You are on page 1of 20

6 a 11 de setembro de 2011, UFPE, Recife-PE Grupo de Trabalho: Educação e Desigualdade Social

Um novo olhar sobre sociedade e espaço no curso Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo

Tarcio Leal Pereira Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Introdução Este trabalho se propõe a levantar algumas discussões sobre a relação entre sociedade e espaço, a partir da análise de textos básicos e introdutórios a este debate, mostrando algumas das formas como esta relação tem sido percebida e construída ao longo da história no campo da sociologia e também da antropologia. Em paralelo às reflexões trazidas por alguns autores que trabalharam a questão dos espaços, e que puderam oferecer ferramentas teóricas e conceituais importantes para os estudos sociológicos sobre este tema, aponto como vêm sendo articuladas algumas destas reflexões no Curso de Extensão/Especialização Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo. Os apontamentos trazidos neste trabalho se dão com base na observação participante feita nas etapas presenciais do referido curso, que é oferecido na Universidade Federal do Rio de Janeiro, seguindo o modelo da alternância entre o tempo escola e o tempo comunidade1. Este curso é resultado de uma parceria feita entre o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), que se estabeleceu a partir de um longo período de atividades e pesquisas desenvolvidas pelo instituto com o movimento. De acordo com algumas demandas surgidas no interior do MAB para a formação de um maior número de militantes dotados de conhecimentos técnicos, científicos e políticos, desenvolve-se a partir de parcerias estabelecidas pelo movimento o referido Curso de

Extensão/Especialização. A Turma Internacionalista Simon Bolívar, que está sendo acompanhada por mim desde seu início em julho de 2010, é a segunda deste curso e é constituída por um grupo de sujeitos oriundos de diferentes movimentos
1

Este trabalho pôde ser desenvolvido graças à pesquisa coordenada pelos Professores Elisa Guaraná de Castro e Marco Antonio Perruso na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ): Juventude e Práticas Políticas na América Latina – análise da construção e reordenação da categoria “juventude” como representação social e política nos movimentos sociais em países da América Latina, onde participo enquanto bolsista de iniciação científica orientado pelo segundo e financiado pela FAPERJ na pesquisa Movimentos Sociais Rurais, Políticas Públicas e Formação Política da Juventude, que constitui uma das frentes investigativas da primeira. Foi também de fundamental importância a contribuição da professora Flávia Braga Vieira durante todo o primeiro período letivo de 2011, no qual esta ofereceu no Departamento de Ciências Sociais da UFRRJ a disciplina intitulada “Sociedade e Espaço”. A partir desta disciplina tive acesso à grande parte dos textos e temáticas articuladas neste trabalho. A referida professora é também coordenadora adjunta do Curso Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo.

2

embora não estejam diretamente citados nas bibliografias do curso. proporciona um espaço de formação privilegiado para os estudantes. Agradeço à coordenação do Curso do IPPUR/UFRJ que disponibilizou as apostilas de textos utilizadas pelos estudantes durante o tempo comunidade. a temática da forma como são apropriados os diferentes espaços pelos atores sociais. dentro e fora dos espaços de aula. A partir disto desenvolve-se uma nova e ampla possibilidade de debates e questionamentos sobre as razões e implicações advindas da forma e do modo como os indivíduos se encontram dispostos no meio social e de que maneira isto repercute na questão do uso e da ocupação de espaços. leituras e debates estabelecidos com\entre os estudantes novas percepções sobre a forma como se articulam as relações entre os sujeitos e seus espaços sociais2 e geográficos. Estes debates estão presentes no curso em seus mais distintos momentos3. principalmente por que grande parte dos estudantes é composta por atingidos por barragens. nos momentos de aula e debate. entre outras. tais como elementos de economia política e da teoria marxista. Como indicado pelo próprio título do curso. com base em temas e conceitos que se adéquam. históricosociológico e marxista. ou sofre com os efeitos da má distribuição de terra e renda. Os autores utilizados neste trabalho. tem suas discussões e debates constantemente levantados mesmo que de forma indireta. que será articulada ao longo deste trabalho. de maneira interligada com os demais conteúdos e autores clássicos do pensamento econômico.populares do Brasil e da América Latina. o tema da energia e a forma como ele é abordado nas aulas. Utilizo aqui a ideia de espaço social conforme desenvolvida por Sorokin (1980). Neste espaço de formação são desenvolvidas a partir das aulas. Com isto incluo os demais momentos de convivência e interação que tive com os estudantes ao longo da rotina do curso. e também em alguns textos apresentados para os estudantes pelos professores para a leitura no tempo comunidade4. é oferecida uma formação diferenciada. 4 3 . que se preparam para desenvolver seus conhecimentos na prática comunitária e de militância nos diferentes movimentos dos quais provém. Neste curso além das temáticas e abordagens clássicas utilizadas na formação em movimentos sociais. 3 2 Refiro-me estritamente às etapas presenciais que acompanhei na UFRJ.

Nas pesquisas desenvolvidas por estes autores podemos perceber uma mudança de paradigma. Neste sentido desenvolvo neste trabalho como esta questão vem sendo discutida no campo das Ciências Sociais e de que modo ela aparece e é tratada durante as aulas do Curso de Extensão/Especialização Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo. Marcel Mauss (1974) e Evans-Pritchard (1978) deixa de estar em uma esfera diferenciada ou determinante do meio social. para as relações entre as tribos. Nos estudos realizados por Durkheim e Mauss (1984) sobre grupos sociais da Austrália os autores procuram compreender os sistemas de classificação relacionais desenvolvidos entre estes grupos. foi possível perceber isto por conta das várias questões levantadas durante as aulas. Os conteúdos articulados entre alunos e professores. que se referem à formação histórica dos diversos modelos e conceitos apresentados em sala. Os totens e demais elementos espacialmente situados são percebidos pelos pesquisadores a partir da compreensão de uma mentalidade social 4 . no decorrer das aulas e dos diferentes eixos temáticos em que se constitui o curso. apontam para uma maior reflexão e problematização acerca da ideia de como se constroem e determinam os diferentes espaços ocupados pelos sujeitos. O espaço deixa de ser apontado como fator determinante das relações sociais e das formas como elas se estabelecem.Os estudantes com os quais tive contato apresentam grande interesse por questões que dizem respeito à forma como se estabeleceu o atual modelo de sociedade vigente no mundo ocidental. havendo uma nova compreensão dos modos como os fatores físicos e geográficos dialogam e se entrecruzam com os sociais. de acordo com os dados obtidos. saindo de uma linha determinista das relações sociais e dos espaços em que elas se desenrolam. Estes sistemas de classificação pesquisados são integrados a elementos da natureza e contribuem. Espaço como classificação social Neste primeiro ponto serão retomados textos clássicos das ciências sociais que apontaram um novo caminho analítico para estas ciências. O espaço a partir dos estudos realizados por Durkheim (1984). estão amplamente presentes nas representações e expressões nativas. Os autores apontam como se estabelecem as relações sociais em diálogo com os elementos físicos da natureza que dotados de subjetividades e simbolismos.

coletiva. ocorridas de acordo com as fases do ano. os fluxos de migração e seus motivos. Graças às suas constantes migrações e mudanças organizativas. Na pesquisa realizada por Mauss (1974) sobre as variações sazoneiras das sociedades Esquimó. o autor inicia suas análises das instituições culturais e familiares destes grupos. sempre relacionando-se com a questão do espaço e a forma como ele se apresenta para a sociedade Esquimó. Neste estudo o espaço geográfico é compreendido enquanto apenas um dos fatores que influenciam a forma de organização de um grupo. apontando os traços distintivos utilizados entre os grupos e as formas como se organizam suas famílias. sexuais e familiares desta sociedade bastante distinta do padrão societário europeu. A partir de grandes descrições sobre as formas como os Esquimó se organizam espacialmente. os índices de mortalidade e como se apresenta a dinâmica populacional. Nas diversas formas em que se constituem as habitações nas diferentes estações do ano. além de suas diferentes formas de relação e estabelecimento no espaço físico. os esquimós foram escolhidos para esta pesquisa por possuírem características e informações suficientes para a elaboração de conceitos e teorias acerca das formas de organização social e espacial. sempre articulando estas ideias com as noções de espacialidade. e do estabelecimento de visões dicotômicas das classificações e interpretações sociais dos sujeitos. o autor analisa também os modos como os grupos familiares se dividem dentro das habitações de cada estação e a forma como se dão as relações entre os indivíduos nestes distintos espaços e períodos. A perspectiva utilizada por Durkheim e Mauss para a realização deste trabalho preza pela concepção de que os espaços geográficos que os indivíduos ocupam possuem sua base nos espaços sociais em que os mesmos se encontram. e por se apresentarem enquanto um grupo relativamente coeso e isolado. Neste trabalho por ele desenvolvido são apresentadas em detalhes as mudanças que se figuram. culturais e morais. não sendo ele ponto determinante das diversas características assumidas por um povo. nesta sociedade com a mudança das estações do ano. Os diferentes tipos de moradia e as formas como as famílias e 5 . São analisadas também neste estudo. são articuladas algumas questões relativas às mudanças na organização socioespacial destes grupos durante as diferentes estações do ano. e os hábitos e costumes alimentares. nas instituições políticas.

Em seu trabalho são fundamentais os conceitos de tempo estrutural e ecológico. Para a plena compreensão da forma como um espaço é apropriado por grupos e indivíduos é fundamental entender como estes se organizam socialmente em sua cultura e instituições. sejam eles cotidianos ou esporádicos. a partir do enfoque 6 . marcando as influências do meio ecológico neste campo. apresenta também aplicações e relações baseadas e aplicáveis nas estruturas do espaço social.os indivíduos se apropriam deles são a marca básica da cristalização dos aspectos sociais no meio físico. já o primeiro abarca as relações dos indivíduos dentro da estrutura social. o autor articula as ideias relativas a esta percepção nos planos do território. percebendo como os fatores sociais e geográficos se articulam mutuamente. o segundo sendo ligado às ações e acontecimentos envolvendo a relação do indivíduo com o meio. ou estrutural. O tempo Nuer ao mesmo tempo em que apresenta aplicações e relações baseadas e aplicáveis nas estruturas do espaço físico e em seus eventos. no trabalho realizado com os Nuer. e que acima disso os padrões e regras sociais são ainda mais importantes para a organização de um grupo nos ambientes físicos por eles ocupados. considera amplamente as formas como estes lidam com o espaço e os elementos espaciais. Estas duas categorias. Outra forma de percepção das relações entre as estruturas sociais e suas influências na maneira como os indivíduos e grupos sociais lidam e interagem com o espaço físico é apontada por Jean-Pierre Vernant (1978) em um estudo sobre a expressão religiosa do espaço e do movimento entre os gregos. além dos reflexos causados por estas influências na estrutura social e espacial Nuer. De acordo com as classificações e aplicações desta percepção estrutural. A partir da análise das causas e efeitos das variações sazoneiras nas sociedades Esquimó Mauss pôde demonstrar o quanto a relação dos grupos e dos indivíduos com o meio é de grande relevância para as suas formas de organização. são fundamentais para a compreensão dos mecanismos e categorias sociais desenvolvidas por este povo. em seus estudos de classificação das categorias sociotemporais e espaciais dos Nuer. articuladas durante boa parte da discussão sobre tempo e espaço. pois perpassam suas formas de percepção das relações entre indivíduos e também a maneira como se fazem no cotidiano suas atividades mais diversas. Consciente disto Evans-Pritchard (1978).

tempos. relacionados ao sexo e às posições possíveis de serem tomadas por homens e mulheres. como o espaço e as instituições e relações sociais estão constantemente relacionados e se influenciando e refletindo mutuamente. que nas primeiras etapas do curso se referiram mais diretamente à questão do espaço geográfico e seus modos de uso e apropriação pelos sujeitos. Isto foi possível principalmente nos eixos temáticos do curso que tratam dos temas da Economia Política do Meio Ambiente e da Energia. primeiro na Europa e logo nos Estados Unidos. no sentido em que neste curso a forma como são pensadas as ideias relativas ao espaço social e sua relação constante e dialética com o meio físico se constroem nas disciplinas. tal como nos autores acima referenciados. bem como a forma como eram divididos os tempos e espaços de acordo com critérios de fixidez e mobilidade. e representações sociais. e em 7 . Estas dimensões estão presentes de modo contínuo nas aulas do Curso de Extensão/Especialização Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo. no sentido de desnaturalizar a noção do território e a forma como homens e mulheres se apropriam dele. da mesma maneira em que estas estruturas físicas podem ser compreendidas enquanto personificadas e atuantes na figura de um destes deuses. Nos estudos apontados brevemente acima podemos perceber de modos distintos. As representações destes dois Deuses dizem muito a respeito dos papeis ocupados por homens e mulheres na sociedade grega. marcada pelo surgimento e desenvolvimento das grandes cidades e da sociedade industrial. Além disso. podemos estender o debate para as questões da modernidade. Depois de realizada esta breve apresentação. através de diferentes formas.nos deuses Héstia e Hermes. além de apontar como se iniciam estes debates no campo da sociologia e da antropologia e indicar onde localizamos estas discussões no curso em questão. pode-se articular uma série de outras questões transmitidas pela história e pelas representações destes deuses à forma como eram explicadas as representações espaciais dos gregos. Cidade como espaço do mundo moderno Durante os séculos XIX e XX o mundo acompanhou um expressivo crescimento das grandes cidades. que tem como objetivo apontar algumas das diferentes maneiras como podem se relacionar determinados grupos sociais com seus respectivos espaços em diferentes períodos e contextos analíticos.

informações e influências. de forma em que o autor busca mostrar como as estruturas urbanas se apresentam enquanto estruturas dadas. . sendo os primeiros atores de uma cena repleta de nuances. nos quais grupos e indivíduos oriundos de diferentes locais e com diferentes especificidades são obrigados a se adaptar sem poder. no qual há monetarização e racionalização dos valores pessoais e das ações são correntes. assumem. mesmo que próximo à cidade. Esta objetividade pode ser percebida também nas formas homogeneizadas e homogeneizantes que as grandes cidades. gerar as adequações que julgam necessárias no meio. No espaço urbano. atrelado ao estabelecimento das fábricas e da produção industrial nos centros urbanos. bairros e por vezes localidades inteiras obedecem a um padrão estético e estrutural bastante próximo e homogêneo. ou político. característico deste período de desenvolvimento e expansão dos grandes centros urbanos e das instituições do capitalismo. Simmel (1967) desenvolve um estudo sobre as formas como simultaneamente ocorrem influências do ambiente no indivíduo e vice versa. enquanto no meio rural. principalmente em seu primeiro período de desenvolvimento. persistem relações baseadas em uma maior rotina. simbólico. onde ocorre a aglutinação e a simultaneidade de pessoas.consequência disto. apartamentos. As casas. De acordo com a análise de Henri Lefebvre (2008) a percepção do urbano se desenvolve a partir da ideia de centro. e ao mesmo tempo sujeitas a alterações e reconstruções. as formas de apropriação do espaço e os diferentes modos como os indivíduos podem se relacionar com ele se estabelecem de maneiras diferentes dos padrões anteriormente vigentes. A cidade e seus habitantes são tomados em contraponto ao ambiente do campo. o surgimento de novas formas de relação dos sujeitos com o espaço e com os demais indivíduos. 8 . As formas de manifestação e desenvolvimento da cultura subjetiva são postas abaixo na objetividade presente no meio urbano. contudo. onde as práticas sociais estão em um nível de racionalização distinto do modelo urbano industrial. onde as relações efetivadas entre os indivíduos e as relações que se estabeleciam entre os sujeitos e o espaço eram mais próximas e pessoalizadas. seja ele comercial. prédios. As moradias e formas de habitação são limitadas no sentido de possibilitar ao sujeito a autonomia de fazer modificações e adequações a sua realidade particular.

tal como a utilizada nas empresas. Este debate esteve muito presente na primeira etapa do Curso. A aplicação de uma racionalidade empresarial e de uma lógica economicista e quantitativista. em que durante espaços de aprendizagem conduzidos pelo professor. bem como em suas formas de ocupação e convívio.A lógica de conformação e construção do espaço público se afirma com base nos interesses e necessidades dos grupos dominantes. Por isto é proposta uma nova forma de pensar a cidade. ficando à margem os desejos e carências dos habitantes. de acordo com as bases teóricas e conceituais articuladas ao longo de cada disciplina. na formação e distribuição do espaço das cidades gerou graves problemas qualitativos na organização da cidade. mas pela perspectiva de um urbanismo que possa fornecer auxílio às novas formas de conceber e desenvolver o espaço das cidades. fora do viés da empresa. onde foi feita a opção por aulas com uma abordagem teórico-conceitual dos eixos temáticos articulados nas aulas. Os integrantes de movimentos operários e de luta por emprego se apropriam de forma diversa dos conteúdos transmitidos no curso. os eixos relativos à Economia Política e Estado e Classes Sociais. dado sua realidade social e cultural distinta daqueles que atuam em movimentos camponeses. O uso do espaço e apropriação de seus frutos na grande cidade industrial. e em conseqüência disto. Estas reflexões se encaixam na perspectiva adotada pelos integrantes de movimentos sociais engajados em causas ligadas à cidade. a discussão sobre o papel e o lugar do campo e do camponês na sociedade contemporânea foi amplamente colocada. é intensa e se estabelece de forma destrutiva. 9 . a forma como este processo se materializou nas estruturas urbanas e sociais. analisada por Lefebvre (2008). Assim o espaço e as condições de circulação são planejados visando atender negócios e demandas particulares. que participam do Curso. Podem-se pensar os ideais utilizados para o desenvolvimento de vias de circulação e sistemas de transportes. problematizavam a questão da influência do capital no cotidiano dos estudantes e na sociedade como um todo. Nesta etapa do curso. colaborando para um aumento qualitativo na qualidade de vida de seus habitantes e nas formas de uso e apropriação dos espaços. assim como nas demais. Para ele a causa maior dos problemas e dificuldades percebidos nas grandes cidades e vividos por seus habitantes é a forma como se desenvolveu o processo de industrialização.

As relações entre campo e cidade. deixaram de existir desde o momento em que se estalaram os novos modos de produção e consumo. enquanto lugar demarcado pelo atraso e pelo distanciamento dos bens e facilidades em princípio exclusivos dos espaços urbanos se modificou. além de não apresentarem necessariamente níveis discrepantes de acesso e consumo de bens materiais e culturais. com base nos ideais da indústria. tais como a concentração de novas tecnologias. Estes espaços nos dias de hoje se entrecruzam em muitos aspectos. bem como estas mesmas influências e tendências economicistas e quantitativistas trazidas pelo gradual desenvolvimento do capitalismo e seus princípios provocaram mudanças nos espaços do campo em suas relações com os demais espaços sociais e geográficos. de acordo com padrões tradicionais. de circulação entre campos sociais diversos. que viviam da propriedade rural familiar e no isolamento de suas microrregiões. se estabelecem de forma bastante distinta e mais complexa do que a simples dicotomia aplicável na antiguidade clássica. Desta maneira os grupos sociais e suas formas características de apropriação de um determinado espaço não se apresentam de modo facilmente determinável. causando transtornos ao meio ambiente e as populações dele dependentes. A partir da construção deste breve panorama podemos perceber as formas como os princípios do capitalismo exerceram influências na constituição física dos espaços urbanos. podendo estar agora em alguns casos interligado às estruturas e facilidades tomadas antes como caracteristicamente urbanas. As famílias classificadas enquanto tipicamente rurais. conforme articuladas no estudo desenvolvido por Raymond Williams (2011). Existem atualmente formas múltiplas de classificação que podem ser colocadas entre as conceitualizações básicas de campo e cidade. renda. zona industrial. As famílias do campo e da cidade compartilham de realidades comuns em muitos aspectos. centros de estudo. que atuam de forma a extrair lucro da propriedade da terra e atuando de forma predatória no uso dos recursos naturais. entre outras. além de um ponto básico comum aos dois contextos. favela. tais como a noção de subúrbio. que é a apropriação do espaço com fins basicamente econômicos. O campo. pois oferece a sujeitos de realidades bastante distintas a possibilidade 10 . O Curso em questão se apresenta enquanto um espaço diferenciado de formação em nível de extensão e pós graduação. dadas as múltiplas possibilidades e as diferentes dificuldades e impossibilidades. objetivando a produção intensiva.

situar e localizar um indivíduo como possivelmente inserido em um contexto. é de suma importância para a elaboração de sua imagem. ou geométrico não se apresenta enquanto fator determinante do espaço social o qual cada indivíduo se encaixa ou pode circular. Com perspectiva similar os participantes do curso do MAB buscam compreender e avaliar seu papel e sua agência dentro da sociedade e seus espaços. podem-se depreender quais suas localizações e funções no espaço social. Para a elaboração de um conjunto de referenciais sociais é imprescindível indicar as analogias de um indivíduo com seu grupo bem como as de seu grupo com os demais.de compartilhar experiências e adquirir outras novas em conjunto com intelectuais que atuam enquanto professores e orientadores. poder e desigualdade Em seus estudos sobre as formas como se localizam os indivíduos no espaço social. Para isso é necessário estabelecer uma distinção entre as formas como o espaço pode se apresentar. A ocupação e o uso de bens materiais fisicamente localizados e constituídos são fruto de relações sociais estabelecidas pelo indivíduo e pelos grupos aos quais pertence. Pitirin Sorokin (1980) trabalha com as possibilidades de movimentação dos sujeitos dentro destes espaços. a partir daí. e a partir disso ver como estes se ligam e lidam com todos os outros 11 . pois as formas como se apresentam os indivíduos. físicos e sociais. e ainda contando com o título acadêmico oferecido ao término do curso. Apontar a localização de um sujeito ou de algo no espaço geométrico pode ser um fator de grande relevância para apontar a localização e a posição de tal sujeito ou objeto no campo social. os bens de que dispõe e a forma como lidam com eles são básicos para seu referenciamento no espaço social. A construção de limites e conceitos dentro de um determinado espaço está intimamente ligada à forma como se apresentam e constituem as relações no mundo social. tornando presumível sua localização. Espaço. Poderemos desenvolver no próximo ponto algumas ideias sobre as diferentes formas em que o poder e a desigualdade se articulam nas esferas sociais. O espaço físico. ou seja. pois tanto no espaço geométrico quanto no social a identificação e a construção de referências para. ele pode ser social ou geométrico. e buscar compreender como as questões correntes nestas esferas são refletidas no espaço físico. A partir da análise da forma como estão dispostos no meio físico.

dado que os espaços se estabelecem de forma bastante abrangente e variada podendo conter indivíduos de distintos grupos e níveis sociais em um mesmo ambiente compartilhado. visto que a partir dela podem-se compreender fatores relevantes de uma pessoa. tais como cor. Isto é de grande valia. A biografia de um sujeito também pode ser um fator relevante a ser considerado e analisado para determinar sua posição no espaço social. Isto é feito a partir da criação dentro do plano teórico de camadas superiores e inferiores da população. o tempo sócio-cultural não decorre do 12 . de maneira a diferenciar posições e status ocupados pelos indivíduos em cada contexto e local específico. O espaço social é aquele no qual o ser humano se articula entre seus pares. que apresenta uma regularidade e segue um padrão determinado. a localização de um pequeno grupo no contexto da população como um todo. e a partir disso se materializa no meio geométrico. ou seja. tal como no curso em questão. grupo econômico. aonde os sujeitos mesmo vindos de locais distintos. possuem uma agenda de lutas e reflexões em comum. quanto mais próximos forem os espaços sociais compartilhados por alguns indivíduos mais próximas podem ser suas posições no espaço geográfico e por isso mais chances terão estes sujeitos de se relacionarem e estabelecerem contatos. Diferentemente do tempo cronológico. O tempo sociocultural é um conceito também descrito por Sorokin (1980) para apresentar como a forma de contabilizar e viver o tempo apresenta-se de maneiras diferentes de acordo com o espaço social no qual o sujeito se encontra inserido e das formas como se desenvolvem as atividades e práticas sociais dentro deste mesmo espaço. Desta forma. Este autor estabelece uma relação com as ciências exatas para apontar as diferentes possibilidades de inserção de um sujeito em um mesmo grupo ou ambiente social. representados no eixo vertical. tais como os grupos que frequenta e os locais onde habita e circula. onde no plano horizontal as pessoas podem ser determinadas em grandes categorias. O referencial social do indivíduo. de acordo com o autor.agrupamentos que constituem a sociedade. mais dentro destas categorias existem planos hierárquicos. depende de alguns aspectos. onde a partir dos quais podemos deduzir alguns pontos gerais de orientação para localizá-lo socialmente. O universo social é dividido em duas dimensões estabelecidas a partir da ideia de coordenadas e abscissas. partido e religião. que conformam a organização do poder e do status dentro de cada grande grupo.

Em uma de suas análises Bourdieu (1996) aponta o espaço enquanto “pontos distintos e coexistentes entre si. variando em relação à maneira como foram adquiridos e com quais propósitos. a forma e o momento em que são articulados. A regularização e a sincronização do tempo são de grande valia para a concepção deste conceito de tempo sócio cultural. Isto principalmente quando se trata do mundo capitalista e de suas formas de racionalização e mensuração do tempo.mesmo modo para todos os grupos sociais. O habitus se apresenta enquanto o espaço social em que determinados capitais são adquiridos e instrumentalizados. alguns conceitos caros às Ciências Sociais. A industrialização tal como estabelecida em espaços de campo e cidade teve grande impacto nas formas tradicionais de vida e contagem do tempo. sejam elas econômicas e culturais. Ele é um modo de contagem qualitativa. para pensar a questão da localização dos indivíduos no espaço social. proximidade e distanciamento ”. e basicamente o meio em que se encontra determinado indivíduo e quais seus interesses. que não pode ser mensurado da mesma forma que os números ou dividido como o tempo cronológico em múltiplas e minúsculas frações. havendo algumas mudanças estruturais e conjunturais na forma como estas marcações são feitas e a relevância que possuem dentro da organização social do grupo. tais como hierarquia. dado que estas relações podem ser bastante diversas graças a este fator cultural. dependendo de seu habitus e do volume de capitais acumulados a pessoa apresenta determinadas características sociais e culturais 13 . Os pontos de distinção apontados por este autor são classificados enquanto capitais de diferentes naturezas. Desta forma a percepção do modo como se relacionam tempo e espaço em grupos sociais se apresenta enquanto ponto fundamental para compreender como se estabelecem as relações entre indivíduos e espaços. de forma que estas mudanças na forma de percepção e vivência do tempo cronológico engendram mudanças perceptíveis na vida dos indivíduos e em sua relação com o meio onde vivem. Segundo o autor em qualquer meio social existe um mínimo de sincronização e demarcação de atitudes dentro do tempo e do espaço. que se definem relacionalmente entre si por sua exterioridade e por fatores diversos. gerando assim no indivíduo suas características distintivas. De acordo com a forma de socialização do indivíduo os capitais dos quais ele dispõe podem ser diversos e se apresentarem de forma diversa. Pierre Bourdieu (1996) utiliza. tão distintivo quanto as formas de contagem e mensuração do tempo.

A partir disto podemos elencar uma das razões pelas quais o MAB apresenta uma preocupação sistemática com a formação/educação de seus militantes. A forma como estas lutas foram travadas ou vencidas podem ser compreendidas a partir da análise dos processos de desenvolvimento e legitimação de determinadas classes no campo. onde a forma de organização entre os sujeitos culturalmente diferentes é perceptivelmente distinta e geradora de distinção nos espaços do curso. com menor número de integrantes. orientações. Neste sentido os participantes do curso do MAB são portadores de traços distintivos entre si. constituindo assim formas de ação distintas e geradoras de distinção. que não 14 . Com exigência cada vez maior de conhecimentos específicos por parte de toda a sociedade. Os sujeitos adquirem certo volume de capital cultural e intelectual ao participarem desta experiência de formação. tais como a forma de falar. compartilhando assim entre si de um nível razoavelmente próximo de capital global. condições de vida e conseqüentemente espaços comuns. contudo não podem ser tomadas enquanto naturais. Estas classes. Para Bourdieu (1996) o conceito de classe se apresenta enquanto um conjunto de indivíduos agrupados de acordo com suas características e afinidades. pois os fatores necessários para participar dela são definidos e construídos desde o princípio de sua socialização. As distinções geradas nas práticas dos indivíduos se manifestam das mais diferentes maneiras. pois estão partilhando de gostos. de forma que os campos por elas frequentados se tornam em muitos sentidos restritos aos demais. principalmente as mais restritas.com as quais se articula com as demais pessoas. A distância social entre os sujeitos e grupos se apresenta de forma bastante marcada. se torna bastante difícil. o que os tornará distintos frente a suas comunidades e organizações a partir do momento em que retornam à comunidade. costumes. sua possibilidade de convívio no espaço físico é mais provável. da mesma forma em que possuem características peculiares e restritivas entre si. agir e portar. o movimento encontrou uma alternativa autônoma e popular de formação de seus quadros conforme as exigências atuais para a articulação política. mas sim como construídas a partir de lutas desenvolvidas nos campos sociais legítimos de representação. As diferentes classes se apresentam de maneiras diversas. Quando determinados grupos e indivíduos estão próximos no espaço social. pois o intercruzamento entre classes mais e menos abastadas. que pertencem a um mesmo campo social e possuem um habitus comum.

em relação a outros. bem como as formas que eles assumem no espaço físico podem da mesma forma ser tomados enquanto realidades naturais e imutáveis. são alocados em locais onde a ação dos poderes públicos é muito reduzida. O espaço social reificado para Bourdieu (1996. mas que preza pelas demandas. Desta forma podemos perceber como se constroem socialmente as ideias de proximidade e distância.está enquadrada na atual lógica de produção acadêmica. Nestes locais a circulação é em muitas das vezes possível e constante aos indivíduos que possuem um nível menor de capitais acumulados. É nesta possibilidade de aproveitamento e uso destes diversos dispositivos disponibilizados nos espaços físicos que se estabelecem os diferentes valores no espaço social reificado. em locais elitizados e seletivos. 1997) é o espaço marcado como ambiente físico de diferenciações e da articulação de diferentes formas de apropriação e desfrute de aparelhos sociais. A partir da análise da história e das condições de ocupação de um espaço físico é possível compreender alguns dos processos correntes no campo social. ou geométrico. ou locais mais bem estruturados e atendidos pelo Estado são as “capitais do capital”. A capital e os centros urbanos. marcante na formação e manutenção de espaços sociais. constituindo-se assim estes espaços. entrada ou saída. Os locais ocupados pelos sujeitos dependem dos capitais possuídos por eles e também da sua forma diversa de distribuição entre os próprios indivíduos e os grupos nos quais estão colocados. em muitas das vezes. Os fenômenos sociais correntes e mantidos ao longo da história tendem a se manifestar na sociedade enquanto naturalizados. que mesmo minoritários são qualificados como superiores. bem como de concentração de renda. O poder e as diferenças são marcados no espaço reificado a partir da violência simbólica. Os grupos estabelecidos enquanto inferiores e subalternos. Os processos de lutas por espaço constituem-se enquanto lutas de classes e de 15 . contudo a permanência é vetada a grande maioria. já que são reflexos dos processos de exclusão e marginalização de populações. concentração e controle da terra visando à especulação. pois concentram uma grande multiplicidade de informações e possibilidades em um só ambiente. posto o espaço físico enquanto o social fisicamente objetivado ou reificado. no sentido do fornecimento de condições mínimas de qualidade de vida. o lucro e a exploração do meio ambiente. centro ou periferia. necessidades e orientações das organizações populares.

que envolvem também disputas sociais no campo dos capitais acumulados. A falta de ação estatal nestes locais gera mudanças específicas no comportamento e nas concepções dos indivíduos. Estas lutas se estabelecem no espaço social reificado em forma de lutas de movimentos e grupos sociais. gerando ainda maior exclusão e aumento dos índices de pobreza. assim como nos espaços de reassentamento de populações atingidas por barragens. leva à degradação destes ambientes e à segregação de populações mais pobres. tais como o MAB e o MST. como limpeza de espaços públicos e serviços de creche. visto que também desempenha em grande parte dos casos o papel de reafirmar as diferenças. Com o abandono de algumas regiões pelo estado os habitantes destas localidades se vêem entregues à própria sorte. As políticas do Estado também estão estabelecidas como atores fundamentais nesta distribuição e formação do espaço físico enquanto socialmente construído. por espaços e legitimidades buscando sua manutenção e a conquista de suas demandas. servindo mais aos ricos e seus interesses e deixando à margem a maioria da população.campos. devem se proteger do próprio Estado. além disto. Os guetos se constituem enquanto formas de exílio de grandes partes da população das cidades. Loïc Wacquant (1997) a partir dos seus estudos sobre a criação de guetos em subúrbios mostra como a relação dos capitais e da economia interferem na precarização das condições de vida dos sujeitos e na forma como se formam instrumentos de dominação simbólica dentro de locais de habitação tais como os guetos. Nestes locais o exercício da cidadania é restringido a partir do momento em que o estado adota a política do abandono e deixa de intervir na sociedade e nas comunidades com seus aparelhos mínimos de infra-estrutura e organização. além da conseqüente 16 . onde ficam obrigados a realizar alguns serviços básicos. onde a segregação e a exclusão social e cultural são marcas fundamentais de sua construção. que age nestes locais somente por meio dos aparelhos repressivos que deveriam ser utilizados em prol da segurança pública. O estado possui grande influência nestas diferentes conformações socioespaciais. causando estados de constante vigilância e a propagação do medo e da insegurança. da mesma forma como se dão as apropriações destes espaços pelos sujeitos. A falta de políticas públicas e de investimento em áreas de periferia. A ocupação e apropriação de um determinado lugar dependem de quais as relações entre habitus e habitat que se constroem.

Espaço no capitalismo contemporâneo As classes compostas por indivíduos de menor renda e pequenos e médios funcionários se encontra alocada no espaço de acordo com um projeto de ordenamento espacial que se constrói de acordo com fins e objetivos bastante claros. O desemprego. as bases do pensamento capitalista se apresentam na forma como o espaço é construído.exclusão de muitos indivíduos de seu convívio social. o capitalismo em suas formas e desenvolvimentos ao longo da história vem se reafirmando em uma linha de projetos de mundo que não abrangem a todos os indivíduos de maneira minimamente paritária. Estes grandes e graves problemas levantados anteriormente relativos à questão da forma como são distribuídos os espaços apresentam raízes profundas nas estruturas da sociedade. tomando como ponto de debate a questão da distribuição e apropriação do espaço por estes dois diferentes grupos. a criminalidade e as ações e comércios tomados pelo Estado como ilícitos tem grande aumento. As formas como estes problemas se apresentam nas cidades. A territorialidade de diversos ambientes se estrutura de forma homogênea e com padrões basicamente instrumentais. bem como o chamado subemprego. aplicado de forma a desenvolver no meio geográfico os mesmos níveis de racionalização e racionalidade aplicados no espaço da produção. graças às condições precárias em que se encontram os locais onde residem. De acordo com as análises de Lefebvre (2008). A lógica capitalista dos modos de vida e ocupação dos espaços vem gerando ao longo da história muitos danos à natureza e aos grupos que nela habitam e dela dependem. visando 17 . A partir disto poderemos desenvolver no próximo e último tópico algumas questões e conclusões sobre a relação entre exploradores e explorados. posta pelo capitalismo. visto que estes são levados a se isolar. O viés mercadológico e economicista aplicado gradativamente à lógica das relações sociais desde os princípios do capitalismo trouxe além de muitas outras questões. o problema da forma como esta lógica está sendo vivida pelos indivíduos e materializada nos espaços por eles ocupados. nos guetos e nos demais espaços do mundo contemporâneo são reflexos de um sistema de produção e distribuição de mercadorias e serviços desigual em suas bases. sendo estes fatores principais para a ocorrência de migração de crianças e jovens para a casa de parentes em busca de melhores condições de vida.

locais de obtenção de lucro. A expulsão de indivíduos de seus respectivos territórios por parte do Estado. sendo esta não necessariamente ligada de forma direta ao contexto fabril.alcançar estritamente as funções básicas que foram anteriormente calculadas. A construção e reconstrução racional do território baseada nos princípios vigentes no capitalismo contemporâneo se mostram enquanto geradoras de danos profundos a grandes parcelas da população e também ao meio físico nas quais serão realizadas. Isto é aplicável em diversos sentidos. o centro ou foco do “controle ou ação do capital”. As empresas segundo Lefebvre (2008) não são mais exatamente. e em grande parte prejudicial. das classes mais abastadas economicamente e seus interesses não é um fato ou um problema recente. Os espaços planejados se constituem enquanto ápice da instrumentalização dos espaços de convívio e moradia. integrando-se 18 . de forma a atender aos projetos estritos para as quais foi planejado. A luta sistemática e intensiva do MAB em favor de um novo modelo energético. onde são feitas modificações no paisagismo a grandes obras de infraestrutura por exemplo. gerando com este curso e demais espaços de formação\educação uma melhora qualitativa nas lutas empreendidas pelo movimento. pois se trata da importação de uma determinada especificidade para um meio físico e social diverso e distanciado. O capital age amplamente em toda a estrutura urbana. As formas como os espaços são distribuídos e conformados atualmente apresentam relações fundamentais com os sistemas produtivos e comerciais vigentes. partindo de uma trajetória construída desde o fim dos anos de 1980 e atualmente podendo ser em parte representada no Curso de Extensão\Especialização. como sustentou Marx. onde tudo é pensado e planejado de modo a atender da melhor forma os padrões e interesses desejados por grupos dominantes. desde espaços pequenos. desconsiderando subjetividades e diferenças dos sujeitos que possam vir a se instalar no local. Os mecanismos do capital se desenvolveram de tal forma que contemplam os espaços da cidade e suas formas de apropriação pelos indivíduos. representa uma importante forma de resistência das populações atingidas por grandes empreendimentos. mais que a fábrica. principalmente nos dias atuais onde a questão da globalização de alguns localismos vigentes nos países economicamente dominantes se expressa de maneira latente. de alguma forma tornam-se também. A cidade e os espaços ligados a sua lógica de vida e construção.

visto que a exploração do trabalho e a obtenção de mais valia se dão em diferentes espaços que não somente o chão da fábrica. indivíduos e sua relação com o espaço físico. 19 . as noções de espaço e território são constantemente levantadas nos debates em aula e nas conversas entre estudantes. Desta maneira podemos perceber mais claramente as formas como se inserem as questões políticas e sociais no espaço reificado. A mudança de perspectiva por parte de grande parte dos alunos fica aparente a partir da rápida apropriação de diferentes temas para debates que envolvam a noção de espaços e suas apropriações e pertencimentos. sendo utilizado para a simples produção e reprodução de uma lógica baseada no quantitativismo desmedido. Esta perspectiva se apresenta especialmente enquanto o “novo” olhar sobre sociedade e espaço que é apresentado e articulado com os estudantes desde as primeiras aulas do curso. O espaço atualmente tomado enquanto mera ferramenta e mercadoria. No curso a interpretação do mundo sob o ponto de vista de uma disputa por espaço entre segmentos sociais distintos fica posta em todas as disciplinas até então desenvolvidas. Aponto como um “novo” olhar. A cidade e os espaços se conformam atualmente de acordo com as demandas e necessidades do capital. vem se mostrando ineficiente e prejudicial em muitos aspectos para as relações sociais e políticas estabelecidas entre grupos. Os grupos subalternizados inclusive participam diretamente desta lógica. sendo este apresentado enquanto a representação de um jogo de disputas políticas. ao fim da segunda e terceira etapas desenvolviam-se de forma mais embasada teoricamente ideias acerca dos efeitos do capitalismo contemporâneo nas maiores parcelas da população. levando em conta e também problematizando a forma como esta se apresenta no espaço social reificado. onde os debates circulavam mais em torno de questões mais estritas ao marxismo e às experiências de militância de cada um.ao sistema capitalista. pois a partir da leitura de textos muitas vezes não ligados específica e diretamente a questão espacial. A partir do desenvolvimento de ideias nos diferentes tempos e espaços do curso. habitação e transporte se apresentam enquanto instrumentos articulados em primeiro plano para benefício do capitalista e seus interesses. pois a construção de possíveis melhorias em suas condições de vida. fenômeno este pouco perceptível durante a primeira etapa do curso. não tendo relevância a presença de indivíduos e grupos sociais que venham a impedir ou atrapalhar a obtenção de seus desejos. sociais e simbólicas.

Marcel. In: LEFEBVRE. H. “Ensaio sobre as variações sazoneiras das sociedades esquimó”. Referências Bibliográficas BOURDIEU. 1978. O Fenômeno Urbano. In: Durkheim (Coleção Grandes Cientistas Sociais). políticas. para a evolução no sentido qualitativo. Émile. In: VERNANT. SP: Difel/EdUSP. “A burguesia e o espaço” e “A classe operária e o espaço”. VERNANT. In: BOURDIEU (org. BOURDIEU. Henri. Petrópolis: Vozes. de forma a manter a natureza e suas possibilidades de usufruto disponíveis para todos. podemos apontar a propriedade coletiva da terra e o fim da propriedade privada. p. 1997. Espaço e política. Petrópolis: Vozes. (orgs. de forma a abranger as questões sociais. P. O. Pitirin.Para a melhoria efetiva da qualidade de vida. Sociologia e Antropologia. buscando encerrar a lógica do crescimento desmedido e meramente quantitativo. p. Hestia-Hermes. “A metrópole e a vida mental”. SIMMEL. p. MAUSS. 223-230. SOROKIN. ambientais. BH: EdUFMG. Loïc. 1973. p. (org. BH: EdUFMG. Jean-Pierre. WACQUANT. A miséria do mundo. Henri. 1980. “Efeitos de lugar”. EVANS-PRITCHARD. LEFEBVRE. SP: Ed. O campo e a cidade: na história e na literatura . “A organização do espaço. 2008. p. “Espaço social. In: LEFEBVRE. Pierre. In: VELHO. 13-33.. In: CARDOSO. 1996.). Marcel. RJ: Zahar. In: MAUSS. 1. MAUSS. SP: Ed. 146-177. 11-35. F. Nacional. Mito e pensamento entre os gregos. 1967. p. Raymond. 113-155. “A cidade e o urbano”. E. Perspectiva. de forma a vivenciar social e espacialmente a busca por qualidade de vida. Otavio (org. Razões Práticas. SP: Papirus. Homem e Sociedade: leituras básicas em sociologia geral. Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota. Pierre. Henri. LEFEBVRE. 159-166. 1997. distância social e posição social”. G. “Da América como utopia às avessas”. 20 . 107-151. enquanto um ideal a ser seguido. 2011. “Algumas formas primitivas de classificação”. A miséria do mundo. vol. 1984. 79-88. p. SP: EdUSP. 2008.). p. SP: Ática. SP: Companhia das Letras. p. 237325.). WILLIAMS. “Espaço social e espaço simbólico”. Marcel. Espaço e política. educacionais e geográficas. DURKHEIM. In: BOURDIEU. P.). Henri. IANNI. E. 1974. In: BOURDIEU. Sobre a expressão do espaço e do movimento entre os gregos”.