Vivendo à lei da nobreza nas Minas Setecentistas: uma discussão sobre estatuto social na América Portuguesa1 Carla Maria

Carvalho de Almeida

1- Considerações iniciais Recentemente alguma polêmica tem pontuado os estudos sobre o período colonial, envolvendo principalmente a pertinência ou não da utilização de noções como Antigo Regime, monarquia corporativa e nobreza da terra para apreender a sociedade que se estruturou nas possessões portuguesas da América entre os séculos XVI e XVIII. Partindo da investigação empírica que recupera as trajetórias de alguns indivíduos que compunham a elite mineira no século XVIII, o objetivo desta comunicação é discutir até que ponto é apropriado e útil, a utilização de noções como nobreza ou nobreza da terra para apreender os grupos de elite estabelecidos nas Minas do século XVIII. A análise se concentrará em personagens residentes em Vila Rica e Vila do Carmo e nas informações que tenho coletado sobre eles nos processos matrimoniais, nas habilitações para ingresso na Ordem de Cristo e no Santo Ofício, na documentação avulsa do Arquivo Histórico Ultramarino relativa à capitania de Minas Gerais, assim como nas memórias genealógicas. Longe de dar por resolvida tal polêmica, a meta deste trabalho é trazer novos elementos empíricos que subsidiem mais adequadamente a discussão. Nas últimas décadas a historiografia brasileira sobre o período colonial tem sofrido uma profunda revisão motivada, a meu ver, por duas principais ordens de questões. De um lado, e como pano de fundo mais geral, tais revisões estão relacionadas com o questionamento das análises estruturais que não dariam conta de incorporar a ação do sujeito como importante elemento de definição no rumo dos processos históricos. De outro, pela aproximação com a historiografia portuguesa e pela noção de Império português que vem sendo cada vez mais aprimorada pelo avanço das investigações empíricas. O maior contato dos pesquisadores brasileiros com a historiografia portuguesa tem suscitado uma série de novos estudos cujo eixo central tem sido repensar a natureza da sociedade colonial brasileira, entendida não mais como um apêndice da metrópole, ou como uma realidade dotada de determinações internas e assim apartada daquela, mas sim, como uma região integrada ao vasto Império Português que tinha seus domínios estendidos desde a Índia e partes da China e Japão, passando pelo norte da África
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As pesquisas que sustentam estas reflexões contam com o financiamento do CNPQ e da FAPEMIG.

Charles R. 1750-1850”3 propunha uma análise serial e quantitativa a partir dos inventários post-mortem. Tendo os inventários post-mortem como fonte privilegiada. “Alterações nas unidades produtivas mineiras: Mariana. procurou abordar o funcionamento integrado do conjunto do Império resguardando. A pesquisa abarcava o termo de Mariana de 1750 a 1850. mas também institucionais. período que foi escolhido por abarcar o momento de auge minerador e também uma fase considerada pela historiografia tradicional como de "decadência" e "estagnação" da economia mineira. No bojo das novas indagações que se fazia nos anos de 1980 e início da década de 1990 acerca do caráter da sociedade colonial e. o objetivo central da pesquisa era perceber. é que se inseria a pesquisa em questão. 1750-1850. ALMEIDA. UFF. até o território do Brasil. Neste sentido é que também as minhas preocupações em relação à história das Minas Gerais no século XVIII foram se modificando. Este autor. ao mesmo tempo. da economia mineira no período pós-auge minerador. O que houve foi uma reestruturação econômica em que a produção mercantil de subsistência passaria a ocupar o lugar de atividade principal BOXER. ao longo do período. Lisboa: Edições 70. 3 2 . mas também sobre a minha própria maneira de pensar as Minas Setecentistas. Dissertação de mestrado. culturais e sociais. Alterações nas unidades produtivas mineiras: Mariana.muçulmana e pelas costas ocidental e oriental africanas. O Império Colonial Português (1415-1825). Carla Maria Carvalho de. além de fazêlo não só em seus aspectos econômicos. Niterói. 1994. religiosos. De uma história classicamente quantitativa e serial (de alguma maneira já conectada com alguma perspectiva de mudança quando se propunha a analisar a questão dos mercados internos). Para os propósitos deste encontro minha reflexão pretende acompanhar como tais modificações tiveram impacto sobre a historiografia que se debruça sobre o período colonial. Minha dissertação de mestrado. as alterações das unidades produtivas da região visando demonstrar que o declínio da mineração não provocara transformações tão profundas na estrutura produtiva estabelecida. O historiador inglês Charles Boxer foi pioneiro em pensar a expansão colonial portuguesa nessa perspectiva. fui aos poucos migrando meus interesses cada vez mais para compreender como determinados grupos e indivíduos se comportavam nessa sociedade e como suas ações produziam impactos nos rumos do processo histórico. as especificidades da ocupação das distintas áreas sob domínio português. em obra clássica – O Império marítimo português2 –. 1981. PPGH. mais especificamente. Entender a lógica de funcionamento da sociedade colonial brasileira no contexto deste Império tem sido o mote desta linha interpretativa.

por serem representativas das distintas opções econômicas que eram possíveis para a capitania naquele momento. mas que não receberam naquele momento a ênfase necessária. Em minha tese de doutorado minhas preocupações se aprimoraram e meu interesse passou a ser empreender uma análise da economia.permanecendo. No entanto. rejeitando uma visão em que é a ALMEIDA. mas para desvendar a hierarquização social presente naquela sociedade4. homens bons: produção e hierarquização social nas Minas Colonial” dá bem a medida de como minhas preocupações se reformulavam ou aprimoravam. Minha orientação mais de fundo é refletir sobre a noção de colônia e colonos como tem feito a historiografia mais recente.Vivendo à lei da nobreza Atualmente meus estudos (lentos. Penso que o título da tese “Homens ricos. privilegiando a análise comparativa das comarcas de Ouro Preto e Rio das Mortes. teria grande influência pra o sucesso ou não de suas histórias particulares. ou de diversificação eficaz de seus negócios. Homens ricos. Minhas atuais pesquisas tem se concentrado em investigar alguns personagens da elite mineira setecentista. Procurei destacar como a capacidade de cada membro dessa elite em estabelecer estratégias. PPGH. 2001. fosse de casamento. Tese de doutorado. as metas que considero mais ambiciosas e mais efetivamente comprometidas com a compreensão dos sujeitos individuais e com uma nova postura em relação à compreensão da sociedade colonial ainda não haviam amadurecido completamente. tratamos de demonstrar como uma região produtora de artigos de subsistência para o mercado interno foi responsável por um dinamismo econômico capaz de manter o maior contingente cativo do país durante o século XIX. a mesma forma e lógica de funcionamento verificadas no período de auge minerador. Niterói. 4 . homens bons: produção e hierarquização social em Minas colonial. Carla Maria Carvalho de. Diminuindo um pouco mais o recorte temporal e me restringindo ao período colonial (1750-1822). minuciosos e com ampla necessidade de cruzamento de fontes) têm procurado levar à frente algumas indagações e intuições já presentes na tese. Além disso. de acúmulo de cargos e privilégios. no entanto. embora já estivessem apontadas. 2. UFF. 1750-1822. Também fez parte da investigação a análise da composição das elites locais. seu perfil econômico e suas formas de inserção políticosociais. procurei lançar luz sobre as possibilidades econômicas que se abriram para a capitania no momento de crise da mineração.

os indivíduos que tenho estudado nas Minas setecentistas. séculos XVI a XIX ed. Para tanto. Vera Lúcia do Amaral. Fernanda e FERLINI. era exatamente marcada pela lenta desestruturação dos rigorosos estatutos que definiam os grupos no período Resultados destes estudos podem ser vistos de forma mais detalhada em: ALMEIDA. Modos de governar: idéias e práticas políticasno Império Português. a sociedade do Antigo Regime. Adriana Pereira (orgs. Nas rotas do Império: eixos mercantis. In: ALMEIDA Carla Maria Carvalho de e OLIVEIRA. 2006.1 ed. Por isso. Do Reino às Minas: o "cosmopolitismo" da elite mineira setecentista In: FRAGOSO João. perceber as redes clientelares nas quais os membros deste grupo estavam envolvidos. Uma nobreza da terra com projeto imperial: Maximiliano de Oliveira Leite e seus aparentados In: Conquistadores e negociantes: histórias de elites no Antigo Regime nos Trópicos.). sobretudo aquelas relativas aos arranjos matrimoniais e aos entrelaçamentos nos negócios e como tais relações potencializaram o acesso aos bens políticos e simbólicos que nessa sociedade eram garantidores de prestígio e destaque social. 5 . mais do que como colonos submetidos estes homens se percebiam. Era a própria lógica do Antigo Regime cuja característica última me parece ser a reiteração da naturalização da diferença.Vitória : Edufes. CAMPOS. 2007.14. Antônio Carlos Jucá de. atuavam e eram de fato reconhecidos como vassalos da coroa portuguesa. v. ALMEIDA. a composição das câmaras municipais e o acesso às mercês e privilégios reais. p.1. Na diversificada gama de documentos que tenho analisado fica evidente que. América Lusa. da sociedade baseada no privilégio como naturalmente ordenador da sociedade. pela constante convivência com outros homens que iam e vinham. FORENTINO. séculos XVI a XVIII (no prelo). Rio de Janeiro : Civilização Brasileira.1. pela presença de seus filhos e netos no Reino e pela manutenção de suas ligações parentais e afetivas com distintas partes do Império. ALMEIDA.1 ed. definiam suas ações. 71100.São Paulo : Alameda. v.331-356. Trajetórias imperiais: imigração e sistema de casamentos entre a elite mineira setecentista. 2006.1. estratégias e relações a partir de uma lógica que era comum a grande parte dos homens que viviam em outras partes do Império português5. tráfico e relações sociais no mundo português.Juiz de Fora : Editora da UFJF. p. Mais do que a manutenção da hierarquização rigidamente estamental como a existente na Idade Média. 2005. Manolo. p. Carla Maria Carvalho de. Homens ricos em Minas colonial In: BICALHO. Carla Maria Carvalho de. v. procuro estabelecer as articulações existentes entre esta elite econômica. entendo que. Carla Maria Carvalho de. 129202. Nomes e números: alternativas metodológicas para a história econômica e social. Mônica Ribeiro de (orgs. Ademais importa-me. ALMEIDA.). ou seja. pela experiência de circulação por diversas partes do Império. Carla Maria Carvalho de. Também é meu propósito investigar a conexão existente entre a constituição das elites mineiras e o papel dos poderes locais no funcionamento da sociedade colonial brasileira e suas relações com as instâncias centrais do Império Português.metrópole o centro de decisões impositivas e a colônia um mero pólo subordinado e submetido a tais imposições. v. SAMPAIO.

etc. António Manuel (org. novembro de 2005. pelo desempenho de funções nobilitantes (pertencer ao corpo de oficiais do exército de primeira linha ou das ordenanças. esse processo de incorporação conduziu à adoção de uma noção excepcionalmente ampla de nobreza. em Portugal. Poder senhorial. Nuno Gonçalo. Toda uma relevante historiografia sobre a Europa Moderna chama atenção para tal alteração que permitia a incorporação de novos grupos no seio da “nobreza”. etc. do “estado do meio” ou dos setores privilegiados. por outro. adquirida pelo “viver nobremente”. as letras. A segunda forma tinha MONTEIRO. fidalguia e titulares nos finais do Antigo Regime.10. 1987. Lisboa: Editorial Estampa. Ler História. se por um lado houve uma restrição ao ingresso nos círculos da nobreza titular portuguesa. a análise desta nobreza que dependia da graça ou mercê régia para existir8.18. poderiam incluir os indivíduos na condição dos privilegiados.usp. pp.).4. categoria sempre mais restrita6. p. n.15-51. em sua base. São Paulo. São Paulo: Editora UNESP. p.) ou. império e imaginário social. estatuto nobiliárquico e aristocracia. Maria Beatriz Nizza da.almanack. é pertinente e fundamental que se estude o “enobrecimento” também na sociedade colonial brasileira ressalvando-se que neste caso só caberia mesmo. 2005. houve um alargamento desta condição podendo integrá-la um grande número de pessoas até mesmo de humilde nascimento. Nuno Gonçalo. existia um modo expresso e outro tácito de se manifestar esta vontade do rei em tornar um súdito nobre: A primeira ocorria quando o monarca. Ser nobre na colônia. distinta da fidalguia.2. cavaleiro. Nizza da Silva ressalta ainda que.anterior. negativamente pelo não exercício de funções mecânicas. Segundo esta autora. . A historiografia portuguesa das últimas décadas vem demonstrando que. 6 . n. ou simplesmente nobre”. à magistratura ou simplesmente a uma câmara municipal. O ‘Ethos’ Nobiliárquico no final do Antigo Regime: poder simbólico. Notas sobre nobreza. Na Europa Moderna não só o sangue. pp. ao mesmo tempo em que se insistia na idéia do privilégio e não do direito (ou da igualdade) como ordenador da sociedade. No mesmo sentido caminham as argumentações de Maria Beatriz Nizza da Silva. História de Portugal: o Antigo Regime. Almanack Braziliense. In: HESPANHA. 1998. 7 MONTEIRO. Nuno Gonçalo. obteve tradução em muitas práticas institucionais setecentistas7. De acordo com Nuno Monteiro.299. ao longo do século XVIII. Segundo Nuno Monteiro: A assunção do limiar da nobreza como uma condição tácita. p. ampliando consideravelmente a base da nobreza. 8 SILVA. 4-20. mas também os serviços.br. “de palavra ou por escrito”. declarava alguém “fidalgo. Instigantes considerações sobre esta temática são feitas também por este autor em: MONTEIRO. http://www.

pelas uniões matrimoniais com os melhores e principais da terra e. conferia aos homens ricos das Minas atitudes semelhantes àquelas que informavam as ações dos súditos residentes no centro do Império. posto ou emprego “que de ordinário costume andar em gente nobre”9. Carla Maria Carvalho de e SAMPAIO. Na América Portuguesa. 2007. Antônio Carlos Jucá de. os homens de que falo buscavam muito mais. retomando a proposição inicial Idem. principalmente se fosse branco. todo homem livre. possuir um estilo de vida que passava por se tratar com cavalos. p. penso que. muito mais do que a efetiva condição de nobreza titulada ou de sangue. Diferentemente da sociedade contemporânea. Nesse contexto de mobilidade possível.lugar quando fosse conferida a um indivíduo alguma dignidade. escravos e capelão. isso não bastava. considerando a existência da escravidão.24. Nos trópicos. o lugar social não passava exclusivamente pela posse de bens econômicos. parece dizer muito sobre a sociedade que se gestava e que se estabeleceu na América portuguesa. pelo letramento dos filhos. conferindo-lhe novas nuances ou. até mesmo o simples viver à lei da nobreza. aqueles que conseguiam se destacar nas Minas setecentistas fariam de tudo para se diferenciarem dos cidadãos comuns. Assim. a vontade de distinção que levava os integrantes das elites mineiras a buscarem a qualquer custo qualificações e títulos que os alçasse à condição de “gente com alguma nobreza”. América Lusa. Mas para aqueles que se almejavam principais. mas antes pela demarcação da diferença de condição em relação aos demais indivíduos. os grupos de elite redesenharam a hierarquia estamental do Antigo Regime. Desejavam de algum modo alcançar a condição de nobreza vigente no Império Português do século XVIII. A busca por representação nas câmaras. Conquistadores e negociantes: histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. séculos XVI a XVIII. etc). Por vezes. tornando-a mais plástica10. ALMEIDA. capacitava o indivíduo a ter acesso a títulos ou cargos que enobreciam. Embora a riqueza pudesse por si só produzir uma condição de destaque. já era a priori um indivíduo em condição de superioridade diante de muitos outros. no mínimo. João. em uma sociedade de Antigo Regime. É por isso que. por insíginias que conferiam algum grau de nobreza (habilitação da Ordem de Cristo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. patentes de oficiais. ou seja. familiar do Santo Ofício. sobretudo a busca por uma maior capacidade de mando. cavaleiro fidalgo. FRAGOSO. 10 9 . por cargos prestigiosos da administração portuguesa.

discordo da afirmação da historiadora Laura de Mello e Souza que no seu último livro. é preciso considerar que. afirma que: Minas não reclamou foros de nobreza ou fidalguia porque sua sociedade. A impressão que se tem é que a autora toma o discurso desqualificador destes representantes régios sobre os habitantes das Minas como um retrato fiel daquela sociedade. quando se assentou. Laura de Mello e. Ou seja. a sociedade teria sido basicamente formada por “aventureiros e arrivistas” e por isso. como também aqueles produzidos no reino (processos de habilitação para a Ordem de Cristo e para o Santo Ofício). O que me parece muito significativo e muito revelador da lógica que regia esta sociedade é a enorme importância que. fidelidade. Além disso. 12 Idem. já trazia traços inequívocos de uma outra ordem. a principal fonte utilizada pela autora para referendar suas impressões sobre esta sociedade centra-se em documentação de caráter oficial que. pensar em noções como nobreza da terra para o caso da sociedade das Minas não faria muito sentido. pedidos de mercês. 11 . testamentos. convenções e códigos estamentais perdiam ali qualquer sentido12. p. Metodologicamente não me parece razoável partir das reclamações e impressões dos governadores __ quase sempre registradas para serem enviadas ao Rei__ como comprovação para a afirmativa reproduzida acima. 2006. verificamos que havia por parte destes indivíduos uma frenética busca por símbolos de distinção que os respaldasse na condição de nobreza da terra. Segundo a autora a sociedade que se estabeleceu em São Paulo e em Minas Gerais era muito distinta daquela que se formou no nordeste. eles destacavam o caráter de nobreza.159. em vários outros relatos desses mesmos governadores (principalmente nas certidões de serviços prestados). em que as divisões eram de classe e se fundavam. são no mínimo contraditórias. honra e capacidade dos moradores das Minas. em um capítulo dedicado à discussão sobre nobreza em Minas Gerais. Se nesta última constituiuse uma aristocracia capaz de reproduzir muitos dos papéis da nobreza portuguesa.deste texto. quando confrontada com outros corpus documentais. estes homens atribuíam SOUZA. p. portanto. nas fontes que consultei. São Paulo: Companhia das Letras. processos matrimoniais. Quando consultamos outros corpus documentais. seja de caráter local (documentação camarária. no dinheiro11. em Minas. O sol e a sombra:política e administração na América Portuguesa do século XVIII. etc). Por isso mesmo.

C. Quando a Mesa da Consciência e Ordens aceita a qualificação positiva do solicitante . Para eles. estes nobres não são fidalgos mas gozam do privilégio de nobres. vemos a chamada hierarquia costumeira14 sendo legitimada pelas instâncias decisórias do Reino. Mas a questão é que nem só de riqueza viviam estes homens. percebe-se que em sua grande maioria eram sem dúvida homens rústicos saídos das regiões do norte de Portugal e que vinham para a América imbuídos do sonho do enriquecimento fácil. 2007. SAMPAIO. Neste sentido. Joaquim Romero. utilizava-se como legitimação para tal pretensão a condição de distinção reconhecida no âmbito local. 14 FRAGOSO. vão ser reforçados pela acumulação de outros. Conquistadores e negociantes. de diversa origem13. prestígio. p. que se trata com todo apreço e estimação à lei da nobreza ou ainda tratando-se sempre com muita nobreza com criados e capelão. Neste caso. séculos XVI a XVIII. ALMEIDA. tem razão Laura de Mello e Souza quando os qualifica como arrivistas e aventureiros. Estes privilégios. precedências e consequentemente. 1993. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. reconhecimento público. Acompanhando a trajetória de vários indivíduos que compunham a elite das Minas no século XVIII. Lisboa: Editorial Estampa. 1600-1773. Antonio Carlos Jucá de. Fidalgos e parentes de pretos: notas sobre a nobreza principal da terra do Rio de Janeiro (1600-1750). O Algarve econômico. e as honras correspondentes. João. É interessante perceber que mesmo nas situações em que se buscava o enobrecimento e o reconhecimento social ao nível do Império _ através das insígnias conferidoras de nobreza _. Nas palavras de Joaquim Romero Magalhães. enriquecer podia ser o passo inicial e necessário para alcançar aquilo que mais contava: honra. fica clara a importância do reconhecimento local como fundamento para a legitimação social. 13 . ainda que este precisasse ser persistentemente negociado. Procurarei apresentar alguns exemplos da insistente demarcação da condição de nobres ou principais da região e de situações de busca pelo reconhecimento social ao nível do império. 33-120. João.aos símbolos que conferiam nobreza e distinção. in: FRAGOSO. Carla M. p.feita através de testemunhos locais – como pessoa nobre das principais desta terra.337. indicando a persistência de um ideal de Antigo Regime em que ser reconhecido por seu lugar social muito mais do que por sua riqueza. poder. MAGALHÃES. América lusa. Histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. e a utiliza como elemento de aprovação da concessão solicitada. Mais significativo ainda é o fato das solicitações de muitos destes homens ricos por insígnias conferidoras de nobreza serem reconhecidas e acatadas nas instâncias decisórias do Reino. era central.

Custódio apareceu na listagem de homens ricos das Minas de 1756 sendo ali assinalado como mineiro e morador do Antônio Dias em Vila Rica. Mç. Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Gomes Freire de Andrade. Por esta razão. então governador da capitania.)20. arrabaldes de Vila Rica. liberdades. Custódio iniciara seus contatos com a região intermediando negócios de algum rico comerciante de escravos do Rio de Janeiro e as Minas. permitia-lhe gozar de todas as honras. HSO.Carta patente – 28/01/1741 19 ANTT. nascido na Freguesia de São Martinho do Vale do Arcebispado de Braga15.. Custódio de Sá Ferreira estava na região das Minas pelo menos desde a década de 1730 . 20 ANTT.Custódio de Sá Ferreira foi um dos membros da elite mineira Setecentista que recorrera à Mesa da Consciência e Ordens para se habilitar a receber o hábito da Ordem de cristo.. Letra C.12. onde era morador17. por não ter sido comboieiro de pretos e só sim o de ir com os seus próprios escravos por duas vezes às Minas com fazendas que lhes conduziam as quais vendia e a maior parte dos mesmos escravos. Custódio recorreu desta decisão e explicou que tal impedimento teria sido motivado pelo fato das testemunhas (. Em 1741. no qual diz conhecer o pai da habilitanda “há mais de 30 anos” na região.32. Custódio era português da região do Minho. N. HSO.Brasil/RJ. 24 .. Tal suposição é uma inferência do seu depoimento no referido processo. João Evangelista Sarmento.32. fl. Mç. 19 ANTT.169 – 1751. Ana Francisca de Jesus. O cargo de Capitão de Ordenanças não lhe dava direito ao recebimento de soldo.Carta patente – 28/01/1741 18 ANTT – Registro Geral de Mercês . doc. Provavelmente. 16 AHU – Cons.D. N.JOÃO V – Lv.. ainda que tivesse ficado constatado que tinha as partes pessoais e limpeza necessária.Ultra.84.1749 15 . Custódio era possuidor de um patrimônio que giraria em torno dos 50 mil cruzados16. fl. 24 . privilégios.19524 17 ANTT – Registro Geral de Mercês . no entanto. Segundo avaliação do ouvidor do Serro Frio. cx.114 . como testemunha no adendo ao processo quando foi solicitada a habilitação da esposa de Bento Alves. isenções e franquezas que em razão do mesmo posto lhe pertencerem 18. HOC. atendendo a boa informação que teve da sua capacidade e procedimento o contemplou com o posto de Capitão de Ordenanças de Pé do Padre Faria. o que bem examinado não podia induzir impedimento ao suplicante por ser negócio que naquelas terras fazem inda as pessoas que são tidas por principais (. Mç.) não saberem expressar a forma do trato do suplicante. Segundo as testemunhas que depuseram no seu processo de habilitação para o ingresso na Ordem de Cristo. N.D.169 – 1751. Custódio teria sido nos seus princípios comboieiro de pretos que levava para as Minas. em 1762.12. a Mesa lhe julgou incapaz de ingressar na Ordem. 12. Esta referência é do processo de habilitação de Bento Alves na qual Custódio de Sá Ferreira aparece depondo.JOÃO V – Lv. Estava nessa ocasião com aproximadamente 54 anos de idade. onde os vendia..

mineiro muito rico e pessoa das principais daquele terreno. tanto o tio quanto ele próprio. Custódio teve de recorrer insistentemnete à Mesa até ter seu pleito finalmente aprovado. teria grande contribuição o cargo de Capitão de Ordenança e o Hábito da Ordem de Cristo. diziam as testemunhos em sua terra natal que é pessoa nobre das principais desta terra e o foram seu pai cavaleiro do Hábito de Cristo e seu avô paterno das principais famílias desta Ribeira.2 – no. Ainda que procurasse legitimar sua atividade. Estando nas Minas o tio lhe entregou a administração de suas lavras e engenhos de tirar ouro e dentro de pouco tempo lhas vendeu e muitas herdou do dito coronel22. No entanto. era cavaleiro professo da Ordem de Cristo e coronel. passaria a integrar uma das famílias reconhecida pelos contemporâneos como da melhor nobreza da terra. Quando em 1765 se habilitou para ingressar na Ordem de Cristo.Acusado de ser comboieiro de negros nos seus princípios. filha mais velha de Maximiliano de Oliveira Leite. Ainda que as testemunhas ressaltassem esta sua condição. Custódio de Sá Ferreira teve nas Minas do século XVIII. natural da freguesia de Santo André do Rio Douro do termo de Cabeceiras de Basto. ainda que estas tivessem sido alcançadas através do dinheiro. Letra E.5 (1765) . Letra E. era português. HOC. um dos homens mais proeminentes do termo de Mariana. O tio. Por sua vez. Mç. De comboieiro de negros a rico minerador. Com essa união.2 – no. Custódio só conseguiu a aprovação depois de oferecer o donativo de 4 marinhos para a Índia e de lembrar à Mesa ter concorrido para a obra pia. HOC. com criados e capelão com a maior grandeza das 21 22 ANTT. Custódio coroaria sua trajetória ascendente ao casar-se com Ana Inácia de Oliveira. todas as testemunhas foram unânimes em afirmar que. João Gonçalves Fraga. se tratavam sempre com muita nobreza. Ainda muito jovem viera para Minas Gerais para a casa de um tio por o mandar buscar para sua companhia por este não ter parentes ao pé de si. Para isso. pelos impedimentos verificados por conta de sua prática mercantil nas Minas. comarca de Guimarães. apresentava o título de Sargento Mor das Ordenanças. a oportunidade de construir uma trajetória social ascendente. Mç. como a grande maioria dos mineiros do século XVIII e dos homens ricos listados em 1756. Também Estevão Gonçalves Fraga. tal enlace só foi possível pela sua insistente busca por precedências.5 (1765) ANTT. Ao lhe fazerem as provanças para se habilitar. província do Minho21. como centenas de outros portugueses vindos do norte. morador no Morro de Bento Rodrigues do Ribeirão do Carmo.

Letra E. por morte do dito seu tio com todo o seu cabedal.) conhece muito bem o habilitando (.5 (1765) 26 ANTT / HSO – Mç. A trajetória deste homem rico difere da maioria dos outros pela ausência de mecânica nele. filho do Guarda Mor Maximiliano de Oliveira Leite. Destacarei finalmente um outro conjunto documental em que a recorrência a este tipo de condição é fundamental para o sucesso do pleito e para o reconhecimento social. Por isso mesmo. Letra E. como por exemplo. a aprovação se fez sem maiores negociações garantida pela condição do tratarem-se à lei da nobreza. Também neste caso. fazendo naquelas Minas uma figura das principais dela.2 – no. Francisco Paes de Oliveira Leite.. capelão e criados mandando tratar das suas roças e cabedais24. que morava na mesma casa. Letra E. Afirmavam ainda que não tem ainda cabedal próprio por ser filho famílias. o unânime reconhecimento de que vivia à lei da nobreza lhe garantiu a autorização para se tornar cavaleiro da Ordem de Cristo. pelo magnífico trato com que nelas sempre se tratou e vive25. mas seus pais são abundantíssimos dele e se tratam com todo apreço e estimação à lei da nobreza 27.5 (1765) 25 ANTT.5 (1765) ANTT.. Estevão. Dil. HOC. 27 Idem. em que seria habilitado para receber o hábito sem lhe ser imposta condição alguma.1371. nela ficou. o pedido de dispensa de consagüinidade vinha baseado principal na condição de que: 23 24 ANTT. HOC.. Mç. os processos de habilitação para o Santo Ofício. nos avós ou nos pais. foi dos poucos casos de que dispomos. Mç. No processo matrimonial de 1746 em José Caetano Rodrigues Horta pleiteava se casar com sua prima Inácia Maria Pires de Olivera. Outra testemunha no mesmo processo assim se refere ao habilitando: (.2 – no.77.) tratando-se sempre com muita nobreza com criados e capelão. Mç. vivendo sempre à lei da nobreza com seus cavalos. vive limpa e abastadamente na companhia de seus pais26.2 – no. capaz de ser encarregado de negócios de importância e segredo. Quando da morte do tio. Para se habilitar à condição de irmão do Santo Ofício. Neste caso. foi descrito pelas testemunhas que depuseram em seu processo como pessoa de bons procedimentos de vida e costumes.. . Também é recorrente encontrar este mesmo tipo de legitimação para a aquisição de precedências e insígnias em outros documentos.principais pessoas daqueles estados23. HOC.

04 – Pasta 477 Para um estudo mais detalhado desta família ver: ALMEIDA. Antonio Carlos Jucá de. com quem possa casar se não com o orador. sujeito igual no gênio. estado e condição. idade.Os oradores são pessoas principais deste bispado. séculos XVI a XVIII.. e como mulher lhe é assaz penoso deixar a companhia de seus pais e parentes.) A oradora não tem em no lugar onde vive e de que é natural. 3. 4768. SAMPAIO. nobres e de nobre geração por si e seus pais e sempre como tais se trataram. João.Considerações Finais Para além dos exemplos citados acima. Conquistadores e negociantes. que o orador e pai da oradora são Cavaleiros do Hábito. in: FRAGOSO. C. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. possuir hábitos das ordens militares e acumular cabedais ou preservar o já adquirido.. pela colocação de descendentes ou aparentados no centro do Império e pela proximidade com altos funcionários régios (governadores principalmente). mas também. na região da Comarca de Vila Rica. foram tidos e havidos e reputados. Carla M. integrar as ordenanças. e com a mesma insígnia foi condecorado o pai do orador. 2007 29 28 . ALMEIDA. Finalmente. o que implicava em ocupar cargos concelhios. Em segundo lugar era preciso manter ou estabelecer vínculos fortes e decisivos com o centro do Império o que podia ser feito pelo sistema de casamentos incorporando constantemente recém-chegados do reino. era fundamental manter uma base local de sustentação com fortes redes parentais sustentando e reforçando constantemente os laços constituídos localmente. Tal condição também neste caso legitimou a dispensa de consangüinidade dos noivos. atuar na conquista e na defesa da soberania da coroa na colônia. América lusa. com vínculos fortes com os grupos subalternos (escravos principalmente). casando fora do lugar de sua naturalidade e domicílio28. tanto assim. no caso dos estudos que já consegui empreender até o momento acho que é possível afirmar que. No. existiam algumas pré-condições para aqueles súditos naturais ou estabelecidos na região que pretendessem reconhecimento social não só a nível local como também no âmbito do Império. Carla Maria Carvalho de. PM – AEAM. para que pudessem se casar com todas as honras e pompas29. Em primeiro lugar era necessário se construir enquanto uma nobreza da terra. que na ocasião contavam com 12 anos de idade. (. Histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. Ar. Uma nobreza da terra com projeto imperial: Maximiliano de Oliveira Leite e seus aparentados.

dos registros paroquiais. que faltam estudos para melhor qualificar e compreender o que significava ser nobre ou principal em cada localidade ou região. mas principalmente os arquivos locais como a documentação das câmaras.Apesar de vários estudos caminharem no sentido de demonstrar a existência nas Minas Setecentistas de uma elite em busca de distinção social e pautada por motivações típicas do Antigo Regime. os processos criminais. . das irmandades. da monarquia. Mariana é uma localidade preciosa para potencializar trabalhos que cruzem desse tipo. Acredito que para compreendermos mais adequadamente a dinâmica desses grupos de elite é necessário que proliferem as investigações empíricas que explorem arquivos da administração da capitania. dentre outros. Neste sentido. organizados e relativamente bem preservados como aqui. a documentação cartorial. penso no entanto. Poucas localidades tem acervos tão completos.

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