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SUBSÍDIOS À GESTÃO HIDROAMBIENTAL NO ESTADO DO PIAUÍ

Márcio Antonio Sousa da Rocha Freitas1 & Marcos Airton de Sousa Freitas2

RESUMO Pretendeu-se no presente artigo delinear um diagnóstico e propostas de estratégias para o Estado do Piauí, envolvendo mecanismos jurídico-institucionais e operativos, visando promover a gestão integrada dos recursos hídricos e do meio ambiente de forma mais eficiente. Foram comentados os mecanismos e programas necessários à consecução dos objetivos e estabelecimento de ações nas áreas de gestão, bem como de estudos e projetos.

ABSTRACT In this paper we tried to present a diagnosis and to suggest strategies for Piauí State, in Brazil, involving legal, institutional and practical aspects, aiming at the promotion of a more efficient and integrated water resources and environmental management. The mechanisms and the programs needed to achieve the management goals were pointed out, as well as studies and projects are suggested.

Palavras-Chave: gestão ambiental, gestão de recursos hídricos.

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Sócio-representante da ABRH – Piauí; Engº Agrônomo; M.Sc.; Advogado – Ministério Público; Prof. Univ. (UESPI) E-mail: masrf@ibest.com.br 2 Sócio da ABRH; Especialista em Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas – ANA; E-mail: masfreitas@ana.gov.br ; Tel.: (61) 445-5348

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INTRODUÇÃO E HISTÓRICO No presente artigo pretende-se abordar estratégias para dotar o Estado do Piauí de mecanismos jurídico-institucionais e de planejamento, capazes de promover a gestão dos seus recursos hídricos e do meio ambiente de forma mais eficiente. Além disso, são relatadas as propostas de ações na área de estudos e projetos, objetivando a implementação de obras de aumento da disponibilidade hídrica, bem como a recuperação de infra-estrutura hidráulica existente. A Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos – SEMAR, é por lei o órgão gestor das Políticas de Meio Ambiente e de Recursos Hídricos do Estado do Piauí. Embora criada em 24/10/95, através da Lei nº 4.797, sua implantação, de fato, só se verificou em meados de 1996, de forma porém precária, não somente quanto à sua infra-estrutura física e de apoio administrativo, mas, sobretudo, no tocante ao seu corpo técnico. O Decreto nº 9.729, de 06 de junho de 1997, definiu a estrutura da Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos. A equipe técnica da SEMAR foi herdada da instituição anteriormente responsável pela condução das ações no âmbito do Meio Ambiente, cujas competências encontravam-se dispersas e desarticuladas em diversas instituições públicas estaduais, como a COMDEPI, responsável pelas obras de infra-estrutura hídrica superficial e subterrânea, a Secretaria da Agricultura, responsável pela área de irrigação e informações hidrometeorológicas e demais instituições pertencentes à administração federal, a exemplo do DNOCS, CPRM, INMET, FNS dentre outras (Freitas et al., 1998). A partir do ano de 1998, com a inclusão do Estado do Piauí ao PROÁGUA, foi possível realizar ações que permitiram uma maior organização e aprimoramento do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, em especial, nos seguintes aspectos: na estruturação da UEGP-PI e do órgão gestor; na implantação de um sistema de outorga e licença de obras hídricas; no estímulo e apoio à criação de associações de usuários de água e comitês de bacias; no cadastramento de usuários de água; em ações de comunicação, educação ambiental e gestão participativa; na implementação de um Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos; no diagnóstico da situação da rede hidrometeorológica; no monitoramento de poços e açudes; no programa de estudos para o enquadramento dos corpos d’água. Na área de estudos e projetos, objetivou-se elaborar propostas de estudos de reconhecimento, pré-viabilidade, viabilidade, projeto básico e executivo, para implantação de obras de aproveitamento hídrico, como reservatórios e adutoras (Garrincho, Pedra Redonda e Bocaina). Ações também foram feitas no sentido de construções de cisternas rurais e estudos sobre águas subterrâneas, notadamente no cristalino. O Estado do Piauí, assim como os demais estados da região Nordeste, sofre com o fenômeno da seca, recorrente em regiões semi-áridas. Os impactos decorrentes de uma seca dependem, não somente da duração e intensidade da mesma, mas também das condições socio-econômicas e
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culturais da população atingida. Freitas (1996) apresentou uma metodologia de análise regional integrada do fenômeno das secas, que resumidamente, compõe-se dos seguintes tópicos: (1) definição dos diversos tipos de secas; (2) previsão e monitoramento: (3) gerenciamento e otimização dos recursos hídricos; (4) avaliação dos efeitos e (5) planejamento das ações mitigadoras. Freitas & Billib (1997) demonstraram a viabilidade de utilização de modelos de previsão de secas para o Nordeste do Brasil: modelos estatístico-probabilísticos e modelos baseados em redes neurais. A Figura 1 apresenta a alternância entre períodos úmidos e secos de 1933 a 2001, no Estado Piauí (NE-Brasil) e as ocorrências de El-Niño. O fenômeno do El Niño diz respeito ao aquecimento, acima do normal, da temperatura da superfície do mar no Pacífico, próximo às costas do Peru e Equador. É fácil verificar que os períodos úmidos têm uma duração média em torno de 2 a 3 anos, enquanto os períodos de secas têm uma duração média de 4 a 5 anos. Além disso, é possível estabelecer uma relação entre a incidência do fenômeno do El Nino e as secas no Piauí.

Lamb Rainfall Departure Index - Estado do Piauí
3.50 2.50 1.50 0.50 -0.50 -1.50 -2.50 -3.50 1933 1938 1943 1948 1953 1958 1963 1968 1973 El Niño 1978 1983 1988 1993 1998

LRDI-Piauí

Figura 1 - Alternância entre períodos úmidos e secos de 1933 a 2001, no Estado Piauí (NE-Brasil) e as ocorrências de El-Niño. Em termos de hidrografia, o Estado do Piauí pode ser dividido por suas grandes bacias ou regiões hidrográficas, a saber (Figura 2): bacias difusas do litoral; bacia do Piranji; bacias difusas do Baixo Parnaíba; Bacia do Longa; Bacia do Poti; bacias difusas do Médio Parnaíba; bacia do Itaueira; bacia do Gurguéia; bacias difusas da barragem de Boa Esperança; bacia do Uruçui Preto e bacias difusas do Alto Parnaíba (Baptista, 1981; Freitas & Amorim, 1998).

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ARCABOUÇO LEGAL E INSTITUCIONAL O Estado do Piauí possui em seu arcabouço legal três normas principais, as quais instituíram, respectivamente, a Política Estadual de Meio Ambiente (Lei nº 4.854, de 10 de julho de 1996), a Política Estadual de Recursos Hídricos (Lei nº 5.165, de 17 de agosto de 2000) e a Política Florestal do Piauí (Lei nº 5.178, de 27 de dezembro de 2000). Além dessas normas jurídicas, o Estado do Piauí dispõe da Lei nº 4.940, de 15 de julho de 1997, que instituiu o Plano Estadual de Educação Ambiental (Freitas, 2003). Cada uma dessas legislações é composta de inúmeros instrumentos que se inter-relacionam, conforme mostra a Figura 3. Espera-se que o Estado do Piauí consiga, em médio prazo, regulamentar e implementar, em sua plenitude, esses instrumentos das referidas leis estaduais. A titulo de ilustração, tem-se na lei de recursos hídricos, os planos de bacias hidrográficas e plano estadual de recursos hídricos, que na lei florestal encontra seu paralelo nos planos de manejos e na lei de meio ambiente, no plano estadual de proteção ambiental. Tem-se, da mesma forma, o monitoramento da qualidade de água, o monitoramento florestal e o monitoramento do meio ambiente. E ainda, o sistema de informações sobre recursos hídricos, o sistema de informação florestal e o sistema de informação sobre meio ambiente. E assim, para quase todos os instrumentos.

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Figura 2 - Bacias ou regiões hidrográficas do Estado do Piauí. Por meio do Decreto nº 8.925, de 04 de junho de 1993, foi regulamentado o Conselho Estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, alterado pelo Decreto nº 9.533 de 24 de julho de 1996. O Decreto de 05 de junho de 1997 (sem número) nomeia os titulares do referido Conselho. Por último, o Decreto nº 10.401, de 20 de outubro de 2000, aprova a composição do Conselho Estadual de Meio Ambiente e por fim o Decreto nº 10.880, de 24 de setembro de 2002, regulamenta o Conselho Estadual dos Recursos Hídricos. Já a Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental foi criada por meio do Decreto nº 10.399, de 18 de outubro de 2000.

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Política Estadual de Recursos Hídricos Planos de Bacias Hidrográficas Plano Estadual de Recursos Hídricos Sistema de Informação sobre Recursos Hídricos Outorga de direito de Uso dos Recursos Hídricos Enquadramento dos Corpos d’Água

Política Florestal do Estado Zoneamento AgroEcológico-Econômico Florestal Monitoramento Sistema Estadual Planos de Manejo Florestal .Programa de Desenvolvimento Florestal

Conselho Estadual do Meio Ambiente Conselho Estadual de Recursos Hídricos

Política Estadual de Meio Ambiente

Plano Estadual de Proteção ao Meio Ambiente Diretrizes para proteção de mananciais hídricos, através de planos de uso e ocupação Sistema de informação sobre o Meio Ambiente Sistema de Monitoramento Ambiental

Figura 3 - Instrumentos das Políticas de Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Estado do Piauí. Quanto aos planos de recursos hídricos, eles podem se relacionar com os demais planos de governo e programas conforme Figura 4. Essa inter-relação é fundamental para o sucesso dos planos e programas.

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PLANO DE GOVERNO

PLANOS REGIONAIS PLANAP ZEE SANEAMENTO

PLANO ESTADUAL DE RECURSOS HÍDRICOS

PROGRAMAS: PROÁGUA PNMA-II FOME ZERO ATLAS DO SEMI-ÁRIDO

PLANOS DE BACIA

COMITÊS DE BACIAS

PLANOS MUNICIPAIS / AGENDAS 21 LOCAIS

Figura 4 - Planos de recursos hídricos e demais programas setoriais.

FORTALECIMENTO INSTITUCIONAL

.

Poder Público Sociedade Civil
MOBILIZAÇÃO SOCIAL/ COMITÊ DE BACIA

Usuários de Água

IMPLEMENTAÇÃO DE INFRA – ESTRUTURA HÍDRICA

Figura 5 - Gestão participativa: o poder público, a sociedade civil e os usuários de água.

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O modelo de gestão participativa da lei estadual de recursos hídricos pode ser representado pela Figura 5. Portanto, é vital o desenvolvimento de ações visando ao fortalecimento institucional, ao incentivo e apoio à mobilização social e a implementação e otimização da infra-estrutura hídrica do Estado. A GESTÃO HIDROAMBIENTAL A Gestão Florestal O Piauí dispõe da Lei nº 5.178, de 27 de dezembro de 2000. Essa lei instituiu a política florestal do Estado e conforme seu Artigo 2º tem por finalidade o uso sustentável adequado e racional dos recursos florestais com base em conhecimento técnico-científico de ordem econômica, social e ecológica, visando a melhoria de qualidade de vida da população e a compatibilização do desenvolvimento sócio-econômico, com a conservação e preservação do ambiente. São objetivos da lei, dentre outros: identificar, implantar, gerenciar e manter um sistema estadual de unidades de conservação, de forma a proteger comunidades biológicas representativas dos ecossistemas naturais florestal; promover o inventário contínuo da cobertura florestal do Estado, com divulgação de dados, de forma a permitir o planejamento e racionalização das atividades florestais; implantar banco de dados que reúna todas as informações existentes na área florestal, inclusive efetuar o controle estatístico da oferta e procura de matéria-prima florestal em níveis regional e estadual; manter cadastro de produtores, comerciantes e consumidores de produtos florestais no Estado. Para a consecução desses objetivos diversos instrumentos são enumerados no escopo da lei, dentre os quais se destacam: o diagnóstico do setor florestal do Estado do Piauí; o programa de desenvolvimento florestal; os planos de manejo florestal; a lista das espécies de flora e fauna raras endêmicas e ameaçadas de extinção; o estabelecimento de critérios, padrões e normas relativas ao uso, e o manejo dos recursos naturais, de exploração econômica das florestas e demais formas de vegetação; o zoneamento agroecológico/econômico-florestal; o estudo prévio de impactos ambientais; o monitoramento das florestas e demais formas de vegetação; o licenciamento de atividades utilizadoras de recursos naturais efetivas ou potencialmente degradadoras das florestas. Em seu Art. 31º a lei florestal do Piauí estabelece que o Estado, através de seu órgão competente, a Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos – SEMAR, poderá participar de consórcios e celebrar convênios, ajustes com a União, Estados e Municípios, e demais entes públicos e privados, nacionais e estrangeiros, objetivando a execução desta lei e seu regulamento e dos serviços dele decorrentes.
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O Ministério do Meio Ambiente, com a finalidade de criar condições para reverter modelos de ocupação inadequados do uso do solo, vêm, empregando os instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938, de 31.08.81) e da Agenda 21, concentrando esforços no sentido de tornar o Zoneamento Ecológico-Econômico – ZEE uma ferramenta efetiva de planejamento, a partir de ações de diversos órgãos, como o IBAMA, INPE, EMBRAPA, CPRM, IPEA, IBGE, MI e ANA. O Zoneamento Ecológico-Econômico é definido como um “instrumento político e técnico do planejamento, cuja finalidade última é otimizar o uso do espaço e as políticas públicas”, contribuindo para melhorar a eficácia das políticas públicas de desenvolvimento e meio ambiente, bem como atenuar os riscos de insucesso ou perdas econômicas decorrentes do uso inadequado dos recursos naturais. Encontra-se já realizado, o ZEE do Baixo Rio Parnaíba, em sua Etapa de Diagnóstico, composto de banco de dados preliminar, software de geoprocessamento e relatório. É necessidade premente, porém, a instrumentação do governo estadual para planejar e gerir a diversidade ambiental do território piauiense, dentro de uma visão ecológica, política e sócioeconômica mais ampla. O conhecimento de suas potencialidades e limitações ambientais, sociais e institucionais é, sem dúvida, o ponto de partida de uma grande empreitada rumo ao desenvolvimento sustentável do Estado do Piauí. O Ministério do Meio Ambiente, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (CODEVASF), e o Governo do Estado do Piauí assinaram, em agosto de 2003, acordos de cooperação técnica para a elaboração do macrozoneamento ecológico-econômico da Bacia Hidrográfica do rio Parnaíba e implementação da Agenda 21, da Agenda Ambiental na Administração Pública e do Plano de Ação Nacional de Combate à Desertificação. O macrozoneamento, feito através de ações integradas dos órgãos federais, com o governo do estado e prefeituras da região resultará num amplo diagnóstico sobre a ocupação racional do território e o uso sustentável dos recursos naturais da Bacia do rio Parnaíba A Gestão de Recursos Hídricos Ao longo dos últimos anos os recursos hídricos vêm sofrendo a ação antrópica degradadora, que acarreta em prejuízos aos seus usos múltiplos. Os cursos d´água, assim como os açudes e lagos, refletem as alterações que ocorrem no uso do solo na bacia hidrográfica na qual se inserem. A Lei nº 9.433, de 08/01/1997, conhecida como Lei das Águas, traça as diretrizes da Política Nacional de Recursos Hídricos, a ser implementada pela Agência Nacional de Águas. O Estado do Piauí, após inúmeros debates, conquistou a Lei nº 5.165, de 17/08/2000, a qual, a exemplo da lei federal, estabelece, em seu Inciso VI do Artigo 1º, que a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários de água e da sociedade
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civil. A concretização deste princípio é, portanto, um dos maiores desafios a ser conquistado pelo povo piauiense. Essa lei arrojada urge, porém, regulamentação e implementação. Ela traz em seu bojo não apenas princípios básicos de participação social, mas cria mecanismos efetivos de participação, por meio de: criação de organismos colegiados, como os Comitês de Bacia Hidrográfica; canais de coordenação, como o Conselho Estadual de Recursos Hídricos e estruturas institucionais descentralizadas, como as Agências de Bacia, as quais funcionam como secretarias executivas dos comitês, apoiando-os tecnicamente no processo de gestão participativa. Uma primeira tímida iniciativa foi a realização, no período de 10 a 15/05/1998, do I Encontro Regional sobre a Bacia dos Rios Canindé/Piauí. O encontro ocorreu de forma itinerante nas sedes dos municípios de Picos, Oeiras, São João do Piauí e São Raimundo Nonato, principais centros urbanos dessa bacia hidrográfica. Nele foram debatidos, por meio de audiências públicas, as questões fundamentais sobre a situação de oferta e demanda de recursos hídricos, levantadas no diagnóstico da bacia, assim como as propostas de aproveitamento racional e integrado de suas águas. A Oficina Temática intitulada “Gestão Participativa dos Recursos Hídricos” (Garjulli, 2001), realizada em dezembro de 2000, apresentou, entretanto, como resultado as seguintes fraquezas na estrutura organizacional estadual, as quais deveriam, em médio prazo, ser solucionadas: 1) deficiência na estrutura organizacional; 2) articulação política deficiente; 3) pouca qualificação de pessoal; 4) falta de regulamentação da lei nº 5.165/2000. Um esforço no sentido de qualificação dos recursos humanos foi dado com a formulação e execução do Curso de Especialização em Gestão dos Recursos Hídricos e Meio Ambiente, financiado pela SRH/MMA, em convênio com a SEMAR/UFPI/FUNDAPE, durante os anos de 2000 e 2001, formando 40 especialistas em gestão de recursos hídricos e meio ambiente. Uma segunda turma desse curso teve início somente neste ano. É fundamental, portanto, o apoio contínuo do Estado no desenvolvimento de programas de capacitação visando à constituição de equipes interdisciplinares necessárias à implementação dos instrumentos de gestão. Nesse sentido, vale lembrar o Programa de Mestrado em Meio Ambiente da Universidade Federal do Piauí. Posto que o Plano Diretor da Bacia Hidrográfica dos rios Canindé/Piauí tenha sido concluído, merece, então, sua aplicação prática, ou seja, a transformação de relatórios, gráficos, tabelas etc. em ações concretas quem impliquem em aumento da disponibilidade hídrica e de conservação dos recursos hídricos. Quando da elaboração do referido Plano, a participação social ficou restrita a algumas audiências públicas, em vista da inexistência do Comitê da Bacia. Recentemente, porém, alguns municípios da região sul do Estado, em especial Santa Filomena, no Piauí, bem como Alto Parnaíba, no Maranhão, mobilizaram-se no sentido de preservar as nascentes de nosso Velho Monge. Tarefas como a efetiva consolidação do Parque Nacional das
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Nascentes do Rio Parnaíba, o desenvolvimento de estratégias de contenção e de recuperação de áreas atingidas por voçorocas e de áreas em processo de desertificação, o levantamento da ictiofauna, a implantação de sistemas de gerenciamento dos resíduos sólidos, o replantio e conservação das matas ciliares, implantação da hidrovia do rio Parnaíba e do Porto de Luis Correia, dentre outras ações, devem fazer parte, de fato, do planejamento e das ações nas esferas federal, estadual e municipal. Outra ação digna de nota é a mobilização da sociedade civil, dos usuários e de diversos órgãos públicos visando à concretização do comitê da bacia hidrográfica dos rios Poti, Longá e Pirangi, já em seu terceiro ano e no sexto encontro regional, realizado em Pedro II, nos dias 24 e 25 de julho de 2004. É salutar frisar que, com a plena efetivação do Conselho Estadual dos Recursos Hídricos, o Estado do Piauí, poderia dar partida à gestão de suas águas, uma vez que atribuições, tais como analisar as propostas de elaboração dos Planos de Bacia Hidrográfica das grandes bacias do Estado, acompanhar suas execuções e determinar as providências necessárias ao cumprimento de suas metas, coordenar o Sistema Estadual de Informações sobre Recursos Hídricos, aprovar a criação de Comitês de Bacia Hidrográfica e de Agências de Água etc., encontram-se já amparadas por lei estadual. Caso não haja um bom empenho dos órgãos relacionados à gestão hídrica e ambiental, notadamente nos aspectos referentes à implementação dos instrumentos de gestão de recursos hídricos, todo o aparato legal poderá ser inócuo. Faz-se, portanto, necessário uma maior integração técnica entre os setores responsáveis pela gestão de recursos hídricos com àqueles responsáveis pelas políticas de saneamento, agricultura, irrigação, indústria, turismo etc. A figura de um único decisor ou tomador de decisões é uma espécie em extinção na área de recursos hídricos. As tomadas de decisões devem ocorrer, cada vez mais em conselhos, comitês de bacia e audiências públicas, envolvendo os usuários, o poder público e a sociedade civil. A Gestão de Resíduos Sólidos Em 16 de julho de 1999, foi lançada oficialmente a Campanha Nacional "Criança no Lixo, Nunca Mais", pela qual foram firmadas metas pelas instituições integrantes da secretaria executiva do Fórum Lixo e Cidadania, coordenado pelo UNICEF, com o objetivo de promover a inclusão social, com cidadania, das famílias que viviam do lixo, por meio de ações integradas de todos os participantes. O objetivo era contribuir para erradicar os "lixões" e, em paralelo, ampliar os serviços de coleta, tratamento e disposição final adequada dos resíduos sólidos, nos municípios identificados pelo UNICEF, como tendo crianças que viviam do lixo. No Piauí, esse Fórum é coordenado pela Curadoria do Meio Ambiente do Ministério Público Estadual.
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Segundo o IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal, estima-se, para os municípios de porte pequeno, ou seja, com uma população urbana até 30 mil habitantes uma geração per capita da ordem de 0,50 Kg/hab./dia e para os municípios considerados de tamanho médio, isto é, de 30 mil a 500 mil habitantes em sua área urbana, uma geração per capita de 0,50 a 0,80 Kg/hab./dia. Para os municípios, com população urbana acima dos 500 mil habitantes, como é o caso da capital Teresina, a geração per capita estimada varia de 0,80 a 1,00 Kg/hab./dia. A Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, de 2000, traz, para o Estado do Piauí, uma quantidade diária de lixo coletado da ordem de 2.431,3 toneladas por dia, sendo que a capital, Teresina, contribui com 1.059,5 toneladas/dia. É fácil verificar, onde grande parte desse lixo vai parar: nas lagoas, rios, baixios e nos lixões. Em estudo realizado para os maiores municípios do Estado do Piauí, constatou-se que a maioria dos municípios piauienses, mesmo sem uma norma legal específica referente ao gerenciamento dos resíduos sólidos, dispunha de dispositivo legal referente à limpeza pública. No tocante ao gerenciamento dos serviços de limpeza verificou-se que, ou havia uma administração direta da Prefeitura ou parte dos serviços eram terceirizados. Portanto, a municipalidade, responsável, de acordo com Art. 30 da Constituição Federal, pelos “serviços públicos de interesse local”, contratavam, quase na totalidade dos municípios analisados, empresas privadas para a execução da coleta, da limpeza dos logradouros, do tratamento e da destinação final dos seus resíduos. Nos municípios pesquisados, com população urbana na sede acima de 20.000 habitantes, com base nos dados do Censo de 2000, os problemas referentes aos sistemas de limpeza urbana foram uma constante. A falta de equipamentos adequados, tanto de coleta, quanto de transporte e disposição final, a carência de pessoal técnico especializado, a inexistência, bem como o não cumprimento das normas e leis pertinentes aos resíduos sólidos, são exemplos claros dessa problemática. Aliado a isso, há um quase desconhecimento da matéria e falta de mecanismos de participação da população nesse gerenciamento. Ou mera inexistência ou não efetividade dos conselhos gestores municipais. Observou-se que as formas mais comuns de acondicionamento dos resíduos sólidos domiciliares, ou seja, sua preparação adequada para a coleta, dava-se através de sacos plásticos (supermercados), vasilhames metálicos (latas) ou plásticos (baldes). Para o acondicionamento de resíduos públicos são empregados tambores plásticos e contêineres metálicos. Constatou-se que, na maioria dos municípios, a coleta é feita com uma freqüência diária, apenas para a zona central. E em geral, têm serviço de varrição manual feita por garis. A grande maioria dos municípios não emprega, para a coleta, viaturas do tipo coletor compactador, e sim caminhões com carroceria de madeira, sem compactação, e sem lona recobrindo o lixo transportado. Uma estimativa preliminar para os municípios pesquisados apontou a seguinte
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composição gravimétrica média para os resíduos sólidos: matéria orgânica (46,1%); papel (10,5%); vidro (4,6%), plástico (8,7%), metal (4,1%) e outros materiais (26,1%). Cuidados especiais dever-se-iam ter com os entulhos da construção civil, uma vez que os entulhos, não muito raro, acabam por aterrar lagoas e terrenos baixios. As pilhas e baterias, devido ao seu alto potencial poluidor deveriam ter destinação final, conforme as normas vigentes. Os pneus, em especial devido à dengue, deveriam ter também destinação apropriada. Notou-se que, embora a coleta dos resíduos domésticos possa, em alguns municípios, ser considerada regular, a disposição final dos resíduos se dá em verdadeiros lixões a céu aberto (excetuando-se Teresina e Parnaíba), quase sempre com a presença de catadores e animais domésticos, sujeitos a toda sorte de vetores patogênicos. Os terrenos empregados são na sua grande monta inapropriados para essa finalidade e quase sempre sem a licença ambiental de instalação (LI) e a licença de operação (LO). No que se refere aos resíduos sólidos dos serviços de saúde, a situação não é menos grave. O que se observou foi a quase absoluta falta de coleta separada de resíduos comuns, infectantes e especiais. Com raras exceções, verificou-se a segregação de resíduos infectantes do lixo comum. Na maioria das vezes, os resíduos infectantes não eram acondicionados em sacos plásticos brancos leitosos, conforme as recomendações da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. Os resíduos perfurocortantes (agulhas, seringas, vidros etc.) não eram acondicionados em recipientes especiais, nem tampouco os resíduos procedentes de análises clínicas e hemoterapia eram submetidos à esterilização no próprio local de geração. Em geral, não são utilizadas viaturas do tipo coletor compactador, furgoneta ou furgão para o transporte dos resíduos de serviços de saúde. Nem sempre, a coleta dos serviços de saúde era diária, conforme preconiza as normas vigentes. Verificou-se que no manuseio dos resíduos infectantes, muitas vezes, não eram utilizados os Equipamentos de Proteção Individual – EPI, tais como: avental plástico, luvas plásticas, bota, óculos e máscara, conforme estabelece a norma NBR 12.809 da ABNT. Praticamente inexistia solução consorciada, nem mesmo em relação à destinação final em aterros sanitários ou controlados, como é mais comum em outros Estados da Federação. A segregação de materiais mais nobres, como vidro, latas de alumínio etc. e a coleta seletiva, não são práticas corriqueiras nos municípios visitados. Não há, por conseguinte, cooperativas de catadores de resíduos. A compostagem de matéria orgânica, componente bastante expressivo da composição gravimétrica dos resíduos dos municípios pesquisados, também é considerada praticamente inexistente. Os poucos incinerados apresentavam problemas e muitos deles estão atualmente sem operação. Esse aspecto pode ser visto como um ponto positivo, já que o Brasil ratificou, recentemente, a Convenção de Estocolmo, comprometendo-se a eliminar as fontes geradoras de poluentes orgânicos POPs, entre as quais os incineradores se situam.
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Percebeu-se, ainda, que o gerenciamento dos resíduos sólidos nos municípios pesquisados do Estado do Piauí, não se dá de maneira integrada, ou seja, visando reduzir a produção do lixo, tentando maximizar o reaproveitamento e a reciclagem dos materiais, e por fim, empregando-se uma disposição final dos resíduos de forma sanitária e ambientalmente adequada. Serviços esses de alcance a toda a população. Os custos decorrentes do sistema de limpeza urbana dos municípios foram informados por algumas das prefeituras pesquisadas. Com base nesses valores, foi estimado o custo anual médio por habitante, que variou de R$ 9,96 até o valor de R$ 33,64. O custo médio para os municípios levantados foi de R$ 19,54/habitante/ano. Convém ressaltar, para fins comparativos, que o rendimento mensal médio das pessoas ocupadas, de 10 anos e mais, com rendimentos no Piauí, em 1999, segundo Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE, para os 40% mais pobres era de apenas R$ 54,52. Os custos representam, de fato, um gargalo a ser vencido. Para a maior parte da população dos municípios, termos como coleta seletiva, compostagem, aterros sanitários etc. não fazem parte do seu dia-a-dia e de seu vocabulário. Não basta, entretanto, editar leis estaduais e municipais, o que deve merecer uma atenção especial dos dirigentes, notadamente os municipais, é a manutenção de um corpo técnico qualificado em seus quadros, capazes de elaborar bons projetos, saber submetê-los aos órgãos financiadores e implementá-los habilmente, acompanhados de um bom programa de educação ambiental. A Gestão Urbana No Brasil inicia-se uma discussão acerca da gestão urbana. Nesse sentido, é salutar lembrar o que preconiza o documento “Agenda 21 Brasileira”, construído com a participação de inúmeros atores do governo e da sociedade, por meio de diferentes formas de consulta e debate. Esse documento foi dividido em seis temas: Agricultura Sustentável; Gestão de Recursos Naturais; Infraestrutura e Integração Regional; Redução das Desigualdades Sociais; Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Sustentável e ainda Cidades Sustentáveis. O documento “Cidades Sustentáveis” teve como objetivo geral subsidiar a formulação da Agenda 21 Brasileira, com propostas que introduzissem a dimensão ambiental nas políticas urbanas vigentes ou que viessem a ser adotadas, respeitando-se as competências constitucionais em todas as esferas do governo. Elaborou-se ainda o documento Agenda 21 Local, definido como “um processo participativo multissetorial de construção de um programa de ação estratégico dirigido às questões prioritárias para o desenvolvimento sustentável local”. Tal ação deve implicar mudanças no padrão de desenvolvimento, integrando as dimensões sócio-econômicas, político-institucionais, culturais e ambientais da sustentabilidade. (http://www.mma.gov.br/port/se/agen21/index.cfm).
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É evidente o agravamento dos problemas urbanos e ambientais das cidades, em especial das brasileiras, decorrentes de adensamentos desordenados, ausência de planejamento, carência de recursos e serviços, obsolescência da infra-estrutura e dos espaços construídos, padrões atrasados de gestão e agressões ao meio ambiente. Apesar de suas peculiaridades regionais e locais, as cidades abrigam com maior ou menor intensidade, problemas intra-urbanos que afetam sua sustentabilidade, particularmente os decorrentes de dificuldades de acesso às terras urbanizadas, déficit de moradias adequadas, déficit de cobertura dos serviços de saneamento ambiental, baixa qualidade do transporte público, poluição (hídrica, atmosférica, sonora e visual), desemprego e precariedade de emprego, violência e marginalização social. Teresina, a capital do Piauí, conhecida como a Cidade Verde, completou 152 anos de emancipação política, com uma população estimada em 750 mil habitantes, sendo 95% na zona urbana. Teresina já vem apresentando alguns sinais de cidade grande. Nascida na confluência de dois importantes rios do Nordeste, o rio Parnaíba e o rio Poti, na denominada Chapada do Corisco, ela vem sofrendo com a crescente urbanização, tendo como conseqüência a redução de suas áreas verdes, o aumento da impermeabilização de seu solo urbano, reduzindo a infiltração natural e aumentando o escoamento superficial, ocasionando transtornos em épocas de chuvas intensas. A impermeabilização asfáltica tende a elevar a temperatura média da cidade. Lançamentos clandestinos de esgotos podem contribuir para a poluição dos mananciais, fontes de abastecimento d´água. Agricultura e Irrigação O Estado do Piauí possuía, segundo o Censo Agropecuário de 1995, apenas 18.254 hectares de área irrigada, tendo cerca de 836 mil hectares potencialmente irrigável, de um total de 11,7 milhões de hectares aptos para lavouras (Ministério da Agricultura, 1979). É muito pouco para a imensa disponibilidade de solos propícios à irrigação e disponibilidade hídrica, tanto superficial quanto subterrânea. Para exemplificar, conforme o Plano Estadual de Irrigação (COMDEPI, 1991) e o Levantamento das Potencialidades da Região Norte do Estado do Piauí, têm-se para as bacias do Baixo Parnaíba cerca de 159.800 hectares de solos considerados potencialmente irrigáveis. O Plano Diretor da bacia dos rios Canindé/Piauí, para a irrigação de novas áreas na bacia, visando o estabelecimento de metas, considerou como adequado levar em conta duas alternativas: i) considerando a transposição de águas do rio São Francisco; ii) desconsiderando a referida transposição. No primeiro caso, propõe-se a irrigação de 54.000 ha de terras, preferencialmente em áreas contínuas inseridas em perímetros irrigados, sendo 34.000 ha na sub-bacia do rio Piauí e 20.000 ha na sub-bacia do rio Canindé. Já no segundo caso, estariam destinados à irrigação 4.000 ha na subbacia do Piauí, não se alterando os 20.000 ha na sub-bacia do Canindé, uma vez que se considerou
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menos viável transpor águas do rio São Francisco para esta última sub-bacia. O Plano sugere que os perímetros irrigados devam ser abastecidos, preferencialmente, pelos mananciais superficiais. Devido ao regime dos cursos d’água, o suprimento dos projetos seriam por meio de barramentos, que acumulariam água no período das chuvas e sua liberação nos períodos de demanda. Para a agricultura de sequeiro, faz-se necessário a implantação de um sistema de monitoramento e acompanhamento dos períodos de secas meteorológicas e condições de umidade dos solos. Nesse caso, poderiam ser empregados índices visando determinar a severidade e duração desses períodos. Palmer (1965) apresentou um procedimento de balanço de água, que ficou depois conhecido como Palmer Drought Severity Index (PDSI). O PDSI é calculado tendo como base os dados de evapotranspiração, infiltração, escoamento superficial eventual etc. e expressa uma medida para a diferença acumulada entre a precipitação normal e a precipitação necessária à evapotranspiração. Diversos autores demonstraram, contudo, que o PDSI não era um bom indicador das condições de umidade, particularmente, nos períodos secos. Uma outra desvantagem do PDSI é que a regularização da vazão superficial não é considerada. Em um estudo nas regiões tropicais da Índia, Bhalme & Mooley (1979, 1980) também evidenciaram esses mesmos problemas. Eles, então, propuseram uma modificação do índice original, de modo a incorporar as condições climáticas vigentes na Índia. Tal índice ficou conhecido por Bhalme & Mooley Drought Index (BMDI). A figura 7 mostra a aplicação desse índice para o Estado do Piauí. As retas delimitam as secas em “fraca”, “moderada”, “extrema” e “catastrófica”.

Valores do BMDI para o Estado do Piauí
0.0 Déficit de umidade mensal acumulado -100.0 -200.0 -300.0 -400.0 -500.0 -600.0 0 1 2 3 meses 4 5 6 y = -73.689x - 110.54 2 R = 0.9942

Figura 6 - Bhalme & Mooley Drought Index (BMDI) aplicado a 185 postos pluviométricos do Estado do Piauí.

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Hidroeletricidade O mais importante reservatório da Bacia Hidrográfica do Rio Parnaíba, para fins de produção energética, é sem dúvida o Reservatório de Boa Esperança. Para a simulação da operação do reservatório foi empregado o modelo de rede de fluxo AcquaNet, desenvolvido pelo LabSid, da Universidade de São Paulo. O referido modelo foi desenvolvido a partir do MODSIM (Labadie, 1988), da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos. O período simulado foi de 1931 a 1998. Foram empregadas as vazões naturais afluentes ao reservatório de Boa Esperança para o período de 1931 a 1998 (SIPOT, 2003). A vazão média mensal é de 445 m³/s.

Vazão Reguralizada: Reservatório Boa Esperança
450.0 400.0 350.0 300.0 250.0 200.0 150.0 100.0 50.0 0.0 80 85 90 % 95 100

Figura 7 - Vazão regularizada pelo reservatório de Boa Esperança para diversos níveis de garantia. Na simulação da operação do reservatório, o processo foi iniciado considerando como volume inicial a capacidade máxima da barragem. Foram, então, feitas várias simulações para definição de volumes regularizados, associados às diversas garantias ou riscos. O resultado dessa simulação encontra-se na figura 7. Além da Barragem de Boa Esperança, a alternativa de divisão de queda considerada como a mais atrativa na fase dos Estudos Finais de Inventário para a Bacia do Rio Parnaíba é composta por 08 aproveitamentos, sendo 07 no curso do rio Parnaíba e um no curso do rio Balsas (CHESF, 2003). São eles, o aproveitamento Taquara (43MW), Canto do Rio (65MW), Ribeiro Gonçalves (174MW), Taboa (98MW), Urucuí (164MW), Cachoeira (93MW), Estreito (86MW) e Castelhano (94MW) .

m³/s

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Navegação A navegação do rio Parnaíba praticamente coincide com a Companhia de Navegação a Vapor, inaugurada em 1859 e que operou até 1957 (Mendes, 2003). A hidrovia do Parnaíba tem cerca de 1.176 Km de extensão navegável, com largura média variando de 300 a 350 metros e declividade média de 20 cm/Km. O período de águas baixas, crítico para a navegação compreende de agosto a dezembro. O gabarito proposto pelo PNVNI / 89 é III da Foz/Guadalupe até Floriano e IV de Guadalupe até Santa Filomena. Os principais problemas a serem enfrentados são: inexistência de sinalização/balizamento; a existência de trechos com pequenas profundidades devido aos depósitos aluvionais e de inúmeras corredeiras e pequenos afloramentos rochosos, no trecho a montante da barragem de Boa Esperança. Além da conclusão das obras do sistema de eclusas da citada barragem, paralisadas desde 1982. Os principais entroncamentos intermodais são: Alto Parnaíba; Urucuí; Benedito Leite; Teresina e Parnaíba (http://www.antaq.gov.br/navegacao/relatorio/Bacia%20do%20Nordeste/HidroviaParnaIba.htm). Construídas com a finalidade de vencer o romper o desnível de cerca de 50,00 m da barragem de Boa Esperança, por um meio de um sistema de duas eclusas com lago intermediário. A eclusa de montante situa-se na barragem (ombreira direita) e a eclusa de jusante próximo ao rio, a qual se liga por um canal escavado em rocha. O comprimento é de 50,00 m e largura de 12,00 m. Estatísticas da Portobras (JICA, 1994) mostram que o movimento de cargas na bacia do rio Parnaíba no ano de 1950 foi de 84.490 toneladas, caindo para apenas 4.382 toneladas em 1965.

CONCLUSÕES Procurou-se com este artigo apresentar um diagnóstico sucinto dos principais aspectos do meio ambiente e dos recursos hídricos do Estado do Piauí, além de propor algumas sugestões no sentido de aprimoramento do modelo de gestão atualmente em voga.

Nota: As opiniões apresentadas neste artigo são de responsabilidade dos seus autores, podendo não significar, postura ou atitude dos órgãos para a qual os mesmos trabalham.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1]BAPTISTA, J. G., 1981. Geografia Física do Piauí, COMEPI, 2ª Edição (revista e aumentada), Teresina. [2]BHALME, H.N., D.A. MOOLEY, 1979: On the Performance of Modified Palmer Index, Archives for Meteorology, Geophysics, and Bioclimatology, Ser. B, 27, 281-295. [3]BRASIL. Ministério da Agricultura. Aptidão agrícola das terras do Piauí. Brasília – DF: BINAGRI, 1979. 106p. [4]COMDEPI, 1991. Plano Estadual de Irrigação. [5]CHESF, 2003: Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Parnaíba, Relatório Final. [6]FREITAS, M.A.S., 1996: Aspectos a Serem Considerados Quando de uma Análise Regional Integrada de Secas, Revista Tecnologia - UNIFOR, vol. 17, 9-17. [7]FREITAS, M.A.S. & M.H.A. BILLIB, 1997: Drought Prediction and Characteristic Analysis in Semi-Arid Ceará / Northeast Brazil, Symposium “Sustainability of Water Resources Under Increasing Uncertainty”, IAHS Publ. No. 240, 105-112, Rabat, Marrocos. [8]FREITAS, M. A. S., MARWELL FILHO, P., NUNES, C. N. A Gestão Integrada dos Recursos Hídricos no Estado do Piauí In: IV Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste, 1998, Campina Grande. Anais do IV Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste. ABRH, 1998. [9]FREITAS, M. A. S., AMORIM, A. D. Gestão das Águas: Um Desafio para o Piauí. Revista do CREA-PI. Teresina: , v.15, n.6, p.3 - 5, 1999. [10] FREITAS, M. A . S. R., 2003. Legislação de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, Teresina, Edições, 500p. [11] GARJULLI, R. 2001. Oficina Temática: gestão participativa dos recursos hídricos – Relatório Final. Aracaju: PROÁGUA/ANA. [12]JICA - The State of Piauí, The Feasibility Study on the Navegation of the Parnaíba River Basin. Progress Report. March 1994 (Pacific Consultants International). [13]LABADIE, J. W. - Program Modsim: River Basin Network Flow Model For The Microcomputer, Department of Civil Engineering, Colorado State University, 1988. [14]Levantamento das Potencialidades da Região Norte do Estado do Piauí, Governo no Estado do Piauí, novembro de 1991, Teresina, Piauí. [15]MENDES, F., 2003. Economia e Desenvolvimento do Piauí, Fundação Monsenhor Chaves, Teresina, 458p. [16]PALMER, W.C., 1965: Meteorological Drought, Weather Bureau, U.S. Department of Commerce, Washington, D.C., Research Paper N° 45, 1-58.
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[17]PLANO DIRETOR DA BACIA DOS RIOS CANINDÉ/PIAUÍ, MMA/SEMAR, 1998. [18]SIPOT, 2003 – Sistema de Informações do Potencial Hidrelétrico Brasileiro, Versão 4.0, ELETROBRÁS. [19]http://www.antaq.gov.br/navegacao/relatorio/Bacia%20do%20Nordeste/HidroviaParnaIba.htm [20]http://www.mma.gov.br/port/se/agen21/index.cfm

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