue-se a fase de cortar com a
guilhotina o charuto, rigorosamente, à me-
dida certa, de acordo com o formato que se
está a produzir. Os puros depois de confec-
cionados são sujeitos a um processo rigoroso
de controlo de qualidade, para confrmar o
seu correcto diâmetro e comprimento, a
perfeição da colocação da capa e o nível de
enchimento da tripa. Todos os charutos são
ainda colocados em câmaras de fumigação,
em vácuo, para eliminar qualquer insecto
que possa estar acamado no tabaco, e que,
possivelmente, chegue a incubar, apare-
cendo mais tarde e destruindo o charuto.
Esta operação de fumigação não é mui-
tas vezes, infelizmente, eficiente; por isso,
é aconselhável não armazenar e conservar
charutos nos humidifcadores a temperatu-
ras muito superiores a 20º C.
Nos últimos anos, foram instaladas nas fá-
bricas de charutos as máquinas de tiro para
verifcar a circulação interna do ar nos bun-
ches, antes de serem aplicadas as respectivas
capas, de forma a garantir uma tiragem de
fumo adequada. Qualquer tripa que haja
sido mal enrolada é desta forma identifcada
e rejeitada pelo controlo de qualidade, e terá
que ser novamente enrolada da forma cor-
recta. A introdução deste controlo coincide
também com o quase desaparecimento de
charutos com tiro defciente, que obrigava
o fumador a um esforço suplementar de as-
piração para conseguir um volume de fumo
correcto à sua degustação.
SECAGEM E ENVELHECIMENTO
Toda a operação de confecção do charuto
exige que as folhas sejam humedecidas
para que se possa trabalhar melhor, daí que
quando termina a confecção de um charuto
este esteja húmido. Por isso, os charutos,
após serem produzidos, são armazenados
em salas forradas com madeira de cedro, os
escaparates e com temperatura e humidade
controladas, durante um período de tempo
de pelo menos três semanas, mas podem aí
estar alguns meses. As produções especiais
chegam a estar guardadas mais de um ano
nestes escaparates, ganhando mais quali-
dade. Mas é também nesta operação de se-
cagem que os charutos de uma certa marca
e com uma certo formato, que são armaze-
nados juntos, ganham também mais homo-
geneidade pois os seus aromas fundem-se
entre si. As últimas operações de todo o pro-
cesso consistem na selecção, de acordo com
as suas cores, na colocação das respectivas
cintas e no seu acondicionamento nas caixas
de cedro.
A COR DO PURO
A cor de um charuto é a da folha de tabaco
que foi usada como capa para a sua confec-
ção. É o tal «vestido» que adorna o puro e
que constitui o primeiro elemento revelador
da sua qualidade. E a capa tem uma grande
importância, como já referimos. As folhas
cultivadas nos Tapados têm uma excelente
qualidade: são sedosas, sem excesso de ner-
vuras, sufcientemente oleosas e com uma
cor homogénea. É então a partir da cor da
folha das capas que podemos tipifcar as vá-
rias cores que um charuto pode ter, e que são
sete. Porém, a tradição cubana restringe as
cores apenas a cinco variedades, e são as que
abaixo estão sublinhadas. Não encontrare-
mos Havanos com capas cujas cores sejam
Double Claro e Oscuro. Vejamos então as
várias cores: Double Claro, a capa tem uma
cor esverdeada clara. Esta cor é conseguida
através de um processo de secagem rápido,
com recurso ao uso de calor, de forma a
fxar a clorofla nas folhas. Esta cor de capa
foi muito apreciada nos Estados Unidos,
tendo agora menos apreciadores, enquanto O CENTRO DE UMA FÁBRICA DE CHARUTOS É A GALERA
68
os fumadores europeus, no geral, nunca a
tiveram em boa conta. Também é desig-
nada como Claro Claro, ou Candela. Claro: é
uma capa com uma cor castanha amarelada.
Alcança-se esta cor das folhas colhidas das
plantas que se desenvolveram nos Tapados.
As folhas, para terem esta tonalidade, são co-
lhidas mais cedo e são secas ao ar livre. São
folhas com sabor pouco intenso. É a cor mais
tradicional da folha Connecticut. Colorado
Claro: é uma cor que está entre castanha
clara a castanha. Na maioria das vezes são
folhas cultivadas ao ar livre, outras vezes nos
Tapados. Também é conhecida como cor
«natural». Colorado: é a cor central da es-
cala. É castanha avermelhada. Tem um sabor
forte, embora de aroma suave, e as suas fo-
lhas procedem das plantações em Tapados.
Os fumadores ingleses têm uma certa pre-
ferência pelo Colorado Maduro, uma cor
mais escura que o colorado, com folhas com
proveniência dos Tapados e, como a colo-
rado, tem um acentuado sabor e aroma sub-
til. Maduro: é uma cor castanha escura. Pode
oscilar desde um castanho forte até quase à
cor negra. Como o nome sugere, estas folhas
precisaram de um período de maior amadu-
recimento. Foram sujeitas a operações de
fermentação mais longas e, principalmente,
durante a fermentação, alcançaram tempe-
raturas mais elevadas do que aquelas que são
as normais (35 - 40 graus). Uma capa do tipo
Maduro marca um charuto pelo seu forte
sabor, muitas vezes um pouco adocicado
e pelo aroma suave. São folhas geralmente
muito acetinadas e oleosas.
Oscuro: é a cor negra. E são raros os charu-
tos que se apresentam com este tipo de capa.
A marca ONIX, produzida na República
Dominicana, recorre a este tipo de capa,
que importa do México. As folhas, originá-
rias dos Tapados, são colhidas tardiamente
e o processo de fermentação é necessaria-
mente mais longo e as temperaturas mais
elevadas. O excesso de fermentação das fo-
lhas provoca com frequência certa aspereza
na sua superfície. Esta cor é também muitas
vezes chamada de «negro» ou de double ma-
duro. Têm um sabor forte, mas são pouco
aromáticas.
Apesar de estarem tipificadas estas sete
cores na fase fnal da produção, o escogedor
identifca mais de meia centena de tons, que
só olhos bens treinados conseguem distin-
guir. De facto, as zonas de fronteira entre
as cores são de difícil destrinça. Constitui
um desafio interessante, aquando de uma
visita a uma das fábricas, tentar fazer uma
selecção de acordo com as cores. E isto por-
que uma caixa de charutos Premium não
deve acondicionar charutos de coloração
diferente. É inaceitável! Apenas diferentes
matizes dentro da mesma cor e respeitando
a tradição, ou seja, da tonalidade mais escura
para a mais clara, da esquerda para a direita,
são aceites.
Julgamos poder concluir, assim, que a cor
na apreciação de um charuto é em primeiro
lugar uma valência estética, mas a forma
como se consegue determinada cor acaba
por ter influência no sabor e no aroma. O
que não tem, ao contrário do que muitos
julgam, é uma correlação directa com a for-
taleza do charuto. Isto é, um charuto com a
cor Claro ou Colorado Claro não tem que
ser necessariamente um puro suave, pois
isso dependerá também, em grande me-
dida, da tripa que o compõe e do capote.
Mas também é verdade, há que reconhecê-
-lo, que há uma certa tradição para optar por
uma capa de cor mais escura, quando deter-
minada marca tem uma combinação de fo-
lhas, a liga, orientada para ter um sabor mais
forte. É o caso do Bolivar que ostenta uma
capa com a cor Maduro e é uma marca de
sabor forte. E ao invés, no H. Upman, que
tem uma cor Claro ou Colorado Claro, o seu
sabor é reconhecido como mais suave ou li-
geiro. Enquanto o Montecristo tem uma
cor Colorado Claro e está classifcado como
sendo uma marca com sabor Médio para
Forte. O fumador tradicional português
médio tem predilecção pelas cores médias/
para escuras, ou seja, entre o Colorado Claro
e o Colorado Maduro, o que refecte afnal
as marcas tradicionalmente mais fumadas, a
Montecristo, a Romeu y Julieta, a Partagas,
a que se juntou o Cohiba nos últimos anos.
A CINTA
A origem da cinta, ou anilla, data do século
XVIII e foi criada para evitar que a tinta
da nicotina, contida no fumo do charuto,
manchasse os dedos dos fumadores ou a
brancura das suas luvas. Já que alguma aris-
tocracia desse tempo fumaria também com
luvas brancas calçadas. Conta-se mesmo
que a Imperatriz Catarina II da Rússia usa-
ria umas pequenas faixas de cetim à volta
do charuto para evitar que os seus dedos
ganhassem a cor amarelada da nicotina.
Mas foi o holandês Gustav Bock, produtor
de charutos Havanos, que em meados do sé-
culo XIX criou uma pequena cinta de papel a
rodear a cabeça do puro, imprimindo a sua
marca, para diferenciar os seus produtos dos
demais no mercado. E essa inovação foi ime-
diatamente seguida por todos os fabricantes,
tradição que se mantém até aos nossos dias.
A sua função é hoje essencialmente deco-
rativa, mas servirá também como elemento
identifcador da marca.
Nem todos os charutos Premium têm
cinta, ou anilla. Mas uma grande maioria
dos Premium ostenta este adereço. A co-
locação da cinta é uma operação delicada,
geralmente feita por mãos femininas, a
Anilladora, e é executada na fase final da
confecção, antes de serem acondicionados
nas caixas de madeira. A sua fxação é feita
com o recurso a uma cola vegetal e a sua po-
sição é junto à cabeça do charuto. Alguns
apreciadores julgam que devem remover a
cinta antes de começarem a fumar… Nada
de mais errado, pois arriscam-se a danifi-
car a capa. Mas se desejam de facto retirar a
cinta, devem fazê-lo passado algum tempo
após o charuto estar aceso, pois o calor fará
com que a cola vegetal amoleça e a opera-
ção de remoção da cinta seja facilitada. As
cintas têm impressas as respectivas marcas
identifcadoras, sendo algumas delas muito
discretas, como a Montecristo, ou elegan-
tes como a Cohiba, enquanto outras seguem
um conceito mais tradicional, recorrendo
a imagens coloridas e com intensos doura-
dos e vermelhos das marcas mais clássicas,
como a Romeu y Julieta, Hoyo de Monterrey,
Bolivar, entre outras. São muitos os aprecia-
dores que guardam as cintas dos charutos
que degustaram com mais prazer, e existem
mesmo coleccionadores que se dedicam à
Vitoflia, que inclui o coleccionismo não só
de cintas, mas também das vistas das dife-
rentes marcas.
CATARINA II DA RÚSSIA
USAVA FAIXAS DE CETIM
À VOLTA DO CHARUTO
PARA EVITAR QUE OS SEUS
DEDOS GANHASSEM A COR
AMARELADA DA NICOTINA
69
William Grant era um homem voluntarioso que sabia bem o que
queria. No Verão de 1886, começou a construir a sua própria desti-
laria, literalmente. Com as suas próprias mãos, da mulher, dos seus
sete flhos e duas flhas. No dia de Natal do ano seguinte, jorrava o
primeiro spirit, dum pequeno alambique. Logo ali baptizou a desti-
laria como Glenfddich, o Vale do Veado.
125 anos depois, jorram 10 milhões de litros por ano, a maior
quantidade produzida por uma destilaria para a sua própria marca.
Recentemente, a Diageo construiu uma ainda maior, a Roseisle,
mas trata-se sobretudo de uma operação industrial que visa abas-
tecer os seus blends, em substituição de compras a terceiros. Mas
noutros aspectos a Glenfddich continua a ser única:
- Mantém uma tanoaria, controlando assim a construção e quali-
dade dos seus cascos;
- Controla todo o processo no mesmo local até ao engarrafa-
mento. As outras destilarias, concentram o engarrafamento das
suas marcas num local mais central, utilizando �gua corrente des- �gua corrente des- corrente des-
mineralizada. A Glenfddich em contrapartida utiliza a própria �gua
da sua nascente no engarrafamento, reforçando o seu car�cter de
terroir como ninguém;
- A cuba de casamento comporta o conteúdo de 30 cascos. Ali du-
rante nove longos meses procede-se ao seu casamento para uma li-
gação homogénea dos diferentes componentes arom�ticos;
- Após sete gerações, continua a ser uma empresa familiar, caso
único entre os grandes grupos. A diferença é que agora a gestão é
profssional mas o capital continua na família;
- Para uma destilaria tão grande os seus alambiques são surpreen-
dentemente pequenos, o que d� origem a whiskies «à moda antiga»
muito redondos e complexos, em que os componentes sulfurosos e
vegetais foram removidos graças ao intenso contacto com o cobre;
- Foi a primeira destilaria a focar-se quase exclusivamente na sua
própria marca enquanto as restantes forneciam a quase totalidade
do seu malte para os blends do grupo. A Glenfddich foi assim pio-
neira neste desenvolvimento crucial que lhe permitiu desde cedo
ser a marca de Single Malt com maior reconhecimento a manter a
liderança do mercado mundial nos nossos dias, face a grupos fnan-
ceiramente bem mais fortes.
Esse seu pioneirismo foi uma verdadeira descoberta de um novo
mundo, o dos Single Malts, praticamente desconhecidos até então
do consumidor. Os seus pergaminhos conferem-lhe com naturali-
dade toda a autoridade para lançar no mercado um lote limitado,
intitulado The Age of Discovery. Trata-se de uma versão que pre-
tende homenagear os Portugueses pelas Descobertas de um mundo
novo que arregalaram no seu tempo os olhos dos Europeus. É um
lote com 19 anos de maturação total em cascos, nos quais previa-
mente havia estagiado vinho Sherry (carvalho europeu) e Bourbon
Whiskey (carvalho americano). No último ano, deu-se o casamento
em cascos que previamente contiveram Vinho da Madeira… por
sinal a primeira das Descobertas dos Portugueses no longínquo ano
de 1419.
Os cascos de Madeira apresentam comprovadamente dos me-
lhores resultados no acabamento de lotes, tornando-os redondos,
licorosos e com ricas notas de marmelada. Esta versão apresenta
aromas de fgo maduro, fruta caramelizada. Na boca, revela-se rico
e apicantado, revelando passas e especiarias (canela e pimenta preta
moída, gengibre). O fnal é algo seco, sedoso e com permanência.
Os Portugueses sentir-se-ão devidamente honrados com esta ho-
menagem. Não ser� f�cil adquiri-lo, dada a exígua quantidade que
veio para Portugal. Veja em www.whisky.com.pt
Descobertas
LUÍS GARCIA
BOLSA DE WHISKY
(
Tudo se iniciou nos idos de 1886. Cumpridos
125 anos da saga deste whisky, está erigido o
monumento anual de 10 milhões de litros. Aí está
Glenfddich. E uma verdadeira descoberta de um
novo mundo, o dos Single Malts, praticamente
desconhecidos até então do consumidor.
70
Ao longo das décadas, as versões descapotáveis da Classe E da
Mercedes-Benz eram penalizadas, em nossa opinião, por um visual
demasiado sóbrio. Geração após geração, faltava-lhes aquele elã dos
seus «irmãos» mais arrojados da Classe SL, capazes de fazer virar
cabeças e de deixar a salivar os transeuntes com quem nos cruza-
mos. Até que, de súbito, toda a Classe E – dos sedans às carrinhas,
passando pelos coupés – foi alvo de uma alteração estética radical.
Ganhou elegância e solidez. E conquistou, sobretudo, uma base, em
termos de design, capaz de originar uma deliciosa versão cabriolet.
Filosofcamente, nada se alterou nos E Cabrio. Continuamos a
estar perante um 2+2 que tem, sobre os SL, uma vantagem gritante
em termos de versatilidade. Os lugares traseiros, não sendo muito
generosos, logram transportar dois adultos em razoável comodi-
dade. O porta-bagagens, com a sua capacidade de 300 litros, per-
mite transportar alguma coisa – mas nem se pense que lá cabem as
malas de férias de uma família. A mudança gritante surge, já o dis-
semos, ao nível estético. Mantendo o air de famille, surge um desca-
potável elegante, que respira encanto por todos os poros – ou por
todas as válvulas.
A versão que ensaiámos estava dotada da motorização diesel de 2.2
litros, que debita 204 cavalos. Não sendo um monstro de potência,
é um propulsor equilibrado, capaz de satisfazer a esmagadora maio-
ria dos utilizadores. A caixa de velocidades automática que o equipa
mostra-se especialmente adequada para este motor, com o elevado
binário (500 Nm é obra!) a permitir acelerações e recuperações in-
teressantes e agradáveis para quem aprecia um comportamento
desportivo (mas sem exageros, porque os radares das autoridades
estão onde menos se espera). A suspensão será, talvez, um tudo-
-nada dura em excesso para estradas deterioradas, mas assegura um
comportamento saudável quando se pretende andar mais depressa.
Há duas grandes desvantagens neste carro, é verdade. A primeira
diz respeito ao preço. Os 64 mil euros da versão de base não são um
exagero, é certo. No entanto, quando queremos personalizá-lo com
algumas opções interessantes (do simples ar condicionado automá-
tico aos sofsticados AIRSCARF e AIRCAP, passando pelos estofos
em pele e pelo sistema de som, por exemplo), as coisas começam a
agravar-se e, em menos de um ápice, chegamos aos já proibitivos 80
mil euros. Mas, no fm, fcamos com um carro tão bom!...
Ah!, é verdade, falta a segunda desvantagem! Pois é, após 72 horas
com um carro lindo, branco com capota vermelha, de que disfrutá-
mos durante um fm-de-semana ensolarado, tivemos de o devolver
aos seus legítimos proprietários. Não é justo.
TEXTO FREDERICO VALARINHO
Amor
de Verão
Procura um automóvel com capacidade para viajar com a família? Necessita de
espaço para bagagens? Não tem capacidade para gastar mais de 80 mil euros num
carro? Então esqueça o Mercedes E250 CDI Cabrio! Mas se, em contrapartida, quer
aproveitar o Verão para passear num automóvel lindo, então compre-o. Já!
71
Custa uns milhões, mas a indústria automóvel, ao mais elevado
nível de competição, não se dispensa de ensaiar soluções para
futuros próximos ou distantes, muitas das vezes nem uma coisa
nem outra, fcando na gaveta… Nome de código: protótipos. Desta
feita, damos sinal de uma mão-cheia deles.
O primeiro que sai da calha vem do imaginário da Peugeot, Urban
Crossover. Eles chamam-lhe «impertinência e sedução». À pala do
estudo que foi agora apresentado, os senhores Peugeot necessitam,
alvitre nosso, de justifcar a condição do sonho… «No início desta
década, havia em todo o mundo 30 cidades com mais de dez mi-
lhões de pessoas. Num horizonte de 2050, 5,3 mil milhões de habi-
tantes do planeta viverão em mega-metrópoles. A Peugeot, sensível
à evolução do mundo que a rodeia, alimenta uma refexão sobre um
automóvel polivalente, compacto, tão à vontade no ecossistema ur-
bano como nas estradas abertas», garante a marca.
O Urban Crossover está presentemente a ser exibido no Salão de
Pequim, noblesse oblige, retornando à Europa apenas em Setembro,
onde poderá ser avaliado no Salão Automóvel de Paris. Curioso é
que as equipas que gizaram o modelo apresentam um pendor for-
temente internacional, pensaram o popó a partir de Paris (secção
Estilo Peugeot), Xangai e São Paulo. Neste mote, apuraram-se sen-
sibilidades de continentes bem diferentes. Entrando em linha de
conta com o seu carácter marcadamente urbano, este Crossover tem
dimensões relativamente contidas: um comprimento de 4,14 me-
tros, uma largura de 1,74 m. Para os criadores, trata-se antes de mais
de um veículo «aventureiro pelo seu estilo atlético e pleno de raça,
que oferece um poder de sedução fora do comum e universal»…
Queira isto o que queira dizer, perdoem a intromissão da nossa la-
piseira. Trocado por miúdos, o Urban nos dizeres seguintes já tem
uma pretensão mais clara: conjugar o requinte de uma berlina com
a impertinência de um SUV; abono ainda para pensar numa habita-
bilidade boa e numa função polivalente.
Para os insignes da marca, é hora de puxarem, os galões:
«Quisemos levar mais longe esta refexão, com base numa forte
TEXTO EDUARDO MIRAGAIA
Peugeot, Porsche e Lamborghini em versões de protótipos para regalar a vista. Nem
sempre passam a produção em série, mas de um modo geral buscam nessa condição
concept-car novas soluções tecnológicas. E eventualmente antecipam o futuro!
Essencialmente naquilo que quanto a nós interessa mais… Menor consumo
de combustível, mais segurança e, já agora, maior gozo de condução.
Futuro ao volante
72
credibilidade no domínio dos veículos compactos, re-
sultante de mais de 15 milhões de unidades das séries
200 e numa legitimidade recente, já mais notável no
domínio do Crossover, com o sucesso do 3008, do qual
se venderam em todo o mundo 368.000 exemplares».
Ainda mais para o rol: «A apresentação do concept car
SXC no Salão de Xangai em 2011. A marca conjuga
estes dois domínios de excelência no seio de um con-
cept car».
PORSCHE ELÉCTRICO
No olhar para o senhor que se segue, fcam em riste os
protótipos do Porsche 918 Spyder. Mas estes já a inicia-
rem testes à tripa forra. É um super-desportivo a pensar,
contudo, para o futuro. Mas um futuro próximo: dado
agora o passo em frente para a conclusão do espada com
testes já iniciados, o Spyder vai entrar em produção em
Setembro de 2013. Dizem-nos que «tal como planeado,
com os primeiros clientes, vão receber os seus veículos
antes do fnal desse ano. O que estamos a fazer com o
918 Spyder é redefnir o prazer de condução, a efciência
e a performance».
Para uma explicação mais clara das intenções registamos no papel:
«Os protótipos possuem uma camufagem que remonta aos histó-
ricos modelos de competição Porsche 917, ignorando os retoques
fnais do 918 Spyder. O foco está na interação entre os componentes
sofsticados do acionamento individual». A saber, «a combinação
entre o motor de combustão e os dois motores eléctricos – um no
eixo dianteiro e outro na linha de transmissão, que actua nas rodas
traseiras – obriga a novas exigências no desenvolvimento das estra-
tégias de funcionamento».
O mais espantoso vem a seguir, especialmente no que concerne
aos consumos: estando-se a referir uma máquina de competição
pura, desenvolvendo mais de 770 cavalos, os consumos rondam os
três litros por cada 100 quilómetros percorridos… Assim, o autor
destas linhas quer um Porsche. E o leitor não?
Mais, num fartote de engrenagens, apresenta uma estrutura
mono-carlinga totalmente elaborada em polímero reforçado de
fbra de carbono; a aerodinâmica totalmente adaptável, o eixo tra-
seiro adaptativo e o inovador sistema de escape com saídas para
cima. E remata a marca: «No processo, o 918 Spyder oferece um vis-
lumbre do que a Porsche Intelligent Performance permitirá fazer no
futuro».
LAMBORGHINI SEM RETROVISORES
Agora, para o senhor que se segue, este último da saga protótipos
pode bem ser o primeiro, na ordem do texto, especialmente, para
nós, pela beleza que lhe toca. É o Lamborghini Urus. Patente para
embasbacar no Salão Automóvel de Pequim, falam desde logo os
seus 600 cavalos, diz a marca que «transferiu para o Urus todo o
seu know-how tecnológico de vanguarda, quer no aspecto dinâ-
mico quer de design e construção ultra leve». Indo aos detalhes,
que são muitos, oferece o valor mais baixo de emissões CO2 em
relação a toda a concorrência desta categoria; assentos são quatro,
mas de espaço à fartazana; distância ao solo variável; e obrigató-
ria tracção permanente às quatro rodas. No interior tudo é de alta
qualidade, onde a fbra de carbono cava os seus efeitos.
Não se sabe quanto vai custar, desconhecendo-se quando vai
para a produção, uma coisa está descortinada: os mercados-alvo
são principalmente os Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha,
Rússia, Médio Oriente e, claro, China. Uma coisa,
porém, está esclarecida: o volume de produção
anual poderá ser estimado em cerca de três mil
automóveis.
Este concept-car está pejado de engenhocas
curiosas. Escolhe-se esta de muitas: não há espe-
lhos retrovisores exteriores, mas sim pequenas
câmaras aerodinâmicas optimizadas, que moni-
torizam as condições de tráfego atrás do veículo.
Estas imagens são exibidas através de dois ecrãs
TFT colocados em posições ergonomicamente
perfeitas, à esquerda e à direita do cockpit.
E remate de Urus… Como tem sido tradição na
Lamborghini, o nome do protótipo é derivado
uma vez mais do mundo do toureiro. O Urus, tam-
bém conhecido como Aurochs, é uma das grandes
e ancestrais raças de touro. O touro Urus pode
medir até 1,8 metros de largura.
PORSCHE QUE CONSOME
TRÊS LITROS AOS 100
73
420 cavalos
Abeira-se de nós, final de Julho, a excita-
ção emblemática do novo Porsche Cayenne
GTS. É o SUV que entra na segunda gera-
ção. «Para variar», nota dos tempos actuais,
a estreia ocorreu recentemente em Pequim.
Receita soletrada pela marca: um motor
mais potente, mais rápido na entrega de po-
tência, chassis mais firme e uma altura ao
solo mais reduzida, a acentuar-lhe frenesim
desportivo. Tiro na mouche: 420 cavalos a
partir do propulsor V8. E mais para orde-
nar… arranque dos 0 aos 100 km/h em 5,7
segundos. No limite estonteante, uma velo-
cidade máxima de 261 km/h. Preço a partir
dos 131.448 €.
Bentley chinesa
Continuando a falar da China… Para a
Bentley (representada em Portugal pela
SIVA) esse é já o seu primeiro mercado de
vendas, destronando os Estados Unidos.
A avaliar, as vendas na China aumentaram
84,9 por cento, o que representa a comer-
cialização de 578 carros. Relativamente ao
velho continente, bons auspícios também,
tudo em crescendo: 34,4 por cento (207
automóveis).
Exploradores urbanos
A onda dos SUV (Sport Utility Vehicle) está
para durar, sejam maiorzinhos ou pe-
queninos, neste último caso o novíssimo
Chevrolet Trax, com estreia mundial agen-
dada para o Salão Automóvel de Paris,
Setembro próximo. A chegada do Trax está
prevista para a Primavera de 2013, seguindo-
-se ao novo Malibu e à aguardada carrinha
Cruze. Mesmo antes da apresentação mun-
dial, o regozijo pelo lançamento está pa-
tente nas declarações da patroa da marca
para a Europa, Susan Docherty: «O Trax
representa para a Chevrolet a entrada num
segmento que se encontra em crescimento,
oferecendo fexibilidade, grande economia
de combustível e o estilo de condução que
os exploradores urbanos apreciam».
Confar na santa
A Hyundai é um símbolo automóvel em
relação ao qual são apreciáveis os seus sal-
tos qualitativos! Mais um, como é a ter-
ceira geração do Santa Fé, há pouco tempo
exibido no brilho nova-iorquino do Salão
Internacional do Automóvel. Para a ardó-
sia das principais características, é um SUV
longo, mais baixo e largo que o seu anteces-
sor, mas com os mesmos 2 700 milímetros
de distância entre eixos. A gama de motores
para a Europa inclui um bloco a gasolina e
dois diesel, com potências entre os 150 e os
200 cavalos.
74
A nata do estilo
Muito aprumada, a Citroën acaba de inaugurar um suco-da-
-barbatana: Direcção de Estilo. O alvo principal centra-se na
linha DS, a que chamam «modelos de elevada distinção», f-
cando à parte os modelos C. Dois designers de alto coturno
estão encarregados da tarefa: para o DS fca Thierry Metroz,
para o C dirige Alexandre Malval. Segundo declarações do
director-geral do emblema, Frédéric Banzet, «para acompa-
nhar a subida em gama e a internacionalização da Citroën,
designadamente na China, é importante reforçar esta dife-
renciação de estilos entre a gama C e a linha DS nos seus es-
paços respectivos». A China, sempre ela nas intenções, é o
que é… Mas, por DS, leonino é o DS3 R3, vero popó despor-
tivo que acaba de deixar os ateliers de Versalhes, não sabemos
se a Joana Vasconcelos o mirou, lá do alto da sua exposição…
Em suma, uma arma da marca que vai a tudo que é rali.

Brinde para três
Três benquistos modelos da Audi acabam de ser condecora-
dos, e já estão para nós à venda. Referência às gamas A6, A6
Avant e A7 Sportback. E qual é o factor de elevação de con-
ceito? Aquilo a que os engenheiros da marca chamam uma
jóia tecnológica, assente na motorização 3.0 TDI Biturbo,
de 313 puxados cavalos. Característica muito própria de
um construtor que se preze, para além do novel propulsor,
espreite-se o A6 limousine e o Avant, construídos em alu-
mínio e aço, pedindo ainda meças pelo carácter híbrido.
Relativamente ao A7 Sportback, característica de dois em
um… coupé e limousine. Remetendo ainda para a palpitação
da construção da carroçaria com múltiplas peças em alumí-
nio e até a incorporação de um chassis desportivo.
Mais crescido
Tem tudo como numa boa feira de bricabraque … É o Astra
da Opel. Para além de renovar o design, sugere mais motores
e tecnologia. Indo por partes, no capítulo dos propulsores
propõe um 2.0 BiTurbo CDTI de 195 cavalos e um 2.0 Turbo
a gasolina que monta possantes 280 cavalos. Importante
ainda o novo sedan de quatro portas, que completa a gama.
Puxando pela tecnologia do modelo, veja-se: câmara dian-
teira Opel Eye de segunda geração, com Detecção de Sinais
de Trânsito, o sistema de Aviso de Saída de Faixa, a Indicação
de Distância e o Alerta de Colisão Dianteira. É tudo a apitar,
mal os sensores descubram maroscas…
75
Deixar o alcatrão
A Volkswagen empertiga-se para que a sua clientela faça uma perni-
nha fora das estradas de alcatrão e lá vem o Passat Alltrack. E como
comunicam, ipsis verbis: «Muitos condutores – desde esquiadores
a apaixonados pela vela, passando por caçadores, etc. – procuram
um veículo versátil e robusto, com características para o fora de es-
trada, não dispensando ainda um generoso espaço para passageiros
e bagagens e dotado de características para o todo o terreno». Já co-
nhecíamos de ginjeira a versão Passat Variant, mas esta nova solu-
ção Alltrack incorpora novos pára-choques, guarda-lamas e soleiras
das portas de proporções mais avantajadas. Para além disso, como
não podia deixar de ser, apresenta uma maior altura ao solo, mon-
tagem de protecções nas zonas inferiores da dianteira e da traseira e
os ângulos de entrada, saída e ataque. Mais poderoso é o TDI de 170
cavalos, equipado de série com o sistema de
tracção permanente, bloqueio do diferen-
cial electrónico e transmissão automática
de dupla embraiagem.
Especial de corrida
Se quer transportar muita tralha não é o
destino do novo Suzuki Swift Sport, pois
claro. Até porque esta nova versão está ex-
clusiva na condição de três portas. Para
a anterior, porém, cresceu a olhos vistos:
comprimento de 3,89 metros, e quatro
centímetros maior do que os derivativos
convencionais da gama Swift. Para o lado
daquilo que rosna, motor de 1,6 litros a ga-
solina, tendo sido mantida a estrutura bá-
sica deste bloco de quatro cilindros, mas
existindo inúmeros desenvolvimentos. A
potência foi aumentada em 11 cavalos, fi-
xando-se nuns bons 136. Em simultâneo, o
binário cresceu dos anteriores 148 Nm, au-
mentando o seu poder de impulso. Até dá
para fazer cavalinhos…
76
Três dias passam a correr, deu para muitas
coisas ver. Mais do que num mês em que por
lá, antes, veraneámos…
Tavira tem nove freguesias, Cabanas,
Santa Luzia, Cachopo, Luz, Santo Estêvão,
Conceição, Santa Maria, Santiago e Fonte do
Bispo. Cada uma tem, (ou teve) as suas valên-
cias e historial próprio, mas não iremos por
aí. A constante, nas zonas litoral e mesmo no
barrocal, são os pescadores e a pesca. Deles
vem a excelência gastronómica, peixe e gre-
lha, já está, mas há que saber… (como se faz e
onde se vai comer).
Não faltam restaurantes e tascas, o peixe
é, no geral, razoável ou bom, chega a ser
muito bom. Contudo, quem for exigente,
não vá em aparências, nem sempre o mais
caro é o melhor… Não se pense que todo o
peixe vem directo da lota para o nosso prato.
Mesmo na lota a escolha faz diferenças… E
há viveiros onde o peixe é alimentado natu-
ralmente e outros menos credíveis. Na Ilha
come-se bem, mas há melhor e menos bom.
Deixamos um conselho: pergunte-se, sobre-
tudo a pescadores, quem bem pratica o con-
ceito de rodízio. Se o leitor acertar, ganha na
qualidade, na quantidade, até no preço. Não
se descurem, contudo, os sabores serranos.
No Caldeirão fazem um cozido de carne e
feijão que é, dizem, de comer e morrer… Da
região serrana vem a alfarroba, cresce a f-
gueira, pratica-se a cultura de sequeiro. Mau
grado a companhia de arbustos e ervas, al-
gumas daninhas, que o homem foi deixando
medrar ao longo dos tempos…
Tavira é uma antiga princesa. Teve a sorte e
a arte de não se deixar apanhar pela febre da
construção desenfreada do comércio estan- ércio estan- estan-
dardizado que, de algarvio, nada tem.
TEXTO CARVALHO SANTOS FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES
Vai Formosa e vai segura
Chegámos a Tavira com algumas certezas, saímos com algumas dúvidas.
A cidade depende do turismo? Sim, mas tem vida própria. Ainda vive
da pesca? Vive, mas a vida dos pescadores é, hoje, diferente, mais precária.
Contudo, o peixe é rei, rainha é a Ria Formosa.
A ver Tavira
77
Até no centro histórico, onde converge
toda a gente, se respira o ar puro que nasce
no parque natural da Formosa. Passear nas
ruas, permanecer numa esplanada, degus-
tar petiscos, conversar com os tavirenses
são privilégios. Se a tradição é forte, o patri-
mónio histórico é imenso. E tudo remonta
aos tempos áureos das armações de atum.
Tempos e armações que voltam, agora di-
ferentes, mais técnicos, de menos proveitos
para a população.
A antiga Armação do Barril é hoje um lugar
de culto. Na praia, dantes, viam-se cemité-
rios de âncoras e de embarcações, ao longo
da costa. Ao que vimos e nos contaram, resta
um conjunto de âncoras, praticamente colo-
cadas em fleira.
NOVOS TEMPOS, VIDAS DIFÍCEIS
As armações estão, portanto, de volta. A
que os pescadores chamam «dos japone-
ses» pertence a uma empresa luso-japonesa,
a poucas milhas da costa da Fuzeta. Quem
lucra são, logicamente os japoneses. Eles
adoram o nosso atum, quem moureja já é
pouca gente e pouco ganha. O atum tam-
bém não é assim tanto como já foi, é preciso
alimentá-lo até atingir o tamanho bom. E vi-
giá-lo. Não há muito tempo, houve notícia
de serem encontrados mortos um homem
enrolado nas redes e um atum com um es-
porão no corpo!
No Barril prepara-se o relançamento
do atum em cativeiro, vamos lá saber
quanto tempo aí permanecerá. O passado
que o diga, o atum não fca eternamente
nas mesmas regiões. Desta feita o capital
é luso-espanhol. Uma viagem em torno
das duas armações permitir-nos-á abor-
dar esta realidade e um pouco a vida difícil
dos pescadores que se dizem desportivos.
Nos tempos que correm, são em menor
número os que trabalham no arrasto, há
perigos e limitações; uns mergulham,
outros, quiçá a maior parte, safa-se à linha,
e muita gente anda fora da lei.
HOTEL DE LUXO RESPEITA ARRAIAL
Os pescadores chamam-lhe templo, hoje é
o esplendoroso Hotel Albacora. O Arraial
Ferreira Neto foi porto de abrigo das arma-
ções de pesca do atum, situado nas Quatro
Águas. Em 1943 o mar destruíra o que exis-
tira do outro lado do canal. De imediato, a
empresa Ferreira Neto erigiu o edifício que
durante mais de duas décadas deu emprego
e deu casas, escola, até uma igrejinha a cerca
de 150 famílias de pescadores.
Era o Arraial, ainda o é como património de
interesse público. No começo da década de 60,
o atum começa a rarear, na de 70 Ferreira Neto
desiste, é o abandono. No começo do século, o
Vila Galé Albacora recupera todo aquele espaço
para um hotel de cinco estrelas. Preservando o
essencial da estrutura, incluindo o nome da an-
tiga fundação – Arraial Ferreira Neto.
Um barquinho periclitante, 40 cavalos, aí
vamos nós com Sérgio Correia ao leme e o
Luís, de alcunha o Pepe Rápido. Pescam de
meias, à linha, chamam-lhes, como a tantos
outros, pescadores desportivos. De facto, a
designação é enganadora, o desporto deles é
fazer alguma coisa para governar a vida.
Experimentado e vivaço, o Pepe explica-se:
«Empregos, ninguém dá, nem a pescadores,
isto chegou ao que chegou. Não nos falta é
peixe em casa e sempre vai dando para
comprar qualquer coisinha.» Portanto, lá
vamos. Nós pelo trabalho, eles numa faina que
lhes foge ao dia-a-dia.
Passamos pelo cais de desembarque de lixo
da Ilha de Tavira, Ria Formosa adentro. Pepe
de pé, ajuda os movimentos do leme de
Sérgio, quando necessário. «Somos uma
equipa e nestas marés mortas, é preciso
cuidado.» A Sotavento do Cerro de São
Miguel, estamos entre águas baixinhas e terras
húmidas, férteis de pescaria miúda.
Manobra atrás de manobra. Quem sabe não
encalha, mas há que ser expedito. Já vemos os
marisqueiros de bivalves, amêijoa, berbigão,
ostras e o que a ria mais dá. Para trás fcaram
os apanhadores de conquilha.
Para mergulhar é precisa uma licença. «Lá
estão dois; mergulham, espalham o sal no
fundo esburacado, o lingueirão vem cá acima
expulsá-lo e é agarrado à mão. «Já houve
mais, já houve menos, a estação de tratamen-
to de esgotos melhorou a fora da ria».
Nunca tanto, tão de perto, víramos tantos
marítimos ganhar a vida assim. A estibordo e a
bombordo, quantas salinas, quantos viveiros!
Num, de amêijoas, havia gente a limpar, a tirar
limos e a afastar areal. Um homem gordo, com
água pela barriga, cumprimenta os nossos
guias. «Apanhou isco para pesca desportiva»,
adivinha o Pepe. O outro, de longe, grita, «é
casulo, já estou safo». Era o Zé, era um amigo.
Vamos, de momento, mais ao largo,
aligeiram-se, por mais atlântica atmosfera, a
cor e o cheiro da Formosa. Mas, eis que
voltamos a ter terra bem à vista. Estamos
em frente de Santa Luzia, a terra do polvo,
sem ver nenhum polvo, «este ano foi fraco».
Muito bonitas as casinhas de pescadores, à
primeira vista, quase alinhadas. Sérgio: «Esta
ria vai de Cacela a Ancão.»
E quase embatemos, parecia, numa rocha…
Um levanta o pontão, o outro pescador dá-lhe
de ré; e a seguir dão gás ao barquito. O Pepe
percebeu mas não ia preparado: «Há peixinho
a bater aqui.»
Mais adentro, mais além, nas águas destapa-
das pela maré baixa, há pessoal a mariscar.
«Estão a apanhar casulo com um palim», uma
espécie de pequena pá com cabo de madeira.
O casulo tem de ser bem lavado, «senão
aquilo morre tudo.» Passamos a antiga barra
da Fuzeta, agora à esquerda, de novo, o cerro
de São Miguel. «Os antigos e quem não tem
GPS, orientam-se por ele», diz Pepe.
A caminho da Torre d’Aires, um homem muito
velho numa barcaça, tão velha como ele, leva
amêijoa de arrasto. Sérgio: «É proibido, é
perigoso, mas uma pessoa tem de se
governar…»
A ria tem comedores, há peixes que saltam
para apanhar os restos que a passarada deixa,
«até minhocas desfeitas». A polícia não deixa
arrastar seja o que for, mas há quem arrisque.
Enfm, Pepe considera operação de risco
rumar da barra da Fuzeta a caminho do
Uma viagenzinha inesquecível
78
oceano. «Isto está quase tudo areado, a
maré tapa e destapa.» Quer ele dizer que
não é para qualquer andar a motor. A
dado momento, repisa para o Sérgio,
«este sítio está carregado de robalos, bem
os sentiste, não digas a ninguém…»
OS ENGANOS
Até que vemos as primeiras bóias da
armação da Fuzeta. «São as barreiras das
primeiras redes onde entram os atuns.»
Os japoneses, em 94/95, fzeram um
contrato de 50 anos, em quase duas
milhas de extensão, a fundura é de 15 a 20
metros. Pormenorizadamente: o peixe
entra nos labirintos e quando dá por ele,
está preso. No enguiço sempre fca algum
peixe. No copo fnal já não se safam. Umas
duas vezes por semana, «tiram às
toneladas, cada atum tem duzentos,
trezentos quilos…Uma fortuna». Os
mergulhadores entram lá dentro, «aos
tubarões não sei o que fazem», comenta o
Sérgio Correia.
O atum é desmanchado na Docapesca,
em Olhão, «pouco fca por cá, só os mais
magros…» Fazem fotografas e «contro-
lam tudo». Só se pode pescar a 300
metros dos limites da armação. Corvinas,
safo, besugos, tudo.
«E agora dá-lhe gás», comanda Pepe,
acelera Sérgio. Damos a volta completa,
rumamos para o Barril. A nova armação
fica a quase duas milhas da que vimos na
Fuzeta. As bóias são avermelhadas. Ainda
pouco batidas pelo mar, sugerem uma
plantação de papoilas… «Ainda não têm
os postes montados, mas o copo é maior,
é tudo maior», vai calculando, com a
experiência que o mar lhe deu, o mais
antigo dos nossos pescadores
desportivos.
Está quase pronta a armação do Barril. «É
mais para exportar, não se gasta assim
tanto atum em Portugal», nem estranham.
Escrituras, corpo técnico, embarcações e
parque de desmanche, a frma tem tudo
preparado.
Regressamos pela Praia da Terra Estreita,
frente a Santa Luzia. Desembarcamos na
velha barra de Tavira que está em mau
estado... Despedimo-nos dos exímios
guias. Mais a brincar do que a sério, Pepe
convida: «Querem vir connosco aos
robalos? Mas calados, senão, amanhã,
estão aqui cinco ou seis barcos!»
Tentaremos, com alguns realces, dizer como
se vive em Tavira, sabendo-se que o ponto
de rebuçado está na beleza incomparável
das suas praias. Contemplar a Ria Formosa,
andar no meio dela, no sapal, ou no rio
Gilão, só por si, já é divertimento.
As praias: Barril-Pedras, D’El Rei – para
lá chegar vai-se num comboiozinho, mas
também se vai a pé; Ilha de Tavira e Quatro
Águas – a área de pinhal e a brisa marítima
são o aroma e a cor da ilha; Cabanas – o
mergulho é bom, nas cabanas viviam pesca-
dores durante a faina, havia a fábrica, hoje
lugares de referência gastronómica; Santa
Luzia – um cantinho à beira da ria, casinhas
de pescadores; Terra Estreita – começa no
cais de Santa Luzia. Praias todas luminosas,
limpas, mas diferentes.
Monumentos e igrejas monumentais
são cerca de 30. Santa Maria do Castelo,
Convento do Carmo, Igreja Paroquial
da Luz, Forte da Conceição, Igreja da
Misericórdia… As ruínas são parte inte-
grante e importante, falam por centenárias,
quiçá por milenares. A cada ano, sucedem-
-se achados arqueológicos, com exagero, a
presença islâmica é quase palpável.
Talvez a ponte não seja romana…
Ex-libris, a Ponte Romana é local de passa-
gem obrigatório e de encanto. Acreditamos
nas vozes que abonam a segurança da es-
trutura. Em 1989, a violência das cheias que
assolaram o rio Girão colocou-a em perigo.
«As obras de profundidade então realizadas
são mais fiáveis que centenas de prédios e
pontes por esse país fora…»
De resto, a partir da reconstrução, a ponte
que talvez nem seja romana, passa a ser pe-
donal. Tem séculos, mas há dúvidas. Quem
pensa que a construção ocorreu nos pri-
meiros tempos da época medieval, chama-
-lhe, antes, Ponte Antiga. É muito, muito
bela, mais do que as outras quatro que ligam
margens.
… nem o castelo tenha moiras encantadas
Não há certezas, sequer, sobre a data de re-
conquista cristã de Tavira e do seu Castelo
aos muçulmanos. Segundo Alexandre
Herculano, as forças comandadas pelo que
viria a ser Mestre da Ordem de Santiago
forçam a entrada em 1240. Das repara-
ções ordenadas por D. Dinis ao tempo dos
Descobrimentos, aos estragos provocados
pelo terramoto de 1755 e posteriores recons-
truções, é pródigo o historial. Castelo legen-
dário, é infalivelmente lendário. E conta a
lenda que uma moura encantada vai lá cho-
rar todos os anos. Arqueólogos descobriram
recentemente uma muralha fenícia, avaliada
ao século VIII a.C. Importante é, hoje, o que
se adivinha nas ruínas. Só a fachada já é polo
de atracção…. À volta, baixinho e condizente
na paisagem urbana, o casario está tão pró-
xima da entrada…
Universo pessoano na Biblioteca
Tavira vive a cultura e, no primeiro plano,
está uma biblioteca recente, modelar. No
universo pessoano, o heterónimo Álvaro
de Campos nasceu e teve casa em Tavira (e
neste caso houve escolha). A câmara local
dá-lhe o nome em homenagem – Biblioteca
Municipal Álvaro de Campos. Há outros
nomes ligados à instituição que presta ser-
viços de leitura, multimédia e de lazer, desde
2005. Antes de tudo, o legado cultural e mo-
netário de José Joaquim Lara. Depois, na re-
abilitação, o mérito pertence ao arquitecto
Carilho da Graça.
Tantas praias, tantos monumentos!
79
Morar no Convento das Bernardas
Das 78 moradias que o génio de Souto
Moura transformou em arte nova no
Convento das Bernardas, umas estão em
fase de conclusão, outras já foram vendi-
das. Privilégio para alguns, orgulho para
a cidade. Pena que o condomínio seja fe-
chado, pois muitas peças antigas povoam o
próprio pátio interior. Pátio enorme, onde
foi reconstruída uma fonte dos tempos ma-
nuelinos e, pasme-se, construída uma pis-
cina, que não destoa do conjunto, parece
um grande lago quinhentista!
Não só o portal manuelino, também, uma
parede aqui, outra pouco mais longe, man-
têm, no todo ou em parte, a traça ordenada
pelo rei D. Manuel I. Várias cidades euro-
peias edifcaram empreendimentos habi-
tacionais em simbiose com monumentos
históricos. Eduardo Souto Moura fez a me-
lhor conjugação, um projecto onde sim-
plicidade e bom gosto elevado estão a par.
Assim, justifcou o arquitecto mais um pré-
mio, Pritzker-2011.
Recebidos por Maria Alice Fragoso, do
Entreposto de Gestão Imobiliária, ela re-
sume cinco séculos de história. «Isto foi
convento e foi panifcadora, teve estas duas
vidas.» Depois destas vidas, o maior edifí-
cio conventual do Algarve, entrou em ru-
ínas, mais de um século esteve encerrado.
Resumimos nós: em respeito pelos espaços
museológicos, a estrutura e estabilidade são
máximas, o conceito inovador e conforto
contemporâneo. A que acresce a visão pró-
xima do sapal da Ria Formosa.
O vaso de Tavira
Da Tavira fenícia, à Tavira romana, à
Tavira islâmica, por muitos estudos de
campos arqueológicos feitos e trabalhos
publicados, muito há ainda que moure-
jar. O Império Islâmico fundou-se com
a rapidez que os tempos permitiam, ex-
pandiu-se e manteve-se coeso durante
200 anos. Praticamente até à reconquista
cristã, no século XIII. O espólio encon-
trado é muito e variado, contudo, segundo
o estudo de Ricardo Pereira Tomás, as fon-
tes que suportam a investigação sobre a
presença islâmica na região, «são escassas
e de difícil alcance». Para complicar mais,
é presumível que esta presença «seja ante-
rior à data dos registos históricos encon-
trados nas escavações».
Calcule-se, assim, o esforço e o orgulho
da câmara local e do museu municipal ao
abrirem, já este ano, o Núcleo Islâmico.
Devemos ao director do departamento
de património, cultura e turismo, Jorge
Queirós, um agradecimento especial por
quanto nos ajudou em toda a pesquisa de
Tavira Vive Cultura. Entre outras publi-
cações, ofertou-nos um exemplar da obra
da arqueóloga Maria Garcia Maia sobre
o ex-libris do Núcleo Islâmico, o Vaso de
Tavira. É de barro torneado, moldado, pin-
tado e cozido e o seu bordo está rodeado
por um conjunto de fguras humanas e de
animais, «de feição popular e moldadas
manualmente, de forma realista». Ficamos
por aqui, acha bem, o leitor?
Andrades, 100 anos a fotografar!
Queríamos encontrar alguém da família
Andrade, tivemos sorte. Entramos no re-
novado Palácio da Galeria, procuramos no
Museu Municipal e havia lá uma exposi-
ção – «A Família Andrade, Olhares Sobre
Tavira». Perguntamos, responde um fun-
cionário: «O senhor Luís Andrade vem já,
mora aqui perto.» Vem logo, conduz-nos na
visita, vai dando explicações.
São quatro gerações, tudo começou em
1912, quando o avô de Luís, Apolinário de
Andrade, se estabeleceu em Tavira, vindo a
80
falecer em 1945. «Era bom na profssão, so-
bretudo, um grande retocador de clichés.»
O pai de Luís deu continuidade ao trabalho
e trouxe-se-lhe «maior qualidade». Hoje,
Luís e o flho Miguel são bons artífces da
fotografa e do vídeo, onde os tavirenses se
revêm e descobrem um século de história.
O espólio abarca milhares de fotografas e
máquinas em diferentes épocas.
Não haverá no mundo outros Andrades
nem outras cidades que assim se retratem.
O comissariado científco de Jorge Queirós
concebeu a valiosa exposição, enquanto nar-
rativa e musealizada. Para a história fica o
catálogo editado pela câmara tavirense, com
textos explicativos de Teresa Siza, directora
da Árvore, e da historiadora Rita Manteigas.
Diz ser o clube mais antigo do mundo…
Fundado em 1979, o Clube de Ciclismo
de Tavira será o mais antigo do mundo,
em actividade… Não vamos discutir isso,
mas como é que eles sabem? De resto, bem
mais antigo é o Ginásio Clube de Tavira,
nascido em 1928! O clube de ciclismo pro-
vém de uma cisão, da qual Brito da Mana
se aproveitou, a bem da sua modalidade.
«O mais antigo era a Kelme, acabou há
uns anos», palavras de Carlos Martins que,
sem ser ciclista, já fez 20 voltas a Portugal,
«desde o tempo do desenrasca.» Face ao do-
mínio das marcas, é normal a extinção dos
clubes… O de Tavira resiste, tem tradição e
é muito querido da população. Com um or-
çamento de 350 mil euros não falta a uma
Volta a Portugal. «Já foi de 800 mil e agora
temos de baixar mais…» Isto, com 13 ciclis-
tas profssionais, cadetes, juniores, no total
37 corredores.
A TRADIÇÃO LEVOU
ALGUMAS MACHADADAS
MAS A INOVAÇÃO
REABILITOU TESOUROS
MUSEOLÓGICOS
81
Mandada construir no fnal do século XVII
pelo desembargador Jerónimo da Cunha
Pimentel, a casa foi acrescentada alguns
anos mais tarde com a capela dedicada a S.
Jerónimo, ou não fosse aquela uma casa de
Jerónimos. Sucede que o seu proprietário
não tinha flhos e deixou todos os seus ha-
veres ao irmão, na condição de ali mandar
erigir a mencionada capela.
Manuel Villas-Boas não é Jerónimo, não
pôs aos filhos o nome de família, mas
está à frente da casa onde agora se pratica
enoturismo e que dispõe, numa área de
construção mais recente, de oito quartos
confortáveis, um em duplex. As camas são
de ferro e as cores da casa (azul, amarelo
e vermelho) sobrepõem-se as todas as ou-
tras, num ambiente muito português e que
convida mesmo ao repouso. Manuel Villas-
Boas faz questão de acentuar que todos os
objectos são portugueses, incluindo
os de decoração.
Ao lado está a piscina, numa zona
protegida, construída entre as ruí-
nas de um velho armazém, guar-
dada por um enorme castanheiro.
E há a recuperação das mais an-
tigas tradições, incluindo a gastro-
nómica. Na cozinha da casa grande,
onde a traça e a decoração foram
respeitadas (até tem uma salga-
deira) a recuperação foi efectuada
com recurso a materiais e eletrodo-
mésticos que permitem a funciona-
lidade sem chocar quem ali queira
partilhar refeições e a respectiva confecção. Quem preferir a sala ao
lado, pode sempre esperar, apreciando um Vinho do Porto, qual-
quer que seja a hora do dia ou da noite.
Manuel Villas-Boas conta que na sala de jantar da casa-mãe, onde
podem estar até 40 pessoas sentadas, a electricidade é mínima e as
noites são passadas à luz de velas e candeeiros a petróleo que dão
aos tectos, coloridos, tonalidades bem diferentes.
No exterior da habitação, seja qual a for a porta por que se saia,
esperam-nos os quatro hectares e meio (tudo plano, numa zona de
montanhas) de vinha, alguma com talhões centenários, de onde sai
uma produção de excelência em parceria com a companhia de vi-
nhos Niepoort, que levou à criação da marca de vinhos Morgadio da
Calçada, com a assinatura de Dirk van der Niepoort, como referiu
Manuel Villas-Boas.
O Morgadio da Calçada já tem no mercado seis vinhos do Porto
(Dry White, Tawny, Colheita 1998, Rubi, LBV, Vintage 2007) com
rótulos das garrafas da autoria do arquitecto Michel Toussaint, re-
tratando a frontaria da Casa da Calçada. Os vinhos de mesa têm ró-
tulos da autoria de Siza Vieira, a partir de um seu esquiço da adega
da Casa da Calçada.
Temos, pois, a História de Portugal aliada à gastronomia e aos vi-
nhos do país, na aldeia de Provezende, uma das cinco classifcadas
do vale do Douro.
Daí que valha a pena, uma vez mais, ir ao Douro, ficar pelo
Morgadio da Calçada, deixar que Ana ou Carmen, as duas empre-
gadas da quinta, tomem conta do bem-estar, passear pela região vi-
nhateira e esperar o fm do dia para um mergulho na piscina, um
jantar e tudo bem acompanhado por Vinho do Porto. E, se estiver
mais frio, há sempre o recurso à lareira e uma noite para ouvir his-
tórias de Jerónimos e aprender os rostos de uma comunidade que é
Património Mundial.
Morgadio da Calçada
Largo da Calçada, 18
5060-252 Provesende
Telef.: 254732218
Email: mvb@morgadiodacalcada.com
TEXTO MARGARIDA MARIA FOTOS HERNÂNI PEREIRA
O império dos Jerónimos
Tem duas das maiores pipas da região do Douro. A data da construção é de 1680 e foi
edifcada de uma vez só. Por isso, há uma harmonia diferente, num quadrado com um
pátio central, onde impera uma enorme japoneira. Ali já residiram quatro gerações
de Jerónimos. É o Morgadio da Calçada, um dos mais antigos solares de Provezende.
82
Tem dez anos de Património Mundial da
Humanidade declarado pela UNESCO e
em cada curva do caminho descobre-se
uma nova paisagem. Seja de carro, de com-
boio ou de barco. O Douro é sempre igual e
sempre diferente.
É para as bandas do Pinhão que a Real
Companhia Velha (RCV) faz a proposta de
Verão: um dia no Douro. Este ano há no-
vidades: a RCV lançou um pacote turís-
tico com início na Quinta das Carvalhas.
Segue-se uma viagem panorâmica no mi-
nibus descapotável da Companhia e um
almoço na Casa Redonda, bem no topo do
monte, a 550 metros de altitude e onde se
desfruta uma paisagem a 360 graus.
Mais tarde, pode-se visitar a loja e co-
nhecer os vinhos das várias quintas que a
Real Companhia Velha detém na Região
Demarcada do Douro, seguindo-se o tempo
para navegar no rio numa viagem a bordo
do Friendship, um barco de luxo da empresa
Pipadouro, com destino ao Tua. No fnal do
programa, está previsto um brinde com um
copo de Evel, uma das mais antigas marcas
de vinhos DOC Douro.
Recorde-se que, para incrementar a bio-
diversidade, a RCV deixou cair algumas vi-
nhas menos boas para criar matas e passar a
ter alguns animais.
Aliás, no dia em que esta reportagem
ocorreu, foi possível aos jornalistas verem
diversos pássaros que ali começam a apare-
cer, bem como um texugo.
Temos, assim, paisagem, gastronomia e
vinhos, e é tempo de navegar no rio Douro,
entre as 16 e 30 e as 18 e 30. Portanto, é
aproveitar até Setembro para conhecer
esta zonas e deleitar-se com um serviço de
TEXTO MARGARIDA MARIA FOTOS HERNÂNI PEREIRA
E o Douro ali tão belo...
O Douro é sempre o mais belo rio do Mundo. Vê-lo e senti-lo a partir da Casa Redonda,
na Quinta das Carvalhas, é uma emoção. Mas navegá-lo a bordo do Friendship, um bar-
co de luxo da empresa Pipadouro, é, verdadeiramente, de encher a alma. Ainda mais se
for acompanhado de um cálice de Porto. São propostas para o Verão. Irresistíveis!
83
excelência a bordo do Friendship, onde o
skeeper António Chaves não regateia aten-
ções. O barco tem capacidade para 12 pes-
soas mais a tripulação e um dos skeepers,
António Ferreira, é mesmo um descendente
de D. Antónia, a Ferreirinha, a senhora
Vinho do Porto.
A bordo tem serviço de cozinha, podendo
ser apreciado qualquer tipo de refeição,
da confecção mais simples à mais sofisti-
cada. O barco, construído em 1957 para a
Marinha inglesa, para servir às deslocações
de terra para os navios de grande porte das
altas patentes, tem dois camarotes com
casa de banho.
António Chaves conta que já houve situ-
ações em que casais se conheceram no pas-
seio, no fnal da viagem, «já combinavam
ir jantar juntos» ou encontros em outros
locais.
O projecto Pipadouro tem como base o
Rio Douro - Douro Valley, desde  a Foz no
Porto até Barca d’Alva, que faz fronteira
com Espanha e conta com diversos servi-
ços. Pode-se escolher um almoço gourmet
no Douro servido no deck à popa, um fm
de tarde no rio, um jantar no Pinhão ou no
Porto, tendo o rio sempre como pano de
fundo.
Mas há ainda um dia no Douro, em par-
ceria com uma das maravilhosas quintas
ou mesmo dois dias no rio para conhecer o
verdadeiro Douro.
Importante ainda é reservar algum tempo
livre para visitar a vila do Pinhão. Apreciar
os azulejos da estação, dar um passeio e al-
moçar num dos restaurantes mais interes-
santes da zona. Chama-se Ponto Grande e
faz parte de uma residencial que tem mais
de 50 anos. Vale a pena conversar com o
proprietário, José Vieira, funcionário pú-
blico reformado, senhor e conhecedor
de bons petiscos. E deixar-se servir pelo
Ricardo que sabe exactamente como deixar
os clientes satisfeitos. Ali, são «de comer
e chorar por mais» as alheiras grelhadas,
a costelinha de assuã em vinha d’alhos e a
caldeirada de cabrito. Para fnalizar, é de ex-
perimentar o bolo borrachão ou o pudim
caseiro de ovos.
E no final, claro está, vai um cálice de
Vinho do Porto. Sempre! No Douro, claro!
Este programa destina-se a grupos de 20
pessoas, sendo de marcação obrigatória,
através do turismorealcompanhiavelha@
gmail.com ou do telefone 254 738 050.
O custo é de 75 euros por pessoa para
adultos, 37,50 euros para crianças entre
os seis e os 12 anos e é grátis para crianças
até aos cinco anos.
A CASA REDONDA
UM TEMPO PARA NÃO ESQUECER
A ESTAÇÃO DE COMBOIOS DO PINHÃO
84
Pelas três da manhã o porto da Caloura dormita. De dia, é possível
apreciar as arribas castanhas que descem até às águas esverdeadas de
um dos locais mais apreciados pelos locais para veraneio. À noite, a
luz artifcial da doca concede ao local uma atmosfera fantasmagórica.
Dois barcos de boca aberta balouçam suavemente pressagiando um
dia de pesca de navegação macia. Por perto, há pessoas movendo-se
dentro de um carro. Uma mulher com um cobertor nas costas es-
preita pela vidraça. Um homem mais velho sai lá de dentro. É o vigi-
lante. «Sou quem está encarregue de vigiar o barco até os pescadores
chegarem. Nunca se sabe quem pode aparecer aí à noite para roubar
equipamento. É você que vai no Ponta dos Mosteiros?». Ergue a cabeça
e observa o céu estrelado: «Vão ter um dia bom de pesca. Agora está
frio mas quando o sol levantar lá para os 'setenta' você vai ter de tirar
a roupa e fcar em t-shirt.»
Os 'setenta' é a zona, a sueste da Ilha de São Miguel e na direc-
ção de Santa Maria para onde se dirigem nesta época de pesca ao
atum todos os barcos da frota. Quando lá chegarmos, daí a umas
três horas de motor ronronante, balanço suave e a lua como teste-
munha, não dá para os contar pelos dedos das mãos. Vão de Rabo
de Peixe, Caloura, Vila Franca do Campo, da Ribeira Quente, todos
ao mesmo, todos para pescar o máximo possível de atum. «É o que
dá mais. Depois no Verão ainda temos o bonito mas no Inverno só
Quase a terminar o périplo pela ilha de São Miguel, paro na zona de Água de Pau, um reduto
tradicional de pescadores. Rumo ao porto da Caloura onde embarco numa viagem de pesca
ao atum no Ponta dos Mosteiros. Durante horas acompanho a azáfama de toda uma tripulação.
A safra é boa e inclui um «bichinho» de 160 quilos.
TEXTOS E FOTOS NUNO FERREIRA
NO PONTA DOS MOSTEIROS VIVEM-SE MOMENTOS DE APREENSÃO: «HÁ ATUM?»
Na pesca do atum com o Ponta dos Mosteiros
Açores a pé
85
há chicharro e é uma miséria. Se os homens querem
ganhar algum, é agora».
Os pescadores chegam acasacados e de gorros na ca-
beça pelas 3h30 da manhã. A maioria pouco diz. Vêm
ensonados e preparados para se estender à proa debaixo
de uma lona durante as três horas de viagem até à zona
de pesca. Daí a pouco já largámos sem sobressaltos. Um
homem chama-me debaixo da lona: «Eh! Irmão, deita-
-te aqui». Colocam um colete salva-vidas para me aju-
dar a fazer de almofada. Sigo o tempo sem conseguir
fechar os olhos, sacudindo o frio do corpo, escutando a
conversa dos mais velhos que seguem sentados. Lá mais
ao fundo, brilham as luzes de Vila Franca do Campo.
Cerca das sete da manhã, a linha do horizonte começa
lentamente a pintar-se de amarelos e laranjas entre os
contornos pontiagudos das nuvens. O sol quer romper
e acordar a tripulação.
À nossa esquerda, o dorso escarpado e escuro do
Nordeste da ilha de São Miguel. À direita, a sombra
difusa de Santa Maria. Um a um, como autómatos, os
homens vão levantando-se, retiram a lona, posicio-
nam-se. Observam estremunhados a dança dos res-
tantes barcos que surgem não se sabe como nem de
onde. Alguns navegam muito perto, o que permite aos pescadores
saudarem-se. Gritam de barco para barco. Comentam nomes de ou-
tros pescadores de outras embarcações, todas elas garridas e relati-
vamente pequenas. Ali o Letícia Moniz, acolá o Monte Santo, mais
adiante o Ana Beatriz.
Esta será a parte mais tensa de todo o dia. Os homens observam de
rostos fechados a direcção tomada pelas cagarras. Onde elas estive-
rem está o peixe. São cerca de uma a duas horas de silêncio pesado a
bordo, de expectativa. De repente, o primeiro atum aparece e o am-
biente taciturno e ansioso dentro do Ponta dos Mosteiros é substituído
por uma azáfama febril.
Todos querem pescar, todos gritam, todos se movimentam. «Olha
o bichinho!», soltam, mal avistam a sombra escura de um atum so-
bressaindo no azul límpido do mar dos Açores. Outros correm, uns
na proa, outros na popa, pedindo insistentemente «cavalinha» a João
Amaral, o rapaz do isco. Se ele demora mais do que uns segundos,
ouve imediatamente: «Eh! João, eh! João!»
A captura do atum obriga o homem que o pesca a um jogo hábil e
duro de braços, puxando e segurando-o com o nylon até estar suf-
cientemente perto para outro lhe enfar o gancho e poder ser puxado
para dentro do barco. O «bichinho» obriga os homens a vergar-se
sobre a borda em madeira. Quando já está sufcientemente dentro
da embarcação, largam-no e vêem-no sacudir-se até um pescador
pegar numa marreta em madeira e lhe enfar umas pauladas na ca-
beça. Daí a pouco, um outro encarregar-se-á de varrer a água com
réstias de sangue. Ensopam o atum com um ou dois baldes de água
até abrirem o porão. Um pescador coloca-se de um lado e outro no
outro. Seguram-no com frmeza e deixam-no descair nas entranhas
do Ponta dos Mosteiros.
A faina é feita de momentos. Tanto se respira alguma tranquilidade
como tudo acelera de novo. De um momento para o outro, um rol de
barcos rompe em desflada para uma área onde aparentemente sur-
giu mais peixe. À popa do Ponta dos Mosteiros, controlando as opera-
ções, o mestre Weber Pacheco não se impacienta. Ele é que sabe para
onde vai e quando se vai.
Ao fm de horas de dura labuta nos «setenta», Weber decide avan-
çar para o mar do Nordeste de São Miguel. O intervalo é aproveitado
pelos homens para dormitar, comer sandes, chicharros ou fumar
mais um cigarro. A descontracção é maior porque já pescaram um
número considerável de atuns. O sol cai a pique e obriga-os a despi-
rem as camisolas.
Quando a costa recortada e alcantilada do Nordeste surge cerca das
16 horas, adivinho o casario adormecido de lugares mágicos e pacíf-
cos onde passei a pé. Ali à frente Água Retorta, mais adiante o Faial
da Terra entalado entre duas ravinas, a Fajã do Calhau polvilhando a
encosta de um pequeno dedal de casas, dir-se-ia suspenso no abismo.
Serão umas sete da tarde de um dia quente e luminoso quando o
motor do Ponta dos Mosteiros acorda defnitivamente rumo a casa,
deixando a Povoação, Ribeira Quente e mais tarde Vila Franca do
Campo sucessivamente para trás. Os homens conversam alegre-
mente, rodeando o mestre, que fnalmente larga o seu lugar na popa
para vir conversar com a tripulação, quase todos familiares uns dos
outros.
IOPPIOPIOIPOOIOP
Agradeço, aqui, a simpatia e o carinho de todos os pescadores com
quem partilhei o Ponta dos Mosteiros: Mestre Weber Pacheco, 35
anos, Paulo Roberto, 45, Luís Remouga, 40, Ismael Pacheco, 24,
Marco António, 34, Ismael Pacheco, 24, Bruno Machado, 29, André
Pacheco, 27, Valdemar Fixinha, 27, José Pacheco, 51, João Amaral 22,
João Pacheco, 40, António Medeiros, 46 e João Pacheco, 30 anos.
UM «BICHINHO» COM 160 QUILOS É PUXADO PARA BORDO
86
Há seis anos que Nuno Marçal, de 38 anos, bibliotecário da Câmara
Municipal de Proença-a-Nova (Castelo Branco) percorre as al-
deias desertifcadas e de população envelhecida do concelho ao vo-
lante da Biblioteca Móvel. Em 2010, foi o candidato português da
Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB) ao Prémio Astrid
Lindgren Memorial (ALMA), criado em 2002 pelo governo sueco
em memória daquela escritora, e destinado a distinguir escritores,
ilustradores e entidades de todo o mundo que promovam a litera-
tura infantil.
Desde Março, e correspondendo à evolução por que passam bi-
bliotecas e bibliotecas móveis no país e no estrangeiro, além de
livros, dvd’s, revistas, jornais e internet, a Biblioteca-Móvel de
Proença-a-Nova disponibiliza a entrega de requerimentos. «Este é
o passo natural que as bibliotecas têm de dar e algumas estão a dar.
As pessoas vêm aqui requerer bolsas de estudo ou uma licença para
uma fossa ou algo relacionado com acção social e acabam a folhear
uma revista ou um livro.»
Desde que começou e expandiu o seu trabalho de visitante am-
bulante de livros e jornais que Nuno Marçal tem visto a popula-
ção residente envelhecer. Essa mesma população, em redor de um
livro, de um jornal ou da simples presença do bibliotecário, ganha
uma alma nova. «Eu diria que 30 por cento do meu trabalho é o
de bibliotecário e 70 é serviço social. São as tais aspirinas contra a
solidão e o envelhecimento. Não curam mas servem de paliativo.
É muito importante estar no local, ouvir essas pessoas e fazer-lhes
companhia.»
Nuno perdeu no ano passado dois dos seus melhores leitores.
«Morreram duas pessoas que consumiam muitos livros». Num dos
casos, tratava-se de uma mulher que tendo vivido muito tempo fora
e sofrendo problemas de enraizamento, se refugiava na leitura. «Lia
tudo compulsivamente.»
O segundo caso era o de um homem que cursara Direito em
Lisboa e por problemas diversos regressara às origens e pastoreava
cabras. «Era um homem que seleccionava as suas leituras. Eu tenho
uma foto dele a ler O Processo de Kafa junto a uma oliveira en-
quanto tomava conta dos animais.»
De segunda a sexta-feira, a carrinha da
Biblioteca Móvel de Proença-a-Nova
chega com livros, revistas e internet a uma
população esquecida e envelhecida de 30
aldeias beirãs. Muitos, analfabetos, usam
as revistas como pretexto para conversar.
Outros, são leitores compulsivos, como o
pastor que lia Kafka encostado a uma oliveira.
TEXTO E FOTOS NUNO FERREIRA
NUNO FERREIRA
Portugueses
O senhor
biblioteca-móvel
87
Na zona, existem vários guardadores de cabras que gostam de pas-
sar o tempo com revistas e jornais fornecidos pela Biblioteca Móvel
de Proença-a-Nova. Os homens que não sabem ler nem escrever
pedem para folhear revistas de pesca e caça. «É um pretexto para
estarmos à conversa sobre as suas pescarias e caçadas.» As mulhe-
res pedem revistas de bordados e culinária. As crianças que Nuno
Marçal visita no jardim-de-infância local gostam de navegar na in-
ternet mas também procuram banda desenhada ou livros da colec-
ção Uma Aventura.
No top de autores de livros pedidos estão, entre os portugueses,
José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto e clássicos como
Almeida Garrett. Nos estrangeiros, figuram nomes como Paulo
Coelho, Nora Roberts, Nicolas Sparks e Isabelle Allende. «Também
há uma grande saída dos livros de agricultura e de culinária», ex-
plica Nuno Marçal.
Numa região cuja população está a envelhecer, a presença da
Biblioteca-Móvel pode ser um bálsamo. «Essencialmente, é im-
portante estar, conversar, escutar. Em certos sítios tratam-me com
muito carinho, como amigo, quase como se fosse da família», co-
menta o bibliotecário.
«DIRIA QUE 30 POR CENTO
DO MEU TRABALHO
É O DE BIBLIOTECÁRIO
E 70 É SERVIÇO SOCIAL»
O DIA DA CHEGADA DE NUNO MARÇAL ROMPE AS ROTINAS
A BIBLIOTECA ITINERANTE CHEGA A UMA REDE DE 30 ALDEIAS
88
Charutos, vinhos, doces… E uma descida ao
Vale das Furnas. Foi um corridinho pleno na
Ilha de S. Miguel. O convite à EPICUR come-
çou por se quedar para um jantar de Charutos
& Vintages, do cardápio constavam os inefáveis
puros da Fábrica Estrela e também a delícia das
suas cigarrilhas, trabalho de formiguinha, ima-
gine-se, construídas manualmente, isto tecido
em função de pequenas quantidades. Para pro-
duções maiores a produção é mecânica, mas a
capa ajeitada manualmente. Lá estão em apreço
as Estrelas, Democratas e as Ilhéus, mais com-
pridas, venda forte para o gosto das mulheres,
ao que nos confidencia Costa Martins, admi-
nistrador da Fábrica Estrela e sabe-tudo sobre
tabaco, mestre da apurada construção das ligas.
Envolvidos nos charutos tabacos de Cuba, em
TEXTO EDUARDO MIRAGAIA
FOTOS EDUARDO COSTA
Corridinho
na ilha
E os Açores tão longe… Não devia ser, não pode ser. Em
cada recanto da ilha esconde-se trabalho de valer a pena
espreitar. Veja-se a exemplo a recuperação da Lagoa das
Furnas, para melhor acompanhar o tradicional cozido…
Na área da plantação de frutas que viram compotas
para o mundo, nós por cá todos bem. Tudo a rematar,
merecidamente, com um charuto adulto da Fábrica Estrela.
89
percentagem de cerca de 60 por cento, o res-
tante oriundo da Indonésia e Brasil. Para as
capas o eldorado do tabaco americano, de
Connecticut, o balúrdio de 120 dólares por
quilo. Alternativa menos dispendiosa o tabaco
de capa oriundo da Nicarágua e Equador, que,
recentemente, vão conquistando adeptos.
Sendo o ganha-pão da Estrela a produ-
ção de cigarros, marca emblemática o Alem
Mar, ainda assim a «graça» de produzir
charutos lança-se anualmente para as 72
mil unidades, 30 mil de cigarrilhas. E fca
pouco para as encomendas: parte consu-
mida nos Açores, outro tanto a caminho
da Madeira (40 mil charutos, 25 mil cigar-
rilhas). Nós, no Continente, quase a ver na-
vios, mais fáceis de comprar nas lojas da
Casa Havaneza. Ou então encomende di-
rectamente à Fábrica Estrela.
Uma curiosidade é a produção de rapé
da Estrela… Inicialmente a quota de ia nas
cinco mil toneladas, actualmente fica nas
três. Consumidores de vulto os Açores e a
Madeira. Mas dá para exportação: Suécia e
Noruega, os campeões do consumo, depois
vêm os alemães.
Foi a janta, foram os sinais de fumo, pre-
parávamo-nos para abalar até Lisboa, mas
não… A fidalguia açoriana lançava ou-
tros desafios ao repórter. Eram desta feita
os vinhos a falarem alto. Toca de alinhar
em diversas provas verticais, onde essen-
cialmente os brancos marcham a preceito.
Aqui o cicerone é Jorge Tavares, um jorna-
lista que andou pelos jornais continentais,
mas que foi para os Açores e lá fcou, tam-
bém à escrita mas a pender também para
os vinhos, à frente da garrafeira A Vinha.
Enófilo dos sete costados, desata à con-
versa: «Trabalhei também na Vinitur, um
CANDELÁRIA PARA O MUNDO
Aviados charutos e vinhos, deslinda-se
outro Açores de mão cheia, na vertente
de doces inexcedíveis: Quintal dos
Açores! (www.quintalacores.ondebiz.
com). O empertigado casal Sousa
iniciou o trabalho na terra há cerca de
dez anos e saem inúmeras delícias,
sacadas a partir da colheita média de 30
toneladas de produtos: fgo, capucho,
ananás, abóbora, amora, para uma lista
que não mais acabava. Noutros
néctares: mel, ovinhos de codorniz,
massa de churrasco, massa de pimenta,
pimenta moída… Até tremoços constam.
Na volta do caminho, terras de Candelá-
ria, damos de caras com uma preciosida-
de: Araçazeiro… Fernando Sousa dá a
aula prática: «É uma planta que esteve
quase em extinção e que era muito
usada entre nós para fns medicinais,
mas que redescobrimos para produzir
doce». Convida-nos a provar aqueles
frutos vermelhos ou amarelos… Sabor
mil. Planta de carácter subtropical,
segundo o nosso interlocutor, «não é
conhecida noutras zonas agrícolas, mas
acho que em Braga existe, não sei é se é
utilizada.»
A bem das exportações, o Quintal dos
Açores não se pode queixar: Alemanha,
França, Espanha, essencialmente
Barcelona, Canadá e Estados Unidos são
bons clientes.
90
empresa de consultoria e de divulgação do
vinho, em Matosinhos, onde organizáva-
mos cursos para pessoas interessadas em
aprofundar os seus conhecimentos, aliado
a visitas a quintas. Depois, foi a vinda para
os Açores, onde durante uns anos escre-
via uma página sobre vinhos, no Açoriano».
E ala para o cerne da questão, Jorge debita:
«Reconheço que existem bons vinhos bran-
cos nos Açores. A qualidade dos vinhos
brancos tem vindo a subir de nível, e alguns
tintos, embora não se possam colocar num
patamar idêntico, têm alguma qualidade.
Os brancos da ilha do Pico, alguns da ilha
Terceira, e até um outro vinho da ilha de S.
Miguel, não deslustram a acompanhar um
bom peixe grelhado dos Açores. Ainda muito
recentemente um branco, Quinta da Galera,
me surpreendeu pela positiva. Temos é que
ser realistas: as produções são mínimas.»
Então brancos em frente: «Em relação a
isso, e atendendo a que existe uma grande
tradição, e um bom tratamento das castas
brancas, como o Verdelho, muito utilizado
na confecção desses vinhos, gostaria de refe-
rir o trabalho que o enólogo Paulo Laureano
tem vindo a fazer na ilha do Pico.»
Na curva do cami nho apanhamos
Laureano e o círculo do vinho açoreano
fca desferido. Como confere, «os brancos
funcionam bem por terem condições de
clima». No apreço das castas, boa implanta-
ção de Verdelho, Arinto do Pico, Viosinho,
Malvasia e Terrantez. Mas para uma bitola
de referência, como testámos em sessões
prolongadas de provas verticais, lá passa-
ram com nota alta o Regional do Curral
de Atlantis, (blend de Viosinho e Verdelho),
Gigante da Adega Cooperativa do Pico…
Mas para a cábula dos tintos, a contento o
Regional do Curral de Atlantis (composição
de Merlot e Cabernet Sauvignon). Na esfera
analítica de Paulo Laureano, a conferir: «A
dificuldade dos tintos tem a ver com um
ciclo vegetativo muito curto e poucas horas
de sol. Os resultados, de resto, só se com-
põem através das castas Merlot e Cabernet
Sauvignon.»
JÁ NÃO FALTAM HOTÉIS
Houve tempo, todos o sabemos, que a
oferta hoteleira nos Açores era parca e
pobrezinha. Mas a paisagem mudou, para
nós que há muitas luas não visitávamos a
região. No caso de S. Miguel visitámos
duas instalações hoteleiras a pedirem
meças aos melhores hotéis. Em apreço
o Hotel Marina Atlântico, do grupo
Bensaude Turismo, quatro estrelas
a deitar para o mar, logo por si a paisa-
gem que conforta. Mais que isso, ali nos
deleitámos com uma gastronomia saída
das mãos do chefe Paulo Mota, um
discípulo de Luís Baena. Mais que tudo,
o seu arroz de lapas fcou na retina. Tal
gastronomia é timbre do hotel e
sustentada a pulso pelo seu director
João Luís Cogumbreiro e o seu adjunto
Miguel Rego.
Soalheiro e recatado vem na peugada
outro estabelecimento. O Royal Garden,
mais um caso de quatro estrelas que
podia representar mais uma estrelinha.
E onde a gastronomia regional tem
espaço para estar à larga. À frente da
unidade está Costa Martins… No fm de
contas tão bom na arte de fabricar os
charutos da Fábrica Estrela, como de nos
tratar do descanso prazenteiro no hotel
que também dirige.
A ESTRELA PRODUZ RAPÉ.
E EXPORTA: SUÉCIA E NORUEGA,
OS CAMPEÕES DO CONSUMO
JORGE TAVARES ( NA FOTO, À ESQUERDA) SABEDOR DE VINHOS AÇOREANOS
ROYAL GARDEN HOTEL
HOTEL MARINA ATLÂNTICO
91
Anichamo-nos na Lagoa das Furnas, braço
dado com a polaca Malgorzata Pietrzak
e Miguel Ferreira, duas boas histórias de vida.
Malgorzata visitou a ilha há quatro anos e
acabou por fcar. Mãos ao trabalho, empenhou-
-se na recuperação da zona das Furnas,
apanhando a boleia que o Governo Regional
em boa hora decidiu desenvolver com vista
ao Ordenamento das Bacias Hidrográfcas.
Caso contrário, com alarmismo sufciente, as
águas tendiam a perder as suas propriedades.
Até recentemente pasto de vacas, que
inquinavam a bacia, está a passar-se para a
plantação de fruta, que há muitos anos tinha
esmorecido. Retornando às histórias de vida,
para integrar o projecto surgiu Miguel Ferreira,
especializado na organização de espaços
verdes, deixando para trás os seus haveres em
Copenhaga, aceitando de pronto o convite
feito pelo Governo Regional. Nasce assim há
dois anos o Centro de Monitorização e
Investigação. Passando de uma fase de
inventariar as espécies que outrora existiam
por ali, começou a labuta de plantar diversos
frutos, entre outros, laranjas e maçãs.
E saiba-se que só em relação às maçãs foram
apuradas 21 variedades. Noutro plano, até
as camélias voltam à vida nas Furnas. Num
apanágio de Miguel «diz-se que tem tinha
vacas era malandro, laranjas é que valem».
E cola-se a propósito uma história descrita por
Maria Filonema Mónica em Os Cantos (2010):
«José do Canto vivia agora a pensar no
regresso à ilha. Sabia que nem tudo seria um
mar de rosas, mas, em vez disso o assustar,
estimulava-o: queria pôr em prática aquilo que
aprendera na Europa. Muitos dos seus
conterrâneos imaginavam que a laranja iria ser
exportada até ao fm dos séculos, mas ele
estava consciente de que os bons tempos
haviam fcado para trás. No início de 1866, em
carta a José Jácome, criticava a inércia dos
proprietários.»
Assim tem sido feito… conduz-nos Miguel: «Se
o objectivo imediato e primordial do Plano de
Ordenamento da Bacia Hidrográfca da Lagoa
das Furnas (POBHLF) é interromper o
processo de eutrofzação da lagoa, realizando
as medidas correctivas e preventivas que este
objectivo exige, tal operação deve igualmente
dar continuidade ao espírito do lugar que
séculos de humanização desenharam com
conhecimento e grande sensibilidade estética.
Se por um lado, ainda Miguel no uso da palavra,
as extensas áreas abrangidas pelo POBHLF
devem servir de campo experimental para a
recuperação da foresta do Vale das Furnas na
perspectiva de uma economia menos
dependente da pecuária, também é verdade
que respeitar e projectar para o futuro a
memória deste lugar, desafam por si só a
imaginação a criar, onde antes só havia
extensões de pasto, verdadeiras forestas
encantadas.»
No íngreme trabalho de devolver à vida as
Furnas segue-se também a antiga cultura do
inhame, em substituição da batata e as
leguminosas habituais, como a fava e o feijão.
Serão ainda muitos anos até que o projecto
fque concluso. Basta atentar noutra preten-
são…Sementes à terra com vista à produção de
mais árvores datadas da colonização. Só
depois disso outro sonho está em perspectiva:
tudo preparado para receber pessoas de todas
as partes do mundo, envolvendo-as em
workshopes. Para já, fca ali um museu digno
de se ver, onde está passado a pente fno tudo
o que é vida no local. Uma visita guiada que
não deixa margem para dúvidas. Para o que
era mal dantes e para aquilo que vai ser um dia.
Uma coisa, porém, não pode ser devassada
por forasteiros, como as áreas das muitas
plantações, que excepcionalmente visitámos,
pé ante pé. E entoaram-se risadas quando
demos de caras com um bando de galinhas…
…«Uma quinta biológica tem de ter animais»,
soletra Malgorzata. E pensar que para lá do
trabalho de frenesim que decorre nas Furnas,
ainda falta atacar a Lagoa das Sete Cidades…
Mas Miguel e a amiga polaca estão à espreita.
TRABALHO EXEMPLAR É NAS FURNAS
MUSEU DAS FURNAS
MALGORZATA E MIGUEL FERREIRA DEVOLVEM À TERRA MUITAS CULTURAS
92
Mistérios, maravilhas e curiosidades de Vila Real
PALÁCIO DE MATEUS
93
O princípio da cidade foi a Vila Velha, que
deveria agora presidir ao destino adminis-
trativo da vasta Terra de Panóias, que, com
limite sul no Douro, se estendia para nas-
cente até ao Tua, para além de Murça, bem
para além de Alijó. Mas o começo da nova
póvoa não foi fácil. A sua criação, tentada
primeiro por Afonso III, acaba por ser me-
lhor alicerçada, alguns anos mais tarde, por
seu flho Dinis (forais de 1272 e de 1293). E
assim Vila Real nascera – praticamente do
nada. Implantada num promontório, ris-
pidamente cortado pelos vales dos rios
Corgo e Cabril, a localização de Vila Real
faz lembrar um pouco o posicionamento da
Conímbriga romana, também apertada em
bico, mas esta, apesar de tudo, assente em
terra menos fragosa e já virada aos ares e ao
sonho das terras do litoral.
Vila amuralhada, no seu interior situaram-
-se a igreja dedicada a S. Dinis, que havia de
ser a sede paroquial, e ainda, acoplada a ela,
a capela de S. Brás, esta um pouco mais re-
cente que a primeira, com a igreja mãe a re-
velar ainda memórias da época românica.
Templos, ambos, que nos dias de hoje – e
desde 1841 – se encontram integrados no
cemitério municipal e participam ambos da
decadência que tomou posse da Vila Velha,
agora quase integralmente despovoada.
Apertada entre as duas ravinas, a do Cabril
a poente e a do Corgo, a nascente, a vila, a
cidade teve que tomar o caminho do norte
para realizar o seu desejo de expansão.
Desmontada, e feita cómoda pedreira de
pedra já lavrada, a muralha, o aro da Vila
Velha tem sido objeto de pesquisa arqueoló-
gica e veio a benefciar da presença do novel
Museu (da Vila Velha – 2008).
À expansão urbana verificada logo no
século XV (Convento de S. Domingos, desde
os anos de 1420), veio somar-se o grande
surto expansionista, já oitocentista, que
se manifesta pela existência dos edifícios,
TEXTO E FOTOS FERNANDO-ANTÓNIO ALMEIDA
Mistérios, maravilhas e curiosidades de Vila Real
Vila Real foi, tal como outros centros urbanos da terra portuguesa,
uma vítima recente do descontrolado surto construtivo, muito
alicerçado na especulação e na mediocridade, mas, todavia, é
visível na cidade o seu desejo de reabilitação. Entretanto, Vila Real
esconde em si alguns enigmas.
PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS
94
95
contemporâneos, o da atual Câmara
Municipal (1817) e o do antigo Governo
Civil. A rotura, ao modo de boulevard, da
Avenida Carvalho de Araújo (1916), que
desfez o tradicional terreiro do Campo do
Tabolado, veio a ter como contraponto
a expansão da cidade para a margem es-
querda do Corgo (Ponte Metálica, em 1904;
Estação de Caminho de Ferro, 1906).
Já os passados anos 80 vieram semear a
anarquia urbana em Vila Real, anarquia que
nos dois últimos decénios se tem tentado
camufar ou compensar através da execução
de edifícios públicos de prestígio, como os
bem conseguidos museus de Arqueologia e
Numismática (reinterpretação de 1997) e da
Vila Velha (2008), o Conservatório (2004), e,
já mais “modestos”, a Biblioteca (2006) e o
menorizado Teatro (2004), um edifício sem
“rosto”, a deixar-se esmagar e a servir de “pau
de cabeleira” ao impante novo-rico vizinho,
o centro comercial.
Para além disto, diante das mais mar-
cantes edificações antigas, torna-se tam-
bém quase inalienável a sensação de falta
de autenticidade presente em alguns dos
mais emblemáticos edifícios da cidade,
como a Câmara Municipal (acrescida, em
prótese, já no século XX, com a escada-
ria do Convento de S. Francisco), a reto-
cada Sé, o alterado Palácio dos Marqueses
de Vila Real, a enganosa casa dita de Diogo
Cão, o falsifcado Pelourinho. Isto, quando
não evocar o abandono de algumas peças
de arquitetura, menores mas muito signif-
cativas, como as duas esventradas residên-
cias góticas, fronteiras à Casa dos Brocas.
Moléstias que, porém, não desfazem, por
exemplo, numa admirável Capela Nova…
Nem nos enigmas e curiosidades de que a
cidade não é nada avara e dos quais, agora,
enunciamos alguns…
O cão de S. Domingos
Com a fachada canonicamente virada a
poente, a exibir os três panos verticais de
muro que correspondem às suas três naves,
com os dois gigantes a enquadrarem o pano
central em que se rompe o portal em arco
quebrado sobreposto por um óculo, a qua-
trocentista igreja do convento dominicano
de Vila Real serve hoje de casa episcopal, de
Sé. A moldura do óculo enquadra um vitral
de desenho complexo, que só de dentro do
templo, através da luz do exterior, coada
pelo próprio vitral, será possível entender.
Na parte superior do pano que enquadra o
TEATRO DE VILA REAL
96
portal, dois nichos terminados por frontão
triangular, clássico, albergam os dois fun-
dadores das ordens mendicantes: Francisco
de Assis, à esquerda, Domingos de Gusmão,
à direita. Delimitando o adro da igreja,
a norte, um muro rasgado por dois por-
tões quase contínuos, que davam acesso
às áreas de mais restrita vivência monás-
tica. Encimando o portal principal, um ani-
mal, um cão, estendido, segura nos dentes
um objeto longo e estreito, com uma apa-
rência de flauta. Mas não, não se trata de
qualquer canídeo amestrado, superdotado,
capaz de extrair e espalhar sons, a partir
do manuseamento de um instrumento de
sopro. Aquele cão, ali, simboliza sim o pa-
trono da Ordem Dominicana. Espanhol
de Calahorra, onde nasce em 1170, pre-
nhada dele, a mãe de Domingos visionara
o futuro do próximo futuro rebento, com
uma estrela vermelha na testa e, a seus pés,
um cão malhado, de branco e preto (assim
Domingos haveria de ver o mundo…), segu-
rando nos dentes uma tocha acesa. O flho
da dama prenhada estaria, portanto, desti-
nado a defender a fé dos ataques dos heréti-
cos. E assim haveria de ser, assim haveriam
os dominicanos de sustentar impiedosa
e impenitentemente a luta contra os ini-
migos da fé. O seu papel no brutal desem-
penho que viria a ter a Inquisição, o Santo
Ofício, foi crucial – inúmeras iriam ser as
fogueiras de esturrar hereges, ateadas pelos
membros da Ordem Dominicana ao longo
dos séculos… Quanto ao canídeo, o leitor
visitante de Vila Real há de reparar como
ele figura no nicho da fachada, que antes
referimos, estirado aos pés do fundador da
Ordem…
OS VITRAIS DA SÉ
Acabámos de falar no óculo aberto no
alto da fachada principal da igreja de S.
Domingos, na rosácea, no vitral colorido.
Do interior do templo o leitor turista vi-
sitante há de ver passar a luz através de
outros vidros em que se desenham for-
mas e cores. Por exemplo através de uns
retângulos alongados, postos na verti-
cal. Todas estas, formas e cores, têm o seu
significado. O mais curioso dos visitan-
tes, para procurar entendê-lo, poderá re-
correr a um livrinho, a um guia de leitura
de «Os Vitrais da Sé de Vila Real» (2005).
Por exemplo: podemos adiantar que o que
está grafado no óculo circular da fachada
é: «Eu - sou – o Al – fa e o O – meg – a O
– pri – nci – pio – e o – fm». E mais não
dizemos. A não ser que os modernos e no-
táveis vitrais da Sé de Vila Real estão data-
dos de 2003 e que o seu autor foi o pintor
João Vieira (1934-2009), um artista bem
conhecido da nossa arte da 2ª metade do
século XX.
O LEITOR TURISTA
VISITANTE HÁ DE VER
PASSAR A LUZ ATRAVÉS
DE OUTROS VIDROS
EM QUE SE DESENHAM
FORMAS E CORES
97
98
ADÃO E EVA
Adão e Eva. Só duvidosamente se tratará do
Adão e da Eva bíblicos. Mas há que dar um
nome de gente a este par de criaturas des-
nudadas que fguram como timbre ao bra-
são dos Teixeira de Macedo, sobrepujando
o elmo do escudo. Nem claro é se se trata
de um casal ortodoxo (macho e fêmea), se
– como parece poderem aqui figurar – de
dois homens machos. Exibem-se ali, discre-
tos embora, mesmo junto da Capela Nova,
ao nível do segundo piso de uma casa bra-
sonada. Mistério ou enigma, seguramente,
pelo menos para a presente testemunha, que
não tem sabedoria que baste que lhe permita
decifrá-lo.
SENHORA DE ALMODENA
Pergunta-se a gente que vem fazer a estes ar-
redores da cidade de Vila Real a famosíssima
padroeira da cidade de Madrid, capital de
Castela e de Espanha, a Senhora, Almudena
de seu nome original. Deixa o paciente tu-
rista a cidade de Vila Real por poente, bor-
dejando o edifício do antigo Governo Civil,
fiado nos prometidos, mas mais que ilu-
sórios, 15 minutos pedestres de caminho.
Passa-se a Rotunda do Chinês (Shop 7), des-
cortinam-se fnalmente as barracas dos olei-
ros de barro preto de Bisalhães (perguntada
pelos oleiros, a prestabilíssima adolescente,
desentendida do termo meio erudito utili-
zado pelo peregrino, acaba fnalmente por
apontar, logo ali, as improvisadas tendas. E,
sem sombra de malícia, explica-se pelo seu
desconcerto: «É que a minha mãe chama-
-lhes paneleiros»). Visitadas as tendas dos
fazedores de panelas, tachos e outros arte-
factos pretos de fumo e utilitários, inteira-se
o visitante de que, «fguras» de barro, quem
as fazia era a «canalha»; que, com a proibi-
ção do trabalho infantil, extinguiram-se (ou
quase) os modeladores do barro em forma
de bichos e de gente. Passado então o duplo
cruzeiro do Senhor do Bom Caminho e da
Senhora da Boa Ora (sic.), bordejada a mo-
destíssima Rua Nova de Almodena, lá se
chega ao sítio da capela. No terreiro, entre-
tanto refeito, o templo, sabe-se, vem já de
meados de Oitocentos. Junto a ele, um im-
ponente chafariz de espaldar regista uma
quadra: «O límpido cristal desta água pura /
Que a Virgem fez brotar desta colina / As fo-
res vivifca da campina / O corpo refrigera, as
dores cura» - é a Fonte dos Milagres. Encima
o espaldar a Sr.ª da Saúde. Capitão de cou-
raças no Reino da Flandres, região e teatro
de guerra do império hispano-castelhano, D.
Pedro Taveira Souto Maior, mandou aqui er-
guer, no século XVII, na época do Portugal f-
lipino, decerto por livração de golpe de arma
branca ou de arcabuzada, se não de queda de
cavalo, a capela dedicada à Sr.ª de Almudena,
que, aqui, em Vila Real, passou a grafar-se
com um o. Demolido o templozinho pri-
mitivo, a invocação manteve-se, apesar de,
decerto, ter passado a ser patrioticamente
olhada de soslaio depois de 1640.
SIMÃO, O VOADOR
Pedro era um judeu que pescava na Palestina,
em Cafarnaúm, no Mar da Galileia, e cha-
mava-se, sim, Simão. Este Simão tinha po-
deres mágicos, de taumaturgo. Lembre-se, a
este propósito, o leitor, como este Simão con-
seguiu ressuscitar um arenque morto, já dei-
tado de conserva em salmoura, obrigando-o
a nadar num tanque de água doce. Pois um
dia, em Roma, pôs-se o nosso Simão/Pedro,
APERTADA ENTRE
AS DUAS RAVINAS,
A DO CABRIL A POENTE
E A DO CORGO,
A NASCENTE, A VILA,
A CIDADE TEVE QUE
TOMAR O CAMINHO
DO NORTE
FIGURAS DO BRASÃO DOS TEIXEIRA DE MACEDO
SENHORA DA ALMODENA
99
perante um grupo de sábios, a disputar artes
de magia com outro Simão (este, Simão, o
Mago). Pois bem, mago de fama, o Mago dis-
põe-se a demonstrar a sua superioridade na
matéria. Sobe, no Capitólio, a uma alta torre
de madeira e, lançando-se no espaço, põe-se
tranquilamente a voar. Perante isto, porém,
Simão/Pedro, arguto, não se deixa ludibriar.
Começa a rezar, e com suas rezas faz com
que o Mago se estatele rapidamente no chão.
É que Simão, o Mago, contava, para exercer
as suas artes, com a ativa cumplicidade dos
Diabos. Para fazê-lo voar, por exemplo, os
seus aliados colocavam-lhe invisíveis asas
nas pernas e nos braços. Porém, diante da
força das rezas de Pedro o poder dos Diabos
revelou-se completamente inefcaz. Diabos
que tiverem então que – literalmente – dei-
xar cair o seu protegido. Pedro e Simão, o
Mago voador, mais os sábios juízes, estão
representados no interior da Capela Nova.
Figuram num painel de azulejos setecentis-
tas, num silhar, do lado esquerdo de quem
entra. O Mago ali está, serenamente voando,
perante a estupefação de Pedro.
O SANTUÁRIO DE PANÓIAS
É, decerto, um dos sítios arqueológicos mais
misteriosos de Portugal. Fica também junto
a Vila Real, passando por Mateus. Um campo
aberto de volumosas fragas onde foram
rasgados entalhes, aplanadas lombas, abertas
caixas, escavados cilindros, traçados degraus,
defnem um misterioso santuário cuja área
se estende para além do campo circundado.
De origem pré-romana, há de, em tempo
de Roma, ter integrado um vasto espaço
marcado pela Chaves / Aquae Flaviae e, ao
sul, pela zona mineira de Três Minas e de
Jales. Dedicado quer a deuses locais, quer a
cultos orientais (de ali, onde nasceu também
o Cristianismo), entre os quais Serápis se
destaca, beneficiou também da fé e dos
dinheiros e das obras de piedoso senador
romano, de seu nome Calpúrnio Rufno…
S. PEDRO E A ORELHA DE MALCO
De jornada até Vila Marim, vamos com o fto
de descobrir as recuperadas pinturas a fresco
existentes na Igreja Paroquial. Pertencem,
creio, aos séculos XV-XVI. A degradação que
ainda sofreram, já posterior à sua recupera-
ção, ocultou em parte a ilustração dos mi-
lagres devidos ao santo S. Brás. O Menino
de ossinho a sair-lhe da garganta, a cabeça
do bacorinho assadinha no forno e trazida
numa bandeja pela pobre velha, ainda lá se
vislumbram. De S. Brás mais não digo, que
o leitor mais paciente há de ter-me lido a
croniqueta acerca dos frescos alentejanos
na última EPICUR; assim, que nada mais
acrescento em louvor de Brás. Falo agora de
S. Pedro, ainda que não necessariamente em
sua louvação. É que, aqui na igrejinha de Vila
Marim, em painel também da face interior
da parede norte do templo, sobreposta ao
fresco de S. Brás, fgura a cena da prisão de
Jesus no Horto das Oliveiras. Na composição
fgura um Judas ruivo (no cumprimento do
SÃO PEDRO E O MAGO
PANÓIAS, ALTAR DE SACRIFÍCIOS
100
recado que lhe rendeu os 30 dinheiros), sol-
dados romanos, um judeu de nariz adunco.
Já em posição de relevo, empunhando uma
alentada cimitarra, um espadão, figura
Pedro. No chão, de joelhos, com a mão di-
reita, Malco, servo do Sumo Sacerdote
Caifás, ampara o sítio onde estivera a sua
orelha, que Pedro lhe acaba de cortar
O OBSERVATÓRIO DE S. CIBRÃO
Poderia ter sido dedicado a S. Cipriano
(Cibrão é Cipriano, por via popular), o lei-
tor sabe, o autor livro das fórmulas mágicas
de desencantar tesouros ocultos, aviar feiti-
çarias, amestrar Diabos. Do alto desta mar-
quise descortina-se todo o Universo, numa
roda de 360 graus. Fica lá para os lados das
terras onde imperam o S. Marcos mártir e o
deus Serápis. Em S. Cibrão.
O GRITO
A Capela Nova, Igreja de S. Paulo, Igreja
dos Clérigos, Igreja de S. Pedro Novo, assim
parece poder (heteronimicamente…) de-
signar-se o notável templo vila-realense
que abre em duas (a Rua das Pedrinhas /
Rua 31 de Janeiro e a Rua Direita / Rua Dr.
Roque da Silveira) a Rua Central / Rua dos
Combatentes da Grande Guerra. E, a pro-
pósito desta dúplice toponímia urbana, não
passe em claro o vaticínio do velho poeta
novecentista brasileiro Manuel Bandeira
que, num dos seus poemas sobre a sua ci-
dade natal, o Recife, tão justamente escre-
via, mais ou menos assim, ao evocar a Rua do
Sol (creio que era esta): Rua do Sol – tenho
medo que hoje se chame Rua do Dr. Fulano
de Tal… Atribuído que é o projeto do templo
ao toscano Nicolau Nasoni (1691-1773), pin-
tor e arquiteto que veio a estabelecer-se na ci-
dade do Porto, por volta de 1725, e que deixou
uma forte marca da sua personalidade artís-
tica no Norte de Portugal, ou de um qual-
quer seu discípulo, pertença a sua autoria a
quem-quer que seja, o certo é que estamos
perante uma das melhores peças histórico-
-arquitetónicas existentes em Vila Real.
Aqui, neste apontamento, queremos apenas
chamar a atenção do benévolo leitor para o
amplo óculo que se sobrepõe ao portal e à sua
extraordinária expressividade. A remeter-nos
para o quadro do pintor expressionista no-
rueguês Edvard Munch (1863-1944), O Grito.
S. MARCOS, O MÁRTIR DE MATEUS
O palácio de Mateus, nos arredores de Vila
Real, é seguramente uma das peças arqui-
tetónicas barrocas mais significativas de
Portugal. O contributo de Nicolau Nasoni,
que aí terá trabalhado entre 1739 e 1743, pa-
rece ter sido decisivo para a sua traça. Como
curiosidade, porém, registe-se aqui a exis-
tência, na capela solarenga, do corpo de um
certo S. Marcos, mártir ignoto, adquirido em
1704, em Roma (ainda que só o corpo, que
o mesmo já foi fornecido sem cabeça) por
Diogo Álvares Mourão, o Santo Arcediago,
flho do 3º morgado de Mateus. O mesmo
Diogo que, ainda de Roma, trouxe uma lauta
coleção de milagrosas relíquias, de bentos
Agnus Dei, destinados a proteger a mansão
de Mateus e os seus habitantes.
MALCO, SERVO
DO SUMO SACERDOTE
CAIFÁS, AMPARA O SÍTIO
ONDE ESTIVERA A SUA
ORELHA, QUE PEDRO
LHE ACABA DE CORTAR
PINTURA DE MUNCH E ÓCULO DA CAPELA NOVA
S. CIBRÃO
O Leite de Colónia está de volta, para realçar a beleza feminina. Desde 1960 que
a fórmula mágica, desenvolvida pelo médico brasileiro Dr. Arthur Studart, está bem
guardada. O Leite de Colónia é um segredo partilhado durante gerações, que
conquistou avós, mães e filhas.
Agora, a família cresceu. Para além do tónico facial clássico, vai encontrar também o
novo sabonete aromático Leite de Colónia, o creme de mãos, o creme de pés, o
bálsamo para lábios, o gel de banho, o tónico facial sem álcool, o champô, o leite de
corpo, o leite desmaquilhante e a água de rosas. A melhor forma de manter o aroma
inesquecível de Leite de Colónia, em todo o corpo.
Os resultados estão comprovados. Agora, chegou a sua vez de
experimentar e realçar também a beleza que há em si.
O Leite de Colónia está de volta, para realçar a beleza feminina. Desde 1960 que
a fórmula mágica, desenvolvida pelo médico brasileiro Dr. Arthur Studart, está bem
guardada. O Leite de Colónia é um segredo partilhado durante gerações, que
conquistou avós, mães e filhas.
Agora, a família cresceu. Para além do tónico facial clássico, vai encontrar também o
novo sabonete aromático Leite de Colónia, o creme de mãos, o creme de pés, o
bálsamo para lábios, o gel de banho, o tónico facial sem álcool, o champô, o leite de
corpo, o leite desmaquilhante e a água de rosas. A melhor forma de manter o aroma
inesquecível de Leite de Colónia, em todo o corpo.
Os resultados estão comprovados. Agora, chegou a sua vez de
experimentar e realçar também a beleza que há em si.
102
Até ao fnal de Setembro Joana Vasconcelos recebe em Versalhes. O
famoso chefe português José Avillez preparou o banquete inaugu-
ral, para 400 convidados, que decorreu no palácio e nos jardins. A
luxuosa residência dos Reis de França é de Joana, para apresentar
obras imensas em todos os sentidos. E levar ao mundo um pouco
de Portugal, ainda que ela própria tenha nascido em Paris em 1971.
É a primeira mulher e a mais jovem artista contemporânea a
expor em Versalhes. Como é que isto se traduz? Que sentimento
gera esta primazia?
É uma honra imensa. O universo de Versalhes esteve sempre
presente na minha obra, através do excesso, da experimentação, da
dimensão operática, do luxo e do gosto, e, por isso, ver as minhas
esculturas dialogarem directamente com aquele contexto. Faz todo
o sentido. Além disso, é um prazer levar Portugal através do fado,
das faianças do Rafael Bordalo Pinheiro, da fligrana portuguesa e
do artesanato de Nisa –a um espaço tão mítico que acolhe, todos os
dias, um público tão vasto e diverso.
A questão do género já lhe mereceu refexões mais detalhadas.
Diz não concordar que a mulher seja parte de uma posição atra-
sada em relação ao homem. Remete para a inteligência como
ponto instrumental de controlo. «A inteligência não tem sexo»,
disse. Quer explicar?
TEXTO MARGARIDA MARIA E ROGÉRIO VIDIGAL
Recusa o feminismo, sobretudo na sua
concepção mais sectária. Contudo, é
a primeira mulher a mais jovem artista
contemporânea a expor em Versailles. O
que a «honra imenso». Joana Vasconcelos
mudou-se para o Palácio dos Reis de França.
E ali assume o papel de rainha, levando
a sua arte, o fado, as faianças do Rafael
Bordalo Pinheiro, a fligrana portuguesa
e o artesanato de Nisa.
A sagração
de Joana
Vasconcelos
103
Não creio que o feminismo, particularmente na sua concepção
mais sectária, seja o caminho para equilibrar as assimetrias que a
sociedade contemporânea ainda apresenta. Acredito na defesa uni-
versal dos direitos humanos, que todas as pessoas são iguais, e que
o género, tal como a religião, a etnia, etc., nunca devem ser factores
diferenciadores.
Nasceu em Paris e trabalha em Portugal. Como vê hoje a situa-
ção inversa dos jovens que hoje são obrigados a ir trabalhar para
o estrangeiro?
Lamento que seja tão difícil encaixar jovens profssionais em de-
terminadas áreas, obrigando-os a procurar oportunidades fora do
país de origem. Contudo, não posso deixar de referir o meu exem-
plo: desde cedo na minha carreira que me foram apresentadas
oportunidades no estrangeiro, como residências, por exemplo, que
nunca aceitei. Sempre optei por trabalhar em Portugal, mas com o
objectivo de fazer chegar a minha obra além-fronteiras. O mundo
tem evoluído para uma realidade em que, cada vez mais, é possível
fazer-se isto, e Portugal é um país com características óptimas, a
partir do qual se pode trabalhar com horizontes alargados.
Porquê nesta área das artes e não em outra qualquer?
Foi algo que foi acontecendo. Fui procurando o meu caminho e
descobrindo. Podia ter sido muitas outras coisas – pratiquei karaté
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desde os seis anos e cheguei a dar aulas, por exemplo – mas acabei
por enveredar naturalmente pelas artes plásticas.
Formou-se no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual, em
Lisboa). Que outras formações efectuou? Onde mais estudou?
Onde busca a inspiração?
Estudei joalharia, design e desenho. Curiosamente, não estudei es-
cultura. A inspiração para as minhas obras vem dos aspectos mais
banais do quotidiano, dos objectos de que nos rodeamos, dos sím-
bolos e tradições que nos são próximos.
As Artes Plásticas são (para os apreciadores) um prazer. E para
a Joana?
São o meu trabalho e a minha forma de me relacionar com o
mundo.
Uma das suas obras foi uma encomenda do restaurante Eleven.
Já explicou que se tratava de uma encomenda para estabelecer
a relação da nossa história, da tradição,
com o conceito de luxo e de restaurante.
Resultou um misto de fado, joalharia tra-
dicional, comida. É uma síntese, esse co-
ração de Viana, com talheres de plástico,
na linha da fligrana e do ser português à
mesa?
O Coração Independente Dourado re-
sultou de uma encomenda do restaurante
Eleven, e é uma obra que confronta uma
série de questões. Por um lado, temos o
fado, que é tradicionalmente cantado em
restaurantes e que, a par da forma do co-
ração de Viana, conjuga duas importantes
manifestações da cultura portuguesa; por
outro, há o coração que é, em si mesmo, um
símbolo universal, e os talheres de plástico,
um objecto banalíssimo que é igual em todo
o lado. É uma obra que propõe inúmeros
signifcados, e que é habitada por uma série
de dicotomias (o luxo e o banal, o particular
e o universal, produção artesanal e produ-
ção em massa, etc.).
Já referiram o seu trabalho como uma
«espécie de escultura quase arquitectó-
nica». Replicou que se sente mais como
«artista-escultor», mais interessada na
criação do que no material. A ideia é a
arte? Estamos no domínio do conceptual,
que adapta os materiais à sua medida?
A ideia é absolutamente central no meu
trabalho. É a ignição da minha escultura, é
o que me move para construir objectos que
serão o veículo dessa mesma ideia, condu-
zindo-a ao público.
Que critérios para as opções, afnal uma
mais-valia pela originalidade? Considera
que se trata de um novo e mais efcaz ins-
trumento na concepção e produção das
suas obras? Exemplifique, por favor, as
vantagens de cada um, nos vários cami-
nhos feitos.
O que defne a escolha dos materiais é a ideia. Depois, recorro aos
objectos do quotidiano, que utilizo na minha obra enquanto mate-
riais, pensando não só na sua fsicalidade – a aparência, o tamanho,
a textura, etc. –, mas no objecto enquanto signo, cujo signifcante
eu descontextualizo para que o objecto ganhe novos signifcados.
Um exemplo disto é Marilyn, o par de sapatos de salto alto feitos
com panelas e as respectivas tampas. Na minha obra, saem do seu
contexto doméstico habitual, libertando-se da função para a qual
foram concebidas; transformam-se num material que, através da
repetição, dá origem a uma nova forma – o sapato de salto alto. Esta
subversão é fundamental para criar novos signifcados e para activar
o diálogo entre obra/público/contexto expositivo.
Temos uma mesa, gastronomia, de «fligrana» ou a nossa é uma
arte bruta de pouco requinte?
A gastronomia portuguesa é de enorme qualidade e sofsticação.
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TEXTO MARGARIDA MARIA
FOTOS MIGUEL SILVA
Crochets, fios de todas as cores, uns mais
finos, outros mais grossos, toalhas, loiças,
garrafas, ferros de engomar, toda uma amál-
gama de objectos e componentes que, em
conjunto, se tornaram peças de arte. No ate-
lier de Joana Vasconcelos, três dezenas de
pessoas trabalharam para pôr de pé o que
a artista sonhou. Mais de dois milhões de
euros, pagos por mecenas, é o custo da ex-
posição patente no palácio de Versalhes até
30 de Setembro. A EPICUR foi espreitar os
meandros e preparativos.
Os espaços são enormes, não fossem as
peças imaginadas pela artista de dimen-
sões extraordinárias, tal como os salões de
Versalhes. Quatro senhoras agilizavam as
agulhas de croché nos collants e nas sensuais
roupagens que iam revestir Le Dauphin e La
Dauphine (uma instalação agora em França),
um casal de lagostas que iria sentar-se uma
mesa recoberta por uma toalha adamas-
cada. À semelhança dos reis de França, que
em Versalhes abriam as portas para que as
pessoas os vissem comer, as duas cerâmicas
iam «esperar» os monarcas na antecâmara
do Grand Couvert, onde a refeição seria ser-
vida, num namoro em queo desejo sexual e a
gastronomia interagem.
Le Dauphin e La Dauphine são trabalhos
desenvolvidos a partir de faianças desenha-
das por Rafael Bordalo Pinheiro, que tem,
aliás, em Joana Vasconcelos um elo entre
a cultura popular e a erudita, a tradição e a
modernidade.
Um pouco adiante estava a Perruque, uma
espécie de ovo com madeiras e embutidos
da Fundação Ricardo Espírito Santo, de
onde saem cabelos artifciais, em tufos mais
ou menos compridos, relembrando como os
penteados eram importantes em Versalhes e
como as damas se exibiam numa celebração
Do atelier em Lisboa
aos salões de Versalhes
A PERRUQUE LEMBRA OS PARTOS DA RAINHA
106
ao exagero que a época impunha. A peça, pa�
tente agora no quarto da Rainha, lembra os
19 partos que ali ocorreram. Daqui que tudo
surja numa forma uterina que remete para
as crianças ali nascidas, entre as quais os fu�
turos reis Luís XV e Luís XVI.
A peça Vitral, agora na escadaria da Rainha,
estava ainda no atelier. Uma tapeçaria ur�
dida em grande escala e em ponto de
Portalegre (Alto Alentejo), onde a obra foi
laboriosa e pacientemente feita à mão, a re�
meter para os vitrais tão importantes à época
em que Versalhes era o centro do mundo. O
topo em arco seria para encaixar numa das
arcadas do Palácio.
Em peças estavam ainda as Valquírias que
foram instaladas na galeria das Batalhas.
Suspensas a partir do tecto abobadado, os
enormes e invulgares corpos têxteis de Royal
Valkyrie, Golden Valkyrie, e Valquíria Enxoval
usam técnicas artesanais de labor tradicio�
nalmente feminino.
São três obras que reportam para realida�
des diversas: a Royal Valkyrie traz a moda
palaciana de Versalhes, a Golden Valkyrie re�
ferencia o ouro, e Valquíria Enxoval aponta à
estética rural, com cores, motivos e técnicas
tradicionais de Nisa, pequena vila do interior
de Portugal.
As Valquírias «percorriam os campos de
batalha, montadas em cavalos alados, para
recrutar os futuros guerreiros de Odin».
Uma peça tinha já sido embalada e en�
viada para França: Lilicoptère, «uma obra
que encena a mais desconcertante e fan�
tástica aproximação ao universo estético
de Versalhes». �rata�se de um helic�p� ». �rata�se de um helic�p� . �rata�se de um helic�p�
tero, revestido a folha de
ouro e decorado com mi�
lhares de brilhantes, com
o exterior da cabina e as
pás das hélices, cobertos
por uma colorida cober�
tura de penasde avestruz,
em tons salmão, rosa e la�
ranja. A pequena abertura
na frente da cabina mostra
um interior sumptuoso, de
madeiras trabalhadas, dou�
rados e tapetes bordados.
«Microcosmos anacr�nico
e máquina do tempo que
transporta a rainha consorte francesa até à
contemporaneidade».
Passamos a outra sala, como a um novo
mundo. Impunha�se uma obra monumen�
tal constituída por duas estruturas verticais
gémeas, feitas de garrafas de champanhe,
que seriam iluminadas a partir do interior.
Aliás, a escolha das garrafas teve em vista
essa mesma iluminação e o transporte para
os prazeres da mesa, tão portugueses, sobre�
tudo quando aliados à gastronomia.
107
Um pouco adiante estava uma composição
em redondo, feita com ferros de engomar.
Não irá para Versalhes, mas o seu conceito
não deixou de chamar a atenção, sobretudo
porque o inaudito e surpreendente con-
junto, depois de pronto, gerará um nenúfar
que, ao abrir, expelirá vapor.
É evidente o carácter inquiridor da obra
da artista, que, através do uso de objectos do
dia-a-dia, como garrafas, ferros de engomar,
rendas e fos, nos obriga a olhar, a questionar
a nossa relação com os objectos de que nos
rodeamos.
A arrumação e a ordem, a despeito de se
estar a menos de um mês da inauguração
da mostra, eram bem patentes. Caixas de
tecidos, fos, lãs, berloques, tudo arrumado,
prestes a que alguém fosse buscar alguma
coisa, a utilizasse e deixasse tudo como es-
tava antes. «Que a arte não tem de ser desor-
ganizada. Pelo contrário, tudo é preparado
ao milímetro para funcionar bem e não sub-
sistirem, à última hora, surpresas desagradá-
veis». Uma nota diferente é o senhor José, no
meio das senhoras, também ele embrenhado
nos crochets que seguiriam para França.
Como diferentes são as prateleiras com ce-
râmicas representando bichos diversos de
Bordalo Pinheiro.
E há a ofcina, onde são reis os carpinteiros,
electricistas e outros profssionais, incluindo
os «dos sete ofícios» que sabem o que fazer
a partir das maquetes feitas pelos arquitec-
tos, que, por sua vez, dão corpo aos sonhos
de Joana.
No gabinete de arquitectura está também
o marido da artista. Se tudo é possível no
mundo de Joana? Duarte Ramirez responde:
«Às vezes não no imediato, mas depois faz-
-se.» Porque uma organização de excelência
dá resposta a todas as ideias que são, depois,
«transformadas» em desenhos técnicos com
medidas rigorosas, tudo na melhor das de-
fnições. «De outro modo, imagine, corria-
-se o risco de não caberem, ou saírem mal
feitos.»
A título de exemplo, Duarte Ramirez
fala do Jardim do Éden que demorou oito
anos a construir. «Uma peça enorme que
foi alvo de um trabalho muito meticuloso,
com desenhos, maquetes, entre outros».
Menciona-se um coleccionador sul-coreano
que possui uma casa desenhada pelo arqui-
tecto Siza Vieira e que tem um bule elabo-
rado por Joana Vasconcelos.
Difícil fazer a exposição em Versalhes?
«Muito!», comenta a equipa de apoio à ar-
tista: «O local não está preparado para
expor arte contemporânea, não pode ser
fechado e tem visitas diárias, pelo que só se
pode trabalhar à noite». Preços? «Ronda os
mais de dois milhões de euros, pagos por
mecenas».
Na visita ao atelier não se pode passar em
branco sobre o funcionamento do gabinete
de imprensa, a área fnanceira e a zona onde
se desenvolvem os debates de ideias para que
tudo funcione na perfeição. Porque Joana
Vasconcelos cria, pensa, imagina, e depois é
necessário encontrar soluções para concre-
tizar os sonhos da artista. Cumpridos, desta
feita, em Versalhes.
RENDAS, TAPEÇARIAS,
TRABALHOS DE ELECTRICIDADE.
OBRAS QUE NASCEM EM
LISBOA PARA SEGUIREM
OS CAMINHOS DE FRANÇA
108
Joana Vasconcelos cumprirá a terceira
Bienal de Veneza em 2013, após as passa-
gens de 2005 e 2007. Antes já ganhara o
Prémio EDP Novos Artistas 2000 e depois
fez a mostra antológica Sem Rede, no Museu
Colecção Berardo, a mais visitada de sempre
em Portugal, com cerca de 168 entradas mil
em dois meses.
Um leilão da Christies’s , em 2010, trans-
formou-a na artista nacional mais cara, logo
após Paula Rego. Um percurso exaltado pu-
blicamente pela reapropriação de objectos
banais, «que se diverte a transformar com a
ajuda de técnicas imaginadas que lhe permi-
tem criar um diálogo entre a cultura e a sua
história pessoal», que lhe permite «interro-
gar o conceito do belo». Há críticas mais e
menos favoráveis, mas todas são unânimes
em encontrar um aspecto importante na sua
obra: «o humor».
Ainda assim, quando, a 19 de Junho,
Versalhes abriu as portas à mostra de Joana
Vasconcelos, não estava lá A Noiva, um lus-
tre feito de tampões, considerado «inade- «inade- inade-
quado» para a exposição, pela diretora do
Castelo, Catherine Pégard. Mas a resposta
não se fez esperar já que a escultura foi para
exibição no Centquatre, em Paris, até 18 de
Setembro.
A artista manifestou espanto pela «cen-
sura», até porque se trata de uma das suas
mais conhecidas obras. «Não faz sentido
algum – esta é a peça pela qual me tornei co-
nhecida na arte contemporânea mundial e,
tratando-se de um palácio, o lustre tem tudo
a ver com o ambiente e com o resto da mos-
tra que preparei», afrmou sucessivas vezes.
E, na apresentação da exposição à imprensa,
foi contundente nas críticas: «Fiquei mais do
que decepcionada».
«É muito complicado porque A Noiva é
uma peça muito importante que integraria
esta mostra de uma forma essencial, porque
esta exposição é à volta da fgura feminina
em Versalhes, das rainhas e das mulheres
que viveram aqui», acrescentou a artista,
para salientar que se trata de «uma peça com
um simbolismo fortíssimo sobre a mulher,
que integraria perfeitamente o espaço e, por-
tanto, não tê-la aqui é uma grande lacuna».
A escultura já esteve patente em 13 ex-
posições, sendo esta a segunda vez que é
mostrada em Paris, e é a peça mais vezes
apresentada publicamente até hoje.
Em Versalhes, Portugal estava, todavia,
muito bem representado. Mariza, claro está!,
incontornável. A fadista foi acompanhada
dos músicos José Manuel Neto (guitarra por-
tuguesa), Diogo Clemente (guitarra clássica),
Vicky Fernandes (bateria) e José Marino de
Freitas (viola baixo).
Inevitável, ainda, o chefe José Avillez, que
serviu pastel de bacalhau revisitado e sua vi-
chyssoise, robalo de Sesimbra assado, amên-
doas do Algarve, girolles e puré de batata com
limão conft. A sobremesa foi pastel de nata
em mil-folhas com gelado de canela.
Porquê este menu? Porque Avillez quis um
prato português «com alguma ligação à co-
zinha francesa e a Versalhes. A cozinha não
viaja e cada prato vive o lugar onde é confec-
cionado e servido».
A vichyssoise foi feita com caldo da coze-
dura do bacalhau e «o pastel fca diferente
em quenelle com tomate e azeitonas», ex-
plicou o chefe português, adiantando que o
robalo com puré e limão foi muito bem re-
cebido, tanto mais que este citrino é muito
presente na nossa cozinha. Foram, pois, de-
senvolvidas reinterpretações da cozinha na-
cional e da própria cozinha de Avillez.
A noiva proibida de ir
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O chefe declarou ter sentido um grande
orgulho e uma «imensa honra» por estar ao
lado de Joana Vasconcelos e Mariza «num
jantar que reuniu quase 500 pessoas, mas
que mais parecia uma família unida no reco-
nhecimento da cultura portuguesa nas mais
diversas vertentes», em torno de bacalhau e
pastéis de nata, com ementa inspirada nas
peças de Joana Vasconcelos.
E em tempo de homenagens e para que
fque claro o papel de Joana Vasconcelos nas
artes portuguesas, a LeYa publicou, em co-
-edição com a editora francesa Flammarion,
o catálogo da exposição Versalhes, da artista
plástica.
Os textos são de Catherine Pégard, Jean-
François Chougnet, valter hugo mãe e tem
ainda uma entrevista conduzida por Rebecca
Lamerche-Vadel. O catálogo reproduz ainda
um conjunto de peças em grande escala es-
pecialmente concebidas para esta exposição
e que se integram no cenário de Versalhes e
dos seus jardins. O design gráfico é da res-
ponsabilidade do atelier Henrique Cayatte.
O catálogo tem os textos em português e
inglês e estará disponível nas livrarias por 44
euros. M.M.
à festa
O atelier de Joana Vasconcelos é na mar-
gem ribeirinha do Tejo. Mas foi dali que
partiu o andor que homenageia os pesca-
dores do Douro e que presenteou as fes-
tas de S. Pedro da Afurada, em Vila Nova
de Gaia.
Eduardo Matos é o presidente da Junta
de Freguesia. Não é pescador, mas pre-
side à Associação de Pescadores da
Afurada e seu pai andava na faina. O
Manto Dourado de Joana Vasconcelos
é, para ele, «muito especial». E explica:
«Sinceramente emocionou-nos muito
porque estamos a falar de uma das me-
lhores artistas da actualidade e, para nós,
é uma enorme satisfação o facto de ela
ficar ligada afectivamente a esta comu-
nidade, que é uma comunidade piscató-
ria também muito especial». E, citando a
primeira mulher presente em Versalhes,
adianta: «Não somos melhores nem pio-
res, mas, como ela reconheceu, somos
diferentes».
A ideia surge de um projecto, denomi-
nado Festival do Norte, elaborado por
intermédio do Turismo do Porto e do
Norte Portugal, com a colaboração do
município de Gaia. A artista correspon-
deu, por lhe ter parecido «extraordiná-
rio» que um grupo de pescadores pedisse
a um artista plástico para intervir num
andor. E acentuou: «Pensa-se que os ar-
tistas não servem para nada e surge um
exemplo em que podem servir a comuni-
dade». Assim, como um pedido especial,
foi ainda atendido enquanto tal.
Joana Meneses Fernandes, coordena-
dora do Festival do Norte, explicou que
o projecto nasceu no âmbito da 1ª edição
do certame, tendo a artista produzido
o Manto ou Rede em colaboração com
os pescadores da Afurada. «Trata-se de
uma intervenção no andor de S. Pedro,
peça icónica da procissão de S. Pedro, na
Afurada».
Para a responsável, o Festival do norte
pretende fazer da criatividade o motor da
competitividade e da coesão do território
da Região Norte, através da valorização
sustentada do seu património imaterial.
«Este extraordinário recurso, que re-
presenta a memória e a identidade mais
profunda da comunidade, constitui a ma-
téria-prima sobre a qual se deseja intervir
e, a partir da qual, se pretende produzir
novos bens culturais e criativos com rele-
vante valor social, cultural e económico».
O programa do evento promove siner-
gias criativas inter-municipais, respeita
e dá corpo a um modelo de trabalho po-
licêntrico, contribuindo para o apro-
fundamento de parcerias entre actores
de diferentes campos e coordenando a
produção de conhecimento do patrimó-
nio cultural imaterial com o domínio da
criação contemporânea de artes e espec-
táculos, um processo que envolve as co-
munidades de cidades da Região Norte,
fazendo-as participar activamente nesta
construção colectiva, partilhando a res-
ponsabilidade pelos seus resultados e os
seus benefícios. M.M.
Do Tejo ao Douro
112
Nas freguesias do concelho beirão de São Pedro do Sul, os sons do
mundo rural servem de matéria-prima para as diversas iniciativas da
Associação Cultural Binaural, fundada em 2004.
«Este projecto culminou um sonho de muitos anos. Nasci em
Nodar, uma aldeia aqui do concelho. Estive em Lisboa a estudar e
trabalhar, mas voltava sempre à origem e apercebi-me das transfor-
mações que esta zona sofreu», explica Luís Costa.
O coordenador da Binaural acrescenta que perante estas mudan-
ças no território percebeu «que tinha de ter um papel mais activo
e não era possível voltar só nas férias. Queria ver esta transição de
gerações, de modos de vida que desaparecem, novas actividades que
surgem. Quis ser um elemento activo nesta transição». Há muitos
anos ligado à cultura, sobretudo na área do som, Luís quis aplicar
todo um saber-fazer ao território onde decidiu viver. «O som in-
corpora de forma intensa os lugares. Quem trabalha com os sons
da paisagem acaba por sentir o território de uma forma muito pro-
funda», comenta.
A Binaural que inicialmente se centrou nos sons da freguesia da
Gralheira, inseridos nas iniciativas Aldeias Sonoras e Residências
Artísticas, acabou por alargar horizontes e dedica-se agora a diver-
sas expressões, como o artesanato e gastronomia. Isto na iniciativa
Aldeias de Magaio.
TEXTO SARA PELICANO FOTOS BINAURAL
Andam artistas na serra
As serras do concelho de São Pedro do Sul são anualmente tomadas por um corrupio
de artistas de diferentes nacionalidades. Inspiram-se no território para as suas criações.
Interagem com as populações. À iniciativa Residências Artísticas, a associação Binaural junta
as Aldeias Sonoras. Crianças recolhem sons intemporais e artesãos tornam-se estrategas.
A BINAURAL DESENVOLVE AS SUAS ACTIVIDADES NAS SERRAS DE SÃO PEDRO DO SUL
113
MAPEAR OS SONS DO TERRITÓRIO
Em parceria com a comunidade educativa local nasceu a iniciativa
Aldeias Sonoras. Consiste no mapeamento dos sons efectuado pelas
crianças e jovens. A coordenação no terreno fca a cargo de Luís Costa
e Manuela Barile.
A Internet serve de plataforma para arquivo deste mapa dos sons
(www.aldeias-sonoras.org/ ). «Dividimos o mapa em sons da paisa-
gem, da fauna, antropológicos, a voz, mas também do trabalho, das
alfaias, dos carros de bois. Fala-se no silêncio do mundo rural, mas
o que na maior parte dos casos ocorre são os sons da natureza», co-
menta Luís.
Os jovens estudantes são ainda envolvidos numa «aprendizagem
teórico-prática, com o objectivo de dotá-los de conhecimentos, de
tecnologias de registo e edição de sons, utilização de blogues para a
organização e distribuição de informação, associando cada etapa do
projecto a diversas disciplinas, como arte, história, cidadania, geogra-
fa, tecnologias de informação».
VIVER NAS RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS
Os artistas, segundo Luís Costa, procuram hoje realidades fora das
grandes cidades. Desta forma, a Binaural, recebeu em 2006 os pri-
meiros criadores nas Residências Artísticas, sedeadas numa casa rural
do século XIX, na aldeia de Nodar, a 150 quilómetros do Porto e 350
quilómetros de Lisboa. «Os criadores, perto de 15 a cada ano e de di-
ferentes países, desenvolvem, entre Março e Novembro, projectos
ligados ao território, paisagem e antropologia. Recorrem à «arte so-
nora, música improvisada, composição contemporânea, vídeo, dança,
fotografa, pintura, escultura, instalações».
«O que fazemos é um género de turismo cultural de longa estadia»,
acrescenta Luís Costa.
Em 2011, andaram pelas serras Patrícia Azevedo (Brasil) e Clare
Charnley (Inglaterra), Rogério Nuno Costa (Portugal), Josef Sprinzak
(Israel), Carmina Escobar (México), Toine Horvers (Holanda) e
Myriam Van Imschot (Bélgica).
Patrícia Azevedo e Clare Charnley «interagiram com as pessoas da
zona de Manhouce. Gravaram os sons do milho a cair numa jarra,
da água, dos trabalhos no campo». Os intervenientes foram, depois,
confrontados com esses sons familiares.
Por seu turno, o israelita Josef Sprinzak levou a sua voz à casa de
cada habitante da serra, assumindo um papel entre o músico-poeta/
contador de histórias e o «estranho» que executa peças vocais e ac-
ções rituais baseadas em línguas estrangeiras.
Todas as intervenções artísticas são apresentadas no festival Vozes
de Magaio que acontece em três momentos distribuídos ao longo do
ano.
Até 30 de Setembro de 2012, decorrem as inscrições para as
Residências Artísticas 2013, subordinadas ao tema «Som do Sagrado
nas Comunidades Rurais».
CRIAR ESTRATÉGIAS PARA O TERRITÓRIO
«Magaio corresponde ao antigo nome do monte de São Macário.
O local integra o imaginário colectivo de todas as aldeias em seu
redor. Isto, dada a romaria anual e festa no último domingo de Julho.
Magaio era, também, uma divindade naturalista celta que signifca
'aquele que nutre, aquele que cria'. Uma óptima e inspiradora metá-
fora para uma iniciativa que pretende ajudar a promover a sustenta-
bilidade das aldeias serranas», diz Luís Costa.
O projecto Aldeias de Magaio une todas as associações culturais das
aldeias serranas. Juntas fomentam o artesanato, a gastronomia a cul-
tura. Os habitantes locais trabalham, assim, em conjunto «com maior
massa crítica e sentido estratégico, e não de forma casuística, aprovei-
tando para tal as valências humanas das diferentes aldeias, tanto os
conhecedores do território e das tradições, como uma nova geração
de habitantes com competências variadas e complementares».
Conta Luís Costa que «as Aldeias de Magaio são fundamentalmente
um projecto de desenvolvimento e preservação. Há elementos cultu-
rais e patrimoniais trabalhados de forma activa, como o artesanato,
a cultura, a tradição oral, a gastronomia. A nossa percepção é que
pouca gente conhecia com detalhe a serra».
OS ARTISTAS REINTERPRETAM A PAISAGEM E A CULTURA LOCAL
TODAS AS INICIATIVAS DA BINAURAL PROCURAM A INTERACÇÃO COM AS POPULAÇÕES
ANUALMENTE, 15 ARTISTAS PROCURAM O CONCELHO BEIRÃO
114
«Este é o álbum da maturidade.» É desta forma que o músico
Carlos Guerreiro, um dos fundadores dos Gaiteiros de Lisboa, co-
meça por defnir Avis Rara, o mais recente álbum do grupo, traba-
lho com dez faixas lançado a 4 de Junho.
«Gravámos este trabalho em 2009. Mas só agora foi possí-
vel editá-lo», conta Carlos Guerreiro. O problema «é sempre
o mesmo», desabafa: falta de editora. «Não somos os únicos.
Qualquer artista que não tenha o mínimo de vendas garantido
tem este problema. É um pouco como o país, não interessa o tra-
balho mas as bitolas em termos comerciais», lamenta.
Mas isso «já lá vai», porque «felizmente» apareceu a D’Orfeu,
Associação Cultural, e que através da d’Eurice, a sua editora inde-
pendente, «nos proporcionou uma máquina promocional numa
espécie de edição de autor partilhada».
Para já foram produzidas mil cópias do álbum, com distribuição
nacional e internacional, porque «é preciso recomeçar com cau-
tela», diz Carlos Guerreiro.
Avis Rara «mantém a essência do que somos», assegura, frisando
que o novo disco «integra letras de poemas de autores portugue-
ses, como Alexandre O’Neil, com interpretações novas de temas
TEXTO ANA CLARA FOTOS ANDRÉ BRANDÃO (D’ORFEU), MIGUEL SILVA
Avis Rara já canta
Após um hiato de seis anos fora do estúdio, os Gaiteiros de Lisboa regressam com
um novo trabalho. Avis Rara é, nas palavras do músico Carlos Guerreiro, o álbum da
«maturidade». O elemento da banda lisboeta recorda-nos os 21 anos de um grupo
que «continua mais fel do que nunca à essência da música tradicional portuguesa».
Gaiteiros de Lisboa
115
tradicionais e outras recolhas etnográfcas».
Em Avis Rara há lugar também «ao cancio-
neiro popular português, com temas galegos
e originais compostos por nós», acrescenta.
O nome Avis Rara tem «uma história engra-
çada» e «uma razão de ser». «Inicialmente
tí nhamos escol hi do a desi gnação Voos
Domésticos, mas os GNR já tinham um tra-
balho com esse nome. E queríamos um nome
que definisse o álbum como um todo, com
toda a sua diversidade geográfica, a reinter-
pretação de repertórios locais, e que fosse
também a reinvenção das melodias e instru-
mentos. E é um pouco isso, uma ave rara, que
nos faz ir de norte a sul, acompanhando esse
cruzamento de culturas.»
Carlos Guerreiro destaca a música Avejão, o
single de apresentação do álbum. «A música é
da minha autoria e trata-se de um hino às raí-
zes dos Gaiteiros de Lisboa», sublinha, adian-
tando que conta com a participação de Sérgio
Godinho e do autor e apresentador do pro-
grama Viva a Música, da Antena 1, Armando
Carvalhêda. Avejão é «uma metáfora ornitoló-
gica sobre o poder, as suas hierarquias, e em
todas as suas frentes». «É uma música com
uma carga social muito forte e não foi esco-
lhida à toa». «Vivemos tempos conturbados e
quem conhece os Gaiteiros de Lisboa, sabe que
antes de trabalharmos a música tradicional, ti-
vemos um percurso de intervenção», recorda,
vincando que este Avejão é «um pouco a marca
dos tempos que o país atravessa».
No mais recente trabalho dos Gaiteiros de
Lisboa encontramos, ainda, alguns temas
em colaboração com outros intérpretes. Fez
Sábado Quinta-Feira, conta com os Adiafa;
Pragas, com o contributo de Zeca Medeiros e
Os Palácios da Rainha, com Ana Bacalhau.
IDENTIDADE MANTÉM-SE
Sobre as duas décadas de existência do grupo
(criado em 1991), Carlos Guerreiro consi-
dera que «a identidade mantém-se». «Quando começámos esta
aventura havia um elemento incontornável que era a gaita-de-
-foles e foi à volta deste instrumento que se construiu o grupo.
Quisemos construir um som que fosse tradicional mas que fu-
gisse a outros grupos já existentes e acho que conseguimos cons-
truir estruturas harmónicas polifónicas que casassem bem com a
gaita-de-foles», explica.
Por tudo isso, o músico faz um balanço «positivo» destes 21
anos e reconhece que «são grupos como este que têm impedido
que a música tradicional portuguesa morra».
Os Gaiteiros de Lisboa estão agora na fase de divulgação do
álbum, com vários concertos agendados. Os primeiros decor-
rem no âmbito do Festim, Festival Intermunicipal de Músicas do
Mundo, tendo já actuado em Estarreja, Ovar, Sever do Vouga e
Albergaria-a-Velha. O périplo termina a 26 de Julho em Águeda.
Segue-se a rentrée, como lhe chama o próprio Carlos Guerreiro,
no início de Setembro, na Festa do Avante, na Quinta da Atalaia,
Seixal.
«GRUPOS COMO ESTE IMPEDEM
A MORTE DA MÚSICA TRADICIONAL
PORTUGUESA»
E VÃO SEIS ÁLBUNS
Fiéis à música de cariz tradicional portuguesa, mas com assinatu-
ra muito pessoal, os Gaiteiros de Lisboa actuaram pela primeira
vez ao vivo em 1994. Um ano depois lançaram o primeiro disco,
Invasões Bárbaras. Seguiu-se Bocas do Inferno (1997), Dança
Chamas (2000) e Macaréu (2002). O quinto álbum, intitulado
Sátiro, chegou ao mercado discográfco em 2006, tendo sido
reeditado novamente em 2009.
O grupo criou um registo musical com uma sonoridade marcada
pela utilização de instrumentos tão diversos como a sanfona, a
fauta, a trompa, a ponteira, a gaita-de-foles, os tambores, a
kissange e o balafon africano. No currículo, os Gaiteiros de Lisboa
contam dezenas de espectáculos em Portugal e no estrangeiro. O
grupo integra Carlos Guerreiro, José Manuel David, José
Salgueiro, Pedro Calado, Paulo Marinho, Pedro Casaes e Rui Vaz.
«O PROBLEMA É SEMPRE O MESMO: FALTA DE EDITORA»
116
JOÃO AFONSO
A NOSSA MÚSICA
(
JBJ&Viceversa
nova editora
África
três antologias
José Serrão, que há anos foi director de marketing da antiga CBS em
Portugal, e, mais tarde, também no nosso país, director-geral da Som
Livre e da I-Play, protagoniza uma outra aventura musical. Agora lidera
uma nova companhia discográfca, a JBJ & Viceversa, que, além
de apostar em artistas portugueses (Katia Guerreiro, Claud, Salvador
Taborda, Roberto Leal) e ainda na venezuelana Daniela Galbin (grande
trabalho o seu primeiro Back to simple, recém-editado), tem o seu grande
trunfo editorial centrado na música brasileira com a representação
da Biscoito Fino, uma das mais importantes discográfcas do país
verde-amarelo, que tem no seu catálogo nomes como Maria Bethânia,
Simone, Zélia
Duncan, Rodrigo
Maranhão, Alcione
(acaba de sair o novo
Duas faces mais um
excelente disco
em que participam
Lenine, Bethânia,
Martinho e Djavan),
Zeca Baleiro, Chico
Buarque, Djavan
e Elba Ramalho, entre
outros, além da dupla
que lidera a compa-
nhia Olívia & Francis
Hime.
Desde que a world music
começou a ter a divulgação
que realmente merece,
começámos saber o que
de melhor se vai fazendo um
pouco por esse Mundo fora
em termos de música
popular e tradicional.
Artistas há que chegam já
a ombrear, em termos
de vendas e popularidade,
com grandes nomes da cena
pop/rock. Entre estes estão
Youssou´n´Dour, a dupla
Amadou & Mariam, os
irlandeses The Chieftains, as malogradas Cesária Évora e Célia Cruz,
as estrelas cubanas do Buena Vista Social Club, etc.
Entre nós, acabam de surgir três antologias, editadas pela Tumbao/
Lusafrica, divididas, respectivamente, por vozes, guitarras e ritmos e
onde podemos encontrar sons e vozes famosas de África como Bonga,
Boubacar Traoré, Lura, Mário Lúcio, Cesária Évora, Teoflo Chantré,
Zeca di Nha Reinalda, Ferro Gaita, Tcheka, Ildo Lobo, Sia Tolno, Tito
Paris e outros.
Nestes três discos pode mais profundamente aquilatar-se a incrível
vitalidade da moderna música africana que, de dia para dia, se vai
renovando, evoluindo e tornando cada vez mais uma verdadeira
linguagem universal. Uma fantástica viagem musical que nos
transporta a paragens tão diversas como Cabo Verde, África do Sul,
Chade, Angola, Ilha da Reunião, Gabão...
Engane-se quem, pelo título, pensa que os Iron Maiden poderão em
breve actuar em Portugal pois, por enquanto, quem os viu actuar no
meeting motoqueiro de Faro em 14 de Julho de 2011, pode considerar-
-se privilegiado. Nos próximos tempos é muito pouco provável que a
banda de Bruce Dickinson estacione por terras portuguesas salvo se,
como é habitual, algum dos seus membros resolver fazer por cá umas
feriazitas algarvias...
Porém, quem quiser ver e ouvir a banda ao vivo pode fazê-lo já no
duplo CD ou no DVD En vivo, que regista, através de nada menos de 22
câmaras HD e uma volante, um show fabuloso, gravado a 10 de Abril
de 2011, num esgotadíssimo (50.000 pessoas) Estádio Nacional de
Santiago do Chile onde a banda actuou com extraordinário sucesso.
Duas horas de vitalidade, força rítmica, agressividade sonora e
versatilidade instrumental que constituem um momento único
na vida desta banda lendária do movimento heavy metal.
No DVD podemos ainda encontrar um documentário de quase uma
hora e meia onde se fca a saber o que é necessário para pôr em marcha
uma mega-digressão mundial, bem como inúmeras imagens inéditas
de bastidores que farão as delícias dos admiradores do metal, dos
Maiden... e não só!
Duas horas
de vitalidade
117
Ringo Starr
O patinho feio dos Beatles
prossegue a sua carreira imune
a modas e ditames. Agora lança
mais um álbum a solo, em que
mostra especialmente as suas fa-
cetas de compositor e produtor,
assinando desta vez um grande
disco pop/rock, rodeado por um
naipe de músicos de luxo tais
como Joe Walsh, Charlie Haden,
Edgar Winter e Dave Stewart,
entre outros. Realce para o ins-
pirado «Rock island line» e para
a recordação ao saudoso John
Lennon. Realmente dois grandes
momentos de “Ringo 2012”
CD Universal
Leonard Cohen
Ao mesmo tempo que se anuncia
nova presença entre nós do
celebrado autor de So long
Marianne, regressa com novo disco,
o velho diseur e poeta canadiano
Leonard Cohen, que nos últimos
anos busca a perfeição e a espiritua-
lidade suprema. Chama-se Old ideas
e aborda, como é habitual na sua
poesia, a morte, a sexualidade, o
amor, os relacionamentos
sentimentais, o sofrimento e a
própria existência do ser humano.
Em grande forma vocal e poética,
Cohen, o veterano arquitecto da
palavra, está mais uma vez na
«crista da onda», que o mesmo é
dizer nos lugares cimeiros dos tops
mundiais, tanto mais que a sua
imensa legião de fãs se mantém
frme e fel à sua obra.
CD Columbia/Sony Music
Montserrat Figueras
Nasceu em Barcelona e foi uma das
mais fantásticas intérpretes de
música antiga. A sua voz, na hora
de se projectar e articular as frases,
transformava-se como que por
artes mágicas em autênticas cordas
de um instrumento! Era de uma
beleza rara, serena e surpreendente
e dotada de uma elegância sensual
e aristocrática; transbordava
emoção, paixão e devoção em cada
interpretação. Actuou um pouco
por todo o Mundo, especialmente
à frente do grupo Hesperion XX,
que fundou com seu marido em
1974 na Catalunha e cujo objectivo
era revitalizar a música original
hispânica e europeia anterior a
1800.
Um cancro levou-a, cedo de mais,
dos cenários e do nosso convívio.
Chamava-se Monserrat Figueras e
era casada com o grande intérprete
de viola da gamba, director
musical, produtor e arranjador
Jordi Saval, um dos principais
responsáveis pelo mesmo
movimento de recuperação da
música antiga, encetado por
alturas do início dos anos 70 na
vizinha Espanha.
A sua voz, de características únicas,
era inesquecível e estão ainda bem
vivas na nossa memória mágicas
actuações em Portugal, não só em
diversos festivais de música antiga,
mas também na capela barroca da
Universidade de Coimbra e em
inúmeras recitas na Fundação
Calouste Gulbenkian!
Em jeito de homenagem , Jordi
Saval preparou um best of de
Montserrat Figueras, La voix de
l´emotion, agora editado pela Alia
Vox/Megamúsica, que reúne em
dois discos (incluindo um libretto
com 274 páginas) 36 canções,
gravadas entre 1978 e 2009 ,
consideradas o legado mais
signifcativo de uma mão-cheia de
discos que a sua voz abrilhantou
ao longo dos últimos 20 anos
abarcando musicalmente as
épocas medieval, renascentista e
barroca.
2 CD Aliavox-Megamusica
Mariza
A par de Amália Rodrigues e de
Carlos do Carmo, Mariza tem sido
sem dúvida a outra grande
embaixadora do Fado no
estrangeiro, não só porque passa
lá a maior parte do ano em
espectáculos, mas também porque
tem registado vendas assinaláveis
na edição dos seus trabalhos. E
isto além de, muitas vezes, os seus
discos estarem nomeados para os
prémios anuais na categoria de
world music. A sua discografa de
estúdio, neste caso concreto
composta somente por cinco
discos (exceptuam-se aqui as
edições em DVD resultantes de
shows ao vivo e que completam a
sua discografa geral), está agora
disponível entre nós sob a forma
de uma caixa, que serve simulta-
neamente para comemorar dez
anos da bem sucedida carreira
musical de uma das mais
carismáticas intérpretes femini-
nas de fado da actualidade.
Caixa 5 CD/World Connection/ EMI
Olívia/Francis Hime
Casados há mais de 40 anos e com
duas carreiras distintas e consoli-
dadas - ela como cantora, ele como
pianista -, Olívia e Francis Hime
levaram fnalmente avante a ideia
antiga de gravarem juntos.
Neste trabalho, Almamúsica,
dividido em seis diferentes blocos e
que pode defnir-se como uma
viagem musical a partir de canções
que ao longo dos anos os marca-
ram, brilham os dois, conseguindo
um produto fnal que emociona
pela sensibilidade e harmonia, pela
grande riqueza harmónica, e que é
uma verdadeira viagem musical
pelo tempo, quer para eles, quer
para os ouvintes.
Uma obra que fca para a história
da MPB e que pode ser devidamen-
te apreciada ao vivo no concerto
que a dupla deu em Lisboa no
Cinema S. Jorge em Janeiro último.
Francis, que emergiu como músico
na geração dos anos 20 no Brasil,
tornou-se mesmo um dos mais
brilhantes artistas contemporâne-
os de tal modo que a história da
MPB não poderia ser escrita sem o
seu nome. Versátil, verdadeiro
arquitecto dos sons, não restringe
o seu trabalho ao piano e antes
gosta de explanar outras ideias
sendo vulgar incluir nas suas
composições também instrumen-
tos tradicionais brasileiros.
Por seu lado, Olívia, que sempre
esteve relutante em levar adiante a
sua carreira de cantora por temer
ser somente conhecida como «a
mulher de Francis», abraçou-a com
afnco e temeridade e foi,
gradualmente, conquistando o seu
lugar sendo uma das mais
reputadas intérpretes femininas da
MPB, não se mantendo, no
entanto, fel a um só género
musical, antes diversifcando. É
célebre o seu trabalho A música em
Pessoa, em que arriscou musicar,
brilhantemente, poemas do grande
poeta português Fernando Pessoa.
CD Biscoito Fino/JBJ
Smashing Pumpkins
Ao oitavo album de originais os
americanos Smashing Pumpkins
atingem o apogeu.
O novo disco contem 13 musicas
seleccionadas de uma totalidade de
44 temas disponibilizados
gratuitamente na internet desde
2009.
Produzido por Billy Corgan e Bjorn
Thorsrud, Oceania prepara-se para
os catapultar para a celebridade
face a sua grande qualidade.
CD EMI
118
Norah Jones
De disco para disco Norah Jones
surpreende, não desistindo de
cantar tudo que lhe apetece,
arrojando e desflando o seu
imenso talento. É assim em Little
broken hearts, um disco mais
denso, mais ritmado, mais indie e
um pouco mais longe do jazz, que
tem sido a sua cama musical nos
últimos tempos. Mesmo assim
brilhando intensamente como
uma estrela com luz própria,
continua, no entanto, intimista e
sedutora como sempre.
CD Blue Note/EMI
Maria Rita
Propomos aos leitores um
exercício: fechem os olhos, ouçam
o novo disco de música brasileira
Elo e respondam à pergunta sobre
quem está a cantar. Muitos dirão,
com certa segurança, que é Elis
Regina, mas a verdade é que não é
a desaparecida diva da MPB.
Trata-se, afnal de contas, de sua
flha Maria Rita que tem um
timbre, uma vocalidade e um
modo de cantar igual ao da sua
falecida mãe. Ao mesmo tempo,
isto equivale a dizer que estamos
em presença de uma voz excepcio-
nal e de uma grande intérprete!
Com efeito, em poucos anos
apenas, Maria Rita já conseguiu
lugar cativo na restrita lista das
melhores vozes brasileiras da
actualidade. Elo é a prova disso e
também a confrmação de que a
MPB contemporânea, está bem e
se recomenda. Ouçam-se, por
exemplo, Conceição dos coqueiros, a
fantástica versão de Menino do Rio
e Coração a batucar e comprove-se
a excelência e alta qualidade desta
voz e deste trabalho.
CD Warner Music
Paul McCartney
McCartney foi, sem dúvida, um dos
grandes compositores pop/rock do
século passado e um grande
intérprete. Agora, apesar da idade
- acabou de completar 70 anos - , o
seu novo disco Kisses on the bottom
traz-nos o antigo partner de John
Lennon a cantar ainda na plena
posse das suas faculdades vocais e a
surpreender tudo e todos, editando
desta vez um disco de jazz com 12
clássicos e dois inéditos, depois de,
há anos, já se ter aventurado pelos
domínios da música clássica.
Estamos em presença de um grande
disco, bem conseguido, instrumen-
talmente perfeito, a que não é
certamente alheia a presença de
dois amigos de Paul, Eric Clapton e
Stevie Wonder, bem como a da
banda residente - a banda de Diana
Krall - , com a própria a pontifcar
no piano! Absolutamente
imperdível!
CD Universal
Roberto Alagna
Com o desaparecimento do
grande Luciano Pavarotti, logo os
entendidos começaram a
interrogar-se sobre quem poderia
substitui-lo no seio dos Três
tenores, projecto fundado pelo
próprio tenor juntamente com
José Carreras e Plácido Domingo.
Até hoje, a discussão continua,
sem haver um consenso, tanto
mais que aquele que era apontado
como herdeiro do tenor italiano,
Salvatore Licitra (que já o havia
substituído com grande sucesso
aquando de vários impedimentos
nomeadamente no Met de Nova
Iorque) desapareceu recentemen-
te vítima de um acidente de moto!
Quanto a nós, quem efectivamen-
te merece o lugar é Roberto
Alagna, tenor argentino que tem
deslumbrado plateias em todo o
Mundo!
Com um já invejável curriculum,
quer em quantidade de discos
gravados quer em concertos,
Roberto é um notável intérprete
do bel-canto e um dos mais
prestigiados da actualidade.
A atestar este facto mais um
registo discográfco com a sua
assinatura: Pasion em que
interpreta 15 das mais populares
canções sul-americanas, como
Piensa en mi, La cumparsita, Dos
cruces, El dia que mi quieras, La
llorona, Cielito lindo, entre outras.
São 15 temas imortais, servidos
por uma voz privilegiada que não
conhece limites, qualquer que seja
a área em que se movimente.
CD/DGG Universal
Martinho da Vila
Martinho da Vila continua a sua
saga de levar o ritmo, o colorido e o
balanço da música brasileira do
povão aos quatro cantos do Globo.
Agora, rodeado pela família (Maira,
Tunico, Mart´nalia, Preto e Jújú),
lançou um novo disco, Lambendo a
cria onde explana a seu bel-prazer,
samba, baladas, pagode e baião
divididos por 15 canções, cuja
maioria é de sua autoria ou de
alguém da família e… arrasa!
Está em grande forma vocal e
demonstra que quem sabe nunca
esquece e quem é rei no samba,
será majestade toda a vida!
CD/DVD Vidisco
Maria Bethânia
Com a publicação de Oásis, Maria
Bethânia, nome maior da
constelação musical brasileira
atinge a marca de 50 discos
gravados, um número assinalável
para quem contabiliza 47 anos de
carreira!
No novo álbum, esta nativa da
Baía, que grava pela primeira vez
um texto seu em disco, demonstra
de novo todo o seu profssionalis-
Eis os discos seleccionados de entre a grande
quantidade de edições registadas ultimamente e que
acabam por ser, em simultâneo, as nossas escolhas.
JOÃO AFONSO
AS NOSSAS ESCOLHAS
(
119
mo na escolha do reportório
musical, de textos e dos autores: de
Chico Buarque a Lenine, passando
por Djavan, Roque Ferreira, Jotta
Veloso e Fernando Pessoa, entre
outros , o seu «olho clínico» é
realmente impar pois todos os
temas tem a ver consigo, com a sua
sensibilidade, com o seu gosto
pessoal. Cantando cada vez
melhor, Bethânia assina em Oásis
mais uma obra-prima na sua já
extensa discografa.
CD JBJ&Viceversa
The Chieftains
Já não há adjectivos que cheguem
para catalogar os irlandeses The
Chieftains, que costumo classifcar
como a maior banda da Irlanda!
Termos como inspiradores,
brilhantes, emocionantes ou
esplendorosos são pouco ainda
para classifcar a música que estes
músicos virtuosos vêm fazendo
desde há quase meio século.
Tocando, cantam a alma de um
povo, alegram todos ao seu redor e
mostram como a música que
fazem pode ser um lenitivo para
muitos males, problemas, muitos
amores e desamores.
No seu novo disco Voice of ages,
onde surge de novo como
convidado o seu grande amigo e
gaiteiro galego Carlos Nuñez,
apesar de nos presentearem com
menos instrumentais do que é
hábito, pois a comitiva pop/folk que
os acompanha nesta aventura (Bon
Iver, Imelda May, Punch Bros, e
outros) encarregou-se de vocalizar
muitas canções, os Chieftains
mostram que ainda estão aí para as
curvas, durante muitos mais anos
ou não fossem eles como o seu
familiar uísque irlandês que
«quanto mais velho melhor!
CD Hear Music/Universal
Miguel Araújo
Se outra virtude não tivesse, só o
facto de compor e cantar em
português faria de Miguel Araújo
um caso à parte na música que se
faz em Portugal.
Ele vem juntar-se a outros
grandes letristas portugueses
como Sérgio Godinho, Carlos Tê
ou Jorge Palma que, habitualmen-
te, brincando com as palavras,
dizem grandes e duras verdades.
Com efeito, no seu primeiro disco
a solo, o membro dos Azeitonas e
da dupla Mendes e João Só,
revela-se, além de um excelente
intérprete e instrumentista, um
grande escritor de melodias e
letras. Quem não ouviu ainda, nas
redes sociais ou nas rádios a
canção Os maridos das outras?
Poucos, certamente, tal a
dimensão que esta criação de
Miguel já alcançou e o país inteiro
trauteia...
São 11 melodias orelhudas,
servidas por letras de cariz
humorístico/social e integram
Cinco dias e meio (assim se intitula
o CD) que na sua versão especial
compreende ainda um DVD
contendo 11 videoclips, o tema
principal do disco, bem como
comentários tema a tema de todas
as canções do álbum. Miguel
Araújo, um nome da música
portuguesa a fxar já em termos de
futuro!
CD/DVD EMI
Paula Fernandes
Além de ter participado no mais
recente disco do colombiano
Juanes, a mineira Paula Fernandes,
nova menina bonita da música
brasileira, de quem demos notícia
há números atrás, está de volta às
edições com Meus encantos, mais
um belíssimo disco onde exibe
todo o seu inegável talento de
intérprete e instrumentista, além
de confrmar a sua veia de
compositora, assinando todos os
temas do disco, incluindo duas
parcerias com Zézè di Camargo e
outra com Zé Ramalho com quem
faz um dueto em Harmonia do
amor.
Uma novel artista que deixou já de
ser revelação para passar a ter o
estatuto de mais uma grande
certeza da música brasileira
contemporânea.
CD Universal
Sigor Rós
Na terra de Bjork emergiu, há
cinco discos atrás, um projecto que
gradualmente está a conquistar o
mundo da música internacional.
Trata-se dos Sigor Rós que, com a
publicação de Valtari acabam com
um hiato de quatro anos em
matéria de originais.
Com o novo disco estes islandeses
continuam a quebrar barreiras e a
desafar convenções e preconcei-
tos, arrojando cada vez mais em
termos de sonoridade muito mais
próxima desta vez do ambiental do
que da pop, onde se movimenta-
ram muitas vezes.
Um disco infuenciado, e muito, ao
jeito do seu vocalista Jon Birgisson
e que tem, por isso mesmo, muito
de pessoal e intimista e que, apesar
de tudo, emociona e seduz mesmo
aqueles que acham o grupo longe
das propostas sonoras evidencia-
das nos primeiros discos dos Rós.
CD EMI
Nancy Vieira
Com o desaparecimento da diva
dos pés descalços muita gente
começou a conjecturar quem
ocuparia o trono deixado vago por
Cesária Évora e as opiniões
dividem-se. Deixo aqui mais uma
proposta para a discussão: quanto
a mim, quem mais perto de
Cesária, da sua essência, da
dolência da sua voz, do reportório
habitual, da maneira de cantar é
sem dúvida Nancy Vieira de quem
acaba de se publicar No amá, um
disco todo ele emoção à for da
pele e onde coabitam mornas e
coladeras, valsa com Brasil, B-Leza
com Teóflo Chantre, Eugénio
Tavares com Amândio Cabral e
Mário Lúcio, melancolia com
saudade...
Um disco onde a sonoridade
tradicional da música de Cabo
Verde serve na perfeição de leito
conjugal para as canções superior-
mente interpretadas por Nancy .
CD Harmonia/Lusafrica
Juanes
Celebrado intérprete de mega- érprete de mega- rprete de mega-
-sucessos como Camisa negra, A
Dios le pido ou Todo mi vida eres tu,
o colombiano Juanes lança agora
um disco intitulado MTV
unplugged que, como o próprio
título revela, resulta de um
espectáculo acústico registado nos
palcos da MTV, com a direcção
musical do autor do célebre
Borbujas de amor, Juan Luís Guerra,
e que teve também a participação
da brasileira Paula Fernandes e do
espanhol Joaquin Sabina em dueto
com Juanes em Hoy me voy e Azul
sabina, respectivamente.
Um duplo disco (CD/DVD)
contendo três inéditos, novos
arranjos e um acompanhamento
de luxo a cargo de uma orquestra
de 16 músicos que proporcionou
uma sonoridade quase sinfónica e
que nos apresenta Juanes com
todas as suas capacidades
interpretativas em alta, intimista e
arrebatador.
CD Universal
120
Há longo tempo germinava-nos a vontade
de trocar impressões com Rui Morisson,
bem-falante, apreciado por muitos ouvintes
e autor de bons programas na rádio, onde
deixou nome bem vincado, em especial no
seu Morisson Hotel.
Muitos anos mais tarde, no cinema, surge
numa fgura de certo modo enigmática, em
trabalhos de eméritos realizadores. Discreto
e imponente. Cativante, mesmo que os
personagens o não sejam. Chegamos a ter a
ideia de que a sua pose, distinta e distante,
importa mais aos realizadores do que a ele
próprio. «Você conhece-me?», pergunta ao
aceitar o mote no primeiro instante. «Claro,
que mais não fosse dos flmes de Fernando
Lopes.»
A ideia era avivar, na presença do actor, a
memória do cineasta que marca profunda-
mente o cinema português. Mantinha-se
a curiosidade, mas agora esbatida perante
uma conjugação de vontades. «Não vamos
falar da rádio», avisamos. «Ainda bem», re-
plica. «Já estava cansado, senti que queria,
podia, fazer coisas diferentes.»
Cedo fcamos a saber que o nosso entrevis-
tado gosta da vida, não de holofotes; mas
também que tem quatro flhos, «dois traba-
lham no cinema, um na publicidade, outro
em informática».
No fnal, fca-nos a impressão, muito forte,
de que a forma de viver de Rui Morisson,
se não é totalmente despida de ambições,
as limita aos parâmetros da sua dignidade.
Em menos palavras: um homem simples,
tão simples que a glória não lhe interessa
mesmo nada.
O Delfm, Lá Fora, Os Sorrisos do Destino,
Câmara Lenta. É o actor dos últimos flmes
de Fernando Lopes. Há quem o considere
como o espelho, em que o cineasta, revê o
universo da vida, em que também disserta
O enigmático actor
de Fernando Lopes
A Câmara Lenta de Fernando Lopes registou, ao ritmo quase perfeito,
frases curtas, incisivas, por vezes, desabridas, sempre na valência amarga
do flme interpretado por Rui Morisson, o actor preferido do cineasta.
Implicitamente, estamos a recordar um homem que ambos admiramos.
Rui Morisson
TEXTO CARVALHO SANTOS FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES
121
sobre a morte. Vimos, em datas próximas,
os dois flmes. Como os liga?
A ligação está na tragicomédia de dois fl-
mes clássicos. A infelicidade tem diferen-
tes resultantes. Carlos é um personagem
positivo, acaba a rir; o egocentrismo de
Santiago, chame-se-lhe marialva do século
XX, ou machista do século XXI, vai conduzi-
-lo a uma profunda depressão. Sorrisos do
Destino é uma obra naturalista, Câmara
Lenta transcende, penso que pela com-
ponente fortemente poética, o próprio
realismo.
A incidência em citações de Alexandre
O’Neal e a belíssima cena ao redor de
uma elegante mesa de chá, são elementos
transcendentemente poéticos…
Serão. Porém, da planifcação aos diálo-
gos, a poesia é sempre explícita nos flmes
do Fernando. O realismo decorre da acção,
que começa num mergulho em que falha o
resgate do irmão, e termina num mergulho
sem retorno – a desistência de viver.
A tomada de consciência da perda de al-
guém querido nem sempre é imediata…
O desgosto que eu tenho não é fácil de de-
fnir. Sinto uma falta, uma falta constante!
Penso no Fernando quase todos os dias,
quase todos os dias penso em cinema. É
inevitável. Ele marcou-me tão profunda-
mente… Como realizador e como pessoa,
na relação de trabalho e na relação pessoal.
O Fernando aceitava sugestões? No caso,
sugestões suas…
Essa é uma boa questão, apetece-me falar
disso. Ele era tão generoso! Não conheço
actor que tenha trabalhado com ele que
não tenha adorado. E sei de alguns que
aceitaram condições menos boas por puro
prazer. Sim, ele dava margem de liberdade,
até de lhe proporem quadros diferentes.
Costumava dizer que gostava de ser sur-
preendido! Não tinha medo das ideias dos
outros, de que lhe estragassem os flmes.
Mas não interferia no trabalho dos
intérpretes?
Como hei-de explicar? Ele sabia tão bem o
que queria, explanava tudo tão bem, que
tudo acabava por sair naturalmente.
Em Câmara Lenta, mais do que nos
Sorrisos do Destino, cigarro atrás de ci-
garro, aqueles tiques, gestos de mãos e de
cabeça tinham por intenção mostrar um
homem intranquilo, pensamos…
Com certeza, ajudavam a mostrar um es-
tado de espírito. De contrário, eu não teria
feito; ou então, o Fernando ter-me-ia avi-
sado, «tira isso, tira»; ou então, «menos,
menos».
Há um instante em que Salvador, num
excesso de afrmação ditatorial, puxa
os cabelos sobre a testa, alonga o rosto,
endurece o olhar e… estamos a ver um
imperador romano. Ensaiaram aquilo?
Já não é a primeira a pessoa a falar-me
disso. A primeira foi o Fernando, ele gos-
tou. Mas olhe que não, aquela atitude
saiu-me quase instantânea, na vivência do
papel que desempenhava.
(Rui Morisson não ri por coisa pouca. Esta
recordação fê-lo sorrir com vontade)
Desta vez, não à Câmara Lenta, viramo-
-nos para a câmara de flmar de Fernando
Lopes. Pode afrmar-se que esta era uma
câmara inteligente?
(Morisson não esperava a pergunta,
demora um tempo a responder)
Ah! Muito inteligente! Ele nem precisava
de a ver, está a ver? Explicava o plano em
abstrato, se quiser. Olhava um determi-
nado local e sabia, exactamente, como o
queria flmar. Ia junto do director de fo-
tografa e dizia: «Isto é assim, pás, pás, é
assim!»
Tem méritos frmados. Não lhe passa pela
cabeça dar um salto em frente?
Não sou pessoa de andar atrás de holofo-
tes. As coisas acontecem quando têm de
acontecer.
Mas tem projectos…
Tenho algumas coisas em carteira, e outras
em perspectiva. O meu agente é que trata
disso. O cinema está numa situação tão
complicada…
Íamos chegar aí. Já se adivinha o requiem?
Para usar um lugar-comum, a esperança é
a última coisa a morrer. Há muita gente a
lutar pela continuidade do cinema portu-
guês. Acabar com o cinema não passa pela
cabeça de ninguém. Vendo melhor, passa
por algumas cabeças…
Em contraciclo, o cinema português está
em franca progressão, tanto técnica como
qualitativa…
O reconhecimento internacional é impor-
tante, é preciso ser cego para não o ver.
Vamos falar, em breves palavras, de alguns
cineastas do momento? Podemos começar
por João Canijo?
Nunca trabalhei com Canijo. Gosto do tra-
balho dele.
Miguel Gomes….
É já um caso muito sério do cinema
português.
João Salaviza…
É um jovem com um talento incrível.
No seu último ano de conservatório, tive
oportunidade de trabalhar com ele. Fez um
pequeno flme, espantoso. Duas Pessoas é a
adaptação de um conto de Herberto Hélder.
Era eu e a Julie Sargeant. Agora é fácil dizê- ê-
-lo, mas senti e tenho testemunhas que me
ouviram. «Este miúdo é diferente, há-de
chegar longe.»
Passamos aos realizadores com quem tra-
balhou, além de Fernando Lopes, claro. No
Mal, de Seixas Santos…
Fez muito pelo nosso cinema. Para mim foi
um grande professor.
João Botelho…
Em tudo que faz, é de um rigor absoluta-
mente fantástico.
Solveig Nordlund…
Os três flmes dela que fz são adaptações de
obras literárias. Como às vezes se diz, é uma
cineasta que vai ao osso do personagem.
Não se está a esquecer de Raúl Ruiz?
Ah! O Rui também esteve nos Mistérios
de Lisboa, era o brilhante Marquês de
Montezelos.
«PENSO NO FERNANDO QUASE TODOS OS DIAS,
QUASE TODOS OS DIAS PENSO EM CINEMA»
122
Um mestre na verdadeira acepção da pala-
vra. Uma pessoa de uma gentileza e sentido
de humor únicos. Um homem com pro-
funda sabedoria, do cinema e da vida. E cul-
turalmente enciclopédico.
Em seu entender, o cinema português
ganhou em realismo um quinhão de po-
esia perdida? Que, no entanto, sempre o
caracteriza…
Talvez sim, tenho notado essa tendência.
Mas a componente poética é uma reali-
dade endémica. Qualquer que seja o tema
abordado pelos nossos cineastas, a poesia é
sempre subjacente.
Um bom actor é necessariamente culto?
Ajuda muito.
As sua preferências culturais…
Cinema e literatura. Desde que me
conheço.
O teatro interessa-lhe menos?
Não. Não me interessa nada menos! Gosto
das duas coisas, tenho é estado menos no
teatro. Nos últimos dez anos fz sete peças,
três com o João Lourenço no Teatro Aberto:
A Democracia, de Michael Frayn; Galileu e
O Senhor Puntila e o seu Criado, ambos de
Bertold Brecht.
Quer destacar encenadores portugueses?
João Lourenço, Luis Miguel Cintra, Jorge
Silva Melo e António Pires.
Já que admitiu estas referências, vamos ao
cinema e à literatura?
Antes do mais, quero explicar a minha ape-
tência pela cultura norte-americana. Toda a
minha família é açoriana, do Faial e do Pico,
eu fui o primeiro a nascer no Continente.
O meu pai era ofcial da marinha mercante,
passei com ele mais tempo na América do
que em Portugal.
Posto isto, direi que me pode agradar um
flme que venha da Arábia, do Cazaquistão
ou do Pólo Norte. Mas prefro o ci-
nema dos EUA. Dou como referências A
Desaparecida, de John Wayne, Apocalypse
Now, de Coppola e Taxi Driver, de Martin
Scorsese. O meu escritor favorito é Philip
Roth. Cito-o porque está vivo, é contempo-
râneo e continua a escrever sobre proble-
mas actuais. Releio os clássicos: Steinbeck,
Tennessee Williams, Hemingway…
«COSTUMO DIZER
QUE TENHO BOA BOCA»
Considera heresia passar da cultura para a
gastronomia?
De modo nenhum. Costumo dizer que tenho
boa boca, mas é um modo de dizer, pois a
comida ajuda à boa disposição. E se a partilha
está em tudo, à mesa também é importante.
Resumindo…
Gosto da cozinha tradicional portuguesa,
principalmente da alentejana. Daqueles
pratos com muitas ervas, de paladares
discretos, mas tão saborosos… Também sou
adepto de um bom bacalhau.
Alguns desses paladares são bem pujantes…
Concordo, mas nem esses se tornam
enjoativos, não é? O indispensável, a todos
esses sabores, é um vinho de qualidade
condizente, alentejano, claro.
Quanto ao bacalhau…
Não gosto com natas nem espiritual e tem
que ser do bom. De resto, vai de toda a
maneira, cozido ou assado, e com os
acompanhamentos indicados.
Aprecia a cozinha de outros países…
Gosto da mediterrânica, mas também a
praticamos cá… Sem ser para o dia-a-dia,
aprecio as cozinhas indiana e vietnamita. E
gosto muito de sushi. Não aprecio a cozinha
francesa.
Tempera o peixe com qualquer azeite?
Cozido ou grelhado, adoro o peixe
das nossas regiões, mas só tempero com
limão, excepto na sardinha. Na sardinha
ponho azeite.
(para acentuar a gordura ou porque às vezes
lhe sai magra? Ficamos nós a pensar)
«ACABAR COM O CINEMA NÃO PASSA PELA
CABEÇA DE NINGUÉM. VENDO MELHOR, PASSA
PELA CABEÇA DE CERTAS PESSOAS»
123
7ªARTE CARVALHO SANTOS
(
Manoel em Veneza
Manoel de Oliveira teria preferido estrear O Gebo e a Sombra numa sessão singular.
Terá sido sensível a pressões da organização e, lá o teremos, ao decano do cinema
português e referência mundial, uma vez mais, no Festival de Veneza. Na 69.ª
edição, que decorrerá de 29 de Agosto a 8 de Setembro, no Palazzo del Cinema.
Será, sob a direcção de Albert Barbera, uma festa do cinema em
Veneza com muito menos flmes e aparatos do que a anterior edi-
ção do festival que se integra na Bienal de Veneza. O que signifca
selecção mais criteriosa das obras a concurso, menos de vinte à
procura do Leão de Ouro, enquanto o total de exibições do Festival
Internacional de Veneza não deverá ultrapassar as setenta.
Um Leão de Ouro já está ganho. Pertencerá a Francesco Rosi, pré-
mio de carreira. Filmes como Salvatore Giuliano, O Caso Mattei,
As Mãos Sobre a Cidade e Três Irmãos, fzeram do ex-assistente de
Luchino Visconti, o principal renovador do cinema italiano, polí-
tica e socialmente empenhado. Aliás, este reconhecimento vem na
sequência do Urso de Ouro Honorário, que Berlim concedeu a Rosi
em 2008.
Na mesma linha, de reconhecimento por figuras prestigiantes
do cinema italiano, se justifca a pré-abertura, em 28 de Agosto,
no centro histórico da cidade, no San Polo Campo de Arena: a
obra-prima de Giuseppe De Santis, Roma Minério de 11, situa-se na
fronteira do neo-realismo. Mais conhecido entre nós pela autoria
de Arroz Amargo, De Santis é adorado em Itália, ao ponto de a sua
morte, em 1997, ter levado o governo a decretar um dia de luto.
Em companhias como estas, fcam bem, argumento, flmagens e
actores que trabalharam com o mestre do cinema português. Há
muito tempo que Manoel de Oliveira vinha manifestando o desejo
de prestar homenagem a Raúl Brandão, autor de Húmus. E ainda
bem que teve tempo, tinha 102 anos quando flmou a peça O Gebo e
a Sombra, em quatro actos para cinco personagens. E que persona-
gens estes actores, capazes de agigantar Brandão e Oliveira!
Então veja-se: Michael Lonsdale (Gebo); Cláudia Cardinal
(Doroteia); Leonor Silveira (Sofia); Ricardo Trêpa (João); Jeanne
Moreau (Candinha); Luis Miguel Cintra (Chamiço). Pois, Manoel,
está agora, um ano mais tarde, noutra! Está na Igreja do Diabo: a
flmar com base em brilhantes estorinhas, interligadas e brasileiras,
BELÍSSIMA ENCENAÇÃO CINEMATOGRÁFICA DO MESTRE
Estreia mundial
124
7ªARTE
(
de Machado de Assis – uma visita do diabo à Terra, um adultério e
desilusões de um estudioso de aves.
Já o presidente do júri é de diferentes coturnos. Emérito roteirista
e director de cena, considere-se que o também realizador Michael
Mann é um máximo expoente do cinema made in Hollywood. O
Ladrão Profssional, Caçada ao Amanhecer, O Informador e Heath –
Cidade Sob Pressão são de pregar o rabo à cadeira, threllers e Killers
sempre de grande qualidade. Portanto, bem qualifcado para es-
colher entre flmes de Thomas Anderson, Brian de Palma, Silvio
Soldini, Terrence Malick e outros.
LONGO ALCANCE DE CURTAS EM VILA DO CONDE
Em Vila do Conde, o Teatro Municipal abre portas ao cinema no
próximo dia 7 e o festival prolonga-se até 15 de Julho. Mas este vai
mais longe na amplitude. Na Galeria de Arte Cinemática, a expo-
sição da Solar é consagrada a Stanley Kubrick e a muitos autores
que se identifcam com a flosofa do mestre. O público pode rever
Laranja Mecânica, The Shining e The Killing. E pode também assis-
tir a obras do já renomado realizador francês Olivier Assayas, ou
do norte-americano Robert Todd. E concertos musicais, este ano
são mais do que nunca. Uma festa bonita para quem fez 20 anos de
cinema!
Nunca tantas obras de autores portugueses foram exibidas como
na 20.ª edição do Festival Internacional de Vila do Conde (quase
70!), nem tantos flmes se candidataram (mais de 2000!). A razão
é simples: Por um lado, a qualidade arrastou consigo mais quanti-
dade; por outro, com a produção quase completamente parada, por
falta de defnição e apoios ao cinema português, há que aproveitar a
oportunidade – pode ser a última!
Há nomes consagrados e outros muito prometedores: Basil
da Cunha, Gabriel Abrantes, Filipa César, João Pedro Rodrigues,
Sandro Aguilar, Leonor Noivo, Filipe Abranches, Sandro Aguilar.
Porém, a presença portuguesa não se limita a estes e outros con-
correntes à competição nacional (19no total de 65) . O projecto
Campus/Estaleiro permitirá a visão de A Rua da Estrada, de Graça
Castanheira; Obrigação, de João Canijo; Cinzas, de Pedro Flores; e
Um Rio Chamado Ave, de Luís Alves de Matos.
Mais difícil será fazer destaques na competição internacional. A
organização aponta, entre outros realizadores, Dan Ojari, Mohan
Kumar Valasala, Vladimir Dembinski, Caroline Deruas, Danis
Tanovi…
O TERROR BATE À PORTA TODOS OS ANOS
Gáudio para os apreciadores do género, o cinema São Jorge, volta
a acolher, pelo sexto ano consecutivo, o Festival Internacional de
Terror de Lisboa. À data em que damos nota do acontecimento
que deverá decorrer entre 12 e 16 de Setembro, os responsáveis do
MOTELx estavam ainda em fase de selecção das candidaturas, que
encerraram no passado dia 15. Mas já se pode falar de uma antes-
treia, a de Kill List, de Ben Wheatley.
O realizador britânico relata os problemas de um matador profs-
sional. Interrompe um período de refexão para atender os amigos
que lhe encomendam uma lista de pessoas a abater; mas a missão
corre mal e ele vê-se emaranhado na própria teia. «Eu quis fazer um
flme realista, que transcenda o género horror», disse Wheatley na
apresentação. Pelos vistos conseguiu-o, ao ponto de o espectador se
tornar sensível à má sorte do protagonista.

POCAS PASCOAL VITORIOSA EM LOS ANGELES
A angolana Pocas Pascoal surpreendeu Los Angeles ao conquistar
o Grande Prémio de Ficção. Por Aqui Tudo Bem, que passou pelo
IndieLisboa, é a história de duas irmãs muito jovens que abando-
nam Angola para fugir à guerra colonial. Em Lisboa, antes da reden-
ção, sofrem agruras. É, afnal, uma história baseada na experiência
de vida da própria realizadora. O director artístico, David Ansen,
considerou o flme como «ousado, fresco e com uma visão que ex-
pande o horizonte do cinema independente».
A LARANJA QUE IMORTALIZOU STANLEY KUBRICK
KILL LIST DE BEN WHEATLEY NO MOTELx
FUGIRAM DA GUERRA PARA O PURGATÓRIO
125
VARIAÇÕES AINDA SEM VARIAÇÃO
Se na foto junta, António Variações está com óculos de tesoura, o
realizador João Maia tem um tesouro entre mãos e factores azia-
gos não lhe permitem mostrá-lo na tela… Recorde-se que os estu-
dos de pesquisa começaram em 2003; e cinco mais tarde, o projecto
já tinha quase tudo, guião, actores, ��deos apresentados… �m de- actores, ��deos apresentados… �m de-
sentendimento com a produtora de Alexandre Valente le�ou o caso
para tribunal. Demorou, mas no fm do ano passado foi dada razão
ao cineasta.
João Maia e toda a equipa das flmagens reiniciariam, portanto,
os trabalhos, tudo parecia indicar que, neste 2012, Variações seria
dado à estampa. Mas é apanhado pela crise do cinema, �olta a ponto
morto. O realizador tem um no�o acordo, tal�ez lá para Setembro
possa confrmar com que produtora. A má experiência justifca a
reser�a. «Ninguém está seguro, ainda menos as produtores», disse
o realizador à Epicur.
RECORDAR A CIDADE DE DEUS
Realizado em 2002 por Fernando Meirelles, Cidade de Deus é um
dos grandes clássicos do cinema mundial, um flme onde a fa�ela
é a rainha plebeia, que canta os seus salmos de alegria, des�entura
e morte.
Recorde-se que Meirelles se fundamentou no romance escrito
cinco anos antes por Paulo Lins, respeitando-lhe o próprio nome.
Alguma coisa mudou na fa�ela, é certo, a not�cia que tratamos
aqui é o lançamento em Portugal, da obra a editar pela Caminho
neste Julho. Em Maio, Desde que o Samba é Samba agitou os meios
literários de todo o Brasil. E desta �ez não será preciso esperar cinco
anos para a sua adaptação ao cinema, já há pretendentes. A memó-
ria de Paulo Lins , que só tem 53 anos, remonta à escola do samba-
-enredo. O seu caderno de apontamentos está replecto de sambas
e sambinhas, de nomes de cantores e compositores. Ele próprio, na
ju�entude, fez composições.
ANGELINA NÃO É NENHUMA BRUXA
Angelina Jolie nada tem de bruxa, mas a �erdade é que assume o
papel de �ilã na no�a �ersão da Disney, Malefcent, �ersão orientada
por Robert Stromberg, com estreia pre�ista para 2014. Para �ariar,
de tão batida e repetido que está o conto da Bela Adormecida, tro-
cam-se as �oltas e a actriz passa a bruxa má.
De�e agradar-lhe o personagem, não lhe chega já ser �ista como
mulher bela e boa fada, neste caso na condição de embaixadora do
comissariado da ON� para os refugiados, aos quais já fez �ários do-
nati�os. Ou, �erdadeiramente, Angelina é uma mulher tão �ersátil
como corajosa. Em tempos saiu do palco, emprestou a imagem a
slogans publicitários. A recente experiência como realizadora, não
lhe correu bem nem mal. Em In the Land of Blood and Honey, retra-
tou a Guerra dos Balcãs à sua maneira, dif�cil seria agradar a gregos
e troianos.
SALAVIZA COM FILIPA E PAULO NA MALAPOSTA
A Malaposta é reincidente na apresentação de extensões do
IndieLisboa e escolhe bem. Neste quase Verão, uma das mais apre-
ciadas sessões contou com o duo Sala�iza-Filipa Reis a que juntou a
di�ertida Barba de Paulo Abreu.
Começando por este, o Portugal de hoje é mimetizado nas confron-
tações entre um chico-esperto, um sonhador, um simplório e um
preguiçoso, �i�endo numa comunidade pré-ci�ilizacional. Resulta
quase alegre e não bate mal este pequeno flme a preto-e-branco.
Cama de Gato, de Filipa Reis e Miller Guerra, �encedor do último
Indie, transporta-nos para um uni�erso infantil, com arte e extrema
graça. Tem corrido o pa�s em carreira ascensional.
É imposs��el dissociar Cerro Negro das obras de Sala�iza que con-
quistaram ouro em Cannes e Berlim, ou não fzesse parte da trilogia
que prima por rigor narrati�o e primorosa direcção de actores. Em
Arena, Mauro �i�e em prisão domiciliária; Rafa descobre às seis da
manhã que a mãe está detida numa esquadra; Cerro Maior é o flme
do meio, o que este ano conquistou Roterdão. Anajara faz do amor
a sublime expiação. Na prisão de Santarém, dia da �isita semanal, o
companheiro espera-a e ao flho… Sempre o ciclo da separação.
JOÃO MAIA AINDA ESPERA POR SINAL VERDE
DESDE QUE O SAMBA É SAMBA
POR UMA VEZ, ANGELINA É A MÁ DA FITA
126
Agora povo agora pulso/agora pão agora
poema. A estrofe é do poeta cabo-verdiano
Corsino Fortes (em Do ónus de ser ao ónus
de crescer ilha, da antologia Pão & Fonema)
e coloca por ordem as prioridades na vida
do Homem: paz, pão e poema. Ou, como
escreveu Natália Correia: «Ó subalimen-
tados do sonho! A poesia é para comer.»
Foi deste último verso que nasceu o título
da antologia de poesia lusófona, com con-
ceito original e coordenação geral de Ana
Vidal, que venceu o Best Food Literature
Book dos Gourmand Book Award 2007 e
o prémio de Melhor Livro de Literatura
Gastronómica 2008, pela Academia
Portuguesa de Gastronomia.
Nessa altura, A Poesia é para Comer:
Iguarias para o Corpo e para o Espírito era
ainda um livro com capa a preto e branco,
o esboço do álbum agora disponível na
loja da editora Babel, em Lisboa, com boas
perspetivas de distribuição alargada em
Portugal, tal como já acontece no Brasil.
São 250 páginas de feliz correspondência
e fusão entre poemas, criações gastronó-
micas e obras plásticas, assinados todos
por diversos criadores de todo o espaço
lusófono. Tal como cada fonema diferencia
o significado das palavras, também aqui
cada sensação provocada no leitor confere
unidade particular ao conjunto: uma festa
de celebração dos prazeres subjectivos da
poesia, da comida e da expressão plástica,
no espaço fraterno da comunidade da lín-
gua portuguesa.
Ana Vidal, guionista, letrista, com poesia,
contos e prosa poética publicada, tem um
longo currículo de actividade ligada à co-
municação, em jornalismo, copywriting,
assessoria de imprensa e escrita criativa.
Daí resulta a proposta muito bem conse-
guida de união de linguagens em A Poesia é
para Comer, decorrente da escolha prévia,
por parte da coordenadora, dos poemas
(cada um com pelo menos uma referên-
cia gastronómica), dos chefes convidados
(com apoio, em Portugal, da consultoria do
chefe José Avillez, e, no Brasil, da curado-
ria da crítica gastronómica Luciana Frões)
e das reproduções de obras plás-
ticas incluídas. Assim se de-
gustam poemas de autores tão
díspares como Bocage, Ruy Belo,
Clarice Lispector, Ondjaki, Adélia
Prado, Fernando Pessoa, Ferreira
Gullar, Cesariny, Gil Vicente ou
Vinicius de Moraes e criações
ou sugestões dos melhores che-
fes e gourmets dos dois lados do
Atlântico, pontuadas por obras
de Cândido Portinari, Josefa de
Óbidos, Vik Muniz, Fernando
Calhau, Emmanuel Nassar, Joana
Vasconcelos ou Alfredo Volpi,
entre muitos outros.
No pátio da sua casa em Sintra,
numa conversa regada a café e
chá de gengibre, Ana Vidal insiste
em que «a cozinha é uma forma
de alquimia». Fala do afecto
pela «poesia, comida estranha»
(Carlos Drummond de Andrade)
e de como, no seu livro, cada
poema deu origem a uma receita,
com a palavra como elemento
de ligação entre os dois. A refei-
ção completa estende-se por seis
capítulos: Prelúdios Inspirados
(entradas), Boas Companhias
(acompanhamentos), Prazeres da
Carne, Presentes do Mar, Finais
Felizes (sobremesas) e Néctares
dos Deuses (bebidas e licores).
No prefácio, o poeta Nuno Júdice
apela a «saborear a língua» e a
poetisa brasileira Astrid Cabral
elogia «uma saudável aliança entre igua-
rias que costumam comparecer isoladas,
como se pertencessem a mundos incomu-
nicáveis […] o alimento concreto e o abs-
tracto, dispostos lado a lado em receitas
e poemas». A Poesia É para Comer é, pois,
um desfile de luxo de 100 receitas poéticas
para a fome de coisas boas na mesa e no
espírito.
Quais foram as suas primeiras memó-
rias afectivas da poesia e da cozinha?
O meu pai, Paulo Vidal, veterinário,
gourmet, era também um poeta e um le-
trista [autor do Fado do Cavalo Russo].
A poesia veio-me pela mão dele. Entre
as poesias que ele costumava dizer para
mim e para os meus irmãos, lá estava a
Nau Catrineta, muito ligada à nossa histó-
ria épica. Na nossa casa, havia o culto da
cozinha e, dos pratos com dias certos na
semana que espreitávamos no tacho, lem-
bro-me muito dos cozidos à portuguesa
dos sábados e da língua de fricassé dos do-
mingos. E lembro-me dos pastéis de massa
TEXTO FILIPA MELO FOTOS MIGUEL SILVA
Ana Vidal uniu pintura, poesia e gastronomia
num álbum luxuoso, em homenagem
aos prazeres da vista, da palavra e da boca.
Pão e fonema
127
tenra da minha mãe, aos quais um tio meu
chamava «pastéis de nada com recheio de
coisa nenhuma». [risos]
Os laços das pessoas com a comida,
tal como com a poesia, são afectivos e
muito subjetivos. O que é que unifica os
vários sabores que este livro propõe?
O denominador comum são as emoções
e as memórias olfactivas, visuais e de es-
tados de espírito que podem ser desper-
tadas no leitor. É a sensorialidade das três
artes envolvidas, sendo que eu pretendia,
precisamente, dar à gastronomia o esta-
tuto de arte maior. Agostinho da Silva diz:
A quem faz pão ou poema / só se muda o
jeito à mão / e não o tema. Se a poesia é
mais subtil, a gastronomia é uma forma
de comunicação universal e muito direta,
que provoca reações imediatas e inten-
sas. A comida é uma muito forte forma de
influência.
Este livro acabou por só ser possível
graças a apoios angariados no Brasil...
Depois da primeira edição, modesta, em
2007, esta edição de luxo foi via-
bilizada, sim, pela muito eficaz lei
do mecenato brasileira e por uma
equipa, à excepção de mim, inteira-
mente brasileira. Por isso aumentei
a proporção de poetas brasileiros
incluídos.
Qual era o seu principal
objectivo?
Antes de mais, através da gastro-
nomia, que está muito na moda,
trazer novos leitores para a poesia,
muitas vezes envolta numa aura
de inacessibilidade. E proporcio-
nar também o contrário: levar as
pessoas que vivem enfurnadas nos
seus olimpos literários até ao uni-
verso da cozinha.
Como é que foi a adesão dos
vários criadores convidados
a participar?
Só tive três nãos: os do artista
plástico Pedro Cabrita Reis, do chef
Vítor Sobral e de um novo poeta
português, quase desconhecido [o
livro inclui vários criadores mais
ou menos desconhecidos, nele in-
tegrados com a mesma visibilidade
do que os consagrados]. De resto, a
adesão foi entusiástica.
Para os chefes a quem propôs
que criassem receitas a par-
tir dos poemas seleccionados,
este deve ter sido um desafio
insólito...
Tudo começou e partiu dos po-
emas. Creio que todos se senti-
ram lisonjeados com a proposta.
E houve um grande empenho, já
que todos eles têm muito pouco
tempo disponível, também por-
que são, hoje em dia, considera-
dos e tratados como estrelas. E, na
verdade, a generalidade deles são
muito mais do que cozinheiros. São
pessoas muito completas, como
por exemplo, o Nuno Diniz [atual
chefe executivo da York House, em
Lisboa], que também pinta, com-
põe e escreve.
Mas existe, de facto, essa lógica
de estrelato...
... e que há de passar...
Sim, talvez, mas que é hoje uma rea-
lidade que pode até ofuscar a capaci-
dade de avaliação dos novos chefs e
da nova cozinha que criam. Este livro
permite, aliás, avaliar a capacidade de
resposta de cada um.
Há muito embuste na cozinha hoje em
dia, mas também existe muito talento.
A POESIA VEIO-ME PELA MÃO DO MEU PAI VETERINÁRIO, GOURMET E TAMBÉM UM POETA
128
Este livro propôs um teste de criativi-
dade aos chefes convidados e, portanto,
apelava a essas construções e descons-
truções do que era tradicional. Ao mesmo
tempo, tanto com a indisciplina como com
o excesso de criatividade de alguns deles,
houve que chegar a consensos, na difícil
engenharia que foi toda a conjugação e
equilíbrio do livro. Mas esta foi, de facto,
uma prova dos nove. Acho que todos pas-
saram na qualidade técnica dos pratos. Na
resposta ao desafio, variaram muito. E daí
também se vê a qualidade, a maturidade
e o grau de cultura que têm para além do
exercício da cozinha.
O leitor pode fazer essa prova, execu-
tando estas receitas?
Pode, embora algumas sejam complica-
das, também porque parte delas são já re-
ceitas consagradas do chefe em questão [é
o caso de José Avillez, que contribui com
estrelas da sua ementa, como A horta da
galinha dos ovos de ouro ou Cascais à beira-
-mar]. Há sensibilidades muito distintas, o
que tornou o processo muito divertido.
Como é que avalia hoje a cozinha por-
tuguesa, cujo consumo se reabilitou
neste momento de crise?
Como a cozinha mediterrânica está nos
tops, puxámos pelos nossos galões e esta-
mos a voltar aos valores tradicionais, como
o uso do azeite. Hoje, come-se muito bem e
muito mal em Portugal.
Onde?
Muito boa cozinha tradicional, numa infi-
nidade de restaurantes baratos e de tascas,
pelo país fora. Muito boa cozinha inova-
dora, nos restaurantes de cozinha de autor.
Estamos muito bem em termos de cozinha
tradicional, embora tenha de existir cuida-
dos para não se servir como tal uma coisa
que já nada mesmo tem que ver com ela.
Outro dia, serviram-me, por exemplo, ba-
calhau com queijo da serra, uma brutali-
dade calórica e gastronómica... Acho que
não vale tudo como inovação.
Reclama quando não gosta?
Quando está mal feito, reclamo e mando
para trás...
... o que não é hábito muito português.
Pois não. Pior: o português come tudo e
depois reclama no fim... [risos] e
perde a autoridade. Acho que deve
haver uma crítica construtiva à co-
mida, onde quer que ela seja ser-
vida, mesmo que seja por um guru
da cozinha, cuja autoridade hoje
dificilmente é contestada. Falta-
nos mais e melhor crítica do consu-
midor e profissional. Na verdade,
pode-se passar sem a poesia, mas
não se pode passar sem comer. A
cozinha, como a poesia ou as artes
plásticas, permite, a quem faz e a
quem saboreia, um voo da imagi-
nação e da memória. Conjugá-las
neste livro foi, em muitos casos, es-
tabelecer uma rede de cumplicida-
des e encontrar várias sintonias de
emoções.
néCtares dos deuses | 221
Conselho
Ana Vidal
Deixa-te de porquês. O quando, o onde
e o como?… Não mais que literatura!
Despe de vez o medo que se esconde
entre as frias cambraias da lisura.
Ou então não fales de paixão.
Chama-lhe, se quiseres, melancolia.
Que jamais o tropel de um coração
bate ao compasso da diplomacia.
Inteiramente Frio e Quente
reCeita de Joana CarvalHo
Inspirei-me com a mistura do Martini com chocolate quente. Como adoro con-
traste quente-frio, meu conselho pra acompanhar a poesia da Ana é: seja os dois - o
que desejam que sejas e o que és.
Coulis de frutas vermelhas com banana e vermute seco frozen, derretido na hora
por abundante ganache quente de chocolate branco. Caramelo de gin e casquinha
de limão na borda do copo.
Sirva na taça de Martini e deite a calda quente ao gosto do comensal. Dê-se o luxo
de servi-lo acompanhado de um simples shot de tônica.As sensações se completam
para uma experiência onde as razões desaparecem levando junto as dúvidas.
Coulis
Colocar todos os ingredientes em uma panela alta e deixar cozinhar por 40 minu-
tos em fogo médio. Mexa de vez em quando para soltar da panela. Caso você uti-
lize frutas congeladas, elas soltarão mais água. Deixe cozinhar por mais 20 minutos
até que a calda pareça mais uniforme. Retire do fogo, separe as especiarias e deixe
esfriar. Leve ao congelador por no mínimo 4 horas, de preferência já porcionados
nas taças onde serão servidos.
Caramelo de Gin
Aqueça a panela em fogo baixo e coloque o gin. Deixe evaporar até reduzir a me-
tade. Acrescente o açúcar e deixe dourar até chegar ao ponto de bala.Vire o cara-
melo em uma superfície de pedra para que esfrie e endureça. Após esfriar, bata no
caramelo com uma colher de pau até que ele solte da pedra e fque em pedacinhos
bem pequenos de forma que possam grudar na borda da taça. Reserve em um bowl.
ganaChe de Chocolate Branco
Derreta o chocolate e misture ao creme de leite e ao leite, até que fque líquido
sem perder a cremosidade.
Montagem
Retire as taças com o coulis frozen do congelador. Molhe suavemente as bordas das
taças com mel ou agave, sem deixar que escorra pelo vidro. Afunde as bordas das
taças no bowl de caramelo, para que os pedacinhos grudem no local onde você
passou o mel. Corte seis fnas fatias de casca de limão, fazendo pequenos caracóis
para que enfeitem a borda do copo. Aqueça mais uma vez o ganache, colocando-o
em uma espécie de leiteirinha. Sirva as taças, acompanhadas de um shot de tônica
e derrame a calda quente sob o frozen do coulis, conforme o gosto do comensal.
coulis
40 ml de vermut seCo
200 g de morangos piCados em 4
200 g de amora
200 g de Framboesa
(as Frutas podem ser FresCas ou Congeladas)
1 banana-maçã ou banana-d’água grande
ou 2 pequenas piCadas em CubinHos pequenos
150 g de açúCar ou 100 ml de agave
1 pau de Canela
3 anis estrelado
5 Cravos
caraMelo de gin
400 g de açúCar branCo
100 ml de gin
ganache de chocolate Branco
400 g de CHoColate branCo
200 ml de Creme de leite FresCo
100 ml de leite
2 ColHeres de sopa de mel ou agave
2 limões
para 6 pessoas
Que sabes tu das ávidas razões
que a razão desconhece? Da contenda
que nem sempre se trava nos salões
e quase nunca tem punhos de renda?
Não aprendeste nada sobre gente?
E Shakespeare, e Mozart, e Fellini?
Alguém te sonha chocolate quente
enquanto deitas gelo no martini!
< Fernando azevedo|ocultação
néCtares dos deuses | 221
Conselho
Ana Vidal
Deixa-te de porquês. O quando, o onde
e o como?… Não mais que literatura!
Despe de vez o medo que se esconde
entre as frias cambraias da lisura.
Ou então não fales de paixão.
Chama-lhe, se quiseres, melancolia.
Que jamais o tropel de um coração
bate ao compasso da diplomacia.
Inteiramente Frio e Quente
reCeita de Joana CarvalHo
Inspirei-me com a mistura do Martini com chocolate quente. Como adoro con-
traste quente-frio, meu conselho pra acompanhar a poesia da Ana é: seja os dois - o
que desejam que sejas e o que és.
Coulis de frutas vermelhas com banana e vermute seco frozen, derretido na hora
por abundante ganache quente de chocolate branco. Caramelo de gin e casquinha
de limão na borda do copo.
Sirva na taça de Martini e deite a calda quente ao gosto do comensal. Dê-se o luxo
de servi-lo acompanhado de um simples shot de tônica. As sensações se completam
para uma experiência onde as razões desaparecem levando junto as dúvidas.
Coulis
Colocar todos os ingredientes em uma panela alta e deixar cozinhar por 40 minu-
tos em fogo médio. Mexa de vez em quando para soltar da panela. Caso você uti-
lize frutas congeladas, elas soltarão mais água. Deixe cozinhar por mais 20 minutos
até que a calda pareça mais uniforme. Retire do fogo, separe as especiarias e deixe
esfriar. Leve ao congelador por no mínimo 4 horas, de preferência já porcionados
nas taças onde serão servidos.
Caramelo de Gin
Aqueça a panela em fogo baixo e coloque o gin. Deixe evaporar até reduzir a me-
tade. Acrescente o açúcar e deixe dourar até chegar ao ponto de bala. Vire o cara-
melo em uma superfície de pedra para que esfrie e endureça. Após esfriar, bata no
caramelo com uma colher de pau até que ele solte da pedra e fque em pedacinhos
bem pequenos de forma que possam grudar na borda da taça. Reserve em um bowl.
ganaChe de Chocolate Branco
Derreta o chocolate e misture ao creme de leite e ao leite, até que fque líquido
sem perder a cremosidade.
Montagem
Retire as taças com o coulis frozen do congelador. Molhe suavemente as bordas das
taças com mel ou agave, sem deixar que escorra pelo vidro. Afunde as bordas das
taças no bowl de caramelo, para que os pedacinhos grudem no local onde você
passou o mel. Corte seis fnas fatias de casca de limão, fazendo pequenos caracóis
para que enfeitem a borda do copo. Aqueça mais uma vez o ganache, colocando-o
em uma espécie de leiteirinha. Sirva as taças, acompanhadas de um shot de tônica
e derrame a calda quente sob o frozen do coulis, conforme o gosto do comensal.
coulis
40 ml de vermut seCo
200 g de morangos piCados em 4
200 g de amora
200 g de Framboesa
(as Frutas podem ser FresCas ou Congeladas)
1 banana-maçã ou banana-d’água grande
ou 2 pequenas piCadas em CubinHos pequenos
150 g de açúCar ou 100 ml de agave
1 pau de Canela
3 anis estrelado
5 Cravos
caraMelo de gin
400 g de açúCar branCo
100 ml de gin
ganache de chocolate Branco
400 g de CHoColate branCo
200 ml de Creme de leite FresCo
100 ml de leite
2 ColHeres de sopa de mel ou agave
2 limões
para 6 pessoas
Que sabes tu das ávidas razões
que a razão desconhece? Da contenda
que nem sempre se trava nos salões
e quase nunca tem punhos de renda?
Não aprendeste nada sobre gente?
E Shakespeare, e Mozart, e Fellini?
Alguém te sonha chocolate quente
enquanto deitas gelo no martini!
< Fernando azevedo|ocultação
aldeia do lago
C
M
Y
CM
MY
CY
CMY
K
al_230x280.pdf 22/08/10 21:04:55
aldeia do lago
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130
Talvez pecado… ��a��a�ca� a� �a�e��ade� �a���o��� ��a��a�ca� a� �a�e��ade� �a���o��� a� �a�e��ade� �a���o���
�ico� do chefe Jo�é Co�dei�o, �e��e do al�o, que a�o�a
�ole��ou o �ovo ca�dápio, a �a��e� a�é Ou�u��o. No
�e��au�a��e Fei�o�ia, �l�i� Belé�. U� pecadilho de
75€ pelo �e�u de de�u��a�ão. Ma� u� fa��o�e de pa� fa��o�e de pa�
pa�oca: la�o��i�� do �a� co� e�pa��o� ��a�co� e ve��
de�, syhra e peque�o� �o��e��o� de lei�ão; p�e�u��o de
po�co ale��e�a�o e quei�o �o��e da vi�ha, �eld�oe�a�
e peque�a� folha�; �o�alo co� cu�co� de li��uei�ão;
�o�oc�o�á�ico de �al�o�e�e e ca�a�i�ei�o co� �o�
�a��o� �ilve���e� e �e�e��a�a� �iol��ica�; pei�o de pa�o
co� e�co�cio�ei�a, co�u�elo� e a�eado� de pi��áchio;
de�u��a�ão de po�co �í�a�o. E �afa: pão�de�l� de a���o�a e doce de
ovo�, c�e�e de �equei�ão, alfaze�a e �elado de �el de u�ze e �e�e �a�
�ei�a� da �a�ã.
E��e é o �e�po e� que a �a���o�o�ia de ho�el e��á aí pa�a fca�,
qua�do �ui�o a��e� e�a �e��i�a.
Talvez pecado… Ou��o ho�el, Bela Vi��a, ci�co e���ela�, i�pla��ado
��acio�a�e��e �o��e o �a� �a P�aia da Rocha, i�au�u�ado �ece��e�
�e��e e i��ei�a�e��e �e�odelado, �a� u� edifcado que �a�ceu �o�
ido� de 1918, �e�do u�ado co�o ca�a pa��icula�. Mai� �a�de �o��ou�
��e u� do� pio�ei�o� ho�éi� da �e�ião, p�i�ei�o� h��pede� e�pa�h�i�
fu�ido� da Gue��a Civil. S� que a�o�a a e����ia é ou��a… Qua�do o
di�ec�o� �e�al Dio�o Fo��eca e Silva a��a�ou a vo��ade de e��e�a�
a �a���o�o�ia da ca�a. Pa�a a �e�po��a�ilidade da cau�a cha�ou o
chefe Ro�é�io Calhau, a��a�ca�do�o a u�a ca��ei�a i��e��acio�al de
�a�a�i�o, de�i��ada�e��e e� I��la�e��a, o�de f�eque��ou i�ú�e�o�
�e��au�a��e� lau�eado� co� e���ela� Micheli�. E �e�o� o��a! Pecado
da �ula, e��a�cou��o� �u� pa�a��oxa, �i�o�o de cevada a�o�á�ica e
�el de li�ão, pe��a de coelho �echeada co� �o�cela e alpe�ce�, le�
�u�e� da e��a�ão, �a� pa�a ��á� fca�a ai�da a �ulodice de u� �o��
�icado de cava, ce�ola e fo�due de �o�a�e… � �a��i�a deixou de da�
ho�a�, �a� e���ou �ai� u�a �ou��e de e�vilha, �e�a cozida a �aixa
�e�pe�a�u�a e p�e�u��o. Fa�a�ha �a��é� �a co���
��u�ão de u�a ca��a ví�ica de e�ve��adu�a. Pa�a �i�,
qua�do ve�o de�e�hado� e��e� �o�e�, vou à� lá��i�a�,
ao pecado: ��eal E�colha, Soalhei�o (�up�a �u�o, p�i�
�ei�a� vi�ha�), Mo��e d’Oi�o e i�co��o��ável Mouchão.
E �ui�o �e�, há vi�ho a copo!
Talvez pecado… E���e�ho��e de��a fei�a �o �ovo
�e�u de de�u��a�ão do �e��au�a��e Ped�o e o Lo�o,
o�de doi� pu�o� p�e�ide� ao� fo�õe�, �a� que �a�e�
à ��ava da poda. Fia o �o�á�io: c�e�e de alho e a�ê��
doa�, ca�acole�a� a��ada�, alface� e �a�a�e�e�; pa�o, ce�
�ou�a, �equei�ão e �e��i��e; a�u� pa�udo, a�aca�e e
�e�e��a�a, cayenne �i�ada, vi�a��e�a de a�chova� e coe���o�. Ba��a?!
Deu�, eu pecado� �e co�fe��o, �a� é o que é, �ão �e�i��o e �a�cha
u� �edo�do de �ovilho, chalo�a�, couve �oxa e la�a��a, �u�a�o e al�a�.
So��e�e�a, e��a, �ão di�pe��o: c�e�o�o �e��o, ��a�co e �a�a�, streu-
zel de a�ê�doa� e chocola�e, opali�e� e �i��a.
Talvez pecado… Deu� pelo �e�o� de��a fei�a �ão �e �e�e co�
�i�o. Que� �ela�a é Ga��iel Ga�cía Má�quez, Menu do Autor � «Não
co�heci �i��ué� �ai� pa�ecido à ideia que a �e��e �e� de u�
papa �e�a�ce��i��a: �lu�ão e �ef�ado. Me��o co���a a �ua vo��ade,
�e�p�e p�e�idia a �e�a. Ma�ilde, �ua e�po�a, pu�ha �ele u� �a�ado�
que �ai� pa�ecia de �a��ea�ia que de �e��au�a��e, �a� e�a a ú�ica
�a�ei�a de i�pedi� que �e �a�ha��e �o� �olho�. �quele dia, �o
Carvalleiras foi exe�pla�. Co�eu ��ê� la�o��a� i��ei�a�, e�qua��e�
�a�do�a� co� �e���ia de ci�u��ião, e ao �e��o �e�po devo�ava co�
o� olho� o� p�a�o� de �odo�, e ia p�ova�do u� pouco de cada u�, co�
u� delei�e que co��a�iava o de�e�o de co�e�: a� a�êi�oa� da Galícia,
o� pe�ceve� do Ca���ico, o� la�o��i�� de �lica��e, a� espardenyas
da Co��a B�ava. E�qua��o i��o, co�o o� f�a�ce�e�, �� falava de ou�
��a� delícia� da cozi�ha, e e� e�pecial do� �a�i�co� p�é�hi����ico� do
Chile que levava �o co�a�ão».
O pecado� de��a� úl�i�a� li�ha� e�a Pa�lo Ne�uda.
Talvez pecado
EDUARDO MIRAGAIA
Puro Duro
&
NA BELA VISTA, O SARGO REDONDO DE NOVILHO, É PEDRO E O LOBO CORDEIRO FAZ DAS SUAS