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Direito à integridade física Este não obteve consagração expressa no Código Civil.

Não haverá, todavia, dificuldade em derivá-lo do artigo 24. Da Constituição. E a própria lei civil ao referir, no artigo 70. A protecção concedida por lei, aos indivíduo “contra qualquer ofensa ilícita ou ameaça de ofensa à sua personalidade física” garante o direito à vida. Direito à vida assegura a preservação das funções vitais do organismo biológico humano. Assim um atentado à integridade desse organismo ou qualquer outro esquema que provoque sofrimento físico, mas que não ponha em causa imediata a sobrevivência atingirá outros direitos de personalidade: não o direito à vida. O direito à vida não admite compressão. Em qualquer conflito de direitos ou deveres (335.) o direito à vida, quando directa e funcionalmente em causa, nunca pode ceder. O Direito civil não aceita a supressão de uma vida humana, nunca. O direito à vida é indisponível. Isso significa que o seu titular não pode aliená-lo ou proceder ele próprio, á sua supressão, pedindo a morte ou praticando suicídio. Qualquer acto que vise a morte a pedido ou que se relacione com a prática de suicídio é nulo. Se for perpetrado por um 35 terceiro, equivale a uma violação do direito à vida. O auxilio ao suicídio é assim civilmente ilícito. Perante um suicídio, o Direito civil nada pode fazer: não teria sentido sancionar um falecido. No caso de tentativa de homicídio: todos os danos colaterais, incluindo tratamentos médicos e outras despesas, caberão ao suicida tentado. Já não será qualificável como suicídio o comportamento do próprio que vise a salvaguarda de bens concretamente equivalentes ou superiores ao a sua vida e que não pretenda, directamente, a morte, embora possa envolvê-la: exemplo não comete suicídio o soldado que se lança sobre uma granada para salvar os seus companheiros. Já a prática de suicídio para, com ele, provocar novas mortes, é duplamente condenável: como suicídio e como atentado à vida de terceiros. O seu próprio titular não pode colocá-la na dependência de factos futuros e incertos: seria como que condicioná-la. O duelo é assim ilícito tal como todas as denominadas práticas de risco: roleta russa por exemplo. Justificação do direito à vida e eutanásia – - argumento ético: a inteligência é uma forma de vida, cumprindo-lhe incentivá-la e preservá-la. Não o fazer equivale à autonegação; - argumento social: todo o Direito existe pelo homem e para o homem, a ordenação normativa visa o funcionamento da sociedade, mas assente na salvaguarda e na contribuição de todos os seus membros, com a morte de uma pessoa a sociedade perde um apoio e parte os seus objectivos; - argumento cultural: pensamento cristão na origem e na pureza dos seus textos e princípios, é um pensamento pacifista: proíba em absoluto, qualquer acto tendente a tirar a vida, pertence à sensibilidade mais profunda do Direito português; - argumento técnico-jurídico: o Direito comporta subsistemas inteiros de soluções diferenciadas, tendentes a encontrar um equilíbrio justo estável e consequente, entre os interesses humanos em presença, nada disto faria sentido quando se admitisse a supressão de um ser humano, qualquer norma que dispusesse de outra forma, entraria em imediato conflito com o resto do sistema. 36

A integridade física pode ser directamente atingida. Tratam-se de indemnizações recebidas pelos beneficiários por direito do próprio e por o legislador. se este não tiver a intenção de matar não é homicídio. exprime o seu bom nome.). A consideração de que cada um desfrute na sociedade. cervejaria. quer no círculo dos sues familiares. antes de mais. Honra social comunica-se às representações verbais de cada pessoa. pela trepidação. é criado pelos avós e morre.º/1. Todavia. A morte de uma pessoa provoca também danos morais: 496. partir do princípio que estas pessoas são as que. pessoal médico etc. eutanásia passiva: quando os doentes em estado desesperado e irreversível. talho etc. o médico se abstenha de medidas artificiais que possam prolongar a vida = é admissível se se verifique no estado terminal e irreversível do paciente. hoje fica claro que ela é questionada pelo ruído. Formalmente referida no artigo 70. conquanto que 37 abstractamente. Além destes provoca ainda lucros cessantes: o falecido não mais poderá trabalhar. Honra. Mas o juiz pode actuar numa interpretação extensiva: jovem abandonado pelos pais. a responsabilidade civil tem sido mais sensível aos danos patrimoniais do que aos morais. isto é ao seu nome. Indemnizações – a violação do direito à vida deveria ter as mais pesadas consequências indemnizatórias que o Direito pudesse prescrever. medicamentos. Direito à integridade física – assegura a protecção do ser biológico e das suas diversas funções. Indemnização vai para os que sofreram mais pela sua morte: avós. barulhos de um colégio no 1º andar. bar. Podemos distinguir honra social ou exterior (exprime o conjunto de apreciações valorativas ou de respeito de que cada um desfruta na sociedade) e honra pessoal ou interior (corresponde à auto-estima ou imagem que cada um faz das suas próprias qualidades). a eutanásia activa indirecta: o agente não pretende matar. ruídos vários. simplesmente ministra ao paciente medicamentos destinados a aliviar o sofrimento. efectivamente sofrem ou mais sofrem com a morte da vítima. discoteca./1 e 2). Tudo isso deve ser indemnizado (495. é definida e promovida não . mediante actuações que venham bulir com aspectos circundantes ou ambientais: ofensa ao direito à saúde e ao repouso através de túneis do metropolitano à superfície. Eutanásia activa directa: o agente (médico) através de meio adequado faz morrer o paciente para lhe abreviar o sofrimento = homicídio. ar condicionado. através de actuações que visem a própria pessoa enquanto unidade biológica ou indirectamente. Direito à integridade moral. medicamentos esses que como efeito colateral. A morte de uma pessoa causa danos morais e patrimoniais: quer na própria vítima. ao bom nome e reputação Honra constitui a consideração pela integridade moral de cada ser humano. pelos cheiros e pela degradação do ambiente. nos casos em que não esteja em causa a sua imediata sobrevivência.A eutanásia não é admitida no Direito civil: admitir ou promover a supressão da vida implica valorações visceralmente contrárias a qualquer lógica civilística. Provoca desde lodo danos patrimoniais: despesas envolvida para tentar salvar a vítima (transporte. escola de musica. poderão ter o de abreviar a vida = depende da intenção do agente./1 refere o principio geral de ressarcibilidade dos danos não patrimoniais. internamento. Inicialmente a integridade física era apenas posta em causa por agressões pessoais físicas.

que daí. Temos de ter presente que direito à honra é um direito de personalidade. No campo da responsabilidade civil. a afirmação verdadeira também poderá sê-lo: a exceptio veritatis. redigi-la de modo a provocar valorações tendenciosas. nunca poderá contemporizar a maldade gratuita. tendenciosa ou incompleta é particularmente indicada para atingir a honra. Uma protecção muito alargada da honra prejudicaria a liberdade de opinião e a liberdade de exprimir. liberdade de imprensa Situação de dúvida . sem equívocos ou sem sombras. Nem tudo o que sucede. Assim sucede com liberdade de criação artística. No campo civil é o contrário: caso um dos . particularmente de ordem social e patrimonial. protegida por um direito específico. existe ou se faz tem de ser revelado.Numa situação potencialmente atentatória à honra de uma pessoa. até e porventura: provar que pôs todo o cuidado necessário.Atentados à honra – violações da integridade moral das pessoas. Normalmente ocorrem pela palavra (escrita ou oral). Embora ambos os sectores sejam considerados necessários para as democracias modernas. A Constituição ao referir no artigo 26º o direito ao bom nome e à reputação.como um bem absoluto em si. Honra vale por si: não apenas pelas vantagens sociais e patrimoniais que acarrete. Conflito com outras liberdades . só por si. (apenas intrínseca no 70. . Mesmo estando em causa a intimidade privada. Exceptio veritatis – tem-se por justificado o atentado à honra quando o agente logre provar a verdade do que afirmou ou. Em termos penais avalia-se a situação no sentido do punível. não é justificativa. não 38 pode reivindicar a veritas. podem gerar-se dúvidas. Contudo podem concretizar-se de modo indirecto. a liberdade de informar e de comunicar exige uma verdade pura. não decorram quaisquer prejuízos. Assim. O direito à honra pode ainda confrontar-se com outras liberdades fundamentais garantidas na Constituição. Dívidas dum político para empresa candidata a concurso interessam. e vice-versa. Determinação de fronteiras entre direito à honra e a liberdade de expressão há dois critérios: . entre os direitos fundamentais protegidos dá. será ilícito desde que atinja a honra de alguém. CC não refere a honra e a sua tutela. O Direito Civil procura a felicidade das pessoas. o artigo 484º dispõe contra ofensa do crédito ou do bem nome.º/1. Todavia. medidas de correcção e de reposição da verdade.da absoluta veracidade: nenhuma liberdade de comunicação justifica notícias inverídicas. mas dívidas domésticas já não. em regra. Nestes termos pode haver atentados à honra mesmo. mas como fonte de outras vantagens. que não se esgotem na responsabilidade civil. há um juízo de oportunidade a fazer. A afirmação falsa. mais uma base jurídico-positiva e tutela legal Exceptio veritatis? . A afirmação totalmente verdadeira pode atentar contra a honra das pessoas. pelo contrário. também constitucionalmente garantida.Tutela da honra pode entrar em colisão com a liberdade de informação. A ofensa ao crédito ou ao bom nome exige. levantar dúvidas ou reticências ou fabricar notícias por qualquer modo.o do interesse político-social: a asserção questionada tem de corresponder a um interesse político-social. à honra. transmiti-la a sugerir algo diverso do que dela resulte. Tudo o que seja amputar a verdade. Marca um círculo em que o interesse da pessoa beneficiária prevalece sobre quaisquer pretensos valores superiores.

O Direito civil protege a honra das pessoas. no que se refere ao direito à integridade bi ológica. A partir do momento que se tornaram mais e mais possíveis certas manipulações no ca mpo das ciências biológicas. mais para diante. a exigência da proteção dos valores que consagram a dignidade da pessoa humana e a imperiosidade da preservação da vida humana. no seu contexto mais amplo. e dizer ao mais afoito que ele não é onipotente e que suas investidas são moralmente perturbadoras. a actuação é ilícita. é ainda de referenciar o dispositivo do artigo 484º. mais importante do que a compensação monetária é a reposição da verdade ou a reparação da ofensa feita. Em termos indemnizatórios a ofensa à honra pode determinar danos patrimoniais e não patrimoniais. O fato é que. senão da preservação do próprio Homem. Ainda assim o bem da vida é de tal magnitude que a intuição humana tent a protegê-la contra a insânia coletiva. se de um lado ninguém nega as vantagens do progresso técnico-científico no terreno da biologia. A primeira coisa a ser considerada. por outro.º/2 prevê as providências adequadas às circunstâncias. Não há direitos de titulares indeterminados 39 Ofensa à honra -A honra é tutelada pelo artigo 70º. até ao montante do prejuízo sendo ainda computáveis danos emergentes e lucros cessantes. por isso. em se estender o conceito utilitarista de pessoa que hoje já exclui os . Em regra. Artigo 70. Os atentados contra a honra de ordem geral? Bem. Os primeiros devem ser ressarcidos. A tutela indemnizatória. Segundo colocam problema dos danos morais (artigo 496º/3 1ª parte) em que a indemnização deve ser suficientemente pesada para exprimir a reprovação do Direito e ter efeitos no futuro. como. prevista no artigo 484º é insuficiente.sentidos da intervenção contunda com a honra. O valor da vida é tão grande que a cultura humana tenta preservá-la até mesmo nos mome ntos mais precários e excepcionais. Não se trata pois de uma simples questão moral ou de uma opinião política. necessita-se de uma reformulação ou de uma adaptação das ciências do comportamento. É preciso balizar esse "mundo novo" na dimensão que merece a dignidade de cada homem e de cada mulher. o direito à honra é um direito subjectivo: encabeçado por um titular individual. ma s sua dignidade. portanto. por exemplo: nos conflitos internacionais. criando-se regras que impeçam sacrifí cios inúteis. na hora em que o direito da força se in stala e quando tudo é paradoxal e inconcebível. é que essas intervenções ocorrem sobre o homem e que elas podem afetar não apenas seu corpo. despertando esperanças entre os que padecem de perturbações causadas pelas desordens genéticas. O perigo está. Todos se empenham no reencontro da mais indeclinável de suas normas: o respeito pela vida humana.

constitui atentado à espécie hu mana e à dignidade da pessoa concreta.edu. um atentado contra todos os homens http://www. divo rciando o conceito de pessoa de sua estrutura corporal. a garantia da integridade física e moral do cid adão e a proteção incondicional do direito à vida. Seu fim prec ípuo é a criação de meios e condições para que as pessoas sejam protegidas em todos os seus valores e que elas poss am desenvolver plenamente todas as suas aptidões e ocupar o lugar que está destinado a cada um de nós.ccbs. não são valores absolutos a que todos os outros devem e star sistematicamente subordinados. certamente porque são seres hu manos não considerados como pessoa Integridade biologica Estamos sob a égide de unia Constituição que orienta o estado no sentido da "dignidade da pessoa humana". Ha certas áreas de pesquisa. os principais trechos da entrevista com Luís Roberto Barroso. antes de tudo.ufcg. Torna-se evidente a necessidade do controle das manipulações biológicas. o interesse étic o-político da coletividade. principalmente no que se refere à manipulação genética. a intervenção indiscriminada e eminentemente especulativa à integridade biológi ca do ser humano. Como o feto anencefálico não tem potencialidade de vida extrauterina. Assim.br/athenea/Athenea1genivalveloso. estimular a coletiviza ção e descaracterizar a pessoa como pessoa.htm A seguir. O aborto pressupõe a potencialidade de vida do feto. entre elas a da pesquisa genética em fetos e embriõ es. portanto. Que argumento o senhor usará para tentar convencer os ministros do STF? Nós temos três teses principais. Qualquer ameaça à integridade física ou à saúde de um único homem numa intervenção especulati va é. como fator indispensável da manutenção da ordem pública e do equilíbrio social. Essa proteção. ou estimular a "coisificação" do corpo humano. A primeira delas é de que essa hipótese não é de aborto.nascituros e os pacientes terminais. com normas específicas. mas. indubitavelmente. tendo como normas a promoção do bemcomum. não visa apenas a defesa da própria pessoa. Começam eles a merecer objeções quando compromete o indivíduo ou os interesses de ordem social. principalmente se isso é capaz de alterar a descendência. que não receberam ainda um cuidado mais imediato nos seus aspectos éticos e legais. Mesmo que as ci ências biológicas sejam uma área do conhecimento viva e dinâmica. nossa tese é que esse . um ato de lesa-humanidade. ou estimulando qualificações entre o indivíduo da espécie humana e pessoa.

Por que a gravidez de feto anencefálico violaria a dignidade? Obrigar uma mulher que faz o diagnóstico [de anencefalia do feto] no terceiro mês de gestação a levá-la até o nono mês significa impor a ela seis meses de um sofrimento inútil. ela deveria cair nas exceções do Código Penal. Essa mulher vai passar por todas as transformações físicas e psicológicas pelas quais passa uma mulher que está grávida se preparando para ter seu filho. a mulher estará se preparando para o filho que não vai chegar. o feto tem potencialidade de vida. não deveria ser protegida? No Direito brasileiro não há uma definição do momento do início da vida. porque não há potencialidade de vida. Impõe à mulher um sofrimento físico e psicológico inútil e evitável. não há aborto. nesse caso. Mas o legislador. O Código Penal não prevê essa exceção. A vida do feto. Por quê? Essa exceção não foi prevista expressamente porque em 1940. O caso da anencefalia é menos do que os casos de estupro e de aborto para salvar a vida da mãe. neste caso. Mas. não havia meios tecnológicos de diagnosticar a anencefalia. Esse princípio paralisaria a incidência dessas normas do Código Penal. ele não chega sequer a ter início de vida encefálica. Nessas duas exceções. prevista na lei de transplante de órgãos. O Código prevê duas exceções nas quais não se pune o aborto: em caso de necessidade para salvar a vida da mãe e em caso de estupro. que é a morte encefálica. Isso é equiparado à tortura. a mulher deveria ser automaticamente autorizada a interromper a gestação. Por essa razão. . mas há uma definição do momento da morte. No caso do feto anencefálico. E se o STF discordar dessa tese e disser que a vida intrauterina deve ser protegida? Ainda que se considerasse essa hipótese como sendo de aborto.fato é atípico. por não haver vida. Ele não é colhido pela definição de aborto do Código Penal. nessa hipótese as normas do Código Penal que criminalizam o aborto são excepcionadas pela aplicação do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Por isso sustentamos que. quando o Código Penal foi elaborado. Qual é a terceira tese? Ainda que se considere aborto. ponderando a vida do feto com a vida da mãe ou com a violência física e moral sofrida pela mãe permite a interrupção da gestação.

como o aborto em geral. por que isso deveria ser feito pelo STF? A vida na democracia é feita pelo processo político majoritário. como ocorre em quase todas as partes do mundo. com grande legitimidade. certos direitos das mulheres só podem ser conquistados via poder Judiciário. vale para religiões minoritárias e vale também para as mulheres. Não há crianças anencéfalas. Como o senhor responde a isso? Equiparar a antecipação de parto no caso de feto anencefálico com a eugenia é um abuso verbal. Portanto. A letalidade da anencefalia é certa. que resolve isso discretamente. adultos anencéfalos. Isso vale para negros. Mas essa decisão é uma etapa para o aborto? . Por que considera as mulheres um grupo minoritário? As mulheres tecnicamente não são minoria do ponto de vista quantitativo. A equiparação com deficiência é uma forma antiética de argumentar. E quando o processo político majoritário emperra ou enfrenta dificuldades para votar determinadas matérias. fluindo bem. Mas isso não pode ainda ser votado no Congresso? Sempre que se tratar da proteção de minorias ou de situação politicamente complexa o risco de a matéria não ser resolvida pela via legislativa é muito grande. Esse não é um problema da classe média. e pela proteção e promoção dos direitos fundamentais via Constituição e Supremo Tribunal Federal. Quem precisa do direito de antecipar o parto em caso de anencefalia são mulheres pobres que precisam da rede pública. Por quê? A questão da anencefalia. A antecipação do parto de feto inviável nada tem a ver com eugenia. o STF tem seu papel ampliado. para homossexuais. que se desenrola no Congresso. Algumas pessoas contrárias a essa tese dizem que isso abriria espaço para eugenia. A deficiência é uma manifestação da diversidade humana. fora do alcance do Estado. a jurisdição constitucional recua. Ela não se confunde com a inviabilidade fetal. tem um corte de classe evidente.Se o Congresso não mudou o Código Penal. Quando o processo majoritário está azeitado. O senhor disse que há questões de classe envolvidas nesse assunto. quase um uso imoral da retórica. mas são minoria do ponto de vista da vulnerabilidade. como ocorreu nos Estados Unidos.

ademais. Sem vida não há qualquer outro direito a ser resguardado. Diante de tal paradoxo. ao fundamento de que uma vida só é digna de ser vivida se for em "condições ótimas de temperatura e pressão" é dos maiores sofismas que já surgiram. estado civil ou condição social e econômica. Nesse sentido. Os direitos humanos fundamentais são o "mínimo existencial" para que possa se desenvolver e se realizar. Assim. o conceito de dignidade da pessoa humana não pode ser relativizado: a pessoa humana. os de 2ª geração. O crime deve ser punido. sexo. desde os . não acho que uma discussão abra caminho ou feche as portas para o aborto. mas apenas por adição. como a paz. São discussões diferentes. idade. Por isso. mas a pessoa do criminoso deve ser tratada com respeito. ao tratar da questão da imutabilidade do direito natural. quando se toma consciência de que o descuido da natureza pode comprometer a existência do homem sobre o planeta. sob pena de deixá-los sem qualquer amparo efetivo e. à medida que a humanidade vai tomando consciência das implicações do conceito de dignidade da vida humana. uma hierarquia natural entre os direitos humanos. A dignidade é essencialmente um atributo da pessoa humana: pelo simples fato de "ser" humana. Dignidade HUmana Muito se tem usado a expressão "dignidade da pessoa humana" para defender direitos humanos fundamentais. como a saúde. mister se faz trazer alguns elementos de reflexão sobre realidades e sofismas na fixação de um conceito de "dignidade da pessoa humana" que sirva de base sólida à defesa dos direitos essenciais do ser humano. Assim.A discussão necessária e importante sobre o aborto no Brasil não depende da questão da anencefalia. seja o direito ao aborto. As questões éticas colocadas em debate são diferentes. mediante o reconhecimento de novos direitos fundamentais. os direitos humanos de 3ª geração dependem necessária e inexoravelmente dos direitos de 1ª geração. sendo o direito à vida o mais básico e fundamental dos direitos humanos. Se o próprio criminoso deve ser tratado com respeito. como a vida. Ora. e os de 3ª geração. de modo que uns são mais existenciais do que outros. quer mesmo por seus desvios morais. não pode ser relativizado. Com efeito. sem garantia de respeito. quanto mais a vida inocente. a segurança e o resguardo do meio ambiente. distinguir entre o crime e a pessoa do criminoso. E sua lista vai crescendo. a igualdade e a propriedade. a defesa do aborto. Há. raça. Tomás de Aquino. independentemente de sua origem. mas sem se chegar ao âmago do conceito e seus corolários ineludíveis. Deve-se. Só é sujeito de direitos a pessoa humana. até no cumprimento da pena a que estiver sujeito. Portanto. Nesse diapasão seguiram as sucessivas declarações dos direitos humanos fundamentais (a francesa de 1789 e a da ONU de 1948). Daí a invocação da expressão em contextos diametralmente opostos. só se torna direito humano fundamental a garantia de um meio ambiente saudável. em nome da dignidade da pessoa humana. para justificar seja o direito à vida do nascituro. em prol de outros valores e direitos. a pessoa merece todo o respeito. desenvolvendose a idéia de diferentes "gerações" de direitos fundamentais: os de 1ª geração. a idéia de dignidade da pessoa humana está na base do reconhecimento dos direitos humanos fundamentais. reconhecia ser ele mutável. enquanto tal. nesse último caso. por conseguinte. a liberdade. Daí que. não perde sua dignidade quer por suas deficiências físicas. a educação e o trabalho.

É fato que . Aborda-se agora.tempos de Sócrates. que o feto não apresenta abóbada craniana e os hemisférios cerebrais ou não existem. Assim. Lei 9. em nome da dignidade. Vida Extra-uterina. Uma coisa é o sacrifício voluntário do titular do direito à vida. limpando-o de matizações que acabam por reduzir a pessoa. o que se está criando é a sociedade dos perfeitos. Do contrário. em recente pesquisa jornalística. quando afirma que: "A anencefalia é fatal em 100% dos casos".434/97. quando Cálicles tentava demonstrar. Seria o caso de perguntar àqueles que serão suprimidos se realmente não quereriam viver. sob o rótulo de se lutar por uma vida digna. faz com que as discussões judiciais sobre os demais direitos humanos passem a ser mera perfumaria em Cortes herodianas que já condenaram as mais indefesas das criaturas humanas. o caminho que vai sendo trilhado no desrespeito ao direito humano mais fundamental. Resumo: Anecefalia. Conclusão. Aborto. em nome quer da cura de doenças graves. Daí a necessidade de se resgatar o conceito de dignidade da pessoa humana. CNTPS e STJ. até se chegar ao aborto puro e simples. Vida Intra-Uterina. E expõe o óbvio. questão polêmica que é. apenas. Antes de discutir a legalidade do aborto em casos de anencefalia. nas condições que sejam. atestando-se anencefalia para toda criança indesejada). ou seja. e do próprio termo aborto. quer do bem-estar psicológico da mulher. feto com deformidade ou enfermidade incurável. dos mais fortes e aptos. sabendo-se. Morte Encefálica. pura eugenia. Não é diferente com aqueles que defendem o sacrifício de vidas inocentes. ou se apresentam como pequenas formações aderidas à base do crânio. a impossibilidade de aborto em casos de feto anencefálico na legislação brasileira. em entrevista dada à revista Época na edição de 15 de março de 2004. e mais ainda quando se procura revestir tal gesto de uma áurea de nobreza. faz-se necessário expor o significado de tal anomalia. que é o fim da vida intrauterina. é contrária ao aborto de anencéfalos). Desde a autorização para a instrumentalização de fetos humanos com vistas a pesquisas científicas (verdadeiras cobaias humanas. o aborto ocorre quando por algum motivo a vida intra-uterina é interrompida. que não tem sequer como se defender. canibalizadas). que o natural era a prevalência do mais forte sobre o mais fraco. pode-se dizer que. Outra coisa bem diferente é a imposição do sacrifício por parte do mais forte em relação ao mais fraco. ou então. para salvar outra vida. Sempre pareceu um gesto de extrema covardia suprimir a vida nascente e indefesa. dependendo de que outros o façam por ele. e que a causa desta interrupção não seja o nascimento da criança. de sujeito em mero objeto de direito alheio. A anencefalia trata-se de uma anomalia diagnosticável. O aborto consiste na destruição da vida antes do início do parto. por puro altruísmo (consola saber que 83% da população brasileira. com sua retórica. Bibliografia. passando pela discussão quanto ao aborto do anencéfalo (cujo índice de ocorrências subirá astronomicamente no caso de liberação. é o período que compreende desde de a concepção até o início do parto. A lei é bem clara quando exclui a possibilidade de aborto eugenésico. Anteprojeto para o novo Código Penal. porém. a médica geneticista Dafne Horovits. não possui nenhuma explicação plausível para justificar sua origem.

jurídicos. se obteria a morte biológica do paciente. que o nascituro venha a nascer com graves e irreversíveis malformações físicas ou psíquicas. Cabe-se ressaltar que. se tal afirmação for considerada verdadeira. o Código Penal de 40 foi publicado com costumes de décadas anteriores. presidida pelo desembargador Dr. órgãos ou partes do corpo humano destinadas a transplante. circulação sanguínea. conseguiria "sobreviver" apenas alguns instantes e viria a óbito logo em seguida. E a redação proposta pela Comissão é a seguinte: "Não constitui crime o aborto praticado por médico: Se se comprova. como religiosos. 3º. o abortamento de feto anencefálico enquadra-se como crime contra vida. como conseqüência. senão redundante. dentre outras reformas. que a criança. visto que. quando que em 1992 foi criada uma Comissão para Reformulação do Código Penal. não se distingue mais entre vida biológica e vida autônoma ou extrauterina. houve uma grande evolução. que. neste caso a lei é bem clara. É indiferente a capacidade de vida autônoma. somente se e quando for diagnosticada a morte encefálica do paciente. sendo que a parte específica dos crimes contra a vida foi orientada por uma subcomissão. o feto possui batimentos cardíacos. sofrerá de forma que só uma mãe possa sofrer ao imaginar seu filho "nascendo" e "morrendo". a ausência de cérebro não daria a este ser nenhuma expectativa de vida. não é possível que um organismo venha sofrer disfunção em um órgão que não possua. torna-se indispensável expor aqui a desnecessidade de uma mãe carregar em seu ventre um filho que não tenha possibilidade de ter uma vida extra-uterina. etc. E ressalta-se que. Ora. constatada e registrada por dois médicos não participantes das equipes de remoção de transplantes.434 de 04 de fevereiro de 1997. não cabe neste momento analisar outros aspectos senão o jurídico. Assim. E. Na atual conjuntura. além da dor física que terá durante nove meses de gravidez. ao nascer. e conseqüentemente. [1] Sendo assim. desde que a . já caracterizaria vida biológica. Alberto Franco. cabe lembrar que o produto desta gestação só possui "vida" devido ao metabolismo da mãe. e que ela. E com clareza coloca o jurista Cezar Roberto Bitencourt. Outro motivo que leva a crer que a proibição do aborto eugênico é ultrapassada. Nota-se na Lei 9. Porém. Porém. Então. permitindo dessa forma. em seguida. que propositadamente há redundância na pergunta. mesmo com a afirmação acima de que. Ora. que neste caso tornar-se-ia a menor das dores. não só na cultura como também na ciência. que prevê a retirada post mortem de tecidos. sendo suficiente a presença de vida biológica". autorizaria o aborto nos casos em que o nascituro apresentasse graves e irreversíveis anomalias físicas ou mentais. "modernamente. Interessante é analisar a legislação brasileira. quando afirma que.tal discussão gera controvérsia em diversos aspectos tanto éticos. que é a lei de Transplante de Órgãos. devido a isto. e conseqüentemente não podemos esperar que tais hábitos permaneçam pétreos. muitas vezes tornase "curiosa". a capacidade de vida autônoma torna-se irrelevante à questão do aborto. através de diagnóstico pré-natal. o que leva o legislador a aceitar a morte encefálica do paciente como prioridade para o transplante. a indiscutível necessidade de um Anteprojeto de Reforma do Código Penal. em seu art. que quando constatada a morte encefálica é permitido a remoção de órgãos. e a não consenti-la no caso do feto anencefálico? Note. e isto.

8.br/revista/doutrina/texto. p. e obviamente. In:______. pela primeira vez na história do Direito Penal brasileiro. a posição do nosso atual Código Penal diante do aborto. bem como mostrar que muitas vezes a lei nos parece obscura. mas por muito tempo irá gerar polêmica. 27 mai. cap. tal prática.interrupção da gravidez ocorra até a vigésimo semana e seja precedida de parecer de dois médicos diversos daquele que. que no dia 18 de junho de 2004. Porém. Assim. Disponível em: jus. a. Manual de Direito Penal – Parte Especial (Volume 2). Anencefalia e aborto.br/revista/texto/5444/anencefalia-eaborto#ixzz29a4CbXId IBLIOGRAFIA ALVARENGA. como por exemplo. visto que. faz-se necessário citar a decisão do ilustre desembargador Dr. V. Teresina. confusa.asp?id=5167>. mesmo contra legem está transformando os moldes desta realidade. Miguel Kfouri Neto. faz-se necessário o reconhecimento do Supremo em relação a inutilidade de levar-se adiante uma gravidez que não apresente possibilidade de vida extra-uterina. 324.com. que é tentar fazer com que o leitor crie questionamentos sobre tal tema. autorizou um aborto legal em feto portador de anencefalia numa gestação de 20 semanas. 2001.com. São Paulo: Saraiva. que como já mencionado acima. Ressalte-se ainda. emitiu nota ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que fixe entendimento de que a gestação de feto anencefálico é desnecessária. as decisões em sentido inverso desequilibram essas jurisprudências. pois o fato gera a norma. Leia mais: http://jus. tornando-se necessário a função de analisá-la com cautela. a Confederação Nacional dos Trabalhadores (CNTS). além de não trazer em hipótese alguma possibilidade de vida ao feto. Jus Navigandi. não sempre. e quem cria a norma é a sociedade. é fato que uma reforma legislativa não acontece de forma célere. o ser humano muitas vezes se abstém de tempo para aguardar tal reforma. e de que forma prossegue sua reformulação. que. que por fim. Que a solução dos problemas sociais nem sempre estará nas normas de direito. BITENCOURT. Como dito acima. é a causadora do fato. E o mais importante. que em 19 de dezembro de 1992. Por isso. A CNTS afirma que. 138-143. mesmo com a regularidade de sentenças que o Judiciário vinha firmando em todo o país. 2004. tentar esclarecer alguns pontos. Acesso em: 27 maio 2004. via de regra. n. o aborto é realizado". Aborto. Cezar Roberto. os fatos sociais. reconhecendo o direito da antecipação terapêutica do parto. mesmo que de forma prematura. ou sob cuja direção. então juiz na cidade e Comarca de Londrina. Dílio Procópio Drummond de. em razão do alto índice de óbito intra-uterino desses fetos. Busca-se como objetivo deste breve discurso. gera danos à saúde da gestante e até perigo de vida. cabendo ao Judiciário sanar tais necessidades. . precedem as leis.

a falta de um cérebro descarta complementamente qualquer possibilidade de haver consciência. ministro Marco Aurélio Mello. 2004. com exceção aos casos de estupro e de risco à vida da mãe. . a.asp? id=2961>. ESPANHA. Disponível em: . Em caso de recusa à aplicação da decisão. Acesso em: 15 jun.com. UNITERMOS. Acesso em: 15 jun. disse o ministro Luiz Fux. por ser formado por células vivas. STF. Ministerio de Salud de la Nación. Damásio E. Aborto. 2002. MARCÃO. 1990. jul. São Paulo: Saraiva. O entendimento do Supremo valerá para todos os casos semelhantes.] Impedir a interrupção da gravidez sob ameaça penal equivale à tortura”.. No caso do anencéfalo.com. a mulher pode recorrer à Justiça para interromper a gravidez. Anencefalia é incompatível com a vida”. 2004. afirmou o relator da ação. 1999. não gozando de proteção estatal. In:______. p. Acesso em 22 jun. inconsciente e incapaz de sentir dor. não existe vida possível.. cap. p. Renato Flávio. “Aborto é crime contra a vida. e não cita a interrupção da gravidez de feto anencéfalo. O aborto no anteprojeto de Código Penal. mas de morte segura. Leia mais: http://jus. Brasília. Em síntese. CNTS pede ao STF que antecipação do parto de feto sem cérebro não seja caracterizada como aborto. São Paulo: Saraiva. Aborto por Anomalia Fetal. Gollop. 2004..br/revista/doutrina/texto. Cezar Roberto. n. Supremo Tribunal Federal. [.. não se cuida de vida em potencial. Thomaz Rafael. surdo. e os demais órgãos do Poder Público estão obrigados a respeitá-lo. São Paulo. Jus Navigandi. Para a maioria do plenário do STF. 6. 123. Apesar de que alguns indivíduos com anencefalia possam viver por minutos. de. 101-110. Aliado ao sofrimento da gestante. obrigar a mulher manter a gravidez diante do diagnóstico de anencefalia implica em risco à saúde física e psicológica. 2004. 2002. Tutela-se a vida em potencial. Acesso em: 14 jun. Direito Penal – Parte Especial (2º Volume). 57.] O anencéfalo jamais se tornará uma pessoa.br/revista/texto/5444/anencefalia-eaborto#ixzz29a4J4iOU O Código Penal criminaliza o aborto. jun.BITENCOURT. O feto anencéfalo é biologicamente vivo. I. e juridicamente morto. Código Penal Comentado. [. Anencefalia y Donación de Órganos Definición de Muerte y Anencefalia: Aspectos Médicos y Bioéticos . Disponível em: . Disponível em: jus. Teresina. o principal argumento para permitir a interrupção da gestação nesses casos foi a impossibilidade de sobrevida do feto fora do útero. JESUS. 2004. "Um bebê anencéfalo é geralmente cego.

está falando de alguém que não está entre nós. Tenho uma foto desse momento na porta de minha geladeira. ÉPOCA – Nos dez anos que você trabalha com esse tema. ela sabe que gesta um feto sem qualquer possibilidade de vida. exame que permite que seja realizado com exatidão o diagnóstico de anencefalia já com 12 semanas de gestação.A FAVOR DA VIDA DAS MULHERES Anencefalia e o direito ao aborto. porque é a única alternativa que respeita a liberdade de consciência que todo Estado Laico (não religioso) deve respeitar e promover. no entanto. diretora do Instituto de Bioética. apenas no momento do parto. não há pessoas anencéfalas no mundo. não o faz por desprezo da vida. O que acontece hoje – e é essa desigualdade de direitos que o Supremo vai anular ou cristalizar nesta quarta-feira – é que as mulheres que encontram sentido em levar essa gestação até o fim têm seu direito respeitado. são torturadas. Revista Época. Isso foi decisivo. Eva Kittay. teve algum dilema moral? Debora – Eu temia que a interrupção da gestação por anencefalia pudesse ser prejudicial para os deficientes. O debate atual é um passo importante para que nós. Por que a prática de aborto de fetos potencialmente saudáveis no caso de estupro é permitida? Esse tema é cercado por . a outra metade após o parto. por Karen Espíndola. o terrível choque emocional da gestante ocorreria. quando não existia ainda a ultra sonografia. quando participei de um programa nos EUA sobre os desafios da deficiência e da Justiça. Por Jacqueline Pitanguy. filósofa e deficiente física. em Nova York. possam respaldar o julgamento do aborto de forma mais ampla. Porque deve ser obrigada a levar a termo um processo cujo final é um atestado de óbito e não um registro de nascimento? Chega de torturar mulheres – Coluna de Eliane Brum. Marco Aurélio Mello à Revista Veja. socióloga do CEPIA. selecionemos elementos que. abril/2012. os ministros do Supremo. provavelmente. Em nome da mãe – Entrevista com Debora Diniz. cuidava de uma filha com paralisia cerebral grave. A outra. de um feto que não poderá viver. quem defende a opção da mulher. gerando a morte em vez da vida. Nosso código penal data da década de 1940. Na década de 40. Olho para ela todos os dias. A minha apresentação era a penúltima e eu não sabia como fazê-la. Revista Época. As estatísticas mostram que 100% dos anencéfalos morrem: cerca da metade ainda na gestação. E aquelas para quem é insuportável conviver. O senhor acredita que a maior flexibilização do STF abre a possibilidade para a discussão do aborto em geral? Sem dúvida. É um desrespeito à comunidade deficiente nos comparar aos anencéfalos’. Uma delas era Anita Silvers. filósofa. julho/2004. uma vez que não é indiferente nem à vida do que está para nascer nem à da mãe. dia após dia. no futuro. O aborto e as 10 falácias do mundo conservador . Direitos Humanos e Gênero (Anis). mas (muito pelo contrário) o fazemos porque consideramos que permitir a opção no cenário descrito é uma alternativa profundamente mais humana e participativa. Só ela sabe da sua dor – e de que escolha será mais coerente com aquilo que ela é – e acredita. Hoje. ao levar a termo a gravidez. Esse programa era coordenado por duas grandes teóricas americanas. Olhe ao redor. Só fui solucionar esse dilema em 2001. Falei que eu estava com medo de que repercutisse nos deficientes. Ela disse: ‘Você não está falando de mim em seu debate. Ninguém deveria poder decidir por uma mulher como ela vai lidar com a gestação. Pelo fim da hipocrisia – Entrevista com o ministro do STF. e também. Anita percebeu minha tensão e fomos conversar à beira de um lago. O sistema atual está capenga. setembro/2008. dentro do seu corpo.

um cristão no exercício de funções no Estado de direito deveria atuar em defesa da pluralidade moral e da liberdade de crenças. Tal constatação não deve. obrigando uma mulher a carregar um feto que morrerá. Considerações Finais A criminalização do aborto nos casos de anencefalia impede que a mulher ou o casal façam uma escolha. o aborto é feito em condições inexistentes de assepsia. mas por leis. É a mulher que carrega o feto em seu ventre que deve escolher. O Estado democrático é laico. sem um apoio médico de primeira grandeza. como nosso Estado “laico”. condicionando a organização social. mas não de impô-las a todos por meio dos aparelhos de Estado. Evidente. Nosso sistema é laico. Existem forças sociais que. Se a legislação e sua interpretação forem determinadas por diretrizes religiosas emanadas da alta hierarquia eclesiástica. Espero que ninguém mais precise passar pelo que passou Severina. Nota sobre julgamento de aborto de feto anencéfalos da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/RJ Porque obrigar a mulher a manter a gestação de anencéfalo. O aborto é punido por normas penais. no sentido da criminalização do aborto de fetos anencéfalos. espera-se que de uma gestação resulte vida. Não somos regidos pelo sistema canônico. Severina tem que ser feliz de novo. Afinal. Há uma hipocrisia aí. mas é feito de forma escamoteada. algumas vezes. Na maioria das vezes. contra sua vontade. no plano religioso. Mas a possibilidade de decisão deve existir – e deve ser sempre. e não morte. de forma incoerente com os valores assumidos. Os católicos têm direito de defender suas idéias. violando sua saúde física e mental e afrontando seus direitos fundamentais. Nunca de um juiz ou da igreja ou da pressão social. para que na morte ele tivesse pelo menos uma parcela de dignidade. Por Gabriela Bianco. privacidade. entretanto. Isso implica um risco enorme de vida para a mulher. é submetê-la a tortura psicológica. modelam suas atitudes. Portanto. estamos de fato impedindo a liberdade de credo e utilizando o poder do Estado para garantir que todos os cidadãos sigam tais diretrizes. as pessoas façam escolhas morais.incongruências. protegidos pela Constituição Federal: dignidade da pessoa humana. No momento em que os religiosos pressionam o Estado. até mesmo. devendo legislar sobre princípios básicos que permitam tanto a convivência harmônica de todos. que quis comprar uma roupa com touquinha para poder enterrar seu filho. liberdade e autonomia da vontade. e não impor suas próprias crenças. sendo constrangidos pela lei a continuar a gravidez. eles estão impedindo que. Temos 1 milhão de abortos clandestinos por ano no Brasil. descaracterizar a imprescindibilidade da procura de um . sempre da mãe. Também espero que as mulheres que queriam levar a gravidez de um feto anencéfalo até o fim sejam respeitadas em sua decisão. a pluralidade ideal ao debate moral sobre o tema não é simples de se encontrar. como as diferentes escolhas morais baseadas nas crenças de cada um. A sociedade precisa deixar em segundo plano as paixões condenáveis. saúde.

foi proposta nesta pesquisa para contribuir com o estudo de questões controversas. O reconhecimento da diversidade de posições morais não deve levar à arbitrariedade. que nem por isso pode ser considerado impossível. Diálogos em Psicologia Social. Incidentes críticos como ponto de partida para desembrulhar redes.. In: Manual de Análise do discurso em Ciências Sociais. RIBEIRO. v. Petrópolis: Vozes. 1. Aborto por anomalia fetal. O poder soberano e a vida nua. D. Leia mais: http://jus. D. p. Belo Horizonte: UFMG. C. RIBEIRO. eutanásia e liberdades individuais.). Lupicinio Iñguez (Coord. desde sempre.) Jefferson Luiz Camargo. 2004. F. 2007. 2004. O Domínio da Vida: aborto. DWORKIN. A análise retórica como estratégia de abordagem da Psicologia Social Discursiva aos temas complexos. LATOUR. a orientação ética procure reconhecer igualmente a unicidade de cada vida. In: XIV Encontro Nacional da ABRAPSO. Referências Bibliográficas AGANBEN G. Equilíbrio difícil de ser encontrado. 1-1. . . (Eds. DINIZ. Homo Sacer. GALINDO. R. J. é necessário que. B. SPINK. e assim indicar caminhos a serem trilhados rumo a emancipação política e libertação dessa condição. D.ambiente pluralista para fundar a discussão ética. D. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora.br/revista/texto/5444/anencefalia-eaborto#ixzz29a3zaR7t . São Paulo: UNESP.. DINIZ. 2003. P. 2007. In:. 2000. Os fundamentos da análise do discurso.) Brasília: Letras Livres.com. Antecipação terapêutica de parto: uma releitura bioética do aborto por anomalia fetal do Brasil. São Paulo: Martins Fontes. L. M. (Trad. Assim. A análise retórica pode ser uma estratégia válida para fazer evidenciar as premissas morais que tentam assegurar a subordinação feminina às ideologias de opressão que. Rio de Janeiro : ABRAPSO. 2007. regem a prática reprodutiva. ao reconhecer a legitimidade da diversidade. IÑIGEZ. atravessados por divergências morais.