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PREQUESTIONAMENTO E RECURSOS EXCEPCIONAIS

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Autor: Pedro Diniz Gonçalves O’Dwyer. Área: Direito Processual Civil.

Este esboço tem por objetivo esclarecer alguns pontos sobre a principal causa de inadmissibilidade dos recursos excepcionais pelos tribunais superiores. Tema tormentoso, debatido enfaticamente pela doutrina é, ainda hoje, de difícil assimilação por grande parte dos operadores do direito. Serão feitas algumas críticas sobre posições doutrinárias dominantes, não se olvidando da jurisprudência das Cortes Maiores que definirão, enfim, se os recursos excepcionais serão ou não julgados pelo mérito.

Como bem salientado por JOSÉ MIGUEL GARCIA MEDINA¹, prequestionamento é conceituado partindo-se de três concepções diversas.

A primeira corrente entende que seria o prequestionamento ato da parte, desvinculado de qualquer manifestação jurisdicional. Seria, pois, o ato pelo qual a parte suscita no processo ilegalidade ou inconstitucionalidade da decisão recorrida.

Para os defensores desse posicionamento, estar-se-ia suprida a exigência do prequestionamento do recurso excepcional quando a parte “questionasse antes” a ilegalidade ou inconstitucionalidade de determinada decisão. É o que se faz na prática quando os advogados abrem um tópico próprio, em petições recursais, intitulado “do prequestionamento da matéria”.

A segunda concepção, amplamente majoritária e encartada pelos tribunais superiores, entende que o prequestionamento seria um ato jurisdicional. Ter-se-ia

na parte pertinente.... do Distrito Federal e Territórios quando a decisão recorrida. consiste na afloração da questão federal no acórdão impugnado. mediante recurso extraordinário.102. a guarda da Constituição. em recurso especial. Compete ao Supremo Tribunal Federal. as causas decididas.) III. in verbis: Art. Os que defendem esse posicionamento se embasam no próprio texto constitucional. quando a decisão recorrida: Art. leciona ARAKEN DE ASSIS². precipuamente. ao tratar de ambos os recursos. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: (. Vale transcrever os artigos em comento. . defende a corrente majoritária que o prequestionamento seria a manifestação da expressão constitucional “causas decididas em única ou última instância”.julgar. in verbis: “O prequestionamento constitui o próprio conteúdo do pronunciamento judicial.. em única ou última instância. as causas decididas em única ou última instância.julgar. que traça os contornos da admissibilidade dos recursos excepcionais. porém exata. pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais dos Estados.) III. É a afloração (palavra expressiva e adequada ao caso) dos tipos constitucionais contemplados no art. requisito previsto tanto para o cabimento do recurso especial. Neste sentido. “Em síntese larga. 102 III da CF/1998”. É o modo peculiar de expressar-se o cabimento do recurso de motivação vinculada”. quanto para o cabimento do recurso extraordinário.prequestionada a matéria quando a corte a quo se manifestasse sobre a constitucionalidade ou legalidade de determinada questão. cabendo-lhe: (.105. Seguindo essa linha.

a concepção doutrinária em espeque pode ser assim resumida: Prequestionamento = causas decididas em única ou última instância. . por parte do Tribunal de que emanou o acórdão impugnado. 3. in verbis: RE n. Assim. Leonardo & DIDIER JUNIOR. como se extrai dos seguintes julgados. É reconhecido que as hipóteses de cabimento de tais recursos estão tratadas na Constituição Federal. 2ª Turma. Salvador: Jus Podium.Percebam o raciocínio do posicionamento dominante: parte-se da premissa de que o prequestionamento é expressão consagrada que se refere a um requisito de admissibilidade dos recursos excepcionais. em relação a esse ponto. induvidosamente haverá prequestionamento e. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça segue essa mesma orientação. da questão federal ou constitucional que se quer ver analisada pelo Superior Tribunal de Justiça ou Supremo Tribunal Federal. Fredie. na decisão recorrida.. se conclui que este seria a manifestação da expressão “causas decididas em única ou última instância”. o recurso extraordinário eventualmente interposto deverá ser examinado”. 2006.528/MG-AGRG. Corroborando este entendimento. Em linguagem matemática. Vol. Apesar da Lex Major não fazer menção ao termo “prequestionamento”.189.P. in Diário da Justiça de 4 de outubro de 2002: INADMISSIBILIDADE DO PREQUESTIONAMENTO IMPLÍCITO. e LEONARDO CARNEIRO DA CUNHA1: “Preenche-se o prequestionamento com o exame. não autoriza – ante a falta de 1 CARNEIRO DA CUNHA. 1ª ed. estaria prequestionada a matéria quando efetivamente decidida em única ou última instância. Curso de Direito Processual Civil. Se essa situação ocorre.A ausência de efetiva apreciação do litígio constitucional. FREDIE DIDIER JR.344.

14. sequer considerado pela maioria. a questão federal suscitada. sem terem sido enfrentados pelo voto condutor. aprovada pela Turma Nacional de Uniformização de Jurisprudência: Os temas tratados no voto vencido. É oportuno ressaltar que o Supremo Tribunal Federal. não satisfazem ao requisito do prequestionamento. Não se configura o prequestionamento se. BERNARDO PIMENTEL SOUZA2. como se observa nos seguintes julgados: STF. 4ª ed. Enunciado da súmula 211 do STJ: Inadmissível recurso especial quanto à questão que. assim como o Superior Tribunal de Justiça. Enunciado 320 da súmula do STJ: a questão federal somente ventilada no voto vencido não atende ao requisito do prequestionamento.479/SP. Bernardo Pimentel. com razão. adotando fundamento independente. . no acórdão recorrido. mesmo que a questão tenha sido tratada apenas no voto vencido.prequestionamento explícito da controvérsia jurídica – a utilização do recurso extraordinário Enunciado da súmula 282 do STF: É inadmissível o recurso extraordinário quando não ventilada. apenas o voto vencido cuidou do tema suscitado no recurso extraordinário. Introdução aos Recursos Cíveis e à Ação Rescisória. na decisão recorrida. não foi apreciada pelo tribunal a quo. discorda do posicionamento ao afirmar que. sedimentaram o entendimento de que a questão recorrida deve ter sido ventilada no voto vencedor e não apenas no voto vencido. sobre o qual não foram opostos embargos declaratórios não pode ser objeto de recurso extraordinário. Questão de ordem n. por falta do requisito pré-questionamento. 118. P. resta 2 SOUZA. julgado em 30 de maio de 2000: RE: prequestionamento: voto vencido. a despeito da oposição de embargos declaratórios. Cf.319. São Paulo: Saraiva. RE n. Enunciado da súmula 356 do STF: O ponto omisso da decisão.

Sem embargo dos posicionamentos em contrário. Os institutos e conceitos jurídicos não podem ser moldados ao arrepio das definições semânticas das expressões. o recurso excepcional deve atender ao requisito “causas decididas em única ou última instância”. seguido necessariamente de uma manifestação jurisdicional. esclarece NELSON NERY JR3. Existe. Salvador: Jus Podium. Dar ao instituto definição diversa do real significado da palavra “prequestionar” é. contudo. e questionar antes é ato das partes. . É certo que. 2007. reconhece que. para ser cabível. Prequestionamento é. Leituras Complementares de Processo Civil (obra coletiva sob a coordenação de Fredie Didier Jr. é imprescindível a interposição dos embargos declaratórios no tribunal de origem para que este se manifeste sobre a questão federal ou constitucional ventilada apenas no voto vencido. ainda. atendido o requisito do prequestionamento. Prequestionar é. Coerente com este entendimento. P. O Autor. Estabelecer.). ipisis litteris: 3 NERY JUNIOR. uma terceira corrente: a eclética. diante da jurisprudência sedimentada do STJ e do STF. sem dúvida. Nelson. questionar antes. como não poderia deixar de ser.evidenciada a discussão da quaestio iuris no julgado recorrido estando. O texto constitucional é expresso nesse sentido.61. Abarcando os dois posicionamentos anteriores. talvez. defende que o prequestionamento seria ato da parte. mais técnica e coerente é a primeira concepção. o ato da parte pelo qual se insta o tribunal a quo a manifestar-se sobre a questão legal ou constitucional recorrida. tão somente. a principal causa da não admissão dos recursos excepcionais. assim. contudo. que prequestionamento é o decidir em única ou última instância sobre a questão legal ou constitucional é um equívoco. 5ª ed.

Essa semântica vulgar há que ceder passo às proposições normativas”. é o requisito de admissibilidade dos recursos excepcionais e não se confunde com o ato que a provoca. É difícil compreender que prequestionar significa decidir em última ou única instância. um falso problema no direito processual civil. é o responsável pela não admissão da maioria dos recursos excepcionais interpostos e. Não se pode negar que o termo prequestionar encontra-se consagrado pela doutrina e jurisprudência pátria. Ob. portanto. deve ser combatido. ora quanto ao seu aspecto semântico. uma vez que a definição semântica da expressão não conduz a essa conclusão.Criou-se. todavia. Formada a partir da derivação prefixial do termo “questionamento”. ARAKEN DE ASSIS4 reconhece a existência do problema. porém se posiciona da seguinte forma: “Turvou a clareza do tema a deletéria influência da própria palavra “prequestionamento”. A questão decidida em única ou última instância. o contexto jurídico não lhe podou a natural relação de sentido. 4 . que é o cabimento do recurso. P. Neste ponto. 688.“O prequestionamento não é um fim em si mesmo. Cit. ato este que conduz o julgador a decidir sobre determinada questão legal ou constitucional. reputo mais coerente e lógico defender que o prequestionamento é um ato da parte. Em conclusão. ora quanto à sua menção expressa ou não no texto constitucional”. que a expressão deva estar isenta de críticas. sugerindo a todos os espíritos que prequestionar é questionar antes. É apenas um dos meios para chegar-se ao requisito de admissibilidade dos recursos excepcionais (extraordinário e especial). tampouco instituto que tenha autonomia e subsistência próprias. diante do qual parte da doutrina prefere se curvar. uma consideração merece ser feita. por sua vez. discutindo-se o “termo” prequestionamento. por isso. Não é por essa razão. O erro.

quanto para os legisladores de revisão. uma das principais funções da doutrina é. contudo. mas tão somente na jurisprudência das cortes superiores. Vamos a elas: Sinteticamente. Primeiro. . o fato de estar ou não contido em proposições normativas não torna certo o que está errado. a saber: 1. combater os erros contidos nos textos legais. apesar da decisão recorrida não haver se manifestado sobre a questão legal ou constitucional.Com a devida venia. ao artigo de lei. justamente. tido por afrontado. passemos à análise das classificações doutrinárias e dos posicionamentos jurisprudenciais. Deve ser alertado que essas orientações foram desenvolvidas com base no conceito dominante de prequestionamento. na decisão recorrida. Aliás.Espécie mais aceita pelos que defendem ser o prequestionamento ato das partes. consideram-no como ato de manifestação jurisdicional sobre determinada questão legal ou constitucional posta sob análise. Explícito . Feitas as críticas pertinentes. o prequestionamento costuma ser classificado em quatro formas distintas. Depois. 3. Numérico – É aquele em que existe expressa referência. Ou seja. não há expressa referência ao artigo de lei tido por violado. trilhando caminhos corretos. 2. O requisito estaria atendido quando. ou da constituição. discordo da conclusão a que chegou o brilhante doutrinador. porque o termo não se encontra consagrado em proposições normativas. não há menção a “prequestionamento” nem na Constituição Federal nem no Código de Processo Civil.Ocorre quando a questão legal ou constitucional é efetivamente solucionada na decisão recorrida. tanto para os operadores do direito. Implícito .

no bojo da decisão recorrida. 418. razões recursais. Considerando a classificação proposta. contestação. 4. Tal classificação é proposta por BERNARDO PIMENTEL SOUZA5 que assim se manifesta: “A propósito. a despeito da oposição de embargos declaratórios. explícito ou ficto. Seria essa uma classificação conciliadora. em outras peças processuais. Há prequestionamento explícito quando a questão federal é resolvida no julgado recorrido. prequestionamento é classificado pela doutrina e pela jurisprudência em razão da evidência e até da efetiva ocorrência do julgamento da questão federal. contra-razões). explícito. petição inicial. apesar de previamente veiculada em peças processuais (verbi gratia. não existindo quando se tratar da modalidade implícita. Cit. no mínimo. É o que revela o enunciado n. há o prequestionamento quando a questão federal não é resolvida no julgamento recorrido. só há prequestionamento se for numérico ou. não foi apreciada pelo tribunal a quo” ”.essas foram devidamente ventiladas pelas partes. como se infere dos seguintes julgados: 5 Ob. . A rigor. é aceito como ato das partes. ou não. O prequestionamento numérico consiste na existência de menção expressa ao preceito de regência da questão federal. Por fim. O prequestionamento é entendido como ato jurisdicional. O prequestionamento é implícito quando a questão federal não é solucionada na decisão recorrida.211 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça: “ Inadmissível recurso especial quanto à questão que. mas ante ao problema da reiterada omissão. Ficto – Seria aquele em que a questão é ventilada pelas partes e a decisão é omissa e frente à omissão são interpostos embargos declaratórios aos quais não é dado provimento. nem mesmo após a interposição de embargos declaratórios. P. ainda que sem menção ao respectivo preceito legal de regência. o Supremo Tribunal Federal entende que existe o prequestinamento se este for numérico.

admitindo eventual recurso extraordinário interposto.307/SP – AGRG. nada mais se pode exigir da parte. não foi objeto de embargos de declaração. se reputa carente de prequestionamento é o ponto que. O que.210.. se recusa o Tribunal a suprir a omissão.RE n. todavia. RE: prequestionamento. A orientação da Corte é evidenciada na súmula 211 de sua jurisprudência. mesmo diante dos embargos declaratórios.638/SP. 1ª Turma.528/MG-AGRG.11: I.344. permitindo-lhe. não foi apreciada pelo tribunal a quo. por parte do Tribunal de que emanou o acórdão impugnado. não autoriza – ante a falta de prequestionamento explícito da controvérsia jurídica – a utilização do recurso extraordinário”. p. a teor da Súm. interpor recurso extraordinário sobre a matéria dos embargos de declaração e não sobre a recusa. Lembre-se que. in Diário da Justiça de 19 de junho de 1998. 306. de logo. O Superior Tribunal de Justiça.A ausência de efetiva apreciação do litígio constitucional. Súmula 356. por entendê-la inexistente. in Diário da Justiça de 02 de maio de 2003: Falta de prequestionamento – atualmente é pacífico o entendimento desta Corte de que não se admite como tal o denominado prequestionamento implícito – das demais questões constitucionais invocadas no recurso extraordinário.356. Curiosa é a solução do STJ para os casos em que. . de manifestação sobre ela.CF. indevidamente omitido pelo acórdão. a despeito da oposição de embargos declaratórios. que prescreve: Enunciado da súmula 211 do STJ: Inadmissível recurso especial quanto à questão que. o tribunal a quo permanece omisso. não obstante. 1ª Turma. se. o STF entende estar evidenciado o prequestionamento ficto. AG n. opostos estes. 2ª Turma. em hipóteses quejandas. não reputa válido o prequestionamento implícito. nem tampouco o ficto. por sua vez. no julgamento deles. Cf. in Diário da Justiça de 4 de outubro de 2002: INADMISSIBILIDADE DO PREQUESTIONAMENTO IMPLÍCITO. RE n. mas. admite a existência dos denominados prequestionamento numérico e expresso.

a parte interpõe novo recurso especial. justamente por força da omissão. ao comentar a súmula 211 do STJ. por negativa de prestação jurisdicional). seria admitido o recurso especial com fundamento na causa decidida. por essa via. Corroborando esse entendimento podemos citar ARAKEN DE ASSIS6 que. Essa é.535. P. A oposição dos embargos não visará a elisão da falta de iniciativa da parte. em poucas palavras. . então. aí sim. III. da CF. de um lado. porque a subsistência da omissão vulnera. mas corrigirá a falta de decisão do órgão a quo. e 165 (em síntese. segundo o STJ. II. a conclusão extraída do verbete se mostra incensurável. Esse raciocínio exclui a necessidade de iniciativa da parte para aflorar a questão federal. deve ser interposto recurso especial por ofensa aos artigos 535. esclarece. II. a solução dada pelo STJ : o mesmo problema que poderia ter sido resolvido com um único recurso e uma única decisão vai.Pois bem. já que incabível o recurso a respeito do não decidido”. Só nos casos em que as causas forem efetivamente decididas serão admitidos os recursos especiais. II. Após a manifestação. todos do CPC. e só aí a questão poderá ser julgada. é convocado a enfrentar o tema. agora sob fundamento diverso. in verbis: “A bem da verdade. III. 458. o art. Cit. diante da expressão “causas decididas” contida no artigo 105. uma das hipóteses previstas no artigo 105. “que. nos casos de reiterada omissão. 765. qual seja. forçando a corte de origem a se manifestar sobre a questão legal suscitada. Reputa o Tribunal Superior ser esta a solução mais técnica. agora. Observem. ao invés de julgar. Após a manifestação. ser solucionada através de dois recursos (salvo eventuais embargos declaratórios novos) e três decisões. “decidida” a questão federal. 6 Ob. remete os autos à corte de origem determinando que ela se manifeste sobre a questão legal discutida. que o STJ reconhece a omissão do julgado e. e de outro não se pode considerar. da CF.

pode o irresignado apresentar segundos embargos de declaração. Vejamos. ao contrário do que pode parecer à primeira vista. é cediço o entendimento de que o processo é instrumental. Vol 1.54.211 da Súmula do Superior Tribunal de Justiça: “É inadmissível recurso especial quanto à questão que. a despeito da oposição de embargos declaratórios. Se o próprio acórdão embargado estiver contaminado por omissão na prestação jurisdicional. porém. dispõe o enunciado n. Curso de Direito Processual Civil. Não é essa. FREDIE DIDIER JR8 comunga do mesmo entendimento: 7 Ob. assim como interpor recurso especial com esteio nos artigos 165. Além de razões de ordem prática. outras tantas de natureza jurídica parecem fulminar o posicionamento encartado pelo Tribunal Superior. Não é crível que uma questão que pode ser solucionada por uma única decisão. 8 DIDIER JUNIOR. 307. P. É que o órgão julgador pode permanecer silente. a simples interposição de embargos de declaração não afasta o óbice da falta do prequestionamento. apesar de provocado por meio de embargos declaratórios. a linha aqui adotada. todos do Código de Processo Civil”. se submeta ao tortuoso caminho proposto pelo STJ. P. Analisando o tema. não é um fim em si mesmo. Cit. A propósito. 5ª ed. não foi apreciada pelo tribunal a quo”. Prestigiar a forma pela forma é negar o caráter instrumental do processo. Fredie. . constitui um meio pelo qual se aplica o direito material ao caso concreto. 2006. 468 e 535. Mesmos aos defensores da corrente combatida.Ainda com o mesmo entendimento. Vale o peso dos que defendem a posição exposta. BERNARDO PIMENTEL SOUZA7 leciona: “Porém. Salvador: Jus Podium.

bem como tutelam o exercício do poder-dever jurisdicional do Estado. ora assegurando-as contra o arbítrio judicial. Rio de Janeiro: Forense.133. 9 CALMON DE PASSOS. 132. o interesse das partes. Toda atipicidade acarreta um prejuízo. CALMON DE PASSOS9 enfatiza: “As formas processuais tutelam as partes.“O processo não é um fim em si mesmo. P. quando reconhecida omissão da decisão recorrida na análise da questão legal levada à sua apreciação. disse-o Satta. com a cessação do conflito entre elas estabelecido.J. Os fins da justiça (legalidade) perseguidos pelo Estado são. Ex positis. Norma processual. desde que os fins do processo ou os fins particulares dos atos não sejam atingidos”. José Joaquim. E disse-o bem. Vale enfatizar que o caminho proposto pelo STJ. não há nulidade sem prejuízo. 12 Ob. P. Esboço de uma Teoria das Nulidades. indiretamente. é a que regula o exercício da jurisdição civil. inclusive. Sucede que a forma só deve prevalecer se o fim para o qual ela foi desenvolvida não lograr ter sido atingido. Vale para o processo o vetusto brocardo pás de nulité sans grief . um dano. Cit.conjunto de formas preestabelecidas. Partindo dessa premissa. A visão instrumentalista do processo estabelece a ponte entre o direito processual e o direito material”. conduziria ao mesmo resultado prático. nenhuma nulidade existe caso o Tribunal Superior admita e julgue pelo mérito o recurso especial. O processo é realidade formal . A separação entre direito e processo – desejo dos autonomistas – não pode implicar um processo neutro em relação ao direito material que está sob tutela. que outra coisa não podem validamente pleitear além da aplicação da lei ao caso concreto. Mesmo as primeiras. ora contra os abusos do adversário. apesar de muito mais longo. 2002. Ainda na mesma linha. o sistema das nulidades processuais foi todo construído em razão da existência ou não de prejuízo. mas uma técnica desenvolvida para a tutela do direito material. . estão a serviço deste último. J. e agir de forma diversa não traria qualquer prejuízo às partes.

enumera diversos princípios e regras interpretativas das normas constitucionais. conclui o último autor citado 10: “Consequentemente. também. Deve também ser considerado que a corrente ora combatida atribui aos recorrentes um ônus pela prática de um ato que não pode lhes ser imputado. São Paulo: Atlas. Os recursos especiais são inadmitidos em razão de uma irregularidade cometida pelo tribunal a quo. em detrimento da outra. por sua vez. diante de uma falta cometida pelo órgão julgador. destacam-se o princípio da unidade da constituição e o da concordância prática ou da harmonização. Direito Constitucional. quer seja ou não cominada expressamente a nulidade. Canotilho. não ser solucionado pelo STJ. que não se manifestou quando deveria fazê-lo. mesmo diante da decisão que reconheça a negativa da prestação jurisdicional e determine a manifestação do tribunal de origem. 46. O que fazer quando. é exigida a harmonização entre as normas constitucionais em conflito. Pelo primeiro. Um outro problema parece.Desta mesma forma. Alexandre de. Foge até ao bom senso que se legitime a perda do direito das partes à solução mais célere do litígio. 18ª ed. Dentre estes. este permanecer silente? Os recorrentes perderiam o direito ao recurso especial? Não creio que seja essa a posição mais correta. implica em prejuízo para alguma parte e prejuízo para os fins da justiça (em termos de correta aplicação da lei aos fatos verificados no processo)”. 10 11MORAES. a decretação da ineficácia exige que a imperfeição do ato tenha acarretado a intangibilidade do fim que lhe foi atribuído o que. Como se não bastassem os argumentos expostos. P. se estabelece que a constituição deva ser interpretada de forma a evitar contradições entre suas normas. 2005. . e não em razão de eventual omissão dos recorrentes na demonstração dos requisitos de admissibilidade do especial. e pelo outro. de forma a evitar o sacrifício total de uma. citado por ALEXANDRE DE MORAES11.

como deve admitir o recurso interposto. como tal. Diante do direito fundamental a um processo célere. são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação.a todos. se pergunta: é essa a parcela de contribuição a ser dada pelo STJ? E mais. que alguns defendem deva ser interpretada restritivamente. que propriamente atender aos reclames da população e aos preceitos constitucionais. evidenciada com as recentes reformas no sistema de execução civil. a mesma Constituição que traz a expressão “causas decididas em única ou última instância”. não só pode.) LXXVIII . é assim que acreditam estarem harmonizadas as regras constitucionais em conflito? Acredito que não. também. A preocupação com tal problema é. Sabe-se que esse novo inciso foi introduzido no texto constitucional pela EC 45 de 8/12/2004 e instituiu o denominado “princípio da celeridade processual”. a morosidade processual.. nem literal. (. Diante disso. deve ser combatida. É uma posição egoísta e.. a solução aventada pelo STJ objetiva muito mais minimizar um problema do próprio Tribunal. . a interpretação da expressão “causas decididas em única ou última instância” não deve ser restritiva. 5º.Pois bem. verificada a reiterada omissão da corte a quo. Dito postulado é fruto da sensibilidade do constituinte derivado. o STJ. A toda evidência. no âmbito judicial e administrativo. Ao que me parece. LXXVIII. prescreve também em seu artigo 5º. em relação ao principal problema do sistema jurisdicional brasileiro. assoberbado de processos. julgando-o pelo mérito. in verbis: Art.

MEDINA. Alexandre de. José Miguel Garcia. Salvador: Jus Podium. Introdução aos Recursos Cíveis e à Ação Rescisória. 3. NERY JUNIOR. comungo do mesmo entendimento da Corte Suprema. Araken de. Esboço de uma Teoria das Nulidades. Nelson. O Prequestionamento nos Recursos Extraordinário e Especial. Bernardo Pimentel. Vol. . Salvador: Jus Podium. REFERÊNCIAS: ASSIS. Leituras Complementares de Processo Civil (obra coletiva sob a coordenação de Fredie Didier Jr. persistindo a omissão quanto à questão constitucional ou legal ventilada. Curso de Direito Processual Civil. São Paulo: Saraiva. 5ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais.Em conclusão. Direito Constitucional. Fredie. São Paulo: Revista do Tribunais. Entendo que uma vez opostos embargos declaratórios. CALMON DE PASSOS. Salvador: Jus Podium. 1ª ed. Leonardo & DIDIER JUNIOR. 1ª ed. deve ser considerada prequestionada a matéria e admitidos eventuais recursos excepcionais interpostos.2007. 2006. 5ª ed. 2006. 2005. Manual dos Recursos. 18ª ed. Rio de Janeiro: Forense. DIDIER JUNIOR. 2002. 1998. São Paulo: Atlas. CARNEIRO DA CUNHA. Curso de Direito Processual Civil. MORAES. José Joaquim. 2007 SOUZA.). 4ª ed. . Vol 1. Fredie.