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Arte e Política em Joseph Beuys: o Homem como obra de arte Art and Politics in Joseph Beuys: Man as work

of art
Camila Nogueira Barbosa Alves dos Reis
Bacharel em Artes – Figurino e Indumentária pelo SENAI CETIQT.

Paloma Carvalho Santos
Doutora em História Social da Cultura, PUC-Rio. Professora do SENAI CETIQT.

Manoel Silvestre Friques
Mestre em Artes Cênicas, UNIRIO. Professor do SENAI CETIQT.

Resumo O artigo procura abordar as relações entre arte e política presente na obra de Joseph Beuys. A hipótese para a análise baseia-se no fato de a obra do artista alemão não poder ser reduzida a mero discurso político. Pois, no momento do diálogo, de interação com o público, Beuys acredita que ambos estão esculpindo; “todo homem é um artista”. Seja na forma de cartazes, múltiplos, vídeos, performances, ou “conversas”, o espectador não só é levado a transformar a sociedade em que vive (ação política), mas também a transformar-se, a construir uma nova estrutura pessoal, aberta e, portanto, plena de significados – poética. Restringimo-nos às duas obras “Não conseguiremos sem a rosa” e “Uma rosa pela Democracia Direta” – cartaz e múltiplo, uma vez que esses dois trabalhos nos permitem refletir sobre algumas questões da produção beuysiana. Palavras- chave: Joseph Beuys; Arte e Política; Arte Contemporânea. Abstract The article seeks to address the relationship between art and politics present in the work of Joseph Beuys. The hypothesis for the analysis is based on the fact that the work of the German artist can not be reduced to mere political discourse. At the moment of dialogue, interaction with the public, Beuys believed both are carving, so "every man is an artist." Whether in the form of posters, multiples, videos, performances, or "conversations", the viewer is led to not only transform the society in which he lives (political action), but also to become, to build a new staff structure, open and therefore full meanings - poetry. Restrict ourselves to the two works "will not succeed without a rose" and "A Rose for Direct Democracy" - poster and multiple, since these two works allow us to reflect on some production issues present in the work of Beuys. Keywords: Joseph Beuys. Art and Politics. Contemporary Art.

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Camila Reis; Paloma Santos; Manoel Friques.

REDIGE v. 4 (Edição Especial), jul. 2013.

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INTRODUÇÃO Adotamos como estratégia historiográfica concentrar toda a pesquisa sobre Beuys à análise das duas obras “Não conseguiremos sem a rosa” e “Uma rosa pela Democracia Direta” – cartaz e múltiplo. Esses dois trabalhos tocam questões da obra de Beuys como um todo, destacadas acima. Incorporamos, assim, duas faces da poética beuysiana – as relações entre arte e política e a Escultura Social.
O Cartaz “Não conseguiremos sem a rosa” e o Múltiplo “Uma rosa pela Democracia Direta”

Figura 1 – Não conseguiremos sem a rosa. Fonte: Beuys, 1972.

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Paloma Santos. O múltiplo “Uma rosa pela Democracia Direta” de 1973 é derivado do cartaz “Não conseguiremos sem a rosa”. jul.Camila Reis. A rosa. Beuys está usando seu famoso chapéu de feltro e seu colete de pescador. uma posição de destaque: ela prepondera na composição. De costas.cetiqt. nos dá a impressão www. com quem o artista conversa. Uma rosa vermelha. parece um homem comum – um típico cidadão alemão.br/redige │3 │ . tem. REDIGE v. 1973. com a feição de quem está dialogando. que podemos notar em primeiro plano entre os dois. acima do tórax. O homem. 4 (Edição Especial). Fonte: Beuys. vemos um homem (desfocado) também sentado. Observamos uma imagem do próprio artista. vestindo um paletó azul e o que parece ser um par de óculos típico da década de 1970. enquanto eles se encontram perifericamente à esquerda. muito longa. O cartaz apenas nos permite ver a parte superior dos corpos das duas pessoas. realizado um ano antes por Joseph Beuys a partir da sua participação na Documenta V de Kassel. ______________________________________________________________________________ Figura 2 – Uma rosa pela democracia direta. contudo. 2013. Manoel Friques.senai. que aparentemente se encontra sentado.

Através destas e de outras obras. Manoel Friques. ele dialogava sobre diversos assuntos visto que sua intenção era entrar em contato com o público. Quando nos deparamos com o título do mesmo – Não conseguiremos sem a rosa – obtemos esta certeza. Beuys passou 100 dias conversando com as pessoas que visitavam a Documenta. Paloma Santos. Do ângulo em que a foto foi tirada. e um livro – Cada Homem um Artista. a Documenta foi concebida como uma resposta direta às políticas do terceiro Reich em torno da ‘arte degenerada’. Ao longo dos anos. Torna-se de extrema importância o conhecimento e a contextualização no qual a obra foi produzida: para a quinta Documenta da cidade de Kassel. que parece ser um copo. Joseph Beuys como um articulador e um idealizador. que reúne as conversas de um final de semana. 2013. É interessante atentarmos para o fato de a comprida rosa vermelha estar como ponto de destaque do cartaz. dentre eles.br/redige . antes de tudo. Vermelho e delicado.senai. Está colocado dentro de um recipiente de vidro com água.cetiqt. uma articulação do pensamento. o artista consegue mostrar ao mundo uma única ideia: o princípio de que a arte é antes de tudo uma ação pública. As falas registradas em livro e a imagem descrita anteriormente ressaltam. enquanto os outros dois ocupam 1/3. a rosa ocupa 2/3 do quadro. Os mais importantes artistas da época expunham lá. e Beuys utilizava essa ambiência como um elemento de sua própria poética.Camila Reis. no contexto da Europa Oriental. o cartaz Não conseguiremos sem a rosa. o artista produziu alguns objetos. Filosofia e Ativismo Social”. já podemos perceber que a força do cartaz se encontra na rosa. Da interação com os visitantes. Para finalizar. um espaço onde a liberdade de expressão poderia ser alcançada”. ministrada por Antonio D´Avossa em 16 de setembro de 2010 no SESC Pompéia. │4 │ 1 www. ______________________________________________________________________________ de ser muito maior do que sabemos que ela é. o botão da rosa está entreaberto. jul.1 Informações retiradas da palestra “Joseph Beuys: Arte. Neste momento. a exposição veio a significar. REDIGE v. de manhã até ao anoitecer. Segundo o site oficial da Documenta. temos a assinatura do artista começando exatamente no botão da rosa. Em sua contribuição para o evento. “durante a reconstrução cívica alemã no início dos anos 1950. 4 (Edição Especial).

necessariamente. a si mesmo. o espectador não só é levado a transformar o seu entorno. jul. seja na forma de cartazes. o artista quer provocar no espectador uma mudança de postura e de comportamento. a escultura é imaterial. Nas duas obras analisadas. do bloqueio com relação à produção artística: www.br/redige │5 │ . na maneira como nos colocamos na pólis.Camila Reis. Uma melhor compreensão de sua poética deve. da interação com o público. Política no sentido grego da palavra. mas nem por isso deixa de ser concreta. 1 O PODER SIMBÓLICO NA OBRA DE ARTE A produção artística de Joseph Beuys é subsequente à transferência do eixo econômico e cultural da Europa para os EUA. As suas crenças transbordam para o seu fazer artístico. múltiplos. passar pelo contexto de sua produção. Paloma Santos. a obra de Beuys não pode ser reduzida a um mero discurso político. 4 (Edição Especial).cetiqt. segundo o próprio Beuys. é inevitável que no campo das artes esta crise se dê através do congelamento. se apresentar o configura em um determinado tempo. REDIGE v. planificados sob uma abordagem mais empírica. ______________________________________________________________________________ Com isso. com isso. Como era possível uma cultura que possui como alicerce a ciência e a razão poder “aceitar” os horrores da guerra? Neste sentido. onde todos os significados são. “Todo homem é um artista”.senai. 2013. enfim o contextualiza. sobretudo. o insere ou o desvincula a um determinado grupo. Essa maneira do indivíduo se colocar. da noção clássica ou tradicional de escultura. que se configura em uma atitude política. vídeos. Pois. a crise europeia chega ao seu ápice. não apenas no sentido econômico e estrutural dos países destruídos. a escultura só se torna possível a partir da troca. entendida como a representação de imagens plásticas em relevo sobre um determinado material. ou “conversas” (como as do gabinete). performances. É neste sentido que encontramos o conceito de Escultura Social: no momento do diálogo. Após a Segunda Guerra Mundial. mas principalmente uma crise de identidade. mas. exposto a seguir. em certa medida. Beuys está esculpindo – ele acredita. Não se trata. Contudo. caracteriza-o como sendo de “tal” ou “qual” maneira. com base na experimentação e tentando liberar-se da tradição europeia. lugar ou espaço. Manoel Friques. No caso de Beuys.

Ibid. por exemplo. operando de maneira inversa com a indústria de massa. das formas da indústria cultural. Desse modo. na democracia: Assim se explicam a action painting e a arte pop. ímpeto criativo. www. inteiramente empenhada no esforço produtivo e na acumulação capitalista. que despertara a cadente dialética das correntes após a Primeira Guerra Mundial. cria uma condição geral de inibição e neurose” (Id.(ARGAN.br/redige │6 │ . Paloma Santos. 508) Nesse sentido. mas justamente por isso ela é. (Id) Inversamente. Manoel Friques. era ilusória. em termos objetivos. a “criação imediata de fatos estéticos”. 507) Entretanto. a bomba atômica. segundo Giulio Argan (2006). produzam-se atos criativos. não é possível que. comparada à arte europeia. 2013. p.508). a arte é a não inibição num mundo onde a inflexível ‘regularidade’ da vida social. porém. ______________________________________________________________________________ A dificuldade da relação entre arte e sociedade. (ARGAN. Não que a imagem existencial apresentada pela arte americana seja mais otimista do que na Europa. REDIGE v. Na origem. 2006. a arte americana vem como um impulso. é sustentada por uma sociedade de consumo. a arte americana surge como uma arte que se permite dialogar com os moldes do American Way of Life. simultaneamente. p.cetiqt. repleta de ímpeto criativo. confrontando o desencantamento do mundo operado pelo consumismo. p. sempre pronta a correr em auxílio dos oprimidos. jul. os campos de extermínio. assim como ilusória era a imagem de uma América democrática. Beuys retoma fortemente imagens tradicionais da cultura europeia. mais vital. quando. que a sociedade americana aceita alegremente como sua contrapartida: na realidade. O artista alemão coloca essas questões no cerne de seu trabalho artístico e provoca uma tensão característica dos anos 1960. ao menos idealmente. voltada ao trabalho e à acumulação de capital: “Afinal. Uma arte que se apresenta a partir de uma potência. 4 (Edição Especial). essa arte imediata e “vital”. iminente e talvez já tivesse ocorrido. Ela vem como um sopro de criatividade dentro de uma sociedade “planejada” e fundada. agravara-se depois da Segunda Guerra a ponto de levar a crer que a “morte” da arte era inevitável. a saúde esfuziante que parece caracterizar a arte americana.Camila Reis. como uma força desafiadora do ser humano: O que na Europa traz o signo de uma dedução final e constitui o documento desesperador de uma civilização em crise. 2006. nos Estados Unidos é descoberta. Beuys terá na Europa a dimensão de um contemporâneo norte-americano como Warhol. invenção.senai. Andy Warhol e Claes Oldenburg estão aproveitando o esvaziamento simbólico dos objetos. há uma revolta moral: numa sociedade que aceita o genocídio.

______________________________________________________________________________ Uma de suas estratégias é a escolha atenta de cada elemento. que ganha biografias. nela. de organização e de expressão foram suprimidas com uma nova constituição em 1933. Com o golpe militar em 1926.46). frutos de um mesmo contexto: as conquistas sociais da década de 1970. em contato direto. jul. O mesmo ocorre quando vemos os cravos nos canos das armas: ali não é terreno fértil para que nasça um flor. É o que percebemos num primeiro momento. com uma luva de boxe. de certa maneira. Paloma Santos. www. numa ação pacífica. narrativas e relevância ao ser reutilizado em diversas peças. mas não menos participativa ou eficiente. por exemplo. chama de punctum: “o punctum de uma fotografia é esse acaso que. que derrubou o regime ditatorial de Antônio Oliveira de Salazar no ano 1974. Salazar instalou um regime inspirado no fascismo italiano. Movimento ocorrido em Portugal. 2013. REDIGE v. o que ele faz literalmente. aquilo que salta aos olhos assim que nos deparamos com a imagem. portanto.Camila Reis. a incorporação da rosa no cartaz de Beuys é o que Roland Barthes. Manoel Friques. a humanizar os guardas. na revolução. De certo modo. p. me punge (mas também me mortifica. Os cravos vermelhos dispostos nos canos das armas dos militares dialogam paradoxalmente: a beleza das flores e a frieza e a rigidez das armas. É importante ressaltar que a revolução é posterior à origem do cartaz e múltiplo – apenas em um ano –. Essa comparação dá-se primordialmente no âmbito de seu discurso. em seu livro Câmara Clara (1984. A relação dialética – ao discordar da indústria de massa utilizando recursos da mesma – e. mas que. seduz o espectador a participar.senai. me fere)”.br/redige │7 │ 2 . didática dessa operação está em não sublimar o pensamento discordante (no caso. possuem um diálogo comum. As liberdades de reunião. até mesmo ritualística. 4 (Edição Especial). A rosa promove uma mudança de atitude: na Documenta. mas entrar em confronto. que remetem-nos à histórica imagem da Revolução dos Cravos2. da sua mensagem.cetiqt. com o cartaz e o título da obra “Não conseguiremos sem a rosa”. o estilo de vida norte-americano). numa profundidade xamânica. Há uma ligação no que diz respeito ao potencial imagético desses dois.

ele enfatiza a mudança de mentalidade e de comportamento: em como vemos o mundo e nos comportamos nele. Está claro que possuem uma importância. ou seja.pt/articles. cultural. a obra “Não conseguiremos sem a rosa”. 4 (Edição Especial). Obviamente. pondera-se porque. ______________________________________________________________________________ Figura 03 – A Revolução dos cravos. ganham uma conotação ampla.com. esquecê-lo: Ideologia política de esquerda surgida no final do século XIX por partidários do marxismo. 2013. As flores não se configuram apenas em força estética. No ato de dar uma rosa a alguém. como sugere também a sua narrativa biográfica. REDIGE v.php?article_id=1094 Esses elementos equivalentes (rosa e cravo) se destacam. mas também em força de representação simbólica. tanto se discute e considera para a sua poética a narrativa sobre seu resgate na Crimeia – se esta é verídica ou não? É grande a polêmica. Manoel Friques.3 cujos defensores acreditavam ser possível uma transformação social a partir da luta não armada. Benjamin Buchloh acredita que a operação de Beuys é toda falsa. sem o uso da força. remete à figura histórica da militante revolucionária da Social Democracia Rosa Luxemburgo.br/redige │8 │ 3 . afinal.enciclopedia. ou colocar um cravo numa arma. Efetivamente.Camila Reis. Dentre os muitos elementos existentes nesse sentido na poética de Beuys.senai. jul. Fonte: http://old. a rosa vermelha foi escolhida como símbolo da Social Democracia. e nos fazem pensar o porquê de suas escolhas. Esta ideologia que acreditava que a transição para uma sociedade socialista poderia ocorrer sem uma revolução. querendo apagá-lo. estamos realizando um gesto terno e pacífico. e até mesmo mítica. www.cetiqt. mas por meio de uma evolução democrática. Paloma Santos. que Beuys nega o passado alemão. Quando Beuys diz “não conseguiremos sem a rosa”.

then the felt of their tents. But I must have shot through the widescreen as it flew back at the same speed as the plane hit the ground and that saved me. fat and milk. (Id. and favored neither side. That’s how the Tartars found me days later. Yet it was they who discovered me in the snow after the crash. (BUCHLOH. (BEUYS apud BEUYS. difícil de ser verificada: Had it not been for the Tartars I would not be alive today. and the dense pungent smell of cheese.. ‘Du nix njemcky’ they would say. ‘du Tartar’ and try to persuade me to join their clan. The last thing I remember was that it was too late to jump. just as it tries to perpetuate them by obscuring historical facticity. leite e. by now having achieved proportions that make any attempt to question it or to put into historic perspective an almost impossible critical task. entretanto. and often wandered off to sit with them.. Manoel Friques. p. Their nomadic ways attracted me (. in what was then no man’s land between the Russian and Germany fronts. 4 (Edição Especial). Then the tail flipped over and I was completely buried in the snow. I had already struck up a good relationship with them. que tipo de relação o artista poderia ter desenvolvido com essa população a ponto de. O mais importante são os elementos – queijo. efetivamente.Camila Reis. 2013. feltro e gordura – que Beuys incorpora em toda sua poética.14) Como piloto da Força Aérea Alemã.200) Buchloh continua sua linha de pensamento afirmando que através do mito – sobre a figura de Beuys e de seu trabalho artístico – a Alemanha do pós-guerra encontra lugar para retirar prematuramente a “culpa” e a responsabilidade dos fatos que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial: In the work and public myth of Beuys the new German spirit of the postwar period finds its new identity by pardoning and reconciling itself prematurely with its own reminiscences of a responsibility for one of the most cruel and devastating forms of collective political madness that history has known. So the memories I have of that time are images that penetrated my consciousness. GOMES.cetiqt. I remember voices saying ‘Voda’ (Water).).. p. and by then I was back in a German field hospital. is a result of these conditions. That must have been a couple of seconds before hitting the ground.) My friend was strapped in and he was atomized on impact – there was almost nothing to be found of him afterwards. jul. Beuys teve seu avião abatido na região da Crimeia. 2010. ter sido convidado a participar do clã? Difícil dizer. www. principalmente. dentro dessa imagem romantizada de seu salvamento. Beuys elabora uma narrativa biográfica complexa. 2001. REDIGE v. ______________________________________________________________________________ The public myth of Beuys life and work. p.. though I had bad skull and jaw injuries. Luckily I was not strapped in (. I was still unconscious then and only came round completely after twelve days or so. Afinal. Ibid. when the German search parties had given up. Paloma Santos. too late for the parachutes to open. Muitas questões são ambíguas.br/redige │9 │ .senai. They were the nomads of the Crimea. They covered my body on fat to help it regenerate warmth and wrapped it in felt as an insulator to keep warmth in.203) De fato.

ou pior. GOMES. Nem verdadeiro nem falso. mas relativa num sentido radical. 2 O ÍNDICE E A OBRA ABERTA NA POÉTICA BEUYSIANA Para Jean-Philippe Antoine. o uso de matérias como o feltro e a gordura.br/redige │10│ . Júlio do Carmo Gomes no livro Cada Homem um Artista (2010) entende que essa operação é um recurso que produz uma verdade artística autônoma. independente dos fatos. Beuys cria índices. O que Buchloh parece não compreender é que o mito sobre a persona de Beuys legitima o conjunto de sua obra artística. Portanto. jul. (Id. p.. independente dele esquecer. promover debates democráticos. Paloma Santos.16) Contrário a Buchloh. p. a partir desse olhar. o holocausto e as suas implicações. da forma como o criador alemão lida com a História.. e a produção de um discurso evocativo do nascimento do sujeito). na realidade. o autor comenta a posição de Buchloh sobre a persona de Beuys: O historiador de arte Benjamim Buchloh no ensaio: The Twilight of the idol denuncia a verve ficcionista de Beuys na elaboração da sua biografia e considera a retórica do artista alemão um sintoma de uma tendência cultural para evitar o confronto com um passado traumático e subterfúgio para fugir ao envolvimento com o nazismo. 2010. importa a Beuys levantar discussões. Ibid. pelo espectador. não símbolos.senai.] a crítica a um Beuys mitificador parece ter metido no mesmo saco a verossímil tentativa de o artista alemão procurar com essa narração legitimar parcialmente o seu trabalho artístico (nomeadamente. mas sim com sua “própria verdade”. REDIGE v. Manoel Friques. (BEUYS. 2013. a relação entre a poética de Beuys e a História seria algo operado. podemos compreender que a arte não possui compromisso com uma “verdade absoluta”. e onde nenhum predicado é racionalmente pertinente para colaborá-lo ou negá-lo (Id) Ou seja. o artista apenas sugere certas interpretações ao colocar objetos em contextos específicos. ______________________________________________________________________________ Dentro dessa consideração não biográfica.15) Mais à frente. Sob essa ótica. que já carregam em si uma potência de www. sem que sua atuação derive numa conclusão unânime.Camila Reis. mas poética. Gomes ratifica sua opinião com relação ao “compromisso com a verdade” dentro do fazer artístico: O que o crítico norte-americano parece ignorar é que o mito funda-se (e funda) numa autoridade relativa. Assim. falsificar o passado histórico alemão dentro de sua obra: [.cetiqt. 4 (Edição Especial)... para o autor.

2009... e. 4 (Edição Especial). por meio do ‘duro labor da rememoração’. DANTO. dando-os à experimentar. Danto on Joseph Beuys.br/redige . (BARNEY. I believe these ideas are sympathetic with those of Beuys. 2006. mas também. de modo amplo na Europa. ele só pode ser 4 Ciência fundamentada por C. 169-170) Para uma melhor compreensão. pesados pedaços disjuntos de maquinário ou suas reproduções fragmentares. Exibir os sintomas do mal. ou seja. blocos de gordura. │11│ www. And as the primary objective of this system is to generate sculpture.. a fim de. No ensaio A Dialogue on Blood & Iron: Matthew Barney and Arthur C. Paloma Santos. salsichas ressecadas. ______________________________________________________________________________ significação.] Esse fio condutor encontra sua expressão no papel de ‘muleta’ ou de ‘acessório para lembrança’ (Erinnerungstütze) destinado à produção beuysiana. É uma colagem aberta.] se o signo aparece como simples qualidade. ou seja. p. REDIGE v.senai. Retornando ao pensamento de Antoine.62) Seguindo essa linha. pegaremos como apoio a semiótica4 e a definição dos três tipos de signos. numa operação contrária a de Duchamp. jul. Começaremos pelo ícone que possui qualidade de primeiridade (sentimento. feltro.cetiqt. Beuys joga com elementos de grande potencial simbólico. curar o corpo social. ao equilíbrio dinâmico de forças.. na sua relação com o seu objeto. a atenção de Beuys é toda voltada para a ativação do espectador: Os trabalhos de Joseph Beuys definem um corpus cuja compreensão abandona o espectador inadvertido no desamparo. the narrative remains abstract – a way to leave space for more specific distillation in the form of sculpture. sem recurso imediato: objetos residuais. and has an intentionally open-ended structure that invites the audience to complete the story. mas não fecha um significado narrativo. sintático. e a comparam com a narrativa que Barney propõe em suas obras. mas não são conectados a outros de forma a fazer um sentido lógico. uma vez identificados. lascas de unhas. Barney e Danto também dialogam sobre essa “narrativa aberta” existente nas obras de Beuys. efetivamente. narrativo. tornar possível uma tomada de consciência que orienta o retorno à saúde. Manoel Friques. nada disso reivindica pertencimento à arte [. 2013. Peirce que estuda as linguagens verbal e não verbal. p. Segundo Matthew Barney: […] Its narrative is more a proposal. imediaticidade) com o seu interpretante: “[. exibir os sintomas da doença da cultura que tornou possível tal catástrofe. publicado na revista Modern Painters. detritos usados de um cotidiano essencialmente biográfico. no âmbito de um vasto projeto social e político: superar o trauma causado pela Segunda Guerra Mundial e pelo nazismo na Alemanha. (ANTOINE. os elementos das obras são figurativos.Camila Reis.S.

observamos que o índice necessita que haja. mencionados por Antoine. por sua vez. uma terceira vez. Nesse sentido. Manoel Friques.” (Id).Camila Reis. pegadas. (BEUYS apud ANTOINE. Ibid. obtemos uma interpretação interessante contida no livro O que é Semiótica sobre os índices: “Rastros.. resíduos. 2009. REDIGE v.. Ligando-o ao fazer artístico: “Qualquer produto do fazer humano é um índice mais ou menos explícito do modo como foi produzido.” (Id). o índice é sempre dual. remanências são todos índices de alguma coisa que por lá passou deixando suas marcas” (SANTAELLA. Como signo que possui qualidade de secundidade (experiência. uma crença do artista que perpassa toda sua obra.br/redige │12│ . uma conexão de fato. antes de mais nada. Dessa maneira: “[.67). talvez mesmo um ideal político: Uma interpretação prematura destrói o impacto de uma imagem. 2004 p. 2004. 2013. concreto. Elas se apresentam”. entre ambos.) Podemos compreender assim o porquê do uso de índices em Beuys: esta categoria peierciana proporciona ao espectador infinitas interpretações.] indica uma outra coisa com a qual ele está factualmente ligado.” (Id. www. uma segunda. por parte do interpretante. factualidade do existir).66). determina que aquele signo represente seu objeto. Entendemos então que os ícones são “poros abertos à simples e despojada possibilidade qualitativa das coisas.169) Ligando os materiais usados por Beuys. em relação ao seu objeto o signo é um símbolo.senai. essa leitura: “Mas só funciona como signo quando uma mente interpretadora estabelece a conexão em uma dessas direções.63). 4 (Edição Especial). Nessa medida..” (Id) Por fim temos o símbolo.” (Id). vivê-la. p.” (Id. p.66). ligação de terceiridade (análise pronta). (SANTAELLA. Contudo. temos o índice: “O índice. p. parece haver na obra de Beuys a supremacia do índice sobre o símbolo. o índice como real. por convenção ou pacto coletivo. definindo. 2004.” (SANTAELLA. ______________________________________________________________________________ um ícone. Só depois a interpretação se tornará interessante. isto porque qualidades não representam nada. Devemos.cetiqt. Para uma maior compreensão da obra de Beuys: “Enfim. uma primeira. singular é sempre um ponto que irradia para múltiplas direções.] extrai o seu poder de representação porque é portador de uma lei que. ligação de uma coisa com outra. jul. como seu próprio nome diz [. Paloma Santos. p.. Há. que possui uma definição extremamente direta: “Sendo uma lei.

Aquele símbolo. o artista cria flores “chapadas”. De maneira comparável. Ao contrário de Beuys.] o mais proeminente é o seu caráter físico-existencial.cetiqt. temos uma das obras da série As Flores de Andy Warhol.. p. apesar de trabalhar com objetos que têm significados fortes e precisos. deslocado de seu contexto original. podemos entender que a rosa remete a esta significação. apontando para uma outra coisa (seu objeto) de que ele é parte.67). Andy Warhol e Claes Oldenburg descontextualizam objetos cujas funções são definidas pela indústria de massa.br/redige │13│ . Na imagem abaixo. Elas possuem significados como objetos de desejo dentro da indústria de massa. apenas indicativa. Por sua beleza e delicadeza. No cartaz e no múltiplo aqui analisados. por exemplo. Manoel Friques. sugerida pelo artista. Porém.Camila Reis. 2013. 2004. Ao estetizá-los. dentro do universo da moda. tem-se a rosa como signo indicativo: “[. Podemos observar nessa obra a planificação das flores. permite a dimensão poética e aberta da significação múltipla. Dessa maneira. São constituídas apenas por uma cor. Assim..senai. Beuys. REDIGE v. Paloma Santos. permitindo assim uma construção sutil que não pode restringir-se a uma mera comunicação narrativa. www. As Flores de Warhol não possuem valor poético ou simbólico quanto à sua origem. Com a técnica de silkscreen. observa-se que este elemento possui um significado determinado e inconfundível enquanto símbolo internacionalmente reconhecido da Social Democracia.” (SANTAELLA. e colocado numa situação onde o significado do “todo” não é definido. o espectador sabe que essa ligação é indireta. 4 (Edição Especial). sem volume e com pouca definição quanto à sua forma – não podendo ser identificadas quanto à sua espécie. como se fossem grandes borrões de tinta. esses objetos são esvaziados de suas funções. ______________________________________________________________________________ No caso da rosa vermelha. a rosa representa a história da defesa da luta não armada. é capaz de abri-los. jul.

dentro da rubrica artevida: “[. Fonte: Warhol. Warhol apresenta uma imagem que já “consumida”. mas sim no momento em que podemos empregar o potencial criativo em nossas vidas.br/redige │14│ . causando um estranhamento quando não definidas em um discurso sólido. só que em direções contrárias. Já Beuys eleva o potencial humano. tratada como resíduo de seu original – seu valor é puramente estético. REDIGE v. ao se referirem ao fazer artístico. 2013. A partir da mesma operação. essa ambição de convidar o espectador a participar da obra é característica dos movimentos artísticos da década de 1960. entretanto. Desta forma. Paloma Santos. porém em linhas contrárias de significação.] para numerosos artistas desse período (1960). ______________________________________________________________________________ Figura 04 – Flores. a “todo homem é um artista” de Beuys. a ponto deste ser tão frágil. Seríamos todos artistas. podemos analisar a famosa frase de Warhol. jul. Nestas duas frases podemos perceber semelhanças. Warhol esvazia o valor do fazer artístico. Voltando ao público. Como outro termo de comparação.cetiqt. Portanto: www. 1967. que sua relevância duraria apenas 15 minutos. mostra-nos uma sociedade onde a fama e o sucesso podem ser momentos efêmeros. a força subversiva da arte residia em seu caráter efêmero.senai. Beuys e Warhol ressignificam os símbolos em suas obras. Enquanto Beuys apropria-se de formas que possuem forte significação histórica.Camila Reis. diz que todos possuem potencial criativo. 4 (Edição Especial). Manoel Friques. aberto e reprodutível […]”. “todos teremos 15 minutos de fama”.. não artistas reconhecidos..

2009.” (ANTOINE. p. 2004. jul. A partir desse fato. É neste contexto que podemos compreender a escultura social proposta por Beuys. A linguagem pode ser entendida como um meio de se fazer arte de uma maneira abrangente. Faz uso de um material intrínseco e inerente a todo ser humano. a sua capacidade simbólica.176). a formação do pensamento já é escultura. entender que Beuys buscava rever o espaço institucional da obra de arte e. Pensar é esculpir. Essa “escultura” começa a ser modelada a partir de uma ideia ou de um pensamento.Camila Reis. sendo de uma maneira corporalmente ativa – comum aos movimentos artísticos da década de 1960 – ou mentalmente. o público é convidado a sair do lugar da mera contemplação estético-visual da arte para fazer parte dela. 2013. a linguagem é escultura. Como conclui Antoine: “Modelagem plástica do ar pela boca e laringe a palavra fabrica uma ‘impressão na matéria’ sem a qual o acontecimento do sentido não ocorreria. ______________________________________________________________________________ […] a instabilidade da representação é desencadeada pelo ‘deslocamento do espectador’.br/redige │15│ . Manoel Friques. 3 A ESCULTURA SOCIAL DE JOSEPH BEUYS A escultura social se encontra no âmbito da linguagem e do pensamento. eu faço mexer minha boca. REDIGE v. através da língua e da boca. 4 (Edição Especial). p. então. separada das condições espaço-temporais. apud ANTOINE. A partir desse deslocamento. cessa daí por diante de ser estática.84) Podemos. O que apaga a fronteira entre a obra e o espaço do espectador. Em ambos os casos. 176).senai. Era necessário ir contra esse espaço tradicional. Eu mexo minha laringe. modifica-se a atitude do espectador em relação à arte. o espectador é convidado a participar das obras. a linguagem é a sua massa modeladora e que é esculpida no momento da fala. E. já dizia Beuys: “Para mim. Podemos entender melhor a intenção de Beuys na criação do múltiplo e do cartaz “Não conseguiremos sem a rosa” e “Uma rosa pela Democracia Direta”. O ato de www.cetiqt. vivê-la. Paloma Santos. como podemos observar em Beuys. era necessário deslocá-lo ou subvertê-lo. p. dessa forma. e antecipa já virtualmente a interação entre eles. e inscreve-se em uma situação dada que deve ser considerada. e o som é uma forma elementar de escultura” (BEUYS. (HOHLFELDT. bem entendido. 2009. fazendo de todos nós possíveis escultores.

Eles devem provocar reflexões sobre o que a escultura pode ser e sobre como o conceito de escultura pode ser expandido para materiais invisíveis usados por todos. tem sua própria lógica interna. e sim com a forma poética com que um conteúdo será elaborado coletivamente pelas pessoas: Meus objetos têm sido estimulados para a transformação da ideia de escultura ou da arte em geral. ressecamento. estaríamos esculpindo junto a ele. 49). por assim dizer. Como podemos observar na citação acima. não estão em si próprias abertas a uma modificação extensa.131) Dentro dessa lógica. O cartaz indica o caminho. 4 (Edição Especial). 2006.cetiqt. 1984. Essa www. Manoel Friques. ainda que possam ser aplicadas a uma variedade de situações.Camila Reis. p. Parece que a lógica da escultura é inseparável da lógica do monumento. mudanças de cor. uma escultura é uma representação comemorativa — se situa em determinado local e fala de forma simbólica sobre o significado ou uso deste local. Graças a esta lógica. percebemos como a escultura social faz uso de características fundamentais à escultura – assim como as de monumento. fermentações. em Beuys tudo se encontra em estado de mudança. Isto porque a natureza da minha escultura não é fixa e nem finita. nesse momento. É a arte feita do homem para o homem. do homem é a obra de arte mais importante. A transformação das coisas e. seu conjunto de regras. todos como artistas. Logo. mais especificamente. 2013. como podemos formar nossos pensamentos em palavras ou. O processo continua na maioria delas: com reações químicas. Apesar dessa transformação. Como podemos moldar nossos pensamentos ou. e ela pode ser feita através da escultura social. decadência. quando o artista diz que a partir da rosa poderemos mudar algo: propagá-la ratificaria o pensamento do artista. até mesmo as suas obras palpáveis. Paloma Santos. como nós moldamos e damos forma às palavras nas quais nós vivemos: a escultura como um processo evolucionário. assim como qualquer outro tipo de convenção. as quais. ______________________________________________________________________________ dar a rosa à alguém transmite a intenção sugerida por Beuys. Essa ação incitaria ao pensamento e. jul.senai. REDIGE v. podemos notar que a noção de escultura social do artista está intimamente ligada à lógica do monumento que pautou as produções escultóricas até o século XIX: A categoria escultura.br/redige │16│ . Tudo em estado de mudança. e o múltiplo transforma a sua ideia em ação. p. (BEUYS apud PORTUGAL. a escultura social não está preocupada com suas características puramente estéticas. (KRAUSS. É o multiplicar do múltiplo.

). compreendida e utilizada.br/redige │17│ . Logo. 14). o sentir e o querer. As ideias tomarão forma. a participação do espectador. In: FARKAS.cetiqt. o foco da sua obra é fazer o espectador sentir. Manoel Friques. para as formas. 4 (Edição Especial). e a transferir. se encontra representada no próprio indivíduo que a constrói a partir do diálogo com o outro. Esse novo tipo de escultura é feito através da verbalização. faz-se necessária a colaboração do outro. este homem possui. só se “materializam” no momento que são divididos com o outro. Paloma Santos. Entretanto. REDIGE v. se prosseguir inabalável. para Beuys é o melhor meio de comunicação e o mais eficaz – o melhor veículo para transmitir suas ideias. entretanto. Ibid. Se o pensamento não falhar nessa tarefa. O artista (incluindo todos nós) não faz uma obra de arte sozinho. que. ______________________________________________________________________________ escultura que é social (e que precisa da interação entre indivíduos) e que tem no homem sua massa modeladora e seu escultor. jul. do uso de pensamentos. Podemos perceber que. quando são passados adiante. a escultura social se concretiza: Meu caminho passava pela palavra. A arte me levou ao conceito de uma escultura que começa na palavra e no pensamento. p. esse potencial criativo precisa ser compartilhado. é uma maneira de todos serem colaboradores e coautores. tanto o local a que esta escultura pertence quanto o seu significado: As esculturas funcionam portanto em relação à lógica de sua representação e de seu papel como marco.senai. (BEUYS apud D´AVOSSA. ao mesmo tempo. por mais que pareça estranho.. Quando percebi que a palavra seria também uma via única. pois sua arte investe no campo da transformação social.Camila Reis. ela se torna tão presente. aparecerão as imagens que espelham o futuro. daí serem normalmente figurativas e verticais e seus pedestais importantes por fazerem a mediação entre o local onde se situam e o signo que representam. 2010. na arte de Beuys. A escultura social defende que todos somos artistas e que podemos desenvolver o nosso potencial criativo. logo a sua arte. pensar e refletir. a linguagem. 2013. www.. Nada existe de muito misterioso sobre esta lógica. então decidi-me pela arte (. que aprende a construir ideias com a palavra.136) Assim. Aí sim. (Id. não provinha do chamado talento artístico. foi fonte de enorme produção escultórica durante séculos de arte ocidental. p.

2001. para uma nova visão de arte.). cobre e feltro que possuem o dever de transmitir tais conceitos. 2010. Beuys transmite ideias aos seus alunos. pois lecionava a maioria delas apenas palestrando do lado de fora da faculdade. loc. (GOMES apud BEUYS. os ensinamentos do professor seguiam seu curso e corroboravam sua teoria. Joseph Beuys era um pedagogo. jul. Beuys tinha uma vida pública diária. GOMES. através da análise dos fatos históricos e míticos relacionados à vida do artista. p.cetiqt. Assim suprime a primazia do individualismo no complexo coletivo social. sangue. A arte de Beuys deve ser compreendida para além da mera exposição do fazer artístico. “Não conseguiremos sem a rosa” e “Uma rosa pela Democracia Direta” podemos perceber. onde possuía muito carisma entre os alunos. Manoel Friques. 2013. alimentos. ______________________________________________________________________________ CONCLUSÃO Para além de sua ocupação como artista. O artista retira o espectador da pura contemplação e o recoloca no papel de participantes pensantes de suas obras. Suas aulas logo se tornaram polêmicas. Dedicava-se totalmente a esta função. www. Com o uso de materiais como a gordura. Beuys acreditava no puro poder da palavra. (BORER. diferindo do mero ensino de técnicas do fazer artístico. cit. onde o material cobre é usado como o fio condutor de ideais –. A partir do estudo de duas obras de Joseph Beuys. Uma arte preocupada com a criatividade ampliada. Joseph Beuys foi professor na faculdade de Belas Artes de Dusseldorf.senai. logo. propaga o pólen rumo ao processo da mudança pessoal e social. O seu compromisso pedagógico é uma prova irrefutável da reflexão global que fez constantemente sobre o presente e o futuro e o papel que pode caber ao ser-aluno de resistir à aniquilação do humano – naquilo que nele é capacidade criadora e potência para a autonomia – risco a que se submete o indivíduo-aluno face aos valores dominantes da sociedade burguesa. renovadora e.44) Dessa maneira. um condutor – em referência aos Fond (BEUYS. a sua função de professor ultrapassava os limites da sala de aula. Enquanto professor.. estava preocupado em mostrar o caminho para uma nova percepção da vida humana. cit.br/redige │18│ .Camila Reis. Para o artista. libertadora – não simplesmente estática. como esses influenciaram a sua poética. principalmente. Como um pedagogo. p.20) assim o nomeia como “o condutor de almas”. REDIGE v. 4 (Edição Especial). Paloma Santos. op. enquanto comunicadora de conceitos.

individualista e mesquinha. e ainda mais inusitadamente contra o exercício desses poderes. que sugere uma mudança na nossa maneira de pensar e agir. Manoel Friques. a humanidade se encontra corrompida e doente. 2010. guerras e crises econômicas levaram a sociedade moderna ao seu limite material e espiritual. ao pensar a coletividade da ação artística.42). Quando Beuys falava sobre arte (‘de momento. ______________________________________________________________________________ Pelo exposto acima. ao explorar a força individual desses elementos. Beuys quer romper com as hierarquias dominantes das esferas sociais e culturais.br/redige │19│ . o artista trabalha com índices e não símbolos. é necessária uma mudança de postura. seja no ato de darmos uma rosa a alguém ou ao contemplá-la. fundamentada no mito. onde a rosa – que pode ser lida como um forte símbolo da Social Democracia – aparece como um índice. (GOMES apud BEUYS. (GOMES apud BEUYS. transcendendo a crítica hermenêutica da política de arte para fundar uma prática crítica de arte política. porque acredita que o objeto da política é a liberdade. É possível notarmos essa operação em obras como o cartaz e o múltiplo. uma nova forma de nos colocarmos no mundo em que vivemos. Desse modo: Beuys perturba o mundo da arte e dos seus poderes (e da estabilidade desses poderes) assumindo o papel do dissidente. observa-se. é preciso se libertar dos antigos padrões e isto é uma forma de se fazer arte e principalmente uma maneira de se fazer política. a relação entre arte e política e a Escultura Social existentes na poética de Beuys. p. como forma operativa. eu já não pertenço à arte’) falava sobre a sociedade e o ser humano. portanto. apesar das incertezas referentes à sua biografia. possibilita ao público inúmeras formas de leitura. Sendo assim. de uma forma não narrativa. 4 (Edição Especial). Dessa forma. 2013. verificamos que. jul. sendo agora necessária uma mudança radical.senai. esta se torna política. Nesse sentido predispõe-se ao campo político. à ação na polis.Camila Reis.cetiqt.42) Isto faz pensar que. rumo à liberdade de escolhas e pensamento. e não por seu conteúdo: www. Paloma Santos. mas contra a linguagem do poder. não só contra a linguagem da arte. ao descontextualizá-los. É preciso injetar nosso capital de criatividade. A partir de sua figura. Segundo o artista. para uma mudança acontecer. que. o que importa na obra deste artista é a sua verdade artística. Beuys trabalha com importantes elementos de seu passado. É possível notar que. Assim. 2010. Todavia. p. GOMES. REDIGE v. Esta relação entre arte e política está colocada na obra de Beuys no sentido defendido por Jacques Rancière.

No entanto. REDIGE v. fora ou dentro. Paloma Santos. Joseph. (RANCIÉRE. este Homem deve ser esculpido socialmente por meio do pensamento livre de cada indivíduo. Logo. Arte Moderna. São Paulo: Cosac & Naif.senai." Joseph Beuys. ano XVII. Nova York: Setembro. Jean-Philippe. é educação e também política. face a ou no meio de. Para Beuys. Beuys indica: esta troca é a escultura social.] a arte não é política antes de tudo pelas mensagens que ela transmite nem pela maneira como representa as estruturas sociais. Rio de Janeiro: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais . BARNEY. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Em várias palestras. O que importa ao artista é que a sua arte levante discussões. 2013. 2010. Alain.. São Paulo: Companhia das Letras.. A Dialogue on Blood & Iron: Matthew Barney and Arthur C. Matthew. In: Modern Painters. 45) Dessa maneira. Porto: 7 Nós. promova questionamentos. Manoel Friques. Ela é política enquanto recorta um determinado espaço ou um determinado tempo. In: Arte & Ensaios. 2006. "Eu não trabalho com símbolos. mas depende da interação com o outro.cetiqt. 2006. 2010. BARTHES. em conformidade ou em ruptura com outras: uma forma específica de visibilidade. Júlio de Carmo (trad) Cada Homem um Artista.. A experiência e a construção da lembrança. REFERÊNCIAS: ANTOINE. Giulio. n. 1984. esse crescimento conjunto. 19. p. 2001. BORER. étnicas ou sexuais. mas também e antes de mais nada formas de reunião ou de solidão. Danto on Joseph Beuys. provoque estranhamento em seu público. 2ª ed.Camila Reis. A câmara clara: nota sobre a fotografia. DANTO. 2009. os conflitos políticos ou as identidades sociais. é muito importante essa ação coletiva.br/redige │20│ . www. uma modificação das relações entre formas sensíveis e regimes de significação. Joseph Beuys. BEUYS. O que importa ao artista é o Homem – como espécie – modelado através da arte. Arthur C. ARGAN.. Ela é política antes de mais nada pela maneira como configura um sensorium espaço temporal que determina maneiras do estar junto ou separado. Ele não comunica só conteúdos e também não resulta numa formação isolada. ______________________________________________________________________________ [. p. 4 (Edição Especial). velocidades específicas. GOMES. a escultura social ocorre no âmbito individual. 168-181. jul. R.EBA /UFRJ. enquanto os objetos com os quais ela povoa este espaço ou o ritmo que ela confere a esse tempo determinam uma forma de experiência específica.

n. 2006. n.) Joseph Beuys.PUC-RJ. Rio de Janeiro. HOHLFELDT.1. 2013.cnpq. REDIGE v.Camila Reis. Assistente de câmera e diretora de fotografia. FARKAS. 1984. Email: camila.nbareis@gmail. 81-89. Engenheiro de Produção (UFRJ) e Teórico do Teatro (UNIRIO). São Paulo: Brasiliense. Florianópolis: Revista de Estudos em Artes Cênicas do Programa de Pós-Graduação em Teatro – CEART/ UDESC. Mapping the Legacy. 45-59. 2010 . Política da Arte. Ana Catarina Marques da Cunha Martins. Jacques.cetiqt. Nova York: D. n. Rio de Janeiro: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais – EBA/ UFRJ. e do curso de Cinema da Universidade Gama Filho de 2000 a 2008.15.P. SANTAELLA. Bacharel em Comunicação Social pela UFRJ. In: Arte & Ensaios.cnpq. São Paulo: Sesc Pompeia. p. Rio de Janeiro: Revista semestral do Curso de Especialização em História da Arte e Arquitetura no Brasil . Paloma Santos. Marion. Rosalind. 111 f.com Paloma Carvalho Santos Mestre e doutora em História Social da Cultura pela PUC . 4 (Edição Especial). O pensamento de Joseph Beuys e seus aspectos rituais em ação. 2001. Manoel Friques. In: Gene Ray (ed. Catálogo de exposição. Benjamim. Professora dos Cursos de Artes das Faculdades Senai Cetiqt desde 2008. Possui bacharelado em Artes – Figurino e Indumentária pelo SENAI CETIQT. O que é Semiótica.A. Departamento de História. ano XI. Sub specie ludi Função e estrutura de uma "arte lúdica". Email: palomacarvalho@yahoo. 2006. p. Dissertação de Mestrado. Joseph Beuys: A Revolução Somos Nós. Email: manoel. RANCIÉRE. 1. Solange Oliveira. In: Urdimento. Currículo Resumido do(s) Autor(es) Camila Nogueira Barbosa Alves dos Reis Estudante de pós-graduação Lato Sensu em Museologia.senai. In: Gávea. PORTUGAL.br/6977735142712423 www.com Lattes: http://lattes. 2010. 2004. 2004. jul. atualmente é doutorando em História Social da Cultura pela PUC-Rio. A escultura no campo ampliado.com Lattes: http://lattes. Lúcia.Rio de Janeiro Linha de pesquisa: História da Arte.br/redige │21│ . vol. Beuys: The Twilight of the Idol. 11. ______________________________________________________________________________ BUCHLOH.br/4150417300695515 Manoel Silvestre Friques Manoel Silvestre Friques é editor de conteúdo do TEMPO-FESTIVAL das Artes (TEMPO-CONTÍNUO/site).friques@gmail. KRAUSS. Rio de Janeiro: PUC-RIO. Colecionismo e Curadoria do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Mestre em Teatro pela UNIRIO e professor dos cursos de graduação Design de Moda e Artes – Figurino & Indumentária no SENAI Cetiqt.