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A CONFORMAÇÃO URBANA. O DESENHO DAS PRINCIPAIS CIDADES DA COMPANHIA MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ.

Renato Leão Rego
Universidade Estadual de Maringá – UEM

Karin Schwabe Meneguetti

De acordo com seu plano de ocupação do norte do Paraná, a Companhia de Terras Norte do Paraná, mais tarde Companhia Melhoramentos, fundou uma rede de cidades, estendendo-se, no tempo e no espaço, de Londrina a Umuarama. Neste trecho, Londrina, Maringá e Cianorte, distantes cerca de 100Km, destacam-se como pontos estratégicos; entre elas, uma série de pequenas aglomerações distantes entre 10 e 15Km facilitavam a vida nas propriedades rurais das proximidades. Diante da conformação variada destas cidades fundadas pela Companhia, quais as potencialidades de cada um destes traçados urbanos? Quais as qualidades ambientais entrevistas na imagem destas cidades? De cada assentamento humano riscado pela CMNP, que lições de desenho urbano se pode tirar? Que estratégias projetuais merecem ser relembradas, não só como parte da história de cada uma destas formas urbanas mas, sobretudo, como experiência projetual e, portanto, referência ao trabalho contemporâneo de criar novos assentamentos urbanos? Com o objetivo de responder a estas perguntas, este trabalho pretende levar a cabo uma análise morfológica das quatro principais cidades fundadas pela Companhia, a saber: Londrina, Maringá, Cianorte e Umuarama. Estas cidades representam a experiência variada da Companhia no seu processo de criação de cidades: grosso modo, enquanto a primeira surgiu de um modesto desenho urbano, fechado e um tanto desvinculado das características do território, a segunda e a terceira se pautaram pelos princípios formais da cidade jardim, com um projeto mais ambicioso e esteticamente mais potente; a quarta parece não ter explorado suas potencialidades espaciais, resultando em um traçado indistinto. Para analisar estas conformações urbanas elencamos alguns dos componentes fundamentais no desenho da cidade e na sua configuração: 1) o meio natural suporte, 2) o traçado da malha urbana – geometria, vias principais e secundárias, articulações, bairros-, 3) os espaços públicos abertos - como fator de hierarquização e qualificação dos espaços urbanos, 4) os espaços privados – quadras, lotes, edifícios, fachadas-, e 5) os marcos, como elementos morfológicos preponderantes, relativamente constantes na arquitetura das cidades.

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252). A fundação destas cidades fazia parte de um empreendimento de colonização e venda de terras para o plantio de café. A Companhia. e situar-se no espigão. p. a Companhia de Terras Norte do Paraná. As quatro cidades maiores. rlrego@uem. no caso das cidades de maior importância.. Renato Leão Rego Universidade Estadual de Maringá – UEM Karin Schwabe Meneguetti INTRODUÇÃO De acordo com seu plano geral de ocupação do norte do Paraná. centros comerciais e abastecedores intermediários” (CMNP. para que se tornassem metrópoles modelares.252). Cambé e Rolandia 10. em publicação comemorativa ao seu cinqüentenário. com intervalos adequados. fundados sucessivamente.84). Apucarana e Pirapó 8. seriam fundados os patrimônios. de Londrina a Umuarama.A CONFORMAÇÃO URBANA. Aricanduva e Apucarana 8. 1975. estendendo-se. apresentando conformações distintas. Jandaia do Sul e Mandaguari 10. resultado de diferentes estratégias projetuais. Grosso modo. de modo a facilitar a vida nas propriedades rurais das proximidades. O DESENHO DAS PRINCIPAIS CIDADES DA COMPANHIA MELHORAMENTOS NORTE DO PARANÁ. Marialva e Sarandi 9. já que o morador da área rural poderia se deslocar a pé até eles com uma caminhada de 5 a 9 quilômetros no máximo. mais tarde Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (1951). 1975. distritos (18). sedes de município (23) e sedes de município com sedes de comarca (12). Mandaguari e Marialva 13. no espigão. o posicionamento destas cidades obedeceu dois critérios gerais: acompanhar a linha férrea. aproximadamente. Sarandi e Maringá 7. Pirapó e Cambira 7. 1975.br 1 . Foram implantados pela Companhia 62 núcleos urbanos classificados em patrimônios (9). 76). afora outros 48 núcleos urbanos implantados por particulares nas terras da Companhia. Assim Londrina e Cambé distavam 13 quilômetros. Cambira e Jandaia do Sul 6. quando não houvesse ferrovia. o projeto e a construção de quase todos (núcleos habitacionais) foram minuciosamente detalhados. afirma que: “Embora situados em pleno sertão. no tempo e no espaço. com observância da técnica e da arte do urbanismo. “Para formar o Norte Novo e Novíssimo foram idealizados quatro núcleos habitacionais. 2000. foram desenhadas por engenheiros e agrimensores. p.” (CMNP. E entre elas surgiu uma serie de assentamentos urbanos menores. estrategicamente implantadas ao longo da ferrovia. Deste modo. que teriam uma distância ideal. Para esta empreitada. fundou uma rede de cidades. ou as estradas de rodagem. Maringá (1947/1951). p. distanciados de 10 a 15 quilômetros um do outro. Entre estas. Cianorte (1953/1955) e Umuarama (1955/1960)” (CMNP. Arapongas e Aricanduva 9. distanciados entre si de aproximadamente cem quilômetros e destinados às grandes cidades do Norte e do Oeste do Paraná: Londrina (1930/1934). sucessivamente (Carvalho. Rolandia e Arapongas 12. a Companhia adotou diretrizes bem definidas: “Cidades destinadas a se tornarem núcleos de maior importância seriam demarcadas de cem em cem quilômetros..

após o envio à Inglaterra. ora é perpendicular ora é paralelo às pendentes do sitio. como experiência projetual e.10). com um projeto mais ambicioso e esteticamente mais potente.11).como fator de hierarquização e qualificação dos espaços urbanos. articulações. O traçado das ruas e quadras se restringe a uma malha ortogonal racional com um elemento excepcional – um elipsóide oblongo central. relativamente constantes na arquitetura das cidades.0X1. houve uma redução nestas larguras resultando em ruas de 16m e avenidas de 24m (YAMAKI. não por culpa sua. bairros-. Estas cidades representam a experiência variada da Companhia no seu processo de criação de cidades: grosso modo. domínio e não se deixa afetar pelas condições naturais do terreno ao qual se impõe. demonstra ordem. p. Não obstante a observação da linha férrea. e 5) os marcos.000 habitantes. daí o desenho oblongo do centro da cidade. Yamaki. quais as potencialidades de cada um destes traçados urbanos? De cada assentamento humano riscado pela CMNP. Em geral. não só como parte da história de cada uma destas formas urbanas mas. 2003. p. em 1932. 3) os espaços públicos abertos . Cianorte e Umuarama. o eixo da vias. Com 2 . lotes.Londrina.Mas diante da conformação variada destas cidades. A via ‘diagonal’ que tangencia o oblongo central e corta sinuosamente a regularidade do plano ortogonal segue o traçado na ferrovia em seu trecho urbano. Maringá. enquanto a primeira surgiu de um modesto desenho urbano. com pelo menos um dos lados em declive. é rígido e soberano. que lições de desenho urbano se pode tirar? Que estratégias projetuais merecem ser relembradas. a quarta parece não ter explorado suas potencialidades espaciais. a segunda e a terceira se pautaram pelos princípios formais da cidade jardim. referência ao trabalho contemporâneo de criar novos assentamentos urbanos? Com o objetivo de responder a estas perguntas. 4) os espaços privados – quadras. formado em geodesia. acomodado no relevo destacado. já que a imaginara com avenidas de 30m e ruas com 24m mas que. condicionado pelo traçado xadrez. favorecendo a questão do escoamento das águas pluviais e da salubridade (Cf.65km. O desenho das vias. esta pesquisa está realizando uma análise morfológica das quatro principais cidades fundadas pela Companhia . Posicionado de acordo com os pontos cardeais. resultando em um traçado menos rico. O desenho urbano de Londrina foi encarregado ao russo Alexandre Razgulaeff. regular e uniforme. fechado e um tanto desvinculado das características do território. Razgulaeff. portanto. Seu projeto está atrelado ao trabalho dos ingleses no comando do empreendimento. como elementos morfológicos preponderantes. 2) o traçado da malha urbana – geometria. Sobre seu projeto. diria que a cidade foi ‘mal projetada’. Para analisar estas conformações urbanas elencamos alguns dos componentes fundamentais no desenho da cidade e na sua configuração: 1) o meio natural suporte. do perfil do terreno e a conformação do centro da cidade consoante com esta topografia. sobretudo. a Companhia procurava localizar suas cidades em lugar alto. vias principais e secundárias. tangenciado por uma avenida ‘diagonal’ que acompanha o espigão. A escolha do sítio para a implantação de Londrina recaiu sobre um ‘alto’ que impressionou o pessoal da Companhia de Terras como um ‘lugar ideal para uma cidade’. Carvalho. 2000). embora com a desvantagem da dificuldade de água para o abastecimento da população citadina como se viu em outros núcleos da Companhia (Cf. O plano original tem uma conformação retangular de 2. idealizado para uma população de 30. o traçado regular das demais ruas da cidade parece desprezar as curvas de nível características do lugar. 2003. LONDRINA Esta foi a primeira das quatro cidades principais previstas no plano da Companhia a ser imaginada e implantada.

se posicionado no centro da quadra seu comprimento vai a 51. a montante. Wolff. que já se avizinha ao contorno elíptico da região central.50m de largura e comprimento de 45m ou 52. rumo ao centro. o que só acontecerá em um mapa de 1958.inclinações favoráveis ou não. De acordo com Yamaki (2003. abrigariam instituições e edifícios públicos. contudo constituir um eixo monumental. de início. Diante delas. são idênticas e regulares. com o destaque do relevo e a presença da Igreja. tenha dificultado a relação direta entre as praças e a Catedral que se localizaria no centro do oblongo. o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1996. 1998). comum nos desenhos da Companhia. City de loteamentos. nenhum outro tipo de hierarquia entre as vias. todas parecidas: traçados geométricos.114) tenha dito que: “Nesses quadriláteros de maneira arbitrária cavados no coração da floresta. Não se pode notar. Na outra direção. MARINGÁ A então Companhia Melhoramentos Norte do Paraná encarregou os projetos de Maringá e de Cianorte ao engenheiro Jorge de Macedo Vieira. as ruas em ângulo reto são. no plano.75m. Alto da Lapa e Pacaembu (Cf. Deste modo. posteriormente. Talvez por isso.50m. em São Paulo. a rua comum ganhava a denominação de alameda com a presença de um canteiro central. com seu desenho diferenciado.25m. apenas a avenida diagonal era mais larga e. Macedo Vieira estagiara e trabalhara na Cia. os lotes têm 12. procurando privilegiar as testadas para as ruas na direção norte/sul. Parker era sócio de Raymond Unwin e juntos haviam desenhado as primeiras cidades-jardins inglesas. Ainda neste eixo o cemitério vai se localizar no limite sul da cidade. tanto ao norte e ao sul. Como se sabe. se no centro da quadra. O centro. A estação e a praça diante dela. na região central. p. as sobras da quadra retangular original são reservadas a praças. p. Esta intenção será modificada. Diante da estação há uma praça. no qual as quadras reservadas às praças e à área verde aparecem com um risco interno em asterisco e as quadras mutiladas pelo contorno central parceladas. Certamente a posição do centro da cidade. privados de qualidade própria”. sem agrupamento ou diferenciação em bairros ou zonas. ladeada pelos espaços públicos livres. as ruas da cidade mantêm a mesma regularidade do traçado. configurava um dos marcos visuais da cidade. assim como as quadras entre si se assemelham. cada uma subdividida em 20 lotes. Em geral as quadras têm 105X115m. são referência no desenho urbano de Londrina. assim como a avenida de traçado mistilíneo. Estes lotes têm 15m de largura e comprimento de 38. “as ‘sobras’ resultantes da articulação da malha ortogonal e da elipse levaram algum tempo para serem consideradas e receberem o nome de Praças”. Ao sul. ocupando a área de toda uma quadra. O posicionamento das praças e das áreas públicas obedece a um alinhamento a partir da estação ferroviária sem. no período em que Barry Parker desenvolveu os projetos desta empresa para os bairros paulistanos Jardim América. as transversais. que recebem o maior número deles. As ruas não diferiam umas das outras na largura. como se nota num mapa de 1938. uma quadra convencionalmente loteada. recortadas pelas curvas do oblongo. Razgulaeff afirma ter projetado inicialmente a avenida diagonal e. no ponto mais alto está a Catedral e. Macedo Vieira foi influenciado pela ‘arte de projetar cidades’ inglesa e muitas das soluções formais por ele aplicadas no anteprojeto de 3 .11). No centro. as quadras lindeiras acolherão espaços públicos abertos enquanto as vizinhas a leste e oeste.

p.. foi implantado um “espaço circular. o traçado ortogonal ainda prevalece. Para a escolha do sítio e o traçado desta cidade tomou-se como referência três preexistências fundamentais: a linha férrea no sentido leste-oeste e dois pequenos vales ao sul. 1984). publicado em 1909 (Rego. pela ferrovia e pelo bosque. relacionada àquelas características próprias da natureza do cenário.000 habitantes. simetria e rigidez no centro da cidade. Percebe-se aí que o diálogo com o ambiente natural demandou um traçado irregular na maior parte da malha urbana. p. a praça central de Maringá não coincide com a praça da estação. preservando as duas nascentes aí existentes. e aplicando a recomendação do tratado de Unwin (1984. pelas condições do sitio e seus limites precisos dados pela topografia plana. Um quadrilátero formado pela ferrovia ao norte e os bosques a leste e oeste delimita a área central de traçado regular. visava uma cidade com 50. logrando variedade com movimento orgânico das pendentes. que deveria abrigar um edifício público em forma de crescent mas acabou por dar lugar à Catedral. Por outro lado.Maringá são recomendadas pelo tratado de desenho urbano de Unwin. Este eixo arrematado por duas praças destaca-se no desenho da cidade como seu elemento principal: uma via de aproximadamente 46 metros de largura e 600 metros de comprimento. diferenciadas pela largura (20. Os procedimentos adotados no projeto de Maringá vão subsidiar sua individualidade urbana. não obstante.) para facilitar a circulação e conferir efeitos arquitetônicos às diferentes interseções viárias” (Cf. como uma das características mais positivas da forma urbana: a personalidade da cidade. ultrapassada a linha férrea. coroada pelo centro cívico no lado oposto à estação ferroviária. Dentro do traçado mais orgânico. pela eventual presença do canteiro central e pela variedade de espécies na arborização. onde a finalidade. As vias que deixam o centro e conduzem às zonas secundárias nos lados sul e oeste da cidade perdem a regularidade ortogonal e adquirem um traçado consoante com as curvas de nível. pôde cobrar regularidade. o caráter e a importância do espaço público cobravam certo formalismo e monumentalidade. de 1947.22). arrematado por uma praça semicircular. arrematados por vias formando um semicírculo. que. e entre eles posicionou-se o centro da vida comunitária numa área praticamente plana. da pendente do terreno e da configuração topográfica. Ao norte. que consideradas em conjunto dão aquele sabor particular e peculiar a cada forma urbana. garantindo o “caráter artístico” do desenho urbano e forjando a individualização do desenho da cidade a partir das características naturais. É notável a hierarquia entre as vias principais e secundárias. 35 e 40 metros). de acordo com as diretrizes de Unwin. As curvas de nível foram determinantes para o desenho da cidade. Seu desenho para Maringá. Nota-se no anteprojeto de Vieira a intenção de respaldar as praças de Maringá com edifícios ao seu redor construindo aquela sensação de fechamento que tanto Unwin como Sitte mencionam com entusiasmo. 2001). Unwin. Estes dois vales foram delimitados como parques urbanos. figurando como o elemento principal do plano. Na parte leste. encontram-se um outro bairro residencial e o campos de esportes. no ponto onde convergem as vias principais. as vias de traçado ortogonal são proporcionalmente mais curtas que 4 . 30. tal como a defendia Unwin (1984. ao redor do qual se move o tráfego em uma só direção (.. com vias mais curtas e marcos (praças e edifícios públicos) estrategicamente posicionados. Assim como em Londrina. uma vez que foi a partir delas. o principal elemento da composição. que se definiu a forma urbana alongada e o traçado orgânico como diretrizes para as principais vias. fica não muito distante dela e as duas praças distintas estão conectadas por um bulevar.138). com canteiro central e passeio de pedestres. e para articulação das vias retas e curvas. Ao final deste passeio se encontra o centro cívico.

como referência e distinção no traçado urbano. A vegetação urbana é um dado importante para a leitura do espaço urbano de Maringá. formado por um espaço público livre cercado de edifícios comerciais – uma espécie de ‘praça fechada’. realizado em 1955. elemento fundamental para a imagem urbana. Deste modo. dependências e armazéns da estrada de ferro e os núcleos comerciais. com vias retas e organização reticulada harmoniosamente articuladas com quadras irregulares e vias curvas que dão novas orientações ao tecido urbano.as vias curvas e irregulares. verde. esta idéia do centro secundário nem sempre se concretizou do modo previsto por Jorge de Macedo Vieira e alguns bairros perderam legibilidade com a falta de referência e hierarquia. e. o pé-de-galinha. zona industrial. menos regular e mais orgânica. CIANORTE Cianorte é projeto de Jorge de Macedo Vieira. A cidade está subdividida em três zonas residenciais (principal. As retas desenhadas pelas primeiras têm definidos seus pontos iniciais e finais. Nestes trechos a organização espacial se direciona e culmina em elementos formais estrategicamente posicionados e hierarquicamente destacados na composição: o semicírculo. reconhecendo a relação indicada por Unwin (1984. o semi-octógono. cada uma das zonas ou bairros residenciais da cidade tem seu centro secundário. popular e operária). via férrea-. como em Maringá. dando lugar a jardins privados que ampliam para dentro do lote a massa verde que cobre as largas calçadas públicas. zona comercial. Assim como a cidade tem seu centro. pois favorece a imagem da cidade uma vez que ela distingue cada rua com uma espécie diferente ou combinação distinta de duas delas. As quadras residenciais e comerciais de aproximadamente um hectare foram desenhadas respeitando o formato retangular (144x80m em geral). constituindo cada centro secundário um ponto focal. articulada numa hierarquia muito clara entre o elemento principal do plano e seus centros secundários. A estação ferroviária aqui também foi o ponto de partida para o desenho da cidade. o que define a posição dos lotes naquelas ruas que acompanham os níveis do terreno. o hexágono. a cidade se acomoda ao longo da linha férrea e sua conformação geral acompanha as curvas de nível do terreno. de modo a evitar as transversais inclinadas. geralmente definidos a partir de convergências de vias importantes ou de sua posição central dentro do bairro. Em cada bairro a presença e a posição das instituições e edifícios públicos são marcadas pela guarnição de uma área livre. bosque. extraída das condições do lugar. As recomendações de Unwin para a ‘prática do urbanismo’ são novamente seguidas. deste modo garantindo um limite e um atrativo à paisagem da rua. menos monótonas e mais variadas. Elas foram subdivididas em parcelas de 500m2 em média. entretanto a não adoção do traçado xadrez imprimiu algumas modificações à forma ideal. como veremos mais adiante. Entretanto. 5 . organizados em torno de pontos de interesse. Os espaços privados originados do parcelamento das quadras estão orientados segundo as curvas de nível. sempre com um limite preciso – seja um bosque ou avenidas.232) de 25 a 30 lotes por hectare. deste modo vamos encontrar aqui uma cidade com uma conformação única. p. O traçado urbano é orgânico. delimitados por elementos bem definidos – avenida. Pode-se notar aí a força apelativa da malha ortogonal central e o caráter diferenciado de cada um dos bairros subordinados. distintos pelo traçado das vias. a consolidação do espaço urbano não correspondeu plenamente a estes desígnios. Entretanto. o desenho da cidade mostra uma estrutura poli nuclear.

como ao fim e ao cabo aconteceu em Maringá.Repetindo o esquema de Maringá. p. com muitos lotes vazios. Há uma intenção clara no desenho da cidade de constituir bairros ou zonas com um núcleo estabelecido em torno do motivo formal que gera a composição e a organização espacial de cada uma destas áreas. encontram-se praças de formas variadas que funcionam como centros secundários. O mesmo se dá com as vias que ajudam a delimitar e configurar distintamente cada bairro ou zona da cidade: seu apelo visual é menor já que sua ocupação e vegetação são pouco marcantes. E o centro da cidade acabou se deslocando do bulevar para se instalar efetivamente na praça posicionada no ponto médio da via que. a estação ferroviária. o que acentua uma sensação de vazio urbano em certas partes da cidade e desfavorece tanto a leitura dos bairros quanto a identidade visual das vias. 30. De toda sorte. as quadras tendem a respeitar a proporção 2:1. sem embargo. embora a ferrovia não tenha jamais atingido a cidade. Em Cianorte as espécies são menos variadas e nem sempre o plantio é contínuo ao longo das vias. a ocupação urbana. encontramos a zona industrial. Esta área é hoje apenas parcialmente ocupada. ao sul dela. mais facilmente confundíveis. como em Maringá. Deste modo. Não obstante. tangente ao semicírculo que arremata o campo de esportes. UMUARAMA O plano diretor de Umuarama coube a dois engenheiros da Companhia: Waldomiro Babkov. Tendo em mente o urbanismo de Jorge de Macedo Vieira apresentado no anteprojeto de Maringá. por parte da Companhia. oposto ao centro da cidade.140). Umuarama foi projetada em 1960 para ser uma cidade às margens da ferrovia. aqui guarnecido ao sul por um arruamento semicircular. no pátio de manobras central. ou sua ocupação não levou em conta o caráter dado a elas no projeto original de Macedo Vieira. O cemitério está no extremo leste da cidade. O que teria sido a linha férrea marca o traçado urbano com trechos de vias serpenteando por um desenho 6 . sobretudo aquelas de traçado orgânico. por motivos alheios ao interesse deste trabalho. Em geral. os espaços urbanos ferroviários foram ocupados para outros fins. 20. Nestas posições estratégicas. havendo intervalos sem árvores ou com mudas ainda muito jovens. A vegetação urbana aqui parece ter recebido. a cidade de mostra polinuclear. Destas praças gêmeas arrancam duas diagonais que vão dar o sentido das vias de boa parte do traçado urbano. como ele. Há quadras retangulares. uma quadra. essas áreas não estão todas plenamente ocupadas. cada um. o que dificulta e até impede o entendimento da estrutura urbana proposta. no projeto de Macedo. 35. partia da estação ferroviária na direção nordeste. (CMNP. atenção menor que aquela dispensada a Maringá. As ruas e avenidas se distinguem pela largura (15. que trabalhou sob direção de Manoel Mendes de Mesquita. variando conforme a configuração da vias e a organização espacial da zona em que se encontram. Com isto. mistilíneas e quebradas. não adensou o centro cívico disposto. A ferrovia corta a área urbana e. se abre ao norte a uma praça bipartida por um bulevar de 60m de largura que levaria ao centro cívico. trapezoidais. esta ocupação nem sempre se deu. triangulares. Entretanto. legível e de fácil identificação. a construção da estação rodoviária no campo reservado à praça diante da estação ferroviária ocultou lamentavelmente a perspectiva das três vias arrancando deste largo. ao final do bulevar. facilmente imaginaremos as áreas comerciais de Cianorte também posicionadas em torno da praça que conformam o centro secundário de cada bairro. medindo em geral 140X70m. 40 e 60m) e pela presença ou não de canteiro central. e o comércio principal acabou por se instalar ao longo das vias principais. Aí temos a igreja matriz ladeada por dois bosques que ocupam.

Mas a topografia do sitio no qual se instalou a cidade é consideravelmente irregular e o desenho urbano proposto mantém pouca ou nenhuma relação com as pendentes. Note-se a variedade temática do traçado das vias. no caso das ruas. há uma praça circular e dela partem três avenidas. com vias retas e cruzamentos ortogonais. losangos. incerta do futuro do negócio. ainda no início do seu empreendimento.eminentemente geométrico. Entrementes. foi ocupado por quadras loteadas cujo traçado mal se ajusta à malha urbana precedente. delimitadas por vias ou outros elementos urbanos como em Maringá ou Cianorte. ao lado da praça circular diante da estação inexistente. onde se instalou a estação rodoviária. Ainda que simplificado e sem muitos recursos formais. onde a liberdade na concepção do desenho urbano foi maior. Do octógono formado pelas quadras dispostas ao redor de um destes asteriscos surgem as diretrizes para a constituição de vias e quadras na porção central e na região leste da cidade. O que seria o pátio de manobras. larguras de 15m. a imaginada saída da estação ferroviária. de difícil leitura na falta de uma estrutura evidente que a organize. não assumem posição estratégica. Esta liberdade na concepção do traçado urbano fez com que as quadras adquirissem formatos irregulares. a fragmentação do tecido urbano será ainda mais perceptível ao norte e à oeste da imaginária via férrea. perde-se a continuidade do traçado e o caráter figurativo que foi dado ao tecido urbano. Mesmo em áreas onde o traçado é regular. Em Umuarama. sendo que esta dimensão maior ficou reservada às avenidas que compõem os octógonos do centro da cidade. os dois octógonos dão o esquema geral do traçado e. notamos que o desenho urbano de Londrina foi o mais modesto e o menos elaborado. e os lotes acabassem por ter formato triangular ou irregular. que conformam semi-octógonos. No centro da cidade. deslocada do eixo da avenida central. Não se nota a presença de centros secundários em tampouco a conformação de bairros ou zonas urbanas diferenciadas. O cemitério está localizado no perímetro sudeste da cidade e na sua configuração podemos ver o arruamento do campo santo reproduzir o motivo octogonal do traçado urbano do centro da cidade. As vias têm. ou seja. sem um partido claro. Em certos cruzamentos de vias importantes. mas dimensão menor. ovóide. Os dois bosques urbanos. o desenho urbano parece responder melhor a uma situação topográfica mais plana. assim como as praças. com aclives e declives. CONSIDERAÇÕES FINAIS Das quatro cidades aqui analisadas. o cruzamento de várias vias e a irregularidade das quadras são itens que colaboram para uma imagem urbana complicada. se institui a hierarquia na organização urbana. as vias retas e o traçado xadrez. a variação da cota das vias. no restante do desenho da cidade os diferentes motivos formais parecem não se articular e não se submetem a uma hierarquia comum. em geral. uma área retangular central. e. entre eles e a praça da estação. havendo muitos cruzamentos de vias em ângulo agudo. o desenho urbano de Londrina conseguiu manter 7 . destacada e referencial na estrutura da cidade. com formato idêntico. Diante deste ponto. Aí as quadras são predominantemente retangulares. Os cidadãos de Umuarama reconhecem a dificuldade de se ler e entender a imagem da sua cidade. lotes menos regulares dão lugar a praças triangulares e circulares. o desenho urbano parece ter pouca aderência ao terreno irregular. Curiosamente. há uma outra praça. semicírculos. no das avenidas. talvez por ter sido o primeiro núcleo a ser implantado pela Companhia. Se no centro da cidade. 30 e 35m. de tamanho variável. Em cada uma das duas avenidas que partem diagonalmente da praça da estação se desenvolverá o tema principal do traçado urbano central de Umuarama: dois asteriscos formados pelo encontro de oito vias.

da largura das vias à vegetação urbana.coesão. pontos de interesse e de relevância . BARNABÉ. Entretanto. Maringá não tem uma malha urbana de rápida apreensão. identidade. sem hierarquia. é um traçado sem a organicidade do desenho de Cianorte. o cidadão consegue ler e entender sua cidade. mas o espaço urbano se revela bastante confuso quando este desenho é conhecido no seu sítio irregular. com características marcantes e facilmente identificáveis. 8 . por sua área reduzida – um quadrilátero de aproximadamente 1km de lado – o centro da cidade. dão a identidade e o conforto essenciais ao meio urbano. foi mais generosa na configuração da cidade. A constituição de centros secundários. identidade e interesse na medida em que a área riscada era relativamente pequena e assim não cobrava outros elementos urbanos que estruturassem a malha urbana. A praça da estação e o centro cívico estão apartados. O traçado de Umuarama recorre a diversos motivos formais. Londrina não tem um eixo legível ligando os dois pontos de interesse. ausência de pontos de orientação. a hierarquia das vias.como parece faze-lo – no plano. a vegetação urbana. nem a hierarquia dos elementos urbanos de Maringá ou a unidade formal do núcleo original de Londrina. aí a Companhia investiu mais. subdivisão em bairros ou zonas. mais ambicioso não apenas na sua conformação mas também nas suas dimensões. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE. o resultado do projeto de Cianorte é diferente daquele que se obteve Maringá. mas a sua construção ainda não se consolidou efetivamente. e se instala em um terreno bastante desigual. seja pela falta de referenciais – vegetação pouco expressiva no traçado irregular. as zonas diferenciadas no traçado e bem definidas nas suas fronteiras. Organização espacial do território e o projeto da cidade: o caso da Companhia de Terras Norte do Paraná. O projeto de Cianorte veio no encalço da experiência de Maringá. a mesma idéia de cidade. Dissertação de mestrado. 2000. o qual não parece ter influenciado as decisões de seus projetistas. uma vez compreendidos a natureza e o sentido do seu traçado. seja pela baixa densidade urbana. Ainda que o anteprojeto de Jorge de Macedo Vieira tenha sido parcialmente alterado. Umuarama. tem um traçado elaborado. e a mesma aplicação dos princípios formais da cidade-jardim que Jorge de Macedo Vieira apreendeu da convivência com Parker e da leitura dos textos de Unwin. Com seu traçado orgânico. Geométrico. um tanto indiferente à topografia. Com pouco mais de uma década de diferença. o desenho da cidade é irreparável. Já Maringá apresenta um projeto mais elaborado. a não ser pela região central que toma partido do sítio na sua conformação oblonga. 1989. com limites e pontos de interesse próprios. Ressonâncias do tipo cidade-jardim no urbanismo de cidades novas no Brasil. Marcos Fagundes. como nas demais cidades fundadas pela Companhia. Natal: UFRN. Tanto o desenho de Maringá quanto o de Cianorte teve como referência os princípios formais do urbanismo construído por Barry Parker e Raymond Unwin nas cidades-jardins inglesas e depois publicados por este último em Town planning in practice. centros secundários insípidos. Entretanto. múltiplo e fragmentado pela topografia. com seu traçado regular é de apreensão imediata e fácil de memorizar. além de certos elementos marcantes no traçado urbano – como as praças e os parques-. Anais do 6º Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. São Carlos: EESC/USP. oito anos mais velha: o mesmo urbanista. a conformação da cidade não perdeu as características originalmente imaginadas. Apresenta um traçado genérico. por sua vez. Carlos Roberto Monteiro de. que poderia garantir legibilidade. No plano. ordem ou articulação entre si. a implantação destas duas cidades viveu tempos distintos da vida comercial da Companhia. mas diferentemente destas. Entretanto.

SITTE. 2001.:1975. LÉVI-STRAUSS. REGO. Maringá: Programa de mestrado em geografia: UEM. A apreensão da forma da cidade. Camillo. São Paulo: Companhia das Letras. 2002. 2000. Salvador: UFBa. Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. José M. 2000. São Paulo: Ática: 1992. 2000. Acta Scientiarum. LAMAS. Maringá: o desenho urbano. A construção de cidades segundo princípios artísticos. Ensaio de geografia urbana. São Paulo. VIEIRA. UEM.l. 1998. Universidade de São Paulo. Colonização e desenvolvimento do Norte do Paraná. Natal: UFRN. 1984. Jorge de Macedo. 1999. Luiz Domingos Moreno de.23. Barcelona: GG. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. a imagem da cidade e a qualidade de vida. Maringá: UEM. n. YAMAKI. V.1569-1577. Raymond. Claude. _____. 1972. Maringá. O primeiro bairro-jardim de São Paulo e sua arquitetura. 2003. Kevin. org. MENEGUETTI. Acervo Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural da Prefeitura Municipal de Maringá. Una introducción al arte de proyectar ciudades e barrios. Entrevista concedida à equipe do Serviço de Recursos Audiovisuais da Secretaria de Educação e Cultura de Maringá. Londrina: Edições Humanidades. WOLFF. 1996. Ressano Garcia. Maringá: PMM/Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural. Mestrado em Geografia. Maria Elaine. COMPANHIA Melhoramentos Norte do Paraná. In: MORO. Iconografia Londrinense. P. UNWIN. 6. A imagem da cidade. Silvia Ferreira dos Santos. Anais do 6º Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília: UnB. O desenho urbano de Maringá e a idéia de cidade-jardim. 1995. La practica del urbanismo. 1998. Tese (Doutorado). 2003. A. Humberto. Maringá espaço e tempo. Anais do 7º Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. KOHLSDORF. 9 . Renato Leão. Tristes trópicos. CATÁLOGO do acervo da DPHC. 1995.CARVALHO. O posicionamento e o traçado urbano de algumas cidades implantadas pela Companhia de Terras Norte do Paraná e sucessora. Jardim América. Dissertação. D. S.. PR: o espaço e a forma urbana. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Karin Schwabe. Morfologia urbana e desenho da cidade. LYNCH. São Paulo: Martins Fontes. 1996. _____. Cidades novas norte paranaenses.