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Contratualismo moderno e contratualismo contemporâneo

Um dos traços proeminentes da filosofia política contemporânea é o ressurgimento, sob várias formas, de argumentos que se apresentam como “contratualistas”. Este é notadamente o caso de um dos mais ilustres dentre os filósofos políticos contemporâneos: John Rawls, que em seu Uma teoria da justiça não hesita em pôr-se na linhagem direta da velha teoria do contrato social, declarando-se herdeiro direto de autores como Locke, Rousseau e Kant. Isto põe uma primeira questão interessante: nos quase dois séculos que separam Kant de Rawls, o argumento contratualista, que teve seu auge nos séculos XVII e XVIII, se não desaparece, pelo menos vê seu prestígio seriamente abalado, e decai ao mesmo tempo em que ascendem outras formas de se pensar os fenômenos sociais e políticos — a sociologia, a antropologia, a economia. Diante disso, podemos perguntar-nos: por que esse renascimento contratualista? Isso está certamente ligado a determinadas qualidades próprias do argumento — mas essa é uma questão que não será tratada aqui. Mas, antes dessa, há ainda uma outra questão: o que permite que filósofos contemporâneos apresentem-se como contratualistas? O que justifica essa filiação, partindo-se do pressuposto de que não estamos diante de um puro e simples erro de interpretação histórica? Isso, por sua vez, pede uma avaliação da própria estrutura do argumento. O que é próprio de um argumento contratualista? Que tipo de elementos caracterizam esse tipo de argumento, elementos que poderiam ser identificados nas suas versões modernas e contemporâneas? Quais dentre eles são especialmente resgatados pelos filósofos contemporâneos e quais não o são? O objetivo desta comunicação é simplesmente refletir sobre essas questões preliminares, na esperança de que, com isso, possamos ganhar elementos que nos permitam avaliar, finalmente, a força do argumento contratualista. Uma comparação entre os argumentos contratualistas modernos e os contemporâneos não pode deixar de começar pelo reconhecimento de uma diferença importante. Há claramente uma diferença no objeto a que visa, em cada caso, o filósofo que lança mão da estratégia argumentativa contratualista. Como se sabe, o principal objeto dos contratualistas dos séculos XVII e XVIII era a sociedade política, o Estado. Na sua versão moderna, o argumento contratualista era um argumento eminentemente político. Nos contemporâneos, o argumento ressurge no contexto da discussão em torno
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de princípios de justiça. artificial. Independência. é sempre possível encontrar neles uma determinada descrição da natureza da obrigação. particularmente. A imposição da vontade de um indivíduo sobre qualquer outro. Scanlon e outros. para além de todas as diferenças (ideológicas e outras) que percebemos entre os autores que usaram o argumento contratualista. T. por natureza. é preciso fazer apelo a uma convenção. se quisermos. é talvez mais difícil encontrar tal homogeneidade. e uma reflexão sobre as relações entre governantes e governados. Por essa razão. buscavam sobretudo uma justificação de sua autoridade peculiar (da “soberania”. Os modernos. para falar 2 . na forma tradicional do argumento. a ponto de aparecer. entre as versões modernas e as contemporâneas permanece uma mesma preocupação com a justificação. pela simples posse de supostas qualidades que o autorizariam a isso. social e política. mais uma vez. uma ampliação do alcance original do argumento. social e política. é injustificada. E. partamos das versões modernas do argumento e vejamos rapidamente como se apresentam e se articulam os elementos essenciais do argumento para então tentar reconhecer os elementos comuns. Essas duas qualidades juntas caracterizam um estado de absoluta independência (que. ela surge entre os indivíduos em função de determinados atos e de determinadas relações que resultam desses atos. social e política. autoridade sobre qualquer outro. E esse alcance vai ser aos poucos consideravelmente alargado. Gauthier. para usar a expressão usada por vários deles). Para dar conta da dependência peculiar em que se encontram os indivíduos em sua vida moral. Seja como for. os princípios de que partem são em grande parte comuns. Nesse sentido. associado a uma tese sobre a própria natureza ou “essência” da moralidade. matéria-prima de que é constituído o laço político. na ausência da condição moral. ela é feita pelos próprios indivíduos. por sua vez. o que pode justificar ou o que pode dar legitimidade à autoridade peculiar pretendida pelo Estado? Essa suposição da igualdade e da liberdade original ou natural dos indivíduos é fundamental para o argumento. Para explicá-la. caracterizam a vida moral. ganhava o nome de “estado de natureza”) em que se encontram os indivíduos uns em relação aos outros fora dos laços de obrigação que. significa aqui simplesmente o seguinte: nenhum indivíduo tem. o que já representa uma certa generalização. é preciso apelar para outra coisa que não essas qualidades naturais: essa autoridade é. O ponto de partida do argumento na versão moderna pode ser descrito sob a forma de um problema: dado que os indivíduos são naturalmente livres e iguais. em autores como D. por mais variadas que sejam as conclusões a que possam chegar. com relação ao Estado. Entre os contemporâneos.

Por exemplo: por um lado. A “passagem” do estado de natureza para o estado civil. sempre 3 . VIII do Segundo tratado sobre o governo: “Sendo os homens (. Daí se entende por que a noção de contrato parecia tão atraente para esses autores: ela contém exemplarmente as idéias de reciprocidade. antes de mais nada. nas imagens) do “estado de natureza” e do “pacto” ou “contrato”. por outro. ao mesmo tempo. por intermédio do contrato. Nesse ponto de partida estão embutidas algumas pressuposições importantes. Restrições. ou seja. se quisermos julgar do ponto de vista de sua legitimidade ou de sua justificativa. como a introdução de restrições. Vejamos agora. O argumento é bem conhecido e. deve-se partir dessas relações mutuamente construídas pelos indivíduos porque na base da organização social e política está justamente uma série de restrições que são. Como é geralmente reconhecido. finalmente. por um lado. pressupõe-se que isso deve ser assim.. descrita em geral como um contrato. no desenvolvimento do argumento.). todos livres. e independentes. assim se supõe. procuremos agora examinar um pouco mais de perto como se organiza o argumento. se preferirmos. pode ser resumido da seguinte maneira: o Estado tem origem em uma convenção. e encaixase assim perfeitamente nos propósitos e nos pressupostos assumidos por eles. posto muito genericamente. por natureza. celebrado entre indivíduos que se supõe estarem em um estado de absoluta independência. e ainda de maneira esquemática. de estabelecimento de uma obrigação e a de consentimento. como sugerimos antes. ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar seu consentimento”. Locke resume perfeitamente bem no início do cap. definidoras do estado de natureza. iguais. pressupõe-se que a explicação da natureza mesma do Estado pode partir da consideração das relações construídas pelos indivíduos entre eles próprios. Rapidamente. o consentimento mesmo dado aos termos desse contrato. são a igualdade e a liberdade. são possuídas naturalmente pelos indivíduos. por outro lado. nos conceitos (ou. a determinadas qualidades que. a reciprocidade do ato.. é em geral entendida. e exprimindo-nos da forma como o faziam os autores de que estamos tratando aqui. impostas aos indivíduos e que só podem ser avaliadas. as duas qualidades fundamentais. Essas idéias ganham forma.como Rousseau — e isso já implica dizer: é preciso reconhecer aí o consentimento dos indivíduos envolvidos. O que dá origem à obrigação ou o que dá legitimidade às restrições impostas a cada um pela obrigação é. a partir da perspectiva dos indivíduos eles mesmos (uma vez que aceitemos o pressuposto de que são fundamentalmente livres e iguais).

lembra Locke.esquematicamente. é 4 . introduzindo agora a idéia de direito. a posse de uma mesma natureza. pela renúncia ao direito de executar a lei de natureza. que possa ser legitimamente fundamentada na mera posse. Esse estado dá a cada um determinadas prerrogativas: não só a liberdade de ordenar suas ações e dispor de suas propriedades como achar conveniente. inicialmente. cuja superação definitiva. Isso só pode ser feito mediante uma limitação daquelas prerrogativas naturais. Mas justamente esse direito universal de executar a lei de natureza. uma situação de independência. Mas a igualdade característica do estado de natureza pode ser descrita de outra maneira. mas. por algum indivíduo. a igualdade característica do estado de natureza é um igual direito. É o que Hobbes faz já no capítulo seguinte. em Hobbes e Locke. a capacidade de aplicar e fazer valer a lei de natureza. o que só é tornado possível em última instância com a introdução da sujeição política ao soberano. a tudo aquilo que possa ter um uso na preservação de sua própria existência. Hobbes inicia sua descrição do estado de natureza. sustenta Hobbes inicialmente. está diretamente associada à limitação desse direito. pode vir a dar fim também a essa ameaça de perpetuação do estado de guerra. sobretudo. como em Hobbes. de um mesmo conjunto de faculdades e poderes. como os dois grandes contratualistas modernos — Hobbes e Locke — puseram-se o problema. dada pela natureza ela mesma. que é trazida como justificativa para essa afirmação da igualdade fundamental — uma igualdade de fato. pela falta de um juiz comum com autoridade). Não há. inclusive no que diz respeito à definição mesma de “direito” (e “direito de natureza”). e que. É. Mais do que uma igualdade de fato. O meio de prevenir essa ameaça é instituir uma autoridade única que monopolize a distribuição de castigos e reparações. pondo fim ao estado de natureza (caracterizado. afirmando a fundamental igualdade dos indivíduos. em todo caso. Hobbes mostra como esse direito ilimitado de todos sobre tudo está no fundamento mesmo do estado de guerra. Locke inicia igualmente sua descrição do estado de natureza evocando-o como um estado de perfeita liberdade e igualdade. o que caracteriza. de alguma característica natural. na ausência de uma autoridade comum. vai estar comprometido com a possibilidade de perpetuação do estado de guerra no estado de natureza. no capítulo XIII. o que significa poder aplicar castigos aos transgressores dessa lei e exigir compensações pelos danos sofridos. possuído por cada um. Mais especificamente. isto é. nesse estado. a forma do argumento. No Leviathan. assim. nenhuma relação de subordinação ou de sujeição — nenhuma. Apesar de todas as diferenças.

deve dar prioridade ao indivíduo sobre a comunidade. para o argumento contratualista. A idéia de que o consentimento é um ingrediente essencial das relações a que estão submetidos os indivíduos na situação social e política é. sobre o consentimento dos indivíduos que se funda a restrição e. O primeiro ponto. vão fornecer os limites dentro dos quais teremos que construir nossa idéia de comunidade. que é mais parcimonioso na descrição do estado de natureza do que o foram Hobbes e Rousseau) uma determinada concepção da “pessoa”. por parte dos indivíduos. por outro. O segundo ponto diz respeito à noção de consentimento. Mas deixemos de lado as dificuldades para concentrar-nos no 5 . por um lado. especialmente problemática. sugere-nos que uma teoria contratualista. por exemplo. seja para explicar e descrever essa comunidade. mais do que isso. assim. é conceptual. é a explicação e a justificação de um conjunto de relações que formam mesmo a comunidade política. para os contratualistas modernos. é valorativa: a prioridade do indivíduo sobre a comunidade é afirmada em função de determinadas qualidades associadas a ele — igualdade e liberdade —. no sentido moral. qualidades que se apresentam desde o início. esses pressupostos sobre o indivíduo fazem parte da descrição mais geral do estado de natureza. O que está em jogo. tão básica quanto a crença na igualdade e na liberdade fundamentais do indivíduo — e. Esses limites traduzem-se em obrigações e só serão efetivos ou legítimos se são recíprocos e se é. mesmo. portanto. O primeiro diz respeito à própria maneira de conceber o indivíduo e sua relação com a comunidade. preservados. podemos dizer mesmo que deriva dela. sobretudo na medida em que aparece associada à questão da justificação. podemos destacar como elementos essenciais dois pontos. em algum sentido. na verdade. tomada genericamente. que juntas formam a idéia de independência — e que.idêntica: de uma situação inicial caracterizada pela posse. portanto. de determinadas capacidades ou determinados direitos. passa-se a uma outra caracterizada pela introdução de limites a essa posse. como valores a serem afirmados e. Postulam-se duas qualidades que o indivíduo possui independentemente de sua existência social ou política — igualdade e liberdade. na verdade. e. Essa noção aparentemente tão clara é. em algum sentido. Essa prioridade. Posto esse esquema bastante simplificado do argumento contratualista. a obrigação a que vão estar ligados. seja para justificar as relações que a constituem. desse modo. Parte importante da construção dessa hipótese é uma teoria da natureza humana ou (como em Locke. Nas teorias contratualistas modernas.

e.fato de que essa idéia é um elemento essencial do argumento. apenas de passagem. Na sua forma mais simples. social e política do nada. de tal modo que qualquer estratégia argumentativa que se queira apresentar como contratualista deve reservar um lugar para ela. Essa intuição fundamental pode ser desdobrada. que regras. pelo menos duas outras noções associadas a ela. encontramos. que é a importância do procedimento). de algum modo. essas relações implicam algum tipo de dependência. A comunidade não é mais do que o conjunto dos indivíduos que ganham unidade ao se porem de acordo. escolheríamos para ordenar essa existência? Essa questão tem um alcance crítico que servia bem aos propósitos daqueles autores e associava-se bem à intenção normativa que se manifestava na sua preocupação com o problema da justificação. havia já um problema fundamental de escolha. A primeira é a noção de acordo. 6 . sua estrutura e sua autoridade peculiares. em que aqueles inconvenientes estariam resolvidos. (Ligada ainda à idéia de consentimento está uma característica típica dos argumentos contratualistas. de fato. que instituições. portanto. são como que o resultado de determinados atos. a idéia pode ser expressa da maneira como o fizemos acima: os indivíduos são pensados independentemente de suas relações. de restrição à independência fundamental própria de cada indivíduo. por alguma razão. Uma das intuições fundamentais dos contratualistas modernos é justamente a de que a sociedade política — o Estado e o governo —. Mas a idéia de escolha tem ainda um outro significado. Se é assim. que é da idéia de acordo que vai-se derivar a idéia de comunidade. ou um novo estado. ou aceitar limites para sua independência. Os indivíduos eram postos diante de uma alternativa: manter sua independência em um estado apresentado como francamente inconveniente. com suas instituições. é possível sempre perguntar: se nos fosse possível reconstruir nossa existência moral. nas várias versões do argumento. para que tais relações possam ser consideradas justificadas que. é fundamental. são produtos puramente humanos. embutida na hipótese da passagem do estado de natureza ao estado social. É interessante notar. criando uma nova situação. seja possível reconhecer nelas o consentimento dos envolvidos. Mais do que a idéia de consentimento. A segunda noção associada à de consentimento é a idéia de escolha. de determinadas convenções. O acordo está na origem da união. a imagem do contrato evoca imediatamente a idéia de acordo — um acordo no qual o consentimento dos indivíduos estaria manifesto. Na versão moderna clássica do argumento. da unidade.

ordenações para a vida moral. social e política. a questão é justificar a desigualdade de distribuição dos bens primários. em geral. o conceito tradicional do contrato social vai ser generalizado e levado a um nível mais alto de abstração. com a autoridade suprema incorporada no Estado. Há claramente uma vontade não apenas de descrever. tanto a escolha do problema inicial quanto a maneira como vai ser tratado estão determinados por um conjunto de pressupostos comuns: igualdade. social e política a que os indivíduos estão submetidos não só pode. liberdade. Esses elementos entram exemplarmente na construção da posição original.Os dois elementos que destacamos como básicos ao argumento contratualista deixam manifesta a carga normativa presente nele. instituições ou. menos ainda a questão do governo. a de John Rawls. apenas de 7 . A posição original nada mais é do que uma posição inicial de igualdade e é desenhada justamente como um mecanismo que tem o objetivo de ajudar a retirar as conseqüências dessa pressuposição fundamental acerca da igualdade dos indivíduos. nos termos mesmos de Rawls. mas a de justificar e. independentes. visto ainda dessa maior abstração. o problema central permanece análogo: trata-se sempre de justificar a existência de determinadas desigualdades. Já desde o início de se livro. No entanto. mas. mesmo. acrescentando apenas que. o que é mais significativo para nós. Resta-nos agora tentar identificar esses mesmos elementos nos argumentos contemporâneos que se apresentam como contratualistas. ou seja. Rawls afirma sua filiação à teoria do contrato social. O famoso artifício do “véu de ignorância” é apenas mais um elemento reforçador da igualdade dos indivíduos na posição original (e. Essa maior abstração a que vai ser submetido o conceito tradicional de contrato resulta em uma nova delimitação do objeto a que vai ser aplicado o argumento: não mais a origem ou o fundamento da sociedade política. e. na sua perspectiva. a que pedia em primeiro lugar uma justificação. a desigualdade mais básica. assim como entravam igualmente na construção da hipótese do estado de natureza nas teorias tradicionais do contrato social. “os princípios de justiça para a estrutura básica da sociedade”. privilegiaremos a versão contemporânea mais conhecida do argumento. inscrita na própria estrutura de base da sociedade. O problema da desigualdade aparece em ambos os casos como o ponto de partida. mas deve ser avaliada do ponto de vista desses mesmos indivíduos representados como livres e iguais. era aquela introduzida juntamente com a soberania. a crença de que a ordem moral. Uma teoria da justiça. Para os contratualistas modernos. Para Rawls. prescrever determinadas estruturas. Nos limites desta comunicação.

é preciso fazer um pequeno desvio. notemos a semelhança. neste ponto.passagem. portanto. as idéias de consentimento. na “condição natural da humanidade”. através de um acordo. Nessa situação. todas as diferenças. in foro interno. Com relação ao segundo. possível reconhecer facilmente em Rawls o primeiro dos elementos essenciais do modelo contratualista que reconhecemos acima. não regulada por nenhuma regra efetivamente sancionada. Esse acordo está no interesse de cada um. dados os pressupostos sobre a independência natural dos indivíduos. já que isso tem reflexos diretos sobre a maneira como se entende a noção central de “contrato”. “bem” é tudo aquilo que é objeto de uma preferência). como diz. na ausência de uma autoridade comumente reconhecida responsável pela sanção só obrigam. para expressar-nos em uma linguagem mais contemporânea. é claro. Mas essas leis. Essa situação de ausência de autoridade implica. porque é só limitando seu próprio direito que cada um vai ter garantia de que seus 8 . “bom” é tudo aquilo que é objeto do apetite ou do desejo de um indivíduo (ou. uma dissolução das regras. É interessante. É. Essa mesma extensão do direito natural. A solução para isso é a introdução de uma instância sancionadora — introdução que. na qual nenhum indivíduo tem garantia da satisfação de seus desejos (ou de suas preferências). acordo ou escolha. nessa situação. resguardadas. lembra Hobbes. A solução é. escolher para mim é escolher para qualquer um). simplesmente. produz uma situação de conflito. duas grandes versões do modelo. ou seja. só pode ser uma criação. Seu problema poderia ser descrito da seguinte forma: em que situação o indivíduo teria mais garantias de que seus desejos (ou suas preferências) estariam satisfeitos? Hobbes pede então que imaginemos uma primeira situação em que vale apenas a independência natural dos indivíduos. as únicas regras são as leis de natureza. que. entre esse artifício do “véu de ignorância” e o artifício rousseauniano da “alienação total”: ambos têm a intenção de radicalizar a afirmação da igualdade. para Hobbes. Para Hobbes. Até agora viemos tratando a corrente contratualista como fundamentalmente uniforme — e isso porque queríamos justamente enfatizar alguns dos elementos fundamentais comuns a todos. em que não haja relação de autoridade reconhecida. para além das diferenças substanciais que encontramos em cada autor. das normas que regem as relações que os indivíduos mantêm entre si. são fracas demais diante da extensão do direito natural. A primeira versão é a hobbesiana. limitar o direito ilimitado que cada um possui naturalmente sobre tudo. reconhecer duas alternativas.

nos conceitos da pessoa moral como “fim em si mesmo” e de “reino dos fins”. é a “ligação sistemática de vários seres racionais por meio de leis comuns”. social e política é. sempre oferece um limite às nossas ações (é um objeto de respeito por possuir dignidade. nos termos de Kant. como portador de dignidade. 9 . eles estão determinados por essas leis apenas em sua “validade universal”. mas agora o caráter de valor que possuem essas qualidades está no primeiro plano. qualidade associada às idéias de autonomia e de vontade legisladora). de alguma maneira. reivindica uma outra filiação. diz Kant. Essa é a intuição fundamental que Kant expressou na segunda formulação do imperativo categórico na Fundamentação. é preciso fazer “abstração das diferenças pessoais entre os seres racionais e de todo o conteúdo dos seus fins particulares”. como legislador universal. social e político. por exemplo. é um fim em si mesma significa. E Kant acrescenta ainda uma observação interessante para nós: o reino dos fins. No que diz respeito aos fins. Esse reino dos fins. define ele. de autores como D. no sentido moral. deve ser levado em conta na constituição do ordenamento moral. Gauthier e J. lembra em alguma medida o artifício da alienação total que já fora proposto por Rousseau na sua formulação do pacto e o do véu de ignorância que seria proposto mais tarde por Rawls. no entanto. Kant sugere. Rawls. entre os contratualistas contemporâneos. Para chegarmos a essa idéia de um reino dos fins. uma que. resultado de uma espécie de cálculo baseado no interesse próprio. entendido como “um todo do conjunto dos fins em ligação sistemática”. A posse dessas qualidades confere aos indivíduos um valor intrínseco que. que é o exemplo que escolhemos seguir nesta comunicação. O acordo que está no fundamento da vida moral. que nada mais é senão uma situação ideal na qual as pessoas são representadas como formando um todo ligado sistematicamente através de sua própria legislação. É o caso. Uma segunda versão do argumento é a que poderíamos chamar de rousseauniana-kantiana. Também essa versão do modelo contratualista parte da suposição da igualdade e da liberdade fundamentais do indivíduo. versões do modelo hobbesiano. É possível encontrar. A essa idéia Kant associa o conceito de um reino dos fins. que ela. talvez não seja demais dizer. Temos aí fundamentalmente uma maneira de reafirmar a igualdade. Buchanan. pode ser descrito como uma espécie de “ponto de vista” em que cada pessoa põe a si mesma ao representar-se (e ao representar os outros) como fim em si mesmo. assim. seja qual forem os fins particulares que escolhemos. como objeto de respeito.desejos vão encontrar satisfação. Dizer que a pessoa.

a introdução da idéia de que as pessoas possuem um valor intrínseco. social ou político que se pretenda justificado tem que o ser em função dos indivíduos. Uma outra maneira de nos referirmos ao apelo do argumento contratualista é mostrar sua afinidade com a idéia de direitos. ele é o resultado da apreciação das relações das pessoas entre si a partir de um ponto de vista determinado. o próprio procedimento está carregado de carga moral. Daí Rawls descrever seu procedimento contratualista como um procedimento de escolha. no quadro desse procedimento. independente (e diferente em natureza) do valor que possuem os objetos de suas preferências leva a uma maneira diferente de interpretar o próprio “contrato”. depois de dois séculos. Um primeiro aspecto que ressalta do modelo contratualista. por seu acordo. que poderíamos chamar de propriamente moral — um ponto de vista. Para concluir esse paralelo esquemático entre as formas modernas e contemporâneas do modelo contratualista. o acordo original que está no fundamento da ordenação moral. não como um procedimento de construção de um consenso. do consentimento e a da publicidade. Particularmente. Esse acordo não é mais resultado de um cálculo baseado no interesse próprio. as pessoas caracterizadas como agentes racionais desse processo de construção definem. A imagem do contrato só permanece útil para ressaltar algumas características como a da reciprocidade. social e política. de suas qualidades fundamentais. vale notar. acrescentemos apenas duas rápidas observações gerais sobre o apelo que esse argumento deve possuir para que. seja na sua versão kantiana. ou. não há acordo no sentido de uma negociação. sua compatibilidade com a crença de que a idéia de direito é fundamental para a 10 . tenha renascido com tanta fecundidade. de suas necessidades. O modelo contratualista supõe que qualquer ordenamento moral. Não há deliberação. descrito assim. que dá corpo àquela pressuposição de igualdade e enriquece-a com a de imparcialidade. o argumento contratualista nas suas formas contemporâneas elabora as mesmas intuições básicas. em outras palavras. de uma acomodação de posições particulares. É assim que Rawls caracteriza o que chama de “construtivismo kantiano”: “ele estabelece um certo procedimento de construção que satisfaz um certo número de exigências razoáveis e. os princípios primeiros de justiça”. notemos que o acordo resultante dessa apreciação a partir daquele ponto de vista só muito vagamente lembra um contrato (se é que ainda lembra em algum sentido).A versão do argumento contratualista que chamamos de rousseauniana-kantiana introduz alguns elementos ausentes na versão hobbesiana. Nessa medida. Por fim. Seja na sua versão hobbesiana. é um tipo de individualismo que está incorporado nele.

Cláudio Araújo Reis 11 . É claro que isso mesmo que estamos apontando aqui como o apelo próprio do argumento contratualista pode ser usado para denunciar sua fraqueza. sobretudo.compreensão da moralidade e. Mas esse já é tema para uma outra comunicação. da política.