You are on page 1of 8

1 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE DIREITO DEPARTAMENTO DE DIREITO PRIVADO Mestrado em Justiça Administrativa

DISCIPLINA: Impactos Sociais das Decisões Administrativas PROFESSOR: Napoleão Miranda Carga horária: 45 horas/aula Créditos: 3

- Justificativa:

Talvez uma das mais controvertidas instituições nas sociedades contemporâneas seja o Estado, considerado essencial para a manutenção de uma ordem social sujeita a permanentes transformações em todos os âmbitos da vida em sociedade, mas, ao mesmo tempo profundamente questionado por, freqüentemente, se opor aos interesses dos membros das sociedades, quando individualmente considerados. Esta aporia social não se manifesta única e exclusivamente como resultado de um conflito entre a dimensão coletiva da ordem social e a busca do exercício individual da(s) liberdade(s), em particular nas sociedades ocidentais. Este conflito, que perpassa a história recente destas sociedades, tem implicações para além dos seus efeitos na esfera filosófica, jurídica ou política, especificamente falando. Ainda que expressando-se nestas esferas de maneira importante, podemos relacionar uma série de outras repercussões desta oposição entre a dimensão coletiva e a dimensão individual em nossas sociedades, com destaque para suas implicações sociais e econômicas. O Estado é visto historicamente como aquela instituição que expressa os interesses e necessidades coletivas, isto é, daquele conjunto de elementos sem os quais uma ordem social qualquer não se torna viável. Esta perspectiva filosófica e política, com profundas repercussões no plano jurídico, é absolutamente central para a manutenção de uma ordem social calcada, de forma aparentemente contraditória (mas só aparentemente, cumpre reconhecer), na liberdade e nos direitos dos indivíduos. Pois

2 é justamente uma ordem que concede aos indivíduos um amplo conjunto de direitos. regionais ou de outra ordem – e a administração pública. no entanto. e aqueles processos que colocam em pólos opostos entes privados – não importando se se trata de indivíduos. opondo-se aos interesses e comportamentos de seus membros. . Abril. sempre em mutação. a resolução de conflitos pela via do uso da força 1 HOBBES. de poderes ao Estado para administrar e aplicar. Thomas. a violência física como recurso último de manutenção da ordem social. a delegação. concreta e conceitualmente. não só a oposição Estado X indivíduo. diferenciações de caráter processual e substantivo entre os processos envolvendo atores privados entre si. 1974. espaço para a manifestação da sua personalidade particular e de suas idiossincrasias pessoais. sob pena de inviabilizar a plena aplicação dos princípios que garantem o acesso à justiça nestas sociedades. de um lado. de um ponto de vista abstrato e generalizador. A permanência. a estruturação do poder público nas sociedades ocidentais significou. sempre que é considerado necessário. mas também. Com isso. Em termos históricos. parece-nos perfeitamente compreensível. Neste sentido é que. São Paulo. demandando ajustes que tornem a relação entre Poder Público e indivíduos o mais igualitária possível. Ed. . do coletivo. empresas privadas/públicas. na perspectiva contratualista de inspiração hobbesiana1. relaciona-se com a própria história da constituição do Poder Público nas sociedades ocidentais e no papel que o Estado exerce na sua dinâmica social. destas prerrogativas carece de uma permanente busca de adequação à realidade social. que demanda a presença de uma instituição poderosa que fale em nome da totalidade social. a necessidade de se estabelecer. no plano jurídico por exemplo. religiosos. Brasil. acreditamos. e mesmo fundamentado histórica e sociologicamente. como é largamente reconhecido. da sociedade. ou outras formas de associação coletiva baseadas em recortes diversos sejam profissionais. de forma legítima. “Leviatã”. por parte dos membros da sociedade. Esta diferenciação. “em nome de todos”.A Constituição do Estado Ocidental: Poder Público x Indivíduo na Construção da Ordem Social Moderna.

em nossa opinião. na Inglaterra do Século XVII. considerando a fusão que se estabeleceu. a religião. frente aos indivíduos. chanceladas no imaginário social e político. por conseguinte. pela noção de que as ações do Estado visam sempre o estabelecimento de um bem coletivo maior. torna-se compreensível e até aceitável que. portanto. como fruto das transformações econômicas e sociais que revolucionaram a ordem feudal e instauraram o domínio do capitalismo como forma dominante de estruturação da atividade econômica ocidental. políticos e jurídicos. uma prerrogativa exclusiva do Poder Público. parece-nos. Frente à crescente autonomia do indivíduo em relação às instituições de caráter coletivo responsáveis pela manutenção da ordem nestas sociedades – tais como a família. e fora do seu alcance. na forma dos Direitos Humanos. enquanto seres humanos. Cabe não esquecer que a proposição de um poder estatal que se coloca acima dos membros da sociedade. a comunidade. ameaçavam destruir a sociedade inglesa. transcendente e superior em relação às necessidades individuais. portanto. exigiu que o Estado se colocasse. estimulada pelos conflitos religiosos que. somos todos sujeitos de direitos . etc. o Estado tenha privilégios de ordem política e jurídica que contribuam para assegurar que seus propósitos e funções sejam adequadamente cumpridos. entre o Estado e a noção de bem público. em termos ideológicos. sendo considerada.os quais poderiam colocar em risco a liberdade e a vida dos indivíduos e. os direitos dos indivíduos frente a possíveis abusos cometidos pelos representantes do Poder Público são assegurados a todos. sua validade mesmo em um contexto no qual. num plano abstrato e em nome do coletivo. A continuidade destas prerrogativas estatais frente aos indivíduos mantém.3 por parte dos indivíduos ficou legalmente bloqueada. -. tanto no plano conceitual quanto no plano jurídico-legal. as tradições. Esta forma de resolução do problema da ordem social. as ações do Poder Público estariam sempre orientadas a salvaguardar o interesse da coletividade contra demandas ou comportamentos abusivos por parte de seus membros individuais . e ao risco subjacente de ruptura desta ordem. a ordem social estando. surge pari passo com a crescente afirmação do indivíduo e do individualismo nas sociedades ocidentais. a partir de então. como uma entidade que detém prerrogativas necessárias à manutenção da ordem pública. da afirmação e do reconhecimento da concepção que defende que. Nesta perspectiva. Isto é o resultado.

no entanto.4 que devem ser respeitados mesmo quando a necessidade de manutenção da ordem e/ou a garantia da prestação de serviços públicos se manifesta. A idéia de que o Poder Público pode ou mesmo deve ser sujeito de determinadas prerrogativas. a qual garante ao Estado maior capacidade de fazer valer seus interesses na interação com os membros da sociedade. destas diversas formas. O curso. terá um foco mais definido no estudo e análise das decisões judiciais que dizem respeito à Administração Pública. afetando. seja em escala global. relacionadas nos parágrafos anteriores. ou porque estabelecem mecanismos de distribuição da riqueza socialmente produzida entre os diferentes grupos sociais que compõem uma sociedade. nos processos envolvendo a Fazenda Pública em seus diferentes níveis administrativos. seja no âmbito brasileiro. considerado em seus três Poderes constitutivos. o objetivo do presente curso é o de refletir livremente sobre o tema. com foco no impacto social das decisões de caráter administrativo tomadas pelo Estado.Objetivos do Curso: As prerrogativas processuais da Administração Pública. . precisa ser balizada pela constatação de que. buscando delinear possíveis caminhos para o entendimento do fenômeno. na expectativa de iniciar um amplo projeto de pesquisa sobre o tema. porque retiram recursos do conjunto de indivíduos/empresas para financiamento de suas ações. Neste sentido. no entanto. uma reflexão sociológica com o propósito de buscar compreender os possíveis fundamentos destas vantagens processuais e suas conseqüências para a ordem pública brasileira. em função da centralidade desta instituição para o funcionamento da . entre outras razões. mesmo em um ambiente jurídico que reconhece a importância de se preservar os direitos individuais dos membros da sociedade. porque estabelece os marcos jurídicos/legais que servem de referência para as interações sociais. além de uma análise estritamente jurídica. independente do Poder originário. os interesses dos membros da sociedade. especificamente o Poder Executivo. existe uma assimetria de poder muito acentuada entre o Poder Público e os indivíduos. Considera-se como um ponto de partida epistemológico central que TODAS as decisões emanadas de qualquer órgão do Estado. comportam também. têm conseqüências sociais importantes seja.

inevitavelmente. uma série de questões podem ser colocadas para discussão sobre as temáticas a serem tratadas no curso. combater as desigualdades sociais? .Suas decisões judiciais tentam. por isso mesmo. apesar do propósito original de “pacificar” a sociedade. social. sujeitas a questionamentos diversos em função do seu uso potencial para favorecer a interesses de grupos sociais e ou indivíduos. religioso. referenciadas em um ou outro dos conjuntos de valores sociais existentes na sociedade. de forma direta ou indireta. com destaque para os fundamentos das decisões judiciais pró e contra a Administração Pública com apelo a noções como interesse público. ideológico. tal como: . que. as decisões judiciais nunca são “neutras” já que estão. entre outras. bem-estar coletivo. Por outro lado. Até mesmo argumentos calcados nos “Princípios Constitucionais” podem ser também objeto de controvérsias importantes em razão da sua indeterminação básica. São muitos os elementos a serem considerados neste estudo. Isso significa que. geradoras de conflitos nos planos econômico.Sua classe social interfere na formação de seu convencimento? Como? . entre outros.Suas opções políticas interferem na formação de seu convencimento? Como? . de alguma forma. é de fundamental importância considerar na análise desta relação. ordem pública. o que pode ser origem de novos conflitos sociais. sendo a sociedade marcada por inúmeras divisões internas. ordem social.O impacto político da decisão influencia no julgamento do Juiz? .Suas decisões judiciais podem substituir as decisões discricionárias da Administração? . os interesses e conflitos potenciais a eles associados. todas elas bastante indeterminadas e com ampla margem de interpretação subjetiva e. político.5 sociedade e dos efeitos diversos que as decisões relacionadas a ela representam para a vida social. Neste sentido. apesar da jurisprudência já firmada no sentido de dotá-los de certo conteúdo valorativo e aplicativo aos conflitos que exigem a intervenção do Poder Judiciário para sua resolução. reserva do possível. mesmo havendo um corpo normativo que regula as relações entre os membros da sociedade – o Ordenamento Jurídico encimado pela Constituição -. assim como os diversos “clusters” de valores de cunho ético e moral que servem de referência ao Juiz no momento de proferir sua decisão.Suas decisões judiciais podem interferir nas políticas públicas? Como? . as decisões judiciais são sempre tomadas levando em consideração.

Em suas decisões. e COHEN.Conteúdo: Considerando os fatores mencionados acima. o curso deverá. O Poder Judiciário no Brasil Pós .BIBLIOGRAFIA: . com o objetivo de garantir a igualdade de tratamento entre os cidadãos perante a Administração? . “O Mal-estar da Pós-Modernidade”. The MIT Press. . texto apresentado no Seminário organizado pelo Grupo de Pesquisa .BAUMANN. Democracia.BLANKE. 2. Ulrich.ARATO. Prerrogativas da Administração Pública e Justiça Social 9.BECK. "Civil Society and Political Theory". A Judicialização da Política e das Relações Sociais: O Novo Papel do Poder Judiciário 7. Conflito de Interesses e Justiça: “Neutralidade” nas Decisões Judiciais? 10. Massachussets. . Zygmund. 1998.6 . portanto.Tais prerrogativas causam atraso exagerado nos processos que têm a Administração como parte? ..1992. Poder Administrativo: Pacificação Interna? 4. Justiça Social e Desigualdade Social 5. Prerrogativas processuais da Administração Pública no Direito alemão”. Estado e Sociedade.CF 88 8. focar em temas como os abaixo discriminados: 1.O que pensa o Juiz sobre as prerrogativas processuais da Administração? . o Juiz adota precedentes de seu tribunal ou dos tribunais superiores. Conflitos e Poder: As Formas da Dominação Social 3. Desigualdades Sociais. Conseqüências Sociais das Decisões da Justiça Administrativa . 2003) . Rio de Janeiro. Jean L. Jorge Zahar Editor. Cidadania e Direitos Humanos 6. Análise Histórica e Funcional. Andrew. “Pouvoir et contre-pouvoir à l’ère de la mondialisation” (Paris: Alto Bubier. Hermann-Josef.

maio de 2004. UNESP. publicado na Revista Brasileira de Estudos Políticos. VIANNA. Napoleão. Erhard. “An Introduction to the Globalization Debate”. . Ed. n° 88. “As Conseqüências da Modernidade”. publicado no Vol. “A Inclusão do Outro”. 6ª edição.GIDDENS. Entre Facticidade e Validade”. . 1 e 2. Cambridge. Editora Revan. Malheiros Editores. - . 2000. Cortez Editora. Rio de Janeiro. “A Judicialização da Política e das Relações Sociais no Brasil”. São Paulo. BUENO. 1981. 1997. Solidariedade” ao invés de “Liberdade. “A Democracia e os Três Poderes no Brasil”. David.CARVALHO. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. “Cidadania no Brasil. Marcelo. Brasil. “Revolução Processual do Direito e Democracia Progressiva”. HELD. Vols.DERNNINGER. Rio de Janeiro.VIANNA. “Segurança. Jürgen. 1991. 2004. Igualdade. Lisboa.CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988). 2000. Polity Press. e. A Fazenda Pública em Juízo”. Brasil.).MacINTYRE. “Pela Mão de Alice. Fraternidade”. MacMillan Press. . Nova York. VIANNA. “Aspectos Sociológicos das Prerrogativas Processuais”. 2000. . . Fundação Calouste Gulbenkian. . Luiz Werneck et alli. São Paulo. José Murilo de. “After Virtue”. Contra o Desperdício da Experiência”. Ed. trabalho apresentado no I Seminário de Direito Processual Internacional – A tutela judicial na perspectiva comparada na Deutsche Hochshule für Verwaltungswissenschaften Speyer.HABERMAS. Ed. in. VIII da Série Cadernos do GEPJ. et al.___________________ “Direito e Democracia. 2002 . Anthony. 2002.SANTOS. Cortez Editora. England. dezembro de 2003 . Belo Horizonte. . Edições Loyola. Editora UFMG. Luiz Werneck. Portugal. O Social e o Político na PósModernidade”. Alasdair. BURGOS. 2000. 2003. _ _________________ “Sociologia”.MIRANDA. “Direito Processual Público. . Tempo Brasileiro. Luiz Werneck (Org.__________________“Justiça de Quem? Qual Racionalidade?”. Loyola. Boaventura. em Erfurt-Alemanha. Cassio Scarpinella et alli.__________________ “A Crítica da Razão Indolente. São Paulo. 1991. O Longo Caminho”. 2003. DP&A Editora. 2001 . Niterói. São Paulo. . São Paulo. Civilização Brasileira.7 Efetividade da Jurisdição (GPEJ). São Paulo. Diversidade. Brasil. 1999.

). “Debates in Contemporary Political Philosophy. .YOUNG. A Critique of the Ideal of Universal Citizenship”. Routledge. An Anthology”.8 . Íris Marion. in. Londres. 2003. “Polity and Group Difference. Derek Matravers e Jon Pike (orgs.