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Psicodinâmica do trabalho

Álvaro Roberto Crespo Merlo*

Fonte Artigo extraído do livro Saúde mental & trabalho: leituras. JACQUES, Maria da Graça; CODO, Wanderley (Orgs.). Petrópolis: Vozes, 2002. p. 130-142.

As origens A percepção de que o trabalho pode ter conseqüências sobre a saúde mental dos indivíduos é muito antiga. Podemos encontrá-la no clássico “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin – sensível à violência produzida pelas transformações contemporâneas do taylorismo e do fordismo sobre os trabalhadores –, até nos não menos clássicos estudos acadêmicos dos “pais” da Sociologia do Trabalho, Georges Friedman e Pierre Naville (1962), onde relatam as conseqüências do trabalho em linha de montagem. Nas origens da Psicodinâmica do Trabalho, temos os estudos de Le Guillant (1984), que, durante os anos 50, realizou as primeiras observações sistemáticas que lhe permitiram estabelecer relações entre trabalho e Psicopatologia. Seu trabalho mais citado foi feito em 1956 sobre a atividade de telefonistas em Paris, no qual o autor diagnosticou um distúrbio que ele nomeou como Síndrome Geral de Fadiga Nervosa, caracterizada por um quadro polimórfico que incluía alterações de humor e de caráter, modificações do sono e manifestações somáticas variáveis (angústia, palpitações, sensações de aperto torácico, de “bola no estômago”, etc.). O autor falava, ainda, da invasão do espaço fora do trabalho por hábitos do trabalho que ele chamou de Síndrome Subjetiva Comum da Fadiga Nervosa. Esta última síndrome caracterizava-se pela manutenção do ritmo de trabalho durante as férias, manifestando-se pela sensação de irritação, por uma grande dificuldade para ler em casa e pela repetição incontrolável de expressões verbais do trabalho (Le Guillant, 1984: 382). Gillon (1962) considerava que não havia uma relação de especificidade entre o tipo de distúrbio mental e o trabalho efetuado, exceto nos casos provocados por intoxicações ou naqueles que ele atribuía a “condições de trabalho particularmente penosas”, sem precisar as atividades englobadas nessa qualificação. Ainda que ele considerasse como excepcional a possibilidade de que as condições de trabalho fossem responsáveis por distúrbios mentais, citava pesquisas que demonstravam que existiam “elementos desfavoráveis” no trabalho, a saber:
A duração excessiva do trabalho, um trabalho considerado como monótono, muito leve ou muito sedentário, um trabalho exigindo aptidões que não estão ao alcance da inteligência do operário, um trabalho exigindo um grau de atenção muito alta ou não permitindo suficientemente a iniciativa, um ciclo de trabalho muito longo (Gillon, 1962: 163).

Médico, Doutor em Sociologia (Paris VII), Professor da Faculdade de Medicina e dos Programas de PósGraduações em Psicologia Social e Institucional e em Epidemiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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pela produção de fantasmas. seu modo operatório e sua cadência são decididos pela direção da empresa. O objetivo principal do procedimento de pesquisa seria o de localizar o processo de anulação desse comportamento livre (Merlo. 1999: 37). primeiramente. Nessas condições. apesar de tudo. segundo a qual a única forma possível de trabalho é aquela que tenha sido legitimada por sua “cientificidade”. da significação e das formas desse sofrimento e situa sua investigação no campo do infrapatológico ou do pré-patológico. é possível perceber-se que o fantasma não serve a nada. com a publicação na França de Travail: usure mentale. ao modelo comportamental que faz intervir uma tentativa visando a transformar a realidade que o circunda. Da Psicopatologia do Trabalho à Psicodinâmica do Trabalho O estudo das repercussões da organização do trabalho sobre o aparelho psíquico será muito inovado pelo trabalho de Christophe Dejours. referindo-se a palavra livre. Após diagnosticar o sofrimento psíquico em situações de trabalho. pois o conteúdo da tarefa. mas intervenções voltadas para a organização do trabalho à qual os indivíduos estejam submetidos. sobre o da patologia. um equilíbrio possível. aqui. Dejours (1987c: 735) define o campo da Psicodinâmica do Trabalho como aquele do sofrimento e do conteúdo. . o indivíduo defende-se. em 1980. adaptar-se. Ela tem como uma de suas vertentes fundamentais as categorias da Psicanálise. 1993). na medida em que possuísse uma “saúde mental equilibrada”. que via no trabalho apenas um instrumento neutro e indispensável para a ressocialização e a cura de doenças mentais. com a condição que ele preserve o conformismo aparente do comportamento e satisfaça aos critérios sociais de normalidade. Ele defendia a idéia de que o trabalho era fundamentalmente bom e terapêutico. deu-se a partir de um privilegiamento do estudo da normalidade. ela não busca atos terapêuticos individuais. O que importa para a Psicodinâmica do Trabalho é conseguir compreender como os trabalhadores alcançam manter um certo equilíbrio psíquico. É possível perceber-se na sua interpretação uma influência do próprio pensamento taylorista. compreende que frente a uma situação de agressão ao Ego. A utilização do conceito de Psicodinâmica do Trabalho. Gillon marginalizava o papel que podia desempenhar a organização do trabalho ou as relações no trabalho e reproduzia a abordagem psiquiátrica comum na época.No entanto. e que cabia ao trabalhador. com o objetivo de conjurar a descompensação e conservar. a situação de trabalho taylorizada está bloqueada entre o Ego e a realidade. o desejo e a possibilidade de sublimação. cuja visão faz do trabalho um elemento essencialmente benéfico. Para Dejours (1987c: 739). Uma outra característica importante é que a Psicodinâmica do Trabalho visa à coletividade de trabalho e não aos indivíduos isoladamente. Desta forma. conforme os desejos do sujeito. só restando ao trabalhador a escolha entre a adaptação ou a doença. traduzido no Brasil sob o nome de A Loucura do Trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. mesmo estando submetidos a condições de trabalho desestruturantes (Dejours. Assim. Propõe-se a estudar o espaço que separa um comportamento livre de um outro estereotipado. Para ele o sofrimento é um espaço clínico intermediário que marca a evolução de uma luta entre funcionamento psíquico e mecanismo de defesa por um lado e pressões organizacionais desestabilizantes por outro lado. no sentido do prazer. mesmo se ele ocorre ao preço de um sofrimento. em substituição ao de Psicopatologia do Trabalho. que lhe permitem construir uma ligação entre a realidade difícil de suportar. Essai de psychopathologie du travail. em 1987.

entre as quais: – a tentativa de se evidenciarem doenças mentais especificamente ocasionadas pelo trabalho a partir de uma hipótese patogênica inspirada no modelo toxicológico.A Psicodinâmica do Trabalho tem. esse autor pensa que é possível utilizar-se o conceito de sublimação como um instrumento de compreensão de situações de trabalho (Dejours.) “solicitam satisfação por sua própria conta”. também. – a abordagem psicanalítica. ela proibiria. Assim. dentro de um mosaico primitivo onde apenas intervém o corpo e onde não existe aparelho psíquico para controlar essas operações. – a abordagem “agressológica”. por motivo de queda de performance profissional e de alterações na vida relacional. por referência fundamental. limitações. que vai chocar-se com obstáculos importantes. . que privilegia o estudo das consequências do estresse sobre o organismo humano e que poderia ser as semelhada à Psicodinâmica do Trabalho através da identificação entre estresse e sofrimento psíquico. O conceito de sublimação tem sua origem na teoria de Freud sobre o desenvolvimento da sexualidade. É no espaço entre esse prescrito e esse real que pode ocorrer ou não a sublimação e a construção da identidade no trabalho. pois fica difícil determinarem-se as relações entre o sujeito que sofre de um distúrbio psíquico e o trabalho. segundo a qual. é necessário que a criança passe por um estágio no qual ela unifique esse mosaico. após o nascimento. além da Psicodinâmica do Trabalho. os conceitos ergonômicos de trabalho prescrito e de trabalho real. também. orelhas. também. no espaço entre trabalho prescrito e trabalho real. no trabalho taylorizado. que apresenta. Para Dejours (1987c: 730) outras abordagens diferentes. quase exclusivamente. 1993: 38). existe sempre. É necessário assinalarem-se. precisamente. 1987c: 731). no entanto. porque ela tem muitas dificuldades em articular essa realidade com uma estrutura psíquica concebida. – uma abordagem de tipo epidemiológica. No entanto. os problemas oriundos das dificuldades de diagnóstico que encontra o pessoal de saúde (médico do trabalho e mesmo os psiquiatras). na medida em que esse trabalho já foi perdido. É o momento da indiferenciação somato-psíquica. em primeiro lugar. isto é. também. a principal crítica que a disciplina dirige ao taylorismo é que ele impede a conquista da identidade no trabalho. etc. conseqüente à separação entre concepção e execução. na maior parte das vezes. Porém. Para chegar a uma sexualidade adulta. como a seleção de uma amostra significativa. pulsões parciais fogem a essa unificação. toda a liberdade de organização. pelo fato de que a Psicanálise privilegia o campo do fantasma em relação à realidade e. pois tal adaptação exigiria uma atividade intelectual e cognitiva não esperada pelo taylorismo (Dejours. são possíveis. Tal unificação faz-se através do olhar do outro e. olhos. os órgãos sensoriais (pele. não importando o tipo de pressão no trabalho. a partir de experiências infantis. A principal limitação dessa interpretação é a sua não-especificidade com relação ao tipo de trabalho. as reações somáticas são sempre de mesma natureza. uma separação entre trabalho prescrito e real. de reorganização e de adaptação ao trabalho. A Organização Científica do Trabalho não se limitaria apenas à desapropriação do saber. Segundo Daniellou e colaboradores (1983: 39). a qual ocorre. da mãe no momento dos cuidados com o corpo do bebê.

o trabalhador deve ser beneficiado por um espaço lúdico.). o que o obriga a mobilizar sua curiosidade. A organização do trabalho deverá. A epistemofilia é uma característica muito difundida e ela é o resultado deste redirecionamento de objetivos das pulsões. Este é um elemento que terá um papel essencial nas relações de trabalho. Toda situação de trabalho apresenta algo de enigmático para o sujeito. o trabalho repetitivo elimina toda possibilidade de sublimação e leva. é necessário que se produza uma mudança de objetivo na pulsão. fundamental. supondo-se que ocorra. geralmente. também. são redirigidas ao trabalho. é necessário que certas condições sejam preenchidas: a) Condições psíquicas Em primeiro lugar. por meio da repressão. uma atividade de substituição socialmente valorizada. Por sua vez. deve intervir uma dessexualização das pulsões parciais. dessa forma. c) Condições organizacionais O espaço no qual pode ocorrer a epistemofilia é o mesmo no qual se desenvolve o processo de sublimação. o processo graças ao qual essas pulsões parciais – cuja satisfação é. isto é. Em segundo lugar. portanto. à atividade sexual e a se interessar por causas com um valor social. preliminarmente. b) Condições ontogenéticas O objeto transicional – que substitui o corpo da mãe – deve vir do exterior. A relação que os pais têm com o seu trabalho e sua própria epistemofilia é. deve-se nela encontrar: .A sublimação é. pois trata-se de manterem-se juntos os aspectos semelhantes e os aspectos diferentes e. Essa fase da infância exige companheiros (a professora. é fundamental que o indivíduo possa jogar com sua própria epistemofilia. Para que a sublimação possa ocorrer na atividade de trabalho. de natureza sexual – encontram uma saída substitutiva em uma atividade socialmente valorizada. responder a certas características para que tal mecanismo possa funcionar. tanto a doenças somáticas. fazê-los interagir. fazer o contraponto frente à atitude dos pais. o que implica uma competência particular. a situação e a atividade de trabalho –. como a curiosidade manifestada em relação à situação presente e como a pesquisa do acesso à significação dessa realidade. Assim. Essa compreensão atingirá todo seu valor na medida em que ela provocar uma diminuição do sofrimento e possibilitar que a sublimação aconteça. originalmente. uma dessexualização e. portanto. como a descompensações mentais (psiconeuróticas). essa substituição não é simples. como foi descrito anteriormente. Na sua infância (dos cinco anos até a puberdade). No caso de pais para quem o trabalho não deixa nenhum espaço ao desenvolvimento de sua própria epistemofilia. e a criança vai encontrar-se presa entre os dois campos. a curiosidade infantil é sentida como uma ameaça. A idéia subjacente é a de que essas pulsões do sujeito. etc. que deveriam desembocar sobre relações sexuais. o qual não acontecerá se esse espaço for muito estreito. a qual será recompensada pela compreensão obtida. os pais. na verdade. a escola não consegue. conseqüentemente. Nesse caso. pois ela vai de encontro a uma estratégia defensiva que eles tiveram muita dificuldade em estabelecer. este termo sendo compreendido como um desejo de entender a realidade – no caso. parcialmente. No entanto. onde ele aprenda a renunciar.

porque ela baseia-se em critérios que são. ao mesmo tempo. – uma correspondência entre a situação de trabalho e o estado interno do sujeito. entre os dois teatros. a do teatro psíquico interno – que dá forma à curiosidade – e a do teatro do trabalho e de se passar de um teatro a outro. A valorização da atividade do trabalhador pelos seus próprios colegas reveste-se de muita importância na medida em que não é mais a hierarquia que a faz. e) Condições sociais da sublimação Para que a sublimação possa produzir-se no trabalho. isto é. O reconhecimento que se dirige diretamente à pessoa atinge. algum tipo de atividade de concepção. invariavelmente.só poderá se operar se existir uma analogia. A partir do momento . que é a equipe ou a comunidade à qual a pessoa pertence. Outra peculiaridade importante é que o julgamento deve referir-se ao trabalho e não à pessoa. o que quer dizer que a atividade fornecida pelo empregado deve receber a gratidão de seus superiores hierárquicos na empresa. normalmente. de fato. d) Condições éticas A relação que existe entre a organização real e a prescrita do trabalho é sempre conflitiva: o sujeito opõe-se. conservando alguma coisa a mais. As atitudes inventivas e as tentativas de se realizarem experiências novas no trabalho implicam um sofrimento que se apresenta muito custoso no plano psicológico e para a saúde globalmente. o domínio do erótico. estéticos e econômicos (no sentido de economia do corpo) quanto à realização do trabalho. – um espaço que permita assumirem-se responsabilidades. sendo o do trabalho que irá retomar. Porém. Trata-se de se estabelecer uma relação entre duas cenas. Na medida em que as regras são estritamente respeitadas. um outro critério intervém nesse julgamento: a elegância e a leveza no trabalho. para permitir a construção da identidade. assim. Porém. na medida em que são elas que vão permitir estimular-se novamente. técnico. feito pelos pares. o teatro psíquico interno. esse julgamento. e esse julgamento é necessário para que se construa a identidade no trabalho. Dejours (1987) chama de “julgamento de beleza”. Esse reconhecimento precisa acompanhar-se de um julgamento de utilidade. por sua vez. Isso significa que os interlocutores do trabalhador devem reconhecer que as atitudes deste último contribuíram para a realização do trabalho. tomar a forma de um reconhecimento. devendo. O “julgamento de beleza” e. permitir a cada um fazer parte do coletivo. etc. à segunda. É ele que vai abrir um espaço ao individual. isto é. uma característica particular. como alguma coisa que tenha utilidade do ponto de vista econômico. o trabalhador deverá constituir um conjunto de pares a quem dará a contribuição. isto é. uma semelhança. Essa relação – a ressonância simbólica . ou seja. elas não mais são vistas. de forma controversa. isto é. ela necessita ter.– um espaço entre organização do trabalho prescrita e organização do trabalho real. o domínio do amor. um caráter moral. pelo coletivo de trabalho. antes de mais nada. ele deve receber uma retribuição que não se resume à simples atribuição de um salário ou de um prêmio por produtividade. Como retorno à contribuição dada pelo trabalhador à organização do trabalho. As diferenças são aqui tão importantes como as coincidências. a curiosidade do sujeito e transformá-lo. é baseado em critérios estritos: para ser-se bom juiz é necessário pertencer ao métier e respeitar suas regras.

também. pois a realização da “burla” depende da história pessoal de cada um e do seu conhecimento e experiência anteriores. exige respostas fortemente personalizadas. Assim. do desvendamento das relações de poder que aí existem e da apropriação do saber operário que ocorre.em que o reconhecimento não passa mais pelo trabalho. Assim. no entanto. O medo ressentido no trabalho pode ter várias origens (Dejours. Existe. diretamente. construídas por subversão e transgressão daquelas prescritas. herdeira da Sociologia do Trabalho. a relação encontra-se erotizada e não permite mais a construção da identidade do trabalhador. Será através dos mecanismos de defesa empregados pelo trabalhador que será possível estudar e desvendar seu sofrimento. Porém. O “julgamento de beleza” refere-se às regras do métier. também. Dejours (1987a: 22) estabelece uma separação fundamental entre os “coletivos de defesa” produzidos por sublimação e aqueles gerados por mecanismos simplesmente adaptativos: Se os coletivos de defesa por sublimação mantêm uma relação de relativa continuidade com o desejo. na medida em que se baseia na mesma análise minuciosa e sistemática das organizações do trabalho taylorizadas. haver um acordo mútuo quanto à maneira de transgredi-las: é preciso tornarem-se públicas as “burlas do métier”. 1993: 97): a) o medo relativo à degradação do funcionamento mental e do equilíbrio psicoafetivo. Trata-se. o qual pode originar-se na desestruturação das relações entre os colegas de trabalho. às más condições de trabalho. Acreditamos que a Psicodinâmica do Trabalho é. não existem apenas critérios técnicos que entram na definição desse consenso. o reconhecimento dos outros. o medo e a monotonia. nesse caso. os trabalhadores são levados a criar espaços públicos. um medo específico relativo à desorganização do funcionamento mental. em dado momento. que direcionam. Sem negar a importância dos cerceamentos psíquicos ligados ao trabalho na geração do sofrimento. Manifesta-se através da discriminação. de realizar a “burla” frente às regras. a falta de possibilidades para se mudarem. Essa atividade deve contar com a participação de todos. onde eles possam decidir a melhor maneira de realizar uma determinada tarefa. b) o medo relativo à degradação do organismo e ligado. a saber. opondo o trabalhador à sua hierarquia. da suspeição ou ainda de relações de violência e de agressividade. Dejours (1993: 64) chama a atenção para o fato de que é. os coletivos originados em defesas estritamente adaptativas têm uma tendência maior a . para que se possa merecer o “julgamento de beleza”. ou mesmo aliviarem esses cerceamentos. É necessário. devido à auto-repressão exercida de encontro ao aparelho psíquico e pelo esforço empregado para se manterem comportamentos condicionados. principalmente. prioritariamente. para que essas novas normas possam resultar de um consenso que as legitime. tal qual instaurada pelo taylorismo. que são espaços comuns no trabalho. aos dois sofrimentos mais importantes provocados pelo trabalho. a origem dos problemas de saúde. O fracionamento da atividade.

a ideologia defensiva funcional tem por objetivo [. que é voltada para o estudo e o tratamento terapêutico dos indivíduos na sua relação com uma história singular. isto é.]. enfim. A Psicodinâmica do Trabalho incorpora conceitos sociológicos para caracterizar e detalhar a organização taylorista. assim. .]. na medida em que se apresenta como um mecanismo de defesa elaborado por um grupo social particular.. para apreender o indivíduo que entra no universo do trabalho como portador de uma história singular que foi construída desde sua infância. unicamente.].. Este segundo caminho explica-se pelo fato de que. [. Como descreve Dejours (1993: 43). deve obter a participação de todos os interessados e [. após terem-se desenvolvido mecanismos de defesa contra a organização do trabalho. diferentemente de outras defesas. Isto ocorre porque a sublimação.. O sofrimento pode. também.. 1987b: 112). torna-se penoso tentar uma modificação nessa situação.. enquanto que a repressão é limitante para o jogo pulsional. vistos como o resultado exclusivo da história singular do trabalhador que se manifestariam em um indivíduo imaginário quase insensível aos ambientes e à organização do trabalho na qual está inserido. não se encontram apenas sofrimento. de forma importante... ainda que sem abandonar seus conceitos essenciais. 1987a: 21).] É ao nível da ideologia defensiva. para ser funcional. e. o sujeito de seu desejo e favorecem a lógica da alienação na vontade do outro (Dejours. para os quais a defesa é a sublimação que permite aberturas novas e.quebrar com a expressão do desejo [. os trabalhadores submetidos à execução de tarefas repetitivas. a Psicodinâmica do Trabalho termina por romper. como uma terapêutica universal para remediar “desequilíbrios mentais”. para quem as defesas contra o sofrimento são a repressão pulsional.].. tais como os de sublimação. fonte de sofrimento e de prazer. Uma ideologia defensiva não é dirigida contra uma angústia originada de conflitos intrapsíquicos de natureza mental. Ela constrói uma nova abordagem.. que se deve buscar uma especificidade [. com essa fonte de inspiração. para ser operatória. mutilação e morte. É a partir do estudo das ideologias defensivas que se irá construir a investigação proposta por esta metodologia (Dejours. Outra contribuição da Psicodinâmica do Trabalho é a sua abordagem da relação com o prazer que pode existir entre o trabalhador e seu trabalho. deve ser dotada de uma certa coerência. conter e ocultar uma ansiedade particularmente grave. de outro.. conceitos ergonômicos para identificar o espaço existente entre trabalho real e trabalho prescrito. a auto-aceleração ou a ideologia defensiva de profissão que expulsam. na qual o trabalho não mais é visto. Na realidade concreta e na vivência individual do trabalho. aquelas que são. garante. como no exemplo dado por Dejours (1993: 102) da atividade dos pilotos de caça. de um lado. respectivamente. é indispensável para se tentar uma interpretação mais global dos laços entre trabalho e saúde e..] mascarar. O sofrimento pode tornar-se o instrumento de uma modificação na organização do trabalho ou gerar um processo de alienação e de conservadorismo. Uma ideologia defensiva. ter dois destinos diferentes: de um lado. mas ela é destinada a lutar contra um perigo e um risco real [. A compreensão da maneira como se elaboram as duas facetas da organização do trabalho.. para se procurarem alternativas satisfatórias. Se essa compreensão encontra sua origem na Psicanálise. uma saída pulsional. conceitos psicanalíticos. a sublimação. frente ao sofrimento. não destruidora para o funcionamento psíquico e somático.

Paris: Ed. Na medida em que não é possível falar-se de distúrbio que possa ser associado a uma situação específica de trabalho. Em várias atividades nas quais não se encontram. agressões imediatamente observáveis – diferentemente dos acidentes de trabalho ou intoxicações –. Paris: Le Centurion. 1983. por exemplo. Plaisir et souffrance dans le travail. médicos do trabalho. La méthodologie en psychopathologie du travail. Séminaire interdisciplinaire de psychopathologie du travail. 1987a: 15-24. de l’AOCIP. praticamente. 209: 39-45. A metodologia da Psicodinâmica do Trabalho encontrou muita ressonância entre os pesquisadores e técnicos brasileiros que atuam na área da Saúde do Trabalhador (psicólogos. (org. com relação ao papel da inteligência operária e seu papel como mecanismo de defesa e construção de identidade no trabalho (Dejours. et al. ter exposto as possibilidades de agressão mental originadas na organização do trabalho e identificáveis ainda em uma etapa pré-patológica. como.). Cahiers Français. no entanto. Fiction et réalité du travail ouvrier. os instrumentos de investigação empregados pela Psicodinâmica do Trabalho revelam-se preciosos auxiliares para se compreenderem as relações trabalho-doença. fisioterapeutas. Tome I. sem dúvida. . de l’AOCIP. Tome I. In: DEJOURS. 1992). engenheiros de segurança. Paris: La Documentation Française. ______. n. o desvendamento do sofrimento psíquico desde o estado pré-patológico permite progredir-se na identificação das conseqüências da organização taylorista do trabalho sobre o aparelho psíquico dos indivíduos e pensar-se em uma intervenção terapêutica precoce.Méritos e limitações O principal mérito da Psicodinâmica do Trabalho é. F. Referências bibliográficas DANIELLOU. que se inscrevem em realidades concretas de trabalho. Acreditamos. Paris: Ed.). In: DEJOURS. ______. A abordagem adotada por essa disciplina permite ultrapassar-se a redução a um denominador comum de diversas situações de trabalho e buscarem-se vivências operárias específicas. Souffrance et plaisir au travail: Approche par la psychopathologie du travail. 1980. que é uma metodologia ainda muito jovem e em construção – e isso é dito sem nenhum demérito ao enorme esforço que vem sendo feito para construí-la –. DEJOURS. Travail: usure mentale – Essai de psychopatologie du travail. C. C. Séminaire interdisciplinaire de psychopathologie du travail. etc. Plaisir et souffrance dans le travail. que lhe permitirá aportar respostas mais completas sobre as relações entre saúde mental e trabalho e definir de forma mais nítida suas fronteiras com as outras disciplinas com as quais ela tem interface. E isso ocorreu pela capacidade dessa disciplina em preencher lacunas epistemológicas importantes no conhecimento em saúde e trabalho. (org. 1987b: 99-113.). que haviam sido relegadas a um segundo plano ou simplesmente negadas. C. que poderá (deverá) sofrer um processo de amadurecimento.

. Travail: usure mentale. (org. nouvelles formes d’organisation et de relations de travail. J. Intelligence ouvrière et organisation du travail (a propôs du modele japonais de production). In: FRIEDMANN. NAVILLE. ______. C.. In: LÉVY-LEBOYER.). Paris: PUF. NAVILLE. GUILLON J. (org. Quelle psychiatrie pour notre temps? Paris: Èrés. 1962. A Informática no Brasil: prazer e sofrimento no trabalho.______. Porto Alegre: Ed. L. Paris: Armand Colin. C. 1992: 158-169.. Helena (org. Paris: Armand Colin. Paris: Bayard. R. G. da Universidade/UFRGS.). LE GUILLANT. Autour du “Modèle” Japonais: automatisation. P. 1992: 275-303. MERLO. Aspects en psychopathologie du travail. De la psychopatologie à la psychodynamique du travail. Traité de Psychologie du Travail. . In: HIRATA. A. 1987c: 729-747. ______. G. J.). Traité de Sociologie du Travail. Paris: Harmattan. SPERANDIO. 1999. Psycopathologie du travail.C. Réédition 1993. Traité de Sociologie du Travail. 1984. P. FRIEDMAN.