http://oglobo.globo.

com/blogs/prosa/posts/2013/10/19/francois-dosse-nao-ha-biografiasem-liberdade-de-pesquisa-512485.asp#.UmLhpHF3am8.facebook Acesso em : 20/10/2013

François Dosse: ‘Não há biografia sem liberdade de pesquisa’
Autor de ‘O desafio biográfico’, historiador francês François Dosse, especialista no tema, compara condições de trabalho entre biógrafos brasileiros e os de seu país Por Bolivar Torres

Por muito tempo, a biografia foi considerada um gênero menor entre os historiadores, de grande apelo popular, mas desacreditado pela academia ao longo do século XIX e durante boa parte do século XX. Foi preciso esperar até os anos 1980 para que ela ganhasse um renascimento fulminante, tanto erudito quanto comercial. Em seu livro “O desafio biográfico”, uma espécie de biografia da biografia, lançado no Brasil pela Edusp, em 2009, o historiador e epistemólogo francês François Dosse mostra como o relato sobre a vida de artistas, políticos e pensadores deixou de ser o patinho feio das universidades e editoras para se tornar um imprescindível vetor de difusão de memória e conhecimento em seu país. Para o historiador, trata-se de um agente capaz de redimensionar o legado de uma figura histórica, esteja ela viva ou morta. Dosse sabe do que está falando: além de ser um dos principais teóricos do gênero, ele próprio já se lançou na dura tarefa de remontar a vida de pensadores influentes, mas pouco conhecidos do grande público, como o historiador Pierre Nora e o filósofo Paul Ricoeur. Em sua famosa “Biografia cruzada” (Artmed), sobre a parceria entre o filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista Felix Guattari, Dosse ajudou inclusive a reabilitar o lugar de Guattari entre os pesquisadores, que até então haviam se concentrado muito mais no brilho ofuscante de Deleuze. Portanto, não surpreende que Dosse reaja com perplexidade ao ser informado

na surdina. Em nome da minha liberdade de escrita. nunca me impôs nenhuma restrição — lembra Dosse. algumas horas antes de embarcar para o México para uma série de palestras. criou e dirigiu as maiores coleções dedicadas às ciências sociais da Gallimard. Mesmo assim. os rumos da pesquisa em seu país. É colocar uma mordaça no pesquisador. que esmiúça a carreira do poderoso Pierre Nora. não pediu para ler uma linha sequer do que está escrevendo. De pronto. Praticamente ditou. para que ela possa acontecer. com o título de “Pierre Nora. — Nora tinha muitas razões para se preocupar. Ela não apenas deixou que o biógrafo pesquisasse os arquivos em sua casa sem nenhuma supervisão. eu até lhe propus que revisasse as partes mais delicadas. como ainda lhe deu a chave para que o fizesse enquanto viajava de férias. quis ler o material apenas depois de publicado (o livro acabou sendo lançado na França em 2011. Levando em conta a natureza discreta de Nora. o movimento organizado por artistas contra as biografias não autorizadas. Homo Historicus”). Por telefone. como já foi definido. de Paris. — Mas isso tudo é muito doido! — exclama. Para um historiador e um biógrafo. A peculiaridade é que o biografado reina há mais de meio século no cenário intelectual francês. personagem da próxima biografia de Dosse. pois nestes arquivos havia nomes de pessoas ainda vivas. — Fico surpreso em relação à democracia brasileira e ao direito de expressão no país. Espécie de “demiurgo tentacular e invisível” ou “rei sem diversão”. entre gargalhadas. o biografado fez o possível para facilitar o processo: abriu todos os seus arquivos na Gallimard. não consegue conter o riso ao descobrir a tão debatida polêmica em torno do Procure Saber. muitas delas relacionadas a ele. é também uma encenação da relação entre o biógrafo e o biografado. — Vale ressaltar que uma biografia não é apenas uma encenação da vida do biografado. não há como questionar isso — crava Dosse. porém. Durante a pesquisa. — É o simples respeito pela liberdade de pesquisa. dando liberdade absoluta a Dosse. o historiador precisa de alguns segundos para se recompor. Até agora. contrastada com a importância de suas ações. E. — Diante da sua generosidade. e que há anos vem inibindo a produção do gênero no país. Outro exemplo digno de nota é sua experiência com a viúva do polêmico filósofo Cornelius Castoriadis. ele oferece o exemplo de sua biografia mais recente. a tarefa do biógrafo não podia ser mais delicada. A experiência prática e teórica de Dosse é um contraponto perfeito à atual condição dos biógrafos no Brasil. morto em 1997.sobre os detalhes do sistema de censura prévia imposto aos biógrafos brasileiros. Mas ele se recusou. fica impossível trabalhar com textos autorizados ou supervisionados. . só que sempre atuando nos bastidores. ou que dependam dos sentimentos dos biografados. com uma magnífica grandeza intelectual. é preciso que haja esta liberdade. Incrédulo.

Dosse troca a censura prévia pelo que ele chama de “deontologia do biógrafo”. e não ao biografado. a biografia não é puramente factual. é um insulto — diz. O que significa ter consciência do que deve ou não ser publicado. A coassinatura teria sido um presente ao amigo Guattari. acredita ele. e poderia ganhar muito mais escrevendo um ensaio rápido. que logo negaram o fato. Mas cabe. Não endossa o argumento. de que os biógrafos ganham fortunas em cima da privacidade dos outros. O gesto tocou Dosse. a informação foi suprimida. . mas só deveriam ser corrigidos depois da publicação. Eu levo em média três anos para escrever uma biografia. baseado na pura fé de diversos testemunhos. mesmo aqui na França. — Aliás. ou seja: de criação literária. Na segunda edição. de fantasia. Sobre o discurso de alguns membros do Procure Saber. ao biógrafo de decidir. obviamente. Para não ultrapassar a fronteira tênue entre liberdade de escrita e difamação. mas não agradou as famílias dos dois autores. que estava muito doente. não é nem um argumento. e em que contexto. Erros sempre acontecem. por exemplo. resolveu publicar. Ao escrever a biografia cruzada de Deleuze e Guattari. são mal pagas. que tem sua parte de criatividade. a hipótese de que Deleuze escrevera sozinho o último livro da dupla. “O que é a filosofia?”. — Por que as pessoas não podem ser pagas para fazer o seu trabalho? Aliás. É um gênero impuro.Além do mais. Dosse não é doce.